Você está na página 1de 6

UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANSA


CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
DISCIPLINA ESTRUTURA DE CLASSES E ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL – 6º PERÍODO
PROFESSORA: MÁRCIA MEIRELES DE ASSIS
ALUNO: RUY CAVALCANTE DE OLIVEIRA SOBRINHO

13.12.2017

Obras:

PINTO, Geraldo Augusto. A organização do trabalho no século 20: taylorismo, fordismo e toyotismo.
2ª edição. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

DAVIS, Mike. Planeta Favela. Tradução de Beatriz Medina – São Paulo: Boitempo, 2006.

Resenha com analogia entre os dois textos em epígrafe, indicando como fica a situação de classes
diante da realidade apresentada em ambos.

Na obra “A organização do trabalho no século 20”, o autor debate a história do sistema


capitalista no século XX, analisando-o a partir da categoria “trabalho”. Ele então inicia
apresentando seu conceito de trabalho que, segundo o mesmo, trata-se de uma atividade
composta por “planejamento” e “execução” (pag. 8-9), característica estas que diferenciam
seres humanos dos demais seres vivos. Contudo, o que cabe chamar atenção é que o próprio
desenvolvimento da habilidade de trabalhar permitiu surgir estruturas complexas de
pensamentos, cujo resultado foi o ordenamento de todas as esferas da vida das sociedades
humanas.

A história avança, e o trabalho se mantém como base da sobrevivência humana.


Porém, o trabalho também é o grande agente responsável pelo surgimento e estruturação das
classes e do próprio senso de identidade dos sujeitos. É diante desta realidade que o trabalho
assume também certa face negativa, sendo parte integrante dos mecanismos de concentração
de poder e riquezas, empurrando grandes contingentes da população à marginalidade, sob
condições calamitosas de exclusão, exploração e violência. Concomitantemente, aqueles que
detêm os meios de produção buscam sempre novos mecanismos para aumento dos lucros e
diminuição de custos, através de mecanismos de organização do trabalho, o que provoca
invariavelmente um acréscimo na exploração da classe trabalhadora.

Após uma introdução onde apresenta alguns conceitos e traça algumas linhas
históricas a respeito da exploração do trabalho, o autor inicia seus argumentos divididos em
sete capítulos (capítulos 2 a 8 conforme apresentados na obra), acrescidos de suas
considerações finais.

No primeiro deles, Capítulo 2, com o título “As origens da expressão ‘organização do


trabalho’”, o autor faz referência ao período de desenvolvimento da indústria, durante o
século XIX, que teve como consequência uma maior racionalização da produção. Pinto
observa que nesse período de desenvolvimento da indústria, os instrumentos de trabalho, as
terras e as matérias-primas passaram a estar cada vez mais nas mãos dos empregadores
capitalistas. Estes passam a buscar estratégias que possibilitassem o aumento da produção e
uma padronização da qualidade, visando aumentar seus lucros. Dessa maneira, elevou-se o
controle do trabalho humano, passando os trabalhadores a serem vistos como meros
ingredientes da produção, subordinados a intensa exploração. Até o final do século XIX,
homens, mulheres e crianças trabalhavam sob longas jornadas em ambientes totalmente
insalubres nas fábricas, em troca de uma remuneração miserável. O autor também salienta
que, a implantação das máquinas nas atividades fabris aumentou o ritmo, a intensidade e o
volume da produção, mas também, do trabalho executado pelos operários, tornando rotineiras
as ocorrências de lesões e acidentes graves entre os trabalhadores, ainda que houvesse
jornadas de trabalhos mais curtas, eventualmente. O surgimento das maquinas tornam as
funções cada vez mais especializadas. Dessa forma, buscou-se o aprimoramento técnico e
uma maior eficiência do potencial produtivo, fazendo surgir, no início do século XX, o
primeiro grande molde de organização do trabalho no capitalismo: o taylorismo.

No capítulo 3, “O sistema Taylor”, o autor retrata os impactos das obras de Frederick


Winslow Taylor, intituladas “Princípios de administração científica” (1911) e Shop
management (1910). Conhecido como “pai da administração científica”, Taylor evidencia a
divisão “técnica” do trabalho humano dentro da produção industrial, cuja meta assentava na
busca por tornar o processo produtivo mais ágil pela subdivisão de funções, tanto na
produção, como na administração. Este processo permitiria que cada funcionário cumprisse as
tarefas que lhe foram designadas, com o mínimo de conhecimentos. Na lógica taylorista, é o
sistema administrativo que responde pela complexidade da análise e planejamento do sistema
de produção.

O Capítulo 4 aborda “O sistema fordista”, introduzido por Henri Ford, é abordada a


organização do trabalho que deu origem ao fordismo. O idealizador deste sistema, parte do
princípio de que toda a população poderia se constituir como consumidores de produtos
produzidos em massa, incluindo seus veículos automotores. Dessa maneira, a ideia é a
produção em massa, tanto quanto possível o que, segundo Ford, diminuiria os custos de
produção e os preços, além de aumentar os salários dos trabalhadores e os lucros do
capitalista. Para PINTO, o sucesso do sistema fordista foi a inovação organizacional do
trabalho, que anteriormente seguia o taylorismo. Esta inovação consistia na utilização de
equipamentos mecânicos que conduziam o produto por todas as etapas de produção. Ao longo
do percurso, os trabalhadores, fixos em seus postos, desempenhavam suas funções no ritmo
determinado pelas máquinas. Em certa altura do capítulo, o autor passa a utilizar o termo
“taylorista/fordista”, reafirmando assim que o sistema fordista foi uma evolução do sistema
taylorista.

Em seguida, o Capítulo V apresenta “A reestruturação produtiva” como resposta à


obsolescência dos sistemas produtivos anteriores. Os impactos no aumento geral dos preços
do petróleo em 1973 e 1979 acentuaram a instabilidade macroeconômica, gerando maior
prudência nos investimentos produtivos industriais. Diante disso, as indústrias reajustaram
suas estratégias, substituindo a padronização em larga escala pela incorporação da tecnologia
e tentativa de personalização de seus bens produzidos.

O método desenvolvido pela Toyota Motor Company, no Japão (desde a década de


1950) configurou-se num sistema capaz de ilustrar os novos arranjos sinalizados pela
produção capitalista, onde o sistema just-in-time (sistema de administração da produção que
determina que nada deve ser produzido, transportado ou comprado antes da hora certa)
superou a produção fordista em larga escala. Todas essas mudanças na ordem econômica
somente foram possíveis mediante largas flexibilizações nas políticas estatais de diversas
nações, que minimizaram barreiras institucionais para o sistema de livre mercado.

O Capítulo 6 trata da “obsolescência do taylorismo/fordismo”. PINTO aponta que o


declínio deste sistema de organização deveu-se à queda da motivação dos funcionários, o que
culminou com a estagnação das taxas de produtividade. O autor reafirma as significação do
trabalhador no taylorismo (seres que tão somente deveriam se ocupar de obedecer as regras
para cumprimento de suas funções) e no fordismo (que tinham a exclusiva função de trabalhar
como máquinas). Diante disto, o autor expõe que, para incentivar os funcionários, foram
tentadas várias estratégias de envolvê-los no processo produtivo, uma vez que o estancamento
da produtividade dos operários foi considerado de caráter psicológico. O autor ainda salienta
que, na maioria dos casos, essas tentativas não lograram aumentos expressivos da produção, e
que o quadro só mudaria com o advento do toyotismo.
No Capítulo 7 PINTO analisa o “Sistema de Ohno – ou toyotista”. Para o autor, este
modelo produtivo se assenta na produção em menor escala – segundo a demanda, Primando
pela eficiência (sem desperdício, sem estoque e com mais qualidade). Para isso faz-se uso
intenso de tecnologia, o que também reduz a admissão de trabalhadores. Na tentativa de
diminuir ao extremo os custos da produção, busca contratar trabalhadores polivalentes, ou
seja, pessoas capazes de desempenhar múltiplas funções no transcorrer de todas as etapas do
processo produtivo, o que se opõe ao modelo de especialização de Taylor e Ford.

No Capítulo 8, “Coação e consentimento sob a organização flexível”, considerando


ainda o toyotismo, o autor faz uma análise das relações de trabalho estabelecidas entre
empresa e funcionários. Neste sistema, intensificou-se o controle patronal sobre os
trabalhadores nos locais de trabalho, e as necessidades de concentração dos operários nas
atividades que realizavam. Isto os impedia de refletirem sobre a sua condição social no
ambiente de trabalho. Segundo o autor, o método de avaliação por equipe, comum no sistema
toyotista, faz com que os próprios operários de cada grupo controlem o trabalho uns dos
outros. O toyotismo ainda implantou os CCQs (círculos de controle de qualidade), nos quais,
grupos de trabalhadores discutem a qualidade do seu trabalho e propõem melhorias. A grande
vantagem deste recurso é o envolvimento ideológico dos trabalhadores nos objetivos da
empresa, que passam a trata-los (estes objetivos) como se fossem seus.

No último capítulo (Capítulo 9), o autor sintetiza seus argumentos sobre os sistemas de
organização da produção analisados, e suas implicações nas condições de trabalho da classe
operária. Para PINTO, a implantação dos sistemas taylorista/fordista e toyotista teve suas
particularidades de acordo com o contexto nacional de onde se desenvolveram. Ele ainda
salienta que a organização flexível, se estabelece de forma mais intensa graças à adoção de
políticas neoliberais por parte dos Estados. Por fim, aponta que as técnicas de organização do
trabalho analisadas em sua obra são apenas algumas dentre as várias formas em que se
desenvolveram as lutas sociais entre operários e empregadores no século 20.

E sobre o que Mike Davis trata em “Planeta Favela”?

O “Planeta Favela” apresenta uma nova conjuntura da realidade urbana: “Pela primeira
vez, a população urbana da Terra será mais numerosa que a rural” (pag. 191). Essa
transformação não se deu de forma como previam os arquitetos e filósofos, mas geraram uma
enorme favelização das cidades, principalmente do terceiro mundo. (Vide China, Brasil e
Índia).

Teóricos clássicos como Marx e Weber acreditavam que “as grandes cidades do futuro
seguiriam os passos industrializantes de Manchester, Berlim e Chicago” (pag. 195), porém a
realidade demonstrou que esse se deu como o crescimento da Dublin vitoriana. Ou seja, hoje
os barracos das favelas pós-modernas apresentam-se em condições ainda piores do que as
casas do início do século.

O autor indica que inicialmente, as políticas de Estado para conter o avanço do


crescimento populacional focavam na remoção dos assentamentos e favelas, como foram os
casos da Cidade do México, África, Índia e China. Porém, ao perceberem que o problema do
surgimento das favelas era inevitável, há uma mudança de foco. Assim, o Conselho de
Washington aprova políticas de urbanização de favelas a partir das organizações não
governamentais e indica o para os Estado do terceiro mundo a sua minimização. Isso significa
que a nova palavra de ordem era a de urbanizar as favelas, não destruí-las, porém as políticas
que supostamente visavam essa urbanização eram na verdade insignificantes, diante das reais
necessidades da população mundial.

O neoliberalismo, a partir de 1970, intensifica o surgimento das favelas. E a maioria


das iniciativas Estatais de habitação popular, as já citadas políticas de habitação, é assimilada
apenas pela classe média, inclusive nos países desenvolvidos. Junto a isso se agravam as
condições de vida nas favelas, o que pode ser exemplificado pelo crescimento desenfreado da
epidemia de AIDS na África.

O terceiro mundo vive de maneira mais severa essa crise da superpopulação urbana.
“Os moradores de favela constituem espantosos 78,2% da população urbana dos países menos
desenvolvidos” (pag 198). A desigualdade urbana já é maior que desigualdade rural. “O
século XX não se tornou uma época de revoluções urbanas, como imaginou o marxismo
clássico, mas de levantes rurais e guerras camponesas de libertação nacional sem precedentes”
(Pag 208).

Por fim, Mike Davis, afirma: “A doutrina do Pentágono está sendo reconfigurada
nessa linha para sustentar uma guerra mundial de baixa intensidade e duração ilimitada contra
segmentos criminalizados dos pobres. Esse é o verdadeiro “choque civilizatório”.” Quer dizer:
A sociedade agrária tende ao fim, e a sociedade urbana vai tomar todo o território, o que
gerará conflitos de ordem locais desenfreados. O autor foge de uma tentativa de minimizar ou
contornar esses impactos. Essa deveria ser ação dos arquitetos e urbanistas, somado a negação
da construção de espaços de segregação e espólio da classe, que vive do seu trabalho; a classe
trabalhadora, que é mais ampla – e sempre foi – do que o proletariado.