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Conflitos Urbanos no norte da Amazônia: crescimento desordenado em áreas alagadas / ressacas

em Macapá
Bianca Moro de Carvalho
UNIFAP (Universidade Federal do Amapá-Brasil)
biancamoro@me.com
Palavra-chave: Favela, comunidade, Amazônia
A Amazônia é mundialmente conhecida por sua imensa riqueza de recursos naturais. Sessenta por cento da
região está localizada no Brasil; No entanto, esse enorme território tem conflitos urbanos significativos,
considerando que o fenómeno do crescimento de assentamentos irregulares ocorre neste mesmo espaço. O
objetivo deste ensaio é mostrar o processo conhecido por favelização, o qual ocorre nas zonas húmidas de
Macapá, capital do Estado do Amapá, e a iniciativa da Universidade Federal do Amapá, em busca de novas
soluções na área de planeamento urbano para esas áreas.
Amapá é um estado novo do Brasil, criado pela Constituição de 1988 da República Federativa do Brasil. Tem
uma área intocada de 38,821.20 quilômetros quadrados, maior que muitos países europeus. O Amapá é uma
nova unidade de preservação criada 2002, que se tornou um dos mais importantes patrimônios naturais da
Amazônia e foi nomeado a maior unidade de conservação no Brasil. É a maior área de floresta tropical
protegida no mundo. No entanto, sua capital Macapá, com 398.204 habitantes (IBGE 2010), têm problemas
urbanos graves, pois cerca de 120.000 pessoas estao vivendo condições sub-humanas em araes alagadas,
tornando-se parte de uma estatística geral muito negativo: nos países em desenvolvimento, o crescimento
urbano acelerado é marcado pelo desenvolvimento e surgimento de pobreza e assentamentos precários
(favelas).
Estudos recentes têm mostrado que os moradores de zonas húmidas são principalmente imigrantes originários
de comunidades ribeirinhas que antes viviam ao longo do rio Amazonas, sobrevivendo de atividades extrativas.
No entanto, sem acesso a cuidados básicos de saúde ou educação para seus filhos, aqueles povos decidiram
se mudar para a cidade que estava mais próximo de sua comunidade: Macapá. Essas comunidades enfrentam
muitas dificuldades na cidade, pois não possuem mão de obra qualificada e possuem dificuldades de encontrar
um emprego; as áreas de risco localizada perto do centro urbano representam uma oportunidade barata para
moradia. Nessas áreas os ribeirinhos reproduzem omodo de vida que levavam na floresta, mas em condições
diferentes: eles ocuparam áreas pertencentes ao governo ou propriedades privadas, e sua força de trabalho é
dedicada à economia informal.
No Amapá, a abundância de espaço e recursos naturais conduz relações contraditórias: milhares de pessoas
vivem em assentamentos precários, sem acesso a saneamento básico, saúde, educação, além de poucas
possibilidades de participar nas decisões políticas. Oportunidades escassas e baixos investimentos por parte
dos governos locais na área de investigação tem contribuido para a redução de pesquisa e entendimento do
fenómeno do crescimendo urbano. No entanto, desde 2009, Universidade Federal do Amapá passou a
desenvolver projectos nos quais a participação da comunidade é um elemento importante no desenvolvimento
de políticas públicas: o "planejando com a comunidade" , por exemplo, permite saber a atual situaçao da
populaçao que vive na áreas alagadas, pois permitir fazer uma avaliação profundas dos problemas da
economia informal na cidade. Macapá, onde existem conflitos urbanos graves, é o ponto de partida para o
nosso estudo de pesquisa, bem como o intenso processo de ocupação irregular.

Introduction

O Estado do Amapá localiza-se na Amazônia brasileira no extremo norte do Brasil, mais


precisamente na fronteira com a Guiana Francesa. Na capital, Macapá, vivem 60% da população do
Estado.

A Amazônia brasileira é uma floresta, porém com cidades urbanizadas trata-se, de uma região
com grande expressão de diversidade cultural que inclui a resistência da população às novas formas e
agentes de produção de espaço público. A região possui características muito específicas que as
diferencia das demais regiões brasileiras, as temperaturas variam de 25º a 40º, a umidade chega a 85%.
Atualmente, considera-se a existência de três Amazônias: a florestal, identificada com a região norte; a
legal, que inclui além da região norte, os estados de Mato Grosso, Tocantins e parte do Maranhão; e sul-
americana, também florestal. Representa 60% do território brasileiro, está formada por nove Estados:
sete ocupam a região Norte (Amapá, Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins); um, a
região Nordeste (Maranhão); e outro a região Centro-Oeste (Mato Grosso) (Becker e Stenner, 2008:8).

O Amapá é o único Estado brasileiro que não pode ser alcançado por via rodoviária a partir de
outros estados, a não ser por balsas partindo de Belém ou de outras cidades sem conexão com a malha
viária regional, transportes aquáticos e aéreos, são os meios disponíveis para se chegar (Drummond e
Pereira, 2007:68). Esse fator não impediu que a taxa de crescimento da população concentrasse acima
da média nacional, significando algo em torno de 3,44 % ao ano, enquanto a do país foi de 1,17% (IBGE
2010). A fundação do Estado do Amapá relaciona-se a três períodos importantes do Brasil: primeiramente
no período colonial dentro das estratégias pombalinas através da construção de fortificações para
proteger a costa brasileira com a fundação do Forte de São José de Macapá no século XVIII. Já no
século XX, em 1943, foram descobertas importantes jazidas de maganês que levou à fundação do
Território Federal do Amapá no governo Vargas, mas foi somente com a criação da nova Constituição
brasileira de 1988 que se tem a fundação do Estado do Amapá.

Quando se trata de preservação, o Estado do Amapá1 é o mais bem preservado estado


brasileiro porque mantém intacta quase a totalidade da Floresta Amazônica, que cobre 90% de seu
território. Composto por 16 municípios possui uma população de 669.526 habitantes (IBGE 2010), sendo
Macapá a cidade mais importante e mais populosa.

A expansão urbana da cidade mais populosa do Estado ocorreu pela inexistência de


planejamento adequado aliado ao aumento populacional. Esse crescimento contribuiu para a ocupação
das áreas de fragilidade ambiental, denominadas localmente de ressacas2, onde ocorreu a ocupação
irregular destas áreas através da construção de casas do tipo palafita sobre pontes de madeira,
construídas pelos migrantes pobres da região. Desta forma, as áreas de ressaca devem ser entendidas
não apenas pela precariedade de sua estrutura física, mas como espaços sociais resultante da dinâmica
urbana estabelecida pelas relações e oportunidades desiguais da sociedade capitalista.

As áreas favelizadas do municipio de Macapá são invasões realizadas pelos povos ribeirinhos
que vivem próximo da ilha do Marajó, quando chegam ao municipio de Macapá estabelecem-se nas
áreas de ressacas. Os estudos referentes à urbanização da cidade de Macapá, quer no âmbito do
planejamento ou do discurso político, fazem referências à ocupação dessas áreas. Sua ocupacão tem
trazido conseqüências econômicas e sociais negativas, além de impactos ambientais graves. O processo
de ocupação das áreas de ressaca na cidade de Macapá teve início por volta da década de 1950. No
entanto, é a partir da segunda metade da década de 1980 que este processo de ocupação se
intensificou, fazendo com que a alteração na estrutura dessas áreas acontecesse de forma cada vez mais
acelerada.

A população amapaense, especialmente a que vive na região banhada pelo rio Amazonas, tem
uma relação muito próxima com as áreas úmidas, porém a utilização destas como espaço para moradias
é a forma que mais causa impactos sociais e ambientais, devido a falta de planejamento urbano e
explosão demográfica. Na verdade, é um processo de favelização nas áreas úmidas, com habitações do
tipo palafita, sem nenhuma infraestrutura, tornando-se um verdadeiro desafio urbano, pois é uma
expressão viva da exclusão social que está relacionado com questões problemáticas como a violência
urbana, degeneração do meio ambiente natural, segregação espacial e disseminação da miséria.

1 Amapá possui uma área de 143.453 km². Está situado no extremo norte do Brasil. A capital Macapá se localiza ao sul do Estado. É banhada
pelo rio Amazonas. Segundo o último censo, a população do Amapá é de 669.526 habitantes, onde 499.466 aprox., moram na área urbana de
Macapá e Santana.
2 Ressacas é a denominação local para áreas úmidas, Josiane Souza (2003) descreve como bacias de recepção e drenajem fluviais recentes,

ricas em biodiversidade, de dimensões e formas variadas, configuradas como fontes naturais hídricas, e composição florísticas e faunística
variadas (Souza, 2003:127).
Diante destes problemas, foi desenhado no ano de 2009 um programa piloto chamado
“Planejando com a Comunidade”, onde os alunos do curso de arquitetura e urbanismo planejaram
algumas áreas das cidades com ajuda das comunidades. Essa atividade esta sendo retomada no ano de
2016 através de um projeto de extensão, que será realizado com a comunidade Chico Dias; a mesma
vive em uma área alagada da cidade, onde a maioria da população é de origem ribeirinha. A ideia de
retomar esse projeto surgiu como consequência das inúmeras carências urbanas no município, além da
falta de iniciativa do poder público em implementar programas atender às necessidades da população.

Sobre o tema das favelas

A irregularidade das cidades brasileiras está presente na paisagem urbana através das favelas.
Trata-se de um fenômeno urbano que surgiu nos finais do século XIX, nas montanhas do Rio de Janeiro,
mesmo lugar onde nasceu o samba e o futebol. As favelas revelam a fragilidade da imagem da cidade
formal como um lugar de coerência, o suburbio anônimo domina a paisagem revelando a falsa
hegemonia da simbólica centralidade, revelando a pobreza extrema que invalida os padrões e desejos
estéticos das sociedades afluentes (Segre, 2012).

As favelas são uma das alternativas encontradas pelas populações pobres para enfrentar o
problema da moradia, representando um dos maiores desafios urbanos, quando compreendidas como
uma expressão da segregação social. Existem importantes trabalhos sobre as favelas brasileiras, porém
poucos abordam a Amazônia, e são inexistentes investigações sob o ângulo do urbanismo a respeito das
ressacas do Amapá.

Historicamente é o fim da Guerra de Canudos3, no período republicano, que marca o surgimento


dos assentamentos irregulares no Brasil. No livro “Do quilombo à Favela”, Adrenalino Campos considera
esse espaço como algo transmultado, pois o insere dentro de um processo maior, onde admiti-se que as
populações pobres “através de suas apropriações dos espaços periurbanos, ilegais à luz do poder
público, participaram da construção do urbano das cidades”(Campos, 2007:24). Os quilombos, foram
lugares de resistência e refúgio dos escravos4, pois seu acesso nos morros cariocas era difícil, muitos
autores decrevem esse momento, de surgimento de assentamentos espontaneos, como os primeiros
antecedentes das favelas.

Cada cidade brasileira tem sua própria história de urbanização e surgimento dos assentamentos
informais, recebendo diferentes denominações (loteamentos clandestinos, subúrbios, cidades satélites,
ocupações e favelas), geralmente a população refere-se a este lugar com “periferia”5, porém a noção de
"periferia" não se refere a um espaço exterior fora do capitalismo onde as classes trabalhadoras estão
excluídas, refere-se a uma relação de dependência mútua de produção social e circulação do espaço
(Holtson e Caldera, 2008:21). De norte a sul do país, existem “, com diferentes tipologias arquitetônicas,
adaptadas as particularidades físicas e geográficas de cada região. No Rio de Janeiro, por exemplo, as
favelas estão localizados principalmente em encostas íngremes; em Fortaleza(Ceará), em áreas de praia;
em Maceió(Alagoas), nas áreas de vales profundos, conhecidos na região como grotas; já em

3A Guerra de Canudos ocorreu em 1895 comandada por Antônio Conselheiro, líder religioso, que conseguio agrupar cerca de 30.0000 habitantes
nos confins da Bahia, instalando uma guerra aberta, obrigando o governo a enviar milhares de saldados para tomar o povoado a força(Glaser,
2001:106).

4Durante as décadas de 1870 e 1880, quando os países do Novo Mundo, como Argentina e Estados Unidos já elegiam seus governantes, o
Brasil continuava regido por um imprerador, pertencente a casa real portuguesa de Bragança, a escravidao seguia sendo legal(Glaser,
2011:105).
5É importante ressaltar que os bairros pobres brasileiros consolidaram-se popular e politicamente por serem chamados de periferia, foi uma

maneira de designar os assentamentos além do perímetro do centro urbanizado e com serviços legais (Hotson e Caldera, 2008:19)
Macapá(Amapá) nas áreas úmidas, são conhecidas por ressacas.

No Amapá, as primeiras favelas surgiram nos anos 1940, com o processo de criação do
Território Federal do Amapá. Casas do tipo palafita foram construídas nas áreas úmidas da capital
Macapá, pela população ribeirinha. São processos históricos distintos, Amapá e Rio de Janeiro, mas que
possuem em comum o surgimento de uma maneira precária de habitar, inicialmente invisível, mas que
nos dias atuais se tornou marcante em todas as cidades brasileiras. O Ministério Público do Amapá
realizou uma investigação no ano de 2012, onde foi detectado um alto poder de organização dessas
comunidades para construir em mutirão, e existência de mão-de-obra especializada na construção de
palafitas. Nas favelas amapaenses, as casas do tipo palafita, são uma forma de ocupação do territorio,
onde estão presentes importantes significados culturais do caboclo amazônico, o qual possuí uma forte
relação com a água. As habitações construídas nessas áreas, muitas vezes vão além da função de
residência, pois nelas são realizadas as atividades de geração de renda: salão de beleza, loja de roupas,
mercadinhos.

Compreendendo a favelização na Amazônia

O espaço urbano no Brasil está formado por contradições, existe um enorme abismo entre os
setores econômicos de elevada renda e grupos que vivem na miséria, onde materialização dos processos
de marginalidade econômica, social e territorial se expressam nas favelas através de habitações
precárias e de baixo custo (Ziccardi, 2008:75). A região amazônica insere-se também nesse universo,
porém apresentando características peculiares já que possui uma extensa rede de pequenos lugares
junto a rios, às estradas, cidades vinculadas a grande bolsões de mão-de-obra volante assalariada, que
constituem em grande parte os habitante urbano (Vicentini, 2004:177).

A Amazônia teve seu crescimento relacionado com a necessidades estratégicas de ocupação do


espaço ou exploração de seus recursos naturais. As históricas formas de adaptação humana foram
substituídas em sucessivos “ciclos econômicos”, por políticas públicas nacionais inadequadas, precárias
e fracassadas, aliadas a modelos desprovidos de desconhecimento sobre as realidades regionais, pela
negação das populações tradicionais índias e caboclas e de sua forma de ocupabilidade, pelo caráter
interventivo da criação de suas fronteiras físicas e políticas, além dos equivocados planejamentos à
distância, ou seja, por modos brutais de apropriação dos recursos da biodiversidade amazônica (Freitas,
2009:16).

Alguns autores, como Becker (2001), chamam a Amazônia de floresta urbanizada, que conecta o
crescimento não somente com o surgimento de novas cidades, mas aos valores da urbanização para a
sociedade. Já Vicentini considera uma fronteira urbana contemporânea, onde a diversidade das cidades
coloca-se não somente na forma de resposta a políticas ou incentivos, mas como expressão da
diversidade cultural, que inclui a resistência cultural da população às novas formas e agentes de
produção do espaço urbano (Vicentini, 2004:35).

Nas zonas urbanas da Amazônia 6, residem aproximadamente 25 milhões de habitantes (IBGE


2010). As maiores áreas metropolitanas pertencem às cidades de Manaus e Belém, correspondendo aos
respectivos estados do Amazona e Pará, as duas regiões juntas possuem mais de 3,5 milhões de
habitantes (IBGE 2010). Outras cidades amazônica também passaram por um expressivo crescimento
demográfico levando a serem chamados de estados periféricos7, surgiram novas demandas e arranjos

6Neste caso faço referênica a Amazônia Legal. Segundo Becker existem três Amazônias a serem consideradas atualmente: 1) A Florestal
representada por todos estados da região norte (Amapá, Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Tocantins e Pará), 2) a Amazônia Legal que inclui
os 7 estados da região norte mais o estado do Mato grosso e Maranhão, 2) A Amazônia Sul Americana, também florestal(Becker,2008:8).
7 Os Estados Periféricos são aqueles com menor participação no PIB regional e nacional, além de possuir uma pequena população. São os

estados do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima (Staevie, 2009:33).


institucionais resultantes do processo de urbanização desses espaços.

Nas capitais periféricas da Amazônia8, Macapá, Boa Vista,Porto Velho e Rio Branco existem
cerca de 1,32 milhões de habitantes, resultado do esforço do governo brasileiro em povoar a região, pois
considerava existir um “vazio demográfico” que precisava ser preenchido, esse processo ocorreu a partir
dos anos 70.

Os processos migratórios intensificaram-se nos anos 90 com a transformação de dois territórios


em estados (Amapá e Roraima), incentivado pela nova Constituição brasileira de 1988, contribuindo para
o crescimento demográfico desses lugares. No início do anos de 1970, Boa Vista 9 possuía 30 mil
habitantes, atualmente tem aproximadamente 270 mil habitantes, Macapá que tinha 86 mil habitantes em
1970, e hoje possui cerca de 398 mil habitantes (IBGE 2010); esses números são resultantes do intenso
fluxo migratório.

Juntamente com o crescimento demográfico, intensificaram-se nas capitais periféricas os


problemas urbanos e, dentre eles, a exclusão social. Um dos importantes instrumentos para entender
esses processos são os indicadores sociais contidos no “Atlas da Exclusão Social” elaborado por Márcio
Porchman e Ricardo Amorin(2004), que avaliaram 5.507 municípios brasileiros, com dados do IBGE
2000, considerando três temas para elaborar o índice de exclusão socia10l: 1)padrão de vida digno,
2)conhecimento e 3)Risco juvenil. O estudo leva em consideração a escolaridade, alfabetização, pobreza,
desemprego, desigualdade social, emprego formal, concentração de jovens e violência (Staevie,
2009:42,43).O ranking criado pelos autores, a partir de seu cálculo de exclusão, considera que o melhor
município em situação ocupada a posição 5.507, ou seja São Caetano do Sul no Estado de São Paulo
seria o de melhor situação social em todo o Brasil. Quando analisada as cidades da Amazônia e suas
capitais periféricas juntamente com a região nordeste do Brasil obtém-se os piores índices de exclusão
social do país.

Índice de exclusão social e ranking geral-2000

Município Índice de exclusão social Posição no ranking

Boa-Vista-RR 0,505 1.452ª

Macapá-AP 0,493 1.683ª

Maceió-AL 0,526 1.040ª

Manaus-AM 0,522 1.112ª

Palmas-TO 0,608 163ª

Porto Velho-RO 0,536 873ª

Rio Branco-AC 0,519 1.178ª

Teresina-PI 0,521 1.136ª

Fonte:Atlas da Exclusão Social(POCHMANN & AMORIN, 2004)/Observação: Usei as cores verde e azul para diferenciar os estados da região

8 Capitais periféricas é um termo utilizado por Pochman e Amorin no “Atlas da Exclusão Social no Brasil”(2004)
9 Capital de Roraima
10 Aquí nao será avaliado o cálculo. Os autores consideraram que: o índice de escolaridade varia entre 0,0 e 1,0( quanto maior o índice, melhor a

situaçao social); o índice de alfabetizaçao entre 0,0 e 1,0(quanto maoir o índice, melhor a situaçao social); o índice de pobreza entre 0,0 e 1,0(
quanto maior o índice , melhor a situaçao social); índice de desigualdade socialentre0,0 e 1,0( quanto maior o índice , melhor a situaçao social),
indice de emprego formal entre 0,0 e 1,0 ( quanto maior o índice , melhor a situaçao social), índice de concetraçao de jovens entre 0,0 e 1,0(
quanto maior o índice , melhor a situaçao social) e indice de violência varia entre 0,0 e 1,0( quanto maior o índice , melhor a situaçao social).
norte da região nordeste nordeste. Os estados da região norte em verde pertencem a amazônica.

O estudo mostra que as capitais da Amazônia periférica possuem os piores índices de exclusão
social no ranking das capitais brasileiras. Esse índice demonstra o desequilíbrio entre chefes de grupos
situados no extremos da distribuição de renda. No ranking da pior capital brasileira, a pior situação é de
Rio Branco, com 0,55 seguida de Teresina(0,71) e Manaus(0,18), Boa Vista é a 5ª pior capital
brasileira(0,201), Macapá é a 7ª(2,13). As cidades com menores desigualdades são Florianópolis (0,748)
e Porto Alegre(0,618), ambas localizadas no sul do país.

Outra análise importante dos estudos de POCHMNN & AMORIN (2004) é a respeito do índice de
emprego formal nas 26 capitais brasileiras e no distrito federal, onde os piores índices pertencem ao norte
no Brasil, como demonstra o quadro abaixo.

Índice de emprego formal e posição no ranking-2000

Município Índice de emprego formal Posiçao no ranking geral do País

Porto Velho-RO 0,299 16ª

Rio-Branco-AC 0,278 19ª

Macapá-AP 0,199 26ª

Boa Vista-RR 0,150 27ª

Fonte:Atlas da Exclusao Social(POCHMANN & AMORIM, 2004)

As piores capitais classificadas no ranking são Roraima e Macapá, cidades pertencentes a


Amazônia periférica, com uma participação relevante do funcionalismo público nas economias locais e
com elevados índices de informalidade. A existência de uma grande quantidade de servidores públicos no
quadro desses estados, revela uma grande fragilidade em suas economias. A Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios realizada pelo IBGE mostra que o Estado do Amapá é a unidade da federação
com maior quantidade proporcional de servidores públicos, com aproximadamente 29% da população
empregada apresentando esta ocupação como principal (Chelala, 2008:160). Os territórios que se
tornaram estado nos anos 90, seguiram esta tendência como Amapá e Roraima.

O Ministério das Cidades, através de suas investigações, também permite construir o perfil da
região com dados no último Censo do IBGE 2010, demonstrando que os maiores déficits habitacionais do
país estão nas capitais na Amazônia periférica. O estudo foi realizado pela fundação João Pinheiro no
ano de 2010, e, novamente, a região norte apresentou os piores resultados. Quando consideramos em
valores absolutos, destacam-se os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia, porém
quando consideramos o número déficit relativo (ou seja, comparando o déficit habitacional ao total de
domicílios da unidade de análise) a região norte apresenta os piores resultados, o estado do Amazonas
em 1º lugar e o Amapá esta em 2º lugar.

Tabela 1- Déficit habitacional total e relativo ao total de domicílios particulares permanentes por situação
de domicílio segundo regiões geográficas, unidades da Federação e total das regiões metropolitanas-
Brasil 2010
Especificação Déficit Habitacional Total

Total Urbano Rural Total Urbano Rural

Região Norte 823.442 585.725 237.717 20,6 19,4 24,7

Amazonas 193.910 153.120 40.790 24,2 23,2 29,0

Amapá 35.419 32.019 3.400 22,6 22,6 22,8

Pará 410.799 263.474 147.325 22,0 19,9 27,4

Região Sudeste 2.674.428 2.576.502 97.925 10,6 10,9 5,9

São Paulo 1.495.542 1.464.295 31.248 11,6 11,9 6,5

Fonte: Ministério das Cidades e Fundação João Pinheiro

Um componente muito importante na análise do déficit habitacional da região é a coabitação,


pois mais de 70% do déficit habitacional no Brasil são compostos pela coabitação familiar 11 (43,1%) e
pelo ônus excessivo com aluguel (30,6%). Esses dois componentes representam 5,1 milhões de
unidades de déficit (Ministério das Cidades & Fundação João Pinheiro,2010:32). A coabitação familiar
corresponde cerca da metade do déficit habitacional no Amazonas, Amapá, Rio Grande do Norte, na
Paraíba, em Pernambuco, Alagoas, Sergipe, na Bahia e em Minas Gerais, porém o Amapá é o estado
brasileiro em situação mais grave (57,6).

As capitais periféricas da Amazônia apresentam enormes problemas relacionados com a


exclusão social, destacando-se o Amapá e Roraima, com os piores índices. Estas cidades destacam-se
pelo elevado índice de informalidade e crescimento demográfico, decorrentes de importantes fluxos
migratórios, principalmente a partir dos ano 80.

Planejando com a comunidade

Diante dos problemas encontrados nas áreas de ressacas no ano de 2009, foi desenvolvido um
programa na faculdade de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Amapá, onde os
habitantes das ressacas passaram a participar da elaboração de projetos que criavam novos cenários
para esas áreas favelizadas. O resultado mais importante foi a interação entre os alunos e a comunidade,
pois existem muitos precoceitos em relaçao aos habitantes deste lugares, uma vez que o medo foi
vencido, o trabalho pode ser realizado.

Os trabalhos desta experiencia foram reunidos em uma grande proposta e doados para o
governo do Estado do Amapá, mas infelizmente o poder público não demonstrou interesse e conhecer o
projeto, e jamais dialogou com a comunidade acadêmica e as comunidades sobre novas posibilidades
que poderiam surgir.

O projeto está sendo retomado no ano de 2016, através de um trabalho de extensão. Foi
escolhida a comunidade da ressaca Chico Dias, pois trata-se de uma enorme área de palafita onde a
comunidade encontra-se organizada. Em uma pesquisa recente verificou-se que um dos grandes
problemas das áreas favelizadas de Macapá é a falta de capacidade de organização e mobilização de

11coabitação familiar – representa a insuficiência do estoque habitacional para atender à demanda, compreendendo a convivência de mais de
uma família no mesmo domicílio (famílias conviventes6) ou o aluguel de quartos ou cômodos para moradia de outras famílias.
seus moradores(Carvalho, 2015).

O trabalho está dividido em três etapas, todos realizado de forma voluntária na própria sede da
comunidade. A primeira fase trata-se do contato entre comunidade e alunos através de palestras e
debates realizados por professores e estudantes com o objetivo de apresentar a comunidade os
instrumentos norteadores de urbanização das cidades brasileiras como o Estatuto da Cidade e Planos
Diretores. Na segunda etapa é feita uma pesquisa na área e em seguida escolhida um trecho para as
elaboração de propostas para as intervenção. A terceira, etapa trata-se de um workshop onde os alunos
elaboram o projeto juntamente com a comunidade. O trabalho é finalizado com uma apresentação
pública; todo o trabalho deve ser doado para os moradores, para que possam buscar o governo local
para a implantação das propostas.

A intenção é preparar a comunidade para tornar os indivíduos agentes das mudanças sociais,
conhecendo seus direitos como cidadãos. Dessa forma, o mundo académico pode dar a sua contribuição
social e combater a segregação e o ressentimento que exitem em nossas cidades. Aproximar as pessoas
e vencer o preconceito é sem dúvida um caminho para a construção do verdadeiro direito à cidade.

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