Você está na página 1de 69

SERE IDADE

MARTIN' HEIDEGGER

INSTITUTO
PIAGET
Título original:
Gelassenheit
Autor:
Martin Heidegger
Colecção:
Pensamento e Filosofia
Direcção de António Oliveira Cruz
Tradução:
Maria Madalena Andrade e Olga Santos
Revisão científica:
João Carlos Sousa Paz
Capa:
Dorindo Carvalho
© Vedag Günther Neske Pfullingen, 1959
Direitos reservados para a língua portuguesa:
INSTITUTO PIAGET
Av. João Paulo II, lote 544, 2. 0 _ 1900-726 Lisboa
Telef. 21 8371725
E-mail:
piaget.editora@mail.telepac.pt
Paginação, montagem, impressão e acabamento:
Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda.
Depósito legal n. o 146 024/00
ISBN - 972-771-142-1

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida


ou transmitida por qualquer processo electrónico,
mecânico ou fotográfico, incluindo fotocópia, xerocópia
ou gravação, sem autorização prévia e escrita do editor.
SERENIDADE
A primeira palavra que me permito dizer publi-
camente, na minha terra natal, só pode ser uma
palavra de agradecimento.
Agradeço a esta terra tudo aquilo que me deu e
que me acompanhou durante um longo caminho.
Tentei exprimir no que consiste esta dádiva ao
longo das breves páginas que apareceram pela
primeira vez na publicação comemorativa do cen-
tenário da morte de Conradin Kreutzer, no ano
de 1949, intitulada «Der Feldweg (O caminho de
campo)>>. Agradeço ao Sr. Schühle, presidente da
cârnara municipal, a sua cordial saudação. Agradeço
ainda, em especial, a gratificante missão que me foi
confiada de proferir um discurso comemorativo
ne'5ta homenagem que hoje se realiza.

9
PREZADA ASSISTÊNCIA!
CAROSCONTERRAlvEO~

Encontramo-nos reunidos numa cerimónia


comemorativa do compositor Conradin Kreutzer,
nosso conterrâneo. Se queremos homenagear um,
desses homens predestinados à criação artística
impõe-se, em primeiro lugar, honrar condigna-
mente a sua obra. No caso de um músico, tal acon-
tece dando a ouvir as suas obras.
Neste preciso momento soam canções e coros,
música de ópera e rnúsica de câmara extraídos da
obra de Conradin Kreutzer. Nestes sons está o pró-
prio artista, pois a presença do mestre na obra é a
única que é autêntica. Quanto maior é um mestre
mais completamente a sua pessoa desaparece por
detrás da obra.
Os músicos e os cantores que participam nas
celebrações deste dia concedem-nos a audição da
obra de Conradin Kreutzer neste preciso momento.
Será, no entanto, por isso a festa uma comemo-
ração? Para que haja comemoração (Gedenkfeier) é
necessário que pensemos (denken). Mas o que pensar
e dizer por ocasião de uma comemoração em honra
de um compositor? Não se distingue a música pelo
facto de «falar» através do mero ressoar das suas
notas e de não necessitar da linguagem corrente, da
linguagem das palavras? Diz-se que sim. E, no
entanto, subsiste a questão: Será a celebração atra-
vés da interpretação musical e do canto já uma
~omemoração, que envolve o acto de pensar?

10
É pouco provável. Por isso, os organizadores intro-
duziram no programa um «discurso comemora-
tivo» cuja função é ajudar-nos expressamente a
pensar no compositor homenageado e na sua obra.
Tal evocação (Andenken) toma-se viva quando vol-
tamos a relatar a biografia de Conradin Kreutzer,
a enumerar e a descrever as suas obras. Por meio de
uma tal narração tomamos conhecirnento de alegrias
e de tristezas, de aspectos edificantes e de acções
exemplares. Mas, no fundo, limitamo-nos a ser
entretidos por um discurso. Não é de modo
nenhum necessário pensar enquanto ouvirnos a
narração, isto é, meditar (besinnen) sobre algo que,
na sua essência, diz respeito a cada um de nós,
directa e continuamente. É por isso que nem um
discurso comemorativo garante que pensemos
durante a comemoração.
Não nos iludamos. 'Todos nós, mesmo aqueles
que pensam por dever profissional, somos muitas
vezes pobres-em-pensamentos; ficamos sem-pensa-
mentos com demasiada facilidade. A ausência-de-
-pensamentos é um hóspede sinistro que, no
mundo actual, entra e sai em toda a parte. Pois,
hoje toma-se conhecimento de tudo pelo carninho
mais rápido e mais económico e, no mesmo ins-
tante e com a mesma rapidez, tudo se esquece. Do
mesmo modo, os actos festivos sucedem-se uns aos
outros. As comemorações tornam-se cada vez
mais pobres-em-pensamentos. Comemorações e
ausência-de-pensamentos andam intimamente
â'~sociadas.

11
Contudo, mesmo quando estamos sern-pensa-
mentos não renunciamos à nossa capacidade de
pensar. 'Temos até UIna necessidade absoluta dela,
de um rilodo especial, sem dúvida, de tal forma que,
na ausência-de-pensamentos, deixamos improdu-
tiva a nossa capacidade de pensar. Não obstante,
só pode ficar improdutivo aquilo que contém em si
um solo (Grund) onde algo possa crescer, como por
exemplo um campo agrícola. Uma auto-estrada, na
qual nada cresce, nunca se pode transformar num
baldio. Do mesmo modo que só podemos ficar sur-
dos pelo facto de ouvirmos e envelhecer pelo facto
de termos sido jovens, só podemos tornarmo-nos
pobres-em-pensamentos ou mesmo sem-pensa-
mentos em virtude de o homem possuir, no fundo
(Grund) da sua essência, a capacidade de pensar,
«o espírito e a razão», e em virtude de estar destinado
a pensar. Só podemos perder ou, melhor, deixar de
ter aquilo que, consciente ou inconscientemente,
possuímos.
A crescente ausência-de-pensamentos assenta, por
isso, num processo que corrói o âmago mais profundo
do Homem actual: O Homem actual «está em fuga
do pensamento». Esta fuga-aos-pensamentos é a
razão da ausência-de-pensamentos. Contudo, tal
fuga ao pensaInento deriva do facto de o Homem
não querer ver nem reconhecer essa mesma
fuga. O Homem actual negará mesmo, redonda-
mente, esta fuga ao pensamento. Afirmará o con-
trário. Dirá - e com pleno direito - que em época
alguma se realizaram planos tão avançados, se reali-

12
zaram tantas pesquisas, se praticaram investigações
de forma tão apaixonada, como actualmente. Com
toda a certeza. Esse dispêndio de sagacidade e refle-
xão foi de extrema utilidade. Um tal pensamento
será sernpre indispensável. Mas convém precisar
que será sempre um pensamento de um tipo especial.
A sua particularidade consiste no facto de que,
quando concebemos um plano, investigamos ou
organizamos uma ernpresa, contamos sempre com
condições prévias que consideramos em função do
objectivo que pretendemos atingir. Contamos,
antecipadamente, com determinados resultados.
Este cálculo caracteriza todo o pensamento planifi-
cador e investigador. Este pensamento continua a
ser um cálculo, mesmo que não opere com núme-
ros, nem recorra à máquina de calcular, nem a um
dispositivo para grandes cálculos. O pensamento
que calcula (das rechnende Denken) faz cálculos. Faz
cálculos corn possibilidades continuamente novas,
sempre com maiores perspectivas e simultanea-
mente mais económicas. O pensamento que calcula
corre de oportunidade em oportunidade. O pensa-
mento que calcula nunca pára, nunca chega a medi-
tar. O pensamento que calcula não é um pensamento
que medita (ein besinnliches Denken), não é um
pensamento que reflecte (nachdenkt) sobre o sen-
tido que reina em tudo o que existe.
Existem, portanto, dois tipos de pensamento,
sendo ambos à sua maneira, respectivamente,
legítimos e necessários: o pensamento que calcula e
'a'}eflexão (Nachdenken) que medita.

13
É a esta reflexão que nos referimos quando dize-
mos que o Homem actual foge do pensamento.
Objectar-se-á, no entanto, que a pura reflexão não
se apercebe que paira sobre a realidade, que ela
perde o contacto com o solo, não serve para dar
conta dos assuntos correntes, não contribui em
nada para levar a cabo a praxis.
E, por fim, diz-se que a pura reflexão, a medita-
ção persistente, é demasiado «elevada» para o
entendimento comum. Nesta desculpa a única coisa
correcta é que é verdade que um pensamento que
medita surge tão pouco espontaneamente quanto
o pensamento que calcula. O pensamento que
medita exige, por vezes, um grande esforço. Requer
um treino demorado. Carece de cuidados ainda
mais delicados do que qualquer outro verdadeiro
ofício. Contudo, tal como o lavrador, também
tem de saber aguardar que a semente desponte e
amadureça.
Por outro lado, qualquer pessoa pode seguir os
caminhos da reflexão à sua maneira e dentro dos
seus limites. Porquê? Porque o Homem é o ser
(TVésen) que pensa, ou seja, que medita (sinnende). Não
precisamos portanto, de modo algum, de nos ele-
varmos às «regiões superiores» quando reflectimos.
Basta demorarmo-nos (verweilen) junto do que está
perto e meditarmos sobre o que está mais próximo:
aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e
~gora; aqui, neste pedaço de terra natal; agora, na
presente hora universal.

14
o que nos sugere esta celebração, se estivermos
dispostos a meditar? Neste caso, atentamos que, do
solo da terra natal, medrou (gediehen) uma obra
de arte. Se reflectirmos sobre este simples facto,
teremos imediatamente que nos lembrar que o solo
da Suábia produziu grandes poetas e pensadores
no século passado e naquele que o precedeu. Se
continuarmos nesta linha de pensamento verifi-
camos que a Alemanha Central possui um solo
igualmente fértil, bem como a Prússia Oriental, a
Silésia e a Boémia.
Somos levados a reflectir e perguntamos: não
faz parte do êxito (Gedeihen) de uma obra de sucesso
o enraizamento no solo de uma terra natal? Johann
Peter Hebel escreveu um dia: «Nós somos plantas
que - quer nos agrade confessar quer não -,
apoiadas nas raízes, t~m de romper o solo a filn
de poder florescer no Eter e dar frutos» (Obras, ed.
Altwegg III, 314).
O poeta quer dizer: onde deve medrar uma obra
humana verdadeiramente alegre e salutar, o
Homem tem de poder brotar das profundezas do
solo natal, elevando-se em direcção ao Éter. Éter
significa aqui: o ar livre das alturas do céu, a esfera
aberta do espírito.
Somos levados a reflectir e perguntamos: aquilo
que Johann Peter Hebel diz ainda se aplica nos dias
de hoje? Existe ainda esse habitar tranquilo do
Homem entre a terra e o céu? O espírito que me-
dita (sinnende) reina ainda no país? Existe ainda uma
tetra natal, de raízes fortes no solo (Boden), na qual

15
o Homem se encontra permanentemente (stiindig
steht), quer dizer, onde o Homem está enraízado
(boden-stiindig ist)?
Muitos alemães perderam a sua terra natal, tive-
ram de abandonar as suas aldeias e cidades, foram
expulsos do solo natal. Inúmeros outros, aos quais
foi poupada a sua terra natal e que, mesmo assim, a
deixaram, são apanhados no turbilhão das grandes
cidades, têm de se estabelecer no deserto das
zonas industriais. Tornam-se estranhos à velha terra
natal. E os que nela ficaram? Muitas vezes estão
ainda mais desenraizados (heimatloser) do que aque-
les que foram expulsos. A cada hora e a cada dia
estão presos à rádio e à televisão. O cinema trans-
porta-os semanalmente para os domínios invulga-
res, frequentemente apenas vulgares, da representa-
ção que simula um mundo que não o é. Por toda
a parte têm acesso ao «lllustrierte Zeitung»*. Tudo
aquilo com que, de hora a hora, os meios de infor-
mação actuais excitam, surpreendem, estimulam a
imaginação do Homem - tudo isso está hoje mais
próximo do Homem do que o próprio campo à
volta da quinta, do que o céu sobre a terra, do que
o passar das horas do dia e da noite, do que os usos
e costumes da aldeia, do que a herança do mundo
da terra natal.

* Revista de carácter mais lúdico do que informativo, com publi-


cação geralmente semanal, que contém artigos de interesse geral,
;;~~ilustrados corn imagens. (N. T.)

16
Somos levados a reflectir e perguntamos: o que
se passa aqui com os expulsos da terra natal, bem
como com aqueles que nela ficaram? Resposta:
O enraizamento (die Bodenstiindigkeit) do Homem
actual está ameaçado na sua mais íntima essência.
Mais: a perda do enraizamento não é provocada
somente por circunstâncias externas e fatalidades
do destino, nem é o efeito da negligência e do
modo de vida superficial dos Homens. A perda
do enraizamento provém do espírito da época,
no qual todos nós nascemos.
Continuamos a ser levados a reflectir e pergun-
tamos: sendo assim podem ainda, no futuro, o
Homem ou a obra humana medrar do solo da terra
natal e crescer em direcção ao Éter, ou seja, em
direcção à extensão (Weite) do céu e do espírito?
Ou cairá tudo nas tenazes do planeamento e do
cálculo, da organização e da automatização?
Se durante a celebração de hoje reflectirmos
sobre o que ela nos sugere, verificamos que a nossa
época é ameaçada pela perda do enraizamento.
E perguntamos: o que está realmente a acontecer
no nosso tempo? O que caracteriza o nosso tempo?
Chamou-se recentemente à época que agora
se inicia a era atómica. A sua característica
mais atormentadora é a bomba atómica. Mas
esse traço é meramente superficial, pois logo se
reconheceu que a energia atómica também pode ser
utilizada para fins pacíficos. Por isso, a Física
Atómica e os seus técnicos estão hoje empenhados,
emaoda a parte, em concretizar a utilização pacífica

17
da energia atómica em projectos de longo alcance.
Os grandes consórcios industriais dos países mais
desenvolvidos, com a Inglaterra à cabeça, já calcula-
ram que a energia atómica pode tornar-se um
negócio gigantesco. Vislurnbra-se no negócio ató-
mico a nova felicidade. A ciência atómica não se
mantérn afastada. Ela anuncia publicamente, esta
felicidade. Por isso, em Julho deste ano, 18 nobeli-
zados declararam textualmente num manifesto,
na ilha de Mainau * «A Ciência - ou seja, neste
caso, a moderna Ciência da Natureza - é um cami-
nho para uma vida mais feliz do Homem».
O que significa esta afirmação? Resulta de uma
meditação? Reflecte sobre o sentido da era ató-
mica? Se ficannos satisfeitos com a referida afirma-
ção da ciência, permaneceremos o mais longe pos-
sível de uma meditação sobre a era actual. Porquê?
Porque nos esquecemos de reflectir. Porque nos
esquecemos de perguntar: eln que assenta o facto
de a técnica científica ter podido descobrir e liber-
tar novas energias na natureza?
Assenta no facto de estar em curso há alguns
séculos uma reviravolta de todas as representações
dorninantes. O Homem é, assim, transposto para
uma outra realidade. Esta revolução radical da visão
do mundo é consumada na filosofia moderna. Daí
resulta uma posição totalmente nova do Hornem
no mundo e em relação ao rnundo. O mundo

* Ilha situada no Lago de Überlingen (parte noroeste do


>lago de Constança). (N. T.)

18
aparece agora como um objecto sobre o qual o pen-
samento que calcula investe, nada mais devendo
poder resistir aos seus ataques. A Natureza trans-
forma-se num único posto de abastecimento gigan-
tesco, numa fonte de energia para a técnica e indús-
tria modernas. Esta relação fundamentalmente
técnica do Homem com o todo do mundo surgiu
pela primeira vez no século XVII, na Europa e uni-
camente na Europa. Permaneceu desconhecida das
restantes partes da Terra durante longo tempo. Era
totalmente estranha às épocas precedentes e aos
destinos dos povos de então.
O poder oculto na técnica contemporânea
determina a relação do Homem com aquilo que
existe. Domina a Terra inteira. O Homem começa
já a sair da Terra em direcção ao espaço cósmico.
Porém, só há duas décadas se tomaram conhecidas,
com a energia atómica, fontes de energia tão enor-
mes que as necessidades mundiais de energia de
todo o tipo estarão, em breve, cobertas para sem-
pre. Dentro em breve, a produção imediata das
novas energias deixará de estar restrita a determina-
dos países e continentes, como a produção de ener-
gia a partir de carvão, do petróleo e das madeiras
das florestas. Proximamente poderão ser construí-
das centrais nucleares em qualquer local da terra.
A questão fundamental da ciência e da técnica
contemporâneas já não é: de onde obteremos as
quantidades suficiente de combustível? A questão
decisiva é agora a seguinte: de que modo podemos
domar e controlar as inimaginavelmente grandes

19
energias atómicas e, assim, assegurar à humanidade
que tais energias colossais, subitamente, em qual-
quer parte - mesmo sem acções bélicas -, não
fogem ao nosso controlo, não «tomam o freio nos
dentes» e aniquilam tudo?
Quando se tiver conseguido o domínio da ener-
gia atómica, e isso será conseguido, começará
um desenvolvimento totalmente novo do Inundo
técnico. As técnicas que hoje conhecemos como do
cinema e da televisão, dos transportes, particular-
mente do transporte aéreo, da informação, da
medicina e da alimentação representam provavel-
mente apenas um grosseiro estádio inicial.
Ninguém poderá prever as revoluções que se apro-
ximam. Entretanto a evolução da técnica decorrerá
cada vez mais rapidamente e não será possível detê-
-la em parte alguma. Em todos os domínios da exis-
tência as forças dos equipamentos técnicos e dos
autómatos apertarão cada vez mais o cerco. Os
poderes que, sob a forma de quaisquer equipamen-
tos e construções técnicos, solicitam, prendem,
arrastam e afligem o Homem, em toda a parte e a
toda a hora, já há muito tempo que superaram
a vontade e a capacidade de decisão do Homem
porque não são feitos por ele.
Porém, também faz parte da novidade do
mundo técnico o facto de as suas realizações
serem o mais rapidamente possível conhecidas e
admiradas publicamente. Assim, todos podemos ler
hoje em qualquer revista, habilmente dirigida,
BU ouvir na rádio, o que este discurso refere sobre

20
o mundo técnico. Contudo, uma coisa é ter-
mos ouvido ou lido algo, isto é, termos tomado
conhecimento disso, outra é conhecermos, isto
é, reflectirmos (bedenken) sobre o que ouvimos
elernos.
Neste Verão de 1955, em Lindau*, teve nova-
mente lugar o encontro internacional dos nobeliza-
dos. Disse o químico americano Stanley, por essa
ocasião, o seguinte: «Está próxima a hora em que a
vida será posta na mão dos químicos, que irão
decompor, reconstituir e modificar a substância
viva como lhes aprouver.» Tomamos conhecimento
de uma tal declaração. Até admiramos a ousadia da
investigação científica e não pensamos mais nada.
Não reflectimos que se prepare aqui, com os meios
tecnológicos, uma agressão à vida e à natureza
humana, comparada com a qual a bomba de hidro-
génio pouco significa. Pois mesmo se as bombas de
hidrogénio não explodirem e a vida humana perma-
necer sobre a terra, com a era atómica aproxima-se
uma modificação inquietante do mundo.
No entanto, aquilo que é verdadeiramente
inquietante não é o facto de o mundo se tornar
cada vez mais técnico. Muito mais inquietante é o
facto de o Homem não estar preparado para esta
transformação do rnundo, é o facto de nós ainda
não conseguirmos, através do pensamento que
medita, lidar adequadamente com aquilo que, nesta
era, está realmente a enlergir.

* Iffi~ situada na parte este do lago de Constança. (N. T.)

21
Nenhum indivíduo, nenhum grupo de homens,
nenhuma comissão, mesmo de estadistas, investiga-
dores e técnicos, por mais importantes que sejam,
nenhuma conferência de figuras de proa da econo-
mia e da indústria podem travar ou dirigir o decurso
histórico da era atómica. Nenhuma organização
meramente humana está em condições de alcançar
o domínio da era.
O Homem da era atómica estaria assim entre-
gue, de forma indefesa e desamparada, à prepotên-
cia (Übermacht) imparável da técnica. Seria efectiva-
mente assim se o Homem de hoje renunciasse a
contrapor ao mero pensamento que calcula o pen-
samento que medita para o campo do jogo decisivo.
Mas se o pensamento que medita despertar, a refle-
xão tem de estar a trabalhar ininterruptamente e na
mínima oportunidade; portanto também aqui e
agora e justamente durante esta cerimónia come-
morativa, pois ela oferece-nos motivo para reflectir
(bedenken) sobre algo que na era atómica está parti-
cularmente ameaçado: o enraizamento das obras
humanas.
Por isso, perguntamos agora: já que o anterior
enraizamento (Bodenstiindigkeit) se perde, não pode-
ria ser restituído ao Homem um novo solo (Grund
und Boden), no qual a natureza humana e toda a sua
obra pudessem medrar de uma maneira nova,
mesmo na era atómica?
Qual seria o solo de um futuro enraizamento?
Talvez aquilo que procuramos com esta pergunta se
~J~encontre muito próximo; tão próximo que muito

22
facilmente o não vemos. Porque o caminho para o
que está próximo é para nós, homens, sempre
o mais longo e, por isso, o mais difícil. Este caminho
é um caminho de reflexão. O pensamento que
medita exige de nós que não fiquemos unilateral-
mente presos a uma representação, que não conti-
nuemos a correr em sentido Único na direcção de
uma representação. O pensamento que medita
exige que nos ocupemos daquilo que, à primeira
vista, parece inconciliável.
Façamos a experiência. Para todos nós os equi-
pamentos, aparelhos e máquinas do mundo técnico
são hoje imprescindíveis, para uns em maior e para
outros em menor grau. Seria insensato investir às
cegas contra o mundo técnico. Seria ter vistas cur-
tas querer condenar o mundo técnico como uma
obra do diabo. Estamos dependentes dos objectos
técnicos que até nos desafiam a um sempre cres-
cente aperfeiçoamento. Contudo, sem nos darmos
conta, estamos de tal modo apegados aos objectos
técnicos que nos tornamos seus escravos.
Porém, também podemos proceder de outro
modo. Podemos utilizar os objectos técnicos e, no
entanto, ao utilizá-los normalmente, permanecer
ao mesmo tempo livres deles, de tal modo que os
possamos a qualquer momento largar. Podemos
utilizar os objectos técnicos tal como eles têm de
ser utilizados. Mas podemos, simultaneamente,
deixar esses objectos repousar em si mesmos
cqmo algo que não interessa àquilo que temos de
'm1is íntimo e de mais próprio. Podemos dizer

23
«sim» à utilização inevitável dos objectos técnicos e
podemos ao mesmo tempo dizer «não», impedindo
que nos absorvam e, desse modo, verguem, con-
fundam e, por fim, esgotem a nossa natureza
(Wésen).
Se, no entanto, disserrnos desta maneira, simul-
taneamente «sim» e «não» aos objectos técnicos,
não se tornará a nossa relação com o mundo técnico
ambígua e incerta? Muito pelo contrário.
A nossa relação com o mundo técnico torna-se
maravilhosamente simples e tranquila. Deixamos os
objectos técnicos entrar no nosso mundo quotidiano
e ao mesmo tempo deixamo-los fora, isto é, dei-
xamo-los repousar em si mesmos como coisas que
não são algo de absoluto, mas que dependem elas
próprias de algo superior. Gostaria de designar esta
atitude do sim e do não simultâneos em relação ao
mundo técnico com uma palavra antiga: a serenidade
para com as coisas (die Gelassenheit zu den Dingen).
Nesta atitude já não vemos as coisas apenas do
ponto de vista da técnica. Tomamo-nos clarividen-
tes e verificamos que o fabrico e a utilização de
máquinas exigem de nós, na realidade, uma outra
relação com as coisas que, não obstante, não é sem-
-sentido (sinn-los). Assim, por exemplo, a lavoura e a
agricultura transformam-se em indústria alimentar
motorizada. Não restam dúvidas que aqui - bem
como noutros domínios - se está a operar uma
I

transformação profunda na relação do Homern com


a Natureza e com o mundo. O sentido que rege esta
iransformação permanece, todavia, obscuro.

24
Deste modo reina em todos os processos técni-
cos um sentido que reclama o fazer e o deixar estar
(Tun und Lassen) do Homem, um sentido que
o Homem não inventou e produziu primeiro. N"ão
sabemos o que reside no sentido do domínio
crescente da técnica atómica, cada vez mais inquie-
tante. O sentido do mundo técnico oculta-se. Porém, se
atentarmos agora, particular e constantemente, que
em todo o mundo técnico deparamos com um sen-
-tido oculto, então encontramo-nos imediatamente
na esfera do que se oculta de nós e se oculta precisa-
lmente ao vir ao nosso encontro. O que, deste modo,
se mostra e simultaneamente se retira é o traço fun-
damental daquilo a que chamamos o mistério.
Denomino a atitude em virtude da qual nos mante-
irnos abertos ao sentido oculto no mundo técnico a
abertura ao mistério (die Offenheit ftir das Geheimnis).
A serenidade em relação às coisas e a abertura ao
segredo são inseparáveis. Concedem-nos a possibili-
dade de estarmos no mundo de um modo completa-
mente diferente. Prometem-nos um novo solo sobre
o qual nos possamos manter e subsistir (stehen und
bestehen), e sem perigo, no seio do mundo técnico.
A serenidade em relação às coisas e a abertura ao
mistério dão-nos a perspectiva de um novo enraiza-
mento. Que um dia poderá mesmo conseguir
recordar, de uma nova forma, o velho enraizamento,
que agora se desvanece rapidamente.
Porém, entretanto - não sabemos por quanto
tempo -, o Homem encontra-se sobre esta terra
ntlma situação perigosa. Porquê? Apenas porque,

25
inesperadamente, poderá rebentar uma terceira
guerra mundial que teria como consequência
o total aniquilamento da humanidade e a destrui-
ção da terra? Não. Um outro perigo muito maior
ameaça a era atómica que se inicia - precisamente
quando o perigo de uma terceira guerra rnun-
dial está afastado. Uma estranha afirmação.
Estranha, sim, mas apenas enquanto não reflec-
timos.
Em que medida é válida a frase que se acabou de
proferir? É válida na medida em que a revolução da
técnica que se está a processar na era atómica pode-
ria prender, enfeitiçar, ofuscar e deslumbrar o
Homem de tal modo que, um dia, o pensamento
que calcula viesse a ser o único pensamento admi-
tido e exercido.
Então, que grande perigo se aproxima? Então a
máxima e mais eficaz sagacidade do planeamento e
da invenção que calculam andaria a par da indife-
rença para com a reflexão, para com a ausência
total de pensamentos. E então? Então o Homern
teria renegado e rejeitado aquilo que tem de ruais
próprio, ou seja, o facto de ser um ser que reflecte.
Por isso o importante é salvar essa essência do
homem. Por isso o importante é manter desperta a
reflexão.
Porém - a serenidade para com as coisas e a
abertura ao nlÍstério nunca nos caem do céu. Não
são frutos do acaso (nichts Zu-fiilliges). Ambas
medram apenas de um pensamento determinado e
rhinterrupto.

26
Talvez a cerimonIa comemorativa de hoje
constitua um impulso nesse sentido. Ao cedermos a
este impulso pensamos em Conradin Kreutzer, ao
pensarmos na origem da sua obra, nas forças das
raízes (Wurzelkriifte) na terra natal de Heuberg.
E somos nós quem assim pensamos, nós quando nos
sabemos aqui e agora como homens, que temos
de encontrar e preparar o caminho para, e através de,
a era atómica.
Quando a serenidade para com as coisas e a
abertura ao mistério despertarem em nós, devería-
mos alcançar um caminho que conduza a um novo
solo. Neste solo a criação de obras imortais poderia
lançar novas raízes.
Assim, de uma outra forma e numa outra era,
seria novamente verdadeira a afirmação de Johann
Peter HebeI:
«Nós somos plantas que - quer nos agrade
confessar quer não -, apoiadas nas raízes,
têm de romper o solo, a fim de poder
florescer no Eter e dar frutos.»

27
PARA DISCUSSAO DA SERENIDADE

De uma conversa sobre opensamento,


que teve lugar num caminho de campo*

,;I< <:f. Referências, página 73


INVESTIGADOR
(I)
ERUDI1"'O
(E)
PROFESSOR
(P)
I - Por fim, afirmava você que a questão da essên-
cia do homem não era uma questão sobre o
homem.
P - Eu perguntava apenas, algo que é incontorná-
vel considerar, se isso não se levanta com a
questão da essência .
I - Seja como for, não consigo compreender como
poderá algurna vez ser encontrada a essência do
homem desviando o olhar do homem.
P - Para mim isso também é incompreensível,
por isso procuro ver mais claramente em que
medida tal é possível ou, talvez, até necessário.
I - Aperceber a essência do homem seIIl olhar na
direcção do homem?!
P - Sim. Se o pensamento é o traço distintivo da
essência do homem, então o essencial desta
essência, ou seja, a essência do pensamento, só
pode ser apercebida desviando o olhar do pen-
samento.

31
E - O pensamento é, no entanto, concebido na
forma tradicional como representação, como
um querer; também Kant concebe assim o pen-
samento quando o caracteriza como esponta-
neidade. Pensar é querer e querer é pensar.
I - A afirmação de que a essência do pensamento é
algo diferente do pensamento significa então
que o pensamento é algo diferente do querer.
P - Também por isso, à questão sobre o que eu na
realidade pretendia com a nossa meditação
sobre a essência do pensamento, lhe respondo
o seguinte: quero o não-querer.
I - Esta expressão revelou-se-nos, entretanto,
como sendo ambígua.
E - Não-querer significa, em primeiro lugar,
um querer, um querer dominado por um não,
mesmo no sentido de um não que incide sobre
o próprio querer e o recusa. Não-querer sig-
nifica, portanto, recusar voluntariamente
o querer. A expressão não-querer significa
também, em segundo lugar, o que é pura e sim-
plesmente estranho a todo o tipo de von-
tade.
I - Por isso, também nunca pode ser realizado e
alcançado por meio de um querer.
P - Mas talvez nos aproximemos dele através de
um querer do tipo do não-querer designado em
primeiro lugar.
E - Vê, portanto, um e outro não-querer corno
estando relacionados um com o outro de um
determinado modo.

32
P - Eu não vejo apenas essa relação. Se me permi-
teln confessá-lo, sou charuado (angesprochen),
se não mesmo interpelado (angerufen), por ela,
desde que procuro reflectir sobre o que move a
nossa conversa.
I - Será a minha presunção correcta ao determinar
a relação entre um não-querer e o outro da
seguinte forma? Quer urn não-querer no sentido
da recusa do querer a fim de que, através deste,
possamos avançar em direcção à procurada
essência do pensamento, que não é um querer
ou, pelo menos, prepararmo-nos para tal.
P - Não só a sua presunção é correcta como, pelos
Deuses, diria eu se eles não nos tivessem aban-
donado, descobriu algo essencial.
E - Se competisse a algum de nós tecer elogios e se
tal não estivesse fora do estilo das nossas conver-
sas, estaria tentado a dizer que você nos superou
e se superou a si próprio com a interpretação
(Auslegung) da expressão ambígua «não-querer».
I - Tê-lo conseguido não é mérito pessoal mas sim
da noite que caiu entretanto e nos obriga,
voluntariamente, a recolher.
E - Dá-nos tempo para meditar (Nachsinnen) já que
nos afrouxa o passo.
P - Razão pela qual também ainda estamos longe
das habitações dos homens.
I - Cada vez mais liberto, confio na direcção
(Geleit) invisível que, durante esta conversa, nos
leva pela mão ou, melhor dizendo, nos leva
pela palavra.

33
E - Precisamos dessa direcção, porque a conversa
se torna cada vez mais difíciL
P - Se por difícil entende o não-habitual, que con-
siste no facto de nos desabituarmos da vontade.
E - Da vontade, diz você, e não apenas do querer...
I - e exprime você com tanta serenidade uma
pretensão tão polémica.
P - Se já tivesse a devida serenidade, em breve esta-
ria dispensado da referida desabituação.
E - Na medida em que pelo menos nos podemos
desabituar do querer, ajudamos a despertar a
serenidade.
P - Ou antes, ajudamos a mantermo-nos despertos
para a serenidade.
E - Por que não ajudar a despertar?
P - Porque o despertar da serenidade eln nós não
parte de nós próprios.
I - A serenidade é, portanto, provocada por outros
meIOS.
P - Não é provocada, mas sim permitida.
E - Com efeito, ainda não sei o que significa a
palavra serenidade; mas suponho vagamente
que ela desperta quando ao nosso ser (Wesen)
lhe é permitido aceder (zugelassen ist, sich auf
das einzulassen) a algo que não é um querer.
I - Fala sempre de um deixar (Lassen), de tal modo
que dá a impressão de se referir a uma espécie
de passividade. Não obstante, julgo saber que
não se trata de modo algum de um deixar desli-
zar e deixar à deriva (kraftloses Gleiten- und
Treibenlassen) as coisas.

34
E - Talvez se oculte na serenidade (Gelassenheit)
uma acção mais elevada do que todas as acções
do mundo e do que todos os feitos da huma-
nidade...
P - ...acção mais elevada que não é, no entanto,
uma actividade.
I - Logo, a serenidade está, caso se possa aqui falar
de um estar (Liegen), fora da distinção de activi-
dade e de passividade ...
E - ...porque a serenidade não pertence ao domínio
da vontade.
I - A transição do querer para a serenidade parece-
-me ser o ponto difícil.
P - Especialmente quando a essência da serenidade
ainda nos permanece oculta.
E - E isso sobretudo pelo facto de a serenidade
também poder ser concebida no domínio da
vontade, tal como o foi por antigos mestres do
pensamento como, por exemplo, Meister
Eckhart.
P - Com o qual, não obstante, há muito de bom a
aprender.
E - Com certeza; mas é evidente que a serenidade
por nós mencionada não significa a rejeição
do egoísmo pecaminoso, nem o abandono da
vontade própria em prol da vontade divina.
P - Pois não.
I - Aquilo que, para nós, a palavra serenidade não
deve designar é para mim claro, em muitos
aspectos. Mas, ao mesmo tempo, sei cada vez
menos sobre aquilo de que estamos a falar.

35
a essência do
a ver com
o UJ"-'.A. .AU' ..............,........ 'V'

P- Nada, se concebermos o pensamento como


representação, como o fizemos até aqui.
a .... h J''"''JUI. ........ U

curamos, entre (eingelassen) na serenidade.


I - Não consigo essa essên-
von-
tade.
P- essa maior e
o seu tipo de pensamento como representação
o o
I - Céus,
mesmo me
P- Não a ser
- É uma fraca consolação.
- Fraca ou forte, também não devemos aguardar
qualquer consolação, que é o faze-
mos quando mergulhamos no desconsolo.
I - Devemos aguardar onde devemos
aguardar? Quase estou,
nem sou.
0 ................<...........
mos de nos enganar a nós próprios.
- Mas não temos o nosso .
P- Sem com
demasiada rapidez, ao pensa-
mento.
se temos
passar para e na (über- eingehen) IU' .......L ......... '......

36
até agora experienciada, essência do pensa-

P - Devemos pensar no único ponto de partida


possível para esta passagem.

p-
I é ".,. . . '~r'r .....

mente perigoso neste de conversas.


- Se devemos agora ver aquilo
a que chamamos serenidade, mas que mal
conhecemos e, sobretudo, não conseguimos
inserir correctamente em parte alguma no
contexto essência pensamento em dis-
cussão.
P- É precisamente isso que eu quero dizer.
I - Apresentámos (vergegenwiirtigen) , em último
lugar, o pensamento sob a forma do represen-
tar
- Esse representar apresenta, exelnplo, o
o carácter de jarro
o carácter taça taça, o carácter
pedra, o carácter de planta das
como o pano-
<..W!.JLlu. .lI. :.l\.

quando está
"-J ...... 'L 'U'V

cOisa
uma coisa no aspecto do jarro, outra
no aspecto taça, várias no aspecto da pedra,
no e muitas no

37
I - O horizonte que você, mais uma vez, descreve
é o campo de visão que circunscreve o pano-
rama.
P - Ele excede o aspecto dos objectos.
E - Tal como a transcendência ultrapassa a percep-
ção dos objectos.
P - Definimos, assim, os termos horizonte e trans-
cendência por meio do exceder (Übertrejfin) e
do ultrapassar (Überholen) ...
E - ... que se referem aos objectos e à representa-
ção dos objectos.
P - O horizonte e a transcendência são assim expe-
rienciados (erfahren) a partir dos objectos e da
nossa actividade de representação e são defini-
dos apenas em relação aos objectos e à nossa
actividade de representação.
E - Por que acentua isso?
P - Para indicar que, deste modo, o que deixa o
horizonte ser o que é (sein liisst) ainda não foi,
de modo algum, experienciado.
I - Em que está a pensar quando faz essa afirma-
ção?
P - Dizemos que olhamos para dentro do horizonte.
O campo de visão é, portanto, um aberto cuja
abertura não lhe advém do facto de olharmos
para dentro dele.
E - Do mesrno modo, também não metemos o
aspecto dos objectos, que o panorama do campo
de visão nos fornece, dentro desse aberto.
I - O aspecto é que vem ao nosso encontro a partir
do aberto.

38
P - A horizontalidade é, assim, apenas o lado
virado para nós de um aberto que nos rodeia,
que está preenchido com panoramas do aspecto
daquilo que aparece como objecto à nossa
representação.
I - O horizonte é, portanto, também algo dife-
rente (etwas Anderes) de um horizonte. Mas
este outro é, de acordo com o discutido, o
outro de si mesmo e, por isso, o mesmo que ele
é. Você diz que o horizonte é o aberto que nos
rodeia. O que é ele mesmo, este aberto, se
abstrairmos do facto de que ele também pode
aparecer como horizonte da nossa repre-
sentação?
P - Vejo-o corno uma região (Gegend) por cuja
magia tudo aquilo que lhe pertence retorna ao
sítio onde repousa.
E - Não tenho a certeza se compreendo alguma
coisa daquilo que acaba de dizer.
P - Eu também não cornpreendo, se por «com-
preender» entende a capacidade de representar
o que se oferece, de tal forma que fica como
que subordinado (untergestellt) ao e, com isso,
assegurado pelo, conhecido; pois também não
possuo o conhecido no qual possa enquadrar
(unterbringen) o que tentei dizer sobre o aberto
como região.
I - Isso é impossível justamente porque, provavel-
mente, aquilo que você designa como região é
isso mesmo que em primeiro lugar garante
todo o abrigo (Unterkunft).

39
P - É mais ou menos isso que quero dizer, mas não
apenas ISSO.
E - Você falava de «uma» região na qual tudo
retorna a si. Uma região para tudo não é,
em rigor, uma região entre outras, ruas sim a
região de todas as regiões.
P - Tem razão; trata-se de a região.
I - E a magia dessa região é, com efeito, o reinar
da sua essência (das Walten ihres wesens), o que
faz região de encontro (das Geg;nende), se me é
permitido designá-lo assim.
E - Com base no significado literal da palavra,
-<-<região» seria aquilo que vem ao nosso encontro
(was uns entgegenkommt); dizíamos também, pois,
que a partir do panorama delimitado pelo hori-
zonte o aspecto dos objectos vem ao nosso
encontro. Se concebermos agora o horizonte a
partir da região, apreendemos a própria região
como o que vem ao nosso encontro (das uns
Entgegenkommende).
P - Deste modo, caracterizaríamos a região tal
como anteriormente o horizonte, a partir da
relação connosco, enquanto continuamos a
procurar aquilo que é em si o aberto que nos
rodeia. Se dissermos que é a região, e se o dis-
sermos sem abandonarmos o objectivo antes
referido, então a palavra -<-<região» tem de
designar outra coisa.
I - Além disso, o vir ao encontro não é, de modo
algum, uma, e ainda menos a, característica
fundamental da região. O que significa então a
palavra região?

40
E - A sua forma mais antiga é «Região» (Gegnet) e
significa a extensão livre (die freie Weite).
Podemos extrair daí alguma coisa sobre a
essência daquilo que gostaríamos de designar
região?
P - A região reúne, tal como se nada acontecesse,
cada coisa com cada coisa e todas entre si no
demorar-se (das Verweilen) no repouso em si
próprio. Fazer região de encontro é o reabrigar
reunificante no extenso repousar na duração
(das versammelnde Zurückbergen zum weiten
Beruhen in der Weile)
E - Assim, a própria região é simultaneamente a
extensão e a duração. Demora-se na extensão
do repousar. Estende-se na duração do que se
fechou-em-si-próprio livremente. Podemos,
por isso, atendendo ao uso sublinhado desta
palavra, dizer em vez do nome corrente
«região» (Gegend), também «Região» (Gegnet).
P - A Região é a extensão que faz demorar-se que,
tudo reunindo, se abre de modo a que nela o
aberto seja mantido e solicitado (gehalten und
angehalten) a deixar cada coisa abrir-se no seu
repouso.
I - Parece-me aperceber que a Região mais
depressa se retira do que vem ao nosso encon-
tro...
E - de modo que também as coisas que apare-
cem na Região já não têm o carácter de objectos.
P - Não só já não estão diante de nós como deixam
mesmo de estar (stehen).

41
I - Jazem (liegen) então ou o que se passa com elas?
P - Jazem; se, com isso, designarmos o Repousar
(Ruhen) que é denominado ao falar-se do repou-
sar/assentar (Beruhen).
I - Mas onde Repousam as coisas e em que consiste
o Repousar (das Ruhen)?
P - Elas Repousam no retomo à duração da exten-
são da sua pertença a si próprias.
E - Pode então existir um Repouso no retomo que
é movimento?
P - Com certeza, caso o Repouso seja o foco e o
reino (Walten) de todo o movimento.
I - Tenho de confessar que não consigo represen-
tar correctamente tudo o que acabou de dizer
sobre a região, a extensão e a duração, sobre o
retomo e o repousar.
E - Não se pode mesmo representar, na medida em
que, através da representação, o que está diante
de nós/nos enfrenta (entgegenstehen) num hori-
zonte já se tomou um objecto (Gegendstand).
I - Então também não podemos propriamente
descrever aquilo de que falamos?
P - Não. Qualquer descrição teria de o apresentar
(vorführen) como objecto.
E - Não obstante, pode ser designado e, através da
designação, pensado...
P - caso o pensamento deixe de ser uma represen-
tação.
I - Mas o que será, então, o pensamento?
P - Talvez estejamos agora próximos de ser admiti-
dos (eingelassen) na essência do pensamento...

42
E- na medida em que aguardamos (warten) pela
sua essência.
P - Aguardar, pois bem; mas nunca estar em expec-
tativa (erwarten); pois o estar em expectativa
prende-se já com uma representação e com o
seu objecto representado.
E - O aguardar, no entanto, prescinde disso; terei
de dizer antes: O aguardar nem sequer se deixa
aceder (liisst sich ... nilcht ein) pela re-presenta-
ção (Vôr-stellen). Com efeito, o aguardar não
tem qualquer objecto.
I - Mas, quando aguardamos, aguardamos sempre
por alguma coisa.
E - Decerto; mas assim que representamos e con-
solidamos (zum Stehen hringen) aquilo por
que aguardamos deixamos de aguardar.
P - No aguardar deixamos aberto aquilo porque
aguardamos.
E- Porquê?
P - Porque o aguardar aventura-se (sich einlasst) no
próprio aberto...
E - na extensão do longínquo...
P - em cuja proximidade encontra a duração, na
qual permanece.
I - Mas permanecer é um retornar.
E - O próprio aberto seria aquilo por que apenas
poderíamos aguardar.
I - Mas o próprio aberto é a Região...
P - na qual, aguardando, somos admitidos quando
pensamos.
I - O pensamento seria, então, o chegar-à-proxi-
midade do longínquo.

43
E - Isso é urna definição ousada da sua essência que
nos aparece caída do céu.
I - Apenas resumi o que designámos antes, sem
representar o que quer que seja.
P - E, no entanto, você pensou em algo.
I - Na verdade, aguardei por algo, sem saber o quê.
E - Mas como pode você de repente aguardar?
I - Há muito que aguardava, na nossa conversa,
como só agora vejo com mais clareza, pela
chegada da essência do pensamento. Mas agora
o próprio aguardar tornou-se-me mais evidente
e, simultaneamente, o facto de todos nós
termos provavelmente ficado mais esperançosos
durante o caminho.
P - Pode-nos dizer em que medida isso é assim?
I - Tentarei com muito prazer, se não tiver de
correr o perigo de você me reduzir imedia-
tamente a algumas palavras.
P - Mas isso não é costume nas nossas conversas.
E - Preferimos mover-nos livremente nas palavras.
P - Porque a palavra não, e nunca, representa algo,
mas significa (be-deutet) algo, isto é, mos-
trando-o, fá-lo demorar-se na extensão do seu
dizível.
I - Permitam-me que diga como alcancei o aguardar
e qual a direcção em que consegui uma clari-
ficação da essência do pensamento. Visto que
o aguardar sem representar algo conduz ao
aberto, procurei libertar-me de toda a repre-
sentação. Visto que o que abre ° aberto é
a Região, tentei, liberto (losgelassen) de toda a

44
representação, permanecer puramente entre-
gue/abandonado (überlassen) à Região.
P- Se bem entendo, você procurava aceder à sere-
nidade (sich aufdie Gelassenheit einzulassen).
I - Para falar francamente, não estava propria-
mente a pensar nisso, embora, há pouco, se
discutisse a serenidade. Fui mais levado pelo
andamento da conversa do que pela represen-
tação dos vários objectos, de que falámos, a
aceder ao aguardar do modo referido.
E- Dificilmente podemos alcançar a serenidade de
forma mais adequada do que por meio de uma
ocasião para nos envolvermos (eine Veranlassung
zum Sicheinlassen).
P- Sobretudo quando a ocasião é ainda tão pouco
aparente como o andamento silencioso de uma
conversa que nos move/encaminha (bewegt).
E- O que quer, pois, dizer que nos põe no cami-
nho. Caminho esse que parece não ser outra
coisa senão a própria serenidade...
P- que é algo como o Repouso.
E- partir daqui torna-se, de súbito, mais claro
para mim em que medida o movimento vem
Repouso e no Repouso permanece envolvido.
P- A serenidade seria, então, não apenas o cami-
nho (Wég) mas também o caminhar/movi-
mento (Bewegung).
E- Para onde vai este estranho caminho e onde
Repousa o caminhar que lhe é próprio?
onde/onde poderia ser senão para/em a
Região, em relação à qual a serenidade é o que é?

45
I - Tenho de perguntar finalmente agora - em que
medida é de facto a serenidade aquilo em
que eu me procurava envolver?
E - Com esta pergunta põe-nos nurn terrível
embaraço.
P - É o embaraço em que nos encontramos cons-
tantemente no nosso caminho.
I - De que modo?
P - Uma vez que aquilo que antes denominamos
corn uma palavra nunca tem a respectiva pala-
vra, como nome, pendurada como um letreiro.
I - Aquilo que denominamos é, à partida, sem-
-nome (namenlos); portanto, o mesmo acontece
ao que denominamos serenidade. Então por
que nos orientamos para avaliar que o nome é
adequado e até que ponto é adequado?
E - Ou não passa qualquer denominação de um
acto arbitrário relativamente ao sem-nome?
P - Mas está então, assim, decidido que existe o
sem-nome? Muitas coisas são muitas vezes para
nós indizíveis, mas apenas pelo simples facto de
não nos ocorrer o seu nome.
E - Com base em que denorninação?
P - Talvez estes nomes não resultem de uma deno-
minação (Benennung). Devem-se a uma nomea-
ção (Nennung) na qual surgem sobretudo o
nomeável, o nome e o nomeado.
I - O que acabou de dizer sobre a nomeação é para
mim obscuro.
E - O que deve certamente estar relacionado com a
essência da palavra.

46
I - Por outro lado, entendo melhor a observação
que fez sobre a denominação e sobre a não
existência do sem-nome.
E - Porque o podemos verificar no caso do nome
«serenidade».
P - Ou já verificámos.
I - Em que medida?
P - O que é isso que você denominou com o
nome serenidade?
I - Se me permite, não fui eu quem usou o nome,
mas sim você.
P - Tal como você também não fui eu quem proce-
deu à denominação.
E - Quem foi então? N"enhum de nós?
P - Provavelmente; pois, na região, onde nos
encontramos, só se não tiver sido nenhum de
nós é que tudo estará na melhor ordem.
I - Uma região enigmática onde não há nada que
possa responder (verantworten).
P - Porque é a região da palavra que apenas res-
ponde perante si própria.
E - Só nos resta escutar a resposta conforme à
palavra.
P - Isso é suficiente; mesmo quando o nosso dizer
não passa de unI repetir (Nachsagen) da resposta
ouvida...
I - quando não faz diferença que um seja o primeiro
e quem é o primeiro a repetir, tanto mais que
ele, frequentemente, não sabe quem repete
quando o diz.

47
E ~ Por isso não queremos discutir sobre quem
introduziu primeiramente na conversa o nome
«serenidade»: queremos apenas reflectir sobre
o que é isso que denominamos deste modo.
I - É, falando a partir da minha experiência men-
cionada, o aguardar.
P - Portanto, não algo sem-nome mas sim algo já
denominado. O que é este aguardar?
I - Na medida em que se relaciona com o aberto,
e este é a Região, podemos dizer que o aguar-
dar é uma relação com a Região.
P - Talvez mesmo a relação com a Região, na
medida em que o aguardar se envolve na
Região e, ao admitir-se (Sicheinlassen) nela,
deixa a Região reinar meramente como Região.
E - Uma relação com algo seria então a verda-
deira relação, se esta for mantida na sua pró-
pria essência por aquilo com que se rela-
CIona.
P - A relação com a Região é o aguardar. E aguar-
dar significa: envolver-se no aberto da Região.
E - Portanto, entrar na Região.
I - Isso soa como se tivéssemos estado anterior-
mente fora da Região.
P - Estivemos e não estivemos. Não estamos nem
nunca estamos fora da Região, UIna vez que,
como seres pensantes, ou seja, ao mesmo
tempo, ao representar transcendentalmente,
permanecemos no horizonte da transcendên-
cia. O horizonte é, porém, o lado da Região
virado para o nosso poder de re-presentação

48
(Vor-stellen). A Região rodeia-nos e mostra-se-
-nos como horizonte.
E- Acho antes que ela se oculta (verhüllt) como
horizonte.
P- Certamente; mas, não obstante, estamos na
região ao representar transcendentalmente,
saindo para o horizonte. E, por outro lado, não
estamos dentro dela uma vez que ainda não
tínhamos acedido a ela própria como Região.
I - O que acontece, porém, no aguardar.
P- Ao aguardar, como você já disse, estamos liber-
tos (losgelassen) da relação transcendental ao
horizonte.
I - Este estar-liberto (Gelassensein) é o primeiro
momento da serenidade. No entanto, não atinge,
e muito menos esgota, a sua essência.
E- Como assim?
P- A autêntica (eigentliche) serenidade pode acon-
tecer sem que o estar-liberto da transcendência
horizontal a preceda necessariamente.
E- Se a autêntica serenidade deve ser a relação
adequada com a Região e uma tal relação se
determina meramente a partir daquilo com que
se relaciona, a autêntica serenidade tem de
repousar na Região e ter recebido desta o movi-
mento para a Região.
P- A serenidade vem da Região, porque consiste
no facto de o Homem permanecer confiado/
/sereno (gelassen) à/na região, precisamente
através dela. Está-lhe confiado na sua essência
na medida em que pertence originalmente à

49
Região. Pertence-lhe na medida em que está
inicialmente a-propriado (ge-eignet) à Região
(Gegnet), precisamente através da própria
Região.
E- Com efeito, o aguardar, supondo que é um
aguardar essencial, isto é, um aguardar decisivo
a respeito de tudo, fundamenta-se no facto de
nós pertencermos àquilo porque aguardamos.
P- A partir da experiência do aguardar, isto é, do
aguardar pelo abrir-se da Região e na relação
com tal aguardar, esta foi re-ferida (an-gespro-
chene) como a serenidade.
E- A denominação do aguardar pela Região é, por
isso, correspondente (entsprechende).
I - Mas se a representação transcendental-hori-
zontal, da qual a serenidade se liberta pelo
facto de pertencer à Região, é, pois, a essência
do pensamento até agora dominante, então, na
serenidade, o pensamento a partir de uma tal
representação transforma-se no aguardar pela
Região.
P- A essência deste aguardar é, porém, a serenidade
em relação à Região. Mas como é a Região que
cada vez mais deixa que a serenidade lhe per-
tença, porque a deixa repousar em si, a essência
do pensamento repousa no facto de que
a Região, se assim o posso dizer, regionaliza
(vergegnet) em si a serenidade.
E- O pensamento é a serenidade em relação à
Região porque a sua essência repousa na regio-
nalização (vergegnis) da serenidade.

50
p - No entanto, com isso diz que a essência do
pensamento não pode ser determinada a partir
do pensamento, i. e., a partir do aguardar
enquanto tal, mas sim a partir do outro de si
mesmo (Anderer seiner selbst), ou seja, a partir
da Região, que é (west) na medida em que
regionaliza.
I - Pude seguir, de certo modo, tudo aquilo que
dissemos agora sobre a serenidade, Região e
regionalização; não obstante, nada consigo
representar sobre isso.
E - Também não deve fazê-lo, se quiser pensar no
que foi dito de acordo com a sua essência.
I - Quer dizer que, de acordo com a nova essência
do pensamento, aguardamos por algo.
E - Aguardamos pela regionalização da Região de
modo que esta regionalização permita que a
nossa essência aceda à Região, ou seja, à per-
tença à Região.
P - Mas, e se já estivennos apropriados à Região?
I - De que nos serve isso, no entanto, se ainda o
não estamos verdadeiramente?
E - Estamo-lo, portanto, e não o estamos.
I - De novo o inquieto vaivém entre sim e não.
E - Estamos como que suspensos entre ambos.
P - No entanto, a permanência (Aufenthalt) neste
entre é o aguardar.
E - E isso é a essência da serenidade, para a qual o
fazer região de encontro (Gegnen) da Região
(Gegnet) regionaliza (vergegnet) o Homem.

51
Nós pressentimos a essência do pensamento
corno serenidade.
P- Para a voltarmos rapidamente a esquecer.
I - Serenidade essa que eu próprio experienciei
como o aguardar.
P- Nós consideramos que o pensamento não é, de
modo algum, a serenidade subsistente por si só.
A serenidade em relação à Região é o pensa-
mento apenas como a regionalização da sereni-
dade. Regionalização que deixou a serenidade
aceder à Região.
E- A Região faz demorar-se agora também a coisa
na duração da extensão. Como havemos de
denominar o fazer região de encontro da Região
em relação à coisa?
I - Não pode pois ser a regionalização, uma vez
que esta é a relação da Região com a sereni-
dade, devendo a serenidade, no entanto, abrigar
dentro de si a essência do pensamento, mas as
próprias coisas não pensam.
P- As coisas são manifestamente coisas por meio do
fazer região de encontro da Região, como se
mostrou na nossa conversa anterior com o demo-
rar-se do jarro na extensão da Região. O mero
fazer região de encontro da Região não causa
nem produz as coisas, nem tão pouco a Região
causa a serenidade. A Região também não é, na
regionalização, o horizonte para a serenidade;
também não é o horizonte para as coisas, quer as
tenhamos apenas experienciado como objectos,
. ..
quer as VIsemos como as «COIsas em SI», repre-
sentadas a partir dos objectos.

52
E - Aquilo que diz agora parece-me ser tão decisivo
que gostaria de tentar fixar o que foi dito na ter-
minologia erudita. Com efeito, sei muito bem
que a terminologia não só cristaliza (erstarren
lasst) os pensamentos como simultaneamente
os toma de novo ambíguos, correspondendo à
ambiguidade (Vieldeutlichkeit) inevitavelmente
inerente às tenninologias usuais.
P - Depois dessa reserva erudita, pode falar à von-
tade de forma erudita.
E -De acordo com a sua exposição, a relação da
Região com a serenidade não é nem uma rela-
ção de efeito causal nem a relação horizontal-
-transcendental. Abreviando e generalizando:
a relação entre a Região e a serenidade, se é
que ainda é urna relação, não pode ser pensada
nem como ôntica nem como ontológica...
P - apenas como a regionalização.
I - Do mesmo modo, também agora a relação
entre Região e coisa não é uma relação de efeito
causal, nem a relação transcendental-hori-
zontal, portanto, também não é nem ôntica
nem ontológica.
E - Mas é evidente que a relação da Região com a
coisa também não é a regionalização, que diz
respeito à essência do homem.
P - Como devemos então denominar a relação da
Região com a coisa se a Região deixa demorar-se
(weilen liisst) a coisa em si própria como a coisa?
I - A Região condiciona a coisa a ser coisa (bedingt
das Ding zum Ding).

53
E - Por isso se deve antes chamar a essa relação o
Condicionamento (das Bedingnis).
I - Mas o Condicionar não é um fazer e causar;
nem um possibilitar no sentido do transcen-
dental...
P - mas apenas o Condicionamento.
I - Temos portanto, antes de mais, que aprender a
pensar o que é o condicionar...
P - ao aprendermos a experienciar a essência do
pensamento ...
E - e aguardar portanto pelo Condicionamento e
pela regionalização.
I - Contudo, agora as denominações já são uma
ajuda para trazer uma certa transparência à
multiplicidade de relações mencionadas. É ver-
dade que ainda permanece indeterminada jus-
tamente a relação em cuja caracterização eu
estou mais interessado. Refiro-me à relação do
Homem com a coisa.
E - Por que está tão teimosamente preso a essa
relação?
I - Não partimos anteriormente do princípio de
esclarecer a relação entre o eu e o objecto
a partir da relação de facto do pensamento
físico com a Natureza? A relação entre o eu e
o objecto, muitas vezes designada relação
sujeito-objecto (Subjekt/Objekt), que eu consi-
derava a mais geral, é, manifestamente, ape-
nas uma variação histórica da relação do
Homem com a coisa, desde que as coisas se
possam tornar objectos (Gegenstiinden) ...

54
P - em que se tomaram mesmo antes de atingirem
a sua natureza coisal (Dingwesen).
E - O mesmo é válido em relação à respectiva
mutação histórica da natureza humana (Menschn-
wesens) em egoidade (Ichheit)...
P - que teve lugar igualmente antes que a essência
pudesse regressar a si própria...
I - caso não consideremos como definitiva a carac-
terização da essência do homem como animal
racionale...
E - o que dificilmente será possível depois da con-
versa de hoje.
I - Hesito em decidir-me tão rapidamente nesse
sentido. Entretanto, outra coisa ficou clara para
mim: na relação entre o eu e o objecto oculta-
-se algo de histórico que pertence à história da
essência do homem.
P - É apenas porque a essência do homem não recebe
as suas características do Homem, mas sim
daquilo que designamos por Região e a sua
regionalização, que a história que você pressente
acontece (ereignet) como a história da Região.
I - Não consigo segui-lo até tão longe nos meus
pensamentos. Fico satisfeito se a perspectiva
(Einsicht) sobre o carácter histórico da relação
entre o eu e o objecto esclarecer uma obscuri-
dade que me ficou. Com efeito, quando me decidi
pelo lado metodológico da análise das Ciências
da N"atureza matemáticas, você disse que esta era
uma consideração Histórica (historische).
Afirmação que você contestou vivamente.

55
I - Agora estou a ver o que queria dizer. O projecto
matemático e a experiência baseiam-se na
relação do Homem como Ego com a coisa
como objecto.
P - Você até contribui para o esclarecimento desta
relação e para trazer à luz (entfalten) a sua natu-
reza histórica.
I - Se designarmos Histórica qualquer considera-
ção que versa sobre o histórico (Geschichtliches),
então a análise metodológica da Física é, de
facto, Histórica. "
E - Em que o termo «Histórico» significa um modo
de conhecer e é entendido em sentido lato.
P - Provavelmente na direcção do histórico que
não consiste nos eventos nem nos feitos do
mundo.
E - Nem nas realizações culturais do Homem.
I - Em que consiste então?
P - O histórico repousa na Região e no que acon-
tece como Região que, remetendo-seIconce-
dendo-se (sich zuriickschickend) ao Homem, o
regionaliza na sua essência.
E - Essência que, no entanto, mal experienciámos,
uma vez que ainda não se cumpriu na racionali-
dade do animal.
I - Numa tal situação só podemos aguardar pela
essência do homem.
P - Na serenidade, por meio da qual pertencemos à
Região, que oculta ainda a sua própria essência.
E - Pressentimos a serenidade em relação à Região
como a essência do pensamento procurada.

56
P - Quando acedemos à serenidade em relação à
Região queremos o não-querer.
I - A serenidade é, de facto, o libertar-se do repre-
sentar transcendental e, assim, um prescin-
dir do querer do horizonte. Este prescindir
já não procede de um querer, a não ser que
o motivo para a admissão (Sicheinlassen) na
pertença à região careça de um vestígio do que-
rer, vestígio esse que, porém, desaparece na
admissão e se extingue por completo na sereni-
dade.
E - Mas em que medida é que a serenidade se refere
ao que não é um querer?
P - Depois de tudo o que dissemos sobre ° demo-
rar-se da extensão que dura, o deixar repousar
no retorno, o fazer região da Região, dificil-
mente se pode falar da Região como vontade.
E - Já ° facto de a regionalização da Região, bem
como o Condicionamento, serem essencial-
mente exteriores a qualquer actividade ou cau-
sação, mostra quão decisivamente toda a essên-
cia da vontade é estranha a tudo isso.
P - Pois toda a vontade quer ter efectividade (wir-
ken) e quer a realidade efectiva (Wirklichkeit)
como seu elemento.
I - Com que facilidade não poderia uma pessoa
que nos ouvisse dizer isto ser levada a afirmar
que a serenidade paira no irreal (Unwirklichkeit)
e, desse modo, na nulidade (im Nichtigen), e é
mesmo destituída de qualquer energia activa,
um permitir avolitivo de tudo e, no fundo, a
negação da vontade de viver!

57
E - Considera então necessário prevenir essa even-
tual interpretação errónea da serenidade, mos-
trando em que medida existe também nela algo
como energia activa (Tatkraft) e resolução?
I - Penso isso mesmo, embora não negue que
todos estes nomes induzem imediatamente a
interpretações erróneas da serenidade como
tendo um teor de vontade.
E - Teríamos então de pensar por exemplo a pala-
vra «resolução» (Entschlossenheit) tal como é
pensada em «Ser e Tempo»: como o propria-
mente assumido abrir-se do ser-aí ao aberto...
P - e é assim que pensamos a Região.
E - Se, em conformidade com o dizer e o pensar
grego, experienciarmos a essência da verdade
como a não-ocultação e o descobrimento
(Unverborgenheit und Entbergung), lembramo-
-nos de que a Região é, provavelmente, o ser
(Wesende) oculto da verdade.
I - Então a essência do pensamento, a saber,
a serenidade em relação à Região, seria a reso-
lução para a verdade que está a ser (wesenden
Wáhrheit).
P - Na serenidade poderia ocultar-se uma persis-
tência (Ausdauer) que consiste simplesmente no
facto de a serenidade interiorizar (inne wird)
cada vez mais claramente a sua própria essência
e nela se instalar persistentemente.
E - Isso seria um comportamento (Verhalten) que
não se tornaria uma atitude (Haltung) , mas
que se recolheria na contenção (Verhaltenheit)

58
que permaneceri,a sempre como a contenção
da serenidade.
P- Portanto, a serenidade persistente e con-
tida seria o acolhimento da regionalização da
Região.
I - A persistência contida, através da qual a sereni-
dade repousa na sua essência, seria o que pode-
ria corresponder ao mais alto querer, mas que,
no entanto, não o poderia. Para este repousar-
-em-si da serenidade que permite justamente a
sua pertença à da regionalização da Região...
P- e de certo modo também ao Condicionamento...
I - para esta persistência do pertencer, repousando
em si, à Região, falta-nos ainda a palavra.
E- Talvez a palavra «insistência» (Instiindigkeit) o
pudesse designar. Li uma vez uns versos, em
casa de um amigo, que ele tinha copiado de
qualquer sítio, que contêm um esclarecimento
desta palavra. Tomei nota dos versos, que são
os seguintes:

INSISTÊNCIA (INSTÃNDIGKEIT)

Receber a salvo
Para longa constância
A verdade que está a ser
Nunca só algo verdadeiro
Que o coração pensante peça
À singela paciência
A generosidade única
Do nobre recordar

59
P - A insistência na ·serenidade em relação à Região
seria, segundo tal, a autêntica essência da
espontaneidade do pensamento.
E - E, segundo os versos mencionados, o pensa-
mento seria a evocação (Andenken) , parente da
nobreza.
P - A insistência da serenidade em relação à Região
seria a própria nobreza de espírito.
I - Parece-me que esta noite excepcional vos leva a
ambos a devanear.
P - Certamente, se se refere ao devanear no aguar-
dar, por meio do qual aguardamos cada vez
mais e ficamos cada vez mais sóbrios.
E - Cada vez mais pobres na aparência e, no entanto,
mais ricos em a-caso (Zu-fall).
\I - Então diga você, se faz favor, também na sua
estranha sobriedade, em que medida a sereni-
dade pode ser parente da nobreza.
E - Nobre é aquilo que tem proveniência (Herkunft).
P - Não só a tem como se demora na proveniência
(Herkunft) da sua essência.
I - Então a verdadeira serenidade consiste, pois,
no facto de o Homem, na sua essência, perten-
cer à Região, isto é, ser-lhe confiado (gelassen ist).
E - Não ocasionalmente, mas - como dizê-lo - de
antemão.
I - À partida, para fora da qual, na verdade, não
podemos pensar...
E - Rorque a essência do pensamento começa aí.
I - É, portanto, no não previamente pensável que
a essência do homem é confiada à Região.

60
E - Razão pela qual nós também acrescentámos
imediatamente: precisamente através da pró-
pria Região.
P - Apropria (vereignet) a essência do homem à sua
própria Região.
I - Assim esclarecemos a serenidade. No entanto,
como reparei, não chegámos a reflectir sobre a
razão pela qual a essência do homem é apro-
priada à Região.
E - Pelos vistos, a essência do homem é confiada à
Região porque esta essência pertence tão essen-
cialmente à região que esta, sem a essência do
homem, não pode ser como é (nicht wesen kann,
wie sie west).
I - Isso é quase impensável.
P - É impensável enquanto quisermos representá-
-la, ou seja, colocá-la à força diante de nós como
uma relação objectiva no modo da presença
(vorhandene) entre o objecto denominado
«Homem» e o objecto denominado «Região» .
I - Pode ser. Mas será que, mesmo no caso de o
tomarmos em conta, não permanece uma difi-
culdade insuperável na afirmação da relação
essencial entre a essência do homem e a
Região? Caracterizávamos há pouco a Região
como a essência oculta da verdade. Mas se, para
simplificar, dissermos, em vez de Região, ver-
dade, então a afirmação (Satz) da relação entre
a região e a essência do homem passa a ser a
seguinte: a essência do homem é transpropriada
(übereignet) para a verdade, porque a verdade

61
precisa do Homem. Mas não é então o carácter
distintivo da verdade, e justamente no que con-
cerne à.. sua relação com o Homem, o facto de
ela ser aquilo que é independentemente do
Homem?
E- Com o que disse aflora uma dificuldade que
certamente só podemos discutir quando tiver-
mos expressamente esclarecido a essência da
verdade e determinado com mais clareza a
essência do homem.
P- Estamos apenas a caminho de ambas; não obs-
tante, gostaria de tentar delimitar a asserção
sobre a relação da verdade com o Homem de
modo a ficar ainda mais claro aquilo sobre o
qual teremos de meditar caso venhamos a
reflectir expressamente sobre esta relação.
I - Aquilo que você quer dizer sobre isso penna-
nece assim, por enquanto, uma simples asserção
(Behauptung).
P- Decerto; e quero dizer o seguinte: A essência
do homem é unicamente confiada (gelassen) à
Região e utilizada por esta em conformidade
porque o Homem, por si, nada pode sobre a
verdade e esta permanece independente dele.
A verdade só pode, portanto, ser independente
do Homem, porque a essência do homem é uti-
lizada como a serenidade em relação à Região,
pela região, na regionalização, para defesa do
Condicionamento. A independência da verdade
em relação ao (vDm) Homem é, pois, notoria-
mente uma relação com (zum) a essência do

62
homem, relação essa que Repousa na regionali-
zação da essência do homem na Região.
E- Se assim fosse, o Homem moraria (weilt) como
o insistente na serenidade em relação à Região
na origem da sua essência que nós, por isso,
poderíamos delimitar do seguinte modo: O
Homem é o que é utilizado na essência da
verdade. Morando de tal modo na sua origem,
o Homem seria encorajado (angemutet) pela
parte nobre da sua essência. Ele pressentiria
(vermutete) a nobreza de carácter (Edelmütige).
I - Este pressentir não poderia, pois, ser outra
coisa senão o aguardar, que é como pensamos a
insistência da serenidade.
E- Se a Região fosse, assim, a extensão que se
demora, a paciência (Langmut) poderia ainda
pressentir (vermuten) mais longe, poderia pres-
sentir a própria extensão da duração, porque é
ela quem pode aguardar mais tempo.
P- A nobreza de carácter longânime seria o puro
repousar-em-si do querer que, renunciando ao
querer, se tinha entregado (eingelassen) ao que
não é uma vontade.
E- A nobreza de carácter seria a essência do pensa-
mento (Denkens) e, com isso, do agradecimento
(Dankens).
P- Desse agradecimento que não apenas agradece
por algo, mas que apenas agradece poder agra-
decer.
E- Com esta essência do pensamento teríamos
encontrado o que procuramos.

63
I - Supondo que tivéssemos encontrado aquilo em
que parece repousar tudo o que foi dito na
nossa conversa. Isto é, a essência da Região.
P - Como se trata apenas de uma suposição, tam-
bém há muito tempo que, como você talvez
tenha observado, dizemos tudo apenas de
forma hipotética.
I - Do mesmo modo, também não posso reter por
mais tempo a confissão de que ficámos mais
perto da essência da Região, enquanto ela
própria me parece estar mais longe do que
nunca.
E - Quer dizer com isso que está na proximidade
da essência da Região e, no entanto, longe dela
própria?
I - Mas a própria Região e a sua essência não
podem ser duas coisas diferentes, caso se possa,
porventura, falar aqui de coisas.
E - O mesmo (Selbst) da Região é provavelmente a
sua essência e o Mesmo que ela mesma (das
Selbe ihrer selbst).
P - Então talvez possamos exprimir a nossa expe-
riência, durante a conversa, dizendo que nos
aproximámos da Região e, ao mesmo tempo,
permanecemos longe dela, na medida em que o
permanecer (Bleiben) é, na verdade, regressar.
E - Com aquilo que diz, ficaria, pois, apenas deno-
minada a essência do aguardar e da serenidade.
I - Mas, o que dizer então da proximidade e da
distância no seio das quais a Região se ilumina
e se encobre, se aproxima e se afasta?

64
E - Estas proximidade e distância não podem ser
nada fora da Região .
P - Porque a Região, ao fazer região de encontro
de tudo (alles gegnend), reúne tudo e deixa/faz
tudo regressar a si mesmo, no autêntico repou-
sar no Mesmo (Selbe).
I - Então a própria Região seria o que aproxima e
o que afasta.
I - A Região seria ela própria a proximidade da
distância e a distância da proximidade...
E - caracterização que não devemos pensar de
forma dialéctica...
P - mas sim?
I - Apenas segundo a essência do pensamento
determinado a partir da Região.
E - Portanto que aguarda, insistente na sereni-
dade.
P - O que seria então a essência do pensamento se
a Região fosse a proximidade da distância?
E - Isso já não se pode dizer com uma única pala-
vra. Aliás, conheço uma palavra que até há
pouco tempo ainda pareceu apropriada para
denominar adequadamente a essência do
pensamento e, com isso, também do conheci-
mento.
I - Gostaria de ouvir essa palavra.
E - É uma palavra que me ocorreu já aquando da
nossa primeira conversa. Era a esta expressão
que me referia também quando observava, no
início da conversa de hoje, que devia um pre-
cioso estímulo à nossa primeira conversa numa

65
vereda. Já várias vezes quis avançar também
esta palavra no decurso da conversa de hoje.
Mas pareceu-me sempre ser pouco adequada
àquilo que se aproximava de nós como a essên-
cia do pensamento.
I - Fala com tanto mistério da sua ideia, como se
não quisesse revelar cedo demais algo que des-
cobriu.
E - Não fui eu quem descobriu a palavra em que
estou a pensar; é apenas uma ideia erudita.
I - É então, se me é permitido dizer, uma recor-
dação Histórica?
E- Se quiser. Ter-se-ia até adaptado bem ao estilo
da nossa conversa de hoje, durante a qual, várias
vezes, introduzimos palavras e frases que
provêm do pensamento helénico. Mas agora a
palavra em questão já não se adequa àquilo que
tentamos denominar com uma única palavra.
P - Refere-se à essência do pensamento que, como a
serenidade insistente em relação à Região, é a
relação humana essencial com a Região, que
pressentimos como a proximidade em relação à
distância.
I - Mesmo que a palavra já não se adeque agora,
poderia revelá-la no fim da conversa, pois já
nos aproximámos de novo das habitações
humanas e, de qualquer modo, temos de termi-
nar a conversa.
P - A palavra que já não se aplica agora, a qual fun-
cionou anterionnente para você como estímulo
precioso, também poderia mostrar-nos com

66
clareza que entretanto chegámos perante algo
indizível.
E- A palavra é uma palavra de I-Ieraclito.
I - De que fragmento retirou a palavra?
E- A palavra veio-me à ideia porque aparece sozi-
nha. É a palavra única que constitui o frag-
mento 122.
I - Não conheço esse fragmento, o mais curto, de
Heraclito.
E- Também mal se lhe dá importância porque a
pouco pode levar uma palavra isolada.
I - Em que consiste esse fragmento?
E - 'A'YXL(3a.<TL'Yl
I - Que quer dizer?
E - Traduz-se a palavra grega pela palavra alemã
«Herangehen» (aproximar-se).
I - Considero esta palavra um nome excelente para
denominar a essência do conhecimento; pois o
carácter do avançar (Vorgehens) e do aproxi-
mar-se (Zugehens) dos objectos é expresso aí de
forma convincente.
E - Também me pareceu isso quando falámos na
nossa primeira conversa sobre a acção, a reali-
zação, o trabalho no conhecimento moderno e
sobretudo na investigação.
I - Poder-se-ia utilizar a palavra grega precisa-
mente para tomar claro que a investigação no
domínio das Ciências da N átureza é uma espé-
cie de ataque à natureza que, não obstante,
deixa/faz a natureza falar. «Herangehen»
(aproximar-se): Poderia imaginar esta palavra

67
de Heraclito como epígrafe para uma dis-
sertação sobre a essência da ciência mo-
derna.
E- Por essa razão também hesito em proferir a
palavra; pois não atinge de modo algum
a essência do pensamento que presumíamos a
caminho.
I - Pois o aguardar é, aliás, quase o movimento
contrário do aproximar-se.
E - Para não dizer o contra-repouso (Gegenruhe).
P - Ou simplesmente o repouso. Então está deci-
dido que 'A-YXLf3cxcrLl1 significa o aproximar-se?
E - Literalmente traduzido significa: «ir próximo»
(Nahegehen).
P - Poderíamos talvez também pensar: «ir-à-proxi-
midade» (In-die-Niihe-gehen).
I - Entende isso literalmente no sentido de «ser-
-admitido-no-seio-da-proximidade» (In-die-
lViihe-hinein-sich-einlassen)?
P - Mais ou menos.
E - Então esta palavra seria, pois, o nome, e talvez
o mais belo nome, para aquilo que encontrá-
mos.
P - O qual, não obstante, procuramos ainda na sua
essência.
E - «ir-à-proximidade» (in-die-Nlihe-gehen). Parece-
-me agora que a palavra poderia ser antes o
nome para o nosso passeio de hoje na vereda.
P - Que nos guiou pela noite dentro...
I - cujo brilho é cada vez mais deslumbrante...
- e supera em maravilha as estrelas...

68
P - porque aproxima entre si as suas distâncias no
céu...
I - pelo menos para o observador ingénuo, não
para o investigador exacto.
P - Para a criança no Homem, a noite permanece a
aproximadora/costureira (Ntiherin) das estrelas.
E - Ela junta sem costura, bainha, nem linha.
I - Ela é a costureira/aproximadora porque só tra-
balha com a proxilnidade.
E - Caso ela alguma vez trabalhe e não repouse
antes...
P - ao adInirar as profundidades da altura.
E - Assim, poderia a admiração abrir o que está
fechado?
I - Conforme o tipo de aguardar...
P - se for um aguardar sereno (gelassenes) ...
E - e a essência do homem aí permanecer a-pro-
priada...
P - àquilo de onde somos chamados (gerufen).

69
REFIJKÊNélAS
o discurso foi pronunciado aquando da celebração do
175. o aniversário do nascimento do compositor Conradin
Kreutzer, em Messkirch, a 30 de Outubro de 1955.

A discussão é retirada de uma conversa entre um investiga-


dor (I), um erudito (E) e um professor (P), registada por
escrito em 1944/45.

Relativamente à duplicidade (Zwiefalt) referida na con-


versa, confrontar com as conferências O que significa pensar?,
Niemeyer Editora, lubingen, 1954.

73
/

lNDICE
SERENIDADE............................................................... 7

PARA DISCUSSÃO DA SERENIDADE..................... 29


De uma conversa sobre o pensamento, que teve lugar
num caminho de campo........................................... 29

REFERÊNCIAS............................................................. 71

77