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Com Angola no Peito

“[…] o meu poema


sou eu-branco montado em mim-preto
a cavalgar pela vida.”

(António Jacinto “Poema da Alienação”)

Em 2018 tive acesso a dois trabalhos de investigação (dissertações) de


universidades distintas, uma portuguesa (Universidade Nova) e outra brasileira
(Universidade de S. Paulo), cujos temas se prendem ao fenómeno histórico, político e
sociológico que foi o da saída de Angola da maioria das pessoas de origem europeia, no
rescaldo da Revolução de Abril em Portugal e da independência daquele país africano.
Em ambas as dissertações, a investigação foi centrada nas trajectórias de vida dessas
pessoas que, como nos diz uma das autoras, são na sua maioria “angolanos de origem
portuguesa, portugueses radicados em Angola desde a infância (denominados luso-
angolanos, angolanos brancos […], euro-africanos, ‘filhos do país’)”.1

A dissertação do Brasil é mais abrangente, no sentido de que não se fica por uma
faixa etária ou por uma classe social ou grupo profissional. O facto de serem trabalhos
académicos dá-lhes um cunho especial e, mais do que nos trabalhos que havia lido até
então, a motivação do investigador não é tanto a problemática da integração em
Portugal ou no Brasil desses euro-africanos, mas o que neles permaneceu do que havia
ficado para trás.
Em 1974, cerca meio milhão de brancos viviam em Angola, constituindo a
segunda maior população branca do continente africano, só superada pela África do
Sul.2 E o caminho da independência, apesar de ter sido uma ambição “sonhada por
alguns daqueles que saíram” e de não ter surgido nenhuma “lei que determinasse a
obrigatoriedade para a retirada da população ‘branca’”, esta, ao sentir-se marginalizada
e ameaçada num contexto de guerra generalizada, acabaria por marchar “rumo ao
esvaziamento completo e imediato” das mais importantes cidades angolanas,
nomeadamente Luanda, uma das mais modernas e progressivas cidades de África. 3

1. Dissertação apresentada na Universidade Brasileira – Nesta dissertação o seu


autor pretendeu saber com que identidade se pode definir os que, tendo deixado
Angola, foram para o Brasil reconstruir as suas vidas, num país que sabiam que falava a

1
Cláudia Raquel Espinha Cardoso – Diáspora e regresso: os imigrantes luso-angolanos no Brasil. S. Paulo,
Universidade de São Paulo, Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia, 2008,
p. 8.
2
Carolina Peixoto - Por uma perspectiva histórica pós-colonial, um estudo de caso: A ʻdescolonizaçãoʼ de
Angola e o retorno dos ʻnacionaisʼ, p. 11-12. Doutoramento em Pós-Colonialismos e Cidadania Global –
CES/FEUC.
3
Cláudia Raquel Espinha Cardoso – Ob. cit., p. 21.

1
mesma língua e que imaginavam à luz de uma literatura semelhante e de uma música
familiar, para além da importância de se localizar nos trópicos e de ser um país mestiço. 4
E esse objectivo é tentado através de entrevistas e da análise das mentalidades e das
memórias que retomam e (res)guardam uma terra idílica, teatro da infância e da
juventude, de liberdades e de sonhos, mas também de desigualdades sociais, de luta,
de guerra, de opressão, de rupturas. Alguns depoimentos entram pelos caminhos do
afecto, outros cruzam terrenos mais ásperos… e os diálogos estabelecidos com o
passado, confessa-nos a autora, assemelham-se “àquelas conversas com os mortos, que
já não se podem ter, mas que invadem os momentos do presente, das novidades que se
quer compartilhar como se eles ali estivessem, ao alcance das palavras ou dos
pensamentos”.
As conversas sobre Angola dos idos coloniais assumem, geralmente, um teor
mais intimista, de cumplicidade até, como se fosse um “morto que em vida deixou obra,
deixou marcas e que dialoga com o presente […]. Presente na vida de quem esteve em
Angola, as gentes, os cheiros, o marulhar nas praias de Luanda, o clima, o imbondeiro
que cresce, hoje, algures dentro de vasos espalhados por quintais e sacadas em São
Paulo. Símbolo de um país que não ficou esquecido. Adormecido, talvez, no mesmo sono
com que se embalam as crianças, que crescem enquanto dormem”.5
A este grupo, que se fixou no Brasil, pertence G. (identificado assim na
dissertação referida), nascido em Luanda, em 1949, neto do conhecido cónego Manuel
das Neves.6 Esteve no exército português e depois de 1974 nas FAPLA (braço armado do
MPLA), tendo abandonado Angola em 1978:

“[…] eu acho que o Brasil é que é Angola e Portugal então eu


estou bem aqui, o Brasil é tudo isso, eu estive em Salvador e é
impressionante. Eu tive no Recife, eu vejo Luanda, uma Luanda
direitinha […] e Salvador me faz lembrar Portugal e faz-me lembrar
Angola, por causa da arquitectura colonial que é muito forte, muito
forte, e é isso…”

Dulce Braga7, natural da vila de Nhareia, no Bié, e a viver há longos anos em


Campinas, é autora do livro de memórias Sabor de Maboque (2010). Trata-se de um
longo depoimento de alguém que, decorridos mais de trinta anos, selou o seu
reencontro com o passado como se dançasse uma kizomba sobre o torpor do
esquecimento, rompendo, assim, com um período de hibernação ao longo do qual se
manteve longe de sua terra natal. Por isso, as suas memórias “foram projectadas, cena

4
Cf. Cláudia Raquel Espinha Cardoso – Id., p. 34.
5
Cláudia Raquel Espinha Cardoso – Id., p. 145-146.
6
O cónego Manuel das Neves é um nacionalista angolano que, a 4 de Fevereiro de 1961, incentiva e dirige
o assalto às cadeias de Luanda com o objectivo de libertar os presos políticos que se encontravam na
cadeia de S. Paulo.
7
Convém referir que Dulce Braga não faz parte dos entrevistados da dissertação em questão. Contudo, a
sua biografia leva-nos a considerar que poderia ter feito parte do grupo humano aqui estudado.

2
por cena, sob o sol africano de Angola, com o mais puro sentido de alma, […] com o
sabor agridoce… sabor de maboque” (Ana L. Sampaio, prefácio).

“Andei a manhã toda a vaguear pela fazenda [1975]. Visitei os


pés de loengo e de lombula, sentei-me à beira do Cossongove
absorta pelo hipnótico cantar das águas correndo no seu leito.
[…] Voltei quando o almoço ia ser servido. […] Teríamos pirão
com tuqueia […], o nome do ombisi que nasce nas anharas, nos
lagos de curta vida que anualmente se formam com a água das
chuvas. As ovas se depositam no fundo das gretas de lama seca
e num rapidíssimo ciclo vital de dois meses surgem milhares de
peixes” (p. 159)

Aqui chegados, talvez valha a pena contextualizar o “sentimento angolano” que


perdura nesta gente, tantos anos depois de terem deixado a sua terra natal. Valerá a
pena lembrar que esse “sentimento” ou até mesmo embrião de nacionalismo se
encontrava, muitas vezes larvar e nebuloso, outras vezes mais evidente e assumido, se
ligava a um espírito de alguma resistência de núcleos de brancos mais esclarecidos e
liberais que, ao longo do séc. XX, não deixaram de levantar a voz por uma Angola mais
livre da submissão à metrópole. Havia um certo clima que propiciou a participação, por
diferentes modos e meios, no processo identitário angolano e, consequentemente, de
uma busca de caminhos para a independência do país.
Para alguns dos poucos estudiosos desta problemática, nomeadamente Thomas
8
Okuma , que Fernando Tavares Pimenta refere e cita no seu livro Angola. Os brancos e
a independência (2010)9, o nacionalismo dos brancos era balizado por três parâmetros:
o afastamento geográfico em relação à metrópole; o desenvolvimento económico; o
surgimento de uma sociedade branca natural no país. Seria, afinal, um nacionalismo
resultante dum determinado número de factores, tais como: mais visível identificação
política dos brancos nascidos em Angola com a sua terra natal; descontentamento
generalizado com a dependência política e económica em relação a Portugal;
discriminações que sentiam serem objecto pelo sistema colonial português,
excessivamente centralista e autoritário.10 Sobre este nacionalismo importa debruçar-
nos sobre Angola libre?,11 obra de referência quanto ao tema do nacionalismo angolano,
da responsabilidade de Mário de Sousa Clington (m. 2012), académico de Angola, cuja
tese de mestrado em História conta com um prefácio de Cheikh-Anta-Diop, historiador
mundialmente conhecido. Clington analisa as relações entre o nacionalismo negro e o
“movimento sócio-político dos brancos liberais de Angola”, com base no artigo

8
Thomas Okuma – Angola in Ferment: the Background and Prospects of Angolan Nationalism. Boston:
Beacon Press, 1962.
9
Fernando Tavares Pimenta – Angola. Os Brancos e a Independência. Porto: Afrontamento, 2010.
10
Fernando Tavares Pimenta – Ob. cit., p. 26.
11
Mário de Sousa Clington – Angola libre?. Paris: Galimard, 1975.

3
“Portugais des provinces d’outre-mer d’Afrique”, de Alfredo Margarido12, e o jornal
Kovaso, órgão da Frente de Unidade Angolana (FUA), o que o leva a ponderar a
existência de um “nacionalismo euro-africano” sustentado em alguns sectores da
minoria branca angolana. Na verdade, a FUA, dirigida por Fernando Falcão e Sócrates
Dáskalos, este um prestigiado poeta e conhecido opositor ao regime ditatorial
português, não deixara de surpreender com a extensa entrevista de um seu dirigente à
“Jeune Afrique”, publicada em Paris, a 11 de Novembro de 1962, à qual se seguiu, em
1963, uma reportagem na “Présence Africaine”, sob o título genérico “Connaissance du
Front d’ Unité pour Angola (FUA). Mas é sabido que esta organização, dadas as
circunstâncias e ao ambiente político vivido na altura, ficara isolada, tornara-se
desajustada no tempo e sem hipóteses de sobrevivência. Movimento surgido em 1961,
desde logo se identificou com as teses universalistas e progressistas do MPLA, tentando
mesmo, após a sua formação, um acordo formal com aquele em que defendia “que as
questões raciais não fizessem parte da prática que o mesmo movimento nacionalista já
condenava e criticava em teoria”.13 De facto, essa época era profundamente
influenciada pela exaltação dos valores culturais dos povos negros através da
“Negritude”, movimento cultural que se completava com a corrente ideológica do Pan-
Africanismo, que se apresentava como elemento aglutinador da identidade africana por
todo o mundo, afinal a raiz e alento do próprio movimento independentista africano…
onde o referido movimento político oriundo da minoria branca, tinha muita dificuldade
em subsistir. Os próprios países que apoiavam os movimentos nacionalistas de África,
como o bloco soviético e os próprios Estados Unidos da América, marcados neste caso
por uma forte influência do movimento Black Power, sempre haviam tido dificuldade
em entender “que pessoas de pele mais clara fizessem parte da fileira dirigente dos
partidos nacionalistas”.14 Esta realidade levará Clington (2010) – que é o primeiro
intelectual angolano a reconhecer a existência de um fenómeno nacionalista com
características próprias entre os brancos de Angola – a confirmar mais tarde que, a
minoria branca se tinha mostrado “incapaz de se impor no quadro político da luta
nacionalista, dominada pelos movimentos nacionalistas de maioria negra e mestiça” 15.
De qualquer forma e apesar de tudo isso, muitos desses brancos nacionalistas acabariam
por ser perseguidos pela PIDE, já que mostravam ter, como os outros compatriotas de
pele mais escura, a mesma vontade de levar Angola à independência e em que todos
tivessem lugar. E por isso a polícia do Estado não levou muito tempo a desmantelar este
último movimento, perseguindo alguns dos seus dirigentes e levando-os ao exílio em
França, Argélia, Costa do Marfim e Guiné-Conacry, brancos que acabariam por trilhar os
mesmos caminhos do exílio dos seus outros compatriotas. Na foto que se segue vêm-se
alguns elementos desse grupo, Ernesto Lara Filho, Adolfo Maria, Sócrates Dáskalos, João

12
Alfredo Margarido – “Portugais des provinces d’outre-mer d’Afrique”, Le Mois en Afrique, n.º 12, Déc.
1966, pp. 62-84.
13
Carlos Loureiro - “Um poema sem nome… de Maria do Céu Carmo Reis”, artigo postado no FB.
14
Carlos Loureiro – op. cit.
15
Mário de Sousa Clington cit. em Fernando Tavares Pimenta – op. cit., p. 26.

4
Mendes, Avidago, , Mário Nobre João, Artur Pestana dos Santos (Pepetela), Adelino
Torres e em destaque uma mulher apenas, Maria do Céu Carmo Reis.

16

Tirada em Paris, no inverno de 1962, guardou para a posteridade a marca de um


tempo de esperança, mas, igualmente, de frustração pelo impasse que marcavam as
negociações que, entretanto, se desenrolavam com dirigentes do MPLA. E terá sido
nesta altura que Maria do Céu ofereceu a Sócrates Dáskalos um poema que tinha escrito
à mesa de um café, e do qual, com a devida vénia, publico aqui um excerto: “Aqueles
irmãos brancos / que como tu irmão negro / traziam no coração / uma Angola mutilada
e ensanguentada / chorando ódios, dores e humilhações / corpo em chagas sob a bota
do inimigo […]”.17 Apesar da diferença de “tom”, que neste poema é bem mais
carregado, encontramos afinidades com um outro, escrito alguns anos antes e também
por uma mulher, Alda Lara, intitulado “Rumo”. Um hino (e um apelo) à fraternidade
entre brancos e negros de Angola: “[…] Que as minhas mãos brancas se estendam /
para estreitar com amor / as tuas longas mãos negras ... / E o meu suor se junte ao teu
suor, / quando rasgarmos os trilhos / de um mundo melhor!”.

2. Dissertação apresentada na Universidade Portuguesa – Nesta dissertação o


seu autor pretende dar a conhecer o movimento estudantil no ensino secundário em
Angola, que se desenvolveu entre 1974 e 1975 e que envolveu milhares de jovens em
ocupações, greves e manifestações, numa luta estudantil que “contou com um
importante contributo de jovens brancos”. Como se sabe, estes jovens constituíam a
maioria da população do ensino secundário e superior, cuja vanguarda revolucionária
se empenhou no processo de independência de Angola, numa altura em que
paralelamente se vivia a violência crescente que culminaria na guerra civil (1975-2002).
A grande novidade desta dissertação é a de se centrar precisamente nos
estudantes brancos activistas desta fase conturbada de Angola, quem eram, o que os
motivava e qual a importância da sua luta no contexto político angolano. Procurar

16
Dispon. em <https://m.facebook.com/photo.php?fbid=629195547098129&id=100000230686116&set=a.325163727501314>.
17
Carlos Loureiro – op. cit.

5
respostas para estas interrogações, “sem esquecer a questão de como sentiam a sua
identidade” é o principal objectivo da dissertação de ML Figueiredo.18
Convém lembrar que esta atitude nacionalista da juventude em questão não era
um fenómeno único ou de geração espontânea. Tinham como exemplo mais próximo o
dos seus contemporâneos mais velhos que, nos moldes de António Jacinto, assumiram
como uma bandeira o poema da alienação “[…] o meu poema sou eu-branco montado
em mim-preto a cavalgar pela vida”, tendo a maioria deles optado pelo engajamento ao
próprio processo de luta pela independência de Angola, como é o caso, sobejamente
conhecido, de António Jacinto, Artur Pestana dos Santos “Pepetela”, Luandino Vieira,
António Cardoso, Costa Andrade, Adolfo Maria, e um pouco mais tarde, Ruy Duarte de
Carvalho e Henrique Abranches, entre outros. Destes se poderá dizer que são os mais
visíveis, pois todos eles completaram o seu desejo de emancipação e a sua luta pela
independência de Angola com uma actividade literária importante, que os levou a
ultrapassar as barreiras do tempo, da geografia e do meio estritamente político. Afinal,
são dos que enchem a “longa lista de Brancos, nascidos na colónia ou não, que se
meteram, deliberadamente e provocadoramente, do lado ‘errado’ da muralha […]”,
como escreve o professor Jean-Michel Mabeko Tali, no seu esclarecedor prefácio ao
livro A criança branca de Fanon, de Alberto Oliveira Pinto.
Só que, nesta sua decisão de engajamento numa luta que era, manifestamente
do “outro”, não faltaram percursos em terrenos onde as boas intenções se atolavam e
os mal-entendidos cresciam, com consequências nefastas que, até certo ponto, iriam
fazer perigar o seu engajamento e “os aspectos humanos do processo de luta de
libertação anticolonial” (MTali). Fora da sua zona de conforto e corajosamente em rota
de colisão com o seu meio e a sua própria família, ficaram, muitas vezes, numa zona
cinzenta, desconfortavelmente olhados por uns e outros com desconfiança. Mas o que
os incomoda mais, dadas as circunstâncias, é o véu de suspeita com que as pessoas e
organizações pelas quais tinham abandonado quase tudo, os recebem. A realidade é
crua, na medida em que “o Africano, nem por isso acolheu de braços abertos os mais
claramente anticoloniais dos Brancos da colónia”, como desassombradamente confirma
Tali e expressivamente descreve Pepetela, numa passagem do seu livro O Planalto e a
Estepe (2009), que passo a citar:

“Era um grupo misturado, todas as cores. Depois


dividiram-nos. Os mais escuros iam combater. […]. Os mais
claros tinham bolsas de países amigos, iam estudar para a
Europa. A razão era, […] os mais claros ainda não eram
suficientemente angolanos [subl. nosso] para arriscarem a vida
na luta pela Nação. […] De novo as raças a separarem os grupos.
Fiquei desiludido, sobretudo humilhado” (p. 33-34).

18
Maria Leonor M. C. Figueiredo – O movimento estudantil em Angola nos anos da descolonização (1974-
75). Lisboa, UN, dissertação de mestrado em História Contemporânea, 2011, p. 4.

6
E esta situação real e vivida, que nos chega pelos caminhos da literatura, é
confirmada no Prefácio já aqui referido, com Tali a afirmar que o Africano “nem
acreditou, em muitos casos, na sinceridade de sentimentos de revolta que deram lugar
ao ‘nacionalismo branco’”.19 Nacionalismo incompreendido apesar dos inúmeros
exemplos, dizemos nós. E isso confirma-se em diversas situações, cujo exemplo mais
significativo, porventura, será o de Castro Soromenho, que sofreu a “mágoa de não ser
considerado [angolano], sentindo-se muito por ter sido ostracizado”, como refere
Rodrigues Vaz20, baseado na informação fornecida pelo cineasta angolano, António
Faria21, que com Castro Soromenho conviveu em Paris, na época do exílio do escritor,
no início dos anos sessenta. Faria relata aspectos da vida de Castro Soromenho num
interessante artigo, publicado na revista “Latitudes” (nº 27, Set.2006), no qual, a
propósito da participação do escritor no 1º Congresso Internacional dos Escritores e
Artistas Negros (Paris, 1956), organizado pela revista Présence Africaine, refere que
Terra Morta, “a obra do escritor branco” tinha sido apresentada numa sessão em que
fora “marcante a ‘decepção’ pela brancura epidérmica do seu autor”. Contudo, não
deixa de realçar que, no entanto, Castro Soromenho, compreendendo “as razões dos
outros”, superou essas e outras decepções, dado ter “visto nisso a reacção natural da
afirmação de culturas nacionalistas, de auto-estima e amor-próprio”. Só que não
demoraria a surgir uma situação semelhante no Congresso dos Escritores Afro-Asiáticos,
que teve lugar no Cairo, em 1962, e ao qual o romancista aderiu. Segundo o escritor
angolano Manuel Lima, Castro Soromenho foi “imperdoavelmente, o grande
esquecido”22, mesmo depois de o respeitado Mário Pinto de Andrade ter afirmado que
“sem margem de erro [Castro Soromenho ter sido] o primeiro europeu a iniciar com
Terra Morta o romance não-colonial mas africano tout-court”. 23

3. Conclusão – Na verdade, se olharmos para o legado nacionalista dos brancos


angolanos, constata-se que não foi homogéneo, antes muito disperso, envolvendo duas
trajectórias em muitos casos divergentes (até oponentes): uma que se caracteriza pelo

19
Jean-Michel Mabeko Tali – “Prefácio”. Alberto Oliveira Pinto - A criança branca de Fanon, Lisboa,
Mercado das Letras, 2017, p. 19-20.
20
Rodrigues Vaz - Castro Soromenho: escritor africano. Comunicação apresentada na Tertúlia À Margem,
Lisboa, 17 de Outubro de 2018 e depois publ. em: <https://estrategizando.pt/2018/10/21>.
21
António Faria - Introdução ao cinema angolano. Ed. de Autor, 1965. Em Angola, à época, “os membros
do movimento cineclubista, que se desenvolve na década de cinquenta com forte engajamento social e
político, têm uma consciência identitária angolana que se quer exprimir. Manuel Faria sustenta em 1964,
na revista Diálogo (dirigida pelo Cine Clube do Huambo, fundado em 1956 e o primeiro de Angola), que
“não havia suficiente cultura (angolana) da parte dos indivíduos, honestos” que tentaram criar um cinema
angolano” (Maria do Carmo Piçarra - Angola: (Re-)Imaginar o nascimento de uma nação no cinema
militante “Journal of Lusophone Studies” 3.1 (2018) p. 171).
22
Manuel Lima cit. por Rodrigues Vaz – ob. cit. E quase esquecido voltou a estar Castro Soromenho em
2010, pelo centenário do seu nascimento (31 Janeiro de 1910), com a honrosa excepção da homenagem
que lhe foi prestada por Ana T. Rocha, com a comunicação “A voz da estepe, de Castro Soromenho”,
integrada no III Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, que teve lugar na Casa de Goa (Lisboa),
a 16 de Setembro de 2010.
23
Entrevista publicada no "Jornal Magazine da Mulher", nº 38-39(Abril- Maio de 1954).

7
nacionalismo difuso, disperso (a maioria), a que podemos juntar os que foram
enquadrados pelo único movimento nacionalista de sua iniciativa, a FUA; a outra
formada pelos que, de forma clara e assumida, se integraram nos movimentos de
libertação, no MPLA (antes e depois de 1974-75) e na UNITA e FNLA (depois de 1974/75),
estes últimos com muito menor expressão.
Nas duas correntes referidas há aqui duas premissas essenciais que ajudam a
caracterizar aquilo que os separa. O nacionalismo angolano da primeira corrente parte
do princípio que “Angola é multirracial e, por isso mesmo, todos devem ter os mesmos
direitos e deveres; os brancos angolanos têm tanto direito a permanecer na sua terra
como os negros”; Os outros, os que desde o início puseram a sua angolanidade ao
serviço dos movimentos de libertação, sobretudo o MPLA, consideram que “o facto de
ser branco é irrelevante, não interessa, pois a luta faz-se pela maioria negra e pelo seus
legítimos direitos, direitos que historicamente lhe foram negados”. Para estes últimos,
que fizeram parte do “quadro político da luta nacionalista, dominada pelos movimentos
nacionalistas”, esta completa adesão exigia que eles “brancos cavalgassem em si
negros” (adap. do poema) como uma espécie de iniciação que os conduziria à única
forma de redenção possível… a larva branca transformar-se, finalmente, em borboleta
negra. E é por isso que, por razões conhecidas “Branquitude” é um termo inexistente,
ao contrário da expressão (e do conceito) de “Negritude”.
Os jovens angolanos de meados de 70 do século passado, são o produto final
dessa(s) diversas(s) busca(s) de identidade que passava, sobretudo, pela opção de
valores mais ligados à sua terra, tanto na música como na literatura, “fermentos da ideia
de uma nação angolana multirracial”, e que se pautava pela contestação ao regime que
vigorou até 1974. Estes jovens agem de maneira diferente com a aproximação da data
da independência de Angola. Mas convém lembrar que entre 1972 e 1974, alguns jovens
estudantes do ensino secundário do Lubango, haviam fundado o GRUCUHUÍLA – Grupo
Cultural da Huíla, cuja actividade cultural variada incluía a manutenção do suplemento
literário “Coisas da Nossa Terra e da Nossa Gente”, publicado no “Jornal da Huíla”. As
intenções deste grupo eram manifestamente de “criar uma literatura ‘com ambiente’,
isto é, uma literatura virada abertamente para Angola[…] ao mesmo tempo que
lamentam a falta de uma literatura que manifestasse um sentimento inequívoco de
identidade angolana […]. 24 A questão era transversal aos jovens angolanos, quer fossem
do ensino médio, quer do ensino superior. E isso é evidente, também, com os jovens
estudantes do ensino universitário que assumiam uma entrega a uma Angola mais
autêntica, como se pode ver na “Geração dos Cadernos de Poesia do Lubango (1971-
75).”25 Este grupo de alunos era constituído por estudantes dos Cursos de Letras no
Lubango da Universidade de Luanda, maioritariamente de origem europeia “que

24
David Brookshaw – A angolanidade em viagem: a ficção histórica de Jorge Arrimar, “Estudos de
literaturas africanas - Cinco povos cinco nações”. Coimbra: Novo Imbondeiro e ILLP, 2006, p. 194-199.
25
José Luís Garcia - A geração universitária dos Cadernos de Poesia do Lubango (1971-75), “Vértice”, nº
86, 1998.

8
conscientes da situação colonial vigente, num acto que não deixava de ser também de
rebeldia, juntaram a sua à voz dos mais desprotegidos…”.26 Tratava-se do exemplo de
uma angolanidade intelectualizada e urbana, supra-étnica, marcada por um
nacionalismo multirracial e inclusivo que “continuava em construção.” 27
Estes estudantes identificavam-se com uma Angola independente a que
chamavam “o seu país” e representavam “uma geração de onde poderiam ter brotado
quadros fundamentais na Angola independente. O que não se verificou”. 28 Desta
geração, os que chegaram a Portugal ainda na segunda metade da década de 70, diria
Natália Correia, com a sua apurada sensibilidade, que “os genes de África estão nela
para sempre, dando-lhe visões […] diferentes das nossas”.

Os patriotas angolanos brancos, de uma ou da outra corrente, só queriam ser


angolanos, e por isso não sentiam necessidade de mais nenhuma catalogação. É por isso
que ainda hoje me questiono, o que teriam pensado eles quando, em 2000, foi aprovado
no parlamento, em Luanda, a “inscrição de um rótulo racial no Bilhete de Identidade”?29
E a prova de que nunca quiseram esse “rótulo” é que não inventaram para si um termo
correspondente a afrodescendente, como agora, a exemplo dos americanos (e nem
sempre é útil o que nos chega daí), vemos surgir na Europa, podendo cair-se “na
armadilha de reivindicar um gueto, uma espécie de cidadania de segunda classe que
toma o nome de afro-europeu”, como premonitoriamente denuncia Mia Couto.30
Quando os cientistas, no final do século passado, sequenciaram o genoma
humano, acreditou-se que fora, finalmente, declarada “a morte da raça”. Só que, numa
prova de sobrevivência que só os mitos possuem, o da raça não se perdeu, pelo
contrário, reacendeu-se no campo da política, num desafio tenebroso contra a utopia
da igualdade. Iguais perante a lei e com o direito de inventar o seu futuro, os cidadãos
devem poder consegui-lo à revelia de origens familiares ou relações de sangue. Por isso
a “política das raças é uma negação da modernidade”. 31

Voltando atrás, lembramos que os jovens estudantes angolanos de 74/75, apesar


de serem protagonistas de reivindicações que os fazia estar próximos, política e
ideologicamente, dos mais-velhos integrados nas fileiras do MPLA, foram vistos também
com desconfiança, como elementos provenientes da sociedade colonial e burguesa.
Faziam ver que eles não tinham feito parte do grupo que, a partir de fora, se tinha batido
durante anos pela independência de Angola. Mesmo assim, houve alguns que não
abandonaram Angola nos anos que se seguiram à independência… até sofrerem a purga

26
José Carlos Venâncio – Na reedição de Ovatyilongo […], “Seixo Review”, nº 7, 2005.
27
Maria Leonor M. C. Figueiredo – O movimento estudantil […], p. 98.
28
Id. ibid.
29
Demétrio Magnoli – Uma gota de sangue. História do pensamento racial. São Paulo, Contexto, 2009,
Parte III Back to Africa - O Império contra o tráfico, [p. 13-14]
30
Mia Couto – Pansatempos, Lisboa, Caminho, 2005, p. 91.
31
Demétrio Magnoli – Uma gota de sangue […], Introdução – Excesso de cor, [p. 7].

9
ou a hecatombe de um 7 de Maio de triste memória, cuja erupção teve proporções
catastróficas e que ainda hoje queima muitas consciências e chamusca a memória
colectiva.32 Neste nosso tempo, de tanto apego e de tanta reivindicação pela(s)
identidade(s), talvez mais do que nunca, seja importante clarificar este tema, sempre
incómodo, sempre marginalizado. Entretanto, dois desses jovens que fizeram parte
activa do referido grupo de estudantes do ensino secundário de Angola, António Costa
Silva e Nicolau Santos, publicaram em 2011 um livro, intitulado Aroma de pitangas num
país que não existe, cuja poesia nos transmite assim a questão do seu pungente
desenraizamento33:

Com África no Peito

“Com África no peito / E vamos andando / com África no peito/Já passaram


três décadas/e há 7200 quilómetros de distância/ mas não perdemos o
jeito//Basta um merengue, um funaná, /uma morna, uma coladeira / Basta
um cheiro tropical/caju fresco, manga, mamão / óleo de dendém, jindungo
/e lá vem África de novo/a África que nos entrou/pelos cinco sentidos/ pelos
sete buracos/da nossa cabeça / pelo cheiro a terra molhada / pelo som da
batucada / pelo sabor da muambada / pela visão desse pôr-do-sol
avermelhado / que não há em mais nenhum lado / e pelo meu olhar que
segue / a tua pele negra de ébano / Por muita Europa que nos cerque / há
uma África que vive / e resiste / dentro de nós”.

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Dalila Cabrita Mateus, Álvaro Mateus – Purga em Angola, Lisboa, ed. ASA, 2007; Alberto Oliveira Pinto
– “Um Saint-Just angolano ou a hecatombe ‘nitista’ do 27 de Maio?”. História de Angola, Lisboa,
Mercado de Letras, 2015, p. 741-747.
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António Costa Silva, Nicolau Santos - Aroma de pitangas num país que não existe. Lisboa: Babel, 2011.

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