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PEDRO MANUEL MACHADO DA SILVA FARIA

A INTEGRAÇÃO DE CONCEITOS BIOCLIMÁTICOS


NO PLANEAMENTO E NA CIDADE

Tese apresentada para a obtenção de grau de Doutor


no curso de Doutoramento em Urbanismo, conferido
pela Universidade Lusófona de Humanidades e
Tecnologia

Orientador: Prof. Doutor Mário Canova Moutinho


Co-Orientador: Prof. Doutor António Santa-Rita

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia


Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

Lisboa

2012
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Compact cities tend to be more sustainable than sprawling


cities. Urban form can be important in determining land and
energy use and the cost of infrastructure and municipal
services. (World Bank, p. ix, 2009)

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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Agradecimentos

Professor Doutor Mário Canova Moutinho


Professor Doutor António José Marques Vieira de Santa-Rita
Sem eles não saberia o que é uma tese.

Engenheiro Ernesto Peixeiro Ramos


Engenheiro Rolf Nordlinder
Professor Doutor Jeff Raven
Pela experiência e noções científicas da química física.

Eva
António
Sem eles, nada teria sido feito.

ADENE - Agência para a Energia,


INE – Instituto Nacional de Estatística
Pela informação prestada.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Resumo

Temas como «sustentabilidade» e «bioclimática» têm-se tornado cada vez mais


populares no século XXI, à escala global. Estas questões têm sido abordadas de diversas
formas e perspetivas, por vezes sem consciência das origens dos conceitos e dos seus
significados concretos.
No âmbito do Urbanismo, o conceito de bioclimática é relativamente novo e no
presente trabalho pretende introduzir-se instrumentos necessários para estabelecer novos
indicadores na gestão e no planeamento urbano. A bioclimática está associada diretamente ao
aproveitamento dos recursos que a natureza providencia, mas também ao conforto do ser
humano no seu próprio habitat.
Se no interior de edifícios de habitação ou de serviços os níveis de conforto se
encontram definidos por instituições como a ASHRAE – American Society of Heating,
Refrigerating and Air-Conditioning Engineers – no espaço urbano existem outras
condicionantes cuja importância depende, antes de mais, do clima existente. A densidade
urbana e o tipo de volumetria dos quarteirões e corpos de edifícios podem conduzir a perdas
energéticas significativas, além da despesa inerente gerada, sobretudo nas infraestruturas e
equipamentos públicos, conforme o relatório LGDB 2009 – Little Green Data Book – do
Banco Mundial. O ser humano continua a polarizar a atenção em termos bioclimáticos nos
aglomerados urbanos, mas existem outros fatores que podem ser também fundamentais à
sanidade e bem-estar da própria cidade, como todo o seu ecossistema urbano, de árvores a
pássaros e insetos.
Significa que, por um lado, existe grande preocupação no processo de racionalização
de energia, podendo esta ser eficazmente alcançada através da volumetria dos edifícios, pela
composição de quarteirões e materiais utilizados; por outro lado, confere-se mais atenção à
qualidade de vida do cidadão, o que tende no momento presente a ser subestimado por via de
cortes em despesas, por vezes precipitados, quando considerados apenas politicamente
eficientes e não necessariamente com resultados eficazes.
Deste modo, os instrumentos referidos seguem três fatores essenciais: a envolvente
climática, os materiais de construção e a forma ou volumetria. A cidade sofrerá
provavelmente uma reestruturação do seu próprio desenho urbano, sendo possível a tendência
progressiva de encolhimento ou abandono das zonas periféricas da cidade – eventualmente

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devolvendo-se esses espaços à natureza – adaptando-se o espaço urbano às necessidades de


um processo de contenção energética que apenas começámos agora a sentir.

Palavras-chave: bioclimática, urbanismo, cidade, clima mediterrânico, morfologia


urbana, forma da cidade, planeamento, volumetria, sustentabilidade, materiais de construção,
envolvente opaca, ecologia, economia, tecnologia.

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Abstract

Sustainability or bioclimatic are becoming more popular issues each day since the
beginning of XXI century and at a global scale. These subjects have been approach by several
ways and sometimes without the proper knowledge of meaning or origin.
The bioclimatic concept in urban planning is relatively new and in the present thesis it
intents to introduce the right tool to establish new paths to city planning and urban design.
Bioclimatic is both associated into nature resources advantages and human being comfort in
his own habitat.
If homes and services inside comfort levels are easily to recognize due for institutions
like ASHRAE (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers),
others circumstances are implicit by it’s own climate in urban space. Like The World Banks
report LGDB 2009 – Little Green Data Book – urban density and urban blocks or single
buildings shapes can lead to significant energetically losses, besides all natural expenses as
infrastructures or public buildings. In spite of human beings still the core of bioclimatic in
urban spaces, other facts can be strong-minded to cities welfare and own sanity, like is own
ecosystem, from birds to bugs.
It seems that in a way there’s a greater concern on saving energy improvements, which
can be effective by controlling buildings volume, shape of the blocks and all materials used,
and in another way, there shall be a strong will to provide and keep citizen quality of life,
which is now threatened by presume political efficient decisions on trimming edges.
At the end, all instruments follow three essential factors: Environment involving,
constructive materials and general shape. The city can endure to a urban design rebuild
process, that presumes a progressive shrinking in suburbs desertification or recovering natural
landscapes, adapting better to contingency energy process needs that we’re are just start to
living it.

Keywords: bioclimatic, urbanism, city, mediterranean climate, urban morphology,


city shape, planning, volumetric, sustainability, building materials, building surroundings,
ecology, economy, technology.

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Nomenclaturas, Siglas e Acrónimos

ADENE – Agência para a Energia


AREANATejo – Agência Regional de Energia e Ambiente do Norte Alentejano e Tejo
AIC – Air Infiltration Centre
AIVC - Air Infiltration Ventilation Centre
ASHRAE - American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers
BREEAM – Building Research Establishment Environmental Assessment Method for
Buildings
CA-EPBD – Concerted Action Report for Energy Performance for Building Directive
CEC – Commission of the European Communities
CEE – Comunidade Económica Europeia
CIEMAT – Centro de Investigaciones Energéticas, Medioambientales y Tecnológicas (Centro
de Investigações Energéticas, Meio-Ambientais e Tecnológicas)
CMCB - Câmara Municipal de Castelo Branco
CML - Câmara Municipal de Lisboa
CO2 – Dióxido de Carbono
CNUCED – Conferência das Nações Unidas para a Comércio e Desenvolvimento/UNCTAD
– United Nations Conference on Trade and Development
ECCA – European Comission Climate Action
EDP – Energias de Portugal
ETFE – Ethylene Tetrafluoroethylene
EUA – Estados Unidos da América
ERSC – Economic & Social Research Council
FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional
FF – Fator de Forma
GWh – Giga Watt hora
ICU – Ilha de calor urbano
IEA – International Energy Agency
INE – Instituto Nacional de Estatística
KGEP – Quilo Energia Primária
kWh – Quilo Watt por hora
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LGDB – Little Green Data Book (Banco Mundial/The World Bank)


m2 – metros quadrados
MEP – Mega Energia Primária
MWh – Mega Watt por hora
NAC – Necessidades Nominais de Aquecimento de Águas Sanitárias
NASA – National Aeronautics and Space Administration
NIC – Necessidades Nominais de Aquecimento
NP 1037 – Norma Portuguesa 1037
NVC – Necessidades Nominais de Arrefecimento
ONU – Organização das Nações Unidas
ONUDI – Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial
OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo/OPEC – Organization of the
Petroleum Exporting Countries
PDM – Plano Diretor Municipal
PGUEL – Plano Geral de Expansão de Lisboa
PMOT – Plano Municipal do Ordenamento do Território
PP – Plano de Pormenor
PSE-ARFRISOL - Proyecto Singular Estratégico sobre Arquitetura Bioclimática y Frío Solar
PU – Plano de Urbanização
QREN – Quadro de Referência Estratégico Nacional
RCCTE – Regulamento das Características do Comportamento Térmico dos Edifícios
RGEU – Regulamento Geral das Edificações Urbanas
SCE – Sistema Nacional de Certificação Energética e da Qualidade do Ar Interior nos
Edifícios
SGAL – Sociedade Gestora da Alta de Lisboa
SVF – Sky View Fator ou Fator de Visão do Céu
TEP – Tonelada Energia Primária
UE – União Europeia/ EU – European Union
USGBC – United States Green Building Council
US-LEED - United States Leadership in Energy and Environmental Design
Wh – watt-hora
WWF – World Wildlife Fund

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Índice

Introdução -----------------------------------------------------------------------------------------------10
Conceitos e questões prévias: Energia, Sustentabilidade, Bioclimática e
Urbanismo/Desenho Urbano ----------------------------------------------------------------------10
Introdução ao estado de arte. Como tudo começa. -------------------------------------------17
Descrição da investigação segundo o objetivo e o método (Reto e Nunes, 1999)--------31

1. O estado da arte: introdução de conceitos de Bioclimática e Sustentabilidade. A


consciência sociopolítica mundial, europeia e nacional desde o início das primeiras crises
energéticas. A dependência da energia. Análise sobre as discussões e constituição de
planos de eficiência. A eficácia antes da eficiência. ----------------------------------------------33
1.01 O início da racionalização energética – A Conferência de Estocolmo em 6 de
junho de 1972 e o impacto de 17 de outubro de 1973 ----------------------------------------36
1.02 Senso comum ou sentido comum?----------------------------------------------------------44
1.03 Uma conjuntura social – a sensibilidade da população perante a cidade e o
conforto térmico.-------------------------------------------------------------------------------------58
1.04 As decisões nacionais, europeias e mundiais sobre a racionalização de energia –
medidas, programas e regulamentos. A cidade e a integração do conceito de
bioclimática: reflexões e perspetivas. ------------------------------------------------------------71
1.05 A eficácia antes da eficiência energética. A introdução do conceito de conservação
das fontes de energia como processo eficaz e eficiente de racionalização energética. -90

2. Casos de estudo. Cálculo de envolventes de quarteirões – a transição entre o espaço


interior e o exterior. ------------------------------------------------------------------------------------95
2.01 Apresentação dos casos de estudo ----------------------------------------------------------95
2.02 Cálculos de urbanizações de acordo com dados da ADENE------------------------ 100
2.03 Simulação de urbanizações ---------------------------------------------------------------- 109
2.04 Comparação com resultados de outras zonas climáticas ---------------------------- 126
2.05 Conclusão da análise comparativa entre moradias e quarteirões ----------------- 132
2.06 Comparação populacional ----------------------------------------------------------------- 132
2.07 Síntese dos casos de estudo: os três fatores que definem bioclimática ------------ 134

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3. Introdução de conceitos de bioclimática e sustentabilidade nas normas e princípios


urbanísticos -------------------------------------------------------------------------------------------- 142

3.01 O clima, a energia e todos os seus complementos no espaço urbano ----------------- 142
3.01.01 Os corpos de edifícios e o clima mediterrânico ------------------------------------ 142
3.01.02 As ilhas de calor urbanas (ICU)------------------------------------------------------ 147
3.01.03 Urban Canyon----------------------------------------------------------------------------- 153
3.01.04 Qualidade do ar e ruído – o papel dos espaços verdes --------------------------- 156
3.01.05 Túneis do vento -------------------------------------------------------------------------- 159
3.01.06 Infraestruturas – complementos de um plano------------------------------------ 161

3.02 Introdução aos conceitos bioclimáticos, contextualizados com normas e princípios


de planeamento urbano ----------------------------------------------------------------------------- 165
3.02.01 À volta da forma da cidade (que não é uma árvore)------------------------------ 165
3.02.02 Normas urbanísticas e enquadramento de medidas bioclimáticas nos Planos
Municipais de Ordenamento do Território (PMOT)--------------------------------------- 172

3.03 A relação de espaço urbano com conceitos bioclimáticos no planeamento e


mediterrânico------------------------------------------------------------------------------------------ 177
3.03.01 Urbanismo Bioclimático Mediterrânico--------------------------------------------- 177
3.03.02 Fator de forma, áreas de influência no planeamento e casos de estudo na
atualidade como Masdar. ------------------------------------------------------------------------ 189

Conclusões --------------------------------------------------------------------------------------------- 200

Bibliografia -------------------------------------------------------------------------------------------- 211

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Introdução

Conceitos e questões prévias: Energia, Sustentabilidade, Bioclimática e


Urbanismo/Desenho Urbano

O presente trabalho de investigação tem como objetivo essencial o estudo dos


conceitos e práticas bioclimáticas, de forma a introduzi-los como instrumentos ou ferramentas
para o planeamento e gestão urbanística. O conceito de bioclimática tem vindo a ser cada vez
mais abordado no universo científico, não só na arquitetura, mas também no urbanismo.
Apesar de autores como Aladar e Victor Olgyay serem pioneiros na introdução de práticas
que hoje designamos como bioclimáticas aplicadas ao urbanismo – com a sua obra Design
With Climate: Bioclimatic Approach to Architectural Regionalism, publicada em 1963 –
todavia, naquele momento, a bioclimática estava ainda por definir enquanto prática científica,
de forma consensual e sistemática. Ainda durante diversos anos, até mesmo nos nossos dias,
este conceito é associado ou até confundido com as práticas de sustentabilidade e ecologia,
quando efetivamente traduz realidades distintas, como irá ser exposto.
Sendo um objetivo prioritário do planeamento urbano a qualidade de vida do cidadão,
a ideia de conforto térmico surge intimamente relacionada com o conceito de bioclimática, tal
como as necessidades nominais de despesa, ou seja, os gastos necessários para a obtenção
desse conforto.
As medidas para atingir esse conforto, tanto na cidade como nas habitações e restantes
edifícios, requerem uma forte gestão orientada por critérios que a União Europeia definiu,
particularmente na Diretiva n.º 2002/91/CE de 16 de dezembro de 2002, do Parlamento
Europeu e do Conselho, estando explícito no seu 1.º artigo: “O objetivo da presente diretiva é
promover a melhoria do desempenho energético dos edifícios na Comunidade, tendo em conta
as condições climáticas externas e as condições locais, bem como as exigências em matéria de
clima interior e a rentabilidade.” (Diretiva Europeia 2002/91/CE, p. 1). Este documento
originou, em âmbito nacional, a atualização dos regulamentos sobre o conforto térmico, com a
criação do SCE – Sistema Nacional de Certificação Energética e da Qualidade do Ar Interior
nos Edifícios – e do RCCTE, o Regulamento das Características do Comportamento Térmico
dos Edifícios, Decreto-Lei n.º 80/2006 de 4 de abril de 2006.
De acordo com as notas sumárias das CA-EPBD (Concerted Action Report for Energy
Performance for Building Directive), traduz-se um consenso geral entre todos os países da

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União Europeia, e também no países em processo de integração, promovendo diversas


políticas de racionalização energética e de promoção da qualidade ambiental orientadas para o
futuro: «Reducing energy consumption and eliminating wastage are among the main goals of
the European Union.» (EPBD, p. II. 1).
No sentido de desenvolver e aplicar práticas urbanísticas bioclimáticas, utilizando
metodologias e conceitos ainda não totalmente consolidados nos domínios científicos e nos
instrumentos de planeamento urbano (por exemplo, a definição de tipologias urbanas), esta
investigação direciona-se particularmente para o clima mediterrânico, alertando para as suas
particularidades em relação a outras regiões climáticas. Serão também considerados casos e
exemplos pertinentes de investigação e aplicação de medidas noutras regiões e áreas
climáticas que não as mediterrânicas. Isto implica a atualidade e complexidade da temática
em tratamento, revestindo-se ainda de inovação, pese embora o facto de ser uma matéria
ainda não consolidada, pouco abordada e aplicada nas áreas da construção e, principalmente,
no urbanismo. Porém, esta lacuna e necessidade está já inscrita entre as preocupações a
estudar, no âmbito das diretivas dos países mais desenvolvidos, patente na legislação em
âmbito nacional e comunitário. E também nos países ou economias designadas emergentes,
que se aperceberam do valor económico e estratégico da energia e das cidades enquanto
estruturas em crescimento e que albergam a maioria da população mundial, estando o número
da população urbana em forte crescimento, apesar da retração demográfica de algumas
cidades (problema que também será abordado).
Ao pressupomos que as cidades, neste caso as europeias do espaço climático
mediterrânico, possam num futuro relativamente próximo vir a sofrer transformações
volumétricas e funcionais devido às crescentes exigências de racionalização dos consumos
energéticos nos domínios da construção, bem como das demais necessidades e consumos
gerais das populações, associados às alterações conjunturais na economia e nos restantes
aspetos sociodemográficos, entende-se como uma necessidade fundamental o estabelecimento
de um modelo, ou modelos e hipóteses adequados ao tipo de transformações urbanas passíveis
de serem previstas.
A presente investigação está organizada em três partes distintas. Na primeira, de cariz
mais teórico, apresenta-se e introduz-se o(s) problema(s) em análise, o estado de arte da
investigação, questões conceptuais e reflexivas, bem como a evolução histórica e sociopolítica
das problemáticas associadas à bioclimática e como se relacionam com o conceito de
sustentabilidade. Nos nossos dias, o problema da racionalização não consiste apenas na falta
ou escassez de recursos energéticos nem na conjuntura de depressão e recessão da economia,
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mas de um conjunto vasto e diverso de situações nas quais se incluem as discussões


científicas sobre o aquecimento global, o aumento dos vários géneros de poluição ou o
esgotamento das reservas de combustíveis fósseis – questões transnacionais e que têm grande
impacto nas preocupações das populações e governos à escala mundial. Todos estes princípios
de redução de custos energéticos – ainda longe do rigor que se prevê atingir no período de
2020-2050 – começaram a ser discutidos há quase meia década, sendo gradualmente
integrados nos interesses dos cidadãos e nas preocupações políticas e económicas.
A segunda parte, eventualmente o «coração» ou âmbito central da investigação,
resultou de um estudo do comportamento térmico de vários modelos ou tipologias de bairros
localizados nas cidades de Lisboa e de Castelo Branco, entre outras, escolhidas de acordo com
as zonas climáticas que representam, determinando-se as diferenças de comportamento e
consumo energético entre cada um dos casos, diferenças essencialmente influenciadas pela
própria forma geométrica dos edifícios. O modelo de cidade apresentada nesta investigação
recorre a exemplos nacionais. Todos os estudos de comportamento térmico realizados e
apresentados são efetuados em território continental nacional ou simulados tendo em conta
características de zonas climáticas semelhantes às encontradas em território português.
A terceira parte teve como objetivo confrontar as principais práticas e medidas
bioclimáticas existentes com determinados modelos de morfologias urbanísticas, vantajosas
do ponto de vista da racionalização e otimização dos consumos energéticos, entrecruzado e
contextualizando toda esta informação com as normas urbanísticas e as suas exigências
essenciais. Discutem-se também medidas bioclimáticas concretas, bem como problemas
gerados pelo meio urbano – por exemplo, os impactos negativos causados pelas ilhas de calor
urbanas – e situações decorrentes de exageros nas medidas de correção climática ou de uma
má aplicação destes princípios. Por exemplo, há conhecimento de vários estudos sobre os
inconvenientes das ilhas de calor urbano, incluindo no nosso país (Balkeståhl, 2009 e 2010)
todavia não existem estudos de minimização concreta desses mesmos impactos.
O último capítulo é apresentado como proposta de cruzamento experimental de
modelos urbanísticos, introduzindo indicadores para novos conceitos e práticas bioclimáticas
aplicadas à cidade mediterrânica. Como proposta de estudo, pode inferir-se, antes de mais,
que o clima mediterrânico tem vindo a ser avaliado e interpretado de um modo não muito
preciso, dado que as diretivas e critérios de análise são baseados em padrões definidos por e
para países da Europa Central (em especial a Alemanha) e em seguida adaptados aos restantes
estados europeus.

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Na primeira parte desta investigação refere-se que as políticas, ações concretas e


medidas de racionalização energética, a par de medidas de cariz ambiental, estão a crescer nos
países mais industrializados, observando-se um fenómeno semelhante também nos países
emergentes. Portanto, não só o assunto aparenta ser da maior relevância no contexto da gestão
urbanística e das políticas de sustentabilidade, como também introduz as temáticas da
bioclimática e da sustentabilidade em outros domínios da investigação científica, como a
geografia, a sociologia urbana, o planeamento territorial, a ecologia e mesmo a economia.
Além disso, é reconhecida, por exemplo nos estudos e avaliações de impacto ambiental, a
preocupação com aquilo que desempenha (ou deverá desempenhar) um papel científico ou
sirva de fundamento para a tomada de decisões e políticas concretas, em vez de servir
propósitos meramente burocráticos ou cumprir obrigações normativas.
Torna-se possível, deste modo, identificar e quantificar os problemas concretos e os
impactos nos aglomerados urbanos e espaços afetados pelos diversos tipos de operações
urbanísticas. A avaliação dos impactos ambientais, territoriais, paisagísticos e dos
aglomerados urbanos tem sido uma área negligenciada e limitada, não indo muito além das
avaliações, sondagens e relatórios legalmente exigidos. Todavia, este tipo de análises,
complexas e multidisciplinares, são extremamente pertinentes para a obtenção de informação
e como fundamento para o planeamento e tomada de decisões.
Os estudos sobre o conforto térmico ainda não estão devidamente desenvolvidos
também no ramo da sociologia urbana, sendo o conforto encarado como um simples
pormenor ou como uma questão «subjetiva», não como uma necessidade fundamental à
qualidade de vida. Há ainda relações e conexões que, do ponto de vista histórico, se
recuperaram: por exemplo, os aglomerados históricos como Çatal Huyuk, cuja organização
física, além dos comportamentos sociais/sociabilidade, permite a menor transferência de
energia possível, logo uma maior conservação e otimização através de técnicas passivas
(Khoshsima, Mahdavi, Rao & Inangda, 2011). Durante a evolução dos aglomerados urbanos
ao longo da história mantêm-se algumas características vernáculas, que hoje denominamos de
bioclimáticas, «sustentáveis» ou ecológicas, como o respetivo desenho, técnicas e materiais
de construção que estão perfeitamente adaptados às regiões geográficas e climas onde se
inserem.
Por outro lado, existe também a preocupação de definir percursos e metas concretas no
que concerne ao enquadramento legal em território nacional. A definição de
«sustentabilidade», no Decreto-Lei n.º 380/99, não está completamente definida nem

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esclarecida, embora esta seja apresentada como um objeto de construção de qualquer PMOT –
Plano Municipal de Ordenamento do Território – na respetiva regulamentação legal.
Por último, na presente investigação elaboram-se cálculos e simulações do
comportamento térmico/climático, nomeadamente de edifícios inseridos em conjuntos de
bairros e determinados modelos de urbanizações, casos reais e também casos simulados,
visando determinar-se trajetos e medidas essenciais a ter em consideração nas ações de
planeamento. É de destacar, de todos os elementos que condicionam o desempenho térmico, a
preponderância do fator volumetria, com uma importância bastante relevante.
Atualmente, a maioria da população residente em áreas urbanas é já relativamente
atenta aos programas de racionalização energética, entendidos como uma necessidade
económica, uma questão ecológica ou como imperativo de redução das emissões de gases
com efeito de estufa. Nesta investigação visa-se também questionar e averiguar se a
população portuguesa possui consciência concreta das necessidades nominais de climatização
e de conforto, de modo a manter um nível adequado de qualidade de vida, seja no domínio da
educação, do trabalho, da saúde ou dos demais problemas económicos que a sociedade
industrializada atravessa ou desencadeia. Até meados da década de 1970 as preocupações
desta natureza eram ainda incipientes. O princípio era produzir e consumir sempre mais, e não
«utilizar e desperdiçar menos». Nas décadas de 50 e 60 tais preocupações eram rudimentares
ou inexistentes e certas linhas orientadoras – que organizações como a ONU foram definindo
– aplicavam-se aos países ditos de «terceiro mundo» ou em situação de grandes níveis de
pobreza ou instabilidade social.
Em Portugal, ao abordarmos a sensibilidade da população e as políticas sobre a
racionalização energética, temos de tomar em consideração outros problemas e
especificidades relacionados com a conjuntura específica do país. Além de problemas
estruturais de modernização e desenvolvimento específicos, só atenuados com a entrada do
país para a Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1986, o processo de racionalização
energética em âmbito nacional não se iniciou nos anos 70, como na maioria dos países
ocidentais, mas praticamente na viragem de milénio.
O expoente máximo da massificação da produção e consumo, ainda sem restrições de
ordem económica ou ecológica – que no restante mundo ocidental ocorreu do pós II Guerra
Mundial à década de 70 (Schumacher, 1973) – em âmbito nacional ocorreu tardiamente, após
a adesão à CEE, num clima de alguma prosperidade e crescimento económico, de otimismo e
generalização do financiamento ou crédito bancário, que favoreceram um nível de consumo
sem precedentes na sociedade portuguesa. Apesar disso, a população nacional nunca sentiu
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necessidade ou não demonstrou especial preocupação no aquecimento da habitação. Foi um


aspeto considerado dispensável, não se vislumbrando uma clara consciência das suas sequelas
e consequências.
Consequentemente, as necessidades de conforto no espaço urbano foram sempre
consideradas no nosso país como um mal menor, dando origem ao «urbanismo caótico»,
assim definido por Bordalo, Mateus & Moutinho (2005) num artigo sobre a qualidade
urbanística como um recurso fundamental para o desenvolvimento do país. Foi nesse sentido
que na primeira parte deste trabalho são apresentados os dados de um breve inquérito,
realizado com algum apoio de dados do INE – Instituto Nacional de Estatística – para
obtermos conhecimento do estado da sensibilidade da população face aos conceitos de
bioclimática, principalmente de conforto térmico e urbanismo. Pode verificar-se que, de facto,
a população se encontra hoje mais atenta a estas temáticas, mas não sabe genericamente o que
é o conforto térmico nem as suas repercussões. Entre outros pontos importantes, os inquiridos
apresentam maioritariamente o desejo de que os aglomerados urbanos nacionais sejam
compostos genericamente por moradias e prédios de cérceas baixas, inferiores a três pisos,
evitando os conceitos de quarteirões, independentemente da qualidade da envolvente. No
entanto, apesar das limitações na extrapolação dos resultados, que não possuem validade
estatística, a informação obtida e compilada permite construir hipóteses sobre a sensibilidade
e perspetivas das pessoas perante esta matéria ou apenas ter ideia do seu grau de
(des)conhecimento.
Neste contexto, apercebemo-nos que as populações ficarão cada vez mais permeáveis
a estes princípios, e estão-no também os governos e as organizações internacionais,
preocupações patentes em diversas medidas e políticas, em programas e iniciativas de âmbito
transnacional, em especial na União Europeia, como a própria EPBD – Energy Performance
Buildings Directive – que visa implementar um sistema de certificação energética dos
edifícios para todos os países da União Europeia com o objetivo prioritário de informar o
cidadão do desempenho de cada edifício ou fração.
Quando, por um lado, ainda há necessidade de explicar às populações residentes nos
espaços climáticos mediterrânicos a necessidade de se manter uma temperatura adequada ao
conforto no interior dos edifícios, por outro lado, a totalidade dos governos e mesmo de
partidos políticos e outras instâncias no domínio da União Europeia aparentam estar em
consenso no caso da necessidade de aplicação de medidas de racionalização energética.
Presume-se que todo este consenso deriva em parte da conjuntura de contração económica e
da ausência de objetivos ou metas de desenvolvimento em vários setores económicos.
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De facto, é de enorme importância que todos estes programas da União Europeia, e


também da América do Norte, no caso do US-GBC (United States Green Building Council)
com o seu programa US-LEED – United States Leadership in Energy and Environmental
Design – um programa de uma agência de notação ambiental semelhante ao BREEAM
aplicado em Inglaterra (Building Research Establishment Environmental Assessment Method
for Buildings), venham a adquirir consistência dado que, no ramo da energia, há ainda muito
por descobrir e por comprovar cientificamente. Qualquer processo de racionalização
energética significa apenas um ato para evitar que essa energia se transfira antes de terminar
ou se transformar em trabalho. As expressas CA-EPBD têm vindo a aumentar e a ganhar
ênfase devido a uma certa competição entre os países da UE no cumprimentos das exigências
de eficiência energética, em vários setores, nos quais a despesa térmica tem um papel quase
maioritário e se sobrepõe á própria indústria ou ao trânsito automóvel.
Por um lado, na América do Norte, o programa US-LEED promove unicamente uma
série de incentivos para quem segue diretivas concretas de boa gestão na eficiência energética,
abrangendo uma série de subsetores da construção, desde a iluminação, a escolha dos
eletrodomésticos de uma habitação ou até urbanizações e meios de gestão municipal; por
outro lado, a Europa não aparenta ter muito interesse em premiar ou incentivar as boas
práticas de construção, mas antes num cumprimento genérico de todas as exigências
regulamentares. De qualquer modo, constitui um facto que os programas de eficiência
energética têm vindo a tornar-se cada vez mais exigentes e a população cada vez mais
sensível a estes, fenómeno ao qual juntamos ainda o desaceleramento económico mundial, em
especial nos países mais desenvolvidos. A exigência de um programa de eficiência energética
ou de «poupança» não deve, no entanto, entrar em conflito com os níveis de conforto e de
qualidade de vida; os países mediterrânicos, por sua vez, estão a ser um pouco surpreendidos
pelo rigor destas obrigações de eficiência energética térmica, quando por norma é raro sequer
existir aquecimento central nas habitações portuguesas.
É também na contradição expressa que esta investigação se preocupa, antes de passar
ao conforto no plano urbanístico, apresentando as origens e conceitos conforto térmico
interior definidas pela ASHRAE – American Society of Heating, Refrigerating and Air-
Conditioning Engineers – publicadas em 1985, num trabalho de investigação intitulado
Criteria for human exposure to humidity in occupied buildings. Estes critérios, que são
fulcrais no domínio da saúde, educação e trabalho dos cidadãos, estão ainda a ser divulgados,
num processo de consciencialização dos países no espaço mediterrânico, mesmo quando estes
possuem já uma forte aplicação concreta de vários princípios na construção. Não existe, além
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

disso, energia em quantidade suficiente em todos os países do Sul da Europa de modo a


satisfazer as necessidades de conforto térmico.
A energia térmica necessária em Portugal para as mais de 5 milhões de frações
residenciais existentes é potencialmente superior a 50.000 GWh/ano e inferior aos valores
divulgados pela energia comercializada pela EDP em 2010, segundo os dados divulgados pela
empresa, de 30.581 GWh/ano, o que significa que não está disponível energia em quantidade
suficiente – mesmo que os portugueses tivessem capacidade financeira para ou vontade de
manter as suas habitações climatizadas – e seria para tal necessário importar eletricidade,
cujos valores ascenderiam aos mil milhões de euros em energia, no mínimo.
No planeamento urbano, o conceito de conforto é um pouco mais abrangente, pois o
efeito clima e a envolvente climática têm uma influência subjacente e que deve ser tida em
consideração. No entanto, conforme é exposto na segunda parte deste trabalho, visto a
população estar cada vez mais interessada nos níveis e necessidades de conforto, as
urbanizações terão que se adaptar, não só na aplicação de aparelhos corretivos e materiais de
construção, mas também na seu próprio desenho e volumetria, para que as despesas
energéticas/térmicas não aumentem, sendo este já um papel do urbanista: o de antever a
implantação das formas adequadas ao conforto e consumo energético no meio urbano.

Introdução ao estado de arte. Como tudo começa.

Mas antes de qualquer outra explicação é importante voltar um pouco atrás e


questionar: como é que este processo e consciência da necessidade de racionalização de
recursos teve início?
Efetivamente, não foi a seguir à II Guerra Mundial, no período de maior
desenvolvimento económico, do expoente máximo da produção e consumo nos países mais
industrializados, como nas décadas de 50 e 60 do século XX. Neste sentido, Alvin Toffler
manifestou uma extraordinária lucidez na sua obra A Terceira Vaga, ao referir o episódio de
uma decisão relativamente avara, mas considerada exemplar do ponto de vista da gestão. A 8
de agosto de 1960, Monroe Rathbone, diretor executivo da petrolífera Exxon Corporation,
ordenou a redução das taxas pagas aos países exportadores de petróleo e, apesar dessa decisão
não ter tido grandes impactos nessa década, o resultado foi o nascimento da OPEP
(Organização dos Países Exportadores de Petróleo) treze anos mais tarde, nascida da

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

necessidade perante a guerra de Yom Kippur. Esta ofensiva egípcia, no dia 6 de outubro de
1973 e a pesada contra resposta da parte de Israel, apoiada e financiada pelos países
ocidentais, fez a OPEP reagir e colocar o petróleo num patamar mais temido e respeitado.
Tornou-se evidente a realidade e a tomada de consciência de que a maior parte dos países
mais desenvolvidos dependiam efetivamente de países ditos em vias de desenvolvimento,
como os países associados da OPEP. Passou a considerar-se, pela primeira vez, a real
importância da energia.
O ano de 1973 constituiu efetivamente um marco, um momento de viragem da
economia e sociedade industrial, dando-se início uma nova etapa, com a ênfase agora
colocada no capital da informação e tecnologia, na racionalização e na busca de outras fontes
de energia, mencionando apenas alguns dos seus aspetos, fase denominada de Sociedade Pós-
industrial, Sociedade da Informação ou Terceira Vaga (Toffler, 1980). Como Toffler
explicitamente refere, “estrangulando a oferta mundial de petróleo bruto [a OPEP] lançou
toda a economia da Segunda Vaga numa queda estrebuchante” (Toffler, 1980, p. 130)
A confusão que a OPEP cria, ou talvez o enorme pânico gerado nos países ocidentais
dependentes do aquecimento central dos edifícios e dos automóveis e demais meios de
transporte, atingiu proporções gigantes. As ações subsequentes deram início a várias medidas
políticas sensatas, pois, apesar da falta de sucesso das atividades de grupos ambientalistas,
pela primeira vez o mundo industrializado apercebeu-se de que os recursos naturais eram
efetivamente limitados, independentemente da sua eventual abundância, colocando-se novos
paradigmas e hipóteses para a economia, indústria e sociedade consumidora, tal como a
racionalização e otimização de recursos.
Apesar dos seguintes momentos serem muito próximos, ainda antes do período da
guerra de Yom Kippur, surgiu um termo que veio a ser vulgarizado e utilizado de forma nem
sempre precisa ou adequada à sociedade atual: o conceito de sustentabilidade. Entre 5 e 16 de
junho de 1972, durante o governo de Olof Palme, a cidade de Estocolmo foi anfitriã da
Conferência das Nações Unidas Sobre o Meio Ambiente Humano, organizada pela
Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo Clube de Roma, no sentido de sensibilizar o
mundo para problemas atuais e futuros de desenvolvimento, como a energia, ambiente,
poluição, tecnologia e crescimento populacional, entre outros. Aí se definiu o termo
‘desenvolvimento sustentável, que veio a refletir-se em estudos científicos ulteriores com
grande ênfase: “Sustainable development is development that meets the needs of the present
without compromising the ability of future generations to meet their own needs.” (United
Nations, 1987). De destacar, como marco, a publicação nesse mesmo ano do relatório Os
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Limites do Crescimento, em que são abordados as já expressas questões, cruciais para o futuro
desenvolvimento das sociedades (Meadows, Meadows, Randers, & Behrens, 1972).
Não foi aquela Conferência que causou todavia suficiente impacto e conduziu
diretamente à adoção de programas na eficiência, racionalização ou conservação da energia.
Mas permitiu sem dúvida um momento de viragem, sendo utilizada como pretexto, alguns
anos mais tarde, conjuntamente com os receios perante a subida do preço dos combustíveis ou
a ameaça pendente do esgotamento dos recursos naturais. Por outro lado, todos os Estados e
organizações que participaram no âmbito da Conferência de Estocolmo, como ficou
conhecida, futuramente desenvolveram esforços e ações em vista a atingir «sustentabilidade»
nas relação entre as comunidades humanas e o meio ambiente, passando a designar-se
«desenvolvimento sustentável» quinze anos mais tarde, com o relatório Our Common Future,
também conhecido como ‘Relatório Brundtland’, elaborado pela World Commission on
Environment and Development, em 1987.
Após alguns anos de investigação e discussão, a sustentabilidade é associada com
maior especificidade ao ramo do urbanismo, particularmente com a declaração do CEU –
Conselho Europeu de Urbanistas – acabando por determinar a necessidade de um «plano
sustentável», enquadrado por ciências aparentemente divergentes, mas cuja combinação
surgiria como uma receita adequada, como ocorreu com a sinergia entre a Economia, a
Ecologia e a Sociologia.
Face a toda esta evolução, onde entram os programas de racionalização energética? Na
Conferência de Estocolmo, os programas de racionalização eram dedicados ou aplicados às
porções de arroz e às matérias-primas suficientes à sobrevivência de determinados povos do
chamado terceiro mundo, de modo a evitar catástrofes humanas.
Após a guerra de Yom Kippur, em 1973, grande parte das decisões tomadas pelos
países ocidentais foram em prol de uma crescente autoprodução de energia. Ou seja, se ainda
nos anos 60 as sociedades mais industrializadas e os países emergentes necessitavam de cada
vez mais recursos energéticos e outras matérias-primas, principalmente provenientes do
exterior, sobretudo dos países em vias de desenvolvimento. Ainda nas vésperas de o mundo
ocidental se dedicar à conceção de sistemas de conservar os recursos, pensou-se
obstinadamente numa produção mais acentuada, utilizando alternativas como a própria
energia nuclear. Apesar da chegada da terceira geração do tipo de central nuclear, considerada
segura, cedo ou tarde, devido aos custos internos e impactos ambientais que alguns países
apresentariam, como o acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, verificou-se a adesão
maciça a programas de racionalização energética.
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Todo este processo tem tido um desenvolvimento periclitante pelo mundo. Na Europa,
apenas atingiu um consenso entre os países da União Europeia a partir de 2002, quando
começaram a surgir diversos programas de eficiência energética, dos eletrodomésticos às
habitações, serviços e indústrias. Presentemente, os países europeus possuem já programas de
eficiência energética para os edifícios de habitação e comerciais/serviços, relativamente
rígidos, passando este a ser um tópico prioritário dos governos europeus.
Do paradigma de uma produção e consumo crescente e obstinado de energia e
recursos, passou a considerar-se que a energia deverá, antes de mais, ser conservada ao
máximo com o duplo benefício económico e ecológico – bem como o uso dos demais
recursos naturais deverá ser equilibrado, numa perspetiva orientada não a curto mas a longo
prazo. Apesar dessa tomada de consciência, ainda é comum existir alguma confusão nos
decisores políticos, dado que a preocupação prioritária não se centra na total conservação ou
redução obsessiva de recursos, mas antes na qualidade da sua utilização otimizada.
Este problema é um dos assuntos fulcrais desta investigação, e é expresso pelo
engenheiro Peixeiro Ramos, que defende a «conservação das fontes de energia» em vez da
«redução da utilização de energia» (Climatização [C], 2011). Ao falarmos de racionalização,
eficiência energética ou sustentabilidade, remetemos para um conceito integrado no título
desta tese: bioclimática. A utilização do termo bioclimática, mesmo na arquitetura, ainda é
relativamente nova, o suficiente para ser devidamente explicitada, mas afirmando-se
genericamente em três aspetos fundamentais: a envolvente climática, os materiais de
construção utilizados e a forma.
A envolvente climática é um conceito muito abrangente. Começa na simples
localização, do clima ou microclima específico de dado local, na orientação das fachadas, até
à integração no seu espaço natural ou artificial. Os materiais de construção respeitam
diretamente à arquitetura, mas no plano urbanístico abrangem elementos físicos relevantes ou
outros fatores naturais como os espaços verdes, ou os pavimentos do espaço público urbano,
pois apesar de tudo têm sempre uma forte importância no comportamento térmico dos
edifícios. Por outro lado e em terceiro lugar, a própria forma/volumetria dos edifícios possuí
uma grande influência nas perdas energéticas, independentemente da aplicação dos materiais
isolantes ou mesmo da sua pré-disposição – por exemplo, um plano urbano essencialmente
constituído por edifícios residenciais unifamiliares (moradias) poderá ter uma despesa
energética agravada até 50% relativamente a edifícios multifamiliares (apartamentos) com
formas geométricas de quarteirões, com elevada densidade populacional. No entanto, salienta-
se que o primeiro ponto referido determina desde logo as exigências urbanísticas, dado que a
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

orientação solar, tal como o clima, colocam de imediato condicionantes a ter em conta nas
soluções bioclimáticas. Se têm constituído erros urbanísticos algumas das ações de arquitetos
ao construírem peças arquitetónicas sem irem ao local onde são implantadas ou sem estarem
cientes de que a construção estaria contextualizada na China, em Portugal ou no Zimbabué,
obriga-nos a lembrar que se torna impossível agir, do ponto de vista bioclimático, sem
respeitar este primeiro ponto, ou seja respeitar a localização e o seu clima, independentemente
da forma atingida ou da estrutura física e funcional estudada. O terceiro aspeto é igualmente
uma das principais preocupações desta tese, dado que a forma de um objeto é fundamental na
conservação das fontes de energia, cujo impacto é bastante significativo.
No planeamento urbano, o conceito de bioclimática é ainda muito recente e menos
definível. Conforme foi já referido, se na arquitetura pode parecer ainda pouco explícito, o
conceito no urbanismo é muitas vezes confundido com o desenvolvimento sustentável. O
conceito de sustentabilidade é inerente e constitui o cerne desta pesquisa, mas a bioclimática
pode eventualmente distinguir-se pelas diferenças, embora ambos sofram os efeitos da
ambiguidade, devido ao facto de serem termos recentes e polissémicos. O mais lógico seria
dizer que bioclimática é um conceito integrado no universo da ciência que define a
sustentabilidade, mas os caminhos poderão não ser exatamente os mesmos, dado que a
prioridade dos conceitos bioclimáticos é o homem e na sustentabilidade é a natureza, sentido
lato, em si. Apenas poderemos referir que os percursos expressos se cruzam facilmente logo
que passamos ao plano urbano pois, obrigatoriamente, o espaço público integra também o
espaço natural e alguma da biodiversidade respetiva.
Torna-se mais difícil definir bioclimática no âmbito do urbanismo, dado que enquanto
na arquitetura é possível contabilizar uma série de ações pontuais passivas ou ativas, no
planeamento essa quantificação nem sempre ganha forma, além do âmbito urbanístico ser
mais amplo e complexo do que o «simples» edifício, ao passo que colocar painéis solares em
todos os telhados não é necessariamente uma ação bioclimática urbanística mas arquitetónica,
em grande escala. Na verdade, a forma já tem um papel fundamental, muito antes de se
definirem situações mais pontuais como caixilharia e isolamentos térmicos ou acústicos. Mas,
antes da forma, a envolvente climática é sem dúvida o início de todas as ações. Neste sentido,
estes dados são desenvolvidos no segundo capítulo, especificamente as características
climáticas da cidade mediterrânica, os seus atributos, qualidades e defeitos.
O clima mediterrânico é bastante especial e deverá ser bem compreendido. Não é
apenas semelhante a outros locais do mundo com temperaturas parecidas. Da história das
civilizações à agricultura específica, como o cultivo da vinha e oliveira, há que aceitar e
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

compreender um equilíbrio entre duas estações. Esta palavra «equilíbrio» tem um sentido
polissémico, não se fixa apenas nas temperaturas. As duas estações são um inverno longo,
«enervante», húmido, mas não muito rigoroso e um verão curto e seco, mas muito forte. Esta
relação é de extremamente importância dado que o aquecimento de um é o sobreaquecimento
incorrigível de outro e o arrefecimento de um período quente é o desconforto absoluto de um
período frio.
Houve uma mudança muito rápida em relação às noções de clima, que por vezes nem
sempre a sociedade acompanha. Vejamos a definição do Professor Orlando Ribeiro,
referência inolvidável nesta matéria: “Entre a Europa recortada e a África maciça, o
Mediterrâneo aparece como um dos traços mais antigos e permanentes da fisionomia humana
do Globo.” (Ribeiro, 1987, p. 1). Assim como, “esta pequena parcela de terras e de mares,
apenas cerca de um centésimo da superfície terrestre, desempenhou portanto, na história do
Planeta e na da Humanidade, papel dos mais relevantes.” (ibidem, p. 1). E por fim, «há um
clima mediterrâneo, a que liga a noção de temperatura média elevada, de verão longo, quente
e sem chuva, de inverno moderado, com um total de precipitações atmosféricas relativamente
baixo.” (ibidem, p. 2).
Nesta última frase, percebemos sem dúvida o que quer dizer o insigne geógrafo, mas
tal não contempla as necessidades de saúde e de conforto do cidadão de hoje. A explicação é
simples: para uma sociedade eminentemente rural, que está mais habituada à agricultura,
pecuária e indústria, onde o movimento permite o próprio aquecimento do corpo, um inverno
mediterrânico poderá até parecer «doce». Mas hoje adquirimos outras necessidades dado a
maiorias das profissões ser sedentária e estar ligada ao setor dos serviços, que também
infelizmente determina outros tipos de fragilidades.
Por outro lado, a palavra expressa de «equilíbrio» é apresentada como uma metáfora
às perspetivas ou opiniões pouco precisas sobre o clima nos países do Sul da Europa, como o
próprio geógrafo Orlando Ribeiro refere, com ironia, como parte de um papel da humanidade
e história muito relevante. Face a tudo isto, questiona-se – respeitando a definição do distinto
geógrafo, mas entendendo que o inverno é difícil de passar no que respeita ao conforto e o
verão é insuportável durante umas semanas – se será ou não pertinente a minimização das
variações radicais de temperatura entre estações do ano, ou mesmo das amplitudes térmicas
diárias sentidas nos aglomerados urbanos de modo a permitir o mesmo nível de conforto que a
ASHRAE exige no interior das frações?
Conforme referido, a envolvente climática deverá ser entendida com relativa
abrangência. Esther Higueras utiliza essa medida de referência quando apresenta o conceito
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de Urbanismo Bioclimático nos seguintes termos: “La ciudad bioclimática no es


exclusivamente la suma de edifícios que incorporen técnicas de acondicionamiento pasivo.”
(Higueras, 2007, p. 13) e define mais especificamente com objetivo de tentar fechar “los
ciclos ecológicos de matéria y energia, reducir las huellas ecológicas de los asentamientos,
minimizar los impactos negativos sobre el aire, el agua y el suelo e, además, usar de un modo
eficiente las energias disponibles.” (ibidem, p. 13). Mas, conforme se verifica, não inclui
todos os elementos e determinações que definem essa envolvente climática.
Essencialmente todos os regulamentos térmicos europeus, tal como o nosso
Regulamento das Características Térmicas dos Edifícios, confinaram a definição das zonas
climáticas a pequenas regiões geográficas embora, curiosamente, os países mediterrânicos
caracterizem essas pequenas regiões como concelhos, constituindo áreas relativamente
pequenas, enquanto em alguns países do Central e Norte da Europa, onde as diferentes
amplitudes térmicas entre concelhos e distritos é muito menor, foi aplicado um sistema mais
simplificado. Seja como for, a envolvente climática tem de começar por caracterizar-se pela
localização e exposição solar. Neste caso, não apenas o facto de o clima ser mediterrânico,
mas utilizando também, por exemplo, os princípios definidos por Vitruvio, como as regiões
mais setentrionais, ou seja, frias ou mediterrânico Norte, e as meridionais, ou seja, as mais
quentes ou mediterrânico Sul. Nesta tese, é colocada a hipótese (também como uma
necessidade) de que, num urbanismo bioclimático aplicado ao espaço mediterrânico, a
envolvente deverá estar em sintonia com a biodiversidade da respetiva zona climática. Mesmo
que esta entre em colisão pelo facto de se estar num espaço rural, o princípio deve aproximar-
se tanto quanto possível do conceito de «equilíbrio», em vez de um contraste. Por sua vez,
como qualquer outra medida de boas práticas urbanísticas, se a envolvente artificial também
existe, esta deve ser forçosamente incluída e calculada como parte do conjunto.
Como segundo ponto dos três que definem um conceito bioclimático, os materiais de
construção constituem parte substancial na integração, enquanto peça de arquitetura, o que
não se passa de forma tão direta no planeamento urbano. Pode gerar alguma controvérsia
afirmar-se que há conceitos de planeamento que dependem de materiais de construção. Estão
nesse caso os que concernem à construção de edifícios ou estruturas vernáculas, como os
edifícios ou aglomerados de terra, os quais se associam a construções sustentáveis, por
integrarem materiais e práticas originárias da zona geográfica em que se inserem.
Neste sentido, o conceito de bioclimática está pouco e minimamente interessado de
onde o material vem, mas apenas da sua utilidade e desempenho perante o seu espaço. Por
exemplo, a madeira é um material de eleição na arquitetura bioclimática, enquanto sistema de
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

estruturas. Mas simplesmente ao usá-la não se garante que sua origem/proveniência seja
Portugal, e este aspeto nem sequer é relevante para o desempenho do material. Raramente é
de Portugal, Espanha ou de outro país mediterrânico. Inversamente, no caso de conceitos
como sustentabilidade ou ecologia, a preocupação da localização ou origem do material já é
pertinente.
Os materiais dividem-se em capítulos na construção, como os isolamentos,
envidraçados, caixilharias, tijolos, pedras e betões, entre outros. Mas no caso do urbanismo
bioclimático estas categorias são menos relevantes; destacam-se situações mais pontuais
como, por exemplo, sistemas de jardins verticais ou nas coberturas, a disposição geral das
fachadas de envidraçados e suas dimensões ou a integração de sistemas ativos nas fachadas e
apenas mais concretamente ao desenho urbano, ou estrutura física.
Há, no entanto, algo mais substancial a considerar no espaço urbano no capítulo dos
materiais, que emerge e integra um tipo de cidade – pesada, leve, espelhada, verde com
plantas, cinzenta de betão,etc. – com elementos urbanos que distinguem determinados níveis
de conforto passíveis de quantificar, como as dimensões dos jardins por bairros ou quarteirões
à base de prédios revestidos por envidraçados, dando uma ideia de cidade espelhada. Neste
tipo de exemplos, sem efetuar quaisquer cálculos, é possível perceber que numa cidade cujos
bairros têm equilibradamente jardins adequados e dimensionados à população residente não se
constituirá decerto uma ilha de calor urbano (ICU), como o constituirá quase por certo uma
«cidade espelhada», ou seja, uma cidade composta de edifícios com envolventes opacas
essencialmente à base de grandes envidraçados ou cortinas de vidro. É assim possível
entender que o material de construção, tal como a cor, embora mais direcionado para um fase
de pormenor, tem sempre um papel importante no planeamento, mesmo não sendo
diretamente evidente ou percetível.
É necessário também esclarecer o que distingue sistemas ativos e passivos de
climatização. Os sistemas ativos são todos os meios mecânicos que permitem a climatização e
cujo rendimento é bastante eficiente. Como melhor exemplo temos os painéis solares térmicos
que captam a energia calorífica para aquecimento de águas e cujo rendimento anual é bastante
eficiente. Os sistemas passivos são os previstos em fase de projeto ou no desenho urbano.
Uma das características dos sistemas ativos é não serem integrados nos processos
construtivos, opinião sustentada por vários autores, como Lanham, Gama e Braz (2004); não
são assim parte integrante nem obrigatória para atingir os níveis desejados, no caso da
arquitetura. No urbanismo, a existência de sistemas passivos é apenas uma consequência da
própria arquitetura e não uma ação urbanística enquanto desenho urbano de fachadas ou dos
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sistemas de climatização combinados para bairros onde se exigem, por exemplo, pequenas
centrais de mini-geradores.
Os meios passivos são considerados sistemas preventivos, visto que procuram tirar
partido do desenho urbano e dos rendimentos da sua envolvente climática. Porém, um dos
pontos que se sublinham na presente tese, com o intuito de fundamentar que é possível tirar
mais rendimento dos sistemas passivos (sem necessidade de recorrer a sistemas ativos), é a
zona climática, tendo em conta o conforto e o equilíbrio entre as estações de arrefecimento e
aquecimento. A título de exemplo podem indicar-se os envidraçados, que são sem dúvida
sistemas passivos, permitindo captar e aproveitar um bom rendimento de energia calorífica
para o interior dos edifícios. O simples facto de se defender que os ângulos das cérceas entre
bairros devam ser até 30º de amplitude, de modo a permitir a entrada de radiação solar em
todas as frações durante todo o ano, abre um precedente urbanístico relativamente complicado
no que diz respeito à gestão das suas áreas de influência. Há que entender que a luz solar é
diferente da irradiação solar e, apesar de permitir um rendimento energético muito relevante,
poderá não ser adequada ao conforto global dos edifícios e espaço urbano.
Na segunda parte deste trabalho é abordada a influência da volumetria dos corpos
edificados nos consumos energéticos. Este capítulo tem como objetivo principal determinar a
importância decisiva da volumetria nas práticas bioclimáticas, onde se torna menos relevante
a localização ou mesmo a orientação solar. O tipo de volume, a forma regular ou irregular, a
dimensão ou altura são características que dependem mais de princípios da física, como a
própria lei da conservação da energia, do que de princípios de sustentabilidade, que partem do
pressuposto de que a interação com a zona é prioritária. Partindo de uma esfera como a forma
mais perfeita do ponto de vista bioclimático, terminamos na irregularidade total. Mas, mais do
que isso, a união de corpos e as dimensões das formas conjuntas (como patente nos centros
históricos) é climaticamente vantajosa face a corpos isolados uns dos outros, como situações
de moradias unifamiliares. A localização determina um fator decisivo: além das necessidades
de aquecimento no período do inverno, como no resto da Europa, existe sobreaquecimento no
clima mediterrânico, embora de controlo mais acessível, situação que não acontece nos países
mais equatoriais.
Na presente tese, o estudo volumétrico de vários modelos de bairros de Lisboa e
Castelo Branco, assim como de modelos virtualmente simulados, independentemente dos
materiais de construção utilizados, permite objetivar a ideia de que a modelação da cidade
poderá sofrer uma enorme mutação devido às necessidades de eficiência térmica exigidas pela
população e pela grande dificuldade dos países mediterrânicos produzirem ou importarem
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energia em quantidade suficiente. Para tanto são apresentados inclusive alguns planos de
retorno do investimento, no caso de um cenário exagerado de implosão das cidades ou
encolhimento das zonas mais marginais, ou concelhos/freguesias periféricas, aumentando-se
por sua vez a densidade urbana e diminuindo diversas despesas energéticas, não apenas
térmicas.
Na sequência deste tema, a terceira parte da investigação integra princípios
fundamentais do urbanismo com as práticas bioclimáticas adequadas à «forma» (corpos dos
edifícios) e à «função» da cidade enquanto unidade em si. É neste sentido que se aborda a
questão das ilhas de calor urbanas (ICU). As ICU constituem um tema cada vez mais atual e
decerto – como referido, os corpos edificados mais densos proporcionam melhores
comportamentos térmicos nas suas frações – surgirá um novo conflito a resolver. As
investigações correntes neste domínio têm apontado o índice Sky View Fator (SVF) como
fundamental para determinar os níveis das ICU nas zonas das cidades. O índice SVF mede o
céu disponível numa rua e está dependente da altura e largura dos edifícios, ou seja, quanto
maiores/mais altos forem os edifícios e mais estreita for a via, menor o índice de SVF e
maiores os valores das ICU. Estes fenómeno poderá todavia ser mais complexo, pois depende
de outros eventuais fatores, como os túneis de vento, vegetação e poluição existente nos
arruamentos respetivos.
De qualquer modo, as ICU constituem, sem dúvida, um problema dos grandes
aglomerados urbanos, nunca em cidades pequenas ou médias, como Castelo Branco. O forte
aumento de temperatura diária e sazonal numa cidade, em contraste com a sua zona climática,
pode ser um fator que intervém com alguma gravidade para a sociedade e para todo o seu
ecossistema, além da inevitabilidade do desconforto criado. O combate por via de ações
pontuais, como a integração de espaços verdes e o aumento da humidade, é relativamente
eficaz para descer os níveis de temperatura, além do controlo exercido através de barreiras
arquitetónicas que impedem os ventos de efetuarem a ventilação natural. Mas estas medidas
têm de ser convenientemente calculadas. Há, no entanto, outras características a ter em conta,
para as quais a presente investigação também adverte. Trata-se da recomendação de estudos
futuros de impactos ambientais, a fim de estudar aprofundadamente estes fenómenos e evitar
interpretações menos enviesadas, como o possivelmente o próprio SVF.
Existem dois regulamentos legais particularmente pertinentes no âmbito da presente
investigação, ainda que a ligação entre ambos seja relativa: a regulamentação dos Planos
Municipais de Ordenamento do Território (PMOT), Decreto-Lei n.º 380/99 de 22 de
setembro, e o Regulamento das Características do Comportamento Térmico dos Edifícios
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(RCCTE), Decreto-lei n.º 80/2006 de 4 de abril. O RCCTE aborda situações bastante


inovadoras que a bioclimática defende, mas unicamente no âmbito da arquitetura.
Salvaguardadas as proporções urbanisticamente possíveis ou mais comuns, fornece a base de
cálculo que serviu para as simulações dos quarteirões na segunda parte deste trabalho, visto
que esse cálculo foi efetuado por fração e adicionado a um conjunto urbano.
A regulamentação legal é abordada nesta tese por uma razão fundamental: o RCCTE
tem em conta apenas a fração em si, isolada, independentemente de se tratar de uma fração
num prédio ou de uma moradia isolada, não tendo em consideração nenhum benefício ou
interesse nos conjuntos urbanos. Não beneficia sistemas combinados de aquecimento, entre
outros sistemas ativos e a envolvente é relativamente subestimada.
Em contrapartida, a regulamentação dos PMOT não aparenta ser explícita nas suas
propostas. Por exemplo, determina que os planos devam ser «sustentáveis» – mas não explica
o que quer dizer concretamente com isso, quando se trata efetivamente de um termo muito
complexo, dando origem a ambiguidades nos planos urbanos, mas sem prejuízo de
incumprimento legal, dado o seu vasto âmbito. Em suma, a presente investigação estimula o
conhecimento e aprofundamento das duas regulamentações. Se os interesses gerais e rumos
dos próximos anos tendem a ser cada vez mais apoiados na racionalização energética,
associada à ideia de qualidade de vida e bem-estar, faz sentido que esta preocupação
prevaleça.
Todos os projetos no campo da bioclimática são ainda fundamentalmente
experimentais, pese embora a existência de casos com uma componente económica e
comercial, como o projeto espanhol do CIEMAT, o PSE-ARFRISOL. A arquitetura
bioclimática, em âmbito nacional, tem sido alvo de algumas experiências, como o edifício
Solar XXI, do LNEC, ou mesmo o Edifício Verde da Quercus, em Sacavém. No domínio do
planeamento urbano o tema tem sido ainda pouco praticado, restringindo-se mais à teoria e
reflexão.
Apesar destas temáticas serem na sua maioria muito recentes e atuais, existem também
elementos históricos fundamentais na história do Urbanismo. Entre eles a influência de
Vitruvio, ainda hoje determinante. No período da República e Império Romano, engenharia,
construção, arquitetura e urbanismo eram «ciências» e práticas integradas, não divididas nem
compartimentadas. Os Dez Livros de Arquitetura oferecem exemplos que hoje são
recuperados na construção e planeamento, após o fim do período moderno na arquitetura.
Vitruvio identifica vários pontos coincidentes com outras ciências, como a medicina, e que
hoje, no caso da bioclimática, são aspetos de importância considerável, reconhecendo-se que
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

o nível de conforto existente nos espaços interiores tem diretamente muito que ver com saúde
e educação. De igual modo é considerada a localização, a exposição solar e a própria região
também é fulcral, apenas para relembrar que todo o seu tipo de construção divulgado, assim
como a maior parte dos temas concernentes à Roma Clássica, dizem respeito diretamente ao
clima, no caso especifico desta tese, o clima mediterrânico.
Os exemplos da história não abundam porquanto se trata de analisar a situação
conjuntural socioeconómica que os países industrializados atravessam. Alvin Toffler referiu e
previu muitas das alterações das sociedades contemporâneas, nas obras O Choque do Futuro,
publicada em 1970, e A Terceira Vaga, em 1980. A partir da revolução industrial, as cidades
começam a desenvolver-se em sistemas de aglomerados devidos aos intensos êxodos de
população rural. Dos primeiros aglomerados urbanos como Çatal Huyuk, Sanaa ou Shibam,
até aos centros históricos medievais da Europa, a densidade populacional é sem dúvida muito
elevada em relação à maior parte dos bairros com menos de 50 anos na Europa do presente. A
própria Alfama chega a ter zonas cujas cérceas atingem facilmente os seis pisos. A densidade
demográfica surge como uma atitude ou ferramenta de rentabilizar e maximizar o espaço, mas
também de conservar perdas e ganhos em matéria de energia calorífica, princípio este sempre
presente na civilização desde os alvores da cidade – fatores como o crescimento económico
acelerado dos países industrializados, a ideia de que o dinheiro e a produção de energia
resolveriam todos os problemas, fizeram com que se omitisse, ainda que temporariamente, os
ideais e teorias subjacentes.
Outra questão muito pertinente, discutida com regularidade pelos urbanistas, é a
situação atual de «caos urbanístico» (Bordalo, Mateus e Moutinho, 2005). O crescimento
desordenado verificado nos últimos cinquenta anos não se coaduna com a promoção da
verdadeira qualidade de vida numa cidade. Compreende-se que não é a inexistência de
qualidade de vida que trava o crescimento urbano, se não cidades como Lagos, na Nigéria,
não cresceriam exponencialmente. A qualidade urbanística é um instrumento e uma meta
fundamental para um crescimento económico, social e humano da cidade. Nesse sentido, o
conforto e qualidade de vida são elementos portadores e condutores dos conceitos
bioclimáticos, logo partes relevantes da qualidade urbanística. A atual crise económica e do
setor da construção civil poderá revelar-se uma oportunidade, no sentido de permitir a
reflexão antes de se executar precipitadamente quaisquer medidas ou intervenções,
promovendo ao invés estudos e planeamento concertado. Os contributos que o presente
trabalho pretende adicionar à qualidade de vida são, nesta perspetiva, fundamentais.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Foi referido que bioclimática não defende direta ou simplesmente procedimentos


ecológicos ou sustentáveis. Um dos pontos apresentados ao longo desta investigação concerne
à correção de algumas ligações pertinentes, como a relação entre conforto e racionalização de
energia. A bioclimática defende o bem-estar, o conforto e otimização de recursos através de
procedimentos e materiais que poderão ser naturais ou artificiais, mas que deverão ser, acima
de tudo, eficientes e eficazes. Na área da sustentabilidade defende-se a proximidade dos
recursos naturais utilizados; contudo, as madeiras exóticas (importadas) estão mais ligadas à
construção bioclimática em Portugal do que a construção de xisto ou granito (materiais
autóctones). Destes conceitos, há um em particular que indicia uma curiosa contradição: a
construção de terra crua. No âmbito da construção sustentável, podemos considerar a terra
enquanto material localmente próximo; mas os princípios exigidos pela bioclimática são
postos em causa, nomeadamente a fraca durabilidade deste material, face a materiais como as
estruturas de lamelados ou a pré-fabricação e a economia de obra, com custos agravados –
aspetos que podem inviabilizar a concretização de qualquer projeto ou plano consistente
essencialmente constituído por terra crua em território nacional.
Na área dos materiais de construção tem transparecido uma notória contradição na
informação técnica divulgada, em casos específicos como caixilharia e isolamentos térmicos –
questão relevante no plano arquitetónico e precedente ao urbanismo, dado que determinadas
soluções incorretas no âmbito bioclimático poderão influenciar o espaço urbano envolvente.
Por seu turno, os materiais ecológicos não têm estritamente significado ou vantagem aparente
nas práticas bioclimáticas em geral. Os processos de reciclagem e reutilização fazem mais
sentido enquanto verdadeiro objetivo e proveito de reciclagem e integração no espaço urbano
do que somente a reciclagem do produto mas com insuficiência total da sua função ou com
custos demasiado discrepantes.
Uma realidade também investigada é o índice populacional de bairros das cidades de
Lisboa e Castelo Branco. Os valores de coeficiente, segundo o RCCTE, pressupõem uma taxa
de ocupação das casas de 100%. Quando realizamos estudos térmicos em todas as frações de
um prédio, de modo a determinar a despesa total de um quarteirão, é suposto que todas as
frações estejam habitadas. Se estas não estiverem, tal significa que a despesa por fração
ocupada é relativamente mais elevada, pois os habitantes têm necessidade de maior dispêndio
de energia, tendo em consideração as perdas para as frações ocupadas. A investigação sobre
os índices populacionais teve como objetivo determinar a percentagem demográfica que pode
definir o índice de agravamento térmico e partiu do pressuposto de que os dados fornecidos
estavam mais percetíveis. Nesse aspeto singular não houve um sucesso significativo.
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Verificou-se, na maior parte dos elementos conseguidos, que a informação é dispersa e, em


alguns casos, inexistente. Foram também aproveitados dados térmicos fornecidos pela
Agência para a Energia (ADENE) de modo a simular valores médios de despesas de
quarteirões com dados mais fidedignos, fornecidos por peritos qualificados no âmbito do
RCCTE.
Partindo para a fase final da investigação, realiza-se um cruzamento experimental de
informação entre a cidade bioclimática termicamente «perfeita» e a habitabilidade no espaço
urbano hipoteticamente mais adequada. No fundo, trata-se de estabelecer o equilíbrio
necessário para atingir os níveis de qualidade de vida urbana desejados ou requeridos pelas
sociedades mais desenvolvidas. Este cruzamento é feito entre dois elementos: o fator de forma
e as áreas de influência. O fator de forma é um indicador fundamental na bioclimática e está
sempre dependente da regularidade e exposição da forma. Se o quarteirão de edifícios, torre
ou moradia forem compostos por poucas arestas e vértices, o fator de forma será
provavelmente mais baixo. Além disso, quanto maior o número de superfícies exteriores – o
que ocorre tipicamente mais numa moradia e menos nos blocos de quarteirões – maiores serão
as perdas térmicas. Em contrapartida, as áreas de influência são indicadores fundamentais
para atribuição de usos do solo, como equipamentos e infraestruturas.
Nesta sequência surgem possibilidades e alguns exemplos, no plano internacional,
sobre as cidades no mundo e no espaço mediterrâneo. É apresentado o caso de Masdar
(cidade-satélite de Abu Dhabi), como um caso de estudo, que sofreu uma intervenção no
sentido do aproveitamento de características bioclimáticas, sendo criados quarteirões densos e
restabelecendo padrões e conceitos urbanísticos como o de «rua-praça», anulado na segunda
metade do século XX. No sentido desta problematização sobre as cidades, a obra Shrinking
Cities compara cidades «estabilizadas» ou em encolhimento/retração (demográfica, espacial,
económica...), como Berlim e Baltimore – que deixam antever um pouco do futuro das
dinâmicas sociodemográficas da maioria das cidades europeias – com casos contrários de
cidades em grande expansão económica e demográfica, emergentes e em crescimento, como
Shenzen (Laursen, 2008). Estamos perante uma realidade insofismável, da cidade
mediterrânica poder sofrer um processo de encolhimento espacial ou de implosão natural, no
sentido de o meio urbano renovar-se e defender-se energeticamente. O resultado deste
processo, economicamente, aparenta ser vantajoso. Existem, contudo, outras determinações
que confluem e intercedem no processo, como o fator humano, as características e
necessidades sociodemográficas e económicas das populações residentes em meio urbano.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

A cidade poderá efetivamente sofrer uma transformação progressiva, aliás, já em


curso, devido à sucessão de eventos desde a Conferência de Estocolmo e da crise petrolífera
de 1973, que condicionou sobremaneira as ulteriores práticas de consumo de energia e de
matérias-primas. Essa transformação presume-se certa, restando apenas uma questão de
tempo até à sua concretização efetiva. Será em 2020, no espaço europeu? Será a bioclimática
integrada no planeamento urbano, segundo indicadores que dependem dos fatores clima,
forma e materiais? A presente investigação pretende definir a importância destes fatores para
a definição de indicadores fundamentais ao desenvolvimento urbano, em perfeita sintonia
com os critérios de sustentabilidade definidos pela Carta de Ålborg.

Descrição da investigação segundo o objetivo e o método (Reto e Nunes, 1999)

Descrição da investigação segundo o objetivo

Investigação básica versus aplicada. Os conceitos de bioclimática, sustentabilidade ou


racionalização energética são generalistas, abordados constantemente no senso comum, mas
carecem de alguma cientificidade devida a muita informação dispersa. Preocupou-se em
registar vários padrões e estudos de modo a minimizar as probabilidades de informação pouco
credível, e no sentido de desmentir em parte, argumentos científicos pouco corretos ou
incompletos.
Na investigação avaliativa optou-se por abordar essencialmente o conceito de
sustentabilidade utilizando o clima mediterrânico como envolvente climática de estudo. A
investigação foi buscar no entanto exemplos fronteiriços como Masdar. Preocupou-se também
não abordar em especifico a arquitetura bioclimática, apenas de um modo genérico dado que a
«cidade» foi sempre o objetivo principal.
A investigação e desenvolvimento desta tese ajuda a definir os fatores mais influentes
no exercício do conceito de bioclimática, essencialmente no planeamento urbano e em parte
na arquitetura, integrá-lo com os conceitos de sustentabilidade, permitindo criar indicadores
em futuras investigações.
Enquanto investigação-ação, o estudo de investigação no segundo capítulo permitiu
apresentar dados de provas dos três fatores inerentes a qualquer estudo bioclimático. Por outro

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lado, o caso de estudo mais influente é Masdar pela a sua dimensão e variáveis utilizadas em
todo o seu estudo científico.

Descrição da investigação segundo o método

Segundo a componente histórica foi procurado o inicio de conceitos de


sustentabilidade e bioclimática, cruzando com acontecimentos históricos com impacte
mundial. Seguiram-se os seus antecendentes, o pensamento corrente e o que se desenvolveu
até ao estado atual da investigação - 2011.
De acordo com a parte descritiva, o estado atual define-se como um período de
contenção energética, ao contrario de um período de produção em massa que acompanhou
toda revolução industrial até às últimas décadas do século XX. No caso mediterrânico e em
parte países emergentes, desenvolve-se o conceito de conforto térmico, nunca considerado
importante nestas regiões.
Segundo a parte correlacional, a sustentabilidade e a bioclimática cruzam-se
frequentemente, mas são conceitos diferentes e foi necessário explicar como e porquê. No
entanto racionalização energética conjuntamente com conforto térmico relacionam-se com
bioclimática. Por outro lado, existe também a eficiência e a eficácia energética relacionada
com a racionalização energética.
Na parte causal-comparativa, a bioclimática compara-se em parte com alguns
exemplos na história como argumentos dos Dez livros de Vitrúvio (Vitruvio, 2006). No
entanto, o conceito, tal como sustentabilidade, é associado muitas vezes a exemplos de
arquitetura vernácula, planeamento orgânico, arquitetura tradicional, etc...
Por último, a relação experimental define três fatores: a envolvente climática, os
materiais de construção e a forma – foram «relações de causa», estabelecidos a partir de uma
análise do estado de arte e de um estudo de investigação que implicava diretamente a
racionalização energética.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

1. O estado da arte: introdução de conceitos de Bioclimática e Sustentabilidade. A


consciência sociopolítica mundial, europeia e nacional desde o início das primeiras crises
energéticas. A dependência da energia. Análise sobre as discussões e constituição de
planos de eficiência. A eficácia antes da eficiência.

Bioclimática e sustentabilidade são conceitos muito atuais e amplamente discutidos no


domínio geral da sociedade. Numa abordagem mais estritamente científica, foram abordados
e trabalhados inicialmente por autores como Aladar e Victor Olgyay, sendo de destacar o
livro Design With Climate: Bioclimatic Approach to Architectural Regionalism, de 1963 –
em que são aplicados princípios bioclimáticos não somente à arquitetura mas ao urbanismo e
planeamento; sucedendo a uma publicação anterior, de 1957, intitulada Solar Control and
Shading Devices, introduzindo especificamente o conceito de bioclimática na arquitetura.
Nesta disciplina, tem vindo a realizar-se alguma investigação no domínio das práticas
bioclimáticas, nomeadamente nos materiais de construção, aos níveis nacional e internacional
e tanto no âmbito de programas e metas políticas como na investigação científica e
académica. O problema mais sério enfrentado na presente investigação prende-se na
introdução da bioclimática no planeamento urbano, que transcende muito mais do que um
aumento de escala da fração unifamiliar para quarteirões residenciais.
Por outro lado, se o conceito de sustentabilidade tem sido frequentemente usado de
forma genérica e imprecisa – como consta da própria regulamentação legal dos Planos
Municipais de Ordenamento do Território (Decreto-lei 380/99 de 22 de setembro), não
definindo o que se entende por sustentabilidade, até ao Little Green Data Book, de 2009 –
então há certamente uma preocupação de recuperar a origem do conceito e confrontá-lo com
a noção de bioclimática: então, quais as suas ligações e diferenças?
Neste primeiro capítulo pretende esclarecer-se a origem destes dois conceitos e como
uma série de ocorrências, no início dos anos setenta do século XX, foram fundamentais à sua
afirmação e atual importância. Devemos entender que o tema é atual pelas políticas públicas
implicadas, pelas discussões e cenários político-económicos hoje existentes, mas também
pela pouca divulgação de informação e escassa sensibilização da sociedade em geral. Afinal,
sendo a importância de medidas e práticas sustentáveis e bioclimáticas cada vez maior no
mundo atual – com a população urbana a crescer à escala planetária – estas questões não
deverão ser encaradas apenas como problemas económicos, pois, como é demonstrado nos
seguintes subcapítulos, outros setores (saúde, educação, transportes, gestão de resíduos e
muitos outros) são igualmente influenciados e determinantes. No entanto, é importante
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entender que são os limites económicos juntamente com a sensibilização social e a


investigação científica, em determinados momentos, que fazem as ações políticas avançarem
para a tomada de decisões a este nível.
A bioclimática é introduzida enquanto conceito nos anos sessenta do século passado
num período onde a racionalização energética ainda não era considerada pertinente ou como
um tema para discussão. O termo foi em parte sustentado e reforçado segundo os critérios de
Olgyay, posteriormente pela diretiva europeia de 2002/91/CE e também por autores como
Lanham, Gama e Braz, no seu trabalho apresentado num seminário em 14 de junho de 2004,
intitulado Arquitetura Bioclimática: Perspetivas de Inovação e Futuro, no qual os autores
definiram que a arquitetura bioclimática “consiste em pensar e projetar um edifício tendo em
conta toda a envolvência climatérica e características ambientais do local em que se insere.”
(2004, p. 10).
Por outro lado, vários estudos de investigação, como o publicado pela ASHRAE
(American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers) em 1985,
intitulado Criteria for Human Exposure to Humidity in Occupied Buildings, vêm definir o
«estado de conforto térmico» aceitável e adequado no ambiente interior habitado pelo ser
humano. No entanto, a bioclimática, enquanto conforto térmico, ainda está longe de estar
integrada no planeamento e na gestão urbanística estando ainda restrita a frações e edifícios
de forma pontual, salvo algumas exceções, como a publicação de Esther Higueras (2007), a
ser abordada.
Durante as últimas décadas, têm vindo a ser criados em alguns países programas de
notação e avaliação de edifícios e eventos nas áreas ambientais e de eficiência energética,
promovidos por entidades de caráter privado, independente do poder estatal – enquanto a
União Europeia, por sua vez, atua de forma mais pragmática no plano legislativo por
intermédio de Regulamentos e Diretivas, sendo obrigatório que todos os países da UE os
cumpram, apliquem ou atinjam as metas estipuladas, e que também reformulem ou criem
novas leis no âmbito do conforto térmico e racionalização de energia. Atualmente, as duas
instituições mais influentes em âmbito internacional são o BREEAM (Building Research
Establishment Environmental Assessment Method for Buildings), no Reino Unido, e o
USGBC LEED, nos Estados Unidos. Em Portugal, existe a Associação LiderA, embora
grandes grupos empresariais como a Sonae, nomeadamente o projeto Sonae Maia Business
Center, optarem pelos serviços de «certificação» ou notação de agências com maior
reconhecimento internacional, neste caso, a opção foi pelo LEED.

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Ao nível da União Europeia encontra-se em fase aprovação uma norma relativa à


sustentabilidade da construção – CEN TC 350 – que definirá critérios e padrões objetivos,
bem como uma metodologia de avaliação do desempenho ambiental, de custos, impactos e do
conforto térmico e sanitário dos edifícios, complementarmente a alguns critérios de notação
de associações e empresas do setor na Europa. O sistema ainda é muito embrionário e o
processo de creditação e avaliação ainda não cumpre parâmetros de fiscalização e verificação.
Limita-se a um preenchimento de determinados requisitos, os quais poderão verificar-se ou
não, atribuindo uma nota.
Na cidade de Masdar, todos os planos urbanos e de arquitetura seguiram os critérios
das agências LEED e BREEAM; no entanto, foi criado um sistema especial (equivalente a
uma agência de notação) pelo Governo dos Emiratos Árabes Unidos que classificam a cidade
com a designação de «pérola»: Pearl Rating.
Várias convenções e seminários têm sido realizados, cada vez mais sobre temas
específicos relacionados com o clima e a construção. Muito recentemente o ESRC (Economic
& Social Research Council) financiou um encontro na School of Environment and
Development, da Universidade de Manchester, intitulado Climate Science in Urban Design:
A historical and comparative study of applied urban climatology. Conforme referido neste
estudo: “The design of buildings and spaces directly affects urban temperature, wind, rain
and air quality - which in turn influence human comfort and health.” (Hebbert, M., Jankovic,
V., Webb, B., 2011, p. 1). Esta investigação teve como objetivos a interação entre a
climatologia e o planeamento urbano, desde 1950, e examinar o papel do conhecimento
climático no planeamento contemporâneo.
Em suma, a discussão atualmente prende-se na necessária integração de instrumentos
fundamentais para o projeto e planeamento, com a normalização de todos estes meios, dos
sistemas de certificação aos conceitos, como bioclimática ou sustentabilidade, perante uma
sociedade cada vez mais interessada tanto em critérios exigentes de conforto como numa
necessidade de contenção financeira ou económica.

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1.01 O início da racionalização energética – A Conferência de Estocolmo em 6 de


junho de 1972 e o impacto de 17 de outubro de 1973

Como a civilização humana evoluiu de um interesse puramente económico – patente


desde o início da revolução industrial, acentuando-se no passado século, em produzir e
consumir cada vez mais, independentemente dos custos – para um princípio de racionalização
e otimização na utilização de recursos, introduzindo outras variáveis na economia, como a
ecologia e a sociologia? Conforme referido, apesar de determinados conceitos e práticas
bioclimáticas serem desenvolvidas prematuramente em relação ao conceito de
sustentabilidade no ramo da arquitetura, no planeamento urbano essa introdução foi
cronologicamente inversa.
O conceito de sustentabilidade nasce da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente Humano, também conhecida por Conferência de Estocolmo, organizada pelas
Nações Unidas e pelo Clube de Roma, realizada em Estocolmo, de 5 a 16 de junho de 1972,
onde se determinou que as atuais gerações não poderiam comprometer as necessidades de
recursos e o meio ambiente das gerações futuras, nem do seu próprio tempo: “Even the
narrow notion of physical sustainability implies a concern for social equity between
generations, a concern that must logically be extended to equity within each generation.”
(United Nations, 1987). Tornou-se posteriormente num conceito bastante popular, de ampla
utilização, devido à sua abrangência. Naquele período, a sustentabilidade estava mais
direcionada para países com fraco desenvolvimento económico e humano. Apenas mais tarde,
com o Relatório Brundtland (Report of the World Commission on Environment and
Development, 1987) e com a carta de Aalborg – Charter of European Cities & Towns
Towards Sustainability –, em 1994, se definiu mais precisamente o tema, aplicado aos ramos
do planeamento e gestão urbanística dos países europeus:

“We, cities & towns, understand that the idea of sustainable development helps us
to base our standard of living on the carrying capacity of nature. We seek to
achieve social justice, sustainable economies, and environmental sustainability.
Social justice will necessarily have to be based on economic sustainability and
equity, which require environmental sustainability.” (Charter of European Cities
& Towns Towards Sustainability, p. 1)

Noutra perspetiva, até 1972, os países mais industrializados não demonstravam muito
interesse na gestão de recursos energéticos, que possuíam em abundância e a baixo custo.
Toda a política económica desse período se centrava no aumento de produção de energia e
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demais setores industriais/produtivos, mas nunca na sua eficiência. Apenas constituem


exceção a Finlândia e a Alemanha que, respetivamente, em 1976 e 1977 tomaram medidas de
reestruturação económica na gestão dos seus recursos. É de destacar especialmente a
Finlândia, pelo seu modo de orientação política, de acordo com o relatório EPBD (2010), que
não só aplicou requisitos mínimos exigíveis na construção de edifícios, com uma exigência
superior à da atual regulamentação portuguesa e 30 anos antes, como também agregou as
políticas de gestão de recursos energéticos ao Ministério do Ambiente, considerando as
problemáticas da energia e do conforto térmico/climático mais próximas das políticas
ambientais, ecológicas e urbanísticas, e não meramente uma questão económica.
Grande parte dos países europeus, incluindo Portugal, foram incapazes de retirar a
energia e recursos da tutela dos Ministérios da Economia, criando vários impasses
urbanísticos e problemas ambientais, mas acima de tudo tornando a gestão energética
diretamente dependente de agentes e interesses económicos, por vezes privados, sobrepondo-
se aos interesses públicos gerais e nacionais.
Todo o ciclo de racionalização energética se inicia quando se sente pela primeira vez a
falta de matérias-primas para produzir. Enquanto existe energia em quantidade suficiente para
a economia trabalhar, independente de todos os problemas ecológicos e sociais, a questão da
racionalização não se coloca. Mas, não se podendo gerar ou obter energia, o pânico instala-se,
como se sucedeu em 1973, com a falta de abastecimento petrolífero. Apesar de tudo, o
continente Norte-Americano nunca chegou a agir no sentido da racionalização nesse
momento, mesmo apesar do «pânico» instalado, bastante mais intenso do que na Europa.
Jimmy Carter conseguiu travar a subida do preço dos combustíveis devido à sua política de
diplomacia externa; mas apesar de tudo não conseguiu desenvolver qualquer planeamento
nesse sentido. As políticas ou ações internas restringiram-se essencialmente a discursos e
comunicações de intenções, como em 18 de abril de 1977, com a apresentação do programa
nacional energético e de conservação, em que, de qualquer modo, está patente a
consciencialização dos problemas e a necessidade de planeamento para o futuro:

“The 1973 gasoline lines are gone, and our homes are warm again. But our
energy problem is worse tonight than it was in 1973 or a few weeks ago in the
dead of winter. It is worse because more waste has occurred, and more time has
passed by without our planning for the future.” (Carter, 1977)

A política norte-americana tinha então como objetivo a racionalização dos recursos


energéticos, com a criação de um departamento próprio para a energia, e desde logo

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regularizando preços fixos nos combustíveis e estabelecendo limites de temperaturas de


conforto nos grandes edifícios públicos e privados. Apesar destas medidas, não se evitou uma
nova subida, no final dos anos 70, dos preços dos combustíveis, atingindo valores
proporcionais muito semelhantes aos de 2007. A Ordem Executiva ou Executive Order 12003
– Energy Policy and Conservation, de 20 de julho de 1977, tem como um dos objetivos a
conservação de energia, logo programas de eficiência energética em edifícios do estado, mas
também em grandes superfícies, prevendo a redução de 20% do consumo de energia em dez
anos. O plano, no entanto, não previa requisitos na construção, mas apenas na gestão dos
recursos e, com a tomada da presidência por Ronald Reagan em 1981, foi praticamente
abandonado até à atualidade. Este foi o único período da história norte-americana, até aos
dias de hoje, em que a racionalização de energia foi colocada como um tema político
prioritário. O seu insucesso deveu-se não só a um problema de falta de crescimento
económico, como na autossuficiência energética, que apenas sobrecarregou a despesa do
estado na regularização dos preços dos combustíveis; mas acima de tudo, nas previsões e
resultados pouco claros, quando se afirmou que as reservas de petróleo e gás natural do país
tinham cerca de uma década, o que também não se verificou.

“World consumption of oil is still going up. If it were possible to keep it rising
during the 1970s and 1980s by 5 percent a year as it has in the past, we could use
up all the proven reserves of oil in the entire world by the end of the next
decade.” (Carter, 1977)

O programa de Carter não foi na generalidade um insucesso, apenas permaneceu


relativamente adormecido nos Estados Unidos durante 30 anos. No entanto, foram estes os
mesmos tópicos utilizados nas seguintes convenções e nas regulamentações da União
Europeia. Afinal, a lucidez do seu programa era coerente; talvez apenas ainda não estivesse
adaptado à conjuntura socioeconómica e mentalidades do seu tempo.
Vamos pressupor um cenário hipotético, nos nosso dias, de um eventual corte por
tempo indeterminado no abastecimento de energia aos países do Hemisfério Norte. É muito
difícil de imaginar o acontecimento e observar países como os Estados Unidos da América, a
Alemanha ou mesmo a Grécia, simplesmente apáticos e incapazes de regressarem a períodos
históricos anteriores à revolução industrial...
Estas ações de racionalização extrema, mas pontual, existiram em vários períodos da
História, frequentes durante as duas guerras mundiais, ou simplesmente como se sentiram as
tropas napoleónicas quando chegaram à capital russa, ou no embargo económico norte-

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americano a Cuba, iniciado em 1962. Mas aquela que nos diz mais respeito, por todo o
desenvolvimento tecnológico que entretanto já existia e pelo forte impacto nas maiores
potências mundiais, foi a referida por Alvin Toffler na obra intitulada A Terceira Vaga.
Iniciou-se em 17 de outubro de 1973, através de uma decisão destemida dos países árabes da
Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP, que até à data era uma instituição
praticamente invisível nos meios de comunicação social internacionais, que anunciara o corte
de exportação de petróleo a todos os países militarmente envolvidos na guerra de Yom
Kippur, iniciada em 6 outubro de 1973, tendo ocorrido o cessar-fogo, mediado pela
Organização das Nações Unidas, em 25 de outubro de 1973. Um momento de embargo que
durou precisamente cinco meses, num período aparentemente de paz mundial, que criou pela
primeira vez na história algum pânico ou receio em relação às dependências energéticas,
nomeadamente das fontes de energia externas e esgotáveis, como as fósseis, assistindo-se a
um aumento do preço da energia em geral e sobretudo do petróleo e seus derivados, que
nunca diminuiu até à atualidade – conferir figura 1. Mesmo que esta preocupação de
contenção seja mais notória nos nossos dias, foi a partir de 1973 que, pela primeira vez, os
países mais industrializados passaram a conceber e aplicar planos de racionalização da
energia.

Figura 1 – Gráfico adaptado de http://www.wtrg.com/prices.htm. Oscilação do preço do barril


de crude dos últimos 40 anos, segundo dados da inflação atualizados em 2010.

Este pânico perante a falta de petróleo desencadeou toda uma forma de estar e de
encarar os recursos naturais por parte dos cidadãos, sobretudo dos países da Europa e da

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América do Norte, forma de estar que influenciou as temáticas da sustentabilidade e da


bioclimática, analisadas na presente tese. No entanto, outros acontecimentos com impacto
internacional ocorreram, influenciando o preço das matérias-primas, sobretudo do crude; mas
as respostas ao aumento do preço energético nem sempre têm sido coerentes, claras ou
concertadas. Apenas temos como certeza que este processo, iniciado em 1973, tornou-se
irreversível, apesar de todas as suas oscilações.
O valor do petróleo e a sua oscilação – conforme a figura 1, com os preços atualizados
de acordo com o valor de inflação de 2008 – teve quebras em determinados períodos de
recessão, mas não voltará certamente a ter a mesma estabilidade encontrada pela última vez
nos anos 1990, após a guerra do Golfo e até ao final do século, nomeadamente durante todo o
mandato do Presidente dos Estados Unidos da América, Bill Clinton.
Na figura 2, podemos apreciar uma perspetiva de todas as oscilações desde a segunda
metade do século XIX, quando se intensifica a relevância do petróleo na indústria e restante
economia. No espaço de 100 anos, o preço do crude teve um comportamento relativamente
constante, com oscilações devido a fatores pontuais, como o «crash» da bolsa de valores
americana de 1929 e o pós II Guerra Mundial. Sem o cálculo da inflação, o preço do crude,
por barril, entre 1948 até 1970, segundo os dados fornecidos pela revista económica WTRG
(2011), foi entre 2,5 e 3$. Com a crise de 1973, num curto espaço de tempo passou a custar
12$. Analisando o gráfico da figura 1, presume-se que o valor desceu consideravelmente
antes da revolução iraniana que deu origem à segunda crise do petróleo, em 1979 . No
entanto, os valores reais subiram ligeiramente, entre 12 e 13,5$. A razão, por ironia, é apenas
porque os valores do aumento do petróleo causaram sem dúvida uma subida muito acentuada
da inflação, dado que a simples subida desta matéria influenciou todo o preço das restantes
matérias-primas, do setor da construção, transportes, etc.

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Figura 2 – Oscilações do preço do crude desde o início da sua exportação e interesse


comercial de acordo com os dados atualizados e fornecidos pela pela publicação WTRG Economics
(2011)

Retornando aos nossos dias, se no plano arquitetónico a intenção de reduzir despesas


energéticas aparenta ser muito visível (como o aumento da aplicação de isolamentos
térmicos, por exemplo) e sem criar condicionantes estéticas, sociais ou sanitárias, pois um
edifício bioclimático corretamente concebido privilegia o bem-estar e o conforto térmico;
muito pelo contrário, no plano urbanístico as condicionantes aparentam maior invisibilidade e
complexidade. Será este nível de complexidade a razão porque os regulamentos europeus de
eficiência energética pouco abrangem certas exigências no plano urbanístico? Será
simplesmente algum desconhecimento científico sobre as necessidades de contenção
energética aplicadas à escala de bairros e extensos quarteirões ou haverá apenas o interesse
das medidas se limitarem ao isolamento das envolventes opacas (fachadas e coberturas dos
edifícios), recorrendo a métodos simplificados da ação do nosso clima, evitando grandes
conflitos de discussão social e estética como envolvem normalmente os planos urbanísticos?
Paralelamente a estas problemáticas e questões, mas não alheio às mesmos, está o
planeamento urbano. Autores como Bordalo, Mateus & Moutinho expõem os problemas
resultantes do crescimento urbano desordenado verificado nas últimas quatro décadas – “o
caos urbanístico em Portugal é um facto generalizado e indesmentível” (Bordalo, Mateus &
Moutinho, 2005. p. 1), pois “não se trata só de clandestinos ou de bairros de lata mas também,
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e infelizmente, de loteamentos e obras, administrativa, jurídica e tecnicamente suportadas”


(ibidem, p. 1). A qualidade urbanística não tem sido evidente ou percetível, nem motivo de
preocupação política na conceção de medidas e políticas favoráveis às populações e
promotoras de qualidade de vida; mas entendida, com alguma ignorância, apenas de interesse
económico e especulativo, sem olhar para os efeitos nefastos e menos-valias urbanas. Se a
qualidade urbanística deveria refletir-se nos futuros planos e na requalificação urbana, todo
este processo de racionalização energética deveria ter logo em conta as diretivas comunitárias,
a começar pelo plano/planeamento em si e nunca do fracionamento (frações arquitetónicas)
pontual – ou seja, deveria iniciar-se nas cidade e não no edifício.
A discussão europeia é genérica e consensual em todos os países da UE perante o
interesse de reduzir substancialmente o consumo energético. Como referido nos dados da
Diretiva EPBD (Energy Performance for Building Directive), os edifícios na Europa são
responsáveis por 40% do consumo de energia; presume-se não existir outro caminho no
sentido de controlar essa despesa. No entanto, a regulamentação europeia é bastante
pragmática na redução e nas ações de desempenho energético dos edifícios novos e também
dos existentes. Alguns países com maior ambição neste domínio, como a Dinamarca,
Portugal, Alemanha ou a Suécia, iniciaram todo estes procedimentos um pouco mais cedo,
entre outros que apenas começaram os seus regulamentos e sistemas de certificação
energética com maior dinamismo em 2010 como a Grécia. Mas nenhum apresenta qualquer
ligação ou programa de planos urbanísticos, nem incentivos nem campanhas.
Existem projetos pontuais, ainda um pouco dissociados uns dos outros, não resultando
de medidas ou políticas concertadas, como o conceito SMART GRIDS, que prevê a
utilização das redes elétricas abrangendo ligações como a produção fotovoltaica nas
habitações para apoio à estabilização das redes fornecedoras. Mas programas como estes não
exigem ser estabelecidos em planos de pormenor, fazendo contudo todo o sentido que assim
sejam obrigados, tal como o atual RCCTE no plano nacional – Regulamento das
Características do Comportamento Térmico dos Edifícios, Decreto-lei n.º 80/2006 de 4 de
abril de 2006 – que prevê uma utilização mínima de coletores solares no ato de projeto e
construção de novos edifícios.
Há uma leve exceção no regulamento Búlgaro, de acordo com o seu relatório nas CA-
EPBD (Concerted Action Report for Energy Performance for Building Directive, 2011) tendo
como uma das principais diretivas o estímulo à construção multifamiliar, penalizando mais as
habitações unifamiliares, por serem mais energeticamente menos eficientes, mas não tendo
nenhum objetivo específico para programas de quarteirões, bairros ou planos de intervenção.
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Existem ainda programas internacionais, como o US-LEED (United States Leadership


in Energy and Environmental Design), com uma abrangência muito grande no conforto
térmico de acordo com os padrões definidos pela ASHRAE e pela eficiência do consumo
energético, promovendo programas em vários domínios da construção, incluindo quarteirões
e urbanizações. Em Portugal, têm começado a surgir iniciativas no sentido promocional e de
divulgação ao público, como as conferências, seminários e publicações no âmbito da
Iniciativa Construção Sustentável e Human Habitat, ações promovidas pela arquiteta Lívia
Tirone e pela sua equipa – Tirone Nunes.
É preciso a sociedade consciencializar-se, acima de tudo, de que não existe retorno
neste processo. A União Europeia estabeleceu as suas metas para 2020, expressas pelas
Diretivas EPBD e pelo Programa 20-20-20, que gerou um consenso entre os líderes europeus
na redução de 20% de emissões de gases, no sentido de dar o exemplo a outros países
emissores de gases com efeito de estufa e na promoção de um maior equilíbrio no contributo
da parte dos países em desenvolvimento. A Medida/Programa Climate Action da Comissão
Europeia, com início em 2007, possui três metas principais que foram publicadas na página
oficial do Programa (http://ec.europa.eu/clima/policies/package/index_en.htm), que
consistem, sucintamente, na redução de 20% das emissões de gases com efeito de estufa
(tendo como referência os valores de 1990), incrementar o consumo de 20% de energia por
intermédio de fontes renováveis e, por último, uma redução de 20% do consumo energia
primária, a atingir através de ações de melhoria na eficiência energética.
Sendo difícil de analisar as razões principais da decisão consensual da EPBD, além
dos consensos obtidos em Convenções e Acordos internacionais e das recentes medidas e
diretivas acordadas no plano da UE (vinculando os estados-membros ao seu cumprimento);
os governos nacionais, da administração central à local, ainda têm efetivamente dificuldades
em definir os melhores programas ou os sistemas mais adequados na conceção de um plano
ou projeto de intervenção ou reabilitação urbanística. Mas, seja qual for o percurso e medidas
concretas aplicadas, a forma da cidade terá efetivamente uma transformação que é
dependente diretamente da regulamentação da EPBD (Diretivas 2002/91/EC e 2010/31/EU),
mesmo que sejam apenas o fator forma e os métodos de simplificação dos agentes climáticos
os únicos instrumentos dos regulamentos europeus que interajam com o planeamento das
cidades.

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1.02 Senso comum ou sentido comum?

Se o cidadão ainda não está totalmente sensibilizado ou consciente das necessidades


do planeamento para a adequada qualidade urbana e desenvolvimento, conforme referido e
proposto por Bordalo, Mateus & Moutinho (2005), enunciando inclusive indicadores
fundamentais, entendemos que as perguntas como concebe ou imagina o cidadão a sua
cidade ideal? E qual a importância do conforto térmico e climático? tendem a afastar ainda
mais a qualquer inquérito, uma dimensão histórica da consciência, elemento que constitui a
questão fundamental do processo de desenvolvimento das sociedades. Séneca assim
transmitiu que “o insensato não precisa de nada precisamente porque não sabe o uso correto
de nada, no entanto carece de tudo.” (Séneca, [s.d., séc. I d. C.] 2004, p. 25). Isto significa
que ter a mínima consciência do problema poderá ser o primeiro passo para a solução.
Na presente tese, aborda-se o conceito de sustentabilidade segundo a Carta de
Aalborg, de 1994, que por sua vez segue princípios definidos ainda na conferência de
Estocolmo, em 1972. A seguinte definição, de que a sustentabilidade implica a satisfação das
necessidades das sociedades do presente sem comprometer o ambiente e recursos das
gerações futuras (United Nations, 1987), passou a ser uma noção correta e incorretamente
utilizada nos meios tanto científicos como de comunicação social e triviais. Por melhores que
fossem as intenções e com todo o interesse de perceber o caos gerado pelo crescimento
industrial e económico acelerado, sem olhar a todos os seus gastos e desperdícios, em 1972,
não foram adotadas quaisquer medidas concretas quanto ao consumo de matérias-primas ou à
poluição. Um ano mais tarde, instala-se o pânico com a primeira crise petrolífera.
Este conceito de sustentabilidade, apesar de estar muito popularizado no vocabulário
diário dos cidadãos europeus e norte-americanos, pouco se tem desenvolvido no plano
científico em concreto, permanecendo mais um conceito filosófico ou de cariz adjetival, do
que biológico, ecológico, económico, ou mesmo urbanístico. Sendo a sustentabilidade uma
noção vaga e muito abrangente, foi e é utilizada para finalidades por vezes propagandistas ou
demagógicas; à exceção de exemplos muito particulares, como as políticas energéticas de
Olof Palme, que em inversão total às grandes potências mundiais do seu período,
desenvolveu programas opcionais de hidroelétricas – dos poucos sistemas de produção
elétrica alternativa existentes na altura, dado que sistemas eólicos e fotovoltaicos ainda eram
relativamente desconhecidos – medidas objetivamente sustentáveis, ambiental e

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energeticamente. Palme renunciou também aos programas de produção de energia nuclear,


preocupando-se ainda com questões urbanísticas, por exemplo, em defender o património
rústico – florestas e ilhas – evitando que a expansão imobiliária ou a exploração florestal
tomasse conta de propriedade pública, e mesmo privada, ou que tomasse lugar em áreas
protegidas, como o território lapónio, no Noroeste da Suécia, próximo do Círculo Polar
Ártico.
Associando toda esta informação e no interesse de combater/reverter o atual
paradigma nacional de um «urbanismo caótico» (Bordalo, Mateus & Moutinho, 2005),
deveria ser exigida maior objetividade e clareza na expressão dos objetivos e metas políticas,
coerência na análise das circunstâncias, eficácia no processo de antecipação dos
procedimentos – devido à grande complexidade da natureza dos fenómenos encadeados
«clima, climatização, bioclimática», que poderão constituir a curto prazo mais do que simples
meios auxiliares da gestão urbanística.
As alegações de problemas sociais influenciadores do comportamento nas novas
cidades e decorrentes da configuração e características do meio urbano – apontadas por
autores de referência, como Jane Jacobs e posteriormente por Christopher Alexander,
integrando o conceito A city is not a tree – tiveram impacto sobretudo nos meios académicos
e pouco além destes, pois a maioria das medidas políticas do mundo ocidental eram então
centradas num pensamento unicamente comercial, capaz de gerar ganhos para a economia,
que por sua vez deveria solucionar todas as outras questões, como os problemas sociais – e
como continua a decorrer hoje em grande parte do mundo industrializado, como os EUA, ou
num sistema politicamente contrário, na China, sendo de destacar a cidade de Shenzen,
atualmente em pleno crescimento.
É nesse sentido, ao dar-se o primeiro «travão» na obtenção de recursos energéticos em
1973, que a economia mundial tem provavelmente a sua primeira revelação ou tomada de
consciência: será que devemos simplesmente utilizar e consumir sem restrições os nossos
recursos naturais? Não se trata de racionar ou evitar apenas o petróleo e seus derivados, mas
inclusivamente todos os recursos que aparentemente seriam inesgotáveis. Nem o Sol nem as
marés deverão assim ser considerados – e o planeamento urbanístico é um instrumento
fundamental para entender a gestão e consumo de energia e demais recursos como uma
questão coletiva, respeitante às cidades e aos territórios, e não um problema individual,
restrito à arquitetura e à gestão dos edifícios – embora seja também preponderante neste
último plano.

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Acima de tudo, há que equilibrar a necessidade de despesa face à qualidade de vida


das populações urbanas e presume-se que foi nesse contexto que se partiu para determinadas
intervenções nas áreas de decisão política aos níveis local, nacional ou internacional. Em
termos absolutos, a questão fundamental é uma complexa relação de identidade, do que
significa viver de acordo com os recursos disponíveis na Natureza e simultaneamente na
sociedade humana, a questão premente envolve o processo relacionado com a noção de
energia, a sua obtenção e o seu uso, a sua produção e consumo de forma equilibrada. Esta
forma equilibrada de consumo enquadra-se provavelmente na célebre definição de
sustentabilidade, conforme se referiu anteriormente, publicada no Relatório 42/187 da
Organização das Nações Unidas.
Energia, recursos e urbanização levantam questões complexas e inesperadas, que não
podem ser subestimadas, como as expostas pelo discurso demográfico de Jacques Veron: “A
urbanização é um fenómeno maior, do ponto de vista da agricultura.” (Veron, 1996, p. 32).
Veron referia que todo este progresso das cidades era um equilíbrio resultante de todo o
processo de mecanização implementado na agricultura, tornando uma grande parte da
população excedentária no meio rural. Por outro lado: “A urbanização excede também um
efeito mais indireto na agricultura por modelos de consumo que tende a favorecer.” (Veron,
1996, p. 32). Neste sentido, apesar de a urbanização se tratar de uma mais-valia, também
pode tender para outros fins de total esgotamento de recursos ou de falta de independência
dos estados, pois “pode desempenhar também um papel no sentido de um acréscimo da
dependência alimentar de um país por consumo preferencial de produtos de importação”
(Veron, 1996, p. 32).
O debate europeu é genérico e consensual em todos os países perante o interesse de
reduzir substancialmente os consumos energéticos e de matérias-primas. Esse debate está
alargado a exemplos circunvizinhos com ligações de proximidade muito acentuadas. Aliás,
visto de uma perspetiva pragmática mais recente, a Organização das Nações Unidas para o
Desenvolvimento Industrial, no Relatório Especial Le Développement Économique en
Afrique. Promovoir de Dévellopement Industriel en Afrique dans le Nouvel Environnement
Mondial, apontou: “Il y avait en effet chez les dirigeants africains la conviction que
l’industrialisation était nécessaire pour assurer l’autosuffisance et réduire la dépendance vis-
à-vis des pays avancés.” (ONUDI, 2011, pp. 9-10) 1. Este relatório não só aborda as

1
“Il y avait en effet chez les dirigeants africains la conviction que l’industrialisation était nécessaire pour assurer
l’autosuffisance et réduire la dépendance vis-à-vis des pays avancés. On attendait en outre de l’industrialisation
qu’elle accélère le passage des pays africains d’une économie agricole à une économie moderne, qu’elle crée des
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

consequências do choque petrolífero nos países industriais como exemplo a ter em conta em
todo o processo de industrialização, como se preocupa também em entender os problemas
principais que a passagem de um sistema baseado numa economia agrícola para um sistema
industrializado podem trazer. Além da dificuldade de competitividade no mercado mundial e
os obstáculos dos países economicamente mais fortes, graves problemas do ponto de vista
ambiental são causados pelos países que ainda hoje são genericamente mais poluentes, como
o caso dos Estados Unidos da América.
O estudo adequado às circunstâncias resultantes da intervenção humana deverá
obedecer a princípios de natureza científica cuja metodologia, objeto e finalidade tem de ser
presente de modo a poder ser alcançado o fim proposto, nomeadamente o desenvolvimento
equilibrado das sociedades, incluindo a reorganização do setor energético no atual estado de
desenvolvimento demográfico que, nos séculos XX e XXI, foi exponencial, havendo
triplicado praticamente a população do globo, o que coloca novos desafios. A expansão
acelerada do ritmo de crescimento demográfico e do consumo de recursos criou problemas
novos, provocou uma revisão menos nostálgica das teorias consolidadas e o aparecimento de
novas teorias cuja aplicabilidade carece de fundamentação científica. O raciocínio neo-
malthusiano assente na existência de limites ao crescimento indefinido foi alvo de grande
discussão quando pôs em causa as perspetivas a longo prazo do consumo de matérias-primas
ou de energia; é também o caso do carvão vegetal, não só utilizado na indústria, mas
sobretudo no uso doméstico para aquecimento das casas, fenómeno que é especialmente
pernicioso nos países do Hemisfério Sul.
“A ciência permite questionar com sentido crítico os factos presumidos e constitui por
isso uma base da democracia”, assim considera o geneticista Josef Penninger, referido pelo

emplois, qu’elle améliore les revenus et les niveaux de vie et qu’elle réduise la vulnérabilité à la détérioration des
termes de l’échange résultant d’une trop forte dépendance vis-à-vis des exportations de produits primaires. Mais
dans les années 1970, avec les chocs pétroliers successifs et l’apparition de problèmes d’endettement il est
devenu clair que l’industrialisation par le remplacement des importations n’était tout simplement pas viable.
Avec l’introduction des programmes d’ajustement structurel dans les années 1980, les pays africains ont délaissé
les actions spécifiques pour promouvoir l’industrialisation, au profit de l’élimination des facteurs faisant obstacle
aux exportations et d’une spécialisation plus poussée en fonction de l’avantage comparatif. L’idée était que les
pressions concurrentielles dynamiseraient l’activité économique en favorisant la survie des plus forts. Mais si
l’on entendait certainement que ces politiques aient des effets structurels, elles n’ont pas dopé l’industrialisation
dans la région, selon les tenants de la thèse classique. Ces dernières années, les pays africains se sont de nouveau
engagés en faveur de l’industrialisation dans le cadre d’un plus vaste programme pour diversifier leur économie,
mieux résister aux chocs et se doter de capacités productives qui permettent une croissance économique forte et
durable, la création d’emplois et une réduction notable de la pauvreté. En janvier 2007 par exemple, le
Gouvernement sud-africain a adopté un cadre national de politique industrielle visant à diversifier la structure de
la production et des exportations, à promouvoir une industrialisation à forte intensité de main-d’oeuvre, à passer
progressivement à une économie du savoir et à contribuer au développement industriel de la région. Il a
également dévoilé des plans d’action pour la politique industrielle aux fins de la mise en oeuvre du cadre
national”. (ONUDI, 2011, pp. 9-10)
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

jornal austríaco Der Standard na sua edição de 11 de julho de 2011.2 Quando Josef Penninger
menciona uma “nossa maneira de viver em conjunto”, o médico austríaco introduz-nos numa
situação em que diversos termos e conceitos, longe de ser negligenciáveis antes constituem o
sintoma de um apelo à nossa boa consciência para ser crítica, porque o momento atual é de
grandes transformações não só sociais, mas também genéticas. Na verdade, tenta colocar-nos
perante a necessidade do espírito crítico para agir cientificamente, mesmo que isso signifique
pouco mais do que um apelo já elaborado séculos atrás por René Descartes quanto à «dúvida
metódica» e às «ideias claras e distintas». O cartesianismo está ainda imbricado como método
do pensar na atualidade, apesar do peso da filosofia crítica de Kant e da dialética hegeliana.
Vejamos também as condições impostas pela economia política. Há cinquenta anos
John Kenneth Galbraith, prestes a tornar-se o farol da economia norte-americana, muito antes
do grande choque petrolífero do último quartel do século XX, debruçou-se também sobre a
necessidade de educadores e cientistas assumirem uma posição crítica perante o sistema
industrial. Galbraith tornou-se numa personagem incontestável no domínio da metodologia
da análise científica, quando pôs em questão toda a estrutura social e política norte-americana
ao revelar que, na hora em que se desencadeava o fatal auxílio norte-americano ao Vietname,
apenas quinhentas empresas eram responsáveis por mais de metade da produção industrial
dos EUA – ou seja, a economia do país estava longe do modelo concorrencial que
aparentemente advogava. Embora incida sobre os Estados Unidos, na prática John Kenneth
Galbraith implicava todos os países e toda a produção industrial incluindo a explosão operada
na construção civil, a ocupação obsessiva de novos espaços industriais, a edificação de
«cidades-colmeia» para receber uma população nova sob o signo da abundância, cidades
novas com as suas avenidas e torres características em redor das «velhas», cidades cujos
problemas só décadas mais tarde teriam de ser encarados com outro realismo.
Porém, ainda houve que transpor algumas barreiras, até que se começou a falar
abertamente em globalização e economia global, o que aconteceria poucos anos depois, em
1967, com uma nova obra de Galbraith intitulada O Novo Estado Industrial (The New

2
“A ciência permite questionar com sentido crítico os factos presumidos e constitui por isso uma base
da democracia. Para mim, a ciência desenvolveu-se ao ponto em que devemos ser levados a sério. Vivemos
numa era de revolução genética e de desenvolvimento de novas tecnologias que transformam fundamentalmente
a nossa vida, as nossas indústrias, a nossa maneira de viver em conjunto (…)” estou convencido de que devemos
aprender certas coisas da ciência e aplicá-las à sociedade: um dos princípios mais importantes é ser aberto face à
novidade, debater os avisos contrários e a partir daí tomar uma decisão apoiada numa base fundamentada –
mesmo quando essa decisão é impopular. A ciência fornece o método para resolver os problemas e por em causa
de maneira crítica factos aparentes mais do que acreditar em tudo o que nos é apresentado. Estas qualidades não
são a base da democracia e duma sociedade tolerante no seio da qual se pode ter uma opinião diferente e ser
respeitado?”. (Eurotopics, 11.7.2011).
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Industrial State) na qual demonstra que o poder, anteriormente associado ao capital, foi
transferido para as grandes organizações e tecnocracia, resultando daí uma promiscuidade
entre o poder político e as grandes corporações. A grande questão que se colocou com esta
teoria ou modelo tecnocrático, sobre o qual assenta a remodelação e renovação da produção
industrial, é a aplicação à produção de uma tecnologia cada vez mais elaborada e complexa e
a substituição da mão de obra por maquinaria (segundo Porcher, 1972, p. 21). Essas normas
exigiram uma definição rigorosa de tecnologia e da sua extensão em todos os ramos da
atividade humana:

“A tecnologia é a aplicação sistemática da ciência e de todos os outros


conhecimentos organizados a tarefas práticas. A sua consequência mais
importante, pelo menos no campo da economia, é obrigar-nos a dividir e a
subdividir cada uma destas tarefas nos seus elementos constituintes. É assim e
apenas assim que o conhecimento organizado pode dar origem a realizações
concretas”. (Porcher, 1972, p. 21-22).

A introdução da tecnologia na produção industrial, dividida e subdividida em frações,


desencadeia um conjunto de consequências relativas ao tempo do ato de produção, o aumento
constante do capital investido, a rigidez dos prazos e despesas, especialização da mão de
obra, orientação do trabalho dos especialistas para um resultado coerente, e destas cinco
premissas extrai uma sexta, a necessidade de uma programação que vai até à planificação. O
traço fundamental a destacar na metodologia de Galbraith é a sua busca de fundamentação, a
comprovação empírica e utilidade prática das teorias e medidas, orientadas para solucionar
problemas: “existe um alto grau de probabilidade de que os problemas tenham uma solução,
mesmo que ainda não possuamos os conhecimentos que permitem resolvê-los” (Porcher,
1972, p. 23).
Para tomar conhecimento da consciência ou perspetivas no domínio sociopolítico
desde as primeiras crises energéticas, nos planos mundial, europeu e nacional, torna-se
necessário procurá-las na evolução concreta em matérias relevantes neste âmbito, como a
gestão da energia, gestão urbanística e ecologia, na interação dos compromissos e metas
políticas com o plano da conceção e da teoria, assim como no planeamento e na execução de
medidas que, num sentido lato, poderão conduzir ao desenvolvimento e qualidade de vida das
sociedades.
O grande obstáculo à compreensão das relações conceptuais continua a ser o princípio
da normatividade inerente à aplicabilidade dos conceitos, fundado na ideia de que, para ter
relevância social e um pretexto moral, todos os comportamentos têm de ser legislados. A
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

exigência e a profusão de leis, que envolvem a prática social, surgem em resultado de um


conflito que surgiu no primeiro quartel do século XX, que pode ser explicado pelos termos
«desideologizar» e «desideologização», num sentido puramente científico de procurar a
isenção face a pressupostos ideológicos, princípios ou crenças. A complexidade emergente
destes sistemas pode traduzir-se por retirar ou extirpar a ideologia daquilo do que ela é na
realidade, reutilizado intensamente na segunda metade do passado século, em resultado
inevitável da chamada «guerra fria», com que foi tentado o equilíbrio económico e
geopolítico mundial até à queda do muro de Berlim.
Como se verifica imediatamente, numa determinada ação entram em presença uma
multiplicidade considerável de conceitos, o que torna a situação mais complexa. Numa
primeira análise sobre as discussões e constituição de planos de eficiência e de eficácia
energética, o que se verifica – mais do que o impulso científico ou a pesquisa tecnológica – é
a presença incontornável do ordenamento jurídico. Um lote habitacional ou um conjunto de
urbanizações, uma zona industrial ou centro de negócios, uma praça pública ou um jardim
exigem o cumprimento de regulamentos diversos e de contratos e outras obrigações
apreciadas à luz dos preceitos legais estatuídos. Mas a sua necessidade, a sua conceção e o
seu objetivo obedece a normas e regras não consentâneas com o ordenamento jurídico;
obedecem, ainda de outra perspetiva, a regras mais implacáveis e rigorosas provenientes das
imposições da sociedade, da natureza e da geografia como o sol, a luz, o vento, o dia, a noite,
as marés, aquecimento, arrefecimento, combustíveis, aquilo que se poderá abarcar, com a
complexidade inerente aos fenómenos naturais emergentes da vida, num só vocábulo – a
energia. Este conceito oferece à ciência uma história estranha e emaranhada, não isenta de
crueldade e conflitos. Utilizar o termo no singular, energia, ou no plural, energias, coloca-nos
imediatamente perante um problema de clareza quanto à origem, dimensionamento e
objetivos. O seu estudo científico exige uma grande convergência de disciplinas, da Física e
da Mecânica à Química Orgânica e Inorgânica, Matemática, Filosofia, Ciência Política e
Economia – da atividade industrial extrativa ou transformadora e comercial.
Ventilação, aquecimento, arrefecimento, eletrodomésticos, calor, iluminação,
eletricidade, transporte, acumuladores, gás natural, eólicas, hidroelétricas, biomassa, urânio,
plutónio, carvão, aço, combustíveis, água, entre tantas outras, são hoje palavras profusamente
utilizadas na vida corrente, pela importância decisiva que possuem no estado de
desenvolvimento da sociedade – e a gestão dos problemas que arrastam é preponderante e
prioritária para os poderes e políticas na atualidade. Isso significa que a noção de poder
político passa hoje também pela definição correta e eficaz de controlo, fiscalização e
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correção, mas também de diversidade e capacidade de previsão, de planeamento e gestão da


cidade e território, como da utilização racional da energia e demais recursos.
Retornemos mais objetivamente ao nosso assunto. Como referido, se no plano
arquitetónico a intenção da construção bioclimática é a redução dos gastos energéticos, sendo
insuscetível de criar condicionantes sociais ou estéticas, privilegiando o bem estar e o
conforto térmico, já no plano urbanístico as condicionantes possuem uma complexidade
crescente, não restrita à mera propriedade privada, mas igualmente aos diversos espaços de
usufruto público e coletivo, infraestruturas e equipamentos, sendo extremamente complexo
no âmbito do planeamento e ordenamento do espaço – e inclusive no plano jurídico –
conciliar interesses públicos e privados.
Sendo assim, questionamos novamente, perante neste nível de complexidade, qual
será a razão pela qual as normas e os regulamentos europeus de eficiência energética pouco
abrangem no seu contexto as exigências impostas pelo plano urbanístico? Ou como
pretendem os estados membros da UE impor-se ou atuar neste campo?
A história dá-nos uma resposta substantiva no domínio da teoria política e na doutrina
social. Por essa razão, abre-se um amplo campo de pesquisa na determinação dos seus
resultados em situações concretas mormente na vertente aqui chamada. Qualquer projeto,
independentemente do seu valor e mérito intelectual, teórico e conceptual, tem de ser visto à
luz da eficácia da exequibilidade prática. No inicio do século XX ocorreu um verdadeiro
surto de manifestos que atravessaram praticamente todos os domínios do saber alcançado na
Europa. Aliás o tom geral da literatura, ou mais especificamente da análise social, tende para
essa metodologia e o retorno ao Renascimento e à Filosofia Clássica Alemã – que vão buscar
o seu fundamento às civilizações Greco-Latinas – não trás aparentemente nenhuma novidade.
Quando Le Corbusier, como Da Vinci e muitos outros pensadores, vão buscar a
conhecida conclusão de Protágoras – o homem é a medida de todas as coisas – podemos
aferir que os sistemas sociais, políticos, tecnológicos, artísticos, se apoiam nessa «justa
medida», também suportadas por outros filósofos e pensadores dedicados à ciência, ao
direito, à organização política e a todos os ramos do saber, como Isaac Newton, John Boyle,
Elias Ashmole, pertencentes à Royal Society de Londres e que legaram estudos preciosos
acerca de algumas civilizações da Antiguidade Pré-clássica e Clássica – trazendo ao
conhecimento formas de organização social que durante o século XIX passaram praticamente
despercebidas, em grande parte devido às convulsões sociais que assolaram a Europa e o
Mundo, com a industrialização e a busca de matérias-primas por todas as regiões do planeta.
Isso implicou um contributo relacional inédito e as consequências foram as transformações
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

sociais que se operaram e têm operado por toda a parte. O conhecimento concreto da
«dimensão humana» à escala mundial na sociedade industrial alterou-se profundamente em
relação aos séculos anteriores, conforme verificamos através de Le Corbusier, no Congresso
Internacional de Arquitetura Moderna, em 1933 (art.º 76):

“A medida natural do homem deve servir de base a todas as escalas que estarão
relacionadas à vida e às diversas funções do ser. Escala de medidas, que se
aplicarão às superfícies ou às distâncias; escala das distâncias que serão
consideradas em sua relação com o ritmo natural do homem; escala dos horários
que devem ser determinados considerando-se o trajeto quotidiano do sol.”

Para julgar desta “justa medida” de integração do urbanismo no espaço e no tempo, o


mesmo autor dimensiona a sua extensão afirmando, na célebre Carta de Atenas, que: “As
chaves do urbanismo estão nas quatro funções: habitar, trabalhar, recrear-se (horas livres),
circular.” (Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, 1933, art.º 77). Parece ser este o
argumento fundamental para explicar e dar coerência ao seu raciocínio, que oferece a sua
dimensão histórica insofismável:

“O urbanismo exprime a maneira de ser de uma época. Até agora ele só atacou um
único problema, o da circulação. Ele se contentou a traçar ruas, constituindo assim
quarteirões edificados cuja destinação é abandonada à aventura das iniciativas
privadas. Essa é uma visão estreita e insuficiente da missão que lhe está
destinada.” (Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, 1933, art.º 77).

A ideia contida na resposta que nos oferece adquire hoje uma dimensão menos
fortuita visto que, além da enunciada missão do urbanismo, pressupõe-se explicitamente o
compromisso com a sociedade e o seu desenvolvimento, um controlo efetivo da atividade
privada que condiciona a grande maioria do espaço urbano; em suma, perspetivar o
urbanismo de forma ampla e integrada. Porém, a dimensão humanista herdeira do
pensamento clássico grego-latino, influenciada pelos juízos filosóficos de várias épocas, está
sempre presente. Com efeito, quem constrói um edifício ou concebe um plano urbano, fá-lo
objetivamente para alguém, pessoa ou comunidade, com certos objetivos e finalidades, seja
uma entidade pública ou privada.
Desta forma conseguimos entender a necessidade de perguntar como pensa ou
perspetiva o cidadão a sua cidade ideal e qual a importância do conforto térmico, de modo a
relacionarmos as temáticas científicas abordadas com o “senso comum” e com a consciência
da história. E não esquecendo o essencial, que o objetivo das comunidades políticas, dos
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Estados de Direito, é o bem-estar, a justiça e o desenvolvimento das sociedades respetivas,


comunidades em prol das quais os cidadãos contribuem de múltiplas formas, logo as suas
necessidades, interesses, desejos e expectativas são prioritários a ter em conta pelos poderes
públicos nas suas decisões e ações – aliás, essa é a sua principal razão de existência.
A tomada de consciência de um problema poderá ser o primeiro passo para a sua
solução e por esse motivo exige, antes de mais, a maior simplicidade, mas também rigor e
exatidão na expressão dos objetivos, coerência na análise das circunstâncias, eficácia no
processo de antecipação dos procedimentos devido à grande complexidade da natureza dos
fenómenos encadeados, clima, climatização, bioclimática e sustentabilidade, que poderão
constituir a curto prazo mais do que simples meios auxiliares da gestão urbanística.
Há sem dúvida receio na vulgarização ou deturpação de termos fundamentais para a
comunidade científica, como o conceito de sustentabilidade e, mais que isso, o próprio
conceito de entropia – recriado de um termo grego, que significa diretamente «uma viragem
para», pelo físico alemão Rudolph Clausius, designando-o como uma «medida de desordem
de um sistema» – termo posteriormente empregado de forma adjetivada por diversas áreas do
conhecimento, sem compreender ou conhecer sequer o significado etimológico do mesmo.
Antes de entender este conceito da física, seria preciso fundamentalmente dominar
terminologias como sistemas fechados, sistemas abertos e sistemas isolados, matéria e
vizinhança.
Só depois desse estudo poderemos definir ideias e modelos urbanísticos – como
exemplo, todas as cidades sem exceção constituem sistemas abertos, sendo a explicação
científica deste facto bastante evidente, já que onde “é possível uma troca de energia e de
matéria com a vizinhança, chamamos sistema aberto.” (Wedler, 2001, p. 3). Por outro lado,
ao encarar-se de forma radical ou extrema o termo de sustentabilidade, entender-se-á que um
sistema devidamente equilibrado, sem necessidades de transferir energia ou matéria, é um
sistema isolado; daí os grandes perigos na procura obsessiva de uma sociedade perfeitamente
independente e equilibrada em si própria, o que poderá inclusive conduzir a ideias e regimes
políticos totalitários, com as nefastas consequências decorrentes de que já temos
conhecimento.
Então como começaram o cidadão e a sociedade a tomar consciência destas questões?
A resposta é que uma simples crise de constrição de acesso a um recurso fóssil, em 1973, foi
capaz de sobrepor-se a questões já discutidas nos anos 1950 e 60, como os problemas dos
recursos naturais provenientes de fontes esgotáveis, tal como dos seus efeitos poluidores.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

O assunto exige a definição aprofundada do seu caráter e especificidades históricas,


científicas e tecnológicas, a identidade dos contributos, a definição dos seus fins, a relevância
científica e política na sua participação ao ser pensado erigir a polis. A cidade é um espaço
que gera necessidades próprias cuja “forma física não desempenha qualquer valor
significativo na satisfação de importantes valores humanos, inerentes às nossas relações com
outras pessoas.” (Lynch, 1999, p. 99) No entanto a sua forma ou, mais precisamente, o seu
aspeto urbanístico poderá determinar em grande parte o desenvolvimento do pensamento
político e sociocultural de que ela própria é o testemunho mais visível.
Há um conjunto de situações que têm sido problematizadas ao longo do século XX
por forma a gerar não propriamente um código, mas um pensamento coerente. São de
destacar criações como o «Manifesto da Bauhaus», a «Carta de Atenas» ou o Circulo de
Viena no seu «Manifesto sobre a Conceção Científica do Mundo» (Neves, 2008, p.499) e na
polémica extraordinariamente criadora que se gerou em torno ou em consequência dessas e
outras manifestações e os documentos que foram produzidos em função deles. “E porque em
Portugal apenas em 1992 foi criado um curso de Licenciatura em Urbanismo” (idem, p. 499),
tardiamente, a própria ideia de urbanismo surge como um problema científico perante a
noção de cidade enquanto espaço antropocêntrico, considerando que o dimensionamento de
todas as coisas num dispositivo urbano parte da escala humana.
Conforme referido por Guilherme Braga da Cruz, nas suas Obras Esparsas – Estudos
de História do Direito, a lei romana considerava público «quod ad rei romana spectat» tudo
quanto era considerado uma coisa da urbe romana, o que concerne aos cidadãos e sua
organização urbana e privada «quod ad singulorum utilitatem pertinet», aquilo que dentro ou
fora da cidade pertencia a um individuo proprietário ou possuidor de coisas, o «de cujus».
Esta diferença, que seria reaberta no século XIII com o movimento de expansão das
universidades, vai refletir-se com grande incidência na elaboração das leis e códigos jurídicos
do século XIX, cujo interesse é essencialmente económico e urbano, na expansão da cidade
industrial.
Afinal, a organização da vida singular e coletiva é determinada pela própria
urbanidade da polis que tende a por fim à promiscuidade do interesse geral e do interesse
particular. Essa relação do termo grego, polis – a cidade enquanto organização ou
comunidade de pessoas num dado território – com urbe – a disposição do meio físico e
ambiental – vai gerando uma acumulação de conceitos cujo estudo, combinado com a
reflexão e a compreensão dessas realidades, permite introduzir naturalmente a palavra

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

filosofia e também política, ou seja, pensar o planeamento e o urbanismo de uma forma


política, enquanto ferramenta de ação para a sociedade.
Max Weber apercebeu-se do paradoxo da racionalidade que o progresso ou a
complexização da sociedade e das relações sociais retiraram ao cidadão e à cidadania. E
extrai o exemplo determinante do confronto de civilizações numa situação de
contemporaneidade, sem ter de recorrer a exemplos colhidos no desenvolvimento de uma
mesma sociedade. Como recorda Raymond Aron (2010, p. 167):

“A racionalização da atividade comunitária não tem pois de modo nenhum por


consequência uma universalização do conhecimento relativamente às condições e
às relações dessa atividade mas, o mais das vezes, conduz ao efeito oposto. O
«selvagem» sabe infinitamente mais sobre as condições económicas e sociais da
sua própria existência do que o «civilizado», no sentido corrente do termo, das
suas”.

Numa perspetiva histórica e devido ao processo de industrialização dos últimos três


séculos, a cidade transformou-se num ser vivo e em mutação, que se transforma de acordo
com determinações, contingências e necessidades diversas. Nesta conformidade, entramos no
domínio da técnica e da tecnologia como elementos capazes de nos aproximar de um conceito
geral do planeamento, do que se fez e faz na Europa ou, mais especificamente, o que faz a
diversidade única da cultura europeia que passa pela diferenciação do nórdico e do
mediterrânico, do atlântico e dos corredores fluviais continentais.
Pensar o espaço em que se vive é muito mais do que pensar a relação mecânica, a
habitação, os arruamentos, enfim a cidade e as suas envolvências urbanísticas. Toda a cidade
tem uma evolução histórica própria, a sua geometria e forma, cores e materiais,
características ditadas e impostas por relações necessárias a uma convivência premente que o
quotidiano impõe. Todavia, os atuais problemas urbanos têm vindo a acentuar-se, devidos à
retração ou ao aumento demográfico descontrolado, por questões diversas relacionadas com a
industrialização e o crescimento económico, mas também pela inércia das decisões e políticas
públicas, não privilegiando a previsão e planeamento. Este problema, acentuando-se em
meados do passado século, foi denunciado de forma bastante precisa no Congresso
Internacional de Arquitetura Moderna (1933, art.º 71 e 74):

“A maioria das cidades estudadas oferece hoje a imagem do caos. Essas cidades
não correspondem, de modo algum à sua destinação, que seria satisfazer as
necessidades, primordiais, biológicas e psicológicas da sua população (...)
Embora as cidades estejam em estado de permanente transformação, seu
desenvolvimento é conduzido sem precisão nem controle e sem que sejam
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

levados em consideração os princípios do urbanismo contemporâneo atualizados


aos meios técnicos qualificados.”

Por alguma razão as palavras em epígrafe, produzidas numa data que coincide com os
apelos a uma «ordem nova» – não se podia prever que esta terminaria num caos verdadeiro,
como foi a Segunda Grande Guerra, após outra grande guerra já por si bastante arrasadora,
com o abate de dezenas de milhões de habitantes, civis, nas suas cidades e aldeamentos, por
sua vez completamente arrasadas – ainda se tornam mais pertinentes. Obrigam a pensarmos a
relação da cidade com o habitante, que faz parte da sua paisagem humana, que dela frui e nela
se abriga, e com a própria função essencial da cidade, que “deve assegurar, nos planos
espiritual e material, a liberdade individual e o benefício da ação coletiva.” (Congresso
Internacional de Arquitetura Moderna, 1933, art.º 75).
A cidade testemunha o desenvolvimento da sociedade e tal ideia seria apenas uma
banalidade se o seu desenho/forma não fosse uma forte condicionante das relações sociais,
comerciais, cultuais e culturais. A cidade identifica o povo que nela habita, a sua situação
presente e a sua história. Portanto, se é permitido partir desta premissa, pese embora o seu
pendor conclusivo, a identidade de um meio urbano não é apenas o desenho ou a força das
suas linhas singulares, mas o que nelas está contido. Tanto quanto as políticas ou a
regulamentação legal que condiciona as relações dos interesses públicos e privados, dos seus
habitantes e do seu espaço e território envolvente, dos polos industriais, comerciais, vias de
comunicação, a proteção dos solos produtivos, os espaços verdes e locais de lazer, a
manutenção do património e monumentos, a seleção e preservação do passado, a construção
de novas edificações; em suma, múltiplas questões se entrecruzam com a vivência urbana e
com a gestão da cidade.
No sentido de estudar o urbanismo e os seus meios de intervenção, segundo os
princípios da Carta das Cidades Europeias para a Sustentabilidade, realizada em Aalborg, na
Dinamarca, em 27 de maio de 1994, parece-nos relevante entendermos em que perspetiva se
faz uso do senso-comum, enquanto forma de saber ou conhecimento não científico. O
objetivo essencial é tentar evitar o hiato entre os interesses da comunidade científica e os da
sociedade em geral – ou como referiu Boaventura Sousa Santos, criar uma nova ciência,
aberta, que comunique as suas descobertas e contribua positivamente para a sociedade, e um
novo senso-comum reabilitado e informado, essencial para o livre exercício da cidadania
(Santos, 1988). É sensato acreditar que não é desejável impor melhorias que não sejam
aceites ou compreendidas pelas populações. Tal ambição impõe uma ampla conjugação de

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esforços multidisciplinares. Além disso, há que conhecer e aprofundar os elementos de cariz


sociológico e cultural, com o objetivo de compreender mais profundamente a sociedade e a
cultura onde se intervém, antes de aplicar medidas concretas, estas de um modo geral com
caráter irreversível ou pelo menos de longa duração, como é habitual domínio urbanístico –
uma estrutura incorretamente concebida ou localizada, seja uma ponte, estrada ou edifício,
poderá perdurar mais de um século, com uma duração temporal superior à vida de um ser
humano.
Do ponto de vista do conhecimento científico, ou segundo as ciências físico-químicas,
só seria possível designar de sustentável o sistema que se constituísse como um corpo
isolado, dado que assim este se encontraria devidamente seguro, suportado e, por
conseguinte, independente da vizinhança. Podemos relacionar esta atitude com exemplos
pouco interessantes, de como Cuba, vivendo uma situação de embargo económico (embora
não totalmente sustentável) é uma sociedade isolada de transferências de energia, bem mais
propícia de ser sustentável. Claro que a resposta científica comprova imediatamente que,
mesmo apesar do embargo, continuam a existir transferências de várias matérias nem que seja
pela transmissão de informação de dentro para fora do seu território, ou de noticias que
chegam do exterior.
Aumentando a escala de análise, colocamos a afirmação em causa: o planeta terra
então é um universo sustentável, sendo que tanto a energia como a matéria estão defendidas
por uma atmosfera e uma crosta terrestre que mantêm os corpos macroscópicos e
microscópicos interligados sem relação com a vizinhança, espaço e os seus elementos. Mas,
mesmo assim, não é verdade. A resposta científica demonstra que a entrada de um simples
meteorito destrói imediatamente a sustentação deste exemplo. Mas não podemos esquecer que
existe, mais do que transferência de matéria, uma grande transferência por irradiação do Sol,
logo, uma transferência de energia, ou seja, quando muito a terra, enquanto planeta, seria um
sistema fechado, nunca isolado.
Deste modo, aumentando a escala para o sistema solar, por sua vez para uma galáxia e
depois para uma constelação, não conseguimos determinar um sistema isolado, pois a
transferência com a vizinhança acaba sempre por ocorrer. Ao terminar no universo,
deparamo-nos com um novo problema pois, se é impossível de determinar qual é a
vizinhança, é impossível determinar se se trata de um sistema isolado ou não – passando-se
apenas para o plano retórico ou especulativo, pressupondo que do lado de lá existe contacto
ou simplesmente não existe.

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Ainda estabelecendo uma diminuição de escala, desta vez partindo do corpo humano,
o mesmo se sucede, por mais microscopicamente que avancemos. Por exemplo, poderíamos
dizer que um elemento químico como um átomo é composto por um sistema perfeitamente
definido e sem qualquer alteração, logo hipoteticamente estável e isolado do plano da sua
vizinhança. No entanto, no plano real, todos os elementos estão sujeitos a uma mudança de
estado; logo, só poderíamos dizer que um átomo era um sistema isolado (logo um universo
sustentável) enquanto não houvesse interferência da vizinhança e assim conseguisse
permanecer.
Por irónico que aparente ser, nesta perspetiva científica tudo aponta que é mais fácil
um corpo designar-se por sustentável quanto menor for a sua massa corporal, o que não ajuda
em nada os objetivos científicos do planeamento. Devemos então tomar em consideração que
nenhuma cidade com mais de um milhão de habitantes poderá, alguma vez, ser sustentável?
Neste campo, torna-se necessário recordar Cristhopher Alexander, quando refere que
cada sistema devidamente organizado que não permita a troca de matéria e energia apresenta
os seus primeiros sinais de destruição, ou seja: “In any organised object, extreme
compartmentalisation and the dissociation of internal elements are the first signs of coming
destruction.” (Alexander, 1966, p. 17).

1.03 Uma conjuntura social – a sensibilidade da população perante a cidade e o


conforto térmico.

Voltando à atualidade nacional, de acordo com os dados do INE divulgados em 20 de


julho de 2011 no boletim informativo Destaque, o estudo Resultados Preliminares do
Inquérito ao Consumo de Energia no Setor Doméstico 2010 revelou um consumo familiar
dos portugueses de 5 762 899 Tep (valor equivalente a cerca de 67.000 GWh/ano), sendo
51% desse valor dedicado aos combustíveis líquidos para automóveis familiares – cerca de
2.850.000 TEP. Nesse estudo não foram integrados os dados de despesa do setor privado. Foi
também publicada uma reportagem no dia 21 de agosto de 2011, na secção de economia do
jornal Público, intitulada Portugueses já gastam mais energia com os carros do que com a
casa – o que só é verdade no consumo familiar e não num sentido global, pois os valores
gerais de toda a energia primária em Portugal foram cerca de 18.000.000 TEP, só em
eletricidade. A referida reportagem não é esclarecedora nem totalmente informativa – visto
que os dados do INE também não tiveram em conta as necessidades nominais para despesas

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de consumos de uma casa, nem das alterações de tipos de equipamento, como lâmpadas e
eletrodomésticos mais eficientes –, apenas foram reportados dados genéricos e em parte com
base em pressupostos. Mas é interessante verificar que os meios de comunicação social têm
constantemente destacado o preço elevado dos combustíveis para veículos imposto pelas
gasolineiras e a contenção dos portugueses em reduzir o consumo, verificando-se no entanto
uma tendência contrária no período em questão, como comprova o relatório do INE, expresso
na figura 3. Torna-se difícil de entender ou avaliar determinados fenómenos que nos são
disponibilizados contendo imprecisões, erros científicos, ou por intermédio de análises
intuitivas ou pouco aprofundadas (como, lastimavelmente, é comum por parte dos órgãos de
comunicação social).
Em sequência deste dados, este relatório do INE referiu que a despesa em aquecimento
e arrefecimento constituía em 2010 apenas 8% de toda a energia consumida nas habitações,
sendo as despesas relacionadas com a alimentação (cozinha) equivalentes a 37%, seguindo-se
as águas quentes sanitárias com 31,3%, a climatização com 8%, equipamentos elétricos com
16% e a iluminação com 6,7%. É significativo que se tenha referido neste relatório que o
consumo médio anual por alojamento era de 317 Kgep/ano, pois o valor nominal médio de
climatização para uma fração de um apartamento de Lisboa, construído nos anos 1970 e 80, é
superior a 1000 Kgep e a maioria dos apartamentos construídos a partir do ano 2000
apresentam necessidades mínimas com valores aproximados a partir dos 300 Kgep. Isto
significa que estes valores de despesa térmica de 8%, que deveriam ser superiores
teoricamente a 50%, são apenas a prova de que os portugueses não têm as suas casas
climatizadas.

Figura 3 – Consumo de energia nos veículos referente aos anos 1989, 1996 e 2010 (Destaque
[D], 2010)
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1.03.01 – Inquérito sumário sobre conceitos urbanísticos, bioclimáticos e


energéticos.

Neste sentido, foi concebido um inquérito sumário sobre conceitos urbanísticos,


bioclimáticos e energéticos, de forma a sondar a perspetiva do cidadão sobre a imagem da
cidade e a perceção sobre a importância ou necessidade de climatização nas habitações, entre
outros assuntos conexos.
Relativamente à metodologia utilizada, o universo da amostra não foi muito
abrangente visto que não se pretendeu aqui realizar um estudo de mercado com validade
estatística utilizando técnicas de amostragem probabilísticas – o que exigiria um trabalho
muito aprofundado e divergente dos objetivos da presente investigação. Realizou-se antes um
breve estudo preliminar ou exploratório e sem validade estatística, uma vez que foram
utilizadas técnicas de amostragem não probabilísticas – ou seja, a amostra não foi
determinada aleatoriamente e por isso não permite generalização nem exploração estatística
(Teixeira, 2012; Reto e Nunes, 1999); como já expresso, essa não é a intenção aqui visada. O
objetivo desta pesquisa ou estudo qualitativo é a obtenção de opiniões e perspetivas, ou seja,
informação de âmbito não factual (Teixeira, 2012; Reto e Nunes, 1999). Os inquéritos – isto
é, as informações obtidas diretamente pelo questionamento dos sujeitos – foram de tipo
presencial, respondidos por uma amostra de dimensão reduzida, constituída por 45 pessoas,
de diferentes idades e profissões e residentes em Portugal Continental, com naturalidade e
nacionalidade portuguesa. Preferiu-se o inquérito de tipo presencial, conduzido/realizado
individualmente, ao inquérito telefónico e ao eletrónico (email ou de web-based surveys) – de
modo a evitar que fosse procurada informação casuística em motores de busca, visando-se
como prioridade a obtenção de uma maior espontaneidade das respostas. Os inquéritos, num
total de 45, foram realizados entre março e junho de 2011, através do preenchimento do
respetivo questionário num dispositivo eletrónico móvel de formato tablet. A opção de
efetuar o questionário em formato digital teve uma tripla motivação: razões
económicas/ecológicas (evitar a desnecessária impressão de um mínimo de 180 folhas de
papel de formato A4), a celeridade do processo que permitiu a recoleção e tratamento dos
dados de modo expedito, e por último, mas não menos importante, a simplificação que o
procedimento permitiu obter. Se se tivesse optado por enviar os questionários via email, ou
por outros meios mais fáceis e menos personalizados, poder-se-ia ter aumentado o universo
inquirido, mas tal teria como consequência um maior enviesamento das respostas, colocando
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em dúvida o grau de sensibilidade ou honestidade perante determinadas questões como o que


é o conforto térmico? As idades dos inquiridos situam-se num intervalo dos 18 aos 70 anos,
com profissões e níveis de escolaridade bastante diferenciados – sem conferir-se especial
atenção a estas diferenças; afinal a intenção não é sondar especificamente a sensibilidade ou
opinião de um grupo sociodemográfico específico, pretende-se apenas apresentar
sucintamente a amostra. Por outro lado, foram intencionalmente excluídos deste universo
pessoas estrangeiras, peritos qualificados pela ADENE, pessoas com conhecimentos muito
específicos nos temas inquiridos, não sendo o nosso objetivo avaliar o conhecimento de
especialistas, mas não foram excluídos profissionais, não peritos, como arquitetos e biólogos,
sensíveis a estas matérias. As respostas, nalguns campos, poderiam ser múltiplas pois, por
exemplo, seria perfeitamente aceitável que se considerasse mais que uma cor de fachada ou
um posicionamento do Sol. Genericamente, foram colocadas perguntas concretas sobre como
preferíamos ver as nossas cidades nacionais no que respeita à modelação, cor, espaços verdes,
entre outros aspetos de comportamento social, juntamente com questões sobre conforto
térmico.

Figura 4 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. Esta questão pretende
determinar uma perspetiva/conceção de modelo de cidade segundo o cidadão português.

Salienta-se, com alguma surpresa, que esta pergunta revelou que pouco mais de
metade dos inquiridos prefere uma cidade constituída por moradias, ou seja, uma cidade em
plano horizontal, conforme se verifica na figura 4. Um quarto dos questionados prefere
prédios baixos e apenas 13% da mesma amostra aceita quarteirões de prédios relativamente
baixos. Mas, além disso, sublinhe-se, nenhum dos inquiridos manifestou interesse na
existência de arranha-céus na cidade – o que também não é de estranhar, visto que é uma
solução praticamente ausente das cidades em âmbito nacional. A densidade de edificado é por

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isso desprezada em praticamente toda a população inquirida, incluindo profissionais


projetistas totalmente dependentes do setor económico da construção, como engenheiros civis
e arquitetos.

Figura 5 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. Cores nas fachadas
urbanas.

No caso da cor, conforme se verifica na figura 5, houve uma predominância acentuada


na escolha do branco, em um terço nos espaços urbanos, e um quarto nos espaços periféricos
da cidade, conforme se verifica na figura 6. No entanto, apenas nos espaços urbanos se
revelou maior superioridade das cores branca e amarela, ou ocre, sendo as restantes cores
relativamente pouco influentes. No caso dos espaços mais periféricos, foi notória a
aproximação às cores naturais, cores de terra como o vermelho, castanho e ocres ou
simplesmente o verde, neste caso associado à paisagem vegetal, embora ainda com uma
percentagem do branco bastante acentuada. É um pouco difícil de imaginar as cidades de
Lisboa ou Porto completamente pintadas de branco, e apesar de ser uma cor
predominantemente escolhida pelos arquitetos e aconselhada de acordo com os critérios de
formação na área da térmica, segundo a regulamentação respetiva em vigor, o RCCTE
(Decreto-lei n.º 80/2006 de 4 de abril), o impacto desta cor é bastante discutível e tem
bastante mais incidência no espaço exterior do que no interior das frações, conforme será
apresentado no 3.º capítulo da presente investigação.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Figura 6 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. Cores nas fachadas dos
espaços rurais.

Nas figuras 7 e 8 verifica-se que a relevância do Sol foi alvo de escolha maioritária,
sendo as localizações predominantes mencionadas a Este e Sul, nomeadamente onde nasce e
“impera” o Sol. Todos os inquiridos alegaram ser fundamental saber onde se posiciona o Sol
quando adquirem uma casa, em alguns casos revelaram ser um fator mais importante do que a
própria vista.

Figura 7 e 8 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. Relevância do Sol no


espaço urbano e arquitetónico.

Em relação aos espaços verdes, de acordo com a figura 9, apesar da diversidade de


opiniões, há uma preferência (expressa por pouco mais de um terço dos inquiridos) pela
existência de muitos pequenos parques e jardins à volta dos edifícios e quarteirões, sem
distinção de uma dimensão proporcional, mas sobretudo com uma abundância relevante. Esta
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relação dos espaços verdes com uma dimensão semelhante à dos quarteirões foi aceite por
cerca de um quinto dos inquiridos (22%), idêntico ao desejo da existência de grande parques
urbanos circundantes aos bairros. Uma pequena parte da amostra é, no entanto, ainda
resistente quanto à necessidade de existência de espaços verdes nas cidades, contentando-se
com “algo” verde, como canteiros de flores ou árvores nos passeios e ao longo da estrada.

Figura 9 –Importância dos espaços verdes.

Antes de entrarmos mais pormenorizadamente na área temática do conforto térmico,


foi efetuada uma questão dirigida à sensibilidade dos inquiridos, relativamente à poluição em
geral, referindo os quatro agentes/fatores mais poluidores do planeta – indústria, transportes,
edifícios e agricultura – em que apenas uma pequena percentagem acertou, conforme a figura
10. Ou seja, a resposta acertada são os sistemas de aquecimento, arrefecimento e ventilação
mecânica dos edifícios. Neste caso, mais de metade dos inquiridos indicou as fábricas como
as principais responsáveis e um quarto nomeou os transportes. A agricultura, de regimes mais
intensivos, apesar de ter um papel extremamente grande e grave nas emissões de dióxido
carbono, não revela grande impacto na perspetiva da população. As plantas podem ter um
papel fundamental na produção de oxigénio através do processo científico de fotossíntese. A
maioria das plantas, como as árvores, certamente não produzem oxigénio suficiente face ao
dióxido e monóxido carbono que é produzido para atmosfera; mas, por sua vez, são
fundamentais na fixação no solo destas moléculas tal como outras, nomeadamente o Azoto,
funcionando deste modo como purificadoras naturais. Ora, as práticas correntes agrícolas
(excetuando os sistemas de agricultura biodinâmica e biológica) destroem os solos,

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libertando todos estes elementos gasosos de volta para a atmosfera após o trabalho de fixação
por parte da planta, aumentando consideravelmente o processo de efeito de estufa.

Figura 10 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. A seguinte figura


demonstra a perspetiva do cidadão perante os agentes mais poluidores da terra.

Este inquérito acaba por demonstrar não só que as pessoas envolvidas ainda estão
pouco sensibilizadas e informadas, tanto acerca do significado de conforto térmico, como dos
demais assuntos tratados. Apesar de constituírem parte dos programas de biologia do ensino
secundário (hoje escolaridade obrigatória), alguns conceitos sobre a natureza e biologia não
são sempre bem divulgados enquanto «conhecimento comum», como deveriam. Como
exemplo, sabe-se hoje que a maior parte do oxigénio é produzido pelas algas, sobretudo as
algas verdes dos oceanos (Vidotti e Rollemberg, 2004, p. 140); muito inferior impacto tem a
floresta amazónica nesse campo, inversamente ao comummente pensado. Tal como o
problema não estará de certo na existência de carbono em demasia ou na falta de ozono, mas
na sua localização – estratosfera, troposfera ou no solo – e no seu estado – sólido, líquido,
gasoso. Muito por culpa dos sistemas de comunicação social, estes problemas globais
tornam-se muitas vezes mal divulgados e interpretados, por vezes orientados para
determinações políticas específicas, como a do desenvolvimento dos biocombustíveis –
situações extremamente prejudiciais para aquilo que se defende como sustentabilidade, à
conservação da natureza ou mesmo da simples redução de dióxido carbono.

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Figura 11 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. O seguinte gráfico


demonstra a perspetiva do cidadão perante as necessidades de temperatura de conforto na sua próprias
habitação.

Retornando aos inquéritos, foi perguntado aos sujeitos qual era temperatura média da
sua habitação durante o período de inverno. E assim se verifica, na figura 11, que cerca de
metade dos inquiridos respondeu entre 10 e 15 ºC, e cerca de um terço, entre os 20 e 25 ºC.

Figura 12 e 13 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. Avaliação da


coerência dos resultados das respostas da questão anterior.

Em seguida, questionando-se se os inquirido possuem um termómetro em casa, mais


de metade responde negativamente, conforme verificamos na figura 12. A situação é ainda
mais agravada quanto à humidade, em que apenas uma minoria dos inquiridos efetuou a
medição do seu nível, caso da figura 13, que nos demonstra a percentagem de pessoas que
confere importância à humidade interior, quando este é o fator determinante da zona de
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conforto térmico, de acordo com o quadro da ASHRAE, que podemos observar na figura 14
(ASHRAE, 1985).
De facto, a temperatura média das casas em Portugal no período de aquecimento
(inverno) encontra-se entre 10 e 15 ºC. Com o aquecimento a temperatura deveria melhorar.
Contudo verifica-se uma diversidade de opções, nas casas das pessoas, no que se refere ao
apoio ao aquecimento e na necessidade de evitar a sua utilização de forma a diminuir a
despesa energética. Aqui entende-se que as pessoas pouco entendem o que é de facto o
conforto térmico. Colocada diretamente a questão, mais de metade dos inquiridos não soube
responder.

Figura 14 – 1985, ASHRAE transactions, Vol. 91, Part 1, Criteria for human exposure to
humidity in occupied buildings

Antes de entrarmos na temática da eficiência energética das urbanizações, há que


evidenciar que a sociedade nacional não aparenta estar preparada nem educada para
reconhecer que os valores de temperatura entre 18 e 27 ºC correspondem aos mínimos e
máximos recomendáveis, e que o intervalo entre 20 e 25 ºC corresponde aos valores de
conforto térmico, estabelecidos igualmente para manter a humidade relativa do ar num valor
médio de 50% (entre 40 e 60%), conforme podemos observar na figuras 15 e 16.

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Figura 15 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. Noção sobre a zona de
conforto térmico.

A presente investigação visa estabelecer que, por mais elementar que esta ideia
aparente ser, a «simples» modelação da forma da cidade tem um impacto real nos gastos e
consumos energéticos, permitindo reduzi-los pronunciadamente. Contudo, pelo facto de os
edifícios possuírem climatização e por mais eficiente que esta seja, o consumo energético
sofrerá um crescimento (já notório nos últimos anos), relacionado também com a
consciencialização da população para a qualidade de vida e saúde, em não querer dispensar
dos níveis adequados de conforto térmico – obviamente e inversamente, se os edifícios não
forem climatizados não se gastará energia. É precisamente aqui que os conceitos
bioclimáticos e a eficiência energética adquirem sentido e relevância para, através do desenho
e modelação dos edifícios e sobretudo da própria forma da cidade, se conseguir minorar os
crescentes consumos energéticos mantendo boas condições de conforto e de habitabilidade.

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Figura 16 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. Noção sobre as


despesas térmicas das famílias.

O planeamento urbano sustentável prevê, sem dúvida, um sistema aproximado aos


planos verticais com quarteirões, não necessariamente muito elevados mas nunca térreos –
nem que seja por razões de viabilidade económica e de economia de espaço. E prevê que os
espaços físicos das urbanizações sejam, da forma melhor possível, circundados por espaços
verdes adequados ao resfriamento das elevadas temperaturas estivais e adequados ao lazer
social e recreativo do cidadão.

Figura 17 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico. Relevância da


temperatura de conforto.

A população, em parte, entende a relação entre os espaços verdes e as habitações,


embora possa discordar do sistema ou do desenho e morfologia adequados ao meio urbano.
No entanto, a conceção ou a ideia da forma da cidade está ainda muito restrita a um plano
horizontal – consistindo em modelos essencialmente de moradias ou prédios com um máximo
de três andares. São sistemas que interferem no campo do urbanismo e da bioclimática. É
provavelmente uma almofada de ar fresco no domínio do senso-comum acerca do espaço
urbano e que dele depende um dos pontos mais importantes dos conceitos de urbanismo
sustentável. Fora do âmbito dos espaço verdes, ainda se espera que a população adquira
maior sensibilidade e consciência perante as necessidades de conforto térmico, mesmo
ultrapassando eventuais restrições financeiras familiares (dado o presente momento de crise

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económica).
Os programas de eficiência energética só farão de facto sentido enquanto as famílias
estiverem sensibilizadas neste âmbito (figura 17), de que é importante terem as suas casas
climatizadas e que disso depende inteiramente os níveis de saúde, mas também de rendimento
na educação (e também no trabalho, no caso de edifícios de comércio ou serviços), conforme
demonstrou a investigação publicada pela ASHRAE e realizada por David P. Wyon, Pawel
Wargocki, intitulada Indoor Environmental Effects On The Performance Of School Work By
Children (1257-TRP).

Figura 18 e 19 – Inquérito sobre conceitos urbanísticos e conforto térmico.

Atendendo aos fatores em presença/análise, por vezes estritamente técnicos, torna-se


necessário atuar desde o inicio, de modo que o senso comum informado atue como uma
partilha e interação de conhecimentos, perspetivas, conclusões e intervenções que se tornem
por sua vez prática e efetivamente comuns, comunitárias, geradas sob os auspícios do bom
senso em torno dos valores culturais mais profundos. Conforme se observa nas figuras 18 e
19, algumas ideias não fundamentadas persistem, por exemplo, não se privilegiando as
lâmpadas mais eficientes (leds) e no que diz respeito aos preconceitos de durabilidade, como
é o caso das caixilharias – em que o material efetivamente com melhor comportamento
térmico, mais natural, durável e com uma ótima relação qualidade-preço, como a madeira, é
preterido em prol do alumínio.
Este aspeto demonstra até que ponto tanto preconceitos como influências culturais
têm um peso determinante na sociedade e modelam a própria cidade, onde se sente

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particularmente a tensão e contradição entre tradição e modernidade. Observe-se ainda o


excerto do artigo Uma população que se urbaniza:

“Os tradicionais conceitos, por exemplo, de centro e periferia, património e


modernidade, inovação e tradição, continuam ainda a modelar a visão e a ação de
todos nós que, consciente ou inconscientemente, fazemos a cidade. A cidade é
feita por todos. Todos os dias, nas nossas mais pequenas decisões do quotidiano de
utilização deste grande espaço, participamos nesse grande ato coletivo de
“produzir” cidade.” (Soares, 2005, p. 110)

O senso-comum indiretamente enunciado, se for acriticamente utilizado poderá fazer


da ideia de «conforto térmico» ou «bioclimática» um objeto tecnológico ou meramente
teórico, supérfluo perante outros fatores e componentes tradicionalmente essenciais. Essa
diferença alerta-nos de imediato para a necessidade deste estudo: conduzir a ideia até ao
conceito científico e à aplicação efetiva. Crentes de que a teoria vai condicionar a prática
futura, há que preservar desde logo a cientificidade das teorias e práticas de modo a atingir o
propósito desta investigação. O que, para concluir, não pretende anular de forma alguma a
pluralidade e o cariz fortemente cultural e semiótico da cidade, plena de sentidos e
significados:
“…numa abordagem abrangente, a urbanização deve ser entendida como um
fenómeno cultural, tanto mais que a cidade é em si criadora e transmissora de
inovação, sendo geradora de novas formas de cultura e organização espacial,
visíveis nas alterações dos estilos de vida, conteúdos e formas de estar.” (Soares,
2005, p. 104)

1.04 As decisões nacionais, europeias e mundiais sobre a racionalização de


energia – medidas, programas e regulamentos. A cidade e a integração do conceito de
bioclimática: reflexões e perspetivas.

Se podemos considerar que o conceito de bioclimática tem em conta três fatores


fundamentais, ou seja, a envolvente climática, os materiais de construção e a respetiva forma,
também será possível, em parte, determinar que é relativamente indiferente a escala ou a
dimensão do plano urbanístico. Presume-se que a única diferença serão as variáveis que
possam estar associadas a obras de arquitetura ou a planos urbanísticos. A questão central
reside apenas na capacidade de perceção de decisores políticos e organizações, nacionais ou
internacionais, governamentais ou não governamentais, em saberem integrar medidas
bioclimáticas nos seus programas de planeamento e gestão urbanística.
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No domínio internacional, diversas ações e medidas têm sido desenvolvidas e vindo a


ganhar presença nos circuitos públicos e também privados, com aplicações diretas no
planeamento urbano e no plano da notação ambiental, onde duas agências têm vindo a
assumir presença (cujos critérios foram inclusive utilizados na conceção da cidade-satélite de
Masdar): LEED e BREEAM. O LEED (Leadership in Energy and Environmental Design) é
desenvolvido pelos Estados Unidos da América, iniciado em março de 2000 pela organização
não governamental sua promotora, o United States Green Building Council (USGBC). O
BREEAM (Building Research Establishment Environmental Assessment Method for
Buildings) foi iniciado ainda nos anos 90 do século passado, no Reino Unido. Ambos
constituem programas de estímulo a entidades individuais ou coletivas, públicas ou privadas,
promovendo concursos e fornecendo incentivos, na forma de prémios, para os edifícios que
cumpram determinados requisitos na área genérica da sustentabilidade, na eficiência
energética e boas práticas ambientais, aplicando-se no âmbito mundial. Segundo Jeff Raven,
investigador da agência LEED, no seu artigo de investigação, Cooling the Public Realm:
Climate-Resilient Urban Design, os sistemas de avaliação de sustentabilidade, designados
«sustainability rating systems» ou «sustainable designation systems» encontram-se em
desenvolvimento, cada vez mais, nos Estados Unidos da América com o objetivo da
promoção e certificação das práticas de construção bioclimáticas no país – “The climate
adaptive performance of the pilot communities should compare morphological urban design
indicators against conventional baseline condition and best practise models.” (Raven, 2011,
p. 462). O índice STAR Community Index do USGBC LEED define-se pela equidade,
economia e ambiente, ou seja, pelos padrões defendidos pelo conceito de sustentabilidade.
“The half-century design life for the built environment means that current urbanists and
policymakers must create resilient cities within paradigms appropriate for future climates.”
(ibidem, p. 462)
Por mais que se queira determinar que consiste somente num problema ecológico, a
racionalização energética é sobretudo uma questão económica, quando a energia é o princípio
para mover qualquer «motor» ou mesmo ser vivo. Se entendermos a afirmação «power is
everything» – do célebre filme Apollo 13 de Ron Howard, de 1995 – palavras exprimidas por
um técnico da NASA, ao deparar-se com um impasse entre a energia necessária para voltar
para a Terra e a energia disponível na cápsula; entendemos que efetivamente esta
dependência humana da energia poderá ser total em múltiplas circunstâncias.
Jimmy Carter possuía de facto um interesse prioritário na conservação da energia,
patente na sua política energética em 1977, associando-a inclusivamente a uma política
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ambiental; mas, acima de tudo, percebeu desde logo que qualquer falha no controlo dos
recursos energéticos tornava o país vulnerável e inseguro, dependente de exterior. Mais do
que isso, o pânico na sociedade gerou-se, pela primeira vez, face à possibilidade de
esgotamento do próprio recurso em si: “You may be right, but suspicions about oil companies
cannot change the fact that we are running out of petroleum.” (Carter, 1977).
Nesse período, destaca Jimmy Carter, os Estados Unidos da América consumiam 75%
de combustíveis importados. Resumindo, nesse contexto de estratégia, é percetível que quem
controlasse a energia facilmente poderia controlar o mundo ou poderia evitar a futura
dependência excessiva de outros países. “We simply must balance our demand for energy
with our rapidly shrinking resources. By acting now, we can control our future instead of
letting the future control us.” (Carter, 1977).
Todavia, foram precisos cerca de 30 anos para que outro presidente norte-americano
voltasse a citar os mesmos princípios, no seu livro The audacity of hope: thoughts on
reclaiming the american dream, ao referir “A nation that can't control its energy sources can't
control its future” (Obama, 2006, p. 101).
Não se trata apenas de simples indicadores, mas do fundamento de uma teoria
balizada e condicionada pelo seu desenvolvimento autónomo no âmbito da qualidade de vida
e aspirações da sociedade no seu todo, cuja legitimidade é indesmentível. A construção do
homem e da sociedade passa pela construção da qualidade do seu ambiente. Esta inter-relação
não é de modo algum fortuita. As variáveis que incidem neste projeto de Jimmy Carter nem
sempre se evidenciam pela clareza tecnológica. Mas temos exemplos por vezes dramáticos do
uso que dessas variáveis foi feito em tempos não muito recuados. Privilegiar as vertentes
objetivas e subjetivas que condicionam a conceção urbanística e a sua exequibilidade prática
torna-se um dever primordial no âmbito das políticas públicas. Talvez o próprio gérmen da
necessidade de desenvolvimento, na relação do homem com o seu meio ambiente – sobretudo
o espaço urbano – a civilização e a tecnologia, a cultura e a ciência. Nesta conformidade de
ideias, há que conjugar e conciliar níveis tão dispares e complexos como as características
bioclimáticas, o planeamento urbanístico e a capacidade de integração técnica e tecnológica
num espaço interior delimitado do espaço exterior, orientação solar, necessidades e
expectativas sociais. Sem dúvida que existe também um impacto fulcral dos espaços verdes
na qualidade do ambiente urbano, que merece uma atenção especifica visto que é esse o
espaço natural e cultural de intervenção direta do homem.
Afinal, o conforto térmico toma lugar como preocupação desde que o homem sente a
diferença entre a sensação de calor e a de frio, distinguindo os períodos de verão dos de
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inverno. O seu estado de consciência muda, adapta-se e acomoda-se, partindo para uma
necessidade de se aquecer ou arrefecer (climatização); função aliás concomitante com a
função da habitação e com função primordial da própria cidade, albergadora de comunidades
humanas. Com o desenvolvimento e complexização das necessidades de habitabilidade e das
sociedades em geral, as fontes de energia passam a ser também bens essenciais à própria
vivência quotidiana – este desenvolvimento socioeconómico urbano obriga à existência de
critérios de construção e de climatização cada vez mais rigorosos e exigentes. Se
transpusermos essa ideia para a possibilidade de não existir no planeta energia disponível
para esse fim, como resultado teremos, logicamente, uma reação de pânico instalado.
E isto sucede-se pela primeira vez em 1973, quando ocorre a primeiro crise de
restrição ao abastecimento petrolífero nos países ocidentais. O pânico instala-se
particularmente nas grandes cidades, perante a escassez e mesmo ausência de combustíveis.
Não é despiciendo relembrar, em contexto nacional e nesse mesmo ano de 1973, a publicação
da breve mas significativa obra de ficção literária O Embargo, conto de José Saramago que
relata de forma intensa como este episódio afetou o quotidiano urbano, relatando com alguma
ironia a dependência extrema do homem moderno da tecnologia e dos combustíveis fósseis.
Todo o período das quatro décadas que observamos em seguida passou a constituir, embora
de forma lenta e gradual, um novo capítulo nas políticas e medidas de racionalização de
energia, desde os veículos até aos edifícios e, futuramente, as cidades no seu todo.
Segundo os dados da EPBD (Energy Performance Building Directive da União
Europeia), a Finlândia criou requisitos mínimos exigíveis na construção desde 1976,
acompanhando e mesmo antecedendo a Alemanha nas suas práticas de eficiência energética,
apresentando uma exigência superior às medidas e valores que Portugal regulamentou apenas
30 anos antes. Essa atitude foi de tal modo eficaz que apenas em 2003 a Finlândia voltaria a
aumentar, com maior ênfase, as exigências dos referidos requisitos mínimos em 25%,
novamente em 2007 e por último em 2010, em 30%. Esta preocupação pioneira da Finlândia
foi encarada como paradigma e modelo, dado que a própria tutela dos programas de
eficiência energia ou das direções-gerais de energia, não foi concedida, como habitualmente,
a um ministério da energia, trabalho ou economia, mas antes ao ministério do ambiente
finlandês, estando muito mais próxima das necessidades de se adequar a soluções ambientais
e ecológicas.
O sistema alemão, neste âmbito, também foi iniciado relativamente cedo, em 1977,
com o Thermal Insulation Ordinance, que obrigou a uma redução de 25% dos requisitos
mínimos exigíveis, de 300 kWh/m2.ano das necessidades nominais anuais. Em 1984 reduziu-
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se mais 25%, para 170 kWh/m2.ano e em 1995 voltou a reduzir-se uma parcela idêntica, para
120 kWh/m2.ano. Em Portugal, nesse período, as casas consideradas de boa construção
apresentavam essas mesmas condições, mas inseridas evidentemente numa região climática
muito distinta – o clima mediterrânico (comparativamente muito mais favorecido no que se
refere a gastos de climatização). Em 2002, com a Diretiva EPBD, da União Europeia, os
valores mínimos das necessidades nominais foram determinados em 75 kWh/m2.ano, muito
próximos dos valores mínimos atuais do RCCTE português. Com a entrada plena em vigor
deste regulamento, em 2009, os valores dos requisitos exigíveis passaram a ser cada vez mais
exigentes, com a aposta no nearly zero energy building, inferior a 50 kWh/m2.ano e mesmo
aproximando-se de 0 kWh/m2.ano como meta.
Com as necessidades de obtenção de conforto térmico e as de racionalização
energética, nem todas as opções, determinações teóricas e regulamentares têm resultados
práticos. Por vezes, determinadas técnicas como os sistemas de paredes tipo «trombe» ou as
«fachadas verdes» podem tornar-se totalmente impróprios pela falta de manutenção ou
desconhecimento da sua correta aplicabilidade, resultando num contrassenso nada estético e,
sobretudo, nada funcional. É muito importante que haja uma intenção fortemente empírica,
prática e adequada às necessidades, finalidades e metas a atingir, intenção fundamentada pela
investigação e assente em princípios rigorosos de planeamento que determinem as ações e
medidas concretas a executar – princípios relevantes no planeamento urbano que as decisões
e políticas públicas deveriam igualmente respeitar. Mas não se deverá utilizar de forma
acrítica esta visão «pragmática», a experiência científica requer todavia um estatuto e uma
atuação prática que não se fixe meramente no experiencialismo.
São de mencionar também iniciativas de outros países europeus, como Espanha,
promotora do projeto científico-tecnológico denominado PSE-ARFRISOL, iniciado em 2005
e coordenado pelo CIEMAT – Centro de Investigaciones Energéticas, Medioambientales y
Tecnológicas – entidade adstrita ao Ministério da Ciência e Inovação espanhol. Este projeto é
resultado de uma ampla parceria do governo espanhol com uma série de outras entidades, de
construtores à sociedade civil e empresas diversas (de climatização/energia solar, etc.),
universidades e centros de investigação que em conjunto desenvolvem um amplo projeto
inter e multidisciplinar – onde interagem a arquitetura e planeamento urbano com várias áreas
científicas e tecnológicas: engenharia, energias renováveis, física, geografia, construção civil,
materiais de construção, etc. Este projeto permitiu a diversificação das exigências com a
correspondente diversidade de contributos, devidamente planeada e cientificamente

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controlada, trazendo vantagens para a conceção e exequibilidade das estratégias


bioclimáticas, numa ótica multidisciplinar:

«The way to get into these concepts, is by getting many different sectors involved
in the construction process (politics, architecture, urbanism, construction and of
course population, which are finally the consumers) aware of the importance of
simple things like orientation, climate conditions, comfort sensation, materials,
solar energy, ventilation, etc.» (Bosqued et al., 2006, p. 3)

O objetivo central deste projeto consistiu, grosso modo, em reduzir cerca de 60% dos
gastos energéticos associados à construção dos edifícios, bem como reduzir o consumo de
energia para apenas 10 a 20% do consumo convencional; tudo isto através de um plano
concertado que se desenvolveu em múltiplas etapas, desde a escolha da localização para a
implantação, o desenho/conceção dos edifícios, o controlo e monitorização rigorosa da obra.
A aplicação de estratégias bioclimáticas, além da otimização dos recursos/energia no
processo de construção e na utilização final dos edifícios, começa antes disso, logo no início
da conceção do projeto.
A questão da racionalização energética e do design bioclimático não é somente uma
questão de sustentabilidade e otimização do consumo ou utilização recursos, mas também de
conforto e de bem-estar, ao visar a habitabilidade e funcionalidade dos edifícios e a
diminuição dos vários tipos de poluição, entre outros fatores. Além de todos estes aspetos, é
de realçar também os efeitos positivos da boa construção para a própria cidade e para a
qualidade de vida dos seus habitantes, no plano ecológico, económico, da saúde e do
conforto. O projeto PSE-ARFRISOL teve também como benefício a capacidade empírica de
demonstrar como uma nova imagem (física) da cidade depende da aplicação de princípios do
planeamento e de conceitos e práticas bioclimáticas.
Apesar do aumento dos preços e do previsível esgotamento dos combustíveis fósseis,
responsáveis em parte pela estagnação do crescimento económico no espaço europeu (fator
influenciador da inflação, ao condicionar a maioria das atividades económicas), bem como
dos custos económicos associados à execução de algumas medidas já expressas, existem
fortes motivos para apostar na sustentabilidade e na eficiência energética em todos os setores
da sociedade, tanto ao nível de estratégias nacionais, internacionais e mesmo globais, como
também e especialmente à escala regional e local – “Local authorities have an important role
to play by providing and promoting sustainable construction in their cities, in particular in

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relation to energy efficient buildings.” (Commission of the European Communities [CEC],


2005, p. 32)
No documento elaborado pela Comissão das Comunidades Europeias, de onde se
retirou o excerto supracitado, constam uma série de medidas concretas e recomendações com
o objetivo amplo de reverter o atual processo de estagnação económica do espaço europeu,
através da aposta na sustentabilidade da energia e demais recursos, visando-se promover
espaços urbanos funcionais, de elevada qualidade e ecologicamente viáveis, com edifícios
eficientes e confortáveis, promovendo emprego de qualidade, viabilizando a mobilidade dos
cidadãos, a aposta na tecnologia e na inovação, em suma, promovendo a cidadania de pleno
direito e o desenvolvimento humano.
Ao nível regional e local é de referir o programa CIVITAS (City-Vitality-
Sustainability ou «Cleaner and Better Transport in Cities»), iniciado a sua primeira fase em
2002 e atualmente do qual 59 cidades – como Funchal, Porto, Coimbra, Gotemburgo, Cork e
muitas outras – beneficiaram de apoios e melhoramentos na qualidade e mobilidade urbana.
Outras medidas têm sido aplicadas à escala local, como o investimento em transportes
urbanos ecológicos, uma vez que o congestionamento do trânsito nos atuais centros urbanos
gera um impasse urbanístico gravoso, ao qual é premente obter soluções em vista a minimizar
os seus diversos impactos. A funcionalidade/qualidade das vias e do transporte urbano
constitui uma questão prioritária no planeamento – estando diretamente sob a dependência do
poder local – com o objetivo de travar a deterioração da qualidade de vida urbana, bem como
reduzir os avultados desperdícios energéticos e a toda a poluição gerada.
Relacionada com o tema anteriormente expresso, e digna de relevo, é a gestão do
tráfego e dos sistemas de transporte, no sentido da otimização do consumo energético,
segurança e funcionalidade urbana. A investigação e desenvolvimento dos sistemas de
navegação por satélite possuem também aplicação na sustentabilidade dos transportes, devido
à otimização dos fluxos de tráfego nos meios de transporte viários, marítimos, aéreos e
ferroviários. Ao reduzir-se o índice de saturação das infraestruturas, diminuir-se-ão os custos
da congestionamento, reduzindo-se os tempos de espera, os desperdícios energéticos e a
poluição.
Alternativas aos transportes viários terão de ser estudadas e aplicadas, como já
experimentado em alguns países europeus, nos quais os transportes ferroviário e marítimo ou
fluvial se revelaram alternativas viáveis. É igualmente urgente a aposta nos veículos elétricos,
híbridos e/ou utilizadores de energias alternativas (gás natural, hidrogénio, etc.), por exemplo
através de incentivos financeiros e da redução de impostos, ou pela restrição do acesso de
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veículos poluidores aos centros urbanos. Estas serão certamente medidas de largo impacto se
forem encaradas e aplicadas, não numa perspetiva meramente local, mas concertadamente e à
escala da economia global.
Outro elemento de grande impacto no ambiente, nas cidades e na maioria dos
consumos energéticos, concerne aos edifícios. A Diretiva do Comportamento Energético dos
Edifícios (2002/91/CE) obriga ao estabelecimento, por parte dos estados-membros, de
metodologias e ferramentas de cálculo do desempenho energético, de requisitos de
construção e, finalmente, à certificação dos edifícios. A aplicação desta Diretiva é também
relevante no caso da renovação do edificado existente (estudos revelam um enorme potencial
de aplicação), em que medidas para reabilitar e melhorar o desempenho energético deverão
ser aplicadas; bem como a aposta na eficiência energética dos edifícios públicos, grandes
consumidores de recursos, com elevados gastos de manutenção e desperdícios energéticos.
Por último, mas igualmente preponderante, é de salientar o impacto positivo destas
medidas na economia, através da redução do consumo energético, da melhoria da construção
e da renovação urbana, como da promoção de emprego qualificado ao nível local (nas
diversas áreas ligadas à construção e reabilitação, urbanismo e planeamento, energias
renováveis, etc.). E não esquecendo o facto de cidades dinâmicas e equilibradas serem um
grande atrativo para o investimento económico e para a fixação de novos residentes, que
poderá porventura inverter a atual conjuntura europeia e nacional de retração demográfica.
A aplicação das diversas medidas expressas, além das disposições normativas e
legislativas, implica a sensibilização e educação do cidadão enquanto consumidor de
recursos, de forma a promover-se efetivamente a eficiência energética, como expressa o
Concelho Europeu de Urbanistas:

“Energy saving in the overall sense also derives from a change in consumer
behaviour. This means, for example, a policy of making public transport more
attractive and thereby encouraging car users to take the bus or train instead; or
educating people on how to reduce heat losses from their house, notably through
correct use of thermostats.” (CEC, 2005, p. 38).

Os impactos do crescimento económico e do consumo em larga escala, sem olhar às


contrapartidas, têm sido particularmente nefastos noutros setores da sociedade, na própria
cidade, tornando obrigatório não só um esforço maior na consciencialização de cidadãos e
decisores políticos, como na obtenção concreta de resultados convincentes. E, ponto crucial,

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

não esquecendo a deterioração do meio ambiente e as alterações climáticas, como relembra o


Concelho Europeu de Urbanistas:

“Growth in consumption has a direct impact on the deterioration of the


environment and on climate change. Air quality is a major environmental concern
for the EU. The Commission is currently elaborating the EU Clean Air Programme
(CAFE), where the harmful effects of ozone and especially particulates are
revealed for human health, the ecosystems and agricultural crops. (CEC, 2005, p.
42).3

Perante os comportamentos, estilos de vida e as cada vez mais complexas


necessidades do cidadão nos países desenvolvidos – cujo estilos de vida e padrões de
consumo estão a ser adotados ou copiados pelos países emergentes –, face à situação concreta
que atualmente se nos depara, numerosos desafios são lançados à investigação em busca de
novas soluções, em que deverá ser adotada uma postura de humildade na investigação e de
prudência na aplicação prática:

“Vivemos hoje num quadro de profundas transformações urbanas, do qual o


conhecimento é escasso e pouco sistematizado, mas já é possível constatar que
muitas das tradicionais metodologias académicas e práticas de planeamento não se
adequam aos atuais cenários urbanos. Os novos espaços urbanos atingiram em
muitos casos uma desqualificação e um grau de desarticulação que promovem o
inverso de muito daquilo que a vida urbana deveria ter.” (Soares, 2005, p. 111)

Relativamente à maioria dos países europeus, em Portugal o estilo de vida urbano


propriamente dito foi desenvolvido tardiamente, aliás fortemente condicionado pela economia
e tradição marcadamente rural, pelo fraco impacto da revolução industrial ou processo de
industrialização, bem como pelos acentuados movimentos emigratórios. Mais recentemente,
são de salientar as significativas alterações socioculturais e económicas, visíveis na alteração
dos estilos de vida e nas formas de organização espacial da própria cidade.
Ao observar o panorama da distribuição das cidades pelo território continental
português em traços largos, além da concentração populacional urbana na faixa litoral,

3
“Growth in consumption has a direct impact on the deterioration of the environment and on climate
change. Air quality is a major environmental concern for the EU. The Commission is currently
elaborating the EU Clean Air Programme (CAFE), where the harmful effects of ozone and especially
particulates are revealed for human health, the ecosystems and agricultural crops. This situation will be
improved by 2020 in the first place by the implementation of current emission standards, but increased
energy efficiency could equally improve air quality dramatically by avoiding burning of fossil fuels.
Effects of reduced energy consumption have been estimated in environmental models to be in the order
of thousands of avoided premature deaths and billions of euros” (CEC, 2005, p. 42).

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

sobretudo a norte do distrito de Almada, entre os rios Tejo e Douro (em contraste com o
interior e o Alentejo menos urbanizado e habitado), é de notar o número relativamente
elevado de cidades para a dimensão do território, mas de cidades com valores médios de
população relativamente baixos (inferiores a 30 mil habitantes). Constituem exceção apenas
as cidades de Lisboa e Porto e respetivas áreas metropolitanas, grandes aglomerados de
população, serviços e diversas infraestruturas.
Sobretudo nas últimas quatro décadas, o país é marcado por profundas mudanças nas
áreas urbanas, impacto sentido sobretudo na denominada faixa litoral, onde a população
(vinda do interior) tem vindo tendencialmente a concentrar-se. Os problemas já existentes,
decorrentes da degradação do edificado, das más práticas de construção e da especulação
imobiliária, da inexistência ou da falta da aplicação dos meios de planeamento e ordenamento
do território, foram desta forma acentuados, degradando a qualidade de vida das populações
urbanas.
Na própria estrutura e características fundamentais da cidade profundas alterações se
fizeram sentir. Contrapondo-se à «tradicional» cidade, herança cultural do passado,
monocêntrica, com continuidade e coerência espacial, a cidade «contemporânea» manifesta-
se pela fragmentação e descontinuidade no espaço, constituindo uma entidade policêntrica
com grande diversidade de espaços e usos. Estes dois modelos, que conjugam grosso modo a
tradição e a modernidade, perpassam as atuais cidades, criando situações complexas e
matizadas, para as quais os tradicionais modelos de análise se revelam insuficientes e
desfasados. O próprio modelo metropolitano, definindo a oposição centro-periferia,
manifesta-se ultrapassado quando aplicado a estas novas realidades (Soares, 2005).
As condições climatéricas, geográficas, topográficas, de orientação solar, bem como
os fatores socioculturais, são preponderantes na implantação e nas características tipológicas
dos edifícios. Mendonça, na sua tese de Doutoramento, em 2005, à qual concede um
sugestivo título – Habitar Sob uma Segunda Pele. Estratégias para a Redução do Impacto
Ambiental de Construções Solares Passivas em Climas Temperados – estuda diversas
questões bioclimáticas. A finalidade desta investigação consiste em obter soluções
construtivas que permitam minorar o impacto ambiental, em sentido lato, relacionado com a
construção do edificado nacional, através da melhoria de todos os procedimentos afetos à
construção, desde o estudo das condições bioclimáticas de dada região, o planeamento e a
conceção do projeto de arquitetura, aos materiais de construção e técnicas utilizadas. O autor
confere um relevo particular ao conceito de «pele exterior», ou seja, às fachadas e coberturas
dos edifícios – ou em termos científicos e segundo os critérios designados pela ADENE
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

(Agência para Energia), a envolvente opaca exterior – procedendo ao seu estudo histórico
numa perspetiva diacrónica e em diversas áreas geográficas e culturais. Mendonça comprova
ainda que as soluções dos métodos construtivos podem muitas vezes substituir elementos
construtivos pesados e dispendiosos, desde que a alteração assegure além do conforto
térmico, as devidas condições higrométricas, a segurança estrutural, acústica e a iluminação
natural. Subjacente está uma razão cultural indesmentível fundada na variedade tipológica
nacional, destacando-se a influência dos aspetos climáticos:

“A grande diversidade de tipos de casa popular portuguesa obedece a condicionalismos


vários; geográficos, económicos, sociais, históricos e culturais. Todos estes
condicionalismos se refletiram na arquitetura tradicional, no entanto, os elementos com
maior influência numa possível classificação morfológica da evolução da construção e
dos sistemas construtivos, pelo menos no aspeto que este trabalho pretende retratar, são
os aspetos climáticos, bem como a disponibilidade de matérias-primas, dois aspetos que
se podem incluir numa caracterização geográfica de Portugal.” (Mendonça, 2005, p. 44).

No âmbito da temática da arquitetura tradicional e vernácula, é popular nos nossos


dias o apelo a uma «arquitetura ecológica», na linha da preservação do ambiente e na
utilização de recursos locais – que significado terá a expressão Geometrias da Arquitetura de
Terra hoje? Como construir e ao alcance de quem está este tipo de arquitetura? Segundo o
autor do título citado, González, “curiosamente são os padrões de status e conforto
habitacional que hoje em dia conferem às construções em terra crua um estatuto de
superioridade e elegibilidade” (González, 2006, p. 29).
Este género de experiências empíricas, um tanto distantes da investigação científica e
pouco consentâneas com qualquer estudo teórico habilitado, terá uma resposta objetiva,
sendo a questão abordada mais pormenorizadamente no último capítulo desta investigação.
Mas é preciso desde logo entender que o facto de as casas serem ecológicas, ou não, é uma
matéria deveras controversa, muito argumentável e discutível, pois o edificado nunca deixará
de ser um produto transformado, bastando ter em conta a opinião de que materiais ecológicos
são os materiais naturais. Ou dizer-se que algo é ecológico por não criar problemas de saúde é
igualmente controverso, dado que as casas construídas à base de terra crua são propícias à
presença de elementos biológicos indesejáveis e não controláveis ou a uma quantidade
elevada de partículas minerais nocivas à saúde.
O exemplo de construção em terra para cidades incapazes de adquirir betão armado e
não dispondo de materiais alternativos (e fazendo essa prática parte da sua história
urbanística, amplamente difundida) será percetível e mesmo aconselhável. Mas não nos

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deveremos precipitar, concluindo que o betão e a terra crua são as únicas alternativas nas
estruturas da construção. A relação da construção e planeamento com os materiais tem sem
dúvida uma importância fundamental, embora bastante evitada tanto no ato de planeamento
como no ato de projeto. O desconhecimento do material é por vezes o maior motivo de
divergência entre profissionais, como arquitetos e engenheiros nas suas obras, por vezes mais
preocupados com a última moda, ou com os novos materiais comercializados, do que os
sistemas técnicos e materiais mais adequados.
Não me parece, todavia, que devamos afastar os urbanistas da ligação com os
materiais, dado que a constituição de volumes e meios urbanos depende inteiramente dos
materiais que utilizamos e não o contrário. Por outro lado, abordando a temática da
construção e os preconceitos sem fundamentação real, há um problema de desinformação que
começa por alguns «materiais inovadores», no caso específico da bioclimática, promovidos
por vezes com o nome de «produtos milagrosos» que resolverão simples problemas de
estética, de aplicabilidade ou de gestão do espaço. Os isolamentos térmicos são os materiais
com maior destaque nesta área, dado que são sobretudo estes que resolvem os problemas
legais e técnicos (requisitos mínimos exigíveis) de forma mais eficiente, dado o seu ótimo
rendimento térmico e preço. É este um dos pontos essenciais que Mendonça defende na sua
Tese, de que é possível baixar o «peso» da construção em prol de sistemas mais simples e
mais eficazes e sem diminuir as devidas condições e qualidade do edificado. No entanto, estas
experiências e práticas estão ainda ausentes do planeamento – apenas o aglomerado negro de
cortiça, entre poucas experiências, traz uma ligação ao visual urbano conciliando a sua forma
e função.
O vidro é outra matéria que tem tido bastante influência na bioclimática, mas também
possuí características ambivalentes, pois tanto é um elemento de perda de energia como de
ganhos por irradiação. No fundo, a ideia é integrar na construção materiais e sistemas, como
caixilharias, capazes de captar para o interior o máximo de irradiação solar, mas também
evitar ao máximo as transferências por condução de energia. Esta questão tem sido alvo de
controvérsia, tanto numa vertente científica como empírica, pois a entrada nos edifícios de luz
natural é fundamental. Mas discute-se se a irradiação solar terá uma importância
preponderante para a climatização de uma casa, dado que as densidades elevadas são mais
eficientes e o controlo por intermédio de sistemas mais isolantes permite que a climatização
artificial seja menos dispendiosa e, por último, seja qual for a disposição da casa (no nosso
clima mediterrânico ou mais noutro frio) será provavelmente impossível de evitar a existência
de sistemas de apoio de aquecimento.
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Neste sentido, existe um novo material designado por ETFE (Ethylene


Tetrafluoroethylene), um copolímero cada vez mais empregado na construção pelo facto de
ser leve, de ser mais isolante do que o vidro e permitir a transmissão e utilização de luz
natural nos espaços interiores. Não é transparente como o vidro e a sua utilização, cada vez
mais frequente, testada em Masdar e neste momento em edifícios de grandes dimensões,
como o centro comercial Dolce Vita, na Amadora, comporta benefícios térmicos. De acordo
com os estudos de Poirazis, Kragh & Hogg, em 2009 e Robinson, em 2005, «ETFE has
approximately 95% light transmittance but does not offer the clear visibility/transparency of
glass.» (Robinson, 2005, p.1) e «Usually ETFE cushions incorporate two or three air
chambers.» (Ibidem, 2009, p. 1).
Se perguntamos como pode o vidro, comparativamente com outros materiais, possuir
tanta relevância na construção e planeamento, a resposta é fácil: o desenho de fachada com
certos tipos de vãos envidraçados fazem parte, muito frequentemente, dos planos de pormenor
e é certamente possível colocar a hipótese de efetuar uma fachada, quarteirão ou bairro só
com fachadas de vidro. Por conseguinte, este é um capítulo que não devemos desprezar
quando estudamos urbanismo bioclimático.
Mas, vejamos, há ainda uma outra maneira de apreciar a situação que se depara ao
urbanista, representando os planos conceptual e reflexivo um papel fundamental. A realidade
portuguesa contemporânea gerou impasses e inquietações muito próprias. Embora divergindo
um pouco da objetividade das nossas temáticas, de cariz mais técnico, é de mencionar o
seguinte excerto, escrito aquando da morte de Walter Gropius. «Que perdemos com a sua
morte ou o que não ganhamos com a sua vida?» Esta pergunta posta por Álvaro Cabral de
Melo, em julho de 1969, referia a vida de Gropius como uma:

“tentativa heroica, portanto romântica, de opor o método às estruturas, uma


autoridade pessoal à autoridade estabelecida, uma ética a uma política. E, embora
se possa dizer que as suas boas intenções, romanticamente situadas à margem dos
sistemas de pressão, foram indiscriminadamente, talvez por isso, absorvidas e
abastardadas pela autoridade, temos de concluir que o seu esforço e o do
racionalismo em geral, quase não chegou até nós (...) Aqui, onde a arquitetura se
faz em atelier individual e às vezes (nem sequer se experimentou, utópico ou não,
o trabalho em equipe preconizado por Gropius) sem que haja a vontade ou a
possibilidade de esclarecer os utentes das intenções ou limitações do planeamento
das cidades.” (Jornal de Letras e Artes , 1969)

A descrição que o autor faz do país é o sintoma teórico de uma época cuja arquitetura
e subsequente forma da cidade o refletem igualmente. Este manifesto revela um momento
histórico muito concreto de Portugal e da arquitetura cuja carga emotiva negativa é manifesta,
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

conhecendo nós o resultado do desenvolvimento da sociedade portuguesa em determinados


setores, particularmente visível no urbanismo. De facto o artigo dá uma ideia (que peca
apenas por excessivo subjetivismo) de que os poderes públicos, os arquitetos, a sociedade e o
planeamento das cidades se encontram desarticulados – situação que ainda nos nossos dias
urge ultrapassar, em busca de um desenvolvimento urbano equilibrado e sustentável.
Podemos verificar que outros autores contemporâneos refletiriam, mais tarde, com
uma perspetiva crítica sobre a sustentabilidade dos sistemas urbanos e o pessimismo não seria
menor (atente-se em N. Choucri 4). Estes aspetos subjetivos na área da teoria – das práticas
ditas sustentáveis e ecológicas (“verdes”), impostas por práticas por vezes com resultados
contraproducentes – interessam ter em conta como uma advertência, para não confundirmos
meios e ferramentas (recursos económicos e “lucros”) com as finalidades e metas que
visamos concretizar (desenvolvimento urbano e humano):

“Called green development, we thought (...) habitat protection, buildings to be


lighter on the earth, energy efficiency, indoor air quality and material selection. It
is about all these things, but is also more than that. (...) Yes, it is about making a
profit, but you use that financial stream as the engine for undertaking ecological
restoration, for financing community development and ever in one case, ethnic
dispute resolution.” (Browning, 1998, p. 21)

De facto, com a primeira crise energética de 1973, começou a difundir-se um grande


interesse em relação às questões energéticas e ambientais em todos os setores da sociedade,
nomeadamente na arquitetura e urbanismo. Mas ironicamente, com o desenvolvimento
tecnológico do século XX, ao disponibilizarem-se novas tecnologias e materiais, o processo
de construção tornou-se ainda mais dispendioso, ecologicamente inviável, baseando-se em
pressupostos alheios às condições climáticas regionais.
Ainda em meados da década de 1950, Victor Olgyay, em colaboração com o seu
irmão Aladar, desenvolveu uma prática completamente diversa da arquitetura convencional.
Aliás, encontram-se nas obras destes autores, nomeadamente no livro Arquitetura y Clima.
Manual de Diseño Bioclimático para Arquitetos y Urbanistas, cuja primeira edição data de
1963, as primeiras abordagens numa ótica científica e fundamentada das práticas

4
“Despite differences in definitions perspetives and priorities, sustainability remains a critical challenge for
everyone. In general, the problem is this: traditional patterns of industrial and economic activities are no longer
viable, but alternative models are not yet developed. The historical trajectory of the industrial west cannot serve
as a model for the development of the industrializing countries, but it cannot be discarded entirely. Ecological
systems are severely strained by the cumulative effects of past industrialization and can scarcely support added
strains due to future patterns of growth, but there are major uncertainties about what must be done and how
”Choucri, N. (1998).

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

bioclimáticas no domínio do urbanismo. Pelo cariz pioneiro desta obra, vai conferir-se-lhe
alguma atenção – esta possui uma estrutura tripartida, cada parte subdividindo-se em vários
capítulos, encadeando-se segundo uma sequência lógica e complementar, na qual o autor
toma como ponto de partida a interpretação climática e a sua influência no homem, em
seguida aplica a abordagem bioclimática ao planeamento arquitetónico e, por último, aplica
os pressupostos anteriores, exemplificando com casos concretos de aplicação na arquitetura e
urbanismo.
O meio urbano é estudado, nesta obra, numa ótica multidisciplinar e em interação com
o meio natural, juntamente com a análise geográfica e as influências sócio-culturais. Além
dos aspetos técnicos e tipológicos da construção, os contributos da climatologia, da biologia,
da engenharia e tecnologias, entre outros, são valorizados e aplicados na arquitetura e
planeamento urbano, numa ótica interdisciplinar. Para tanto propõe-se uma atenção às
origens: “El control del entorno y la creación de condiciones adecuadas a sus necesidades y al
desarrollo de sus atividades son cuestiones que el hombre se ha planteado desde sus orígenes”
(Olgyay, 1998, p. IX)
Um elemento sempre presente ao longo da história humana, mais especificamente da
história da arquitetura e do urbanismo, é a adaptação das construções às condições climáticas
da zona geográfica em que se inserem; encontramos estes aspetos bastante destacados nesta
obra. Essa conceção exige uma postura quase radical sobre a noção de arquitetura e da
preparação preliminar, na qual a arquitetura possui menor prioridade perante outros fatores
prioritários – “El proceso constructivo de una vivienda climáticamente equilibrada puede
dividirse en cuatro etapas, la última de las cuales es la expresión arquitetónica. Ésta debe
estar precedida por el estudio de las variables climáticas, biológicas y tecnológicas” (Olgyay,
1998, p. 10)
Para outro exemplo neste sentido, nomeia-se a obra do romano Vitruvio, quando
menciona expressamente que a diferentes climas e regiões correspondem diferentes tipos de
edifícios (Vitruvio, s.d.). Olgyay refere, sucintamente, as quatro etapas que precedem o
processo de construção de um edifício que são, respetivamente, a análise das características
climáticas do local de implantação, a relação entre as condições climáticas e as necessidades
biológicas, porquanto o homem constitui a referência da arquitetura enquanto utilizador dos
espaços construídos, a ponderação da melhor solução técnica adequada às condicionantes
bioclimáticas específicas e, por último, o projeto de arquitetura propriamente dito, que se
deve desenvolver harmoniosamente conjugando os dados das etapas anteriores.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

O autor confere ainda particular destaque aos estudos sobre o efeito do clima no
homem uma vez que, como referido, aquele constitui o elemento principal na arquitetura.
Reconhece-se que tanto as características do interior do edifício como a envolvente influem
na sensação de conforto térmico. Olgyay constituiu também metodologias e modelos de
análise, definindo e medindo os elementos principais que influenciam o conforto humano,
nomeadamente a temperatura atmosférica, a radiação solar, o vento e a humidade, que
interagem com o meio e com o metabolismo humano. O objetivo destes cálculos é o
estabelecimento de parâmetros de conforto, adequados a cada clima, criando tipologias e
critérios, transformados em medidas concretas a aplicar na construção.

“En un ambiente frio la trama urbana intenta proporcionar protección contra el


viento. (...) Las viviendas tiendem a juntarse para exponer la menor superficie
posible y así impedir la perdida de calor.(...) En las zonas templadas, la planta de
distribuición de las viviendas es abierta, la naturaleza y las viviendas se integram.
La estructura urbana aprovecha las possibilidades de trazado libre. En las regiones
áridas y calientes los muros de las casas y los jardines proporcionam sombra a la
calle y las zona de actividad diurna (...) la trama urbana se defiende del calor
formando un densa estructura que proporciona sombra. En las regiones cálidas y
húmedas los edificios se desarrollam libremente, y esta liberdad se refleja y
acentúa en su aspeto más urbano” (Olgyay, 1998, p. 91).

Por último e para terminar, Olgyay aplica os pressupostos anteriormente expressos,


materializados em quatro projetos concretos de arquitetura e urbanismo, localizados em
diferentes regiões climáticas dos Estados Unidos da América. Destes exemplos, o primeiro é
implantado numa região fria (Mineápolis), o segundo numa região temperada (New
York/New Jersey), o terceiro numa região quente e seca (Phoenix) e o último numa região
quente e húmida (Miami) – cada projeto com características distintas otimizadas, adaptadas
aos diferentes tipos de clima – em suma, bioclimáticas – ilustrando desta forma diferentes
soluções práticas de cariz preventivo.
As soluções preventivas propostas por Olgyay, embora pioneiras e muito divulgadas,
não conheceram vasta aplicação. No âmbito da correção dos efeitos térmicos/climáticos
(posterior ao processo de projeto e construção), durante muito tempo e mesmo nos nossos
dias, os aparelhos elétricos resolveram os problemas de climatização dos edifícios. Em
nenhum aspeto a sua fachada era considerada determinante. O conceito de estética
relacionava-se com as opções de ligação com a envolvente, com a expressão artística pessoal
do arquiteto em questão, ou simplesmente sobre a ausência de qualquer critério.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Neste momento, partiu dos próprios investigadores da engenharia mecânica que a


maior recuperação energética começa sempre no edifício em si, no seu desenho e
planeamento, dado que o seu conforto prepara-se através de fatores tão elementares como a
receção ou oclusão da luz solar. Estas são conceções que acabam por implicar uma nova
imagem da cidade, mesmo com o desenvolvimento da tecnologia aplicada aos edifícios.
Aliás, em parte, também é esse mesmo desenvolvimento que obriga a tirar mais partido da
sua envolvente opaca. Abel & Elmoth, entre outros engenheiros ligados aos sistemas de
climatização e ventilação, têm vindo a reforçar a ideia de que não é o aparelho que resolve o
problema físico do arquiteto, mas é a peça arquitetónica, na sua originalidade e
características, que condiciona as posteriores necessidades de correção através desses
aparelhos.

“Building technology has changed a great deal over the last few decades.
Primarily, developments have been driven by the need to meet more stringent
demands concerning energy performance. This means that external structural
elements now have improved thermal insulation and there are requirements that
must be met regarding air tightness” (Abel & Elmoth, 2007, p. 56).

A estrutura do edificado integra de início o controlo das fachadas com isolamento e


impermeabilização, a minimização das pontes térmicas (planas e lineares), envidraçados,
ventilações e controlo da humidade. Conforme as exigências da atualidade, as novas soluções
estruturais de desenho arquitetónico têm também aplicações e efeitos na temperatura,
qualidade do ar interior e humidade.
Seguindo parte da história recente das sociedades do Norte da Europa, no capítulo 4.º
da obra de Abel & Elmoth intitulada Building and Energy – A Systematic Approach, foi na
década de 1970 (mais propriamente em 1973, com a primeira crise do petróleo) que o estado
da energia conduziu à observação da existência de custos energéticos significantes nestes
países de inverno mais longo e rigoroso. Iniciaram-se pela primeira vez agências como a IEA
(International Energy Agency) e vários projetos, como o AIC (Air Infiltration Centre), que
depois se veio a denominar por AIVC (Air Infiltration Ventilation Centre). Contudo, os casos
estudados revelaram que o sucesso de alguns edifícios mais eficientes dependia de algum
mérito ao acaso, entendendo-se que a configuração ou forma não estava ainda
suficientemente associada aos estudos de eficiência.
No plano urbanístico, a cidade, além da suas funções práticas, como espaço de
habitação e de múltiplas valências, guarda consigo um elemento cultural que é também
estético, enquanto desencadeia a fruição de um prazer que resulta da sua simples exposição
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pluridimensional aos sentidos, sintomas que tornam necessária a obra de arte enquanto
produto destinado a fruição estética.
Kevin Lynch procura respostas na história e oferece-nos diversas perspetivas dessa
característica. As cidades são lugares para habitar, mas também para fruir esteticamente.
Gente de todo o mundo passeia-se por Paris, Veneza, Amsterdão, Buenos Aires, Nova Iorque,
mas também pelas grutas hititas da Capadócia, vão a Atenas à procura dos mistérios de
Elêusis, ao templo de Delfos para se reconhecerem a si mesmos na marca epigráfica tão
diversa e semelhante à de Borobodur, no centro de Java, a Santorini, ao Cairo, a Petra, a
Jerusalém, a Saigão, a Marraquexe, a Lisboa, a Joanesburgo, a Singapura, a Viena, Madrid,
Moscovo, Deli, Samarcanda, Leninegrado, Barcelona, Túnis, Pequim, Shangai, Havana, Rio
de Janeiro, a tantas outras cidades... O que procuram esses milhões de pessoas em transito
efémero nesses lugares de peregrinação? Durante alguns dias ou mesmo semanas passam
algumas horas do dia num hotel igual a outros hotéis e o resto do tempo à procura de espaços
que lhes são apontados como “históricos” ou únicos. Que imagem trazem desses lugares?
Salvo uma ou outra impressão pessoal, o grande impacto desses lugares – por vezes já vistos
na televisão, nos filmes, na internet – é necessariamente a arrumação dos seus edifícios, as
fachadas, o respirar quotidiano dos povos nesses e não noutros espaços.
O conceito de herança cultural está patente na responsabilidade de quem planeia e de
quem constrói, como sublinha Kevin Lynch. Uma cidade é sempre mais do que ela própria e
se, de uma primeira visão se pode colher um testemunho que não e apenas um somatório de
perceções, mas uma vivência complexa com identidade, a sua construção pressupõe esse
resultado, uma interferência profunda e determinante na vida das populações, em regra
atribuída de forma arbitrária ao ato político.
A construção da imagem será então um apelo à emanação de um espírito identitário
de natureza cultural e social conjugado com o espaço natural. Este redimensionamento
psicológico da urbe, que emerge da história, vem ao encontro do repensar a cidade na sua
multiplicidade transversal e vertical da análise. A metáfora da árvore como um sistema e a
polarização numa unidade de vetores que cruzam todas as áreas numa clara relação de
equilíbrio, indispensável, a partir da proposta da Carta de Atenas acerca do conceito de casa
como célula (elemento biológico primordial), cuja construção está rodeada de vicissitudes,
completando uma unidade própria. Somos levados a pensar e atribuir à cidade, considerada à
escala humana, a expressão psicossomática de uma unidade psíquica coletiva. A cidade hoje
deverá ser vista com a dimensão objetiva própria, mas também na sua mesma grandeza
subjetiva cultural e humana. A evolução técnica/tecnológica introduziu as qualidades e
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melhorias que a história reconhece, mas a sua consumação prática obedece cada vez mais a
propósitos como a educação e a atividade cívica.
Neste sentido, parece de bastante utilidade lembrar a recomendação de Ester
Higueras, quando refere: “La ciudad bioclimática no es exclusivamente la suma de edifícios
que incorporen técnicas de acondicionamiento pasivo”. (Higueras, 2007, p. 9). Um conceito
não se limita a ser o somatório de diversas qualidades. Seja qual for a linguagem que se
utilize, procura-se organizar e consumar um projeto de unidade num mundo urbano que pode
ser visto como caótico, dividido, assimétrico, separado, desinteressante nos seus elementos
em bruto. Através da linguagem procura-se dimensionar uma unidade de cor, de volume, de
ação própria, sem destruir a natureza íntima das coisas, pelo contrário. Prosseguir no mundo
diáfano da estética e da identidade cultural significa assumir um princípio essencial: têm de
ser materialmente cumpridas numa unidade orgânica em termos de qualidade de vida
proporcionada aos sentidos.
Os espaços públicos são locais destinados às pessoas para interagirem em liberdade. A
hospitalidade e o conforto urbano dos espaços públicos determinam a forma como as pessoas
se relacionam e este aspeto não pode perder-se de vista no planeamento urbano, são o
resultado das preocupações de quem os concebeu. Criados de forma planeada ou resultado de
uma transformação evolutiva não intencional, os espaços públicos da cidade exprimem
sempre uma identidade cultural. A própria integração social é influenciada ou determinada
pelo contexto urbano, o que origina um conjunto de problemas que os utilizadores sentem
tanto na área social como na esfera íntima. Quem olha a cidade no seu todo, ou as habitações,
os monumentos e os diversos espaços, apreciando as formas do desenho, do empedrados ao
betão, de facto é nestes que vê e identifica (consciente ou inconscientemente) a cultura e as
características da sociedade que representam e constituem produto.
Klas Tham (2010), urbanista sueco, notou que a diversidade é uma característica
determinante na cidade. Mantém estímulos e a interatividade do indivíduo com o meio. Os
conceitos encontrados procuram contribuir para a maior identificação das pessoas com o
espaço que utilizam, aumenta a sua integração social, a qualidade de vida, bem como a forma
como interagem. Nesta área levantam-se vários desafios à escala do planeamento urbano, o
que promove a criação de contextos urbanos atrativos e comunidades que se desenvolvem
rumo à sustentabilidade.
Aproximando-se do futuro e encarando o presente de forma mais consciencializada, a
população europeia, pelo menos, não só estará sensibilizada da relevância dos programas de
eficiência energética, como totalmente dependente do conforto climático enquanto elemento
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

imprescindível da qualidade de vida. E este futuro não é relativamente longínquo, dado que a
União Europeia já apontou 2020 como o ano-meta das ações concertadas, designado pelo já
expresso Programa 20-20-20, além do consenso geral dos líderes europeus na redução de
20% de emissões de gases com efeito de estufa, entre outras matéria. Neste sentido de
carência energética e da necessidade de diminuir consumos, tendência acentuada nas últimas
décadas, com os objetivos e metas da União Europeia (através das suas medidas,
regulamentos e diretivas), aliados ao clima e ao planeamento urbano – através de uma forma
da cidade que possa reduzir despesas energéticas –, aplicados e coordenados com as normas
urbanísticas e conceitos de sustentabilidade, há sem dúvida um trajeto inegável e irreversível:
a racionalização energética terá de existir, por razões ecológicas, tanto quanto económicas e
sociais.

1.05 A eficácia antes da eficiência energética. A introdução do conceito de


conservação das fontes de energia como processo eficaz e eficiente de racionalização
energética.

A introdução do conceito de eficiência energética não foi, sem dúvida, muito bem-
sucedida no âmbito dos países mediterrânicos dado, como referido, não existirem hábitos ou
consciencialização da sociedade face ao conforto térmico. Todo o processo apontou, na
generalidade dos países europeus, para uma eficiência térmica e não genérica dos edifícios. É
importante ter também em conta que as decisões tomadas e a construção dos regulamentos
dependeu, de um certo modo, de características e fundamentos derivados da opinião científica
dos estados da Europa Central, mais que dos restantes países. Tal como o regulamento
térmico português, a maioria dos países adaptou conceitos já definidos nos regulamentos
térmicos da Alemanha, por exemplo, cuja perda térmica nos edifícios representa valores
bastante mais consideráveis do que as restantes despesas, como a iluminação ou a preparação
de refeições (cozinha), estas duas últimas com maior peso nas habitações portuguesas.
Persiste a ideia genérica de que a eficiência perfeita consistiria no corte em absoluto
do consumo energético, o que o engenheiro mecânico e professor na Universidade de Évora,
Ernesto Peixeiro Ramos, criticou num artigo da revista Climatização, publicado em
novembro de 2011. Ramos abordou, desde logo, o ridículo da execução do processo de
certificação energética baseada em medidas de eficiência térmica, conforme cito: “muita

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

gente espanta-se que apesar da implementação de medidas de eficiência recomendadas pela


certificação energética, vêm subir o valor da fatura de energia.” (Climatização [C], 2011)
Ramos não aborda o termo eficiência enquanto real eficácia, mas introduz-nos a
exergia enquanto qualidade, como uma outra dimensão de energia e à qual se devem sem
dúvida as preocupações de conservação. Esta vontade de tornar real a possibilidade de
sobrepor o termo de exergia, renomeando para conservação das fontes de energia, em vez
simplesmente de conservação de energia, tem como primeiro obstáculo uma decisão típica
que Ramos condena: “a decisão pelo preço mais baixo em detrimento da eficiência” (Ramos,
2011).
Todo este ciclo de restrição dos consumos energéticos, que se vive atualmente, foi
previsto por Alvin Toffler, quando alertou para o acontecimento logo na introdução da sua
obra publicada em 1980, A Terceira Vaga, ao referir simples sinais como o aumento
descontrolado do preço do ouro, que considera ser um eficaz barómetro do medo das
sociedades, e a paralisia do setor político que, não sabendo como modernizar e industrializar
mais eficazmente, começa a proceder a cortes e restrições consecutivas.
Em 8 de agosto de 1960, um engenheiro químico natural de Parkesburg, Virgínia
Ocidental, Monroe Rathbone, então diretor executivo da «gigante» Exxon Corporation,
decidiu que os países produtores de petróleo deveriam receber menos taxas, facto ao qual a
imprensa internacional pouca importância conferiu, inclusivamente à criação da OPEP, uns
dias mais tarde. Foram precisos treze anos para que se ocorresse, pela primeira vez, um
acontecimento que surpreendesse o mundo industrializado. Talvez o momento que Toffler
menciona como o início da «terceira vaga», ou seja, uma sociedade pós-industrial com base
em energias de fontes renováveis/alternativas às fontes fósseis, ainda não ocorresse nos anos
1970 e talvez esteja ainda mesmo a iniciar-se; pois não foi a partir desse período que
passámos imediatamente a recorrer a outro tipo de fontes energéticas (pelo menos, em grande
escala). Em contrapartida, ao nível global, nunca foram tão desperdiçadas ou gastas as
energias com base em combustíveis fósseis como nesta última década.
No entanto, há que entender que apenas no tornear deste milénio surgem protocolos e
medidas concretas, como Quioto, e a União Europeia cria ainda o seu processo e sistema de
certificação energética para os seus estados-membros. Isto significa, tal como previu Toffler,
que voltaremos a utilizar os mesmos recursos que logicamente foram empregados na
economia de «primeira vaga» (isto é, uma sociedade de base agrária sustentada em fontes de
energia não esgotáveis), abandonando lentamente os recursos energéticos esgotáveis (Toffler,
1980). Mas também, além disso, após todas as formas de modernização e industrialização dos
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

países, também viveremos um processo de contração ou limitação evolutiva, onde a obsessão


de cortar meios e custos será uma moda, sejam eles quais forem ou tenham a importância que
tiverem, desde que tal se traduza na redução de mais uma despesa.
Se os contributos de Toffler têm vindo a ser pouco considerados no domínio político –
ao contrário da economia e gestão, onde as suas ideias e teorias visionárias são reconhecidas
– será conveniente conferir importância à reavaliação de modelos económicos e práticas de
contenção atuais, antes que as perdas por reduções/cortes energéticos ou outra qualquer via se
tornem socialmente grotescas e contraproducentes. Note-se que em dezembro de 2010, numa
viagem à cidade sueca de Gotemburgo, verifiquei que o sistema de bilhetes dos transportes
públicos, por intermédio de um cartão magnético, por vezes falhava. Como estrangeiro, tentei
resolver o problema, mas não houve possibilidade para tal. Pelo contrário, graças a esse
embaraço tomei conhecimento de que provavelmente grande parte dos utentes não pagava
bilhete por não gostar do sistema. Surpreso com a situação, questionei-me em relação aos
revisores ou fiscais, pois num país supostamente sério e rigoroso como a Suécia presume-se
que não haveria muitas facilidades para tal ação. Mas, o que veio a ser descoberto pelos
utentes é que simplesmente não havia controlo algum. Passando a explicar mais
aprofundadamente esta situação a administração sueca quis criar um sistema de bilhetes
eletrónicos, ainda mais simplificado do que cheguei a conhecer em 1995 e que para mim,
nesse período, já era muito avançado. No novo sistema apenas bastava passar um cartão por
um «chip», mas um erro de leitura ocorria constantemente e alguns valores apareciam em
defeito ou excesso, causando um agravamento financeiro no sistema de transportes. Numa
nova atitude racional, foi preciso cortar na despesa dos transportes, para recuperar o
equilíbrio da empresa; logo, procedeu-se ao corte dos recursos humanos. Após uma
conclusão pragmática, verificou-se que se poderia proceder à redução dos recursos de
controlo, os revisores, pois subentendia-se que os cidadãos suecos eram praticamente
cumpridores, à exceção de alguns jovens. Apesar da decisão parecer concertada, abriu um
precedente perfeitamente normal em qualquer população. Ao existir total abandono da
fiscalização face a um sistema que por si já trabalhava deficitariamente, tal fez a população
desviar-se dos seus deveres cívicos e passar a não cumprir uma norma.
Os termos eficácia e eficiência não são uma novidade nos meios académicos e têm
vindo a ser aplicados, por exemplo, pelas ciências de gestão. Peter Drucker, no seu livro
intitulado A Profissão de Administrador, fez referência à eficácia na sua tomada de decisões
dos executivos enquanto baseada em princípios coesos e ponderados nos períodos e locais
certos (Santos, s.d.). Deverá existir uma harmonia e ponderação entre os dois conceitos ou
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processos, de certa forma indissociáveis – a eficiência busca a racionalidade dos meios ou


processos, enquanto a eficácia concerne aos resultados obtidos. A obsessão pela máxima
eficiência poderá reunir resultados aparentemente mais rápidos, mas que o decorrer do tempo
depois venha depois a condenar. Como lembra Drucker, a aposta em certas medidas ou
processos, apesar de extremamente proveitosos, poderá ser nula, uma vez que não têm
resultados ou utilidade concreta, isto é, não são eficazes (Santos, s.d.).
Em outubro de 2011, a Câmara Municipal de Almada decidiu apagar a iluminação
pública uma hora antes do amanhecer. Sem encontrar definição se a solução foi ou não eficaz,
a eficiência deu resultados, ao reduzir automaticamente cerca de 10% da fatura elétrica em
iluminação. Mas defender este tipo de ações é ignorar toda a evolução das políticas
socioeconómicas em prol do desenvolvimento, colocando em causa a manutenção dos níveis
(dignos) de qualidade de vida, apenas respondendo às necessidades drásticas de redução de
despesa. Ernesto P. Ramos refere com frequência a impossibilidade de poupança se não
houver naturalmente uma despesa, ou seja, se de todo não gastarmos energia, os conceitos de
poupança e de contenção perderão todo o significado. A otimização e racionalização dos
recursos no planeamento e gestão da cidade não poderão de forma alguma pôr em risco a boa
habitabilidade, a qualidade de vida, nem a economia urbana.
É nesse sentido que os resultados das duas próximas óticas de análise a realizar – o
calculo térmico de acordo com tipologias de bairros e as normas urbanísticas e conceitos
bioclimáticos – são determinantes para o futuro da forma da cidade. Mas antes disso, há que
expor resumidamente que o conceito de sustentabilidade não só partiu da ONU, como,
posteriormente, de outras organizações internacionais, como o Banco Mundial – o anuário
promovido por esta entidade, intitulado LGDB (The Little Green Data Book), tem vindo a
advertir/sugerir novos conceitos para a urbanização mundial, baseado em indicadores de
desenvolvimento mundiais. Na edição LGDB 2009 houve uma maior preocupação na
referência às habitações e às suas emissões de gases poluentes, apresentando-se um tema
específico – “Focus: urbanization. Economic growth, urbanization, and greenhouse gas
emissions” (World Bank, 2009, p. vi). Independentemente de todas as reações dos decisores
governamentais dos países mais desenvolvidos, a primeira coisa que o relatório demonstra
não é contenção, mas que: “Economic growth and urbanization move in tandem” (World
Bank, 2009, p. vi). Ou seja, o crescimento económico e o desenvolvimento urbano são
diretamente proporcionais. Além disso, já que a maioria das atividades económicas estão
concentradas nas áreas urbanas, como consequência, “cities have a key role in climate
change.” (ibidem, 2009, p. vi). O relatório é inclusive realista a ponto de entender que, apesar
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

da maior parte das atividades económicas se realizar nas grandes cidades, isso não constitui
necessariamente um desequilíbrio, mas apenas que as sociedades urbanas desempenham um
papel fundamental em temas como o aquecimento global. Enquanto as cidades possam ser
mais vulneráveis no que diz respeito às suas condições, o simples facto de serem mais densas
oferece mais oportunidades e maior qualidade de vida: “mass-targeting options that provide
access to water, sanitation, and solid waste management more cost-efficiently than rural areas
can.” (World Bank, 2009, p. vii). Em sequência da ideia da eficácia antes da eficiência (e
aliando estas duas dimensões), segundo o LGDB 2009, todos os investimentos em
infraestruturas realizados nos meios urbanos apresentam custos muito mais controlados e
abrangentes, logo, mais eficazes.
Assim, antes de passarmos para a segunda parte desta investigação, entendemos desde
já que o mundo – seja visto por Toffler ou mesmo um governante de um país emergente ou
industrializado – está a sofrer um processo de mudança onde a racionalização, os cortes ou
restrições monetárias são tópicos prioritários, sobrepondo-se ao próprio desenvolvimento e
melhoria da qualidade de vida das sociedades (ironicamente, confundindo-se meios e fins).
Sendo a energia um dos pontos essenciais na contenção mencionada, e onde os países mais
desenvolvidos tendem a querer economizar, o LGDB 2009 deixa-nos uma chave que tem
passado despercebida: “Compact cities tend to be more sustainable than sprawling cities.
Urban form can be important in determining land and energy use and the cost of
infrastructure and municipal services.” (World Bank, p. ix, 2009).

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2. Casos de estudo. Cálculo de envolventes de quarteirões – a transição entre o


espaço interior e o exterior.

2.01 Apresentação dos casos de estudo

O presente capítulo tem por objetivo comprovar a efetiva influência do tipo de forma
ou de volumetria, elemento determinante nas perdas ou ganhos energéticos
independentemente dos materiais de construção empregados ou da envolvente climática. O
estudo tem como principal suporte científico-técnico o atual Regulamento das Características
do Comportamento Térmico dos Edifícios, Decreto-Lei n.º 80/2006 de 4 de abril (RCCTE), e
apresenta dois tipos de análises: o primeiro com base nos dados fornecidos pela ADENE
(Agência da Energia) e pelo INE (Instituto Nacional de Estatística), e o segundo através de
simulações de tipologias de quarteirões.
Os cálculos térmicos do atual RCCTE integram já vários fatores bioclimáticos, como
o impacto e perdas energéticas, quer por zonas expostas, quer por zonas mais densas ou
frações de prédios e moradias. O Regulamento definiu diferentes classes e níveis para cada
zona climática através de dados de temperatura e insolação, entre outros elementos. Este
carece apenas de um fator que nos parece muito importante, o cálculo por corpo de edifício,
limitando toda a ação a cálculos por frações independentes. Esta situação fez com que se
calculassem todas as frações e se somasse o total no segundo tipo de análise, de modo a obter
um valor global de cada modelo de quarteirão.
Seguindo o princípio do LGDB 2009, conforme está citado no final do capítulo
anterior, estes estudos demonstram que, apesar de tudo, e antes de uma relação específica
com o clima mediterrânico, é possível resolver um grande problema na conservação das
fontes de energia através do simples domínio de um tipo de volumetria urbana.
Este cálculo alicerça-se na análise das envolventes opacas e das variações térmicas
induzidas pelas configurações do edificado face à sua localização num espaço mediterrânico,
nomeadamente no território nacional. Estes estudos de análise são realizados com dados
estatísticos reais – fornecidos pela ADENE e pelo INE – e também com base em valores
simulados segundo os métodos de calculo do RCCTE.
Defende-se nesta investigação que o tipo de volumetria, isto é, o tipo de
configuração geométrica dos corpos dos edifícios, pode ser um elemento determinante nos

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

ganhos/perdas energéticos do edificado e também da cidade, independentemente dos


isolamentos térmicos e dos materiais de construção utilizados. Ou seja, além da relação
ambiental e material, o conceito de bioclimática no planeamento urbano deverá depender
muito em concreto da configuração e morfologia urbana. Neste capítulo, serão abordados
casos de estudo em território nacional continental, nomeadamente nos concelhos de Lisboa,
Castelo Branco, Elvas e Oleiros.
Como poderá a volumetria influenciar o comportamento térmico e energético dos
edifícios numa cidade?
Tomemos um exemplo da físico-química, de modo a compreender o seu contexto na
perspetiva científica: imaginemos dois corpos poliédricos regulares e iguais (cubos), mas em
dois universos. No primeiro universo os dois corpos estão separados e no segundo estão
juntos por uma das faces. No primeiro caso a energia passará por todas as seis faces de cada
um dos corpos, mas no segundo exemplo a energia passa apenas por cinco, visto que uma das
faces é comum a ambos e, por essa razão, acaba por manter a mesma energia por estar ligada
com o outro corpo. Neste último exemplo os corpos do primeiro e do segundo universo
funcionam como um único corpo, mas com o dobro do volume. Significa que no segundo
universo os corpos são cerca de 16,5% mais eficazes para manter a energia,
independentemente do nível de perdas ou de isolamento a que esses corpos estão sujeitos.
Passando deste plano para a morfologia urbana, a questão deve colocar-se do
seguinte modo: serão o número de pisos dos edifícios, a forma como os prédios e bairros se
interligam, além das respetivas pontes térmicas, relevantes na despesa e contenção energética
do aglomerado urbano em que se inserem?
Usando a designação expressa na legislação portuguesa, no RCCTE, o fator de
forma é “o quociente entre o somatório das áreas da envolvente exterior e interior do edifício
ou fração autónoma com exigências térmicas e o respetivo volume interior correspondente”
(Diário da República, N.º 67, 4 de abril de 2006, p. 2476). Esclarecendo os termos atrás
utilizados, a envolvente exterior é constituída por toda a área construída que contacta
diretamente com as frações aquecidas e o espaço exterior (fachadas), enquanto a envolvente
interior é toda aquela que contacta zonas interiores não aquecidas como, por exemplo,
circulações comuns, anexos, sótãos, garagens. As superfícies verticais e horizontais entre
frações aquecidas não são contabilizadas naquele regulamento, pois subentende-se que
estarão sempre à mesma temperatura.
Na realidade isso ainda não acontece, pelo menos na totalidade dos casos, em
Portugal. Conforme o exposto no capítulo anterior, a sociedade portuguesa aparenta ainda
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possuir pouca sensibilidade (ou consciencialização) relativamente ao conforto térmico


comparativamente com os restantes países da Europa, incluindo a vizinha Espanha. Logo, é
frequente verificarem-se temperaturas muito diferentes (de 10 °C a 23 °C) entre frações
adjacentes do mesmo edifício. Devido à conjuntura atual há muitas frações devolutas ou
simplesmente famílias com mais do que uma fração ocupada temporariamente, criando deste
modo uma situação social agravante que é a taxa de ocupação efetiva dos edifícios. Em todo
o território nacional, os prédios raramente são habitados na totalidade. Significa que há um
agravamento energético que ainda não está quantificado do ponto vista científico e
regulamentar por fogo ou fração.
Apesar do peso do fator de forma, há ainda pontes térmicas que têm vindo a ser
minimizadas com a introdução no mercado de materiais cada vez mais isolantes. Dentro das
pontes térmicas existem as denominadas planas e as lineares. As pontes térmicas planas não
apresentam relevância nos futuros problemas da construção, dado que se «curam» com a
aplicação de isolamentos e materiais mais adequados a cada situação. O problema real das
pontes térmicas reside nos coeficientes de transmissão térmicos lineares. Apesar de se
reduzirem com a introdução de medidas corretivas, nunca chegam a desaparecer
completamente e dependem proporcionalmente da quantidade de arestas que um corpo – um
edifício ou conjunto deles – possui. Significa que, quanto mais simples forem os corpos,
menos pontes térmicas lineares existem.
Foram efetuados dois estudos diferentes: no primeiro utilizaram-se dados reais,
nomeadamente certificados energéticos emitidos por peritos qualificados da ADENE e no
segundo conceberam-se bairros de quarteirões fictícios utilizando como ponto de partida os
dados de cálculo do RCCTE.
Os dados térmicos que aqui foram abordados denominam-se necessidades nominais
de aquecimento, também designadas por Nic, e de arrefecimento, ou Nvc, e são considerados
como valores de referência do respetivo regulamento legal em vigor. As necessidades
nominais são valores de referência que determinam um valor energético estimado por metro
quadrado (essencial para atingir os valores de conforto térmico) e dizem respeito ao espaço
interior de uma fração, analisada individualmente. As Nic servem do período considerado de
aquecimento, ou seja, no período que necessitamos de um consumo energético para aquecer a
nossa casa, dado que as temperaturas ambiente são inferiores a 20 ºC e as Nvc servem o
período de arrefecimento, ou seja para temperaturas ambiente superiores a 25 ºC. Dado que a
investigação abordou o bairro por conjunto de frações, foi efetuada uma média de todos os
dados referidos, de acordo com a área média de cada fração.
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No fim destes cálculos houve necessidade de adequar o espaço construído à


realidade, contextualizando-o social e demograficamente, sendo exigido outro tipo de estudo,
desta vez demográfico, com base em dados solicitados ao Instituto Nacional de Estatística.
A ideia geral foi compreender através de uma análise das densidades urbanas outros
pontos de relevância na área do urbanismo e as perdas energéticas. Como exemplo, um
edifício multifamiliar pode estar termicamente bem preparado e apresentar uma volumetria
adequada, mas se tiver uma taxa de ocupação inferior a 50% (ou seja, com poucos residentes)
a sua despesa energética acaba por ser superior a uma fração isolada, como uma moradia.
Este índice de ocupação dos edifícios seria um valor estimado ou calculado com base num
levantamento, ou com o apoio de dados do INE, dos fogos ocupados pelo desocupados. Por
sua vez, tendo esse valor por tipologias de bairros ou mesmo por bairros seria possível efetuar
uma estimativa de possíveis perdas térmicas acrescidas. Esta tese, pretende que se possa
seguir um estudo de investigação utilizando esta taxa e um levantamento das frações
ocupadas de modo a obtermos um valor mais realista das perdas térmicas das frações.
Deste modo, um estudo de impacto populacional tem um sentido principal como
indicador de modo a permitir orientar melhor determinadas decisões urbanísticas,
nomeadamente quanto à conceção de desenho urbano adequado às necessidades dos
utilizadores dos espaços. No entanto, os valores do INE nem sempre se revelaram coerentes.
Os seus valores são teoricamente atribuídos por cada NUT definida por um quarteirão, mas
alguns dos valores em bairros existentes não estavam ainda referenciados apesar de existirem
há vários anos. Presume-se que nunca tenha sido possível efetuar o levantamento adequado,
através de censos ou meios semelhantes, dado que não houve explicação adequada da parte
dos serviços do INE para esta lacuna de informação. Os valores recebidos são muitas vezes
genéricos ou aproximações, cruzadas com outros dados estatísticos. No entanto, para este
caso, era necessário que os valores fossem concretos quanto aos quarteirões escolhidos.
Qualquer estudo elementar poderia restringir-se à simulação de uma população
residente e a urbanizações-modelo. Mas nenhum estudo como este, que visa uma
aproximação à situação urbana real, deverá olvidar determinadas variáveis reais como, por
exemplo, uma taxa real de ocupação dos edifícios.
Deste modo, só assim se compreende que grande parte dos bairros de Lisboa não
tenham sofrido qualquer reciclagem e renovação durante gerações. Temos o caso
paradigmático do Bairro de Alvalade, que foi devidamente planeado com equipamentos
públicos como as escolas primárias que presentemente se encontram desativadas ou
praticamente inativas devido à perda de população estudantil.
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Há que entender que atualmente – pelos sistemas informáticos e bases de dados


utilizadas – simulam-se famílias de acordo com referências da tipologia ou divisões dos
edifícios/frações, conforme se exemplifica no RCCTE, documento-base utilizado para os
cálculos térmicos. Estas avaliações simuladas em nada refletem ou sequer descrevem a
realidade atual, pois encontramos universos de casais a viver por vezes em quatro assoalhadas
e apenas com uma criança, ou até cinco assoalhadas (utilizando o último quarto como
lavandaria, para secar e arrumar a roupa).
Por conseguinte, além das frequentes situações de edifícios devolutos, em ruína, e
situações congéneres, existe ainda o problema de haver muitos edifícios em determinadas
zonas urbanas consolidadas do país que pura e simplesmente não são habitados – em relação
aos quais não existem levantamentos nem dados concretos sobre a sua quantidade e
localização exata.
A margem de erro das análises e levantamentos nos centros históricos não foi
possível determinar devido à falta de informação disponibilizada (em alguns casos nem foram
fornecidos dados térmicos, nem elementos demográficos, partindo-se unicamente dos valores
do levantamento efetuado no local). Foi, no entanto, feito um trabalho de levantamento no
terreno de pisos, alturas médias e áreas cobertas, dados depois cruzados com a base de
cálculo de estudos e comportamento térmico dos edifícios, segundo o RCCTE. De modo a
colmatar o levantamento efetuado pelas zonas de estudo, foram igualmente pedidos dados à
ADENE, entidade responsável pelo SCE (Serviço Nacional de Certificação Energética e da
Qualidade do Ar Interior).

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2.02 Cálculos de urbanizações de acordo com dados da ADENE

Quadro 1 – Quadro resumo dos bairros estudados e suas características

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Lisboa, capital de Portugal, localiza-se junto à foz da maior rede hidrográfica da


Península Ibérica, o Tejo. É uma das cidades mais antigas da Europa, sendo sucessivamente
ocupada por vários povos e culturas ao longo da história. É uma zona climaticamente muito
favorável dado que os seus solos são maioritariamente compostos por basaltos e argilas sobre
uma grande bacia hidrográfica, embora praticamente drenada nos dias de hoje. A sua
constante transformação e crescimento demarcou vários tipos de bairros urbanística e
arquitetonicamente diferenciados, desde a sua época histórica, cultura ou mesmo tipo de
materiais. A parcial destruição da cidade em 1755 permitiu uma reconstrução
urbanisticamente mais adequada ao crescimento da cidade, mas a sua expansão pelas zonas
de regadio não só acabou por drenar por completo e tornar subterrâneos todos os seus cursos
de água, como impediu qualquer produção agrícola num dos terrenos mais férteis da Europa.
De acordo com o capítulo de enquadramento histórico do Atlas da Área
Metropolitana de Lisboa, escrito pelo historiador Oliveira Marques, este presume que a
população da cidade no século XII, no período de D. Afonso Henriques, seria apenas de 5000
habitantes. Antes disso, é relativamente especulativo, mas presume-se que a cidade possa ter
sido muito mais densamente povoada devido à forte atividade na indústria de pesca e o
equilíbrio económico agrícola principalmente durante o período romano (Marques, 2003).
A cidade simplesmente cresceu de forma surpreendente durante a primeira metade do
século XX, de cerca 300.000 habitantes até quase 800.000 em 1950. Foi provavelmente uma
razão para um forte desenvolvimento de expansão da cidade desde o plano de Ressano Garcia
até à direção do Ministro de obras públicas Duarte Pacheco.
Em consequência de um plano de 1938, o Plano Geral de Expansão de Lisboa
(PGUEL), da autoria do Arquiteto Faria da Costa, o bairro de Alvalade foi criado com uma
extensão máxima de 230 hectares, para 12 000 fogos, sendo o número de habitantes previsto
para a máxima ocupação de 45 000, construindo-se inicialmente 2066 fogos, distribuídos por
302 edifícios, ocupando uma área de 47 hectares, ou seja, as denominadas células I e II,
conforme a figura 20.
Neste caso, apesar da existência de apenas três tipos/modelos de edifícios, os dados
fornecidos pela ADENE relativos a este bairro apresentaram contextos térmicos bastante
divergentes. Estão apresentados apenas os valores médios na tabela apresentada em anexo,
mas essa divergência deve-se ao facto de existirem, por exemplo, moradias, prédios e frações
localizadas no último andar de prédios sem isolamento nas lajes. O valor médio dos
certificados energéticos referentes a 450 frações do bairro de Alvalade, urbanização com

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materiais típico de desse período, com edificado predominante entre três e quatro pisos, é de
137 kW/m2.ano.
Se fizermos uma análise de ocupação sobre as células I e II, temos um terreno com
470 000 m2 ocupado por 2066 fogos, numa média de 86,8 m2/fogo, logo teríamos uma
despesa energética anual prevista de 11891 kW/ano/fogo, ou seja 1545 €/ano/fogo. Se por
cada metro quadrado de construção são precisos 17,81 € anuais, para 2066 fogos equivale 24
567 MW/ano, ou seja 3 193 684 €/ano.
Aplicando uma medida corretiva comum, a alternativa imediata de colocação de
bombas de calor teria um impacto de minimização para cerca de 6 €/m2.ano, ou seja cerca de
500 €/ano/fogo ou cerca de 1 000 000 € no total de 2066 fogos.

Figura 20 – Bairro de Alvalade células I e II. Imagem retirada do Google Earth.

Também da autoria do Arquiteto Faria da Costa, na sequência do plano de Alvalade,


o plano do Bairro do Areeiro, de 1938, consiste em edifícios maioritariamente de seis pisos,
implantados numa área bastante mais densa comparativamente à do bairro previamente
analisado.
Os valores dos certificados energéticos de 52 frações, disponibilizados pela ADENE
para este bairro, revelam valores médios de 167 kW/ano/m2. Sendo o tipo e materiais de
construção muito semelhantes à construção de Alvalade, os valores parecem contradizer a
defesa desta tese, dado que os prédio do Areeiro têm em média mais dois pisos que os de
Alvalade, logo deveria existir uma ligeira melhoria térmica, devido a uma diminuição do
fator de forma (teoricamente, quanto menos for o valor do índice fator de forma, menos
perdas existem da fração para o exterior). É de salientar, no entanto, que os próprios valores
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de cálculo do RCCTE não são uniformes em todos os pisos de um edifício, existindo fatores
agravantes de frações localizadas em últimos ou primeiros pisos, onde existem mais
perdas/ganhos térmicos, independentemente da estrutura e dos materiais de construção do
prédio.

Quanto ao bairro histórico de Alfama, neste estudo apenas se refere a Freguesia de


São Miguel, que apresenta uma exposição solar predominante a Sul, consiste num
aglomerado urbano com data de construção incerta, que remonta à origem da própria cidade,
sofrendo por esse motivo diversos processos de reconstrução ao longo dos séculos, o que
explica na maioria dos casos as paredes dos edifícios maciças, emparelhadas de calcário
bastante argiloso.
Apesar de se tratar de um bairro histórico com áreas de implantação dos edifícios
maioritariamente reduzidas, observamos diversos tipos de volumetrias e diferenças que vão
de um a seis pisos.
As casas não estão bem preparadas termicamente e em alguns casos registam
características contraproducentes tanto no âmbito térmico como em questões de leitura
urbanística, nomeadamente a utilização de caixilharias de metal ou telhados de cimento ricos
em amianto. De acordo com os dados e valores disponibilizados pela ADENE, referentes
apenas a 14 frações, foi calculado um valor médio de 174,6 kW/ m2.ano. O fator de forma é
sem dúvida um valor de referência nestes bairros devido à sua configuração, por vezes
orgânica, ou seja, sem a forma poliédrica perfeitamente regular como observamos
normalmente nos edifícios. No entanto, a verdadeira agravante deverá ser o material de
construção, a construção típica de alvenaria de pedra calcária, não muito adequada do ponto
de vista térmico.
Pelo simples facto de os bairros históricos como Alfama serem bastante densos (em
termos de área coberta) com grande parte das envolventes das frações interligadas entre si e
não apenas com o exterior, permitem um bom melhoramento no desempenho térmico.

Analisamos aqui outro bairro histórico de Lisboa, também anterior e sobrevivente ao


terramoto de 1755, igualmente com exposição a Sul (embora as fachadas dos quarteirões
estejam predominantemente viradas a Este/Oeste), mas mais recente que o bairro de Alfama e
com um plano relativamente mais ortogonal.
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O número de pisos é relativamente constante, entre dois e quatro pisos, mas tal como
em Alfama a volumetria e o pé direito apresentam diversas configurações. No plano climático
estes bairros não são muito divergentes, nem no que respeita aos materiais e técnicas de
construção. A sua diferença essencial pressupõe-se na exposição volumétrica mais estável e
racional (quarteirão), que difere do conceito mais «orgânico» do bairro de Alfama. Dos
valores cedidos pela ADENE foi possível calcular uma média de 163,76 kW/m2.ano para um
total de 45 frações estudadas.

O bairro de Santa Cruz de Benfica, conforme a figura 21, de tipologia e construção


semelhante ao bairro da Encarnação, foi construído com um propósito social. Este bairro tem
uma característica muito própria dado que envolve no seu centro não só um parque urbano
(Parque Silva Porto) mas também vários equipamentos desportivos e pedagógicos. As
tipologias e construção das casas são praticamente idênticas, salvo algumas transformações
posteriormente realizadas pelos moradores. Existe ainda um outro conjunto de edifícios que
divide parcialmente o bairro, conjunto esse que foi excluído do estudo térmico.
As construções são compostas maioritariamente por tijolo furado, em grande parte
semelhante à construção atual, logo mais adequada a um bom desempenho térmico. Nesta
situação, de acordo com os dados da ADENE, é muito interessante verificar que – apesar dos
materiais proporcionarem um melhor comportamento térmico – destaca-se o fator de forma
que revela uma das principais ideias desta tese: não são apenas os materiais ou as localizações
geográficas, mas também a volumetria urbana que cria dependências arquitetónicas na
obtenção dos desempenhos térmicos. Os dados fornecidos relativos a 20 frações do bairro de
Santa Cruz de Benfica têm uma média de 185,17 kW/m2.ano, pouco mais agravada do que os
bairros históricos de Lisboa, com materiais mais adequados a um melhor desempenho
térmico. O que significa que se trata de um exemplo perfeito da relação fator de forma.
Enquanto os bairros históricos podem ser constituídos por materiais menos eficientes, o
simples facto de estarem mais unidos entre si e não isolados como as moradias unifamiliares,
apresentam desempenhos térmicos superiores.

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Figura 21 – Bairro de Santa Cruz de Benfica (integrando o parque Silva Porto). Imagem
retirada do Google Earth.

Com um acordo celebrado entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Sociedade


Gestora da Alta de Lisboa (SGAL) durante o período dos anos 1990, do Arquiteto Eduardo
Leira, o projeto teve como princípio a criação de um novo espaço urbano integrando um
programa de realojamento. Apesar da opção urbanística de criar condomínios fechados nem
sempre ser a mais consensual entre a comunidade científica dos urbanistas, possui um aspeto
positivo na perspetiva da bioclimática.
Se do ponto vista abstrato o conveniente é criar um universo isolado, e não apenas
fechado, os condomínios fechados aproximam-se mais facilmente deste princípio, embora de
forma intuitiva. Muitos dos quarteirões não apresentam facilidades de saída ou entrada de
pessoas e veículos, sendo obrigatória por vezes a utilização de um veículo (e de um tempo
superior a 15 minutos) para percorrer áreas de influência inferiores a 400 metros.
Do ponto vista térmico, o resultado é sem dúvida melhor por razões volumétricas e
devido aos novos materiais utilizados, como as caixilharias de vidro duplo e isolamentos
térmicos adequados e bem aplicados. A maioria destas frações dispõe do conforto térmico
interior necessário, o que raramente está presente na maioria das frações habitacionais
nacionais.
Os resultados da ADENE, respeitantes a 128 frações, inversamente aos valores
obtidos das frações de zonas mais antigas ou bairros históricos, foram relativamente estáveis,
sendo a média de gasto de 80,92 kW/m2.ano.

Foram escolhidos os três zonas dos planos da antiga Expo 98 (Sul, Centro, Norte).
Todos foram concebidos no mesmo período e para serem concretizados com os
mesmos propósitos, revitalizando aquilo que a própria exposição internacional iniciara. Todo
o plano geral da Expo abrangeu, pela primeira vez, um sistema de geração de aquecimento e
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arrefecimento para todas as urbanizações, atualmente gerido pela empresa concessionária


Climaespaço. Este tipo de programas não teve continuidade em restantes planos na mesma
cidade e não foi aplicado na totalidade das frações por se considerar um bem não essencial,
no entanto permitia a utilização de aquecimento e arrefecimento central nas frações dos
edifícios por um preço bastante mais acessível ao público do que a utilização de caldeiras
convencionais ou de sistemas de bombas de calor.
Os sistemas de aquecimento central não são objeto deste estudo e por isso não são
aqui abordados diretamente. Por essa razão é perfeitamente compreensível que as
urbanizações conjuntas de quarteirões ou mesmo certos bairros e freguesias
poderiam/deveriam ser incitadas a tomar iniciativas, formando consociações inteligentes e
perfeitamente viáveis, como a que foi experimentada entre a Climaespaço e a Expo.
Os resultados nas três zonas deste plano não são muito diferentes entre si. É no
entanto de referir que apesar da volumetria das habitações na Expo Norte e Centro ser
bastante diferentes das do plano Sul, também se revelou que algumas frações apresentam um
desempenho energético inferior.
Os resultados médios fornecidos pela ADENE são para a Zona Norte de 87,78
kW/m2.ano, na Zona Sul de 82,20 kW/m2.ano e na Zona Centro de 67,0 kW/m2.ano (embora
o Universo da Zona Centro tenha a amostra de apenas cinco frações contabilizadas pela
ADENE). No que respeita ao resultado médio, dada a contabilização algo insuficiente ou
reduzida da Zona Centro, não se tratam contudo de valores muito diferentes dos da
urbanização da Alta de Lisboa, o que é um dado lógico e coerente, visto tratar-se de edifícios
de construção recente, com materiais e configurações arquitetónicas relativamente
semelhantes entre si.

O plano de pormenor urbano da zona da Quinta da Granja e da Quinta da Torre foi


aprovado a 21 de agosto de 2000 e encontra-se, na presente data, construída apenas metade
dos edifícios previstos. O plano de 371 385 m2, com uma área total de implantação de 54 968
m2, foi constituído com 1508 fogos, por uma zona maioritária de edifícios entre os quatro e
seis pisos (ATC – área total de construção – de cerca de 200 000 m2) e uma zona de moradias
(ATC cerca de 20 000 m2), nomeadamente:
93 Moradias
49 Prédios com seis andares
51 Prédios com cinco andares
19 Prédios com quatro andares
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Devido à dimensão e à população residente da cidade de Castelo Branco, este plano


foi das maiores intervenções urbanísticas e o maior enquanto Plano de Pormenor, afeto a
cerca de 10 a 20% da população residente na cidade. O início da construção dos lotes não
permitiu a boa aplicabilidade térmica; no entanto, a sua configuração e a utilização de novos
materiais eficientes conjugou-se num resultado térmico de 78 kW/m2.ano, de acordo com os
valores cedidos pela ADENE referentes a 83 frações. Ou seja, incluindo todo o global das
frações, sejam edifícios de quatro ou seis pisos, sejam moradias, o resultado previsto de
despesa térmica nestas frações é de 17 160 MW/ano, ou seja 2.230.800 €/ano (preço de
referência de eletricidade com valores de 2010 a 0,13 €/kW). Sabendo que se trata de uma
zona climática agravada (de acordo o regulamento é um I2, equivalente a um segundo de uma
escala de 3 níveis. Lisboa está no primeiro nível, ou seja I1) a configuração volumétrica do
edificado e os novos materiais têm um peso determinante na eficiência energética.
Referente ainda a esta zona climática, temos um bairro essencialmente composto por
moradias unifamiliares, predominantemente de dois pisos, a Quinta da Pipa, com grande
diversidade de materiais de construção, existindo já algumas construções (mas muito poucas)
concebidas de acordo com o regulamento do RCCTE.
De acordo com a média de valores cedidos pela ADENE (14 frações em análise), a
área útil média é de 163 m2 por fração e os valores de despesa térmica são de 167 kW/m2.ano,
ou seja para um total de 448 fogos previstos de moradias, temos uma despesa energética de
12,195 GW/ano.
Observamos, que entre a urbanização do Plano da Quinta Granja (constituída por
quarteirões de prédios entre quatro e seis pisos) e o Plano da Quinta da Pipa (moradias de
dois pisos) os valores de despesa térmica são duplicados no último caso. Esse valor da
diferença entre uma fração de um plano para o outro é de cerca 80 kW/m2.ano. A relevância
desse valor correspondente aos 448 fogos é equivalente a cerca de 6 GW/ano, ou seja, cerca
de 800 000 € anuais, diferença existente praticamente apenas por questões de volumetria.

Elvas, como muitas cidades históricas mediterrânicas sofreu várias transformações


culturais desde a presença romana no século II a.C., muçulmana no século VIII d.C., à
medieval cristã conquistada definitivamente em 1227. A constituição típica e habitual das
casas do centro histórico de Elvas é em alvenaria de xisto e/ou outras rochas e areias, com
misturas de tijolo de burro e, em algumas intervenções ou restauros mais recentes, de tijolo

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furado. A caixilharia varia entre madeira e alumínio (este último mais recente) sendo difícil
de encontrar um padrão geral ou uniforme.
O estudo em Elvas foi relativamente diferente dos anteriores. Não houve
elementos disponibilizados pela ADENE e foi efetuado um levantamento no local do número
de pisos, a fim de determinar um padrão de todo centro histórico. Esse padrão é referente a
uma fração-tipo de modo a calcular-se um valor médio de despesa térmica por todo o
aglomerado urbano. Foi ainda efetuado um estudo da área coberta, que envolve em média
50% da área total apesar das ruas sinuosas, mas este só está apresentado em complemento à
terceira fase de análise desta tese. A terceira fase de análise teve em conta as normas
urbanísticas e conceitos urbanísticos, desde Lynch e Alexander; de modo que um caso de
estudo como o centro histórico de Elvas, entre muitos centros históricos, se tornaram
fundamentais.
Todo o edificado apresenta não só números de pisos diversificados, de um a seis,
mas também pés direitos diferentes. Há situações que um prédio de três pisos pode ser
superior a um prédio de quatro pisos. De qualquer modo, apesar das diferenças, encontrou-se
um valor médio de 2,60 metros (a maior parte das habitações variam entre 2,2 e 3 metros)

Figura 22 – Centro Histórico de Elvas – zonas de levantamento. Imagem trabalhada sobre


planta de localização do centro histórico cedido pela Câmara Municipal de Elvas.

De acordo com a figura 22, estão identificados três grupos de análise. O primeiro diz
respeito a uma área de sete hectares, dos quais cinco são cobertos (cerca de 71,5%) com um
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moda de dois pisos e uma média de 2,5 com uma cércea máxima de 6,5 metros. O segundo
grupo, apesar de ter uma moda de três pisos e média de 3,3 com uma volumetria de padrão de
dez metros, apresenta prédios de um a cinco pisos e uma área coberta de cerca 66%. O
terceiro grupo tem uma área coberta inferior com apenas 33% em dez hectares e com uma
moda de 2 pisos e média de 2,3, com uma cércea média máxima de 6,2 metros.
Concluído este levantamento, verificou-se que numa área total de cerca 500.000 m2
obtêm-se uma área coberta média de 60%, uma cércea máxima de 7,5 metros de altura e o
equivalente a 2,9 pisos.
Foram efetuados quatro análises particulares de certificados energéticos cedidos pela
ADENE confidenciais de peritos qualificados com resultados bastante diferentes. Deste
modo, estabeleceu-se um valor médio de 373,91 kW/m2.ano, aparentemente muito elevado
face a outros exemplos.
Este caso em especial, envolvendo centros históricos e que utilizam materiais
maioritariamente pouco eficientes do ponto de vista térmico, deve ser visto como uma
situação peculiar, todavia a necessitar de ser bem estudada, dado que a configuração ou
morfologia destes bairros é de enorme importância para o planeamento e gestão urbanística.

2.03 Simulação de urbanizações

No sentido de complementar a falta de informação existente das análises reais e


estatísticas (dados da ADENE e INE), foi calculada uma simulação de vários tipos de
urbanizações, desde conjuntos urbanos compostos por moradias unifamiliares até quarteirões
com dimensões e volumetrias pouco vulgares ou adequadas no âmbito do planeamento
urbano.
A simulação foi realizada em três fases, a primeira referente apenas à altura dos
edifícios, ou seja, iniciando-se com moradias e aumentando o número de pisos,
nomeadamente o número de frações, construindo torres. Na segunda fase simularam-se
planos compostos por moradias e quarteirões de edifícios até oito pisos. Na terceira fase
simularam-se várias hipóteses de quarteirões sem ter em conta necessariamente as condições
de habitabilidade.
Todas as simulações partem do pressuposto de que os edifícios ou frações estão a ser
construídas numa região climática temperada – sem grandes amplitudes climáticas –
semelhante a Lisboa, embora sejam realizados estudos de comparações dos mesmos edifícios,

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com características iguais, mas localizados noutras regiões do país com características
climáticas distintas.
Foi efetuado o calculo térmico de modo idêntico ao dos casos reais, ou seja, de
acordo com os critérios da legislação atualmente em vigor (RCCTE), especificamente das
necessidade nominais de aquecimento (Nic) e de arrefecimento (Nvc) que determinam
diretamente a despesa energética da envolvente opaca, sendo valores de referência do
consumo anual por metro quadrado.
Dado que a incidência e resultados deste estudo centram-se no impacto da
volumetria do meio urbano edificado, definiu-se como regra a utilização de materiais e
técnicas de construção idênticas para todos os edifícios, de acordo com as normas de boa
prática do projeto e cálculo térmico.
A simulação prevê um cálculo de habitantes com uma taxa de ocupação a 100% e
cada fogo é calculado com quatro assoalhadas, no que respeita aos apartamentos, referentes a
uma família de quatro pessoas e nas moradias são calculadas cinco assoalhadas, respeitantes a
uma família de cinco pessoas.
Visando obter resultados de análise tendo em conta essencialmente a estratificação
física das urbanizações, nomeadamente a influência do número de pisos no desempenho
térmico e conforto climático, pressupôs-se uma volumetria perfeitamente simples, poliédrica
regular (paralelepipedal), com a área de implantação em forma de um quadrado idêntica para
todos os imóveis. Foi efetuado um calculo médio do conjunto de frações referente aos valores
dos corpos edificados com várias frações, como as torres e quarteirões, dado que cada fração
tem um valor diferente entre si, principalmente as frações dos primeiros e últimos pisos.

Exemplo de referência, com os seguintes dados-padrão:


1- Definiram-se 150 m2 (12,25 m) como área de implantação
2- Definiu-se a área como um quadrado perfeito, com apenas quatro vértices
3- Pressupôs-se cada pé direito com 2,7 metros
4- Pressupôs-se uma quantidade de janelas de cerca de 10% da área de pavimento, logo 4
m2 por cada envolvente opaca exterior vertical, de acordo com a sua orientação solar.
5- Tomou-se a totalidade das obstruções a 70% para todos os casos.
6- Todos os casos apresentaram uma garagem com a mesma abertura para o exterior.
7- Todos os casos apresentaram um desvão no sótão não ventilado.
8- Todos os casos apresentaram paredes, pavimentos e coberturas com os isolamentos
adequados, cumprindo os critérios e exigências regulamentares: paredes exteriores
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duplas de alvenaria de tijolo furado de 11 cm mais 11 cm isoladas com 4 cm de lã


mineral ou aglomerado negro de cortiça e com estuque projetado pelo interior e
exterior; pavimentos e coberturas interiores compostas por lajes de betão armado
isoladas de 8 cm de lã mineral ou aglomerado negro de cortiça com estuque projetado
pelo interior; paredes interiores simples compostas por tijolo furado de 20 cm sem
isolamento e com estuque projetado pelo interior.
9- Foram escolhidas caixilharias de madeira, para todos os casos, com vidro duplo de 16
mm de lâmina de ar e estores exteriores claros e classe 3.
10- A localização específica foi num lugar urbano em condições semelhantes ao concelho
de Lisboa.

1.ª Fase – Torres

Simularam-se quatro tipos de urbanizações: moradias unifamiliares e torres de três,


seis e oito pisos, com a mesma área de implantação. Todas as torres foram orientadas da
mesma maneira, nomeadamente: Norte, Sul, Este e Oeste. No caso específico das moradias
geminadas, apenas foi considerada a orientação Norte/Sul.
No caso das urbanizações compostas de moradias geminadas, a despesa térmica por
fração equivalente foi de 54,59 kWh/m2.ano (NIC = 45,57 kWh/m2.ano e NVC = 9,02
kWh/m2.ano). As urbanizações compostas por torres têm por sua vez uma despesa anual de
46,02 kWh/m2.ano para três pisos, 43,58 kWh/m2.ano para seis pisos e 42,97 kWh/m2.ano
para os edifícios com oito pisos.
Calculando a despesa térmica anual para frações de 150 m2, verifica-se que as
moradias apresentam uma despesa de referência de 8188,5 kWh/ano e as frações localizadas
nos corpos de oito pisos menos 21,3%, ou seja menos 1743 kWh/ano, conforme podemos
observar no seguinte quadro.

Moradia:
NIC = 45,57 e NVC = 9,02 TOTAL anual de 54,59 kWh/m2.ano
Apartamentos (3 pisos):

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1º NIC = 37,74 e NVC = 9,02 TOTAL de 46,76 kWh/m2.ano


2º NIC = 32,12 e NVC = 9,02 TOTAL de 41,14 kWh/m2.ano
3º NIC = 41,13 e NVC = 9,02 TOTAL de 50,15 kWh/m2.ano
TOTAL (média/m2) NIC = 37,00 e NVC = 9,02 TOTAL de 46,02 kWh/m2.ano
Apartamentos (6 pisos):
1º NIC = 37,74 e NVC = 9,02 TOTAL de 46,76 kWh/m2.ano
2º, 3º, 4º e 5º NIC = 32,12 e NVC = 9,02 TOTAL de 41,14 kWh/m2.ano
6º NIC = 41,13 e NVC = 9,02 TOTAL de 50,15 kWh/m2.ano
TOTAL (média/m2) NIC = 34,56 e NVC = 9,02 TOTAL de 43,58 kWh/m2.ano
Apartamentos (8 pisos):
1º NIC = 37,74 e NVC = 9,02 TOTAL de 46,76 kWh/m2.ano
2º ao 7º NIC = 32,12 e NVC = 9,02 TOTAL de 41,14 kWh/m2.ano
8º NIC = 41,13 e NVC = 9,02 TOTAL de 50,15 kWh/m2.ano
TOTAL (média/m2) NIC = 33,95 e NVC = 9,02 TOTAL de 42,97 kWh/m2.ano

Potência térmica média anual:


Moradias: 8188,5 kWh/ano
Apartamentos (prédio de três pisos): 6903 kWh/ano (menos 1285,5 kWh/ano do que a
moradia)
Apartamentos (prédio de seis pisos): 6537 kWh/ano (menos 1651,5 kWh/ano do que
a moradia)
Apartamentos (prédio de oito pisos): 6445,5 kWh/ano (menos 1743 kWh/ano do que
a moradia)

A diferença entre corpos de edifícios de seis e mais pisos deixa de ser praticamente
relevante, pois entre um apartamento num prédio de seis e outro num prédio de oito pisos a
divergência é apenas de 1,5% de redução da despesa energética. Numa primeira análise sente-
se que a relação da envolvente opaca com o exterior, em especial as coberturas e pavimentos,
pode ser minimizada com o aumento dos isolamentos, mas continua a existir um impacto
agravante que só poderá ser reduzido construindo-se frações intermédias. No entanto,
também se verifica que a partir de uma determinada cércea deixa de ser muito relevante ou
inexistente o agravamento da despesa térmica.
Simulou-se a despesa de acordo com o preço de referência da energia elétrica, tendo
em conta o preço médio da eletricidade em 2010, cerca de 0,13 €:
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Moradia: 1064,5 € (88,71€/mês)


Apartamentos (prédio de três pisos): 897,39 € (74,78 €/mês)
Apartamentos (prédio de seis pisos): 849,81 € (70,82 €/mês)
Apartamentos (prédio de oito pisos): 837,92 € (69,83 €/mês)

Verificou-se que a diferença da redução do consumo de habitações isoladas para


uma torre de apenas três pisos é de 14 €/mês, e de oito pisos quase 20 €/mês. Simulou-se,
então, pressupondo-se que as habitações estariam aquecidas com um sistema de aquecimento
central, através de bombas de calor (vulgarmente designadas de ar-condicionado), numa
média de COP 3 e EER 2,5:

Moradia: 296,21 € + 70,36 € = 366,57 (30,55 €/mês)


Apartamentos (prédio de três pisos): 240,5 € + 70,36 € = 310,86 (25,91 €/mês)
Apartamentos (prédio de seis pisos): 224,64 € + 70,36 € = 295 (24,59 €/mês)
Apartamentos (prédio de oito pisos): 220,68 € + 70,36 € = 291,04 (24,25 €/mês)

Os dados são conclusivos: existindo uma redução muito substancial no valor do fator
de forma, a maior diferença nas perdas energéticas encontra-se sempre entre os edifícios
isolados e os edifício com mais de duas frações sobrepostas, independentemente da
quantidade/número de pisos. Há que ter em conta que podemos minimizar os valores de
impacto de despesa energética, mas que apesar de conseguirmos assim tornar os edifícios
mais eficientes, não conseguimos dispensar as ações ativas (são considerados sistemas ativos
todos os aparelhos de climatização) Estas são tão importantes como as ações passivas, dado
que por mais bem pensada que seja a construção bioclimática, esta nunca dispensará a
climatização adequada.
Mas esta investigação, como já referido, não tem por interesse específico determinar
quanto uma pessoa gasta na climatização da sua casa, mas a despesa genérica global de
acordo com os bairros e morfologias urbanas. Deste modo, neste estudo tivemos como
pressuposto uma colocação de 1000 fogos, pressupondo que esta seria uma dimensão
aceitável de um bairro tipicamente português:

Moradias: Despesa de 366 570 € ou seja 8 188 500 kWh/ano

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Apartamentos (prédio de três pisos): Despesa de 310 860 €, ou seja 6 903 000
kWh/ano
Apartamentos (prédio de seis pisos): Despesa de 295 000 €, ou seja 6 537 000
kWh/ano
Apartamentos (prédio de oito pisos): Despesa de 291 040 €, ou seja 6 445 500
kWh/ano

Nesta situação específica entendemos que a quantidade de fogos tem um papel


fundamental na despesa, ou seja, aumentando-se o número de fogos dentro da mesma
volumetria reduzem-se os consumos energéticos. Em vez de uma diferença de 5 €/mês
obtiveram-se diferenças de 5000 €/mês.

2.ª Fase – Tipologias físicas de quarteirões

Deste modo, aumentou-se a relação e dimensão da morfologia urbana e simularam-


se cinco modelos de quarteirões, formados por edifícios de tipologias diferenciadas:

1- Moradias
2- Moradias geminadas
3- Prédios de dois pisos
4- Prédios de quatro pisos
5- Prédio de oito pisos

Foram aplicados os mesmos critérios de construção anteriormente enunciados, com os


quarteirões de orientação predominantemente a Norte/Sul. Neste caso, lotes com 25 por 15
metros, com duas frações de 150 m2 por piso. A disposição da área coberta das urbanizações
compostas por moradias unifamiliares foi criada por um sistema em banda com oito moradias
por hectare, ou seja uma relação de 1200 m2 de área coberta ou 12%.
As urbanizações compostas por moradias geminadas tiveram o mesmo desenho em
banda, mas para cada hectare foram previstas 14 frações. A relação do espaço com a área
coberta foi de 21% de área coberta/ha. Para as seguintes urbanizações, o desenho de
implantação manteve-se idêntico fosse qual fosse o número de pisos, com um sistema de 75

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por 75 metros e 12 lotes de 375 m2, ou seja uma área coberta de 4500 m2/ha, ou seja 45% de
área coberta. Em relação às frações, a urbanização de dois pisos foi composta por 24 frações,
a de quatro pisos por 48 e a de oito pisos por 96 frações.
A eventual ironia urbanística será ainda uma relação entre o espaço público e o
privado, que em todos estes casos se mantem relativamente idêntica, existindo apenas a
possibilidade dos corpos de edifícios de quarteirões abrirem o seu interior a outros usos
funcionais.
No caso das urbanizações compostas por moradias unifamiliares, a despesa térmica
por fração manteve-se exatamente com as mesmas características, 54,59 kWh/m2.ano (NIC =
45,57 kWh/m2.ano e NVC = 9,02 kWh/m2.ano). As urbanizações compostas por bandas de
moradias geminadas têm por sua vez uma despesa anual de 51,65 kWh/m2.ano (NIC = 43,07
e NVC = 8,58 kWh/m2.ano). No caso dos quarteirões temos uma despesa anual de 45,76
kWh/m2.ano para dois pisos, 42,11 kWh/m2.ano para quatro pisos e 40,29 kWh/m2.ano para
situações de oito pisos.

Calculando a despesa térmica anual das frações com 150 m2, verifica-se que as
moradias apresentam uma despesa de referência de 8188,5 kWh/ano e que os apartamentos
dos corpos de oito pisos consomem menos 26% do que aquelas, ou seja menos 2145
kWh/ano, conforme observamos no seguinte quadro.

Figura 23 – Resumo das diferenças energéticas entre diferentes tipologias (kWh/ano)

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Figura 24 – Resumo das diferenças energéticas entre diferentes tipologias (percentagens)

Moradias:
NIC = 45,57 e NVC = 9,02 TOTAL anual de 54,59 kWh/m2.ano
Moradias Geminadas:
NIC = 43,07 e NVC = 8,58 TOTAL de 51,65 kWh/m2.ano
Prédios (2 pisos):
(Encontro de médias de fração)
Piso térreo
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 35,26 e NVC = 8,58, sendo o total de 43,84 x 8
= 350,72 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 35,26 e NVC = 9,20 sendo o total de 44,46 x 4
= 177,84 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 35,26 e NVC =
9,04, sendo o total de 44,30 x 2 = 88,60 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 35,26 e NVC =
8,73, sendo o total de 43,99 x 2 = 87,98 kWh/m2.ano
TOTAL = 705,14/16
MÉDIA de fração térrea = 44,07 kWh/m2.ano
Último Piso
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 38,64 e NVC = 8,58, sendo o total de 47,22 x 8
= 377,76 kWh/m2.ano
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Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 38,64 e NVC = 9,20 sendo o total de 47,84 x 4
= 191,36 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 38,64 e NVC =
9,04, sendo o total de 47,68 x 2 = 95,36 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 38,64 e NVC =
8,73, sendo o total de 47,37 x 2 = 94,74 kWh/m2.ano
TOTAL = 759,22/16
MÉDIA das últimas frações = 47,45 kWh/m2.ano
Média Final de todas as Frações = 91,52/ 2 = 45,76 kWh/m2.ano

Prédios (4 pisos):
(Encontro de médias de fração)
Piso térreo
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 35,26 e NVC = 8,58, sendo o Total de 43,84 x
8 = 350,72 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 35,26 e NVC = 9,20 sendo o Total de 44,46 x
4 = 177,84 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 35,26 e NVC =
9,04, sendo o total de 44,30 x 2 = 88,60 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 35,26 e NVC =
8,73, sendo o total de 43,99 x 2 = 87,98 kWh/m2.ano
TOTAL = 705,14/16
MÉDIA de fração térrea = 44,07 kWh/m2.ano

Último Piso
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 38,64 e NVC = 8,58, sendo o Total de 47,22 x
8 = 377,76 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 38,64 e NVC = 9,20 sendo o Total de 47,84 x
4 = 191,36 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 38,64 e NVC =
9,04, sendo o total de 47,68 x 2 = 95,36 kWh/m2.ano

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Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 38,64 e NVC =
8,73, sendo o total de 47,37 x 2 = 94,74 kWh/m2.ano
TOTAL = 759,22/16
MÉDIA das últimas frações = 47,45 kWh/m2.ano
2º e 3º Pisos
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 29,66 e NVC = 8,58, sendo o Total de 38,24 x
8 = 305,92 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 29,66 e NVC = 9,20 sendo o Total de 38,86 x
4 = 155,44 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 29,66 e NVC =
9,04, sendo o total de 38,70 x 2 = 77,40 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 29,66 e NVC =
8,73, sendo o total de 38,39 x 2 = 76,78 kWh/m2.ano
TOTAL = 615,54/16
MÉDIA de frações intermédias = 38,47 kWh/m2.ano
Média Final de todas as Frações = 168,46/ 4 = 42,11 kWh/m2.ano
Prédios (8 pisos):
(Encontro de médias de fração)
Piso térreo
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 35,26 e NVC = 8,58, sendo o Total de 43,84 x
8 = 350,72 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 35,26 e NVC = 9,20 sendo o Total de 44,46 x
4 = 177,84 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 35,26 e NVC =
9,04, sendo o total de 44,30 x 2 = 88,60 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 35,26 e NVC =
8,73, sendo o total de 43,99 x 2 = 87,98 kWh/m2.ano
TOTAL = 705,14/16
MÉDIA de fração térrea = 44,07 kWh/m2.ano

Último Piso
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 38,64 e NVC = 8,58, sendo o total de 47,22 x 8
= 377,76 kWh/m2.ano

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Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 38,64 e NVC = 9,20 sendo o total de 47,84 x 4
= 191,36 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 38,64 e NVC =
9,04, sendo o total de 47,68 x 2 = 95,36 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 38,64 e NVC =
8,73, sendo o total de 47,37 x 2 = 94,74 kWh/m2.ano
TOTAL = 759,22/16
MÉDIA das últimas frações = 47,45 kWh/m2.ano
2º a 7º Pisos
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 29,66 e NVC = 8,58, sendo o total de 38,24 x 8
= 305,92 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 29,66 e NVC = 9,20 sendo o total de 38,86 x 4
= 155,44 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 29,66 e NVC =
9,04, sendo o total de 38,70 x 2 = 77,40 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 29,66 e NVC =
8,73, sendo o total de 38,39 x 2 = 76,78 kWh/m2.ano
TOTAL = 615,54/16
MÉDIA de frações intermédias = 38,47 kWh/m2.ano
Média Final de todas as Frações = 322,34/ 8 = 40,29 kWh/m2.ano

Resumindo:

Moradia: 8188,5 kWh/ano


Moradia geminada: 7747,5 kW/ano (menos 441 kWh/ano do que a moradia)
Apartamentos (prédio de dois pisos): 6864 kWh/ano (menos 1324,5 kWh/ano do que
a moradia)
Apartamentos (prédio de quatro pisos): 6316,5 kWh/ano (menos 1872,5 kWh/ano do
que a moradia)
Apartamentos (prédio de oito pisos): 6043,5 kWh/ano (menos 2145 kWh/ano do que a
moradia)

Confirma-se que quanto maior for a união das envolventes opacas das frações, isto é,
quanto maior for a densidade dos corpos de edifícios compostos por um número maior de
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fogos, melhor será o seu comportamento térmico, pela razão que se reduz o número de
transferências de energia. Neste caso, verifica-se uma diferença de 15 kWh/m2.ano entre o
primeiro e o último caso, ou seja, se uma moradia de 150 m2 tem uma despesa anual de mais
de 8000 kWh/ano, um prédio de oito pisos com os mesmos sistemas construtivos tem pouco
mais de 6000 kWh/ano, logo, menos 25% de consumo. Verificou-se também que é muito
menos significativa a diferença dos consumos térmicos em corpos de edifícios a partir de
quatro pisos.

Moradia: 8188,5 kWh/ano , logo 1064,5 € (88,71 €/mês)


Moradia geminada: 7747,5 kW/ano, logo 1007,17€ (83,93 €/mês)
Apartamentos (prédio de dois pisos): 6864 kW/ano, logo 892,32 € (74,36 €/mês)
Apartamentos (prédio de quatro pisos): 6316,5 kW/ano, logo 821,15€ (68,43 €/mês)
Apartamentos (prédio de oito pisos): 6043,5 kW/ano, logo 785,66 € (65,47 €/mês)

Pressupôs-se o cálculo do kW ao preço de 0,13 (em 2010) €; prevendo-se que estes


valores aumentassem, dado que já em 2011 se atingiu uma média de 0,15 €, no início do ano
– valor que tenderá a aumentar sucessivamente nos próximos anos. Aplicou-se o mesmo
critério de climatização por intermédio de bombas de calor, tal como expresso no caso
anteriormente calculado.

Cada moradia: 296,21 € + 70,36 € = 366,57 € (30,55 €/mês)


Cada moradia geminada: 280 € + 67 € = 347 € (28,92 €/mês)
Apartamentos (2 pisos): 6864 kW/ano, logo 892,32 € (74,36 €/mês)
NIc 36,95 + NVc 8,81 = 5542,5 kW/ano + 1321,5 kW/ano = 1847,5 kW/ano + 528,6
kW/ano = 308,9 € (25,74 €/mês)
Apartamentos (4 pisos): 6316,5 kW/ano, logo 821,15 € (68,43 €/mês)
NIc 33,31 + NVc 8,81 = 4996,5 kW ano + 1321,5 kW/ano = 1665,5 kW/ano + 528,6
kW/ano = 285,23 € (23,77 €/mês)
Apartamentos (8 pisos): 6043,5 kW/ano, logo 785,66 € (65,47 €/mês)
NIc 31,48 + NVc 8,81 = 4722 kW/ano + 1321,5 kW/ano = 1574 kW/ano + 528,6
kW/ano = 273,34 € (22,78 €/mês)

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Resumindo:

Moradia: 296,21 € + 70,36 € = 366,57 (30,55 €/mês)


Moradia geminada: 280 € + 67 € = 347 € (28,92 €/mês)
Apartamentos (prédio de dois pisos): 308,9 € (25,74 €/mês)
Apartamentos (prédio de quatro pisos): 285,23 € (23,77 €/mês)
Apartamentos (prédio de oito pisos): 273,34 € (22,78 €/mês)

Concluída esta análise, verificou-se que a diferença média entre os valores de


consumo energético para a climatização de torres e de quarteirões é de cerca 2,5 kW/m2.ano.
O elementar aumento da densidade do corpo de um edifício (presumível aumento da área
coberta relativamente à área descoberta) traduz-se numa diferença média por fogo de 400
kW/ano (6445,5 kW/ano - 6043,5 kW/ano) e numa diferença para as moradias isoladas de
2145 kW/ano (8188,5 kW/ano – 6043,5 kW/ano); ou seja, numa redução superior a 25%.
Para esclarecermos definitivamente a diferença dos gastos energéticos entre uma
cidade composta por quarteirões e outra por moradias, existe um agravamento dos consumos
de cerca de 2000 kW/ano/fogo de diferença do primeiro para o último caso.

3.ª Fase – Quarteirões e casos de exagero

Pretende manter-se nesta tese a ideia central de que é preferível assegurar o


equilíbrio/consenso a empreender determinadas ações das quais resultem perfeições e
equilíbrios bioclimáticos, mas que criem por sua vez problemas fulcrais noutros domínios
(como a habitabilidade ou conforto). Embora esta seja uma matéria a desenvolver apenas no
próximo capítulo, interessa reter aqui que a seguinte fase de análise pretende apresentar
exemplos urbanísticos “exagerados”, de modo a obter melhores casos de estudo para análise.
Foi comprovado que no caso da constituição de quarteirões a partir dos quatro pisos
a despesa média por fração diminui, mas de forma menos acentuada. Se a ideia é reduzir as
áreas de superfície com o exterior e as arestas de edificados, então resolveu-se criar mais três
tipos de quarteirões: denso, muito denso e esférico.
O primeiro, o denso, composto por corpos de edifícios de oito pisos e com
implantações de lotes com 30 metros de largura por 25 metros de profundidade (em vez de 25

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metros de largura por 15 metros de profundidade) com 4 frações em cada um destes lotes de
150 m2 (quarteirão de 90x80 metros). Enquanto nos casos anteriores foram dados os
espaçamentos para arruamentos do espaço público (eixos viários e pedonais) com dotações
suficientes, nestes casos o espaço público deixou de ser importante dado o interesse de obter
resultados bioclimáticos melhores. Determinadas necessidades funcionais arquitetónicas
foram também consideradas irrelevantes, como um mínimo de iluminação interior em
determinadas frações, nomeadamente nos gavetos. Todas as frações passaram a ter uma única
frente de exposição solar e a relação de área coberta subiu para os 60%.

Figura 25 – Urbanizações muito densas de 12 pisos.

No segundo caso, o mais denso, conforme a figura 25, aumentou-se ainda mais o
exagero do corpo do edifício para 12 pisos e 30 metros por 30 metros, com um aumento de
área coberta para os 72% e uma possibilidade de 10 metros de larguras de vias para todas as
orientações (largura idêntica à das vias de uma faixa de rodagem com os dois sentidos
rodoviários e um arruamento de 1,5 metros, sem possibilidade de estacionamento ou de
utilização de outros meios de locomoção, como a bicicleta). As frações, de ponto vista
arquitetónico, passaram a sofrer impasses funcionais (e legais) e cada lote de implantação de
900 m2 passou a ter cinco frações por piso.

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Figura 26 – Urbanizações de formato esférico, com 10 pisos

No terceiro caso, conforme a figura 26, as funcionalidades arquitetónicas foram


facilmente mantidas, com a única impossibilidade de criar mais de uma frente de exposição
solar para cada fração. Foram criadas quatro esferas por hectare com um diâmetro de 30
metros e com 10 pisos, com uma única fração no último piso e sem frações no primeiro. Cada
fração pressupôs-se com 150 m2 de área útil, existindo 25 frações em cada esfera (uma fração
no último piso, duas frações no 2º e 9º pisos, três frações no 3º, 4º, 7º e 8º pisos e quatro
frações no 5º e 6º pisos).
Considerou-se que todas as pontes térmicas foram corrigidas, existindo apenas um
espaço de desvão de sótão no último piso de 150 m2 e uma área de circulação comum circular
no interior.
O cálculo da área coberta é relativamente difícil de quantificar dado que é
pressuposto conter alguma subjetividade. Se considerarmos o cálculo pela projeção
horizontal então temos 4x3,14x225 = 2826 m2/ha, logo cerca de 28%, mas caso tenhamos em
conta apenas o espaço efetivamente implantado então temos 4x3,14x56,25 = 706,5 m2/ha, ou
seja, apenas 7% do espaço.
Os dois primeiros casos de situações extremas são protótipos de canyon effects e
serão abordados enquanto situações urbanísticas contraproducentes no próximo capítulo.
Apesar de aprioristicamente irrealista, a terceira situação (esferas) aparenta ser mais aceitável
do ponto de vista das necessidades urbanísticas do que as outras soluções de tipos de corpos
edificados. Além dos espaços públicos, como os eixos viários, tornarem-se devidamente
aceitáveis a qualquer dotação ou taxa de ocupação, a cércea dos edifícios e os canyon effect
pouco impacte tiveram, sendo possível colocar um maior número de frações do que nas

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urbanizações de quarteirões de oito pisos. Presume-se que será mais um problema de


viabilidade económica que torne este sistema pouco sustentável.
No primeiro caso, a média das frações foi de 26.89 kW/m2.ano o equivalente a uma
despesa anual de cerca 524 € (segundo o valor médio doméstico de eletricidade em 2010, de
0,13 €). No segundo caso, a média das frações baixa apenas 2,4 kW/m2, o equivalente a 370
kW/ano, uma redução de 10% e um valor de cerca de 50 € anuais.
O maior fator de curiosidade é que as frações intermédias chegaram a apresentar
valores anuais perto dos 3000 kW/ano, quando nas situações anteriores de modelos mais
comuns no desenho da cidade foram quase a 6000 kW/ano (praticamente o dobro).
O terceiro caso não apresenta um nível médio, dado que todas as frações têm
comportamentos relativamente diferentes entre cada esfera. O valor médio atingido de 23,92
kW/m2.ano serve unicamente como referência. Por mais que pareça estranho ou pouco
convencional a forma construtiva esférica deste terceiro caso, esta é bem mais propícia ao
cumprimento de determinadas normas urbanísticas e arquitetónicas do que nos casos
anteriores (onde a própria luz e ventilação natural ficaram condicionadas).
Todas estas três experiências são sucessos térmicos, com resultados inferiores a 30
kW/m2, partindo do princípio que se utilizam os mesmos processos construtivos e sistemas de
isolamento térmico do que nos casos de estudo anteriores das moradias, torres e quarteirões.

Figura 27 – Resumo das diferenças energéticas entre diferentes frações dos edifícios densos
de 8 pisos.

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Figura 28 – Resumo das diferenças energéticas entre diferentes frações dos edifícios densos
de 12 pisos

Figura 29 – Resumo das diferenças energéticas entre diferentes frações dos edifícios
esféricos de 10 pisos

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2.04 Comparação com resultados de outras zonas climáticas

Conforme referido, estes estudos reportam-se a edifícios ou frações com os


requisitos mínimos necessários a um bom comportamento ou desempenho térmico. Todos
estes cálculos, de acordo com o regulamento em vigor (RCCTE), pressupõem que todas as
frações envolventes existentes estão ocupadas (permanentemente habitadas). Mas há que ter
em consideração que, na realidade, a taxa de ocupação das frações de habitação em Lisboa
não está perto sequer dos 100%. Por sua vez, os dados foram calculados numa área urbana
dentro da cidade Lisboa, longe das zonas climáticas agressivas e expostas às ações do mar e
do vento. Por outro lado, os valores climáticos mediterrânicos de Lisboa são bastante mais
equilibrados do que na maior parte dos restantes concelhos em Portugal, prevendo-se deste
modo que todos os valores de consumos energéticos nos restantes concelhos serão superiores
aos de Lisboa.
Neste sentido, fez-se um exemplo de comparação de Lisboa com outras zonas do
país, nomeadamente com os concelhos do Porto, Castelo Branco e Oleiros. Os níveis ou
zonas climáticas de Portugal, segundo o SCE, foram definidas por I1, I2 e I3 para o inverno,
sendo I1 o mais ameno e I3 o mais agressivo; para o verão por V1, V2 e V3, sendo V1 o mais
moderado e V3 o mais forte.

Lisboa
(Encontro de médias de fração)
Piso térreo
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 35,26 e NVC = 8,58, sendo o total de 43,84 x 8
= 350,72 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 35,26 e NVC = 9,20 sendo o total de 44,46 x 4
= 177,84 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 35,26 e NVC =
9,04, sendo o total de 44,30 x 2 = 88,60 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 35,26 e NVC =
8,73, sendo o total de 43,99 x 2 = 87,98 kWh/m2.ano
TOTAL = 705,14/16
MÉDIA de fração térrea = 44,07 kWh/m2.ano
Último Piso

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Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 38,64 e NVC = 8,58, sendo o total de 47,22 x 8
= 377,76 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 38,64 e NVC = 9,20 sendo o total de 47,84 x 4
= 191,36 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 38,64 e NVC =
9,04, sendo o total de 47,68 x 2 = 95,36 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 38,64 e NVC =
8,73, sendo o total de 47,37 x 2 = 94,74 kWh/m2.ano
TOTAL = 759,22/16
MÉDIA das últimas frações = 47,45 kWh/m2.ano
2º a 7º Pisos
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 29,66 e NVC = 8,58, sendo o total de 38,24 x 8
= 305,92 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 29,66 e NVC = 9,20 sendo o total de 38,86 x 4
= 155,44 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 29,66 e NVC =
9,04, sendo o total de 38,70 x 2 = 77,40 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 29,66 e NVC =
8,73, sendo o total de 38,39 x 2 = 76,78 kWh/m2.ano
TOTAL = 615,54/16
MÉDIA de frações intermédias = 38,47 kWh/m2.ano
Média Final de todas as Frações = 322,34/ 8 = 40,29 kWh/m2.ano

Porto
(Encontro de médias de fração)
Piso térreo
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 50,65 e NVC = 1,35, sendo o total de 52,0 x 8
= 408,00 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 50,65 e NVC = 1,51 sendo o total de 52,16 x 4
= 208,64 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 50,65 e NVC =
1,49, sendo o total de 52,14 x 2 = 104,28 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 50,65 e NVC =
1,38, sendo o total de 52,03 x 2 = 104,06 kWh/m2.ano
127
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TOTAL = 824,98/16
MÉDIA de fração térrea = 51,56 kWh/m2.ano
Último Piso
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 55,25 e NVC = 1,35, sendo o total de 56,6 x 8
= 452,8 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 55,25 e NVC = 1,51 sendo o total de 56,76 x 4
= 227,04 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 55,25 e NVC =
1,49, sendo o total de 56,74 x 2 = 113,48 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 55,25 e NVC =
1,38, sendo o total de 56,63 x 2 = 113,26 kWh/m2.ano
TOTAL = 906,58/16
MÉDIA das últimas frações = 56,66 kWh/m2.ano
2º a 7º Pisos
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 43,01 e NVC = 1,35, sendo o total de 44,36 x 8
= 354,88 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 43,01 e NVC = 1,51 sendo o total de 44,52 x 4
= 178,08 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 43,01 e NVC =
1,49, sendo o total de 44,5 x 2 = 89,0 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 43,01 e NVC =
1,38, sendo o total de 44,39 x 2 = 88,78 kWh/m2.ano
TOTAL = 710,74/16
MÉDIA de frações intermédias = 44,42 kWh/m2.ano
Média Final de todas as Frações = 374,74/8 = 46,84 kWh/m2.ano

Castelo Branco
(Encontro de médias de fração)
Piso térreo
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 52,54 e NVC = 5,71 sendo o total de 58,25 x 8
= 466,0 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 52,54 e NVC = 6,17 sendo o total de 59,71 x 4
= 238,84 kWh/m2.ano

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Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 52,54 e NVC =
6,09 sendo o total de 58,63 x 2 = 117,26 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 52,54 e NVC =
5,79 sendo o total de 58,33 x 2 = 116,66 kWh/ m2.ano
TOTAL = 938,76/16
MÉDIA de fração térrea = 58,67 kWh/m2.ano
Último Piso
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 57,26 e NVC = 5,71, sendo o total de 62,97 x 8
= 503,76 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 57,26 e NVC = 6,17 sendo o total de 63,43 x 4
= 253,72 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 57,26 e NVC =
6,09 sendo o total de 63,35 x 2 = 126,7 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 57,26 e NVC =
5,79 sendo o total de 63,05 x 2 = 126,1 kWh/m2.ano
TOTAL = 1010,26/16
MÉDIA das últimas frações = 63,14 kWh/m2.ano
2º a 7º Pisos
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 44,71 e NVC = 5,71 sendo o total de 50,42 x 8
= 403,36 kWh/m2.ano
Frações Este/Oeste são 4, logo NIC = 44,71 e NVC = 6,17 sendo o total de 50,88 x 4
= 203,52 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 44,71 e NVC =
6,09 sendo o total de 50,8 x 2 = 101,6 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 44,71 e NVC =
5,79 sendo o total de 50,5 x 2 = 101 kWh/m2.ano
TOTAL = 809,48/16
MÉDIA de frações intermédias = 50,59 kWh/m2.ano
Média Final de todas as Frações = 425,37/ 8 = 53,17 kWh/m2.ano

Oleiros
(Encontro de médias de fração)
Piso térreo

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Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 80,79 e NVC = 5,71 sendo o total de 86,50 x 8
= 692,0 kWh/m2.ano
Frações Este/ Oeste são 4, logo NIC = 80,79 e NVC = 6,17 sendo o total de 86,96 x 4
= 347,76 kWh/.m2 ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 80,79 e NVC =
6,09 sendo o total de 86,88 x 2 = 173,76 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 80,79 e NVC =
5,79 sendo o total de 86,58 x 2 = 173,16 kWh/m2.ano
TOTAL = 1386,68/ 16
MÉDIA de fração térrea = 86,67 kWh/m2.ano
Último Piso
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 87,23 e NVC = 5,71, sendo o total de 92,94 x 8
= 743,52 kWh/m2.ano
Frações Este/ Oeste são 4, logo NIC = 87,23 e NVC = 6,17 sendo o total de 93,40 x 4
= 373,60 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 87,23 e NVC =
6,09 sendo o total de 93,32 x 2 = 186,64 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 87,23 e NVC =
5,79 sendo o total de 93,02 x 2 = 186,04 kWh/m2.ano
TOTAL = 1489,8/16
MÉDIA das últimas frações = 93,11 kWh/m2.ano
2º a 7º Pisos
Frações Norte/Sul são 8, logo NIC = 70,07 e NVC = 5,71 sendo o total de 75,78 x 8
= 606,24 kWh/m2.ano
Frações Este/ Oeste são 4, logo NIC = 70,07 e NVC = 6,17 sendo o total de 76,24 x
4 = 304,96 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Sul são 2, logo NIC = 70,07 e NVC =
6,09 sendo o total de 76,16 x 2 = 152,32 kWh/m2.ano
Frações de Gaveto com uma das orientações Norte são 2, logo NIC = 70,07 e NVC
= 5,79 sendo o total de 75,86 x 2 = 151,72 kWh/m2.ano
TOTAL = 1215,24/16
MÉDIA de frações intermédias = 75,95 kWh/m2.ano
Média Final de todas as Frações = 635,50/ 8 = 79,44 kWh/m2.ano

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Lisboa é classificada como uma zona climática I1 V2 Sul, Porto como I2 V1 Norte,
Castelo Branco como I2 V3 Norte e Oleiros como I3 V3 Norte.
No caso das moradias, os valores médios obtidos foram de 54,59 kWh/m2.ano em
Lisboa, 65,85 kWh/m2.ano no Porto, 72,61 kWh/m2.ano em Castelo Branco e 105,38
kWh/m2.ano em Oleiros. No plano financeiro/monetário e de percentagens de consumo,
existe um acréscimo de 220 € (9 877,5 kWh/ano) equivalente a um agravamento de 20% de
Lisboa para o Porto, cerca de 350 € (10 891,5 kWh/ano) e equivalente a 33% de Lisboa para
Castelo Branco, e cerca de 990 € (15 807 kWh/ano) e equivalente a 93% de Lisboa para
Oleiros.
Do ponto vista do impacto climático, foi verificado que os edifícios/frações
localizadas em zonas como Vila Real, Bragança, Guarda ou Oleiros apresentam quase o
dobro da despesa energética do que nas áreas climáticas da área metropolitana de Lisboa (na
perspetiva climática, comparando com as regiões de Portugal continental verifica-se que
Lisboa é uma região climática mais amena do que as restantes).

Figura 30 – Resumo das diferenças energéticas entre zonas climáticas de Portugal (edifícios
de construção e comportamento termicamente idêntico).

131
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2.05 Conclusão da análise comparativa entre moradias e quarteirões

A comparação dos valores dos consumos energéticos dos edifícios demonstra que,
independentemente da sua localização, existe uma agravante de 25 a 30% do rendimento de
moradias em relação a apartamentos. Ou seja, enquanto no caso de Lisboa a diferença de
gastos entre moradias e frações de quarteirões de oito pisos é de cerca de 280 € anuais, no
caso de Oleiros ou de Vila Real essa mesma percentagem passa para um valor superior a 500
€ anuais.
Ou seja, dado que os valores climáticos nesses últimos locais são mais acentuados, a
relevância da forma volumétrica dos aglomerados dos edifícios aumenta. No entanto, como é
conhecido, quanto mais nos afastamos de grandes cidades como Lisboa e Porto até aos
concelhos do interior, o sistema de aglomerados tende a ser composto por planos (ordenados
ou desordenados) predominantemente de moradias.
Na sequência dos valores anteriores, o mesmo ocorre nas percentagens das frações
de urbanizações com oito pisos no Porto, Castelo Branco e Oleiros, com um agravamento de
20%, 33% e 93%, respetivamente, em relação aos valores de Lisboa.

2.06 Comparação populacional

Os estudos simulados partem do pressuposto de que a taxa real de ocupação dos


edifícios era de 100%, situação que efetivamente não é real em nenhum caso nacional. Os
dados do INE não foram suficientes para determinar o estado atual da ocupação da(s)
cidade(s). Mas, antes disso, há que explicar onde a população poderá ser um fator dominante
nestes dados.
Como mencionado, os valores obtidos – referentes a edifícios/frações habitadas,
através dos cálculos térmicos do RCCTE – não determinam se as frações adjacentes estão ou
não de efetivamente habitadas (o que se reflete em consumos energéticos diferenciados); nem
os levantamentos estatísticos corretamente efetuados poderão esclarecer totalmente esta
questão, já que certos edifícios poderão ser ocupados apenas sazonalmente (por exemplo,
casas de férias ou zonas de veraneio), e muitos cidadãos declaram como habitação
permanente um local onde não residem (nem que seja para obter benefícios
fiscais/tributários). Por outro lado, o corpo humano, em estado relativamente inativo, produz

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cerca de 100 Wh de calor. Isto significa que a presença ou a inexistência do corpo humano
nas frações ou edifícios é influenciador do edificado contíguo e respetivo comportamento e
consumo energético.
Um estudo de impacto da taxa de ocupação populacional das urbanizações iria criar
(mais) um índice de agravamento energético. Por norma, uma fração apresenta sempre mais
despesas se a envolvente opaca estiver em contacto com o exterior do que em contacto com
uma fração devoluta. Isso não impede que os valores se mantenham com uma percentagem
tão elevada conforme se verificou nestes estudos. A população tem uma relação fundamental
com o espaço urbano em diversos domínios, a referência à influência energética seria apenas
mais um dado comprovado. É importante ter em conta que uma taxa de ocupação na ordem
dos 50% – como ocorre frequentemente em urbanizações e bairros nacionais – é sempre mais
grave quanto maior for a dispersão de frações ocupadas. Ou seja, situação com impacto tanto
nos casos de moradias, moradias geminadas ou quarteirões baixos. No caso de grandes torres,
as frações ocupadas só se tocam entre as suas lajes (envolvente horizontal interior), que é
normalmente a área de envolvente maior. Do mesmo modo, se tivermos uma situação de uma
taxa de ocupação de 50% em quarteirões com corpos de edifícios com oito pisos, mas cuja
maioria de frações ocupadas esteja nos primeiros quatro pisos, a taxa de agravamento é muito
pouco expressiva.
O fator de forma e as pontes térmicas lineares só apresentam um verdadeiro
benefício direto enquanto a sociedade urbana funcionar de forma perfeita, ou pelo menos
equilibrada, com as taxas de ocupação dos edifícios superiores a 90%, situação que hoje não
é frequente, nem sequer nas cidades europeias mais cosmopolitas. Basta o simples facto de
famílias residentes em zonas mais densas de grandes cidades trabalharem mais horas, estarem
ausentes de casa ou simplesmente possuírem mais do que uma residência. Logo, a realidade
demonstra que, apesar de tudo, todos estes estudos reais e simulados podem sempre carecer
de algum rigor puramente teórico, mas futuramente possível de resolver e completar,
englobando os “verdadeiros” impactos energéticos, com apoio de um estudo mais cauteloso
da taxa de ocupação das grandes cidades nacionais.

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2.07 Síntese dos casos de estudo: os três fatores que definem bioclimática

Apesar da complexidade do cálculo dos valores térmicos dos edifícios, há valores-


padrão que se podem seguir e utilizar como referência. Em primeiro lugar, e como
observamos na figura 31, à exceção dos três últimos exemplos (Alto Lumiar, Alvalade e
Bairro de Santa Cruz de Benfica), o referente gráfico resume bem as diferenças térmicas entre
vários tipos de quarteirões, neste caso específico apenas numa zona climática de Lisboa. De
um modo geral toda a construção de edifícios foi efetuada com materiais de construção
idênticos, dependente apenas das idades de construção como fator de diferenciação e da
sensibilidade dos construtores envolvidos, embora nesse sentido não tenha sido possível de
quantificar. Deste modo, as análises dos bairros foram efetuadas com referência ao período e
ao tipo de construção dos corpos edificados.
Assim, é visível que a localização de um edifício influência por completo o seu
desempenho e consumo energético, independentemente da sua forma e dos materiais
utilizados. Também é conclusivo, por sua vez, que a forma tem um papel fundamental no
edificado urbano e na própria cidade, independentemente da sua localização ou das técnicas e
materiais utilizados. Verifica-se ainda que os materiais também acabam por influenciar o
conforto climático e os consumos energéticos, independentemente da localização ou
morfologia do edificado.

Figura 31 – Resumo das diferenças energéticas entre as diferentes tipologias.

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São estes os três fatores, morfologia, localização e materiais, que de facto têm um
impacto fundamental no conforto e no comportamento térmico dos edifícios na perspetiva da
bioclimática (ou na perspetiva mais técnica designada por sistemas passivos).
Contudo, esta análise preliminar não responde nem distingue ainda o contexto
fundamental desta investigação, ou seja, o urbanismo bioclimático mediterrânico. Afinal,
entende-se que a envolvente climática tem uma influência fundamental, mas porquê o
«urbanismo mediterrânico»? O que difere doutros conceitos urbanísticos e como isso
influencia o corpo exterior dos edifícios? Além disso, como poderemos associar as práticas
bioclimáticas mediterrânicas ao planeamento e gestão urbana?
Estas questões terão resposta no terceiro capítulo, ao abordar-se o clima no espaço
urbano, as respetivas normas urbanísticas aplicadas e concebidas pela comunidade científica
e o estudo de conceitos e efeitos bioclimáticos nas cidades, como, a título de exemplo, os
problemas gerados pelas ilhas de calor urbanas e as usas repercussões, como os canyon
effects.
No entanto, este capítulo serve fundamentalmente para determinar a influência dos
três fatores enunciados, mas sobretudo da modelação construtiva que os edifícios têm entre
sistemas urbanos de planos mais horizontais (planos cujos corpos edificados são
essencialmente moradias unifamiliares, apresentam grandes extensão e um índice
populacional muito reduzido por metro quadrado) e de planos mais verticais (cujos corpos
edificados compõem quarteirões, com cérceas mais elevadas, acima dos quinze metros, sendo
o índice populacional mais elevado por metro quadrado e as suas extensões de implantação
de fogos bastante menores), até ao exagero de se construírem grandes torres de arranha-céus
ou esferas gigantes. Significa que o futuro é previsível no que respeita aos modelos
urbanísticos de cidades de média dimensão, já que 25% da redução dos gastos de energia
pode ser aplicada simplesmente pela forma ou morfologia dos edifícios.
O território urbano das grandes cidades possuí maiores densidades do que o
território das pequenas e médias cidades. Este pormenor é relativamente importante pelo
facto dos edifícios e frações localizados no interior do país estarem maioritariamente
agravados do ponto vista climático, fator ao qual associamos ainda a classe de exposição ao
vento (rugosidade), que é maior (mais agravada) quanto menor a área urbana. Nas zonas
urbanas menos expostas – como na área metropolitana de Lisboa – os elementos climáticos
têm impactos muito mais moderados.
Por outro lado, devido ao fluxo natural de êxodo demográfico para as grandes
cidades, os edifícios habitacionais, e não somente, localizados no interior do país são
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normalmente mais envelhecidos. Essas cidades carecem mais de renovação de população


jovem e natalidade do que os concelhos do litoral ou são maioritariamente utilizadas como
segundas habitações ou «casas de férias».
Numa breve conclusão da análise destes factos – a serem retratados mais
especificamente na conclusão desta investigação – dado que a população nacional não
apresentará crescimento demográfico fora das grandes cidades, prevê-se que determinadas
zonas fronteiriças dos aglomerados urbanos possam tender a desaparecer – redução/contração
demográfica, ou efeito de shrinking city, abordado mais pormenorizadamente no 3.º capítulo.
O mesmo se aplicará eventualmente às habitações pontuais que por vezes vemos «semeadas»
nas estradas nacionais e municipais, fora das localidades urbanas. Sendo toda a demografia
estabilizada e com grandes necessidades de contenção e racionalização financeira, nos
tempos que correm, associado o aumento do preço da energia, prevê-se que as urbanizações
procuradas serão certamente perto das zonas de trabalho, sem grandes movimentos
pendulares, em áreas servidas de infraestruturas de qualidade, em zonas mais densas de
edifícios em quarteirões e com cérceas mais elevadas de modo a conter mais energia.
O espaço rural poderá voltar a aumentar face a outras circunstâncias de
desertificação do interior e da abertura de mais espaços, perante a implosão ou simples
abandono de alguns aglomerados ou casas pontuais. É apenas um princípio físico-químico de
termodinâmica: cria-se um sistema de universo isolado e reduzem-se as transferências de
energia com o exterior. Minimizando as transferências de energia de uma cidade, minimizam-
se as despesas e diminui-se qualquer endividamento, desde que se produza. Significa que
caso estas situações não sejam urbanisticamente bem planeadas e controladas poderão
acarretar retrocessos científicos e culturais com alguma gravidade (além dos prejuízos
económicos).
As diferenças entre os desempenhos e consumos de moradias e prédios são sempre
relativamente proporcionais nas suas zonas climáticas respetivas (entre 25-30% de moradias
para apartamentos inseridos em quarteirões) e a dispersão de energia poderá, apesar de tudo,
controlar-se com a aplicação de uma maior quantidade de isolamentos térmicos – o que nem
sequer acarreta um custo de construção global muito relevante (inferior a 1% do preço de
metro quadrado de construção).
Entende-se que a zona climática de Lisboa (I1 e V2) e toda a sua envolvente tem
indubitavelmente um impacto realisticamente possível de concretizar em prol de um
desenvolvimento da forma da cidade e no seu planeamento. Mas nas cidades médias dever-
se-á realizar uma reflexão mais cuidada dos conceitos de sustentabilidade, dada a conjuntura
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de desertificação demográfica, a pouca densidade urbana respetiva e a vontade das pessoas


preferirem ocupar estes aglomerados para construir casas unifamiliares. Foi verificado no 1.º
capítulo que as pessoas tendem a desejar viver em modelos de cidades muito baixas, sem
quarteirões e essencialmente em moradias, mesmo que saibam que apartamentos são mais
económicos, onde inclusive sentem mais segurança e ainda, à parte de tudo isso, a parte da
cidade que gostam de visitar é sempre o centro histórico – mas praticamente ninguém deseja
viver em casas desse género. Este contrassenso poderá ser eventualmente temporal. Afinal, as
necessidades climáticas da maioria das moradias e a falta de prevenção na climatização
respetiva, face ainda às necessidades das próximas gerações não tencionarem nem
conseguirem viver em casas sem conforto térmico, irá determinar a preferência por
apartamentos nas cidades mais bem preparadas termicamente, ou irá implicar grandes
investimentos de remodelação.
Por conseguinte, associado à conjuntura social e económica dos próximos anos será
mais improvável ao que se teme assim uma forte desertificação e um «encolhimento
progressivo» destas habitações nos aglomerados urbanos mais expostos e desertificados como
as aldeias do interior com menos de 100 habitantes e das moradias pontualmente espalhadas
ao longo do território nacional junto às estradas nacionais, municipais ou mesmo de pequena
servidão espalhadas nos terrenos agrícolas. Para ter uma ideia, ter uma casa climatizada em
zonas expostas como muitas pontualmente se encontram espalhadas no território nacional
tem necessidades nominais acima dos 5000 €/ano em climatização, ao que significa uma
diferença para máximos de 500 € em frações de apartamentos em Lisboa pouco preparados
termicamente.
Castelo Branco, aglomerado urbano com pouco mais de 30 000 habitantes – trata-se
de uma capital de distrito – apresenta uma parte bastante significativa da população a viver
em moradias (edifício residenciais unifamiliares). Se considerarmos cerca de 1000 fogos de
moradias, verifica-se uma diferença de 380 000 €/ano em relação às situações simuladas e
previstas termicamente. E se seguirmos para padrões atuais de comparação (edifícios
existentes, sem estarem na generalidade termicamente bem preparados), como as
urbanizações do Plano de Pormenor urbano da zona da Quinta da Granja e da quinta da torre,
compostas por edifícios entre quatro a seis pisos e o loteamento da Quinta da Pipa, composto
apenas por moradias, verifica-se uma diferença superior a 10.000 kW/ano por fogo, ou seja
valores de diferença próximos de 1 500 000 €/ano/1000 fogos.
Utilizando os valores da portaria 1330/2010 de 31 de dezembro referentes ao calculo
do preço de construção por metro quadrado (482,40 €/m2), ou o preço do valor da habitação
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por metro quadrado de área útil (609,80 €/m2) para calculo do valor atualizado do fogo de
acordo com a portaria 143/2011 de 6 de abril, ou os dados calculados da portaria 1172/2010
de 10 de novembro, para os preços de construção da habitação por metro quadrado de área
útil para determinação do valor do fogo (743,70 €/m2), neste caso para edifícios na Área
Metropolitana de Lisboa como bases de referência, podemos estimar um possível retorno
financeiro no processo de reconstrução, unicamente com sistemas termicamente adequados.
Em primeiro lugar, a região de Lisboa pertence à zona I, de três zonas diferentes
sendo esta a mais cara do país e climaticamente das zonas onde a temperatura é menos
agressiva. A região de Lisboa, do ponto de vista de análise do quadro climático por concelho,
segundo o decreto-lei 80/2006 de 4 de abril, RCCTE, tem o clima mais ameno de Portugal.
Sendo assim, além do preço de construção ser mais barato na maioria dos restantes concelhos
nacionais, os seus dados climáticos, inversamente proporcionais, são mais agravados. Logo,
os valores de referência de retorno financeiro aplicados e simulados para a região de Lisboa
determinam-se como um modelo e como valores mínimos para cálculos típicos de payback
period – retorno do investimento realizado.
As frações de bairros como Alvalade apresentam valores médios de 137 kW/m2.ano.
Se considerarmos um valor de referencia de 0,13 € (relativo ao preço em 2010 de
eletricidade) o custo anual é de 17,81 €/m2.ano, quando a diferença entre a despesa energética
de uma prédio construído nos moldes de quarteirões com pelo menos 8 pisos, termicamente
já preparados, é de cerca 40,29 kWh/m2.ano a diferença de custo anual é de 12,57 €/m2.ano
logo o equivalente a 2,6 % segundo a Portaria 1330/2010 de 31 de dezembro, ou 2,06 %
segundo a Portaria 143/2011 de 6 de abril, ou então 1,7 % segundo a Portaria 1172/2010 de
10 de novembro. O cálculo de retorno financeiro sem ter em conta o acréscimo do preço da
energia nem dos valores de inflação, que iria permitir apenas o aumento de percentagem, é de
38 anos para o primeiro caso, 49 anos para o segundo caso e 58 anos para o terceiro caso,
unicamente por intermédio do benefício de racionalização energética térmica, sem ter em
conta outros meios como a iluminação e o aproveitamento das águas pluviais, de acordo com
a figura 32.

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Figura 32 – períodos de retorno financeiro apenas em ações de prevenção térmica


comparativamente com diferentes cálculos de valor imobiliário.

Se colocarmos estas mesmas situações para outros concelhos fora de Lisboa verifica-
se uma diminuição muito grande e no caso de concelhos como Oleiros, sendo um concelho
essencialmente composto por moradias cujas perdas energéticas, dado a sua zona climática
ser um I3 V3, são por vezes superiores a 300 kW/m2.ano ou seja, podemos estimar uma
diferença de despesa térmica com uma fração de apartamento a 80 kW/m2.ano é de cerca de
25 €/m2, de sendo inserido numa zona III de acordo com qualquer uma das três portarias, no
caso da 1172/2010 de 10 de novembro, o valor referente é de 588,98 €/m2, sendo, deste
modo, a percentagem estimada entre os 4 %, ou seja, a 25 anos de retorno financeiro, apenas
tendo em conta os benefícios na construção para uma eficiência térmica.
Associando a outros conceitos de bioclimática na construção que se tomam em
consideração cada vez mais na construção hoje em dia como o aproveitamento de águas
pluviais ou mesmo situações ativas como os coletores solares, os valores podem
simplesmente duplicar.
As três fases de análise demonstraram que há uma grande diferença nos modelos de
quarteirões compostos por moradias unifamiliares ou geminadas ou mesmo prédios
relativamente mais baixos. Também se verificou com os dados disponíveis pela ADENE que
grande parte dos edifícios de Lisboa, anteriores às últimas duas décadas pelo menos, não
apresentam materiais adequados ao bom desempenho térmico.

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Também se verificou que uma forma volumétrica incomum, mas mais propícia a um
bom desempenho térmico – como uma esfera ou um volume de quarteirões com implantações
de 30x30 metros – apresenta bons resultados do ponto de vista energético, mas não determina
necessariamente uma melhoria surpreendente ou muito evidente perante conceções
volumétricas que determinam corpos de edificados com oito pisos.
Há que ter em conta que o preço de quilowatt é um valor de referência de 2010, e
que o preço dos combustíveis e da eletricidade têm vindo a aumentar todos os anos, e assim
se prevê que continue nas próximas décadas.
No âmbito de se desenvolver a melhor forma da cidade, estas análises fornecem
valores de referência de modelos volumétricos do edificado urbano, convenientes do ponto de
vista da habitabilidade e conforto e sobretudo na redução do consumo energético. Apenas a
forma, ou morfologia ou volumetria de um conjunto de edifícios, num território urbano, tem
um impacto direto quantificável de 25% de redução da despesa energética de moradias para
apartamentos, e mais de 50% de diminuição de consumos de moradias para edifícios de
formato esférico. Torna-se fundamental que se tenha em consideração o desenho e a
modelação das urbanizações na constituição de um plano urbano, muito antes da intervenção
de outros meios bioclimáticos passivos, como «telhados verdes», ou da aplicação de
isolamentos adequados. A forma volumétrica da cidade torna-se um fator fundamental no ato
do planeamento e do desenho urbano.
Não serão somente as diretivas comunitárias nem o interesse geral de poupar
recursos que diminuirão os consumos energéticos. Muitas destas medidas poderão ser
realizadas no ordenamento e planeamento, no urbanismo e na construção. Basta observar o
peso ou impacto que os consumos energéticos têm nas sociedades atuais, ao multiplicarmos
as diferenças entre consumos de um apartamento e moradias energeticamente eficientes por
um milhão, esses 25% ou 50% de poupança deixarão de ser apenas 15 ou 30 kW/m2.ano para
serem 1500 GWh/ano ou 3000 GWh/ano. A EDP comercializou 30.581 GWh no ano de
2010, de acordo os dados de referencia facultados pela própria empresa. De acordo com a
revista anual Destaque, publicação do INE, referente ao consumo de energia, apenas pouco
menos de 50% foram direcionados para o parque habitacional e conforme verificado no na
primeira parte, nomeadamente no ponto 1.03, estima-se apenas 8% dessa energia elétrica no
aquecimento e arrefecimento das casas, equivalente a menos de 1500 GWh/ano. Ou seja, em
suma, o incremento da eficiência energética dos edifícios residenciais, em substituição de
parques habitacionais constituídos essencialmente por moradias ou prédios baixos e
dispersos, equivalerá apenas a um poupança de 5 a 10% de toda a energia elétrica consumida
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em Portugal, caso se interaja pelo menos num milhão de frações e que os seus habitantes
respetivos tenham todo o interesse na despesa em conforto térmico. É preciso ter m conta que
a presente investigação, tal como tem vindo a ser referido, pouca relevância traz na contenção
de despesa enquanto não existir a total adaptação ao conforto térmico.
Se, por ventura, todas as frações em Portugal estivessem ocupadas e aquecidas nas
temperaturas de conforto, de acordo com os dados do INE em 2003 onde foram estimadas
entre 5,3 milhões de frações habitacionais, logo, os valores estimados seriam muito
superiores a toda energia produzida em Portugal, ou seja, cerca de 50.000 GWh, duplicando
as necessidades energéticas, passando a fazer total sentido a racionalização dos edifícios a
circunstâncias mais eficazes. A diferença como foi anteriormente referida entre frações de
apartamentos e moradias tem um impacte médio entre os 15 ou 30 kW/m2.ano, idêntico entre
7500 a 15000 GW/ano.
É fundamental que se mantenham os padrões e exigências de conforto exterior e
interior como qualidade de vida e ao mesmo tempo entender a preocupação corrente face às
limitações energéticas atingidas. Não só foi assim referido no início desta tese como será
assim defendido na terceira parte em diversos estudos relativos. A energia deve ser um
matéria preocupante e considerada como um recurso limitado mesmo que esta possa ser
produzida por fontes renováveis e autónomas. A incapacidade de gerar energia suficiente é
totalmente problemática para o funcionamento de grandes sistemas como são as cidades. A
grande maioria das cidades mediterrânicas, tem uma percentagem de sistemas de
climatização implementados bastante semelhante a Portugal. O conceito cultural e a má
análise climática em considerar o mediterrânico como zonas mais temperadas, comparando
com os restantes países e as suas temperaturas médias diárias, fez afastar esta preocupação.
Associando ao facto das atuais gerações, bastante mais voltadas para o setor terciário e com a
escolaridade obrigatória mais prolongada, o conforto térmico é uma preocupação contrastante
com os limites financeiros e energéticos que os povos mediterrânicos dispõem.
Apenas será possível combater todo este sentido inversamente proporcional entre o
conforto e a restrição energética através do planeamento urbano, controlando a gestão e
autonomia das cidades a começar pela forma e sem deixar perder os níveis de qualidade que
tanto a população se esforçou a atingir.

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3. Introdução de conceitos de bioclimática e sustentabilidade nas normas e


princípios urbanísticos

Conforme expresso, no primeiro capítulo pretendeu definir-se os conceitos de


sustentabilidade e bioclimática na história e na sociedade, introduzindo o estado de arte da
temática abordada na corrente investigação. No segundo capítulo definiram-se, com base em
diversas investigações realizadas, os três fatores fundamentais e necessários a um
desempenho bioclimático, seja num objeto de arquitetura ou plano urbanístico. Neste terceiro
capítulo pretende introduzir-se o conceito de bioclimática ao espaço urbano e clima
mediterrânico, propondo indicadores essenciais ao planeamento urbano.

3.01 O clima, a energia e todos os seus complementos no espaço urbano

3.01.01 Os corpos de edifícios e o clima mediterrânico

O que é o clima mediterrânico?


“Entre a Europa recortada e a África maciça, o Mediterrâneo aparece como um dos
traços mais antigos e permanentes da fisionomia humana do Globo.” (Ribeiro, 1987, p. 1).
Antes de entendermos a influência dos elementos climáticos nas cidades, é preciso
compreender e definir especificamente qual o tipo de clima que estamos a estudar e como se
diferencia dos demais.
As descrições precisas e completas de Orlando Ribeiro, cujos estudos e publicações
têm vindo a servir como apoio imprescindível ao ensino da Geografia ao longo de décadas,
carecem contudo de alguns ajustes perante as complexas realidades socioeconómicas dos
nossos dias. Sem desvalorizar o importante trabalho desenvolvido pelo geógrafo, único no seu
tempo, a descrição no seu livro Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico expõe uma perspetiva
que, face ao contributo de novas interrogações, parece pecar por subjetiva, acerca das reais
necessidades climáticas das cidades mediterrânicas face aos conceitos mais concretos
utilizados nos estudos térmicos.

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“Esta pequena parcela de terras e de mares, apenas cerca de um centésimo da


superfície terrestre, desempenhou portanto, na história do Planeta e na da Humanidade, papel
dos mais relevantes.” (Ribeiro, 1987, p. 1). O clima mediterrânico chegou a ser considerado
relativamente temperado por várias razões, sendo a principal delas o facto de as temperaturas
médias diárias não serem muito baixas no inverno nem muito altas no verão. Considerando o
referido contraste, nem sempre ser avaliado pela estatística na sua completa extensão,
comparativamente com territórios da Europa Central ou de regiões próximas do Equador as
amplitudes térmicas diárias destes locais não são tão acentuadas como na plataforma
territorial mediterrânica.
Apesar de tudo, a maior parte dos territórios mediterrânicos setentrionais (conforme
definido por Vitruvio para as zonas a Norte do mar Mediterrâneo) apresentam temperaturas
negativas no período de inverno, por vezes durante o dia, e frequentemente nos meses de
dezembro, janeiro e fevereiro durante a noite.
“Há um clima mediterrâneo, a que liga a noção de temperatura média elevada, de
verão longo, quente e sem chuva, de inverno moderado, com um total de precipitações
atmosféricas relativamente baixo.” (Ribeiro, 1987, p. 2). Esta definição carece apenas da
explanação do conceito de “inverno moderado”, que não será tão rigoroso como nas regiões
europeias setentrionais, mas que se situa muito aquém dos atuais padrões de conforto térmico
que permitam manter um bom nível de conforto e salubridade nos espaços interiores.
Explicitando brevemente o conceito de conforto térmico, este determina que as temperaturas
de conforto situam-se entre os 20 e os 25 ºC. Outra característica que se observa na
generalidade do edificado português é – apesar do inverno não muito rigoroso – o nível do
desconforto térmico sentido no interior dos edifícios (devido a problemas diversos e a práticas
de construção desadequadas) em que por vezes se sente mais frio e desconforto nos espaços
interiores do que nos exteriores.
O “inverno é doce, luminoso, com raras quedas de neve e sem grandes geadas. Em
Nice, a média do mês mais frio (janeiro) é de 8,4º, em Corfu 10,2º, em Argel 11,9º, em
Beirute 13,0º.” (Ribeiro, 1987, p. 4). É fundamental entender também que no período descrito
pelo ilustre geógrafo, Portugal sofria de uma transição de uma sociedade fundamentalmente
rural para um estilo de vida urbano, tal como certos conceitos de conforto térmico, bem-estar
e saúde pública estavam ainda longe de serem investigados e esclarecidos.
O geógrafo Nuno Pires Soares, numa obra publicada em 2005, definiu que no nosso
país o estilo de vida urbano propriamente dito foi incrementado e desenvolvido mais
tardiamente – relativamente á maioria dos países europeus –, fortemente condicionado pela
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economia e tradição marcadamente rural, pelo fraco impacto da revolução industrial, bem
como pelo acentuado movimento emigratório. Mais recentemente salientaram-se as
significativas alterações socioculturais e económicas, visíveis na alteração dos estilos de vida
e nas formas de organização espacial da própria cidade. Relativamente ao clima, o inverno no
Mediterrânico não será propriamente “doce” nem “amargo”, é longo mas não muito robusto.
Portugal continental está integrado no seu todo numa região climática de influência
mediterrânica (com exceção do maciço central da serra da Estrela), mas sem qualquer
contacto direto com o mar Mediterrânico.
O Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifícios
(Decreto-lei 80/2006 de 4 de abril - RCCTE) português foi explícito no seu anexo III,
“zonamento climático”, ao definir a perspetiva geográfica e climática enunciada,
determinando classes de exposição solar e temperaturas médias anuais, criando inclusive
grupos e três níveis de divisão climática entre o Norte e o Sul, por concelho (I1,I2,I3 e
V1,V2,V3, além de uma outra divisão entre Norte e Sul do Tejo).
Deste modo, o inverno é mais facilmente entendido numa perspetiva de conforto
térmico e climático, como longo (com entre cinco a sete meses), mas não muito rigoroso. No
caso da precipitação, a determinação de “(...) um total de precipitações atmosféricas
relativamente baixo” (Ribeiro, 1987, p. 1) também não é muito correta, dado que se
compararmos com os restantes países europeus, a maior parte acaba por ter um nível anual de
precipitação inferior. Existe efetivamente uma grande assimetria sazonal na distribuição da
pluviosidade em território nacional, como descreve a geógrafa Raquel Soeiro de Brito,
discípula de Orlando Ribeiro, que a “distribuição da precipitação, bem marcada, em todo o
País é completada pelo enorme contraste entre a pluviosidade do inverno e a do verão,
contraste que mesmo nas montanhas de Noroeste se faz sentir nos clássicos meses de julho e
agosto.” (Brito, 1994, 56). Contraste percetível também pelas irregularidades e oscilações de
temperatura e precipitação durante o ano, ocorrendo por vezes em março subidas acentuadas
de calor (assemelhando-se a um verão prematuro), para depois, já em maio, a temperatura se
situar em valores de 5 a 10 ºC. “A irregularidade do tempo é uma característica do clima em
Portugal” (Brito, 1994, 56), e sem que este território deixe de se inserir numa zona climática
mediterrânica, a pluviosidade pode oscilar de 500 mm/m2, nas zonas da raia alentejana, até
3000 mm/m2, nas regiões do Norte do Minho.
Mas não devemos menosprezar de modo algum as caracterizações de Orlando Ribeiro,
apenas devemos entender e contextualizar os quadros mentais em que foram produzidas. Nas
década anteriores e até muito recentemente o controlo objetivo e efetivo das temperaturas
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dentro dos edifícios era ainda incipiente, tal como as noções de conforto térmico eram pouco
conhecidas, bem como os (atuais) conceitos de saúde e qualidade do ar – humidades relativas
de 50% e temperaturas entre os 20 e 25 ºC. A preocupação de através da construção e
climatização adequadas dos espaços se melhorar o bem-estar, saúde e educação vai-se
crescentemente enraizando nas sociedades atuais.
A população rural habituada à forte incidência solar e às intempéries invernais, visto
trabalhar um maior período de tempo ao ar livre, decerto que não considerará 15 ºC uma
temperatura demasiado baixa para as habitações durante o inverno. Mas a temperatura da pele
das mãos sente o efeito e desconforto do resfriamento abaixo dos 21 ºC., prejudicando
igualmente a capacidade de concentração e de trabalho/estudo. Por outro lado, se as
temperaturas médias portuguesas determinam um clima (exterior) moderado na perspetiva de
um habitante da Polónia, que descreverá o inverno como sendo curto e “doce” (contudo já não
descreverá decerto da mesma forma a temperatura habitual sentida no interior dos edificios),
no caso de um cidadão do Rio de Janeiro ou de Cabo Verde, será capaz de percecionar um
inverno longo e muito rigoroso.
Deste modo, para estabelecer um consenso de forma a transpor a diversidade e a
subjetividade das opiniões sobre conforto climático (que poderão ser inclusive condicionadas
por doenças ou estados de espírito), os padrões de temperatura são determinados pelos
critérios de conforto térmico assim definido pela ASHRAE, nomeadamente pela obra Criteria
for human exposure to humidity in occupied buildings (Sterling e Sterling, 1985).

Como poderá o clima mediterrânico influenciar as nossas cidades e os corpos de


edifícios?
É fundamental que o interior dos edifícios esteja preparado para o conforto do
habitante/utilizador, mas será uma situação semelhante no ramo do planeamento integrar
diretamente os mesmos princípios para o espaço exterior, nomeadamente conceitos como o
conforto interior definido pela ASHRAE?
Será o clima mediterrânico afinal propício ou passível de, nas cidades, ser tornado o
mais constante possível de modo a minimizar os impactos térmicos no interior dos edifícios?
Sabemos que esta minimização ou redução da amplitude térmica existe com o
aumento de determinados espaços verdes, que minoram o desconforto climático em espaços
exteriores; mas há que entender a diferença entre reduzir os impactos das amplitudes térmicas
e tornar a temperatura de um microclima de uma cidade numa constante.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

A principal característica do clima mediterrânico, numa perspetiva bioclimática, é a


sua divisão em duas únicas estações do ano, sendo a estação do inverno (também denominada
por estação de aquecimento) a mais longa, não muito agressiva e rigorosa mas incómoda, e
um verão (estação de arrefecimento) com um período de duas a quatro semanas alternadas de
temperaturas superiores a 35 ºC. Esta característica específica de temperaturas, com a
associação de outras características de agentes atmosféricos típicos em todo o território
mediterrânico, tem de ser obrigatoriamente mantida por motivos de preservação dos próprios
ecossistemas envolventes. Tal significa que, em casos pontuais, criar extensas áreas de
relvados poderá facilmente minimizar as amplitudes térmicas, contudo além do consumo
excessivo e desmedido de água, o aumento de humidade poderá tornar-se nocivo para a
própria saúde da cidade.
É importante salientar que não se pretende evitar a criação/manutenção dos espaços
verdes de nenhum modo, pelo contrário, já que estes possuem importantes valências e
funcionalidades em meio urbano. Assim, o “estudo do conforto térmico em espaços exteriores
constitui uma importante fonte de informação, que ajuda a compreender as opções de
utilização do espaço público em atividades ao ar livre, incluindo o recreio e o lazer.”
(Gonçalves et al., 2006, p. 1). Seguindo todo o raciocínio desta investigação, o equilíbrio
residirá sempre na pesquiza científica e em planos e decisões fundamentadas; “simples”
decisões políticas e ideias sensacionalistas ou extremistas nunca deverão ter primazia sobre a
investigação e o planeamento urbano e ordenamento do território.
Os espaços verdes, como alguns dos fatores atrás enunciados, influenciam direta e
indiretamente a qualidade do espaço urbano, melhorando as condições de conforto térmico
dos espaços exteriores, que por sua vez acabam por ter um efeito indireto nos espaços
interiores. Constituindo as áreas verdes um parâmetro relevante no conforto térmico e
qualidade dos espaços, estes condicionam em grande parte as opções de utilização das áreas
exteriores urbanas, podendo os diversos tipos de ajardinamentos promover de diferentes
formas a qualidade do espaço público.
O conforto térmico exterior, ao condicionar diretamente a utilização do espaço público
ao ar livre, deve ser encarado como um parâmetro relevante a ter em linha de conta na
conceção de estudos e planos urbanísticos, visto constituir igualmente uma fonte de
informação sobre as potencialidades de construção, transformação e usos do espaços
exteriores, mais especificamente no que se reporta a atividades ao ar livre – sendo aqui, mais
uma vez, de realçar o grande potencial da utilização dos espaços verdes.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Conhecendo-se prévia e adequadamente o clima e a necessidade de equilíbrio entre as duas


estações climáticas já enunciadas, há que estudar e estabelecer a articulação conveniente de
dimensionamento entre espaços verdes e edificados, bem como as próprias espécies vegetais
escolhidas, sejam elas autóctones ou exóticas, caducas ou persistentes, a sua adaptação ao
clima, solo e se consomem mais ou menos água. Raven é explícito quando integra no seu
trabalho publicado na compilação Resilient Cities (coordenada por por Konrad Otto-
Zimmermann e apresentada num evento em Manchester, em junho de 2011) uma nova
perspetiva do urbanista no planeamento do seu ambiente, uma procura de conectividade e
vitalidade por conforto, resiliência e saúde enquanto prevenção de patologias. O seu trabalho
com o USGBC e a criação do programa STAR (Sustainability Rating Systems) tem por
objetivo o desenvolvimento e crescimento destes conceitos como forma de reprogramação de
indicadores essenciais ao planeamento. “The climate adaptive performance of the pilot
communities should compare morphological urban design indicators against conventional
baseline condition and best practise models.” (Raven, 2011, p. 462) Se o equilíbrio é o
principio essencial a ter em conta, qualquer ação de (re)dimensionamento entre espaços
verdes e edificações que altere fundamentalmente o microclima da cidade deverá ser muito
ponderada e, à partida, evitada.

3.01.02 As ilhas de calor urbanas (ICU)

Compreendendo o princípio de que os corpos de edifícios devem estar dispostos e


integrados de acordo com as necessidades climáticas da região onde se inserem, as ilhas de
calor urbano (a partir daqui designadas por ICU) têm sido um dos maiores casos de estudo
bioclimáticos no urbanismo, conforme se tem constatado na proliferação de artigos, estudos e
teses sobre o tema. Este conceito pode ser definido como “a existência de uma cidade quente
rodeada de um campo mais fresco e corresponde a uma integração da totalidade dos
microclimas originados pela urbanização.” (Lopes, 2009, p. 1). A ICU é o resultado “mais
evidente de uma modificação climática inadvertidamente provocada pelo homem” (Lopes,
2009, p. 1); esta é medida como o diferencial entre a temperatura mais alta e a mais baixa na
cidade num mesmo período de tempo.
As ICU podem constituir um recurso de gestão energética nos climas mais frios ou
durante as estações de aquecimento (inverno), mas por outro lado possuem características que
não são propriamente reversíveis no período de verão nem suportáveis nos países de climas

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

mais frios. Mat Santamouris vai bastante mais longe nos cálculos específicos que realiza ao
referir que as ilhas de calor apresentam valores instáveis de descidas de temperatura e
convergência da fluidez do ar.
A ideia-mestra parece consistir, principalmente, em equilibrar os sistemas urbanos e as
suas amplitudes térmicas; mas também é necessário ter em consideração as necessidades
específicas do clima mediterrânico. A informação climática «ainda» não é considerada como
um fator de grande importância ou como um instrumento obrigatório a ter em conta na
conceção de um plano. Apesar de estarem de certa forma presentes no planeamento, os
agentes atmosféricos nem sempre são percetíveis como dados complexos e determinantes de
características indissociáveis da cidade.
A medição da ilha de calor, como mencionado, é feita através do diferencial entre a
temperatura mais alta e a mais baixa da cidade durante o mesmo período de tempo. Tal
significa que este fenómeno é caracterizado por uma importante variação espacial e temporal
relacionada com o clima, a topografia, a estrutura física e volumétrica e o tempo a curto
prazo.
Não existem dúvidas de que a humidade é um fator de estabilização da temperatura,
mas não sucede a mesma evidencia que quanto maior for a densidade do corpo edificado,
maior será o aumento de temperatura. Mas este é o vetor primordial do conceito da ICU.
Como refere Santamouris, "air temperatures in densely built urban areas are higher than then
temperatures of the surrounding rural country” (Santamouris, 2001, 48). Este facto foi
verificado e registado pela primeira vez, segundo o mesmo autor, há mais de um século –
“The phenomenon known as the heat island was first noticed by meteorologists more than a
century ago, and is the most well documented phenomenon of climatic modification."
(Santamouris, 2001, 48).
O Professor António Lopes apresenta, ainda no âmbito das abordagens climáticas em
meio urbano, um índice de referência denominado por SVF – sky view fator ou fator de visão
do céu. O autor defende que a existência de uma morfologia urbana composta “por prédios
altos e ruas estreitas reduz o SVF (sky view fator ou fator de visão do céu) e tende a alterar o
balanço de radiação tanto em grande como em pequeno comprimento de onda, contribuindo
para o aumento da temperatura do ar.” (Lopes, 2009, p. 43).
Nesse trabalho de investigação: “O Sobreaquecimento das cidades, causas medidas
para a mitigação da ilha de calor”, de Lopes é referido inclusive um gráfico demonstrativo de
que o SVF apresenta uma linha diretamente proporcional da razão da altura dos edifícios e da
largura das vias com o nível de diferencial de temperatura das ICU. Mas é necessário colocar
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um “travão” na orientação destes princípios, reconhecendo sempre a importância destes


dados, não são dados concretos, apenas deverão ser aceites como dados complementares. Não
pode ser pelo índice de SVF que há um aumento do diferencial nas ICU, mas pela relação do
espaço público, que proporciona condições climáticas mais drásticas, como por exemplo, por
intermédio da poluição dos veículos ou da obstrução volumétrica de edifícios. Apesar do SVF
se tratar de um fator importante para o aumento do diferencial das ICU, não deve ser
considerado o fator, podendo eventualmente a não ser em certos casos completamente
relevante.
A relação traduzida pelo índice fator de visão de céu poderá constituir uma ferramenta
fundamental para a contenção dos aglomerados urbanos com uma relação de área coberta e
descoberta muito desigual, com grande atrofiamento físico dos edifícios e arruamentos.
No entanto, é de salientar não ser imperioso um espaçamento obrigatório entre as ruas
nem a limitação de altura dos edifícios, para evitar-se uma relação desigual do SVF, pois os
valores traduzidos por este índice medem pontos coincidentes, como consta do gráfico
expresso na figura 33 (Lopes, 2009, p. 1), não expressando necessariamente constatações. A
própria cidade de Lisboa constitui exemplo disso, dado que o efeito de refrescamento devido à
proximidade do estuário do Tejo e a configuração das vias automaticamente minimiza o
impacto da intensidade da ilha de calor urbana.

Figura 33 – Relação entre a intensidade máxima da ICU e a razão H/W (Altura do edifício
com a largura da via publica). Adaptado de Oke (1987). (Lopes, 2009, p. 1).

O problema de sobreaquecimento decorrente das ICU deve ser combatido primeiro na


perceção/determinação dos elementos negligenciados, nomeadamente o estudo dos agentes
atmosféricos, que são efetivamente relevantes no planeamento de uma cidade, já que esta que

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esta serve igualmente de barreira física face ao meio ambiente. Por outro lado, a aplicação de
quaisquer medidas ou ações concretas nas cidades deverá ser equilibrada e muito bem
planeada, de modo a serem evitados impactos agressivos e radicais – como a
“descaracterização” ou anulação das valências culturais e estéticas de edifícios, bairros,
monumentos e da sua suma (cidade, vila, aldeia, arraial/conjunto...), no que respeita à traça,
materiais e cores das construções vernáculas e tradicionais, como lastimavelmente é tão
comum e observável nos meios mais rurais (e menos) do país, representando elevado risco
para a nossa herança urbanística patrimonial e cultural.
Lopes, na obra já referida, defende como opções mais viáveis e eficazes os conceitos
de greenroofs ou ecoroofs, ou seja coberturas e/ou fachadas de edifícios compostas ou
cobertas por uma rede vegetal, com a capacidade de refrescar e aumentar a humidade
minimizando a amplitude térmica das ICU. Mas, novamente, há que compreender que não é
possível entregar às coberturas ou fachadas vegetais a totalidade do papel de minimização do
impacto térmico nos espaços exteriores das cidades.
No âmbito do planeamento urbano, não deverá existir relutância nas ações de combate
direto dos efeitos das ICU, mas antes de planearmos tais medidas devemos ter em
consideração os fatores climáticos da região em estudo e as variantes de cada micro-zona na
cidade (bairros ou quarteirões, parques urbanos, polos/zonas industriais e comerciais, entre
outros) de modo a estudar um equilíbrio bioclimático adequado.
Ao contrario dos espaços interiores, os espaços exteriores não podem estar
climatizados a uma temperatura anual e diariamente constante, tal como definido pela
ASHRAE. Os espaços exteriores devem ser estudados e concebidos como meios de
conciliação entre o homem e toda a biodiversidade envolvente, geridos de forma adequada ao
clima e geografia específicos em que se inserem. Sendo o clima mediterrânico perpassado por
uma característica – amplitudes diárias térmicas – que está longe de ser conciliada em padrões
equilibrados de temperaturas (entre os 20 e 25 ºC), dever-se-á trabalhar e planear mais a favor
da natureza do que intervir a favor da vontade egoísta e estrita das sociedades humanas, o que
nem sempre resulta em seu benefício.
Mas qual a relação de comportamento e conforto térmico existente entre os corpos de
edifícios com o clima mediterrânico?

“Por outro lado, é conveniente conhecer a disciplina de medicina, por causa da


inclinação do céu, que os Gregos dizem climata, assim como dos ares e dos sítios,
quais os salubres ou quais os pestilentos, assim como do uso das águas; sem estes

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conhecimentos nenhuma habitação saudável se poderá construir” (Vitruvio, 2006,


33).

Apesar de não aparentar estar diretamente relacionado, quando abordamos questões de


conforto térmico ou mesmo os impactos da eficiência energética nos edifícios, estamos
sempre a abordar mais ou menos diretamente a temática da saúde, mais precisamente a
salubridade da sociedade urbana.

“No que respeita ás cidades, estes serão os princípios. Em primeiro lugar, a eleição
de um lugar o mais saudável possível. Este será alto e não nebuloso, sem geadas e
voltado para um quadrante que não seja nem quente nem frio, mas temperado.
Depois, evitar-se-á a vizinhança de pântanos. (…) Do mesmo modo, se as cidades
se encontrarem junto ao mar e estiverem orientadas a Sul ou para Ocidente não
serão saudáveis, porque, pelo verão, o céu meridiano queima desde o nascer do Sol
e arde ao meio-dia. Também o que está exposto a Ocidente amorna ao nascer do
Sol, aquece ao meio-dia, ferve à tarde” (Vitruvio, 2006, p. 41).

No período histórico da Antiguidade Clássica, conforme relatado por Vitruvio, as


exigências do espaço interior e as noções de ar puro não eram fundamentalmente diferentes
das da atualidade, com a exceção de que hoje possuímos sistemas corretivos, como
ventiladores ou bombas de calor (vulgares ares-condicionados), que nos permitem
condicionar de modo muito mais pragmático e expedito a temperatura dos espaços interiores,
além de determinadas noções científicas e técnicas mais concretas. No entanto, e como
princípio orientador, já o romano Vitruvio refere o complexo equilíbrio que é necessário à
composição urbana.
Soluções (aparentemente) mais fáceis são de evitar e a conceção de espaços e
estruturas verdes deverá ser planeada e aplicada com a devida consciência do seu objetivo e
benefícios, bem como dos efeitos secundários que possa eventualmente trazer ou causar.
Como exemplo, um espaço verde que produza muita humidade necessita,
evidentemente, de um enorme consumo de água durante o período de arrefecimento (verão).
É, por conseguinte, muito pouco prática a sua implantação numa região climática com
escassez de recursos hídricos, onde a água é um fator de conservação importantíssimo durante
um período de quatro a seis meses. Por sua vez, as plantas consumidoras de muita água são
genericamente invasivas ou exóticas (ambas podendo facilmente constituir pragas), pouco
aconselháveis fora dos seus locais de origem, nomeadamente no espaço mediterrânico, de
modo a preservar-se a biodiversidade das espécies autóctones – estas sim muito mais
resistentes a doenças, pragas e à sazonal escassez hídrica. As plantas exóticas apresentam

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ainda o inconveniente de, ao serem predominantemente de crescimento acelerado,


necessitarem de maior manutenção do que as autóctones.
Por outro lado, criando-se uma estrutura verde com uma grande extensão
relativamente à área urbana construída, vai-se contribuir para o desequilíbrio genérico de um
bairro, em vez da sua estabilização, apesar dos níveis mais estáveis de temperatura no local
genérico onde estão inseridos.
Presumindo que devemos compreender uma lei fundamental – a lei ou o princípio da
conservação da energia – que define uma quantidade total de energia permanece estável num
sistema isolado, em consequência da lei da conservação das massas, apresentado nos dias de
hoje como lei de Lavoisier que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.
Se definirmos um sistema isolado (ou Universo) por um meio urbano, onde naturalmente
existe estabilidade dos corpos na energia total, automaticamente as áreas envolventes vão
possuir sempre o mesmo diferencial de temperatura e um ambiente constante do clima
respetivo.
Mas a cidade, efetivamente, não constitui um universo isolado e apresenta-se como
uma área de grande transferência energética com os espaços envolventes. Mas, mesmo assim,
existe uma parte do universo que a cidade materializa que se mantém estável entre si, sem
transferências energéticas (relevantes) para o exterior.
De acordo com o anteriormente expresso, é muito importante que as ICU se
mantenham num nível de diferença de temperatura quase idêntico ao do clima mediterrânico,
minimizando as amplitudes térmicas de modo a ser proporcionada um melhor usufruto e
adaptação do cidadão ao espaço urbano, fundamental ao seu bem-estar e às dimensões
socioculturais da vida humana (turismo, lazer, desportos ao ar livre, etc.), mas sem criar uma
barreira radical entre o espaço rural e o urbano. Essa barreira só deverá existir, em certa
medida, entre as frações de habitação e as de serviços nas cidades, ou seja, os espaços
interiores de funcionamento habitacional e laboral do cidadão devem estar afastados dos
impactos climáticos do espaço exterior, padronizando uma estabilidade anual de temperaturas
entre os 20 e os 25 ºC e com uma humidade relativa entre os 50%. Este conceito é defendido
por Raven quando introduz o termo de resiliência climática como um fator fundamental, ou
seja, na compreensão do espaço enquanto microclima e na necessidade de o plano tornar o ser
humano adaptável, mas sem que este prescinda do conforto e qualidade de vida urbana. A
alteração ou incompreensão do espaço climático ou microclimático, por melhor que este possa
parecer ou por melhor qualidade que este possa oferecer, poderá ser vítima inclusive de um
grave problema de sanidade pública (Figura 34).
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

“Climate-resilient public realm measures would strengthen community


adaptability to climate change and mitigate the urban heat island effect through
the creation of systemic, interconnected and protective micro-climates within the
public realm intended to reduce energy loads, produce cleaner air and enhance
civic life. Prescriptive measures and performance standards for a climate-resilient
public realm would address systemic impacts on the public realm, including
urban ventilation, green infrastructure, and solar design.” (Raven 2011, p. 454)

Figura 34 – Quadro comparativo publicado por Jeff Raven, segundo Odoleye e tal., (2008).
Broadening traditional place-making urban design qualities with “sustainability supporting” qualities,

3.01.03 Urban Canyon

A definição de urban canyon surgiu com uma atribuição morfológica de cidades


compostas por ruas com edifícios geralmente muito altos cuja relação de SVF (sky view fator)
é de fato muito elevada. Os urban canyons são efetivamente situações de exagero urbanístico,
embora pragmáticas ou necessárias em cidades extremamente cosmopolitas, cujo espaço é
extremamente raro e valioso. Em termos urbanísticos parece impensável que cidades como
Tóquio ou Nova Iorque fossem compostas por edifícios com uma volumetria semelhante à da
cidade de Lagos (Nigéria); no entanto, ambas as cidades movimentam tremendamente a
economia mundial. Outros aspetos inerentes à cidade, como a parte sociológica e funcional,
nomeadamente o conforto nos espaços exteriores e interiores interagem sem dúvida neste
campo urbanístico.
Em sintonia com o atrás exposto, percebemos que índice de sky view fator não
apresenta valores nada elevados em cidades como Lagos, Nigéria, mas os índices da ilha de
calor urbana serão certamente (mesmo sem contabilização de dados oficiais) muito elevados,
considerando-se apenas o fator de sobrepovoamento, a frequente queima de combustíveis e a
total ausência de espaços verdes, apesar da notável localização temperada da cidade.
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Santamouris no seu texto, de 2005, intitulado Canyon Effect: Calculation of wind


speed in an urban street canyon with the aid of a semiempirical model base on experimental
data, cita Oke para definir o ar espacial dos urban canyons, que divide em duas partes: o ar
acima dos telhados e o que circula pelas vias dos edifícios. O ar espacial, circulando acima
dos edifícios – mesmo aquele a poucos metros acima dos telhados – é praticamente
homogéneo devido ao seu processo natural de ventilação. Se o aglomerado urbano em questão
for, no entanto, analisado como ICU tem de facto um valor diferente do espaço envolvente,
mas constante dentro do seu “universo”, ou seja, no interior do seu perímetro urbano. O ar que
circula dentro das vias dos corpos edificados é que sofre de maior heterogeneidade, tanto na
temperatura e diferencial de temperatura que apresenta como na qualidade e tipo de partículas
pelas quais é composto.

“Pois o vento é uma onda de ar que flui movido com uma incerta redundância.
Nasce quando o calor vai de encontro à humidade e o ímpeto da exalação faz sair à
força o sopro do ar. (…) Se eles não forem deixados entrar, não só o lugar ficará
saudável para os corpos sãos, como também, se eventualmente se originarem
doenças a partir de outros condicionalismos, a que em outros lugares salubres se
opõem tratamentos médicos, nestes lugares, devido à mistura de ventos na devida
proporção, essas doenças mais facilmente serão tratadas.” (Vitruvio, 2006, p. 49)

O excerto anterior reporta-se, entre outras temáticas, à noção de que se deve evitar os
corpos edificados de constituírem barreiras ou formarem «túneis de vento». O SVF é de facto
um caso a ter em consideração, mas como meio de precaução ou preventivo no planeamento
urbano, de modo a minimizar os impactos acrescidos no cálculo das ICU.
Segundo os estudos e cálculos de Santamouris, a distribuição de temperatura é
primariamente afetada pelo balanço da radiação urbana, ou seja, a radiação solar que incide na
superfície urbana, é absorvida e depois transformada em calor sensível. Grande parte do
impacto da radiação solar que incide nas fachadas e telhados dos edifícios nunca chega ao
solo. São emitidas ondas longas de radiação das superfícies diretamente para o céu. Deste
modo, a intensidade da radiação emitida depende diretamente do sky view fator: uma relação
da superfície urbana com o céu. As obstruções criadas pela morfologia e altura dos edifícios
impedem as perdas e a dissipação natural de radiação para o céu, aumentando dessa forma o
aquecimento da cidade.
Em relação ao fenómeno dos urban canyons, este tem utilidade prática no caso dos
prédios antigos e sem isolamentos térmicos, em que a energia é assim canalizada/consumida
no interior das habitações. Mas com as novas práticas de isolamento dos edifícios, ao torna-

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los «impermeáveis» a energia só será mantida no exterior, e se os isolamentos forem


aplicados no exterior das fachadas (em vez de no interior das paredes) as perdas de energia
serão então quase imediatas.
Os ventos poderão igualmente constituir um fator agravante através da criação de
túneis, em alguns casos, mas é preciso ter em consideração que o seu controlo – pela
utilização em grande número de árvores, por exemplo – poderá ser mais motivador de
retenção energética, dado que podem impedir, em caso de quantidade exagerada, a ventilação
natural de outros gases propícios ao aumento do valor do diferencial das ICU como a poluição
dos carros ou, no caso de ruas muito circuladas, a própria emissão do corpo humano (dado
que em movimento, produz um valor superior a 150 Wh de energia calorífica, um
atravessamento com uma taxa média de ocupação por 100 pessoas pode significar uma
produção superior 15 kWh em energia calorífica).
Apesar de tudo, os autores com investigações relevantes nestas matérias, Santamouris
e Lopes, abordam os urban canyons como um problema característico da cidade, como se de
um mal se tratasse. Efetivamente, as primeiras impressões climáticas e os seus impactos
revelam claramente um problema sério a ter em conta; mas tal não invalida por absoluto a sua
existência, apenas permite a atenção devida às ações de planeamento por intermédio do
desenho urbano adequado.
Se uma cidade quer ser cosmopolita e crescer – opondo-se à situação das chamadas
cidades médias, estagnadas demográfica e economicamente, comuns em diversos países da
Europa – então não possuirá muitas escolhas e a construção em altura passará a constituir o
percurso mais viável. A qualidade de vida proporcionada por uma cidade não é invalidada ou
anulada pela altura (das suas construções), mas sim pelas funcionalidades e infraestruturas
existentes e pela relação dos espaços físicos construídos com o seu ambiente ecológico
humano. Mais concretamente, existem dados do SVF, nomeadamente índices muito elevados
em centros históricos que nem sequer possuem uma grande altura, pois é comum encontrar
edifícios com quatro e cinco pisos sobre uma via com cerca de três metros de largura. Os
centros históricos podem muitas vezes não ser dotados da conveniente insolação, mas
continuam a ser alvo de uma grande atração sociocultural, seja por lazer, pelo turismo e
restauração ou por setores económicos ligados às artes e cultura.
Incidindo sobre a malha urbana do território mediterrânico, há que compreender outros
aspetos – ainda a aprofundar e discutir – em relação à necessidade de exposição solar, que não
pode ser vista com o mesmo grau de necessidade que nas regiões da Europa Central.

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A luz solar no espaço mediterrânico é particularmente característica na sua


intensidade. A sua irradiação nos corpos é muito forte desde os meses do período de
aquecimento, a partir de março. A presença do Sol na Europa central e nórdica é uma
necessidade, pois este emite menos luz natural e uma irradiação mais suportável, dada a sua
direção angular. Significa que no âmbito do sky view fator poderá ser preferível evitar a
construção de bairros de arranha-céus (skyscrappers), dado que as cidades mediterrânicas são
compostas essencialmente por sistemas/redes de cidades médias que pretendem, numa
perspetiva sociopolítica, combater as migrações dos pequenos aglomerados urbanos para os
grandes centros e metrópoles urbanas. Mas por outro lado, pode ser também contraproducente
optar por concretizar medidas ou espaçamentos exagerados (com larguras excessivas)
conforme se vai abordar mais à frente, no contexto da análise bioclimática da cidade e estudos
de áreas influência.

3.01.04 Qualidade do ar e ruído – o papel dos espaços verdes

É difícil aceitar nos ambientes urbanos e arquitetónicos que o ar, a água e o som entre
outros elementos invisíveis ou quase invisíveis possam constituir um problema. O ar não é
visível e o hábito resolve problemas de ruído, mas não significa que o corpo se habitua na
plenitude. Há pessoas que dormem com os barulhos dos ares condicionados (bombas de calor)
em determinadas grandes cidades ou com os barulhos dos comboios ou metropolitanos de
superfície sem qualquer prevenção acústica. Ainda é comum ver pessoas a beber água dos
seus poços e furos mesmo após confirmação dos testes de análise química. Apesar de a maior
parte dessas pessoas não falecerem devido a estes fatores, não significa que conseguem viver
bem, tranquilamente ou confortavelmente com o problema. Tornam-se condições invisíveis às
pessoas que acabam por viver diariamente e que o cérebro as aciona como um hábito
perfeitamente normal, necessário de suportar.
Mas resumindo um caso real sério, ocorrido numa quinta em Castelo Branco onde se
realizou um projeto com várias funcionalidades – piscinas, restaurante, hotel, campo de tiro
aos pratos – em que proprietário, residente no local, passado um ano (e com algum sucesso do
projeto), adoeceu gravemente. Quando foi feita uma visita ao local, em pleno verão e foi
verificado a existência de um campo de tiro. Nos veios da terra que dão origem ao
escoamento das águas no inverno, até à lagoa, ainda estavam os chumbos. Antes que fosse
referida a razão da morte do proprietário, o próprio terreno já o tinha identificado. Os

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vestígios do problema não eram totalmente invisíveis, estavam na água e no chumbo e a


doença era um cancro. Os espaços são também identificadores de causas da saúde e doença.
Tanto estão no ar, no solo ou na água em vários estados de conservação e em várias
composições.
A qualidade do ar é sem dúvida um elemento indispensável ao conforto e qualidade de
vida, influenciando de forma indireta o conforto térmico. Entende-se que no interior dos
edifícios ou frações, habitacionais ou de serviços, a qualidade do ar interior tem um papel
fundamental agregado ao conforto térmico, dado que a temperatura não poderá ser o único
elemento relevante, mas sim a temperatura associada ao ar que se respira.
Criando um exemplo hipotético e grosseiro, se a questão a resolver fosse tão somente
aquecer uma casa a 20 ºC no inverno, então bastaria acender um certo número de fogueiras
dentro da fração, com as janelas totalmente fechadas para não se perder nenhum calor. O
resultado seria previsível. O ar tornar-se-ia de tal forma irrespirável que a fração, aquecida ou
não a 20 ºC, deixaria simplesmente de ser habitável.
Mas a questão da manutenção da qualidade do ar, ameaçada por diversos tipos de
poluição, persiste no espaço exterior. Evidentemente, manter a sua qualidade é importante,
mas os espaços exteriores são de tal modo ventilados que – mesmo com os impactos da
poluição e as barreiras arquitetónicas – a qualidade do ar consegue manter-se dentro de níveis
mínimos suficientes à respiração do corpo humano. Também é preciso explicitar que as
árvores não formam moléculas de oxigénio suficientes para uma respiração dos cidadãos
numa cidade, mas podem ser pelo menos boas fixadoras de dióxido carbono à terra entre
outras fixações de macro ou micronutrientes. O problema da qualidade do ar nos espaços
exteriores, deste modo, tem uma incidência muito mais indireta no conforto exterior (quando
comparada com o impacto da qualidade do ar nos espaços interiores), tal como os impactos do
ruído.
Asimakopoulos, no seu trabalho de investigação sobre a poluição urbana, publicado no
livro de Santamouris, refere o ruído associado às partículas de ar como elementos do mesmo
grau de poluição nas cidades, que derivam substancialmente da combustão dos motores de
automóveis e não de muitos outros elementos em que possamos pensar. A poluição
atmosférica causada pela emissão de gases, desde CO2 (dióxido carbono) até h2so4 (Acido
sulfúrico, possui vários sistemas de transporte pelo vento ou chuvas ácidas). A poluição
atmosférica é responsável pela degradação de monumentos e construções. Segundo
Asimakopoulos, apesar dos edifícios serem responsáveis por quase 50% das emissões de CO2

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na atmosfera, estas emissões não têm impacto direto no ambiente urbano e no seu conforto
térmico, apenas no conjunto geral do seu nível climático e calculado somente como ICU.
Neste âmbito, a renovação ou reciclagem de ar puro realiza-se por duas vias
essenciais: pelo arejamento natural da cidade e por um bom plano de espaços verdes.
O papel dos espaços verdes nas cidades é sem dúvida fundamental nas três diretivas
para sustentabilidade, segundo o CEU: Sociologia, Economia e Ecologia. Mas no âmbito da
ecologia, pelo menos no que respeita ao assunto da qualidade do ar, a simples plantação de
árvores ou a criação de espaços ajardinados poderá não constituir propriamente a solução
mais adequada ou eficaz no combate à poluição urbana. O que não minora os efeitos positivos
no espaço urbano. Tal como referido por Santamouris, "trees and green spaces contribute
significantly to cooling our cities and saving energy.” (Santamouris, 2001, p. 145). As árvores
disponibilizam proteção solar às moradias unifamiliares e mesmo a prédios e outras
construções, como refere Santamouris,
É preciso ter em igualmente em atenção os potenciais efeitos negativos decorrentes
dos espaços verdes em meio urbano. Por exemplo, as árvores tem pouca evapotranspiração,
ou pelo menos insuficiente para a humidade gerada se tornar num proveito para a cidade. As
plantas que consomem mais água são naturalmente mais propícias para gerar humidade e
reduzir as temperaturas através da evapotranspiração. Foram realizadas várias experiências,
incluindo a de Santamouris, que ao medir as temperaturas entre Atenas e o seu parque urbano
nacional encontrou diferenciais de 3 ºC, mas esses máximos não são estáveis, eles podem
reduzir a temperatura mas se calhar apenas nos arruamentos circundantes além de
dependerem das alturas do ano ou do tipo de espaço verde. É conveniente recordar neste
âmbito algumas medidas propostas por Olgyay, na década de 1960, no sentido de minimizar
os efeitos do clima em meio urbano. No entanto, de qualquer modo os espaços verdes são um
elemento primordial na área da sustentabilidade e na minimização de amplitudes e
diferenciais de temperatura das ilhas de calor urbanas.
Deste modo, a utilização dos espaços verdes no desenho urbano enquanto meio de
combate à poluição urbana, seja contra a má qualidade do ar como minimizando o ruído, deve
ser estudada pontualmente, de acordo com o respetivo espaço envolvente. Um corredor de
árvores ao longo de uma avenida não será naturalmente suficiente para minimizar as
temperaturas, mas ajuda no combate à irradiação solar massiva no cidadão e nas fachadas, no
período de arrefecimento (verão). No entanto, caso o corredor seja muito denso, poderá
funcionar como uma barreira arquitetónica, logo pouco eficiente neste âmbito, podendo até ter
efeitos perniciosos.
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As árvores têm ainda a particularidade de exibirem diferentes tipos de folhagem, de


densidades e morfologias de copas, com crescimentos e adaptações diferenciadas. Um dos
erros mais comuns no planeamento de árvores no espaço urbano consiste na falta de
conhecimento em distinguir as árvores exóticas das autóctones e caducas. É paradigmático o
caso do jacarandá. Lisboa é uma cidade onde predomina esta espécie exótica – o que não
invalida os elogios da sua estética natural, especialmente da famosa flor roxa em cachos. Mas
a adaptação desta árvore estrangeira ao nosso clima faz com que o seu período de queda de
folha seja na primavera e não no outono. As consequências no meio urbano são evidentes e
torna-se inclusive algo contraproducente, no clima mediterrânico, uma árvore que não
proporciona sombra no verão e que no inverno impede a passagem da luz solar .
Por outro lado, os corredores verdes não deverão ser meramente caracterizados como
“árvores plantadas ao longo de vias”, mas antes por um conjunto de plantas que possam
existir distribuídas pelos arruamentos, terminando em praças que por si só deverão ser
suficientemente ricas na biodiversidade da flora. Para existir realmente um impacto induzidor
da diminuição de temperatura das ilhas de calor urbanas, o conjunto de espaços verdes tem de
ser suficiente e equilibrado, e sem que requeira ou necessite de recursos excessivamente
dispendiosos em manutenção e em utilização/consumo de água.
Em suma, tudo converge para a conclusão de que a poluição do ar urbano torna-se
transversal à forma do edificado. Mas, por outro lado, não invalida que esta forma mal
planeada possa criar constrangimentos suficientes através de barreiras arquitetónicas
permitindo indiretamente um aumento de poluição.

3.01.05 Túneis do vento

“Circundado o recinto, seguir-se-ão as divisões das áreas (…) e as orientações das


praças e das ruas. Serão, de facto, traçados como deve ser se habilmente se
afastarem das ruas os ventos que, se forem frios, prejudicam, se quentes,
corrompem, se húmidos, são nocivos.” (Vitruvio, 2006, p. 48)

Os estudos do efeito de desfiladeiro ou canyon effect são por vezes confundidos com
os efeitos dos túneis de vento. Na verdade, um canyon effect pode proporcionar também um
efeito de túnel de vento, devido ao sistema natural de convecção de temperaturas associada à
corrente natural dos ventos. Há desde logo um aspeto curioso definido por Santamouris, pois
quanto maior a intensidade do vento menor será o efeito da ilha de calor. Parece uma

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conclusão evidente, mas como vamos analisar de seguida, são os sintomas normais de uma
ilha de calor urbana que causam aumentos de correntes de ar.
De acordo com o Manual de Química Física, de Gerd Wedler, a transferência de
energia é processada por três meios: irradiação, condução e convecção.
A irradiação é efetuada pelo Sol, assim denominada por irradiação solar. Conforme os
estudos de Santamouris, as ilhas de calor, quando expostas à ação dos canyon effects,
apresentam uma discrepância, nomeadamente uma redução na absorção de energia por
irradiação, visto que a energia chega com menos intensidade aos arruamentos, ficando a sua
maior parte nos telhados e nos pisos superiores dos edifícios.
A transferência por condução é a única forma de transmissão de energia entre corpos
isolados, é especificamente através deste sistema que se estuda o comportamento
(condutibilidade) térmico dos materiais aplicados nos edifícios.
Por último, existe a transferência por convecção, que se aplica aos casos entre
universos quase fechados, em que a transmissão de energia é canalizada/efetuada diretamente
pelos espaços abertos entre os universos respetivos. O sistema de convecção é visível por
exemplo nas frechas janelas mal fechadas ou em comportas de canais de levadas de água
entreabertas. Por regra, a transferência de energia por convecção transmite-se com uma
velocidade bastante maior que o processo de transferência por condução ou irradiação.
Se as correntes se processam através do choque entre diferentes temperaturas (sejam
elas aéreas ou marítimas), em determinadas urbanizações cuja morfologia assim o permite, as
transferências de energia por convecção são propícias de aumentar a velocidade dessas
correntes.
Há que explicitar que não é em absoluto a altura de urbanizações e construções que
permite evitar ou aumentar os túneis de vento – é muito mais determinante o tipo de desenho
urbano e os materiais utilizados na construção. O desenho urbano tem sido investigado e
trabalhado por muitos autores, incluindo Olgyay e Santamouris; mas os materiais de
construção possuem igualmente um papel fundamental, embora não sejam ainda diretamente
associados ao planeamento urbano.
Se a discussão sobre o revestimento opaco dos corpos edificados se restringe à
colocação de isolamento pelo exterior ou pelo interior das paredes – cuja preocupação é
centrada no conforto interior dos edifícios/frações – não nos apercebemos de que existe uma
relevância e um grande potencial na capacidade de absorção ou expulsão da energia nos
materiais das envolventes. Naturalmente que uma fachada com materiais leves terá pouca
retenção de energia e o contrario acontece nas fachadas com materiais mais pesados,
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independentemente da capacidade de absorção. Significa também que uma envolvente


exterior de cor negra não apresenta grande relevância na absorção por irradiação, dado que
não consegue manter a energia durante muito.
Se no futuro, com a generalização da aplicação de isolamentos nas fachadas, a questão
da absorção de energia será praticamente irrelevante, é fundamental que se estude e
compreenda o comportamento térmico do espaço exterior, pois o seu mau desempenho é
propício de um aumento dos efeitos de túneis de ventos, devido aos diferenciais de
temperatura que possam existir.
Para concluir, apesar da convecção de energia causar um aumento da corrente de ar e
permitir um menor impacto da heat island, este fenómeno não provoca uma aumento do
conforto exterior, pelo contrário, pois o vento gerado não só é causador do efeito de wind chill
(processo que retira energia aos corpos criando a perceção ou sensação de uma temperatura
inferior à temperatura ambiente), criando situações de incómodo e desconforto climático,
como também constitui um elemento pernicioso à saúde. A ventilação natural dos espaços
urbanos exteriores deve fazer o seu percurso naturalmente, à velocidade menos intensiva e
desconfortável possível. No caso da particular do clima mediterrânico, devemos ter em
consideração que, apesar do efeito de wind chill resfriar ligeiramente os corpos, não significa
que exista efetivamente conforto climático no período de verão; o desconforto causado pelo
efeito dos túneis de vento mantém-se em qualquer circunstância.

3.01.06 Infraestruturas – complementos de um plano

A palavras do urbanista Diogo Mateus descrevem de forma precisa um dos principais


problemas do território urbano nacional nas últimas décadas: “Sabemos que o território
português é fruto de um conjunto de loteamentos, isto é, a imagem que temos das novas áreas
urbanas é a de um aglomerado de projetos centrados sobre si, o que acarreta inevitáveis
problemas de desenvolvimento.” (Mateus, 2004, 144).
Esta observação de Diogo Mateus, defendida pelos urbanistas, refere-se a uma
incapacidade geral que tem vindo a persistir na sociedade, no âmbito do ordenamento urbano,
especialmente na gestão e elaboração de planos municipais. De facto, enquanto os planos
urbanos constituírem meros somatórios de projetos e especialidades de urbanizações,
individuais, onde os intervenientes não comunicam entre si, torna-se praticamente impossível
que se obtenham bons resultados. Mas não é só no âmbito do urbanismo e planeamento que

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assim sucede, o problema tem vindo a ser uma constante no próprio ramo da arquitetura. O
Arquiteto Pedro Cabrita exprime uma visão no sentido oposto desta realidade, ao dizer que
“Um bom projeto de arquitetura é sempre o resultado de uma integração plena das
especialidades” (climatização[C], 2009).
Tem sido frequente no setor do planeamento existir pouco interesse e por vezes algum
desprezo pelo trabalho conjunto com outros sistemas, considerados como especialidades ou
incumbências burocráticas, encarados apenas como algo secundário apesar de obrigatório. No
ramo do planeamento urbano, o desenho da cidade tem uma importância relativa com as
outras especialidades. Neste caso dos estudos sobre a forma da cidade, é premente entender as
necessidades dos complementos dos principais sistemas, como as redes de canalizações,
esgotos, escoamentos de águas, aquecimentos ou simplesmente a gestão dos espaços
envolventes.
Nesta sequência de ideias, pretende-se explicitar que há uma grande necessidade de
estudar todos os sistemas envolvidos num plano antes de proceder ao seu desenho e
elaboração concreta. Já Abel & Elmoth, como foi mencionado, referem que durante muito
tempo os aparelhos elétricos resolveram os problemas de climatização dos edifícios e, em
nenhum aspeto, a sua fachada era considerada determinante. O conceito de estética
relacionava-se com as opções de ligação com a envolvente, com a expressão artística pessoal
do arquiteto.
Neste momento, partiu dos próprios investigadores ligados a especialidades da
construção, como a engenharia mecânica, a determinação de que a maior parte da recuperação
energética começa sempre no edifício em si, no seu desenho e planeamento, dado que o seu
conforto prepara-se por elementos e ações tão simples como a receção ou oclusão ao da luz
solar. Estas conceções, ao conhecerem ampla difusão e aplicação, acabarão por implicar uma
nova imagem da cidade. Assim como a constituição das agências como a IEA (International
Energy Agency) e vários projetos como o AIC (Air Infiltration Centre), que depois se veio a
denominar por AIVC (Air Infiltration Ventilation Centre) após 1973.
Nesta sequência destes temas, a Arquiteta Lívia Tirone abordou no seu programa de
seminários no âmbito da iniciativa “construção sustentável” – a decorrer desde 2009 – a
capacidade integrar cada vez mais circuitos fundamentais e que até ao presente têm estado
desfasados, como as redes elétricas, nomeadamente programas como as smart grids, um
sistema de redes elétricas urbanas, que têm o intuito de proporcionar um balanço energético
mais equilibrado ao serem criados vários sistemas desde a microprodução à gestão
cuidada/equilibrada de recursos.
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O projeto da Climaespaço, empresa de produção de trigeração (produção simultânea


de eletricidade, frio e calor) foi pioneira nos Planos de Pormenor da Expo/Parque das Nações,
que com o decorrer do tempo foi infelizmente colocado de parte, sem cumprimento do plano
em prol de interesses entre o construtor e o próprio cliente, pouco preparado para o conforto
térmico e aliciado a uma redução do investimento inicial na sua primeira habitação. Este
projeto/parceria ainda fornece, apesar de tudo, energia a um grande número de frações e
edifícios da área do Parque das Nações, permitindo vantagens financeiras convidativas ao
utilizadores dos serviços. É fundamental segundo Ramos, conforme referiu em 2002, que “as
cidades terão que se infraestruturarem, para possuírem centrais de trigeração e redes urbanas
de distribuição de água quente e fria.” (O instalador [I], 2002)
Através da mesma iniciativa de Lívia Tirone, Karl-Henrik Robert apresentou um
seminário intitulado The Natural Step, em 22 de fevereiro de 2010. O autor, no sentido de
criar alguma “claridade“ (expressão utilizada pelo autor, face às contínuas opiniões por vezes
de tal forma controversas) elogia o esforço humano e as suas competências desenvolvidas em
prol de uma sociedade equilibrada, sustentável e agradável, opondo-se contra o outro lado do
ser humano que defende valores egoístas e fúteis. Têm vindo a ser desenvolvidos programas
no âmbito da sustentabilidade e da qualidade de vida, ainda em fases de investigação, mas
ainda com pouca aceitação ou pelo menos com relutância de serem empregados não só no
setor da construção, como nas próprias atividades e práticas quotidianas. Karl-Henrik Robert,
ao abordar conceitos de sustentabilidade, questiona o impasse e as dificuldade das crescentes
descobertas, investigações, desenvolvimentos e capitais de investimento comunicarem entre
si. Problemas que se repercutem na falta de coordenação científica e de comunicação. Por
exemplo, um cientista é especialista em recursos hídricos e outro no aquecimento global, mas
infelizmente, embora trabalhem em áreas interdependentes e que respeitam ao objeto de
ambos, eles não comunicam, não trocam impressões nem saberes. O mesmo acontece também
no caso dos gestores e decisores políticos de topo – apesar do papel de ambos ser
relativamente importante na liderança e em todo o tipo de decisões e escolhas de um país –
em que pouca ligação e comunicação existe entre si, com problemas e soluções totalmente
distintas.
Acompanhando a exposição de Karl-Henrik Robert, entende-se que cada vez mais
existe necessidade de comunicação entre sistemas urbanos que por vezes são concebidos de
formas totalmente divergentes. Por outro lado, é comum a existência de infraestruturas com
dimensões exageradas ou insuficientes, sem existir perfeita noção das necessidades da
população. Como exemplo flagrante temos atualmente os projetos da rede elétrica nacional
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

para iluminação pública. Durante décadas projetaram-se e erigiram-se postes e lâmpadas de


iluminação pública, na maior parte das vezes sem qualquer dimensionamento do lúmen (Lm),
medida de fluxo luminoso, necessário para a iluminação da via pública, mesmo com a
existência da norma EN13201. Atualmente, um dos pontos do programa de eficiência
energética na iluminação tem sido apenas retirar as lâmpadas de alguns postes, o que por
ironia constitui uma aproximação intuitiva à EN13201, que já previa esse tipo de
dimensionamentos.
Dentro destas características, identificadas por Karl-Henrik Robert, é de concluir que
apesar de certas ações do ser humano serem de grande mérito à sociedade, existe uma grande
descoordenação e individualidade das medidas.
No planeamento urbano existe a necessidade concreta de dimensionar corretamente as
infraestruturas e todas as especialidades inerentes a uma boa prática de gestão e sociabilidade.
Neste sentido, a forma da cidade não depende de maneira alguma de um modelo térmico
perfeito ou ideal, mas de um modelo intimamente associado com as características e
condicionantes envolventes, doutro modo seria considerado uma ilha dentro do seu próprio
território urbano, desligado dos outros bairros envolventes. No caso das infraestruturas, como
o caso atrás referido da eletricidade, existem determinadas situações como picos de corrente
que são solucionáveis, por exemplo, pela estabilização da corrente, com a integração de
projetos ligados ao conceito de smart grids ou de micro-geração de energia pela utilização de
painéis fotovoltaicos.
Apesar de ainda existir alguma relutância – de promotores imobiliários, projetistas e
técnicos, decisores autárquicos, entre outros – na integração destes novos projetos de
eficiência e gestão energética nas urbanizações, estes são fundamentais para uma
estabilização dos consumos energéticos. A falta de coordenação entre lotes e urbanizações
contíguas, além dos impactos urbanísticos que gera, induz perdas substanciais de energia.
Outro dos modelos mais importantes e que tem vindo a ser desprezado consiste na
integração de cisternas, conforme foi prática corrente durante grande parte da história nos
espaços mediterrânicos. A integração de cisternas nas urbanizações não permitirá, nos nossos
dias, a substituição total das estações de tratamento das águas, pois a sua utilização para
determinados fins é relativamente inviável. Mas a captação para aproveitamento das águas
pluviais – através do plano de água dos telhados e em parte dos solos impermeáveis das áreas
urbanas – é um conceito perfeitamente viável e aplicável para a rega dos espaços verdes e
limpezas, entre outros usos.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Neste âmbito, é pertinente referir que um simples metro quadrado de um plano de


água de um telhado em Lisboa representa, em média, um quilolitro de água anualmente. Esse
valor é cerca de metade nas zonas Sul e raianas, mas duplica nas zonas litorais do Norte do
pais. A gestão correta e adequada dos recursos hídricos pluviais, nas urbanizações, seria
suficiente para manter grande parte dos espaços verdes das grandes cidades no período mais
seco do verão. Apesar de este parecer ser apenas um elemento específico de um projeto de
arquitetura, os planos urbanos deveriam obrigar à implantação deste tipo de infraestruturas,
devendo estar interligadas e corretamente dimensionadas, previstas logo no início dos planos.

3.02 Introdução aos conceitos bioclimáticos, contextualizados com normas e


princípios de planeamento urbano

3.02.01 À volta da forma da cidade (que não é uma árvore)

O célebre artigo de Christopher Alexander, “A city is not a tree”, marcou com relativa
importância o percurso académico do planeamento urbano, sobretudo pela exposição de
conceitos derivados da arquitetura moderna e de resultados de planos urbanísticos. Ao tentar
determinar que a cidade não é passível de ser formada por sistemas sectoriais
simplificadamente definidos, pois é totalmente dependente das escolhas e desejos dos
habitantes, o autor conseguiu orientar o pensamento para conceitos urbanísticos que na altura
pouca expressão possuíam, apenas defendidos por escassos teóricos, como Jane Jacobs.
Esta referência ao texto de Alexander é essencial à critica do futuro da forma da cidade
e à necessidade de evitar velhos erros na história do planeamento. Existe um nível de
pragmatismo mecânico e elementar que se pretende evitar, mesmo sabendo que poderá
determinar eficazmente a racionalização energética.
Conforme se expôs no capítulo referente à análise do pensamento e consciencialização
sobre questões energéticas e de sustentabilidade, sendo o consenso europeu tão forte nesta
matéria, deverão ser evitados quaisquer planos ou medidas extremas no planeamento urbano e
dos recursos em prol de uma racionalização energética massiva – de forma a eventual
poupança energética não afetar negativamente as condições de habitabilidade, trabalho, bem-
estar e qualidade de vida dos cidadãos.

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É especificamente nesta sequência que na presente investigação analisam-se propostas


para a forma da cidade e do edificado, através da comparação de casos efetivos (de edifícios e
bairros) e de exemplos teóricos de volumetrias térmica e energeticamente perfeitas.

“Contemplar cidades pode ser especialmente agradável, por mais vulgar que o
panorama possa ser. Tal como uma obra arquitetónica, a cidade é uma construção
no espaço, mas uma construção em grande escala, algo apenas percetível no
decurso de longos períodos de tempo. O design de uma cidade é, assim, uma arte
temporal, mas raramente pode usar as sequencias controladas e limitadas de outras
artes temporais como, por exemplo, a música. Em ocasiões diferentes e para
pessoas diferentes, as sequências são invertidas, interrompidas, abandonadas,
anuladas. Isto acontece a todo o passo.” (Lynch, 2002, p. 11)

Depois de nas últimas três décadas do passado século se assistir a um desenvolvimento


frenético da construção de edifícios e com a introdução de planos urbanísticos e outros
instrumentos de gestão territorial, o início deste novo século, com todos os problemas
decorrentes das más práticas urbanísticas, constituiu-se como um autentico travão à
velocidade destas práticas.
As cidades dependem de facto da sua energia (energia traduzida nas necessidades
sociais, do mercado, das estruturas, etc...) e qualquer imposição austera é tida em conta com
relativa relutância: Senão faz parte do hábito e senão é desejado, então não é aceite! Deste
modo, e como princípio, o sistema volumétrico adequado ao meio urbano deverá ser muito
bem estudado e ponderado antes de qualquer renovação significativa da cidade, mesmo que
esta possa induzir uma enorme mais-valia económica. Há que refletir e apenas interagir de
acordo a “arte temporal” assim expressa por Lynch, com o seu tempo (época ou período) e o
seu estudo de comportamento social.
Se determinadas densidades ou morfologias de construções são efetivamente
prejudiciais à locomoção humana ou à existência de espaços públicos adequados que
permitam as atividades diárias, o mesmo resultado nefasto se obtém com sistemas/planos
extensos de urbanizações compostas de moradias dentro da cidade, dado que desta forma uma
grande parte do território urbano tem, frequentemente, um uso privado e não público. No
entanto, conforme foi verificado com alguma surpresa, o sistema de edifícios com
morfologia/volumetria esférica é aquele que permite a melhor disposição solar ao espaço
público, pois recebe luz solar em praticamente toda a superfície do espaço público, além da
taxa de espaço público e privado poderá chegar aos 90%.
Apresentando também Lynch, “A legibilidade é crucial na estrutura citadina: analisar-
lhe-á em pormenor e tentará mostrar como este conceito pode, hoje em dia, ser usado quando
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se reconstroem as nossas cidades.” (Lynch, 2002, p. 13). Neste âmbito da legibilidade, um


sistema urbano composto por corpos edificados independentes entre si – ou seja, por moradias
unifamiliares – cujo aspeto estético das fachadas seja indiferentemente constante ou antes
divergente, será sempre pouco propício a uma boa legibilidade. O mesmo pode suceder
noutros planos com corpos de edificados diferentes. A legibilidade da cidade, segundo Lynch,
e seguindo igualmente a ótica de Alexander, deve ser coerente de modo a guiar, orientar e
referenciar o cidadão no espaço urbano. De facto, este princípio não invalida que qualquer
urbanização possa ser “incoerente” ou diferenciada das demais, pois não existe uma fórmula
exemplar nem tem necessariamente que existir. Mas uma densidade da forma urbana capaz de
se moldar com os aspetos e valores sociais e culturais é propícia a enquadrar-se nesses
conceitos de legibilidade.
É nesta sequência de ideias que Lynch refere a construção dessa imagem do meio
ambiente como resultado de um processo bilateral entre o observador e o meio. “O meio
ambiente sugere distinções e relações, e o observador – com grande adaptação e à luz dos seus
objetivos próprios – seleciona, organiza e dota de sentido aquilo que vê.” (Lynch, 2002, p. 16)
Neste sentido, Lynch analisa essa imagem em três componentes: identidade, estrutura e
significado.
Se térmica ou climaticamente o “ótimo” consiste em manter uma forma constante, tal
poderá implicar uma característica terrivelmente monótona, caso não exista um trabalho de
interpretação com alguma imaginação nas componentes estéticas das fachadas. Mas o que é
facto, é que os resultados de uma forma volumétrica mais constante (poliédrica regular) são
muito superiores limitando desde logo a demarcações de identidade através da estrutura física
da cidade: “Os elementos marcantes, pontos de referência considerados exteriores ao
observador, são simples elementos físicos variáveis em tamanho. Para aqueles que conhecem
bastante bem uma cidade, está comprovado que os elementos marcantes funcionam como
indicações absolutamente seguras do caminho a seguir (...)” (Lynch, 2002, p. 90). Ainda de
acordo com Kevin Lynch (2002, p. 114):

“A força de uma imagem aumenta quando o elemento marcante coincide com uma
associação. Se o edifício em causa é cenário de um acontecimento histórico ou se a porta
notavelmente colorida é a da nossa própria casa, torna-se de facto, um elemento marcante.
Mesmo a doação de um nome tem um determinado poder, desde que esse seja um nome
conhecido e aceite.”

Se Alexander determinou que a cidade não podia ser planeada de forma puramente
sectorial e artificial, determinou também que os seus elementos físicos e funcionais não
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

fossem nem muito complexos ou demasiado monótonos. Kevin Lynch vai mais longe em
estabelecer o espaço como uma identidade que nos referencia. É a resposta necessária ao
perigo da eventual “monotonia bioclimática” e mesmo aos efeitos uniformizadores da
globalização. Pontos de qualidade de uma forma enquanto morfologia, conforme define o
autor, sejam a singularidade, simplicidade de forma, continuidade, predominância, clareza de
ligação, diferenciação direcional, alcance visual, consciência de movimento, séries temporais,
nomes e significados, fazem todos parte de uma análise essencial a esse combate. Conforme
Lynch reforça com sentido mais conclusivo, “(...) Uma arte do design urbano bastante
desenvolvida está ligada à criação de uma audiência crítica e atenta. Se a arte e a audiência
crescerem juntas, as nossas cidades serão uma fonte de prazer diário para milhões de
habitantes.” (Lynch, 2002, p. 133).
Com o seu livro seguinte, A Boa Forma da Cidade, Lynch esforça-se por determinar
algumas soluções menos teóricas, conforme tinha deixado em dúvida ou suspense no seu
trabalho anterior. Qualquer urbanista entenderá que as nossas cidades devem efetivamente
representar “uma fonte de prazer diário para milhões de habitantes” (Lynch, 2002, p. 133) e
que estas devem possuir os elementos que lhe conferem qualidade, conforme Lynch define.
Mas a forma como a cidade adquire essas valências é complexa requer uma perspetiva
pragmática.
Lynch estabelece uma definição de cidade como forma espacial à volta de três teorias:
planeamento, funcional e normativa. Ao entrarmos neste novo capítulo do autor acerca da boa
forma da cidade, temos de entender que todo o conceito espacial da forma depende de uma
densidade adequada, com menos arestas, de alguma forma mais limitada. Pelo menos do
ponto de vista da gestão energética.
De facto, “a modificação do aglomerado populacional é um ato humano” salvo raras
exceções como cataclismos “ainda mais complexo, provocado por causas humanas, ainda que
obscuras e ineficazes.” (Lynch, 1999, p. 11). Acompanhando a necessidade de combate ao
pragmatismo extremo do planeamento moderno e à necessidade de repensar mais os aspetos
humanos e identitários de cada cidade, recuperam-se muitos conceitos já referidos pelo
próprio Vitruvio, como a vitalidade e salubridade das cidades, uma referência indireta à saúde
e bem-estar no espaço urbano. O que não difere essencialmente do que Santamouris e
Asimakopoulos abordam sobre a qualidade urbana.

“Um ambiente é um bom habitat se servir de apoio à saúde e ao bom


funcionamento biológico do indivíduo e à sobrevivência da espécie. A saúde é
surpreendentemente difícil de definir. Muitos aspetos da saúde (e até mesmo a
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

definição de saúde) dependem mais da estrutura social do que da estrutura ambiental.”


(Lynch, 1999, p. 119).

A saúde no que se refere à qualidade do ar, interior ou exterior, tem sido um campo
muito atual de discussão. Já não possuímos os mesmos problemas do período da revolução
industrial, embora exista cada vez mais uma noção e consciência concreta do ar impuro,
totalmente invisível e altamente prejudicial. Se o aumento das impurezas traduzidas pelas
ppm (partes por milhão – unidade de medida de partículas) são motivo de redução da
esperança de vida, alguns gases como o vulgar CO2 são ainda propícios de causar outros
problemas psicológicos, como o típico e quotidiano stress (ou estado de enervamento
excessivo).
Lynch, muito antes de discutir as temáticas enunciadas, apresentou três características
fundamentais à boa forma da cidade: sustentação, segurança e consonância (com a estrutura
biológica básica). O autor defendia que as propostas – principalmente as utópicas – que
deveriam ser motivo de originalidade, pragmatismo e sucesso acabavam por não abordar a
questão do local ou da zona e da sociedade em conjunto; cruzando-se estas preocupações com
opiniões expressas por Alexander, que fortemente crítica a falta de respeito das ações
humanas, perante os ambientes físicos, no ato de conceção de planos ou projetos de grande
dimensão.
O plano regular, um sistema de quadrícula mais conhecido pelo acampamento militar
romano com os seus eixos principais, Cardus e Decumanos, foi desde há muito utilizado por
diversas civilizações em todos os períodos da história. Apenas por diversos momentos e
circunstâncias a sociedade existente não o permitiu.
Lynch questiona a existência de uma normativa geral, uma “receita perfeita”
universalmente aplicável, mas responde de seguida que o tempo, local ou culturas específicas
são propícios de ter maus resultados quando aplicados/extrapolados de um espaço para outro.
As cidades são organismos únicos e não replicáveis ou multiplicáveis. O que é bom num sítio
e num período, poderá ser péssimo mesmo ali ao lado ou mesmo somente umas décadas
depois.
No cerne destes conceitos de Lynch e de Alexander, bem como de todos os autores
referenciados, incluindo o próprio Vitruvio, expuseram-se e defenderam-se princípios e ideias
que nos nossos dias são consideradas como bioclimáticas. Antes de entrarmos numa etapa em
que possa definir de facto o urbanismo bioclimático como um conceito distante das práticas

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urbanísticas atuais, é notório que muitos destes valores e práticas têm desde há muito existido
no planeamento.
Ninguém parece duvidar quando Lynch refere que “a forma física não desempenha
qualquer valor significativo na satisfação de importantes valores humanos, inerentes às nossas
relações com outras pessoas.” (Lynch, 1999, p. 99). É inegável o papel das relações sociais ou
do caráter individual na obtenção da satisfação e bem-estar. A consonância será um dos
pontos fundamentais da vitalidade no que se reporta ao ambiente espacial e à estrutura
biológica básica do ser humano.
Deste modo, se nós pretendemos canalizar um interesse bioclimático na generalidade
do espaço urbano e densificá-lo através de uma forma volumétrica constante, relativamente
monótona e densa, só a devemos projetar enquanto respeitarmos a «estrutura biológica do ser
humano». Todas estas tarefas seria mais fáceis se o ser humano não fosse um elemento tão
imbuído de imprevistos e indecisões. Existe uma “incapacidade de definir na cidade e no
homem o comportamento programado, sendo pertinente que um programa se concentre (...)
em comportamentos gerais e previsíveis, tais como as relações sociais ou de movimento, do
que nos delicados pormenores de ação.” (ibidem, p. 148).
No período de Lynch, ou seja na segunda metade do século XX, atravessava-se um
crescimento urbano muito acentuado face a um crescimento populacional também elevado
nos países desenvolvidos. A tentativa de evitar o crescimento demográfico e urbanístico não
se coloca hoje nos países desenvolvidos, principalmente na Europa, como nesse tempo. A
construção nas cidades europeias e norte americanas encontra-se estável e na maioria em
processo de retrocesso ou desertificação.
Na atualidade, a maior parte das cidades – neste âmbito as grandes cidades
mediterrânicas – não revelam um crescimento populacional expressivo. Em Portugal, a
evolução demográfica da última década tem sido relativamente estável, bem como nos
últimos 30 anos; e embora a área metropolitana de Lisboa tenha crescido surpreendentemente,
a capital perdeu bastante população. Cidades e capitais europeias, como Lisboa, possuem
maior necessidade de se renovarem do que meramente travarem o seu crescimento, dado que
as suas fronteiras politicas já estão bem delimitadas e ocupadas por “muralhas de edifícios”
dos concelhos adjacentes.
Mas mais importante, como refere Lynch, é o perigo da taxa de mudança da dimensão
(capacidade de alterar o espaço durante um período de tempo). Esta é dominante nas decisões
de planeamento e na gestão corrente de uma cidade. Qualquer decisor político ou analista

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

técnico insensível a esta taxa não tem noções nem consciência do que representa o
planeamento urbano.
A textura interna de um aglomerado populacional é provavelmente mais importante
para a qualidade do seu espaço do que muitos padrões de desenho algo grosseiros que
normalmente até atraíam a atenção do seu design em esboços maquetes ou visualizações, mas
pouca utilidade serviam. Embora cada vez mais se veja uma pressão enorme sobre um
marketing de planos esteticamente atrativos, independentes dos seus benefícios. Lynch ironiza
esta grande atenção conferida ao design e à ilusão gerada por elementos urbanos utilizados
para outros fins, não sociais, quando impostos a uma cultura não preparada criticamente, ao
mostrar-se umas fotos de uma criança a servir-se de um guarda-chuva para fazer de
paraquedas ou de um homem sentado numa soleira (em vez de num banco da rua). Mas é
importante que não esqueçamos que “Nenhuma discussão sobre a forma da cidade pode
ignorar o papel do design” (Lynch, 1999, p. 263) e que, categoricamente, o “modelo mais útil
é aquele em que a dependência da situação em que vai ser aplicado é cuidadosamente
declarada, e em que também é especificada a execução pretendida para esse modelo” (Lynch,
1999, p. 265).
Um pormenor interessante é que no tempo de Lynch os edifícios já pouco utilizavam
os recursos locais, contrariamente ao que ocorreu praticamente durante toda a história. Mas a
consciência desses materiais ou matérias-primas e da sua eventual escassez ou consumo
restrito face a regras de sustentabilidade não eram questões ainda colocadas, pois não se
entendia que tal viesse a constituir um problema. Um dos principais meios atuais da
sustentabilidade é o aproveitamento dos recursos locais, embora baseada numa definição de
termodinâmica, depende muito de interpretação subjetiva. Isto porque do ponto de vista do
objeto científico os universos e os seus limites são definidos pelo observador, de acordo com
a sua pesquisa; deste modo, a definição de local do ponto de vista científico poderá ter uma
área influência com um raio de 400 metros até à dimensão de um continente. Depende sempre
da definição subjetiva do plano ou da sua envolvente ou do decisor no momento.
É preciso declarar as intenções de um modelo de plano para que este desenvolva os
seus padrões, evitando formas completas e que permitam o seu crescimento ou a sua
mudança. Lynch não teve preocupações em abordar diretamente a racionalização de energia,
mas ao evitar que determinadas intenções se sobrepusessem às necessidades de bem estar do
ser humano, fez questão que os planos e as suas modas não absorvessem esses modelos
sociais essenciais.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

3.02.02 Normas urbanísticas e enquadramento de medidas bioclimáticas nos


Planos Municipais de Ordenamento do Território (PMOT)

A forma da cidade só é verdadeiramente definida por um plano de pormenor, pois o


seu nível de pormenor urbanístico envolve várias preocupações e propõe diretamente sobre a
"conceção da forma urbana no detalhe através do seu desenho e composição, servindo de base
aos projetos de execução das infraestruturas, da arquitetura dos edifícios e dos espaços
exteriores urbanos" (Correia, Lobo & Pardal, 1995, p. 133).
Mas, antes de nos preocuparmos em esclarecer essa relação da forma volumétrica com
o plano, há que entender o conceito de planeamento no contexto legal e a sua regulamentação;
bem como a exploração de conceitos alternativos de sustentabilidade, como por exemplo a
utilização da terra como matéria-prima na construção.
Nenhuma lei deverá ser demasiadamente rígida, proibindo ou evitando a criação de
conceitos e práticas inovadores. Por conseguinte, consistirá efetivamente um perigo real se
forem impostas uma série de condicionantes na legislação, como a determinação/obrigação de
uma forma volumétrica dos edifícios adequada às densidades populacionais. Esta situação tem
sido inclusive discutida nas atribuições de índices, que por vezes são imputados de forma
simplista e pouco honesta, no sentido de defender crescimentos desordenados – talvez com
vantagens económicas –que limitam o progresso urbanístico da própria cidade.
O Decreto-lei 380/99, de 22 de setembro, define com relativa minúcia os instrumentos
de gestão territorial e a necessidade de os reconhecer na conceção de um plano. Significa que
o regulamento apela a uma compatibilização dos interesses envolvidos na gestão territorial,
que só é possível através de um levantamento e noção concreta do espaço em estudo e
intervenção.
Mas é interessante que a ambiguidade ou a indefinição de certos conceitos, que ao
serem enunciados de forma muito genérica poderão imprimir alguma insuficiência ao plano,
desvirtuando-o das suas potencialidades. Em especial, podemos identificar a situação expressa
no artigo 8.º do ponto 2.º, princípios gerais, quando é referido que “os instrumentos de gestão
territorial asseguram a harmonização dos vários interesses públicos com expressão espacial,
tendo em conta as estratégias de desenvolvimento económico e social, bem como a
sustentabilidade e a solidariedade intergeracional na ocupação e utilização do território.”
(Decreto-lei 380/99, p. 6594). Já a Constituição da República Portuguesa avançou com uma

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definição no artigo 9º – sobre as tarefas fundamentais do Estado – na alínea e), que é da


incumbência do Estado Português: “Proteger e valorizar o património cultural do povo
português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um
correto ordenamento do território.” (Artigo n.º 9º, alínea e), da Constituição da República
Portuguesa).

Se a sustentabilidade, enquanto conceito, tem vindo a englobar diversas opiniões e


práticas, é difícil de determinar em específico o seu objeto, mesmo seguindo os princípios do
CEU (Conselho Europeu de Urbanistas) ou de outras instituições relevantes na matéria. Não
existe um fio condutor nem elementos de referência inequívocos. No Decreto-lei 80/2006, de
4 de abril – Regulamento das Características do Comportamento Térmico dos Edifícios
(RCCTE), não nenhum anexo que defina ou explicite este tipo de conceitos, como o anexo II
deste regulamento que define vários conceitos técnicos pertinentes, de modo a evitar-se
equívocos ou falsas interpretações de valores, termos e designações.
Por outro lado, entende-se que numa área tão diversificada e multidisciplinar como o
planeamento urbano seja difícil de determinar especificamente conceitos, que exige
necessariamente a delimitação e restrição dos seu âmbito e objeto; ao que acresce algum
receio de condicionar ou limitar a abrangência e/ou imaginação dos planos. No entanto, um
caminho definido de certo que será melhor do que um caminho indefinido.
Os autores Correia, Lobo e Pardal referem no seu quarto volume das Normas
Urbanísticas, sobre o planeamento integrado do território, que o “planeamento na sua forma
mais primitiva é o processo de relacionamento intuitivo e avulso dos homens com o mundo”.
Os autores não defendem essa intuição como uma atitude subjetiva, mas antes sensível à
“configuração das estruturas sócio-territoriais: na sua vertente física, e de superestrutura
jurídica e económica que regulamenta os direitos de uso, apropriação, ocupação e utilização.”
(Correia, Lobo & Pardal, 2000, 2).
Revelamos que os Planos Municipais de Ordenamento do Território (PMOT) ainda do
Decreto-lei 69/90, de 2 de março, como PDM de Lisboa de 1994, que no seu regulamento, no
artigo 50.º, limitou a altura das novas urbanizações a 25 metros (o equivalente a cerca de oito
ou nove pisos). Uma decisão no sentido de evitar um descontrolo urbanístico que se vinha a
verificar desde a década anterior, que obrigou os Planos de Pormenor (PP) a sobreporem-se a
certas decisões, dado serem demasiado rígidas e que em nada ajudavam em situações
concretas de prédios existentes de grande relevância cultural, como alguns dos prémios
Valmor nas Avenidas Novas, edifícios com dois a quatro pisos.
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Á parte destas indecisões e dos perigos que decorrem da determinação de ações e


obrigações específicas na lei, o Decreto-lei 380/99 exige racionalização nas conceções dos
planos quando aborda os conceitos de sustentabilidade, mas também “solidariedade
intergeracional na ocupação e utilização do território” (Decreto-lei 380/99, p. 6594)
O “plano adquire o seu pleno sentido como instrumento de apoio e à decisão e à ação
de uma instituição à qual sejam reconhecidas atribuições, competências e meios para realizar
os objetivos que o informam.” (Correia, Lobo & Pardal, 2000, p. 2). Então a interpretação
segundo os princípios gerais (Decreto-lei n.º 380/99) induz ao conhecimento e interesse da
equipa que executa o plano, pois não se consegue definir com exatidão esses princípios. Por
exemplo, se a equipa de trabalho fosse constituída exclusivamente por especialistas ligados à
racionalização energética, a interpretação destes princípios materializar-se-ia, provavelmente,
na construção de num enorme bloco residencial, cujas dimensões/áreas das frações eram
determinadas de acordo com um sistema relativamente equitativo, mas que seriam inferiores
caso se destinassem a indivíduos economicamente desfavorecidos, proporcionando-se
habitação a um custo inferior. O resultado seria pragmático, mas provavelmente não seria
totalmente entendido por equipas ligadas à sociologia ou à psicologia social, por terem
consequências sociais não previstas e conducentes a ações de discriminação social.
Afinal, “o urbanismo só alcança a sua racionalidade ao exercer uma crítica sobre o
racionalismo do seu próprio método.” (Correia, Lobo & Pardal, 2000, p. 2).
Todos podemos entender que o clima é importante, que a preservação é importante ou
que a ecologia é fundamental. Mas é necessário, dentro destes conceitos, saber delinear
conceitos e medidas que sejam entendidas pelas equipas de planeamento. Retornando um
pouco atrás, em que foram abordados conceitos e fenómenos como as ilhas de calor urbanas,
verificou-se que a própria redução da temperatura das cidades abaixo dos valores climáticos
médios da região em si – contrariamente ao interior das frações ou edifícios – pode ter efeitos
contraproducente e nefastos, podendo tornar inclusivamente a cidade num espaço insalubre.
No entanto, o que atualmente ocorre nos meios urbanos é um grande diferencial
térmico, ou seja, grandes amplitudes térmicas e aumento da temperatura superiores à respetiva
zona e envolvente climática. Neste contexto, um plano poderá determinar que sejam
obrigatoriamente controlados os picos de calor por intermédio de estudos de impacto
ambiental, em planos propostos no âmbito do conforto climático, como no controle da
temperatura, precipitação, ventos ou outros agentes atmosféricos. Um exemplo como este não
limita de forma alguma o traçado e desenho urbanístico e das suas funcionalidades, apenas
seria meramente orientador de um trajeto bioclimático e “sustentável”.
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Por outro lado, as definições das regulamentações legais do SCE (Serviço Certificação
Energética, Decreto-lei 78/2006, de 4 de abril) e do o Urbanismo têm de se aproximar e de
comunicar, tal como se aproximaram (ou mesmo colidiram) com os regulamentos na
arquitetura como o Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU). Nota-se que o
RCCTE, de 4 de abril de 2006, determinou como agravantes as percentagens de envidraçados
superiores a 15% da área do edifício ou fração, quando o RGEU obriga a que (no ponto 1 do
artigo 71.º) “Os compartimentos das habitações serão sempre iluminados e ventilados por um
ou mais vãos nas paredes (...) cuja área total não será inferior a um décimo do
compartimento”.
É profundamente necessário que as regulamentações e normas não estejam desligadas
do planeamento e da construção; serviria de modelo se a regulamentação dos planos tivesse a
capacidade inclusivamente de agir com maior rigor no ato da execução das medidas
(acompanhando o cumprimento e seguimento do plano). E que os regulamentos legais não
entrassem em contradição entre si, dando origem a problemas e impasses legais de difícil
resolução.
Um dos impactos positivos da regulamentação atual do SCE, foi a criação de um
sistema de certificação energética e da qualidade do ar interior no ato do projeto de
construção, exigindo a elaboração de um projeto próprio, e depois uma certificação final no
fim da obra, que permitiu que os peritos qualificados – juntamente com um processo de
sensibilização da parte da ADENE (Agência para a Energia) – acompanhassem com mais
atenção a execução e cumprimento do projeto.
Num certo sentido, seria provavelmente mais sensato se os Planos Municipais do
Ordenamento do Território conquistassem a planificação nos meios urbanos na sua totalidade,
opondo-se aos “planos” de loteamento. No entanto, esta ligação necessária de determinadas
especialidades que podem aparentar ser irrelevantes no planeamento, por se considerar
específicas, são depois empurradas de forma totalmente individualista por cada construtor
limitados ao seu lote e implantação de edifício. O plano pode definir a cores de fachada mas
depois cada construtor compra tintas com pantones e marcas diferentes e na prática nunca fica
igual dando inclusive uma ideia “suja” e menos estética. Também mais relevante são as redes
de climatização que nunca são combinadas entre lotes mas sim individualizadas por fração.
O que deveria fazer sentido, fosse através dos PMOT ou dos planos de loteamento, era
obrigar à existência e implantação prévia de redes essenciais e indispensáveis como
eletricidade, água, gás, estruturas de saneamento, sistemas de climatização e de
aproveitamento de energia, desde o aproveitamento da luz solar até à captação das águas
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

pluviais. Não esquecendo as vias de comunicação e acessibilidades adequadas, entre outras


medidas relevantes. Não é diferente de como os planos de loteamento exigem um número
mínimo de estacionamentos comuns ou os planos de pormenor exigindo cores e desenhos
específicos das fachadas. São normas e especificidades, tal como cores ou parqueamentos,
mas são esquecidas por falta de sensibilização ou de conhecimento.
É comum encontrar os postes ou candeeiros de iluminação pública sub ou
sobredimensionados e muitas vezes a colocação em nada obedece à norma EN13201, que
determina a necessidade de lúmens necessários. Como não há exigência no Decreto-lei 380/99
de seguir as normas destas especialidades, a disposição de várias infraestruturas condiciona
muito as despesas municipais em energia, dado que a maior parte das vezes estas encontram-
se sobredimensionadas, conforme verificou por exemplo a Agência Regional de Energia e
Ambiente do Norte Alentejano e Tejo (AREANATejo) que – num estudo decorrente de 2009
a 2011 – conseguiu reduzir 15% do consumo da iluminação pública dos concelhos do distrito
de Portalegre, sem recursos a substituição de postes mais eficientes e cumprindo a EN13201.
Situações como a do anterior exemplo e a existência de programas subsidiados pela
União Europeia (FEDER e QREN), como o Programa Operacional Regional do Centro (Mais
Centro) para eficiência energética na iluminação pública, “Mais centro”.-reformular6 Eixos
do Mais-Centro, um deles desenvolvimento das cidades e dos sistemas urbanos. Seria mais
conveniente que em vez de se resolverem estas discrepâncias ou desajustes financeiros através
de correções e por intermédio de programas de financiamento deveria ser logo previsto na
conceção dos próprios planos em si. Existe legislação própria de várias normas, mas os
decretos não os obrigam a executar.
É comum nos países da Europa central e da América do Norte os edifícios e frações
estarem preparados com sistemas de aquecimento central e das águas sanitárias, sem
necessidade de ter de se recorrer a um esquentador ou uma caldeira mural para esse efeito. Se
é perfeitamente comum e elementar na atual construção de edifícios a colocação de sistemas
de climatização totalmente independentes entre frações (como caldeiras murais), sabendo que
não é esse fator que impede contagens individuais das despesas respetivas, também é
perfeitamente possível colocar sistemas que sejam dimensionados para todas as implantações
dos planos (como o projeto Climaespaço, na Expo), retirando-se ao construtor ou promotor as
preocupações de saber qual o esquentador ou caldeira adequados para que a fração ou edifício
possa usufruir de aquecimento central e águas quentes sanitárias.
As normas têm um papel fundamental nas boas práticas das áreas sobre as quais
incidem, mas dependem inteiramente de uma lei que enquadre a aplicabilidade das mesmas,
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

como o caso, por exemplo, do SCE (Serviço de Certificação Energética) que enquadra a
NP1037, norma referente aos requisitos da ventilação natural. Se o planeamento urbano
implica grandes preocupações e a gestão de sistemas muito complexos e divergentes entre si,
a própria regulamentação deveria proporcionar não só uma definição adequada de conceitos
como “sustentabilidade” – através de artigos ou alíneas nos textos legais e/ou de um glossário
anexo – como estabelecer a obrigatoriedade de estudos e a aplicação de sistemas
fundamentais, como a climatização coletiva, estudos de ventilação natural e de
comportamento do edificado.

3.03 A relação de espaço urbano com conceitos bioclimáticos no planeamento e


mediterrânico

3.03.01 Urbanismo Bioclimático Mediterrânico

Inversamente à «especialização» ou divisão da maioria das preocupações bioclimáticas


– que se ocupam individualmente ou dos ganhos ou das perdas de energia – o clima
mediterrânico exige incondicionalmente ambas as condições. O mesmo poderá suceder em
outras regiões do mundo, mas certas características que popularizam e individualizam o clima
mediterrânico em âmbito mundial – não somente em determinadas áreas como a vinicultura
ou a olivicultura, mas no próprio turismo – obrigam a uma necessidade de compreensão e
preservação do espaço, mesmo enquanto solo licitamente urbano.
Conforme já exposto nos comentários referentes ao clima, o território mediterrânico
caracteriza-se pelo equilíbrio entre duas estações: inverno e verão. Estas duas estações não
têm um fim nem um início perfeitamente definido, se assim fosse, quase que se construiriam
as casas com duas finalidades diferentes, uma para uso no inverno e outra no verão. A
realidade é um pouco mais complexa, dado que a temperatura média diária não equivale às
temperaturas mínimas e máximas diárias, além de o Sol ter um papel determinante na
sensibilidade do ser humano. Por exemplo, no mês de maio podem existir temperaturas
médias inferiores a 15 ºC, logo com necessidades evidentes de aquecimento. Contudo, apesar
das temperaturas médias serem relativamente baixas, as máximas diárias frequentemente
ultrapassam os 20 ºC, nos horas de maior insolação. Note-se que a posição do Sol no mês de
maio é superior a 70º de amplitude, a 0º de azimute, ou seja, a Sul. A irradiação é fortíssima.
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Significa deste modo que podemos experienciar sensações térmicas contraditórias, de grande
calor durante o período do almoço, mas durante a maior parte do dia o corpo está exposto a
temperaturas muito inferiores às de conforto (20-25 ºC), sendo mais percetíveis de manhã e ao
entardecer.
O corpo humano não deve ser sujeito a um grande diferencial de temperatura por
questões relativas à própria saúde. Se o nosso corpo estiver a uma temperatura ambiente
exterior entre 20 e 25 ºC e ainda a ser irradiado pela luz solar, a sensação de temperatura
corporal poderá ultrapassar os 30 º C, ou seja muito acima dos limites de conforto climático.
A não previsão dos impactos das amplitudes térmicas é um erro muito comum na arquitetura,
principalmente em equipamentos escolares e de saúde, onde os técnicos de arquitetura,
desconhecendo os impactos dos diferenciais de temperatura e obcecados com a iluminação
natural dos espaços, concebem grandes envidraçados. Por vezes, a colocação de palas também
não permite a manipulação ou controlo da iluminação solar, dado que os seus melhores efeitos
são obtidos praticamente apenas nos envidraçados a azimute 0º (Sul) e muito bem
contabilizados.
O equilíbrio entre as duas estações não deverá contudo ser uma ponderação. Também
não deverá ser uma média, moda ou conjunto. O equilíbrio deverá constituir num percurso no
qual se encontrem muito bem definidos os seus extremos, de modo a manter-se a sua
estabilidade. Se retirarmos uma das estações ou simplesmente a enfraquecermos, não
descaracterizamos o clima, pior que isso, será destruído. A envolvente climática da cidade ou
do edifício deverá ser encarada tanto na perspetiva da sua região geral (neste caso a
mediterrânica) como na perspetiva do seu microclima e neste em particular devemos ter em
consideração a topografia, insolação, vegetação, água e ventos. A envolvente climática, que
no passado tanto seduziu e continua hoje a atrair os povos, é uma característica que não pode
ser desprezada e que determina mesmo filosoficamente a própria designação de
mediterrânico.
Depois de explicitar brevemente a envolvente climática mediterrânica será necessário
integrar e contextualizar os conceitos de urbanismo e bioclimática neste âmbito. Como temos
vindo a expor no decurso deste trabalho, as noções de conforto térmico ou climático interior
não deverão ser as mesmas dos espaços exteriores, não necessariamente por questões
fisiológicas do ser humano, mas pelo equilíbrio que se pretende manter no espaço envolvente.
Ao contrário de muitas conceções de planos integrados em conceitos bioclimáticos,
pretendendo integrar obsessivamente apenas a envolvente natural, é desde logo, fundamental
que no planeamento se respeite acima de tudo a envolvente artificial (espaço existente e
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

construído, devoluto ou não mas transformado pelo homem), dado que esta faz parte do
espaço, gostemos ou não, esteja mal ou bem concebida.
A localização ideal de um edifício, de um conjunto ou aglomerado urbano deve
obedecer e ser precedida de um estudo climático correspondente; nem sempre devemos
considerar a aparentemente melhor zona climática como a mais propícia à urbanidade, como
referem muitas vezes os ensaios e trabalhos de investigação sobre bioclimática.
No campo do urbanismo é notória a existência de múltiplos fatores influenciadores e
intervenientes na composição física do espaço. Um exemplo paradigmático nos territórios
mais afastados dos centros urbanos e metrópoles, é o dos meios rurais, pois raramente os
aglomerados urbanos nos espaços rurais integram os terrenos mais protegidos dado que estes
são por vezes ótimos para a sua produção agrícola ou mesmo proteção e recinto dos animais.
É nesse sentido que se verificam estas aldeias mais históricas em pequenos montes e maciços
de pedra, locais ótimos para habitações mas impróprios à produção agrícola e rentabilização
económica.
Seja na arquitetura seja no urbanismo, o sol materializa um tema central na discussão
dos conceitos e práticas bioclimáticas na construção e no planeamento das cidades. Não
compreendendo as especificidades do clima mediterrânico, certos autores copiam ideias ou
práticas bioclimáticas de países com climas mais frios e com Verãos mais curtos e pouco
acentuados. Significa que qualquer medida passiva ou preventiva (sem recurso a aparelhos de
climatização) necessária na Europa central, será na maioria das vezes evitada nas regiões de
clima mediterrânico, que ainda no desfecho do inverno já se preparam para o verão.
O arquiteto Francisco Moita menciona na sua obra Energia Solar Passiva que “(...) a
distância mínima entre os edifícios consagrada na legislação de planeamento urbano deve ser
determinada em função da altura mínima do Sol no inverno” (Moita, 2010, 45).
Lívia Tirone sustentou a mesma posição num workshop sobre construções
sustentáveis, em 14 de abril de 2011, revelando a amplitude do Sol mínima no inverno em
Portugal, de modo a permitir uma correta insolação em todas as frações. Mas no planeamento
urbano aplicado ao clima mediterrânico não é necessariamente o conveniente pois a luz é
necessária, mas não é necessária e exclusivamente a luz solar com incidência direta, sendo os
ganhos solares menos relevantes que as necessidades de perda no inverno. Por outro lado, não
é através do Sol que conseguiremos obter o conforto térmico suficiente no interior dos
edifícios; apenas se permite um pequeno aumento do desempenho energético no inverno. Mas
poderão existir consequências pouco convenientes em meio urbano, ao criarem-se
afastamentos suficientes para permitir as cérceas necessárias à entrada da luz solar em todas
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

as frações, conforme se demonstrará no texto sobre a importância das áreas de influência nas
decisões, medidas e ações bioclimáticas.
As cortinas vegetais têm constituído outra matéria controversa e são por vezes
defendidas como um sistema ou medida bioclimática ideal em âmbito urbano. As cortinas
vegetais são estruturas e espaços cobertos de plantas, implantadas em fachadas ou telhados.
Mas é necessário possuir conhecimentos aprofundados de botânica e de gestão de espaços
verdes para que tais instalações funcionem.
Numa ilha de calor urbana com uma dimensão de cerca de 10 hectares, um espaço
verde com uma dimensão de 20% da ICU e com um lago, pode criar uma diminuição de dois
ou mais graus de temperatura. O impacto da redução de 2 ºC no interior dos edifícios/frações
poderá equivaler a uma redução substancial nas necessidades nominais de aquecimento e
arrefecimento, de pelo menos 3%, dependendo da respetiva zona climática. Por exemplo,
numa zona como Almada ou Cascais (consideradas das zonas do país climaticamente mais
bem favorecidas), o impacto da redução de alguns graus da temperatura é excelente para
reduzir as necessidades nominais. Mas na Covilhã, Oleiros ou Vila Real, o referido impacto é
bastante menor, dado que se tratam de zonas climáticas bastante mais agravadas do que as
anteriores e mais distantes das temperaturas de conforto.
Por outro lado, todas as plantas requerem manutenção e aquelas que menos precisarem
menos será o impacto no clima. Como hipótese, as melhores plantas para reduzir o impacte
das ilhas de calor serão eventualmente as «algas verdes», ótimas produtoras de oxigénio e
fixadoras de carbono. No entanto, as algas exigem um consumo excessivo de água e um
controlo rigoroso do seu crescimento, mas além disso, propiciam o desenvolvimento de
diversos vírus, fungos, insetos e bactérias (entre elas a legionella) que normalmente morrem
no período de verão, com a escassez de água. E, conforme já referido, há que ter em atenção
que a diminuição dos efeitos das ilhas de calor não deve colocar em perigo a salubridade do
meio urbano.
É inegável que a vegetação tem ainda um papel fundamental nas cidades e há que
ponderar as dimensões e características dos espaços verdes, distinguindo o que é aconselhável
de eventuais exageros. Os espaços verdes devem existir e – conforme verificado no inquérito
efetuado à população (já exposto e analisado) – isto é consensual em praticamente toda a
amostra inquirida.
Além disso, as cortinas verdes são perfeitamente passíveis de serem concebidas e
implantadas em todas as cidades, mas devem também cumprir regras necessárias de acordo
com a sua manutenção, disposição social (gosto e aceitação do publico alvo) e impactos na
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

qualidade do ar. As plantas, por sua vez, deverão ser adequadas à sensibilidade das pessoas
para as poderem conservar com a manutenção adequada.
Nos arruamentos, a vegetação de folhagem persistente pode funcionar como uma
barreira (ou filtro) aos túneis de vento. As barreiras poderão representar obstáculos à
renovação do ar, mas também agem como filtros. O equilíbrio numa disposição de árvores
deve ser muito bem estudado, começando por entender muito bem o tipo de folhagem (se é
caduca ou perene), mas também o tipo de crescimento da planta, o formato de copa, o período
de floração, o tipo de solo a que esta melhor se adapta e a qualidade do ar e ruído envolvente,
que por norma são consideradas circunstâncias supérfluas. É de salientar ainda que,
independentemente das nossas expectativas de pensarmos que as plantas, as árvores não
vivem apenas das regas, muitas vezes não crescem da forma que nós pretendemos, têm uma
grande taxa de mortalidade, imprevisível, e apresentam sintomas de doenças, embora não nos
comuniquem muito facilmente.
O desconhecimento da plantação de espécies vegetais e dos tipos de espaços verdes
nas áreas urbanas pode inclusive ter efeitos negativos e inverter todo o sentido bioclimático,
por vezes em atitudes simples e que consideramos óbvias, como a escolha da certa espécie
pelo tipo de folhagem. É comum a plantação de árvores de folhagem caduca, dado que
permite contrabalançar as necessidades de insolação durante o período de aquecimento
(inverno) e de ocultar a luz solar no período de arrefecimento (verão). A vegetação constitui
um grande benefício no meio urbano, mas a má compreensão ou conhecimento insuficiente
do tipo, família ou período de carência das plantas pode implicar consequências opostas às
pretendidas, como o caso típico dos jacarandás, que tratando-se de uma árvore exótica a
queda da sua folhagem é precisamente no fim do período de inverno, estando “despida” no
período de verão. Outras situações típicas consistem na implantação de magnólias em locais
inapropriados, muito expostos – estas árvores são extremamente sensíveis a determinados
ruídos e a correntes de ar, podendo não morrer muitas vezes, acabando por perder mais de
metade da sua folhagem persistente.
Apesar da importância conferida por vários autores (como por exemplo Francisco
Moita, 2010) aos princípios de bioclimática, é preciso tomar em consideração os perigos ou
inconvenientes que a inadequada escolha das espécies de plantas poderá determinar. No obra
intitulada Energia Solar Passiva, Moita apresenta um quadro com espécies botânicas – no
qual inclui os jacarandás – para aproveitamento solar passivo, sem referir contudo nenhuma
das limitações já comentadas (Moita, 2010, p. 9).

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Também ao contrário do referido por Francisco Moita, de que as cortinas vegetais


equivalem a isolantes térmicos, na verdade estas não são isolantes. No entanto, têm um efeito
de diminuição do impacto térmico ao aumentarem a resistência exterior da parede ou
cobertura. Por outro lado, possuem ainda outro efeito, de diminuição das amplitudes da
temperatura – embora esta diminuição só seja rigorosamente quantificável através do estudo
de um plano, rigoroso e conciso, e a respetiva área verde possua dimensões consideráveis no
meio urbano em que se insere. A dimensão considerável e suficiente para a minoração das
amplitudes térmicas das ilhas de calor urbanas será eventualmente uma proporção próxima de
metade da área de intervenção urbana.
Existem efetivamente exemplos na história, fundamentais para entendermos mais
sobre planeamento urbano utilizando recursos bioclimáticos, como o caso das cidades
históricas de Çatal Huyuk (Khoshsima, Mahdavi, Rao & Inangda, 2011), no antigo crescente
fértil, ou de Mesa Verde, na encosta Sul de um planalto em Colorado, nos Estados Unidos da
América. Ambas as situações representam modelos que se poderão aplicar tanto em territórios
mediterrânicos como noutras envolventes climáticas, mas não se aplicam às exigências das
envolventes artificiais nem às necessidades de vida e de conforto da sociedades atuais.
Nos nossos dias, já não é suficiente abordar as perspetivas bioclimáticas – por vezes
medidas muito interessantes e criativas – sem entender bem o clima e espaço mediterrânico,
copiando as soluções aplicadas em regiões com climas frios. As cidades e as técnicas não são
simplesmente replicáveis independentemente do espaço e do clima; nem a cidade bioclimática
constitui um somatório de técnicas e medidas. Nesse sentido, Higueras é explícita ao referir
que “La ciudad bioclimática no es exclusivamente la suma de edifícios que incorporen
técnicas de acondicionamiento pasivo.” (Higueras, 2007, p.13).
Recordando igualmente algumas palavras de Olgyay: "the first step toward
environment adjustment is a survey of climatic elements at a given location (...) The architects
problem is to produce an environment which will not place undue stress upon the body's heat
compensation mechanism.” (Olgyay, 1973, p.11).
Olgyay possuía ainda um conhecimento mediterrânico, ou pelo menos conhecia a
distinção das suas zonas de conforto, ao referir que o site selection é a primeira ação no
planeamento ou projeto relacionando o contrabalanço entre verão e inverno. Muitos dos
conceitos que definiu, como air movements e housing form and building shapes, acabaram
por constituir linhas orientadoras de diversos artigos, ensaios e trabalhos de investigação.
Na sequência da crise energética de década de 70 do século passado, começou a
difundir-se um grande interesse em relação às questões energéticas e ambientais em todos os
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

setores da sociedade, nomeadamente na arquitetura e urbanismo. Ironicamente, com o


desenvolvimento tecnológico sem precedentes no século XX, ao disponibilizarem-se novas
tecnologias e materiais, o processo de construção tornou-se crescentemente mais dispendioso,
ecologicamente inviável, baseando-se em pressupostos e técnicas alheias às condições
climáticas regionais.
Cerca de duas décadas antes, em meados dos anos 1950, Victor Olgyay, em
colaboração com o seu irmão Aladar, desenvolve uma prática completamente diversa da
arquitetura e urbanismo convencionais. Nessa altura o choque petrolífero era ainda uma
realidade distante e as necessidades energéticas associadas ao aproveitamento de fontes
naturais (já existentes) eram consideradas supérfluas ou inferiores a outros interesses, como a
estética. Encontram-se na investigação deste autor as primeiras abordagens bioclimáticas,
numa ótica científica, rigorosa e fundamentada.
Ainda no início dos anos 1960, Olgyay publica aquela que durante décadas será a
principal obra de referência neste âmbito – Arquitetura e Clima. Manual de Desenho
Bioclimático para Arquitetos e Urbanistas. Já nesta época o autor não encara a arquitetura e o
urbanismo como práticas dicotómicas, pelo contrário, intrinsecamente relacionadas no mesmo
espaço, clima e cultura, no âmbito do desenho e práticas bioclimáticas. O seguinte excerto é
paradigmático do seu pensamento:

“Es posible encontrar en un trazado urbano las mismas características y


tendencias que han influido en la determinación de las tipologias edificatorias.
Debido a que las fuerzas que incidem son las mismas, el resultado no consiste en
una aglomeración de edificaciones de diferente forma, sino el reflejo, a gran
escala, de las tendencias constructivas. La densidad de una trama urbana variará
según las condiciones climáticas, ya sean éstas adversas o amables.” (Olgyay,
1998, p. 91).

O meio urbano e a arquitetura são estudados numa ótica multidisciplinar, em interação


com o meio natural, conjuntamente com a análise geográfica e as influências socioculturais.
Além dos aspetos técnicos e tipológicos da construção, os contributos da climatologia, da
biologia, da engenharia e tecnologias, entre os contributos de outras ciências e técnicas, são
valorizados e aplicados na arquitetura e planeamento urbano.
Um elemento sempre presente ao longo da história humana, mais especificamente na
história urbana, é a adaptação das construções e cidades às condições climáticas da zona
geográfica em que se inserem; encontramos estes aspetos bastante destacados, por exemplo,
na obra de Vitruvio, que menciona que a diferentes climas e regiões correspondem diferentes
tipos de edifícios e aglomerados.
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Olgyay refere sucintamente as quatro etapas que precedem o processo de construção,


respetivamente, a análise das características climáticas do local de implantação; a relação
entre as condições climáticas e as necessidades biológicas (já que o homem constitui a medida
e referência, enquanto utilizador dos espaços construídos); a ponderação da melhor solução
técnica adequada às condicionantes bioclimáticas específicas; por último, o projeto de
arquitetura/plano urbano propriamente dito, que se deve desenvolver harmoniosamente
conjugando as etapas anteriores.

“El proceso constructivo de una vivienda climáticamente equilibrada puede


dividirse en cuatro etapas, la última de las cuales es la expresión arquitetónica.
Ésta debe estar precedida por el estudio de las variables climáticas, biológicas y
tecnológicas” (Olgyay, 1998, p. 10).

O autor confere particular destaque aos estudos sobre o efeito do clima no homem,
uma vez que aquele constitui o principal elemento de referência. Tanto as características do
interior do edifício como a envolvente deverão proporcionar conforto térmico. O autor
constituiu metodologias e modelos de análise, definindo e medindo os elementos principais
que influenciam o conforto humano, nomeadamente a temperatura atmosférica, a radiação
solar, o vento e a humidade, que interagem com o meio e com o metabolismo humano. O
objetivo destes cálculos é o estabelecimento de parâmetros de conforto, adequados a cada
clima, transformados em medidas concretas a aplicar na construção do edificado e
planeamento urbano. Olgyay, na sua investigação, aplica os pressupostos expressos,
materializados em quatro projetos concretos de arquitetura e urbanismo, localizados em
diferentes regiões climáticas dos Estados Unidos, cada qual com características distintas
otimizadas e adaptadas aos diferentes tipos de clima, ou seja e em suma, bioclimáticos.
Talvez a maior diferença entre urbanismo bioclimático e arquitetura bioclimática – ou
simplesmente entre urbanismo e arquitetura – se centre num desfasamento social entre as duas
disciplinas, na forma em que cada edifício/fração funciona como um universo isolado,
composto por uma única família ou indivíduo, onde se permite por vezes a entrada de outros
agentes, mas que não deverão coabitar ou permanecer no espaço. No espaço urbano, por total
oposição, não existe apenas uma família ou indivíduo, mas um conjunto plural de indivíduos e
culturas que assim devem coabitar em relativa harmonia com a sua envolvente climática,
desde a ameba ao pássaro até ao ser humano.
O planeamento e gestão da cidade – e a própria construção (pública e privada) neste
meio – são tarefas complexas e com repercussões no espaço público, que não respeitam

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somente a políticos, técnicos ou decisores, mas a todos os habitantes e utilizadores do meio


urbano. Ana Bordalo foi previdente quando afirmou que:

“A arquitetura não é uma função do Estado e os atos de arquitetura, ligados ao


direito de construção, basicamente de natureza privada, têm sempre de conformar-
se com as orientações em matéria de ordenamento do território e às normas dos
planos urbanísticos, estes sim, elaborados no exercício de uma função (dever e
responsabilidade) pública que tem por finalidade a satisfação e defesa de direitos e
interesses coletivos” (segundo Moutinho, 2003, p. 1).

Neste sentido, o caráter de “função (dever e responsabilidade) pública”, que a autora


salienta na ciência do urbanismo, consiste fundamentalmente num respeito necessário de toda
a envolvente urbana animada e inanimada, num relacionamento bioclimático. No interesse de
minimizarmos os impactos excessivos das amplitudes térmicas na envolvente mediterrânica
devemos igualmente travar as amplitudes inferiores às da sua zona climática, mantendo
constante todas as características climáticas da região.
De acordo com as crescentes necessidades de conforto, as sociedades contemporâneas
não dispensam o veículo automóvel, o telemóvel, o computador e diversos aparelhos
domésticos, brinquedos e muitos outros objetos. Deste modo, é por vezes ilusório o esforço de
alguns autores na salvaguarda do conceito de “sustentabilidade” ao justificarem conceitos
baseados na história e tradição, como a “construção de terra”, numa perspetiva algo redutora e
sem ter em linha de conta a pluralidade de fatores envolvidos.
González é um dos investigadores a defender que as casas de terra crua assumem
“uma preponderância com vantagens muito óbvias no que concerne à sustentabilidade
construtiva”. (González, 2006, p. 32). Não invalidando ou desvalorizando de algum modo o
notável trabalho de levantamento que o autor realizou sobre as geometrias das casas de terra
crua; no entanto, certos comentários do autor parecem transparecer falta de clareza em certos
termos, tanto no âmbito do urbanismo como das próprias características térmicas e
higrométricas dos materiais de construção. É patente quando refere que:

“Ao abordar-se a temática da sustentabilidade ou crescimento sustentável na área


científica da Arquitetura, cai-se inevitavelmente em temas de urbanismo e
construção, uma vez que aprioristicamente, as questões da estética em si não são
objeto do tema, ou seja a estética não deverá ser objeto de influência da
sustentabilidade ou crescimento sustentável.” (González, 2006, p. 29).

Não é muito diferente a abordagem do engenheiro Pedro Lança, ao referir-se às


vantagens da construção em terra crua enquanto técnica propícia a um conforto térmico e

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higrométrico, referindo no entanto que: “trata-se de um material frágil, nomeadamente em


contacto com a água ou o vento”. (Lança, [sd]).
Aqui reside sem dúvida um equívoco, devido a uma geral falta de conhecimento
específico das matérias científicas em questão, correndo-se o perigo de vulgarizar conceitos
como sustentabilidade e bioclimática. Opiniões como “as casas de terra crua são ecológicas,
estáveis do ponto de vista térmico higrométrico o que traduz em última instancia em
salubridade.” (González, 2006, p. 29) tornam-se suscetíveis de cair no ridículo. Pois para uma
casa ou edifício ser efetivamente ecológico – que nunca deixará de ser um produto
transformado, mesmo aceitando a opinião de que os materiais de construção ecológicos são os
naturais – dever ser suscetível de ser integrado num ecossistema local; o que aparentemente
não é aquilo que González defende. Lança também defende o material como ecológico e
defende inclusive uma vantagem do ponto de vista arquitetónico. No entanto, enquanto
natural defende-o também por não recorrer às “fontes de energia não recuperável, apenas à
energia solar e em pequenas quantidades”. (Lança, P. [sd]). Apesar de tudo, Lança entende
que a desvantagem é grande do ponto de vista mecânico e económico e não aborda o sistema
de construção como um processo de construção sustentável.
O conceito de ecologia, no interior dos edifícios, começa pela satisfação equilibrada de
todas as necessidades humanas, de modo não criar problemas ou constrangimentos à saúde.
As casas à base de terra, sendo esta um material limoso ou argiloso, são ainda propícias à
existência de uma quantidade elevada de partículas (com um elevado valor de ppm),
evidentemente nocivas à saúde humana.
A «estabilidade» referida na utilização da terra não se relaciona por sua vez nos
critérios térmicos. Atribui-se a este material, porém, a capacidade de retenção de energia ou,
utilizando uma terminologia científica, que é dotado de uma elevada massa de inércia. Apesar
disso, a terra não constitui um material adequado no âmbito térmico, dado não ser composto
de elementos suficientemente isolantes ou com desempenhos semelhantes às paredes duplas
de tijolo furado ou mesmo à construção de madeira.
É curioso quando González refere que “a terra tem a propriedade de secar ao ar,
endurecendo, e de se dissolver com água, e este processo pode ser repetido indefinidamente.”
(González, 2006, p. 33). Desmente-se automaticamente o processo de boa resistência à
higrospicidade, dado que qualquer material hidrofogante ou impermeável não pode permitir a
entrada ou a dissolução através da água, e deste modo os conceitos de salubridade não se
podem aplicar na construção de terra.

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Por outro lado, a estranha crítica que Gonzalez imputa ao urbanismo, menosprezando
o seu papel quando aborda a sustentabilidade, bem como a opinião de que as questões
estéticas não são relevantes ou não constituem objeto do planeamento e urbanismo.
Porém, a estética já é um objeto de estudo habitual da arquitetura, o que Gonzalez
defende primeiro numa análise da obra do arquiteto José Alegria, quando refere que
“curiosamente são os padrões de status e conforto habitacional que hoje em dia conferem às
construções em terra crua um estatuto de superioridade e elegibilidade” (González, 2006,
p.29). Tudo isto, para depois referir que o cliente que recorre a este tipo de construção é de
nível médio/alto. Mas não existem dados estatísticos comprovadores de que a classe de nível
médio/alto (presume-se economicamente) seja mais entendedora do que as restantes, poderia
ser compreensível se nos reportássemos a casas de férias ou temporárias, onde circunstâncias
como o conforto interior ou a despesa energética já não são muito relevantes e a componente
estética do espaço exterior ganha relevância.
Certas contradições inerentes ao conceito da construção de terra – como a longevidade
dos materiais e o comportamento térmico, assim como a qualidade do ar interior e a
salubridade dos próprios espaços – fazem com que este, pelo menos enquanto alternativa à
habitual construção urbana, não possua grande expressão, além dos grandes encargos de
manutenção que acarreta. “Não só o aumento do ciclo de vida dos materiais tem que ser
ponderado, como também é importante que os materiais utilizados gozem de fácil reciclagem
(…)”(González, 2006, p. 30). Promovendo este conceito de construção, o autor contudo
contradiz-se na sua defesa: a terra crua, como adiante se descreve “é um material de fácil
reciclagem, muito embora a sua durabilidade esteja condicionada a encargos de manutenção”
(idem, p. 30).
A sustentabilidade implica a utilização dos recursos locais e próximos. No âmbito
ecológico e biológico, é essencial a manutenção dos recursos e espécies autóctones, contudo é
também indispensável existir algumas trocas e comunicação, senão algumas espécies poderão
perecer por degeneração genética. Foi o cruzamento de algumas espécies, sobretudo vegetais,
que determinou muitos avanços científicos consensuais entre o homem e a natureza, como o
simples enxerto das árvores de fruto.
O exemplo da construção de terra em cidades ou aldeamentos incapazes de pagar o
crescente preço do betão armado poderá ser percetível e economicamente justificável; mas
não é sensato nem sustentável que o betão ou a terra crua constituam alternativas únicas e
dicotómicas, de forma extrema, enquanto estruturas das construções.

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Por outro lado, é sempre fascinante observar as construções vernáculas, as casas de


pedra ou de terra, assim como os edifícios de Mesa Verde ou de Çatal Huyuk, enquanto
vestígios e memórias de outros tempos (e espaços) que chegaram até nós. Algumas vezes este
património e respetivas técnicas são passíveis de ser recuperadas e replicadas; mas nos nossos
dias tais construções destinar-se-iam a habitação permanente?
No inquérito realizado, foi feita uma pergunta sobre qual o primeiro local, quando em
viagem ou passeio lúdico, que estes visitavam numa cidade, estrangeira ou nacional, mas que
fosse desconhecida dos inquiridos. A resposta foi consensual: o centro histórico. Existe um
desvio de atenções muito acentuado na conceção urbanística da forma da cidade, patente
quando a maior parte dos portugueses deseja ter a sua moradia independente das demais
habitações (com o seu quintal isolado dos outros espaços e vias urbanas), mas que percebem,
apesar disso, que a cidade tem de ter alguma densidade para ser economicamente forte,
desenvolvida e competitiva. E referem que a zona mais atrativa é sempre o centro histórico,
mesmo devoluto, em estado de ruína ou em condições pouco habitáveis – tal é irrelevante, já
que são «outros» os que lá moram.
Os princípios bioclimáticos podem ser relativamente indiferentes à localização dos
materiais ou aos materiais designados de naturais como a pedra. No âmbito da bioclimática é
praticamente irrelevante se o material da china é aplicado em Portugal, transformado ou vindo
diretamente da exploração. Importante é o seu valor bioclimático na construção. Presume-se
que o conceito de “sustentabilidade” seria por sua vez diferente do de “bioclimática” por esses
motivos, ou simplesmente o conceito de bioclimática não se integra nas definições da
sustentabilidade. De facto, o que se torna difícil é definir em concreto o conceito e âmbito da
sustentabilidade, sendo essa a razão porque nesta investigação foi definida de acordo com os
critérios da CEU.
A sustentabilidade não poderá depender em absoluto da utilização de recursos naturais
locais ou próximos, sobretudo se existirem incompatibilidades traduzidas pela escassa
durabilidade, excesso de manutenção e de despesas devido a determinadas reciclagens de
materiais. Este é um fator decisivo de cisão com a sustentabilidade, pois na bioclimática não é
determinante ou relevante a natureza do produto ou matéria-prima, apenas que este apresente
um comportamento térmico adequado e garanta as condições de saúde exigidas e da forma
mais eficiente. Poderá eventualmente um dia – com o avanço da investigação e das técnicas e
soluções construtivas – o conceito e práticas da sustentabilidade aproximar-se da bioclimática,
numa abordagem já distante de tantas especulações e intuições.

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Resumindo, ao associar a bioclimática ao planeamento urbano, nomeadamente nas


ações dos PMOT, como os planos de pormenor, não devemos dissociar ou menosprezar os
materiais de construção tal como não descuramos a cor ou outros aspetos que não são
puramente estéticos, antes bastante funcionais nos âmbito científicos em questão.
Por outro lado, não é possível planear ou construir sem entender pormenorizadamente
as necessidades climáticas das zonas envolvidas e as transformações derivadas da própria
ação humana. Esta tarefa requer mais do que intuição, implica a identificação e estudo das
eventuais transformações climáticas que existem e que o plano tem obrigatoriamente de criar
e precaver, de modo a minimizar as amplitudes das ilhas de calor urbanas e de outros
impactos fundamentais.
Para concluir, a volumetria possui um papel exemplar logo após a definição dos
materiais e da envolvente climática. A gestão energética térmica depende muito mais da
volumetria do que de eventuais ganhos solares, no caso dos aglomerados urbanos,
significando que os envidraçados servem mais um propósito de entrada de luz/iluminação
natural do que um meio de obter ganhos solares quantificáveis nos interiores dos edifícios.
Resta apenas saber a melhor forma de equilibrar a funcionalidade urbanística com uma
volumetria de corpos de edificados.

3.03.02 Fator de forma, áreas de influência no planeamento e casos de estudo na


atualidade como Masdar.

Depois de uma análise de conceitos do urbanismo e bioclimática no território


mediterrânico, este capítulo tem por objetivo a análise entre dois índices fundamentais no
planeamento urbano: o fator de forma e Área de influência.
O fator de forma, enquanto índice, é também muito pertinente nas abordagens
bioclimáticas, determinante de grandes perdas energéticas e dependente em absoluto da
volumetria. Este consiste no quociente entre o somatório das áreas da envolvente exterior
(Aext) e interior (Aint) do edifício ou fração autónoma com exigencies térmicas e o respetivo
volume interior (V) correspondente, conforme a fórmula seguinte: FF=[Aext+R (s Aint)i]. A
sua definicão consta do Anexo IV do RCCTE.
O conceito de área de influência surge no contexto dos estudos de investigação e na
gestão do território e começou por ser atribuído a Walter Christaller através da teoria dos
lugares centrais. O território urbano do período industrial tinha como método de avaliação um

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sistema que consistia apenas na distância do espaço ao centro urbano, nomeadamente um


sistema concêntrico conforme definiu Burguess no século XX. Durante este último século,
outras teorias foram tomando lugar devido à incapacidade da cidade ser perfeita ou linear,
como a metodologia de Burgess pretendia definir.
No entanto, a área de influência no planeamento consiste numa área definida pela
distância de um ponto ao seu limite possível/viável. Por exemplo, as áreas de influência nos
transportes públicos são definidas pela capacidade do cidadão se deslocar a pé até às estações
ou paragens. Essa capacidade é definida pela oportunidade mas também pelo nível de stress
causado.
Normalmente, por questões de acessibilidade, considera-se para equipamentos e
transportes que a área de influência não deverá exceder os 400 metros, conforme foi exposto e
divulgado na Conferencia Território, Acessibilidade e Gestão da Mobilidade, decorrente em
Lisboa entre 12 e 14 de abril de 2010. As distâncias limite têm várias interpretações no âmbito
mundial, no entanto tem sido consensual que o ser humano num aglomerado urbano
relativamente denso não excede os 500 metros deslocando-se a pé.
As áreas de influência possuem um papel funcional fundamental nas ações de desenho
urbano. São elas muitas vezes que nos conduzem à definição e opção de redes e hierarquias
das vias, mas também auxiliam a identificar as necessidades de uso do solo de modo a
manter-se o máximo de atividade social, económica e cultural.
Por outro lado, outros fatores são necessários a ter em linha de conta nos nossos dias,
como o fim da expansão das cidades e o processo de desertificação de alguns aglomerados
urbanos.
Seguindo a lógica da exposição desta investigação, entende-se que as medidas de
racionalização energética constituem um paradigma sem retorno à anterior situação de
consumo desenfreado de recursos. Muito embora as sociedades que ocupam os espaços
mediterrânicos, incluindo a portuguesa, ainda escassa sensibilidade ou preocupação
demonstrem por questões de conforto térmico e por problemas relacionados com o consumo
de recursos energético e matérias-primas – apesar de tais questões terem vindo a conhecer
ampla discussão e divulgação na última década (patente na quantidade de congressos, estudos
e publicações realizados) não representam ainda preocupações sociais muito notórias.
No âmbito das medidas bioclimáticas em território urbano, também é percetível que
quanto maior a densidade dos corpos edificados melhor será a sua capacidade de conservação
de energia, ou seja, isto verifica-se quanto maior for a redução do fator de forma dos
edifícios/frações. Depois de compreendermos e considerarmos estes princípios, é a envolvente
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climática, a localização geográfica, a orientação solar e os respetivos materiais de construção


que definem as condições necessárias a ter em conta no planeamento e gestão urbana, desde a
mitigação dos efeitos das ilhas de calor urbanas (ICU) à gestão de sistemas de infraestruturas
e à captação de recursos de energia e naturais.
Considerando que estes fatores são já motivo para moldar a forma densa a uma forma
ajustável de uma cidade e sociedade equilibradas (sustentáveis), integra-se nesta análise
alguns aspetos relacionados com as áreas de influência, com o apoio de outros estudos
realizados, nomeadamente conceitos como shrinking cities e urban transformation – cidades
em contração demográfica e espacial e em consequente transformação –, objeto de estudo
aprofundado de Lea Louise Laursen, investigadora dinamarquesa.
Não menosprezemos contudo perspetivas pertinentes ainda nos nossos dias, como
Alexander fez no seu ensaio A city is not a tree, criticando as opções ou rumos seguidos pelos
arquitetos na conceção do desenho urbano, demasiado distantes dos seus próprios interesses,
pois, como o autor salienta: “Architects themselves admit more and more freely that they
really like living in old buildings more than new ones” (Alexander, 1966, 2).
Se estivermos a planear de forma alheia aos nossos conceitos sociais e culturais, pouco
irá interessar também a racionalização energética. Alexander foi contundente ao afirmar: “The
problem these designers have tried to face is real. It is vital that we discover the property of
old towns which gave them life, and get it back into our own artificial cities” (Alexander,
1966, p. 3).
A evolução, sobretudo científica e tecnológica, das sociedade ocidentais durante o
século XX demonstrou que as necessidades de crescimento e consumo acelerado obrigaram a
ações muito pragmáticas na arquitetura e construção, condicionando inteiramente o
planeamento urbano e o ordenamento do território. Estas ações continuam a ser executadas de
modo semelhante nas regiões atualmente em grande crescimento (industrial/económico e
demográficos); mas não nas sociedades da Europa e América do Norte. Pelo contrário, tem
ocorrido um processo de contração demográfica e económica, patente na desertificação de
vários aglomerados urbanos (aldeamentos e vilas) ou mesmo de determinados bairros e
cidades. Mas é possível que estes resultados ainda se agravem se enveredarmos por uma
obsessiva e excessiva racionalização energética, retirando recursos à sociedade e criando
condições de limite e restrição social pouco convenientes, com impactos negativos na
qualidade de vida (sobretudo na população mais desfavorecida economicamente). Esse
processo já foi iniciado – conforme verificamos no início deste novo século – quando os
governos começaram a reduzir a despesa pública através processos muito elementares como a
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redução de carreiras de transportes público (e o corte dos apoios nas tarifas e passes sociais),
ou simplesmente centralizando diversas entidades e serviços públicos pela eliminação dos
departamentos regionais ou locais.
Racionalização, segundo o dicionário da língua portuguesa da Porto Editora on-line, é
definida como o “recurso à razão para resolver problemas práticos”. Essa razão é definida, por
sua vez, como a “faculdade de raciocinar, de compreender, de estabelecer relações lógicas”.
Matematicamente falando, razão é apenas a relação entre duas quantidades.
Quando transpomos esta definição para a racionalização energética ou a racionalização
nas sociedades, temos de ter em consideração os dois fatores de relação que determinam essa
mesma razão. Não será de facto a sustentabilidade um dos fatores enunciados, pois a nossa
relação lógica é sem dúvida a sustentabilidade. Os fatores (matemáticos) de quantidade serão
algo como a eficiência energética e a boa habitabilidade.
É neste sentido que se aborda o fator de forma e as áreas de influência como temas
pertinentes nesta ultima análise da corrente investigação. Relacionados com o fator de forma
estão todos os elementos que defendem um corpo de edificado – ou mesmo um plano
urbanístico – energeticamente mais eficiente. Relacionados com as áreas de influência
encontram-se todos os elementos enquadrados pelos conceitos da Química Física, entre um
universo fechado controlando as necessidades de transferência de energia com os restantes
universos. A razão entre os elementos relacionados com as áreas de influência e os elementos
relacionados com o fator forma...
Mas voltando á investigação de Lea Laursen, é realizada uma interessante comparação
entre duas tendências opostas no processo urbano contemporâneo: entre uma sociedade
emergente e em crescimento, como Shenzhen, com uma cidade e sociedade em processo de
desertificação como Berlim. “Shenzhen is one of the fastest growing cities in the world and
can be denoted the powerhouse of China” (Laursen, 2008, p.17). A sua situação é muito
paradoxal comparativamente às atuais cidades europeias, mesmo recuando à conjuntura
urbana das décadas de 50 a 80 do século XX.

“And it has to go fast, because the goal is to create more profit than already
achieved and in doing so the buildings constructed have to be bigger, better and
taller than the ones built yesterday” (Laursen, 2008, p. 17).

Em contrapartida, apesar de ser uma das cidades mais atrativas da Europa, Berlim vive
um período de decrescimento económico, pertencente ao programa German Shrinking Cities,
mesmo apesar de todo o esforço político de relançar a cidade como capital governamental
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após a queda do muro em 1989. “Berlin, on the one hand, is a city with many cultural,
recreational and social qualities and one the other, it is a city with economical problems.”
(Laursen, 2008, p.17).
Por um lado temos uma cidade (Shenzhen) e sociedade em crescimento, sem
problemas económicos e sem olhar necessariamente a despesas ou a meios de racionalização
de recursos, apesar dos impactos ambientais e sociais negativos; “the flipside of this
development is the bad living conditions for the man in the street” (Laursen, 2008, p.20).
Por outro lado, uma cidade que perde constantemente população e relevância
económica, apesar dos esforços do governo em reestruturações e da aposta acentuada nas
atividades culturais.
As cidades mediterrânicas estão mais perto de um processo de estagnação do que de
crescimento, mesmo com o êxodo contínuo das populações rurais para os meios urbanos de
maiores dimensões. No entanto, os problemas de desertificação em grandes cidades como
Lisboa terão, provavelmente, a tendência de ocorrer nos centros históricos, em pequenos
bairros centrais ou nos subúrbios da cidade. É preciso primeiro entender que a população
portuguesa, conforme exposto no primeiro capítulo, está a começar a sensibilizar-se para
conceitos como o conforto, tanto interior como exterior. As novas gerações de famílias, mais
exigentes e com mais informação, felizmente, quando escolhem o local para residir já se
preocupam com a localização das escolas e dos transportes públicos bem como do tempo e
dos custos inerentes às deslocações. Com um processo de crescimento longe de se assemelhar
ao de Shenzhen, mas igualmente muito pouco controlado do ponto de vista urbanístico, a
cidade de Lisboa e a sua área metropolitana cresceu e foi ocupada desordenadamente, sem
preocupações sobre a existência de equipamentos, serviços, infraestruturas básicas e
transportes.
Até ao final do século XX, o investimento público pretendia resolver os problemas da
falta de infraestruturas, ou pelo menos tentou resolve-los, como a criação de transportes do
metro na margem Sul do Tejo e nos arredores de Lisboa. No início deste novo século, a
pressão para a poupança de recursos e a eficiência energética começa a obrigar a soluções e
medidas de contenção, induzidas principalmente por motivos financeiros e de restrição da
despesa pública, com consequências na supressão ou diminuição deste tipo de investimentos,
o que se repercutiu numa supressão de várias carreiras dos transportes em Lisboa, tanto
rodoviários como ferroviários, e por sua vez num aumento bastante considerável nos preços
dos serviços.
Shenzhen, neste momento, não consegue ter grandes preocupações nem soluções para
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os seus problemas, dado que politicamente ninguém procurará travar o crescimento


económico. Cedo ou mais tarde, a cidade terá o seu travão ao crescimento ou abrandamento e
os problemas tomarão outro destaque, por vezes resolvidos com muita dificuldade ou com
recurso a decisões bastante radicais.
Os bairros dos arredores de Lisboa, mal fornecidos de acessos e transportes
(certamente que os cidadãos não poderão depender apenas do veículo automóvel) e com
escassez de equipamentos como escolas ou hospitais, tornam-se isolados, com problemas
sociais e de segurança, pouco propícios à vida em sociedade e tendem aos poucos e poucos a
tornarem-se devolutos. Zonas como os Moinhos da Funcheira, na Amadora, ou Famões, em
Odivelas, carecem de redes suficientes para a atividade social normal, devido à distância dos
recursos necessários a uma sociedade exigente, como a população de uma sociedade
desenvolvida assim o exige.
Esta distância dos recursos é normalmente definida pelas áreas de influência, que têm
como objetivo evitar o tipo de impasses urbanísticos expresso, aspetos a estudar e definir
antes da aprovação de qualquer plano. Presume-se que seria deste modo lógico que o Decreto-
Lei n.º 380/99, de 22 de setembro, deveria ter em conta, e bem definido, a existência de um
estudo de áreas de influência para cada ação de planeamento, fosse simplesmente para a
implantação de espaços verdes ou para redes de climatização ou captação de recursos, ou
mesmo para possibilitar a capacidade e densidade da forma dos corpos de edifícios, incluindo
cérceas, profundidades, cores, materiais e tipo de volumetria, sem ser necessário definir todos
os parâmetros à base de índices – por vezes absolutamente limitadores de determinadas
operações. Apesar de ser muito difícil e complexo definir um modelo para o planeamento
urbano assente num regulamento ou regulamentação legal, com o perigo real de se limitar ou
obter situações ainda mais nefastas que as atuais, não deverá contudo ser tão difícil definir
alguns princípio e linhas condutoras, de modo a definir-se um modelo mais equilibrado e
próximo das necessidades da atual cidade e sociedade.
Percebendo que não é exequível delinear trajetos quando a lei é demasiado ambígua, o
índice das áreas de influência tem sido utilizado – correta ou incorretamente, pouco ou
demasiado – no planeamento, dependente especificamente da formação, abertura ou
conhecimento da equipa responsável.
Por sua vez, o fator forma, no seu extremo deve traduzir-se num valor o mais baixo
possível, significando que os edifícios/frações pouco contacto deverão ter com o exterior e
espaços não aquecidos. Desta prática – defendida mais recentemente pela construção e
urbanismo bioclimáticos, já expressa anteriormente por Olgyay – temos exemplos próximos e
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longínquos da história, como Çatal Huyuk, provavelmente uma das primeiras cidades ou
aglomerados da nossa história, em que as frações tocavam-se praticamente por todas as
paredes, tendo apenas a cobertura e certas vias como elemento de contacto com o exterior
(Khoshsima, Mahdavi, Rao & Inangda, 2011). Muitas cidades de civilizações posteriores
replicaram ou basearam-se neste modelo.
A particularidade daquela cidade é a intenção, ainda puramente empírica e intuitiva, de
conservar o máximo possível de energia, fosse ela térmica, na comunicação, fosse nas
necessidades de segurança ou de defesa contra de as intempéries. Çatal Huyuk, apesar do seu
exemplo pioneiro e como fonte de informação sobre práticas ou técnicas passivas
(Khoshsima, Mahdavi, Rao & Inangda, 2011), pouco nos ajudará nos dias de hoje no que se
refere às condições de saúde e exigências de vida hodiernas; são exemplos absolutamente
distintos, no tempo e no espaço, em absoluto impossíveis de comparar.
As janelas (vãos envidraçados) serão desde logo motivo de controvérsia dado que em
épocas muito recuadas nem sequer existia o vidro, nem havia a grande preocupação (como
nos nossos dias) de ter luz natural no interior dos edifícios. Mas, por outro lado, a luz solar
sempre possuiu grande relevância, enquanto característica natural inerente ao espaço
mediterrânico – tradicionalmente determinando rotinas e atividade fortemente sazonais –
contrariamente à sua presença nos restantes países da Europa e América do Norte. Os ganhos
solares podem materializar uma vantagem evidente, mas muitos outros fatores podem ser
considerados prejudiciais, como os diferenciais de temperatura. Logo, a luz natural (não
necessariamente a irradiação solar diretamente incidente) pode prevalecer à luz solar.
Pensando que se trata de uma questão típica da arquitetura, não nos devemos esquecer que um
plano de pormenor define, por diversas vezes, as características de todos os envidraçados
limitando os construtores a optarem por outras medidas.
A área de ligação com todos os setores sociais de que o cidadão necessita no seu meio
urbano poderá ser equilibrada através de uma densidade conveniente dos corpos edificados.
Neste caso, possuem características próximas da perfeição os prédios de formato esférico, que
permitem uma ocupação de apenas 10% das áreas de implantação, ficando as restantes áreas
disponíveis para todos os outros fins como arruamentos ou jardins. Mas como aceitar a
anterior perspetiva ou como podemos construir um modelo de cidade cuja volumetria seja à
base de corpos esféricos? Em certas matérias, nunca existem certezas ou previsões lineares do
futuro; possivelmente, as futuras gerações ainda poderão conceber cidades constituídas por
esferas como forma dos corpos de edifícios...
No primeiro capítulo analisaram-se as tendências do pensamento e sensibilidade das
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sociedades contemporâneas em relação às questões energéticas, análise restrita aos países


mais desenvolvidos ou industrializados, nos quais se inclui sem a Europa mediterrânica. Após
expor a noção de que o conforto térmico é essencial à qualidade de vida e que os edifícios
constituem cerca de 40% da despesa de energia total das atuais cidades, adicionando-se o
facto de que o preço da energia ou o seu acesso é cada vez mais restritivo, é possível aceitar o
facto consumado de que não existe retorno nesta matéria, com a exceção de surgir um
holocausto ou uma catástrofe em ampla escala. Esta sensibilidade perante a necessidade
racionalização da energia é, no entanto, recente e ainda se encontra em fase incipiente em
diversos locais.
Não é a mera existência de aparelhos de climatização que resolve os problemas da
climatização e conforto, mas sim da forma como os edifícios e a cidade são planeados e
dispostos, de modo a equilibrar as temperaturas. Antes de 2002 apenas os países da Europa
central e nórdica se encontravam mais sensibilizados para estas questões. Entre esse ano e a
atualidade foram definidas metas como 20-20-20 pela União Europeia. Durante a última
década, associada à subida cada vez mais acentuada do preço da energia (tanto elétrica como
os combustíveis fósseis e outros) e com alguma influência do protocolo de Quioto, criaram-se
leis e sistemas de certificação ambiental e energética que permitiram maior interação com as
populações, desta vez também interessada não semente por critérios de sustentabilidade e
ecologia, mas pela crise económica/financeira e pelo “aperto financeiro” decorrente.
Á parte tais razões, apesar da população portuguesa se sentir cada vez mais
sensibilizada para estes problemas atuais, demonstra ainda algumas convicções pouco
propícias a um meio urbano capaz de se enquadrar na atual conjuntura, dado que a maioria
das pessoas prefere cidades à base de moradias (onde prefere viver) e praticamente rejeita o
conceito de quarteirão.
Mas, conforme se verificou no segundo capítulo, mesmo com grandes agravantes
energéticas e térmicas, além do preço do metro quadrado de construção ser superior (bem
como os encargos fiscais agravados), as moradias constituem uma despesa energética
adicional de 25% em relação aos apartamentos em quarteirões de edifícios com pelo menos
quatro pisos, e 50% comparando as despesas das moradias com edifícios com grande
densidade ou esféricos.
É interessante verificar que no plano da cidade de Masdar, nos arredores de Abu
Dhabi, existiu desde início uma preocupação de criar espaços densos com aberturas de praças,
mas com ruas sinuosas de modo a conservar melhor as características de conforto térmico. A
situação de uma cidade como Abu Dhabi apresenta um dado climático que é muito importante
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a ter em conta no clima mediterrânico, que é o diferencial de temperatura diário. Ou seja, há


uma grande diferença de temperatura durante a manhã (no nascer do Sol), até ao pico de
maior calor no inicio da tarde.
O caso do plano de Masdar é relativamente paradigmático devido ao enorme
investimento, não apenas financeiro (cerca de vinte mil milhões de dólares), mas na área da
investigação. Este plano teve como intuito essencialmente funcionar como um projeto-piloto à
escala urbana de 6 km2 e com 50 000 pessoas, no âmbito de um verdadeiro programa de
desenvolvimento urbano sustentável. O objetivo, descrito por Mathias Schuler, centra-se em
combater a tendência natural do impacto da atividade humana na vida natural, denunciada
pelo relatório anual Living Planet do World Wildlife Fund (WWF), desde 1998. Schuler
assim apresenta que: “we have been exceeding the earth’s ability to support our lifestyles and
we need to stop. The biggest contributor to our footprint is the way in which we generate and
use energy.” (Schuler, 2011, p. 49).
Este plano – intitulado Masdar City Master Plan, iniciado em 2007, está previsto estar
concluído e a funcionar em 2012 – definiu, de acordo com critérios do WWF, 10 princípios
essenciais: carbono zero, desperdícios zero, transporte sustentável, materiais sustentáveis,
comida e água sustentável, habitats e vida selvagem, cultura e heranças, equidade e negócios
legítimos, saúde e alegria. E para agir estritamente de acordo com estes princípios, alguns
relativamente vagos, a equipa de projeto, promovido pelo gabinete de Norman Foster (Foster
and Partners) apoiou-se nas ferramentas de classificação de instituições como a LEED ou a
BREEAM, internacionalmente reconhecidas.
Os edifícios foram concebidos de modo a cumprirem a ASHRAE 90. 1-2004 US
Energy Standard. Algumas experiências mais audazes ou arrojadas foram realizadas, como
por exemplo a utilização inovadora do etfe (Ethylene-tetrafluoroethylene) para
aproveitamento da luz solar. A Biblioteca de Masdar foi um dos objetos de estudos prévios de
impacto de várias circunstâncias bioclimáticas, ao contrário de um capricho normal de
desenho de arquiteto. A intervenção, altamente tecnológica, como alguns a poderão apelidar,
trata-se simplesmente do aproveitamentos das superfícies dos telhados para colocação de
painéis fotovoltaicos e solares térmicos ou de torres de arrefecimento; mas não da substituição
dos meios bioclimáticos passivos/preventivos e de toda investigação previamente
desenvolvida, cumprindo as obrigações e aplicando as ferramentas segundo o LEED e
BREEAM.!O sistema de quarteirões projetado em Masdar, relativamente constante, consiste
em tipologias paralelepipedais, não muito elevadas mas também pouco baixas, tendo apenas

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

as varandas onduladas entre outros pormenores de desenho urbano de modo a cortar o sentido
de monotonia. !
Voltando ao âmbito nacional, ultrapassado o problema sócio-urbano decorrente de um
urbanismo à base de planos horizontais (edifícios baixos e sem quarteirões), poderemos
aproximar-nos de conceitos da bioclimática aplicada ao espaço/clima mediterrânico, com base
nas áreas de influência e nas necessidades adequadas e equilibradas para uma boa gestão
urbanística.
Além da necessidade eventual de constituição de redes urbanas entre os pequenos e os
médios aglomerados urbanos, como por exemplo uma rede de uma cidade média capaz de
interagir urbanisticamente com todas as suas aldeias e vilas circundantes, de modo a
consolidar todas as sua energias e recursos de forma equilibrada; é possível que aos poucos e
poucos alguns edifícios, os mais deslocados dos meios urbanos e densos, são suscetíveis de
desaparecer, ocorrendo um processo de «implosão natural».
Esta «implosão natural» define-se como um primeiro ato de abandono dos edifícios até
à sua completa desertificação, seguindo de um processo normal de demolição e poderá ter
lugar tanto no interior como no exterior dos meios urbanos. Este processo já se encontra em
parte em andamento, dado que uma «fatia» muito evidente de edifícios em Portugal se
encontram devolutos, incluindo no centro de Lisboa contracenando com os factos de o parque
habitacional ser superior ao numero de famílias em Portugal conforme foi referido no
primeiro capítulo. No entanto, dadas as circunstâncias expostas de sustentabilidade e
bioclimática mediterrânica, haverá uma diferença muito substancial entre as zonas mais
densas das cidades e os seus arredores. Enquanto o processo no interior das cidades será de
implosão e reconstrução, por várias razões inclusive por motivos de eventual relançamento
económico do setor da construção; nos seus arredores ou nos meios mais rurais poderá ocorrer
simplesmente um processo de abandono total, com a destruição perpétua dos edificados em
prol de espaços verdes, turísticos ou mesmo num retorno dos espaços à agricultura ou floresta.
O processo de densificação dos aglomerados urbanos permite de facto um controlo
mais adequado das necessidades sociais, bem definidas através das áreas de influência,
permitindo a criação de bairros por si mais autónomos e bem equipados, cujas necessidades
de transferência de energia sejam equilibradas.
Um baixo índice do fator de forma numa cidade mediterrânica implica, sem dúvida, a
existência de uma cidade densa e mais semelhante à morfologia habitual de um centro
histórico, não muito diferente de cidades como Shibam, mais preocupada com a luz natural do
que com a irradiação solar e equilibrada com a sua envolvente climática; mas também
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

«protegida» com todas as leis e normas urbanísticas assim definidas pelos padrões atuais das
culturas ocidentais.
Deste modo, o novo Plano de Masdar, atrás expresso, em execução nas imediações de
Abu Dhabi, apresenta uma série de iniciativas das quais se aproximam a maioria dos critérios
discutidos, constituindo até à data o melhor caso de estudo, tanto no plano urbanístico como
do arquitetónico (e sobretudo da integração/conciliação de ambos), de uma política de
requisitos exigíveis para a sustentabilidade e bioclimática. Não necessariamente na ótica de
todos os meios materiais e financeiros (avultadíssimos) que estiveram ao dispor deste plano,
mas pelas preocupações preventivas, investigação, estudos e relacionamento completo entre o
espaço e as necessidades bioclimáticas que assim acabaram por se determinar.
O conceito de bioclimática ainda está em relativo desenvolvimento, principalmente no
âmbito do planeamento. Mas as suas distinções entre o plano exterior e o projeto interior de
edifícios são evidentes. O espaço exterior depende de uma ecologia urbana diversificada em
que o ser humano é sem dúvida o elemento privilegiado. Mas qualquer desequilíbrio pode ser
prejudicial. Atualmente, qualquer intervenção urbanística bioclimática deverá ser utilizada
como um instrumento ou ferramenta de planeamento e não como substituição de método,
ponderando as variáveis que autores como aqui referidos têm vindo a defender.
Ao integrar os conceitos de bioclimática no planeamento e distinguindo-a de outros
conceitos incluindo a sustentabilidade, a presente tese pretende clarificar os métodos e ações
do Urbanista e abrindo caminhos para estudos de investigação. Deste modo, determinados
estudos poderão ser efetuados como o impacte da despesa do património edificado face à taxa
de ocupação dos edifícios, melhores estudos de impacte das ICU em vez de nos basearmos em
dados pouco concretos como o referido SVF. Futuramente, os estudos de mercado imobiliário
deverão obedecer a notações e avaliações ambientais tal como um acréscimo na importância
dos valores de AI (áreas de influência). Significa que os estudos de mercado imobiliário
deverão seguir os parâmetros de bioclimática que esta tese define. Outro dos estudos, talvez o
mais relevante, que poderá ser uma ferramenta fundamental ao planeamento será um trabalho
de investigação sobre a correta ou mais propícia adequação de dimensões e características dos
parques e equipamentos no espaço urbano de acordo com as suas zonas climáticas (definição
de indicadores em futuros estudos profundos de investigação ou impacto ambiental).

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Conclusões

Como será o futuro da cidade no que concerne às necessidades energéticas, ou seja, à


sua capacidade de gerar, racionalizar e dispensar recursos para que esta funcione com os
meios necessários e exigidos por qualquer sociedade do século XXI?
Sendo um fator fundamental, como tenderá a volumetria a equilibrar-se com as
restantes variáveis urbanísticas, como as áreas de influência?
É deste modo que o presente trabalho teve como objetivo final a introdução de
instrumentos ou ferramentas para um melhor planeamento e gestão urbana, seguindo
conceitos e práticas bioclimáticas. É um facto que o conceito de bioclimática ainda se
encontra por definição ou consenso entre a comunidade científica e académica, apesar de ter
sido introduzido na arquitetura há mais de meio século por Aladar e Victor Olgyay, em 1957,
com a obra Solar Control and Shading Devices e mais especificamente no urbanismo através
da obra Design With Climate: Bioclimatic Approach to Architectural Regionalism, dos
mesmos autores, publicada em 1963. A sua designação tem vindo porém a desenvolver-se
muito tardiamente no planeamento urbano cruzando ou confundindo-se com o conceito de
sustentabilidade.
A presente investigação foi realizada e dividida em três partes. A primeira introduz-
nos o problema e o estado de arte: o seu passado, os agentes, como se lidou e lida com os
problemas e o que está definido e pensado. A segunda parte demonstra essencialmente os três
fatores essenciais – envolvente climática, fator de forma e materiais – que definem a
bioclimática.
Apesar do estudo ter sido direcionado sobre um plano climático mediterrânico e as
suas peculiaridades, pode servir qualquer outro estudo noutras zonas. Deste modo, retirou-se
do titulo original a «cidade mediterrânica».
Dado o caráter de uma tese de Doutoramento, a presente investigação apenas estudou,
investigou, compilou e desenvolveu os conceitos e as causas para a futura obtenção de um
modelo. Outros estudos deverão dar continuidade, criticar e desenvolver-se segundo a síntese
desta investigação.
Os planos de racionalização energética concretizam-se em medidas tendencialmente
irreversíveis; na tentativa de proporcionar temperaturas nas zonas de conforto térmico, a
tendência destas ações é tornarem-se cada vez mais obsessivas e específicas em todos os
setores profissionais e económicos. Deste modo, vai-se tornando evidente que a cidade será
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

influenciada e condicionada pelas medidas de racionalização energética, sendo também


manifesta a necessidade da sua aplicação enquadradas no contexto do planeamento urbano. A
precocidade ou retardamento destas decisões dependerá apenas de alguma sensibilidade da
sociedade europeia e da resistência ou determinação dos nossos decisores políticos,
continuando a agir aleatória e discricionária – na sequência do desordenamento urbanístico
das últimas décadas – ou antes planeando o futuro através de gestão e planeamento efetivos
do território.
Para tal, é necessário entendermos que nenhum passo deverá ser dado sem ter em
consideração a envolvente climática do meio urbano, que inclui não só a localização
geográfica, clima/microclima e o seu espaço envolvente, tanto natural como artificial, ou seja,
reconhecendo também a influência do cidadão e as suas ações como parte integrante da
envolvente climática e ecológica.
Depois, existem elementos físicos relevantes como os materiais de construção ou
outros fatores naturais como os espaços verdes. Diretamente os materiais de construção não
têm influência na volumetria da cidade, mas têm grande impacto na sua imagem estética. Um
isolamento térmico diz respeito estritamente à envolvente opaca de um edifício, as fachadas, e
é ocultado, por assim dizer, pelo reboco, estuque, pedra ou outro elemento. Mas a imagem
proporcionará sem dúvida uma outra leitura quando se colocam painéis solares térmicos, de
vácuo ou fotovoltaicos, ou simplesmente pela implantação de «cortinas vegetais» ou seja, o
revestimento com plantas das fachadas ou telhados.
Por outro lado, a própria forma e volumetria dos edifícios tem uma grande influência
nas perdas energéticas, independentemente da aplicação de materiais isolantes ou mesmo da
sua pré-disposição – um plano urbano essencialmente constituído por edifícios unifamiliares,
as moradias, tem uma despesa energética agravada até 50%, relativamente edifícios
multifamiliares, os apartamentos, com formas geométricas de quarteirões, com elevada
densidade populacional ou edifícios totalmente esféricos. Para entendermos como pode ser
relevante esta diferença energética, basta considerar que o parque habitacional, referente
apenas a habitações, excluindo serviços e comércio, o INE calculou mais de 5,3 milhões de
frações em 2003 e multiplicar por frações/tipo de 100 m2 por 54,59 kW/ano obtendo 28.932,7
GW/ano. Sendo que a diferença deste modo de 50% é de 14.466 GW/ano ou utilizando o
valor base de 2010 da EDP de 0,13 € é apenas o equivalente 1 880 625 500 €. Mesmo com a
utilização de sistemas de climatização mais eficientes em todas as casas como bombas de
calor ou sistemas por gás natural, esse valor continua a ser pelo menos superior a 500 milhões
de Euros.
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Há no entanto outra curiosidade que nasce desta situação. Dado que os valores
nacionais de consumo energético total em Portugal referem que a EDP em 2009
comercializou apenas pouco mais que 30.000 GW (30.581 GW/ano) e que equivale a 44% da
energia total, associando ao facto de a maior parte dos edifícios em Portugal não terem bons
desempenhos energéticos, verifica-se que não há energia no país suficiente para
complementar o conforto térmico para todas as frações. Ou seja, que toda a população,
sensibilizada para o conforto térmico, tivesse capacidade financeira de contrair a despesa de
aquecimento e arrefecimento de modo a manter os níveis de conforto térmico, o estado era
obrigado a importar, pelo menos, mais 50% da sua energia para fornecer as habitações
criando ainda maiores dependências económicas.
Neste sentido, verifica-se que por um lado há uma necessidade muito grande de
racionalizar a energia e que parte de todos os órgãos políticos da Europa, sem exceção,
conforme se verifica pelos relatórios do Concerted Action for Energy Performance Buildings
Directive (CA-EPBD). Por outro lado, nos povos mediterrânicos como Portugal, ainda não
existe uma sensibilidade ao conforto térmico adequada, nem conhecimento dos requisitos
ASHRAE publicados em 1985 no trabalho de investigação intitulado Criteria for human
exposure to humidity in occupied buildings. Terminando com o facto de não existir ainda
energia em quantidade suficiente em todos estes países do Sul da Europa de modo a
satisfazerem as necessidades de conforto térmico.
Entende-se, deste modo, que apenas uma indecisão ou inércia dos decisores dos países
do espaço mediterrânico impede a realização efetiva de programas de eficiência energética
orientados para o conforto térmico nos edifícios; ou pelo menos a sociedade pouco se importa
(ou aparenta importar) de não ver resultados, dado que não tira proveito das necessidades de
conforto interior, mas a mudança desta atitude será apenas uma questão de tempo.
Os programas de eficiência energética têm não só repercussões nas necessidades de
contenção e de mais independência na negociação de energia com os povos exportadores de
energia, mas também apresenta benefícios ambientais na redução de gases com efeito de
estufa.
As questões ambientais não têm tido suficiente relevância nas ações concertadas de
planeamento pela parte dos decisores políticos. Servem mais num interesse de propaganda,
visto que é um assunto mediático e aliciante às culturas europeias. As atuais medidas de
racionalização energética são influenciadas diretamente pelos acontecimentos dos últimos 40
anos, em que todos países em âmbito global – mesmo os exportadores de matérias-primas e
fontes energéticas – têm vindo a sofrer aumentos constantes no preço do consumo de energia,
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

tanto elétrica como dos combustíveis fósseis. Estes acontecimentos tiveram o seu início a 17
de outubro de 1973, com a ação dos países da OPEP em cortarem apenas 5% da exportação
de petróleo. Esse pequeno corte num período em que a Europa e América do Norte se
preparavam para o inverno, fez disparar pela primeira vez o preço dos combustíveis e gerar
pânico em grandes cidades como Nova Iorque, Londres ou Tóquio. Apesar de o embargo ter
cessado cinco meses depois, o processo não foi reversível e o aumento dos preços tem-se
verificado até aos dias de hoje, criando várias constrições ou restrições orçamentais nos países
que dependem totalmente da energia térmica, como o Canadá e a Europa Central.
Apesar de tudo, não é de menosprezar o conceito de desenvolvimento sustentável
criado pela Organização das Nações Unidas e pelo Clube de Roma na Conferência de
Estocolmo, em 1972, embora num sentido mais próximo da sensibilização mundial, não
possuindo impactos diretos em ciências como o Urbanismo, ao determinar que: “Sustainable
development is development that meets the needs of the present without compromising the
ability of future generations to meet their own needs.” (United Nations, 1987).
O termo acabou efetivamente por causar algum impacto, mas não gerou nenhuma
decisão ou prioridade imediata pela parte da classe política dos países mais desenvolvidos, à
exceção de alguns estados que se destacaram nesse período, como a Suécia, devido aos
interesses políticos muito particulares do partido no poder e do seu líder nesse período, Olof
Palme. A Suécia – contrariamente à maioria dos restantes países – desenvolve programas de
hidroelétricas, rejeitando a energia nuclear, assim como evita que a expansão imobiliária ou a
exploração de recursos florestais tomasse conta da floresta e paisagem, protegendo ainda o
território lapónio, a Noroeste, perto do Círculo Polar Ártico.
Mas é preciso ter em conta que o conceito geral de desenvolvimento sustentável ainda
em 1987, após a criação do Relatório de Brundtland (Our Commom Future), é essencialmente
restrito ao âmbito de acção das Nações Unidas e de organizações não governamentais. Apesar
de coincidentes, os princípios expressos da economia, sociologia e ecologia não estavam
ainda totalmente articulados. A necessidade de não comprometer as gerações futuras residia
mais numa questão de combate à pobreza do que num combate aos desperdícios e controlo
dos recursos.
Significa, apesar de tudo, que as necessidades de racionalização energética não
começaram em momentos como a Segunda Grande Guerra Mundial ou antes disso. Antes de
1973 existia a necessidade de produzir mais energia, e não conservá-la, pois a sua escassez,
dependência ou poluição geradas não eram tidas em conta como um problema para os países

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

mais desenvolvidos, sendo a primeira grande falha neste sistema capaz de desencadear um
processo irreversível.
Como pretendemos demonstrar, a configuração volumétrica dos corpos edificados das
cidades pode determinar valores muito diferenciados de consumo de energia térmica.
Facilmente concluímos que, pela contabilização destes resultados, no âmbito das opções
políticas também existirá o interesse de conceber os planos das cidades de uma forma mais
adequada, começando por simples modelos volumétricos capazes de melhor aproveitamento,
ou desperdício, de energia, ou simplesmente, para melhor controle de conforto interior e
exterior evitando grandes amplitudes e desequilíbrios energéticos.
Deste modo, é possível propor uma futura forma específica dos corpos edificados
numa cidade. Consequentemente, no sentido de minimizar ou anular impactos negativos
através do planeamento prévio, é necessário que se tenham em conta diversos fatores,
começando pela ponderação dos perigos que os urban canyons possam representar, bem como
dos efeitos gerados pelas ICU (ilhas de calor urbano) nas cidades – tornando a utilização dos
espaços exteriores desconfortável ou simplesmente menos ligada com atividade social. Ou
seja, antes de se concluir que a solução do planeamento é conceber apenas corpos edificados
densos, elevados ou esféricos, há que entender que existem muitas outras necessidades a
considerar no âmbito do espaço exterior antes de proporcionar o bem estar interior dos
cidadãos.
A legislação não prevê qualquer das situações mencionadas, nem no âmbito dos
Sistemas de Certificação Energética (SCE) nem no dos Planos Municipais de Ordenamento
do Território (PMOT). A regulamentação legal aborda tais problemáticas com alguma leveza
e superficialidade, não permitindo que os técnicos as entendam – como acontece com o termo
“sustentabilidade”, abordado no Decreto-Lei 380/99 de 22 de setembro, mas não sendo
definindo especificamente, remetendo a interpretação à sensibilidade dos técnicos. Sendo os
significados do conceito de sustentabilidade ecléticos e mesmo vagos, a subjetividade é por
vezes demasiado flexível ou ambígua, extravasando critérios definidos pelo próprio CEU em
1994, na Carta de Aalborg.
Além das lacunas e imprecisões conceptuais da legislação, como o D.L. 380/99,
também se devia ponderar a criação de glossários anexos, como existe no Decreto-Lei
80/2006 de 4 de abril (RCCTE), onde se define com precisão termos como “eficiência
nominal”, “energia primária” ou “estação convencional de aquecimento”.

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

Neste contexto, se tem sido uma corrente comum na arquitetura, então como se afirma
o conceito de bioclimática no planeamento ou como pode ter um papel fundamental no clima
mediterrânico?
Se a envolvente climática é um dos três elementos fundamentais do conceito de
bioclimática, é indispensável um conhecimento profundo do clima mediterrânico no
planeamento urbano em regiões do Sul da Europa. Mas a especificidade do urbanismo
bioclimático reside no comportamento e conforto térmico/climático dos espaços exteriores
dos aglomerados urbanos e na influência que a forma dos corpos edificados possui no
consumo energético e conforto dos espaços interiores.
Em todos os trabalhos desenvolvidos na área da bioclimática ou eficiência energética
dos edifícios, com algumas exceções, como o projeto espanhol do CIEMAT, PSE-
ARFRISOL, existem leves preocupações com a envolvente climática, utilizando meios
simplificados como os índices de zonas de inverno e verão ou as classes de exposição,
calculadas no Regulamento das Características de Comportamento térmico dos Edifícios
(RCCTE). No entanto, existem discrepâncias como graus de disparidade e diferenciais
bastante relevantes em relação àqueles índices, devido às ilhas de calor urbanas, mas não há
cálculos concretos por zonas microclimáticas como bairros ou alguns arruamentos e estes não
são tido em conta no RCCTE.
Com a forma volumétrica propícia ao melhor desempenho energético e utilizando os
materiais adequados, há que ter em particular consideração as especificidades do clima
mediterrânico e, no caso específico desta investigação, da zona setentrional, designação de
Vitruvio das regiões a norte do Mediterrânico.
Situações como as ICU podem eventualmente aparentar a solução de problemas de
aquecimento no inverno, mas tornam-se problemas gravosos no verão, pois uma das
características do clima em análise são as fortes amplitudes térmicas, sazonais e diárias –
visando-se obter o equilíbrio entre um inverno longo, mas não muito rigoroso, e um verão
mais curto, mas bastante intenso. Isto significa que as ICU não aparentam grandes
desvantagens em regiões centrais e setentrionais da Europa, dado que o período de
arrefecimento (verão) é relativamente curto e um pouco mais ameno. Mas nos casos de
cidades de climas mais temperados, como São Paulo ou Cidade do México, aglomerados
urbanos com cerca de onze milhões e nove milhões de habitantes respetivamente, os efeitos
das ICU representam um enorme problema. Por outro lado, um aumento das temperaturas
urbanas é normalmente causa ou efeito da má qualidade do ar; logo os efeitos das ICU em

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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

cidades como Toronto, Londres ou Chicago não conferem efetivamente grandes benefícios
ambientais.
Tal como se sucedeu nos estudos e legislação sobre conforto térmico interior, a
qualidade do ar irá adquirir um papel fundamental no conforto dos espaços exteriores, logo no
urbanismo bioclimático, e remete para outras questões pertinentes como a existência de
espaços exteriores suficientes e adequados. Estas áreas são normalmente designadas de
espaços verdes e têm tido uma grande aceitação na cultura portuguesa, à semelhança de outros
países.
Têm sido promovidas e desenvolvidas ainda outras práticas em meio urbano, como as
cortinas verdes, integrando os espaços verdes nas fachadas e/ou coberturas de edifícios e
estruturas diversas. No entanto, a existência de um espaço verde não tem necessariamente
influência na temperatura das ICU ou mesmo no seu próprio espaço. Depende sempre do tipo
de espaço verde ou conjunto de espaços verdes e da sua extensão. Uma árvore ou planta
tipicamente mediterrânica – como uma oliveira ou alfazema – não tem capacidade para
produzir oxigénio suficiente para o seu espaço envolvente e isoladas em nada alteram a
temperatura exterior. Os espaços verdes devem deste modo ser dimensionados de acordo com
as necessidades da população, mas também devem ser calculados de acordo com a sua
capacidade de reduzir as amplitudes térmicas verificadas entre as cidades e as zonas
climáticas respetivas. Por outro lado, quanto mais eficiente for a planta na redução da
amplitude térmica, será certamente de crescimento e ciclo de vida mais rápido, necessitando
consequentemente de maior manutenção.
Este conceito de reduzir o diferencial térmico apenas ao nível da sua zona climática
tem como objetivo defender a cidade ou bairro de se tornar mais insalubre. Por irónico que
pareça, tornar o espaço urbano de um território mediterrânico mais ameno poderá interferir no
desenvolvimento de espécies que dependem da estabilidade natural do clima. Por exemplo, as
baratas são insetos que vivem habitualmente em climas amenos, mas sobretudo muito
húmidos. Se a humidade descer abaixo de 20%, estas morrem ou entram em período de
hibernação. Nos climas mediterrânicos, estes insetos vivem tranquilamente durante todo o ano
até ao período do verão. Logo, se aumentamos a humidade no sentido de amenizar a
temperatura, criamos condições excelentes para que estas espécies não só sobrevivam, como
também possam migrar de outras zonas climáticas mais rústicas sem atividade humana para
estes aglomerados urbanos. Em suma, cria-se um desequilíbrio natural tornando-se o
aglomerado urbano mais propício de adoecer. Já Vitruvio menciona a importância do
arquiteto possuir noções de medicina no sentido em se preocupar com a salubridade dos
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

terrenos, limpeza das ruas e configuração dos edifícios – a prática do urbanismo bioclimático
é assim condicionada por estes fatores e a alteração climática de uma zona poderá não parecer
um problema, mas é mais grave do que aparenta.
É neste sentido que se torna fundamental as futuras leis terem em conta a definição
dos princípios e orientações a seguir, a inclusão de glossários de conceitos e termos técnicos,
bem como a exigência da realização de estudos concretos de impacto ambiental – por
exemplo, para situações como o controlo das ICU, no sentido de amenizar as amplitudes
térmicas ao nível da sua zona climática ou microclimática.
Em parte maioritária, nesta investigação o território nacional surge como área de
estudo, embora as zonas climáticas (setentrionais) são relativamente idênticas, dado que
Portugal continental, à exceção dos picos de serra como o maciço central da Serra da Estrela,
possui características climáticas mediterrânicas. Este aspeto é uma curiosidade, dado que
atualmente o território nacional é o único país do Sul da Europa que se enquadra no clima
mediterrânico na sua totalidade.
Também é importante entender que a preservação das características climáticas poderá
ter um papel fundamental no futuro da economia dos espaços mediterrânicos, tanto pelas
atividades turísticas como pela produção agrícola e florestal muito específicas, como a
produção de vinho, azeite e cortiça. Esta preservação começa desde logo com a necessidade
de boas práticas de desenvolvimento sustentáveis, pois mal enquadradas, planeadas ou
aplicadas poderão desertificar ainda mais os (demográfica e economicamente) territórios
rurais ou urbanos.
Como exemplo de um impacto negativo temos as experiências dos biocombustíveis,
uma política criada e defendida pela União Europeia, no início deste milénio, no sentido de
minimizar a dependência de importação do petróleo e alegando como benefício associado a
redução dos gases com efeito de estufa. No entanto, as plantas utilizadas para esse fim,
gramíneas, por exemplo milho, necessitam que os terrenos sejam gradados, escarificados ou
mesmo removidos por alfaias agrícolas com ações muito invasoras, de modo a permitir que as
plantas se fixem no solo de modo rendível. Esta simples ação liberta enormes quantidades de
dióxido de carbono do solo para a troposfera. Esta ação agrícola não é nova. O ser humano,
no sentido de produzir mais para a sua sobrevivência, desenvolveu um processo de agricultura
com impactos crescentes e muito acentuados nos nossos dias, iniciado na região do «crescente
fértil» onde hoje se verificam zonas áridas, com solos totalmente erodidos e sem capacidade
de retenção das águas, onde outrora foram zonas arbustivas climaticamente muito
semelhantes a Portugal. A mudança climática ao longo do tempo desde o crescente fértil até
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

aos dias de hoje também tem tido algumas transformações, como seria de prever.
Provavelmente, se o clima de hoje fosse o mesmo que há cerca de dois mil anos, aquando a
criação de Alcácer do Sal, provavelmente a civilização romana teria desenhado a cidade do
outro lado da margem, ou seja, segundo um conceito de cidade meridional.
Qual será então o futuro da «forma» da cidade mediterrânica?
Ao observar o passado, observamos que certas práticas contraproducentes como a
simples agricultura intensiva no período dos primeiros impérios e civilizações no “crescente
fértil” desertificaram certos territórios, com climas em grande parte semelhante ao nosso, mas
com uma forte erosão do solo, tal como as cidades poderão ainda mais desertificar. A ideia
condutora reside essencialmente em como conservar a energia, mas também como saber
transferi-la. No clima mediterrânico essa conservação e transferência deve ser ponderada com
o equilíbrio dos dois estados de temperatura: inferior e superior à zona de conforto.
Por outro lado, durante muito tempo, todo o espaço mediterrânico tem sido palco de
má organização no planeamento e construção, excetuando determinadas políticas e ações com
impactos mais positivos, mais recentemente, ou outras boas ações pontuais do período
clássico ao período moderno.
Mas uma das medidas poderá partir sem dúvida de uma renovação das cidades por
intermédio da sua reabilitação ou mesmo reconstrução. A reabilitação, em questões
financeiras pode-se tornar um projeto sempre mais inviável face aos interesses culturais da
maioria do parque habitacional do século XX. A reconstrução não tem sido integrada nos
interesses culturais europeus devido a um interesse de defesa do património, que por sua vez
devia ser bastante seletivo dos objetos a preservar.
O parque habitacional, de acordo com os dados do INE relativamente aos censos 2011,
é neste momento superior a 5,8 milhões de frações, enquanto a dimensão média familiar é de
2,6 pessoas. Logo, sendo o número de famílias por alojamento de 1,44, significa que do ponto
de vista teórico existem quase 50% de famílias com uma segunda habitação, e/ou muitas
residências e edifícios não ocupados ou devolutos. Existem estatisticamente mais alojamentos
do que o necessário e não há nascimentos suficientes para uma reposição necessária nas
próximas décadas.
Por outro lado, cada vez mais se observa a desertificação progressiva de aglomerados
urbanos no interior do país ou mesmo de habitações no campo ou em explorações agrícolas.
Torna-se cada vez mais difícil manter uma sociedade estável com estruturas necessárias para
as crianças e adultos terem acesso à informação, educação, saúde, convívio, cultura e
desporto, entre outros fatores de atração ou de segurança – que cada vez mais motivam as
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

famílias a fixarem-se nas grandes cidades. Este processo também se presume que seja
irreversível e deve ser encarado com alguma naturalidade, pois poderá permitir a renovação
das cidades, com a implosão de prédios e bairros supérfluos, devolutos ou pouco práticos.
Devemos ter em consideração que um bairro de moradias com mais de cinquenta anos em
Lisboa, como o Alvito em Monsanto ou mesmo o bairro da Encarnação, apresentam solos
demasiado valiosos para serem usados como espaços privados unifamiliares e, além do mais,
de caráter socioeconómico mais humilde.
Não se trata de um processo necessariamente mais ou menos correto ou de uma ação
premeditada, mas de uma evolução natural, de uma tendência futura do desenvolvimento das
cidades mediterrânicas, concentrando-se progressivamente, aumentando a sua volumetria dos
corpos de edifícios e aproveitando melhor toda a sua energia interior. Quanto às restantes
superfícies edificadas, será provável que desapareçam as mais marginais e talvez os solos
retornem quase ao seu estado natural, uso florestal ou agrícola. Presume-se que este processo
de implosão seja natural, dependendo apenas de um estado de oportunidade e do tempo dos
decisores políticos, dado que estritamente do ponto de vista térmico existe um retorno
financeiro médio de apenas 40 anos.
De acordo com os estudos de bairros simulados, a diferença da despesa térmica anual
das habitações dos bairros existentes, sobretudo a despesa térmica das moradias sociais,
excetuando-se as habitações construídas na última década, com habitações termicamente
preparadas equivalem a um valor de entre 2,5% do preço de metro quadrado de construção,
conforme se conclui no 2.º capítulo. Se associarmos outros benefícios, incluindo renovações
sociais, infraestruturas e, acima de tudo, o relançamento económico do setor da construção,
esse retorno torna-se sem dúvida inferior a 20 anos.
Sendo todas estas contas fáceis de entender, torna-se muito importante não esquecer
que esta implosão será consequência da aplicação de critérios bioclimáticos, restando
assegurar que não seja apenas consideradas as ações mais pragmáticas e mais óbvias. É
preciso entender como a bioclimática interage com o urbanismo, que não é necessariamente
idêntica aos mesmos critérios de conforto no interior dos edifícios.
Efetivamente, estabelecemos os três conceitos sendo o primeiro e fundamental a
envolvente climática, neste caso a mediterrânica, seguindo-se os elementos físicos envolvidos
e por fim a forma, ou seja a volumetria, dos corpos edificados. A envolvente e os elementos
físicos devem ter em conta todas as necessidades funcionais urbanísticas, desde a redução de
impacte das ICU até estudos de áreas de influência de acordo com a população dos bairros e
aglomerados urbanos. É necessário compreender que além de todos estes conceitos, a meta do
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A integração de conceitos bioclimáticos no planeamento e na cidade

urbanismo bioclimático será controlar as transferências e a conservação de energia de modo a


que esse conceito de sustentabilidade seja aplicado minimizando os impactos e dependências
do exterior, mas mantendo os níveis de urbanidade e qualidade de vida das sociedades
respetivas.
Mas, acima de tudo, há um certo brio em prevalecer o clima mediterrânico nas cidades
do Sul da Europa, dadas as suas potencialidades e valências, dela desde a sua história,
património, especificidades agrícolas até à atração turística e cultural que proporcionam. Não
é um clima «ponderado», mas que vive à base de equilíbrios. É uma estabilidade que não se
proporciona apenas no clima, mas em muitos outros fatores. Ao existir uma necessidade de
corrigir as ICU, não será possível reduzir o diferencial abaixo da amplitude térmica típica da
zona climática ou microclimática, e esse estudo também tem de ser realizado. A cor das
fachadas deve ser proporcional e equilibrada às estações dado que exige ser escura no inverno
mas clara no verão. A modelação não deverá ser baixa (como frações unifamiliares) nem
excessivamente elevada, como arranha-céus, mas deverá ser definida por um critério de
densidade suficiente a permitir a conservação e o bem-estar do decisão. Seguindo muitos
critérios já expostos como o LGDB 2009, uma boa experiência neste âmbito é Masdar, em
Abu Dhabi, com bairros densos, ruas mais sinuosas e aberturas de praças ricas de elementos,
incluindo espaços verdes. Esta grande intervenção seguiu inclusive vários critérios incluindo
das agências de notação LEED e BREEAM, além do enorme investimento para que o
conforto e a racionalização energético estejam em sintonia.
O urbanismo bioclimático, seja ele mediterrânico ou não, dependerá sempre de três
fatores: envolvente climática, fator de forma e materiais de construção. O modo como estes
elementos são estudados, ou aplicados para cada caso (no âmbito da bioclimática) não devem
ser confundidos com os critérios que definem um urbanismo sustentável. Devem porém ser
um contributo técnico e integrado nos planos urbanos, os quais devem ser totalmente
dependentes de se considerar sustentáveis de acordo com o interesse científico demonstrado
desde a Conferência de Estocolmo (1972), posteriormente pelo Relatório Brundtland (1987) e
pela Carta de Aalborg (1994). Deste modo, a conclusão desta tese permite um trajeto mais
consistente e equilibrado no planeamento sustentável, dando sequência a estudos de
investigação que possam definir indicadores mais concretos, nomeadamente na utilização de
espaços verdes e de modelos de edificado no espaço urbano. Em suma, que possibilite a
existência de cidades resilientes, que proporcionem qualidade de vida, adaptáveis aos desafios
humanos, socioeconómicos e climáticos do presente e do futuro.

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Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
PEDRO MANUEL MACHADO DA SILVA FARIA

A INTEGRAÇÃO DE CONCEITOS BIOCLIMÁTICOS


NO PLANEAMENTO E NA CIDADE

APÊNDICES

Orientador: Prof. Doutor Mário Canova Moutinho


Co-Orientador: Prof. Doutor António Santa-Rita

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias


Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

Lisboa
2012
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

APENDICE(
!
!

1.(Introdução(a(materiais(de(construção(

Os! materiais! têm! uma! importância! indirecta! no! Urbanismo! e! costumam! ser!
relativamente!desprezados.!Devemos!no!entanto!ter!em!conta!que!os!materiais!
são!um!dos!três!pontos!fundamentais!da!bioclimática!e!associada!ao!Urbanismo!
devemos! mesmo! nos! preocupar! em! perceber! o! seu! comportamento.! Há! planos!
dependentes! de! um! tipo! de! material! tal! como! sistemas! características! de!
paliçadas!e!cidades!de!terra,!ou!adobe,!(Sanaa!ou!Shibam).!

Há! uma! grande! necessidade! em! termos! bioclimáticos! de! entendermos!


cientificamente! os! materiais! pelas! suas! características! térmicas! e! em! parte! as!
suas! próprias! características! químicas.! O! mau! entendimento! científico! pode!
gerar! determinadas! acções! na! imagem! e! organização! da! cidade! perfeitamente!
desenquadrados.!

Efectuando!uma!breve!descrição!de!materiais!e!a!sua!ligação!com!a!bioclimática!
podemos! descrever! vários! capítulos,! segundo! os! mesmos! critérios! do! ITE50,!
documento! científico! referente! aos! coeficientes! de! transmissão! térmica! de!
elementos!da!envolvente!dos!edifícios:!

Isolamentos!térmicos!

1. Pedras!
2. Betões!
3. Gessos,!argamassas!e!fibrocimentos!
4. Madeira!e!derivados!
5. Plásticos,!borrachas!e!impermeabilizações!
6. Inertes!
I!
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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

7. Metais!
8. Vidros!
9. Gases!!
10. Água!

Determinados! materiais! como! os! isolamentos! térmicos! têm! como! único!


propósito!a!função!de!protecção!na!condução!de!energia,!não!existindo!nenhum!
material!(à!excepção!do!aglomerado!negro!de!cortiça)!capaz!de!ser!aplicado!na!
construção! sem! a! combinação! de! outros! materiais! em! prol! da! sua! deterioração!
ou!mesmo!do!edificado.!Cientificamente!são!considerados!isolamentos!térmicos!
todos! aqueles! cuja! condutibilidade! térmica! é! inferior! a! 0,065! W/m.ºC! e! uma!
resistência! térmica! superior! a! 0,3! m2.ºC/W.! São! extremamente! necessários! na!
construção! pois! evitam! as! perdas! e! os! ganhos! excessivos! de! energia,! ou! seja,!
evitam! simplesmente! uma! grande! parte! da! condução! de! energia! de! um! espaço!
interior!habitado!para!um!espaço!exterior!ou!interior!não!habitado.!No!entanto,!
não!são!a!solução!directa.!

Os!gases!são!excelentes!isolamentos!térmicos!dado!que!todos!eles!têm!valores!de!
condução!térmica!inferiores!aos!designados!isolamentos,!no!entanto,!carecem!de!
um!simples!problema!de!vedação.!Dadas!as!suas!características!química!e!físicas!
é! muito! difícil! de! manter! os! elementos! ou! compostos! gasosos! estáveis.! Temos!
como! exemplo! o! próprio! ar! natural,! assim! designado! no! Quadro! I.2! do! ITE50,!
associado! ao! ar! que! respiramos! no! exterior! vulgarmente,! tem! uma!
condutibilidade!térmica!melhor,!ou!seja!inferior,!que!qualquer!outro!isolamento!
térmico,! mas! a! sua! acção! enquanto! isolante! só! é! possível! caso! este! esteja!
devidamente! comprimido! sem! possibilidade! de! condução! física.! Ou! seja,!
conforme! é! designado! nos! termos! científicos:! nem! em! universos,! nem! em!
universos! fechados! mas! em! universos! isolados.! Se! a! relação! molecular! dos!
compostos! é! de! facto! muito! pequena! então! mais! difícil! é! de! criar! um! espaço!
devidamente!isolado!ao!gás!respectivo.!

II!
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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Como!primeira!abordagem!através!destes!dois!tipos!de!materiais!entendegse!que!
a! simples! construção! mal! conduzida! ou! executada! pode! tornar! qualquer!
edificado!originariamente!bem!planeado!numa!perspectiva!térmica!num!edifício!
com! boa! condução! de! energia,! ou! seja,! incapaz! de! criar! a! estabilidade! térmica!
necessária!ao!conforto!térmico.!

As!pedras,!betões,!metais,!madeiras!e!argamassas!são!normalmente!os!materiais!
estruturais! e! revestimentos! cuja! a! função! térmica! pode! ser! uma! das!
preocupações! principais.! As! pedras! e! os! betões! são! os! materiais! menos!
adequados! termicamente! e! por! vezes! menos! adequados! do! ponto! de! vista! de!
qualidade!do!ar.!As!argamassas!têm!diversos!casos!contraditórios!o!que!depende!
directamente! de! caso! para! caso! e! as! madeiras! têm! vindo! a! ganhar! um! enorme!
destaque! devido! à! sua! óptima! compatibilidade! estrutural! e! térmica.! Neste! caso!
em!específico!de!todos!estes!materiais!estruturais,!desde!a!pedra!à!madeira,!tem!
existido! um! problema! cultural! e! apoiado! num! senso! comum! de! alguma!
ignorância! científica! no! ramo! da! arquitectura,! engenharia! e! directamente! na!
construção.! Não! há! grande! tradição! nos! povos! mediterrânicos,! mesmo! em!
grande! parte! dos! povos! do! clima! mediterrânicos! do! norte,! na! utilização! de!
madeiras! como! estruturas! ou! revestimentos,! principalmente! desde! a! segunda!
metade!do!século!XX!com!a!entrada!industrial!do!betão!armado.!A!composição!da!
madeira,! principalmente! com! a! introdução! de! lamelados! tem! dado! provas! de!
compatibilidade! com! o! betão! armado.! A! pedra! e! o! betão! são! considerados! por!
vezes! bons! termicamente! pois! são! associados! como! materiais! frescos.! Esta!
situação,!igualmente!do!senso!comum,!devegse!ao!facto!de!serem!materiais!muito!
densos,!com!uma!massa!volumétrica!muito!elevada!logo!capazes!de!reter!melhor!
o! transporte! de! energia! mas! não! impedem! nem! expulsão! como! os! isolamentos!
térmicos.! Deste! modo,! no! período! de! Inverno! é! de! facto! extremamente! difícil!
manter! uma! temperatura! de! conforto! estável! num! edifício! de! pedra! sendo!
apenas! possível! mantêglo! estável! no! Verão! caso! a! temperatura! média! não! seja!
superior!aos!25º!durante!muitos!dias.!Por!sua!vez,!os!metais!tem!sido!igualmente!
um! grande! motivo! de! controvérsia,! pois! são! extremamente! impróprios!
termicamente!pela!sua!alta!condutibilidade!térmica.!

III!
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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

A!água!não!tem!aplicabilidade!estrutural!nem!térmica,!no!entanto!também!não!é!
um!condutor!de!energia!e!no!seu!estado!sólido!(gelo)!pode!ser!temporariamente!
estrutural.! Neste! caso! temos! um! exemplo! prático! abordado! nesta! tese! mais! à!
frente!nos!casos!bioclimáticos:!o!Iglo.!

O! vidro! é! geralmente! integrado! como! um! envidraçado! composto! por! uma!


caixilharia.!É!o!único!material!relevante!nos!ganhos!e!perdas!de!um!edifício!e!ao!
qual!depende!a!luz!interior.!Embora!a!luz!foi!a!razão!principal!da!existência!de!
janelas,! os! envidraçados! são! fundamentais! aos! rendimentos! energéticos! no!
período!de!aquecimento!(período!do!Outono/Inverno).!É!no!entanto!o!material!
mais!controverso!na!utilização!devido!a!este!factor!e!não!consenso!científico!na!
sua! utilização.! Apenas! será! relevante! explicar! que! a! sua! aplicação! depende! do!
território! e! localização! geográfica,! ao! qual! tem! vindo! a! ser! cada! vez! mais!
esquecido,! dado! o! aparecimento! de! projectos! de! arquitectura! e! planos!
urbanísticos!sem!consideração!à!orientação!solar.!

Como! conclusão! desta! apresentação! de! materiais,! é! necessário! entender! que! a!


escolha!dos!materiais!podem!ser!fundamentais!numa!construção!termicamente!
adequada,!mas!é!necessário!ter!em!conta!que!o!conceito!de!bioclimática!aplicagse!
mais! à! volumetria,! orientação! e! aplicação! dos! envidraçados! que! a! própria!
escolha!de!isolamentos!ou!estruturas.!!

IV!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

2.(CALCULOS(das(envolventes(

O! referente! capítulo! do! apêndice! diz! respeito! aos! estudos! e! levantamentos!


recolhidos! dos! bairros! estudados! e! apresentados! na! tese,! intitulados! de! inicio!
como! «Estudos! da! realidade! nacional! (território! mediterrânico)».! Não! foi!
possível! atingir! de! inicio! o! objectivo! pretendido! e! em! determinados! casos,! com!
em!Elvas,!foi!efectuado!um!levantamento!parcelar!do!próprio!centro!histórico.!

Como! também! foi! dos! primeiros! efectuados! e! ainda! num! periodo! de! alguma!
pesquisa!e!determinação!científica,!o!levantamento!em!Elvas!foi!um!pouco!mais!
extenso!e!complexo.!Foi!igualmente!estudado!a!densidade!e!a!área!coberta,!alem!
de! uma! determinação! do! volume.! Este! estudo! mais! complexo! apenas! resultou!
numa! determinação! de! um! cálculo! médio! de! fracção! do! centro! histórico! para!
comparar!com!os!restantes!bairros!em!estudo.!A!restante!informação,!apesar!de!
interessante,!desviavagse!um!pouco!dos!objectivos!de!análise!concreta!da!tese.!

Descrição!do!levantamento:!

A!constituição!típica!das!casas!do!centro!histórico!de!Elvas!é!em!aparelhagem!de!
xisto!e!areias,!com!misturas!de!tijolo!burro!e!algumas!intervenções!mais!recentes!
de! tijolo! furado.! A! caixilharia! varia! entre! madeira! e! alumínio! sendo! difícil!
encontrar!um!padrão!geral.!Foi!determinado!um!padrão!para!os!pisos!através!de!
um! levantamento! no! local,! estipulougse! um! pé! direito! padrão! de! 2,6! metros!
(dado! que! as! habitações! variam! entre! 2,2! e! 3! metros.! As! ruas! sinuosas! dos!
centros! históricos! a! área! coberta! acaba! por! ser! em! média! acima! dos! 50%.! No!
entanto! há! que! estudar! o! conjunto! do! tecido! urbano! dada! a! preocupação! de!
espaços!abertos!e!logradouros,!típico!de!urbanizações!de!estrutura!clássica!e/ou!
medieval.!Foram!identificados!três!pequenos!núcleos!e!feito!um!levantamento!no!
local.!

!
V!
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APENDICE 1

1ºnucleo!

A! moda! é! de! 2! pisos! mas! apresenta! uma! média! de! 2,5! pisos,! estipulougse! uma!
altura!padrão!de!6,5!metros!de!volumetria.!

Área!coberta!de!de!cerca!66%.!!

Para!7!hectares!cerca!de!5!hectare!são!cobertos.!

A!relação!da!área!volumétrica!por!metro!quadrado!será!de!6,5x66%!ou!seja!4,35!
m3/m2.!

De!acordo!com!uma!das!análise!a!uma!fracção!tipo,!tem!uma!perda!ou/e!ganho!
energético!anual!de!cerca!300kw/m2.ano!para!um!caso!específico!de!pé!direito!
de!3metros.!Deste!modo,!podemos!utilizar!a!medida!padrão!de!100kw/m3.ano.!
Significa! que! associada! a! implantação! cada! metro! quadrado! de! área! coberta!
apresenta!uma!perda!sensivelmente!de!100x4,35!ou!seja!435kw/m3.ano.!

Conclusão! do! 2º! bairro! prevê! uma! despesa! energética! térmica! de!
435kw/m3.ano.!Total!de!70000x435=!30,!450!Gw/ano!

Figura(1B(Área(coberta(do(primeiro(núcleo((

!
VI!
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APENDICE 1

2º!núcleo!

A!moda!é!de!3!pisos,!neste!caso!existem!prédios!de!1!a!5!pisos!estabelecendo!um!
padrão!de!3,3!pisos!ou!seja!uma!volumetria!de!10!metros.!

A!área!coberta!é!de!66%.!Para!cerca!de!6!hectares!cerca!de!4!são!cobertos.!

A!relação!da!área!volumétrica!por!metro!quadrado!será!de!10x66%!ou!seja!6,7!
m3/m2.!

Utilizando! a! fracção! padrão! em! análise,! com! uma! perda! ou/e! ganho! energético!
anual!de!cerca!300kw/m2.ano!para!um!caso!específico!de!pé!direito!de!3metros.,!
então! podemos! considerar! a! implantação! de! cada! metro! quadrado! de! área!
coberta!com!uma!perda!sensivelmente!de!100x6,7!ou!seja!670kw/m3.ano.!

Conclusão! do! 2º! bairro! prevê! uma! despesa! energética! térmica! de! 670!
kw/m3.ano.!Total!de!60000x670=!40,!200!Gw/ano.!

Figura(2B(Área(coberta(do(segundo(núcleo((

VII!
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APENDICE 1

3º!Bairro!

A! moda! é! de! 2! pisos,! estabeleceugse! um! padrão! de! 2,3! pisos! ou! seja! uma!
volumetria!de!6,2!metros.!

A!área!coberta!é!de!33%.!Para!cerca!de!10!hectares!cerca!de!3,3!são!cobertos.!

A!relação!da!área!volumétrica!por!metro!quadrado!será!de!10x33%!ou!seja!3,3!
m3/m2.!

Utilizando! a! fracção! padrão! em! análise,! com! uma! perda! ou/e! ganho! energético!
anual!de!cerca!300kw/m2.ano!para!um!caso!específico!de!pé!direito!de!3metros.,!
então! podemos! considerar! a! implantação! de! cada! metro! quadrado! de! área!
coberta!com!uma!perda!sensivelmente!de!100x3,3!ou!seja!333kw/m3.ano.!

Conclusão! do! 3º! bairro! prevê! uma! despesa! energética! térmica! de!
333kw/m3.ano.!Total!de!100000x333=!33,3!Gw/ano.!

Para! concluir! a! primeira! fase! dos! dados! vamos! ainda! relacionar! a! área! total!
500000!m2,!área!coberta!a!60%!e!um!pé!direito!padrão!de!7,5!metros!de!altura,!
temos! 0,6x500000x7,5x100! =! 225! Gw/ano! ou! seja! 100x7,5x60%=! 450!
kw/m3.ano!

Efectuando!uma!média!ponderada!dos!3!bairros!435x7!+670x6!+333,3x10!/23!=!
(3!045!+!4!020!+!3!333)!/23!=!10,!418/23!=!452,96!Kw/m3.ano!

Deste! modo,! verificagse! que! a! média! ponderada! por! ambos! os! métodos! dão!
sensivelmente!os!mesmos!valores!de!450!kw/m3.ano!

O! sistema! de! Elvas! serviu! de! exemplo! para! o! cálculo! de! metro! quadrado! por!
bairro,!dado!que!o!objectivo!principal!é!compreender!a!forma!da!cidade.!

A!necessidade!de!criar!um!metro!quadrado!por!bairro!é!fulcral,!mas!ainda!induz!
a! muitos! erros,! daí! a! necessidade! de! interligação! com! os! dados! da! população!
residente!e!população!em!máxima!ocupação.!

VIII!
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APENDICE 1

A! população! residente! pode! significar! metade! da! população! máxima! dado! que!
dependente!da!taxa!da!ocupação.!!

Ambas! são! importantes! dado! que! é! normal! hoje! em! dia! existir! flutuação! de!
famílias! de! um! bairro! para! outro,! dependentemente! das! necessidades! adversas!
que!uma!cidade!pode!criar.!No!entanto,!será!a!população!em!máxima!ocupação!a!
relevante!para!o!estudo!de!índices!finais.!!

Cruzamento!de!dados!cedidos!pela!ADENE:!

De! modo! a! colmatar! o! levantamento! efectuado! pelas! zonas! de! estudo,! foram!
igualmente! pedidos! à! entidade! responsável! pelo! SCE,! serviço! de! certificação!
energética,!a!ADENE,!Agencia!para!a!Energia.!

Em! consequência! de! um! plano! de! 1938,! Plano! Geral! de! Expansão! de! Lisboa!
(PGUEL),!o!bairro!de!Alvalade!foi!criado!com!uma!extensão!máxima!de!230!ha,!
para!12.000!fogos!e!o!número!de!habitantes!previsto!para!a!máxima!ocupação!foi!
de!45.000!habitantes,!iniciando!primeiro!47!ha!para!2066!fogos!em!302!edificios,!
nas!denominadas!células!I!e!II.!

Neste! caso,! apesar! da! existência! de! apenas! três! tipos! de! modelos! de! edifício,! o!
Bairro! de! Alvalade! apresenta! contextos! térmicos! bastante! divergentes.! Esses!
valores!não!são!aqui!demonstrados,!apenas!o!valor!médio,!mas!essa!divergência!
devegse!ao!facto!de!existirem!moradias,!prédios!e!fracções!de!último!andar!sem!
isolamento! nas! lajes.! Valores! referentes! a! 450! fracções! no! bairro! de! Alvalade,!
urbanização!de!materiais!da!época!com!edificado!predominante!entre!3!e!4!pisos!
é!de!137!Kw/m2.ano.!!

Se! fizermos! uma! análise! de! ocupação! sobre! as! células! I! e! II! temos! um! terreno!
com! 470000m2! para! 2066! fogos,! numa! média! de! 86,8! m2/fogo! logo! uma!
despesa! energética! anual! prevista! de! 11891! Kw.ano/fogo,! ou! seja!
1545€.ano/fogo.!Se!por!cada!metro!quadrado!de!construção!são!precisos!17,81!
€!anuais,!para!2066!fogos!equivale!24.567!Mw.ano,!ou!seja!3.193.684!€.ano.!!

IX!
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APENDICE 1

A! alternativa! imediata! de! colocação! de! bombas! de! calor! teria! um! impacte! de!
minimização! para! cerca! de! 6€/m2.ano,! ou! seja! cerca! de! 500€.ano/fogo! ou!
1.000.000€!no!total.!!

O!plano!de!pormenor!urbano!da!zona!da!quinta!da!granja!e!da!quinta!da!torre!foi!
aprovado!a!21!de!Agosto!de!2000!e!ainda!se!encontra,!na!presente!data,!a!metade!
da! construção! dos! seus! lotes.! O! plano! de! 371.385! m2! com! uma! área! total! de!
implantação! de! 54.968m2,! foi! constituído! com! 1508! fogos,! por! uma! zona!
maioritária! de! edifícios! entre! os! 4! e! 6! pisos! (ATC! cerca! de! 200.000! m2)! e! uma!
zona!de!moradias!(ATC!cerca!de!20.000!m2),!nomeadamente:!!

93! Moradias!

49! Prédio!6!andares!!

51! Prédio!5!andares!!

19! Prédio!4!andares!!

Devido! à! dimensão! da! cidade! de! Castelo! Branco,! este! Plano! foi! das! maiores!
intervenções!urbanísticas!e!o!maior!enquanto!Plano!de!Pormenor,!afecto!a!cerca!
de!10!a!20%!da!população.!O!inicio!da!construção!dos!lotes!não!permitiu!a!boa!
aplicabilidade!térmica,!no!entanto,!a!sua!configuração!e!face!aos!novos!materiais!
o!resultado!térmico!de!acordo!com!valores,!cedidos!pela!ADENE,!referentes!a!83!
fracções! foi! de! 78! Kw/m2.ano.! Ou! seja,! incluindo! todo! o! global! das! fracções,!
sejam!edifícios!de!4!ou!6!pisos,!sejam!moradias,!o!resultado!previsto!de!despesa!
térmica! nestas! fracções! é! de! 17.160! Mw.ano,! ou! seja! 2.230.800! €.ano.! Sabendo!
que! se! trata! de! uma! zona! climática! mais! agravada! a! configuração! e! os! novos!
materiais!têm!um!peso!determinante.!

Referente! ainda! a! esta! zona! climática,! temos! um! bairro! de! essencialmente!
moradias! unifamiliares,! Quinta! da! Pipa,! com! diversos! materiais! de! construção!
existindo! já! algumas! construções,! mas! muito! poucas,! de! acordo! com! o!
regulamento! do! RCCTE! 80/2006! com! edificado! predominante! de! 2! pisos.! De!
acordo!com!a!média!de!valores!cedidos!pela!ADENE!(14!fracções!em!análise),!a!

X!
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APENDICE 1

área! útil! média! é! de! 163! m2! e! os! valores! de! despesa! térmica! são! de! 167!
Kw/m2.ano.!

Descrição!detalhada!da!Simulação!efectuada!das!urbanizações:!

Simularamgse! cinco! tipos! de! urbanizações.! Três! delas! com! a! mesma! área! de!
implantação! com! as! diferenças! nos! números! de! pisos.! As! outras! duas! dizem!
respeito! a! fracções! unifamiliares! em! banda! geminadas! e! em! implantações!
separadas!respectivamente.!

A!simulação!prevê!um!calculo!de!população!com!uma!taxa!de!ocupação!a!100%!e!
cada! fogo! é! calculado! nos! prédios! com! quatro! assoalhadas! referente! a! uma!
família! de! quatro! pessoas! e! nas! moradias! cinco! assoalhadas! referente! a! uma!
família!de!cinco!pessoas.!

Vamos!tomar!um!exemplo!com!os!seguintes!dados!de!padrão:!

1g Definiugse!150m2!(12,25m)!de!área!de!implantação!
2g Definiugse!a!área!como!um!quadrado!perfeito,!apenas!quatro!vértices.!
3g Pressupôsgse!cada!pé!direito!com!2,7!metros!
4g Pressupôsgse! uma! quantidade! de! janelas! com! cerca! 10%! da! área! de!
pavimento,!logo!4m2!por!orientação!solar.!
5g Tomougse!a!totalidade!das!obstruções!a!70%!para!todos!os!casos.!
6g Todos!os!casos!apresentaram!uma!garagem!com!a!mesma!abertura!para!o!
exterior.!
7g Todos!os!casos!apresentaram!um!desvão!no!sótão!não!ventilado.!
8g Todos! os! casos! apresentaram! paredes,! pavimentos! e! coberturas! com!
isolamento!devido!com!a!melhor!utilização!e!exigência!regulamentar.!
9g Foram! escolhidos! envidraçados! para! todos! os! casos! de! madeira,! com!
vidro!duplo!de!16mm!e!estores!exteriores!claros!e!classe!3.!
10g A!localização!específica!foi!num!lugar!urbano!indiferente!do!concelho!de!
Lisboa!!
!

XI!
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APENDICE 1

Sistema(em(torre,(fracção(isolada:(

Moradia:!!

NIC!=!45,57!e!NVC!=!9,02!TOTAL!anual!de!54,59!KWh/m2.ano!

Apartamentos!(3!pisos):!!

1º!NIC!=!37,74!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!46,76!KWh/m2.ano!

2º!NIC!=!32,12!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!41,14!KWh/m2.ano!

3º!NIC!=!41,13!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!50,15!KWh/m2.ano!

TOTAL!(média/m2)!NIC!=!37,00!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!46,02!KWh/m2.ano!

Apartamentos!(6!pisos):!

1ºNIC!=!37,74!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!46,76!KWh/m2.ano!

2º,3º,4º!e!5º!NIC!=!32,12!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!41,14!KWh/m2.ano!

6º!NIC!=!41,13!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!50,15!KWh/m2.ano!

TOTAL!(média/m2)!NIC!=!34,56!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!43,58!KWh/m2.ano!

Apartamentos!(8!pisos):!

1ºNIC!=!37,74!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!46,76!KWh/m2.ano!

2º!ao!7º!NIC!=!32,12!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!41,14!KWh/m2.ano!

8º!NIC!=!41,13!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!50,15!KWh/m2.ano!

TOTAL!(média/m2)!NIC!=!33,95!e!NVC!=!9,02!TOTAL!de!!42,97!KWh/m2.ano!

Potencia!térmica!média!anual:!

Moradia:!8188,5!Kwh/ano!

Apartamentos!(3!pisos):!6903!Kwh/ano!(g1285,5!KWh/ano!com!a!moradia)!

XII!
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APENDICE 1

Apartamentos!(6!pisos):!6537!Kwh/ano!(g1651,5!KWh/ano!com!a!moradia)!

Apartamentos!(8!pisos):!6445,5!Kwh/ano!(g1743!KWh/ano!com!a!moradia)!

Como! primeira! abordagem,! entendeugse! que! a! partir! do! 6º! piso! em! termos!
térmicos!deixava!de!ser!muito!relevante.!

Simulougse!com!o!actual!preço!da!energia!tendo!ainda!em!conta!o!preço!normal!
da!electricidade!em!2010!de!cerca!0,13€:!

Moradia:!1064,5€!(88,71€/mês)!

Apartamentos!(3!pisos):!897,39€!(74,78€/mês)!

Apartamentos!(6!pisos):!849,81€!(70,82€/mês)!

Apartamentos!(8!pisos):!837,92€!(69,83€/mês)!

Verificougse!que!a!diferença!de!habitações!isoladas!para!uma!torre!de!apenas!3!
pisos!é!de!14€/mês!e!para!8!pisos!de!quase!20€/mês.!

Simulougse,! então,! pressupondo! que! as! habitações! estariam! aquecidas! com!


aquecimento! central! através! de! bombas! de! calor! numa! média! de! COP! 3! e! EER!
2,5:!

Moradia:!296,21€!+!70,36€!=!366,57!(30,55€/mês)!

Apartamentos!(3!pisos):!240,5€!+!70,36€!=!310,86!(25,91€/mês)!

Apartamentos!(6!pisos):!224,64€!+!70,36€!=!295!(24,59€/mês)!

Apartamentos!(8!pisos):!220,68€!+!70,36€!=!291,04!(24,25€/mês)!

Numa! segunda! conclusão! descobriugse! que! a! maior! diferença! nas! perdas!


energéticas! se! encontram! sempre! entre! moradias! e! apartamentos,!
independentemente! da! quantidade! de! número! de! pisos.! No! entanto,! há! que!
entender! que! as! acções! activas! são! tão! importantes! como! as! acções! passivas,!
dado!que!por!mais!bem!pensada!que!seja!a!arquitectura!bioclimática,!esta!nunca!
dispensa!climatização!adequada.!

XIII!
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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Mas,! esta! investigação,! como! já! foi! referido,! não! tem! por! interesse! específico!
determinar!quanto!uma!pessoa!gasta!na!sua!casa,!mas!qual!a!despesa!genérica!e!
global! de! acordo! com! os! bairros! e! morfologias! urbanas.! Deste! modo,! neste!
estudo!tivemos!em!conta!uma!colocação!de!1000!fogos,!pressupondo!que!1000!
fogos!seria!uma!dimensão!aceitável!de!um!bairro!tipicamente!português:!

Moradias:!Despesa!de!366!570€!ou!seja!8!188!500!KWh/ano!

Apartamentos!(3!pisos):!Despesa!de!310!860€!ou!seja!6!903!000!KWh/ano!

Apartamentos!(6!pisos):!Despesa!de!295!000€!ou!seja!6!537!000!KWh/ano!

Apartamentos!(8!pisos):!Despesa!de!291!040€!ou!seja!6!445!500!KWh/ano!

Nesta! situação! específica! entendemos! que! a! quantidade! de! fogos! já! tinha! um!
papel! fundamental! na! despesa.! Em! vez! de! uma! diferença! de! 5€/mês! obtevegse!
diferenças!de!5000€/mês,!(sabendo!ainda!que!parte!da!despesa!respeitante!do!
cidadão!é!também!em!parte!suportada!pelos!serviços!públicos,!que!não!vem!na!
sua! factura).! Neste! caso,! só! se! estudou! a! diferença! entre! pisos! e! entre! despesa!
térmica.! Pois! alem! da! despesa! térmica,! outras! situações! como! infraestruturas! e!
relações!sociais!estão!sempre!presentes!nesta!mesma!discussão.!

Sistema(em(QUARTEIRÕES(

Deste! modo,! aumentougse! a! relação! da! morfologia! urbana! e! presumiugse! cinco!


modelos!de!quarteirão!diferentes:!

1g Moradias!
2g Moradias!geminadas!
3g Prédios!de!2!pisos!
4g Prédios!de!4!pisos!
5g Prédio!de!8!pisos!
Foram! aplicados! os! mesmos! critérios! construtivos! anteriores,! com! os!
quarteirões!de!orientação!predominante!Norte/!Sul.!

!
XIV!
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APENDICE 1

Moradias:!!

NIC!=!45,57!e!NVC!=!9,02!TOTAL!anual!de!54,59!KWh/m2.ano!

Moradias!Geminadas:!!

!NIC!=!43,07!e!NVC!=!8,58!TOTAL!de!!51,65!KWh/m2.ano!

Prédios!(2!pisos):!

(Encontro!de!médias!de!fracção)!

Piso!térreo!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!43,84!
x!8!=!350,72!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!44,46!
x!4!=!177,84!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!44,30!x!2!=!88,60!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!43,99!x!2!=!87,98!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!705,14/!16!!

MÉDIA!de!fracção!térrea!=!44,07!KWh/m2.ano!

Último!Piso!!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!47,22!
x!8!=!377,76!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!47,84!
x!4!=!191,36!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!47,68!x!2!=!95,36!KWh/m2.ano!

XV!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!47,37!x!2!=!94,74!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!759,22/!16!!

MÉDIA!das!últimas!fracções!=!47,45!KWh/m2.ano!

Média!Final!de!todas!as!Fracções!=!91,52/!2!=!45,76!KWh/m2.ano!

Prédios!(4!pisos):!

(Encontro!de!médias!de!fracção)!

Piso!térreo!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!43,84!
x!8!=!350,72!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!44,46!
x!4!=!177,84!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!44,30!x!2!=!88,60!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!43,99!x!2!=!87,98!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!705,14/!16!!

MÉDIA!de!fracção!térrea!=!44,07!KWh/m2.ano!

Último!Piso!!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!47,22!
x!8!=!377,76!KWh/m2.ano!

XVI!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!47,84!
x!4!=!191,36!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!47,68!x!2!=!95,36!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!47,37!x!2!=!94,74!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!759,22/!16!!

MÉDIA!das!últimas!fracções!=!47,45!KWh/m2.ano!

2º!e!3º!Pisos!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!38,24!
x!8!=!305,92!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!38,86!
x!4!=!155,44!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!38,70!x!2!=!77,40!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!38,39!x!2!=!76,78!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!615,54/!16!!

MÉDIA!de!fracções!intermédias!=!38,47!KWh/m2.ano!

Média!Final!de!todas!as!Fracções!=!168,46/!4!=!42,11!KWh/m2.ano!

Prédios!(8!pisos):!

(Encontro!de!médias!de!fracção)!

Piso!térreo!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!43,84!
x!8!=!350,72!KWh/m2.ano!
XVII!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!44,46!
x!4!=!177,84!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!44,30!x!2!=!88,60!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!43,99!x!2!=!87,98!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!705,14/!16!!

MÉDIA!de!fracção!térrea!=!44,07!KWh/m2.ano!

Último!Piso!!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!47,22!
x!8!=!377,76!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!47,84!
x!4!=!191,36!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!47,68!x!2!=!95,36!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!47,37!x!2!=!94,74!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!759,22/!16!!

MÉDIA!das!últimas!fracções!=!47,45!KWh/m2.ano!

2º!a!7º!Pisos!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!38,24!
x!8!=!305,92!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!38,86!
x!4!=!155,44!KWh/m2.ano!

XVIII!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!38,70!x!2!=!77,40!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!38,39!x!2!=!76,78!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!615,54/!16!!

MÉDIA!de!fracções!intermédias!=!38,47!KWh/m2.ano!

Média!Final!de!todas!as!Fracções!=!322,34/!8!=!40,29!KWh/m2.ano!

A! primeira! conclusão! definiu! uma! diferença! de! 15! KWh/m2.ano! entre! uma!
moradia! e! uma! fracção! num! prédio! de! 8! pisos,! ou! seja! uma! diferença! cerca! de!
30%.!!

Percebeugse!também!que!é!praticamente!irrelevante!a!diferença!térmica!a!partir!
do!4º!piso.!

Cada!moradia:!1064,5€!(88,71€/mês)!

Cada!moradia!geminada:!7747,5!Kw/ano,!logo!1007,17€!(83,93€/mês)!

Apartamentos!(2!pisos):!6864!Kw/ano,!logo!892,32€!(74,36€/mês)!

Apartamentos!(4!pisos):!6316,5!Kw/ano,!logo!821,15€!(68,43€/mês)!

Apartamentos!(8!pisos):!6043,5!Kw/ano,!logo!785,66€!(65,47€/mês)!

Tudo!isto!pressupôsgse!a!o!cálculo!do!Kw!em!2011!a!0,13€,!sem!conhecimento!de!
alteração! de! valores! da! energia,! mas! prevendo! que! esta! simplesmente!
aumentasse.!Aplicougse!o!mesmo!critério!de!climatização!por!bombas!de!calor!no!
cálculo!anterior.!

Cada!Moradia:!296,21€!+!70,36€!=!366,57!(30,55€/mês)!

Cada!moradia!geminada:!280€!+!67€!=!347€!(28,92€/mês)!

Apartamentos!(2!pisos):!6864!Kw/ano,!logo!892,32€!(74,36€/mês)!

XIX!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

NIc! 36,95! +! NVc! 8,81! =! 5542,5! Kw/ano! +! 1321,5! Kw/ano! =! 1847,5! Kw/ano! +!
528,6!Kw/ano!=!308,9!€!(25,74!€/mês)!

Apartamentos!(4!pisos):!6316,5!Kw/ano,!logo!821,15€!(68,43€/mês)!

NIc! 33,31! +! NVc! 8,81! =! 4996,5! Kw/ano! +! 1321,5! Kw/ano! =! 1665,5! Kw/ano! +!
528,6!Kw/ano!=!285,23!€!(23,77!€/mês)!

Apartamentos!(8!pisos):!6043,5!Kw/ano,!logo!785,66€!(65,47€/mês)!

NIc!31,48!+!NVc!8,81!=!4722!Kw/ano!+!1321,5!Kw/ano!=!1574!Kw/ano!+!528,6!
Kw/ano!=!273,34!€!(22,78€/mês)!

Concluindo!este!levantamento,!verificougse!que!a!diferença!média!entre!torres!e!
quarteirões!é!de!cerca!2,5!kw/m2.ano.!Significa!uma!diferença!média!por!fogo!de!
400kw/ano! (6445,5! Kw/ano! g! 6043,5! Kw/ano)! e! uma! diferença! para! as!
moradias!isoladas!de!2145!Kw/ano!(8188,5!Kw/ano!–!6043,5!Kw/ano)!ou!seja!
uma!redução!superior!a!25%.!

Para! entender! definitivamente! a! diferença! entre! uma! cidade! de! quarteirões! e!


uma!cidade!de!moradias!temos!cerca!de!2000Kw/ano.fogo!de!diferença.!

COMPARAÇÃO(COM(OUTRAS(ZONAS(CLIMATICAS(

Conforme! foi! referido,! estes! estudos! relacionamgse! entre! fracções! com! os!
requisitos!mínimos!necessários!a!um!bom!comportamento!térmico.!Mas!não!é!o!
caso!de!uma!percentagem!muito!próximo!dos!100%!das!fracções!no!concelho!de!
Lisboa.! Por! sua! vez,! os! dados! foram! calculados! numa! área! urbana! de! Lisboa,!
longe! de! zonas! expostas! e! agressivas! ao! mar! e! ao! vento.! Por! último,! os! valores!
climáticos! mediterrânicos! em! Lisboa! são! bastante! mais! equilibrados! que! em!
grande! parte! dos! restantes! concelhos! em! Portugal,! prevendo! deste! modo! que!
todos!os!valores!nos!restantes!concelhos!são!superiores.!

Neste! sentido,! façamos! um! exemplo! de! outras! zonas,! nomeadamente! Porto,!
Castelo! Branco! e! Oleiros.! Os! níveis! climáticos! de! Portugal! segundo! o! SCE! são!
definidos! por! I1,I2! e! I3! para! o! Inverno,! sendo! o! I1! mais! ameno! e! I3! mais!
XX!
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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

agressivo,!assim!para!o!Verão!V1,!V2!e!V3!sendo!V1!o!mais!ameno!e!V3!o!mais!
forte.!Lisboa!é!considerado!I1!V2,!Porto!I2!V1,!Castelo!Branco!I2!V3!e!Oleiros!I3!e!
V3.!

Deste!modo,!para!moradias!obtemos!as!seguintes!diferenças:!

Lisboa!!

NIC!=!45,57!e!NVC!=!9,02!TOTAL!anual!de!54,59!KWh/m2.ano!

Porto!

NIC!=!64,65!e!NVC!=!1,2!TOTAL!anual!de!65,85!KWh/m2.ano!

Castelo!Branco!!

NIC!=!66,9!e!NVC!=!5,71!TOTAL!anual!de!72,61!KWh/m2.ano!

Oleiros!!

NIC!=!100,37!e!NVC!=!5,71!TOTAL!anual!de!105,38!KWh/m2.ano!

Significa!que!a!despesa!anual!é!de:!

Lisboa!

8188,5!KWh/ano!=!1064,5!€!

Porto!

9877,5!KWh/ano!=!1284,08!€!

Castelo!Branco!

10891,5!KWh/ano!=!1415,90!€!

Oleiros!

15807!KWh/ano!=!2054,91!€!

Numa! primeira! conclusão! entendegse! que! zonas! como! Vila! Real,! Bragança,!
Guarda! ou! Oleiros! sofrem! quase! o! dobro! da! despesa! energética! que! as! áreas!

XXI!
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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

climáticas! da! área! metropolitana! de! Lisboa.! Seria! um! hipotético! pressuposto!
considerar!esta!particularidade!como!uma!das!razões!do!estabelecimento!social!
maioritário!da!população!portuguesa!nesta!zona!respectiva.!!

Comparemos!agora!os!casos!de!quarteirões:!

Lisboa((

(Encontro!de!médias!de!fracção)!

Piso!térreo!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!43,84!
x!8!=!350,72!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!44,46!
x!4!=!177,84!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!44,30!x!2!=!88,60!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!35,26!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!43,99!x!2!=!87,98!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!705,14/!16!!

MÉDIA!de!fracção!térrea!=!44,07!KWh/m2.ano!

Último!Piso!!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!47,22!
x!8!=!377,76!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!47,84!
x!4!=!191,36!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!47,68!x!2!=!95,36!KWh/m2.ano!

XXII!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!38,64!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!47,37!x!2!=!94,74!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!759,22/!16!!

MÉDIA!das!últimas!fracções!=!47,45!KWh/m2.ano!

2º!a!7º!Pisos!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!!8,58,!sendo!o!Total!de!38,24!
x!8!=!305,92!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!9,20!sendo!o!Total!de!38,86!
x!4!=!155,44!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!=!
9,04,!sendo!o!total!de!38,70!x!2!=!77,40!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!29,66!e!NVC!
=!8,73,!sendo!o!total!de!38,39!x!2!=!76,78!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!615,54/!16!!

MÉDIA!de!fracções!intermédias!=!38,47!KWh/m2.ano!

Média!Final!de!todas!as!Fracções!=!322,34/!8!=!40,29!KWh/m2.ano!

Porto(

(Encontro!de!médias!de!fracção)!

Piso!térreo!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!50,65!e!NVC!=!!1,35,!sendo!o!Total!de!52,0!x!
8!=!408,00!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!50,65!e!NVC!=!1,51!sendo!o!Total!de!52,16!
x!4!=!208,64!KWh/m2.ano!

XXIII!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!50,65!e!NVC!=!
1,49,!sendo!o!total!de!52,14!x!2!=!104,28!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!50,65!e!NVC!
=!1,38,!sendo!o!total!de!52,03!x!2!=!104,06!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!824,98/!16!!

MÉDIA!de!fracção!térrea!=!51,56!KWh/m2.ano!

Último!Piso!!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!55,25!e!NVC!=!!1,35,!sendo!o!Total!de!56,6!x!
8!=!452,8!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!55,25!e!NVC!=!1,51!sendo!o!Total!de!56,76!
x!4!=!227,04!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!55,25!e!NVC!=!
1,49,!sendo!o!total!de!56,74!x!2!=!113,48!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!55,25!e!NVC!
=!1,38,!sendo!o!total!de!56,63!x!2!=!113,26!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!906,58/!16!!

MÉDIA!das!últimas!fracções!=!56,66!KWh/m2.ano!

2º!a!7º!Pisos!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!43,01!e!NVC!=!!1,35,!sendo!o!Total!de!44,36!
x!8!=!354,88!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!43,01!e!NVC!=!1,51!sendo!o!Total!de!44,52!
x!4!=!178,08!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!43,01!e!NVC!=!
1,49,!sendo!o!total!de!44,5!x!2!=!89,0!KWh/m2.ano!

XXIV!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!43,01!e!NVC!
=!1,38,!sendo!o!total!de!44,39!x!2!=!88,78!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!710,74/!16!!

MÉDIA!de!fracções!intermédias!=!44,42!KWh/m2.ano!

Média!Final!de!todas!as!Fracções!=!374,74/!8!=!46,84!KWh/m2.ano!

Castelo(Branco((

(Encontro!de!médias!de!fracção)!

Piso!térreo!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!52,54!e!NVC!=!!5,71!sendo!o!Total!de!58,25!x!
8!=!466,0!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!52,54!e!NVC!=!6,17!sendo!o!Total!de!59,71!
x!4!=!238,84!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!52,54!e!NVC!=!
6,09!sendo!o!total!de!58,63!x!2!=!117,26!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!52,54!e!NVC!
=!5,79!sendo!o!total!de!58,33!x!2!=!116,66!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!938,76/!16!!

MÉDIA!de!fracção!térrea!=!58,67!KWh/m2.ano!

Último!Piso!!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!57,26!e!NVC!=!!5,71,!sendo!o!Total!de!62,97!
x!8!=!503,76!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!57,26!e!NVC!=!6,17!sendo!o!Total!de!63,43!
x!4!=!253,72!KWh/m2.ano!

XXV!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!57,26!e!NVC!=!
6,09!sendo!o!total!de!63,35!x!2!=!126,7!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!57,26!e!NVC!
=!5,79!sendo!o!total!de!63,05!x!2!=!126,1!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!1010,26/!16!!

MÉDIA!das!últimas!fracções!=!63,14!KWh/m2.ano!

2º!a!7º!Pisos!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!44,71!e!NVC!=!!5,71!sendo!o!Total!de!50,42!x!
8!=!403,36!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!44,71!e!NVC!=!6,17!sendo!o!Total!de!50,88!
x!4!=!203,52!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!44,71!e!NVC!=!
6,09!sendo!o!total!de!50,8!x!2!=!101,6!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!44,71!e!NVC!
=!5,79!sendo!o!total!de!50,5!x!2!=!101!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!809,48/!16!!

MÉDIA!de!fracções!intermédias!=!50,59!KWh/m2.ano!

Média!Final!de!todas!as!Fracções!=!425,37/!8!=!53,17!KWh/m2.ano!!

Oleiros((

(Encontro!de!médias!de!fracção)!

Piso!térreo!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!80,79!e!NVC!=!!5,71!sendo!o!Total!de!86,50!x!
8!=!692,0!KWh/m2.ano!

XXVI!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!80,79!e!NVC!=!6,17!sendo!o!Total!de!86,96!
x!4!=!347,76!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!80,79!e!NVC!=!
6,09!sendo!o!total!de!86,88!x!2!=!173,76!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!80,79!e!NVC!
=!5,79!sendo!o!total!de!86,58!x!2!=!173,16!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!1386,68/!16!!

MÉDIA!de!fracção!térrea!=!86,67!KWh/m2.ano!

Último!Piso!!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!87,23!e!NVC!=!!5,71,!sendo!o!Total!de!92,94!
x!8!=!743,52!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!87,23!e!NVC!=!6,17!sendo!o!Total!de!93,40!
x!4!=!373,60!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!87,23!e!NVC!=!
6,09!sendo!o!total!de!93,32!x!2!=!186,64!KWh/m2.ano!

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Norte!são!2,!logo!NIC!=!87,23!e!NVC!
=!5,79!sendo!o!total!de!93,02!x!2!=!186,04!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!1489,8/!16!!

MÉDIA!das!últimas!fracções!=!93,11!KWh/m2.ano!

2º!a!7º!Pisos!

Fracções!Norte/Sul!são!8,!logo!NIC!=!70,07!e!NVC!=!!5,71!sendo!o!Total!de!75,78!x!
8!=!606,24!KWh/m2.ano!

Fracções!Este/!Oeste!são!4,!logo!NIC!=!70,07!!e!NVC!=!6,17!sendo!o!Total!de!76,24!
x!4!=!304,96!KWh/m2.ano!

XXVII!
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

Fracções!de!Gaveto!com!uma!das!orientações!Sul!são!2,!logo!NIC!=!70,07!!e!NVC!=!
6,09!sendo!o!total!de!76,16!x!2!=!152,32!KWh/m2.ano!

Fracções! de! Gaveto! com! uma! das! orientações! Norte! são! 2,! logo! NIC! =! 70,07! ! e!
NVC!=!5,79!sendo!o!total!de!75,86!x!2!=!151,72!KWh/m2.ano!

TOTAL!=!1215,24/!16!!

MÉDIA!de!fracções!intermédias!=!75,95!KWh/m2.ano!

Média!Final!de!todas!as!Fracções!=!635,50/!8!=!79,44!KWh/m2.ano!!

Significa!que!a!despesa!anual!é!de:!

Lisboa!

6043,5!KWh/ano!=!785,66!€!

Porto!

7026!KWh/ano!=!913,38!€!

Castelo!Branco!

7975,5!KWh/ano!=!1036,81!€!

Oleiros!

11915!KWh/ano!=!1549!€!

Resumindo,!entre!zonas!climáticas!a!diferença!de!moradias!e!quarteirões!é:!

!Lisboa!

2145!KWh/ano!=!278,85€!

8188,5!KWh/ano!=!1064,5!€!

6043,5!KWh/ano!=!785,66!€!

Porto!

2861,5!KWh/ano!=!372€!
XXVIII!
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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

9877,5!KWh/ano!=!1284,08!€!

7026!KWh/ano!=!913,38!€!

120%!

116%!

Castelo!Branco!

2916!KWh/ano!=379,08€!

10891,5!KWh/ano!=!1415,90!€!

7975,5!KWh/ano!=!1036,81!€!

133%!

132%!

Oleiros!

3892!KWh/ano!=!505,96!

15807!KWh/ano!=!2054,91!€!

11915!KWh/ano!=!1549!€!

193%!

197%!

!
!
!
!

!
!

!
XXIX!
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Pedro Manuel Machado da Silva Faria
APENDICE 1

!
3.(Inquérito(à(população((

O!presente!inquérito,!analisado!e!apresentado!na!tese,!foi!efectuado!
directamente!com!o!cidadão!de!modo!a!obter!uma!resposta!mais!verdadeira!sem!
que!este!pudesse!recorrer!a!ajuda!ou!motores!de!busca.!Foi!utilizado!um!sistema!
de!hardware!da!Apple!computers,!IPAD,!e!seu!software!respectivo,!Numbers.!

!
Figura(3B(Dados(do(inquérito(à(populaçao((

XXX!
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PEDRO MANUEL MACHADO DA SILVA FARIA

A INTEGRAÇÃO DE CONCEITOS BIOCLIMÁTICOS


NO PLANEAMENTO E NA CIDADE

ANEXOS

Orientador: Prof. Doutor Mário Canova Moutinho


Co-Orientador: Prof. Doutor António Santa-Rita

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias


Faculdade de Ciências Sociais e Humanas

Lisboa
2012
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
ANEXO 1

"
ANEXOS'

"

O"referente"capítulo"do"apêndice"diz"respeito"aos"estudos"cálculos"fornecidos"
pela"ADENE"e"INE,"dos"bairros"estudados"e"apresentados"na"tese,"intitulados"de"
inicio"como"«Estudos"da"realidade"nacional"(território"mediterrânico)»."

"

"

"

Figura'1'–'Alguns'mapas'de'identificação'de'zonas'de'estudo'de'Lisboa'fornecidos'pelo'INE'

"

I"
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Pedro Manuel Machado da Silva Faria
ANEXO 1

"

Figura'2B'Dados'térmicos'fornecidos'pela'ADENE'

"

II"
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