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Apresentação

Prezados(as) professores(as),

V ocês têm em mãos a Revista de Educação da APEOESP,


contendo resenhas da bibliografia do concurso para Diretor
de Escola, já autorizado pelo Governador e anunciado pela
Secretaria Estadual de Educação.
Organizada pela Secretaria de Formação, esta
publicação contém as resenhas dos livros que compõem
a bibliografia dos concursos, realizadas por profissionais
altamente qualificados, e visa fornecer subsídios necessários
para que cada um/a dos/as candidados/as, associados/as da
APEOESP, possa ter o melhor desempenho possível neste
concurso, para que consigam contribuir para que as unidades
escolares da rede estadual de ensino sejam geridas de forma
cada vez mais competente e democrática.
A APEOESP também está oferecendo um curso
preparatório, com desconto de 30% para associados e
associadas do sindicato. Para maiores informações, acesso o
portal da entidade na internet: www.apeoesp.org.br.
Nosso sindicato possui uma trajetória histórica de luta
por educação pública de qualidade e valorização profissional
do magistério. Por isso, queremos contribuir com nossos
associados e associadas neste momento, desejando a todos e
todas o máximo sucesso neste desafio.
Boa sorte.
Um forte abraço.

Maria Izabel Azevedo Noronha


Presidenta da APEOESP
Editorial
“Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
(...)
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente”.

P
Mãos dadas - Carlos Drummond de Andrade

ensar sobre o papel do gestor escolar, do diretor de escola, requer relacionar alguns dos fenô-
menos do presente. Baseando-se na premissa de que as mudanças são naturais, necessárias e
a cada vez mais rápidas, a globalização, a globalização da cultura, a ressignificação dos Estados
e seu ambiente institucional, os processos de individualização e fragmentação social e cultural,
a expansão e a proliferação dos meios de comunicação de massa e o aumento vertiginoso das
novas tecnologias da informação, torna-se necessário reconfigurar o papel da escola e do gestor
escolar. Precisamos nos compreender inseridos em uma nova formação histórica, enfrentando
um processo de transição para outra ordem, no sentido (contínuo) de algo novo e diferente. E
este novo está influenciando também nossa maneira de olhar o mundo e de pensar, porque a
subjetividade, o imaginário e a sensibilidade dialogam com contextos históricos, suas práticas,
seus ritmos, experiências, artefatos culturais e perspectivas.
Neste presente, compreendendo o contexto de construção da escola, da educação, é
solicitado pelos governantes da rede estadual de ensino do estado de São Paulo, o seguinte
perfil de diretor de escola:
Como dirigente e coordenador do processo educativo no âmbito da escola,
compete ao diretor promover ações direcionadas à coerência e à consistência de
uma proposta pedagógica centrada na formação integral do aluno. Tendo como
objetivo a melhoria do desempenho da escola, cabe ao diretor, mediante processos
de pesquisa e formação continuada em serviço, assegurar o desenvolvimento de
competências e habilidades dos profissionais que trabalham sob sua coordenação,
nas diversas dimensões da gestão escolar participativa: pedagógica, de pessoas, de
recursos físicos e financeiros e de resultados educacionais do ensino e aprendizagem.
Como dirigente da unidade escolar, cabe-lhe uma atuação orientada pela concepção
de gestão democrática e participativa, o que requer compreensão do contexto em que
a educação é construída e a promoção de ações no sentido de assegurar o direito à
educação para todos os alunos e expressar uma visão articuladora e integradora dos
vários setores: pedagógico, curricular, administrativo, de serviços e das relações com
a comunidade. Compete, portanto, ao Diretor de Escola uma atuação com vistas à
educação de qualidade, ou seja, centrada na organização e desenvolvimento de ensi-
no que promovam a aprendizagem significativa e a formação integral do
aluno para o exercício da cidadania e para o mundo do trabalho.
Nas contradições que engendram as mudanças, este profissional deverá
ter como princípio a gestão democrática e participativa, como referência do
exercício do direito e da cidadania, expressos, por exemplo, nas ações dos jovens
que ocuparam escolas nos anos de 2015 e 2016, compreendidos e apoiados
pelas famílias, comunidades, gestores e professores.
Dialeticamente, contrapondo a visão de senso comum de que as escolas
públicas não cumprem com o seu papel formador, que tudo o que acontece
em seu interior é de péssima qualidade e que gestores, professores e alunos são
desanimados ou desinteressados. O movimento de ocupação deu visibilidade
para a ação da escola pública que forma, ainda que com dificuldades, pessoas
comprometidas e conscientes das transformações sociais, em busca de uma
melhor qualidade na educação e na vida.
Jovens que se articulam pelas diferentes redes sociais, utilizando mídias e
tecnologias alternativas e atuais, se mobilizam, e tornaram suas reivindicações
públicas e engendraram ações e reflexões sobre a educação. Ocuparam escolas
e espaços nas mídias, nas análises das pessoas, na formação cidadã.
Acreditando neste papel formador e transformador da escola, denunciando
e combatendo o que precisa ser mudado, melhorado, este sindicato, APEOESP,
se coloca como parceiro, na construção intrínseca da ação educativa da escola,
inclusive quanto ao importante e essencial papel formativo, porque acredita
que o sindicato, ao lado da escola, é também espaço de construção do sujeito
coletivo e, ao mesmo tempo, de sua manifestação!
Neste sentido, a APEOESP organiza e disponibiliza para seus filiados este
caderno de estudos do material solicitado para o concurso de diretores de escola,
continuando a parceria com estes educadores, que olharão a educação de um
novo espaço, de um local diferente e reafirmando que o compromisso com a
construção com escolas públicas de boa qualidade é nossa maior meta e que a
formação de nossos filiados é um dos caminhos.
Bons estudos! Que este material ajude a passar no concurso, mas, sobre-
tudo, a ser um bom diretor, democrático, competente e transparente.

"Estudar exige disciplina. Estudar não é fácil porque


estudar é criar e recriar. É não repetir o que os outros dizem.
Estudar é um dever revolucionário!" - Paulo Freire

Coordenação da equipe de resenhistas: Professora Ms. Luci Ana Santos


Secretaria de Formação: Zenaide Honório
ÍNDICE
Princípios que orientam a ação do direitor
AZANHA, José Mário Pires. Democratização do ensino: vicissitudes da ideia no ensino
paulista. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, nº 2, p. 335-344, mai/ago 2004....... pág   10
GOMES, Candido Alberto. A escola de qualidade para todos: abrindo as camadas da
cebola. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, v13, nº 48,
jun/set. 2005............................................................................................................. pág   13
Gomez-Granell, Carmem; VILLA, Ignácio (org.). A cidade como projeto educativo.
Porto Alegre: Artmed, 2003....................................................................................... pág   16
TEIXEIRA, Anísio. A escola pública universal e gratuita. Revista Brasileira de Estudos
Pedagógicos. Rio de Janeiro, v. 26, n.64, p. 3-27, out./dez.1956................................ pág   19
TORRES, Rosa Maria. Itinerários pela educação latino-americana. Caderno de viagens.
Porto Alegre: Artmed. 2001. .................................................................................... pág   21
SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia: teorias da educação, curvatura da vara,
onze teses sobre educação política. Campinas-SP: Autores Associados, 2008. ............ pág   25

Gestão democrática e participativa


ABRAMOVAY, Miriam (Coord.). Juventudes na Escola, sentidos e buscas: Por que
frequentam? Brasília-DF: Flacso - Brasil, OEI, MEC, 2015............................................. pág   46
CASTRO, Jane Margareth; REGATTIERI, Marilza (org.). Interação escola-família:
subsídios para práticas escolares. Brasília : UNESCO, MEC, 2009................................. pág   48
CECCON, Cláudia et al. Conflitos na escola: modos de transformar: dicas para refletir
e exemplos de como. São Paulo: CECIP, IMESP. 2009. ................................................ pág   51
CHRISPINO, A. A mediação do conflito escolar. 2ª edição: São Paulo: Biruta, 2011...... pág   55
COLARES, Maria Lília Imbiriba Souza (org.) et al. Gestão escolar: enfrentando os
desafios cotidianos em escolas públicas. Curitiba: Editora CRV, 2009.......................... pág   58
MARÇAL, J.C.; SOUSA, J.V. de. Progestão: como promover a construção coletiva
do projeto pedagógico da escola? Módulo III. Brasília: CONSED, 2009....................... pág   70
LUIZ, Maria Cecília; NASCENTE, Renata Maria Moschen (Org.). Conselho
escolar e diversidade: por uma escola mais democrática. São Carlos: EDUFSCAR,
2013 (Capítulos 1 e 6)................................................................................................ pág   91

Planejamento estratégico
MURICI, Izabela Lanna; CHAVES, Neuza Maria Dias. Gestão para resultados na
educação. 2 ed. São Paulo: FALCONI Editora, 2016. ..................................................pág 108
Instituto de Co-responsabilidade pela Educação. Modelo de Gestão: Tecnologia
Empresarial Sócioeducacional (TESE): uma nova escola para a juventude brasileira:
escolas de ensino médio em tempo integral: manual operacional. Recife: ICE: 2007. .. pág 117
ACÚRCIO, Marina Rodrigues Borges (Coord.). A gestão da escola. Porto Alegre:
Artmed, 2003. (Escola em ação, 4) (Introdução, cap. 1 a 3)........................................pág 120
ALONSO, Myrtes. A gestão/administração educacional no contexto da atualidade.
In: VIEIRA, Alexandre Thomas et al (org.). Gestão Educacional e Tecnologia.
São Paulo: Avercamp. 2003........................................................................................pág 138
Foco em qualidade e resultados
CASTRO, Maria Helena Guimarães de. Sistemas nacionais de avaliação
e de informações educacionais. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 14, n. 1,
p. 121-128, 2000......................................................................................................pág 142
FERNANDES, Maria Estrela Araújo. PROGESTÃO: Como desenvolver a avaliação
institucional da escola? Modulo IX. Brasília: CONSED- Conselho Nacional de
Secretários de Educação, 2009...................................................................................pág 144
KLEIN, R.; FONTANIVE, N.S. Alguns indicadores educacionais de qualidade no Brasil
e hoje. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 23. nº 1, p. 19-28, jan/jn 2009...........pág 147
RIBEIRO, Vanda Mendes; GUSMÃO, Joana Buarque de. Uma análise
de problemas detectados e soluções propostas por comunidades escolares
com base no Indique. Estudos em Avaliação Educacional, São Paulo, v. 22, n. 50,
p. 457-470, set./dez. 2011.........................................................................................pág 149

Gestão pedagógica
COLL, César. Comunidades de aprendizagem e educação escolar................................pág 154
LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem escolar. 22ª edição. São
Paulo: Cortez Editora, 2011........................................................................................pág 158
MIZUKAMI, Maria da Graça Nicoletti. Ensino: as abordagens do processo.
São Paulo: E.P.U., 1992..............................................................................................pág 161
SENNA, Sylvia Regina Carmo Magalhães; DESSEN, Maria Auxiliadora. Contribuições
das teorias do desenvolvimento humano para a concepção contemporânea da
adolescência . Psicologia: Teoria e Prática. Brasília, v. 28, nº 1, p.101-108, jan/mar..............pág 164
ZABALA, Antoni; ARNAU, Laia. Como aprender e ensinar competências.
Porto Alegre: Artmed, 2010. .....................................................................................pág 171
VEIGA, Ilma P.A. (Org.) Projeto Político Pedagógico da escola – uma construção
possível. 29ª edição, Campinas: Papirus, 2011 (Magistério).........................................pág 183
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa.
São Paulo: Paz e terra, 1996 (Leitura).........................................................................pág 192

Gestão de processos administrativos


LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 6ª edição.
São Paulo: Heccus, 2013............................................................................................pág 200

Gestão de Pessoas
MORAN, José Manuel; MASETTO, Marcos T.; BEHRENS, Marilda. Novas tecnologias
e mediação pedagógica. 21. ed. rev. e atual. Campinas: Papirus, 2013. .....................pág 228
TRIGO, João Ribeiro; COSTA Jorge Adelino. Liderança nas organizações educativas:
a direcção por valores. Revista Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação.
Rio de Janeiro,v. 16, n. 61, p. 561-582, out./dez. 2008..............................................pág 247
ALMEIDA, Maria Elizabeth B. de; SILVA, Maria da Graça Moreira da. Currículo,
tecnologia e cultura digital: espaços e tempos de web currículo. Revista
e-Curriculum, São Paulo, v. 7, n. 1, p. 1-19, abr. 2011. ..............................................pág 252
Princípios que
orientam a ação
do direitor
AZANHA, José Mário Pires. Democratização do ensino: vicissitudes
da ideia no ensino paulista. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30,
nº 2, p. 335-344, mai/ago 2004. Disponível em: http://www.scielo.
br/pdf/ep/v30n2/v30n2a12
Reconhecendo que o termo “democracia” pode
Resenha elaborada por prestar a todo tipo de propaganda ideológica, o
Luci Ana Santos da Cunha. autor afirma há muita dificuldade em esclarecer a
Possui Pedagogia e Mestrado pela Faculdade noção derivada de ensino democrático. Para con-
de Educação da USP. Supervisora Escolar tornar esse obstáculo, distingue entre a propaganda
da PMSP. e a ação democratizadora, atendo-se ao exame da
Princípios que orientam a ação do direitor

Docente do Ensino Superior. segunda. Neste sentido analisa alguns esforços de


democratização do ensino no Estado de São Paulo,
através dos seguintes episódios: Reforma Sampaio
Dória (1920); expansão da matrícula no ensino
ginasial (1967-1969) e tentativa de renovação
pedagógica proposta pelos Ginásios Vocacionais.
Nessa análise procura também distinguir entre a
ideia de democratização do ensino como prática
de liberdade e como expansão de oportunidades
a todos, procurando mostrar como no primeiro
sentido pode haver uma degradação, em termos
pedagógicos, da ideia de democracia política.
Relaciona então alguns conceitos: Gerth e
Wright Mills (1953): “a palavra Democracia, em
especial quando usada na moderna competição
propagandística, passou, literalmente, a significar
todas as coisas, para todos os homens”. UNESCO
(1948): simpósio no qual se discutiram os “confli-
tos ideológicos acerca da democracia”. Apesar das
diferenças radicais de posição acerca do significado
de “democracia” e de suas implicações políticas,
sociais e econômicas, houve um ponto que foi a
premissa fundamental de todas as posições: a valo-
rização do ideal democrático. Todos concordaram
na “aceitação da democracia como a mais alta forma
de organização política e social” e com a tese de que
“a participação do povo e os interesses do povo são
elementos essenciais para o bom governo e para
as relações que fazem possível o bom governo”. É
essa unanimidade na superfície e essa divergência
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profunda acerca do significado de “democracia”


que tomam muito difícil o esclarecimento da noção
derivada de “ensino democrático”. Naess e Rokkan,
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reconhecendo as inconciliáveis divergências, neste
jan/2017 simpósio, afirmaram: “... o significado geral de
‘democracia’ é tão claro e livre de ambiguidade ganização do ensino primário (a obrigatoriedade
quanto a linguagem corrente permite; é a expressão escolar que começava aos 7 anos de idade, passa
de um ideal, um modelo, e um desígnio, um reflexo para 9 anos); os programas foram concentrados e
de aspirações humanas. As disputas ideológicas não o ensino primário, reduzido para dois anos. “Com
se levantam deste significado geral e do tipo ideal essas medidas — pensava-se — o ensino primário
de relações humanas que ele expressa; as disputas poderia num curto período estender-se a todos e,
dizem respeito às condições que levam ao progresso portanto, democratizado”.
até este ideal, aos meios pelos quais ele pode ser al- O autor afirma que esta reforma indica a com-
cançado, à ordem das providências a serem tomadas preensão de que não se democratiza uma insti-
no seu desenvolvimento. Como consequência, as tuição pública como a escola sem que ela alcance
atuais controvérsias ideológicas não se concentram a todos. Esta reorganização e redução do ensino
no significado de ‘democracia’, mas nas teorias primário provocaram duras críticas e protestos,
sobre as condições de seu desenvolvimento e os não apenas na época (e que acabaram por levar à
meios de sua realização”. sua revogação), mas também ao longo dos anos

Princípios que orientam a ação do direitor


Afirmando que é ilusória a unanimidade das da parte dos estudiosos que a analisaram. Dentre
alegações democráticas, neste trabalho com relação estes se destaca a figura de Anísio Teixeira, que
ao ensino em São Paulo, o autor buscará distinguir sempre criticou esta reforma.
entre a propaganda da educação democrática e Expansão do ensino ginasial em 1968-70: Na
providências no plano da ação afirmando que “a Administração Ulhoa Cintra (1967-1970), a
primeira só interessará incidentalmente na medida Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
em que estiver vinculada de modo direto com al- formulou e executou uma política de expansão
gum episódio político ou administrativo que diga do ensino ginasial, que tinha se transformado
respeito ao tema tratado”. no ponto de estrangulamento do sistema escolar.
Em relação aos esforços de democratização Os exames de admissão para ingresso no ensino
ginasial, obrigatórios por lei federal, haviam se
do ensino em São Paulo, ressalta os seguintes
transformado numa “barreira quase intranspo-
episódios: Reforma Sampaio Dória (1920),
nível para a grande massa de egressos do primá-
Manifesto dos Pioneiros (1932), luta pela escola
rio”. Os exames admissionais eram elaborados
pública (1948-1961), expansão da matrícula no
pelas próprias escolas com extremo rigor, a fim
ensino ginasial (1967-1969) e esparsas tentativas
de evitar o impasse de candidatos aprovados e
de renovação pedagógica (Ginásios Vocacionais,
sem matrícula. Diante disso, a Secretaria uni-
por exemplo), constatando que estes casos exem-
ficou a preparação das provas e reduziu as suas
plificam uma ou outra de duas maneiras básicas
exigências. Os exames de admissão, unificados e
de compreender a democratização do ensino: 1)
facilitados, deixam de ser uma barreira e a grande
como política de ampliação radical das oportuni-
maioria dos candidatos foi aprovada.
dades educativas (é o caso da Reforma Sampaio
Tal medida encontrou resistência de grande
Dória e da expansão das matrículas no ciclo gina-
parcela do magistério, que embora defendesse a
sial) e 2) como prática pedagógica (é o caso dos
“democratização do ensino”, reclamava do rebaixa-
Ginásios Vocacionais). Na sequência faz uma breve
mento da qualidade do ensino. E esta parcela não
descrição e comentário de cada uma:
procurou se adequar à nova realidade da clientela
Reforma Sampaio Dória: Assumindo a Direto- escolar e insistiu na manutenção de exigências que
ria da Instrução Pública do Estado de São Paulo redundariam na reprovação maciça dos alunos.
(1920), Dória constatou que a situação do ensino Neste aspecto, o autor declara que reprovação em
primário era altamente deficitária: era necessário massa é sempre índice de defasagem entre critérios
que se duplicasse a rede de escolas para que fosse
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de exigência e reais condições de ensino aprendi-


possível absorver a população escolarizável e não zagem. Continua relatando que, a Administração,
havia capacidade financeira para enfrentá-la. para contornar a ameaça da reprovação maciça, ins-
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Sampaio Dória toma como pontos centrais tituiu um sistema de pontos por alunos aprovados
da reforma: erradicação do analfabetismo, reor- que pesava na recontratação dos professores. jan/2017
A renovação dos Ginásios Vocacionais: O Sobre esta oposição (quantidade / qualidade)
ensino vocacional foi desenvolvido, desde 1962 destaca:
até 1968, por seis unidades ginasiais instaladas Democratização do ensino como prática da
na Capital e em cidades do interior. Não havia liberdade:
entre essas unidades nenhuma diferença básica Identificada como uma proposta sedutora para
de orientação. Por força de um estatuto legal os educadores e a sua aceitação ou não, interpre-
próprio gozaram de uma ampla e privilegiada tada como uma visão progressista ou retrógrada
autonomia didática, administrativa e financeira. da educação.
Foi possível assim um trabalho não viável na rede
Visão progressista: transformar politicamen-
comum de escolas. Essa oportunidade foi inten-
te a sociedade por meio de educação (Ginásios
samente aproveitada e as atividades desenvolvidas
Vocacionais). A escola democratizada, formando
orientaram-se sempre num sentido de renovação
homens livres, edifica a sociedade democrática.
metodológica e curricular com confessadas inten-
O autor declara que é uma ideia simplista da
ções democratizadoras.
Princípios que orientam a ação do direitor

sociedade política, pois a concebe como sendo


O Ensino Vocacional se preocupava com a mero reflexo de características dos indivíduos
realização de uma experiência que pudesse ser de que a compõem: “Pretendemos apenas escapar
valia para a formação do “Homem Brasileiro”, em da ingenuidade de supor que “a democracia não
contraposição às tentativas de “transposição de pa- pode funcionar sem democratas”. E (que) cabe à
drões culturais e modelos estrangeiros estranhos à educação formá-los”; porque democracia se refere
realidade do País”. A experiência Vocacional surge a uma situação política, social e econômica que não
com a preocupação de situar o jovem como alguém se concretiza pela simples associação de indivíduos
atuante e inspirada em alguns princípios da Escola democráticos”.
Nova, enfocando principalmente o problema da O autor então analisa a pedagogia libertária:
liberdade do educando como agente da própria “A liberdade na vida escolar, por ilimitada que
Educação, do seu próprio desenvolvimento, e do seja, ocorre num contorno institucional que, pela
professor como instrumento estimulador e expli- sua própria natureza e finalidade, é inapto para
citador das situações educativas. reproduzir as condições da vida política”. Esclarece
Neste contexto, os Ginásios Vocacionais se que a liberdade do aluno é condicionada e dirigida
recusam a participar dos exames unificados, de- por objetivos educacionais e que não há qualquer
fendendo que a democratização do ensino era garantia de que a prática da liberdade na escola
concebida como algo que deveria ocorrer intra- contribua para a formação de vontades livres e
muros no plano pedagógico e não pela ampliação autônomas.
das oportunidades educativas. Democratização do ensino como expansão de
Sobre os Ginásios Vocacionais, o autor conclui oportunidades:
que conceberam a democratização do ensino como Retomando a premissa que entre os educadores
fundada numa “prática pedagógica reservada a a democratização do ensino através da ampliação
poucos pelo alto custo em que importava”. de vagas é responsável pelo rebaixamento da
A partir das experiências relatadas, Dória de- qualidade do ensino, destaca que este argumento
senvolve a ideia de que democratização do ensino, repousa sobre dois equívocos que têm uma mesma
como consistindo basicamente numa prática edu- matriz: considerar que a extensão das oportunida-
cativa fundada na liberdade do educando, tem sido des educativas é apenas um aspecto do processo
muito mais atraente para os educadores do que a pedagógico de democratização do ensino.
democratização como extensão de oportunidades Equívoco 1: a extensão de oportunidades é
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a todos. Indica ainda que ampliar as matrículas e uma medida política e não uma simples questão
instituir uma prática educativa especial poderiam técnico-pedagógica. A ampliação de oportunidades
ser conjugados, mas historicamente, pelo menos decorre de uma intenção política e é nesses termos
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no caso de São Paulo, estas possibilidades têm se que deve ser examinada. “Não se democratiza o
jan/2017 apresentado como opções que se excluem. ensino, reservando-o para uns poucos sob pretex-
tos pedagógicos. A democratização da educação em pesquisas empíricas — apenas obscurece o
é irrealizável intramuros, na cidadela pedagógica; significado político dos argumentos em jogo.”
ela é um processo exterior à escola, que toma a Quanto a isto o autor declara que o rebaixamen-
educação como uma variável social e não como to da qualidade do ensino, decorrente da sua am-
simples variável pedagógica”. pliação, somente ocorre por referência a uma classe
Equívoco 2: mais grave, porque é mais sutil: social privilegiada, porque, “nesta esfera, como
supor que a avaliação da qualidade do ensino seja em outras, os móveis egoístas de alguns setores da
feita a partir de considerações exclusivamente população (as classes conservadoras e uma parcela
pedagógicas, como se o alegado rebaixamento das classes médias) tendem a prevalecer sobre as
pudesse ser aferido numa perspectiva meramente necessidades essenciais da sociedade brasileira”.
técnica. ”Contudo, essa suposição é ilusória e Concluindo, o autor destaca que: “E é nesse
apenas disfarça interesses de uma classe sob uma esforço para continuar a prevalecer que se lamenta
perspectiva técnico-pedagógica. Esta — ainda que a queda de qualidade de ensino, mistificando, cons-
sinceramente invocada e mesmo quando baseada ciente ou inconscientemente, uma questão política

Princípios que orientam a ação do direitor


GOMES, Candido Alberto. A escola de qualidade para todos:
abrindo as camadas da cebola. Ensaio: Avaliação e Políticas
Públicas em Educação, Rio de Janeiro, v13, nº 48, jun/set. 2005.
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ensaio/v13n48/27551.pdf
Neste artigo, Gomes (2005) argumenta as
Resenha elaborada por variáveis centradas nas diferenças entre escolas e
Luci Ana Santos da Cunha. dentro das escolas, tendo como base a literatura
Possui Pedagogia e Mestrado pela Faculdade nacional e internacional.
de Educação da USP. Supervisora Escolar A organização, a estrutura escolar e o sistema edu-
da PMSP. cacional por muito tempo foi comparado a uma caixa
Docente do Ensino Superior. preta, que processava insumos e oferecia resultados
à sociedade de forma mecânica, porém esta visão
hoje é muito simplista diante da complexidade das
nossas instituições escolares. Neste prisma, o sistema
educacional esta dividido em camadas, como a de
uma cebola: na primeira camada estão as diversas
redes, depois os órgãos gestores regionais e locais;
em seguida as diferentes escolas, e nestas, as diversas
turmas, com seus variados professores e, por fim, os
grupos de alunos, com adesão maior ou menor aos
objetivos da escola. Nesta perspectiva é necessário
estudar camada por camada, assim, depois de abrir
as camadas mais amplas do sistemas educacional,
é preciso estudar a casca da escola e, dentro dela, a
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camada da turma, do professor e do aluno, em dife-


rentes âmbitos, relacionando-se entre si. Assim, nesta
interpretação que se aproxima da cebola, abrindo
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camada por camada, superamos a visão de um sistema
educacional voltado a uma caixa preta. jan/2017
Diferenças entre as escolas principalmente na educação primária. Porém
Pesquisas internacionais têm evidenciado que no caso do Nordeste brasileiro, verificou-se que
as diferenças de rendimento discentes são com as escolas maiores eram as que apresentavam
frequência tão amplas entre países quanto entre maiores facilidades e serviços educacionais, e
as escolas do mesmo país. Desta forma, estudos como estas variáveis estão relacionadas ao apro-
em escolas na América Latina investigam quais veitamento discente, estas escolas apresentam
fatores têm impactos significantes no rendimen- maior proficiência. Em relação ao tamanho da
turma, existe controvérsias, pois linhas gerais
to dos discentes, assim foram destacadas fatores
da literatura internacional confirmam que não
como: despesas por aluno; instalações e recursos;
há evidências que quanto maior a turma, maior
tamanho da escola e da turma; tempo letivo; os
seu aproveitamento; porém a análise indicou
professores; o clima escolar; gestão escolar; e os
efeitos mínimos em turmas de 20 a 40 alunos,
efeitos dos colegas.
mas percebeu melhores rendimentos em turmas
Gomes (2005) discorre o impacto de cada uma de 15 alunos ou menos.
Princípios que orientam a ação do direitor

destas variáveis entre as escolas, como também


 Tempo letivo: O tempo letivo apresenta uma
verifica o impacto de uma variável sobre a outra.
relação positiva e significante com o rendimen-
  Despesas por aluno: Neste fator o autor ques- to, no entanto este fator está ligado a outras
tiona: a escola mais cara é necessariamente me- variáveis, como o tempo atribuído ao ensino
lhor? No senso comum, constata-se uma certa pelos professores, o tempo de envolvimento
tendência de, quanto mais alta a despesa por do aluno na aprendizagem, o tempo de investi-
aluno, melhor o desempenho em vários indi- mento dos alunos nas tarefas escolares, além da
cadores educacionais. No entanto, as pesquisas relação professor e aluno. Na variável dever de
revelam que não existe uma relação automática casa, pesquisas mostraram que estas atividades
entre o aumento das despesas e o aumento têm impacto positivo, pois prolongam o tempo
do rendimento discente, pois a intermediação letivo no que se diz respeito a aprendizagem do
passa pelos processos dentro da escola, assim, aluno, porém é importante que estes deveres
a ligação que se pode extrair é que o investi- de casa não sejam automáticos mais sim signi-
mento de recursos deve estar vinculado com os ficantes ao estudante.
procedimentos que contribuam para melhorar
 Os professores: Os docentes são usualmente
a efetividade da educação.
recompensados em suas carreiras com base na
  Instalações e recursos: Pesquisas realizadas sua escolaridade e no tempo de serviço, em
nas escolas latino-americanas indicaram que gradação crescente. No entanto, as resenhas das
as instalações e recursos apresentam impacto pesquisas internacionais mostram que em rela-
relativamente pequeno ou moderado, sendo ção ao tempo de experiência, em vez de ter um
o mais importante entre eles os recursos (bi- impacto crescente, parece percorrer uma linha
blioteca, livros didáticos, textos, etc). Estas ascendente depois declinante, pois, de acordo
escolas, mesmos não possuindo uma grande com os estudos, o professor para apresentar
quantidade de material didático, apresentaram maior rendimento satisfatório precisa de cinco
uma notável porcentagem de aproveitamento anos de experiência, e após os 20 anos, entra
na forma eficiente como usavam estes matérias, numa fase de declínio na atividade docente.
especialmente os livros didáticos. Nas escolas Em contrapartida, no caso da América Latina,
do Nordeste do Brasil, as pesquisas revelaram a experiência docente entre 10 e 20 anos favo-
que os equipamentos e a infraestrutura peda- receu o rendimento discente, assim como os
gógica da escola indicam de forma positiva e salários, o vínculo contratual permanente e a
significativa no aproveitamento, principalmente
Nº 10 • Abril/99

formação pós- secundária. As pesquisas ainda


nas oitavas séries. apresentaram que as variáveis como gênero,
 Tamanho da escola e turma: As pesquisas formação pedagógica e formação continuada
14
14
revelaram que as escolas menores apresentam não tiveram impacto significante no rendimen-
jan/2017 maiores vantagens de aproveitamento discente, to discente, porém a variável satisfação com
o salário apresentou um efeito significativo e A alocação da matrícula e a
positivo ao rendimento discente. gestão do espaço
 O clima escolar: O clima escolar apresenta Pesquisas apontam que o critério de distribui-
um impacto muito significativo no rendimento ção de matriculas de acordo com a alocação do
discente, as conclusões convergem para uma aluno, pode acarretar uma escolarização estreita-
atmosfera de encorajamento, altas exigências, mente seletiva, vinculada a renda e aos atributos
tratamento pessoal, liderança (do diretor, que socioculturais do aluno. De acordo com Gomes
tem papel estratégico, e do corpo docente), (2005), para diminuir a desigualdade e segregação
cordialidade, disciplina, relação mais próxima escolar, a setorização da matrícula depende de duas
com a família e os alunos, e parcialmente em condições: (a) que a distribuição da população
consequência disto apoio dos pais. no território não seja demasiado marcado pelas
 A gestão escolar: A autonomia escolar é um diferenças sociais; (b) que a rede particular seja de
tema recorrente quando se trata do sucesso das pouca densidade para não interferir na organização

Princípios que orientam a ação do direitor


do conjunto do sistema.
escolas e dos alunos. Pesquisas apontam que
o compartilhamento de responsabilidade pela
equipe escolar, a não centralização da liderança Diferenças dentro das escolas
na figura do diretor, as normas explicitas, a esta- Acompanhando a estrutura da cebola, após
bilidade no suprimento de recursos, a eficiência abrirmos a camada do efeito escola, temos as ca-
no uso do espaço, do tempo e dos materiais, e madas da sala de aula e dos professores. Entende-
o funcionamento autônomo, estão associados a -se que o clima e a organização do processo de
um resultado positivo ao rendimento do discen- ensino-aprendizagem têm papel relevante e as
condições podem variar tanto de sala para sala
te, fatores estes de uma gestão de autonomia.
quanto em relação a grupos discentes e a alunos
 O efeito dos colegas: Há várias reflexões sobre individualmente.
o impacto que os colegas têm no rendimento do
Gomes (2005) apresenta uma relevante preo-
discente. Uma delas sugere que os seus efeitos
cupação com a hierarquização de status na sala de
resultam de fato de os estudantes internalizarem
aula, uma vez que as expectativas estão associados
as normas da escola para orientar a sua apren-
às posições socioeconômicas, com frequência de-
dizagem e o seu comportamento. Outra sugere terminadas por fontes estruturais de desigualdade.
que os efeitos se devem ao uso da escola como Esta hierarquia acaba levando à dominância de
grupo de referência para fazer comparações so- determinados grupos, de tal maneira que os pro-
bre seu desempenho e desenvolver autopercep- fessores precisam: 1) contrabalançar a composição
ções acadêmica. Uma terceira alternativa, ainda, dos grupos, reunindo alunos que tenham compe-
sugere que os efeitos se devem à modificação tências diferentes, que se equilibrem; 2) examinar
das práticas da escola e dos professores para se criticamente suas expectativas; 3) estimular sobre-
adaptarem às características do corpo discente. tudo os alunos em desvantagens e utilizar o ensino
Por fim, outras pesquisas propõem que os im- cooperativo.
pactos das estruturas educacionais são medidas Outro fator que merece ser destaque de preocu-
por sucessivos níveis da organização social. pação seria a formação de turmas, visto que muitos
Nesta metáfora do sistema educacional com- são os sistemas educacionais que ainda tendem a
parado a uma cebola, Gomes (2005) ressalta que formar turmas de acordo com o aproveitamento,
a camada mais interna da cebola é o discente e é optando pela homogeneidade, em vez da hetero-
necessário que a escola passe por toda estas ca- geneidade. Nesta perspectivas, algumas pesquisas
analisaram que:
Nº 10 • Abril/99

madas acima discutida, para que enfim chegue ao


aluno. As culturas da juventude constituem como   Não há vantagens confirmadas para as turmas
que uma cápsula cujo ingresso nela precisa ser homogêneas, sendo que parte dos estudos dá
ligeira vantagem as classes heterogêneas; 15
15
cuidadosamente negociado, pois é a mais difícil
a ser atingida.   Quanto à regressividade dos efeitos, pode-se jan/2017
recear que, fora de condições experimentais da formação de grupos homogêneos, visto que
rigorosas, os alunos reputados fortes se bene- existe uma persistente tendência de as origens so-
ficiem de ensino qualitativamente superior aos ciais e o capital cultural e social atraírem condições
dos fracos; educacionais correspondentes.
  Quanto às alternativas para a ação, o cami- Por fim, Gomes (2005) conclui que, por mais
nho da aprendizagem individualizada tem reduzida que seja a influência da escola num âmbi-
evidência de fracos benefícios; no entanto, a to geral, é possível atuar sobre os fatores até aqui
organização flexível de grupos homogêneos explorados em formas de camadas, modelando-os
constituídos em função do nível de domínio de modo a oferecer uma educação de qualidade
de uma competência específica traz efeitos para todos. A escola e os discentes não só têm o
positivos inegáveis. seu protagonismo como também a sua margem de
Mesmo as literatura acadêmica apontando influência é mais ampla nos países em desenvol-
vantagens e desvantagens nas turmas homogêneas, vimentos de que nos desenvolvidos. Por isso, os
conjunto das pesquisas de diferentes orientações educadores e a educação podem fazer a diferença.
Princípios que orientam a ação do direitor

teóricas e metodológicas aconselha cautela em face Para tanto é indispensável

Gomez-Granell, Carmem; VILLA, Ignácio (org.). A cidade como


projeto educativo. Porto Alegre: Artmed, 2003.
O livro aborda a relação da escola com a cidade
Resenha elaborada por onde está inserida. Usa a terminologia cidades edu-
Lenita P. M. de Almeida cativas porque parte do princípio de que não adianta
Mestranda do Programa de Educação: apenas uma abordagem de temas como a poluição e
Currículo da PUC-SP a solidariedade em sala de aula para haver uma consci-
ência. É preciso vivenciar os aprendizados socialmente
para incorporá-los. Por isso há que se gerar um pro-
jeto educativo de largo alcance centrado na ideia de
melhorar a cidade e perceber-se como participante
ativo dela para a boa formação do indivíduo.
A cidade de Barcelona, com o Projeto Educa-
tivo da Cidade, destaca-se e apontas direções bas-
tantes positivas nessa jornada. Há outros exemplos
na Itália e no Brasil que também são apontados.
A sociedade como se apresenta hoje está mu-
dando rapidamente. A crise da organização social,
das cidades como o espaço público, o enfraque-
cimento das instituições, evidencia e traz consigo
grandes desafios e oportunidades para a educação.
Construir cidades e organizações socioculturais
que incluam valores educativos e funcionem cada
vez mais amplamente é o objetivo.
Nº 10 • Abril/99

A tecnologia, a mídia e a internet atravessam a


sociedade atual trazendo novas formas de conhecer
e aprender. O uso dessas novas tecnologias e o acesso
16
16
a elas é um traço que deve ser colocado como priori-
jan/2017 dade. O volume de informações recebidas no mundo
atual é imenso e a capacidade de seleção, crítica e pes- lume da “Cidade como projeto educativo” e conta
quisa tem de ser desenvolvida nos jovens e crianças, com os seguintes artigos:
e a escola há de ter um papel muito importante no
desenvolvimento dessas habilidades, uma vez que a 1. Educação, escola, cidade: o
apreensão total dos conhecimentos disponíveis atual- Projeto Educativo da cidade
mente é impossível. “ É preciso aprender a conviver
de Barcelona (Eulália Vintró)
com os meios de comunicação”, diz a autora.
A autora fala do Projeto Educativo de cidade,
Outro traço marcante colocado pela obra é
implantado em Barcelona, a partir de uma reflexão
a crescente exclusão de bens de consumo e de
feita sobre a sociedade espanhola e sua relação com
informação de grande parte da sociedade, o que
a educação. O projeto foi feito com a prefeitura
está criando abismos imensos entre ricos e pobres.
da cidade e propôs profundas mudanças para a
Repensar as cidades como locais de aprendiza- construção de uma sociedade educadora. Dois
gem é fundamental para a proposta de organização processos básicos forma adotados, o primeiro o

Princípios que orientam a ação do direitor


social que é feita pelos autores. A formação de de uma pedagogia da cidade, onde os diversos
pessoas que incluam umas às outras e a formação componentes da cidade participam ativamente
da cidadania precisam ser princípios éticos básicos da construção do currículo, o segundo o de uma
para a compreensão e a construção dessa “nova escrita coletiva de um Plano Educativo de Cidade.
cidade”. O entendimento do coletivo como ho-
A partir daí desencadeia-se uma grande reflexão
mogêneo e multicultural é imprescindível. Viver
e a composição de um caminho que se compõe a
em sociedade passa a ser contribuir ativamente
partir de temas como: sustentabilidade, urbanis-
para aceitação da multiplicidade na convivência.
mo, participação social e meios de comunicação
A igualdade de gênero também aparece fortemente
para a construção de valores de cidadania e comu-
na constituição dos valores familiares.
nidade e para a criação de um novo pacto social
Outro ponto central necessário é a implantação que contemple a municipalização da educação.
de atitudes e atividades sustentáveis. Olhar para
os recursos naturais como necessários e finitos
2. As mudanças tecnológicas
é tornar-se parte constituinte da natureza e do
mundo. e científicas na sociedade
O papel da escola é de um dos componentes
da informação. O papel da
educacionais sociais e não o único. A responsabi- educação (Joan Majó)
lidade tem de ser repartida e devolvida a diversos O autor nos esclarece o termo “sociedade di-
personagens sociais. A vinculação desses agentes gital” trazendo à luz alguns pontos importantes
educativos e o diálogo permanente entre eles é como a nova capacidade humana mundial de
imprescindível. armazenamento de informação a um custo muito
A possibilidade de implantação de um projeto baixo proporcionado pelas inovações tecnológicas
pedagógico de cidade é permeada por algumas e pela digitalização da informação. O mercado
características específicas, passa pelo mapeamento como detentor dos meios de comunicação é outra
das características e possibilidades locais, e por uma característica marcante.
intensa reflexão de quais as qualidades e desafios Trazem mudanças profundas e muito velozes
têm de ser enfrentados. Contar com a administra- na sociedade: o excesso de informação, a mar-
ção do local, entidades e coletivos é imprescindível ginalização dos que não possuem acesso real às
para a disseminação dos ideais e elaboração das tecnologias por não possuírem poder financeiro
novas propostas sociais. para tal, a profunda mudança de característica da
mão-de-obra do fazer para o compreender, o co-
Nº 10 • Abril/99

O livro é uma seleção de artigos de diferentes


autores de diferentes áreas do conhecimento. Tal nhecimento da tecnologia como necessário para ser
composição dá-se pela pluralidade da proposta e absorvido pelo mundo do trabalho, e o crescente
aumento da velocidade de troca de informação. 17
17
convida os leitores à busca de ações para constituir
mais cidades educativas. Trata-se do primeiro vo- O autor traz uma reflexão sobre o aprender jan/2017
e o ensinar do mundo de hoje lembrando que, cepção do mundo onde se está inserido. A não
ao tomar a vida como um ato educativo, deve-se percepção humana sobre a própria fragilidade
aprender o tempo todo. Isso inclui os meios para natural aparece logo no início do texto como
esse aprendizado. Apesar de não apresentar ne- preocupação e risco para a espécie humana, que
nhuma oposição direta à sala de aula o autor cita ocupa globalmente o planeta. O consumo dos
a função de ensinar como imprescindível, porém recursos naturais e as especulações sobre o futuro
separada da função de “dar aula”. Defende que, se do planeta são justificadas e variadas.
o aprendizado é permanente, todas as instituições Se a pretensão é diminuir os resíduos, preci-
que compõem a sociedade têm de ser educativas, samos reduzir o consumo, o que se choca direta-
alinhando-se assim às proposições de cidades edu- mente com os ideais e práticas capitalistas. “(...)
cativas. Coloca ainda que as escolas e as universi- Um modelo de crescimento econômico baseado
dades devem ser instituições que apontam para o no aumento contínuo do fluxo de matéria é insus-
futuro, alerta no entanto para a possibilidade de tentável a longo prazo.”
estarem preparando cidadãos para viverem em um A proposta de mudança vem no termo des-
Princípios que orientam a ação do direitor

formato de sociedade que não existe mais. Aponta materialização das coisas e parte da ideia de cons-
com isso para um possível paradoxo. cientizar as pessoas para as consequências dos
seus pequenos atos diários que tem um impacto
3. Educação: responsabilidade ambiental global irreversível. Para isso propõe-se
social e identidade uma cidade que ofereça condições de mudança
comunitária (Joan Subirats) social de costumes, que vão desde a mobilidade
Trata do projeto de cidade de Barcelona e urbana até o uso de produtos de higiene pessoal.
propõe quatro abordagens de escola. A Escola A reflexão sobre o bem-estar humano e os avanços
Comunitária, a Escola Bairro, a Escola Utilitária tecnológicos compõem a reflexão sugerida para a
e a Escola Identitária. sobrevivência no planeta.

No primeiro caso a escola tem um papel e um


lugar social de comunidade onde a multiplicidade
5. Multiculturalidade: repensar
e as diferenças são aceitas e integradas. a integração socioeducativa
A segunda trata de localização e tradição, ou (Silvia Carrasco)
seja, a localização é a característica da composição No texto, a autora aborda as diferenças e di-
da escola, que ainda não possui projeto de integra- ficuldades de integração entre culturas. O ponto
ção ou construção de identidade. principal do texto é a indisposição social e a difi-
A terceira, a da Escola Utilitária, é a abordagem culdade dos sistemas educacionais de relacionar-
em que a quantidade de atividades e produção é -se com a imigração e a composição social por
o foco prioritário. diferentes culturas.

E por fim, a Escola Identitária é a que tem por


característica uma forte homogeneidade social,
6. A escola diante do desafio
territorial e de valores, mas ainda não dialoga com tecnológico (Eduardo Martí)
seu entorno. O acesso às novas tecnologias na escola é o tema
Em sua conclusão o autor traz a Escola Comu- abordado. Hoje temos em sala de aula diversas tec-
nitária como a sendo a melhor preparada para o nologias, a exemplo inúmeras salas de informática
suporte atual da sociedade e para o crescimento de e uso de variados instrumentos tecnológicos na
redes sociais mais solidárias e saudáveis. escola. Porém a questão focal está em como fazer
com que os alunos e professores se apropriem da
Nº 10 • Abril/99

linguagem da tecnologia e assim empoderem-se


4. O meio ambiente e a
por meio de seu uso. Como destaque de ações
globalização (Salvador Cervera estão a disponibilização das novas tecnologias e
18 e Carmen Gómez-Granell)
18
seu uso cotidiano na escola e em casa, assim como
jan/2017 Os autores abordam a globalização e a per- a formação dos docentes.
TEIXEIRA, Anísio. A escola pública universal e gratuita. Revista
Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v. 26, n.64, p.
3-27, out./dez.1956. Disponível em :HTTP://www.bvansioteixeira.
ufba.br/artigos/gratuita.html
Anísio Teixeira (1900-1971) foi um educador
Resenha elaborada por brasileiro que difundiu, nas décadas de 1920 e
Vanda Bartalini Baruffaldi 1930, os pressupostos da chamada Escola Nova,
Doutora em Linguística e Semiótica pela que valorizava a ênfase no desenvolvimento da
Universidade de São Paulo. inteligência e do espírito crítico em detrimento
Professora das Faculdades Integradas Campos da memorização.

Princípios que orientam a ação do direitor


Salles. O artigo supracitado pode ser dividido em
Coordenadora de cursos de graduação e pós- duas partes:
graduação em Letras. I Análise histórica do movimento educacional
brasileiro;
II Propostas para a educação no Brasil.

I Análise histórica do movimento


educacional brasileiro
Trata-se de um pronunciamento feito durante
uma reunião interamericana de ministros da edu-
cação, levada a efeito no Congresso Nacional de
Lima, Peru, com o objetivo de discutir questões
relacionadas ao ensino fundamental.
A importância fundamental do ensino básico –
primário, na terminologia empregada pelo autor
– e a necessidade de torná-lo universal e gratuito é
a tese defendida por Teixeira em seu discurso. Ele
aponta o aspecto positivo da reunião dos ministros,
que se propõem discutir questões educacionais,
temática significativa, uma vez que, apenas na
América Latina, contavam-se, na época, 59 mi-
lhões de analfabetos, inclusive em idade escolar.
Ainda que o encontro deva ser festejado – as-
sim como outros que se realizaram, no mesmo
período, em diferentes locais como São Paulo,
Ribeirão Preto e Belo Horizonte – não se pode
deixar de destacar que nações desenvolvidas já
haviam percebido, em meados do século XIX, a
importância da educação universal e gratuita. Foi
a luta de Horace Mann, nos EUA, ou de Sarmien-
Nº 10 • Abril/99

to, na Argentina. Nota-se nos brasileiros, dessa


forma, um movimento tardio, anacrônico, na luta
pela igualdade de oportunidades de aprendizado. 19
Sarmiento já apontara a relação existente 19
jan/2017
entre classes que detinham o capital econômico- gens e privilégios. No entanto, para Teixeira, a
-financeiro e classes que mantinham um traba- educação deve solucionar os problemas hori-
lho servil e o grau de escolarização de cada uma zontais - sendo universal – e verticais – demons-
delas. Em outros termos, conforme conclui o trando qualidade de trabalho. Foi essa falta de
educador brasileiro, grupos dominantes e gru- equilíbrio que marcou a iniciativa republicana.
pos subservientes assumiram essa configuração Assim, embora o voto livre e secreto tenha se
em decorrência do desnível na educação formal. tornado uma conquista popular, o ranço bipar-
A discrepância seria intensificada caso se man- tite da sociedade se manteve: permaneceram os
tivesse – como ocorreu e ainda ocorre - uma privilegiados de um lado e os marginalizados de
política educacional elitista. outro, o que levou Cesário Mota a comentar, em
Observando diacronicamente o pensamen- 1894: A democracia sem instrução é uma comédia,
to do Brasil em relação à política educacional, quando não chega a ser uma tragédia (p.13).
Teixeira sustenta que, durante a monarquia, não Prosseguindo sua análise histórica, Teixeira
se constatou a preocupação de elevar o nível de
Princípios que orientam a ação do direitor

lembra que as transformações políticas da dé-


conhecimento da população: havia apenas colé- cada de 20 fortaleceram a tese que defendia a
gios particulares, que ofereciam preparo a quem formação das elites. Dessa forma, aquela que
pudesse pagar. preconizava um ensino primário público e
O viés se alterou na época da instauração gratuito foi abandonada, entrando em vigor
da República, forma de governo que, ainda medidas que, ao proporem a redução da carga
de acordo com Teixeira, atingimos sem prepa- horária, apenas denegriam o processo ensino-
ro. À época, nossos educadores endossaram o -aprendizagem.
pensamento dos colegas do restante do mundo Na década seguinte, incentivou-se a educação
acerca da necessidade de se oferecerem bases secundária de onze anos, de perfil acadêmico.
para a educação popular. O viés elitista permaneceu: mesmo que sob
Podem ser citados, então, nomes que se proje- concessão do Estado, era ministrada por parti-
taram no cenário brasileiro em defesa do ensino culares que, evidentemente, não visavam a um
público, argumentando que ele representaria uma bem comum, mas à formação de uma classe
conquista social (p.2). É o caso de Caetano de dominante.
Campos (1844-1891) e de Cesário Mota (1847- Como sabemos, a década de 30 marcou-
1897), cujas vozes, todavia, não tiveram o vigor -se pelas ações contrárias à democracia. Não
suficiente para modificar as diretrizes da educação obstante a popularidade, Getúlio Vargas, ao
nacional. Dessa forma, manteve-se uma estrutura instalar o espírito totalitarista, fez submergir,
dualista, em que as elites continuaram a impor no país, a ideologia voltada para a educação
seus padrões a uma maioria homogênea que pas- pública e universal. Dessa forma, a geração que
sivamente aceitava essa liderança. liderou o Brasil na década de 40 não conheceu
De qualquer modo abriram-se, então, novas os valores de uma doutrina democrática. Assim,
escolas embora em número insuficiente já que a a política educacional continuou reforçando a
demanda por vaga cresceu desproporcionalmen- presença da tradicional exploração de vanta-
te à oferta. Para sanar o problema, reduziram-se gens: restringem-se os horários, facilitam-se os
os horários de aula e improvisaram-se espaços estudos e, consequentemente, a obtenção dos
que pudessem acolher os interessados em es- diplomas. Como escreve o autor: reacionarismo
tudar; ou seja, aumentou-se a possibilidade de e conservadorismo parecem posições inofensi-
matrícula na escola primária sem que houvesse vas, mas seu preço sempre é alto (p.15).
uma contrapartida na infraestrutura física.
Nº 10 • Abril/99

Pontua Teixeira, entretanto, que a defesa do


Foi descaracterizado, portanto, o movimento ensino universal e gratuito nada tem a ver com
educacional, oferecendo-se uma escola de “faz- ideologias de tendência socialista. Ao contrário,
20
20
-de-conta” e atribuiu-se, à expansão escolar, um a educação pública iguala as condições dos indi-
jan/2017 caráter tumultuário que apenas manteve vanta- víduos e torna-se, por essa razão, um caminho
para a aplicação de um capitalismo sem traços Caberia ao Congresso Nacional votar as leis que
de desvios, intoleráveis ao convívio humano. direcionariam a educação brasileira, estabelecendo
os períodos para todos os níveis de escolarização,
II Caminhos para a educação mas concedendo liberdade de organização seja à
brasileira esfera oficial seja à particular. Segundo os padrões
de Teixeira, em termos de ciclos, a escola se estru-
Para o orador, não se pode impedir a iniciativa
privada de abrir escolas. Mas é fundamental não es- turaria da seguinte forma:
quecer que elas não são acessíveis a grande parte da   seis anos para a escoa primária;
população. Por esse motivo, o Estado, mesmo sem   sete ou cinco anos para a média (conforme
deter o monopólio, é quem deve ministrar a educação incorporasse – ou não – os dois anos comple-
universal e gratuita. Na escola pública, não pode pre- mentares da escola primária de seis).
valecer uma divisão de classes. Antes, aproximam-se Os recursos para serem mantidos esses padrões
seus frequentadores e destroem-se preconceitos. Por seriam retirados dos percentuais previstos na Cons-

Princípios que orientam a ação do direitor


esse motivo, apenas ela é democrática. tituição do país e seriam administrados de forma
De acordo com a proposta de Teixeira, a ad- autônoma e inteligente.
ministração das escolas de nível médio e superior Embora geridas pelo Estado, ressalta Teixeira,
deve ser autônoma enquanto a de nível elementar
é preciso lembrar que os assuntos educacionais
deve ser centralizada, tendo como sede o municí-
não devem ter o ranço da burocracia. Assim, a
pio, enquanto não se puder chegar à sede distrital.
educação pública jamais pode ser tratada como um
As unidades escolares estariam ligadas às três assunto meramente “oficial”. Antes, deve ser vista
instâncias da gestão pública: como um processo de desenvolvimento individual,
  os municípios – subordinados aos Estados, gerido e aferido por profissionais especializados e
sujeitos, por sua vez, às diretrizes da União jamais restrita a um formalismo legal.
- administrariam as escolas e nomeariam os Para o educador brasileiro, portanto, só a escola
professores; pública, gratuita e de qualidade é verdadeiramente
  os estados formariam e licenciariam os docentes; democrática. Apenas devemos lamentar que o
  a federação ditaria as diretrizes e bases a serem Brasil ainda não tenha posto em prática essas ba-
seguidas pelas administrações inferiores, ou ses, que os países hoje tidos como desenvolvidos
seja, estados e municípios. passaram a aplicar já no século XIX.

TORRES, Rosa Maria. Itinerários pela educação latino-americana.


Caderno de viagens. Porto Alegre: Artmed. 2001.
1. Informações iniciais e
Resenha elaborada por Vanda
orientações teóricas
Bartalini Baruffaldi
Rosa Maria Torres é uma pedagoga, linguista
Doutora em Linguística e Semiótica pela e jornalista equatoriana que se dedica a assuntos
Universidade de São Paulo. ligados à área da educação sobre a qual tem livros
Professora das Faculdades Integradas Campos
Nº 10 • Abril/99

e artigos publicados. No campo profissional, as-


Salles. sumiu postos em iniciativas pedagógicas do UNI-
Coordenadora de cursos de graduação e pós- CEF; dirigiu programas propostos pela Fundação
graduação em Letras. 21
21
Kellogg para a América Latina e o Caribe; também
sobre educação manteve uma página semanal no jan/2017
jornal El Commercio. No momento, é pesquisa- São iniciativas simples, frequentemente sem
dora independente. registro e sem pretensão de vir a provocar alguma
Fabricio Caivano – ex-diretor da revista espa- significativa transformação educacional. Segundo
nhola Cuadernos de Pedagogia - escreveu o prefácio. Torres, a inovação é vista, pelos organismos que
Ali se leem observações pertinentes ao trabalho de se preocupam com modificações em larga escala,
Torres. Na página 11, por exemplo, tem-se: como uma semente que está na base de alguma
A autora não reconstrói, como alguns teó- implementação de grande monta.
ricos fazem, uma realidade simples, dicotô- A essa oposição associam-se determinadas
mica, um cenário de bons e maus. designações:
De fato, o objetivo de Torres e o modo de Reforma Inovação
composição da obra não abrem espaço para governamental não governamental
visões maniqueístas, pois ela se propõe oferecer oficial não oficial
ao leitor um painel capaz de expor como se en-
convencional não convencional
Princípios que orientam a ação do direitor

contra a realidade educacional latino-americana.


formal não formal
Por trás de suas observações, descortina-se toda
a complexidade que caracteriza a educação na Essas dicotomias estão enraizadas nas mentes
América Latina. dos que atuam na área educacional, sendo parti-
Não há, portanto, espaço para leitura oficial cularmente forte entre aqueles que transitam na
dos fatos, que só aparece com viés crítico. Torres esfera extraescolar. Estes, em geral, possuem aná-
privilegia, por isso, os detalhes, mas não se perde lises estereotipadas dos problemas pedagógicos,
neles: para além dessa escolha, está presente uma fazendo com que sejam criadas, dessa forma, visões
concepção ideal de escola, a seu ver, um lugar onde antagônicas, prejudiciais ao desenvolvimento do
se cultiva não só o saber mas também a dignidade processo ensino/aprendizagem: há aquela que crê
e a felicidade. que as mudanças devem respeitar o eixo vertical
A apresentação do trabalho – desenvolvida pela (em cima/embaixo); outra que elas devem consi-
própria autora – indica as bases que sustentam sua derar o eixo horizontal (dentro/fora); e ainda uma
análise, sempre crítica. Em Mudança, reforma e outra que vê incompatibilidade entre o público e
inovação em educação, a pesquisadora esclarece o o privado.
que, para ela, distingue os conceitos de reforma e Torres acredita que, quando é considerada
inovação, ou da pequena inovação, como especifica. esta última oposição, público/privado, pode-se
A concretização do primeiro termo – a reforma enveredar por um erro de julgamento. Nesse caso,
– está ligada ao patrimônio governamental, a algo toda vez que são usadas expressões como reforma
que vem “de cima” e está... educativa, melhoria na qualidade de ensino,
mudança na educação, a tendência é considerar
comprometida com a política, com o sis-
tema estatal, com o espaço público, com o que elas se aplicam ao sistema público de ensino
dever ser e a norma, com o massivo e com e não ao privado, como se a escola particular não
o homogêneo, seguindo o clássico esquema tivesse necessidade de rever suas ações. Conclui
vertical de cima para baixo (p.15). Torres na página 16:
A inovação, por seu turno, refere-se ao que é Felizmente e, ao mesmo tempo contraditoria-
local, ao que pertence à microestrutura e surge nos mente, os eixos em cima/embaixo; dentro/fora e
níveis mais baixos da pirâmide que representa o público/privado começam a desmoronar. Hoje,
sistema escolar: dela participam os agentes esco- mais do que no passado, reforma e inovação
lares, as comunidades religiosas, as ONGs, as em- aproximam-se a partir do escolar e do extraescolar,
sendo também redefinidos nesse marco os limites
Nº 10 • Abril/99

presas que apoiam financeiramente essas pequenas


tentativas de modificação. Trata-se, portanto, de e as relações entre público e o privado.
ações dos que atuam no cotidiano de uma escola Na verdade, prossegue ela, tomados isolada-
22
22
- dentro ou fora dela - seja na esfera pública seja mente, os braços dessas dicotomias mostraram-se
jan/2017 na privada. ineficazes, pois a experiência indica que, tanto
nos países mais desenvolvidos como nos menos b.  Itinerário II - As instituições educativas
desenvolvidos, as mudanças educativas não estão c.  Itinerário III - Os educadores
nem em cima nem embaixo; nem dentro nem fora,
d.  Itinerário IV - Experiências inspiradoras
mas sim, no vaivém entre ambos, na articulação
de intenções. e.  Itinerário V - Proposições

Pondera a autora que, quando é analisado o bi- Todos eles são constituídos por pequenos re-
nômio dentro/fora, observa-se que, recentemente, latos que, juntos, formam o painel que retrata a
os projetos da esfera não governamental, apresen- educação na América Latina. Essa arquitetura do
tados com o objetivo de estimular uma melhoria livro dificulta as sínteses dos conteúdos. Por essa
das condições de ensino, têm se aproximado da razão, a leitura dos textos é, sem dúvida, necessária
chamada educação formal - ou de Estado - ocu- para que se possa ter uma visão consistente das
pando espaços nas secretarias de educação, que análises de Rosa María Torres acerca da temática
possibilitam a aplicação de propostas capazes de que se propôs tratar.
abrir caminhos, de provocar readapções da escola,

Princípios que orientam a ação do direitor


a.  Itinerário I - O mundo da educação
de oxigená-la enfim.
Esse capítulo oferece, como o título indica, um
Torres vê, portanto, com ceticismo essas vi- painel de como se apresenta a educação no territó-
sões antagônicas. Acredita que mudanças são rio latino-americano. Nele se encontram dezesseis
imprescindíveis, mas que elas devem pressupor relatos, por meio dos quais entramos em contato
um raciocínio dialético para que possam surtir o com o espírito crítico de Torres e ficamos sabendo,
efeito desejado. entre várias outras informações, que:
  em Pernambuco, há uma escola nova, com um
2. O livro prédio de bom padrão, mobiliário sem uso mas
O que acabou de ser exposto permite antever que que não funciona, porque não há dinheiro para
é o compromisso com a mudança, influenciada por contratar professores;
várias coordenadas, que norteará a feitura do livro.
  as secretarias da educação de vários países possuem
a mesma feição, ou seja, o que é válido para uma
2.1 O livro e suas origens
torna-se válido para as outras. Falta-lhes, portanto,
O trabalho se originou das visitas, das conver- individualidade. Assim, por exemplo, em um pe-
sas, anotações e reflexões feitas por Torres durante queno país caribenho, o diagnóstico em torno da
a série de viagens que ela realizou pelo mundo. São, educação comporta três volumes que, entretanto,
como ela mesma confessa, relatos de viagens, feitos não retratam a realidade local: apenas repetem
“com pouca bagagem: um caderno de anotações, lugares-comuns que poderiam ser aplicados a
uma caneta e um olhar rebelde, mantido pela raiva qualquer outro lugar.
e pela ternura” de acordo com o pensamento de
Citam-se os já rançosos problemas de adminis-
Fabrício Caivano no já citado prefácio. O pano
tração; a necessidade de fortalecer o financiamento
de fundo de todas essas histórias - que, em geral,
para a área; a urgência de priorizar a educação
constam de três a quatro páginas - é, como já se
básica. Enfim, como escreve Torres, abordam-se
registrou, a problemática referente à educação na
mais “os problemas da educação do que a educação
América Latina.
como um problema” (p.30), não se chegando a
nenhum resultado positivo;
2.2. O livro e sua estrutura
  devem ser respeitados e elogiados os esforços
Para tornar coerente o conteúdo do trabalho
dos cubanos, que agiram com determinação
com o formato em que ele seria construído, as
para erradicar o analfabetismo na ilha.
partes, que tradicionalmente recebem o nome de
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capítulos, são aqui denominadas itinerários. 2. Itinerário II- As instituições educativas


Encontram-se, na obra, cinco itinerários (ou Nesse tópico, encontram-se catorze textos
cinco capítulos): 23
23
que focalizam o modo como se operacionaliza a
a.  Itinerário I - O mundo da educação educação em território latino-americano. Dessa jan/2017
coletânea faz parte a professora Raquel, a quem o fazendo-o crer que – como acredita Caivano, no
relato “A escola da professora Raquel” é dedicado. prólogo – com pessoas assim talvez nem tudo
Trata-se de uma escola pública e rural, localiza- esteja perdido (p.12).
da em Querétaro, no México. O clima do lugar em As pessoas que desfilam nos relatos desse
que ela se encontra é seco, mas plantas e árvores Itinerário também são conhecidas de quem mi-
são vistas por todos os lados graças à colaboração lita na educação. São citadas mulheres que, além
dos pais que cuidam da vegetação juntamente com trabalharem em dois períodos na escola, ainda
seus filhos. preenchem suas noites com trabalhos manuais,
De acordo com as palavras de Torres, que serão vendidos a fim de complementar a renda
familiar; professores que lutam para desenvolver
A escola está linda, limpa e bem cuidada. O
um trabalho criativo, mas que encontram resis-
espaço externo não dá ideia de que seja uma
tência dentro e fora da escola; alfabetizadores que
escola, mas um parque (p.91).
enfrentam toda sorte de dificuldades para ensinar
A contribuição da professora Raquel à co-
as letras a seus alunos.
Princípios que orientam a ação do direitor

munidade, entretanto, não se reduz a criar um


Como no caso do capítulo anterior, o que
lugar agradável aos olhos. Nas atividades do dia
cativa, na leitura das histórias narradas, é a sim-
a dia, ao lado da cordialidade com que as pessoas
plicidade, que vem entremeada com forte dose de
são tratadas, valorizam-se também os conteúdos
espírito crítico.
convencionais – as paredes das salas de aulas estão
cobertas por textos produzidos pelos alunos – ao d. Itinerário IV – Experiências inspiradoras
lado da música, do canto, da dança. Da arte, enfim. São treze os relatos que foram agrupados como
Nem todas as experiências retratadas nesse nome de Experiências Inspiradoras. São tratados
Itinerário II, todavia, são positivas. A autora dessa forma os projetos que se encontram há mui-
relata o caso da escola que construiu muros para to tempo em andamento e que podem servir de
evitar a aproximação de pessoas da comunidade orientação a quem procura novos caminhos para
que a direção considerou indesejáveis; comenta o suas atividades de educador.
contrassenso de outra, que solicitava aos alunos o O estilo enxuto, objetivo de Torres está presente
desenvolvimento de determinada tarefa em grupo, também nesse capítulo: o contexto, as condições
mas que tinha as carteiras, feitas de terra, fincadas sociológicas, institucionais e econômicas das rea-
no solo. Torres aponta, igualmente, a falta de lizações são apresentados em poucas, mas esclare-
criatividade que marca, de modo geral, a maneira cedoras linhas.
com que são abordados os conteúdos curriculares.
Leia-se, por exemplo, este trecho do “Teorizar
São retratadas, como se nota, situações de que a prática pedagógica: uma experiência em Passo
todo os educadores têm ciência, mas a abordagem Fundo, Brasil” (pp. 219-223).
dos fatos é simples, objetiva, livre do vocabulário
[…] O programa que descrevo aqui, realiza-
especializado que pode agradar ao mundo acadê-
do em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul,
mico, mas que mascara e não resolve os problemas
Brasil, é uma joia: processo longo, trabalhoso,
essenciais da educação.
extremamente cuidado, registrado e sistema-
c. Itinerário III – Os educadores. tizado na realização, alimentado pela pesquisa
Treze pequenos relatos constituem esse capítu- e, ao mesmo tempo, alimentando-a.
lo, que focaliza os agentes do fazer educativo. Os Torres passa a relatar, então, o que diferencia
protagonistas são dos mais variados matizes: há os esse projeto dos demais: trata-se de uma parceria
professores e as professoras; os alunos e as alunas; entre a escola pública e a universidade, em que
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as mães e alguns pais ao lado de líderes populares esta não assume o clássico papel de capacitadora
e especialistas. No geral, são personagens leves, de professores. Ao contrário, coloca-se a serviço
simples, escondidas no anonimato mas que, pela deles, com o propósito de ajudá-los a recuperar e
24
24
criatividade e seriedade com que se empenham sistematizar seus saberes a fim de torná-los mais
jan/2017 em suas tarefas, elevam-se aos olhos do leitor, eficientes nas atividades de ensinar seus alunos.
Além dessa experiência brasileira, Torres se refe- fato de ali se discutirem mais diretamente alguns
re ainda à “escola itinerante”, projeto denominado problemas do mundo da educação.
“Sementinha”, desenvolvido em Vitória, no ES, e Em “Mais do mesmo: um sistema escolar que
destinado a crianças de quatro a seis anos. se estica”, por exemplo, a autora critica a ideia -
Nessa experiência, não há um espaço fixo para ultimamente em voga - segundo a qual quanto
a aprendizagem. mais tempo o aluno passa na escola, melhor será
Crianças e coordenadores fazem do pró- seu aprendizado. Para a autora, ocorre, nesse ra-
prio bairro espaço de aprendizagem... ciocínio, uma falácia tão grande quanto naquele
Por isso, “Sementinha” é conhecida que defende o predomínio da quantidade do con-
como “a escola debaixo do pé de manga”. teúdo programático sobre a qualidade com que é
(p.233) desenvolvido.
Outros textos possuem títulos que, a princípio,
e. Itinerário V – Proposições parecem supérfluos jogos de palavras, mas que,
Os treze relatos desse tópico teriam, em prin- na verdade, propõem elementos para reflexão

Princípios que orientam a ação do direitor


cípio, o propósito de apontar caminhos para a e, consequentemente, estimulam mudança de
educação. Não é esse conteúdo, entretanto, que atitudes. É o caso de “Melhorar a educação para
se encontra em suas páginas, mesmo porque é aliviar a pobreza ou aliviar a pobreza para melhorar
preciso não esquecer que, durante todo o livro, a educação?”(p, 321) Ou mesmo o subtítulo do
Torres coloca seu leitor em contato com a realidade texto 12: “Uma escola amiga das crianças e dos
das escolas latino-americanas. Ora de forma mais pobres: os alunos pobres primeiro são crianças e
aberta ora sub-repticiamente, vai apresentando seu depois são pobres”.
parecer acerca da maneira como os problemas esco-
lares são tratados, criticando determinadas atitudes 3.Conclusão
e elogiando outras que, a seu ver, são positivas ao A quem tem interesse pelo que ocorre, em
fazer educacional. Nesse seu posicionamento dian- termos de educação, nos países latino-americanos,
te dos fatos, o leitor atento e perspicaz encontra Torres oferece, por meio de textos curtos, bem
caminhos que poderiam ser seguidos para cons- escritos e instigantes, não o registro de uma escola
truir uma escola mais adequada a seus usuários. oficial, inodora, despersonalizada. Seu trabalho
O que talvez particulariza o Itinerário V é o mostra a escola que realmente existe.

SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia: teorias da educação,


curvatura da vara, onze eses sobre a eudcação política. Campinas-
SP: Autores Associados, 2008.

Apresentação do livro
Resenha elaborada por Fábio
O livro está organizado da seguinte maneira:
Cristiano de Moraes
o primeiro texto reproduz o artigo “As Teorias da
Graduado em Filosofia pela PUC-SP Educação e o Problema da Marginalidade na Amé-
Doutorado em Filosofia da Educação pela PUC-SP rica Latina” publicado originalmente em Cadernos
de Pesquisa, nº 42, agosto/82, da Fundação Carlos
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Chagas. Os textos seguintes, “Escola e Democracia


(I)” e “Escola e Democracia (II)” reproduzem,
respectivamente, os artigos “Escola e democracia
25
25
ou a ‘Teoria da Curvatura da Vara’”, Ande, 1981,
e “Escola e Democracia: para além da ‘Teoria da jan/2017
Curvatura da Vara”’, Ande, 1982. O último texto, chamadas “teorias não-críticas”.
“Onze Teses sobre Educação e Política”, foi escrito No segundo grupo de teorias concebe a socie-
especialmente para integrar a presente publicação. dade como sendo essencialmente marcada pela
Seu objetivo é encaminhar, de modo explícito, a divisão entre grupos ou classes antagônicas que
discussão das relações entre educação e política já se relacionam à base da força, a qual se manifesta
que aí reside a questão central que atravessa de fundamentalmente nas condições de produção da
ponta a ponta o conteúdo deste livro. vida material. Nesse quadro, a marginalidade é
entendida como um fenômeno inerente à própria
CAPÍTULO 1: AS TEORIAS DA estrutura da sociedade. Nesse contexto, a educação
EDUCAÇÃO E O PROBLEMA DA é entendida como inteiramente dependente da es-
MARGINALIDADE trutura social geradora de marginalidade. Ela longe
de ser um instrumento de superação da margina-
1.  O PROBLEMA lidade, converte-se num fator de marginalização.
De acordo com estimativas relativas a 1970, Neste grupo estão as chamadas “teorias críticas”.
Princípios que orientam a ação do direitor

“cerca de 50% dos alunos das escolas primárias


desertavam em condições de semianalfabetismo ou 2.  AS TEORIAS NÃO-CRÍTICAS
de analfabetismo potencial na maioria dos países 2.1.  A Pedagogia Tradicional
da América Latina” (Tedesco, 1981, p. 67). Isto A constituição dos chamados “sistemas na-
sem levar em conta o contingente de crianças em cionais de ensino” se dá na transição do “Antigo
idade escolar que sequer têm acesso à escola e que, Regime” para a República, portanto, no decorrer
portanto, já se encontram a priori marginalizadas do XIX. Na República tratava-se, pois, de cons-
dela. Tais dados indicados lançam de imediato em truir uma sociedade democrática, de consolidar a
nossos rostos a realidade da marginalidade relati- democracia burguesa. Só por meio da educação era
vamente ao fenômeno da escolarização. possível transformar os súditos em cidadãos, isto
No que diz respeito à questão da marginalidade, é, em indivíduos livres porque esclarecidos, ilus-
as teorias educacionais podem ser classificadas em trados. Nesse quadro, a causa da marginalidade é
dois grupos: identificada com a ignorância. A escola surge como
I. De um lado estão aquelas teorias que um antídoto à ignorância, logo, um instrumento
entendem ser a educação um instrumento de para equacionar o problema da marginalidade.
equalização social, portanto, de superação da Seu papel é difundir a instrução, transmitir os
marginalidade. conhecimentos acumulados pela humanidade e
sistematizados logicamente. A escola organiza-se
II. Do outro, estão as teorias que entendem
como uma agência centrada no professor, o qual
ser a educação um instrumento de discriminação
transmite, segundo uma gradação lógica, o acer-
social, logo, um fator de marginalização.
vo cultural aos alunos. A estes cabe assimilar os
Ambos os grupos explicam a questão da mar- conhecimentos que lhes são transmitidos. Como
ginalidade a partir de determinada maneira de as iniciativas cabiam ao professor, o essencial era
entender as relações entre educação e sociedade. contar com um professor razoavelmente bem
Para o primeiro grupo a sociedade é concebi- preparado. Assim, as escolas eram organizadas
da como essencialmente harmoniosa, por isso, a na forma de classes, cada uma contando com um
marginalidade é um fenômeno acidental que afeta professor que expunha as lições, que os alunos
individualmente um número maior ou menor de seguiam atentamente, e aplicava os exercícios, que
seus membros, o que, no entanto, constitui um os alunos deveriam realizar disciplinadamente.
desvio, uma distorção que não só pode como Ao entusiasmo dos primeiros tempos sucedeu
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deve ser corrigida. A educação neste contexto progressivamente uma crescente decepção. A re-
emerge como um instrumento de correção dessas ferida escola, além de não conseguir realizar seu
distorções. Ela, de algum modo, promove a coesão desiderato de universalização ainda teve de curvar-
26
26
da sociedade e garante a integração de todos os -se ante o fato de que nem todos os bem-sucedidos
jan/2017 indivíduos no corpo social. Neste grupo estão as se ajustavam ao tipo de sociedade que se queria
consolidar. Começaram, então, a se avolumar as individuais. Eis a “grande descoberta”: os homens
críticas e todo o sistema fica sob suspensão. são essencialmente diferentes; não se repetem;
2.2  A Pedagogia Nova cada indivíduo é único. Marginalizados são os
“anormais”, isto é, os desajustados e inadaptados
As críticas à pedagogia tradicional formuladas
de todos os matizes. Mas a “anormalidade” não
a partir do final do século XIX foram, aos poucos,
é algo, em si, negativo; ela é, simplesmente, uma
dando origem a uma outra teoria da educação.
diferença. A educação, como fator de equalização
Toma corpo, então, um amplo movimento de re-
forma, cuja expressão mais típica ficou conhecida social, será um instrumento de correção da mar-
sob o nome de “escolanovismo”. ginalidade na medida em que cumprir a função de
ajustar, de adaptar os indivíduos à sociedade, incu-
Segundo essa nova teoria, o marginalizado já
tindo neles o sentimento de aceitação dos demais e
não é, propriamente, o ignorante, mas o rejeitado.
pelos demais. A educação será um instrumento de
É interessante notar que alguns dos principais
correção da marginalidade na medida em que con-
representantes da pedagogia nova se converte-
tribui para a constituição de uma sociedade cujos

Princípios que orientam a ação do direitor


ram à pedagogia a partir da preocupação com os
“anormais” (ver, por exemplo, Decroly e Montes- membros, não importam as diferenças de quais-
sori). Ao conceito de “anormalidade biológica” se quer tipos, aceitem-se mutuamente e respeitem-se
acrescenta o conceito de “anormalidade psíquica” na sua individualidade específica.
detectada por testes de inteligência. Deles forja-se, Essa maneira de entender a educação, distancia-
então, uma pedagogia que advoga um tratamento -se da Pedagogia tradicional, porque deslocado o
diferencial a partir da “descoberta” das diferenças eixo da questão pedagógica:
Pedagogia Tradicional Escola Nova
do intelecto para o sentimento
do aspecto lógico do aspecto lógico
dos conteúdos cognitivos para os métodos ou processos pedagógicos
do professor para o aluno
do esforço para o interesse da disciplina para a espontaneidade
do diretivismo para o não-diretivismo
da quantidade para a qualidade
de uma pedagogia de inspiração filosófica para uma pedagogia de inspiração experimental baseada
centrada na ciência da lógica principalmente nas contribuições da biologia e da psicologia
Quadro elaborado por Moraes, 2016. (p. 8)
Em suma, trata-se de uma teoria pedagógica o escolanovismo apresentava sinais visíveis de
que considera que o importante não é aprender, exaustão. As esperanças depositadas na reforma
mas aprender a aprender da escola resultaram frustradas. Diante deste ce-
A Escola Nova não conseguiu, entretanto, alte- nário, articula-se uma nova teoria educacional: a
rar significativamente o panorama organizacional pedagogia tecnicista.
dos sistemas escolares. Isso porque, além de outras A partir do pressuposto da neutralidade cien-
razões, implicava custos bem mais elevados do que tífica e inspirada nos princípios de racionalidade,
aqueles da Escola Tradicional. Paradoxalmente, em eficiência e produtividade, essa pedagogia advoga
lugar de resolver o problema da marginalidade, a a reordenação do processo educativo de manei-
“Escola Nova” o agravou, uma vez que se organi- ra a torná-lo objetivo e operacional. De modo
zou basicamente na forma de escolas experimentais semelhante ao que ocorreu no trabalho fabril,
Nº 10 • Abril/99

ou como núcleos raros, muito bem equipados e pretende-se a objetivação do trabalho pedagógico.
circunscritos a pequenos grupos de elite. Buscou-se planejar a educação de modo a dotá-la
de uma organização racional capaz de minimizar
2.3. A Pedagogia Tecnicista 27
27
as interferências subjetivas que pudessem pôr em
Ao findar a primeira metade do século XX, risco sua eficiência. Para tanto, era mister opera- jan/2017
cionalizar os objetivos e, pelo menos em certos teorias uma cabal percepção da dependência da
aspectos, mecanizar o processo. Por isso: educação em relação à sociedade. É importante
Na pedagogia tecnicista, o elemento principal destacar que a análise, que estas teorias pedagó-
passa a ser a organização racional dos meios, ocu- gicas que desenvolvem, chegam invariavelmente
pando o professor e o aluno posição secundária, à conclusão de que a função própria da educação
relegados que são à condição de executores de um consiste na reprodução da sociedade em que ela se
processo cuja concepção, planejamento, coordena- insere, bem merecem a denominação de “teorias
ção e controle ficam a cargo de especialistas supos- crítico-reprodutivistas”.
tamente habilitados, neutros, objetivos, imparciais. Tais teorias contam com um razoável número
Compreende-se, então, que para a pedagogia de representantes e manifestam-se em diferentes
tecnicista o marginalizado será o incompetente (no versões, em que pesem esse fato, as teorias que tive-
sentido técnico da palavra), isto é, o ineficiente e ram maior repercussão e que alcançaram um maior
improdutivo. A educação contribuirá para superar nível de elaboração são as seguintes: a) “teoria
o problema da marginalidade na medida em que do sistema de ensino como violência simbólica”;
Princípios que orientam a ação do direitor

formar indivíduos eficientes, isto é, aptos a dar b) “teoria da escola como aparelho ideológico de
sua parcela de contribuição para o aumento da Estado (AIE)”; c) “teoria da escola dualista”.
produtividade da sociedade.
3.1. Teoria do Sistema de Ensino como
Atenção, do ponto de vista pedagógico, Violência Simbólica
conclui-se que, se para a pedagogia tradicional a
Esta teoria está desenvolvida na obra A Repro-
questão central é aprender e para a pedagogia nova,
dução: elementos para uma teoria do sistema de
aprender a aprender, para a pedagogia tecnicista o
ensino, de P. Bourdieu e J. C. Passeron (1975). A
que importa é aprender a fazer.
obra é constituída de dois livros. O arcabouço do
A pedagogia tecnicista, ao ensaiar transpor para livro I constitui, mais do que uma sociologia da
a escola a forma de funcionamento do sistema fa- educação, porque não se trata de uma análise da
bril, perdeu de vista a especificidade da educação, educação como fato social, mas da explicitação
ignorando que a articulação entre escola e processo das condições lógicas de possibilidade de toda e
produtivo se dá de modo indireto. Além disso, qualquer educação para toda e qualquer sociedade
a pedagogia tecnicista cruzou com as condições de toda e qualquer época ou lugar.
tradicionais predominantes nas escolas e com a
Por que violência simbólica? Toda e qualquer
influência da pedagogia nova. Nessas condições,
sociedade se estrutura como um sistema de relações
a pedagogia tecnicista acabou por contribuir para
de força material entre grupos ou classes. Sobre
aumentar o caos no campo educativo. Com isso,
a base da força material e sob sua determinação,
o problema da marginalidade só tendeu a se agra-
erige-se um sistema de relações de força simbólica
var: o conteúdo do ensino tornou-se ainda mais
rarefeito e a relativa ampliação das vagas tornou-se cujo papel é reforçar, por dissimulação, as relações
irrelevante em face dos altos índices de evasão e de força material.
repetência. O reforço da violência material se dá pela sua
conversão ao plano simbólico em que se produz e
3. AS TEORIAS CRÍTICO- reproduz o reconhecimento da dominação e de sua
REPRODUTIVISTAS legitimidade pelo desconhecimento (dissimulação)
Essas teorias educacionais trabalhadas até agora de seu caráter de violência explícita. Assim, à vio-
são chamadas de “teorias não-criticas”, porque lência material (dominação econômica) exercida
consideram apenas a ação da educação sobre a pelos grupos ou classes dominantes sobre os gru-
sociedade e desconhecem as determinações sociais pos ou classes dominadas corresponde a violência
Nº 10 • Abril/99

do fenômeno educativo. Inversamente, as teorias simbólica (dominação cultural), esta [violência


do segundo grupo – que serão agora examina- simbólica] se dá de diversas formas: i) formação
das – são críticas, uma vez que postulam não ser da opinião pública pelos meios de comunicação
28
28
possível compreender a educação senão a partir de massa, jornais etc.; II) pregação religiosa; III)
jan/2017 dos seus condicionantes sociais. Há, pois, nessas atividade artística e literária; IV) propaganda e
moda; V) família; e o que nos importa VI) edu- as prisões etc.) e os Aparelhos Ideológicos de
cação. Mais especificamente a ação pedagógica Estado (AIE), que são: AIE religioso (o sistema
institucionalizada, isto é, o sistema escolar. das diferentes Igrejas); AIE escolar (o sistema das
A violência simbólica na escola, de acordo com diferentes escolas públicas e particulares) ; AIE
essa teoria, toma corpo quando a ação pedagógica familiar; AIE jurídico; AIE político (o sistema
(AP) resulta da imposição arbitrária da cultura político de que fazem parte os diferentes partidos)
(também arbitrária) dos grupos ou classes do- AIE sindical; AIE da informação (imprensa, rádio-
minantes aos grupos ou classes dominadas. Essa -televisão etc.), AIE cultural (Letras, Belas-Artes,
imposição, para se exercer, implica necessariamente desportos etc.).
a autoridade pedagógica (AuP), isto é, um poder O conceito “Aparelho Ideológico de Estado”
arbitrário de imposição que, só pelo fato de ser deriva da tese segundo a qual “a ideologia tem
desconhecido como tal, se encontra objetivamente uma existência material”, ela existe sempre radi-
reconhecido como autoridade legítima. A referida cada em práticas materiais reguladas por rituais
ação pedagógica que se exerce pela autoridade materiais definidos por instituições materiais. Em

Princípios que orientam a ação do direitor


pedagógica (AuP) realiza-se pelo trabalho peda- suma, a ideologia materializa-se em aparelhos: os
gógico (TP) entendido: aparelhos ideológicos de Estado. A escola (AIE
[...] como trabalho de inculcação que deve dominante) constitui o instrumento mais acabado
durar o bastante para produzir uma for- de reprodução das relações de produção de tipo
mação durável; isto é, um habitus como capitalista toma a si todas as crianças de todas as
produto da interiorização dos princípios de classes sociais e inculca-lhes durante anos a fio de
um arbitrário cultural capaz de perpetuar-se audiência obrigatória “saberes práticos” envolvidos
após a cessação da ação pedagógica (AP) e na ideologia dominante.
por isso de perpetuar nas práticas os princí- A escola que abrange a quase totalidade das
pios do arbitrário interiorizado (Bourdieu; crianças, reforça a separação social entre elas. A
Passeron, 1975, p. 44, apud Saviani, p. 54) escola reforçará a divisão já existente na sociedade:
A função da educação é a de reprodução das
desigualdades sociais. Pela reprodução cultural, ela
contribui especificamente para a reprodução social.
De acordo com essa teoria, marginalizados são
os grupos ou classes dominadas. Marginalizados
socialmente porque não possuem força material
(capital econômico) e marginalizados culturalmen-
te porque não possuem força simbólica (capital
cultural). E a educação, longe de ser um fator de
superação da marginalidade, constitui um elemen-
to reforçador da mesma. Não há outra alternativa. 1- Estes vão ocupar os próprios postos dos
Toda tentativa de utilizá-la como instrumento de “agentes de exploração” (no sistema produtivo),
superação da marginalidade não é apenas uma dos “agentes da repressão” (nos aparelhos repres-
ilusão. É a forma pela qual ela dissimula e, por sivos de Estado), e dos “profissionais da ideologia”
isso, cumpre eficazmente a sua função de margi- (aparelhos ideológicos do Estado).
nalização. Todos os esforços, ainda que oriundos 2- Outros avançam no processo de escolariza-
dos grupos ou classes dominadas, reverte sempre ção, mas acabam por interrompê-lo, passando a in-
no reforço dos interesses dominantes. tegrar os quadros médios, os “pequenos-burgueses
3.2. Teoria da Escola como Aparelho de toda espécie”.
Nº 10 • Abril/99

Ideológico de Estado (AIE) 3- Uma grande parte (operários e camponeses)


Althusser, pai desta teoria, distingui no Estado cumpre a escolaridade básica e é introduzido no
processo produtivo. 29
29
os Aparelhos Repressivos de Estado (o governo, a
administração, o exército, a polícia, os tribunais, O AIE escolar, em lugar de instrumento de jan/2017
equalização social, constitui um mecanismo cons- Estado, a escola é um instrumento da luta
truído pela burguesia para garantir e perpetuar seus de classes ideológica do Estado burguês,
interesses. No funcionamento do AIE escolar, a onde o Estado burguês persegue objetivos
luta de classes fica praticamente diluída, tal o peso exteriores à escola (ela não é senão um
que adquire aí a dominação burguesa. A luta de instrumento destinado a esses fins). A luta
classes resulta nesse caso heroica, mas inglória, já ideológica conduzida pelo Estado burguês
que sem nenhuma chance de êxito. na escola visa à ideologia proletária que
Em síntese: “Bourdieu-Passeron ou a luta de existe fora da escola nas massas operárias
classes impossível”. e suas organizações. A ideologia proletária
não está presente em pessoa na escola, mas
3.3.  Teoria da Escola Dualista
apenas sob a forma de alguns de seus efeitos
Essa teoria foi elaborada por C. Baudelot e R. que se apresentam como resistências: entre-
Establet e exposta no livro L'École Capitaliste en tanto, inclusive por meio dessas resistências,
France (1971). Chama-se de “teoria da escola dua- é ela própria que é visada no horizonte pelas
Princípios que orientam a ação do direitor

lista”, porque os autores se empenham em mostrar práticas de inculcação ideológica burguesa


que a escola, em que pese a aparência unitária e e pequeno-burguesa (Baudelot; Establet,
unificadora, é uma escola dividida em duas (e não 1971, p. 42 apud Saviani, p.60).
mais do que duas) grandes redes, as quais corres-
No quadro da “teoria da escola dualista” a esco-
pondem à divisão da sociedade capitalista em duas
la tem por missão impedir o desenvolvimento da
classes fundamentais: a burguesia e o proletariado.
ideologia do proletariado e a luta revolucionária.
Como aparelho ideológico, a escola cumpre Para isso ela é organizada pela burguesia como um
duas funções básicas: contribui para a formação da aparelho separado da produção. Ela qualifica o tra-
força de trabalho e para a inculcação da ideologia balho intelectual e desqualifica o trabalho manual,
burguesa. Cumpre assinalar, porém, que não se tra- assim, pode-se concluir que a escola é ao mesmo
ta de duas funções separadas. Pelo mecanismo das tempo um fator de marginalização relativamente à
práticas escolares, a formação da força de trabalho cultura burguesa assim como em relação à cultura
dá-se no próprio processo de inculcação ideoló- proletária. Consequentemente, a escola, longe de
gica. Todas as práticas escolares estão voltadas à ser um instrumento de equalização social, é du-
inculcação ideológica. A escola é, pois, um apare- plamente um fator de marginalização: converte
lho ideológico, isto é, o aspecto ideológico é do- os trabalhadores em marginais, não apenas por
minante e comanda o funcionamento do aparelho referência à cultura burguesa, mas também em
escolar em seu conjunto. Logo, a função precípua relação ao próprio movimento proletário, bus-
da escola é a inculcação da ideologia burguesa, que cando arrancar do seio desse movimento (colocar
é feita de duas formas concomitantes: em primeiro à margem dele) todos aqueles que ingressam no
lugar, a inculcação explícita da ideologia burguesa; sistema de ensino. A escola, vista como aparelho
em segundo lugar, o recalcamento, a sujeição e o ideológico, é um instrumento da burguesia na luta
disfarce da ideologia proletária. ideológica contra o proletariado; a possibilidade
Vê-se, assim, a especificidade dessa teoria. Ela de que a escola se constitua num instrumento de
admite a existência da ideologia do proletariado. luta do proletariado fica descartada.
Considera, porém, que tal ideologia tem origem Em síntese: “Baudelot e Establet ou a luta de
e existência fora da escola, isto é, nas massas classe inútil”.
operárias e em suas organizações. A escola é um
aparelho ideológico da burguesia e a serviço de 4. PARA UMA TEORIA CRÍTICA
seus interesses. Em síntese: DA EDUCAÇÃO
Nº 10 • Abril/99

A contradição principal existe brutalmente As teorias não-críticas têm uma forma de or-
fora da escola sob a forma de uma luta que ganização e funcionamento da escola decorrente
opõe a burguesia ao proletariado: ela se trava de uma proposta pedagógica veiculada pela teoria;
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nas relações de produção, que são relações já as teorias crítico-reprodutivas não contêm uma
jan/2017 de exploração. Como aparelho ideológico de proposta pedagógica. Elas empenham-se tão-so-
mente em explicar o mecanismo de funcionamento a educação compensatória uma teoria educacional
da escola tal como está constituída. Em relação à seja no sentido de uma interpretação do fenômeno
questão da marginalidade: as teorias não-críticas educativo que acarreta determinada proposta peda-
pretendem ingenuamente resolver o problema gógica (como é o caso das teorias não-críticas), seja
da marginalidade por meio da escola sem jamais no sentido de explicitar os mecanismos que regem
conseguir êxito, as teorias crítico-reprodutivistas a organização e funcionamento da educação expli-
explicam a razão do suposto fracasso. Segundo a cando, em consequência, as suas funções (como
concepção crítico-reprodutivista, o aparente fra- é o caso das teorias crítico-reprodutivistas), seja,
casso é, na verdade, o êxito da escola. ainda, no sentido de um esforço para equacionar,
O problema permanece em aberto. E pode ser pela via da compreensão teórica, a questão prática
recolocado nos seguintes termos: é possível encarar da contribuição específica da educação no processo
a escola como uma realidade histórica, isto é, sus- de transformação estrutural da sociedade (como
cetível de ser transformada intencionalmente pela será o caso de uma teoria crítica da educação).
ação humana? Retenhamos da concepção crítico-

Princípios que orientam a ação do direitor


-reprodutivista a importante lição que nos trouxe: CAPÍTULO 2: ESCOLA E
a escola é determinada socialmente; a sociedade DEMOCRACIA I: A TEORIA
em que vivemos, fundada no modo de produção DA CURVATURA DA VARA
capitalista, é dividida em classes com interesses
Movimento do texto.
opostos; portanto, a escola sofre a determinação do
conflito de interesses que caracteriza a sociedade. Num primeiro momento:
Considerando-se que a classe dominante não tem A exposição das três teses.
interesse na transformação histórica da escola, I) do caráter revolucionário da pedagogia da
segue-se que uma teoria crítica (que não seja re- essência e do caráter reacionário da pedagogia da
produtivista) só poderá ser formulada do ponto existência. (tese filosófico-histórica)
de vista dos interesses dos dominados. II) do caráter científico do método tradicional
A questão que devemos enfrentar é: é possível e do caráter pseudocientífico dos métodos novos.
uma teoria da educação que capte criticamente a (tese pedagógico-metodológica)
escola como um instrumento capaz de contribuir III) quando mais se falou em democracia no
para a superação do problema da marginalidade? interior da escola, menos democrática foi a escola;
Uma teoria do tipo enunciado impõe-se a tarefa quando menos se falou em democracia, mais a
de superar tanto o poder ilusório (que caracte- escola esteve articulada com a construção de uma
riza as teorias não-críticas) como a impotência ordem democrática. (tese política educacional).
(decorrente das teorias crítico-reprodutivistas), Após, examine das consequências disso na edu-
colocando nas mãos dos educadores uma arma cação brasileira e, por último, apêndice com uma
de luta capaz de permitir-lhes o exercício de um pequena consideração sobre a “teoria da curvatura
poder real, ainda que limitado. da vara”1.
Haverá um esboço dessa teoria no texto “Escola
e Democracia II: para além da teoria da curvatura 1.  0 HOMEM LIVRE
da vara”. Na antiguidade grega a filosofia da essência não
implicava maiores problemas lá, e a pedagogia que
5. POST-SCRIPTUM decorria dessa filosofia. A essência do homem era
Certamente hão de estranhar que, ao longo de a liberdade e a educação voltava-se para oferecer
um texto versando sobre as teorias da educação e meios para que o homem atingisse a sua essência. A
o problema da marginalidade, não apareceu uma escravatura não era problema, porque os escravos
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palavra sequer sobre “teoria da educação compen- não eram considerados seres humanos. Durante
satória”. Entretanto, devo dizer que não considero a Idade Média concepção essencialista passa pela

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1 Essa teoria da curvatura da vara foi enunciada por Lênin ao ser criticado por assumir posições extremistas e radicais. Lênin responde o
seguinte: “quando a vara está torta, ela fica curva de um lado e se você quiser endireitá-la, não basta colocá-la na posição correta. É
preciso curvá-la para o lado oposto”. jan/2017
perspectiva teológica da criação divina: ao serem do processo político, e, participando do processo
criados os homens segundo uma essência predeter- político, eles consolidariam a ordem democrática,
minada, também já seus destinos eram definidos democracia burguesa, é óbvio, mas o papel polí-
previamente. A diferenciação da sociedade entre tico da escola estava aí muito claro. A escola era
senhores e servos já estava marcada pela própria proposta como condição para a consolidação da
concepção que se tinha da essência humana. Então, ordem democrática.
a essência humana justificava as diferenças. Na
época moderna a burguesia, classe em ascensão, vai
2.  A MUDANÇA DE INTERESSES
advogar a filosofia da essência como um suporte Ocorre que a história vai evoluindo, e a parti-
para a defesa da igualdade dos homens como um cipação política das massas entra em contradição
todo e é justamente a partir daí que ela aciona as com os interesses da própria burguesia. Então,
críticas à nobreza e ao clero. Sobre essa base da para a burguesia defender seus interesses, ela não
igualdade dos homens, de todos os homens, é que tem outra saída senão negar a história, passando
se funda então a liberdade, e é sobre, justamente, a a reagir contra o movimento da história. É nesse
Princípios que orientam a ação do direitor

liberdade que se vai postular a reforma da socieda- momento que a escola tradicional, a pedagogia da
de. Lembrem-se, de passagem, de Rousseau, que essência, já não vai servir e a burguesia vai propor
defendia que tudo é bom enquanto sai do autor das a pedagogia da existência. Com base neste tipo de
coisas. Tudo degenera quando passa às mãos dos pedagogia, considera-se que os homens não são es-
homens. As desigualdades (vejam o Discurso sobre sencialmente iguais; os homens são essencialmente
a Origem da Desigualdade entre os Homens) são diferentes, e nós temos que respeitar as diferenças
geradas pela sociedade. É nesse sentido, então, que entre os homens. Nesse contexto, a pedagogia da
a burguesia vai reformar a sociedade, substituindo essência não deixa de ter um papel revolucionário,
uma sociedade com base num suposto direito pois, ao defender a igualdade essencial entre os ho-
natural por uma sociedade contratual. mens, continua sendo uma bandeira que caminha
na direção da eliminação daqueles privilégios que
Vejam como é que se tece todo o raciocínio.
impedem a realização de parcela considerável dos
Os homens são essencialmente livres; essa liber-
homens. Nesse momento, a classe revolucionária é
dade funda-se na igualdade natural, ou melhor, outra: não é mais a burguesia, é exatamente aquela
essencial dos homens, e se eles são livres, então classe que a burguesia explora.
podem dispor de sua liberdade, e na relação com
os outros homens, mediante contrato, fazer ou não 3.  A FALSA CRENÇA DA ESCOLA NOVA
concessões. É sobre essa base da sociedade con- A segunda tese eu enunciei da seguinte forma:
tratual que as relações de produção vão se alterar: “do caráter científico do método tradicional, e
do trabalhador servo, vinculado à terra, para o do caráter pseudocientífico dos métodos novos”.
trabalhador não mais vinculado à terra, mas livre Nós poderíamos nos lembrar, já diretamente, do
para vender a sua força de trabalho e ele a vende movimento da Escola Nova, que pintou o método
mediante contrato. Então, quem possui os meios tradicional como um método pré-científico, como
de produção é livre para aceitar ou não a oferta de um método dogmático e como um método me-
mão-de-obra, e vice-versa, quem possui a força de dieval. Basta nós nos lembrarmos, por exemplo,
trabalho é livre para vendê-la ou não, para vendê-la de Kilpatrick, Educação para uma Civilização em
a este ou aquele, para vender a quem quiser. Esse Mudança, em que caracteriza a civilização, que
é o fundamento jurídico da sociedade burguesa. foi se construindo com base no surgimento da
No entanto, é sobre essa base de igualdade que vai ciência moderna a partir do Renascimento, como
se estruturar a pedagogia da essência e, assim que sendo a civilização em mudança. Nesse sentido, os
a burguesia se torna a classe dominante, ela vai, métodos tradicionais são remetidos para a Idade
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a partir de meados do século XIX, estruturar os Média, e, portanto, para um caráter pré-científico,
sistemas nacionais de ensino e vai advogar a esco- e mesmo anticientífico ou seja, dogmático. Ora,
larização para todos. Escolarizar todos os homens no entanto, essa crença que a Escola Nova propa-
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era condição para converter os servos em cidadãos, ga é uma crença totalmente falsa. Com efeito, o
jan/2017 era condição para que esses cidadãos participassem chamado ensino tradicional não é pré-científico e
muito menos medieval. Esse ensino tradicional, Isso posto, é possível dizer que a Escola Nova
que predomina ainda hoje nas escolas, constituiu- acabou por dissolver a diferença entre pesquisa e
-se após a Revolução Industrial e implantou-se ensino, sem se dar conta de que, assim fazendo, ao
nos chamados sistemas nacionais de ensino, con- mesmo tempo que o ensino era empobrecido invia-
figurando amplas redes oficiais, criadas a partir bilizava-se também a pesquisa. O ensino não é um
de meados do século XIX, no momento em que, processo de pesquisa. Querer transformá-lo num
consolidado o poder burguês, aciona-se a escola processo de pesquisa é artificializá-lo. Daí o meu
redentora da humanidade, universal, gratuita e prefixo pseudo ao científico dos métodos novos.
obrigatória como um instrumento de consolidação Creio que está demonstrada a minha segunda tese,
da ordem democrática. isto é, o caráter científico do método tradicional
Esse ensino dito tradicional estruturou-se por e o caráter pseudocientífico dos métodos novos.
meio de um método pedagógico, que é o método
5. A ESCOLA NOVA NÃO É
expositivo, que todos conhecem, todos passaram
por ele, e muitos estão passando ainda, cuja ma-
DEMOCRÁTICA

Princípios que orientam a ação do direitor


triz teórica pode ser identificada nos cinco passos Destas duas teses2 extrai-se a terceira: quando
formais de Herbart. Esses passos, que são o passo mais se falou em democracia no interior da escola,
da preparação, da apresentação, da comparação, menos democrática foi a escola; e, quando menos
e assimilação, da generalização e, por último, da se falou em democracia, mais a escola esteve articu-
aplicação, correspondem ao esquema do método lada com a construção de uma ordem democrática.
científico indutivo, tal como fora formulado por Nós sabemos que, em relação à pedagogia
Bacon, método que podemos esquematizar em nova, um elemento que está muito presente nela
três momentos fundamentais: a observação, a é a proclamação democrática, a proclamação da
generalização e a confirmação. Trata-se, portanto, democracia. Aliás, inclusive, o próprio tratamento
daquele mesmo método formulado no interior do diferencial, portanto, o abandono da busca de
movimento filosófico do empirismo, que foi a base igualdade é justificado em nome da democracia
do desenvolvimento da ciência moderna. e é nesse sentido também que se introduzem no
interior da escola procedimentos ditos democrá-
4.  ENSINO NÃO É PESQUISA ticos. Porém essa democracia só serviu a quem
A Escola Nova buscou considerar o ensino não precisava dela. Essas experiências ficaram
como um processo de pesquisa; daí por que ela restritas a pequenos grupos, e nesse sentido elas
se assenta no pressuposto de que os assuntos de se constituíram, em geral, em privilégios para os
que trata o ensino são problemas. Nesse sentido, já privilegiados, legitimando as diferenças. Em
o ensino seria o desenvolvimento de uma espécie contrapartida, os homens do povo continuaram
de projeto de pesquisa, que tem cinco passos: o a ser educados basicamente segundo o método
ensino seria uma atividade (lº passo) que, suscitan- tradicional. Os pais das crianças pobres têm uma
do determinado problema (2º passo), provocaria consciência muito clara de que a aprendizagem
o levantamento dos dados (3º passo), a partir dos implica a aquisição de conteúdos mais ricos, têm
quais seriam formuladas as hipóteses (4º passo) uma consciência muito clara de que a aquisição
explicativas do problema em questão, empreen- desses conteúdos não se dá sem esforço, não se
dendo alunos e professores, conjuntamente, a ex- dá de modo espontâneo. O papel do professor é
perimentação (5º passo), que permitiria confirmar o de garantir que o conhecimento seja adquirido,
ou rejeitar as hipóteses formuladas. às vezes mesmo contra a vontade imediata da
Em suma, nos métodos novos, privilegiam- criança, que espontaneamente não tem condi-
-se os processos de obtenção dos conheci- ções de enveredar para a realização dos esforços
mentos, enquanto nos métodos tradicionais, necessários à aquisição dos conteúdos mais ricos
Nº 10 • Abril/99

privilegiam-se os métodos de transmissão dos e sem os quais ela não terá vez, não terá chance
conhecimentos já obtidos. de participar da sociedade.
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2 Vale lembrar: I) do caráter revolucionário da pedagogia da essência e do caráter reacionário da pedagogia da existência; II) do caráter
científico do método tradicional, e do caráter pseudocientífico dos métodos novos. 33
jan/2017
É nesse sentido que quando mais se falou em passou a significar ser escolanovista. E aqueles
democracia no interior da escola (na escola nova), movimentos sociais, de origem, por exemplo,
menos democrática ela foi (porque ela foi um anarquista, socialista, marxista, que conclamavam
privilégio para poucos), e quando menos se falou o povo a se organizar e reivindicar a criação de
em democracia (pedagogia tradicional), mais ela escolas para os trabalhadores, perderam a vez, e
esteve articulada com a construção de uma ordem todos os progressistas em educação tenderam a
democrática (porque atingia a todos, indiscrimi- endossar o credo escolanovista. Bem, eu poderia
nadamente). me estender, puxar o fio da história, de 1930 até
agora, mas vamos fazer um corte, e vou tomar a
6. ESCOLA NOVA: A HEGEMONIA DA reforma de 1971 como uma outra indicação prática
CLASSE DOMINANTE da tese aposta atrás.
Passemos às consequências, tomemos dois mo- O que fez a Lei n. 5.692? Tomemos, por exem-
mentos para ilustrar: o primeiro momento seria plo, o princípio de flexibilidade, que é a chave
em torno da década de 1930 e o segundo seria na da lei, que é a grande descoberta dessa lei, a sua
Princípios que orientam a ação do direitor

década de 1970. grande inovação. Devido a essa flexibilidade, ins-


Escola Nova toma força no Brasil exatamente a tituiu-se, por exemplo, aquela diferenciação entre
partir da década de 1930. O ano de 1924 foi mar- terminalidade real e terminalidade legal ou ideal.
cado pela da criação da ABE (Associação Brasileira Em relação a essa diferenciação entre terminalidade
de Educação), em 1927 aconteceu a I Conferência ideal e terminalidade real, diz-se comumente o
Nacional de Educação, em 1932 ocorreu o lan- seguinte: todo o conteúdo de aprendizagem do lº
çamento do Manifesto dos Pioneiros. Estas três grau será dado em oito anos; eis o legal, ou seja, o
datas são o marco da ascendência escolanovista ideal. Mas, naqueles lugares em que não há con-
no Brasil, movimento este que atingiu o seu auge dições de se ter escola de oito anos, então que se
por volta de 1960. organize esse conteúdo para seis anos, em outros,
O que queria destacar em relação ao momento para quatro ou para dois, e assim por diante. Este
de 1930 é, basicamente, o seguinte: o contraste é o aligeiramento do ensino destinado às camadas
entre o “entusiasmo pela educação” e “otimismo populares. Dessa maneira, o ensino das camadas
pedagógico”. O entusiasmo pela educação pensava populares pode ser aligeirado até o nada, até se
a escola como instrumento de participação política, desfazer em mera formalidade. Outra “descoberta”
isto é, pensava-se a escola com uma função expli- da Lei n. 5.692 foi a reformulação curricular por
citamente política. Com o escolanovismo, o que meio de atividades, áreas de estudos e disciplinas,
ocorreu foi que a preocupação política em relação determinando que o ensino, nas primeiras oito
à escola refluiu. De uma preocupação em articular séries, se desenvolvesse predominantemente sob a
a escola como um instrumento de participação po- forma de atividades e áreas de estudo. Ora, essas
lítica, de participação democrática, passou-se para atividades e áreas de estudos são outra maneira de
o plano técnico-pedagógico. Daí essa expressão de diluir o conteúdo da aprendizagem das camadas
Jorge Nagle: “otimismo pedagógico”. Passou-se populares; e todos sabem que isso efetivamente
do “entusiasmo pela educação”, quando se acredi- ocorreu e vem ocorrendo.
tava que a educação poderia ser um instrumento É por isso que é preciso enfatizar que, contra
de participação das massas no processo político, essa tendência de aligeiramento do ensino des-
para o “otimismo pedagógico”, em que se acredita tinado às camadas populares, nós precisaríamos
que as coisas vão bem e resolvem-se nesse plano defender o aprimoramento exatamente do ensi-
interno das técnicas pedagógicas. no destinado às camadas populares. Essa defesa
Em suma, o movimento de 1930, no Brasil, implica a prioridade de conteúdo. Os conteúdos
Nº 10 • Abril/99

devido à ascensão do escolanovismo, correspon- são fundamentais e sem conteúdos relevantes,


deu a um refluxo e até a um desaparecimento conteúdos significativos, a aprendizagem deixa
daqueles movimentos populares que advogavam de existir, ela transforma-se num arremedo, ela
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uma escola mais adequada aos seus interesses. E transforma-se numa farsa. É fundamental que
jan/2017 por que isso? A partir de 1930, ser progressista se entenda isso e que, no interior da escola, nós
atuemos segundo essa máxima: a prioridade de inflexão a vara atinja o seu ponto correto, o qual
conteúdo, que é a única forma de lutar contra a não está também na pedagogia tradicional, mas
farsa do ensino. O domínio da cultura constitui na valorização dos conteúdos que apontam para
instrumento indispensável para a participação uma pedagogia revolucionária. Esta identifica as
política das massas. O dominado não se liberta se propostas burguesas como elementos de recom-
ele não vier a dominar aquilo que os dominantes posição de mecanismos hegemônicos e dispõe-se a
dominam. Então, dominar o que os dominantes lutar concretamente contra a recomposição desses
dominam é condição de libertação. mecanismos de hegemonia, no sentido de abrir
Associada a essa prioridade de conteúdo é espaço para as forças emergentes da sociedade, para
fundamental que se esteja atento para a importân- as forças populares, para que a escola se insira no
cia da disciplina, quer dizer, sem disciplina esses processo mais amplo de construção de uma nova
conteúdos relevantes não são assimilados. Então, sociedade.
nós conseguiríamos fazer uma profunda reforma
na escola, a partir de seu interior, se passássemos a CAPÍTULO 3: ESCOLA E

Princípios que orientam a ação do direitor


atuar segundo esses pressupostos e mantivéssemos DEMOCRACIA II: PARA ALÉM DA
uma preocupação constante com o conteúdo e TEORIA DA CURVATURA DA VARA
desenvolvêssemos aquelas fórmulas disciplinares,
É útil reproduzir de início as teses defendidas
aqueles procedimentos que garantissem que esses
atrás:
conteúdos fossem realmente assimilados. Por
exemplo, o problema dos alunos das camadas Primeira tese (filosófico-histórica)
populares nas salas de aula implica redobrados   Do caráter revolucionário da pedagogia da
esforços por parte dos responsáveis pelo ensino, essência (pedagogia tradicional) e do caráter
por parte dos professores, mais diretamente. O reacionário da pedagogia da existência (peda-
que ocorre, geralmente, é que, as condições de gogia nova).
trabalho, o próprio modelo que impregna a ativi- Segunda tese (pedagógico-metodológica)
dade de ensino, as exigências e expectativas a que
  Do caráter científico do método tradicional e
são submetidos professores e alunos, tudo isso
do caráter pseudocientífico dos métodos novos.
faz com que o próprio professor tenda a cuidar
mais daqueles que têm mais facilidade, deixando Terceira tese (especificamente política)
à margem aqueles que têm mais dificuldade. E é   De como, quando menos se falou em demo-
assim que nós acabamos, como professores, no cracia no interior da escola, mais ela esteve
interior da sala de aula, reforçando a discriminação articulada com a construção de uma ordem
e sendo politicamente reacionários. democrática; e quando mais se falou em de-
Quanto ao apêndice, relativo à “teoria da mocracia no interior da escola, menos ela foi
curvatura da vara”, faço apenas um comentário democrática
rápido e encerro. Na verdade, introduzi esse Como se percebe de imediato, o próprio
apêndice simplesmente pelo seguinte: a ênfase que enunciado dessas proposições evidencia que, mais
dei, invertendo a tendência corrente, decorre da do que teses, elas funcionam como antíteses por
consideração de que, na tendência corrente, a vara referência às idéias dominantes nos meios edu-
está torta; está torta para o lado da pedagogia da cacionais. É este sentido de negação frontal das
existência, para o lado dos movimentos da Escola teses correntes que se traduz metaforicamente na
Nova. E é nesse sentido que o raciocínio habitual expressão “teoria da curvatura da vara”. E para
tende a ser o seguinte: as pedagogias novas são isso nada melhor do que demonstrar a falsidade
portadoras de todas as virtudes, enquanto a peda- daquilo que é tido como obviamente verdadei-
Nº 10 • Abril/99

gogia tradicional é portadora de todos os defeitos ro demonstrando ao mesmo tempo a verdade


e de nenhuma virtude. O que se evidencia pelas daquilo que é tido como obviamente falso. O
minhas teses é justamente o inverso. Creio ter objetivo ao introduzir no debate educacional a
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conseguido fazer curvar a vara para o outro lado. “teoria da curvatura da vara” foi o de polemizar,
A minha expectativa é justamente que com essa abalar, desinstalar, inquietar, fazer pensar. Neste jan/2017
texto pretende-se prosseguir o debate tentando missão de conhecimentos, de conteúdos culturais,
ultrapassar o momento da antítese na direção do marca distintiva da pedagogia da essência. Ou
momento da síntese. seja, a pressão em direção à igualdade real implica
a igualdade de acesso ao saber, portanto, a distri-
1. PEDAGOGIA NOVA E PEDAGOGIA DA buição igualitária dos conhecimentos disponíveis.
EXISTÊNCIA Contra a busca de igualdade real (desejo da
Entendidas em sentido amplo, as expressões escola tradicional), a burguesia reagiu. O movi-
“pedagogia nova” e “pedagogia da existência” mento da Escola Nova funcionou como meca-
equivalem-se, pois são tributárias da concepção nismo de recomposição da hegemonia burguesa.
humanista moderna de Filosofia da Educação, que Isto porque subordinou as aspirações populares
se centra na vida, na existência, na atividade, por aos interesses burgueses, tornando possível à
oposição à concepção tradicional que se centrava classe dominante apresentar-se como a principal
no intelecto, na essência, no conhecimento. Con- interessada na reforma da escola, reforma esta que
tudo, assim como não se ignora a diversidade de viria finalmente a atender aos interesses de toda
Princípios que orientam a ação do direitor

correntes filosóficas, também não se perde de vista a sociedade contemplando ao mesmo tempo suas
a existência de diferentes nuanças pedagógicas no diferentes aspira¬ções, capacidades e possibilida-
bojo do que denominamos “concepção ‘humanista’ des. Com isso, a importância da transmissão de
moderna de filosofia da educação”. Em outros ter- conhecimentos foi secundarizada e subordinada
mos: as expressões “pedagogia nova” e “pedagogia a uma pedagogia das diferenças, centrada nos
da existência” equivalem-se sob a condição de não métodos e processos: a pedagogia da existência
reduzir a primeira à pedagogia escolanovista e a ou pedagogia nova.
segunda, à pedagogia existencialista.
Para além da pedagogia tradicional ou nova, uma
2. PARA ALÉM DAS PEDAGOGIAS DA pedagogia verdadeiramente revolucionária centra-se
na igualdade essencial entre os homens, deve enten-
ESSÊNCIA E DA EXISTÊNCIA
der essa a igualdade em termos reais e não apenas
Nas pedagogias da essência e da existência está
formais. Busca converter-se, articulando-se com as
ausente a perspectiva historicizadora. Falta-lhes a
forças emergentes da sociedade, em instrumento
consciência dos condicionantes histórico-sociais da
a serviço da instauração de uma sociedade iguali-
educação. São, pois, ingênuas e não críticas já que é
tária. Para isso, a pedagogia revolucionária, longe
próprio da consciência crítica saber-se condiciona-
de secundarizar os conhecimentos descuidando de
da, determinada objetivamente, materialmente, ao
sua transmissão, considera a difusão de conteúdos
passo que a consciência ingênua é aquela que não
vivos e atualizados, uma das tarefas primordiais do
se sabe condicionada, mas, ao contrário, acredita-se
processo educativo em geral e da escola em parti-
superior aos fatos, imaginando-se mesmo capaz de
cular. Em suma: a pedagogia revolucionária não vê
determiná-los e alterá-los por si mesma.
necessidade de negar a essência para admitir o cará-
Foi destacado que o caráter revolucionário da ter dinâmico da realidade como o faz a pedagogia
pedagogia da essência centra-se na defesa intran- da existência, inspirada na concepção “humanista”
sigente da igualdade essencial entre os homens. É moderna de filosofia da educação. Também não vê
preciso insistir em que tal posição tinha um caráter necessidade de negar o movimento para captar a
revolucionário na fase de constituição do poder essência do processo histórico como o faz a pedago-
burguês e não o deixa de ter agora, preciso, no en- gia da essência inspirada na concepção “humanista”
tando, acrescentar que seu conteúdo revolucioná- tradicional de filosofia da educação. A pedagogia
rio é histórico, isto é, modifica-se historicamente. revolucionária é crítica. E, por ser crítica, sabe-se
O acesso das camadas trabalhadoras à escola condicionada. Longe de entender a educação como
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implica a pressão no sentido de que a igualdade determinante principal das transformações sociais,
formal (todos são iguais perante a lei), se trans- reconhece ser ela elemento secundário e determi-
forme em igualdade real (todos têm possibilidade nado. Entretanto, longe de pensar, como o faz a
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de acesso aos bens essências à existência). Para concepção crítico reprodutivista, que a educação
jan/2017 igualdade real tomar corpo é importante a trans- é determinada unidirecionalmente pela estrutura
social dissolvendo-se a sua especificidade, entende com os interesses populares novos mecanismos
que a educa¬ção se relaciona dialeticamente com de recomposição de hegemonia são acionados: os
a sociedade. Nesse sentido, ainda que elemento meios de comunicação de massa e as tecnologias de
determinado, não deixa de influenciar o elemento ensino. Passa-se, então, a minimizar a importância
determinante. Ainda que secundário, nem por isso da escola e a se falar em educação permanente,
deixa de ser instrumento importante e por vezes educação informal etc. No limite, chega-se mesmo
decisivo no processo de transformação da sociedade. a defender a destruição da escola. Quem defende a
A pedagogia revolucionária situa-se além das desescolarização são os já escolarizados, para eles a
pedagogias da essência e da existência. Supera-as, escola não tem mais importância uma vez que eles
incorporando suas críticas recíprocas numa pro- já se beneficiaram dela. Os ainda não escolarizados,
posta radicalmente nova. O cerne dessa novidade estes estão interessados na escolarização e não na
radical consiste na superação da crença na auto- desescolarização.
nomia ou na dependência absolutas da educação Uma pedagogia articulada com os interesses
em face das condições sociais vigentes. populares valorizará, pois, a escola; portanto,

Princípios que orientam a ação do direitor


estará interessada em métodos de ensino eficazes.
3. PARA ALÉM DOS MÉTODOS NOVOS
Tais métodos situar-se-ão para além dos métodos
E TRADICIONAIS tradicionais e novos, superando por incorporação
Na segunda tese do texto anterior questionei as contribuições de uns e de outros. Serão méto-
com isso o principal argumento da crítica escola- dos que:
novista ao método tradicional de ensino. Porém, i) estimularão a atividade e iniciativa dos alunos
a crítica escolanovista atingiu não tanto o método sem abrir mão, porém, da iniciativa do professor;
tradicional, mas a forma como esse método se
ii) favorecerão o diálogo dos alunos entre si e com o
cristalizou na prática pedagógica, tornando-se
professor, mas sem deixar de valorizar o diálogo
mecânico, repetitivo, desvinculado das razões e
com a cultura acumulada historicamente;
finalidades que o justificavam. Críticas também
foram dirigidas à escola nova, pois ela na prática iii) levarão em conta os interesses dos alunos, os
teve o efeito de aprimorar a educação das elites e ritmos de aprendizagem e o desenvolvimento
esvaziar ainda mais a educação das massas. Isto psicológico, mas sem perder de vista a sistemati-
porque, realizando-se em algumas poucas escolas, zação lógica dos conhecimentos, sua ordenação e
exatamente naquelas frequentadas pelas elites, a gradação para efeitos do processo de transmissão-
proposta escolanovista contribuiu para o aprimo- -assimilação dos conteúdos cognitivos.
ramento do nível educacional da classe dominante, Os métodos tradicionais assim como os novos
aumentando assim a desigualdade. implicam uma autonomização da pedagogia em
Ora, se o principal problema da pedagogia nova relação à sociedade. Os métodos que preconizo
está no seu efeito discriminatório, surge, então, a mantêm continuamente presente a vinculação
questão: os métodos novos não seriam generali- entre educação e sociedade. Enquanto no primeiro
záveis? E nessa direção que surgem tentativas de caso professor e alunos são sempre considerados
constituição de uma espécie de “Escola Nova Po- em termos individuais, no segundo caso, professor
pular”. Exemplo dessa tentativa é o “Movimento e alunos são tomados como agentes sociais. Assim,
Paulo Freire de Educação” no Brasil. Com efeito, se fosse possível traduzir os métodos de ensino que
de modo especial no caso de Paulo Freire, é nítida estou propondo na forma de passos à semelhança
a inspiração da “concepção ‘humanista’ moderna dos esquemas de Herbart e de Dewey, eu diria que:
de filosofia da educação”, por meio da corrente 1. O ponto de partida do ensino prática social
personalista (existencialismo cristão). (primeiro passo), que é comum a professor
Nº 10 • Abril/99

Esse fenômeno histórico do surgimento da- e alunos em relação a essa prática comum, o
quilo que chamei de “Escola Nova Popular” põe professor assim como os alunos podem se posi-
em evidência que a questão escolar na sociedade cionar diferentemente enquanto agentes sociais
37
37
capitalista é objeto de disputa, quando surgem diferenciados. E do ponto de vista pedagógico
propostas de renovação pedagógica articuladas há uma diferença essencial que não pode ser jan/2017
perdida de vista: o professor, de um lado, e
os alunos, de outro, encontram-se em níveis
diferentes de compreensão (conhecimento e
experiência) da prática social. Enquanto o pro-
fessor tem uma compreensão que poderíamos
denominar de “síntese precária”, a compreensão
dos alunos é de caráter sincrético.
2. O segundo passo é a Problematização.
Trata-se de detectar que questões precisam ser
resolvidas no âmbito da prática social e, em
Moraes, 2016
consequência, que conhecimento é necessário
dominar. A compreensão da prática social passa por uma
alteração qualitativa. Consequentemente, a prática
3. O terceiro passo pode ser chamado de instru-
social referida no ponto de partida (primeiro pas-
Princípios que orientam a ação do direitor

mentalização. Obviamente, não cabe entender


so) e no ponto de chegada (quinto passo) é e não
a referida instrumentalização em sentido tecnicista.
é a mesma. É a mesma, uma vez que é ela própria
Trata-se da apropriação pelas camadas populares
que constitui ao mesmo tempo o suporte e o con-
das ferramentas culturais necessárias à luta social
texto, o pressuposto e o alvo, o fundamento e a
que travam diuturnamente para se libertar das
finalidade da prática pedagógica. E não é a mesma,
condições de exploração em que vivem.
se considerarmos que o modo de nos situarmos
4. O quarto passo levo o nome de catarse, en- em seu interior se alterou qualitativamente pela
tendida na acepção gramsciana de “elaboração mediação da ação pedagógica.
superior da estrutura em superestrutura na
As reflexões desenvolvidas podem ser consi-
consciência dos homens” (Gramsci, 1978,
deradas uma tentativa de aduzir elementos para
p. 53). Trata-se da efetiva incorporação dos
a explicitação de uma definição de educação na
instrumentos culturais, transformados agora
qual venho insistindo há alguns anos. Trata-se da
em elementos ativos de transformação social.
conceituação de educação como “uma atividade
5. O quinto passo, o ponto de chegada, é nova- mediadora no seio da prática social global”. Daí
mente a própria prática social, compreendida porque a prática social foi tomada como ponto
agora não mais em termos sincréticos pelos de partida e ponto de chegada na caracterização
alunos. Neste ponto, ao mesmo tempo que os dos momentos do método de ensino por mim
alunos ascendem ao nível sintético em que, por preconizado. É fácil identificar aí o entendimento
suposto, já se encontrava o professor no ponto da educação como mediação no seio da prática
de partida, reduz-se a precariedade da síntese social. A proposta que apresentado é, em síntese,
do professor, cuja compreensão se torna mais e o movimento que vai da síncrese (“a visão caótica
mais orgânica. Essa elevação dos alunos ao nível do todo”) à síntese (“uma rica totalidade de deter-
do professor é essencial para se compreender a minações e de relações numerosas”) pela mediação
especificidade da relação pedagógica. Daí por da análise (“as abstrações e determinações mais
que o momento catártico pode ser considerado simples”) constituindo uma orientação segura
o ponto culminante do processo educativo, já tanto para o processo de descoberta de novos
que é aí que se realiza pela mediação da análise conhecimentos (o método científico) como para
levada a cabo no processo de ensino, a passagem o processo de transmissão-assimilação de conhe-
da síncrese à síntese. cimentos (o método de ensino).
Por isso, é possível dizer que a educação é uma
atividade que supõe uma heterogeneidade real e 4. PARA ALÉM DA RELAÇÃO
Nº 10 • Abril/99

uma homogeneidade possível; uma desigualdade AUTORITÁRIA OU DEMOCRÁTICA NA


no ponto de partida e uma igualdade no ponto SALA DE AULA
38 de chegada.
38
Considerando-se, como já se explicitou, que,
jan/2017 Em síntese: dado o caráter da educação como mediação no seio
da prática social global, a relação pedagógica tem implica uma desigualdade real e uma igualdade
na prática social o seu ponto de partida e seu ponto possível. Consequentemente, uma relação pedagó-
de chegada, resulta inevitável concluir que o critério gica identificada como supostamente autoritária,
para se aferir o grau de democratização atingido no quando vista pelo ângulo do seu ponto de partida,
interior das escolas deve ser buscado na prática social. pode ser, ao contrário, democrática, se analisada a
partir do ponto de chegada, ou seja, pelos efeitos
Se é razoável supor que não se ensina demo-
que acarreta no âmbito da prática social global.
cracia através de práticas pedagógicas antide-
Inversamente, uma relação pedagógica vista como
mocráticas, nem por isso se deve inferir que a
democrática pelo ângulo de seu ponto de partida
democratização das relações internas à escola é
não só poderá como tenderá, dada a própria natu-
condição suficiente de democratização da socie-
reza do fenômeno educativo nas condições em que
dade. Entendo, pois, que o processo educativo é
vigora o modo de produção capitalista, a produzir
passagem da desigualdade à igualdade. Portanto,
efeitos socialmente antidemocráticos.
só é possível considerar o processo educativo em

Princípios que orientam a ação do direitor


seu conjunto como democrático sob a condição 5. CONCLUSÃO: A CONTRIBUIÇÃO DO
de se distinguir a democracia como possibilidade PROFESSOR
no ponto de partida e a democracia como reali-
Evidentemente, a proposição pedagógica apre-
dade no ponto de chegada. Consequentemente,
sentada aponta na direção de uma sociedade em
aqui também vale o aforismo: democracia é uma
que esteja superado o problema da divisão do sa-
conquista; não um dado. Este ponto, porém, é de
ber. Entretanto, ela foi pensada para ser implemen-
fundamental importância. Com efeito, assim como
tada nas condições da sociedade brasileira atual,
a afirmação das condições de igualdade como
na qual predomina a divisão do saber. Entendo,
uma realidade no ponto de partida torna inútil
pois, que um maior detalhamento dessa proposta
o processo educativo, também a negação dessas
implicaria a verificação de como ela se aplica (ou
condições como uma possibilidade no ponto de
não se aplica) às diferentes modalidades de traba-
chegada inviabiliza o trabalho pedagógico.
lho pedagógico em que se reparte a educação nas
Em síntese, não se trata de optar entre relações condições brasileiras atuais.
autoritárias ou democráticas no interior da sala
de aula, mas de articular o trabalho desenvolvido
nas escolas com o processo de democratização
CAPÍTULO 4: ONZE TESES SOBRE
da sociedade. A prática pedagógica contribui de EDUCAÇÃO E POLÍTICA
modo específico, isto é, propriamente pedagógico, De uns tempos para cá, tornou-se lugar-comum
para a democratização da sociedade na medida em a afirmação de que a educação é sempre um ato
que se compreende como se coloca a questão da político. Obviamente, trata-se de um slogan que
democracia relativamente à natureza própria do tinha por objetivo combater a ideia anteriormente
trabalho pedagógico. Foi isso o que tentei indicar dominante segundo a qual a educação era enten-
ao insistir em que a natureza da prática pedagógica dida como um fenômeno estritamente técnico-
-pedagógico, portanto, inteiramente autônomo
e independente da questão política. Entretanto,
corre-se o risco de se identificar educação com po-
lítica, a prática pedagógica com a prática política,
dissolvendo-se, em consequência, a especificidade
do fenômeno educativo.
Cabe, pois, indagar: educação e política se
equivalem, se identificam? Se são diferentes, em
Nº 10 • Abril/99

que consiste a diferença? Entendo que educação


e política, embora inseparáveis, não são idênticas.
Trata-se de práticas distintas, dotadas cada uma de
39
39
especificidade própria. Em que consiste a especi-
ficidade de cada uma dessas práticas? jan/2017
Especificidade da educação Especificidade da política
Na educação configura uma relação que …ao contrário… Na política a relação é de antagônicos.
se trava entre não-antagônicos
Na educação, educador está a serviço dos …ao contrário… Na política, o politica está a serviço de
interesses do educando. seus ideais.
Na educação o objetivo é convencer …ao contrário… Na política o objetivo é vencer.
Educador acredita estar sempre agindo …ao contrário… O político nunca agirá para o bem do
para o bem dos educandos/do outro. outro.
Os educandos não veem o educador como …ao contrário… As oposições contrárias se veem como
adversário adversários.
a prática educacional não pode ser par- …ao contrário… a prática política não pode não ser par-
tidária tidária.
a prática educativa, apoia-se no poder da …ao contrário… a prática política apoia-se na verdade do
verdade. poder
Princípios que orientam a ação do direitor

Com as considerações espero ter esclarecido e política, ou seja, o desenvolvimento da prá-


a não-identidade e, em consequência, a distinção tica especificamente política pode abrir novas
entre política e educação. Trata-se, pois, de práti- perspectivas para o desenvolvimento da prática
cas diferentes, cada uma com suas características especificamente educativa e vice-versa.
próprias. Cumpre, portanto, não as confundir, 3. Por fim, é de fundamental importância levar
o que redundaria em dissolver uma na outra (a em conta que as relações entre educação e po-
dissolução da educação na política configuraria lítica têm existência histórica; logo, só podem
o politicismo pedagógico do mesmo modo que ser adequadamente compreendidas enquanto
a dissolução da política na educação implicaria o manifestações sociais determinadas.
viés do pedagogismo político).
A autonomia relativa da educação em face da
Entretanto, se se trata de práticas distintas, isso política e vice-versa não são equivalentes. Pode-
não significa que sejam inteiramente independen- ríamos, pois, dizer que existe uma subordinação
tes, dotadas de autonomia absoluta. Ao contrário, relativa, mas real da educação diante da política.
elas são inseparáveis e mantêm íntima relação. Só haverá exercício pleno da prática educativa
Como se configuram as relações entre educação como algo só possível num tipo de sociedade que
e política? se delineia no horizonte de possibilidades das
1. Primeiramente é preciso considerar a existência condições atuais, mas que não chegou ainda a se
de uma relação interna, isto é, toda prática edu- concretizar. Isto porque a plenitude da educação
cativa, como tal, possui uma dimensão política como, no limite, a plenitude humana, está con-
assim como toda prática política possui, em si dicionada à superação dos antagonismos sociais.
mesma, uma dimensão educativa. A dimensão Ser idealista em educação significa justamente agir
política da educação consiste em que, dirigindo- como se esse tipo de sociedade já fosse realidade.
-se aos não-antagônicos a educação os fortalece Ser realista, inversamente, significa reconhecê-la
(ou enfraquece) por referência aos antagônicos como um ideal que buscamos atingir.
e desse modo potencializa (ou despotencializa) De tudo o que foi dito, conclui-se que a impor-
a sua prática política. E a dimensão educativa tância política da educação reside na sua função
da política consiste em que, tendo como alvo os de socialização do conhecimento. É realizando-se
antagônicos, a prática política se fortalece (ou na especificidade que lhe é própria que a educação
enfraquece) na medida em que, pela sua capa- cumpre sua função política. Daí ter eu afirmado
cidade de luta, ela convence os não-antagônicos que, ao se dissolver a especificidade da contribui-
Nº 10 • Abril/99

de sua validade (ou não-validade) levando-os a ção pedagógica, anula-se, em consequência, a sua
se engajarem (ou não) na mesma luta. importância política.
2. Em segundo lugar, cabe considerar que existe Tese 1:
40
jan/2017 40 também uma relação externa entre educação
Não existe identidade entre educação e política.
COROLÁRIO3: educação e política são fenô- na forma de autonomia relativa e dependência
menos inseparáveis, porém efetivamente distintos recíproca.
entre si. Tese 9:
Tese 2: As sociedades de classe caracterizam-se pelo pri-
Toda prática educativa contém inevitavelmen- mado da política, o que determina a subordinação
te uma dimensão política. real da educação à prática política.
Tese 3: Tese 10:
Toda prática política contém, por sua vez, Superada a sociedade de classes, cessa o primado
inevitavelmente uma dimensão educativa. da política e, em consequência, a subordinação
OBS: As teses 2 e 3 decorrem necessariamente da educação.
da inseparabilidade entre educação e política afir- OBS: Nas sociedades de classes a subordinação
mada no corolário da tese 1. real da educação reduz sua margem de autonomia,
Tese 4: mas não a exclui. As teses 9 e 10 apontam para

Princípios que orientam a ação do direitor


A explicitação da dimensão política da prática as variações históricas das formas de realização
educativa está condicionada à explicitação da da tese 8.
especificidade da prática educativa. Tese 11:
Tese 5: A função política da educação cumpre-se na
A explicitação da dimensão educativa da medida em que ela se realiza como prática espe-
prática política está, por sua vez, condicionada à cificamente pedagógica.
explicitação da especificidade da prática política. OBS: A tese 11 põe-se como conclusão neces-
OBS: As teses 4 e 5 decorrem necessariamen- sária das teses anteriores, que operam como suas
te da efetiva distinção entre educação e política premissas. Trata-se de um enunciado analítico,
afirmada no corolário da tese 1. Com efeito, só uma vez que apenas explicita o que já está con-
é possível captar a dimensão política da prática tido nas premissas. Esta tese afirma a autonomia
educativa, assim como a dimensão educativa da relativa da educação em face da política como
prática política, na medida em que essas práticas condição mesma da realização de sua contribuição
forem captadas como efetivamente distintas uma política. Isto é óbvio uma vez que, se a educação
da outra. for dissolvida na política, já não cabe mais falar
de prática pedagógica restando apenas a prática
Tese 6:
política. Desaparecendo a educação, como falar
A especificidade da prática educativa define-se
de sua função política?
pelo caráter de uma relação que se trava entre
contrários não-antagônicos. À luz das teses apresentadas, como interpretar
o slogan expresso na frase “a educação é sempre
COROLÁRIO: a educação é, assim, uma
um ato político”? Obviamente, se se quer com
relação de hegemonia alicerçada na persuasão
isso afirmar a identidade entre educação e políti-
(consenso, compreensão).
ca tal slogan deve ser rejeitado. Há, porém, duas
Tese 7: situações em que essa afirmação pode ser levada
A especificidade da prática política define-se em conta:
pelo caráter de uma relação que se trava entre a) tomando-se o adjetivo “político” em sen-
contrários antagônicos. tido amplo em que a política se identifica com a
COROLÁRIO: a política é, então, uma relação prática social global;
de dominação alicerçada na dissuasão (dissenso,
b) dizer que a educação é sempre um ato po-
repressão).
lítico não significaria outra coisa senão sublinhar
Nº 10 • Abril/99

Tese 8: que a educação possui sempre uma dimensão


As relações entre educação e política dão-se política. Com efeito, eu só posso afirmar que a
41
3 Proposição que deriva, em um encadeamento dedutivo, de uma asserção precedente, produzindo um acréscimo de conhecimento por
meio da explicitação de aspectos que, no enunciado anterior, se mantinham latentes ou obscuros 41
jan/2017
educação é um ato político (contém uma dimensão “Manifesto” expressa a posição de uma corrente
política) na medida em que eu capto determinada de educadores que busca se firmar pela coesão in-
prática como sendo primordialmente educativa e terna e pela conquista da hegemonia educacional
secundariamente política. diante do conjunto da sociedade. O texto expressa
a posição do grupo de educadores que se agluti-
APÊNDICE: SETENTA ANOS DO nou na década de 1920, especialmente a partir da
“MANIFESTO” E VINTE ANOS fundação da Associação Brasileira de Educação
(ABE) em 1924 e que vislumbrou na Revolução
DE ESCOLA E DEMOCRACIA
de 1930 a oportunidade de vir a exercer o controle
BALANÇO DE UMA POLÊMICA da educação no país. Na IV Conferência Nacional
O tema deste texto gira em torno da diferença de Educação realizada, em dezembro de 1931,
entre a abordagem polêmica e a abordagem histo- Vargas, ao lado de Francisco Campos, solicitou
riográfica. As teses enunciadas no livro foram lidas, aos presentes que colaborassem na definição da
anos de 1990, como uma espécie de “Manifesto política educacional do novo governo. O “Ma-
Princípios que orientam a ação do direitor

contra a Escola Nova”. Daí a pertinência dessa nifesto”, divulgado em março de 1932, foi uma
discussão ao ensejo da realização do colóquio come- resposta objetivada àquela solicitação. Porém,
morativo dos 70 anos do “Manifesto dos Pioneiros o texto provocou o rompimento entre o grupo
da Educação Nova”. Para tratar do tema proposto, o dos renovadores e o grupo católico que decidiu
texto foi construído em cinco tópicos. No primeiro, se retirar da ABE e fundar, em 1933, sua própria
enuncio, de forma breve, qual é, para mim, a temá- associação materializada na Confederação Católica
tica central do “Manifesto dos Pioneiros da Educa- Brasileira de Educação, que realizou em 1934 o I
ção Nova”. No segundo tópico, indico que o livro Congresso Nacional Católico de Educação.
Escola e democracia surgiu num contexto marcado,
cinquenta anos depois, por uma motivação comum 2. O CONTEXTO EM QUE SURGIU
àquela que conduziu ao lançamento do “Manifesto ESCOLA E DEMOCRACIA
de 1932”: a defesa da escola pública. No terceiro A segunda metade da década de 1970 foi palco
tópico, abordo a leitura da referida polêmica feita de um amplo processo de reorganização do campo
por Clarice Nunes. O quarto tópico, denominado educacional:
“Paschoal Lemme no ‘Manifesto’: um estranho no
  em 1977 surge Associação Nacional de Pós-
ninho dos pioneiros?”, discute a leitura feita por
Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd);
Zaia Brandão. Finalmente, no tópico quinto, “A
Escola Nova exercitando a ‘teoria da curvatura da   em 1978 nasce Centro de Estudos Educação e
vara’”, procuro esclarecer a diferença entre a abor- Sociedade (Cedes);
dagem polêmica e a abordagem historiográfica, eixo   em 1979 é criada a Associação Nacional de
articulador de todo o texto. Educação (Ande).
A partir de 1980 a Associação Nacional de
1. A TEMÁTICA CENTRAL DO
Educação, que, juntamente com a ANPEd e o
“MANIFESTO DOS PIONEIROS DA Cedes, organizou a série das Conferências Bra-
EDUCAÇÃO NOVA sileiras de Educação, as CBEs. Ressalte-se que, à
No “Manifesto” a ideia central que sempre semelhança do “Manifesto de 1932”, o vetor dessa
vem à tona é a de que se trata de um documento mobilização do final da década de 1970 era tam-
de política educacional em que, mais do que a bém a reorganização da educação pública, como o
defesa da Escola Nova, está em causa a defesa da ilustra o “Decálogo em defesa do ensino público”
escola pública. O “Manifesto” emerge como uma editado em 1982 no número 5 da revista da Ande
proposta de construção de um amplo e abrangente por Guiomar Namo de Mello sob o pseudônimo
Nº 10 • Abril/99

sistema nacional de educação pública, abarcando de Kloé


desde a escola infantil até a formação dos grandes Em 1980 ocorreu o simpósio denominado
42 intelectuais pelo ensino universitário.
42
“Abordagem política do funcionamento interno
jan/2017 Como documento de política educacional, o da escola de primeiro grau”. Decidi imprimir na
palestra que dei um tom polêmico lançando mão desenvolveu para sua tese de doutoramento e que
da metáfora da “teoria da curvatura da vara”. Par- se materializou no belo, profundo e abrangente
tindo da suposição de que o ideário da Escola Nova texto denominado sugestivamente Anísio Teixeira:
havia se tornado hegemônico e havia ganhado a a poesia da ação
cabeça dos professores: servindo-me da imagem da Simplesmente entendo que os comentários
“curvatura da vara”, propus-me a inverter a posição a meu respeito incluídos no primeiro tópico do
dominante que considerava a Escola Nova porta- texto, denominado “A educação do educador”,
dora de todas as virtudes e de nenhum vício em que funciona como uma espécie de introdução
contraposição à Escola Tradicional, considerada ao tema específico da tese que versa sobre Anísio
portadora de todos os vícios e de nenhuma virtu- Teixeira, não eram exigidos pela pesquisa realizada.
de; empenhei-me em destacar os vícios da Escola Portanto, suas críticas formuladas ao meu trabalho
Nova, exaltando, em contrapartida, as virtudes da nenhum influxo exerceu sobre o caráter, a consis-
Escola Tradicional. tência e a qualidade de sua investigação. A menos
A denúncia da Escola Nova foi apenas uma que ela considere que meu trabalho serviu como

Princípios que orientam a ação do direitor


estratégia visando a demarcar mais precisamente uma provocação e, pois, como uma motivação
o âmbito da pedagogia dominante, então carac- para que ela mergulhasse a fundo nos arquivos
terizada como a pedagogia burguesa de inspira- e retornasse à superfície com um Anísio Teixeira
ção liberal, em contraposição ao âmbito de uma reconstituído em toda a sua riqueza como homem,
pedagogia emancipatória, então identificada com intelectual, político e educador dos mais brilhantes
uma pedagogia socialista de inspiração marxista. que nosso país já produziu. Nesse caso eu me daria
Portanto, não há nenhuma contradição entre o por feliz em ter contribuído, ainda que pelo avesso,
conteúdo do livro e o reconhecimento do caráter para esse resultado. O que, então, mostraria que
progressista do movimento da Escola Nova, em a polêmica instaurada não foi tão inócua ou tão
especial na formulação contida no “Manifesto dos negativa como sua crítica pretendeu mostrar.
Pioneiros da Educação Nova”, que, sob alguns
aspectos, chegou mesmo a ultrapassar a concep- 4. PASCHOAL LEMME NO
ção liberal burguesa de educação, incorporando “MANIFESTO”: UM ESTRANHO NO
propostas que se inserem na tradição pedagógica NINHO DOS PIONEIROS?
socialista. Na pesquisa desenvolvida em função de sua tese
de doutoramento, Zaia Brandão retoma a aborda-
3. A “MANIPULAÇÃO DE CONCEITOS
gem da escola e democracia. No ponto de partida
E DO PROCESSO HISTÓRICO” NO
da pesquisa de Zaia Brandão, o silenciamento do
LIVRO ESCOLA E DEMOCRACIA, marxismo, de modo geral, e de Paschoal Lemme,
SEGUNDO CLARICE NUNES em particular, pelo pensamento liberal hegemônico
As críticas de Clarice Nunes foram formuladas não coincide com a minha visão dessa questão e,
no contexto da produção de sua tese de doutora- portanto, não poderia ser tributada à “fixação de
mento e repetiram-se em diferentes publicações. uma outra memória: o escolanovismo”, da qual
No fundamental, Clarice aproxima-se de minha eu teria sido o principal mentor (Brandão, 1999,
posição. As discordâncias expressas de forma tão pp. 23 e 40-46). Para mim foi ficando claro, desde
contundente não passariam de um viés de interpre- as primeiras leituras do “Manifesto”, que não se
tação decorrente do fato de se ter tomado como tratava de um texto homogêneo, o mesmo ocor-
conclusões de pesquisa historiográfica enunciados rendo com o grupo dos Pioneiros.
que modestamente não pretendiam outra coisa
senão questionar conceitos que supus tivessem 5. A ESCOLA NOVA EXERCITANDO A
“TEORIA DA CURVATURA DA VARA”
Nº 10 • Abril/99

se imposto ao senso comum dos educadores,


colocando-me, portanto, no terreno da polêmica A metáfora da “teoria da curvatura da vara”
ideológica. É evidente que o referido viés inter- é, de certo modo, uma característica da filosofia,
43
43
pretativo em nada desmerece o imenso trabalho podendo ser encontrado nos diálogos platônicos,
baseado em pesquisa de fôlego que Clarice Nunes na expressão maior da filosofia medieval, a Sum- jan/2017
ma Theologica de Tomás de Aquino, por meio algo seja ensinado a alguém. Portanto, deveríamos
da expressão videtur quod non, e em Descartes, dizer que “ensinamos matérias às crianças”, não
com a dúvida metódica, adquirindo sua máxima fazendo sentido a afirmação de que “ensinamos
expressão teórica com o advento da filosofia crianças, não matérias”, do mesmo modo que não
especificamente dialética inaugurada por Hegel. faria sentido afirmar que “ensinamos matérias, não
Enquanto metáfora, a “teoria da curvatura da vara” crianças”. Então, qual é a razão do enunciado?
é uma figura de linguagem. Ora, ele justifica-se exatamente na medida em
Israel Scheffler, no livro A linguagem da educa- que não se trata de uma definição, mas de um
ção, examina, além das metáforas educacionais, as slogan. E, enquanto slogan, tem o caráter de um
definições em educação, os slogans educacionais e símbolo aglutinador de adeptos em torno da ideia
explora mais detidamente os vários contextos de da centralidade da criança no processo educativo.
uso do verbo “ensinar” em correlação com o verbo Impõe-se, pois, a conclusão: “ensinamos crian-
“dizer”. o capítulo dois, tratando dos slogans edu- ças, não matérias” é um slogan que a Escola Nova
cacionais, Scheffler começa por mostrar a diferença lançou contra a Escola Tradicional. Em outros
Princípios que orientam a ação do direitor

entre eles e as definições; enquanto estas são con- termos, considerando que, com a predominância
sideradas esclarecedoras, aqueles são estimulantes, da Escola Tradicional, a vara foi entortada para
tendo por função unificar as ideias e atitudes dos o lado das matérias, a Escola Nova, exercitando
movimentos educacionais. Do mesmo modo que a “teoria da curvatura da vara”, buscou curvar a
os slogans religiosos e políticos, os slogans educa- vara para o lado da criança. Ao fazê-lo, entretanto,
cionais resultam de espírito partidário. Resumindo por aquele mecanismo descrito por Scheffler se-
as considerações Scheffler é necessária uma crítica gundo o qual os slogans passam a ser defendidos
dos slogans tanto pelo aspecto literal quanto pelo como afirmações literais, o enunciado difundiu-se
aspecto prático, devendo as doutrinas originárias como se fosse a pura expressão de uma verdade
ser objeto de uma avaliação independente. pedagógica. Eis por que afirmei, anteriormente,
À luz dessa análise, considero relevante registrar que a Escola Nova se tem utilizado amplamente
que a crítica que formulei ao ideário escolanovista da “teoria da curvatura da vara”, considerando-a,
por meio da “teoria da curvatura da vara” incidiu diferentemente do uso feito por mim, como um
sobre as versões popularizadas, isto é, como se dispositivo instaurador da própria verdade.
disse, sobre o modo como esse ideário se fixou na Concluindo, espero, pela discussão que procurei
cabeça dos professores. fazer do tema relativo à controvérsia instaurada
Após esses esclarecimentos, Scheffler passa a com a introdução da metáfora da “teoria da cur-
analisar detidamente os slogans “ensinamos crian- vatura da vara” e dos usos que dela se fizeram na
ças, não matérias” e “não pode haver ensino sem pesquisa historiográfica, ter contribuído, ao esta-
aprendizado”, os quais se inserem no processo de belecer a distinção entre os planos da polêmica e da
difusão da Escola Nova. Para efeitos desta minha historiografia, para o debate em torno do legado
exposição me limitarei a uma breve referência ao educacional dos Pioneiros.
enunciado “ensinamos crianças, não matérias”. O Espero, enfim, ter contribuído na busca da supera-
que queremos dizer com essa expressão? Do ponto ção dos equívocos interpretativos que a circulação dos
de vista gramatical, ela não se sustenta, uma vez nossos trabalhos acaba inevitavelmente por provocar.
que o verbo “ensinar” é bitransitivo, comportando, Foi tão-somente o espírito de somar esforços no
pois, tanto o objeto direto como o indireto. Na fortalecimento de nossa área de investigação que me
verdade, não é possível, gramaticalmente, dizer que moveu a enfrentar esse debate, rompendo o silêncio
se ensina nada a alguém, nem que se ensina algo a em torno das interpretações produzidas no âmbito
ninguém. De fato, a ação de ensinar implica que da historiografia da educação
Nº 10 • Abril/99

44
jan/2017 44
Gestão
democrática
e participativa
ABRAMOVAY, Miriam (Coord.). Juventudes na Escola, sentidos e
buscas: Por que frequentam? Brasília-DF: Flacso - Brasil, OEI, MEC,
2015.

O trabalho provém da parceria entre a Faculda-


Resenha elaborada por de Latino-Americana de Ciências Sociais (FLAC-
Lenita P. M Almeida, SO), a Diretoria de Políticas de Educação para a
Mestranda do Programa de Educação: Currículo Juventude da Secretaria de Educação Continuada,
da PUC-SP Alfabetização, Diversidade e Inclusão do MEC e
a OEI, organismo de cooperação internacional
e governamental. A pesquisa trata da escuta das
juventudes, suas narrativas, olhares e reflexões
sobre o contexto escolar e as políticas públicas
referentes à área.
O livro aborda as diversas características que
envolvem a relação do aluno com a escola e o
Gestão democrática e participativa

contexto sociocultural onde está inserido. Traz à


luz questões como a evasão escolar, a violência e
aponta ações que podem ser eficazes e interessantes
para obtenção de avanços junto aos alunos. Uma
das qualidades do texto é abordar as diferentes
juventudes presentes nos mais variados grupos de
jovens e destacar a importância de tratá-las com
respeito e atenção. Sugere a necessidade urgen-
te de considerar o protagonismo do jovem, de
escutá-lo e de conhecer melhor a escola. A obra
faz uma reflexão sobre a vida dos diferentes jovens
e a função da escola na sua inter-relação com esses
contextos pessoais, apontando essa abordagem
como necessária para a construção de cidadãos e
cidadãs conscientes e críticos.
Marca muito aparente na pesquisa é a pre-
ocupação de compreender a escola a partir de
um olhar macro e micro, não apenas como
reprodutora de conhecimentos necessários para
a inserção no mercado de trabalho, mas como
participante ativa nos alicerces que formarão o
jovem para a vida adulta.
Sedimentada em formato tanto quantitativo
quanto qualitativo, a pesquisa parte de questio-
nários, grupos focais e debates sobre o cotidiano
na escola, abordando questões sociais e de con-
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vivência de muita relevância e atualidade como a


abordagem de racismo, gênero, drogas, aborto etc.
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46
Tem grande valor pois contribui significativa-
jan/2017 mente para o debate sobre permanência e aban-
dono da escola e o necessário reencantamento dos do ambiente escolar, que muitas vezes desvaloriza
jovens com a educação escolar. conhecimentos não provindos do currículo escolar.
A pesquisa é dividida em três capítulos de for- O olhar que aparece nos jovens participantes da
ma a explorar o caminho proposto. No primeiro pesquisa é ambíguo em relação à escola, esta apa-
explicitam-se teorias utilizadas para a reflexão. rece como um lugar de convívio e criatividade e,
Em destaque o olhar para a juventude não apenas ao mesmo tempo, de conflito e falta de confiança.
enquanto faixa etária e contexto sócio econômico, A pesquisa aconteceu no Ensino Médio, em
mas a partir da busca de uma singularização dos EJAs (Educação de Jovens e Adultos) e PJU (Pro-
jovens em questão, com foco na diversidade da jeto Jovens Urbanos). Foi escolhido um estado
juventude que o cerca e compõe suas necessidades, por região do país e, dentro desse estado, uma
imaginário e vivências. Esse jovem está contextu- cidade com mais de 100 mil habitantes, além de
alizado, em sua individualidade, em uma geração sua capital: NORTE – Pará (Belém e Castanhal),
enaltecida por ser jovem e compartilha a vontade NORDESTE – Bahia (Salvador e Feira de San-
de transformar e questionar outras gerações. Todas tana), SUL – Paraná (Curitiba e Ponta Grossa),
estas características irão se compor em um processo SUDESTE - Rio de Janeiro (Rio de Janeiro e Volta
de construção de identidade social permeadas por
Redonda) e CENTRO-OESTE - Mato Grosso
realidades individuais.
(Cuiabá e Rondonópolis). As escolas escolhidas
A definição de juventude também é muito cumpriam o critério de possuírem mais de 500
abordada e discutida, onde a procura pela percep- alunos matriculados nos segmentos pesquisados.

Gestão democrática e participativa


ção do que caracteriza e identifica o jovem hoje
A abordagem da pesquisa foi quantitativa/
é diversa e fluida. Temos olhares que definem a
qualitativa, através de questionários, grupos focais
juventude apenas a partir da faixa etária, como
e entrevistas, sempre levando em consideração na
exemplo temos a Secretaria Nacional de Políticas
análise os argumentos apresentados pelos jovens
de Juventude e do Conselho Nacional de Juven-
e a premissa de que o contexto social e pessoal do
tude, para quem a população jovem é a que se
jovem tem relação direta com seu contexto e suas
localiza entre 15 e 29 anos. Outras ponderações
atitudes com o ambiente escolar.
são fortemente apresentadas como a que define
como jovem uma pessoa a partir da sua relação Os números e depoimentos encontrados são re-
e postura frente ao mundo, à sociedade e mais veladores de quanto a experiência escolar, familiar,
uma gama intensa de qualidades tais como sua cultural e social é indissociável e está diretamente
condição social, cultural, afetiva, biológica, psí- vinculada a questões como evasão escolar, abando-
quica, entre outras características. no ou mesmo permanência nas escolas. A relação
que o jovem aluno estabelece com a escola tem
Outro termo central é o de Cultura Juvenil,
que aponta para os sentidos e significados da vida características complexas e potentes que são dire-
de um jovem, levando em consideração seu con- tamente conectadas com a experiência e vivência
texto, seus afetos, seus imaginários e suas criações diária desse jovem.
representativas. Tal expressão é fundamental para a O conflito com professores e diretores, a falta de
pesquisa. Transformar o jovem em aluno tem sido, vínculo ou mesmo de convivência fica estampada
muitas vezes, descontextualizá-lo de si mesmo e como um desafio a ser superado e traz consequên-
destituí-lo de suas características individuais pro- cias graves relativas ao abandono e desvalorização
vindas de sua própria diversidade de composição e do ambiente escolar. Assim como a característica
estado de juventude. A Cultura Juvenil e a Cultura socializatória da escola, a esperança de melhora na
Escolar nem sempre se tocam. Será preciso inter- vida profissional e o ambiente amigável aparecem
-relacioná-las. como grandes protagonistas para a frequência
escolar e mantenedores dos alunos nas salas de
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A inserção no mercado de trabalho e a conse-


quente valorização da escolarização na sua relação aula do país.
com ele tenciona cada vez mais as escolas para um A relação aluno-professor é muito destacada e
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47
caminho que não considera as características e ilustrada pelos alunos como uma via de apoio e
expressões desse jovem e os empurram para longe estímulo ou de grande desvalorização e criação de jan/2017
ambientes desconfortáveis onde não há confiabi- A utilização da internet e das redes sociais
lidade. A falta de suporte aparece constantemente pelos jovens aparece com diversas características
nos depoimentos. Não falta autocritica a esses em seus depoimentos, desde utilizadas para pes-
jovens, que se percebem em diversos momentos quisas escolares e como suporte ao que está sendo
como passivos no processo de estudo. estudado até como ferramenta de descontração e
A figura do professor “que não desiste” é enal- interatividade, especialmente no caso das redes
tecida pelo aluno e essa imagem aparece constante- sociais. Porém nos grupos de PJU o uso da in-
mente para os jovens como “o professor que explica ternet é menos frequente e os jovens bem menos
bem, acompanha e leva os alunos em consideração eloquentes na navegação.
para continuar com a matéria”. Esse mesmo profes- Em relação aos problemas do país e ao
sor aparece com outras características como o que futuro, as preocupações que mais aparecem são
“sabe o nome do estudante”, compreende sua situ- com a violência e a corrupção. Há indefinições
ação, “dá bom dia”, utiliza linguagem horizontal, nos depoimentos sobre o que esperam do futuro.
sabe brincar, sabe fazer uma aula ser leve. Uma vez questionados sobre o pessimismo perce-
Arguidos sobre as diversas matérias, os alunos bido citam falhas no ambiente escolar em relação
colocam o professor como medida fundamental à formação do caráter crítico e político.
para considerarem uma disciplina como boa ou A infraestrutura das escolas também é citada
ruim. E aparece a ideal de que mesmo uma dis- pelos jovens como componente importante para
ciplina “chata” pode ser “legal” dependendo do um bom ambiente de trabalho e um aprendizado
Gestão democrática e participativa

professor. mais pleno. Aparecem como prioridades desejáveis


A compreensão da realidade do aluno e a pre- as salas de informática, bibliotecas, salas de leitura
sença ou a falta dela, é a marca da relação com os e principalmente o livre acesso a esses espaços.
diretores. Aparecem também questões de higiene e sanea-
Falar do aprendizado das ruas e da escola é um mento básico.
tema abordado pelos jovens ao dar opiniões sobre Em suma, o livro traz à luz evidenciado por
os saberes: formal e informal. Para eles o saber meio da pesquisa de campo a necessidade de pensar
adquirido nas ruas é mais claro e acessível. educação, família e cultura entrelaçadas, de forma
O ambiente escolar fica marcado como o cami- a levar o jovem e seu universo em consideração.
nho para o mercado de trabalho, o acesso possível Esse entrelaçamento tem um impacto direto no
a carreira de sucesso, da mesma forma em que a acesso e permanência dos jovens e adolescentes na
rua está para o lazer e a diversão. Entretanto, eles escola. Para pensar uma política pública que inclua
também a colocam como um ambiente perigoso democraticamente os jovens há de se considerar
enquanto a escola aparece como local seguro. os diversos fatores apresentados nessa pesquisa.

CASTRO, Jane Margareth; REGATTIERI, Marilza (org.). Interação


escola-família: subsídios para práticas escolares. Brasília :
UNESCO, MEC, 2009.
O livro é um estudo feito pela UNESCO em
Resenha elaborada por parceria com Secretarias Municipais de Educa-
Lenita P. M. de Almeida ção. Foram disponibilizadas possibilidades de
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Mestranda do Programa de Educação: Currículo participação a todas as Secretarias do país através


da PUC-SP de questionários e entrevistas telefônicas e foram
selecionados alguns locais específicos para visita. A
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48
escolha foi baseada no tema interação escola-aluno-
jan/2017 -família. Trata-se de tema complexo e central da
pesquisa. Os municípios visitados foram: Iguatu cessita de atenção e direcionamento e poderá ser
(CE), Itaiçaba (CE), Taboão da Serra (SP) e Te- viabilizada como fértil na busca de melhoras e
resina (PI), além de Belo Horizonte (MG), que soluções de diversos desafios, que hoje se apresen-
através do Projeto Família- Escola foi incluído tam na formação de valores sociais importantes.
posteriormente. É preciso valorizar o acesso a informações e a
A pesquisa tem por objetivo compreender me- gestão democrática. A pesquisa destaca a criação
lhor a relação família- escola e fazer um levantamen- de políticas públicas relacionadas ao tema como
to do que vem sendo feito nos municípios e escolas uma construção coletiva que respeita e considera as
brasileiras nesse sentido. A pesquisa e a obra levam características do local onde será implantada. É um
em consideração a relevância e a necessidade de tra- trabalho pautado pela compreensão de cooperação
tar esse tema delicado com profundidade e seriedade e reconhecimento da diferença.
com o intuito de apoiar professores e gestores na A obra propõe uma divisão do tema em três
construção, aprimoramento e implantação de pro- frentes. A primeira trata da legislação e do histó-
jetos e políticas públicas na área. O desafio central rico da relação família-escola; a segunda aborda
é construir uma relação entre a família e a escola as articulações em curso entre as teorias apresen-
que auxilie e amplie o universo de possibilidades de tadas e práticas pedagógicas; e a terceira traz uma
construção de conhecimentos e aprendizagens para exposição e apresentação de diversas políticas e
as crianças e os adolescentes brasileiros. estratégias que podem servir de suporte para a
Para além da pesquisa prática, foi feito um melhor construção e compreensão de um espaço

Gestão democrática e participativa


levantamento documental visando conhecer e fértil e de diálogo entre a escola, as famílias e os
analisar a produção nacional no que diz respeito contextos dos alunos, levando em conta os diver-
à temática abordada. sos setores da sociedade envolvidos no trabalho
O protagonista da pesquisa é a criança dos comum dessa construção.
anos iniciais do Ensino Fundamental levando em É feita uma retomada da história da escola e das
consideração que se trata de uma criança que dei- relações sociais estabelecidas a partir dela e pelo
xa seu status de filho(a) para receber o status de Estado. Inicia-se na constituição da República,
aluno(a). Os universos de onde vem e para onde onde o papel da família estava no centro da edu-
vai, o familiar e o escolar, têm características e cação, passando pela busca de um ensino público,
diferenças diversas, que tornam o processo muitas pelo papel das mulheres, culto da nacionalidade,
vezes traumático se não se levar em consideração o da moral e mudança do papel familiar na educa-
contexto da criança. Entendendo ambiente social ção da criança durante a Era Vargas. Chega-se a
não apenas como sendo o ambiente familiar e co- centralidade da escola, onde há um destaque para
munitário, mas também o educacional, o contexto o movimento dos Pioneiros da Escola Nova que
da criança é o cruzamento desses lugares e seus chegaram a divulgar em 1932 um manifesto cha-
impactos no indivíduo em questão. mado “A Reconstrução Educacional no Brasil – Ao
Ponto importante da pesquisa é a análise do que Povo e ao Governo” em que defendiam a criação
se espera do aluno que ingressa no ensino funda- de um sistema educacional público e obrigatório.
mental. São demandadas dele algumas caracterís- Destacam-se algumas marcas históricas. Na
ticas que são compreendidas como pré-requisitos década de 1960, a implantação da LDB (Lei de
que devem ser constituídos em suas relações intra- Diretrizes e Bases). Durante a ditadura militar, a
familiares, como por exemplo as noções de higiene, desvalorização da escola pública e um grande apoio
disciplina e hierarquia. Porém, em muitas famílias financeiro governamental para as escolas privadas
os pais e as mães não tiveram acesso ao ambiente que ganharam grande força e destaque qualitati-
escolar e, portanto, não atendem às expectativas vo. Nas décadas de 1970 e 1980, o processo de
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da escola, de seus professores e gestores, o que urbanização que trouxe a necessidade do acesso
merece reflexão e cuidado e deve ser abordado e ao ensino básico o que acabou levando muitas
construído na relação escola-família. crianças para as escolas particulares. 49
A relação entre aluno, professor e família ne- Já na década de 1990, destaca-se a dimensão da 49
jan/2017
necessidade de planos políticos pedagógicos, o inves- porém ainda muito restrito apenas a um grupo de
timento em formação de professores e a solicitação pais, normalmente não se expandindo e por isso
de maior autonomia para a escola e para os alunos. não considerando os interesses de todos.
Até hoje esses são temas discutidos e abordados na No “Interagir para melhorar os indicadores
área, porém o processo de democratização do ensino, educacionais” tem-se o acompanhamento das
o acesso e a permanência na escola aparecem como famílias pelas ações que ocorrem dentro da es-
pontos focais do momento considerado “atual” pelos cola e dependem de valores construídos, como a
autores, o da publicação da obra (2009). consciência do que é tratado e o acesso e direito à
As famílias, desde a década de 1980, vêm educação. O acompanhamento escolar pelos pais
apresentando diversos formatos que hoje são en- muitas vezes fica apenas concentrado no desem-
tendidos como características de extrema impor- penho e na nota dos alunos. O IDEB, algumas
tância para a formação do indivíduo, que devem ONGs e incentivos estão mudando esse quadro
ser levados em consideração e trabalhados na sua em algumas escolas para uma participação efetiva
relação com a escola. das famílias na escola.
Em relação a legislação aparecem fortemente Em dezoito experiências foi possível “Incluir o
o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) aluno e seu contexto” como propõe a publicação.
e a LDB como formativas para as características A compreensão da realidade, o contexto e a indi-
e conteúdo da escola. O Ministério Público, o vidualidade do aluno é levada em consideração
Conselho Tutelar e o Estatuto da Criança e do para sua integração com o ambiente escolar. Por
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Adolescente sustentam o que se espera da relação fim fica como relevante e marcante o fato de que
escola-família. pais, professores e gestores devem construir um
Em busca de ações que promovessem a integra- caminho juntos para a integração.
ção escola-família, poucas foram encontradas. As A proposição de políticas públicas que con-
encontradas foram pontuais e de pouco impacto, templem a relação escola-família é um caminho
como o dia da família, festas escolares etc. Por possível para que a integração aconteça e os alu-
isso a pesquisa se propôs a aprofundar a busca e nos possam ter um acesso cada vez mais pleno à
encontrou algumas propostas de integração. Elas educação. Conhecer as famílias, seus espaços e
foram separadas em quatro grupos: “Educar as características é fundamental para essa construção,
famílias”, “Abrir a escola para participação fami- onde professores, pais e alunos compõem a per-
liar”, “Interagir com a família para melhorar os cepção de um aluno que é mais próximo do real.
indicadores educacionais”, “Incluir o aluno e seu Somente a partir daí será possível o olhar empático
contexto”. Os grupos e os resultados demonstra- e a compreensão de algumas posturas facilmente
ram os diferentes níveis de integração e apontaram identificadas quando contextualizadas.
possibilidades de vários caminhos a serem esco- As políticas apoiadas pelas Secretarias são as
lhidos e percorridos pelos gestores na integração que conseguiram maiores resultados. O acompa-
com as famílias dos alunos e no enfrentamento aos nhamento, assim como o diálogo entre os dife-
desafios encontrados. rentes setores sociais (exemplo: assistência social
Sobre “Educar as famílias” há de se dizer que e educação) é indispensável para o conhecimento
é a mais habitual tentativa de integração. Trata-se do perfil de um aluno, especialmente os que têm
de reuniões de pais, pequenos eventos, debates e mais problemas. Há diversos caminhos para a
algumas vezes parte de um pressuposto perigoso, construção de políticas públicas, desde iniciativas
de que os pais são responsáveis pela falta de inte- de educadores, expressões da própria comunidade,
gração entre a escola e a família e que são pouco ou mesmo proposição das Secretarias Municipais.
participativos no ambiente escolar.
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Existem diversas formas de aproximação entre


No agrupamento denominado “Abrir a escola os agentes escolares e as famílias e o mais impor-
para a participação familiar” encontraram-se ações tante nessa relação é que professores e gestores
50
50
mais participativas onde o ambiente escolar ganha recebam formação e acompanhamento para as
jan/2017 uma conotação de espaço comunitário e público, atividades a serem desenvolvidas.
A experiência em Taboão da Serra é narrada em curso, o que pode garantir um caminhar com
integralmente a partir da sistematização das passos mais largos e firmes que se sustentem nas
ações de integração. Do saldo do que foi expe- ações anteriores e posteriores.
rienciado se apresentam algumas características Por fim, enfatiza-se a importância dos diversos
que podem ser de muita utilidade no processo setores participarem dos processos mais específicos
de aproximação e integração da família com de alunos, com o envolvimento de escolas, postos
a escola. É importante a qualidade da coleta de saúde e centros de assistência social.
e a organização das informações recolhidas. O estudo apresenta e descreve a importância de
É preciso que, na formação de professores e construir uma relação com qualidade social entre
gestores que protagonizam o processo dentro a escola e a família e aponta o seu impacto positi-
das escolas não se contemple apenas a formação vo na evasão escolar e na falta de rendimento do
técnica, mas que haja a requalificação de valores, aluno. Apresenta com dados claros, que os alunos
a consideração dos mais diversos saberes sem melhoram significativamente quando se leva em
hierarquização entre eles, o que exige um pro- conta o cenário onde a criança e o adolescente
cesso de mudança pessoal e política. estão inseridos, quando há a participação dos pais
Há necessidade de se fazer uma avaliação pe- e responsáveis no processo educativo, quando as
riódica das ações que estão sendo implementadas possibilidades de acesso e auxílio da família e a
para garantir uma memória do acontecimento formação

Gestão democrática e participativa


CECCON, Cláudia et al. Conflitos na escola: modos de
transformar: dicas para refletir e exemplos de como. São Paulo:
CECIP. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. 2009.
O trabalho foi realizado por seis educadores,
Resenha elaborada por três brasileiros e três holandeses. É fruto de um
Vanda Bartalini Baruffaldi diálogo intercultural entre Brasil e Holanda,
Doutora em Linguística e Semiótica pela que teve início em 1998 e buscou valorizar as
Universidade de São Paulo. experiências mútuas entre os dois países. Órgãos
Professora das Faculdades Integradas Campos envolvidos no projeto: CECIP – Centro de
Salles. Criação de Imagem Popular –, sediado no Rio
Coordenadora de cursos de graduação e pós- de Janeiro, e a APS Internacional, com sede em
graduação em Letras. Utrecht, na Holanda.
O CECIP tem como foco os sistemas formais
de educação pública, assim como os educadores e
os jovens usuários que utilizam esses sistemas. Atua
em parceria com escolas, fundações, organizações
não governamentais e internacionais, mas assessora
também Secretarias de Educação, organizando
oficinas para a formação de educadores, para lide-
ranças comunitárias e para grupos de adolescentes.
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APS International é uma organização não go-


vernamental que, há mais de 40 anos, procura dar
51
51
apoio a escolas e sistemas escolares. A Instituição
tem consciência de que as mudanças educacionais jan/2017
constituem processos que podem demorar anos livro coloca em destaque as causas internas
para se consolidar. Não são, portanto, meros de atitudes e condutas que geram ruptura
eventos. Para atingir seus objetivos, cria projetos de equilíbrio na escola,
de aperfeiçoamento educacional. Assessora tam- relembrando, na página seguinte, que:
bém Secretarias de Educação, gestores e outros
Quando só vemos “o outro” como res-
tomadores de decisão para que atinjam os objetivos
ponsável pelos problemas, fica difícil nos
propostos. O APS Internacional atua na Europa, mobilizarmos para encontrar saídas.
Ásia, África e nas Américas Central e Latina.
3. A obra é extremamente didática, bem ilus-
O livro consta de uma apresentação redigida trada, bem escrita e, consequentemente, agradável
por Ruben Alves; outra produzida pelos autores; de ler. Em espaços denominados O mapa do livro
cinco capítulos, divididos em tópicos e uma rápida e Saber é saber fazer (p.22-25), os autores fazem
conclusão em que os educadores ratificam a crença uma síntese do que o leitor encontrará nas páginas
– tônica do livro todo – de que a utilização de boas seguintes. As informações que ali se leem consti-
estratégias na administração de conflitos é capaz tuem uma ótima visão do trabalho.
de mudar realidades.
3.1. Os cinco capítulos que estruturam o traba-
1. Rubem Alves deu um título metafórico à sua lho foram compostos a partir de questões ligadas à
apresentação: Sobre ostras e pérolas. Nela, o autor administração de conflitos. Esclarecem os autores
defende a tese de que é pelos conflitos, pelos es- que a organização das partes girou em torno de
forços em solucionar problemas que conseguimos cinco perguntas – que dão nome aos capítulos –,
Gestão democrática e participativa

atingir objetivos mais elevados. As ostras, escreve propostas para que possam ser repensadas velhas
ele na página 14, em sua linguagem simbólica, questões que, no entanto, se mantém atuais.
são animais de corpo mole, sem cérebro, que não   Capítulo 1. O que as palavras conflito e vio-
pensam. Dedicam-se simplesmente a viver. Mas lência significam para você?
– prossegue –, se, por acidente, um fragmento ou
  Capítulo 2. Que fatores externos e internos
uma areia pontuda burla a guarda da ostra e entra
podem gerar manifestações de violência nas
na sua carne mole... vai-se a tranqüilidade e a os-
escolas?
tra passa a sofrer. Em compensação, produz uma
pérola, que não tem aresta nem ponta; que, por-   Capítulo 3. Como cultivar uma escola segura
tanto, não a machuca e põe fim a seu sofrimento. e cidadã?
Conclui-se, assim, que dos conflitos podem nascer   Capítulo 4. Como interromper as violências
muitas coisas bonitas (p.14-15). quando elas se fazem presentes e como restaurar
2. A participação dos educadores que elabora- os danos?
ram a obra se inicia de maneira mais efetiva com   Capítulo 5. Por que alianças e parcerias au-
um texto dirigido aos gestores da escola. Sob os mentam o poder da escola de aprender e crescer
cativantes títulos Uma palavrinha com quem lidera com os conflitos?
a escola e O poder de agir para transformar, pro- 3.2. Todos os capítulos seguem o mesmo
curam mostrar que, graças a uma administração esquema, apresentando cinco subcapítulos que
eficiente dos conflitos, é possível afastar a escola receberam títulos bastante sugestivos:
do clima de intranquilidade que hoje a domina   H
 istória da vida real. O nome do tópico revela
e transformá-la em um lugar agradável de ser seu objetivo: expor uma situação real que visa
frequentado. oferecer subsídio para a reflexão a ser proposta.
Mas, para tanto, é necessário averiguar não só   Contribuição da teoria. Da mesma forma, o
a influência de fatores externos na geração dos nome Contribuição da teoria já revela o propó-
problemas como também a responsabilidade que sito do item: fazer uso de dados de pesquisas
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cabe a cada um dos participantes da comunidade e análises que permitam ver os desafios do
escolar no aparecimento de tais problemas. Por cotidiano sob outra ótica.
52 essa razão eles escrevem, na página 20:
52
  Caixa de ferramentas apresenta um conjunto
jan/2017 Sem subestimar os fatores externos, este de estratégias – articuladas com pesquisas re-
centes – que podem ser selecionadas, recriadas como a causadora da hostilidade a desequilibra o
e propostas aos grupos para que se atinja um ambiente escolar como qualquer outro.
determinado objetivo. 3.3.3. Colocadas as bases para tratar da temá-
  Baú de brinquedos oferece sugestões lúdicas, tica da obra, os educadores partem para sugerir
em múltiplas linguagens, possíveis de serem em- novos caminhos, capazes de resolver as questões
pregadas para facilitar a dissolução de conflitos. ligadas aos conflitos. Como cultivar uma escola
  Refletir para agir – no tópico, são apresentadas segura e cidadã? aponta alguns aspectos que pre-
perguntas que procuram levar o leitor a aliar cisam fazer parte do cotidiano escolar para que
suas experiências ao conteúdo tratado anterior- se atinja o equilíbrio desejado e que se ofereça
mente a fim de que possam ser tomadas decisões à comunidade escolar condições estimuladoras
e colocadas em prática as propostas focalizadas. para o processo ensino-aprendizagem. Para tanto,
O nome do tópico denuncia a influência teórica sugere-se:
da obra. Escrevem os autores:   fortalecer o vínculo entre os atores desse pro-
‘Não há palavra verdadeira que não seja cesso, ou seja: alunos, professores, gestores,
práxis’, afirma Paulo Freire, definindo prá- família, sociedade;
xis como ‘reflexão e ação verdadeiramente   estimular a participação dos alunos, da equipe
transformadora da realidade, fonte de co- escolar e da comunidade nas iniciativas esco-
nhecimento reflexivo e criação’ (Pedagogia lares;
do oprimido. 1975. pp. 91 e 108).   desenvolver competências e habilidades para

Gestão democrática e participativa


3.3. Como foi anteriormente informado, o dialogar e administrar conflitos;
desenvolvimento dos capítulos gira em torno de   criar um currículo relevante aos estudantes;
questões relacionadas ao tema do livro.   oferecer oportunidades de aprendizagem e de
3.3.1. O título do primeiro deles - O que as desenvolvimento profissional ao corpo docente..
palavras conflito e violência significam para você? 3.3.4. Como interromper as violências quando
- permite antever o seu objetivo: deixar clara a di- elas se fazem presentes e como restaurar os danos?
ferença que há entre os dois termos. Se o primeiro é a questão que orienta o desenvolvimento do
é visto como a designação de um fato normal em quarto capítulo. O objetivo, no caso, é discutir o
locais onde convivem vários tipos de pessoas, caso que diretores ou professores - sejam eles já expe-
da escola, o segundo, fruto de conflitos mal resol- rientes, sejam recém-chegados ao meio - podem
vidos, deve ser evitado. Dessa forma, sustentam os fazer diante de uma escola ou sala de aula que
autores, é fundamental administrar conflitos para apresentam comportamentos deturpados.
evitar violências, equilíbrio que exige Examinam-se ainda, no capítulo, os procedi-
aprender a ouvir, a dialogar, construindo mentos que podem ser assumidos diante de um
vínculos e alianças entre diferentes dentro da ambiente que, de início pacífico, torna-se violento.
escola (crianças, jovens, professores, funcio- As considerações apresentadas têm, em geral, a
nários, gestores, famílias) e entre a escola e mesma orientação: a violência domina um local
o mundo lá fora (secretarias, organizações sempre que se verifica ineficiência nas tentativas
governamentais e não governamentais, uni- de restaurar o equilíbrio perdido, porque a tônica
versidades (p.22). recaiu sobre medidas punitivas em vez de se privile-
3.3.2. Pelo nome atribuído ao segundo capítu- giarem as ações que procuram recuperar o diálogo.
lo, também se conclui, com facilidade, o objetivo a 3.3.5. Por que alianças e parcerias aumentam
que os educadores quiseram chegar. Em Que fato- o poder da escola de aprender e crescer com os con-
res externos e internos podem gerar manifestações flitos? - é a questão que norteia o quinto capítulo
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de violência nas escolas? Eles procuram vincular e revela, como sugere a questão, quão importante
razões socioeconômicas e político-organizacionais é estabelecer relações da escola com a sociedade,
à violência que hoje se verifica na sociedade brasi- evitar seu isolamento, aumentando, dessa forma,
53
53
leira e que atinge as escolas. Aponta-se a ruptura as condições para solucionar problemas e instalar
do diálogo, que desestabiliza as relações afetivas, um clima de colaboração, aprimorando, assim, as jan/2017
condições de desenvolver um eficiente trabalho 3.4.2. As Caixas de ferramentas propõem tarefas
de aprendizagem. que podem ser realizadas para que respostas dadas
3.4. Conforme se registrou anteriormente, cada a situações-problema se tornem mais eficientes.
capítulo consta cinco partes. Sugerem-se, para tanto, pesquisas sobre a realida-
3.4.1 Naquela chamada Histórias da vida real, de das escolas; elaboração de entrevistas; oficinas;
são apresentados fatos presentes no cotidiano, conferências; identificação de parceiros capazes de
mas que merecem considerações especiais, pois colaborar com a consecução dos objetivos da equipe.
oferecem subsídios para uma reflexão. Todas as Os autores ressaltam, com frequência, a neces-
situações caracterizam-se por serem conflitantes sidade de manter a tranquilidade, o espírito obje-
e podem fazer parte de vários tipos de cenário. tivo - ou a popular “cabeça fria” - para solucionar
A do primeiro capítulo, por exemplo, deno- adequadamente os reveses que surgem.
minada “Panela de pressão”, focaliza o momento 3.4.3. A expressão Baú de brinquedos foi
tensionado de uma escola comum em que os con- retirada de uma visão de mundo defendida por
flitos, ainda que encobertos, existem e não foram Rubem Alves. Esclarecem os autores na página
solucionados. 23: Como diz Rubem Alves (2007), as pessoas
Outros episódios, entretanto, afastam-se dos precisam de “ferramentas” e de “brinquedos”
espaços tidos como “normais” e focalizam locais para se humanizar.
mais complexos, localizados ora na favela do Ale- Nesse tópico, são sugeridas obras formuladas
mão, no Rio de Janeiro; ora em uma comunidade em múltiplas linguagens e capazes de complemen-
Gestão democrática e participativa

ligada ao MST, ora em tar ou ilustrar os trabalhos desenvolvidos nas es-


uma escola pública localizada entre duas colas. Citam-se: sites, como www.pathfinder.com/
favelas dominadas por traficantes de facções photo, um banco de dados de fotografia; filmes,
rivais (que) sofria depredações pelo menos como Pro dia nascer feliz, de João Jardim (Brasil,
uma vez por semana. O espaço físico era 2006); músicas, como Amanhã, de Guilherme
deprimente, com banheiros imundos e mo- Arantes; jogos, como o de autodescoberta (p.130):
biliário das salas de aula quebrado. (p.135) vídeos, caso em que se recomenda os produzidos
pela TV Escola. Escrevem os autores:
A fim de afastar os comentários triviais acerca
desse tipo de realidade, em geral crivados de pre- Se você entrar no site da TV Escola, vai en-
conceitos e de pouca profundidade, os autores ofe- contrar vídeos maravilhosos também sobre
recem algumas diretrizes baseadas no pensamento ética e violência nas escolas. A série “Sua
de estudiosos do assunto, como Edgard Morin e Escola, Nossa escola” mostra experiências
Paulo Freire, entre muitos outros. inovadoras de escolas públicas nas cinco
Para tanto, procuram cotejar as visões dos ato- regiões do país que podem inspirar a equipe
res envolvidos no cotidiano escolar com aquelas a investir em um ensino mais significativo:
que especialistas sustentam em suas pesquisas. No <http//tvescola.mec.gov.br>. (p.163)
primeiro capítulo, por exemplo, pedem que seja Há, inclusive, a recomendação à consulta de
feita uma comparação entre o conceito que se tem uma cartilha, a Paz, como se faz, de Lia Diskin e
de conflito e violência com aquele defendido por Laura Roizman...
estudiosos do assunto. ...que pode ser baixada no site da Associação
Em outras vezes, a tarefa é examinar as causas Palas Athena – <www.palasathena.org.
externas e as internas responsáveis pelas situações br>, e traz textos e muitas atividades, inclu-
de desequilíbrio na escola e compará-las com as sive artísticas, para motivar a escola a cultivar
apontadas por teóricos. um novo modo de ser e de conviver. (p.186)
Nº 10 • Abril/99

No quinto capítulo, está sugerido – entre outras 3.4.4. Refletir para agir é a última secção dos
atividades – um estudo sobre o Código Penal a capítulos e ratifica a proposta a que os autores
afim de poder construir um embasamento mais retomam inúmeras vezes durante o livro segundo
54
54
sólido para discutir os problemas de lugares mais a qual é preciso pensar, analisar as situações antes
jan/2017 conflituosos. de agir e, constantemente,
  rever a adequação do currículo ao público a que nhos que ele mesmo poderia trilhar para tornar
as informações se destinam; mais agradável o ambiente em que ele trabalha.
  lembrar que uma política de punição é extre- 3.5. No final do livro, após as rápidas con-
mamente ineficaz; clusões e a relação de referências bibliográficas,
  pensar nas estratégias que podem ser usadas encontram-se sugestões de leitura vinculadas ao
para transformar uma cultura de punição em tema desenvolvido pela equipe de educadores bra-
uma cultura de interações construtivas; sileiros e holandeses que elaborou esse simpático
  autoavaliar-se. Conflitos na escola: modos de transformar. Dicas
Desafia-se também o leitor a pensar em cami- para refletir e exemplos de como.

CHRISPINO, Á. A mediação do conflito escolar. São Paulo:


Biruta, 2011.
No presente artigo, Chrispino (2007) aborda
Resenha elaborada por sobre os conceitos de conflito, conflito escolar,
Daniteli Marques mediação e violência de diferentes opiniões e

Gestão democrática e participativa


Pedagoga, Mestre e Doutoranda em Educação divergências de interpretações. Aponta pesquisas
Especial (Educação do Indivíduo Especial) pela onde fica nítido a importância que o jovem atri-
Universidade Federal de São Carlos bui à educação, à escola e ao professor, ao mesmo
tempo em que apresenta sua preocupação com a
violência. E finaliza numerando questões que de-
vem ser consideradas quando a escola se propõe a
implantar um programa de mediação escolar do
conflito.

EDUCAÇÃO, JUVENTUDE
E VIOLÊNCIA
Com o objetivo de analisar as perceptivas da
juventude em relação a escola e a violência, o
Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio
de Janeiro solicitou uma pesquisa com o tema:
“O jovem, a sociedade e a ética (2006)”, onde
recolheu a opinião de jovens entre 14 e 18 anos.
Esta pesquisa mostrou que:
O jovem identifica na violência o maior pro-
 
blema da sociedade atual, superando, inclusive,
o desemprego;
A escola ocupa o segundo lugar entre as insti-
 
tuições importantes para o desenho do futuro
da juventude, perdendo apenas para a família;
Professores e escolas são as duas “instituições”
Nº 10 • Abril/99

 
que encabeçam a lista de confiança com altos
níveis percentuais;
55
55
Os jovens, diferentes do que diz o senso comum,
 

solicitam os limites próprios à juventude, jul- jan/2017
gando assim que disciplinas rígidas, junto com a ordem e o conflito são resultados de interação
criatividade e diálogo, fazem parte da boa escola. entre os seres humanos e o que sustenta e garante
A análise dos resultados desta pesquisa deixa a democracia.
claro que o jovem ainda crê na educação como Nesta perspectiva, entende-se que o conflito é
alternativa e na escola como instrumento de mo- algo inevitável, e não se deve omitir seus motivos,
bilidade social e de diferenciação para o futuro. até porque ele possui inúmeras vantagens como:
Ajuda a regular as relações sociais;
 
O CONFLITO E O Ensina a ver o mundo pela perspectiva do outro;
 
CONFLITO ESCOLAR Permite o reconhecimento das diferenças, que
 
A concepção de conflito pode surgir de va- não são ameaças, mas resultado natural de uma
riadas definições, como: opiniões divergentes ou situação em que há recursos escassos;
maneiras de ver ou interpretar algo; diferença de Ajuda a definir as identidades das partes que
 
interesses, de desejos e de aspirações; dificuldade defendem suas posições;
de comunicação, de assertividade das pessoas, de Permite perceber que o outro possui uma per-
 
condições para estabelecer o diálogo. cepção diferente;
Já o conflito escolar possui fatores provenien- Raciocina as estratégias de competência e de
 
tes de ações próprias dos sistemas escolares ou cooperação;
oriundos das relações que envolvem os atores da
Ensina que a controvérsia é uma oportunidade
 
comunidade mais ampla. Nesta perspectiva, tínha-
Gestão democrática e participativa

de crescimento e de amadurecimento social.


mos antes uma escola que atendia um padrão de
aluno com perfis muito próximos. Com a massi-
ficação escolar, surge num mesmo espaço alunos CLASSIFICAÇÃO DOS CONFLITOS
com vivências diferentes, expectativas diferentes, Deutsch (apud MARTINEZ ZAMPA, 2004)
sonhos, valores, culturas e hábitos diferentes; po- argumenta que o conflito pode ser classificado em
rém, a escola não estava preparada para absorver seis tipos: (a) verídico: conflito que existe objeti-
estas diferenças. Logo, se a escola é o universo que vamente; (b) contingentes: situações que depen-
reúne estes diferentes alunos, ela é o palco onde dem de circunstâncias que mudam facilmente; (c)
o conflito se instalará e, quando não trabalhado, descentralizados: conflitos que ocorrem fora do
pode ser a causa da violência escolar. conflito central; (d) mal atribuído: se apresentam
entre partes que não mantêm contatos entre si; ( e)
Dentro do espaço escolar existe conflito criado
latentes: conflitos cuja origem não se exteriorizam;
pela diferença de conceito ou pelo valor diferente
e, (f) falsos: se baseiam em má interpretação ou
que se dá ao mesmo ato. Fernandes (2006) pode
percepção equivocada.
exemplificar está divergência de opiniões em sua
pesquisa realizadas com alunos e professores de É possível também classificar conflitos escolares
diferentes escolas do Distrito Federal. Como re- ou mesmo educacionais, assim Martinez Zampa
sultado, verificou-se que professores e alunos dão (2005) enumera quatro diferentes:
valores diferentes à mesma ação e reagem diferen- Conflito em torno da pluralidade de perten-
 
temente ao mesmo ato, gerando assim um conflito. cimento: surge quando o docente faz parte
Assim, quanto mais diversificado for o perfil dos de diferentes estabelecimentos de ensino ou
alunos e dos professores, maior será a possibilida- mesmo de níveis diferentes;
des de conflitos ou de diferenças de opinião. Conflitos para definir o projeto institucional:
 
Perante estas reflexões sobre conflitos, Chris- surge porque a construção do projeto educa-
pino (2007) esclarece que é errado pensar que o cional favorece a manifestação de diferentes
posições quanto a objetivos, procedimentos e
Nº 10 • Abril/99

conceito de conflito é algo ruim, negativo ou que


atenta contra a ordem. Ao contrário que se pensa exigências no estabelecimento escolar;
no senso comum, o conflito é uma manifestação Conflito para operacionar o projeto educati-
 
56
56
natural e necessária às relações entre pessoas, gru- vo: surge porque, no momento de executar o
jan/2017 pos sociais, organismos políticos e Estado e que projeto institucional, surgem divergências nos
âmbitos de planejamento, execução e avaliação, casa, com familiares e amigos;
levando a direção a lançar mão de processo de 6. A capacitação em resolver conflitos que podem
coalizão, adesão etc; contribuir para a preservação do uso do álcool
Conflito entre as autoridades formais e funcio-
  e de droga;
nais: surge quando não há coincidência entre 7. Possibilidade de sentir a satisfação de contribuir
a figura da autoridade forma (diretor) e da com a paz do mundo.
autoridade funcional (líder situacional). Por fim, para que haja a instalação de um
Diante da identificação do conflito escolar ou programa de mediação é necessário a reflexões de
educacional, cabe a instituição elaborar estratégias algumas questões como: (a) caráter de mediação de
de mediação de forma que encare este conflito conflito: obrigatório ou voluntário? (b) ênfase da
como instrumento de crescimento e não como mediação de conflito: no produto ou no processo?
grave problema que deva ser abafado. (c) limites da mediação de conflitos na escola: sem
limite de série, idade, turno etc, ou com limites?
POR QUE A MEDIAÇÃO DO Estas questões darão o suporte essencial para que
CONFLITO NA ESCOLA? a escola defina suas metas e estratégias de avaliação
diagnóstica especifica de conflitos.
De acordo com Chrispino (2007), para que
aconteça a mediação de conflito no ambiente esco-
lar é necessário primeiramente que a escola assuma REFERÊNCIAS:
CHRISPINO, A. Gestão do conflito escolar: da classifica-

Gestão democrática e participativa


que ele existe e que deve ser superado a fim de que
a escola cumpra melhor a suas reais finalidades. ção dos conflitos aos modelos de mediação. Ensaio: aval.
pol.públ.Educ.[online]., vol.15, n.54, pp.11-28, Rio de
As escolas que valorizam o conflito e aprendem
Janeiro, 2007
a trabalhar com essa realidade, são aquelas onde o
FERNANDES, K. T. O conceito de violência escolar na
diálogo é permanente, objetivando ouvir as diferenças
perspectiva dos discentes. Dissertação (Mestrado em
para melhor decidirem; são aquelas onde o exercício Educação)-Universidade Católica de Brasília, Brasília,
da explicitação do pensamento é incentivado, obje- DF, 2006.
tivando o aprendizado da exposição da maturidade
MARTINEZ ZAMPA, D. Mediación educativa y resolu-
de ideias por meio da assertividade e da comunicação cion de conflictos: modelos de implementacion. Buenos
eficaz; onde o currículo considera as oportunidades Aires: Edicones Novedades Educativas, 2005.
para discutir soluções alternativas para os diversos PORRO, B. La resolución de conflictos en el aula. Buenos
exemplos de conflitos no campo das ideias. Aires: Paidós, 2004.
No entanto, para o desenvolvimento desta
mediação de conflitos é necessário que a escola
proponha um programa de mediação escolar que
esteja de acordo com a particularidade do contexto
da escola. Nesta vertente, Porro (2004) apresenta
sete grandes motivos para realizar um programa
de mediação:
1. A capacitação em resolver conflitos valoriza o
tempo;
2. A capacitação em resolver conflitos ensina
várias estratégias uteis;
3. A capacitação em resolver conflitos ensina aos
alunos consideração e respeito para com os
Nº 10 • Abril/99

demais;
4. A capacitação em resolver conflitos reduz o
estresse; 57
5. Possibilidade de aplicar as novas técnicas em 57
jan/2017
COLARES, Maria Lília Imbiriba Souza (org.) et al. Gestão escolar:
enfrentando os desafios cotidianos em escolas públicas. Curitiba:
Editora CRV, 2009.
Apresentação
Resenha elaborada por
Os organizadores informam que os capítulos do
Juliana Manso Presto
livro referem-se a um conjunto de textos resultantes
Pedagoga com Especialização em “Ética, valores de TCCs de estudantes da Especialização em Ges-
e cidadania na escola” tão Escolar, modalidade EAD, vinculada ao Pro-
Coordenadora Pedagógica – PMSP grama Nacional Escola de Gestores da Educação
Professora - Cursinhos Preparatórios Básica MEC/SEB (parceria com a SEDUC/RO e
UNDIME/RO), bem como textos elaborados por
professores-pesquisadores vinculados a Fundação
Universidade Federal de Rondônia/UNIR, tendo
como diferencial a abordagem que procura articu-
lar as reflexões teóricas com as situações concretas,
e como este encontro deve ser proveitoso em prol
Gestão democrática e participativa

do enfrentamento dos problemas com os quais se


deparam os gestores escolares.

Capítulo 1 - SALA AMBIENTE


PROJETO VIVENCIAL:
reaproximando teoria e prática
no enfrentamento de problemas
cotidianos - Juracy Machado
Pacífico e Maria Lília Imbiriba
Sousa Colares
As autoras ressaltam que no campo da legali-
dade o direito à educação está garantido, sendo
desafio ainda a questão do acesso, permanência e
aprendizagem na escola, haja vista os resultados
dos indicadores educacionais e a própria qualida-
de. A melhora desta depende de muitos fatores
internos e externos, implicando recursos, finan-
ciamento, investimento, não exigindo apenas uma
questão curricular, mas de forma ampla políticas
articuladas que viabilizem melhores condições
sociais e culturais para a população.
Um dos itens abordados diz respeito à gestão da
escola básica atrelada à gestão democrática, com a
Nº 10 • Abril/99

participação da comunidade em todas as fases, que


vão do planejamento, execução, acompanhamento
até a avaliação. No que tange essa questão, as au-
58
58
toras citam a importância do Programa Nacional
jan/2017 Escola de Gestores da Educação, o qual busca
qualificar os gestores das escolas da educação de Ensino fundamental Flávio
básica pública, a partir do oferecimento de cursos da Silva Daltro no município de
de formação à distância, sendo parceria de rede de
Pimenta Bueno-RO - Ednéia Maria
universidades pública e do MEC.
Azevedo Machado, Doralice de
O curso objeto deste livro visou contribuir
para o desenvolvimento profissional do gestor
Souza Pereira Santos, Ivanilda Colla
e para a melhoria na qualidade dos processos de Scheffer, Lucila de Araújo Crivelli
organização e gestão da escola, estando pautado O artigo apresenta o relato da experiência de
numa concepção de formação de professores que aplicação do Projeto de Intervenção Pedagógica
contemple a tematização de saberes e práticas sobre o Planejamento escolar da uma escola, com
num contexto de desenvolvimento profissional vistas a garantir a implementação do PPP nos pró-
permanente. ximos 2 anos, buscando a melhoria da qualidade
“Um dos princípios básicos defendidos no Pro- de ensino oferecida à clientela.
grama é o de que a gestão escolar traga consigo O Projeto teve como objetivos reduzir o índice
o aspecto pedagógico e, sendo assim, o gestor/ de reprovação e minimizar o baixo rendimento
gestora ou diretor/diretora é antes de tudo um/ diagnosticado na escola, tendo como objeto a aná-
uma educador/a e a gestão pedagógica um espaço lise dos documentos escolares dos alunos de 2007
legítimo de aprendizagem democrática. Por isso e 2008 e dados coletados de entrevistas colhidas
a gestão escolar precisa ser entendida no âmbito por meio de perguntas abertas e fechadas, realiza-

Gestão democrática e participativa


da sociedade política comprometida com a própria das com o gestor, as coordenadoras pedagógicas
transformação social.” (PARO, 2008, p 17) e o professor.
É relatado que os cursistas do EaD discutiram As autoras esclarecem que o planejamento
o papel do gestor escolar e do Projeto Político- precisa ter finalidade clara, explicitar diretrizes,
-Pedagógico, tendo, a partir da metodologia a princípios e procedimentos do trabalho a ser rea-
pesquisa-ação (transformação da realidade), um lizado, garantir a participação de todos os atores
projeto de intervenção já que ao pesquisarem a (conforme previsto em legislação), assegurando
própria prática, produzem novos conhecimentos, que as atividades da escola articulem-se com o
apropriam-se e ressignificam sua prática, cons- contexto da comunidade e da sociedade. Há de
truindo laços e compromissos, de forma mais se prever ainda flexibilidade devido às avaliações
crítica com a realidade. As propostas apresentadas e realinhamentos necessários do percurso.
para o projeto foram: a) construção do Projeto Há ainda importantes considerações quanto ao
Político-Pedagógico (PPP) caso não tivessem; b) PPP no que tange às dimensões a) política - no sen-
a reelaboração do PPP ou partes, caso tivessem; tido de compromisso com a formação do cidadão
c) uma situação problemática relevante na escola, para um tipo de sociedade e b) pedagógico – ao
vinculada ao PPP ou a gestão, caso não fosse pos- possibilitar a efetivação da intencionalidade da
sível desenvolver as anteriores. escola, que é a formação do cidadão participativo,
As autoras concluem que o curso: ofereceu responsável, compromissado, crítico e criativo.
possibilidades na melhora da gestão escolar no Além disso, o PPP pode ser subsidiado por
que tange a gestão democrática, contribuiu para elementos constitutivos da proposta pedagógica:
a formação continuada de gestores e motivou a) Plano de Curso: a organização de um conjunto
estes a desenvolver uma prática permeada por de disciplinas que vão ser ensinadas e desenvolvi-
um processo de planejamento coletivo e do PPP, das, sendo executado pela aplicação do b) Plano
fortalecendo a construção deste importante ins- de Ensino: plano de disciplinas, de unidades e
trumento democrático. experiências propostas pela escola, professores,
Nº 10 • Abril/99

alunos ou pela comunidade.


Capítulo 2 - A aplicação do Na análise dos dados da escola, as autoras
planejamento sistematizado na 59
59
observaram que Planejamento anual era feito co-
escola municipal multisseriada letivamente, mas baseava-se em Matriz Curricular jan/2017
e Ementas padronizadas e descontextualizadas; os Capítulo 3 - A importância da
planos de aula eram elaborados individualmente participação da família nas ações
pelo professor, sem considerar os conhecimentos
da escola - Eudeiza Jesus de Araújo,
prévios dos alunos e a contextualização da escola;
tendo sido apontada a deficiência na execução
Gerry Salvaterra Lara, Maria das
do planejamento escolar como uma das causas Neves Oliveira de Souza
mais impactantes do alto índice de reprovação Os autores trazem importantes reflexões quanto
verificado. ao papel da gestão no que tange a luta por uma
Assim, no processo de Projeto de Intervenção política democrática de educação e a completa
Pedagógica sobre Planejamento Escolar desta mudança do sistema de ensino brasileiro, dizendo
Unidade, a matriz curricular foi readequada, pen- que há de se humanizar a educação.
sando em procedimento didáticos e metodologias; A escola espera da família uma participação
incorporou-se um rol de proposições de atividades; efetiva na vida escolar dos filhos e o apoio às ações
definiu-se objetivos e as habilidades a serem alcan- da escola, não apenas a simples ajuda nas ativida-
çadas; reorganizou-se os instrumentais de avaliação des. Mas para isso é preciso que a escola inclua a
do Aproveitamento Escolar; organizaram-se os presença da família em sua rotina, nas ações peda-
planos de ensino por disciplina de forma coletiva. gógicas e a coloque nos momentos de construção
Além disso, houve: a reorganização do do Regimento Escolar e do PPP de forma a in-
horário de planejamento docente; o estabe- centivar sua participação. Há a defesa do conceito
Gestão democrática e participativa

lecimento de um cronograma de capacitação de participação democrática pelo pressuposto do


para o professor; o monitoramento por parte envolvimento da comunidade escolar como um
da coordenadora pedagógica, do desempenho todo e o partilhamento do poder de decisão.
escolar do aluno e da interação da comunidade, “A gestão democrática é fundamental para a
além do acompanhamento do planejamento das definição de políticas educacionais que orientam a
aulas; a disponibilização de recursos didático- prática educativa, bem como revitaliza os processos
-pedagógicos necessários; a execução de ações de participação, dentro dos parâmetros definidos
motivadoras para a participação da comunida- no “chão” da escola pública e é um canal no proces-
de; o estabelecimento de metas progressivas de so de democratização, na medida em que reúnem
aprovação do aluno até o alcance da média do diretores, professores, funcionários, estudantes,
IDEB; a definição dos instrumentos de avalia- pais e outros representantes da comunidade para
ção do Projeto de Intervenção Pedagógica, por discutir, definir e acompanhar o desenvolvimento
meio de indicadores quantitativos e qualitativos, do Projeto Político-Pedagógico da Escola, ferra-
tais como índice de frequência e aproveitamento menta indispensável na escola, uma vez que trata
escolar do aluno, de participação da comunidade da “alma” da escola, caracteriza quem são, como
e da qualificação profissional do professor. são e porque estão na escola, é a partir dele que
Nas considerações finais, as autoras afirmam devem ser tomadas todas as medidas, visando o
1) que a estruturação da ementa, selecionando- bem comum dos alunos, foco maior desse processo
-se conteúdos significativos, atrelados à interdis- de democracia” (p.44-45).
ciplinaridade e à readequação da matriz curri- É da efetiva integração escola e família que
cular favoreceu a interação escola-aluno alcance surgirá uma comunidade propriamente dita, enten-
dos objetivos propostos, 2) que a adequação dendo e assumindo a escola como parte integrante
metodológica voltada à clientela atendida, no de um passado, presente e futuro. Assim, é preciso
caso a educação do campo, resultou na ressig- não só trazer os pais até a escola, mas é preciso ir
nificação para toda a comunidade, atendendo até às famílias e conhecê-las. Não adianta prever
essa integração apenas no papel e documentos, é
Nº 10 • Abril/99

às expectativas da realidade; 3) a importância


da formação continuada dos docentes para a ga- preciso promovê-la através de mecanismos volta-
rantia do aprimoramento do trabalho coletivo; dos para a mudança de atitudes.
60
60
4) o processo trouxe maior atividade à todos os Perante estas considerações, os autores aplica-
jan/2017 sujeitos do processo educativo. ram um questionário junto aos professores, super-
visores, orientadora, alunos e pais para verificar No capítulo, as autoras relatam como foi o
essa questão na Unidade em que atuam. Em linhas processo de elaboração do PPP na Unidade, sendo
gerais, observaram que a) não se pode admitir a mencionada a necessidade de envolvimento de
existência de espaço para uma democracia concedi- toda a comunidade escolar, com a utilização de en-
da, uma vez que este é um processo que se realiza trevistas com diferentes atores, por exemplo, sendo
praticando; b) para os professores, supervisores e a proposta do projeto de intervenção a construção
orientadora da escola a participação é facilmente do PPP com o envolvimento da comunidade,
conceituada, c) os alunos souberam o que é parti- pois quando todos se propõem a realizar as ações
cipação, porém não sabem quem deve compor o em parceria, vê-se importância de descobrir quais
Conselho Escolar; d) para os pais a participação é as necessidades e anseios dos alunos, da equipe
importante, mas disseram que o trabalho os afasta escolar e dos pais.
da escola; e) alguns pais não sabem quem compõe “O PPP deve ser construído de forma que apon-
a equipe gestora; f) os pais fizeram cobranças im- te para as necessidades de reconstrução do homem
portantes quanto ao trabalho da escola. como ser integral, por intermédio da integração de
Diante dos resultados, os autores consideram conhecimentos específicos, adaptados à realidade
ser importante avaliar as ações da gestão e analisar do educando buscando sua integração com o meio
os dados coletados, pois torna-se possível traçar social onde vive” (p.62).
caminhos, visando a melhoria dos pontos nega- A partir dos dados coletados das reuniões, entre-
tivos detectados e fortalecer o que vem dando vistas e questionários, bem como análise de arquivos

Gestão democrática e participativa


certo. Destacam o papel do Conselho Escolar e documentos escolares, foi relatado pelas autoras
(instância de interação escola/comunidade da ter sido possível conhecer a escola mais de perto e de
gestão democrática/combate ao autoritarismo, for- forma mais dinâmica, tendo as ideias centradas em
mando futuros cidadãos na vivência e valorização vários pensamentos e a tomada de decisões de forma
da democracia) por configurar-se também numa coletiva, por meio da prática da autonomia escolar
escola para os pais, oferecendo uma possibilidade e da gestão democrática. Foi possível conhecer as
de uma aprendizagem de mão dupla: a escola es- dificuldades e limites da escola, mas, além disso,
tendendo sua função pedagógica para a sociedade identificar potencialidades e competências presentes
e a sociedade influenciando os destinos da escola. no contexto interno e externo.
Atentam ainda ao fato dos gestores necessaria- Os princípios norteadores do PPP foram:
mente revisarem, de forma crítica, seu papel na relação escola x comunidade, democratização
escola e na sociedade. Finalizam afirmando que a do acesso e da permanência do aluno na escola
busca de uma escola democrática e participativa com sucesso, democracia, autonomia, qualidade
de alta intensidade interfere nas aprendizagens de educação para todos, organização curricular e
dos alunos, bem como na formação da sociedade valorização dos profissionais da educação.
como um todo.
As autoras citam as reuniões pedagógicas e mo-
mentos de avaliações como importantes situações
Capítulo 4 - A construção do reflexivas sobre as questões da escola.
projeto político-pedagógico da Embora seja destacada a participação de todos,
escola - Edna Maria Cordeiro, as autoras mencionam ser necessária a definição da
Claudineia Ribeiro de Sousa, função de cada um. Todos são responsáveis para
Jovina Benicio Coelho Rocha a construção do PPP, porém mencionam o gestor
As autoras falam da importância da qualidade o responsável pela iniciativa e estímulo de toda
da educação ser pensada de forma coletiva, sendo equipe escolar. Esta última deve ser parceira do
gestor nas decisões educacionais e na mobilização
Nº 10 • Abril/99

o PPP um norteador da aprendizagem em que


se define o caminho a se pretende percorrer para da comunidade para que se concretize a proposta,
atingir objetivos e também um referencial voltado assim como os pais e comunidade devem estar
envolvidos e compromissados nesta construção. 61
61
para a cidadania na perspectiva da construção de
projetos democráticos com visão de transformação. Há ainda o destaque para a avaliação do PPP jan/2017
no que tange o desenvolvimento do trabalho e possibilitou a identificação de falhas da gestão
possíveis apontamentos para melhoras, tendo escolar e contribuiu para solucionar mais rápido
como foco o alunado, as atividades desenvolvidas, os problemas administrativos e pedagógicos iden-
o trabalho e a atuação dos profissionais. tificados ao escutar todos. Para isso, no início do
Concluindo, p.69: “A construção e implemen- projeto foram realizados dois encontros de cons-
tação do PPP na escola deve ser compreendido por cientização com a equipe docente para mobilizá-los
todos como um processo significativo e fundamen- na intenção da compreensão da necessária partici-
tal na escola, pois se configura num referencial pação dos familiares nesse processo. Após isso, a
de conquista da autonomia, no qual todos juntos escola fez chamada na rádio para a comunidade,
possam conhecer melhor sua própria escola e tam- confeccionou folders e convites, apresentou peça
bém participar em todos os momentos na busca de teatral e fez palestra com o tema do PPP, bem
uma educação de qualidade para todos que fazem como debates em salas de aula. Esse processo foi
parte da comunidade escolar” sistematizado em um relatório e analisado. No
processo de ‘escuta’ aos alunos, por meio de reu-
Capítulo 5 - Novos rumos através niões e questionários, observaram, por exemplo,
que, apesar da nota 8 dada por eles, mencionaram
do projeto político-pedagógico
que é preciso melhorar no quesito aproveitamento
da escola - Rosa Martins Costa dos equipamentos didáticos e relacionamento de
Pereira, Adelma Bezerra do alguns profissionais com os alunos.
Nascimento Gomes e Sandra
Gestão democrática e participativa

No momento seguinte, prepararam-se para o


Alves da Silva Nogueira diálogo com os pais, tendo como estratégia, em
As autoras relatam o processo de reconstrução janeiro, a entrega de um folder sobre o PPP e um
e valorização do PPP da escola como forma de convite para um encontro, em fevereiro, que re-
intervenção e mediação pedagógica na busca do fletiu sobre os dados coletados junto aos alunos e
aprimoramento da formação educativa e cultural a aplicação de um questionário. Embora a escola
de qualidade para todos, sendo mobilizada toda tenha sido bem avaliada pelo desenvolvimento
a comunidade escolar, em seus vários segmentos de projetos pedagógicos, os pais apontaram que
(pais, alunos, professores e equipe técnica), de for- é preciso fortalecer o “Pais na escola: um ato de
ma democrática. A escola buscou dados no projeto amor” por ainda ser frágil.
escrito em anos anteriores, bem como análise do No encontro com os funcionários, os quais
contexto atual, além de legislações e bibliografias demonstraram ser pessoas preocupadas com a
de referências. aprendizagem dos alunos, e após respostas a
O PPP, ao delinear princípios, diretrizes e algumas perguntas, viu-se que pontos positivos
propostas de ação, serve para que a comunidade da escola são melhoria na qualidade do ensino
estabeleça seu rumo e melhor organize e signifique aprendizagem, o desenvolvimento dos projetos
as atividades, sendo documento norteador da orga- pedagógicos e agilidade na resolução de proble-
nização do trabalho a ser desenvolvido e expressor mas, enquanto negativo o alto índice de abandono
do compromisso com a formação do cidadão. A dos alunos da EJA.
elaboração/readequação da proposta pedagógica Para finalização do processo iniciado com eles, o
deve ser vivenciada em todos os momentos e por último encontro foi com a equipe docente, no qual
todas as pessoas, pois todos são atores do processo houve uma breve retrospectiva das ações realizadas
educativo. “o projeto político pedagógico requer e uma avaliação sobre os encontros realizados com
um comprometimento coletivo e um compartilha- os alunos, pais e funcionários; assim, refletiu-se
mento de responsabilidades, pois é preciso resgatar sobre o trabalho que eles, professores, e também a
a participação de todos pela educação, mas para
Nº 10 • Abril/99

direção estão desenvolvendo. Os docentes também


isso é necessário ouvir cada membro que compõe responderam a um questionário, sendo apontado
essa comunidade” (p.73). como aspectos positivos: a realização dos trabalhos
62
62
No processo de reelaboração do PPP desta es- conjuntos e interdisciplinares, o ambiente harmô-
jan/2017 cola, as autoras afirmam que o trabalho em equipe nico e a socialização de experiências. Quanto aos
negativos citaram o alto índice de reprovação e de No projeto de intervenção apresentado neste
abandono dos alunos. capítulo, os autores optaram pelo método descritivo
Na conclusão, as autoras afirmam que esse com a utilização das técnicas de observação – contato
trabalho possibilitou uma maior integração da direto com os sujeitos da pesquisa (professor, equipe
família na escola, bem como a percepção de que gestora e funcionários em geral), buscando entender
o trabalho coletivo é a melhor maneira de se fazer o processo de construção democrático do projeto.
uma educação de qualidade, pois quando é cons- Observou-se que a escola reconhece e adota
truído com a participação da comunidade escolar a gestão participativa e compreende que para
todos são co-responsáveis do projeto. ter sucesso é importante compartilhar o poder,
incentivando e respeitando a opinião de todos os
Capítulo 6 - Projeto político- envolvidos no processo educativo, tendo constru-
pedagógico da unidade escolar: ído seu PP entre fevereiro e junho de 2007 com a
participação de pais, alunos, docentes, servidores,
princípio de democracia -
comunidade e equipe gestora.
Irmgard Margarida Theobald,
Para essa construção, a escola formou comissões
Aloir Ribolli, Gilvan vanconcellos,
e realização de trabalhos em pequenos grupos
Jolar Vieira Lopes, Maria integrados com membros de todos os segmentos
Aparecida Loss Uliana que apresentavam suas propostas ao grande gru-
Os autores contextualizam que a História da po. Buscou dados que dessem conta das quatro

Gestão democrática e participativa


educação brasileira vem se processando, através de dimensões do projeto: pedagógica, administrativa,
décadas, por políticas educacionais extremamente financeira e a jurídica. Além disso, criou um espaço
centralizadoras e autoritárias, cabendo assim a para pesquisa sobre concepções (educação, escola,
escola se torna um dos agentes de mudança social aluno, professor, funcionário, conhecimento, de
e constituir-se um espaço democrático, garantindo aprendizagem, de sociedade, de mundo), sendo
ao educando o direito de usufruir da construção do divididos os temas em grupos que apresentaram
seu conhecimento e oferecendo aos seus professores seus estudos para todos.
a educação continuada no sentido de se sentirem Depois disso, definiram-se os principais objetivos
comprometidos com a qualidade da educação. para próximos três anos, tendo também apontado
Consideram que a escola é um espaço privile- a necessidade de encontros bimestrais para análise
giado, onde os membros podem experimentar ser e avaliação contínua do proposto. Isso suscitou o
atores do processo educativo, suscitando a cons- compromisso de todos no sentido de reaproximar os
trução democrática de um Projeto Pedagógico e envolvidos no processo ensino-aprendizagem.
um planejamento que requer encontrar, de forma Nas considerações finais, os autores afirmam
coletiva, respostas a uma serie de questionamen- que “o Projeto Político Pedagógico, requer conti-
tos: para quê? O quê? Quando? Como? Por quê? nuidade das ações, descentralização, democratiza-
Com quem? ção do processo de tomada de decisões e instalação
Os autores destacam que alguns componentes de um processo coletivo de avaliação de cunho
pedagógicos são básicos na condução do proces- emancipatório. Há várias formas de construir o
so educativo e devem ser pensados/considerados projeto pedagógico. Cada escola é única em sua
pelos membros da escola, dentre eles: a avaliação, realidade e nas relações que os segmentos estabe-
o currículo, o planejamento, a realidade social dos lecem entre si. Nesse sentido, quaisquer sugestões
atores, bem como as relações existentes no espaço apresentadas precisam ser adaptadas à realidade
educativo. escolar” (p.90).
Nº 10 • Abril/99

Sabe-se da importância da construção do PP Portanto, é preciso considerar que cada escola


para a escola, mas há de se pensar no seu fazer edu- terá de investigar e propor transformações advin-
cativo e na sua aplicabilidade, pois esse processo das de seus dados e contextos para tomadas de
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63
posterior exige ruptura, continuidade, sequência, decisões, mas numa perspectiva democrática e par-
interligação, do antes, do durante e do depois. ticipativa para que seja uma construção legítima. jan/2017
Capítulo 7 - A participação riências escolares, bem como motivos de abandono
da família na vida escolar dos e fracassos e os benefícios da conclusão dos estudos.
No segundo dia houve a produção de textos com
filhos - Loidi Lorenzzi da Silva,
o tema “A importância dos pais na escola”. No ter-
Sebastião Alves Filho Coutinho ceiro dia, cada turma desenvolveu atividades como
Os autores para pesquisar sobre o tema partem cruzadinhas, caça-palavras e acrósticos que foram
da observação de que, na escola em que atuam, expostas em mural. No quarto dia a equipe gestora
os pais pouco ou quase nunca participam na vida organizou salas de jogos. No quinto dia houve uma
escolar de seus filhos e a falta dessa integração com tarde esportiva com os pais, professores, equipe
a escola é motivo de reclamações, principalmente gestora, alunos e demais funcionários da escola,
dos professores, pela falta da ajuda dos pais nos sendo também aplicado questionários aos pais e
trabalhos escolares dos alunos.
professores e realizadas entrevistas.
Consideram que a família é parte fundamental
Apenas um pai dos 26 perguntados respondeu
na construção da aprendizagem (a participação
que participa da vida escolar dos filhos. Treze pais
pode afetar o desempenho das crianças), uma vez
disseram que não comparecem a escola com frequ-
que ela possui uma influência muito grande na vida
ência por falta de tempo, pois o horário é incom-
comportamental da criança e que a colaboração/
patível. Seis disseram ter vontade, mas não sabem
interação dos pais com a escola ajudam a resolver
como participar e que os professores cobram mais
muitos problemas escolares, além disso informam
do que os orientam. Três mães disseram que não
que escola faz diversas ações, mas são poucos os
Gestão democrática e participativa

tem com quem deixar os filhos pequenos e dois


que comparecem.
pais acham que não é necessário os pais compa-
Para que a parceria seja efetiva é preciso que recerem com frequência na escola, pois quem
a escola construa, por meio de uma intervenção ensina é a professora. Apesar destes dados, todos
elaborada e consciente, a criação de espaços de reconhecem a importância da sua participação na
reflexão e experiências de vida numa comunidade
vida escolar dos filhos.
educativa, instituindo acima de tudo a aproxima-
ção entre as duas instituições, família e escola, não Os professores, ao responder às perguntas,
sendo apenas o ‘local’ onde os pais recebem infor- mencionam a falta de responsabilidade, falta de
mações sobre as notas de seus filhos, por exemplo. tempo, a falta de interesse dos pais pela vida escolar
dos filhos já que nem justificam as ausências.
O trabalho foi trabalho desenvolvido com a
participação de professores e equipe gestora, vi- Os autores afirmam que “Nota-se que esse
sando apontar dados concretos e buscar amenizar compromisso precisa partir de ambas as partes,
o problema enfrentado. A pesquisa buscou enten- pois estas respostam deixam transparecer que
der o motivo pelo qual há falta de envolvimento ambos vivem buscando culpados sem buscar um
dos pais na vida escolar de seus filhos, por meio verdadeiro compromisso” (p.100).
de observação direta, questionários e entrevistas, Ao perguntar o que a escola deveria fazer para
os alvos foram pais e professores. Os pais foram garantir a participação dos pais, os professores
motivados a participar da vida escolar dos filhos responderam: continuar desenvolvendo projetos
em uma semana de ações diárias, sendo finalizada que envolvam a participação dos pais, promover
com uma confraternização no pátio. atividades esportivas para atrair os pais, propor-
Na intenção de garantir a participação dos pais, a cionar reuniões mais agradáveis, acolhedoras e de
escola enviou um ofício aos setores de trabalho dos estabelecimento de relações, promover palestras e
pais, solicitando a dispensa dele por uma hora ao dia eventos diferenciados, bem como conscientizar os
durante essa semana de alerta sobre a importância pais da sua importância na vida escolar dos seus
de sua participação na vida escolar dos filhos. filhos. Os autores acrescentam que a escola deve se
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Inicialmente o assunto foi sobre as atividades co- preparar para ajudar os pais, de forma convidativa,
tidianas dos alunos e a necessidade de envolvimento buscando canais efetivos de comunicação e promo-
64 vendo atividades específicas de sua comunidade.
64
nos processos de aprendizagem de seus filhos. No
jan/2017 primeiro dia os pais relataram quanto às suas expe- Ao concluírem, os autores afirmam que a famí-
lia e a escola formam uma equipe, sendo funda- bem como elevar o nível da qualidade educativa.
mental estabelecer diálogo que tenham os mesmos O processo de investigação contou com reuniões,
princípios e critérios, bem como a mesma direção conversas informais, aplicação de questionário e
em relação aos objetivos que desejam atingir, para análise de alguns dados dos resultados de anos
que as dificuldades sejam aos poucos superadas em anteriores, com a direção, corpo técnico, adminis-
prol da aprendizagem dos alunos. trativo, professores e alunos para a identificação
das situações problemas e formulação das hipóteses
Capítulo 8 - Melhoria da qualidade que foram trabalhadas neste projeto.
educativa na escola estadual de Após as análises, obtiveram o seguinte diag-
ensino fundamental Samaritana - nóstico: a falta de participação e acompanhamento
dos pais na vida escolar de seus filhos, sendo que,
Carlson José Lima de Sousa, Lúcia
solucionado este, os outros (evasão, dificuldades
de Fátima Xavier González, Rosa de aprendizagem, problemas disciplinares) seriam,
Martins Costa Pereira possivelmente, minimizados.
A reconstrução do PPP refere-se ao planejamen- A prioridade escolhida foi: sensibilizar os pais
to de intervenções responsáveis e conscientes em ou responsáveis a participar de todos os aconteci-
benefício da coletividade, atendendo às dimensões mentos da escola, atestando a eles sua importância
políticas e pedagógicas que lhe são inerentes. Os e mostrando que a escola se preocupa com eles e
autores notaram que o PPP da escola em que deseja assumir a responsabilidade de buscar ca-
atuam precisava de análise e reformulação, pois a

Gestão democrática e participativa


minhos que possibilitem transformar a realidade
dinâmica das atividades escolares e as necessidades em que vivem. Foram elaboradas estratégias,
sócio-educativas inerentes da função social da insti- ações e metas com datas previstas para trazer os
tuição escolar exigem constante repensar de metas pais ou responsáveis para a escola. Com intensa
a serem alcançadas para a melhoria da qualidade divulgação, a primeira reunião trouxe melhora
educativa. É preciso ainda garantir mecanismos na participação de pais. Foi pesquisado com a
de integração e envolvimento que possibilitem, comunidade qual o melhor horário para se fazer
de fato, o poder de decisão e ação na escola com- as reuniões.
partilhados e prática de gestão democrática expe-
“O PPP é justamente a forma de enfrentar a
rimentada por todos os atores da escola.
situação que se apresenta, visando a transforma-
Os autores nos atentam: “É muito difícil rom- ção. A compreensão deste como elaboração coletiva,
per com o modelo tradicional de participação, o em processo permanente de construção, reflexão e
que é confundido com presença em eventos e ati- modifica olp0-ção, traz uma significação de outra
vidades eventuais, tornando assim um desafio da natureza, que não pode ser apenas documental e
escola em relação ao envolvimento da comunidade burocrática, requerendo, antes de tudo, sensibili-
escolar em suas decisões e fazer com que esta seja zação para a necessidade de sua elaboração seja
participativa” (p.105). sentida pela comunidade” (p.111).
De forma a colaborar com a escola em questão, em Na tentativa de tornar realidade as propostas
co-participação com a comunidade escolar, os autores do PPP, a escola vem incentivando a participação
realizaram um Projeto de Intervenção a partir da aná- da família e da comunidade no processo educati-
lise crítica do PPP existente, por meio da identificação vo, promovendo assembleias, eventos em datas
das necessidades conforme a atual realidade da escola comemorativas, atividades culturais, esportivas
e discussão com o coletivo dos segmentos escolares e artísticas, utilizando desses momentos para
para a reconstrução do documento. ressaltar a importância do acompanhamento da
Houve uma conversa inicial com a direção da aprendizagem dos filhos. Estão previstas para rea-
Nº 10 • Abril/99

escola e, em seguida, com a equipe administrativo- lização: reuniões por série, palestras para a família,
-pedagógica da escola, sendo mencionada a von- semana do meio ambiente, mutirão da limpeza
tade de desenvolver ações para incentivar alunos, (continuação), reunião geral com a comunidade,
65
65
professores e comunidade escolar de forma geral, festa junina, elaboração de instrumentais de acom-
para a melhoria dos serviços oferecidos na escola, panhamento dos pais. jan/2017
Os autores concluem, após a experiência, que da escola e contribuir para o trabalho na temática.
o PPP possui a função de romper o isolamento Foi realizada uma pesquisa bibliográfica sobre o
dos diferentes segmentos da escola, buscando pela tema em questão, seguida de uma investigação
participação coletiva e afetiva de pais, funcionários de como estava o trabalho na escola sendo vista a
e comunidade, não só na sua reelaboração, mas na necessidade de maior ênfase. Após isso foram re-
observação crítica do cotidiano escolar. alizadas entrevistas com o corpo docente, discente
e técnico da escola para obtenção de dados sobre
Capítulo 9 - A diversidade étnico- o tema trabalhado.
racial na escola: convivendo sem Passada essa etapa, foram planejadas atividades,
preconceito - Maria de Fátima numa abordagem interdisciplinar e significativa,
que contemplassem a diversidade étnico-racial, o
Castro de Oliveira Molina, Ilse
preconceito e a desigualdade, de forma a atingir os
Kuns Drum alunos e toda comunidade escolar, sensibilizando
Os autores falam do desafio de educar com quanto ao reconhecimento das origens e valoriza-
foco na diversidade por exigir a combinação de ção dessas, bem como a necessidade de se cultivar
sensibilidade, conhecimento e disposição para valores étnicos de respeito às diferenças. As estra-
articular os vínculos entre educação e diversidade, tégias foram: palestras proferidas por educadores
tendo as reflexões e as reivindicações ao direito às e especialistas na área, uso de documentários sobre
diferenças norteadoras de práticas voltadas a uma o tema, debates em que os alunos manifestavam
educação inclusiva. Apontam ainda a necessidade
Gestão democrática e participativa

opiniões e experiências, apresentação de dramatiza-


de reconhecer a teia de relações que se estabelece ções, teatros, dança afro, roda de capoeira, gincana
dentro da escola construída por sujeitos sócio- educativa, confecção de cartazes e murais, tendo o
-culturais e, consequentemente, como um espaço encerramento no Dia da Consciência Negra.
da diversidade étnico-racial.
Os autores destacam que, embora vivamos
“O ambiente escolar é um local que exerce num país com grande diversidade racial, é possível
influência intelectual e cidadã sobre um indi- observar que existem muitas lacunas nas práticas
víduo, vindo a afetar a formação da identidade pedagógicas, nos conteúdos escolares, no que se
dos alunos. Identidade a qual é definida pelos refere às referências históricas, culturais que deem
comportamentos, atitudes e costumes de um embasamento e explicações que possam favorecer
indivíduo e se modifica com a convivência entre não só a construção do conhecimento, mas tam-
sujeitos, ou seja, se constrói tendo o outro como bém a elaboração de conceitos que possam con-
referência (...) Diante disso, torna-se necessário tribuir para a valorização e respeito às diferenças;
reconhecer semelhanças e diferenças sociais, étni- sendo, assim, é preciso trabalhar na perspectiva de
cas, econômicas e culturais, de dimensão cotidiana uma educação antirracista que explique a maneira
existente no grupo de convívio escolar e na sua como as desigualdades são construídas e busque
localidade e aceitar com naturalidade suas origens a igualdade enquanto possibilidade de considerar
estabelecendo relações entre o presente e o passado, o respeito ao ser humano.
libertando-se do preconceito” (p.118-119).
“Nesse sentido, construir algumas diretrizes
Os autores apontam a necessidade de ampliar o que contemplem a educação para as relações
nosso repertório de informações sobre a participa- raciais requer o reconhecimento da escola como
ção negra na cultura e na história nacional e pro- espaço de sociabilidade onde haja a possibilidade
porcionar aos alunos reflexões acerca do racismo de todos construírem suas identidades individuais
e da discriminação, tendo um docente preparado e coletivas, garantindo o direito de aprender e de
para trabalhar esses assuntos na perspectiva de ampliar seus conhecimentos, sem serem obrigados
conscientização da sua função educadora.
Nº 10 • Abril/99

a negar a si próprios ou ao grupo étnico-racial a


Assim, a proposta de intervenção deste capítulo que pertencem. É na perspectiva da valorização
diz respeito ao desenvolvimento do Projeto “Di- da diversidade que se localiza o trabalho com a
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66
versidade étnico-racial na escola: convivendo sem questão racial, tendo como referência a participa-
jan/2017 preconceito” com a finalidade de fortalecer o PPP ção efetiva de sujeitos negros e não-negros” p.127
Nas considerações finais, os autores apontam o alcance dos objetos educacionais), sendo o valor
que projetos, como esse que valoriza a diversi- estipulado pelo número de alunos.
dade cultural e étnico-racial, contribuem para a Os entrevistados responderam que o geren-
construção de uma educação que seja geradora de ciamento desses recursos é feito pelo diretor e
cidadania, que atenda e respeite as diversidades e pela Associação de Pais e Professores, sendo que
peculiaridades dos nossos educandos na adoção de um pai enriquece a resposta com detalhes sobre a
práticas educativas mais inclusivas. origem dos recursos e os procedimentos do geren-
ciamento. As escolas estudadas não implantaram
Capítulo 10 - Gestão democrática o Conselho Escolar. Foi apontado que a verba
e autonomia financeira na escola priorizou a melhoria do espaço físico, a qualida-
pública: avanços e retrocessos - de da merenda escolar e a aquisição de recursos
Clarides Henrich de Barba, Alaíde didático-pedagógicos, sendo que uma das escolas
acrescentou o investimento na formação continu-
Saraiva de Lima, Ana Maria da
ada dos educadores. Foram apontadas como des-
Nóbrega, Eliane Maciel Souza vantagens: autonomia restrita, valor insuficiente e
Belarmino impedimento de aquisição de material permanente.
As autoras iniciam afirmando que a escola Após a análise dos dados coletados e dos re-
autônoma não é uma escola sem regras ou sem sultados, os autores consideram que a autonomia
controle do Estado, mas sim uma escola que deseja financeira da escola ainda está em processo de

Gestão democrática e participativa


caminhar para se tornar cidadã e necessita compre- conquista, assim como a gestão democrática,
ender que a sua autonomia de limita a estabelecer necessitando da presença da sociedade na escola,
normas e regras pelas quais será gerida, de forma maior participação e acompanhamento das ações
democrática com a participação de todos os atores educacionais. Além disso, mencionam a necessida-
envolvidos, inclusive no que se refere à aplicabilida- de de enfatizar o aspecto pedagógico como fator
de dos recursos financeiros, a execução e avaliação predominante no uso da verba nas escolas.
das ações pedagógicas de forma a contribuir para
melhoria do ensino aprendizagem dos alunos.
Capítulo 11 - A gestão escolar
“Bacilar (1997) entende que a autonomia e o desafio da (in)disciplina na
da escola implica em três aspectos distintos: o pe-
escola - Irmigardd Margarida
dagógico, o administrativo e o financeiro que se
completam na dimensão da ação da escola. Nesse Theobald, Ivanete Coimbra da
aspecto, Sinder (1995) reafirma a importância da Silva, Lucilene Ugalde da Silva
descentralização administrativa e a importância As autoras consideram que o PPP é a chave da
da escola programar a sua política educacional, gestão escolar devendo ser revisto e reformulado anu-
tendo como suporte a descentralização, que somen- almente. Quanto à indisciplina, tema deste capítulo,
te ocorre quando o poder sobre o que é realmente as autoras atentam ao fato de que a escola deve evitar
no campo pedagógico e administrativo se instala posturas saudosistas, mas sim olhá-la como um sinto-
na escola. Só se considera a escola como eixo central ma de uma escola incapaz de gerir e administrar novas
do processo educacional e os estudantes e professores formas de existência social concreta, que surgem no
seus sujeitos” (p. 133). seu interior, em decorrência das transformações do
Neste capítulo será apresentado um estudo de perfil de sua clientela. Alguns fatores podem estar
escolas públicas estaduais, por meio de entrevistas relacionados à indisciplina: questões relacionadas ao
com diferentes atores, sobre funcionamento e ge- professor, principalmente na sala de aula; centrados
renciamento, vantagens e desvantagens, avaliação nas famílias dos alunos; outros verificados nos alunos;
outros gerados no processo pedagógico escolar; e
Nº 10 • Abril/99

sobre ‘dinheiro na escola’. A verba aqui tratada


se refere ao repasse enviado pelo governo federal outros alheios ao contexto escolar.
às escolas para melhorar o atendimento de suas Ao ingressar na vida escolar, o aluno encontra
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necessidades básicas de forma descentralizada uma série de regras a fim de possibilitar uma rela-
(por ser uma possível estratégia mediadora para ção de convivência harmoniosa, entretanto muitos jan/2017
rejeitam os objetivos ou os procedimentos valoriza- para o sucesso da escola pública, com o debate sobre
dos por ela; sendo que, a escola, ao não conseguir o projeto intervenção Participação é atuação Fortale-
realizar a socialização comportamental, acaba por cendo a Gestão Democrática, tendo a Eleição direta
criar situações de indisciplina nos seus alunos. para dirigentes e vice-dirigente; Conselho escolar (re-
Citam Paulo Freire para dizer que a escola que presentatividade dos segmentos existente na escola).
busca a formação da cidadania tem como objetivos As autoras informam ainda que as escolas estu-
o tratamento de todos com dignidade, deve valo- dadas consideram que o projeto seja a sua diretriz
rizar o que cada um tem de bom; atualizar-se para política e possa gerar políticas no seu interior,
que os alunos gostem dela e garantir espaço para causando interferências no processo pedagógico,
a construção de conhecimentos que contribuam respaldado por uma análise contínua da conjuntura
para uma análise crítica da realidade. política e educacional, além disso entendem que a
Ao analisar os termos ‘projeto’, ‘político’, ‘peda- gestão democrática só tem sentido com a participa-
gógico’, as autoras trazem importantes ideias que ção efetiva de todos os atores presentes na escola.
colaboram para entender a relevância deste docu- Com o avançar desses entendimentos (de consci-
mento para o fazer educativo, tais como: lançar para ência política, gestão democrática, autonomia), em
a frente, fazer pulsar a partir de dentro, educação, conjunto as ações que promovem maiores integrações
ensino, formação, conhecimento, busca um rumo, entre os diferentes atores da comunidade escolar,
de uma direção, ação intencional, compromisso aumentam-se as chances de se romper com o indivi-
definido coletivamente. Complementam ainda di- dualismo e o isolamento que muitas vezes caracteriza
Gestão democrática e participativa

zendo que o PPP é político, pelo compromisso com o trabalho dos educadores, como aconteceu em 2009
a formação do cidadão para um tipo de sociedade, nessas escolas, em prol de um projeto coletivo.
e pedagógico, por definir as ações educativas e as Na conclusão, as autoras retomam a questão
características necessárias às escolas para cumprirem da indisciplina dizendo que escolas precisam de-
seu propósito, sua intencionalidade. senvolver políticas internas para lidar de forma
Outra consideração diz respeito à constituição preventiva com a indisciplina, afirmando quanto à
do PPP, quanto às experiências já existentes, à inten- necessidade de programas de formação de profes-
ção atual e as propositivas, pois “o PPP compreende sores voltados para essa discussão nas rotinas das
o ‘coração da escola’, um instrumento que engloba escolas. Além disso, embora seja difícil e complexo
o conhecimento que o passado oferta, a vitalidade lidar com a indisciplina, atentam para que o pro-
pertinente ao presente e o anseio da remodelação fessor não desista e nem se acomode. No que se
suscetível no futuro próximo” (p.144), bem como refere ao papel do diretor, afirmam que é preciso
a necessária sensibilização e organização coletiva da um novo papel de diretor, libertando-o de suas
comunidade escolar para elaborá-lo. marcas de autoritarismo e redefinindo seu perfil,
desenvolvendo características de coordenador,
As autoras então refletiram sobre o processo de
colaborador e de educador.
construção do PPP/2008 de duas escolas. Observa-
ram que, embora tenha sido feito convite aos pais
pelo Conselho Escolar, apenas um grupo de profes-
Capítulo 12 - As NTIC na escola
sores acabou elaborando em dias de planejamento pública: desafios para a gestão
antes do ano letivo, assim se questionou quais escolar - Tania Suely Azevedo,
formas poderiam existir para envolver toda a comu- Brasileiro, Anselmo Alencar Colares
nidade escolar para o revistar do PPP. As sugestões Os autores consideram que as tecnologias,
foram: mais diálogo, mais reuniões e participação de quando aplicadas à educação, podem contribuir no
todos, tendo no primeiro dia de aula, por exemplo, desenvolvimento das potencialidades humanas e
as boas vindas e as apresentações, aprofundando na formação e transformação de crianças e jovens
Nº 10 • Abril/99

para uma fala sobre gestão democrática. em cidadãos críticos, autônomos, solidários e
Depois houve uma reunião do CE e da gestora competentes na sociedade atual.
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da escola com a presença de toda comunidade escolar O reconhecimento da potencialidade das tecno-
jan/2017 para falar da importância da contribuição de todos logias favorece a incorporação de diferentes recursos
(computador, Internet, TV e vídeo etc.) na escola e por níveis de escolaridade) como interessante
na prática pedagógica e a outras atividades escolares ferramenta disponível a todos. Citam ainda a
nas situações em que possam trazer contribuições importância de alguns recursos tecnológicos para
significativas, de forma a contribuir para a melhoria o atendimento ao público da Educação Especial.
dos processos de gestão e das aprendizagens. O papel do professor frente às tecnologias
Para a inserção de tecnologias de informação e configura-se como “guia dos/as alunos/as para
comunicação na escola não basta apenas adquirir facilitar-lhes o uso de recursos e ferramentas vir-
equipamentos e softwares, mas sim mobilizar tuais que necessitam para explorar e elaborar os
a escola como um todo, por meio de formação novos conhecimentos e habilidades mediadas pelas
continuada, envolvendo suas lideranças, especial- tecnologias; ele/a passa a atuar como gestor/a dos
mente os/as gestores/as, para que sejam agregadas recursos de aprendizagem e a destacar seu papel
efetivamente ao fazer desses profissionais. de orientador desse processo” (p. 164).
A rede de Internet, por exemplo, pode ser um Nesta perspectiva, o trabalho da escola passa a
espaço privilegiado de comunicação e de divulga- ser interdisciplinar; utilizando a informática como
ção da informação que pode viabilizar este suporte ferramenta de trabalho e a rede Internet como
tecnológico, facilitando a comunicação entre toda canal de comunicação, explorando-a como espaço
a comunidade escolar. Entretanto, “não basta ape- cooperativo e de formação e percebendo-a como
nas informar quais atividades/ações a escola está espaço de trabalho, daí a importância da formação
desenvolvendo; precisa também criar espaços de co- continuada e em serviço dos docentes.

Gestão democrática e participativa


municação não presenciais, principalmente através Os autores apresentam alguns sites e breve
de ferramentas virtuais disponíveis na Internet, descrição destes, com a finalidade de subsidiar o
tendo como as mais utilizadas o e-mail, as listas de processo de autoformação daqueles/as que se inte-
discussão, o fórum, o chats, dentre outras” (P.157). ressam pelo tema, tais como: Programa Sua Escola
Para que esses processos se estabeleçam é preciso a 2000 por Hora, Salto para o Futuro, A Formação
garantir, inicialmente, o acesso. Além disso, é preciso de Gestores para a incorporação de Tecnologias
fomentar um conhecimento teórico-prático destas na Escola, Programa Escola Digital, Blogs como
tecnologias e de seus derivados para que estejam ao ferramentas pedagógicas, Tecnologia ao alcance de
alcance de gestores/as, professores/as, alunos/as e co- todos, A internet vai à escola, A Rede Edutec.Net.
munidade escolar. Três condutas são necessárias para Para finalizar, os autores ressaltam a importância
promover a utilização das NTIC na sala de aula: novas da formação para o contexto de atuação do/ gestor/a
práticas e condutas; novas crenças e concepções acerca escolar e as contribuições das TIC para o seu tra-
das mesmas e a aprendizagem de novos recursos, balho, considerando que as tecnologias precisam,
ferramentas e/ou materiais tecnológicos. em primeiro lugar, ser assimiladas ao cotidiano
Os autores ainda informam que é preciso consi- profissional. Assim o educador atribuirá valor à
derar alguns fatores que interferem, dificultando ou tecnologia pelo potencial de facilitação de seus
facilitando, nas relações que as pessoas têm com as fazeres a fim de que compreenda como elas serão
tecnologias, tais como: idade de vida ou tempo de úteis na facilitação da aprendizagem de alunos ou
profissão, a concepção acerca dos contextos educati- na comunicação direta com a comunidade escolar.
vos e questões curriculares, os efeitos esperados e ex-
pectativas acerca dos seus usos, as posições pessoais Capítulo 13 - Programa
dos gestores e professores. Citam ainda seis tipos de nacional escola de gestores
atitudes de educadores frente ao uso das Tecnologias
da educação básica pública:
na educação: críticos, preocupados, desfavoráveis,
antagônicos, indiferentes, não-iniciados.
gestão democrática e políticas
Nº 10 • Abril/99

Os autores destacam a Biblioteca virtual (bases


de formação de professores
de dados com livros digitalizados, artigos, ende- a distância - Andréia da Silva
Quintanilha Sousa 69
69
reços na Internet, comentados, banco de imagens
e sons, além de propostas de atividades e projetos A autora analisa o modelo de gestão educa- jan/2017
cional proposto no Programa Nacional Escola de a ampliação do debate acerca dessa modalidade nas
Gestores da Educação Básica Pública, o qual tem universidades” (p.180-181).
o objetivo de 1) formar, em nível de especialização
(Lato Sensu), gestores educacionais efetivos das es- Capítulo 14 - Gestão do
colas públicas da Educação Básica, e 2) contribuir trabalho escolar e a avaliação da
com a qualificação do gestor escolar na perspectiva aprendizagem numa perspectiva
da gestão democrática e da efetivação do direito à
mediadora: o conflito entre o
educação escolar com qualidade social.
pensar em fazer e o querer fazer -
A gestão proposta na modernização dos siste-
Carmen Tereza Velanga
mas educativos e as melhorias introduzidas em suas
formas de gerenciamento são consideradas base A autora considera que o planejamento é um
para o desenvolvimento do país, estando inserida instrumento que reflete a realidade institucional e
num quadro mais amplo cujas principais caracte- sobre esta realidade, age de forma a transformá-la,
rísticas são: flexibilidade, a agilidade, a eficiência, sendo todos nós parte constituinte dela. Assim,
a escola resulta do planejamento do que se faz –
a eficácia e a produtividade.
porque se pensa – sobre ela.
Os cursos EAD são estratégias de governo
É no ato de planejar, no planejamento da escola
desde a década de 90, sendo uma alternativa de
e na ação docente, como instrumento norteador
superação das dificuldades de acesso ao sistema
do que se é para o que se quer, que se pode olhar
educacional e uma possibilidade de diminuição dos
Gestão democrática e participativa

para a avaliação da aprendizagem numa perspectiva


gastos na área por meio da ampliação de acesso,
mediadora, sendo ela, então, um elemento consti-
democratização do conhecimento e melhoria da
tutivo do planejamento com a pretensão de refletir
qualidade do ensino, no entanto é preciso refletir,
criticamente e trazer sugestões de correção da rota
acompanhar e avaliar esses programas.
e mediação para professores e gestores.
O programa traz a preocupação da formação dos
A autora sinaliza que o planejamento exige a
gestores educacionais da escola pública, com destaque
participação, em que todos se sintam sujeito de sua
para os seguintes temas: descentralização, a gestão
própria história, em três dimensões: a colaboração,
democrática e aa educação inclusiva. O perfil do curso a decisão e a construção em conjunto. Alerta ainda
alinha-se ao previsto na legislação: a gestão demo- que para se planejar também é preciso considerar a
crática do ensino, a participação dos profissionais da existência de uma equipe gestora coordenadora, os
educação na elaboração do projeto pedagógico da planos em nível macro como os planos decenais de
escola das comunidades escolares e local em conselhos educação, os planos plurianuais ou anuais de uma
escolares ou equivalentes, atrelando-se a atuação do secretaria de educação estadual ou municipal; bem
gestor-cursista ao aprimoramento do trabalho reali- como, em plano micro, faz-se necessário coletar
zado na sua escola de atuação. dados através de instrumentos apropriados como
Nas reflexões finais, a autora levanta algumas questionários, formulários, entrevistas e busca de
questões quanto a um possível engessamento do curso documentos da escola.
predeterminado pelo MEC, mas avalia que essa expe- O PPP deve retratar a identidade da escola, com-
riência e as discussões poderão ajudar o redimensio- patibilizando as diretrizes do sistema de ensino com
namento para outras turmas. Conclui que “os desafios as necessidades da comunidade escolar, considerando
impostos a formação de professores na modalidade a a realidade e as práticas sociais de todos os envolvidos:
distância são inúmeros e podem acontecer em vários alunos, gestores, professores, pais ou responsáveis,
níveis como os apontados nesse estudo. Essas questões funcionários, pessoal administrativo, de apoio e a
não podem ser perdidas de vista quando se analisa comunidade local. Deve ainda constituir de princípios
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um Programa de formação continuada a distância que visam garantir a qualidade de ensino tais como: a
como o aqui estudado. Talvez, o grande desafio da relação escola-comunidade; a democratização do aces-
formação de professores na modalidade a distância em so e permanência do aluno na escola; um padrão de
70
70
nosso país não seja somente as disparidades regionais qualidade do ensino para todos; a autonomia dentro
jan/2017 (regiões excluídas do acesso à energia elétrica) e sim dos limites legais e no cumprimento de sua função
social; a organização curricular e o princípio da valo- manifestações da aprendizagem a fim de proceder a
rização dos profissionais que se dedicam à educação. uma ação educativa que aperfeiçoe os percursos indi-
O planejamento é considerado um ato político- viduais”. Cita-se ainda a LDB-96 no que tange a
-pedagógico porque está repleto de intencionalida- avaliação - “contínua e cumulativa do desempenho
des. O docente, a partir de um diagnóstico inicial do aluno com prevalência dos aspectos qualitativos
e da relação com PPP da escola, deve pensar em sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do
suas ações, diante da seleção de conteúdos, de mé- período sobre os de eventuais provas finais” (p.191).
todos e técnicas de ensino, bem como em formas Nesta perspectiva, cabe o destaque de que o
de avaliar os processos educativos. professor deve utilizar diversas produções escolares
A autora menciona que o planejamento do- dos alunos para o acompanhamento da aprendi-
cente, articulado com a proposta pedagógica da zagem (não apenas a prova final, por ex.), sendo
escola, precisa observar os seguintes aspectos: necessário pensar na diversificação das atividades,
Identificação, Ementa da disciplina/atividades, de acordo com as necessidades e possibilidades de
Objetivos de Ensino, Conteúdos, Metodologia, cada aluno. Além disso, deve registrar as observa-
Recursos de Ensino e Avaliação. ções que faz e compreendê-las como uma atividade
Afirma-se que a avaliação para ser uma ação de pesquisa e de levantamento de dados, pois
reflexiva, de fato, exige do docente novas atitudes, revelam os saberes dos alunos. Uma estratégia in-
o qual passa a ser investigador do aprender de seus teressante de documentar esse processo de registro
alunos e realiza adaptações a fim de atender as ne- apontado pela autora diz respeito aos portfólios.

Gestão democrática e participativa


cessidades dos alunos, não permitindo mais ações Em suas considerações finais a autora ressalta que
de exclusão. A avaliação deixa, então, de ter caráter a avaliação mediadora é um processo complexo que
classificatório e excludente e adota uma atitude de envolve outra leitura de mundo mais aberta, flexível
mediação, pois torna-se instrumento de progresso e sensível às diferenças individuais, à diversidade, e
e de intervenção, de correção de rota e de decisões conseqüente necessidade de fazer da escola uma ins-
que favorecem a aprendizagem construída. tituição inclusiva, prazerosa e comprometida com a
Para Hoffman, o professor deve ter três atitudes sociedade, através da qualidade de ensino que busca
para que isso aconteça: ”a) observar o aprendiz; b) promover, devendo estar integrada ao projeto político
analisar e compreender suas estratégias de apren- pedagógico da escola, aos projetos interdisciplinares
dizagem e c) tomar decisões pedagógicas favoráveis de intervenção pedagógica propostos pelos membros
à continuidade do processo (...)a avaliação media- da comunidade escolar e que se vincula estreitamente
dora tem por objetivo a observação permanente das ao processo de avaliação institucional.

MARÇAL, J.C.; SOUSA, J.V. de. Progestão: como promover a


construção coletiva do projeto pedagógico da escola? Módulo III.
Brasília: CONSED, 2009.

Resenha elaborada por APRESENTAÇÃO


Antonia Maria Nakayama A escola precisa preocupar-se em atender às
necessidades específicas da comunidade na qual
Graduada em Psicologia pela PUC-SP está inserida, planejando seu trabalho a médio e a
Mestrado em Psicologia Escolar pelo IPUSP longo prazos, com a finalidade de construir uma
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Doutorado em Didática pela FEUSP


identidade própria. Essa identidade tem um nome:
projeto pedagógico.
71
71
O projeto pedagógico torna-se fundamental
para a escola por ser o elemento norteador da jan/2017
organização do seu trabalho, visando ao sucesso São objetivos específicos dessa unidade:
na aprendizagem dos alunos – finalidade maior da 1. Distinguir a autonomia legal da autonomia
escola como instituição social. construída pelos sujeitos de sua escola.
Neste módulo do programa Progestão, é anali- 2. Propor a elaboração do projeto pedagógico a
sado o processo de construção coletiva do projeto partir da sua realidade escolar.
pedagógico como instrumento importante para
3. Justificar a importância do trabalho coletivo na
assegurar não só o sucesso da aprendizagem dos
construção do projeto pedagógico.
alunos como a sua permanência em uma escola
4. Conceituar projeto pedagógico.
prazerosa e de qualidade.
Apresentam-se os princípios que levam à con- ESCOLA, AUTONOMIA E PROJETO
quista da autonomia pela escola, com base em ações PEDAGÓGICO NA LEI DE DIRETRIZES E
compartilhadas por seus vários atores, uma vez que BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL –
projeto pedagógico e autonomia andam juntos. LEI 9.394/96
Discute, ainda, como o projeto pedagógico As leis são fontes de esperança, mas não fazem
pode orientar o trabalho da escola por meio de milagres, visto que a realidade social não muda
diversas formas de planejamento, todas elas inte- por um simples passe de mágica. Nesse sentido,
gradas no diálogo e na busca de solução dos seus elas são pontos de partida para que a realidade seja
problemas com base na ação coletiva – alunos, pro- repensada e, com base em sua aplicação, avanços
fessores, gestores, pessoal técnico-administrativo e sejam alcançados.
Gestão democrática e participativa

de apoio, pais e comunidade local. Nessas ações, A lei máxima do nosso sistema educacional
todos procuram alternativas para promover ino- reflete um processo e um projeto político para a
vações no cotidiano escolar. educação brasileira. É chamada de Lei de Diretri-
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacio- zes e Bases da Educação Nacional (nº 9.394/96)
nal (LDB), de nº 9.394/96, não só reconhece os es- porque estabelece: as diretrizes que definem os
tabelecimentos de ensino como espaços legítimos princípios, as finalidades, as intenções e os objeti-
para elaboração do seu projeto pedagógico como, vos da educação brasileira. A lei explicita também
também, assegura a participação dos profissionais as bases referentes aos níveis e às modalidades
da educação no desenvolvimento dessa tarefa. de ensino, aos processos de decisão, às formas
de gestão e às competências e responsabilidades
O objetivo geral definido para o módulo é o
relativas à manutenção e ao desenvolvimento do
de promover a construção coletiva do projeto
ensino no país.
pedagógico, articulando-o às várias formas de
Na LDB, destacam-se três grandes eixos di-
planejamento do trabalho da escola.
retamente relacionados à construção do projeto
pedagógico:
UNIDADE 1. POR QUE CONSTRUIR
 O eixo da flexibilidade: vincula-se à autonomia,
COLETIVAMENTE O PROJETO possibilitando à escola organizar o seu próprio
PEDAGÓGICO? trabalho pedagógico.
INTRODUÇÃO  O eixo da avaliação: reforça um aspecto im-
O trabalho da escola torna-se muito mais pro- portante a ser observado nos vários níveis do
dutivo e agradável quando há diálogo entre os ensino público (artigo 9º, inciso VI).
vários segmentos que dela fazem parte. Essa forma  O eixo da liberdade: expressa-se no âmbito do
de trabalhar é muito importante para a discussão pluralismo de ideias e de concepções pedagó-
realizada ao longo desse Módulo, por ser funda- gicas (artigo 3º, inciso III) e da proposta de
gestão democrática do ensino público (artigo
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mental para a construção do projeto pedagógico


de qualquer escola. Os diversos segmentos que 3º, inciso VIII) a ser definida em cada sistema
compõem a escola referem-se a: alunos, pais, pro- de ensino.
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72
fessores, gestores, funcionários e representantes da Considerando esses três grandes eixos, a LDB
jan/2017 comunidade local. reconhece na escola um importante espaço educa-
tivo e nos profissionais da educação uma compe- autonomia, mais solidário e com mais diálogo, que
tência técnica e política que os habilita a participar pode levar os segmentos a se envolver no processo
da elaboração do seu projeto pedagógico. Nessa de forma mais efetiva, pelas ações desenvolvidas
perspectiva democrática, a lei amplia o papel da no cotidiano escolar. Aí temos, de fato, uma au-
escola diante da sociedade, coloca-a como centro tonomia gerada pelas práticas da própria escola.
de atenção das políticas educacionais mais gerais e É nesse sentido que podemos dizer que a auto-
sugere o fortalecimento de sua autonomia. nomia na escola ocorre na medida em que existe
Vejamos, no quadro a seguir, como a LDB de- também a capacidade de a instituição assumir
lega aos sujeitos que fazem a tarefa de elaboração responsabilidades, tornando-se mais competente
do projeto pedagógico. no seu fazer pedagógico.
Art. 12. Os estabelecimentos de ensino, res- É bem possível que, ao ler essas palavras, você
peitadas as normas comuns e as do seu sistema de esteja pensando: qual o papel do gestor no proces-
ensino, terão a incumbência de: so de elaboração do projeto pedagógico da escola,
I – elaborar e executar sua proposta pedagógica. visando ajudar na construção de sua autonomia?
VII – informar os pais e responsáveis sobre a É preciso entender que as leis não mudam
frequência e o rendimento dos alunos, bem como a realidade com um toque de mágica, devendo
sobre a execução de sua proposta pedagógica. ser vistas mais como pontos de partida para os
indivíduos pensarem suas próprias condições e
Art. 13. Os docentes incumbir-se-ão de:
transformá-las. Por isso, não basta a LDB (Lei nº

Gestão democrática e participativa


I – Participar da elaboração da proposta peda- 9.394/96) atribuir aos estabelecimentos de ensino
gógica do estabelecimento de ensino. a tarefa de elaborar o projeto pedagógico; é preciso
II – Elaborar e cumprir o plano de trabalho, que a escola, não confundindo autonomia com
segundo a proposta pedagógica do estabelecimen- soberania, encontre alternativas teóricas e práticas
to de ensino. para mostrar aos seus segmentos a importância de
Art. 14. Os sistemas de ensino definirão as outra autonomia: construída, solidária e dialogada.
normas da gestão democrática do ensino público A autonomia significa a capacidade de a escola
na educação básica, de acordo com as suas pecu- decidir o seu próprio destino, porém permanecen-
liaridades e conforme os seguintes princípios: do integrada ao sistema educacional mais amplo
I – Participação dos profissionais da educação do qual faz parte. Nesse sentido, ela não tem a
na elaboração do projeto pedagógico da escola. soberania para se tornar independente de todas as
II – Participação das comunidades escolar e outras esferas nem para fazer ou alterar a própria
local em conselhos escolares ou equivalentes. lei que define as diretrizes e bases da educação
como um todo.
A LDBEN 9396/1996 utiliza nos artigos 12
e 13 a expressão “proposta pedagógica” e, no COTIDIANO ESCOLAR E DESAFIOS
artigo 14, “projeto pedagógico”. Embora muitos PROFISSIONAIS
educadores interpretem essas expressões de forma O dia a dia da escola é o mote escolhido para
diferente, pode-se considerá-las como equivalen- essa unidade com um convite para que o gestor
tes, pois referem-se ao instrumento que a escola pense sobre o seu próprio fazer, porque suas ações
elabora, objetivamente, visando organizar o seu cotidianas constituem o material básico do estu-
trabalho. Ao longo do estudo desse Módulo, será do. Pretende-se aproximar, por meio das relações
utilizada a expressão Projeto pedagógico. vivenciadas na escola, do desejo de mudança, da
Ao orientar suas práticas para o fortalecimento vontade de inovar que vai se mostrando na sala
de sua própria autonomia, a escola pode construir dos professores, nos horários vagos, nas conversas
o seu conceito de qualidade de ensino e adequar entre os professores nos pontos de ônibus e em
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melhor a sua função às necessidades da comuni- outras situações parecidas.


dade. Aquele desejo que ainda não tem nome, mas
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73
Nesse sentido, organizando o seu trabalho que junta as pessoas em torno de possibilidades e
pedagógico a escola avança para outro nível de de esperanças. Mas como o gestor pode identificar jan/2017
tais desafios? Isso pode ser feito de diversas formas, Esse processo apresenta conflitos, existindo nele
como, por exemplo, pelo registro sistemático da interesses de segmentos divergentes. Mas é exata-
própria ação. Recorrendo a esse tipo de registro, mente essa diversidade de segmentos que torna o seu
é possível ao indivíduo desenvolver a consciência processo de construção rico e dinâmico, pois é em
individual da sua experiência: função dessa interação que surge o coletivo da escola.
 Identificando os desafios cotidianos. A escola sofre, no seu dia a dia, interferências
 Agrupando os desafios de acordo com a sua natu- internas – relativas aos vários segmentos que
reza: pedagógicos, administrativos, financeiros etc. convivem em seu interior – e externas, como as
de natureza política, principalmente quando ela
 Diferenciando desafios coletivos de desafios
está situada em áreas de disputa pelo poder local.
individuais.
Ao basear seu trabalho na discussão coletiva, a
 Analisando os seguintes aspectos: por que
escola pode melhorar a qualidade dos serviços que
permanece, como se relacionam, quais suas
presta à comunidade e estimular ações comparti-
consequências etc.
lhadas entre os seus membros, visando à realização
Recuperar a rotina de trabalho é uma ativida- de sua maior tarefa: a construção do seu projeto
de complexa. Muitas vezes, no final do dia, não pedagógico, de apontar a direção e o caminho
lembramos mais o que fizemos devido a uma série que vai percorrer para realizar, da melhor maneira
de situações imprevisíveis. Os desafios individuais possível, sua função educativa.
muitas vezes se misturam com os institucionais, de
O projeto da escola não começa de uma só vez,
Gestão democrática e participativa

modo que temos dificuldades para solucioná-los.


não nasce pronto. É, ao contrário, muitas vezes,
Por isso é importante registrá-los, diferenciá-los,
o ponto de chegada de um processo que se inicia
para que as soluções propostas também sejam dife- com um pequeno grupo de professores com algumas
renciadas. Esse procedimento de registrar a própria propostas bem simples e que se amplia, ganhando
ação permite problematizar o cotidiano escolar e in- corpo e consistência. Nesse trajeto, ao explicitar
terpretar os desafios pedagógicos nele vivenciados. propósitos e situar obstáculos, os educadores vão
O TRABALHO COLETIVO E A estabelecendo relações, apontando metas e objetivos
CONSTRUÇÃO DO PROJETO comuns, vislumbrando pistas para melhorar a sua
PEDAGÓGICO atuação. (Maria Alice Setúbal, 1994).
Os problemas que os gestores enfrentam no A escola é um espaço educativo, e o seu tra-
cotidiano de uma unidade escolar são desafiadores balho não pode ser pensado nem realizado no
e precisam ser discutidos pelo coletivo da escola, o vazio e na improvisação. O projeto pedagógico é
qual, por sua vez, é bastante heterogêneo. E por que o instrumento que possibilita à escola inovar sua
esse coletivo é heterogêneo? Porque ele é formado prática pedagógica. O projeto pedagógico aponta
por diversos segmentos: professores, gestores, pes- o rumo que a escola deve tomar. Corresponde à
soal técnico-administrativo e de apoio, alunos, pais tomada de decisões educacionais pelos vários ato-
e/ou responsáveis e representantes da comunidade res que o concebem, executam e avaliam, sempre
local, que possuem conhecimentos, ideias e valores considerando a organização do trabalho escolar
diferentes que podem gerar conflitos. como um todo.
Por isso, é bom lembrar que o trabalho de cons- Na medida em que apresenta novos caminhos
trução do projeto pedagógico não é um processo para as situações que precisam ser modificadas,
todo harmônico, sem conflitos. Ao contrário, por pelo trabalho coletivo, a escola afirma sua auto-
ser heterogêneo, o coletivo da escola lida com nomia sem, no entanto, deixar de manter relações
vários desafios que estimulam a própria escola a com as esferas municipais, estaduais e federal da
educação nacional.
Nº 10 • Abril/99

organizar-se para resolver os problemas relativos


ao trabalho que produz. Nesse sentido, um grande Cada escola é única, portanto esse projeto pre-
desafio que a escola atual precisa vencer refere-se cisa levar em conta o trabalho pedagógico como
74
74
à tarefa de estimular, manter e avaliar o trabalho um todo, representando claramente as intenções
jan/2017 coletivo dos seus vários segmentos. da instituição.
A partir dessa concepção, ele não pode ser ela- Foram também apontados alguns desafios presen-
borado apenas por uma pessoa ou pelos gestores tes no trabalho cotidiano dos gestores e a concepção
da escola. Também não deve ser planejado de uma de projeto pedagógico, ressaltando a importância
única vez, mas de forma processual e gradativa, do trabalho coletivo em seu processo de construção.
cumprindo sua função social por meio de ações a Outra questão se apresenta agora: ao retratar a
curto, médio e longo prazos. organização do trabalho pedagógico, que princí-
Para propor inovações no trabalho escolar, o pios e dimensões o projeto pedagógico apresenta,
projeto pedagógico deve considera dois planos: com o objetivo de assegurar, de fato, inovações no
 O primeiro relaciona-se às diretrizes nacionais, cotidiano escolar? Mesmo cada escola precisando
normas, regulamentações e orientações curricu- construir o seu projeto pedagógico a partir de sua
lares e metodológicas originadas nos diversos própria realidade, existem dimensões e princípios
níveis do sistema educacional. A LDB, a polí- gerais a serem observados nesse trabalho.
tica educacional do estado ou dos municípios e Com base nessas dimensões e nesses princípios,
as diretrizes curriculares nacionais são exemplos o projeto pedagógico orienta a escola no cumpri-
dessas regulamentações. mento de sua função social, buscando assegurar o
 O segundo é relativo às práticas e às necessida- sucesso na aprendizagem do aluno.
des dos vários sujeitos da comunidade escolar São objetivos específicos dessa unidade:
(professores, alunos, gestores, demais funcio-  Reconhecer a importância da relação teoria-
nários, pais, associações comunitárias etc.) que -prática na elaboração do projeto pedagógico.

Gestão democrática e participativa


criam novas dinâmicas de trabalho e interferem  Identificar as dimensões presentes na elaboração
nos rumos da escola. Aqui, temos como exem- coletiva do projeto Pedagógico
plo as diversas ações que levam à organização
 Levantar coletivamente os princípios orienta-
geral da escola pelos seus vários sujeitos.
dores para a construção do projeto pedagógico
Ao trabalhar com esses dois planos, a escola de sua escola.
tem de considerar que a comunidade local é im-
 A educação é do tamanho da vida! Não há
portante, mas que ela (a escola) está ligada a outras começo. Não há fim. Só a travessia. E, se que-
instâncias mais gerais e universais. Em outras pala- remos descobrir a verdade da Educação, ela
vras, deve perceber a si mesma e a sua comunidade terá de ser descoberta no meio da travessia”
inseridas em um contexto social mais amplo. (Neidson Rodrigues 1992, p. 39).
O projeto pedagógico é o que confere identidade A teoria e a prática são inseparáveis. Somente
à escola e, por isso, precisa ser construído coletiva- uma base teórica bem sólida fundamenta uma
mente por todos os segmentos que participam da prática realmente eficaz.
vida escolar: professores, corpo técnico-pedagógico,
pessoal de apoio, pais, alunos e demais membros A ARTICULAÇÃO TEORIA-PRÁTICA E A
da comunidade escolar, mostrando-se democrático, CONSTRUÇÃO DO PROJETO PEDAGÓGICO
abrangente, flexível e duradouro (Veiga, 1997). A coerência entre o pensar e o fazer é um
pressuposto fundamental no processo de compre-
UNIDADE 2. QUAIS DIMENSÕES E ensão de qualquer realidade! Ao procurar retratar
PRINCÍPIOS ORIENTAM O PROJETO a realidade da escola como um todo, o projeto
pedagógico nunca está pronto e acabado, assumin-
PEDAGÓGICO?
do um caráter contínuo e inconcluso. Assim, ao
INTRODUÇÃO representar a constante transformação do cotidiano
Na unidade anterior foi enfatizada que a auto- da escola, esse projeto precisa procurar relacionar a
teoria à prática, compreendendo a prática a partir
Nº 10 • Abril/99

nomia idealizada pela legislação educacional (Lei


9.394/96) para a escola elaborar o seu projeto pe- da teoria e realizando a prática com base na teoria.
dagógico não basta: é preciso a ação compartilhada Nessa discussão, a prática que a escola desenvol-
75
75
dos seus vários segmentos, visando à construção de ve é fundamental, devendo ser objeto de reflexão
uma outra autonomia, mais dialogada e solidária. por todos os seus segmentos. Entretanto, esta re- jan/2017
flexão não pode ocorrer no vazio, mas sustentada Ao referir-se a essas quatro grandes dimen-
em uma base teórica sólida. sões, o projeto pedagógico não se mostra como
um mero documento estático a ser “guardado na
DIMENSÕES DO PROJETO PEDAGÓGICO:
gaveta”, mas como um instrumento dinâmico e
PEDAGÓGICA, ADMINISTRATIVA,
democrático capaz de representar e orientar a vida
FINANCEIRA E JURÍDICA
da escola. Essas dimensões são permeadas pelos
As dimensões do projeto pedagógico para
aspectos socioculturais característicos da realidade
as quais a escola precisa estar atenta, em última
na qual a escola está inserida. A sua compreensão
instância, visam ao sucesso da aprendizagem do
pode transformar a escola em um espaço de mu-
aluno. A associação entre teoria e prática é funda-
danças, a partir do trabalho coletivo e da vontade
mental para traduzir o cotidiano escolar e sistema-
dos seus próprios atores.
tizar a discussão de um projeto pedagógico que
leva em conta a escola em suas várias dimensões, Toda escola lida, simultaneamente, com dois
pedagógica, administrativa, financeira e jurídica, níveis de ações: um relativo ao que ela já é e ou-
as quais devem ser percebidas e compreendidas de tro que corresponde às possibilidades de ela vir a
forma articulada e interligada. transformar-se, a partir da ação dos seus sujeitos.
Esses dois níveis existem nas dimensões pedagó-
 Pedagógica – Diz respeito ao trabalho da escola
gica, administrativa, financeira e jurídica e estão
como um todo em sua finalidade primeira e a
presentes nas várias ações realizadas pela escola.
todas as atividades desenvolvidas tanto dentro
quanto fora da sala de aula, inclusive à forma PRINCÍPIOS ORIENTADORES DO
Gestão democrática e participativa

de gestão, à abordagem curricular e à relação PROJETO PEDAGÓGICO


escola-comunidade. Após discutir as dimensões do projeto peda-
 Administrativa – Refere-se àqueles aspectos gógico no item anterior, refletiremos sobre os
gerais de organização da escola, como: geren- princípios que podem orientar sua construção,
ciamento do quadro de pessoal, do patrimônio na perspectiva de uma escola que busca um novo
físico, da merenda, dos demais registros sobre conceito de qualidade de ensino. Tais princípios
a vida escolar etc. serão aqui discutidos tendo em mente a necessi-
dade de ampliar a relação entre as comunidades
 Financeira – Relaciona-se às questões gerais
escolar e local, sem perder de vista sua relação
de captação e aplicação de recursos financeiros,
com o sistema social mais amplo, e a construção
visando sempre sua repercussão em relação ao
do projeto pedagógico. Veja na figura, a seguir, a
desempenho pedagógico do aluno.
relação entre os vários princípios que podem ajudar
 Jurídica – Retrata a legalidade das ações e a re- na discussão e na estruturação da construção do
lação da escola com outras instâncias do sistema projeto pedagógico.
de ensino – municipal, estadual e federal – e com
outras instituições do meio no qual está inserida.
Observe, na figura a seguir, como essas dimen-
sões estão relacionadas.
Nº 10 • Abril/99

76
jan/2017 76
Esses princípios precisam ser percebidos e ana- Mas será que ampliar o acesso basta? Ou a es-
lisados de forma interligada, por serem interdepen- cola precisa, ao discutir o seu projeto pedagógico,
dentes. É interessante que possam ser relacionados avançar nessa reflexão? Na verdade, as pesquisas
à realidade da escola, identificando como têm sido educacionais mais recentes têm indicado que o
discutidos, compreendidos e desenvolvidos pelos nosso grande problema não é mais o crescimento
vários segmentos. do número de matrículas, mas fundamentalmente,
Um primeiro princípio a ser considerado na a permanência bem-sucedida do aluno em uma
construção do projeto Pedagógico refere-se à escola de qualidade. A finalidade maior do projeto
relação escola-comunidade local. Há diferenças pedagógico é assegurar o sucesso da aprendizagem
na qualidade do trabalho de escolas que contam de todos os alunos da escola.
com a participação da comunidade e de outras que À medida que procura se democratizar, a escola
planejam, executam e avaliam suas ações sem levar coloca em discussão a prática que desenvolve,
em consideração essa participação. Por exemplo: fato que se relaciona a um quarto princípio que
pesquisas têm demonstrado que, normalmente, precisa ser discutido na construção do seu projeto
o desempenho dos alunos é melhor em escolas pedagógico – a autonomia. Essa autonomia pode
nas quais os pais participam da vida escolar e são ser entendida como a capacidade de governar-se, e
constantemente informados do rendimento escolar dirigir-se, dentro de certos limites, definidos pelas
dos seus filhos. legislações e pelos órgãos do sistema educacional,
Na medida em que a relação escola-comunidade ajudando os diversos atores a estabelecer, com

Gestão democrática e participativa


local fica mais estreita, aumenta a participação responsabilidade, os caminhos que a escola escolhe
de todos os segmentos nas decisões da escola e para percorrer.
a gestão torna-se mais democrática. Essa gestão A organização curricular revela a forma como a
democrática é outro princípio fundamental na escola pode trabalhar tanto com os conhecimentos
elaboração do projeto pedagógico. As referências produzidos historicamente, quanto com aqueles
legais para a democratização do ensino público produzidos em suas práticas cotidianas, sejam
encontram-se, de forma mais geral, na Constitui- eles de natureza pedagógica, cultural, política ou
ção Federal de 1988 e, em um nível mais detalha- científica.
do, na Lei de Diretrizes e Bases (Lei 9.394/96). A autonomia não equivale à soberania, pois a
Como princípio do projeto pedagógico, a ges- escola, ao construir sua autonomia, não se torna
tão democrática entende que todos os envolvidos independente das outras esferas administrativas
no trabalho escolar devem não apenas saber como com as quais mantém relação com o seu trabalho,
a escola funciona, mas também participar na defi- sejam elas municipais, estaduais ou federais. Por
nição dos seus rumos. isso, é preciso entender que, quanto mais a escola
Nesse sentido, a escola não pode centrar o seu adquire autonomia e competência, mais responsa-
trabalho na figura dos gestores, mas abrir-se à bilidades ela assume diante da comunidade.
participação de todos nas decisões, que visam a As escolas precisam assegurar um padrão míni-
definição e o alcance das finalidades do projeto mo de qualidade para todos os seus alunos e para
pedagógico. todas as escolas do sistema. A busca da qualidade
Um terceiro princípio a ser considerado na pressupõe também o princípio da gestão demo-
elaboração do projeto pedagógico diz respeito à crática como orientador da construção de uma
democratização do acesso e da permanência, escola que valorize as relações estabelecidas pelos
com sucesso, do aluno na escola. Uma análise indivíduos em seu cotidiano.
mais aprofundada das políticas educacionais revela Como princípio, a qualidade de ensino relacio-
Nº 10 • Abril/99

que um número considerável de alunos que ingres- na-se a um outro: o da organização curricular
sam na escola não tem conseguido nela permanecer que a escola deseja adotar, visando assegurar uma
com êxito. Esse quadro existe apesar de os dados aprendizagem voltada para as necessidades e o
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77
dos últimos censos escolares atestarem uma grande sucesso do aluno. Assim, o currículo precisa ser
expansão de matrículas. visto como o eixo central da discussão na escola, jan/2017
de forma que o conhecimento possa ser percebido Cada um desses princípios, discutidos a partir
e construído a partir da integração das diversas da realidade da escola, pode contribuir para a
áreas do saber humano e não de maneira isolada elaboração do projeto pedagógico, estimulando
e fragmentada. os vários segmentos que a compõem a contribuir
A valorização dos profissionais da educação significativamente para a busca da melhoria da
constitui outro princípio importante em nossa dis- qualidade do ensino que oferece.
cussão. Assim, o projeto pedagógico precisa reco-
nhecer que a qualidade de ensino está intimamente UNIDADE 3. COMO CONSTRUIR
relacionada à valorização do magistério, na defesa COLETIVAMENTE O PROJETO
de uma adequada formação dos seus profissionais PEDAGÓGICO?
em dois níveis: a formação inicial, destinada a
oferecer ao futuro profissional da educação as INTRODUÇÃO
condições básicas ao seu ingresso na profissão e Cada escola possui um universo de diferenças
uma visão geral de sua atuação no magistério; e a que resultam das ações dos seus atores, sendo pos-
formação continuada, voltada para os professores sível discutir o processo de construção do projeto
em exercício, visando ajudar no aperfeiçoamento pedagógico com base em três grandes movimentos
de sua própria prática. bastante interligados. Esses movimentos devem ser
entendidos como movimentos que, relacionados e
Embora a prática seja importante para o estudo
interdependentes entre si, necessitam ser avaliados
da escola e, consequentemente, para as propostas
Gestão democrática e participativa

permanentemente.
de inovação do seu contexto, a teoria também é
muito importante para a escola avaliar as dimen- Tendo isso em mente, cada escola precisa
sões e os princípios que orientarão a construção olhar para si mesma, refletir sobre suas práticas e,
do seu projeto pedagógico. A prática, quando é autônoma e coletivamente, construir seu próprio
bem fundamentada pela teoria, pode levar os vá- projeto pedagógico.
rios segmentos a alterarem sua ação para melhor, Os objetivos específicos dessa unidade são:
tornando-se mais consistente e inovadora. Identificar os três grandes movimentos de
 
As dimensões pedagógica, administrativa, fi- construção do projeto pedagógico.
nanceira e jurídica do projeto pedagógico precisam Estruturar os grandes movimentos de elabora-
 
ser vistas naquilo que a escola já é e no sentido de ção do projeto pedagógico.
apontar possibilidades de se transformar, contando Propor mecanismos de organização e partici-
 
com o trabalho coletivo dos seus segmentos. Essas pação dos segmentos da escola na elaboração
dimensões devem ser analisadas considerando-se do projeto pedagógico.
sua interdependência, uma vez que elas interferem
Reconhecer a importância do processo de ava-
 
umas nas outras.
liação em todos os movimentos de construção
Por sua vez, a discussão sobre os princípios do projeto pedagógico.
precisa ser feita com os vários segmentos da esco-
la, de forma que o seu trabalho tenha um sentido METODOLOGIA E MOVIMENTOS
compartilhado por todos, tornando a prática DE CONSTRUÇÃO DO PROJETO
escolar mais eficaz. PEDAGÓGICO
Conforme as necessidades e características da
Esses princípios gerais que orientam a constru-
escola, o seu processo de construção seguirá uma
ção do projeto pedagógico: relação escola-comuni-
dinâmica própria, de forma que os movimentos
dade, democratização do acesso e da permanência
analisados nesta Unidade visam contribuir para
do aluno na escola com sucesso, gestão democráti-
sua sistematização. Porém, observe a síntese desses
Nº 10 • Abril/99

ca, autonomia, qualidade de ensino para todas as


três movimentos no quadro apresentado a seguir:
escolas, organização curricular e valorização dos
profissionais da educação, são bastante interligados Movimentos de construção do projeto pe-
78 dagógico:
78
e complementares entre si. Assim, a escola precisa
jan/2017 pensá-los de forma integrada. 1º – Diagnóstico da realidade da escola.
2º – Levantamento das concepções do coletivo Verificar se o surgimento da escola está ligado
 
da escola. às necessidades e à organização dos segmentos
3º – Definição de estratégias, pessoas e/ou gru- comunitários que a ela quiseram ter acesso,
pos objetivando assegurar a realização das ações entrevistando os moradores mais antigos.
definidas pelo coletivo da escola. Buscar informações com os primeiros profes-
 
São preocupações constantes dos vários seg- sores, outros profissionais que trabalharam na
mentos da escola analisar a realidade da escola escola ou então alunos que nela já estudaram.
em suas dimensões pedagógica, administrativa, Lançar mão de leituras de documentos, como
 
financeira e jurídica; discutir as concepções do atas de registro do trabalho da escola, para
coletivo da escola em relação ao trabalho peda- enriquecer os dados.
gógico como um todo e definir as ações da escola, Roteiro do levantamento de informações,
os responsáveis pela sua execução e os recursos visando à identificação da escola e do seu projeto
visando à implementação do projeto pedagógico. pedagógico:
Há perguntas que podem ser orientadoras Nome da escola.
 
do trabalho coletivo, tais como:
Localização.
 
“Como é nossa escola?”
Aspectos legais de sua criação e/ou transfor-
 
“Que identidade a nossa escola quer construir?”
mação.
“Como executar as ações definidas pelo cole-
Níveis ou modalidades de ensino que oferece.
 

Gestão democrática e participativa


tivo?”
Número de alunos, divididos por série e/ou
 
Vamos refletir sobre cada um desses movi-
ciclo e turno.
mentos.
Origem da clientela atendida (concentra-se
 
Como cada escola é única em sua realidade,
próxima à escola ou não).
todo projeto pedagógico exige que, antes de qual-
quer outro procedimento, sejam levantados dados Breve histórico da escola (motivos de sua cria-
 
relevantes que a retratem. Para fazer isso, podemos ção), fatos importantes da sua história.
adotar algumas alternativas. Município/Estado.
 
É importante que sejam levantados aqueles Uma alternativa interessante que pode ser
dados que permitam uma visão sucinta da escola, adotada para coletar informações que ajudem
podendo ser de natureza legal (processo de criação/ a identificar a escola é recorrer à comunidade,
transformação), histórica (datas e motivos de seu visando recuperar a história e a memória de sua
surgimento), ou administrativa (vínculos com o escola. Por exemplo: você pode estimular, entre
sistema municipal ou estadual de educação) etc. os professores, a realização de atividades que im-
Trata-se de a escola descrever sua própria realidade, pliquem o contato direto dos alunos com pessoas
com base na forma como os seus vários Segmentos idosas ou moradores que residem há muito tempo
encaram o trabalho que vem sendo desenvolvido. na comunidade e que, em alguns casos, podem até
Como os dados para essa identificação são ter ajudado a construir a escola.
diferenciados, podem-se adotar também pro- Nesse sentido, pode-se desenvolver atividades
cedimentos diversos de uma escola para outra, como o estudo do meio ou entrevistas que ocorram
considerando-se sua realidade. Entretanto, veja mediante a elaboração de um roteiro previamente
alguns exemplos de ações que a escola pode adotar, elaborado. Essas atividades podem ser realizadas
visando a essa identificação. do seguinte modo: a) os alunos se deslocam até
Pesquisar nos arquivos da secretaria escolar
  as casas dos idosos; b) organizam-se vindas dos
dados de natureza legal e administrativa. idosos à escola, de forma que eles possam contar
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Coletar nos núcleos regionais de Educação ou


  a origem, a sua criação e a história da escola.
na Secretaria de Educação Municipal/Estadual Realizando atividades como essa, a escola, ao
79
79
informações relacionadas à presença da escola mesmo tempo que tem uma valiosa contribuição
no município ou estado. na recuperação de sua história, estreita os laços jan/2017
com a comunidade, princípio muito importante escola para a discussão do projeto pedagógico?
na construção do seu projeto pedagógico, como Esta é uma tarefa importante, mas não é simples
vimos na Unidade anterior. e fácil. Entretanto, as possibilidades para se fazer
Com base nos dados que identificam a escola isso são muitas, devendo-se adotar aquelas mais
e o seu projeto pedagógico, é importante analisar adequadas à realidade da escola. É preciso buscar
os movimentos propriamente ditos de sua cons- alternativas que normalmente funcionam bem.
trução. O caráter heterogêneo do coletivo de toda
Antes, porém, é preciso lembrar dois pontos escola foi estudado na unidade 1 desse módulo,
importantes: fato que contribui também para níveis diferentes
de participação na discussão do trabalho escolar.
*Os movimentos de construção do projeto
Nesse sentido, um dos segmentos que não tem
pedagógico precisam ser estruturados simultane-
sido frequentemente chamado para participar das
amente, uma vez que eles não são estanques.
discussões pedagógicas é aquele formado pelos
*O processo de avaliação precisa estar presente funcionários: merendeiros, vigias, porteiros, ze-
em todos os seus movimentos. ladores etc.
Como é nossa escola? Certamente, um dos fatores que tem levado
Registrados os dados de identificação da es- à pouca participação desse grupo nas discussões
cola, a primeira ação a ser realizada pelo coletivo pedagógicas é o fato de ele ter sido, até hoje, pouco
da escola – professores, alunos, gestores, pessoal convidado para opinar sobre a função e a vida da
Gestão democrática e participativa

técnico-administrativo e de apoio, pais e segmen- escola. Entretanto, é importante também a escola


tos organizados da comunidade – é a análise de sua procurar envolver, cada vez mais, esse grupo de
realidade. Ao fazer esse diagnóstico global, a escola apoio nas discussões desse segundo movimento
deve indagar-se acerca do trabalho que desenvolve. de construção do seu projeto pedagógico.
A atividade consiste no levantamento de infor- Ao realizar esta atividade, pode-se observar que
mações que mostrem o trabalho pedagógico da todos têm suas próprias concepções acerca de vários
escola como um todo. Diante dos dados obtidos, aspectos importantes à realização do trabalho pe-
a escola precisa discutir, problematizar, levantar e dagógico, considerando-o de maneira mais ampla.
compreender questões relacionadas à sua prática É claro que as respostas emitidas traduzem suas
pedagógica, o que poderá ser feito por meio de concepções acerca dos pontos levantados e elas, se
variados processos. comparadas com as dos seus colegas de trabalho,
dos seus alunos ou dos pais destes últimos, podem
Nesse primeiro movimento a escola necessita
revelar diferença de compreensão. Isto é natural
coletar dados sobre sua realidade e analisá-los
porque, quanto maior o grupo, mais chances há
cuidadosamente tanto em seus aspectos qualitati-
de as concepções serem diferentes umas das outras,
vos quanto quantitativos. As informações devem
mesmo que se referindo às mesmas questões.
voltar-se para os aspectos internos e externos à
realidade da escola, destacando-se aqueles que re- O 3º movimento refere-se à maneira de executar
presentam dificuldades concretas bem como aque- as ações definidas pelo coletivo. Após a definição
les que se mostram como fatores do seu sucesso. das concepções do coletivo em relação ao seu
trabalho como um todo, no terceiro movimento
Para trabalhar bem o seu diagnóstico, a escola
de construção do projeto pedagógico é preciso:
precisa, através de diversos instrumentos, levantar
questionamentos de dois níveis: um mais amplo, definir as prioridades da escola;
 
que relacione sua realidade aos aspectos sociais, po- as ações que a escola irá desenvolver;
 
líticos e econômicos da comunidade na qual ela está as pessoas e/ou segmentos que irão realizá-las.
 
inserida e à sociedade brasileira como um todo; um
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É preciso que a escola defina, coletivamente, as


outro, mais específico, voltado para a organização alternativas mais adequadas para a superação dos
do seu próprio trabalho pedagógico, considerando desafios presentes em seu cotidiano, discutindo
80 o trabalho dos seus vários segmentos.
80
e aproveitando as propostas apresentadas pelos
jan/2017 Mas como mobilizar os vários segmentos da vários segmentos que a compõem.
Por referir-se à execução das ações que visam todo o processo desenvolvido pela escola. Para
mudar sua dinâmica, nesse movimento a escola não tanto, a escola pode montar um grupo de pessoas
pode perder de vista os compromissos assumidos – com representantes dos vários segmentos – para
coletivamente, a fim de garantir a implementação proceder à redação final do seu projeto, tornando
do projeto pedagógico. Ela precisa ter claro que uma ação que, se fosse realizada com a participação
as ações definidas pelo seu coletivo, embora repre- de todos, seria impossível.
sentando os desejos de todos, necessita identificar
E como fica a avaliação no processo de
os indivíduos ou segmentos que irão realizá-las.
construção do projeto pedagógico?
Porém, é preciso refletir sobre uma questão Como foi enfatizado no início deste Módulo,
muito importante em relação a esse movimento: o projeto pedagógico precisa ser avaliado per-
como o projeto pedagógico representa também o manentemente. Além disso, como foi possível
tempo institucional de cada escola, é preciso que observar ao longo do estudo desta Unidade, os
os seus atores procurem avaliar se estão realmente seus três grandes movimentos de construção são
apontando soluções criativas e realistas para supe- intimamente relacionados, com vistas a assegurar,
rar as dificuldades identificadas pelo coletivo. de fato, inovações ao cotidiano da escola.
Nesse movimento de construção do projeto
O ato de avaliar deverá estar presente em todo
pedagógico, é muito Importante que todos os
o processo de construção do projeto pedagógico,
segmentos da escola não percam de vista a identi-
pois ele é um elemento importante na identificação
ficação dos responsáveis por determinadas ações
dos rumos que a escola vem tomando, podendo

Gestão democrática e participativa


assumidas no coletivo. Para assegurar isso, são fun-
dizer-lhe sobre como reorientar o seu trabalho,
damentais encontros periódicos com o coletivo da
visando ao seu próprio sucesso.
escola para a discussão e avaliação de como as ações
estão sendo encaminhadas efetivamente. Nesses Portanto, ao longo do trabalho de elaboração
encontros, os vários atores da escola podem: do projeto pedagógico, é preciso avaliá-lo em suas
várias dimensões – pedagógica, administrativa,
r
 etomar as ações, corrigindo o seu fluxo, com base
financeira e jurídica. Esse processo de avaliação
na avaliação de como estão sendo desenvolvidas.
permanente é importante porque pode evitar que
a
 valiar se as ações definidas como prioridades pelos o coletivo desenvolva um sentimento de frustra-
segmentos são realmente viáveis, ou seja, realistas. ção, uma vez que o trabalho se desenvolve em um
O fundamental nesse movimento é assegurar período longo de tempo e conta, com possíveis
a tomada de posição quanto às ações a serem conflitos.
realizadas, identificando os responsáveis por elas. Considerando suas diversas funções, a avaliação
Isso significa realizar ações essenciais ao desen- do processo de construção do projeto pedagógico
volvimento e à avaliação do projeto, que foi se deverá responder às seguintes perguntas:
estruturando ao longo de um período de tempo.
Em que medida os desafios foram atendidos no
 

Para evitar improvisações, é importante a escola projeto pedagógico?
trabalhar com cronogramas, ou seja: calendários
Que novos desafios estão surgindo para o
 

e horários escolares bem definidos, a fim de asse-
coletivo?
gurar o acompanhamento e a avaliação das ações
que estão sendo desenvolvidas. Os desafios precisam ser melhor definidos?
 

Nessa perspectiva, a escola pode pensar em As ações propostas foram desenvolvidas?
 

períodos dedicados ao planejamento pedagógi- Quais seus efeitos?
 

co e às reuniões dos seus colegiados, como, por É importante definir, também coletivamente,
exemplo,conselhos escolares, conselhos de classe, formas claras de acompanhamento e avaliação
associações de pais e mestres (APM), grêmios
Nº 10 • Abril/99

das ações que serão desenvolvidas e os segmentos


estudantis e outras instâncias existentes na escola. responsáveis por determinadas ações. As avalia-
Nesse movimento de construção do projeto ções que serão feitas sobre a realização as ações
81
81
pedagógico, é importante considerar, ainda, a ne- definidas pelo coletivo precisam apontar não só as
cessidade de redação do documento que retratará fragilidades encontradas no caminho mas também jan/2017
os avanços da escola, ao implementar o projeto durante todo o ano e recomeça no ano seguinte,
pedagógico. sofrendo, obviamente, as adaptações necessárias.
O acompanhamento do projeto pedagógico Por último, é preciso lembrar que o processo
deve ocorrer com base nos dados obtidos, visando avaliativo, estando presente em todos os movimen-
possibilitar à escola uma análise dos resultados dos tos de elaboração do projeto pedagógico, não pode
seus esforços, fazendo com que as questões que restringir-se aos olhares dos segmentos internos à
venham a aparecer possam ser resolvidas “quando escola. Ao contrário, deve-se ouvir a comunidade
ainda é tempo de se fazer algo”. Nesse sentido, o local acerca do projeto que ela espera da escola –
ato avaliativo aparece como uma forma de a escola um projeto capaz de ajudar esta última a alcançar,
ir prestando contas à comunidade a respeito do da melhor maneira possível, sua função social.
trabalho realizado. Por isso, é importante comparar os olhares dos
As três perguntas que guiaram toda a discus- próprios atores da escola sobre a prática que pro-
são desta Unidade – “como é nossa escola?”, “que duzem com os de outros indivíduos que avaliam o
identidade a nossa escola quer construir?” e “como trabalho da escola, a partir de uma posição externa.
executar as ações definidas pelo coletivo?” – são Há várias formas de construir o projeto peda-
orientadoras do projeto pedagógico e devem ser gógico. Cada escola é única em sua realidade e nas
guiadas permanentemente pelo processo avaliativo. relações que os seus segmentos estabelecem entre
A avaliação na metodologia de construção desse si. Nesse sentido, quaisquer sugestões apresentadas
projeto possui, portanto, um caráter investigativo. precisam ser adaptadas à realidade do projeto a ser
Gestão democrática e participativa

A avaliação do processo de construção do pro- construído.


jeto pedagógico deve ocorrer com a participação Os movimentos de construção desse projeto
de todos os segmentos que dele participam. – diagnóstico de sua situação atual, discussão das
Na figura a seguir, a relação dos três grandes concepções do grupo sobre os vários componen-
movimentos de construção do projeto pedagógico, tes que interferem no trabalho pedagógico e a
estudados ao longo desta unidade e sua relação execução das ações consideradas prioritárias pelo
com o processo avaliativo como um todo. coletivo – precisam ser trabalhados de forma inter-
ligada e não estanque. Para tanto, é fundamental
que o projeto pedagógico seja construído com
base no trabalho coletivo dos vários segmentos
que compõem a escola.
Ao longo desta unidade, a construção do
projeto pedagógico é um processo que exige di-
álogo, persistência e a sistematização e avaliação
dos dados coletados em todos os seus movimen-
tos. Como processo, necessita ser visto em sua
construção contínua e com resultados gradativos
que decorrem da vivência dos segmentos que o
elaboram, constituindo-se em uma referência de
autocrítica para esses mesmos sujeitos.
Presente em todos os movimentos de elabo-
Os movimentos de construção do projeto ração do projeto pedagógico, a avaliação precisa
pedagógico são interligados e consistem na defi- preocupar-se com os múltiplos aspectos do seu
nição de um conjunto de ações a serem realizadas processo de construção, cobrindo um grande
coletivamente na escola. número de questões que vão desde aquelas espe-
Nº 10 • Abril/99

A avaliação do projeto pedagógico é um pro- cificamente voltadas para o processo ensino-apren-


cesso longo, cheio de idas e vindas, mas bastante dizagem desenvolvido em sala de aula até outras
82 que tratam do trabalho da escola como um todo.
82
compensador. Ele não acaba somente porque o
jan/2017 ano letivo termina: na realidade, ele é construído O projeto pedagógico retrata a identidade da
escola, oferecendo diretrizes gerais quanto ao que a proposta curricular e as possibilidades de inova-
a escola precisa desenvolver, visando tornar o seu ções pedagógicas e o cotidiano deve se organizar
trabalho mais agradável, produtivo e voltado para em função da aprendizagem e do sucesso escolar
a construção da cidadania nos sujeitos que dela do aluno, que se concretiza com base em diversas
participam. práticas educativas decorrentes da proposta curri-
cular da escola.
UNIDADE 4. COMO ARTICULAR A RELAÇÃO ENTRE PLANEJAMENTO E
PROJETO PEDAGÓGICO E PRÁTICA PROJETO PEDAGÓGICO
PEDAGÓGICA? Nas diversas práticas profissionais o processo
INTRODUÇÃO de planejamento está presente, mas muitas vezes
na área educacional há o questionamento: o que
Na Unidade anterior, foram abordados os três
é planejamento, para que planejar, com quem
movimentos de elaboração do projeto pedagógico:
planejar e quando planejar?
como é nossa escola? Que identidade a nossa escola
quer construir? Como executar as ações defini- Como ponto de partida pode-se recorrer ao
das pelo coletivo? O projeto pedagógico oferece significado da palavra no dicionário. Planejamen-
diretrizes, estabelece prioridades para o trabalho to. s.m. 1. Ato ou efeito de planejar. 2. Trabalho
coletivo, mas é necessário sistematizar essas ações de preparação para qualquer empreendimento,
no planejamento e na prática da escola. segundo roteiro e métodos determinados; plani-
ficação; o planejamento de um livro, de uma

Gestão democrática e participativa


Nesta unidade, será enfatizada a articulação
comemoração. Planejar. V.t.d. 1. Fazer o plano
entre projeto pedagógico, planejamento e prática
de; projetar, traçar. 2. Fazer o planejamento de;
pedagógica. A escola pública necessita de uma
elaborar um plano ou roteiro de, programar,
gestão que, partindo da construção do projeto
planificar. (FERREIRA, Aurélio Buarque de
pedagógico, possibilite à escola alcançar sua finali-
Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua
dade, concretizando sua função social: a promoção
Portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fron-
da cidadania, o desenvolvimento pleno e o sucesso
teira,1986).
dos alunos. E para concretizar o que pretende, a
escola necessita de um planejamento que organize Portanto, pode-se dizer que planejar é anteci-
o seu trabalho escolar e sua prática pedagógica, par uma ação a ser realizada, tornando possível
de modo que as ações implementadas se articu- propormos uma ação consciente que possibilite
transformar determinada situação. Nesse sentido,
lem, promovendo uma educação de qualidade
a competência de planejar possibilita prever nossa
conforme o proposto no projeto pedagógico pelo
ação, estabelecer o que queremos, transformar e
coletivo da escola.
atribuir novos significados às práticas cotidianas.
Os objetivos específicos dessa unidade são:
1 Elaborar os planos de ação da escola tendo como
A revisão do cotidiano escolar
referência o projeto pedagógico. Quantas vezes vivemos o planejamento apenas
como uma atividade de preencher papéis sem
2 Considerar as características organizacionais e
nenhuma relação com o cotidiano escolar? Sem
o contexto da escola na elaboração do projeto
pararmos para pensar e termos uma compreensão
pedagógico.
clara das relações entre o projeto pedagógico e o
3 Utilizar o projeto pedagógico como instru- planejamento, é bem possível que ambos deixem
mento de inovação da prática pedagógica e da de instrumentalizar a ação coletiva, de ser um
proposta curricular. meio fundamental de gestão e acabem perdendo
4 Relacionar as ações do projeto pedagógico com seu significado pedagógico.
as políticas educacionais do sistema público de
Nº 10 • Abril/99

O projeto pedagógico busca a construção da


ensino. identidade da escola, estabelecendo seu direcio-
As etapas de diagnóstico, levantamento de namento e o comprometimento dos sujeitos da
83
83
concepções e programação das ações abordam comunidade escolar e local em torno de uma visão
necessariamente a organização do trabalho escolar, comum e compartilhada de educação. É, portanto, jan/2017
o norteador de todas as práticas da escola. En- condições favoráveis e de apontar caminhos para
tretanto, não se constrói projeto pedagógico sem alcançar os objetivos da escola. Se você já utiliza
planejamento, pois todos os movimentos para sua um dos instrumentos referidos anteriormente
construção não se concretizam sem ele. (PDE, Plano Integrado etc.) em sua escola, deve
Esse processo é o planejamento que deve per- continuar a fazê-lo, procurando aperfeiçoá-lo
mear todas as atividades da escola, servindo de como importante ferramenta de gestão escolar.
instrumento permanente na construção e desen- Se não, pode servir-se de pontos desta Unidade
volvimento do projeto pedagógico. Possivelmente para começar a sistematizar o planejamento na sua
você já vivenciou esse processo, ainda que, às escola. De qualquer forma, vamos todos refletir
vezes, de forma incompleta. Esse processo tem sobre o assunto.
se desenvolvido sob diferentes abordagens, tais O que é planejamento estratégico? Trata-se
como: planejamento estratégico, planejamento de um “(...) esforço disciplinado e consistente
participativo, planejamento por resultados. destinado a produzir decisões fundamentais e
Na prática, essas abordagens têm dado origem ações que guiem a organização escolar em seu
aos planos mais amplos dos estabelecimentos de modo de ser e de fazer, orientado para resultados
ensino, que recebem denominações diferentes com forte e abrangente visão de futuro”. (Lück,
em várias partes do país, como Plano Integrado, 2000, p.16).
Plano Estratégico da Escola, Plano de Gestão, Para que a gestão do trabalho escolar ocorra de
Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE). Este forma organizada, é necessário clareza da função
Gestão democrática e participativa

último, com maior grau de detalhamento, tem social da escola pública, de sua missão, de seus
sido largamente utilizado nas regiões Nordestes, objetivos e áreas estratégicas que precisam ser
Norte e Centro-Oeste, abrangidas pelo MEC/ mais desenvolvidas, de modo que os planos de
Fundescola. Embora com nomes distintos, todos ação a serem implementados assegurem o sucesso
esses instrumentos buscam garantir os princípios da escola.
de autonomia da escola e de gestão democrática, O que é a missão? A missão define o que é a
tendo como referencial o projeto pedagógico, escola hoje, seu propósito e como pretende atuar
assegurando-lhe maior concretude. no seu dia a dia. Sintetiza a identidade da escola, a
Veja, no quadro a seguir, como os movimentos sua função social orientando a tomada de decisão
de elaboração do projeto pedagógico e o processo e garantindo a unidade da ação e o comprome-
de planejamento se integram em um mesmo mo- timento de todos na ação pedagógica. A missão
vimento, que é o da construção permanente da deve ser objetiva, sucinta, clara, informando o que
identidade da escola, visando a melhoria qualitativa a escola é e o que está fazendo.
dos seus resultados: O que são os objetivos estratégicos? Os ob-
jetivos estratégicos são as situações que a escola
pretende atingir num dado período de tempo.
Indicam áreas, ou dimensões, nas quais a escola
concentrará suas preocupações, seus esforços e
suas ações refletindo as prioridades decorrentes da
escola que se quer, e que vamos construir.
Dessa forma, para a definição dos objetivos
estratégicos, é preciso que haja por parte dos
gestores, do conselho ou colegiado escolar e da
comunidade escolar a aceitação da missão da escola
que foi sendo construída ao longo do primeiro e
Nº 10 • Abril/99

do segundo movimentos do projeto pedagógico.


Exemplos:
84
84
Para gerir e transformar a escola, necessitamos 1. Melhorar e fortalecer o relacionamento da
jan/2017 de um planejamento que seja capaz de explorar escola com a comunidade local.
2. Diminuir o índice geral de reprovação e de remos. Portanto, a partir da missão e dos objetivos
abandono. estratégicos definidos pela comunidade escolar, é
3. Promover a qualificação de professores e demais preciso elaborar o plano de ação.
funcionários. O que é um plano de ação? O plano de ação é
o documento que apresenta a forma de operaciona-
4. Desenvolver a avaliação institucional na escola.
lização, de implementação de todas as ações plane-
5. Melhorar a convivência democrática na escola. jadas. Um plano de ação deve apresentar, então, no
Após a escola definir sua missão e o conjunto mínimo os seguintes aspectos: as metas ou objetivos
de objetivos estratégicos, orientando as mudanças específicos, a justificativa, as ações ou estratégias de
desejadas, é preciso assegurar que todas as mu- ação, os responsáveis pela implementação das ações,
danças propostas se tornem realidade. Além de o período em que elas vão acontecer, os recursos
saber a escola que temos e a escola que queremos, materiais, financeiros e humanos necessários para a
precisamos de uma proposta de ação que permita execução dessas ações ou estratégias.
transformar a escola que temos na escola que que- Observe o quadro:
METAS OU OBJETIVOS AÇÕES OU ESTRATÉGIAS
JUSTIFICATIVA RESPONSAVEIS PERÍODO RECURSOS
ESPECÍFICOS DE AÇÃO
O que fazer? Por que fazer? Como fazer? Quem vai Quando? Com que
fazer? fazer?

O que são metas? Metas explicitam os resul- Relação entre projeto pedagógico e

Gestão democrática e participativa


tados que a escola espera obter após a implemen- organização do trabalho escolar
tação das ações. Expressam-se de tal sorte que Normalmente, muitas escolas, ao elaborarem
possam ser mensuradas, chegando a indicar o seu projeto pedagógico, buscam como referência
tempo em que elas serão alcançadas. experiências escolares vivenciadas em outros con-
Exemplos: textos educacionais.
1. Aumentar para 90% o índice de aprovação dos Essas experiências podem se constituir em uma
alunos da 5ª série nos próximos dois anos. inovação ou em um prejuízo à escola. Se simples-
2. Propor, pelo menos, duas iniciativas culturais mente essas experiências forem reproduzidas, sem
na escola em 2001. adequação às características organizacionais e à sua
A equipe gestora necessita desenvolver o cultura escolar, poderão trazer prejuízo.
processo de acompanhamento e avaliação dos Mas se analisadas e adequadas à escola, promo-
planos de ação definidos coletivamente. Para vendo uma reorganização
que isso ocorra de fato, tem de se constituir um do trabalho pedagógico, efetivando mudanças,
processo permanente de levantamento e análise se constituirão, certamente, em inovações. A cultu-
de informações relativas ao desenvolvimento ra escolar consiste em valores, crenças e ideologias
das ações previstas, de modo a serem feitos os que os membros da organização partilham e que,
ajustes necessários durante o processo e não só na maioria das vezes, não estão explícitos. Essa
apenas no final. cultura escolar pode ser identificada por meio de
Esse processo de acompanhamento visa a sis- manifestações verbais e conceituais (finalidades,
tematização e socialização de informações para objetivos, currículo, linguagem, “histórias”, es-
que os atores envolvidos no projeto pedagógico truturas); de manifestações visuais e simbólicas
possam rever suas posições, avaliando, tomando (arquitetura do prédio escolar, equipamentos,
novas decisões e propondo novas intervenções. logotipo, lema, uniforme, imagem exterior); e ma-
nifestações comportamentais (rituais, cerimônias,
Nº 10 • Abril/99

Em todos os movimentos de elaboração do


projeto pedagógico, bem como no planejamen- ensino-aprendizagem, normas e regulamentos,
to das ações, dependemos da capacidade dos procedimentos operacionais etc.).
85
85
sujeitos envolvidos de negociarem seus pontos Um dos princípios do projeto pedagógico
de vista. consiste na valorização dos seus profissionais, mas, jan/2017
muitas vezes, quando a escola se organiza para utilização do tempo de trabalho na escola. É possível
projetos de atualização ou capacitação em serviço, a escola ter um horário para reuniões, mas a forma
não aproveita seu próprio potencial, as compe- como as pessoas utilizam esse tempo é diferenciada.
tências de sua equipe de trabalho. Normalmente, Algumas utilizam individualmente para organizar ou
prefere buscar um profissional de fora, cuja prática corrigir provas, ainda que presentes no grupo, resol-
desconhece, mas aplaude, em vez de aplaudir seu ver problemas pessoais etc. Outras, de fato, utilizam
próprio colega de trabalho. Esta é uma prática que de forma coletiva, debatendo as questões referentes
se repete e que interfere no cotidiano de trabalho, ao trabalho na escola, expondo suas dificuldades e
desvalorizando a própria escola. buscando soluções.
A cultura escolar possibilita a existência de É possível conhecer a cultura da escola, suas
determinadas características organizacionais que características organizacionais e assim identificar
se manifestam na qualidade da proposta curricular quais são suas áreas críticas que possivelmente
da escola e no regimento escolar. inviabilizam o seu sucesso escolar. Em relação às
características observadas, o importante é identifi-
Características organizacionais que
car que existem aspectos já desenvolvidos e outros
favorecem o sucesso da escola
que necessitam ser melhorados, que precisam de
Vantagens organizacionais
maiores informações para o desenvolvimento de
1. Autonomia da escola garante espaços de parti- ações pertinentes em cada caso.
cipação e decisão da comunidade.
O projeto pedagógico
Gestão democrática e participativa

2. Gestão democrática promove estratégias de


e o regimento escolar
ação compartilhada e estimula o compromisso
O projeto pedagógico, portanto, apresenta
individual e coletivo na realização de projetos.
diretrizes para a elaboração do regimento escolar,
3. Articulação curricular coordena adequada- orientando a estruturação e o funcionamento da
mente os planos de estudo e as estratégias de escola de acordo com seus objetivos, garantindo
ensino-aprendizagem. um clima de convivência democrática.
4. Otimização do tempo evita possíveis desarti- Como bem sabemos, o cotidiano escolar possui
culações curriculares e pedagógicas. situações conflitantes que se repetem e que deman-
5. Estabilidade profissional possibilita a escola dam decisões diariamente. E o regimento escolar
desenvolver seus planos de ação diminuindo a é o instrumento que permite à equipe gestora
alta rotatividade de profissionais. tomar decisões com base nos princípios e normas
6. Capacitação promove novas competências por estabelecidos pelo grupo. Para que o regimento,
meio dos profissionais da formação em serviço de fato, favoreça o processo de tomada de decisão,
articulada ao projeto pedagógico. é necessário que, na elaboração do projeto peda-
7. Participação dos pais favorece o comprometimento gógico, considere-se os problemas cotidianos, as
destes em decisões que lhes dizem respeito. situações reais vivenciadas pela escola.
8. Reconhecimento fortalece a identidade da es- Por exemplo, no tópico que se refere ao regime
cola público da escola diante da comunidade disciplinar, estão estabelecidos os direitos e deveres
interna e da externa. do corpo discente, do corpo docente e do corpo
administrativo, as finalidades, as penalidades e as
9. Apoio das autoridades Permite uma integração
competências para a aplicação das sanções disci-
da escola com seu contexto, fortalecendo sua
plinares. Como todos nós sabemos, na maioria
autonomia.
das vezes são mais aplicadas as penalidades para
O cotidiano escolar as condutas negativas do aluno. É muito comum
Nº 10 • Abril/99

Muitas vezes há situações em que se inicia um pro- nas escolas a situação na qual o aluno, ao chegar
jeto pedagógico com uma proposta ótima, as pessoas atrasado, é penalizado. O professor pode fechar a
concordam com as ideias, mas o trabalho se perde, porta da sala de aula e não permitir a entrada do
86
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não tem sucesso e não conseguimos dizer o porquê. aluno, o que ocasiona uma série de conflitos devido
jan/2017 Muitos aspectos poderiam ser analisados, como a à desigual aplicação das normas.
À medida que o projeto pedagógico se define por Que deve ser socializado? Que de fato é socia-
uma concepção disciplinar mais preventiva, teremos lizado?
um regimento escolar menos preso às penalidades e Que deve ser privilegiado? Que de fato é pri-
mais direcionado para os direitos e deveres. vilegiado?
Enfim, o regimento escolar deve apresentar um Que deve ser avaliado? Que de fato é avaliado?
conjunto de orientações que perpassam diferentes
Muitas vezes a escola reduz o currículo a uma
áreas, garantindo o cumprimento de preceitos legais,
lista de conteúdos mínimos a serem transmitidos
diretrizes e resguardando espaços de autonomia e
de acordo com uma organização disciplinar, ou
responsabilidade próprios da escola, tendo o cuidado
por meio de uma grade curricular, sem analisar
para que o conteúdo do regimento e sua aplicação não
detidamente as questões apresentadas.
sejam contraditórios ao projeto pedagógico.
À medida que o currículo definido é colocado
Relação entre projeto pedagógico em prática, devemos levar em conta não apenas a
e prática pedagógica interpretação que o professor faz do currículo, sua
Ao longo das unidades, foi verificada a capaci- concepção pedagógica, mas também as maneiras
dade do projeto pedagógico de orientar o planeja- como realiza o trabalho em sala de aula, suas con-
mento das ações, a organização do trabalho escolar dições de trabalho e as relações interpessoais que
e a própria prática pedagógica. É a visão de futuro se estabelecem.
da escola e a definição de sua missão que apontam É importante identificar e compreender que a
para a inovação da prática pedagógica.

Gestão democrática e participativa


prática cotidiana negocia e modifica o currículo.
O currículo da escola é uma produção social, fru- A atividade proposta a seguir aborda uma situa-
to de um processo de luta de interesses entre atores ção que explicita essas adaptações cotidianas do
de diversos contextos. Quando falamos de currículo, currículo proposto.
estamos falando do conhecimento selecionado e
Vamos rever o cotidiano escolar
organizado socialmente e que são fundamentais no
Em algumas escolas, ao observarmos a prática
processo de aprendizagem dos alunos.
pedagógica podemos identificar:
Sabemos, entretanto, que, muitas vezes, a pro-
Baixo rendimento dos alunos.
 
posta curricular incorpora interesses de segmentos
específicos, de indivíduos, ou até mesmo interesses Indisciplina nas salas de aula.
 
corporativos de grupos. Por isso, além de garantir a Desinteresse pelo processo de ensino-apren-
 
participação de todos, é necessário assegurar a expli- dizagem.
citação, discussão e negociação dos interesses. Para Pouca participação dos alunos.
 
isso, é importante responder às seguintes perguntas:
Aprofundando a análise de cada um desses
Para quem são selecionados os conhecimentos? aspectos, é possível percebê-
A quem interessa os conhecimentos selecionados?
los como consequência de uma proposta cur-
Por que alguns conhecimentos são selecionados e
ricular fragmentada, pouco motivadora, cujos
outros não? Quem seleciona os conhecimentos?
conteúdos selecionados não se relacionam com
Não adianta negar os conflitos presentes em
os interesses nem com o contexto dos alunos, o
nosso cotidiano escolar. Somente chegaremos a
que nos permite considerar que o planejamento
um acordo, a um consenso, a uma convivência
curricular da escola como questão básica da gestão
democrática, à medida que negociamos nossos
pedagógica deve possibilitar uma prática pedagó-
interesses em condições de igualdade, sem perder
gica significativa.
de vista que o aluno é o centro da escola.
O currículo, de uma certa forma, reflete os
Qual o currículo definido? Qual o currículo que
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conhecimentos considerados necessários pela


“acontece” na escola?
sociedade e pelo coletivo da escola, variando em
Que deve ser ensinado? Que de fato é ensinado? cada período histórico. Por exemplo: o currículo
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Que deve ser registrado? Que de fato é regis- desenvolvido com alunas (mulheres), há algumas
trado? décadas, era marcado pela necessidade de se for- jan/2017
mar uma boa dona de casa, administradora do para a instituição e o contexto no qual a escola
lar, detentora de habilidades manuais, zelosa nos está inserida. Desenvolver uma proposta de ação
cuidados com as crianças e os doentes. não é difícil; o problema é a qualidade da ação,
Neste caso, temos os interesses de uma deter- ou seja, desenvolver uma ação que seja realmente
minada época em relação à formação da mulher. significativa para a instituição e os sujeitos nela
Podemos observar o mesmo quando nos depara- envolvidos.
mos com grades curriculares em que a ênfase está A proposta de mudança surge em um contexto
colocada na área de ciências e exatas em detrimento concreto, que se refere à unidade de ensino que,
da área de humanas, ou ao contrário. Qual a visão por sua vez, está inserida em um contexto de sis-
de homem, de mundo presente no currículo que tema de ensino, orientado por políticas públicas
atende ao contexto atual? Em função das demandas educacionais.
do mundo do trabalho e da dinâmica da sociedade, O cotidiano escolar. As diferentes políticas
temos que inovar nossa prática pedagógica, no sociais referentes a moradia, emprego, saúde, lazer
sentido de possibilitar ao aluno aprender os pro- etc. sejam estas adequadas ou inadequadas, inter-
cedimentos necessários para adquirir, organizar, ferem no cotidiano escolar. Por exemplo: quando
interpretar e produzir informações. Uma proposta são transferidas para uma região 500 famílias, isto
curricular que se proponha formar o sujeito cons- implica a necessidade de um planejamento urbano,
ciente, ativo, deve reorganizar suas atividades, deve por meio do qual se garanta o direito não apenas
privilegiar o desenvolvimento da capacidade de à moradia, mas a todos os serviços públicos que
Gestão democrática e participativa

autoexpressão, tendo o diálogo como componente são devidos a essas famílias.


pedagógico básico de sua prática educativa. Numa situação como esta, a escola passa a so-
O processo de aprendizagem depende do su- frer pressão para ampliar o número de vagas, sem
jeito da aprendizagem. Os recursos pedagógicos ter condições para esse funcionamento, e ainda
podem facilitar a interação, mas não garantem passa a atender uma população cuja qualidade
melhor aprendizagem. E isto porque informação de vida se torna precária devido a uma saturação
não é conhecimento, pois toda informação, para no atendimento dos serviços sociais (posto de
se tornar conhecimento, precisa ser contextuali- saúde, creches, oferta de empregos, segurança,
zada pelo sujeito da aprendizagem, o qual irá lhe saneamento básico e lazer). Sendo essas políticas
atribuir sentidos. adequadas ou não, a escola irá conviver com suas
consequências interferindo no projeto pedagógico.
A relação entre projeto pedagógico
e política educacional Ao analisar essa situação, podemos perceber
que o projeto pedagógico, além de estar sujeito
Cada escola possui uma identidade própria,
às políticas educacionais, sofre interferências, de
uma história que possibilita definir quais as estra-
forma indireta, das políticas de habitação, saúde
tégias mais adequadas para a inovação pedagógica
e saneamento provenientes da administração pú-
de seu contexto. Mas, ao mesmo tempo, a escola
blica, as quais atingem a comunidade que a escola
não está isolada; ela consiste em uma unidade
atende cotidianamente.
educativa inserida num contexto de políticas públi-
cas. Portanto, a elaboração do projeto pedagógico Historicamente, podemos identificar alguns
deve considerar as políticas educacionais desde o tipos de políticas públicas, como as apresentadas
nível mais abrangente até o local. Esse processo na tabela a seguir:
de construção sempre deve considerar a dimensão Compensatórias. Procuram compensar carên-
do cotidiano e, ao mesmo tempo, o contexto mais cias sociais, mas sem resolver o problema em sua
amplo das políticas educacionais que, por sua vez, origem.
se farão presentes no cotidiano escolar. Distributivas. Visam acumular recursos para,
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Desde o início deste Módulo, foi enfatizado que futuramente, reverter em políticas sociais.
o processo de elaboração do projeto pedagógico Redistributivas. Pretendem arrecadar impostos
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visa tornar a equipe escolar capaz de constituir uma do segmento social que possui maior renda em
jan/2017 proposta de ação que seja, de fato, significativa benefício dos segmentos desfavorecidos.
Redistributivas às avessas. Promovem a arre- escolar. A construção coletiva do projeto pedagógi-
cadação de impostos que acabam por beneficiar co permite que recuperemos o propósito de nossas
apenas o segmento social que já possui benefícios. ações, que muitas vezes se esvaem no ativismo
Além disso, é necessário observar que as polí- do cotidiano escolar, perdendo a sua dimensão
ticas públicas, os projetos pedagógicos e a prática pedagógica.
profissional cotidiana estão carregados de valores A participação e a construção de uma educação
que vivenciamos em nossa sociedade. Valores de que tenha a cara da nossa realidade e dos nossos
uma cultura que está presente no cotidiano esco- sonhos não é apenas resultado de leis que criam
lar e passa a ser percebida e compreendida como novas formas de funcionamento e de organi-
natural. E é preciso ainda lembrar que a cultura zação da educação. É fruto também do nosso
não é algo externo a nós, pois antes de tudo é pele, compromisso com um projeto de sociedade e de
é nosso olhar, nosso sentir e pensar, ou seja, nos educação e de nossa ação concreta no dia a dia,
constitui como pessoas. na escola e no contexto das políticas educacio-
É necessário que relacionemos as práticas coti- nais. A qualidade dessa participação é resultado
dianas da escola com os tipos de políticas públicas da nossa capacidade de refletir a realidade local e
para que possamos perceber como, muitas vezes, global e de analisar o texto e o contexto das leis
ocorre manutenção de certos valores e interesses no educacionais.
nosso dia a dia escolar, assim como na dimensão É importante seu envolvimento e sua participa-
mais ampla da sociedade. O objetivo desta ativi- ção nas discussões e na implementação de projetos

Gestão democrática e participativa


dade é o de permitir relacionar as ações definidas e ações, no sentido de provocar mudanças na
no projeto pedagógico da escola com os tipos de realidade educacional brasileira, no seu município
políticas educacionais para não reproduzir ações e na sua escola.
que perpetuem o processo de exclusão social. Este texto apresenta algumas ideias sobre a
Para de fato inovar, é necessário ir além dos natureza do planejamento estratégico, estabele-
preconceitos. Por exemplo: uma professora antiga, cendo um entendimento mais amplo sobre ele e
sem uma formação acadêmica pode ter uma prática apresentando seus elementos básicos e etapas. A
mais efetiva, mais democrática com os alunos do autora pretende subsidiar o gestor escolar visando
que uma professora nova, com um discurso atua- a realização de um trabalho mais competente na
lizado, democrático, mas cuja prática é autoritária direção da escola.
e desmotivadora. Em vez de apenas identificar os A construção do projeto pedagógico é um
que são adeptos à inovação, os resistentes, os mais processo compreendido por três momentos in-
velhos, os mais novo etc., é preciso identificar terligados: diagnóstico da realidade da escola,
alunos que passam, anonimamente, pela escola, levantamento das concepções do coletivo da escola
ou seja, aqueles alunos dóceis, que não são citados e programação das ações a serem desenvolvidas
porque não incomodam, mas já repetem pela sexta por todos os sujeitos da escola. Todos esses mo-
vez a mesma série. O gestor necessita ir além dos mentos passam por um processo de avaliação que
discursos e educar o seu olhar para perceber o real permite ao grupo caminhar do real para o ideal,
funcionamento da escola. desenvolvendo ações viáveis, possíveis de serem
O significado de planejar e o aprofundamento implementadas. Portanto, ações que requerem
da análise de diferentes contextos da escola deu planejamento e avaliação desde o diagnóstico até
início a esse estudo. Em seguida, focalizamos a a execução das ações.
relação entre projeto pedagógico e planejamento. No processo contínuo de elaboração do projeto
Ressaltamos que o nosso compromisso deve ser pedagógico, a escola necessita de um planejamento
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com um modelo de planejamento que se paute que considere a organização do trabalho escolar,
pelo questionamento da própria ação, da prática. e sua prática pedagógica, de modo a desenvolver
O projeto pedagógico como referência da organi- planos de ação que possibilitem, de fato, a me-
89
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zação do trabalho escolar, direcionando as normas lhoria da qualidade do ensino e os resultados da
de funcionamento da escola, ou seja, o regimento aprendizagem dos alunos. jan/2017
Nossa pergunta inicial “por que construir namento da escola e deve ser assumido como
coletivamente o projeto pedagógico?”, sempre uma conquista do coletivo da escola, como um
terá de ser feita para que não se torne um mero instrumento de luta e de organização. Portanto,
cumprimento de tarefa, parte do cotidiano escolar, a construção do projeto pedagógico depende
da prática pedagógica. do papel ativo dos diversos atores envolvidos no
O projeto pedagógico representa o funcio- contexto escolar.

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político-pedagógico”. Campinas: Papirus, 1998, pp.
09-32.
LUIZ, Maria Cecília; NASCENTE, Renata Maria Moschen
(Org.). Conselho escolar e diversidade: por uma escola mais
democrática. São Carlos: EDUFSCAR, 2013 (Capítulos 1 e 6)
Apresentação
Resenha elaborada por
Maria Cecília Luiz e Renata Maria Moschen
Antonia Maria Nakayama Nascente apresentam esse livro como fruto de um
Graduada em Psicologia pela PUC-SP esforço coletivo no sentido de compreender o de-
Mestrado em Psicologia Escolar pelo IPUSP safio da democratização da escola, que tem como
Doutorado em Didática pela FEUSP um dos seus princípios a participação do conselho
escolar, como espaço e tempo privilegiados desse
processo.
Os autores dos capítulos são pesquisadores, do-
centes e discentes da Universidade Federal de São
Carlos e de outras instituições federais e estaduais
que se reuniram para compreender as bases teóricas
e as possíveis abordagens que permitem à escola

Gestão democrática e participativa


acolher a diversidade, rompendo preconceitos e
reconhecendo e aceitando o outro, perspectiva que,
na visão desses estudiosos, deve ser fomentada no
conselho escolar.
No que se refere à prática educacional, esta
publicação pode ser a base de estudos para que
equipe e comunidades escolares aprimorem suas
percepções e práticas com o objetivo de acolher a
diversidade por meio do conselho escolar, aliado
na busca de uma escola realmente democrática.
A obra foi dividida em duas partes. A primei-
ra, Inclusão e diversidade nos conselhos escolares:
cultura, gênero, necessidades especiais e direitos
humanos, tem como foco as múltiplas relações
entre diversidade e conselho escolar com vistas a
uma escola mais democrática. A segunda, Conse-
lhos escolares e democratização: funcionamento,
participação, formação e trabalho coletivo, refere-
-se mais especificamente ao conselho escolar, às
conquistas mais recentes e às perspectivas desse
colegiado, embora as autoras deixem claro que
ainda há muito a ser feito para seu aprimoramento
como instância de democratização da escola e, por
extensão, da sociedade.
Nº 10 • Abril/99

O capítulo que abre o livro, de autoria de Ma-


ria Cecília Luiz, Sandra Aparecida Riscal e José
Roberto Ribeiro Junior, aborda a relação entre
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conselhos escolares e diversidade, apresentando
algumas reflexões acerca desse tema e apontando jan/2017
as contribuições proporcionadas por uma aborda- meio de democratização do espaço da escola na
gem fundada na valorização da diversidade e na consolidação desse processo.
dignidade da pessoa humana para a constituição de Camila Lourenço Morgado, Lucéia Maria de
uma dimensão mais democrática na vida escolar. Souza Paula, Marcela Menochelli Casonato e Thais
O segundo capítulo, de Swamy de Paula Lima Elena Lotumolo tiveram o objetivo de, no sexto
Soares, Ronaldo Martins Gomes e Lauren Apareci- capítulo, discutir como o conselho escolar pode
da de Souza Santos, tem como objetivo desenvol- contribuir para a garantia do direito à diversidade.
ver uma reflexão sobre as possíveis relações entre Para isso, as autoras propuseram uma discussão te-
a Teoria da Ação Comunicativa, desenvolvida por órica acerca da compreensão dos direitos humanos
Jurgen Habermas, e a Teoria do Conflito Social, de fundamentais para a formação de todos os cidadãos,
Axel Honneth, na busca por reconhecimento. Essa bem como uma reflexão sobre o direito à educação.
discussão constitui-se no ponto de partida para
Os estudos de gênero e seus desafios à área da
outras questões, tais como cultura e multicultu-
educação constituem--se, no sétimo capítulo, na
ralismo e diferença e alteridade, consideradas de
temática abordada por Edmacy Quirina de Souza,
uma perspectiva escolar.
Renata Silva Pamplona e Nilson Fernandes Di-
Renata Maria Moschen Nascente, Ariel Cristina nis. Nele, os autores discutiram as contribuições
Gatti Vergna e Rafaela Marchetti tentam respon- trazidas por esse campo à educação, fazendo uma
der, no terceiro capítulo, à questão de como a retrospectiva histórica acerca da constituição da
escola acolhe a diversidade. As autoras tecem suas mulher como um ser subordinado e da emergência
Gestão democrática e participativa

respostas valendo-se de alguns cenários vivenciados do conceito de gênero e refletindo ainda sobre as
em escolas de educação básica que exemplificam relações de poder-saber que envolvem os sujeitos e
dilemas inerentes ao acolhimento da diversidade, a formação de suas identidades sexuais e de gênero.
problematizando-os com o objetivo de refletir
No oitavo capítulo, “Diversidade cultural na
sobre eles e tendo os conselhos escolares como
espaços privilegiados rumo a soluções para as escola: existe equidade sem respeito às diferen-
questões e os conflitos referentes ao acolhimento ças?”, Renata Maria Moschen Nascente, Maria
da diversidade em cada unidade escolar. Cristina Luiz Ferrarini e Michele Peruchi de Brito
discutem a perspectiva do multiculturalismo e a
Multiculturalidade na criação de um portal
importância do conselho escolar nessa relação no
para a integração e formação de conselheiros
âmbito da escola.
escolares em todo o Brasil é o tema do quarto ca-
pítulo, desenvolvido pela equipe Cibelle Amorim A segunda parte do livro, Conselhos escolares
Martins, Maria Iracema Pinho de Sousa, Francis- e democratização: funcionamento, participação,
co Herbert Lima Vasconcelos, Márcia Costa Silva formação e trabalho coletivo, é inaugurada pelo
Costa e Aleksandra Previtalli Furquim Pereira, da nono capítulo, que versa sobre os conselhos esco-
Universidade Federal do Ceará. Os autores refle- lares no município de São Carlos/SP e a questão
tiram a respeito do desafio de criar um material da participação dos conselheiros, de autoria de
didático para um curso que teria como público- Renata Pieini Ramos e Celso Luiz Aparecido Conti.
-alvo conselheiros escolares de diferentes partes Baseados em uma pesquisa de mestrado, os autores
do Brasil, devendo, assim, não apenas considerar desenvolveram uma reflexão acerca da participação
mas também ter como eixo norteador a inserção nos conselhos escolares, concebidos como um ins-
de tais conselheiros no universo da cultura digital, trumento de gestão democrática das escolas.
sempre com muito respeito à diversidade cultural O décimo capítulo, por sua vez, escrito por Ju-
existente. liana Carolina Barcelli, Viviane Wellichan e Rúbia
O tema do quinto capítulo, de autoria de An- Nathália Parra, fala a respeito de indicadores de
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derson de Lima e Walkiria Gonçalves Reganhan, funcionamento dos conselhos escolares de quatro
são diversidade, conselho escolar e inclusão do estados brasileiros e discute, por meio das inves-
aluno com deficiência. Propõe-se uma reflexão que tigações realizadas durante o curso de extensão
92
92
envolve as relações entre a inclusão do deficiente na Formação Continuada a Distância em Conselhos
jan/2017 escola pública e o papel do conselho escolar como Escolares, oferecido em 2011 pelo Departamento
de Educação da Universidade Federal de São Carlos Silva, Maria Cecília Luiz e Ana Lucia Calbaiser da
(DEd/UFSCar) em parceria com a Secretaria de Silva. Eles examinam alguns aspectos presentes na
Educação Básica do Ministério da Educação (SEB/ formação continuada em conselhos escolares e de
MEC), como a gestão democrática vem sendo de- conselheiros municipais de educação no contexto
senvolvida pelos conselhos escolares de municípios de dois cursos – ambos oferecidos por meio de
de quatro estados brasileiros, a saber, São Paulo, convênio firmado entre a UFSCar e a Secretaria de
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Educação Básica do Ministério da Educação (SEB/
Débora Cristina Fonseca, no capítulo 11, dis- MEC) –, que foram o Pró-conselho: Programa Na-
corre sobre conselho de controle social, conselho cional de Capacitação de Conselheiros Municipais
escolar e trabalho coletivo e contextualiza esses de Educação e o PNFCE: Programa Nacional de
conselhos como pano de fundo no processo de Fortalecimento dos Conselhos Escolares.
descentralização e municipalização dos serviços
públicos, assegurando o cumprimento do mandato Parte I – Inclusão e diversidade
constitucional de participação da comunidade. nos conselhos escolares: cultura,
Assim, ela retoma brevemente o histórico desses gênero, necessidades especiais e
conselhos, a fim de compreender o cenário atual
direitos humanos
e a diversidade de possibilidades de participação
no controle e de efetivação de políticas públicas, e Capítulo 1: Conselhos escolares e
discute um caminho possível de trabalho coletivo a valorização da diversidade: uma

Gestão democrática e participativa


para o conselho escolar, não restrito a este, porém. dimensão mais democrática na escola.
Fundamentando-se em uma pesquisa realizada Maria Cecília Luiz; Sandra Aparecida Riscal;
na Secretaria Municipal de Educação de um muni- José Roberto Ribeiro Junior
cípio do interior do Estado de São Paulo no início Esta seção trata da relação entre conselhos esco-
de 2010, Elianeth Dias Kanthack Hernandes e lares e diversidade e seu propósito é apresentar algu-
Graziela Zambão Abdian apresentam, no capítulo mas reflexões sobre esse tema decorrentes de ações
12, os conselhos escolares como uma possibilidade realizadas nas escolas, com foco mais específico nes-
de vivência da escola democrática, na qual foram se colegiado. Pretende-se valorizar a diversidade e a
analisadas as alternativas de vivência da prática dignidade da pessoa humana para a constituição de
escolar democrática a partir de um processo de for- uma dimensão mais democrática na vida escolar. O
mação continuada consolidado nos princípios da objetivo é proporcionar uma reflexão sobre alguns
dialogicidade problematizadora e da escola como conceitos essenciais para o estudo da diversidade,
propositora de políticas e práticas na construção como cultura, diversidade cultural, etnocentrismo,
de conselhos escolares. estereótipo, preconceito, discriminação, respeito e
Andréia da Cunha Malheiros Santana e José Car- valorização da diversidade.
los Rothen, autores do capítulo 13, sobre avaliação Ao compreender as várias correlações entre
externa, autoavaliação e conselho escolar, constatam gênero, sexualidade, orientação exual, etnia e
que, atualmente, as escolas são submetidas a diversas relações raciais, perpassando pelas relações que
avaliações externas e que o conselho escolar é uma se dão na escola, espera-se que se reconheçam
importante instância para a discussão dos resultados a importância, a necessidade e possibilidades de
de tais avaliações e para a criação de instrumentos inclusão desses temas em práticas educativas, por
de autoavaliação que levem em consideração esses meio da reunião de subsídios para a construção de
resultados. Os autores discutem, assim, o potencial percursos pedagógicos de promoção da igualdade
do conselho escolar na implantação de uma auto- em ambientes escolares, neste capítulo com foco
avaliação que seja reflexo do que a unidade escolar especial no conselho escolar.
almeja para seus alunos.
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Finalmente, a participação como forma de Democracia e respeito ao diferente


fazer avançar o processo de democratização da Os conselhos escolares são parte de um esforço
93
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educação com qualidade de ensino é o fio condutor que visa à implantação e implementação de pro-
do capítulo 14, de autoria de Flávio Caetano da cessos de democratização das decisões nas escolas jan/2017
públicas, através da participação da comunidade que valorizem e reconheçam a importância da
escolar e local na vida da escola. diversidade política, social e cultural na vida local,
A escola constitui um espaço privilegiado para a regional ou nacional.
implementação de práticas que combatam todos os A democracia e, em particular, a gestão de-
tipos de discriminação e preconceito, porque abri- mocrática na educação tornaram-se um cobiçado
ga, em seu interior, todas as formas de diversidade produto de moda, algo que todas as escolas e
étnico-racial ou cultural, origem social, gênero, secretarias municipais e estaduais de educação
sendo o conselho escolar uma instância que repre- almejam adquirir para que possam, publicamente,
senta os segmentos da escola, embora possa não se apresentar como democráticas. Se continuarmos
estar representado por toda a diversidade da escola. nesses passos, logo teremos selos que certificarão
Ele deve ser a instância que garante a participa- as escolas democráticas, permitindo que se esta-
ção e a manifestação dessa diversidade na escola. beleça um ranking das escolas mais democráticas.
É necessário, por isso, que se estabeleça uma clara O sucesso da democracia como produto social
definição do campo de ação dos conselhos esco- acabou por contaminar todas as esferas sociais e,
lares, colocando-os, de fato, como uma instância hoje, dificilmente se aceita que um diretor de escola
de caráter deliberativo, normativo, fiscalizador, ou autoridade educacional afirme que não adota a
mobilizador e inclusive pedagógico na vida escolar, democracia como prática em sua escola.
que determina os caminhos das ações políticas, Assumindo caráter cerimonial, o efeito mo-
sociais, culturais e pedagógicas da escola. bilizador e unificador do discurso democrático,
Gestão democrática e participativa

A nova forma de organização dos conselhos es- quando voltado para as massas, tende, frequen-
colares, decorrente da concepção de gestão demo- temente, a tornar-se catarse coletiva, passando a
crática, é, ainda, incipiente e encontra obstáculos ter a forma de populismo. Quando proferido para
em práticas tradicionais que consideram o conselho autoridades, significa a demonstração de adesão ao
como órgão assessor de atividades recreativas e modelo político adotado e constitui uma espécie
financeiras da escola. Essa concepção assistencia- de propaganda pessoal de quem o faz. O discurso
lista em nada contribui para a constituição da vida democrático pode remeter, assim, à necessidade
escolar como um espaço de respeito às diferenças, de reconhecimento dos agentes escolares, quer
porque atua, precisamente, no sentido contrário: por parte do coletivo da escola, quer por parte das
ao estabelecer que a participação de todos seja limi- autoridades superiores. Corresponde, portanto, a
tada à esfera do trabalho, não consolida um espaço uma espécie de marketing pessoal constituído do
de decisões e permite que poucos continuem tendo consenso representado pela opinião geral. Isso
o privilégio de determinar o destino dos demais. significa que é preciso distinguir o discurso demo-
Estabelecida como um dos princípios da edu- crático, que visa a atender à opinião pública, da
cação pública pela Constituição de 1988 (Brasil, ideia de democracia, como processo que instaura
2006) e pela LDB – Lei de Diretrizes e Bases da a livre e autônoma participação coletiva.
Educação (Brasil, 2013a), a gestão democrática A maneira como a opinião pública se constitui
é associada, na legislação educacional (artigo 14 pode ser concebida atualmente como resultado
de Brasil, 2013a), à participação dos profissionais da circulação dessas opiniões pelos meios de co-
da educação na elaboração do projeto político- municação amplificados pelas novas tecnologias.
-pedagógico da escola e às comunidades escolares e A sociedade em que vivemos é homogeneizante
local, organizada em conselhos escolares ou órgãos e burocratizada, em um mundo cujas fronteiras e
equivalentes. espaços se contraem com a aceleração da capaci-
A participação da comunidade na gestão da dade de comunicação e informação. À medida que
aumenta o contato entre uma quantidade cada vez
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escola constitui um mecanismo que tem como


finalidade não apenas a garantia da democratização maior de pessoas, mais sensíveis elas se tornam à
do acesso e da permanência com vistas à universa- opinião umas das outras.
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lização da educação, mas também a propagação Riesman (1995) chama esse tipo social, pró-
jan/2017 de estratégias democratizantes e participativas prio da sociedade contemporânea, de alterdirigido
(other-directed). Segundo Riesman (1995), o que Tomada como produto social, a democracia
caracteriza o tipo social alterdirigido é que seus é mais uma forma de conformação do que de
contemporâneos são fonte da orientação para o participação. A competência a conquistar não é
indivíduo – tanto aqueles que lhe são conhecidos a de ser democrático ou de constituir relações
quanto aqueles que eles conhecem indiretamente, democráticas, mas a de adquirir um discurso que
através de amigos e dos meios de comunicação de se apresente como democrático e seja capaz de
massa. Essa fonte, naturalmente, é ‘internalizada’, demonstrar a adesão pessoal ao discurso oficial.
no sentido de que se implanta bem cedo no indiví- Manuais, cartilhas, palestras e cursos sobre de-
duo a dependência em face dela, para a orientação da mocracia fornecem não a consciência real do que
vida. As metas rumo às quais a pessoa alterdirigida venham a ser as práticas democráticas, mas os
se conduz mudam com essa orientação: apenas o certificados e o vocabulário técnico que permitem
processo mesmo de empenhar-se e o de prestar mui- reproduzir e veicular a concepção de democracia
ta atenção aos sinais dos outros é que permanecem adquirida. Tudo se passa como na história do cego
inalterados através da vida (Riesman, 1995, p. 86). que sabia tudo sobre o mar – ele já o conhecia por
A necessidade de estar sempre em comunicação histórias e poemas, mas, ao tocá-lo pela primeira
e em dia com as discussões e descobertas cria uma vez, não entendeu o porquê de tanto entusiasmo,
tendência a sensibilizar-se com as expectativas e apenas sentiu a água.
preferências dos outros. As mudanças sociais são Observadas sob esse prisma, as dificuldades
mais rápidas e assoladas ininterruptamente pelas para a implementação da gestão democrática se

Gestão democrática e participativa


notícias das novidades e das novas formas de vida. revelam não mais como uma recusa dessa forma de
O tipo alterdirigido é, por isso, superficial, amis- ação política, mas como um conjunto de práticas
toso a mudanças sem se deter em nenhuma. O que que, embora se pense que sejam democráticas, o
interessa são aquelas que podem lhe angariar maior são somente na instância discursiva.
prestígio pessoal. Segundo Riesman (1995), nessa A concepção da democracia como produto
sociedade, educação, lazer e serviços caminham con- revela a perversa condição de espetáculo público,
juntamente em um processo crescente de consumo da qual é, agora, revestida. Indica, ainda, a fragi-
de palavras e imagens dos novos meios de comu- lidade dessa concepção democrática, que pode,
nicação de massa. Riesman (1995) observa que, rapidamente, tornar-se autoritária ou ditatorial
cada vez mais, as relações com o mundo exterior e caso mudem os rumos da opinião pública. A
consigo são mediadas pelo fluxo das comunicações instauração de um sólido processo democrático
de massa. Para os tipos alterdirigidos, os aconteci- demanda tempo de amadurecimento e implica
mentos políticos são igualmente experimentados uma mudança de práticas e a implantação de es-
através de uma teia de palavras pelas quais os even- tratégias que garantam o direito de participação
tos são habitualmente atomizados e personalizados coletiva. Sem esses requisitos, sob a aparência de
ou pseudopersonalizados (Riesman, 1995, p. 85). democracia, escondem-se práticas tradicionais,
O tipo de caráter descrito por Riesman como viciadas em autoritarismo.
alterdirigido parece permitir que se estabeleçam O respeito à diversidade e diferença não reside
algumas características dos sujeitos que nascem apenas na divulgação dessas ideias, mas deve tam-
do mundo interativo, dos meios de comunicação bém constituir um norte para ações cotidianas na
de massa, da internet e da informação globalizada. escola, no respeito ao outro, quer seja nas questões
O processo educativo, na forma alterdirigida, de raça, etnia, gênero ou necessidades especiais.
não é constituído de conteúdos ou conhecimentos
formativos, mas da habilidade social de reconhecer Cultura e diversidade cultural:
e compreender os sinais presentes ou distantes entender para mudar
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e de acordo com a multiplicidade de fontes que A cultura pode ser definida como o conjunto
mudam contínua e aceleradamente. Esse caráter de conhecimentos acumulados, comportamentos,
alterdirigido da sociedade contemporânea permite instituições, crenças, costumes em uma determina-
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95
compreender o entusiasmo manifestado pela de- da organização social, constituindo um patrimônio
mocracia entre os agentes educacionais. dessa sociedade. Frequentemente, o conceito de jan/2017
cultura é associado ao adjetivo culto, que, no mun- própria que a individualiza, isto é, a faz única e
do ocidental, assume a significação de civilizado. se assenta em um determinado tempo e espaço.
Concebida como civilização, a cultura expres- Nesse sentido, conseguimos compreender por
saria a consciência que a sociedade ocidental tem que cada grupo de seres humanos, em diferentes
de sua superioridade sobre as demais, significando épocas e lugares, atribui significados diversos a
que se julga superior às sociedades que apresen- coisas e passagens da vida aparentemente seme-
tam costumes ou instituições distintas, antigas ou lhantes. A cultura estabelece a própria ação do
contemporâneas, sem o mesmo padrão de desen- homem, que se constitui como ser coletivamente
volvimento tecnológico e de comportamento. e se realiza como ser humano ao fazer do próprio
Por isso, esclarecer e definir o que é cultura deve viver uma arte.
ter lugar importante na vida escolar. Hoje, ao falar Cada cultura deve ser, portanto, considerada
em culturas, no plural, tendo como referência a uma experiência única, irredutível a qualquer
cultura negra, a gay, a baiana e a indígena, por outra. Cada sociedade possui seu próprio sistema
exemplo, muitas vezes não se leva em consideração cultural, constituído em um tempo e espaço que
o reconhecimento, no sentido de dar o mesmo lhe são próprios.
valor a essas diferentes expressões culturais. Em toda essa diversidade há uma característi-
Em geral, ao tratar de tais culturas, nem sempre ca humana: a sua capacidade de se constituir de
se pretende atribuir o mesmo status que se confere forma diferente, em tempos diferentes e espaços
à cultura ocidental, cujo intuito é o de excelência. diferentes, de enfrentar a diversidade de problemas
Gestão democrática e participativa

Ao contrário, essas culturas acabam recebendo uma e obstáculos impostos pelos eventos históricos
“concessão dada”, mas são vistas como exóticas ou de maneira variada e própria em um processo
folclóricas. Esta é a fonte de todo o preconceito: a contínuo de reinventar-se e superar-se. Não há
certeza da própria superioridade e a incapacidade trajetórias culturais que não sejam únicas, e a di-
de lidar com toda e qualquer manifestação cultural versidade de experiências e de sentidos atribuídos
que pareça diferente da sua. à própria vida é o maior testemunho da vocação
humana para a diversidade.
É dessa maneira que, em geral, a cultura ociden-
Colocada dessa maneira, a diversidade cultural
tal lida com o estranho, com o diferente, recusan-
não é uma coleção de culturas em diferentes está-
do-lhe atribuir dignidade, e infantiliza e descreve
gios transitórios que está a caminho da civilização
o outro como inapto para a vida civilizada (aos
ou da apresentação de experimentos civilizatórios
moldes ocidentais). Mais do que não reconhecer
malsucedidos, mas da própria manifestação da
o diferente, há a recusa da sua existência, ou seja,
liberdade humana, a qual, longe de uma trajetó-
o outro, o estranho, é demonizado, perseguido,
ria determinada, inventa-se e constitui-se, a cada
enxotado e excluído. No entanto, o que a cultura
instante, em diversos espaços, dando origem a
ocidental (que se considera única) mais tem feito
situações específicas em sua história coletiva.
para lidar com o estranho é transformá-lo naqui-
lo que ela considera adequado, disciplinando-o, Os conceitos de diversidade
conformando-o, atribuindo-lhe a sua própria e de diferença
forma e anulando, assim, a sua existência cultural. A possibilidade de o ser humano perceber a si
O antropólogo Clifford Geertz (1989) conside- mesmo como humano, como parte da humanida-
ra a cultura como um sistema simbólico, porque se de, deriva da possibilidade de reconhecer-se nos
constitui em teias de signos e significados criados outros e de reconhecer os outros em si mesmo. Isso
pelos próprios homens, Ela constituiu um dos só se realiza por meio da alteridade, da aceitação
mais importantes aspectos da condição humana, e da percepção dos valores do outro no que tange
aos seus.
Nº 10 • Abril/99

pois o próprio significado do que é ser humano


pode mudar de acordo com as práticas sociais dessa A percepção subjetiva do outro como humano
ou daquela formação cultural. Isso significa que é um tipo de relação que leva o sujeito a considerar
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cada sociedade humana tem uma teia cultural que no outro aquilo que pondera distinto do humano,
jan/2017 lhe corresponde, composta de uma prática social e aí está o problema. Cada cultura parece tender a
apreciar como específico e definidor do humano A diversidade cultural e o preconceito
aquilo que encontra em si mesma. Denominaremos diversidade cultural como as
É por meio da identidade que se reconhece no distintas possibilidades de expressão cultural, quer
outro o que é considerado humano. sejam de orientação sexual, gênero, faixa etária,
Essa é uma posição extrema da ortodoxia e do raça ou cor, etnia, deficiência, ou qualquer outra. O
fundamentalismo cultural. A percepção de valores que deve ser compreendido a respeito do problema
culturais, constituídos historicamente pelos ho- da diversidade é que as diferenças não podem ser
mens e consolidados em suas relações culturais, consideradas como motivos para que as minorias
devem ocorrer como uma manifestação de cada não tenham os mesmos direitos dos demais.
uma das sociedades específicas, e não pode ser Na sociedade, a dinâmica cultural está direta-
tomada como a expressão maior da humanidade mente relacionada com a diversidade cultural. Esta
inteira. Ao considerar apenas uma herança, uma se confunde, muitas vezes, com a desigualdade
tradição cultural, uma religião, impõe-se o não social e com um universo de preconceitos. Há
humano a todas as demais culturas. todo um aparato legal e jurídico que promete a
igualdade social e a penalização de práticas discri-
O problema é a tendência de tomar como
minatórias, mas a própria sociedade deve passar
verdadeiras apenas as coisas que a razão identifica
por um processo de transformação que implica
e considera como inadequado tudo o que não
incorporar a diversidade. Assim, não basta ser
seja assimilável ao esquema racional. Inadequado
tolerante, o objetivo é respeitar todos os valores
significa exatamente isto: o que não está em con-

Gestão democrática e participativa


culturais e os indivíduos de diversos grupos.
formidade, que não é ajustado nem apropriado
ou conveniente. O nosso senso comum é herdeiro Esse reconhecimento possibilitaria uma convi-
da cultura ocidental, cuja influência grega aparece vência harmoniosa. Como foi afirmado, a cultura
ocidental moderna sempre tendeu a representar a
na forma como identificamos o racional com o
si mesma como única e as demais culturas como
verdadeiro, o justo, o bom e o belo.
subculturas. Tal posicionamento, chamamos de
O bom-senso é a arte de harmonizar as diferen- etnocentrismo, que é o termo usado pela antro-
ças, que passam a ser compreendidas como parte pologia para descrever o sentimento genérico
de um todo harmônico. O diferente se apresenta, das pessoas que preferem o modo de vida do seu
agora, como parcial, como incompleto. Buscamos, próprio grupo social ou cultural ao de outros. É
então, a normalização do outro e consideramos uma visão de mundo para a qual o centro de todos
todos aqueles que se afastam da norma como os valores é o próprio grupo ao qual o indivíduo
desviantes. pertence. Nota-se que o etnocentrismo não é uma
Aceitar os desvios parece impossível, porque especificidade da cultura ocidental moderna, ou
nos obrigaria a voltar o nosso pensamento para seja, todas as sociedades, nas mais diferentes épo-
nós mesmos, repensar em tudo o que pensamos cas, reagiram de forma diferente ao contatar outra
sobre nós. Estamos aqui diante da ideia de que a cultura, sempre existindo a dificuldade de pensar
singularidade é irredutível. Cada indivíduo é úni- o outro, o diferente.
co e, em última instância, não poderá jamais ser No etnocentrismo, são privilegiadas as repre-
completamente traduzido ou compreendido pelo sentações e práticas sociais consideradas normais
outro. Isso vale para cada sujeito em particular por uma determinada sociedade, e as demais for-
e também para um povo, um coletivo cultural. mas de expressão cultural são reduzidas à condição
Nunca se chegará à compreensão completa do de não cultura, pela justificativa da violência e da
outro, nenhuma cultura se tornará inteiramente submissão do outro à condição de colonizado.
transparente a outra. O maior de todos os crimes Ao avaliar o outro e compará-lo a sua própria
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culturais é tentar moldá-la a nossa própria seme- cultura, acaba reduzindo-o a um estereótipo. O
lhança. Lembrando que não se trata de tolerar ou estereótipo consiste na generalização da cultura
de apiedar-se, mas de considerar o outro simples- do outro quando, em geral, são características
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97
mente como outro, diferente, porém com o mesmo tidas como negativas, que resultam na sua de-
direito de existência que nós. preciação, reduzindo o seu valor e essas mesmas jan/2017
características. Preconceitos e estereótipos estão das ideias, a discriminação está no da ação, ou seja,
ligados, e é comum encontrar a manifestação de trata-se de uma atitude. A superação das discrimi-
um preconceito por meio de alguma piada baseada nações implica a elaboração de políticas públicas
em um estereótipo. específicas e articuladas.
A diversidade e a cultura escolar Os movimentos sociais, feministas, LGBT,
negros e indígenas têm evidenciado o quanto as
O direito às diferenças se constitui da desna-
discriminações se dão de formas combinadas e
turalização das desigualdades, que devem deixar
sobrepostas, refletindo um modelo social e eco-
de ser percebidas como uma perversão às leis da
nômico que nega direitos e considera inferiores
natureza e passar a ser enxergadas como uma cons-
mulheres, gays, lésbicas, transexuais, travestis,
tituição legítima da vida social. Essa compreensão
exige uma concepção transdisciplinar, algo que negros, indígenas.
não rotule, que passe por cima dos estereótipos Durante muito tempo, a escola foi encarada
e estigmatizações, que separe cada segmento em como local onde deveria prevalecer a homogenei-
um campo disciplinar próprio e que recolha, nas dade cultural. Questões como direitos individuais,
diferentes ciências, o saber necessário para compre- diferenças étnicas, culturais, sociais ou de gênero
ender a correlação entre as formas de discriminação não eram objeto de atenção. Tendendo a ignorar
e estabelecer jeitos para sua superação, construindo as diferenças, a cultura escolar se estabeleceu por
maneiras igualmente transdisciplinares de promo- meio de um jogo de pressupostos preconceituosos
ver a igualdade. jamais explicitamente enunciados, mas carregados
Gestão democrática e participativa

É possível compreender o importante papel de violência simbólica, cujo resultado era incutir
da educação e da escola tanto na constituição dos em toda a comunidade escolar práticas sociais
preconceitos e na reprodução de práticas sociais impregnadas de preconceitos.
preconceituosas quanto na luta pela superação des- Ignorando as diferenças, a escola tornou-se
ses preconceitos. O predomínio de livros didáticos um dos sustentáculos da propagação dos precon-
e paradidáticos nos quais a figura da mulher é au- ceitos. Nos conteúdos escolares, encontravam-se
sente ou caracterizada como menos qualificada que subjacentes padrões identitários de etnia, cultura
o homem contribui para uma imagem de inferio- ou gênero, que excluíam (e ainda excluem) aqueles
ridade feminina, por um lado, e de superioridade que não se encontravam na concepção cultural
masculina, por outro. A escolha das cores, o rosa e ocidental tradicional. O espaço escolar sempre foi
o azul, os papéis representados nas brincadeiras, a elemento essencial dos processos sociais de estig-
ausência das crianças negras nas salas de nível mais matização e discriminação, que devem e podem
avançado vão, entre outras questões, demarcando ser combatidos em benefício de um ambiente
e referendando as posições machistas e racistas que mais respeitoso com relação à diversidade e aos
persistem em nossa sociedade. direitos humanos.
A escola abriga em seu interior todas as diferen- A concepção adotada aqui se baseia no prin-
tes formas de diversidade, quer sejam de origem cípio de que a possibilidade de criação de um
social, sexual, étnico-racial, cultural ou de gênero. espaço escolar plural passa pelo direito de todos,
Questões de gênero, religião, raça/etnia ou em suas diferenças, serem reconhecidos como
orientação sexual direcionam práticas preconcei- iguais. A diversidade é um dos aspectos funda-
tuosas e discriminatórias da sociedade contem- mentais da atual concepção de direitos humanos.
porânea. A escola democrática deve educar para E ser diferente constitui um direito de todos os
a valorização da diversidade e formar indivíduos seres humanos.
capazes de exercer a cidadania com dignidade e A escola é um espaço de saber-poder. Trata-se de
poder dar conta dessa responsabilidade ao prevenir,
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um processo que deve possibilitar a compreensão


investigar, estimular o debate e punir crimes de dos efeitos causados pela negação dos direitos na
ódio baseados em orientação sexual ou identidade vida coletiva e que deve incentivar a adoção de
98 de gênero.
98
práticas em que prevaleçam o respeito e a consci-
jan/2017 Se o estereótipo e o preconceito estão no campo ência cidadã do diferente.
As práticas dos conselhos constituem um vas- Referências bibliográficas
to campo de atitudes e hábitos, carentes de uma
Brasil. Programa nacional de fortalecimento dos conselhos
formalização institucionalizada, e, enquanto tais,
de escola. Conselhos escolares: uma Questões de gêne-
pertencem à dimensão do vivido, do cotidiano re- ro, religião, raça/etnia ou orientação sexual direcionam
petitivo e naturalizado, não se elevando à condição práticas preconceituosas e discriminatórias da sociedade
de reflexão. Nessa perspectiva, são os problemas e contemporânea. estratégia de gestão democrática da
conceitos que formulamos que recortam as práticas educação pública. Brasília: MEC, 2004.
e lhes atribuem um significado. Geertz, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro:
LCT, 1989.
Considerações finais Heilborn, M. L.; Rohden, F. Gênero e diversidade na escola: a
A permanência de concepções tradicionais é um ampliação do debate. In: Barreto, A.; Araújo, L.; Pereira,
obstáculo para a constituição de conselhos demo- M. E. (Org.). Gênero e diversidade na escola: formação
de professoras/es em gênero, sexualidade, orientação
cráticos que respeitem a diversidade e os direitos
sexual e relações étnico-raciais. Rio de Janeiro: Centro
humanos na vida escolar. A heterogeneidade da Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos
escola é submetida a uma moral homogeneizante. – IMS/Uerj, 2009.
O conselho escolar torna-se, assim, um corpo ho- Riesman, D. A multidão solitária. 2. ed. São Paulo: Pers-
mogêneo que, em vez de respeitar a diversidade, pectiva, 1995.
encarna um projeto de homogeneidade ordena- Skliar, C. Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro
dora e disciplinadora. Não há o reconhecimento não estivesse aí? Rio de Janeiro:
do outro, do diferente que, nesse projeto, não é

Gestão democrática e participativa


DP&A, 2003.
sujeito de direito. Veyne, P. O inventário das diferenças. São Paulo: Brasiliense,
O conselho escolar muitas vezes, não admite a 1983.
participação daqueles que não se encontram repre- Conselho escolar e diversidade: por uma escola mais democrá-
sentados em seu modelo e o respeito à diversidade tica Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil,
de 5 de outubro de 1988. Diário Oficial da República
aparece como um dos maiores problemas a serem
Federativa do Brasil, Brasília, 05 out. 1988. Disponível
enfrentados nas escolas. Silenciadas durante muito em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituição/
tempo, as diferenças e diversidades sociais, econô- Constitui %C3%A7ao.htm>. Acesso em: 20 out. 2006.
micas, étnico-raciais, culturais ou de gênero nunca ______. Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece
encontraram espaço para expressão no modelo as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial
escolar que se consolidou baseado na concepção da República Federativa do Brasil, Brasília, 23 dez. 1996.
positivista. As práticas democráticas oriundas Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
leis/l9394.htm>. Acesso em: 23 jul. 2013a.
das reuniões do conselho escolar abrem espaço
para que, ainda que gradualmente, a comunidade ______. Programa nacional de fortalecimento dos conselhos
de escola. Conselho escolar e direitos humanos. Brasília:
encontre locais para a expressão das dificuldades
MEC, 2008. (Caderno 11). Disponível em: <http://
impostas à vida escolar pelos preconceitos, discri- www.paulofreire.org/wp- -content/uploads/2012/PME/
minação e conflitos identitários. conselhos_escolares_dh.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2013b.
Tornar a escola um espaço em que se respeite
a diversidade e se realizem os direitos humanos Capítulo 6. direitos humanos
constitui, ao mesmo tempo, um desafio e um avan- para a diversidade: a
ço em uma sociedade tradicionalmente marcada contribuição do conselho escolar
pelas desigualdades e pelo desrespeito ao direito
Camila Lourenço Morgado; Lucéia Maria
do outro.
de Souza Paula; Marcela Menochelli Casonato;
A educação pautada pelos valores de respeito Thais Elena Lotumolo
ao ser humano e a sua dignidade visa a formação
Introdução
Nº 10 • Abril/99

de uma cultura escolar que prioriza a igualdade, o


respeito às diferenças e à diversidade, estabelecen- Os conselhos de escola são órgãos colegiados,
do condições para que os direitos humanos sejam compostos da comunidade local e escolar, que
99
99
materializados e constituam práticas frequentes possuem funções administrativas, financeiras e
na vida escolar. político-pedagógicas, e que promovem ações para jan/2017
auxiliar a escola a atingir seus objetivos, sendo um dos educandos acerca dos direitos humanos e da
espaço de decisão e participação que constrói um diversidade sendo que os conselhos de escola são
ambiente democrático e coletivo. órgãos integrantes e fortalecedores da garantia de
Todos os seres humanos, sem distinção, têm tais direitos, trabalhando em busca da conscientiza-
direitos garantidos por lei. Tais leis são fruto ção de sujeitos que exercitem seus direitos essenciais.
de um processo sócio-histórico e sociocultural
Direitos humanos
construído por meio de reivindicações e lutas dos
movimentos sociais, de acordo com as necessida- Atualmente nota-se um processo de democrati-
des de cada época e com a finalidade de assegurar zação na maioria dos países, porém, em períodos
melhores condições de vida. Dessa ideia nascem os anteriores e ainda recentes, pode-se perceber, ao
direitos humanos, que podem ser definidos como analisar a história, que muitos deles passaram regi-
direitos decorrentes da dignidade do ser humano, mes autoritários, fato em transformação na medida
abrangendo, entre outros: os direitos à vida com em que governos de tradição democrática se tor-
qualidade, à saúde, à educação, à moradia, ao nam cada vez mais adeptos dos direitos humanos.
lazer, ao meio ambiente, ao saneamento básico, Como se sabe, todos os seres humanos têm
à segurança, ao trabalho e à diversidade cultural seus direitos, garantidos por lei; não por acaso, o
(Brasil, 2003). reconhecimento dos direitos humanos é fruto de
Cabe ressaltar que o direito à educação é essen- um processo sócio-histórico e sociocultural cons-
cial na formação dos sujeitos para o convívio social. truído por meio de reivindicações e lutas – uma
Gestão democrática e participativa

O direito à educação está presente na legislação conquista que se deu de modo gradual, conforme
brasileira, como na Lei de Diretrizes e Bases da as necessidades de cada época e por indivíduos
Educação Nacional e na Constituição Federal. A e grupos que buscavam melhores condições de
observação de tais documentos oferece meios de vida. Em três principais momentos históricos,
compreensão acerca da estruturação da educação, abordaram-se questões dos direitos humanos:
caracterizada pela gratuidade, qualidade, oferta B
 ill of Rights ou Declaração de Direitos (Ingla-
regular e garantia de permanência. Dessa forma, terra, 1689), que promoveram a divisão entre
destaca-se a presença dos conselhos de escola como poderes, proporcionando, ainda que de forma
órgãos atuantes na promoção do direito à educação indireta, a proteção de direitos fundamentais;
a todos os envolvidos nos ambientes educacionais.
Declaração de Direitos da Virgínia (Estados
 
Nessa perspectiva, é fundamental utilizar o Unidos, 1776), tendo sido o primeiro docu-
espaço de tal colegiado para pensar ações que vi- mento a reconhecer a existência de direitos
sam a efetivar essa educação em direitos humanos pertencentes a todos os seres humanos, pois
dentro do espaço escolar, bem como para discutir compreendia o ser humano como livre e com
questões relacionadas à diversidade cultural (gê- seus direitos assegurados;
nero, raça/etnia, religião, orientação sexual, entre
Declaração dos Direitos do Homem e do Ci-
 
outros). Assim, nota-se que o conselho de escola é
dadão da Revolução Francesa (França, 1789),
um espaço muito importante para a consolidação
primeiro documento da França divulgando as
desse princípio educativo, que busca garantir que
ideias da Revolução Francesa, que tinha como
as diferenças e potencialidades dos indivíduos
sejam respeitadas. lema liberdade, igualdade e fraternidade.

A diversidade é social e historicamente cons- Mais recentemente, no século XX, merecem


truída por meio das relações sociais de poder, e, destaque a Constituição Mexicana de 1917 e a
para contemplá-la, é preciso reconhecê-la e mitigar Constituição Alemã de 1919, que tinham o in-
conceitos excludentes. Reconhecida como um tuito de inserir não apenas os direitos sociais, mas
também os civis e os políticos.
Nº 10 • Abril/99

Direito Humano fundamental e prevista em lei, a


diversidade ainda não é totalmente respeitada em A constituição dos direitos humanos ocorre
vários espaços sociais. A escola como espaço de historicamente, através do reconhecimento do ci-
100
100
convivência com todos os tipos de diferença é o dadão de cada país, e culmina no reconhecimento
jan/2017 local privilegiado para a discussão e sensibilização dos direitos das pessoas na comunidade interna-
cional. Para assegurá-los, foi proclamada, em 10 Federal de 1988 e na legislação complementar em
de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos vigor, a exemplo do Estatuto da Criança e do Ado-
Direitos Humanos, pela Assembleia-Geral das lescente (ECA) e do Plano Nacional de Educação
Nações Unidas. Esse ato colaborou para mudan- em Direitos Humanos. A Constituição Federal de
ças em lugares nos quais, por motivos diversos, 1988 (Brasil, 2013c) apresenta tais direitos, como
pessoas que viviam indignamente pudessem ter pode ser visto no artigo 227:
seus direitos garantidos. “É dever da família, da sociedade e do Estado
A igualdade de direitos humanos compartilha assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com
valores segundo os quais todos os seres humanos absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à
são considerados cidadãos, possuindo direitos alimentação, à educação, ao lazer, à profissionaliza-
igualitários e, se necessário for, devendo ser pro- ção, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade
tegidos pelo Estado. Os direitos humanos, que são e à convivência familiar e comunitária, além de
universais, cabem a todos e quaisquer indivíduos. colocá-los a salvo de toda forma de negligência
Somente depois da Declaração Universal é que e exploração, violência, crueldade e opressão”
podemos ter a certeza histórica de que a humani- Brasil, 2013c).
dade – toda a humanidade – partilha alguns valores O principal direito é a vida, e ninguém deve ser
comuns; e podemos, finalmente, crer na universali- privado dele; além disso, a Constituição garante o
dade dos valores, no único sentido de que tal crença acesso à saúde, à educação, à moradia, ao salário
é historicamente legítima, ou seja, no sentido de justo, à cultura e dignidade, à participação política

Gestão democrática e participativa


que universal significa não algo dado objetivamente, e à convivência familiar e comunitária.
mas algo subjetivamente acolhido pelo universo dos Presentes no cotidiano, os direitos humanos se
homens [...]. Com a Declaração de 1948, tem início formam de um conjunto de direitos que, de acordo
uma terceira e última fase, na qual a afirmação dos com vários documentos internacionais e nacionais,
direitos é, ao mesmo tempo, universal e positiva: são expressos por direitos civis, políticos, sociais,
universal no sentido de que os destinatários dos prin- econômicos, culturais e ambientais.
cípios nela contidos não são mais apenas os cidadãos Dentre os direitos humanos civis e políticos,
deste ou daquele Estado, mas todos os homens, e podem ser destacados: o direito à vida, ao de não
positiva no sentido de que põe em movimento um ser torturado, ao de ir e vir, à segurança, ao de
processo em cujo fim os direitos do homem deverão votar e ser votado, ao de reunião e ao de organizar
ser não mais apenas proclamados ou idealmente partidos políticos e participar deles. São direitos
reconhecidos, porém efetivamente protegidos até sociais o direito à moradia, ao trabalho, à saúde, à
mesmo contra o próprio Estado que os tenha violado educação, ao lazer, a um meio ambiente protegido
(Bobbio, 1992, p. 28-30). e à conservação da biodiversidade.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos É necessário ainda entender que todos têm
promove, a partir de então, os direitos assegurados direito a ter seus direitos respeitados, lembrando
por lei. A igualdade, a liberdade e a dignidade que, dessa forma, do mesmo modo como se geram
caracterizam um ser humano com direito ao seu deveres, promovem-se ainda mais as responsabili-
desenvolvimento, ou seja, o direito humano é dades. Para que os direitos humanos sejam, de fato,
fundamental para a garantia da vida em sociedade. uma realidade, é preciso que as pessoas exerçam
Dalmo Dallari (2008 apud Hanna, D’Almeida sua cidadania de maneira ativa, garantindo seus
& Eyng, 2013) apresenta os direitos humanos espaços democráticos de participação.
em categorias. A igualdade, a liberdade política, A base dos direitos humanos é a democracia,
os direitos sociais, os direitos econômicos, os compreendendo que é um regime que vai além
direitos ao progresso, à moradia e ao trabalho,
Nº 10 • Abril/99

do âmbito político (regime político que emana


entre outros, são elencados para expressar a ideia do povo), mas que se insere também no campo
de uma vida digna. social, e deve se consolidar como uma cultura
101
101
No Brasil, esses direitos também estão assegu- que esteja presente em todas as relações sociais e
rados e podem ser encontrados na Constituição institucionais (Brasil, 2013b, p. 18). jan/2017
Diante da relevância dos direitos humanos, é mativos que se desenvolvem na vida familiar, na
pertinente focalizar o direito à educação, essencial convivência humana, no trabalho, nas instituições
para a composição de uma sociedade menos desi- de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e
gual e excludente e mais auxiliadora na edificação organizações da sociedade civil e nas manifestações
de sujeitos que saibam se posicionar perante o culturais (Brasil, 2013d).
meio em que vivem. A garantia da educação, um direito social, é
Segundo Gentili (2009), o direito à educação condição para a construção da história de vida de
é uma forma de promover uma sociedade mais cada sujeito; ela atua diretamente na liberdade de
justa e igualitária. O direito à educação é meio de pensamentos e de críticas, caminhando para além de
origem de práticas de respeito, de liberdade e de um direito e englobando o interesse da sociedade na
aceitação do pluralismo de opiniões e concepções. constituição de sujeitos que exercitem a cidadania.
Some-se a isso a importância revelada na forma- Dessa forma, é dever do Estado a promoção
ção de sujeitos que exerçam a cidadania e estejam do bem comum e da preservação da vida social
aptos ao trabalho, isto é, a ajudar no progresso através de uma educação gratuita e de qualidade
e desenvolvimento da sociedade em que atuam. (Basilio, 2009).
Em face de tais assertivas, cabe questionar a Articulada com a Constituição Federal de 1988,
sua real prática nas instituições educativas, assim a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
como as dificuldades e adversidades próprias dos de 1996 destaca a ideia de preparação do ser hu-
ambientes de ensino e aprendizagem para a sua mano para a cidadania e de uma prática voltada
Gestão democrática e participativa

vivência no cotidiano. Para auxiliar na construção para o trabalho.


de um ambiente favorável ao exercício do direito Assim, Conti & Silva (2010) salientam que
à educação, o conselho escolar é um órgão atuan- os conselhos escolares são um espaço de atuação
te, já que possui meios de prezar a observação da sobre a qualidade do ensino ofertado, na melhoria
garantia desse direito e dos princípios que regem do processo educativo e na visualização de possi-
o ensino a todos os integrantes do cenário escolar. bilidades de emancipação dos sujeitos. São órgãos
Um conselho escolar presente nas unidades colegiados que possuem uma posição de destaque
educativas apresenta-se em uma posição promisso- para estimular o debate acerca da legislação educa-
ra, uma vez que incentiva os integrantes do meio cional e promover, por meio de uma gestão partici-
educacional a refletirem sobre a gestão democrática pativa e democrática, o questionamento a respeito
e a liberdade e igualdade de condições ofertadas aos do papel do Estado, da família e da comunidade
seus alunos. Além disso, é um meio promissor para escolar com relação ao posicionamento perante o
ressaltar a necessidade de criação de um ambiente direito à educação.
que instale um espaço de discussão e reflexão sobre Alguns trechos das legislações compartilhadas
uma escola com cultura voltada para a atenção aos trazem para discussão a necessidade de efetivação
direitos humanos (Brasil, 2013b). dos direitos, entre eles o direito à educação, con-
O direito à educação permite que os sujeitos se siderando as maneiras de estruturação do ensino,
transformem e se desenvolvam em um movimento as finalidades educativas, bem como o estímulo a
de construção de progressos pessoais e para a so- uma gestão democrática e participativa dos sujeitos
ciedade, propicia a mobilização social, o exercício nos ambientes escolares. Os conselhos escolares
profissional e o questionamento diante de políticas são órgãos atuantes nessa discussão, uma vez que
públicas originadas pelo Estado e estimula todos podem fomentar meios de garantia dos direitos,
a serem participativos (Basilio, 2009). como uma educação voltada para a observação e
exercício dos direitos humanos.
Vindo ao encontro dessa finalidade, a Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996
Nº 10 • Abril/99

A diversidade e o papel do
esclarece, em seu artigo 1o, a presença da educação Conselho de Escola
tanto na vida familiar quanto nas instituições e As diferenças são naturais e, portanto, não
102 movimentos promovidos pela sociedade.
102
devem ser negadas. Gomes (2013) assevera que a
jan/2017 Art. 1º – A educação abrange os processos for- diversidade não diz respeito apenas ao que pode
ser observado a olho nu, pois, no momento em A diversidade dentro do contexto pedagógico
que passamos a considerá-la a partir de uma visão não é algo simples, exigindo que se reconheçam
cultural e política, surgem dois aspectos, a saber, as diferenças e se estabeleçam padrões de respeito,
os empiricamente observáveis e as diferenças o que garante direitos sociais e éticos. Para que
construídas historicamente, por meio das relações ocorram avanços em práticas educacionais capazes
sociais e de poder. De acordo com a autora, quando de compreender tal diversidade, é preciso romper
falamos de diversidade, devemos não somente ter com o conceito de padronização que vigora no
o reconhecimento do outro, mas também pensar campo educacional. A educação para a diversidade
a relação estabelecida entre os demais, vistos como consiste em explorar as diferenças, agindo como
diferentes diante do nosso grupo. um grupo e adotando práticas que considerem as
Consideramos as semelhanças e diferenças partin- diferenças naturais.
do de uma comparação. Tal comparação, por sua vez, Reconhecer as diferenças não é algo fácil, trata-
é feita de um padrão próximo a nossa visão de mundo, -se de um desafio, pois nos obriga a repensar nossas
que pode ser de comportamento, classe social ou ações e valores. Dentro da escola, não é diferente.
gênero, entre outros. Assumir a diversidade cultural Assim, o melhor caminho para o estabelecimen-
significa muito mais do que um elogio às diferenças. to da valorização e do respeito à diversidade no
Representa não somente fazer uma reflexão mais espaço escolar são o diálogo e a participação,
densa sobre as particularidades dos grupos sociais proporcionando trocas de experiência e práticas
mas também implementar políticas públicas, alterar educacionais democráticas.

Gestão democrática e participativa


relações de poder, redefinir escolhas e questionar a Para que tal ocorra é necessário transformar
nossa visão de democracia (Gomes, 2013, p. 1). a escola em um espaço formativo que auxilie os
Costa (2008) nos mostra que identidade e sujeitos envolvidos nesse processo a enxergarem a
diferença não são distintos; pelo contrário, são si mesmos e aos outros como sociais e históricos,
inseparáveis, produzindo-se pela linguagem e produtores de cultura, ou seja, que compreendam
construindo-se por meio de um discurso. Assim, que cada um traz consigo os saberes advindos
precisamos entender exatamente como se produ- de sua comunidade e que estes devem ser consi-
zem, institucional e historicamente. O discurso derados e respeitados a fim de que seu processo
tem a capacidade de controlar, classificar e ordenar, educativo não fique prejudicado.
desse modo é incapaz de acompanhar as mudanças Em outras palavras, esse colegiado tem de
e transformações sociais que determinam a padro- promover meios de valorizar “as diversas mani-
nização e marginalização de alguns grupos sociais. festações culturais, de cunho artístico, religioso e
De acordo com Gomes (2013), a escola precisa desportivo dos variados grupos que compõem a
se adequar às profundas mudanças sociais que sociedade brasileira” (Dias, 2008, p. 3).
estão ocorrendo atualmente, já que ainda carrega Segundo Dias (2008), outras medidas, como a
muitas idealizações, sobretudo respeito dos alunos elaboração de cartilhas, cartazes e até mesmo livros,
e professores. Para a autora, o estabelecimento de podem ser realizadas em prol da consolidação de
padrões sociais, culturais e cognitivos não garan- uma educação voltada para os direitos humanos,
tem uma educação democrática de qualidade, só respeitando a diversidade cultural que permeia a
contribui cada vez mais para a exclusão. escola. Podem-se promover também momentos
Contudo, não é nesse movimento apenas que de estudo e reflexão com o intuito de formar
a escola convive com a diversidade – não se trata professores, gestores, funcionários, pais, alunos e
somente de um tema, mas de uma constituição comunidade para que estes se tornem multiplica-
humana. A diversidade é, para a educação, um dores de tal cultura fora da escola.
Nº 10 • Abril/99

dado social composto ao longo da história, e O conselho escolar como órgão articulador en-
Gomes (2013) ainda diz que, para refletir sobre tre escola, comunidade e outras instituições sociais
a diversidade no âmbito educacional, é necessário também precisa levar essa discussão para “além
103
103
reconhecer, aceitar e respeitar as diferenças, enfim, dos muros da escola”, isto é, deve-se articular com
colocá-las no centro do processo educativo. o Ministério Público, com o Conselho Tutelar e jan/2017
com o Conselho da Criança e do Adolescente, de desses direitos possui relação direta com a atuação
maneira que, juntos, elaborem projetos, discussões dos conselhos escolares – colegiado que promove
e espaços que objetivem trabalhar. a construção coletiva de espaços democráticos e
A educação em direitos humanos busca difundir participativos.
a diversidade sociocultural para além da escola. Tal A garantia dos direitos humanos é fruto de um
ação seria muito positiva, pois estaria contribuindo processo gradual sócio-histórico-cultural, constru-
para a construção de uma sociedade mais justa, ído através das lutas dos movimentos sociais. Tais
igualitária e respeitadora das diferenças sociais, direitos são universais, destinados à preservação do
culturais, financeiras, entre outras. ser humano, ou seja, os direitos humanos cabem a
O conselho de escola é um órgão privilegiado para todo e qualquer ser humano, de forma que tenha
a consolidação de um princípio educativo que garanta dignidade e possa ser respeitado integralmente.
que os sujeitos sejam respeitados em suas diferenças e Nesse sentido, todas as pessoas têm direito a ter
potencialidades, já que, conforme Brasil (2013b), tal seus direitos e a ser respeitadas.
órgão participa diretamente da construção e recons- Em face desse estudo, entendemos que a pro-
trução do projeto político-pedagógico da escola e, moção de uma educação pautada pelos direitos
portanto, pode intervir a fim de que sejam incluídas humanos na escola deve ser um compromisso
temáticas relativas a gênero, raça, religião, orientação de todos os sujeitos envolvidos no processo edu-
sexual e etnia nesse documento. cacional, juntamente com o conselho de escola.
É fundamental que haja um conselho escolar Esta união – escola e órgão colegiado – possibi-
Gestão democrática e participativa

exercendo ativamente esse importante papel, haja lita a elaboração de ações que visam determinar
vista que, quanto maior a participação de tal co- esse ideal educativo, bem como contribui para a
legiado nessa questão, maiores as chances de “for- garantia de que os sujeitos sejam respeitados em
marmos crianças e adolescentes em um ambiente suas diferenças.
escolar acolhedor, não violento, que respeite as
diferenças, estimulando atitudes de tolerância e Referências bibliográficas
de paz” (Dias, 2008, p. 6). Basilio, D. R. Direito à educação: um direito essencial ao
exercício da cidadania. Sua proteção à luz da teoria dos
Considerações finais direitos fundamentais e da Constituição Federal Brasileira
Por meio das discussões promovidas neste ca- de 1988. 2009. 140 f. Dissertação (Mestrado em Direi-
pítulo, buscamos fortalecer os conselhos escolares to) – Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo,
para que promova a garantia do direito à diversi- São Paulo, 2009.
dade dentro das instituições de ensino. Ademais, Bobbio, N. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Campus, 1992.
destacamos a importância de um debate sobre os Brasil. Plano nacional de educação em direitos humanos.
direitos humanos, inseridos em diversos campos, a Brasília: SEDH/MEC, 2003.
saber, o político, o econômico. A escola, como ins- Candau, M. V. Sociedade multicultural e educação: tensões e
tituição educativa responsável por definir práticas desafios. In: ______. (Org.). Cultura(s) e educação: entre
o crítico e o pós-crítico. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
pedagógicas, necessita compreender as diferenças
Conti, C.; Silva, F. C. Conselho escolar: alguns pressupostos
e indicar formas mais democráticas de convivência.
teóricos. In: Luiz, M. C. (Org.). Conselho escolar: algu-
O reconhecimento da diversidade consiste no mas concepções e propostas de ação. São Paulo: Xamã,
rompimento com muitas práticas padronizadas e 2010. p. 59-70.
historicamente constituídas no ambiente escolar; Costa, M. V. Currículo e pedagogia em tempo de proliferação
desse modo, trata-se de algo sobremaneira traba- da diferença. In: Encontro Nacional de Didática e Prática
lhoso. O melhor caminho para o estabelecimento de Ensino, 14., 2008, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre:
PUCRS, 2008.
do respeito às diferenças no contexto escolar são
o diálogo e a educação em direitos humanos, bus- Dias, A. A. A escola como espaço de socialização da cultura
Nº 10 • Abril/99

em direitos humanos. In: Zenaide, M.


cando, assim, respeito entre os sujeitos.
N. T.; Silveira, R. M. G.; Dias, A. A. (Org.). Direitos huma-
Além disso, indispensável é a garantia do direito nos: capacitação de educadores. Fundamentos culturais
104
104
à educação envolvida pela permanência, qualidade e educacionais da educação em direitos humanos. 1. ed.
jan/2017 e gratuidade nas escolas. Destaca-se que a garantia João Pessoa: UFPB, 2008. v. 2.
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105
105
jan/2017
Anotações:
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Planejamento
estratégico
MURICI, Izabela Lanna; CHAVES, Neuza Maria Dias. Gestão para
resultados na educação. 2 ed. São Paulo: FALCONI Editora, 2016.
O conhecimento sobre os problemas da educa-
Resenha elaborada por ção não é novo e nos últimos anos tem vindo à tona
Marcia Regina Vital com mais frequência a cada vez que os resul-
Doutora em Psicologia Escolar e tados das avaliações são divulgados, deixando
Desenvolvimento Humano sempre uma pergunta: por que as melhorias ainda
Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento são tímidas, esparsas e tão distantes dos países
Graduada em Administração de Empresas desenvolvidos?
O problema crônico do baixo desempenho não
se resolve com boa vontade, discursos indignados
e ações isoladas. Tal problema poderia ser revertido
por meio de uma política nacional abrangente e
com uma gestão sistematizada.
A educação é um patrimônio de riqueza in-
calculável, que impacta gerações e repercute por
décadas na saúde, na política, na segurança, na
economia e na qualidade de vida de um povo. Para
que a educação não seja um tesouro que a cada dia
fica mais soterrado, é urgente deter o discurso e ir
para a ação, agindo de forma organizada sobre as
causas e utilizando o método de gestão em todos
os seus níveis.
Planejamento estratégico

Estudos apontam que não é dinheiro que fal-


ta para melhorar a educação. Falta um objetivo
comum, uma diretriz, um esforço sistêmico, um
método que possibilite estabelecer metas, plane-
jar as estratégias, acompanhar e intervir para se
ter certeza do resultado. Em síntese, falta gestão.
Já vencemos a batalha quantitativa de colocar as
crianças na escola, e agora é o momento da batalha
qualitativa.
Para que o sistema de educação cumpra
amplamente sua função de prover educação de
qualidade para todos, é preciso que todos os
elos estejam comprometidos em desempenhar
a sua responsabilidade específica, sem perder
de vista a conexão com o objetivo maior, Dessa
forma, é indispensável que as responsabilidades
sejam claramente definidas desde o primeiro
nível e que haja gerenciamento dos processos
Nº 10 • Abril/99

e resultados.
As responsabilidades e atribuições têm por
108
108
objetivo contribuir para uma visão sistêmica do
jan/2017 segmento educacional, destacando as responsa-
bilidades e atribuições de cada elo, mostrando a modeladores dos padrões de comportamento de
inter-relação entre eles, de forma que todos estejam todas as pessoas envolvidas com a função da edu-
focados no aluno. Em síntese, todos os elos, ao cação. São os valores que referenciam as decisões
cumprir as suas responsabilidades, agregam valor e as escolhas. A gestão começa pelos valores e se
à cadeia e desempenham sua função até chegar ao sustenta neles.
aluno. Resultados de qualidade são obtidos quando Para que a escola pratique os valores em todos
cada parte do sistema exerce sua função, ou seja, os seus momentos e consiga que os alunos os
cumpre suas atribuições por meio da execução de levem para fora da sala de aula, é preciso que eles
processos e atividades que agreguem valor. os entendam profundamente e saibam como se
Com relação aos fatores críticos. a pergunta é: aplicam nas suas vidas.
por que algumas escolas que existem no mesmo Em relação ao conhecimento técnico, refere-se
meio de desigualdades social e submetidas às aos conhecimentos específicos que o profissional
mesmas influências socioeconômicas conseguem de vê ter para exercer determinada função. Nas
ter um desempenho superior? escolas diz respeito aos conteúdos das disciplinas,
Várias são as causas quando o problema é dinâmica de aula, planejamento, avaliação, orien-
complexo, mas três fatores críticos têm influência tação pedagógica, processos administrativos, entre
determinante sobre o sucesso dos resultados: outros. É esse conhecimento que permite que a
liderança, conhecimento técnico dos processos e rotina se realize. Os gestores devem dominar desde
método de gestão. Qualquer que seja a organiza- o currículo básico até o processo de prestação de
ção, a liderança é o principal deles. contas, ou seja, as atribuições da sua função.
A liderança na área educacional tem a função Para resolver os problemas da educação, melho-
de obter resultados por meio das pessoas e com rando os resultados e sustentando-os para obter
base em valores. São líderes aos secretários da edu- novos patamares, não bastam boas intenções. É
cação, os gestores regionais, diretores de escolas, preciso método, sendo que método é o caminho
os coordenadores, os professores e todos aqueles para atingir a meta.
que têm a responsabilidade de mobilizar pessoas A gestão da educação requer conhecimento e

Planejamento estratégico
para produzir os resultados de uma educação de domínio do sistema escolar. Segundo o biólogo
qualidade. austríaco Bertalanffy, sistema é um conjunto de
As necessidades atuais da sociedade exigem uma partes interligadas e interdependentes com obje-
liderança que transcenda a tradicional competên- tivo comum para cumprir determinada função.
cia administrativa e passe pelo conhecimento no A função de um sistema de gestão é entregar
método de gestão, pela atitude com a equipe, pelo resultados.
exemplo de coerência entre discurso e ação e nos Considerando esse conceito, o sistema de
valores demonstrados. gestão da educação tem como função melhorar e
Para desenvolver estas competências nos líderes manter resultados educacionais a partir das metas
da rede, pode ser estruturado um programa de definidas. Tomando como referência a rede edu-
formação de líderes. Sugere-se que esse programa cacional, o sistema de gestão pode ser entendido
trabalhe as dimensões da liderança de uma forma em 3 dimensões, organizadas no tempo:
prática e de fácil aplicabilidade.  Dimensão plurianual da gestão: essa dimen-
Tem-se observado uma grande melhoria nos são representa o direcionamento de melhoria
resultados e no ambiente das escolas, quando a do sistema, focando os esforços e os recursos
direção exerce a liderança, deixando claras as metas, no aprendizado efetivo do aluno, reduzindo o
apoiando os professores e cobrando firmemente os grau de incerteza e ampliando as chances de
resultados. A melhoria no nível de liderança é rele-
Nº 10 • Abril/99

alcançar a visão de futuro projetada. Para o


vante, pois impacta positivamente nos resultados, seu desenvolvimento, é necessário realizar um
na motivação de professores e alunos, repercutindo diagnóstico situacional, explicitando as oportu-
em toda a comunidade escolar. 109
109
nidades e ameaças, bem como forças e fraque-
Os valores são entendidos como princípios zas, a fim de cruzar essas realidades e descobrir jan/2017
suas inter-relações. Em média, é considerado  Formulação estratégica da escola: Política:
o horizonte de 5 anos para a implementação Conjunto de regras ou normas que orientam
da parte estratégica do sistema de gestão. As as escolas. As definições do marco operativo
estratégias definidas são apresentadas em três podem definir políticas para a escola. Ex.: po-
famílias: políticas, ações e objetivos. lítica de avaliação da escola: provas, trabalhos;
 Políticas: definições que regulamentam as ativi- Ações: Indicam os projetos estratégicos que a
dades do dia a dia, de forma que os meios sejam escola deverá implementar segundo orientação
da Secretaria de educação ou projetos especí-
direcionados para os fins (resultados) e executados
ficos conforme necessidade e autonomia local.
segundo os valores da educação.
 Objetivos (grandes desafios): São norteadores
 Ações: projetos que devem ser implementados
das metas anuais da escola. Ex.: melhorar a
para auxiliar o alcance da visão e das metas de
posição as escolas no IDEB.
longo prazo. É um esforço temporário para
criar algo novo ou para modificar algo existente.  Dimensão anual da gestão na escola: nessa
dimensão, as ações estratégicas definidas são
 Objetivos: são melhorias (desafios) necessárias
detalhadas em projetos a serem gerenciados
para o alcance da visão de futuro. São amplos,
conforme entregas (produtos) e prazos esti-
de longo prazo e norteiam as metas da educação.
pulados, e as metas de melhoria anuais são
 Dimensão anual da gestão: caracteriza-se por alcançadas por meio da aplicação do PDCA.
estabelecer e atingir mentas no horizonte de
 Dimensão diária da gestão na escola: uma vez
um ano, devendo ser desdobradas até a sala de
melhorados os resultados, é necessário um es-
aula, onde os resultados acontecem. Tais metas
forço de manutenção para evitar o retorno do
poderão ser alcançadas por meio de ações de
estado anterior. Nesse sentido, a escola deverá
melhoria (gestão de melhorias) ou de inovações
gerenciar a sua rotina a partir de metas e pro-
nos processos (gestão de inovação).
cedimentos padrão.
 Dimensão diária da gestão: o campo onde os
Independentemente do tipo, a escola só exis-
resultados acontecem é a sala de aula. Todo
te para cumprir uma função, ou seja, entregar
esforço da Secretaria e dos demais segmentos
Planejamento estratégico

uma formação de qualidade às pessoas que a ela


será perdido se não forem praticados pelos
recorrem. Para atender essa função, a meta e o
professores, tendo como alvo o aprendizado
método devem ser aplicados. A meta é o ponto
dos alunos.
aonde se quer chegar, e o método é o caminho
A exemplo da rede educacional, a escola é um para viabilizá-la.
sistema. Isso faz com que ela também tenha que
O método que utilizamos é denominado PDCA
mobilizar os responsáveis para desenvolver os três
– método de gerenciamento com foco na melhoria
níveis da gestão – estratégico, tático e operacio-
dos resultados. É composto por 4 etapas: Planeja-
nal – e construir o seu modelo fundamentado nas
mento (P), Execução (D), Verificação (C) e Ações
diretrizes institucionais recebidas da Secretaria de
corretivas/Padronização (A).
Educação.
 Planejamento: contempla a busca do conhe-
Dimensão da gestão na escola – Plurianual:
cimento necessário à solução de determinado
de maneira geral, as escolas já definem suas es-
problema, para que a meta seja alcançada. Essa
tratégias e políticas em documentos como PPP
etapa é composta por 4 subetapas: identifica-
(projeto político-pedagógico) e PDE (plano de
ção do problema (definição da meta); análise
desenvolvimento da escola). Para as escolas que já
do fenômeno (problema); análise do processo
fizeram o PPP e PDE é importante extrair desses
(identificação das causas do problema);
documentos a missão, a visão de futuro, os valores,
 Elaboração dos planos de ação para alcance
Nº 10 • Abril/99

os objetivos estratégicos, as políticas e as ações es-


tratégicas que servirão de direcionamento para sua das metas.
gestão e seus resultados. Exemplo da aplicação em  Identificação do problema: Conceito: problema
110 é a diferença entre o resultado atual e o desejado
110
escola, considerando a utilização de instrumentos
jan/2017 de gestão da escola: (meta).
 Reconhecer o problema e enfrentá-lo adequa- ser estabelecidas nos fins, nos resultados da escola/
damente é o maior desafio da gestão. educação, gerando a mobilização necessária para
 Objetivo: o objetivo dessa etapa é definir o de- a mudança de resultados. As metas são caracteri-
safio (meta), reconhecendo as perdas existentes, zadas por conterem 3 pontos essenciais: objetivo
suas consequências e os possíveis ganhos. + valor + prazo.
 Passos para identificar o problema: estabelecer Uma escola pode ter tanto metas desdobradas
indicadores; analisar os dados do problema; da Secretaria (estratégicas), quanto metas próprias
definir a meta; estruturar a gestão à vista. para alcance de um objetivo de melhoria. Ao receber
a meta definida (desafio individual) pela Secretaria,
a) Estabelecer indicadores: os indicadores são
a escola deve analisar a diferença entre seu resulta-
representações numéricas das características de
do atual e o que foi estabelecido, identificando o
processos e resultados. Sinalizam o nível do desem-
tamanho do seu problema. A escola poderá definir
penho, devendo ser utilizados para monitoramento
metas específicas para atender sua função e alcan-
e decisão gerencial. Os resultados na escola devem
çar sua própria visão de futuro. Para isso, precisará
ser medidos considerando 5 dimensões: qualidade,
analisar seus resultados históricos, comparar seus
custo, entrega, moral e segurança.
resultados atuais com os resultados de escolas com
1) Qualidade: desenvolvimento no nível espe- perfil semelhante e, então, definir a sua meta.
rado das habilidades e competências previstas em
Concluindo, para definir metas é necessário:
cada etapa escolar.
definir o objetivo gerencial; definir o valor usando
2) Custo: os recursos podem ser gerenciados análise histórica e pesquisando benchmark; definir
de forma a evitar desperdícios, direcionando-os prazo para alcance da meta.
para atividades do processo ensino-aprendizagem.
d) Estruturar a gestão à vista: utiliza-se a expres-
3) Entrega: o gerenciamento dos indicadores são “gestão à vista” para a estratégia de comunica-
que mensuram a entrega atuam preventivamente ção que divulga os principais dados e informações
na distorção idade-série, que é um fator impactante da gestão, especialmente o desafio de melhoria
para o abandono e a evasão. (meta), para que os envolvidos acompanhem o

Planejamento estratégico
4) Moral: diz respeito à satisfação das pessoas desempenho e se comprometam com os resultados.
na realização das suas funções. A análise do fenômeno tem por conceito a
5) Segurança: diz respeito às condições do análise do fenômeno consiste na avaliação das
ambiente que podem gerar preocupação na comu- características do problema (resultado) e seu
nidade escolar e desfocar sua atenção dos objetivos desdobramento em problemas menores e mais
do ensino. fáceis de serem atacados, convergindo os esforços
b) Analisar os dados do problema: a análise dos para a melhoria do resultado. O objetivo é gerar
dados de um problema tem como objetivo promo- conhecimento sobre as características do problema
ver um entendimento amplo do resultado que se para direcionar a análise das causas naquelas com
quer melhorar. Para isso, são realizadas avaliações maior impacto no resultado.
do histórico (comportamento ao longo do tempo) Alguns passos são necessários para analisar
e comparações com bons resultados (benchmark). o fenômeno: levantar dados e fatos disponíveis
Benchmarking é o processo de identificação/com- sobre o problema; estratificar os dados por nível
paração com melhores resultados e práticas que, de ensino, ano de ensino, disciplina, entre outros,
após analisados e adaptados, conduzirão a um de- tentando identificar aspectos específicos do proble-
sempenho superior. A identificação de benchmarks ma; priorizar o problema (problemas menores de
(referências) auxilia na identificação de lacunas e maior impacto) para realizar a análise de processo
definição das metas. Lacuna é a diferença entre o (identificar causas do problema).
Nº 10 • Abril/99

resultado atual e o resultado de referência. Levantar dados e fatos disponíveis sobre o


c) Definir a meta: de acordo com Falconi, uma problema: é necessário que os dados sejam testa-
111
111
meta é um gol, um ponto a ser atingido no futuro. dos para obter o máximo de confiabilidade, pois
As metas direcionam as ações de melhoria e devem direcionarão a tomada de decisões. jan/2017
Estratificar os dados componentes do indicador definir as causas (brainstorming); priorizar as
por nível de ensino, ano de ensino, disciplina, entre causas mais importantes; levantar e analisar dados
outros, tentando identificar aspectos específicos para confirmar o impacto das causas priorizadas.
do problema: quando utilizada na análise de um 1) Definir as causas: uma das ferramentas
problema, é a descoberta das suas características utilizadas para a identificação das causas de um
por meio de avaliação em perspectivas que fazem problema é o diagrama de causa e efeito. Esse dia-
sentido para a escola. As principais formas de grama, popularmente denominado de espinha de
estratificar um problema na escola são: nível de peixe e criado pelo Prof. Kaoru Ishikawa em 1943,
ensino; turno; ano de ensino; turma; disciplina. tem a função de ajudar a organizar as informações,
Priorizar o problema (problemas menores de identificando as possíveis causas que estão dentro
maior impacto) para realizar a análise de proces- dos processos e determinando o problema.
so (identificar causas do problema): consiste em Brainstorming: atividade participativa que re-
selecionar o foco do problema para atuação, com úne pessoas competentes para ajudar a identificar
a identificação das causas e definição de contrame- as causas e compreender como elas interagem para
didas para bloqueá-las ou minimizá-las. Espera-se constituir o problema.
que, ao melhorar o resultado do(s) problema(s) 2) Priorizando as causas coletadas no brains-
específico(s), a meta de melhoria seja alcançada. torming: concluído o brainstorming, será neces-
A análise do processo tem por conceito inves- sário priorizar as causas mais impactantes sobre
tigar as causas do problema, ou seja, os fatores o resultado, observando aquelas que estão sob
localizados nos processos (atividades) que afetam autonomia da escola.
os resultados. As descrições dadas aos fatores do 3) Levantar e analisar dados para confirmar o
processo visam agrupá-los em categorias que faci- impacto das causas priorizadas: após a identifica-
litam a análise das causas que mais se relacionam ção das causas prioritárias, é importante analisar
com o problema. As principais categorias são: com fatos e dados se essa é realmente impactante
 Pessoas: esta categoria diz respeito à formação, ou significativa.
à experiência, às atitudes e às condições físicas e Plano de ação: é o conjunto de ações organi-
Planejamento estratégico

mentais das pessoas que atuam no processo, po- zadas no tempo e atribuídas aos responsáveis por
dendo ser o diretor, o orientador, o professor, etc. fazê-las acontecer conforme previsto. Sua efetivi-
 Método: maneira como é realizado o trabalho. dade depende da qualidade da análise e de uma
Diz respeito aos procedimentos utilizados nos liderança forte na execução e no monitoramento
diversos processos da escola, garantindo que as das ações.
funções sejam adequadamente cumpridas pelos O plano de ação tem por objetivo eliminar
responsáveis. as causas que foram priorizadas na análise do
 Materiais: são os materiais didáticos e todos processo ou guiar a condução de um projeto ou
aqueles utilizados para dar suporte ao ensino. um programa da escola. Qualquer que seja o ins-
trumento, a função é viabilizar as metas da escola.
 Meio ambiente: condições ambientais tais como
iluminação, layout do ambiente, temperatura e A técnica utilizada para fazer o plano de ação é
outras que influenciam o aprendizado. o 5W2H (O quê, Quem, Quando, Onde, Por que,
Como, Quanto custa a ação). Recomendamos que,
 Equipamentos: são os dispositivos utilizados
antes de preencher o instrumento, seja feita uma
como suporte às aulas e necessários para o
revisão das causas priorizadas deixando-as visíveis,
funcionamento adequado da escola.
para que todos se atenham ao foco.
 Medidas: referem-se às mensurações que devem
Para aprovar o plano de ação, recomenda-se que
ser feitas para sinalizar que os processos estão
Nº 10 • Abril/99

seja realizada uma avaliação, testando a sua força


funcionando de forma a agregar valor ao resultado.
para alcançar a meta proposta. Além de verificar
O objetivo da análise do processo é estabelecer se as ações são suficientes para trabalhar as causas
112 a relação entre o problema (efeito) e suas causas
112
priorizadas, sugerimos uma análise do impacto
jan/2017 (processo). Passos para analisar o processo: dessas ações. Para auxiliar essa análise, pode ser
utilizada uma técnica que denominamos de “matriz A atividade crítica é aquela que ameaça a
de robustez”. Essa técnica permite um aprofunda- meta, tem histórico de alta incidência de erros, é
mento da discussão de cada ação à luz das causas obrigatória no processo ou tem alto impacto no
priorizadas pela equipe que está validando o plano. resultado. Existem dois tipos de padrões que são
Resumindo: na sequência lógica desenvolvida na mais utilizados nas escolas: os padrões gerenciais
etapa de planejamento do PDCA, enfatiza-se que a e os padrões operacionais.
meta precede todo o processo. É ela que dá forma ao  Padrão gerencial do processo (PGP): padrão
desejo da escola e define o quanto se quer deslocar que apresenta a sequência lógica da execução
do status atual do resultado para outro patamar. A das tarefas de um processo e seu conteúdo deve
segunda etapa, análise do fenômeno, desdobra o ser apresentado preferencialmente na forma de
problema de várias formas para conhecer bem as suas um fluxograma;
características. Posteriormente, as causas são identi-  Procedimento operacional padrão (POP): pa-
ficadas e priorizadas na etapa da análise do processo, drão que caracteriza os passos necessários para
culminando no plano de ação, que é a conclusão da realização de uma tarefa. É como uma receita,
etapa de planejamento do PDCA. um passo a passo, para a realização de deter-
Na etapa de execução (DO), as ações pro- minada tarefa administrativa ou pedagógica.
postas nos planos de ação devem ser executadas, Um padrão é o registro de uma boa prática
considerando os prazos estabelecidos, de forma para que possa ser utilizada continuamente pelos
coordenada. O que promove resultados é a ação professores. Dessa forma, é importante que sejam
disciplinada de todos os envolvidos, liderados por selecionadas para registro as práticas que compro-
pessoas inspiradoras e apoiadoras. vadamente geram melhor aprendizado nos alunos
No que se refere à verificação, essa etapa visa garan- (no caso das práticas pedagógicas) e que essas prá-
tir a execução do planejamento e o alcance das metas ticas sejam divulgadas para os demais professores
definidas. A etapa de verificação (check) envolve o e escolas. De nada adianta ter práticas de sucesso
acompanhamento da execução das ações dos planos registradas se elas não forem divulgadas e continu-
e análise dos resultados frente as metas estabelecidas. amente utilizadas pelos interessados (professores,

Planejamento estratégico
A implementação das ações é o que possibilita direção, coordenação e/ou funcionários).
à escola alcançar as metas estabelecidas. Caso elas As ações corretivas a partir de desvios de resul-
não sejam implementadas no tempo planejado, tado consistem no tratamento do desvio negativo
haverá desperdício de tempo e conhecimento de resultado frente a meta (resultado abaixo da
dos profissionais da escola no planejamento de meta). A cada bimestre e ao final do ano, a escola
melhoria. deve analisar seus resultados frente as metas, identi-
A verificação dos resultados é realizada nos ficando possíveis desvios para ações corretivas. Para
indicadores finalísticos, por exemplo, aprovação assegurar a efetividade das ações corretivas adotadas
(rendimento na etapa) e potencial abandono. Na em função da análise do desvio negativo, é preciso
análise dos resultados é feita a verificação da efe- que elas sejam incorporadas ao plano de ação.
tividade das ações propostas nos planos. O PDCA é um método dinâmico, que inicia
Uma vez que as ações do plano foram efetivas, com um problema e, ao solucioná-lo, já se deve
e o resultado foi satisfatório, é necessário tomar a ter em vista uma nova melhoria. A filosofia que
decisão de padronizar as ações, transformando-as o sustenta é denominada de melhoria contínua,
em procedimentos da escola. A padronização con- devido a essas interações entre os seus ciclos.
siste no processo de estabelecer, utilizar e avaliar A sigla SDCA significa originalmente Standard
padrões quanto ao seu cumprimento, adequação (padrão), Do (executar conforme o padrão), Check
Nº 10 • Abril/99

e resultados produzidos. Já os padrões são os re- (verificar o cumprimento e a adequação do padrão)


gistros de práticas bem-sucedidas que impactaram e Act (atuar corretivamente sobre as anomalias do
positivamente algum resultado da escola e que processo). O SDCA é o ciclo do método de gestão
113
113
depois de validados, devem ser utilizados conti- que sustenta os resultados por meio de um sistema
nuamente pelos envolvidos. de padronização, que tem como referência as metas jan/2017
padrão (resultado a ser mantido). Sua função é cadores são analisados considerando a referência da
manter os resultados estáveis nos níveis já obtidos meta padrão. É essencial para a manutenção dos
e/ou indicados por órgão superior. resultados nos níveis planejados (meta padrão),
O PDCA é o ciclo que melhora os resultados a pois permite que sejam identificados desvios no
partir de uma meta. O ciclo SDCA tem por função resultado e processo par que ações corretivas sejam
manter os resultados que foram melhorados no tomadas oportunamente.
PDCA ou estabilizar aqueles que já estão satisfa- A Ação corretiva é a etapa que as escolas re-
tórios no período. É importante enfatizar que não movem os sintomas e tomam ações corretivas,
existem resultados sustentáveis sem que os ciclos quando há desvio de resultado. O bom resultado
PDCA e SDCA sejam praticados. é consequência de um processo bem gerenciado.
A etapa de padronização (S) consiste na de- Dessa forma, o PDCA é o ciclo que melhora os
finição do resultado do processo a ser mantido resultados a partir de uma meta. O ciclo SDCA
(indicador e meta padrão), bem como o plano tem por função manter os resultados que foram
de ação (padrão) para manter o resultado em um melhorados no PDCA ou estabilizar aqueles que
patamar desejável. já estão satisfatórios no período.
Essa etapa é composta por 3 subetapas. As es- A função da supervisão tem sido essencial na
colas devem utilizar indicadores que mensurem o gestão do SDCA na escola, pois sua visão tem o
resultado final do processo ensino-aprendizagem e alcance de verificar os processos e as atividades
indicadores que mensurem os meios que influen- onde os problemas podem ocorrer ou ser evitados.
ciam esse resultado. A supervisão tem o papel de verificar se a opera-
A meta padrão é a referência que a escola pre- ção da escola está sendo cumprida, identificar as
cisa ter para estabilizar o seu processo. Essas metas ocorrências que podem ameaçar as metas, atacar
podem vir de uma melhoria obtida por meio do as causas imediatas e ajudar a direção a analisá-las
ciclo PDCA ou por uma diretriz da Secretaria de para evitar reincidência.
Educação e/ou MEC. De acordo com Falconi, pa- Em uma escola que gerencia para resultados, o
drão é o instrumento que indica a meta (fim) e os professor não pode mais se restringir à sua disci-
Planejamento estratégico

procedimentos (meios) para execução dos trabalhos plina, precisa ter uma atuação sistêmica atuando
de tal maneira que cada um tenha condições de para o melhor resultado global da escola. Como o
assumir a responsabilidade pelos resultados do seu resultado acontece na sala de aula, além do conhe-
trabalho. Assim sendo, o padrão é o planejamento cimento técnico, os professores precisam utilizar as
do trabalho a ser executado por cada responsável. técnicas de gestão aqui apresentadas para auxiliá-los
A etapa de desenvolvimento inclui a divulgação a monitorar e interferir quando necessário no pro-
dos padrões e a formação dos responsáveis, sua cesso sob sua responsabilidade. É no dia a dia que o
execução e gerenciamento. Elaborados os padrões, professor consegue verificar as várias situações que
é preciso divulgá-los e habilitar os responsáveis podem afetar negativamente os resultados.
para sua correta realização. Para que uma pessoa Para a gestão do ambiente da escola é preciso
responda pelo bom resultado de uma atividade formar os hábitos de todos da escola para evitar o
crítica, é necessário conhecer, entender e saber desperdício dos recursos e fazer com que eles sejam
aplicar o padrão a ela relacionado. Um padrão só alocados de forma efetiva. Quando a escola assume
cumprirá sua função se os responsáveis pelas ati- o seu ambiente, ela consegue desenvolver nos alunos
vidades críticas dos processos o utilizarem como o sentimento de inclusão, a vontade de tomar conta
orientação do trabalho. da escola e permanecer nela. A gestão do ambiente
No que se refere à gestão dos padrões tem o costuma receber o nome de Programa 5S ou 5 Sensos.
objetivo de garantir que os compromissos assumi- Embora esse programa seja amplamente utilizado,
Nº 10 • Abril/99

dos sejam respeitados por todos e, assim, a escola ele será aqui detalhado de forma direcionada para a
possa funcionar de forma estável, evitando o gasto escola e apresentado em 5 sensos: utilização, orde-
114 de tempo com solução de problemas recorrentes. nação, limpeza, saúde/padronização e autodisciplina.
jan/2017 114 Na etapa de verificação, os resultados dos indi- O 5S tem algumas premissas que devem ser
observadas para a sua implantação. Quanto mais humanos, financeiros, tempo, entre outros). Para isso,
aderente o programa às premissas maiores os resul- todos os envolvidos com a escola devem ser formados
tados. Premissas para implantação do Programa 5S: para saber aplicá-lo, conforme a sua utilidade.
 Deve ser prático: não acontece por discurso; é 2º. Senso de Ordenação: é a definição de um
preciso fazer. local para todos os itens que foram considerados
 Tem que ser simples de forma que todos possam úteis, definindo critérios para serem acessados e re-
entender como praticá-lo e assim proceder. postos facilmente. O princípio que o define é “um
lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar”.
 Tem que ser praticado por todos: o envolvimen-
to e comprometimento de todos é vital para o 3º. Senso de Limpeza: significa promover a
sucesso do programa. educação para limpar e manter limpos o ambiente e
os objetos necessários ao funcionamento da escola.
 Tem que ter o patrocínio do (a) diretor (a) da
É preciso praticar esse senso e ensinar os alunos
escola.
a gostar do ambiente, aprendendo a não sujar e a
 Tem que ser envolvente – as pessoas participam evitar as fontes de sujeira.
por adesão, e não por obrigação.
4º. Senso de Saúde/Padronização: esse senso
 Determinação: o entusiasmo é rápido, mas a contempla a saúde física, mental e social. Também
falta dele também. exige a prática constante dos 3 primeiros sensos.
 Deve ser conduzido por pessoas persistentes Os novos hábitos poderão ser consolidados por
até se tornar um hábito. meio da padronização.
O programa é simples, mas deve ser praticado 5º. Senso de Autodisciplina: é considerado o
com método. Para implementar o Programa 5S hábito que foi formado a partir da repetição disci-
na escola com sucesso, é importante preparar um plinada dos demais sensos. Caracteriza-se também
grupo que liderará a sua implementação. Principais pelo exercício da melhoria contínua praticado de
atividades dessa etapa: Criar um grupo repre- forma participativa.
sentativo de alunos, pais, equipe diretiva, professo- A partir da avaliação inicial e da elaboração do
res e funcionários para implementar o programa; plano de implementação do programa, sugerimos

Planejamento estratégico
Estudar com o grupo os conceitos básicos do que sejam realizadas avaliações intermediárias (ex.:
programa (5 sensos e ferramentas); Planejar todas bimestrais) para que seja analisado o avanço do
as etapas do programa e apresentar para a direção, resultado (atendimento às evidências do padrão
selecionando as 3 pessoas que farão os diagnósticos ambiental do Programa 5S), a execução das ações
periódicos do ambiente (avaliações). propostas e definição de novas ações no caso de
Realizar a 1ª avaliação do ambiente (diagnós- um item não ter melhorado com o plano de ação.
tico): é nesta etapa que a situação atual da escola Conforme abordado anteriormente, a gestão
é identificada por meio de uma avaliação dos di- para resultados deve contemplar o PDCA – gestão
versos ambientes da escola segundo os 5 sensos e para melhorias e o SDCA – gestão das rotinas, que
orientações da rede. O primeiro passo é elaborar a mantêm o bom funcionamento da escola.
ferramenta de avaliação. Após a conclusão da avalia- Uma das dimensões de resultado da escola
ção pelo grupo, a equipe de implementação deverá é o nível de satisfação das necessidades dos en-
consolidar os resultados, identificando o patamar de volvidos (moral). Pessoas satisfeitas produzem e
atendimento às evidências que a escola se encontra. mantêm melhores resultados. Para isso, os fatores
Elaborar plano de implantação do programa: motivacionais devem ser medidos e gerenciados
o plano de implantação deve conter ações de co- sistematicamente.
municação/divulgação/reforço do programa e con- Para a gestão do clima temos adotado como
ceitos para a escola, bem como ações de melhoria
Nº 10 • Abril/99

referência o grupamento de necessidades humanas


identificadas por meio do diagnóstico realizado. A definidas por Abraham Maslow: fisiológicas, segu-
seguir apresentamos o conceito dos sensos: rança, sociais (pertencimento), estima (reconheci-
115
115
1º. Senso de Utilização: é o desenvolvimento da mento) e autorrealização (gostar do que faz). Para
consciência para o melhor uso dos recursos (materiais, implementar de forma efetiva a gestão do clima jan/2017
produzindo os resultados esperados (motivação  Identificar as barreiras do ambiente (processos,
e moral), são sugeridas etapas de implementação estrutura, cultura, ambiente, pessoas, liderança,
baseadas no método de gestão. entre outros);
A liderança da escola deverá planejar a periodi-  Identificar os fatores impulsionadores para a
cidade de sua pesquisa, sendo mais comum a pe- mudança;
riodicidade anual, pois permite verificar o alcance  Identificar as fontes de resistências e compla-
da meta de melhoria do clima e sua relação com cências;
os resultados a cada ano letivo. Vale ressaltar que
 Analisar e priorizar os fatores que têm maior
a gestão do clima deve ser permanente.
impacto e que devem ser trabalhados no plano
Planejamento da gestão do clima escolar: para de ação.
melhorar o clima escolar, é necessário levantar a
Capacitação/autonomia dos envolvidos:
situação atual, definir a meta de melhoria e propor
as ações necessárias para o alcance da meta.  Identificar lacunas de competências nas fun-
ções/cargos que serão afetados pela mudança
Acompanhamento dos resultados: esta etapa
– implementação da matriz de competências.
considera a avaliação de resultados ao longo e
ao final do ano letivo, comparando com a meta Definição das estratégias e ações da mudança:
de melhoria, assim como o acompanhamento da  Elaborar plano de ação para trabalhar fatores
execução das ações propostas no plano de ação. restritivos e impulsionadores do ambiente;
Realização de ajustes/padronização das boas  Elaborar plano de comunicação para todas as
práticas: nesta etapa, após o levantamento dos fases da mudança;
resultados, caso seja identificado desvio de re-  Elaborar plano de treinamento para desenvol-
sultado em relação à meta, as causas devem ser vimento das lacunas de competências.
identificadas e ações corretivas definidas. Caso o
Gestão das ações e dos resultados:
resultado seja positivo, as boas práticas devem ser
 Analisar resultados dos indicadores da gestão
padronizadas para entrarem na rotina da escola.
da mudança e realizar o tratamento de possíveis
A gestão da mudança é um processo que visa
Planejamento estratégico

desvios;
reduzir o grau de risco de insucesso de um projeto
ou alguma melhoria que se queira implementar.  Realizar acompanhamento das ações dos pla-
O objetivo é identificar as barreiras do ambiente e nos de ação (comunicação, fatores restritivos e
elaborar estratégias para facilitar a implementação impulsionadores e de treinamento);
da mudança proposta, comprometendo efetiva-  Avaliar percepção dos envolvidos em relação ao
mente as pessoas para obter resultados duradouros desenvolvimento da mudança.
e integrá-los ao sistema de gestão da escola e/ou Institucionalização:
Secretaria da Educação. Etapas importantes para  Reconhecer conquistas parciais e finais obtidas;
a gestão da mudança na escola:
 Definir novos padrões operacionais;
 Diagnóstico da situação atual e definição da
 Elaborar plano de capacitação nos novos pa-
mudança a ser implementada:
drões;
 Definir claramente o tipo de mudança que será
 Definir a sistemática de diagnóstico de cumpri-
implementada;
mento dos padrões (cronograma, instrumentos,
 Definir equipe de implementação da mudança etc.).
(coordenação do processo);
Com uma boa gestão na escola, os resultados
 Preparar a equipe envolvida por meio de Team são medidos, suas causas analisadas, e ações correti-
Building (formação de equipe: atribuições,
Nº 10 • Abril/99

vas tomadas antes que o problema seja consumado.


atitudes esperadas, governança); A gestão da escola utiliza o método para resolver
 Definir os indicadores de mensuração de re- problemas, mas também se serve dele para evitar
116 sultado.
116
que ocorram. Ações preventivas são mais efetivas
jan/2017 Análise dos fatores de impacto na mudança: e custam menos.
Instituto de Co-responsabilidade pela Educação. Modelo de
Gestão: Tecnologia Empresarial Sócioeducacional (TESE): uma
nova escola para a juventude brasileira: escolas de ensino médio
em tempo integral: manual operacional. Recife: ICE, [2007?].
Disponível em: <http://www.ccv.ufc.br/newpage/conc/seduc2010/
seduc_prof/download/Manual_ModeloGestao.pdf
O texto em tela começa esclarecendo ao leitor
Resenha elaborada por sobre a missão primordial da Escola que é ensinar,
Marisa Garcia ou seja, produzir e transmitir conhecimento ao
estudante de modo a prepará-lo para a vida nos
contextos produtivo e pessoal.
O contexto produtivo é a formação do jovem
autônomo e competente e o contexto pessoal é a
formação do jovem solidário.
Assegurar que a escola cumpra sua missão é a
tarefa mais complexa da gestão escolar, pois o ges-
tor tem que lidar com a equipe gestora, composta
por professores, estudantes, pais, comunidade,
sindicato, parceiros, Secretárias de Educação, além
das outras dificuldades advindas dos recursos,
sempre escassos que são postos à disposição da

Planejamento estratégico
escola e sobre os quais nem sempre o gestor tem
autonomia para a aplicação.
Que o gestor tem que ter liderança é sabido
por todos, mas só isso não basta para que a escola
cumpra a sua missão de ensinar. Para atingir este
objetivo se faz necessário pôr a disposição dos
gestores e sua equipe um conjunto de ferramentas
gerenciais que permitam dirigir a escola de for-
ma estruturada. Quais são estas ferramentas? O
texto com base na TEO (Tecnologia Empresarial
Odebrecht) aponta caminhos para a organização
escolar para se obter resultados positivos. A TEO
serviu de matriz para a elaboração da TESE (Tec-
nologia Empresarial Sócioeducacional) que foi
desenhada para levar os conceitos gerenciais para
o ambiente escolar e permitir ao Gestor atingir os
seus objetivos de maneira estruturada e previsível.
Nº 10 • Abril/99

O autor considera esta metodologia explícita


na TESE como a espinha dorsal do processo de
transformação da escola pública brasileira que se
117
117
encontra mal gerida, mal-planejada e com resul-
tados pífios. jan/2017
A TEO (Tecnologia Empresarial Odebrecht) Os princípios fundamentais que norteiam a
foi adequada e denominada TESE pela equipe de implantação da TESE na escola para que ela possa
trabalho e instalou seu primeiro Centro de Ensino atingir seus objetivos e envolver a todos são:
em Tempo Integral em Pernambuco no ano de  Educação de qualidade – é chamado o “negócio
2004 no PROCENTRO – atualmente, Programa da escola”.
de Educação Integral. Essa implantação foi tratada
 Gerar resultados.
como um experimento e no ano seguinte foi im-
plantada no Ensino Experimental Escola Técnica  Satisfação da comunidade pelo desempenho dos
do Agreste, em Bezerros, e as recomendações educandos, educadores e gestores.
presentes no Relatório de Jacques Delors foram  Comunicação é o foco! Sem ela não existe o
agregadas à TESE e a partir de 2006 já somavam negócio.
dezoito Centros e incluída como módulo de estudo Nesta perspectiva dois princípios fundamentais
no processo de formação dos Gestores, consideran- merecem destaque:
do que os Centros de Ensino em Tempo Integral  Quanto às pessoas: Ciclo Virtuoso.
adotam padrões gerenciais à luz da experiência
 Quanto aos negócios: Comunicação, Parceria
empresarial com base nessa tecnologia.
e Confiança.
O objetivo da implantação no PROCENTRO
O que é importante na Escola de Ensino Médio
foi garantir a excelência no Ensino Médio Público.
de Tempo Integral?
Qual o conceito da TESE?
 Comunicação e Parceria.
Teoricamente a TESE trata do “óbvio”, mas na
 Descentralização.
prática envolve conscientização e disposição para
rever paradigmas e assumir uma nova postura  Disciplina.
transformando obstáculos em oportunidades de  Respeito.
aprendizado e de sucesso. Ela é, também, um poten-  Confiança.
te instrumento para o planejamento, gerenciamento  Delegação Planejada – autoconhecimento e o
e avaliação das atividades dos diversos integrantes conhecimento do outro.
Planejamento estratégico

da comunidade escolar, inclusive dos estudantes.


Plano de Ação é um plano estratégico alicerçado
Fora da área empresarial, ela reside na vivência em uma filosofia de gestão humanística. Compõe
dos princípios e conceitos que a norteiam por estas etapas: planejar, executar, verificar, avaliar e agir.
instrumentos de intervenção, da Pedagogia da
Níveis de resultados: sobrevivência, crescimen-
Presença versus Educação pelo Trabalho e pela
to e sustentabilidade.
Delegação Planejada.
Responsabilidade Social – é a manifestação do
Como se estrutura?
compromisso e da responsabilidade com o bem
Sua estruturação está por Módulos: comum, contribuindo para a criação de condições
Módulo I – Modelo conceitual que aborda os que permitam uma vida digna para todos.
princípios e conceitos aplicados à Escola Pública Os Centros de Ensino em Tempo Integral
de Ensino Médio. cumprem com a sua responsabilidade social
Módulo II – Macro planejamento que focaliza quando alcançam a sobrevivência, o crescimento
o Plano de Ação e a perpetuidade e oferecem à comunidade um
Módulo III – A operacionalização propriamen- ensino público de qualidade formando jovens
te dita, abrangendo desde a feitura dos Programas com valores.
de Ação até a elaboração de Relatórios. O Código de Ética também faz parte da es-
truturação dos Centros, pois ele deve refletir o
Nº 10 • Abril/99

Pontos importantes do Módulo I: pensamento e o agir da empresa ou do Centro


A TESE é mais consciência do que um método estabelecendo normas de conduta envolvendo os
118 quatro atores do processo:
118
de Gestão. Adequa-se a cada realidade, não é cópia
jan/2017 de modelo e educa pelo trabalho.  Educando.
 Educadores.  Corresponsabilidade
 Gestor.  Replicabilidade
 Educadores familiares. Objetivos: Os objetivos