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UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA – UFU

CENTRO DE ENSINO, PESQUISA, EXTENSÃO E ATENDIMENTO EM EDUCAÇÃO ESPECIAL – CEPAE


I CONGRESSO NACIONAL DE LIBRAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA
I CONALIBRAS-UFU
ISSN 2447-4959
ASPECTOS HISTÓRICOS E LEGAIS SOBRE A EDUCAÇÃO DE SURDOS
NO BRASIL: DO IMPÉRIO À REPÚBLICA VELHA

Fernanda G. A. S. de, CASTRO, UFRJ1


Hector R. da S., CALIXTO, UFRJ2
Eixo Temático: 2: Processos de Escolarização dos Surdos

Resumo: Este trabalho visa demonstrar a evolução da educação de surdos no Brasil


desde a época do império até a fim da República Velha, em 1930, mostrar como
eventos históricos na educação de surdos em outros países influenciaram os métodos
utilizado neste país, e também como guiaram a criação das leis e normas para
educação de surdos. A primeira seção do trabalho faz um breve histórico da educação
de surdos ao redor do mundo e de seus principais personagens e suas contribuições.
A segunda seção mostra como a educação de surdos foi introduzida no Brasil e como
se deu esse início. Na terceira seção mostramos o que ocorreu no Congresso de Milão
em 1880 e com isso contribuiu para mudanças nos métodos aplicados no Brasil, e
posteriormente se essas práticas perduraram até o fim do período da República Velha.
Palavras-chaves: Educação de surdos, História da educação de surdos, Instituto
Nacional de Educação de Surdos – INES

1. Educação de Surdos: Breve Histórico

Para demonstrar com um dos principais personagens da história da


educação de surdos no Brasil iniciou sua vida acadêmica e pode influenciar o
cenário brasileiro faremos uma breve descrição do histórico da educação de
surdos e das principais contribuições que tornaram possível sua migração e
posterior iniciação aos métodos de ensino com os surdos neste país.
Um dos primeiros professores reconhecidos a atuar com surdos foi
Pedro Ponce de Leon (1520-1584), que era um monge beneditino. Entre seus
alunos estavam Francisco e Pedro de Velasco, que faziam parte da aristocracia
espanhola. “O monge Ponce de León foi designado "anjo da guarda" dos
meninos e foi aí que se deu o cruzamento histórico dos sinais monásticos com
os sinais dos surdos.” (REILY, 2007)
Mesmo tento um papel significativo na educação de surdos e na

1
Graduada em Pedagogia.... Professora efetiva da UFRJ..., fernandagas1@gmail.com.
2
Graduado em Sistemas de Informação pelo Instituto de Estudos Superiores da Amazônia,
Especialista em Libras pela UNIASSELVI, e especializando em Docência no Ensino Superior
pela UNIASSELVI. Atua como Profissional de Libras do Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial do Rio de Janeiro. hectorscalixto@gmail.com.

Realização:
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introdução do uso de sinais como método de ensino, León não teve seu
método publicado e por isso não registro de como ele atuava para passar
conhecimentos para seus alunos. (PERLIN, 2002, p.34)
A primeira obra publicada na área da educação de surdos foi feita por
Juan Pablo Bonet (1579-1629), e era intitulada “Reducción de las letras y arte
de enseñar a hablar los mudos, publicado em 1620 e contendo um alfabeto
digital muito similar ao que utilizamos hoje no Brasil.” Essa publicação
proporcionou para Bonet “reconhecimento histórico internacional, tanto por ter
mandado gravar representações das configurações manuais em água forte
como pela divulgação de uma metodologia fonética de alfabetização”. (REILY,
2007)
Outra figura extremamente representativa foi o Abade L’Epée (1712-
1789) e “é destacado na história da educação do surdo por ter reconhecido a
necessidade de usar sinais como ponto de partida para o ensino do surdo”.
L’Epée acreditava que para poder transferir conhecimento e conseguir alcançar
os surdos era necessário utilizar a sua forma de comunicação mais natural, ou
seja “afirmava que a única maneira de chegar ao espírito dos surdos era pela
via ‘dos mesmos sinais pelos quais a natureza os inspira’.” (REILY, 2007)
Dessa forma ele conseguiu organizar a forma de comunicação por meio
dos sinais a ponto de expressar ideias complexas e estabelecer conceitos que
antes acreditava-se serem de impossível compressão para os surdos,
conforme demonstrado por Reily (2007):

“Quando o abade de l'Épée sistematizou os sinais ao constituir os


sinais metódicos, ele apropriou-se de muitos sinais que os surdos já
utilizavam, criou outros tantos e acrescentou movimentos aos
elementos lexicais para demarcar funções gramaticais francesas no
conjunto de sinais que considerava fundamentais para a comunicação
e a aprendizagem das lições. No contexto das aulas e dos exercícios
públicos, o autor indica que os sinais eram dominados a tal ponto que
complexas questões metafísicas eram propostas por meio dos sinais
metódicos e os alunos adiantados eram capazes de responder
corretamente em francês, às vezes também em latim.”

Outra atitude que influenciou a grande propaganda do seu método era o


reconhecimento que ele fazia às fontes que usava com fundamentos para a
sua metodologia e ainda a divulgação de forma gratuita do conhecimento que
havia produzido. L’Epée sempre deu crédito as todos que contribuíam para a

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melhoria do seu método, e convidava a todos os interessados a realizarem
visitas a Intuição que foi criada para educação de surdos, para que tomasse
conhecimento da metodologia e pudesses disseminar as ideias em outras
partes. Isso foi eficiente, já que sua influencia chegou aos Estados Unidos e
posteriormente no Brasil, fazendo com que esses dois países herdasses o
sistema de sinais utilizado na França.
A L’Epée é atribuída a criação da primeira escola pública para surdos,
em Paris, em 1760, iniciando suas atividades com poucos alunos, mas que em
1785 já tinha 70 alunos. Com a sua atuação se iniciou um novo período na
história da educação de surdos, com o uso do seu método de ensino, que ficou
conhecido como Sistema de Signos Metódicos. (PELIN, 2002, p.36)

2. Início da Educação de Surdos no Cenário Brasileiro

Neste trabalho iremos revelar aspectos importantes sobre o processo


histórico, assim como os aspectos legais da educação de surdos em nosso
país. Faremos um recorte no período imperial, quando se iniciou a educação
de surdos no Brasil, conforme será demonstrado a seguir, até o período da
República Velha, levando em “consideração o movimento de 1930, como
revolução nacional”.
Assim, cabe enfocarmos o pensamento de Perlin (2002) em que diz que
a educação de surdos no Brasil teve início com a chegada de Eduard Huet em
1855, francês e que ficou surdo com 12 anos de idade por consequência de
sarampo. Huet estudou no Instituto Nacional de Surdos de Paris, onde se
formou professor e teve contato com a metodologia utilizada por L’Epée. Na
França, Huet foi professor e diretor do Instituto de Surdos de Bourges e
emigrou para o Brasil em 1955.
Um dos principais motivos de sua vinda ao Brasil foi o intuito de fundar
uma escola de surdos, e foi movido pelo sentimento de solidariedade já que
neste tempo não se tinha nenhuma ideia ou iniciativa pública voltada para
educação dos surdos.
De acordo com Bentes, (2010) Huet veio ao Brasil com uma carta de
recomendação do ministro da Instrução Pública da França, e com isso ele é

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apresentado pelo influente Marques de Abrantes ao então Imperador D. Pedro
II. E assim, solicitou ao Imperador um prédio para fundar o então Instituto dos
Surdos-Mudos do Rio de Janeiro, em 25 de setembro de 1857, atualmente
conhecido como Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES.
No entanto essa data não era oficial até 1908, “quando mudada de 1º de
janeiro de 1856 para 26 de setembro de 1857, quando a partir de então o
Império passa a subvencionar o Instituto” (ROCHA, 2007, p. 39). Apreciamos
por meio da leitura do Decreto nº 6.892, de 19 de Março de 1908 questões
referentes ao exercício do ano escolar, quando aprova o regulamento para o
então Instituto Nacional de Surdos-Mudos, que diz:

Art. 17. O anno escolar começará no dia 2 de março e terminará no


dia 25 de novembro. Durante este tempo, serão feriados os
domingos, os dias de festa ou luto nacional, e o dia 26 de Setembro,
3
anniversario da fundação do instituto. (BRASIL, 1908) .

Neste sentido comprovamos em termos legais a oficialização da data de


26 de setembro de 1857 como a data de fundação do referido instituto. E assim
ocorreu no Brasil a primeira experiência no que diz respeito a educação de
surdos, que teve muito a influência de Huet. No âmbito do instituto as
atividades eram voltadas as experiências dos trabalhos que este professor
realizou na França, inclusive para Campelo, (2009) as disciplinas mesclavam a
língua de sinais francesa e a língua de sinais brasileira que era utilizada pela
comunidade surda brasileira.
Os alunos que iniciaram as atividades do instituto eram submetidos a
avaliações públicas e não eram muitos, conforme relatado por Oviedo (2007, p.
3):

O instituto começou com sete estudantes, que recebiam aulas em


Língua de Sinais Francesa e que Huet se propôs a alfabetizar no
português. Dois anos após o início das aulas, os estudantes já
estavam em condições de se apresentar aos examinadores públicos.

Após esses acontecimentos, em 1861, Huet não pode continuar dirigindo


o instituto e “decidiu vender seus direitos ao então Imperador D. Pedro II,

3
Quando nos reportarmos a documentos oficiais antigos, algumas palavras neste texto,
apresentarão escrita diferente de nossa escrita atual, pois tratam-se de questões ortográficas
específicas de determinado momento histórico e que não é nosso objetivo discutir sobre esta
questão. .

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sendo que, naquela época, já existiam dezessete alunos estudando no
Instituto” (PERLIN, 2002, p.71). Com isso, o instituto ficou sob a direção, de
forma transitória, do Frei João Carmelita. Já em 1862 o Dr. Manuel de
Magalhães Couto assumiu como diretor do Imperial Instituto, estando habilitado
para isso pelo Instituto de Paris.
Com a saída de Huet, alterações foram realizadas na proposta
educacional de surdos e em 1867 ocorreu a retirada da disciplina de leitura
labial e foram acrescentadas as disciplinas de leitura e escrita, geometria
elementar, desenho linear, francês e contabilidade. Assim, “algumas disciplinas
foram mantidas, que foram a de língua portuguesa, Geografia e Doutrina
Cristã, sendo que todas essas disciplinas estavam relacionadas com à
aquisição da escrita pelos alunos surdos” (BENTES, 2010, p. 61).
Já em 1871 ocorreram tentativas, por parte da direção, de introduzir o
método oral, mas o mesmo não trouxe resultados satisfatórios, e “em 1873 foi
incluído o ensino profissionalizante” (PERLIN, 2002, p.75). Essa
implementação do ensino profissionalizante ocorre em decorrência de uma
concepção existente na época de que “as classes médias e altas tinham como
meta a Universidade, cabiam as classes inferiores a aquisição de uma
profissão. E no caso dos surdos-mudos a profissão disponível na gestão de
Tobias Leite (1868-1896) era no campo.” (BENTES, 2010, p. 61).
Com isso tomou-se providências para que os alunos pudessem adquirir
um ofício, onde se “mandou preparar num terreno anexo ao jardim do Instituto
uma pequena horticultura, onde os alunos pudessem aprender atividades
agrícolas, servindo de base para uma futura atividade econômica” (ROCHA,
2007, p. 40).
Levando em conta a concepção do então diretor do instituto, Dr. Tobias
Leite, a educação para os surdos deveria se dar apenas nos níveis básicos,
focando a sua educação apenas na formação para trabalhos agrícolas,
conforme comentado por Rocha (2007, p. 49), dizendo que o diretor afirmava
que era necessário somente uma educação primária:

O Doutor Tobias defende apenas o nível de educação primária para


os surdos, dizendo que o objetivo não era o de formar homens
letrados. Sendo de classes de baixa segmentação econômica, seria
melhor oferecer-lhes o ensino agrícola pelas características do Brasil”

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Essa abordagem acabava por limitar as opções de trabalho dos surdos,
assim como levavam a alienação no que diz respeito a sua posição como
cidadão e de escolha quanto a sua profissão, ocorrendo uma imposição em
relação a quais atividades laborais deveria realizar. Como dito por Bentes
(2010, p. 62):

No caso do surdo, é preciso adquirir uma profissão e se tornar um ser


humano produtivo, fazendo parte do mercado de trabalho, mesmo
que isso signifique ser explorado com baixos salários, não ter
consciência crítica em relação ao trabalho que realiza e estar
reduzido a uma única escolha, no caso, o trabalho no campo.

Assim se consolida essa abordagem de ensino literário primário e de


ensino profissionalizante até as gestões seguintes do Instituto, e essa
permanece sendo aplicada com aprovação das classes dominantes da época.
Pontuamos que o instituto passou por sérias mudanças após este período, em
especial após as determinações do Congresso de Milão, fato que iremos
perceber no tópico a seguir.

3. As influências do Congresso de Milão de 1880

Na Europa realizavam-se pesquisas e estudos a cerca dos métodos de


ensino para surdos e qual desses seria o mais bem sucedido. Segundo
Campelo, (2009) após descobertas de que os surdos eram capazes de falar
após utilizarem-se do método oralista, que foram realizadas na Alemanha e na
Inglaterra, no século XVII, os profissionais envolvidos nesta área resolveram
organizar um congresso, que ocorreu em 1872, que foi o Congresso de
Veneza.
No congresso ocorrido em 1872 ficou definido que a “modalidade falada,
ou seja, da filosofia oralista é superior à modalidade gesto-visual, que é a
língua de sinais” (CAMPELO, 2009, p. 17). Os argumentos utilizados para
validar sua decisão estavam baseados na ideia de que “o meio humano para
comunicação do pensamento é do uso da língua oral”. (CAMPELO, 2009, p.17)
Com isso, para a autora, em 1880 foi realizado o Congresso de Milão,
que ocorreu de 6 a 11 de setembro do mesmo ano, onde um grupo de
profissionais, não-surdos, tomou a decisão de excluir a língua de sinais do

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ensino de surdos, e decidiram isso sem a participação dos professores e
profissionais surdos. Oito resoluções resultaram do congresso, e foram as
seguintes:

1. O uso da língua falada, no ensino e educação dos surdos, deve


preferir-se à língua gestual;
2. O uso da língua gestual em simultâneo com a língua oral, no
ensino de surdos, afecta a fala, a leitura labial e a clareza dos
conceitos, pelo que a língua articulada pura deve ser preferida;
3. Os governos devem tomar medidas para que todos os surdos
recebam educação;
4. O método mais apropriado para os surdos se apropriarem da fala é
o método intuitivo (primeiro a fala depois a escrita); a gramática deve
ser ensinada através de exemplos práticos, com a maior clareza
possível; devem ser facultados aos surdos livros com palavras e
formas de linguagem conhecidas pelo surdo;
5. Os educadores de surdos, do método oralista, devem aplicar-se na
elaboração de obras específicas desta matéria;
6. Os surdos, depois de terminado o seu ensino oralista, não
esqueceram o conhecimento adquirido, devendo, por isso, usar a
língua oral na conversação com pessoas falantes, já que a fala se
desenvolve com a prática;
7. A idade mais favorável para admitir uma criança surda na escola é
entre os 8-10 anos, sendo que a criança deve permanecer na escola
um mínimo de 7-8 anos; nenhum educador de surdos deve ter mais
de 10 alunos em simultâneo;
8. Com o objectivo de se implementar, com urgência, o método
oralista, deviam ser reunidas as crianças surdas recém admitidas nas
escolas, onde deveriam ser instruídas através da fala; essas mesmas
crianças deveriam estar separadas das crianças mais avançadas, que
já haviam recebido educação gestual, a fim de que não fossem
contaminadas; os alunos antigos também deveriam ser ensinados
segundo este novo sistema oral” (BALBAKI; CALDAS, 2011, p. 1892)

Uma das resoluções “foi aprovada por unanimidade: a que preconizava


que o governo deveria tomar medidas para que todos os Surdos recebessem
educação” (CAMPELO, 2009, p.17). Isto serviu de argumento para que os
profissionais que pregavam a filosofia oralista convencessem os governos de
que essa era a filosofia que levaria a resultados, que era o caminho mais viável
na educação dos surdos e que os governos dessem atenção as opiniões dos
dirigentes, professores e profissionais surdos atuantes naquela época.
Após o congresso, os surdos tomaram as resoluções do congresso
como uma afronta, sendo considerado um período de grande sofrimento para a
comunidade surda. Conforme mostrado por Campelo (2009, p. 17):

O Congresso de Milão é considerado para a comunidade Surda como


o século do 'holocausto', pois proibia os professores Surdos de dar
instrução nas escolas de Surdos, o uso da língua de sinais dentro das

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escolas de Surdos e determinava o fechamento dos institutos em
regime de internato. Houve um declínio dos professores Surdos até a
quase extinção dos mesmos, restando poucos professores Surdos no
mundo.

No entanto mesmo, mesmo com a tentativa de acabar com o uso da


língua de sinais, em forma de resistência, esta continuou a ser utilizada fora
das instituições educacionais, o que culminou com a criação e propagação de
diversas Associações de Surdos ao redor do mundo, aumentando a sua
utilização pelas comunidades surdas fora dos âmbito educacionais.

3.1 Mudanças no Instituto

Grandes mudanças estavam por vir para o Instituto. Conforme Rocha,


(2007) a primeira delas foi o local de funcionamento, que mudou para a Rua
das Laranjeiras, ainda na cidade do Rio de Janeiro, tendo sua transferência
oficial ocorrida no dia 18 de março de 1881.
A direção do Instituto passa a ser responsabilidade do Dr. Custódio
Ferreira Martins, em 1907, e este fica na gestão por vinte e três anos, deixando
o posto apenas em 1930. Durante esse período o Dr. Custódio Martins realiza
uma importante mudança, que se mostraria um marco na história do Instituto:

O grande marco desse período foi a obra de ampliação das


dependências do Instituto situado na Rua das Laranjeiras desde
meados do século XIX, mais precisamente no ano de 1877. As obras
tiveram seu início em 1913, sendo que a nova sede ficou pronta no
ano de 1915. (ROCHA, 2007, p. 55).

Além as mudanças físicas ocorridas no Instituto ocorreram também


mudanças metodológicas de ensino. Mesmo com a divulgação das resoluções
do Congresso de Milão em 1880, instituindo o método oral puro para ensino de
surdos, “no Imperial Instituto de Surdos-Mudos continuou com o método trazido
por Huet, com influências diretas do método de L'Epée até 1901” (PERLIN,
2002, p.75).
Após esse período e principalmente por influência do Congresso de
Milão, o Império brasileiro solicitou a obrigatoriedade da aprendizagem da
linguagem articulada e da leitura dos lábios, iniciando assim os passos para
aceitação das outras resoluções resultantes do referido congresso.

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Até então duas disciplinas disputavam entre si pela maior importância
entre as outras, que eram a de Linguagem Articulada, que foi instituída e usada
de forma preferencial para aqueles que alunos que demonstrassem aptidão.
Segundo o capitulo II do Decreto nº 6.892, de 19 de Março de 1908, que:

Approva o regulamento para o Instituto Nacional de Surdos-Mudos.


Art. 6º O curso litterario será, no maximo, de seis annos, e se
comporá:
a) do ensino de linguagem escripta, que será dividido em tres séries,
cada uma dellas podendo ser subdividida de accôrdo com o preparo
que mostrarem os alumnos;
c) do ensino de linguagem articulada e de leitura sobre os labios;
Art. 8º O ensino da linguagem articulada e da leitura sobre os labios
será dado de preferencia aos alumnos que se mostrarem aptos para
recebe-lo (BRASIL, 1908).

No entanto esta disputa se encerra, quando em 1911 o método oral puro


é instituído como forma de ensino. Dessa forma, o método oral puro
entrou por completo no Instituto em 1911, por meio de um decreto, como
mostra Rocha (2007, p. 55):
Em 1911, o Decreto de nº 9.198, em seu artigo 09, propõe a retomada
do método oral puro em todas as disciplinas. Assim, os três
professores de Linguagem Escrita foram transferidos para as três
recém criadas cadeiras de Linguagem Articulada e Leitura sobre os
Lábios, já que apenas uma vinha funcionando desde 1887.

Reforçamos esta afirmação a partir do que prescreve o Decreto nº 9.198,


de 12 de Dezembro de 1911, quando:

Approva o regulamento para o Instituto Nacional de Surdos-Mudos


Art. 9º O methodo oral puro será adoptado no ensino de todas as
disciplinas
(BRASIL, 1911)

A Linguagem Articulada consistia num programa para ensino de leitura


labial e fala, que envolvia, a exemplo: “Gramática imitativa e progressiva; leitura
sintética nos lábios; educação da vista; educação do tato; preparo dos órgãos
respiratórios, preparo dos órgãos da articulação da palavra e desmutização”
(ROCHA, 2007, p.14). Conforme o autor, estes eram integrantes do programa
realizado por Manoel Dantas Sobrinho.
Já em 1912, os professores, em decorrência das novas diretrizes
começam a organização de novos programas de ensino, em vias de
contemplarem o ensino da Linguagem. Esses programas foram submetidos

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para aprovação, e os mesmo foram aprovados posteriormente pelo Ministro do
Interior.
No entanto, já em 1914, três anos após a implantação do Método Oral
Puro, os resultados dessa mudança não se mostravam positivos, e os
resultados dos novos programas aplicados no ensino de surdos não foram
satisfatórios. O então diretor, Custódio Martins, envia um relatório ao governo,
e no mesmo “insiste para que sejam adaptados métodos de ensino que sejam
mais adequados para as aptidões e capacidades dos alunos que frequentavam
o Instituto” (ROCHA, 2007, p. 55).
Em 1925, mas precisamente em janeiro, por meio do Decreto 16.782 foi
organizado o então Departamento Nacional de Ensino, e com isso o Instituto
passa para a classe de estabelecimento profissionalizante. Este decreto:

Estabelece o concurso da União para a diffusão do ensino primario,


organiza o Departamento Nacional do Ensino, reforma o ensino
secundario e o superior e dá outras providencias.
CAPITULO IV
Do ensino profissional
Art. 28. O ensino profissional, a cargo do Ministerio da Justição e
Negocios Interiores, será ministrado:
I. No Instituto Benjamim Constant, para cegos;
II. No Instituto dos Surdos-Mudos;
III. Na Escola 15 de Novembro, para menores abandonados do sexo
masculino;
IV. Nos estabelecimentos que, para o mesmo fim, foresm creados, ou
mandados subordinar ao Departamento Nacional do Ensino (BRASIL,
1925).

Relatos demonstram que a fase onde o oralismo puro vigorou


oficialmente no instituto durou nove anos, oficialmente sendo aplicada de 1911
a 1920. “Nesse período ocorreu a proibição do uso da língua de sinais durante
a prática docente” (BENTES, 2010, p. 63).
Além das transformações no modelo de ensino que ocorriam no Instituto
também ocorriam transformações no país, o que refletia diretamente nas
rotinas do Instituto. Na década de 1920 o Dr. Armando de Paiva Lacerda e o Dr.
Henrique Mercaldo, dois jovens médicos otologistas, foram reconhecidos na
área científica, e foram muito divulgados na imprensa, nacional pelos seus
trabalhos de reeducação auditiva. “Em vista do reconhecimento público e da
importância do trabalho realizado pelo Dr. Armando, o Chefe do Governo
provisório, Getúlio Vargas, o nomeou como diretor do Instituto em 1930”

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(ROCHA, 2007, p. 59)
O diretor anterior, o Dr. Custódio foi relutante em lhe transferir o cargo,
mas acabou por aceitar as evidências, demonstrando isso por meio de uma
declaração, onde disse que não valia nada, era apenas um traste inútil que o
governo pôs de lado. Com essa declaração ele pode “demonstrar as
transformações que ocorriam no país, o que culminou na derrocada da
República Velha e o início da Era Vargas” (ROCHA, 2007, 59)
Com isso instaurou-se no Instituto a visão clínica da surdez, tendo como
principal representatividade desta nova abordagem o momento em que o
Instituto passou a ser parte integrante do Ministério da Educação e Saúde.
Pudemos observar a influência que os métodos usados em outros
países tiveram sobre o cenário educacional para surdos no Brasil. L’Epée teve
grande influência na introdução do uso dos sinais, o que proporcionou acesso
ao conhecimento aos surdos na França do século XVIII, entre eles Huet, que
ao ter contato com a metodologia usada na França pode adquiris experiência e
ao emigrar para o Brasil trouxe consigo a mesma metodologia para ser
aplicada no Instituto que criaria. Com o Congresso de Milão, essa metodologia
foi deixada de lado, dando lugar ao oralismo, conforme exposto no texto,
mesmo não tendo sucesso na sua aplicação e ocorrer um declínio na educação
de surdos neste período. A história do Brasil segue, e juntamente com ela a
história da educação de surdos, e esses períodos também tiveram influência
para construção do modelo educacional existente hoje, mas esses períodos e
contribuições serão analisados em trabalhos futuros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAALBAKI, A. e CALDAS, B. Impacto do congresso de Milão sobre a língua


dos sinais. Cadernos do CNLF, Vol. XV, Nº 5, t. 2. Rio de Janeiro: CiFEFiL,
2011

BENTES, José Anchieta de Oliveira. Forma do trabalho docente em duas


escolas especiais de surdos: estudos históricos e de representações sociais.
Tese de Doutorado em Educação Especial. São Paulo, UFSCAR, 2010.

BRASIL. Decreto 9.198, de 12 de Dezembro de 1911. Approva o regulamento


para o Instituto Nacional de Surdos-Mudos. Disponível em
<http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=41704>.

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Acesso em 20/10/2014.

CAMPELLO, A. R. S. Deficiência auditiva e libras. Centro Universitário


Leonardo da Vinci – Indaial: Grupo UNIASSELVI, 2009.

Diário Oficial da União - Seção 1 - Decreto nº 6.892, de 19 de Março de 1908.


Approva o regulamento para o Instituto Nacional de Surdos-Mudos.

Diário Oficial da União - Seção 1 - Decreto nº 16.782-A, de 13 de Janeiro de


1925. Estabelece o concurso da União para a diffusão do ensino primario,
organiza o Departamento Nacional do Ensino, reforma o ensino secundário e
superior e dá outras providencias.

OVIEDO, A. Eduard Huet (1822?-1882). Fundador de la educación pública


para sordos em Brasil y México Disponível em: <http://www.cultura-
sorda.eu/resources/Eduard_Huet.pdf>. Septiembre de 2007. Acesso em: 20
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PERLIN, G. História dos surdos. In : ABREU, A. (org.). Caderno Pedagógico:


Pedagogia para surdos. Florianópolis: UDESC. 2002.

REILY, Lucia. O papel da Igreja nos primórdios da educação dos surdos. Rev.
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ROCHA, S. O INES e a educação de surdos no Brasil: aspectos da trajetória


do
Instituto Nacional de Surdos em seu percurso de 150 anos. Rio de Janeiro:
INES, 2007.

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