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02/05/2016 Regras de dedução natural

Crítica
Setembro de 2001 ⋅ Lógica

Regras de dedução natural
Desidério Murcho

A dedução natural é um método de demonstração
introduzido independentemente por Gerhard
Gentzen em 1935 e Stanislaw Jaskowski em 1934. Os sistemas de
dedução natural caracterizam­se, entre outros aspectos, por não
apresentarem um conjunto de axiomas e regras de inferências, mas
apenas um conjunto de regras. Neste artigo apresentaremos um
conjunto de regras primitivas de dedução natural, reservando para o
final algumas considerações sobre as vantagens deste sistema, que
hoje em dia suplantou já, nos meios filosóficos, os sistemas
axiomáticos. Os vários sistemas hoje existentes diferem ligeiramente
em algumas das regras mais subtis. Neste artigo apresentaremos a
versão de Newton­Smith (Lógica: Um Curso Introdutório, trad. de
Desidério Murcho, Gradiva, Lisboa, 1998).

Um dos aspectos mais interessantes dos sistemas de dedução natural
resulta do facto de exigirem que as derivações exibam, em cada
passo, as premissas das quais esse passo depende. Esta exigência
não existe nos sistemas axiomáticos. A seu tempo, veremos uma
importante consequência lógico­filosófica desta exigência. Para já, é
útil dar uma ideia de como ela funciona.

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Uma demonstração é constituída por 4 colunas. Na coluna 1 — a
coluna das dependências — exibem­se as dependências lógicas. Se o
passo em causa for uma premissa escreve­se Prem, se for uma
suposição escreve­se Sup. Caso contrário teremos de escrever o
número da premissa ou suposição da qual o nosso passo depende
(caso dependa de alguma). A coluna 1 é também conhecida como
coluna do cálculo do conjunto de premissas.

A diferença entre premissas e suposições é a seguinte: muitas vezes,
no decurso de uma derivação, queremos introduzir fórmulas a título
hipotético, as quais serão, a seu tempo, eliminadas. Chamamos
“suposições” a estas fórmulas.

Na coluna 2 limitamo­nos a numerar os passos da nossa derivação. é
a coluna da numeração.

Na coluna 3 efectuamos o cálculo propriamente dito: é nesta coluna
que apresentamos as fórmulas que estamos a manipular. é a coluna
do cálculo.

Na coluna 4 justificamos a inferência apresentada na coluna 3. é a
coluna da justificação. Nesta coluna afirmamos que o nosso passo
resulta, por exemplo, do passo (4), por uma aplicação da regra da
eliminação da conjunção.

O estudante tem tendência para confundir o papel da coluna da
justificação com a coluna das dependências. Afinal, se justificámos um
resultado apelando para o passo (4), para retomar o nosso exemplo,
parece óbvio que na coluna das dependências terá de surgir o número
4. Um dos resultados do estudo da lógica é a tomada de consciência

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de que nem tudo o que parece óbvio é verdade e este é um desses
casos. Se o passo (4) do nosso exemplo não for uma premissa nem
uma suposição, o número que devemos inscrever na coluna das
dependências não é 4. Isto acontece porque o que nos interessa é
registar as premissas das quais o nosso resultado depende.

Na verdade, como veremos melhor a seu tempo, se tomarmos as
fórmulas referidas na coluna das dependências juntamente com as
fórmulas inscritas na coluna 3, obtemos um sequente sintáctico válido.
(Em muitos sistemas de dedução natural, com regras ligeiramente
diferentes quanto ao funcionamento das dependências, esta afirmação
não é verdadeira.)

Na apresentação das regras usamos as letras A, B, C como variáveis
de fórmula e p, q, r como variáveis proposicionais. Isto significa que A
→ B representa qualquer proposição que tenha a forma de uma
condicional. p → q tem a forma de uma condicional e é uma dessas
fórmulas. Mas (p ∧ q) → (r ∨ (p ∧ q)) também tem a forma de uma
condicional e, consequentemente, também é uma dessas fórmulas.

Eliminação da conjunção (E∧)
Dada uma linha da forma A ∧ B, tanto podemos inferir A como B. O
resultado depende de A ∧ B, caso esta linha seja uma premissa ou
uma suposição. Caso contrário, depende das mesmas premissas ou
suposições de que A ∧ B depender. Esta regra corresponde à nossa
intuição semântica de que se for verdade que Cavaco Silva é irritante e
Salazar era um ditador, Salazar era um ditador. Eis um exemplo da
aplicação da regra:

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Prem (1) p ∧ q  

1 (2) p 1 E∧

Na coluna 4, a coluna da justificação, indicamos o número da linha a
que aplicamos a regra, 1, e indicamos a regra aplicada, E∧.

Introdução da conjunção (I∧)

Dada uma linha da forma A e outra linha da forma B, tanto podemos
inferir A ∧ B como B ∧ A. O resultado depende de A e de B (caso
sejam premissas ou suposições) ou das premissas ou suposições de
que A e B dependerem. Esta regra corresponde à nossa intuição
semântica de que se for verdade que Portugal é um país culturalmente
atrasado e se for também verdade que Heidegger era nazi, será
verdade que Portugal é um país culturalmente atrasado e que
Heidegger era nazi. Por exemplo:

Prem (1) p  

Prem (2) q  

1,2 (3) p ∧ q 1,2 I∧

Na coluna 4, a coluna da justificação, indicamos o número das linhas a
que aplicamos a regra, 1 e 2, e indicamos a regra aplicada, E∧.

Repare­se que a nossa regra autoriza­nos a usar duas vezes o mesmo
passo. Podemos, pois, derivar o seguinte:

Prem (1) p  

1 (2) p ∧ p 1,1 I∧

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Eliminação da negação (E¬)
Dada uma linha da forma ¬¬A podemos inferir A. A conclusão ficará a
depender de ¬¬A (caso esta seja uma premissa ou uma suposição) ou
das premissas ou suposições de que ¬¬A depender. Esta regra
corresponde à nossa intuição semântica de que se não for verdade
que a filosofia não é aborrecida, será verdade que a filosofia é
aborrecida. Por exemplo:

Prem (1) ¬¬p  

1 (2) p 1 E¬

Justificamos o nosso raciocínio na coluna 4, indicando que usámos a
regra E¬ sobre o passo 1.

Os intuicionistas recusam esta regra, por acharem que nem sempre
podemos concluir que Pedro é corajoso só porque ele nunca mostrou
que não o era. Por causa desta recusa, têm de introduzir uma regra
adicional, a chamada regra da falsidade, que lhes permitirá fazer
inferências por reductio.

Introdução da negação (I¬)
Esta regra é ligeiramente menos óbvia do que as anteriores. A ideia
geral é a seguinte: se no decorrer de um raciocínio alcançarmos uma
contradição, podemos negar qualquer uma das premissas da qual
essa contradição dependa. Isto corresponde à nossa intuição
semântica segundo a qual se numa conversa alguém afirmar que o
João está no cinema e não está no cinema, podemos negar qualquer
uma das premissas que o nosso interlocutor usou para alcançar tão

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profunda conclusão.

Dada uma linha da forma B ∧ ¬B que dependa da uma suposição A,
podemos concluir ¬A. A nossa conclusão já não irá depender de A;
dependerá apenas das outras premissas ou suposições de que B ∧ ¬B
eventualmente depender. Por exemplo, podemos derivar o sequente p
→ q ⊢ ¬(p ∧ ¬q) do seguinte modo:

Prem (1) p → q  

Sup (2) p ∧ ¬q  

2 (3) p 2 E∧

1,2 (4) q 1,3 E→

2 (5) ¬q 2 E∧

1,2 (6) q ∧ ¬q 4,5 I∧

1 (7) ¬(p ∧ ¬q) 2,6 I¬

Justificamos o nosso raciocínio do passo (7) afirmando que estamos a
negar a fórmula do passo (2) com base na contradição deduzida no
passo (6).

Este estilo de raciocínio é conhecido desde a antiguidade clássica e
recebeu o nome definitivo na idade média: reductio ad absurdum.
Todavia, o seu funcionamento é diferente daquele que ocorre nos
sistemas axiomáticos. Num sistema axiomático, a partir do momento
em que chegamos a uma contradição, podemos negar qualquer uma
das fórmulas anteriores. No nosso caso, só podemos negar aquela
suposição da qual a contradição dependa. Repare­se na seguinte
derivação errada (em muitos sistemas de dedução natural esta
derivação não é errada, pois não se exige que a contradição dependa

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da premissa a negar):

Prem (1) p  

Prem (2) ¬p  

Sup (3) ¬q  

1,2 (4) p ∧ ¬p 1,2 I∧

1,2 (5) ¬¬q 3,4 I¬

O erro do passo (5), no sistema que estamos a apresentar, consiste no
facto de, com base na contradição da linha (4), termos negado a
fórmula (3); no entanto, a contradição não dependia de (3). Por isso, a
derivação está errada. No entanto, uma derivação análoga a esta seria
correcta num sistema axiomático e em outros sistemas de dedução
natural.

A nossa “derivação” anterior procurava mostrar que de premissas
contraditórias tudo se segue: p, ¬p ⊢ q. Mas porque só podemos negar
um passo do qual a contradição dependa, a derivação correcta deste
resultado tem de ser a seguinte:

Prem (1) p  

Prem (2) ¬p  

Sup (3) ¬q  

1,2 (4) p ∧ ¬p 1,2 I∧

1,2,3 (5) (p ∧ ¬p) ∧ ¬q 3,4 I∧

1,2,3 (6) p ∧ ¬p 5 E∧

1,2 (7) ¬¬q 3,6 I¬

1,2 (8) q 7 E¬

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Repare­se que, à excepção das premissas e suposições, no sistema
de Newton­Smith, cada passo de uma derivação representa um
sequente válido. Na derivação anterior, o passo (4) representa o
sequente p, ¬p ⊢ p ∧ ¬p. O passo (7) representa o sequente p, ¬p ⊢
¬¬q.

Muitos sistemas de lógica não exigem que o passo a negar, ao
encontrar uma contradição, dependa dessa contradição. Isto acontece
porque, como vimos, a introdução e a eliminação da conjunção nos
permite sempre fazer depender qualquer passo de uma derivação de
qualquer outro. No entanto, se mantivermos a nossa exigência, somos
obrigados a tornar explícito o que de outro modo fica apenas implícito.

Eliminação da condicional (E→)
Dada uma linha da forma A e uma outra da forma A → B, podemos
inferir B. A nossa conclusão dependerá das mesmas premissas e
suposições de que A e A → B dependerem, ou delas mesmas, caso se
trate de premissas ou suposições. Esta regra corresponde ao modus
ponens, uma das regras mais amplamente usadas em todos os
sistemas dedutivos.

A regra corresponde à nossa intuição de que se for verdade que se o
João estiver em Paris, estará em França e se for verdade que ele
efectivamente está em Paris, então teremos a garantia de que ele está
em França. Por exemplo:

Prem (1) p  

Prem (2) p → q  

1,2 (3) q 1,2 E→

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Na coluna da justificação invocamos as duas premissas usadas e
citamos a regra.

Introdução da condicional (I→)
A sintaxe desta regra é fácil de perceber e aplicar e é uma das mais
úteis nos sistemas de dedução natural. Todavia, a sua justificação
semântica não é fácil de perceber, pois implica já alguma familiaridade
com a lógica.

Dada uma linha de uma derivação que dependa de uma suposição A e
afirme B, podemos inferir A → B. Por exemplo:

Prem (1) q  

Sup (2) p  

1,2 (3) p ∧ q 1,2 I∧

1 (4) p → (p ∧ q) 2,3 I→

Dado que o passo (3) depende de (2), podemos concluir que a fórmula
do passo (2) implica a fórmula do passo (3). A nossa nova fórmula já
não depende de (2), mas apenas de (1).

Esta regra é muito usada nas derivações cuja conclusão seja uma
condicional. Repare­se que o sequente demonstrado acima é o
seguinte: q ⊢ p → (p ∧ q). A conclusão do sequente é uma condicional
cuja antecedente foi introduzida na derivação anterior como uma
suposição que depois eliminámos através da regra I→.

Eliminação da disjunção (E∨)
Juntamente com a regra da eliminação do quantificador existencial,
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esta é a regra mais subtil dos sistemas de dedução natural. é por isso
útil usar dispositivos visuais (enquadramentos) que ajudem a perceber
e a controlar as nossas derivações.

A justificação semântica da regra é fácil de perceber. Se alguém
afirmar que o João está em Paris ou em Londres, podemos concluir
que ele está na Europa. Porquê? Porque se estiver em Paris, podemos
concluir que está na Europa; e se estiver em Londres podemos
também concluir que está na Europa; portanto, em qualquer caso,
estará na Europa.

Dada uma fórmula da forma A ∨ B, podemos concluir C, caso C se
derive independentemente de A e de B. A nossa conclusão, C,
dependerá unicamente de A ∨ B e de quaisquer outras premissas
usadas nas duas demonstrações de C, excepto de A e de B. Por
exemplo:

Prem (1) (p ∧ q) ∨ (q ∧ r)  

Sup (2) p ∧ q  

2 (3) q 2, E∧

Sup (4) q ∧ r  

4 (5) q 4, E∧

1 (6) q 1,2,3,4,5 E∨

Na coluna 4, justificamos o nosso raciocínio com base no facto de a
disjunção do passo (1) possibilitar as duas subderivações, (2)­(3) e (4)­
(5). Na coluna das dependências registamos as suposições e
premissas das quais (1), (3) e (5) dependem, excepto (2) e (4). No
nosso caso, ficamos apenas a depender de (1). Mas se o nosso passo

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(5) dependesse de uma outra premissa qualquer, n, que não fosse (4),
o passo (6) ficaria a depender de 1 e de n.

Os enquadramentos mostram claramente que as duas derivações de q
são independentes: na coluna das dependências de (5) não pode
surgir a suposição (2). Esta restrição significa que a segunda
derivação de q não pode depender da suposição (2). Por outro lado,
tanto (3) como (5) têm de depender das duas suposições respectivas.
Isto significa que, como afirma a regra, q deriva de p ∧ q e deriva
também de q ∧ r.

Introdução da disjunção (I∨)

Dada uma fórmula da forma A, tanto podemos inferir A ∨ B como B ∨
A. A nossa conclusão ficará a depender unicamente de A, caso se
trate de uma premissa ou suposição, ou das premissas ou suposições
das quais A depender, caso contrário.

é fácil compreender a justificação semântica desta regra. Se for
verdade que está a chover, a previsão que fiz ontem de que hoje iria
chover ou fazer muito vento terá sido verdadeira.

Eis um exemplo de aplicação da regra:

Prem (1) p  

1 (2) p ∨ q 1 I∨

Eliminação da bicondicional (E↔)
Dada uma fórmula da forma A ↔ B podemos inferir (A → B) ∧ (B → A).
A nossa conclusão irá depender de A ↔ B ou das premissas ou
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suposições de que A ↔ B depender. Esta regra corresponde
perfeitamente à semântica intuitiva da expressão “se, e só se”. Por
exemplo:

Prem (1) p ↔ q  

1 (2) (p → q) ∧ (q → p) 1 E↔

Introdução da bicondicional (I↔)
Dada uma fórmula da forma A → B e uma outra da forma B → A,
podemos inferir A ↔ B. A nossa conclusão dependerá das duas
fórmulas referidas, ou das premissas ou suposições de que elas
dependerem. Por exemplo:

Prem (1) p → q  

Prem (2) q → p  

1,2 (3) p ↔ q 1,2 I↔

Concluímos assim a apresentação das regras de eliminação e
introdução dos operadores proposicionais. Precisamos agora de
apresentar as regras de introdução e eliminação dos quantificadores
para dar conta do fragmento predicativo da lógica clássica.

Usaremos letras como A, B para referir arbitrariamente qualquer
fórmula, t, u para referir qualquer termo (um nome próprio ou um nome
arbitrário). Usaremos ainda letras como a, b como nomes arbitrários,
m, n como nomes próprios e F, G como predicados. Por exemplo, At
refere uma qualquer fórmula A com pelo menos uma ocorrência de um
termo t, como Fa ou Fn. Letras como x, y serão usadas como
variáveis, que serão ligadas pelos quantificadores habituais, ∀ e ∃.
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Eliminação do quantificador universal (E∀)

Dada uma fórmula da forma ∀x Ax, podemos inferir At. t tanto pode ser
um nome arbitrário, a, como um nome próprio, n; mas, em qualquer
caso, tem de substituir todas as ocorrências de x em Ax. Por exemplo:

Prem (1) ∀x Fxm  

Prem (2) ∀y (Gy ∧ Fy)  

1 (3) Fnm 1 E∀

2 (4) Gn ∧ Fn 2 E∀

1,2 (5) (Gn ∧ Fn) ∧ Fnm 3,4 I∧

Ao justificar a regra citamos a linha à qual a estamos a aplicar. O
resultado da aplicação da regra ficará a depender da fórmula de
partida, ou das premissas ou suposições das quais aquela depende.

Esta regra é fácil de usar e a sua semântica é bastante fácil de
perceber. Se todas as pessoas são mortais, podemos com segurança
afirmar que Salazar, que era, tangencialmente, uma pessoa, era,
felizmente, mortal.

Introdução do quantificador universal (I∀)

Esta regra é um pouco mais subtil, em resultado do papel reservado
aos nomes arbitrários, algo que no nosso quotidiano usamos sem
reparar. Trata­se de um dispositivo muito útil. A ideia é a seguinte:
imagine que estamos a fazer um estudo sociológico sobre os membros
da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Queremos fazer uma série de
raciocínios acerca de tão distinta população, mas não queremos estar
sempre a afirmar “Todos os membros da SPF...” Por isso, acabamos
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02/05/2016 Regras de dedução natural

por dizer coisas como: “o membro da SPF que não tiver as quotas em
dia não pode votar na assembleia geral”. é claro que não estamos a
falar de um membro específico; estamos a falar de qualquer um. Em
lógica, para evitar confusões, fazemos como em geometria: usamos
um nome arbitrário em vez da expressão “o”, que corre o risco de
confundir­se com uma descrição definida.

Ao chegar à conclusão do nosso estudo sobre os hábitos dos
membros da SPF, podemos querer eliminar o uso elíptico de “o” e dizer
explicitamente: todos os membros da SPF têm direito a assistir às
conferências, seminários e outras actividades da SPF. Por outras
palavras, queremos substituir um nome arbitrário por um quantificador
universal. Por exemplo:

Prem (1) ∀x (Fx → Gx)  

Prem (2) ∀x Fx  

1 (3) Fa → Ga 1 E∀

2 (4) Fa 2 E∀

1,2 (5) Ga 3,4 E→

1,2 (5) ∀x Gx 5 I∀

A partir do passo (3) começámos a falar dos F e dos G usando nomes
arbitrários. Depois de concluirmos algo de importante, resolvemos
afirmá­lo mais claramente, reintroduzindo o quantificador universal que
tínhamos eliminado antes.

Dada uma fórmula da forma Aa, podemos inferir ∀x Ax, desde que Aa
não seja uma premissa nem uma suposição, nem dependa de
nenhuma premissa ou suposição na qual ocorra o nome arbitrário a. O

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sentido destas restrições é garantir que estamos a introduzir o
quantificador universal numa ocorrência estritamente arbitrária de um
nome — não queremos inferir que todos os sócios da SPF são louros
só porque o Fernando Ferreira é louro.

Ao concluir ∀x Ax a partir de Aa, temos de substituir todas as
ocorrências de a por x. O resultado da introdução do quantificador
universal dependerá das premissas ou suposições das quais Aa
depender.

Introdução do quantificador existencial (I∃)

Esta é a regra mais simples e óbvia do fragmento predicativo da
dedução natural. Corresponde à nossa intuição semântica segundo a
qual se for verdade que o Cavaco Silva é antipático, podemos concluir
que alguém é antipático, o tipo de pensamento que não apetece nada
ter às segundas­feiras de manhã. Mas é claro que podemos tirar a
mesma conclusão, ainda que estejamos a usar um nome arbitrário, em
vez de um nome próprio.

A formulação da regra é assim a seguinte: dada uma fórmula da forma
At, podemos inferir ∃x Ax. t tanto pode ser um nome arbitrário, a, como
um nome próprio, n. A nossa conclusão dependerá de At, ou das
premissas ou suposições de que At depender. Por exemplo:

Prem (1) Fn  

Prem (2) Ga  

1 (3) ∃ x Fx 1 I∃

2 (4) ∃y Gy 2 I∃

1,2 (5) ∃x Fx ∧ ∃y Gy 3,4 I∧


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Ao contrário do que acontecia no caso do quantificador universal, não
temos de substituir todas as ocorrências de t por x ao introduzir o
quantificador existencial; podemos substituir só algumas. Se tivermos
uma fórmula como Fnn, podemos concluir ∃x Fxn.

Eliminação do quantificador existencial (E∃)

Esta regra é a mais subtil de toda a dedução natural e é fácil de
perceber porquê. é claro que do facto de alguém ser antipático não
podemos concluir que Heidegger era antipático; talvez ele fosse um
nazi excepcionalmente risonho. Para garantir que não chegamos a
conclusões disparatadas a partir de premissas razoáveis temos de
introduzir várias restrições à eliminação do quantificador existencial.

Para compreender a regra é útil começar por apresentar um exemplo
do seu uso:

Prem (1) ∃x (Fx ∧ Gx)  

Sup (2) Fa ∧ Ga  

2 (3) Fa 2 E∧

2 (4) ∃x Fx 3 I∃

1 (5) ∃ x Fx 1,2,4 E∃

Em primeiro lugar, repare na semelhança relativamente à regra E∨ :
uma vez mais, temos enquadramentos e uma vez mais temos uma
conclusão geral que repete uma conclusão surgida numa
subderivação. A suposição (2) resulta da substituição de todas as
ocorrências de x por a na fórmula do passo (1). O passo (4) depende
de (2), mas já não contém nenhuma ocorrência de a. Além disso, à
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excepção da suposição (2), (4) não depende de nenhuma premissa ou
suposição na qual a ocorra. Nestas condições, podemos inferir (5),
dependendo da premissa que deu origem à suposição (2) e de todas
as premissas das quais (4) dependa, excepto (2).

A formulação da regra é, pois a seguinte: dada uma fórmula da forma
∃x Ax, introduza­se Aa como suposição, substituindo­se em Aa todas
as ocorrências de x por um nome arbitrário, a. Derive­se agora C a
partir de Aa. Podemos concluir C, sem depender de Aa, desde que se
respeitem as seguintes condições:

1. C depende de Aa (é isso que significa dizer que derivámos C a partir de
Aa)
2. C não contém nenhuma ocorrência de a.
3. C não depende de nenhumas premissas ou suposições que contenham
a, excepto Aa.
4. A nossa conclusão geral ficará a depender de ∃x Ax e de todas as
premissas de que C depender, excepto Aa.

No caso da nossa derivação ilustrativa, C era ∃x Fx. Isto pode gerar a
confusão, uma vez que estamos a usar a regra da eliminação do
quantificador existencial para concluir uma derivação que contém um
quantificador existencial. Temos de compreender que o que conta é
que alcançámos uma conclusão a partir de uma suposição que
eliminou o quantificador existencial de (1). Podíamos ter chegado a
uma conclusão sem quantificador existencial. Por exemplo:

Prem (1) ∀x Fx  

Sup (2) ∃x ¬Fx  

Sup (3) ¬Fa  

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1 (4) Fa 1 E∀

1,3 (5) Fa ∧ ¬Fa 3,4 I∧

3 (6) ¬∀x Fx 1,5 I¬

2 (7) ¬∀x Fx 2,3,6 E∃

1,2 (8) ∀x Fx ∧ ¬∀x Fx 1,7 I∧

1 (9) ¬∃x ¬Fx 2,8 I¬

Terminámos assim a apresentação do fragmento predicativo da
dedução natural. Resta­nos apresentar mais duas regras, que alargam
o poder da nossa lógica de um modo particularmente útil à filosofia,
sobretudo à metafísica. Refiro­me às regras da introdução e
eliminação da identidade, que são muito simples.

Introdução da identidade (I=)
Qualquer objecto é idêntico a si próprio. Logo, a frase de identidade, a
= a, ou n = n, pode ser introduzida em qualquer passo da nossa
derivação, sem depender de nenhumas premissas. Por exemplo:

Sup (1) Fn  

  (2) n = n I=

1 (3) Fn ∧ n = n 1,2 I∧

  (4) Fn → (Fn ∧n = n) 1,3 I→

Repare­se que ao usar o passo (2) não ficamos na sua dependência.

Eliminação da identidade (E=)
Dada uma fórmula t = u, sendo t e u nomes próprios, e dada outra
fórmula qualquer na qual ocorra t, como At, podemos inferir Au. Au
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resulta de At por substituição de pelo menos uma ocorrência de u em
Au por t. A nossa conclusão dependerá de t = u e de At, ou das
premissas ou suposições de que elas dependerem. Por exemplo:

Prem (1) m = n  

Prem (2) Fm  

1,2 (3) Fn 1,2 E=

Esta regra corresponde à nossa intuição de que se for verdade que
António Gedeão é Rómulo de Carvalho, tudo o que for verdade de
António Gedeão será verdade de Rómulo de Carvalho.

Apesar de esta regra ser de uma clareza irrepreensível há contextos
nos quais a sua aplicação dá origem a falácias. Chamam­se
intensionais a esses contextos.

Concluímos assim a apresentação das regras primitivas de dedução
natural para a lógica clássica. Com estas regras apenas é possível
gerar demonstrações económicas de alguns dos teoremas mais
importantes da lógica e de algumas das formas mais comuns de
argumentos dedutivos. No entanto, podemos acrescentar a estas
regras primitivas uma regra de inserção de teoremas que nos permitirá
introduzir em qualquer derivação qualquer teorema da lógica clássica,
o que permitirá obter resultados ainda mais económicos. Podemos
também introduzir uma regra de introdução de sequentes que nos
permitirá introduzir qualquer sequente derivável no decurso de uma
derivação.

Além de oferecer demonstrações geralmente bastante mais
económicas do que as demonstrações dos sistemas axiomáticos, os
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sistemas de dedução natural têm outras vantagens. Uma das mais
importantes é o facto de tornar evidente que a lógica não consiste (ou,
pelo menos, não consiste apenas) no estudo das verdades lógicas,
mas antes no estudo da inferência dedutiva. A sua importância
filosófica torna­se assim irrecusável, uma vez que grande parte dos
argumentos dos filósofos são dedutivos.

Para terminar, resta­nos referir algumas variações no estilo de
demonstrações em dedução natural. Alguns autores indicam as
dependências, na coluna 1, entre colchetes, {}, transmitindo assim a
ideia de que estão a apresentar o conjunto de dependências. Esta
prática tem a vantagem de tornar ainda mais claro o facto de na
dedução natural cada passo de uma demonstração exibir um sequente
válido, uma vez que um sequente como p, p → q ⊢ q é constituído por
um conjunto de premissas: {p, p → q}.

Outra variação menor diz respeito à indicação das suposições e
premissas. Alguns autores não distinguem premissas de suposições.
Outros autores indicam a presença de premissas não na coluna 1,
como nós, mas na coluna 4. Na coluna 1 colocam o número do passo
no qual estamos a introduzir a própria premissa ou suposição. Este
método tem vantagens na exposição das regras.

Os enquadramentos usados nas regras E∃ e E∨ não são usados por
muitos autores, mas são uma ajuda preciosa para o estudante. Por
outro lado, alguns autores suprimem a coluna 1, substituindo­a por
traços verticais que indicam as dependências em causa. Outros ainda
fazem todas as derivações dentro de caixas, de modo que as
dependências são imediatamente visíveis. Qualquer que seja a
variação, o método de dedução natural revela­se um instrumento
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filosófico flexível e imprescindível.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br

Retirado de Enciclopédia de Termos Lógico­Filosóficos, org. João Branquinho e
Desidério Murcho (Gradiva, 2001)

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