Você está na página 1de 9

 

Este plug-in não é suportado.  

Arquitetura da mente, cognição e emoção: uma


PESQUISAR
visão evolucionista Evolução Humana
Psicologia Evolucionista - Mente humana - Psicologia Cognitiva - Cognição - Plasticidade Neuronal - Interação Mente e Ambiente - Módulos mentais -
Desenvolvimento mental > inteligência central > inteligência especializada História da Psicologia
Curtir Compartilhar Cadastre-se para ver do que seus amigos gostam. Tweet 1 0
Neuropsicologia

Psicanálise
Psicologia Evolucionista
O lugar do ser humano na natureza e na Psicologia Analítica
evolução

Psicologia Evolucionista Psicologia da Personalidade


O desenvolvimento da inteligência e os
modelos sociais evolutivos baseados na
biologia da reprodução humana Psicologia do Comportamento
Evolução Humana
Evolução Humana: A raridade do Homo Psicologia do Desenvolvimento
sapiens no contexto evolucionário

Psicologia Evolucionista Psicologia Evolucionista


Evolução humana: O desenvolvimento do
bipedalismo Comentários | Fonte | Como citar essa página?
Psicologia Hospitalar
Evolução Humana Maria Lúcia Seidl de Moura e Ângela Donato Oliva
Seres humanos: macacos ou anjos?
Psicopatologia
Psicologia Evolucionista COGNIÇÃO HUMANA: DE CAIXA-PRETA A UMA MENTE SEM HISTÓRIA (E SEM CORPO) 
A revolução armamentista hominídea e a
evolução das relações de poder do Homo Apesar de o interesse pela compreensão da natureza da mente humana datar de
séculos, e na psicologia estar presente desde sua fundação, o estudo da mente ficou PESQUISAR POR PALAVRA-CHAVE
sapiens
negligenciado durante algumas décadas em que o behaviorismo foi a abordagem
Psicologia Evolucionista dominante, pelo menos na psico​ logia estadunidense e anglo-saxã. 
Psicopatologia evolucionista
Buscando entender como a mente funciona, Wundt começou a realizar experimentos,
Psicologia Evolucionista
em vez de especular filo​
soficamente sobre ela. Sua proposta para a psicologia envol​ via
Comportamento Alimentar duas vertentes. Uma delas, a dos processos elementares, ou psicologia fisiológica, é a OUTROS TEXTOS
que ficou mais conhecida e que é transmitida com mais frequência na história oficial da
Psicologia Evolucionista
psicologia. Seu objetivo era investigar a experiência sensorial consciente, buscando HISTÓRIA
Evolução da Mentira e do Auto-engano
fragmentá-la até seu elemento essencial e irredutível. A ela, Wundt fez acom​
panhar sua
Psicologia Evolucionista versão de Volkerpsychologie, que incluía a inves​ tigação sistemática das origens da
Comportamento altruísta, moral versus mente humana, por meio do estudo do que denominou funções superiores, incluindo,
genes egoístas entre outros processos, os de evocação deliberada (memória voluntária), pensamento e
linguagem (Seidl de Moura e Correa, 1998). 
Psicologia Evolucionista
Agressividade humana O projeto de síntese dessas duas versões não se concre​ tiza, e é a psicologia dos
processos elementares que vai influenciar o desenvolvimento dessa nova ciência em
Psicologia Evolucionista
suas primeiras décadas. Sem entrar nos detalhes dessa longa história, que não cabe
Comportamento e Seleção sexual dos apresentar aqui, com exceções importantes como as contribuições de Jean Piaget e L.
gêneros no Homo sapiens S. Vygotsky, os processos mentais superiores (a cognição humana) são vistos como
uma caixa-preta que não pode ser aberta por se considerar que não há métodos Primeira Guerra Mundial - Angra do A
Psicologia Evolucionista
As funções das brincadeiras e outras
objetivos e científicos para estudar seu conteúdo. O objeto da psico​logia científica não é o dia a dia dos australianos em Gal
atividades lúdicas das crianças humanas mais a mente, mas o comportamento humano.  Em 25 de abril de 1915, 20 mil homens do A
(Corpo de Exército Australiano e Neozela
Psicologia Evolucionista Em reação a essa situação, observam-se diversas inicia​tivas, no que se convencionou, desembarcaram na península de Galípoli. E
Investimento parental e maus tratos em em geral, chamar de movi​mento cognitivista. Esse movimento se caracteriza por uma corajoso, confuso e improvisado salto no esc
crianças retomada das questões referentes aos processos mentais humanos, deixadas de lado guerra moderna, eles asseguraram o controle d
cabeça de praia de dois quilômetros quadrado
ou analisadas de forma que alguns consideram insatisfatória, em modelos behavioristas
Psicologia Evolucionista primeiros nove dias de combates, ao custo de
Cuidados e responsividade parental e a E-R ou mesmo E-O-R, dominantes em suas várias versões durante quase quatro baixas, das quais cerca de 2 mil somente no pr
teoria do investimento parental décadas.  dia. Apesar de todo o empenho, durante os
meses seguintes, os membros do ANZAC e as
Psicologia Evolucionista forças aliadas que desembarcaram em outros p
Esse quadro começa a mudar gradativamente a partir da segunda metade da década de
Desenvolvimento ontogenético de recém- 1950. Isso se dá pela contribuição de transformações que se processam em várias
nascidos na abordagem evolucionista
áreas do conhecimento. Uma das contribuições importantes é a de Noam Chomsky, HISTÓRIA
Psicologia Evolucionista linguista etadunidense, que exerce grande influência com suas obras. Chomsky foi
A evolução da inteligência e a cognição extrema​ mente contundente em sua crítica à tentativa de Skinner de tratar linguagem e
social pensamento como operantes verbais (Chomsky, 1959). Com seus trabalhos, argumenta
a favor de uma base inata para a linguagem, mostrando seu cará​ ter recursivo e gerativo
Psicologia Evolucionista (Chomsky, 1957). Chomsky concen​ tra-se no estudo do aspecto sintático da Língua,
Arquitetura da mente, cognição e emoção: defenden​ do a possibilidade de estudar a sintaxe, ou gramática de uma Língua, sem
uma visão evolucionista referência a seus aspectos de significado (semântica) e de uso (pragmática). Adota,
para isso, um procedimento dedutivo-formal cujo objetivo principal é gerar um sistema
Psicologia Evolucionista
formalizado de regras que atenda a crité​rios fundamentais para sua validade. 
Evolução Humana

Psicologia Evolucionista
A hipótese de uma gramática gerativa postulada por Chomsky exerceu sua influência,
Ambiente de adaptação evolutiva
principalmente nos estu​ dos dos processos cognitivos em que o pensamento é foca​ - O príncipe esquecido
lizado em sua capacidade de processamento linguístico. As idéias de Chomsky
Psicologia Evolucionista influenciaram, também, trabalhos subsequentes como os de Jerry Fodor, jovem Um personagem que foi importante como
Aspectos históricos da Psicologia professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos anos I960, e um dos candidato no apagar das luzes do Império, hoj
Evolucionista atuais expoentes da teoria de modulari​
dade da mente.  quase totalmente esquecido, não fosse o notáv
de Mary Del Priore  O príncipe maldito
Psicologia Evolucionista A teoria da informação, que tem origem no domínio das telecomunicações, com o 2006). Era o belo jovem príncipe D. Pedro Augu
Um olhar evolucionista para a Psicologia trabalho de Shannon e Weaver (1949), é outra fonte de influência primordial. Shannon, Saxe Coburgo, neto de D. Pedro II e filho d
um matemático, preocupava-se com a questão da transmissão de informações através segunda filha, d. Leopoldina, casada com o pr
Psicologia Evolucionista Augusto (Gusty) Saxe Coburgo. No entanto, o tít
de canais de comu​ nicação, sua preservação e a interferência de ruídos na transmissão.
Dilemas e perspectivas na evolução do “príncipe maldito” parece impróprio, já que ele
Desenvolveu um formalismo matemático, aplicável a qualquer tipo de mensagem — uma fez que provocasse maldição, nem maldades. 
cérebro humano
teoria geral de comunicação. Pela sistematização da teoria de comunicação, duas de nascerem os filhos de Isabel, ele era o prefer
Psicologia Evolucionista noções que não foram desenvolvidas originalmente por Shannon são introduzidas no
Transtornos mentais segundo a perspectiva trabalho psicológico: a noção de código (de codificar e decodificar) e a de capacidade de
evolucionista canal.  ANTROPOLOGIA
Psicologia Evolucionista O modelo de um sistema geral de comunicação foi adaptado tanto às questões de
Medicina evolucionista e comportamentos comunicação humana como à questão mais ampla de como explicar a cognição huma​ -
básicos de sobrevivência na. A teoria da informação foi apropriada pelos psicólogos, e os processos cognitivos
passaram a ser abordados à luz desse modelo geral, como geração de outputs a partir
Psicologia Evolucionista
de inputs, ou seja, de processamento de informação. 
Biologia e psicologias do comportamento
evolutivo O desenvolvimento de computadores, que paralelamen​ te ocorria em outro domínio de
Psicologia Evolucionista
saber, teve também forte influência nos estudos cognitivos, servindo como uma nova
metáfora para explicar o comportamento humano e os processos psíquicos. Como
Biologia e psicologias do comportamento
evolutivo consequência, observa-se nos estudos psicológicos a ênfase em regras (Chomsky,
1957), estratégias (Bruner, Goodnow e Austin, 1956), programas (Newell e Simon, 1972) Evolução Humana: A raridade do Ho
Neuropsicologia e planos (Miller, Gallanter e Pribam, 1960). Busca-se, novamente, após um período de sapiens no contexto evolucionári
Lateralização dos hemisférios cerebrais, rejeição, a compreensão da mente, e não apenas do comportamento humano. 
O biólogo evolucionista B. S. Haldane observou
gênero e plasticidade neuronal
vez, que se ele tivesse que inferir algo a respe
Diversas iniciativas foram historicamente importantes, como o Projeto Cognição, na Deus com base no estudo da natureza, seria a
Psicologia Evolucionista
Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, em que Bruner (vide Bruner, 1983) do criador por besouros. O que ele notou foi u
Cultura, linguagem e simbolização desenvolveu trabalho sobre o processo de categorização, e a fundação do Centro de aspectos mais fundamentais da ecologia
Estudos Cognitivos, nessa mesma universidade. A publicação de Miller sobre a limitação evolução - as categorias taxonômicas v
Psicologia Evolucionista
física da capacidade da memória humana a curto prazo e sua organização é também de enormemente quanto à sua abundância e
A Pré-história e o início das produções raridade e, ao passo que alguns grupos
fundamental importância (Miller, 1956). Outros trabalhos relevantes são publicados em
culturais extremamente diversificados e variados, outro
diversas áreas, entre eles a obra póstuma do matemá​ tico von Neumann (1958) que
isolados e únicos. Os besouros ocorrem em g
Psicologia Evolucionista discute a idéia de progra​
mas, de operação de memória da máquina e da possibili​dade de profusão, o mesmo acontecendo com muitos
A linhagem do Homem: Cérebro e construção de máquinas inteligentes. 
comportamento dos Hominíneos
Algumas tendências do movimento cognitivista são sintetizadas nas discussões de ANTROPOLOGIA
Neuropsicologia Penna (1986). A primeira é a importância atribuída ao conceito de regra, em processos
Evolução Filogenética de algumas de aquisição do conhecimento, organização da conduta e interação social. A segunda é
estruturas do Sistema Nervoso a visão do sujeito como ativo na construção dos processos cognitivos. A conduta huma​-
na é considerada como incluindo um caráter intencional e prospectivo, e se retoma a
Neuropsicologia
noção de consciência como instância biossocial que é responsável por processos de
Pelo prisma da ansiedade
significação. Não são sem divergências, entretanto, as concepções de vários autores
Psicologia Evolucionista que compartilham essas idéias gerais. As divergências podem ser observadas
Drogas e doces e o sistema de recompensa especialmen​ te no que concerne à natureza do ponto de partida do processo de conhecer
e dos limites da construção pelo sujeito. Nesse sentido, opõem-se as abordagens
Psicologia Evolucionista inatistas de Chomsky e Fodor e a construtivista de Piaget, com autores como Bruner em
A Evolução Filogenética do Hipocampo posições intermediárias (vide Piatelli-Palmarini, 1980). 
Evolução humana: Por que a Áfric
Psicologia Evolucionista O cenário psicológico modifica-se a partir do final da década de 1950, e a cognição
A Evolução Filogenética do Cerebelo humana assume o papel de protagonista. Tal é o reconhecimento da importância da
A evolução é sempre associada ao tempo. Af
cognição como objeto da ciência, que surge uma nova ciência: a ciência (ou ciências,
Psicologia Evolucionista evolução é um processo que ocorre ao lon
como preferem alguns) da cognição, com a convergência de diversas áreas, como a tempo, e são os extraordinariamente longos pe
Os Mamíferos, animais de cérebros grandes psicologia cognitiva, as ciências da computação e a linguística. O projeto de ciências da de tempo em questão que despertam
e complexos
cognição não é unitário, nem do ponto de vista das disciplinas que o compõem nem do imaginação. Dinossauros que existiram por
Psicologia Evolucionista referencial teórico que adota. De comum, pode-se apontar a busca de elaboração de milhões de anos ou hominídeos que evoluíra
uma teoria sobre a cognição ou, mais especificamente, uma teoria sobre os sistemas longo de sete milhões de anos, são essas as
Diferenças entre homens e mulheres:
inteligentes. Embora não seja um consenso entre os pesquisadores da área, um número que tornam a evolução diferente dos demais ram
desvendando o paradoxo
ciência ou da vida cotidiana. A pergunta sob
significativo de invesigações destaca o uso da simulação por computador ou de
haveria períodos de tempo geológico
Psicologia Evolucionista conceitos derivados da utilização do modelo computa​ cional na construção de teorias. interessantes que outros ocorre com facilidade
A evolução do Sistema Nervoso - Das Hipotetiza-se um proces​ so eminentemente dedutivo, que se baseia na aplicação de
primeiras células aos vertebrados regras. A cognição é vista como um sistema cuja essência é a manipulação, a
armazenagem e a transformação de informação.  ANTROPOLOGIA
Psicologia Evolucionista
A formação da teoria evolucionista e Modelos que especifiquem os componentes fundamen​ tais da cognição, vista como um
seleção natural
sistema de processamen​ to de informação, são, em geral, designados como sendo da
Psicologia Evolucionista arquitetura cognitiva, ou da mente. O modelo mais básico e clássico dessa arquitetura
Noções sobre evolução biológica e evolução inclui uma unidade de memória capaz de armazenar tanto o programa como os dados,
do cérebro componentes responsáveis pela entrada e saída de informações e um processador com
capacidade para mani​ pular e transformar símbolos, num modelo de processa​ mento
História da Psicologia serial, com a realização de uma operação por vez. 
A evolução da Psicologia Contemporânea
Essa tem sido a fonte do principal tipo de crítica a esse modelo de arquitetura: seu
caráter serial. Para os críticos, um sistema inteligente é mais bem representado por um modelo de redes que dê conta de
múltiplas entradas de informação em diversos pontos do sistema, ou seja, de processamento paralelo de informação, em vez de Evolução humana: radiação adaptati
serial.  progressão evolutiva
Independentemente dessas divergências, a cognição humana é tratada inicialmente pelos modelos computa​
cionais sem levar A evolução dos hominídeos é demasiado com
em conta seus aspectos funcionais e, nesse sentido, tendo sua história evolutiva ignorada, ou negli​
genciada. Essa situação para ser reduzida a um acontecimento evoluci
muda na década de 1990.  único e a uma única tendência direcional. No
para o qual a melhor denominação que temos
  hominídeos, encontramos diversidade consid
em forma e comportamento. Além do ma
humanos modernos representam apenas a
A Mente Humana e a Evolução 
fração (até agora) do quadro geral. Os “hum
anteriores à humanidade representam mais
A ARQUITETURA TIPO CANIVETE SUÍÇO simples processo de tornar-se humano. Cont
Apesar do reconhecimento da importância da teoria da evolução das espécies, até recentemente seus princípios e idéias não
afetaram de forma significativa a psicologia. Só a partir dos anos 1990 (Rodrigues e Otta, 2002), princi​
palmente, observa-se
uma renovação do interesse pelas bases biológicas do comportamento humano. Uma das consequências dessa tendência foi o
ANTROPOLOGIA
surgimento da psico​
logia evolucionista, que se baseia nos pressupostos da teoria da evolução das espécies de Darwin e
desenvolvimentos posteriores (neodarwinismo). 

Segundo três de seus mais renomados autores, Barkow, Cosmides e Tooby, em obra já clássica de 1992, a PE pres​ supõe a
existência de uma natureza humana universal. Essa natureza é constituída de mecanismos psicológicos, que são considerados
adaptações resultantes de um processo de seleção natural. A estrutura da mente atual, portanto, é vista como envolvendo
mecanismos de processamento de informação que permitem a produção, absorção, modi​ ficação e transmissão de cultura,
adaptada ao ambiente evolutivo, ou seja, ao modo de vida de nossos ancestrais caçadores-coletores. 

Pode-se considerar a psicologia evolucionista como o casamento da biologia evolutiva com a psicologia cogni​ tiva
contemporânea. Nessa segunda fonte, uma influência importante é a de Fodor e sua concepção modular da mente humana.
Como diz Cosmides (2006), “o progres​so científico vem às vezes não dos métodos novos, mas dos conceitos novos, maneiras Quando nos tornamos humanos
novas de moldar antigos proble​
mas. A revolução cognitiva é um exemplo maravilhoso disso. A linguagem de processamento e
de computação de informação forneceu uma maneira nova de pensar sobre o que o cérebro faz. [...] Nós psicólogos mal
começamos a avaliar o potencial da revolução cognitiva para transfor​
mar nosso próprio campo” (p. 4).  Uma pesquisa de opinião realizada recentemen
Estados Unidos, com o fim de avaliar o conheci
científico da população, mostrou o res
Fodor (1983) pretende descrever uma representação global da organização cognitiva e postula um modelo hierárquico de
ligeiramente alarmante de que 60% das pe
arquitetura da mente de três níveis. Esse modelo inclui transdutores, que recebem a informação sensorial, um conjunto de pensavam que os humanos foram contempor
módulos altamente específicos e um processador central. Os módulos são responsáveis por operações específicas e dos dinossauros. Não há duvida de que essa sit
independentes, processando tipos determinados de informação. Para ele, os aspectos mais instigantes da mente humana são em parte, se deve a filmes como Dois bilhões d
seu holismo, “sua paixão pelo analógico” e seu não-encapsulamento, características do processador central.  a.C, que mostrava Rachel Welch como uma garo
cavernas no meio de dinossauros pesadões, m
De acordo com essa perspectiva, módulos são órgãos mentais especializados, que evoluíram para processar infor​ mação revela também uma generalizada falta
específica relevante para a espécie. São faculdades mentais cujo funcionamento é automático, fora, inclusive, do controle compreensão da dimensão temporal da h
consciente, não-controlado pelo processador central. Com isso, operam com muita rapidez e eficiência. O princípio que organiza
o funcionamento de cada um desses módulos mentais é inato, não dependendo de nenhum tipo de treinamento externo para se
desenvolver.  ANTROPOLOGIA

A teoria da modularidade da mente vem recebendo algum suporte empírico, como a evidência de crianças e adultos com
habilidades gerais excepcionalmente pobres e que, no entanto, demonstram habilidades altamente sofisticadas em domínios
especializados (música, aritmé​
tica, linguagem etc., os chamados autistic savant, como o caso de Kim Peek, que inspirou o filme
Rain Man). Constituem outra fonte de evidências importantes os relatos sobre casos de crianças que demonstram excepcional
habi​
lidade em domínios específicos quando ainda muito novas. Há, no entanto, controvérsia em torno da origem dos módulos,
de seus limites, do seu número etc., como será discutido adiante. 

Barkow, Cosmides e Tooby (1992) adotam esse mode​ lo modular de arquitetura da mente, considerando como nossa espécie
evoluiu e que problemas tinham de ser solu​
cionados no ambiente evolutivo. Deixam de lado o proces​
sador central e, apoiados
pelas tentativas frustradas de modelar um solucionador geral de problemas, adotam uma perspectiva de alta especialização.
Desse modo, seu modelo é de modularização maciça, representada pela imagem de um canivetesuíço (Evans e Zarate, 1999): Seres humanos: macacos ou anjo
uma lâmina para cada aplicação. 
No auge do debate sobre a evolução, foi pergun
Embora seu modelo de módulos não proponha o encap​ sulamento de Fodor, nele não há lugar para um processa​
dor geral, já que Benjamin Disraeli se ele achava que o homem e
se pensa que não existem problemas gerais a serem resolvidos. Os problemas de nossos ancestrais eram específicos — por macaco ou um anjo. Ele respondeu, ao que
exemplo, como detectar predadores, como discriminar falsos alarmes, de que modo selecionar o alimento adequado, como com convicção: “Agora, estou do lado dos an
maioria das pessoas não tem tanta certeza. E
formar alianças sociais, de que maneira selecionar parceiros etc. 
muitos fundamentalistas religiosos e uns p
darwinianos empedernidos espelhem a certe
Os módulos são, assim, “ricos em conteúdo”. Não fornecem apenas uma sintaxe ou algoritmos para resolver problemas, mas a Disraeli, para a maior parte das pessoas a q
informação específica que é necessária para cada problema. Barkow et al. (1992) usam o argu​mento básico da pobreza do continua sendo um grande imponderáv
estímulo para defender tal tipo de módulo, ou seja, de que não seria possível a apren​
dizagem de tantos comportamentos compaixão inspirada pela humanidade latent
complexos por um indivíduo ao longo do curso da vida a partir apenas de um processador geral. Os estímulos não são espreita nos olhos de um gorila é testemunh
suficientes para garantir a complexidade. 

A questão ainda é polêmica e não há acordo entre os autores nem sobre a definição de módulos, nem sobre quantos e quais ANTROPOLOGIA
são. De qualquer modo, uma modulari​ zação maciça, sem processamento central, é, para alguns autores, um dos possíveis
problemas da concepção de arquitetura da mente da psicologia evolucionista. Rode e Wang (2000) consideram que, além da
variedade de definições possíveis do termo módulos, se um modelo estrita​
mente de domínios específicos for pressuposto, fica
a ques​tão de como os problemas atuais, com os quais nossos ancestrais não se deparavam, são resolvidos. É necessário
hipotetizar módulos mais gerais ou mecanismos que têm funções atuais diferentes das originais. 

Como dizem Rode e Wang, caso sejam hipotetizados módulos de nível mais alto capazes de identificar estrutu​
ras comuns em
problemas diferentes, e que não dependem de seu conteúdo específico, pode-se questionar se seriam adequados para atender a
demandas do mundo contem​ porâneo. Nesse caso, indagam ainda por que não pensar em um tipo de processamento central. 

Outro problema é que não há lugar no modelo de módulos sem processamento central, para a flexibilidade que caracteriza o
funcionamento de nossa espécie, ou para a fluidez cognitiva (Chiappe e MacDonald, 2005). Se o funcionamento da mente O evolucionismo como resposta a
humana é altamente especiali​ zado e produto de módulos selecionados por seu papel na solução de problemas característicos perguntas da origem do homem
do ambiente evolu​ tivo original, como explicar a capacidade metaprocessual do Homo sapiens! Cosmides e Tooby (1997) A aceitação da teoria da evolução muitas ve
argumentam que a especialização foi necessária para que tarefas sofisti​ cadas e complexas pudessem ser executadas rápida, discutida e debatida como a substituição de
eficaz e economicamente. Tecem um paralelo com órgãos do corpo, tais como coração, fígado, pulmão, altamente espe​ - explicação - ou mito, ou conto, dependendo do
cializados em suas tarefas. O mesmo ocorreria com habi​ lidades mentais. Não julgam necessário existir um gerenciador geral de vista - por outra. Para a maioria dos eur
para as tarefas corporais e mentais. Elas estão articuladas entre si. Chiappe e MacDonald (2005) discor​ dam. Embora haja criados na tradição judaico-cristã, essa h
módulos de domínio específico, meca​ nismos de processamento geral também evoluíram, porque são “instrumentos poderosos obviamente, era o Génesis, a criação do mun
Deus, e de Adão e Eva como o primeiro home
para obter metas evolutivas (p. ex., recursos) em ambientes novos incertos, que não eram aspectos recorrentes do ambiente de
primeira mulher. Essa cosmologia esp
adaptação evolu​tiva” (p. 5).  explicava tanto a natureza humana como a rela​ ç
humanidade com a natureza. Embora muitas
A questão permanece em aberto, e não se podem aqui discutir todos os aspectos da controvérsia. Apresenta-se a seguir uma haja elementos universais nesses mitos, a diver
visão evolucionista, amparada em evidências de registros fósseis, que pode ser interessante para a análi​
se dessa questão. 

  HISTÓRIA
A Mente como Catedral e suas Capelas 

Não parece haver atualmente quem rejeite seriamente a idéia de alguma especificidade de processamento em domínios, como
os da linguagem, ou de certos padrões, entre eles os que se assemelham a faces. Nesse consenso, há lugar para muita
diversidade, desde autores que defen​
dem a modularidade sem processamento central, como Sperber (2002), até outros que
defendem a substituição da hipótese de módulos pela de domínios, mais flexível (Karmiloff-Smith, 1995). Em contrapartida, há
autores que defendem a presença e função adaptativa de um processador central na mente do Homo sapiens. Mithen
(1996/2002), arqueólogo que apresenta consistente argu​ mentação nesse sentido, é um exemplo. Segundo ele, o caminho da
evolução da mente de nossa espécie apresen​ ta tanto a direção de um aumento da fluidez cognitiva e o desenvolvimento de
formas generalizadas de pensamen​
to quanto de especialização ou modularização. 

Foi justamente essa capacidade de processamento central que possibilitou aos membros da espécie desenvolver instrumentos
complexos, criar arte e fazer ciência. A ciên​cia, uma das realizações singulares da mente, apresenta como propriedades: a
geração e o teste de hipóteses, o desenvolvimento de ferramentas para resolver problemas específicos e o uso de metáforas e
analogias. Todas essas propriedades dependem da fluidez cognitiva. Assim, o aumento da fluidez cognitiva e da capacidade de
proces​samento central possibilita a realização dessas novas ativi​dades caracteristicamente humanas. A sua realização e os
produtos dela decorrentes ensejam a disponibilidade de novos contextos de desenvolvimento para os membros da espécie. 

A metáfora de Mithen para a mente do Homo sapiens é a da catedral, com sua nave central que dá acesso a múlti​ plas capelas
laterais. Essa arquitetura é produto de milhões de anos de evolução, que podem ser sintetizados em três grandes fases (Mithen,
1996/2002, p. 105):  Críticas e a sobrevivência da Teoria
Evolução Darwiniana
FASE 1. Mentes regidas por um domínio de inteligên​
cia geral, que envolve um conjunto de regras sobre apren​dizagem geral e A mais estranha de todas as revoluções científic
tomada de decisão, que permitem que o comportamento (simples) se modifique com base na expe​ riência, mas sem muita
velocidade ou eficiência. Uma única nave central está disponível para os processos de pensamento, sem contribuição de
HISTÓRIA
módulos específicos. São as mentes do ancestral comum aos humanos, pongídeos, macacos e lêmures, que viveram em
período anterior a 55 milhões de anos atrás. 

FASE 2. Mentes nas quais a inteligência geral foi suple​ mentada por várias inteligências especializadas, que funcio​ nam
independentemente e tratam de domínios específicos. O primeiro é o da inteligência social, que aparece em período posterior a
55 milhões de anos atrás e ganha em complexidade entre 35 e 6 milhões de anos trás. Gradati​ vamente, a inteligência geral
também aumenta, e “os módulos mentais surgiram inicialmente relacionados com a atividade de forrageamento, permitindo à
mente cons​ truir grandes bancos de dados sobre a distribuição de recur​ sos” (Mithen, 1996/2002, p. 144). O segundo domínio é
o de módulos da inteligência técnica e da inteligência naturalística, na mente dos primeiros Homo, os Homo habilis, entre 4
milhões e 1,8 milhão de anos atrás. A especia​lização inicial torna-se mais complexa na mente dos huma​ nos arcaicos, entre 1,8
milhão e 100 mil anos atrás. Aumen​ ta a inteligência técnica, a complexidade da inteligência naturalística, permitindo a
construção de mapas mentais do ambiente, e da inteligência social. Acrescenta-se a esses domínios o da linguagem. Assim, o Os corsários alemães da Primeira Gu
projeto arquitetônico inclui capelas que rodeiam a nave central e são associadas a certos domínios especializados. Uma
Mundial
característica do design dessa fase, no entanto, é que não há comunicação das capelas entre si ou com a nave central. Há ainda
um encapsulamento, tal como propõem os defensores da modularização, mas essa não é a situação da fase final da “pré- Os cruzadores de batalha britânicos Invinc
Inflexible, já não mais necessários no Atlântic
história da mente”. 
PSICOLOGIA Astronomia Filosofia Geologia partiram História Mitologia
de volta para casa quatro dias dep
destruírem a esquadra de Spee. Os navios qu
FASE 3. Mentes em que as múltiplas inteligências espe​ cializadas parecem trabalhar juntas, sob a coordenação de uma deixaram para trás se concentraram em perse
inteligência geral, havendo comunicação entre os diversos domínios. A “construção” da catedral tal como se apresenta no Dresden, que tinha retornado para o Pacífico
homem contemporâneo chegou a um mode​ lo bastante complexo. A nave central e as capelas comu​nicam-se. Assim, como diz de sobreviver à Batalha das Malvinas com a int
Mithen (1996/2002), “é possí​vel integrar o conhecimento que antes ficava preso dentro das diferentes capelas” (p. 112-113), e a de chegar às Índias Orientais. O Dresden con
mente apresenta fluidez cognitiva. Essa é a mente do Homo sapiens, especialmente na transição do período Paleolítico Médio afundar apenas um navio mercante Aliado ante
para o Superior. problemas com o motor e a falta de carvão lev
seu capitão a solicitar internação em Más a
 
Todos Textos
MODELOS ONTOGENÉTICOS 

Pensar a arquitetura da mente contemporânea pressu​ põe não só formular hipóteses que não sejam falseadas pelas evidências
dos estudos sobre a filogênese, como, ainda, que levem em conta algumas das características da espécie, como a importância
da ontogênese. Duas contri​ buições para pensar a ontogênese de uma mente que é produto da filogênese podem ser
destacadas: a de Karmiloff-Smith e a de Bjorklund e Pellegrini (Bjorklund e Pelle​
grini, 2001; Geary e Bjorklund, 2000). 

Karmiloff-Smith (1995) apresenta um modelo de processo de modularização e gradual aumento de dispo​ nibilidade de
representações. Apesar de conter predispo​sições específicas, a mente não é originalmente modular, mas assim se torna com o
desenvolvimento. Admite uma quantidade limitada de predisposições inatas de domínio específico. Essas predisposições
impõem limites quanto aos tipos de input que a mente processa. A base de sua argumentação é o conhecimento que temos
sobre a plas​
ticidade do desenvolvimento inicial do cérebro. 

As predisposições inatas são, para Karmiloff-Smith, epigenéticas e envolvem domínios e não módulos (dife​ rentemente do
modelo de Fodor). Os domínios consistem em um conjunto de representações apoiando uma área específica de conhecimento:
linguagem, número, física etc. O modelo não pressupõe mudanças gerais em vários domínios ao mesmo tempo. De acordo com
ele, há dois caminhos na organização do conhecimento que é arma​ zenado na mente: por um lado, através de um processo de
desenvolvimento de procedimentos ou estratégias, ele se torna menos acessível, mais encapsulado, e é processado de forma
mais automática; por outro, gradualmente se torna mais accessível a outros domínios. Desta forma, pode-se fazer um paralelo
com os dois movimentos de gradual modularização e aumento da fluidez cognitiva propostos por Mithen (1996/2002) em
relação à filogênese. Para Karmiloff-Smith, as relações intra e interdomínios são a base de um sistema cognitivo flexível e cria​
-
tivo, e o modelo RR (de Redescrição Representacional) é uma hipótese sobre a capacidade especificamente humana de se
enriquecer internamente pela exploração de repre​ sentações já armazenadas, e não apenas explorando o ambiente. 

A segunda vertente de contribuições provém de autores que desenvolveram um ramo específico da psicologia evolucionista,
cuja influência tem aumentado na última década, e que têm produzido um conjunto de publicações recentes: o da psicologia do
desenvolvimento evolucionis​ta. A disciplina focaliza o estudo da manifestação no curso da ontogênese, sob a forma de
comportamentos ou meca​ nismos psicológicos, dos programas que evoluíram em interação com os ambientes social e físico. 

Diante dos problemas reais da vida cotidiana no ambien​ te de adaptação evolutiva, parecem ter evoluído mecanismos de
domínio geral e mecanismos específicos que afetam as operações cognitivas pertinentes (Geary e Bjorklund, 2000), essenciais
para a sobrevivência de uma espécie que apresenta um longo período de imaturidade. 

Esses mecanismos são bastante sensíveis às variações do ambiente. A idéia é que os organismos (humanos, nesse caso)
afetam o ambiente, escolhendo e preenchendo seus nichos, e o ambiente afeta os organismos, promovendo mudanças em
comportamentos para atender às características específicas desses nichos. O desenvolvimento das características fenotípicas
humanas e as variações individuais no comportamento são, assim, produto de uma inte​ ração de mecanismos genéticos e
ecológicos, envolvendo as experiências únicas de cada indivíduo desde antes do nascimento. 

Geary e Bjorklund (2000) apresentam um modelo de desenvolvimento cognitivo modular que é consistente com interpretações
das evidências da evolução da espécie (Chiappe e MacDonald, 2005; Mithen, 1996/2002) e abre diversas possibilidades de
investigação. 

Mente e Cérebro 

Discutir e hipotetizar um modelo de arquitetura da mente humana em uma visão evolucionista demanda não só levar em conta
as evidências sobre a filogênese e a onto​gênese, mas também incorporar as investigações das neurociências sobre o aparato
que é produto de alguns milhões de anos de evolução e que consiste na materialização da mente: o cérebro do Homo sapiens,
sua estrutura e funcio​namento.

FUNCIONAMENTO E ESTRUTURAS CEREBRAIS: SUA RELAÇÃO COM OS PROCESSOS COGNITIVOS HUMANOS 

O sistema nervoso possibilita que os organismos em geral percebam, se adaptem e interajam com o mundo. Entre as diversas
estruturas que o compõem, o cérebro atrai a atenção dos investigadores, pois é por seu intermé​ dio que recebemos e
processamos a informação ambiental e respondemos a ela. A tarefa a que os pesquisadores têm se dedicado é a de buscar
compreender como o cérebro integra, processa e comanda as interações complexas por todo o sistema nervoso. 

Uma noção importante na organização cerebral é a da plasticidade. Autores como LeDoux (2002) e Ridley (2004) defendem que
ela é uma característica determinada inata​
da mente. Isso significa que, se o sistema pode codificar expe​riências, só o faz
porque possui uma capacidade inata para formar sinapses capazes de gravar e armazenar informa​ ções. Se as sinapses
cerebrais não puderem ou não estive​rem programadas para mudar, o sistema não poderá ser modificado pela experiência. É
forçoso concluir que toda aprendizagem depende de operações de capacidades programadas geneticamente para aprender.
Vale dizer, somos biologicamente programados para aprender. 

Esse processo é responsável por completar o desenvol​


vimento. Aprendizagem e memória desempenham papel fundamental de
unir coerentemente as experiências de uma pessoa. As informações codificadas e armazenadas pelo cérebro contribuem para
o modo como ele funciona. Elas possibilitam que nossas experiências estejam interli​
gadas. Nossos genes podem orientar o
caminho pelo qual agimos, mas os sistemas responsáveis por muito do que fazemos e como fazemos são modelados pela
aprendizagem (LeDoux, 2002). 

O Problema Mente X Corpo 

Tentar entender como a estrutura cerebral e seu funcio​namento se relacionam com as hipóteses relativas à arqui​
tetura da
mente envolve um posicionamento frente ao já antigo problema mente X corpo. 

Descartes, no século XVI, defendia um tipo especial de dualismo que supunha uma interação dos planos material e imaterial na
glândula pineal. Igualou a alma com a cons​ ciência e afirmou que apenas os humanos têm o controle consciente de seu
comportamento. Os animais apresenta​ riam comportamento meramente automático ou reflexo (inconsciente). 

Vygotsky, alguns séculos mais tarde, pensou no cérebro como o principal órgão da atividade mental, produto de uma longa
evolução, substrato material da atividade psíqui​
ca, um sistema aberto (não-fixo) e dotado de grande plas​
ticidade. Para ele, a
estrutura e o modo de funcionamen​ to do cérebro são moldados ao longo da história da espé​ cie e do desenvolvimento
individual. Os processos psico​
lógicos superiores são exclusivamente humanos e não se reduzem aos reflexos. A consciência
humana é produto da história social. 

Descartes e Vygotsky igualam mente com consciência, assumindo, de certa forma, que os aspectos inconscientes não
desempenham papel importante nas funções mentais superiores. No final do século XX, as neurociências tiveram papel
decisivo na retomada do estudo da mente, e o proble​ ma mente X corpo passa a ser o problema mente X cérebro. A parceria que
se estabeleceu entre as ciências da cognição, a psicologia e as neurociências permitiu investigar “como o cérebro cria a mente”.
Admite-se que certos aspectos inconscientes das funções do cérebro contribuem para a vida mental, fornecendo uma resposta
materialista ao problema mente X corpo (mente é produto do cérebro). Segundo LeDoux (2002), aspectos inconscientes
desempenham papel essencial, possibilitando aquilo que somos e expli​ cando por que fazemos determinadas coisas. Parte do
prin​
cípio de que toda cognição é o resultado da atividade neuronal, mais especificamente das conexões sinápticas cerebrais.
Pensar, memorizar, recuperar informação, racio​ cinar em termos lógicos, resolver problemas, fazer cálculos espaciais etc.
dependem das sinapses estabelecidas no cére​ bro. Essas sinapses possibilitam respostas muito rápidas, processadas em um
nível automático (não-consciente) do sistema nervoso. Os neurônios organizam-se em circuitos ou redes neurais, mas o exato
funcionamento dessas redes e como estão representadas as funções cognitivas ainda não estão bem esclarecidos.

ONDE SE LOCALIZAM AS FUNÇÕES MENTAIS? 

Uma questão que historicamente atraiu o interesse dos estudiosos foi descobrir onde se localizam no cérebro as funções
cognitivas ou comportamentais. As técnicas iniciais utilizadas eram as de ablação de partes do cérebro de animais e
observação das consequências em seus comportamentos. Buscava-se identificar ou mapear as áreas cerebrais que controlam
capacidades, funções ou comportamentos espe​ cíficos. Os estudos clássicos de Broca (1824-1880) e de Wernicke (1848-1905)
indicaram a existência de áreas bem delimitadas responsáveis pela produção e pela compreensão da fala, respectivamente.
Iniciava-se um clássico confronto travado entre os que defendem que há regiões no cérebro responsáveis por uma determinada
habilidade (localizacionistas), sendo um dos seus expoentes o neuro​ logista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934), e
aqueles que alegam uma equipotencialidade cerebral (globalistas), destacando-se, nessa perspectiva, Lashley (1950). 

Uma série de pesquisas empíricas foi realizada, princi​palmente na União Soviética, na Inglaterra e nos Estados Unidos, sobre a
afasia (distúrbio de linguagem) e a agno​ sia (distúrbio de reconhecimento) com pessoas que sofre​ ram lesão cerebral por
ocasião da Segunda Guerra Mundial. Entre as importantes contribuições desses estudos, desta​ cam-se as de Luria (1976/1990),
importante neuropsicólogo soviético. Seus trabalhos opõem-se à representação da organização do sistema nervoso baseada
numa perspec​ tiva eminentemente localizacionista, em que cada região do cérebro manteria uma correspondência pontual com
determinada função cognitiva. 

As investigações levadas a cabo por Luria evidenciaram que, com o desenvolvimento, diferentes centros nervosos ganham
dominância e que a hierarquia entre suas funções também é alterada. Nenhuma função é desempenhada plenamente por
apenas uma determinada região do cére​ bro, como quer a hipótese localizacionista estrita. Por outro lado, nem todas as regiões
são igualmente responsáveis por uma função específica. A descrição de um modelo de orga​ nização cerebral é um tanto mais
complexa em seu enten​ der. Segundo o autor, diferentes regiões do cérebro podem ser responsáveis por uma determinada
função, porém cada uma dessas regiões é responsável por um determinado tipo de contribuição que se mostra específica e, de
certa maneira, insubstituível. 

A tese localizacionista inicial apresentava um raciocínio simplista: o déficit cognitivo observado em um paciente que sofrera
uma lesão em determinada região cerebral era evidência suficiente para considerar tal região como sendo a sede ou local da
função danificada. O pressuposto era de uma correspondência biunívoca entre uma área cerebral bem delimitada e a função
cognitiva ou a função motora observadas. Isso significava que as células cerebrais teriam uma função específica e não
poderiam desempenhar, em caso de necessidade, outra função. Supunha-se uma arqui​ tetura cerebral rígida que, uma vez
danificada, não possi​bilitaria, em tese, recuperação posterior. Sabe-se que o funcionamento mental é bem mais complexo. Há
uma reorganização das células neurais após uma lesão. Os neurônios passam a adquirir, dentro de certos limites que levam em
conta a idade da pessoa e a extensão do tecido danificado, novas funções. O déficit, portanto, não é compreendido como
função pura e simples do dano neural imediato; é o resultado da reorganização funcional do siste​ ma após a lesão (Gazzaniga,
1985). As técnicas de neuro-imagem têm ajudado na compreensão do funcionamento cerebral. Elas avaliam o fluxo sanguíneo
ou o metabolismo neuronal que são representados com cores diferentes e proporcionais à atividade sinalizadora dos neurônios.
O procedimento consiste em ativar determinada função cognitiva e correlacioná-la com as imagens obtidas no cére​ bro sem
essa ativação. Por intermédio dessas técnicas, descobriu-se, por exemplo, que o cerebelo está envolvido com funções
sensoriais táteis e não-restrito às funções de locomoção, como se pensava (Squire e Kandel, 2000). Kandel (2001), consistente
com o que pensava Luria, destaca que o sistema nervoso é composto de um mosaico de regiões encarregadas de realizar
determinadas funções e que há uma grande interação dessas regiões. 

Em meados do século XX, a partir da observação de pacientes submetidos a cirurgias de separação do corpo caloso para
tratamento de epilepsia, a hipótese da locali​
zação foi perdendo apoio. Surgiu, a seguir, um interesse em detectar diferenças
funcionais relativas aos hemisférios cerebrais: cada hemisfério seria responsável por processar diferentes informações.
Estudos sobre os hemisférios cere​ brais têm indicado uma organização funcional relativa​ mente independente entre eles
(Gazzaniga, 1985). Resultados de pesquisas que utilizam técnicas de tomografia por emissão de positrons e ressonância
magnética funcional apoiam a hipótese da especialização hemisférica. O hemis​ fério direito ficaria basicamente encarregado de
perceber e de comandar funções globais e de categorização, além de processar informações visuais e espaciais. Já o esquerdo
estaria envolvido com funções mais específicas, como o processamento de linguagem e a interpretação das opera​ ções
realizadas pelo hemisfério direito. 

Poder visualizar determinadas regiões neurais é um passo importante, mas convém ressaltar que esses métodos enfrentam
limitações importantes (Gazzaniga, 1985). O processamento em uma região pode indicar a existência de um processo correlato
em andamento, e não a função principal que se deseja investigar. Pode ainda ser um circui​ to atencional ou motivacional em
operação. O emprego dessas técnicas em estudos empíricos tem possibilitado testar hipóteses relativas ao funcionamento e à
organização mentais. Dentro de certos limites, permite observar dife​
renças no tamanho das áreas cerebrais ativadas quando as
pessoas (com maior ou menor treinamento) executam certas tarefas (Kerr, Gusnard, Snyder e Raichle, 2004). Contudo, as
evidências, até o momento, parecem apoiar a hipótese tanto de modularização quanto de plasticidade cerebral (LeDoux, 2002). 

Apesar dos avanços, não se pode categoricamente concluir que a mente seja modular desde o nascimento. A idéia de
modularização (Karmiloff-Smith, 1995) tem obtido respaldo empírico e pode acrescentar flexibilidade a uma arquitetura modular
inicial não muito pré-especificada. 

A hipótese modular, sustentada pela perspectiva evolu​


cionista, recebe apoio empírico dos estudos, na área de desenvolvimento
inicial, de autores como Spelke e Bailargeon, entre muitos outros (Oliva, 2004). As competências que descrevem em bebés —
tanto sobre conhecimentos físicos quanto sobre conhecimentos sociais — parecem se ajustar a uma organização mental
modular selecionada pela evolução. Uma revisão desses estudos à luz de ativações neurais traria um dado empírico para esse
entendimento. Contudo, como as técnicas de neuroimagens disponíveis são invasivas e muitas restrições devem ser
observadas quan​ do empregadas em seres humanos, levará algum tempo para que essas contribuições sejam possíveis. 

Aprendizagem, Desenvolvimento e Organização Cerebral 

As estruturas cerebrais funcionam de maneira integra​da, respondendo com ativações ou inibições de determi​
nadas áreas às
estimulações externas. Quais as consequên​
cias para a organização cerebral quando uma área é cons​
tantemente ativada? 

Repensar o papel que a aprendizagem desempenha na organização funcional do cérebro merece, neste ponto, uma breve
revisão. Etólogos e biólogos como Lorenz (1903-1989) e Tinbergen (1907-1988) ocuparam-se com uma variedade de
comportamentos observados em diver​ sos animais e que podiam ser considerados inatos, ou seja, que dependeriam mais da
natureza (nature) do que da aprendizagem (nurture). Tais comportamentos incluíam a construção de ninhos, o cuidado materno,
o canto de algumas aves, o cortejo para acasalamento etc. e são, de modo geral, complexos. 

Nas condutas de cortejo de certas aves, por exemplo, são exibidos padrões de comportamento e sinais típicos para atrair um
parceiro. Macho e fêmea realizam movi​ mentos de cortejo, e é muito frequente o macho ser mais ativo. Depois, há uma gradual
redução do medo ao conta​ to, e os padrões de comportamento vão se sincronizando, possibilitando a fertilização. Entre os
estudos descritos por Eibl-Eibesfeldt (1974), pode-se citar o caso do Amblyornis macgregoriae. Ele escolhe uma árvore de
tronco reto, enfeita-o com brotos e começa a dançar à sua volta, mostrando as plumas coloridas da cabeça. De maneira
semelhante, o Amblyornis subalaris constrói um tipo de cabana na árvo​ re e depois começa a colocar adornos coloridos
(utilizan​
do frutos coloridos e conchas de caracóis). Esses machos são muito seletivos no comportamento de escolha de ador​ -
nos dos ninhos. Ao colocarem uma flor na parede de musgo que construíram, é comum darem uns passos para trás. Após
“observarem o efeito estético”, freqüentemente retiram a flor, recolocando-a em outro lugar. 

Nos estudos sobre o canto das aves, Eibl-Eibesfeldt (1974) relata que certos pássaros canoros, criados isoladamente,
desenvolvem o canto típico da sua espécie. De modo geral, o canto das aves se desenvolve em um período crítico e depende de
um complexo mecanismo neural. Fontes acústicas externas integradas com mecanismos endógenos precisam ser
consideradas, o que significa que o canto de certas aves inclui um traço adquirido pelo meio e é regulado por múltiplos fatores
internos (Slater, 2003). 

Esse comportamento, entre outros, permite estabelecer, em termos hipotéticos, um paralelo com o processo de aquisição de
linguagem, cujas etapas iniciais obedecem a uma sequência universal para a espécie humana. Por volta dos dois meses de
idade, todos os bebés emitem os primei​
ros sons, em seguida passam pelos balbucios, até chegarem às etapas de compreensão
e produção de linguagem (Werker e Fennell, 2004). 

Se por um lado o nativismo parece explicar essa univer​salidade, por outro enfrenta dificuldades para explicar a flexibilidade da
organização mental e as diferenças comportamentais. Vertentes que dão ênfase a processos de apren​ dizagem apresentam
maior poder explicativo frente à plas​
ticidade neural. Na revisão de Slater (2003), estudos com pássaros canoros criados em
isolamento indicam que o canto se desenvolve apenas se eles puderem ouvir a si mesmos. Além disso, relatam diferenças
quando o canto das aves é aprendido nos primeiros meses de vida, durante o primeiro ano ou ao longo da vida. Descrevem
varia​
ções no caso de a ave aprender uma canção ou um reper​ tório variado, ou se ela for exposta ao modelo por tempo mínimo,
por exemplo. Considerar que a aprendizagem desempenha um papel no desenvolvimento de padrões resultantes de processos
adaptativos não significa desconsiderar os aspectos inatos. Significa que estes podem ser mais flexíveis do que se imaginava e
que se ajustam às especificidades ambientais. 

Pensando o desenvolvimento humano a partir do que foi exposto, pode-se, teoricamente, traçar uma semelhan​ ça entre a
arquitetura do sistema que regula o canto das aves e os circuitos neurais do cérebro dos mamíferos rela​cionados à memória, à
cognição, à emoção, levando em conta aspectos de uso e plasticidade. A psicologia evolu​ cionista pressupõe a existência de
uma natureza humana universal. Essa natureza é constituída de mecanismos psicológicos, considerados adaptações
resultantes de um processo de seleção natural ao longo do tempo evolutivo. Decorre daí a suposição de uma arquitetura mental
subdi​vidida em módulos que processam informação e adaptada ao ambiente ou modo de vida de nossos ancestrais. Todas as
formas de agir no mundo e interagir com os outros são possibilitadas por tal arquitetura. 

Uma tentativa para superar a dicotomia nature X nurtu​


re, que parece se delinear, é indicar que há uma disposição inata ou que
existem capacidades específicas para aprender. 

A forma da interação do meio ambiente com tais capaci​ dades assume graus variados de complexidade, e a litera​
tura
documenta numerosos exemplos, entre os quais a estampagem. 

Como não é possível isolar completamente um indivíduo de fatores ambientais, mostra-se frágil a pressuposição de que certos
comportamentos estariam presentes desde o nascimento ou emergiriam em algum momento do desen​ volvimento, mesmo que
o organismo não tivesse passado por algum tipo de aprendizagem. Embora haja teóricos nativistas, que atribuam às estruturas
preexistentes nos organis​mos a responsabilidade pelo surgimento de determinados comportamentos, muitos etólogos
consideram a natureza epigenética do comportamento. Para eles, os termos inato e instinto foram substituídos por típico da
espécie. 

Já para os behavioristas, a aprendizagem é entendida como sendo um mecanismo geral, que funcionaria de modo semelhante
para todas as espécies, independente do tipo de conteúdo aprendido e do tipo de organismo que está aprendendo. Isso significa
que aprender uma operação matemática ou o caminho para sair de um labirinto depen​ de dos mesmos princípios: associação
e/ou reforço  LeDoux, 2002).
Contrapondo-se a esse mecanismo geral da aprendiza​ gem, Chomsky (1957, 1959) defende que o processo de aquisição de
linguagem é uma capacidade exclusivamente humana e distinta, em termos de estruturas de processa​ mento, das demais
habilidades humanas. 

Tome-se como exemplo o caso da Síndrome de Williams, uma desordem de origem cromossomial. Estudos registram que há
um déficit na percepção espacial, sem aparente comprometimento de outros aspectos do funcionamento cognitivo, inclusive da
capacidade linguística em geral. Isso tem sido usado como evidência de que a linguagem é uma capacidade inata e de
processamento específico, assim como a percepção de estímulos sociais. Pesquisas recentes, no entanto, demonstram, entre
outros aspectos, que os portadores dessa síndrome processam faces com base em cada aspecto da configuração
separadamente. Diferente é o processamento das pessoas que não sofrem dessa condição, que o fazem como uma Gestalt.
Isso se traduz no uso de diferentes regiões do cérebro (Karmiloff-Smith, 1995; Karmiloff-Smith et al., 1998). 

Há, por outro lado, evidências de importantes capaci​dades de processamento de informação em bebés recém-nascidos, que
não são explicadas pelos mecanismos tradi​ cionais de aprendizagem, revelando vieses inatos de domí​
nios relevantes. Elas
fazem com que a atenção do bebê dirija-se a certos estímulos, facilitando a aprendizagem. Uma revisão dessas habilidades
encontra-se no trabalho de Oliva (2004) e em demais capítulos de Moura, 2004. 

Alguns teóricos da Psicologia Evolucionista justificam essas capacidades específicas como resultantes da seleção natural
(Barkow et al., 1992). A organização mental passou a ser pensada como produto da evolução da espécie. Essa organização
incorporou algumas predisposições para a aprendizagem (devido à repetição, por milhares de anos, de comportamentos que
garantiram a sobrevivência da espécie) à dimensão filogenética. Essas predisposições deixaram marcas nos sistemas neurais
e se manifestam, na ontogênese dos indivíduos, sob a forma de “condutas típi​
cas da espécie”. 

Como se vê, há uma diferença entre pensar uma habi​ lidade como sendo inata e considerá-la o resultado de uma adaptação
evolutiva. No segundo caso, o cérebro humano seria um conjunto de sistemas computacionais, resultante de especializações
adaptativas, projetado pela seleção natu​ ral para resolver, de maneira eficiente e econômica, os problemas de sobrevivência
enfrentados pelos nossos ancestrais caçadores-coletores. Entre os sistemas especializados, estão os de motivação sexual,
inferência social, julgamento sobre incertezas, reconhecimento visual, aqui​ sição de conhecimento etc. (Duchaine, Cosmides e
Tooby, 2001). Nesse caso, seria possível a identificação de compor​tamentos relacionados à sobrevivência e à reprodução. 

A organização cerebral baseada em especificidade de domínio supõe uma estrutura neural para aprender ou processar
informações ambientais específicas. Por exemplo, o aparato que torna a aquisição de linguagem possível não serviria para a
aprendizagem de outras habilidades, as quais seriam gerenciadas por outros módulos mentais inatos, de processamento
específico, e independentes. 

Outro aspecto que envolve aprendizagem é considera​ do por LeDoux (2002). Ele indica que o cérebro aprende utilizando
sistemas variados e que os diferentes animais possuem capacidades diversas de aprendizagem. Isso pare​ ce consistente com a
perspectiva de domínio específico e a modularidade. É como se os sistemas cerebrais estivessem programados para aprender
com a experiência. A apren​ dizagem é uma modificação sináptica que ocorre em certas estruturas que processam determinadas
informações, e as sinapses podem ser modificadas pela experiência. O cére​ bro preparado pela evolução vai funcionar em
interação com a experiência/ambiente. A aprendizagem de medo, apesar de ser um mecanismo simples, pode exemplificar essa
interação, incluindo uma estrutura cerebral (subcor​ tical) envolvida no circuito de defesa nos animais: a amíg​dala. Ela, em
termos evolutivos, é que permite a detecção do perigo e uma resposta apropriada típica da espécie, como: fugir ao ver um
predador; não se dirigir ao local de onde provêm o som emitido ou os cheiros exalados pelo predador. Simultaneamente a essa
reação automática, pode ocorrer uma associação entre um estímulo novo (não biolo​ gicamente preparado) e a situação de
perigo. Por exemplo, o som das patas do predador nas folhas faz com que a resposta de fuga passe a ocorrer com esse som.
Essa apren​ dizagem pode ser considerada um fator de flexibilização, programado biologicamente e que vai ampliando o reper​ -
tório de possibilidades de ação. 

Uma posição contrária é defendida por Elman et al. (1997), que apoiam o enfoque construtivista do desenvol​ vimento neural.
Nessa perspectiva, é enfatizado o papel da aprendizagem e da plasticidade cerebral, em vez da especificidade cortical inicial. O
desenvolvimento é enten​ dido como um processo emergente e marcado pela inte​ ração com o ambiente (não necessariamente
social). Esses autores aceitam que os genes são responsáveis por uma estrutura mínima geral que permite o funcionamento
inicial do sistema e que há uma seleção sináptica em certo grau. Entretanto, não aceitam que as pré-especificações
epigenéticas ou a seleção sináptica, apenas, possam explicar a cognição. Argumentam que há evidência de crescimento
sináptico produzido pela atividade. Citam estudos que mostram que lesões em áreas envolvidas no processamento de
linguagem de uma criança levam a danos menores do que quando a lesão ocorre em adultos. O que desejam mostrar é que na
tenra infância os circuitos corticais ainda não estão finalizados e áreas que normalmente não seriam utilizadas em tarefas
linguísticas assumem tais funções. Outro estudo no qual se baseiam é o que relata a remoção de parte do córtex de animais
jovens e sua colocação no cérebro de outro animal. Os resultados indicam que essa parte do córtex adquire as propriedades do
novo local. Esses achados são interpretados como evidência de que os circui​ tos cerebrais não são geneticamente
programados, mas adquirem suas funções a partir do que o ambiente neles provoca. Ao mesmo tempo, os neuroconstrutivistas
aceitam que há limites em relação a como as construções sinápticas operam no córtex (Elman et al., 1997). 

Os neuroconstrutivistas têm bons argumentos para a plasticidade cerebral e costumam defender que a aprendi​ zagem pode
ocorrer de diversos modos. Há evidências, no entanto, de que essa plasticidade não é ilimitada. Em pessoas que sofrem algum
tipo de dano cerebral, o cérebro pode transferir o processamento para áreas similares, mas isso tem restrições (Workman e
Reader, 2004). 

LeDoux (2002) faz críticas à perspectiva neuroconstrutivista, destacando que essa abordagem explica apenas uma parte da
organização cerebral, pois se limita a descrever o desenvolvimento mental exclusivamente do ponto de vista do córtex. Os
neuroconstrutivistas não dispensam às áreas subcorticais muita atenção, pois supõem que sejam pré-especificadas e por essa
razão não teriam papel fundamen​ tal no processamento de informação ambiental. Diferen​
temente, LeDoux ressalta que as áreas
corticais dependem das subcorticais para esse processamento. Desse modo, a pré-especificação nos circuitos subcorticais
exerce forte influência sobre o que acontece em áreas corticais relacio​ nadas, especialmente se os circuitos subcorticais
amadu​ recerem antes, o que costuma ocorrer com frequência. 

Nas áreas subcorticais, estão estruturas cerebrais cruciais para o processamento das emoções. O exemplo anterior,
relacionado ao medo condicionado, indica uma reação subcortical em curso. Ela ocorre em diversos animais e parece obedecer
a um programa biológico da espécie. Voltando à idéia sobre especificidade, pode-se perceber que circuitos subcorticais
parecem obedecer a uma organização modular e estão na base de nossas ações, mesmo as que parecem ser mais corticais (ou
racionais).

CONSIDERAÇÕES

Retomando os modelos apresentados neste texto, é possível concluir que a tendência dos estudos contempo​ râneos considera a
mente localizada, de alguma forma, na arquitetura do cérebro, produto da evolução da espécie por seleção natural e de
movimentos complementares de especialização progressiva e de aumento de fluidez cogni​ tiva. O primeiro movimento ou
processo resultou em um funcionamento domínio-específico para o processamento de tipos relevantes de informação, como
faces humanas. Os bebês nascem com a predisposição para reconhecer configurações gerais de faces, o mecanismo
denominado por alguns CONSPEC, que se refere a um processamen​ to específico (Elman et al., 1997). Com a experiência de
perceber rostos diversos, inicialmente de suas mães, eles vão aprender a identificar rostos específicos. Aí, o processo é de
aprendizagem, em que novas conexões sinápticas são estabelecidas. A informação de domínio-específico, representada, é
armazenada. Torna-se, então, gradualmen​ te disponível para outros domínios, e para um processamento geral, pelo
desenvolvimento ontogenético. O encapsulamento e a modularização no processamento dos inputs são acompanhados por
reorganizações nas repre​ sentações originais que garantem o compartilhamento por outros domínios. No funcionamento
cerebral, isso se dá através de processamento por algumas regiões especializa​
das em realizar determinadas funções, mas que
interagem, organizando-se e reorganizando-se dinamicamente. 

Em síntese, observa-se que, com a abertura da caixa-preta, o movimento cognitivista dá origem a muitos questionamentos e
controvérsias ainda não resolvidas. A tendência inicial foi cautelosa, e deixa-se de lado a história ou pré-história da mente, logo
incluída nas discussões pelos psicó​ logos evolucionistas. Sínteses parciais são propostas, mas é necessário ampliá-las. A
ampliação vem pela consideração da ontogênese e pela entrada em cena das neurociências (e a inclusão de estruturas
subcorticais). Com esse último movimento, observa-se a superação do dualismo mente X cérebro e uma tendência a dar o
próximo passo importante: o da não-separação entre razão (cognição) e emoção. 
Fonte
OTTA, Emma . Psicologia Evolucionista 1 Edição. São Paulo/SP: Guanabara Koogan, 2009

0 comentários
Entre no Facebook para publicar um comentário

TEXTOS PUBLICADOS
MAIS PSICOLOGIA
NEUROPSICOLOGIA NEUROPSICOLOGIA

Aspectos históricos da neuropsicologia e o Maconha faz bem?


problema mente-cérebro
Não foram os arroubos de materialismo de Descartes recém- Realizou-se em abril na Universidade de Campinas uma ampla
descritos que ficaram consagrados na história da filosofia, e sim o discussão sobre drogas, culminando no debate de três questões
seu dualismo de substân​cias: a ideia de que a realidade é cindida em provocativas: Maconha faz bem? Maconha faz mal? Devemos
dois mundos - um pensante; outro, exten​ so e material. Assim, o legalizar a maconha? Mil pessoas participaram com entusiasmo,
imaterialismo e racionalismo se coadunavam em uma decisão fi​ - refletindo o crescente interesse sobre o assunto. Nem o mais
losófica clara de sobrepor a racionalidade da mente às paixões, otimista dos ativistas imaginaria que a causa da legalização da
devendo esta ser sua guia e determinante. Esses mesmos maconha poderia avançar tão rapidamente quanto nos últimos
racionalismo e primazia do pensamento podem ser abstraí​ dos da meses. Projetos de lei com esse teor foram propostos pelos
popularizada máxima cartesiana “co​ gito ergo sum". A existência é deputados Jean Wyllys e Eurico Júnior. Uma iniciativa popular com
descoberta pe​ la primazia epistemológica do pensamento, e o 20 mil assinaturas pela legalização tramita no Congresso sob a
pensamento se configura como substância imaterial e inextensa. relatoria do senador Cristovam Buarque.

Neuropsicologia
O futuro do tratamento ao vício em drogas e comportamentos compulsivos
Apesar de os genes envolvidos na sinalização da dopamina constituírem uma área-chave para procurar indícios da natureza hereditária do vício, a
variação genética em alguns dos outros sistemas bioquímicos envolvidos em vários prazeres provavelmente também é relevante. Esses sistemas
incluem opioides endógenos e os endocanabinoides. Será interessante ver como es​ tudos envolvendo esses sistemas se desenvolverão em
termos de vícios es​pecíficos e até vícios em substâncias específicas. Apesar de alguma variação genética poder ser preditiva de predisposição
generalizada ao vício, é possí​
vel que uma variação particular em receptores opioides possa, por exemplo, se correlacionar com o alcoolismo mas

Neuropsicologia
Os prazeres provenientes da dor, dos exercícios e da aceitação social no Sistema Nervoso
O exercício físico sustentado, seja correr, nadar, pedalar ou alguma outra atividade aeróbica, tem benefícios bem conhecidos para a saúde,
inclusive melhorias no funcionamento dos sistemas cardiovascular, pulmonar e endócrino. O exercício voluntário também é associado a
melhorias de longo prazo no funcionamento mental e é a melhor coisa que pode ser feita para reduzir o declínio cognitivo que acompanha o
envelhecimento normal. O exercício tem um acentuado efeito antidepressivo. Ele amortece a resposta do cérebro ao estresse físico e emocional.
Um programa regular de exercícios produz grande número de alterações no cérebro, inclusive novo crescimento e ramificação de pequenos vasos

Neuropsicologia
Jogos, comportamento compulsivo e o Sistema Nervoso
Independentemente de estarmos diagnosticando viciados em internet, vi​
ciados em jogo e viciados em pornografia ou analisando as motivações
de viciados em chocolate e viciados em compras, nosso discurso do dia a dia tende a promover a ideia de que é possível se viciar em
praticamente qualquer atividade prazerosa. Sem dúvida há um quê de verdade nessa pre​missa - comportamentos compulsivos podem afetar a
vida das pessoas em variados graus. Mas até que ponto esses comportamentos são similares em nível puramente biológico? Os vícios em
videogames, jogos ou compras realmente são como os vícios em drogas ou álcool em termos de funcio​ namento cerebral? Ou eles são apenas

Neuropsicologia
Comportamento sexual, prazer e o sistema nervoso
O que a sua gata está pensando quando o vê fazendo sexo? Mesmo se você for sexualmente convencional para essa nossa cultura - digamos que
você não esteja usando uma máscara de borracha com pinças nos mamilos e não tenha colocado o O anel do Nibelungo de Wagner para tocar ao
fundo ou não tenha inserido no ânus uma sonda conectada pelo Bluetooth à internet e que produz uma descarga elétrica acionada por amplas
flutuações da bolsa de valores Hang Seng, mas esteja em uma relação heterossexual comprometida com o seu parceiro, entre quatro paredes, no
seu quarto, abraçando, beijando, acariciando, lambendo, fazendo sexo vaginal —, a sua gata ainda vai achar que você é esquisito. E ela estará

Neuropsicologia
Alimentação e o Sistema Nervoso
determinados alimentos quanto determinadas substâncias podem ativar o circuito do prazer. Também vimos que, em muitos casos, a obesidade
resulta do vício em comida e que o vício em comida tem em comum muitas propriedades e substratos biológicos com o vício em drogas, inclusive
um forte componente hereditário e o acionamento pelo estresse. Conhecemos algumas das maneiras pelas quais a exposição crônica a al​ gumas
drogas pode reconfigurar o circuito do prazer, alterando a estrutu​
ra e o funcionamento sináptico. 

Neuropsicologia
As drogas e seus efeitos no Sistema Nervoso Central
Todas as culturas utilizam substâncias que influenciam o cérebro. Elas variam de estimulantes brandos, como a cafeína, a substâncias com
podero​sos efeitos eufóricos, como a morfina. Algumas vêm acompanhadas de alto risco de vício; outras, não. Algumas alteram a percepção,
outras alteram o estado de espírito, e algumas afetam ambos. Algumas podem matar se utili​ zadas em excesso. No entanto, as atitudes e leis
específicas relativas à utiliza​
ção de substâncias psicoativas variam amplamente entre culturas e, portanto, reforçam uma narrativa — resumida
acima —na qual as drogas utilizadas por insiders são consideradas aceitáveis, ao passo que a utilização das drogas por outsiders é condenada e

Neuropsicologia
O circuito do prazer - Como nosso cérebro processa as sensações de prazer
Montreal, 1953. Felizmente, Peter Milner e James Olds não eram bons de mira. Colegas de pós-doutorado na McGill University, sob a orientação
do renomado psicólogo Donald Hebb, Olds e Milner conduziam experimentos envolvendo implantar profundamente elétrodos no cérebro de ratos.
A cirurgia de implante, conduzida com os ani​ mais anestesiados, envolvia afixar um par de eletrodos com meio milímetro de distância entre si no
crânio dos ratos. Depois de alguns dias se recupe​
rando da cirurgia, os ratos mostraram estar saudáveis. Longos fios flexíveis foram então ligados
aos eletrodos em uma extremidade e a um estimulador elétrico na outra, para permitir a ativação da região cerebral específica na qual os
Neuropsicologia
Lateralização dos hemisférios, gênero do cérebro e plasticidade neuronal
A humanidade é globalmente dividida em destros (± 90%) e canhotos (± 10%), mas há certa variabilidade regional e cultural para tais taxas. Desde
o clássico estudo do antropólogo Robert Hertz (1881-1915), que, de modo brilhante, mostrou as relações entre mão direita e hierarquia simbólica
em distintas cul​
turas, cientistas sociais, psicólogos e neurocientistas têm debatido o quanto da lateralidade dos povos é resultado de normas
sociais ou de bases neurobiológicas. Aceita-se atualmente que a lateralização tenha uma consi​ derável base genética e neurobiológica, mas o
ambiente e a experiência modu​ lam tal base. Há pesquisas sobre o grau de lateralização em homens pré-histó​ricos, em estudos feitos a partir de

Neuropsicologia
Lateralização dos hemisférios cerebrais, gênero e plasticidade neuronal
A humanidade é globalmente dividida em destros (± 90%) e canhotos (± 10%), mas há certa variabilidade regional e cultural para tais taxas. Desde
o clássico estudo do antropólogo Robert Hertz (1881-1915), que, de modo brilhante, mostrou as relações entre mão direita e hierarquia simbólica
em distintas cul​
turas, cientistas sociais, psicólogos e neurocientistas têm debatido o quanto da lateralidade dos povos é resultado de normas
sociais ou de bases neurobiológicas. Aceita-se atualmente que a lateralização tenha uma consi​ derável base genética e neurobiológica, mas o
ambiente e a experiência modu​ lam tal base. Há pesquisas sobre o grau de lateralização em homens pré-histó​ricos, em estudos feitos a partir de

Neuropsicologia
Os efeitos do isolamento extremo no Cérebro do Homo sapiens
Sarah Shourd passou a ter visões dois meses depois de ser presa. Ela ouvia passos fantasmas, via luzes piscando e passava a maior parte do
tempo debruçada na porta, tentando ouvir os sons do lado de fora.
Ela foi uma das turistas americanas presas em 2009 enquanto escalava montanhas na região curda do Iraque. Os turistas cruzaram a fronteira do
Irã e acabaram presos por espionagem. Shourd passou 10 mil horas sem quase nenhum contato humano antes de ser solta. Ela conta que a pior
experiência foram as alucinações.

Todos Textos

ULTIMAS ATUALIZAÇOES

HISTÓRIA PSICOLOGIA PSICOLOGIA HISTÓRIA ANTROPOLOGIA

O príncipe esquecido Aspectos históricos da O lugar do ser humano na natureza Guerras Púnicas Evolução humana: Por qu
neuropsicologia e o problema e na evolução África?
mente-cérebro
Um personagem que foi importante No lado diametralmente oposto do O modo tradicional de concluir os livros As Guerras Púnicas marcaram um A evolução é sempre associ
como forte candidato no apagar das espectro de posições sobre a relação sobre a evolução humana é discorrer período crucial na história de Roma, tempo. Afinal, a evolução é um p
luzes do Império, hoje está quase mente-cérebro, encontra-se o sobre as maneiras nas quais nosso quando passou de potência puramente que ocorre ao longo do tempo, e
totalmente esquecido, não fosse o eliminativismo ou materialismo passado evolucionário é impor​ tante para italiana, em 265, a força dominante no extraordinariamente longos perío
notável livro de Mary Del Priore O eliminativo. Uma das princi​
pais teses do a compreensão do mundo atual. Isso Mediterrâneo, em 146, um processo que tempo em questão que despertam
príncipe maldito (ed. Objetiva, 2006). Era eliminativismo é a de que a folk não é tão difícil se o livro for como o a História de Polibio tem como propósito imaginação. Dinossauros que e
o belo jovem príncipe D. Pedro Augusto psychology (psicologia popular) trabalha African Genesis, de Ardrey, cujo tema - a explicar. Nesta altura, estavam já criadas por cem milhões de anos ou hom
de Saxe Coburgo, neto de D. Pedro II e com categorizações falsas, evolução de um macaco assassino para seis províncias ultramarinas: Sicília, que evoluíram ao longo de sete

2007 - 2015 | V. 8

ANTROPOLOGIA ASTRONOMIA FILOSOFIA GEOLOGIA/PALEONTOLOG. MITOLOGIA

Civilização Universo Doutrinas Hádico 4,6-3,8 Bi Antropogênese


Cultura Via Láctea Filósofos Arcáico 3,8-2,5Bi Apocalipse
Etnocentrismo Sistema Solar Textos Proterozóico 2,5BI-545Mi Cosmogonia
História da Antropologia Astrobiologia Paleozóico 545-248Mi Deuses
Imagens MIssões Espaciais Mesozóico 248-65Mi Divindades
Vídeos Imagens Cenozóico 65Mi-Presente Imagens
Vídeos Imagens Heróis
Vídeos Mitos e Lendas

HISTORIA PSICOLOGIA

Batalhas Textos
Cidades Imagens
Civilzação Vídeos
Governantes
Imagens
Mapas
Psicólogos
Vídeos

Templodeapolo.net
Curtir 2.944

webmaster@templodeapolo.net Enviar Mensagem

O ser humano é mortal por seus temores e imortal por seus desejos...
Pitágoras