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Resenha de 'O retorno do

real'
24/05/2014 06:50
Marco de uma época, livro do crítico americano Hal Foster discute legado do
pop e sua relação com diversas formas do realismo

Por Karl Erik Schøllhammer

Lançado em 1996, o livro “O retorno do real”, do historiador e crítico de arte


americano Hal Foster, finalmente sai em português, com tradução elegante de
Célia Euvaldo. Em sua época, o livro de Foster, um dos editores da prestigiosa
revista de arte “October” e professor da Universidade de Princeton, foi muito
importante para as discussões das principais tendências das artes plásticas e
da estética no final do século XX. Podemos hoje apreciar sua contribuição
principalmente pela avaliação aprofundada dos movimentos artísticos, que a
partir da década de 1960 retomam procedimentos da vanguarda modernista do
início de século.
O foco temporal cobre praticamente as últimas quatro décadas do século
passado, o recorte é definido pela contribuição americana em diálogo com a
tradição europeia e interpretado à luz da teoria crítica da escola de Frankfurt,
partindo sobretudo da obra de Walter Benjamin. Os ensaios são atravessados
pelo neomarxismo de Fredric Jameson e pelas referências pontuais ao pós-
estruturalismo francês de Lacan e Derrida, com especial menção aos seus
antecedentes em Mauss, Leiris e Bataille. O resultado é um coquetel conceitual
que até hoje permeia o pensamento dos principais membros do grupo de
“October” como Rosalind Krauss, Denis Hollier, Jonathan Crary, Yve-Alain Bois
entre outros.

Relações anacrônicas

Vejo o valor e a atualidade do livro em dois pontos: primeiro por ser uma
releitura dos momentos cruciais da neovanguarda artística que, para o leitor
brasileiro, a meu ver, ganha mais interesse quando possibilita pensar o legado
da arte pop e sua relação com diversas formas do realismo. Segundo, pelas
referências teóricas que abrem uma discussão de fundamento sobre a própria
noção de “história” implícita nas práticas atuais da história de arte. Esses dois
pontos são intimamente interligados à ambição geral de superar a abordagem
estéril da história da arte tradicional e adquirir uma compreensão holística das
principais tendências da cultura e das artes ocidentais do século XX em sua
sensível ressonância com as teorias críticas das humanidades.

Assim, é a própria historiografia que está no cerne da organização do livro.


Hoje, é possível perceber como Hal Foster abriu um caminho de saída das
antinomias da pós-modernidade e preparou o campo para a visão histórica do
contemporâneo, com ampla aceitação das complexas relações anacrônicas
que caracterizam nosso presente. Por exemplo, na discussão do conceito de
repetição que Foster aprofunda para considerar a ideia de um retorno da
vanguarda histórica na neovanguarda do pós-guerra. Ao criticar o estudo
clássico de Peter Bürger — “Teoria da Vanguarda”, no qual a neovanguarda é
considerada um paralelo patético e oportunista da vanguarda histórica —
Bürger ornamenta seu argumento citando Marx: “A história se repete, a
primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. A alternativa apresentada
por Foster é uma figura paradoxal do tempo e permite reconhecer que, quando
a “vanguarda recua ao passado, ela também retorna ao futuro, reposicionada
pela arte inovadora no presente”. Essa estranha noção de temporalidade é
apropriada livremente das interpretações que Jacques Lacan e Laplanche
fazem do modelo temporal usado por Freud em sua explanação do trauma. O
sistema psíquico não está preparado para absorver o trauma cujo sintoma
repetido serve de preparo para seu reconhecimento posterior.

Com este paralelo, Foster sugere um modelo histórico em que os eventos


históricos só serão reconhecidos a posteriori numa ação diferida
(Nachträglichkeit), que recodifica o que no primeiro momento apenas foi
registrado de modo bruto: “a vanguarda histórica e a neovanguarda são
constituídas de maneira semelhante, como um processo contínuo de protensão
e retenção, uma complexa alternância de futuros antecipados e passados
reconstruídos — em suma, num efeito a posteriori que descarta qualquer
esquema simples de antes e depois, causa e efeito, origem e repetição”.

Alternativas às interpretações engessadas

De modo simplificado, a ideia de Foster é que realizações, para apenas dar um


dos exemplos analisados, do dadá nova-iorquino de 1917 (o urinol de
Duchamp) e do construtivismo soviético (os monocromos de Ródtchenko) de
1921, de certa maneira só ganham sua dimensão crítica e institucional em
função de obras do artista conceitual belga Marcel Broodthaers e do
minimalista norte-americano Daniel Buren, apresentadas 50 anos depois.

Grande parte da importância do livro é resultado desta vontade de propor


alternativas às interpretações engessadas dos movimentos das décadas 60 e
70. O capítulo sobre o minimalismo talvez seja mais interessante para o leitor
americano, mas o estudo do impacto nas artes no auge das teorias
semiológicas ganha relevância geral ao mostrar como o surgimento nas artes
de um interesse pelas marcas indexicais e dos impulsos alegóricos se alimenta
do questionamento pós-estrutural. Entretanto, é o capítulo cujo título deu nome
ao livro que justifica melhor a sua reverberação. Aqui, Foster procura driblar o
que percebe como os dois modelos representativos predominantes na crítica
das últimas décadas: o modelo referencial e o simulacral, que se desdobram no
antagonismo tradicional entre arte “realista” e arte pop. O primeiro modelo, diz
Foster, entende as imagens e os signos como ligados aos referentes, aos
temas iconográficos ou a coisas reais no mundo da experiência. No segundo,
todas as imagens são consideradas meras representações de outras imagens,
o que converte todo o sistema representativo, inclusive o realismo, num
sistema autorreferencial. Mas por que não pensar a representação
contemporânea como ao mesmo tempo referencial e simulacral? Como uma
criação de imagens que são conectadas à realidade, mas também
desconectadas. Que são simultaneamente reais e artificiais, afetivas e frias,
críticas e complacentes.

Para Hal Foster é esse desafio de entender a coexistência simultânea dos dois
modos de representação que aparece na obra de Andy Warhol, claramente
visível na série “Death and Disaster”. Construída sobre a repetição de imagens
chocantes da imprensa, por exemplo de acidentes de trânsito ou de cenas de
linchamentos, a série de Warhol produz o impacto do que Foster denomina
“realismo traumático”. Aqui, o realismo já não é o efeito da representação, mas
um “evento de trauma”, uma imagem da violência social e política marcada
afetivamente pelo limite do que pode e não pode ser representado. É uma
imagem que se torna um índice e um arquivo dessa mesma impossibilidade e
insinua uma referencialidade superior, explicando a centralidade do arquivo e
da antropologia nos movimentos artísticos dos anos 80 e 90.

É importante frisar que a perspectiva de Foster, embora inicialmente ligada a


um fenômeno extremo localizado nas artes plásticas, rapidamente ganhou
força na interpretação de uma paixão contemporânea muito mais abrangente
pelo real. Ela perpassa todas as artes — da literatura ao cinema e às artes
visuais e performativas em geral —, enfatizando aspectos documentais,
testemunhais, performáticos, relacionais e indiciais em concorrência direta e
frequentemente polêmica e promíscua com a demanda maciça de realidade na
cultura midiática.

Karl Erik Schøllhammer é professor do departamento de Letras da PUC-Rio e


autor de “Cena do crime: violência e realismo no Brasil contemporâneo”
(Civilização Brasileira), entre outros livros.1

1
Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com/prosa/post/resenha-de-retorno-do-real-536940.html