Você está na página 1de 2

A encruzilhada da direita que não consegue "achar" um candidato viável, que

empolgue os eleitores, somada à possibilidade concreta das eleições de outubro ser, pela
primeira vez, de fato, uma disputa de projetos políticos para o Estado, abre o flanco para uma
manobra de impedir que haja as eleições ou, ainda, o golpe do parlamentarismo. Se junta a
isso a certeza de que o golpe não foi dado por amadores, isto é, foi planejado para se manter
no poder, pelo menos, as duas próximas décadas, temos montado um cenário tenebroso para
os próximos meses.

Quando digo que as eleições de outubro serão, em tese, uma disputa de projetos
políticos, ou melhor, uma disputa de visões de Estado, penso, que duas serão as perguntas que
os candidatos e seus projetos de governo terão que responder, a saber: que país queremos e
para quem queremos esse país. Obviamente a direita tentará fugir desse debate,
principalmente, tentando levar o enfrentamento para uma disputa moralista, logo, caberá à
esquerda impor o debate de projetos de Estado. Se isso ocorrer a esquerda vence, sem sombra
de dúvidas. Claro, se as eleições não forem uma fraude.

Se a esquerda tem um leque de candidatos, a saber, Manuela d'Ávila (PCdoB),


Guilherme Boulos (PSOL), Ciro Gomes (PDT) e, claro, Lula (PT) a direita, até o momento, não
tem um candidato viável. Aquele que seria o candidato natural à direita, que nas últimas
eleições obteve nada mais nada menos do que mais de 50 milhões de votos, viu sua carreira
política virar pó, sem trocadilho, por favor. Aécio Neves o grande articulador do golpe acabou
por ser exterminado por ele. Assim ocorrendo com todos os possíveis candidatos de direita ou
de centro direita.

Por isso, que a Globo flerta com a ideia de fazer do apresentador Luciano Huck o seu
candidato à presidência, neste caso, a emissora chegaria ao governo sem intermediário. O
apresentador seria o Silvio Berlusconi tupiniquim.

Por outro lado, à esquerda temos a questão Lula, não tenho a menor dúvida, que se
deve manter a luta pelo direito do ex-presidente ser candidato até o fim, até o limite. Resta
saber qual o limite. Defender o Lula, neste momento, é defender a democracia. A pesquisa do
Datafolha, divulgada na quarta-feira, é sintomática. Uma análise breve dos números divulgados
deixa evidente que a perseguição ao Lula, até agora, não surtiu efeito eleitoral. Esse fato leva a
prisão do Lula ser ainda mais urgente aos planos golpistas.

Mais de 30% dos votos que seriam do Lula, num eventual impedimento do ex-
presidente, ficariam em compasso de espera, isto é, minha leitura, no aguardo de uma
indicação do petista. Sendo assim, o que podemos concluir é que qualquer que seja esse
nome, ele estaria, no mínimo, no segundo turno. Afirmaria, hoje, sem medo de errar, que o/a
ungido por Lula faria 40% no primeiro turno.

Soma-se a isso o jogo de interesses do mercado internacional e vemos um potencial


explosivo prestes a explodir. Os golpistas perderam qualquer despudor e agem à luz do dia sem
nenhum constrangimento. Por exemplo, a ministra presidente do Supremo Tribunal Federal,
Cármen Lúcia, foi a principal convidado jantar promovido pelo Poder 360, site que cobre
política e poder, no evento a ministra reuniu-se com representantes de gigantes corporações e
alguns jornalistas.
No encontro a ministra não se furtou em tecer comentários sobre os casos em aberto,
que, certamente, chegarão ao tribunal que ela preside. Em especial, obviamente, o caso Lula,
segundo ela, rever a questão da possiblidade de prisão, em segunda instância, seria, nas
palavras dela, “apequenar muito o Supremo”. Claro, que um observador mais atento, poderia
dizer que “apequenar muito o Supremo”, é sua presidenta discutir um caso, que ainda será
julgado por ela, com empresários e jornalistas, com interesses diretos nas decisões a serem
tomadas.

A saber, alguns dos nomes presentes no jantar com a presidenta do Supremo: André
Araújo (presidente da Shell no Brasil), Flávio Ofugi Rodrigues (chefe de Relações
Governamentais da Shell), Tiago de Moraes Vicente (Relações Governamentais e Assuntos
Regulatórios da Shell), André Clark (presidente da Siemens no Brasil), Wagner Lotito (vice-
presidente de Comunicação e Relações Institucionais da Siemens na América Latina), Camilla
Tápias (vice-presidente de Assuntos Corporativos da Telefônica Vivo), Victor Bicca (diretor de
Relações Governamentais da Coca-Cola Brasil), Camila Amaral (diretora jurídica da Coca-Cola
Femsa), Júlia Ivantes e Delcio Sandi (Relações Institucionais da Souza Cruz) e Marcello D’Angelo
(representante da Estre Ambiental).

Além dos empresários, participaram os jornalistas Cláudia Safatle (Valor Econômico),


Denise Rothenburg (Correio Braziliense), Leandro Colon (Folha de S.Paulo) e Valdo Cruz
(GloboNews).

Antes que alguém diga, mas ela tem o direito de jantar como quem desejar, certo,
evidente que sim. Mas é ético e legal discutir um caso ainda em aberto? Que me respondam os
especialistas em ética do direito.

A ministra tem jantares interessantes, é verdade, há pouco tempo reuniu-se com


empresários para discutir a reforma trabalhista. Alguém tem informação de algum jantar com
trabalhadores e sindicalistas para discutir o mesmo tema?

Esses são os motivos, entre outros, que me levam a temer a possiblidade de que o pior
do golpe ainda está por vir. Cada vez mais tenho uma convicção, não teremos eleições, e se
elas ocorrerem será um jogo de cartas marcadas. Outra possiblidade é os golpistas efetivarem a
ideia do semiparlamentarismo.

Somente a força da esquerda, dos movimentos sociais poderá fazer o enfrentamento


necessário. Espero que, neste momento, ainda que nos bastidores, esteja sendo tratada uma
frente ampla de esquerda, não para disputa eleitoral, apenas, para fazer à resistência.