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Partidos

Um texto de Aureliano Ariza

 

ATO I

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Cena 1

As luzes vagarosamente se acendem. Vê-se no chão um colchão onde estão dispersos vários objetos:

uma camisa de botão masculina, alguns CD, uma escaleta, revistas, textos xerocados. Ao lado do colchão há um manequim masculino nu. Pelo lado do palco entra o Ator 1 que para de costas para o colchão e de frente para a platéia. Ele veste negro.

Uma música melancólica irrompe e o ar adquire um peso triste. O ator pega uma caixa que estava sobre o colchão e se dirige à platéia. Com uma feição muito séria ele distribui entre as pessoas o conteúdo da caixa: fotos dele com o ex namorado, em vários lugares. São também distribuídos bilhetes e outras recordações de uma relação amorosa.

Após um momento, o ator coloca a caixa novamente no chão e olha para frente, encarando a platéia, de costas para o colchão. Seus olhos marejam. A música termina.

ATOR 1 Foram dois anos e quatros meses. Dois anos, quatro meses e 6 dias. (Riso triste). No dia que ele

terminou comigo eu não entendi porquê. Tava tudo tão

bem

lembro direito. Ele chegou, ele morava em outra

cidade, ele chegou, eu tinha feito macarrão porque eu sabia que ele gostava, mas ele nem comeu, porque foi

tão rápido

ele tava estranho, eu podia ter deixado pra lá, mas eu perguntei. Eu fiz a burrada de perguntar.

Bom,

eu achava, né? E foi muito rápido, eu não

(Breve

silêncio) Ele chegou, eu vi que

Daniel se dirige ao manequim e fica de frente pra ele.

ATOR 1 O que que foi? Tá tudo bem?

Daniel se vira novamente para a platéia.

ATOR 1 Eu caí na burrada de perguntar. (Riso sofrido). Às vezes eu fico pensando que se eu não tivesse perguntado No fim relacionamento é isso, a gente precisa escolher o que quer saber. Mas, enfim, eu perguntei:

O que que foi? Tá tudo bem? Eu perguntei de um jeito doce, sabe? Aí eu não lembro de mais nada. Eu só lembro que depois já tava na sala sozinho e a casa parecia grande, muito grande.

(CONTINUED)

CONTINUED:

2.

O ator começa a desabotoar a própria camisa

enquanto fala.

Assim que termina de tirar a camisa, o Ator 1 começa a vestí-la no manequim. Em seguida ele tira a calça e também a veste no manequim.

ATOR 1 Ele foi embora e tal e eu fiquei. Uma pessoa quando decide ir embora, ela também tá dizendo pra outra:

Você fica! Então é um movimento duplo, o da partida consentida e da imobilidade forçosa de quem fica. Mas então, o que importa: ele foi e eu fiquei. E com o tempo lá em casa eu fui encontrando um monte de coisa que ele esqueceu: uma camisa, um texto, um cd, essa merda dessa escaleta. E com o tempo eu fui juntando tudo, pra jogar fora, né? Mas não tive coragem. Não tive.

O ator vai até o colchão e pega um kit de

maquiagem. Ele vai até o manequim e começa a maquiar o rosto dele.

ATOR 1 Quando ele foi embora, eu fiquei assim quieto na sala, sentindo o cheiro daquele macarrão já frio. E pensando: porra, uma pessoa que eu amo, amava, saiu pela a porta, foi embora. Era pra eu tá triste. Talvez eu até tivesse, mas eu não sentia direito. Era como se a tristeza passasse assim na minha frente e não me encostasse. Era meio um nada, um pasmo, sei lá. Parecia fome. Daí eu fui até a cozinha, esquentei o macarrão e comi a panela toda. Sozinho. Depois fiquei deitado vendo big brother até cair no sono. Um pouco antes de dormir, eu lembro de pensar assim:

graças a deus!

Nesse momento o manequim já está todo maquiado.

O ator lhe beija a boca. As luzes se apagam. Um

música irrompe.

3

Cena 2

Com a mesma música tocando, as luzes lentamente se ascendem. Vemos surgir no proscênio um cenário completamente vazio com apenas a presença do Manequim. novamente nu e sem maquiagem. No meio desse ambiente, olhando para

a platéia está a atriz.

A música se encerra e a atriz encara a platéia

com o olhar melancólico, mas fixo e duro. Ela

encara o horizonte.

Começa a soar ao fundo ruídos de mãos digitando ao teclado.

(CONTINUED)

CONTINUED:

3.

ATRIZ "Zé Carlos, seja bem-ido da minha vida. Queria dizer "obrigada por tudo", mas não fui obrigada a nada, então, muito consentida. Por favor, me poupe do seu orgulhoso "de nada", ou "imagina". Primeiro porque não foi "de nada", as cicatrizes estão aí pra provar; depois, chega da sua dissimulação.

Breve silêncio. O barulho de digitação cessa. A pose rígida da atriz se arrefece. Seu olhar não

é mais fixo. Ela fala agora casualmente com a platéia.

ATRIZ Eu queria escrever bonito mesmo, sabe? Porque eu acredito no estilo. O estilo, se bem usado, pode ser uma arma letal.

O som de digitação retorna

A atriz volta a falar com olhar volta fixo em

algum ponto no horizonte. Seu semblante é

triste.

ATRIZ Leve a minha retórica, que funcionou de embalagem nada hermética pro nosso relacionamento. Te escrevo, antes de tudo, porque o que você mais gostou de mim foram sempre as palavras. Você me amou, se me amou, foi muito por elas. Se me permite uma sugestão, não deixe que "ela" descubra quão íntimos nos tornamos através das palavras. Olha, como mulher eu fui difícil, mas como ex-mulher, mesmo com toda distância, provavelmente eu vou ser um tormento. (Silêncio)

Ela volta a falar casualmente com a platéia, perdendo a rigidez de seu corpo.

ATRIZ O email é longuíssimo e continuava por vários parágrafos, mas o tom é mais ou menos esse que vocês ouviram.

A atriz fica mais animada à medida que fala. Ela

anda pelo palco.

ATRIZ Se eu não podia ter mais nada dele, que pelo menos eu tivesse o seu tempo. Que ele sentasse e gastasse tempo pra ler, que tivesse que disfarçar entre um parágrafo e outro pra "ela" não perceber que era meu email que ele tava lendo, porque mesmo estando do lado "dela" é a mim que ele vai querer ler e vai ser sempre eu que

(CONTINUED)

CONTINUED:

4.

Um som de mensagem recebida soa no ambiente. A expressão da atriz muda completamente. Ela fica triste e séria. Um foco de luz ilumina o manequim, o que faz com que a atriz olhe pra ele. A luz sob a atriz vai diminuindo, ao ponto de vermos apenas o manequim.

Sons de digitação retornam.

ATRIZ (COM OUTRO TOM DE VOZ) Sônia, não é preciso ter vivido tantos anos contigo para identificar sua ambivalência infantil. O próximo otário vai sacar logo. Mas eu, eu ainda tenho uma correção a te fazer, duas ratificações, uma recusa e um elogio.

Os sons de digitação se interrompem. A atriz invade a luz do manequim, ficando bem próxima dele.

ATRIZ(OLHANDO PRA PLATÉIA) Tinha muitos anos que ele não me chamava de Sônia. Do email todo, de tudo que seguiu depois, o mais doído foi ele me chamar de Sônia. Depois de ser investida em um apelido, é muito triste voltar a ter nome.

O olhar dela volta para o manequim. Ela se

afasta da luz. O som de digitação retorna. A medida que a próxima fala se segue as cores da luz sobre o manequim vão se alterando, melancolicamente.

ATRIZ Olha, como mulher realmente você foi um tormento, mas como ex, está se saindo bem melhor. Sua vingança é um agente infiltrado do desejo. Essa sua língua ferina me cobre de uma baba da qual vou sentir saudade. Aquela antiga delicadeza do seu dente contra minha glande. Sua demanda de amor velada por essa frágil camada de raiva me faz me sentir um Super Homem, Sônia. Mas acho que já não sou mais refém das suas palavras. É triste, mas é verdade, em algum momento impreciso os fatos adquiriram mais poder do que as palavras.

A atriz anda em círculos em volta do manequim.

Sua fala aumenta progressivamente em volume, a medida que ela acelera também o caminhar.

SÔNIA Acabo de notar que tenho outra correção a te fazer. A minha escolha não foi entre você e ela. Se fosse o caso, concordo, teria sido péssima. Ela é apenas uma contingência, agora te deixar foi uma necessidade.

A luz sobre o manequim se apaga abruptamente,

assim como a projeção. A atriz para de rodar.

Ofegante, ela encara a platéia.

(CONTINUED)

CONTINUED:

5.

ATRIZ Trocamos exatos 32 emails. Eu não sabia eu ele tínhamos tanto vocabulário para ofender um ao outro. No último email que ele me mandou, ele disse pra eu não me esquecer que amar e deixar de amar uma pessoa são direitos básicos de qualquer um. E isso foi foda, foi pior que qualquer palavrão que ele falou. Pior que me chamar de Sônia. Foi foda porque eu concordava. Porque eu mesmo naquela altura, não sabia mais se eu amava ele. E isso doia pra caralho.

A atriz caminha até o manequim e começa a

retirar alguns membros do seu corpo, retirando

do espaço vazio de seu corpo cinza (de carvão).

A cada porção retirada ela atira no ar.

ATRIZ O último parágrafo que escrevi pra ele dizia assim:

Ouve-se sons de digitação bastante lentos.

ATRIZ Nosso fim tem muitas explicações, muitas traições, muitas verdades. Mas apenas uma palavra. Agora me parece claro que nunca tenhamos dividido seu nome. Talvez nossa futura família pudesse ter tido entre todos apenas este sobrenome, um que não se herda, mas se constata. Que não se transmite, mas se cria. Que não é nem meu, nem seu. Desilusão. Desilusão.

As luzes se apagam lentamente.