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Conflitos Agrários

seus sujeitos, seus direitos


grão-chanceler
Dom Washington Cruz, CP

reitor
Prof. Wolmir Therezio Amado

Pró-reitora dE pÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA


e Presidente do Conselho Editorial
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CoordenadorA Geral da Editora da PUC Goiás


Profa. Nair Maria Di Oliveira

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Heloísa Helena de Campos Borges - Presidente da Academia Feminina de Letras
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Profa. Maria do Espírito Santo Rosa Cavalcante - Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Profa. Márcia de Alencar Santana - Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Maria Luísa Ribeiro - Presidente da Academia Goianiense de Letras
Profa. Regina Lucia de Araújo - Pesquisadora
Prof. Ms. Roberto Malheiros - Pontifícia Universidade Católica de Goiás
Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega
Sônia Fátima Schwendler
Organizadoras

Conflitos Agrários
seus sujeitos, seus direitos

Goiânia, 2015
© 2015 by Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega, Sônia Fátima Schwendler

Editora da PUC Goiás


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Revisão
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, GO, Brasil

C748 Conflitos agrários: seus sujeitos, seus direitos / organizadoras, Maria Cristina
Vidotte Blanco Tárrega, Sônia Fátima Schwendler. – Goiânia: Ed. da
PUC Goiás, 2015.
308 p.: 22 cm

ISBN 978-85-7103-881-3

1. Direito agrário. 2. Direitos humanos. I. Tárrega, Maria Cristina Vidotte Blanco


(org.). II. Schwendler, Sônia Fátima (org.). III. Título.

CDU: 349.42

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ou por qualquer meio, eletrônico, mecânico, fotocópia, microfilmagem,
gravação ou outro, sem escrita permissão do coordenador.

Impresso no Brasil
Dedicamos este livro às mulheres e aos homens que
mostraram com sua vida que a luta faz parte da história
e que ela é possível e necessária para mudar o mundo e
a si mesmo; aos povos indígenas, quilombolas, campe-
sinos e campesinas que trabalham, vivem e resistem na
terra, e que nos ensinaram, com sua força e coragem, as
lições da pedagogia da resistência, os nossos tributos.
A FALA DA TERRA

A Liberdade da Terra não é assunto de lavradores.


A Liberdade da Terra é assunto de todos quantos
se alimentam dos frutos da Terra.
Do que vive, sobrevive, de salário.
Do que não tem casa. Do que só tem o viaduto.
Dos que disputam com os ratos
os restos das grandes cidades.
Do que é impedido de ir à escola.
Das meninas e meninos de rua.
Das prostitutas. Dos ameaçados pela Cólera.
Dos que amargam o desemprego.
Dos que recusam a morte do sonho.
A Liberdade da Terra e a paz no campo têm nome:
Reforma Agrária.
Hoje viemos cantar no coração da cidade.
Para que ela ouça nossas canções e cante.
E reacenda nesta noite a estrela de cada um.
E ensine aos organizadores da morte
e ensine aos assalariados da morte
que um povo não se mata
como não se mata o mar
sonho não se mata
como não se mata o mar
a alegria não se mata
como não se mata o mar
a esperança não se mata
como não se mata o mar
e sua dança.

Pedro Tierra
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 9

9 SUMÁRIO

11 PREFÁCIO

15 DIREITOS HUMANOS E DIREITO AGRÁRIO:


UMA ANÁLISE A PARTIR DOS SUJEITOS DO CAMPO
Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega; Sônia Fátima Schwendler

29 SOBERANIA ALIMENTAR COMO TERRITÓRIO


Bernardo Mançano Fernandes

53 EXPANSÃO DO CAPITAL NO CAMPO E A REPRESSÃO


POLÍTICO-JUDICIAL DOS MOVIMENTOS CAMPONESES
NO BRASIL E NA ARGENTINA
Rubens Souza; Mariana Romano

93 A FUNÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA TERRA,


OS SUJEITOS DE DIREITOS E AS SUAS LUTAS
Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega;
Bárbara Luiza Ribeiro Rodrigues

115 TEMPOREROS Y TEMPORERAS DEL VINO EN


CASABLANCA, CHILE: EL TRABAJO COMO CAMPO DE
CONFLICTO Y TENSIÓN
Pamela Caro

155 “ROMPENDO O SILÊNCIO”: A RESISTÊNCIA DAS


MULHERES CAMPONESAS FRENTE À EXPANSÃO DA
MONOCULTURA DO EUCALIPTO NO RIO GRANDE DO
SUL E A CRIMINALIZAÇÃO DAS LUTAS SOCIAIS
Sônia Fátima Schwendler

189 A PROTEÇÃO JURÍDICA DA TERRITORIALIDADE ÉTNICA:


AS COMUNIDADES QUILOMBOLAS
Cesar Augusto Baldi
239 O DIREITO QUILOMBOLA E OS ENTRAVES DA ESTRUTURA
AGRÁRIA FUNDIÁRIA BRASILEIRA
Lilian Cristina Bernardo Gomes

271 EL DEBER DE CONSULTAR A LOS PUEBLOS


INDÍGENAS EN CHIAPAS O EL ARTE DE LA SIMULACIÓN
Elisa Cruz Rueda

285 NOVOS SUJEITOS SOCIAIS E A CONSTRUÇÃO


PLURAL DE DIREITOS
Antonio Carlos Wolkmer

291 QUESTÕES TERMINOLÓGICAS E HISTÓRICAS ACERCA


DA POLÍTICA AGRÁRIA BRASILEIRA REFORMULADA
A PARTIR DO ESTATUTO DA TERRA DE 1964
Cláudio Grande Junior
PREFÁCIO

A
s sociedades humanas foram se acomodando na terra que lhes
coube viver, formando suas culturas, seus valores e suas riquezas.
Na modernidade, arbitrariamente, em geral pela força, as socie-
dades transformadas em Estados constituídos demarcaram seus territórios
com lápis de ponta fina sobre um mapa que apenas imitava a realidade.
Cada vez que o lápis escorregava em mãos mais acostumadas às armas do
que à arte, os povos eram chamados a defender a pátria, e longas e desa-
venturadas guerras redesenhavam o mapa, novamente sem se importarem
com que gentes ficavam dentro ou fora do desenho. Desta forma, o territó-
rio passou a ser o limite de honra dos chamados Estados nacionais e nele se
impuseram a lei e o contrato social, a todos os habitantes, humanos ou não,
aí localizados pelo acaso, destino ou pela autodeterminação. E aí se fixou
que todos deveriam falar a mesma língua, reverenciar o mesmo poder e
adorar o mesmo Deus.
Mas o território dos Estados modernos foi, por obra dos direitos indi-
viduais, dividido por sua vez em lotes de terras privadas, também com lápis
de ponta fina, demarcados, medidos, destruídos e melhorados. Destruídos
do ponto de vista dos animais, plantas e gentes coletivas, melhorados do
ponto de vista da modernidade, expulsaram animais, plantas e gentes cole-
tivas, transformaram a terra em local de produção de mercadorias, exclusi-
va para acumulação da riqueza humana, local não permitido, sob pena de
morte, para plantas e animais estranhos e daninhos à mercadoria produzida
e não permitidos, sob outras penas, às gentes estranhas à produção.
A terra não é um mapa onde se possa desenhar fronteiras nacionais
e lotes privados, mas é composta por rios de verdade, montanhas, planícies
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e mares reais. É a base em que se assenta a vida em suas mais simples, com-
plexa ou diferente forma, que se chama biodiversidade. As condições de
clima, latitude, altitude, composição do solo e minerais existentes determi-
nam a vida e proliferação de diferentes plantas e animais. As gentes, os seres
humanos, aprenderam a viver em qualquer lugar, mudando a cor da pele,
o formato dos olhos, o tamanho do nariz, mas, para se adaptarem, foram
também mudando a natureza, inventando ferramentas e criando plantas,
domesticando animais e enganando as intempéries.
Tanto mudaram que aprenderam a viver em lugares quase inóspitos,
sem precisar mais mudar a cor da pele e o tamanho das pernas. Para isso,
foram mudando a natureza e a terra, até que, momento de rara infelicidade,
acharam que poderiam prescindir da natureza, confiando apenas em sua ra-
zão, seu conhecimento e sua arrogância. Esta arrogância humana transfor-
mou a relação com a natureza em um conflito globalizado contra o inimigo
não humano. No entanto, este conflito, apesar de imenso e profundo, não
conseguiu unir todos os humanos do mesmo lado e continuou a haver gen-
tes aliadas da natureza. Por isso se abriu ou se desvelou outro conflito, muito
mais mesquinho, sem heróis nem grandezas, cínico, que tenta liquidar as
gentes coletivas, forçando-as a se transformarem em individuais. Curiosa
ironia, os coletivos são amigos da natureza e, desta forma, estes dois con-
flitos acabaram se misturando de tal forma e com tal intensidade que já é
difícil entender um sem ver o outro, apesar do esforço gigantesco que faz a
sociedade hegemônica global para escondê-los. Assim, os conflitos se trans-
formaram numa extensa e complexa crise socioambiental.
Este livro conta a história de conflitos com a natureza e com gentes
no Brasil, no Chile, em Chiapas, nos pampas brasileiros e na Argentina. Pode-
riam ser acrescentados mais mil lugares, e nos mil lugares haveria de aparecer
o conflito. Índio, quilombola, mico leão dourado ou floresta úmida lutam para
se manter vivos num mundo que é capaz de tentar transformar em mercadoria
o riso franco do quilombola e o olhar doce do índio, com a mesma desfaçatez
que vende o couro do mico leão dourado e o cerne poderoso da madeira ar-
rancada da floresta úmida. Todavia, não se engane o ingênuo: para uma boa
mercadoria, todos devem estar mortos, mesmo quando parecem vivos!
Cada um ‒ plantas, animais e gentes ‒, porém, tem lutado como
pode, não exatamente para vencer o conflito, porque não pode haver ven-
cedores, mas para cessá-lo e avançar para um tempo em que seja possível
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a convivência entre humanos, animais e plantas. Este livro faz parte dessa
luta, dessa tentativa de rever nossa ira racional sobre tudo que não é huma-
no nem dotado de valor econômico. Embora pareça contraditório chamar
a ira de racional, é exatamente disso que se trata, porque é absolutamente
incompreensível a guerra contra a natureza se não a entendermos dentro
de uma racionalidade econômica. Só há sentido matar o mico leão, arran-
car o mogno e devastar a terra indígena e quilombola porque a razão impe-
le a um crescimento econômico, no qual cada ser humano terá um pouco
mais de riqueza em seu patrimônio, ainda que isso não signifique matar a
fome de todos e abrir um sorriso no coração de cada um.
As histórias contadas neste livro são tristes, algumas assustadoras,
mas todas têm em comum o único sentimento humano que resiste a esta
guerra, que vence as razões e a percepção da realidade doentia, capaz de
despertar solidariedade, fraternidade e amor entre gentes, plantas e bichos.
Todos os textos, ainda que às vezes pareçam estar escondidos, estão carre-
gados de esperança, e é com esperança que devemos ler este livro.

Carlos Frederico Marés de Souza Filho


DIREITOS HUMANOS E DIREITO AGRÁRIO:
UMA ANÁLISE A PARTIR DOS SUJEITOS DO CAMPO

Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega


Sônia Fátima Schwendler

O
livro que apresentamos ao leitor, Conflitos Agrários, seus sujeitos,
seus direitos, pretende promover o debate sobre os sujeitos que vi-
vem na e da terra, seus direitos, seus conflitos e os que titularizam
coletivamente e têm relação com seu modo de viver, seu sustento, sua tradi-
ção, sua cultura, a exploração econômica dos seus conhecimentos tradicio-
nais, o racismo ambiental e a desterritorialização a que foram submetidos
historicamente.
Os artigos extrapolam o discurso liberal da modernidade nos seus
sentidos antropológico e filosófico, cujas bases são o utilitarismo e o indivi-
dualismo e que, na sua concretude, propõem a possibilidade de um conhe-
cimento científico objetivo, uma separação distinta entre sujeito e objeto e
um sentido de não pertencimento a uma realidade concreta e à objetivação
do mundo. As linhas teórico-ideológicas seguidas pelos autores que aqui
depositam suas ideias questionam a falsa percepção de uma realidade so-
cial passível de gestão, de uma realidade social controlável. Mais que isso,
afrontam o olhar que planifica as relações e os conflitos no campo, supondo
que a gestão externa pode dominá-los.
É um livro que traz opiniões transdisciplinares e abre um espaço de
convivência e diálogo entre educadores, geógrafos, cientistas políticos e ju-
ristas. Promove, portanto, a ampliação do estudo dos direitos humanos e
do direito agrário, numa perspectiva mais consentânea com as necessida-
des de especulação da agrariedade para além do abstracionismo concei-
tual e da dogmática jurídica, forjados no pensamento liberal, que afastou
qualquer possibilidade de reconhecimento de bens não mercadológicos, na
pacificação dos conflitos sociais.
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Pensar os conflitos agrários num sentido amplo, incluindo aqueles


protagonizados por movimentos sociais, por quilombolas, indígenas e ou-
tras comunidades tradicionais e grupos em situação de risco e necessida-
des, revela uma vontade de avançar, deixando para trás o agrarismo conser-
vador de cunho racionalista liberal e patriarcal e a ideia de mercantilização
da vida, da terra, do trabalho dos sujeitos e da natureza. É pensar o direito
agrário dos agricultores, respeitados sua educação, seus conhecimentos,
sua tradição, suas técnicas de manejo, sua cultura.
Na realidade, essa tem sido a vocação do Programa de Mestrado em
Direito Agrário da Universidade Federal de Goiás na sua fase atual, nos
trabalhos com as comunidades quilombolas e os movimentos sociais liga-
dos à agricultura, sobretudo no Observatório dos Conflitos no Campo. Foi
essa vocação que promoveu a aproximação de autores das diversas áreas e
programas, que gentilmente compareceram para o debate. A eles e a elas, o
nosso agradecimento.
Os diversos textos que aqui apresentamos dialogam entre si e trazem
uma síntese orgânica, tanto na concepção teórica como no compromisso
político dos seus autores com esses sujeitos de direitos; estes são negados
arbitrariamente com suporte jurídico, político, econômico e cultural, mas
firmados na luta contra-hegêmonica, de resistência coletiva e cotidiana, no
refazer-se sujeito ao refazer a história.
Diversas categorias analíticas são trabalhadas no conjunto da obra.
A discussão em torno do direito revela o processo histórico e contraditório
de colonialismo e neocolonialismo presente na formação e nas relações das
sociedades latino-americanas e do sul global, entre si e com o Hemisfério
Norte. Mostra também como o mundo globalizado vem se organizando
como resposta às crises financeira, alimentária e energética de esgotamento
do próprio modo de produção. A dimensão da luta de classes e as contra-
dições do modo de produção capitalista são examinadas pelos autores a
partir do paradigma da questão agrária, com destaque para os impactos da
expansão do capital no campo e da sua restruturação produtiva no modo
de vida das populações que vivem e resistem no campo.
A questão territorial também perpassa os escritos. O território, con-
cebido pelos povos tradicionais enquanto espaço para a produção material
e simbólica da vida, é marcado pelo conflito e pela violência no campo,
na medida em que a terra se torna uma mera mercadoria. A ocupação do
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espaço e a apropriação/expropriação do território camponês, indígena e


quilombola pelo capital nacional e internacional, no seu processo de acu-
mulação ampliada, têm sido a causa principal dos conflitos agrários. Na
defesa de seus territórios, as populações tradicionais têm se organizado e
resistido. Essa é a marca da contemporaneidade e do passado histórico que
o livro busca mostrar aos seus leitores. A territorialização do capital no
campo, em sua vertente moderna, por meio do agronegócio, tem dester-
ritorializado os povos do campo, com fortes impactos na reprodução das
suas condições de vida e de cultura, bem como na soberania nacional e
alimentária de suas nações.
É impossível fazer uma leitura do processo de desterritorialização
dos povos do campo sem uma análise da questão étnico/racial. Em espe-
cial, sem uma leitura crítica das marcas históricas impressas nos povos
indígenas e quilombolas (que povoaram as Américas ou vieram trazidos
como escravos da África), de inferiorização de suas culturas, de seus co-
nhecimentos e, portanto, de seus direitos à cidadania. Os textos revelam
com propriedade acadêmica que esses povos nem sequer foram conside-
rados na história como portadores de direitos. Sem a proteção da lei e do
Estado, foram concebidos como ilegais à margem da história.
Os textos também revelam a apropriação do corpo e da força de
trabalho como território do capital. De modo inter-relacionado, mostram
como o próprio sistema se recria no processo de acumulação do capital
pela despossessão, como nos revela David Harvey (2003), em combinação
com as distintas formas de subjugação do trabalho e do território cam-
ponês à lógica do capital. Neste processo, a incorporação da questão de
gênero como uma categoria de análise contribui para compreender como
a dinâmica do capital se utiliza da cultura patriarcal para intensificar seu
processo de dominação política e de exploração econômica da força de tra-
balho. Marcada por uma história de invisibilização, a crescente feminização
do trabalho e a participação das mulheres camponesas na luta social têm
trazido para a agenda pública o debate da desigualdade de gênero no cam-
po jurídico, no espaço político, produtivo e social.
A resistência das mulheres à cultura patriarcal e ao avanço do agro-
negócio sobre o território camponês, assim como a luta do campesinato,
dos povos indígenas e quilombolas têm sido respondidas pelo Estado e
pelo capital através da criminalização de suas organizações e movimentos
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sociais. Os autores mostram como o poder jurídico tem atuado no proces-


so de deslegitimização dos direitos dos trabalhadores, colocando-os fora
da ordem, como criminosos, quando estes questionam a concentração da
propriedade privada e a negação da função social da terra, por meio de sua
principal forma de resistência, a ocupação.
A própria educação dos trabalhadores é criminalizada e nega-
da enquanto um direito subjetivo. A luta contra a desigualdade histórica
que perpassou as condições de reprodução material e simbólica da vida
do campesinato requer políticas de Estado, específicas para que o direito à
igualdade se efetive. Contudo, não somente a luta dos movimentos sociais
à terra, mas também à educação, a partir de políticas específicas de aces-
so, em especial nos espaços reconhecidos de elaboração do conhecimento
científico, é questionada na sua constitucionalidade. Isto revela claramente
o papel do conhecimento na direção da história e no uso dos principais
recursos da sociedade, trazendo a disputa do conhecimento, que é produ-
zido e reconhecido como legítimo. O saber social dos povos do campo e a
produção cultural presente nas formas de produção da sua existência têm
sido historicamente desvalorizados como cultura e saber.
Os textos revelam os saberes sociais construídos na prática dos sujei-
tos que lutam, resistem, constroem sua vida no campo e vivem na e da terra,
saberes de resistência, não só contra as formas de exploração e subjugação,
mas também contra o processo de aculturação de que vem se fazendo his-
toricamente. Trata-se de saberes de uma tecnologia de como produzir, na
terra, numa relação de respeito entre os sujeitos sociais e o meio ambiente, o
resgate da função socioambiental dessa terra, como geradora de vida, reivin-
dicada pelos sujeitos que a habitam e que lutam para nela permanecerem.
Essas relações claramente revelam como as categorias da classe so-
cial, da raça/etnia e do gênero são estruturantes do modo como o siste-
ma opera e se apropria dos bens coletivos produzidos pela humanidade.
Também estruturam as políticas públicas e condicionam a elaboração e
implementação das leis. Mas, enquanto novos sujeitos sociais de direitos,
os povos do campo ressurgem e afirmam uma nova juridicidade, um novo
contrato social baseado no respeito ao ser humano, ao meio ambiente, com
vistas à justiça social, à igualdade de acesso aos bens e aos conhecimen-
tos produzidos coletivamente. Nas breves linhas a seguir, destacaremos as
principais contribuições dos autores para a concretização da presente obra.
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No artigo “Soberania alimentar como território”, Bernardo Mançano


Fernandes, geógrafo da UNESP, com experiência e reconhecimento inter-
nacional, analisa as diferentes formas e os tipos de territórios para mostrar
como os conceitos de soberania alimentar e de segurança alimentar estão
disputando as interpretações sobre a questão agrária atual. Entretanto, o
autor demonstra que essa disputa não é só conceitual, mas também de mo-
delos de desenvolvimento e de formas de organização política da sociedade,
determinadas pelas relações de poder. Ao buscar contribuir com a constru-
ção do conceito de soberania alimentar, Fernandes destaca que, enquanto
o agronegócio defende somente a segurança alimentar, que nada mais é do
que uma política compensatória que busca viabilizar alimentos industria-
lizados para as populações pobres, a soberania alimentar se constitui em
território do campesinato, que luta por políticas públicas e pela democra-
tização das decisões sobre o que e onde produzir. O direito e a autonomia
na produção do alimento requerem o acesso à terra, o que transforma o
próprio alimento em território em disputa.
Rubens Souza, pesquisador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Proje-
tos de Reforma Agrária (NERA), e Mariana Romano, pesquisadora argen-
tina do Centro de Estudos Avançados (CEA) da Universidade de Córdoba,
apresentam o artigo “A expansão do capital no campo e a repressão políti-
co-judicial dos movimentos camponeses no Brasil e na Argentina”, a partir
de uma análise das conflitualidades de diferentes modelos de desenvolvi-
mento. Neste importante estudo, utilizam-se dois casos referenciais nos
respectivos países, o Pontal do Paranapanema e o caso do Departamento
Rio Seco de Córdoba. Desenvolvem uma reflexão crítica por meio do es-
tudo comparativo e analítico das similaridades e diferenças do desenvolvi-
mento territorial rural no Brasil e na Argentina, procurando refletir sobre
o papel desempenhado pelo capital, pelos movimentos socioterritoriais e
pelo Estado na elaboração e implantação de políticas públicas voltadas para
os camponeses nesses países. Entendem os autores que a luta de classes, os
citados movimentos sociais e as políticas públicas são componentes, dinâ-
micas e processos inerentes à atualidade da questão agrária, que são com-
plementados e imbricados ao processo de repressão política consolidada
no Brasil. O estudo comparativo constatou o modo pelo qual o sistema
judicial criminaliza seletivamente, faz imputações e judicializa conflitos so-
ciais, econômicos e políticos.
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Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega e Barbara Luiza Rodrigues


utilizam de sua experiência no campo jurídico e atuação na UFG para tra-
tarem do cumprimento da função socioambiental da terra e de sua relação
com as lutas dos sujeitos de direitos do campo, no artigo “A função socio-
ambiental da terra, os sujeitos de direitos e as suas lutas”. Entendem as auto-
ras que o descumprimento da função socioambiental e a negação das lutas
e do reconhecimento ao processo histórico em que se organizam os sujeitos
coletivos consagram a violência e o desrespeito à Constituição federal. Esse
desrespeito se consolida com a atuação de um Poder Judiciário que se serve
de um modelo de direito forjado e a serviço do estado liberal capitalista.
Nas ações originárias da luta dos movimentos sociais, a adoção do modelo
de direito moderno, individualista e liberal que privatiza as relações e os
sujeitos, ignorando os espaços público e político de embate social, nega o
democrático exercício da cidadania.
A cientista social e política e pesquisadora chilena Pamela Caro discu-
te os conflitos no campo gerados na relação dos trabalhadores temporários
na vinicultura chilena com o artigo “Temporeros y temporeras del vino en
Casablanca, Chile: el trabajo como campo de conflicto y tensión”. Esse trabalho
é resultado da pesquisa de doutorado entitulada “Encrucijadas entre trabajo y
familia. Contratos de género y transformaciones sociales en temporeros/as del
vino en Casablanca y Mendoza”. Depois de longa análise sobre a precarização
do trabalho nas últimas décadas, discutindo as questões de gênero, a autora
concluiu que a exacerbação da instabilidade é responsável pela conforma-
ção de três novas figuras laborais, quais sejam: um trabalhador pemanente
temporal “estacional”, que tem contrato permanente e salário fixo acrescido
de um valor por supervisionar os temporários; um “empre-trabalhador”, ou
assalariado temporário independente, com condição híbrida de assalariado
e independente, e um terceiro, um falso temporário, que veste máscara de
temporário em favor da precarização. Segundo a autora, ainda que presentes,
são precárias as condições de trabalho para homens e mulheres, permane-
cendo a relação de submissão ao empregador (patrón). Contudo, ressalta a
feminização do trabalho temporário, assim como a segregação do trabalho
pela condição de gênero. Destaca, ainda, que, além das mulheres receberem,
em muitos casos, salários mais baixos, elas têm maior dificuldade de ascen-
derem ao trabalho permanente. Somado a isto, sua condição de maternidade
incomoda as empresas que desconsideram os direitos à proteção.
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Sônia Fátima Schwendler, no artigo “‘Rompendo o Silêncio’: A re-


sistência das mulheres camponesas frente à expansão da monocultura do
eucalipto no Rio Grande do Sul e a criminalização das lutas sociais”, en-
frenta a difícil questão dos conflitos agrários provocados pelo avanço do
capitalismo no campo e o faz a partir da observação da resistência das mu-
lheres da Via Campesina, frente à expansão da monocultura do eucalipto
no estado do Rio Grande do Sul. Amparada pela formação de educadora,
PhD na área e com ampla experiência na atuação com os movimentos so-
ciais, a autora procura compreender a ação coletiva de enfrentamento e
resistência da mulher camponesa ao modelo agrícola hegemônico e as di-
ferentes formas de criminalização da luta dessas mulheres na prestação da
tutela jurisdicional, pelo Poder Legislativo e pela mídia, a partir de dados
de pesquisa empírica realizada nos meses de março e abril de 2011, no Rio
Grande do Sul. Chega a importantes conclusões sobre os conflitos do cam-
po, suas formas de manifestação, sua relação com o avanço do capitalismo
e suas contradições. Coloca, também, em pauta, a função deslegitimadora
do papel político do movimento social no processo de criminalização das
lutas. Quando criminaliza a atuação política das mulheres, a deslegitima
tanto na perspectiva da luta de classe como na questão de gênero. A autora
conclui, portanto, que a mulher está fora da ordem por estar afrontando o
sistema, o direito de propriedade privada e ainda ocupando um lugar que
“não lhe pertence”, a esfera pública.
Na perspectiva dos sujeitos de Direito, Cesar Augusto Baldi, res-
paldado por décadas de experiência no Judiciário e conhecimento teórico
profundo, enfrenta a questão constitucional da proteção às comunidades
quilombolas no texto “A proteção jurídica da territorialidade étnica: as co-
munidades quilombolas”. No primeiro momento, procura contextualizar
o processo na América Afro-Latina, desde a introdução do modelo escra-
vocrata no continente até a proteção dos afrodescendentes nos países lati-
no-americanos, como Nicarágua, Guatemala, Equador, Bolívia, Colômbia,
Honduras, Suriname, Brasil. Num segundo momento, dedica-se à tarefa
conceitual, tentando descontruir o conceito histórico de quilombo de raí-
zes coloniais e caráter penal e discriminatório. Procede-se, então, à busca
por um processo de revisão e “descolonização” do conceito no meio jurí-
dico, a partir do redimensionamento realizado, desde a década de 1980,
pela historiografia e pela antropologia. Na terceira seção, procura enfrentar
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a natureza jurídica do reconhecimento da propriedade quilombola, com


o intuito de construir um sentido para a expressão “direitos originários”
como usucapião ou “afetação”, a partir de fontes legais e jurisprudenciais.
Num momento posterior, discute a possibilidade e a eventual necessidade
jurídica da desapropriação das terras ocupadas pelas comunidades quilom-
bolas, confrontando o dispositivo constitucional e o Decreto nº 4.887/2003,
colacionando opinião doutrinária sobre o assunto. Coloca, ainda, em estu-
do, o significado em relação à territorialidade quilombola e, por fim, anali-
sa a possibilidade de expansão futura da área e o eventual reassentamento
dessas comunidades, colocando em debate o direito de consulta e o consen-
timento prévio. O autor acaba concluindo que as injustiças sofridas pelos
afrodescendentes alertam para a necessidade de políticas públicas e para a
falta de capacitação adequada em matéria de direitos humanos, sobretudo
àqueles consagrados em tratados internacionais e na eliminação do racis-
mo nas práticas institucionalizadas.
A cientista política Lilian Gomes estuda o direito quilombola e os
entraves da estrutura agrária fundiária brasileira, promovendo uma aná-
lise crítica da legislação brasileira. A autora parte do pressuposto de que a
distribuição de terras no Brasil favoreceu uma estrutura fundiária que se
apoiou na grande propriedade e permitiu o desenvolvimento de uma elite
econômica e política, vinculada aos interesses agrários e do estado. Nesse
processo, destacam-se os seguintes aspectos: associação entre grandes pro-
priedades individuais e homens brancos; privatização do poder e patriar-
calismo; profunda desigualdade socioeconômica de uma elite agrária com
poder econômico e político e uma população rural sem acesso legal à terra;
realidade das comunidades negras de quilombos com formas de uso e sig-
nificados da terra que se contrapõem à concepção hegemônica de mercado;
e, por fim, luta das comunidades negras de quilombo pelo direito à terra.
Essa autora inicia seu texto tratando de um novo modelo de cidadania que
experimenta o reconhecimento dos direitos quilombolas. Gomes faz uma
crítica à Lei de Terras de 1850 e à associação entre terra e mercado, promo-
vida pelo referido marco regulatório, e analisa, em seguida, os problemas
trazidos pelo abolicionismo sem que houvesse a reparação econômica e a
redistribuição de terras. A politóloga nos propõe superar a compreensão
do direito à terra apenas pela matriz da propriedade individual quanto ao
racismo presente na sociedade brasileira.
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A antropóloga e advogada mexicana Elisa Cruz Rueda coloca em de-


bate o dever de consulta instituído nos regimes democráticos mais avança-
dos e marca o profundo respeito à diversidade cultural. No artigo intitulado
“El deber de consultar a los pueblos indígenas en Chiapas o el arte de la simu-
lación”, a autora faz uma análise jurídica crítica sobre a consulta aos povos
indígenas no Estado de Chiapas, continuando um trabalho desenvolvido
em 2008 e 2009. Rueda faz referência a casos concretos para demonstrar a
relevância da consulta para os povos indígenas, indicando os parâmetros
jurídicos internacionais e comparando-os com os documentos internos do
México. Confronta, também, os procedimentos com a Convenção 169 da
OIT (1989) e a Declaração dos Povos Indígenas (2007), a Constituição das
Políticas dos Estados Unidos Mexicanos (2002) e o marco regulatório do
Estado de Chiapas. Conclui a autora, depois de profunda reflexão, que em
geral os mecanismos e instituições sobre participação cidadã no México e
no Estado de Chiapas são insuficientes e não consideram a diversidade e
especificidade cultural dos povos indígenas.
O jurista e historiador do Direito Antonio Carlos Wolkmer, vincu-
lado à UFSC e com atuação internacional, trata dos “Novos sujeitos sociais
e a construção plural de direitos”. Neste artigo, a partir de uma reflexão
teórica genuína, analisa o aparecimento de novos sujeitos coletivos de juri-
dicidade. O autor parte das premissas de que as novas fontes de produção
jurídica estão na sociedade, no âmbito urbano e agrário, razão pela qual
se realça o processo de regulamentação e controle social em função das
contradições, dos interesses e das necessidades dos novos sujeitos sociais.
Para o autor, a resposta para transcender as privações provocadas pela crise
das instituições, que degenera as relações de vida cotidiana e pauperiza as
condições de vida no espaço agrário, decorre da força contingente de novas
sociabilidades, capazes de criar e instituir novos direitos. Isso explica o apa-
recimento dos novos direitos engendrados por novos sujeitos sociais. Essa
discussão é essencial para o projeto de uma justiça democrática, pluralista
e participativa, adequada às contingências histórico-sociais das sociedades
contemporâneas.
Claudio Grande Júnior, jurista goiano, no artigo “Questões termino-
lógicas e históricas acerca da política agrária brasileira reformulada a partir
do Estatuto da Terra de 1964”, discute as dificuldades das atividades agrárias
e faz uma incursão histórica acerca da política brasileira para o setor agrário.
24 |

Primeiramente, discorre sobre a distinção entre as expressões agrário, rural


e rústico. Sugere, logo após, uma abordagem mais ampla da política agrária
em que se compreenda a política de reforma agrária, a política fundiária e a
política de desenvolvimento agrário ou política agrária em sentido estrito.
Por fim, rememora criticamente a formulação, em 1964, da atual política
agrária brasileira, que reformulou as antigas políticas fundiárias e de desen-
volvimento agrário, trazendo para seu bojo a política de reforma agrária.
Em síntese, esta obra, no seu conjunto, a partir da análise dos diver-
sos autores, nos leva a apontar algumas considerações.
Estamos num momento de transformações da sociedade, em que
as velhas formas de organização política e do direito positivo não servem
como parâmetros para enfrentarmos os novos desafios da contemporanei-
dade. O próprio campo do direito precisa ser disputado desde as novas
correlações de forças que se colocam no cenário das nações que, ao adqui-
rirem uma dimensão global, requerem uma luta globalizada a partir de um
novo contrato social, baseado no respeito à vida e na igualdade de acesso
aos recursos da humanidade.
Nesse cenário contemporâneo, os artigos destacam as várias formas
de como o capitalismo globalizado opera de modo simultâneo para conti-
nuar sua hegemonia politica, econômica e cultural. Destacamos o processo
de estrangeirização da terra, de precarização do trabalho, de criminalização
das lutas sociais e de invisibilização e deslegitimização do direito coletivo,
no recorte da classe, do gênero e da raça/etnia.
A apropriação de territórios pelo agronegócio (pela compra e pelo
arrendamento para a produção da monocultora em grande escala para ex-
portação) e a desterritorialização do campesinato e dos povos indígenas
constituem-se, segundo David Harvey (2003), a nova face do imperialismo
que se instala no sul global. Este não só expropria os sujeitos de seus territó-
rios, mas os subjuga à logica do capital, mesmo quando neles permanecem.
A expansão do capital no campo se faz em combinação com a repres-
são das diversas formas de resistência das populações camponesas, quilom-
bolas e indígenas. Os autores deste livro mostram que a criminalização das-
lutas dos movimentos sociais tem sido uma forma eficiente de se manter a
hegemonia do capital. O ataque das lutas camponesas na dimensão jurídica
tem se constituído como uma nova forma de violência no campo, um novo
rosto do conflito social. A judicialização dos conflitos territoriais na luta
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 25

de classes tem contribuído para o processo de expulsão das comunidades


tradicionais de seus territórios e de territorialização do capital no campo.
A reconcentração da terra está vinculada também ao processo de
reestruturação produtiva, que significa, segundo Araújo (2007), a emer-
gência de um novo padrão de acumulação que transforma a organização da
produção, os mercados e as relações de trabalho, reconfigurando a própria
classe trabalhadora. No campo, a precarização, a flexibilização das relações
de trabalho, tem-se somado ao debilitamento da organização coletiva no
contexto neoliberal, o que condiciona o trabalho às necessidades do capital
e do aumento de sua produtividade. O trabalho temporário, a exemplo do
Chile, primeiro país da América Latina a implementar as políticas neolibe-
rais, é um exemplo dessa restruturação produtiva, na qual a feminização do
trabalho é um forte componente do processo de “salarização da pobreza”
e da “emancipação precarizada” (VALDÉS, 1994). Além disso, como nos
revela Araújo (2007), o novo paradigma produtivo reforça as diferenças já
existentes no mercado de trabalho pela condição de gênero, por meio de
múltiplas formas de exclusão.
Além da questão de gênero, que ficou oculta na luta de classes pela
posse da terra e que somente é pautada a partir das últimas décadas pelo
protagonismo das mulheres (SCHWENDLER, 2013), a questão étnico-ra-
cial também ficou invisibilizada e somente aparece no debate da questão
agrária brasileira na Constituição Federal de 1988, já que a abolição deu por
encerrado o “problema do negro”. Foi a perspectiva da noção da igualdade e
não a discriminação que possibilitou o reconhecimento das desigualdades
e do racismo estrutural que marcam a história dos povos indígenas e dos
afrodescendentes. Neste processo, podemos afirmar que o poder colonial
foi exercido em torno de duas formas de subjugação: as relações raciais e
sexuais. Neste sentido, a formação das comunidades quilombolas de certa
forma significa para as mulheres negras a reapropriação de seu próprio cor-
po e de sua comunidade.
À medida que o processo de acumulação do capital se recria é preci-
so construir novos meios coletivos de resistência, principalmente diante de
um Estado inoperante, preso ao paradigma legalista e privatista, que des-
considera a história e o processo mais efetivo de participação dos sujeitos
coletivos de direitos, em função de suas especificidades e das desigualdades
históricas, como apontadas pelos autores. Neste âmbito, o papel dos co-
26 |

letivos organizados da sociedade civil, pela sua força contra-hegemônica,


sinaliza em direção a novas fontes de produção jurídica para a constitui-
ção de direitos. No seu conjunto, os diversos textos mostram a importância
desse processo de resistência, o que contribui para que os sujeitos do cam-
po potencializem seu capital político (BOURDIEU, 1986), fundamental na
legitimização dos direitos coletivos, na construção do poder simbólico da
classe trabalhadora, considerando as dimensões de gênero e raça/etnia, for-
temente presentes nesta obra.
Nesse contexto, a função socioambiental da terra reivindicada pelos
povos do campo e da floresta tem se constituído como um instrumento
de luta que empodera a classe trabalhadora no questionamento da nova
ordem mundial, regida pela lógica do capital em seu processo de globali-
zação. Ao trazerem o paradigma da soberania alimentar e energética das
nações, os coletivos organizados nas diversas frentes revelam que o res-
peito à biodiversidade deve combinar a preservação da sociodiversidade,
que mostra que 75% da biodiversidade se encontram majoritariamente em
terras indígenas e de comunidades ditas “tradicionais”.
Por fim, cabe destacar que a globalização do capital e seus impactos
na vida das populações do campo têm contribuído para a constituição de
uma luta transnacional pela defesa do território e das condições de pro-
dução da existência material e simbólica. A Via Campesina, movimento
internacional dos povos campesinos e indígenas dos cinco continentes,
tem-se constituído num espaço de luta e resistência para a afirmação de
um projeto de agricultura camponesa, a partir do paradigma da soberania
alimentar, da produção do alimento saudável e diversificado (pauta afir-
mada pelas mulheres das organizações camponesas), em combinação com
a política de preservação do ecossistema e de todas as formas de vida no
planeta. O próprio conceito de soberania alimentar é, portanto, território,
que possibilita ao campesinato a disputa territorial no âmbito das políticas
públicas e da produção agrícola.

REFERÊNCIAS:

ARAÚJO, Ângela Maria Carneiro. Trabalho, precarização e relações de gênero em


tempos de flexibilização e reestruturação produtiva. XIII Congresso Brasileiro de
Sociologia. GT 29: Trabalho, Precarização e Políticas Públicas. Recife/PE, 29.05 a
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 27

01.06 de 2007. Acesso em 14/11/2013. Disponível em: http://www.sbsociologia.


com.br/portal/index.php?option=com_docman&Itemid=171

BOURDIEU, Pierre. ‘The Forms of Capital’. In Richardson, J. (ed.). Handbook of


Theory and Research for the Sociology of Education, New York: Greenwood, 1986:
241–258.

HARVEY, David. The New Imperialism. Oxford: Oxford University Press, 2003.

SCHWENDLER, Sonia F. Women’s Emancipation through Participation in Land


Struggle. Tese (Doutorado em Estudos Ibéricos e Latino-americanos) ‒ University
of London, London, 2013.

VALDÉS, Ximena. ‘Chile: Mujeres Rurales y su Participación en el Desarrollo. Ba-


ses Preliminares para la Implementación del Plan de Igualdad de Oportunidades
en la Agricultura y el Sector Rural’. Consultancy Report to INDAP/SERNAM, San-
tiago de Chile, December 1994.
SOBERANIA ALIMENTAR COMO TERRITÓRIO

Bernardo Mançano Fernandes1

Ao perder minha terra, estou perdendo meu país


(MIRTA, campesina paraguaia, Carumbey, São Pedro – Paraguai, 23 de outubro
de 2008).

Introdução

E
ste artigo não trata de uma analogia, mas sim de uma reconceitualização.
Apresento, neste ensaio teórico, sobre as formas e os tipos de territórios,
uma contribuição para a construção do conceito de soberania alimentar.
Convivemos cotidianamente com diferentes territórios produtores e produzi-
dos por relações e classes sociais distintas. Foi a partir da inevitável convivên-
cia com esses tipos e formas de territórios que iniciei meus estudos sobre esse
tema e, neste trabalho, procuro aprofundar essas reflexões e apresentar uma
proposição para as análises das disputas dos territórios. Apresentar a soberania
alimentar como território é um exemplo de como este conceito e o de seguran-
ça alimentar estão disputando as interpretações sobre a questão agrária atual.
O estudo sobre a diversidade de territórios não é uma novidade, pois
vários outros estudiosos do território já escreveram sobre esse tema2. Nessa
proposição, além de tomá-los como referências, apresento uma tipologia de
modo a estabelecer uma leitura da diversidade territorial que produz a multi-
territorialidade. E essa leitura tem como estrutura a produção espacial e terri-
torial por meio das relações sociais, promovidas pelas classes em permanente
conflitualidade na disputa por modelos de desenvolvimento e de sociedade e,
portanto, por diferentes formas de se alimentar. Nesse modo de análise, a re-

1 Professor do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Unesp, câmpus de Presidente Prudente,


e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe do
Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais, câmpus de São Paulo.
2 Por exemplo: Gottmann, 1973; Lacoste, 1988; Lefebvre, 1991; Oliveira, 1991; Raffestin, 1993; Souza,
1995, 2006; Santos, 1996, 2002; Moraes, 2000; Harvey, 2003; Haesbaert, 2004; Delaney, 2005; Ceceña,
2007; Palau, 2007; Peet, 2007; Saquet, 2007.
30 |

lação classe-território é indissociável. Essa leitura é feita desde meus estudos


sobre os diferentes territórios rurais em vários países pobres e ricos. É uma
construção teórica e geográfica, uma mirada que traz outra perspectiva sobre
o conceito de território, que contribui para o debate e para os embates.
Para o debate sobre a soberania alimentar é necessário recuperar o
geógrafo brasileiro Josué de Castro, pioneiro na luta contra a fome no mun-
do que, em 1946, escreveu Geografia da Fome e defendeu que a fome é uma
questão política. Este é o ponto central do debate sobre soberania e segu-
rança alimentar e não é só disputa conceitual, mas uma disputa de modelos
de desenvolvimento e de formas de organização política da sociedade, que
produz diferentes territórios. É preciso conhecer quais organizações estão
envolvidas, as relações e os territórios que produzem.

Reconceitualizando o território

O território é uma das categorias de análise da Geografia e, recen-


temente, tornou-se um conceito muito utilizado por diversas ciências que
se ocupam dos processos de produção do espaço. A relevância que o ter-
ritório tem recebido levanta questões se o conceito virou moda e se é mais
um fashion concept. O fato é que o seu uso se intensificou, mesmo que em
grande parte dos trabalhos, e o território é apenas utilizado como superfí-
cie, base ou palco das relações sociais. Penso que, além do modismo e do
uso superficial, há também a referência da geograficidade destacada por
Milton Santos:

A Geografia alcança neste fim de século a sua era de ouro, porque a


geograficidade se impõe como condição histórica, na medida em que
nada considerado essencial hoje se faz no mundo que não seja a partir
do conhecimento do que é Território. O Território é o lugar em que de-
sembocam todas as ações, todas as paixões, todos os poderes, todas as
forças, todas as fraquezas, isto é onde a história do homem plenamente
se realiza a partir das manifestações da sua existência. A Geografia passa
a ser aquela disciplina mais capaz de mostrar os dramas do mundo, da
nação, do lugar (SANTOS, 2002, p. 9).

A imposição da geograficidade tem um conjunto de razões. Uma ra-


zão do uso cada vez mais amplo do conceito de território pode ser compre-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 31

endida pelo claro argumento: “não há como definir o indivíduo, o grupo,


a comunidade, a sociedade sem ao mesmo inseri-los num determinado
contexto geográfico, ‘territorial’” (HAESBAERT, 2004, p. 20). Além dessa
inserção, há outras razões que decorrem desta e que demonstraremos neste
artigo. Mostraremos, ainda, como as diferenciações da produção espacial e
territorial são organizadas e reproduzidas e por quais relações e classes so-
ciais. Estou me referindo às diversas classes e relações sociais que produzem
diferentes espaços e territórios. Para termos essa compreensão é fundamen-
tal analisarmos as formas e os tipos de territórios. O limitado conceito de
território como superfície e espaço de governança está com seus dias conta-
dos. Pensamentos, relações e classes sociais produzem diferentes territórios
e espaços que se reproduzem em permanente conflitualidade.
Recentemente, surgiram diversos trabalhos que se referem às pers-
pectivas, aos desenvolvimentos, enfoques, às abordagens territoriais, entre
outras denominações. Esses textos são propostas de políticas ou análises
de projetos em implantação ou implantados, que envolvem diferentes ins-
tituições: multinacionais; governos nacionais, estaduais e municipais; mo-
vimentos socioterritoriais; sindicatos; igrejas etc. Para compreender os in-
teresses, as ações, relações e os conflitos entre as instituições e os diferentes
territórios, consideramos insuficiente a compreensão do território apenas
como espaço de governança.
O conceito território está sendo utilizado, principalmente, para se
referir aos espaços de governança em escala municipal, reunindo um con-
junto de municípios que formam uma microrregião, como por exemplo, os
Territórios da Cidadania3. Também há projetos em escala transnacional, que
envolvem todas as escalas dos espaços de governança, como são os “eixos”
territoriais da Iniciativa para la Integración de la Infraestructura Regional
Suramericana (IIRSA)4. Esses eixos são “transterritórios” que reúnem terri-
tórios de diversos países a partir do conjunto de projetos implantados ou a
serem implantados para atender, principalmente, os interesses das transna-
cionais para a produção de commodities do agronegócio e do hidronegócio.
Transterritórios são um conjunto de territórios nacionais, compre-
endidos como espaços de governança em diversas escalas. Nos transterritó-

3 http://www.territoriosdacidadania.gov.br.
4 http://www.iirsa.org.
32 |

rios, além dos espaços de governança, há outros tipos de territórios, como


as propriedades privadas comunitárias ou capitalistas que produzem con-
flitualidades pela disputa dos projetos de desenvolvimento e de sociedade.
Essas conflitualidades geram territorialidades de dominação, como estuda-
do por Ceceña (2007), e territorialidades de resistência, como estudados em
Fernandes (2008d).
Entre os vários argumentos que podemos usar para dizer que o ter-
ritório ganhou status nas diversas áreas do conhecimento, há um que se
destaca. O território é utilizado como conceito central para a implantação
de políticas públicas e privadas, nos campos, nas cidades e nas florestas,
promovidas pelas transnacionais, pelos governos e movimentos socioterri-
toriais. Essas políticas formam diferentes modelos de desenvolvimento que
causam impactos socioterritoriais e criam formas de resistências, produ-
zindo constantes conflitualidades. Neste contexto, tanto o conceito de ter-
ritório quanto os territórios passam a ser disputados. Temos então disputas
territoriais nos planos material e imaterial.
Em que contexto estão acontecendo as políticas e as disputas territo-
riais? O que está em disputa é o pedaço de chão, onde estão a comunidade,
os campos, as cidades e as florestas e os modelos de desenvolvimento que
constituem os países. Por isso, a importância de todos os tipos de território
e da frase citada na epígrafe deste artigo, Mirta - campesina paraguaia de
Carumbey, mostra que perder sua terra para os sojeiros brasileiros impli-
ca na predominância de um modelo de desenvolvimento que determina a
organização espacial e territorial de seu país. Neste sentido, como fazer o
debate sobre a soberania alimentar num país que tem a maior parte de suas
terras utilizadas para a produção de soja?
As disputas territoriais são definidas pelas relações sociais para o
controle dos diferentes tipos de território pelas classes sociais. O territó-
rio compreendido apenas como espaço de governança é utilizado como
forma de ocultar os diversos territórios e garantir a manutenção da subal-
ternidade entre relações e territórios dominantes e dominados. O território
compreendido pela diferencialidade pode ser utilizado para a compreensão
das diversidades e conflitualidades das disputas territoriais. Temos, portan-
to, dois entendimentos distintos sobre o território compreendido apenas
como espaço de governança: o multidimensional e o pluriescalar. É o ter-
ritório da nação, do país, dos estados, das províncias, microrregiões, dos
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 33

departamentos, municípios e de outras unidades geográficas de divisão


escalar dos espaços de governança. Outra conclusão é em relação à qual
estamos propondo: sobre a tipologia de territórios, partindo do território
como espaço de governança, mas reconhecendo os outros tipos de territó-
rios fixos e fluxos, material e imaterial, formados pelas diferentes relações
sociais e classes sociais que trataremos nas partes seguintes deste artigo. Por
ora, para explicitar as diferenças dessas duas compreensões de territórios,
denominaremos a de território apenas como espaço de governança de “ter-
ritório uno”, e a compreensão da tipologia como “território diverso”.
As políticas neoliberais influenciaram as disputas e ressignificações do
conceito de território, principalmente porque passaram a utilizar o conceito
como forma de dominação, o que provocou reações de resistência. Nas cida-
des, nos campos, nas florestas, entre campo e cidade, entre nações e povos em
um país, a partir de diferentes relações sociais e políticas, territórios são pro-
duzidos e destruídos em permanentes conflitos, gerando complexas conflitu-
alidades. São vários exemplos na América Latina, em que o capital transna-
cional determina as políticas de desenvolvimento socioterritorial de diversos
países. O IIRSA é o exemplo mais amplo, todavia, em cada país, há disputas
territoriais permanentes que multiplicariam os exemplos aos milhares.
O capitalismo se estabelece com a consolidação do território capi-
talista. Dizer que as relações sociais capitalistas produzem relações sociais
não capitalistas também é dizer que os territórios capitalistas produzem
territórios não capitalistas. Esta produção ocorre de modo desigual e con-
flitante, gerando disputas territoriais permanentes. As disputas territoriais
não se limitam à dimensão econômica. Pelo fato de o território ser uma
totalidade multidimensional, as disputas territoriais se desdobram em to-
das as dimensões e, portanto, as disputas ocorrem também no âmbito po-
lítico, teórico e ideológico, o que nos possibilita compreender os territórios
materiais e imateriais. As políticas de dominação e resistência utilizam o
conceito de territórios para delimitar tanto os espaços geográficos disputa-
dos quanto demarcar os pleiteados. A imposição da geograficidade deve-se
também à ascensão do conceito de território porque a disputa pelo poder
de interpretar e de determinar o conceito e os territórios se intensificou. O
sentido da disputa está na essência do conceito de território, que contém
como princípios: soberania, totalidade, multidimensionalidade, pluriesca-
laridade, intencionalidade e conflitualidade.
34 |

Gottmann (1973) dedicou-se ao debate sobre a soberania e é a partir


deste geógrafo que ampliamos o debate. Soberania é um princípio do con-
ceito de território. Contudo, antes de ser um princípio, ela é uma necessi-
dade humana para a liberdade. A soberania é uma construção histórica dos
povos e de suas nações, como também é uma construção das classes sociais
e de seus grupos internos. No entanto, a soberania não é poder político
exclusivo do Estado sobre o território. A soberania do Estado é garantida
pelas soberanias das múltiplas forças sociopolíticas que garantem o Estado.
Considerando a multiterritorialidade, podemos falar em soberanias, cujas
existências garantem as do Estado. O território do Estado é uma totalidade,
mas não é totalitário. Uma nação livre não será uma nação centralizadora.
As instituições que formam o Estado-Nação, como seus poderes, os par-
tidos, os sindicatos, as igrejas, as fundações, as cooperativas, as empresas,
os movimentos e as ONGs constroem espaços e territórios no interior no
território do Estado, constituindo, assim, diferentes soberanias. O Estado
e seu território são disputados pelas instituições também por meio de seus
territórios. A relação jurídica entre as instituições é regida pelo poder polí-
tico do Estado e pelos poderes políticos de cada instituição.
Para discutir a totalidade como um princípio do território é neces-
sário tomar muito cuidado para não ser mal compreendido. É evidente que
não estou afirmando que tudo é território, mas sim que o território é um
todo. Ainda é necessário afirmar que este todo é parte da realidade. Quan-
do compreendo o território como um todo, estou entendendo sua mul-
tidimensionalidade. Isto significa que, ao analisar os territórios por meio
de uma ou mais dimensões, é somente uma opção, o que não implica em
desconsiderar as outras dimensões. O princípio da multidimensionalidade
nos ajuda a compreender melhor o da totalidade, já que são as dimensões
que a compõem. As dimensões são formadas pelas condições construídas
pelos sujeitos em suas práticas sociais na relação com a natureza e entre si.
As múltiplas dimensões do território são produzidas pelas relações sociais,
econômicas, políticas, ambientais e culturais. A dimensão une espaço e re-
lação, construídos pelas ações e intencionalidades.
A intencionalidade é compreendida parcialmente a partir da con-
tribuição de Searle (1995). Compreendo-a como a opção histórica que
as pessoas fazem e que determina a direção de seus pensamentos para a
construção e defesa de ações políticas, como a escolha de paradigmas, cor-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 35

rentes teóricas, políticas públicas, modelos de desenvolvimento, ou seja,


leituras que direcionam as compreensões das realidades. É a intenciona-
lidade que faz com que os estudiosos definam a totalidade de seus obje-
tos. Por exemplo, é possível estudar dimensão econômica do território ou
a dimensão territorial da economia. É possível estudar o território somente
como espaço de governança, como uno, ou estudá-lo como diverso pelas
suas diferencialidades. É possível falar de exclusão ou inclusão precária, ou
ainda é possível falar de capital social, capital político, capital natural ou
dimensão social, dimensão política, dimensão cultural, dimensão natural
dos territórios. São análises distintivas pelas direcionalidades determina-
das pelas intencionalidades, em que a amplitude do objeto pode conter ou
não as condições em questão. A intencionalidade é uma propriedade da
política entendida como liberdade (ARENDT, 1998). As intencionalidades
propõem diferentes leituras para a realidade, gerando conflitualidades ma-
terializadas pelas disputas nas interpretações dos fatos. A intencionalidade
como opção histórica é também uma posição política, uma preferência pe-
las leituras de uma determinada classe social.
A conflitualidade é o processo de relações de enfrentamento perma-
nente nas interpretações que objetivam as permanências e/ou as superações
das classes sociais, dos grupos sociais, das instituições, dos espaços e terri-
tórios (FERNANDES, 2008c). As contradições produzidas pelas relações
sociais criam espaços e território heterogêneos, gerando conflitualidades.
As classes sociais, suas instituições e o Estado produzem trajetórias diver-
gentes e diferentes estratégias de reprodução socioterritorial. A conflituali-
dade é, portanto, um processo em que o conflito é apenas um componente.
Esse processo é formado por diversos componentes polarizados como uno
– diverso; consenso ‒ crítica; regra – conflito; padronização ‒ variedade;
centralização – centralidades; território – territórios. O âmago da conflitu-
alidade é a disputa pelos modelos de desenvolvimento, em que os territórios
são marcados pela exclusão das políticas neoliberais, produtoras de desi-
gualdades, ameaçando a consolidação da democracia.
A pluriescalaridade (ou multiescalaridade) é um princípio básico para
a compreensão das diferentes escalas dos territórios. Aqui a utilizamos para
pensar também os diferentes tipos de territórios, organizados em várias esca-
las. Uma referência parcial é a espacialidade diferencial de Lacoste (1988). Pa-
rafraseando Lacoste, podemos entender a pluriescalaridade a partir de uma
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tipologia como uma “territorialidade diferencial”. Por exemplo, um transter-


ritório está organizado em escala internacional, mas contém territórios em
escala nacional, provincial e municipal. E estes territórios estão em perma-
nente conflitualidade por disputas territoriais. Territórios-propriedades estão
disputando o território espaço de governança, organizados principalmente
em escalas municipais, mas pela pluriescalaridade, podendo superar esses li-
mites. Não estamos falando de uma propriedade jurídica, mas de um conjun-
to de propriedades que podem ser contínuas e descontínuas em vários espa-
ços de governança, em escalas diversas, desde a municipal até a internacional.
A expansão do capitalismo desterritorializa outras relações sociais e
extermina relações não capitalistas por meio do que Harvey (2003) definiu
como acumulação pela espoliação (accumulation by dispossession). Essas
relações são compreendidas pela destruição de postos de trabalho, preca-
riedade das relações de trabalho, destruição dos territórios camponeses e
indígenas. A acumulação pela espoliação significa um estágio avançado das
relações capitalistas, que necessitam cada vez menos da recriação das rela-
ções não capitalistas. É claro que essa condição faz com que o capital recrie
com menos intensidade trabalhadores assalariados e territórios camponeses,
aumentando o número de excluídos. Além da espoliação, há a tentativa de
controle dos territórios que resistem por meio de políticas públicas elabora-
das em conjunto pelo Estado, pelas agências multilaterais e transnacionais.
Esses processos de disputa e espoliação ocorrem nos campos, nas cidades e
nas florestas, em escalas diversas. A compreensão de uma tipologia de terri-
tórios possibilita desvendar a diferencialidade por meio da conflitualidade.
A geograficidade nos revela a importância da leitura territorial ou
leitura espacial, compreendendo o espaço ou o território como totalidade.
Esta leitura permite compreender as diferencialidades das relações e dos
territórios e mapear as conflitualidades para compreender melhor os senti-
dos das disputas territoriais. Para contribuir com essa compreensão, discu-
timos a seguir os tipos de territórios.

Tipos de territórios

A primeira versão deste ensaio foi apresentada no III Simpósio In-


ternacional de Geografia Agrária, em 2007, e publicado em Fernandes
(2008b). A ideia de pensar os tipos de territórios nasceu de minhas pesqui-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 37

sas de campo, da interlocução com outros cientistas, do diálogo com meus


orientandos e da leitura de diversas obras, como detalhei no artigo citado.
O que sempre me chamou a atenção é o fato de o território ser majoritaria-
mente compreendido como espaço de governança, enquanto presenciamos
diversas formas de conflitualidades que não estão relacionadas necessaria-
mente com os espaços de governança. Embora muitos autores tenham es-
tudado estas conflitualidades, por exemplo, Ceceña (2007) e Palau (2007),
compreendo que a falta de uma tipologia dilui a diversidade de território
em disputas. Não basta falar apenas em território, mas é preciso também
definir qual território. As classes e relações sociais não estão alheias aos
territórios porque elas os produzem e por estes são produzidas. Ainda que
não tenha essa preocupação, o livro de Delaney (2005) sugere uma tipo-
logia de territórios ao refletir e exemplificar diferentes tipos de território.
O autor chama a atenção para os territórios do cotidiano que estão contidos
nos espaços de governança.
Realidades, teorias, leituras, diálogos e reflexões foram as ações que
possibilitaram a proposição de uma tipologia de territórios. Os territórios
em diferentes escalas se sobrepõem e são utilizados de diferentes formas,
assim como as pessoas assumem e executam distintas funções ou como as
relações sociais se mesclam, gerando multiterritorialidades. Esses proces-
sos complexos muitas vezes são generalizados, dificultando análises mais
aprofundadas. Neste ponto, chamo a atenção para uma questão importan-
te: não confundir a tipologia de territórios com a multiterritorialidade. Da
tipologia, nasce a multiterritorialidade, que é objeto distinto. As territoria-
lidades são as representações dos tipos de uso dos territórios.
Desse modo, trabalho com as duas formas de territórios: material
e imaterial. Os territórios materiais são fixos e fluxos. Santos (1978, 1996)
trabalhou com essas referências ao discutir os elementos do espaço e o ter-
ritório. Os territórios fixos e fluxos são os espaços de governança, as pro-
priedades privadas e os espaços relacionais, que possibilitam distinguir os
territórios do Estado, os públicos e os particulares, constituídos a partir de
diferentes relações sociais. A interdependência entre espaço de governan-
ça, propriedades e espaço relacional é compreendida pela indissociabilida-
de das condições físicas, relacionais e intencionais. Para compreendermos
melhor os movimentos das relações pelas classes sociais na produção de
diversos territórios, propomos as seguintes denominações de ordem dos
38 |

territórios: espaços de governança como primeiro território; propriedades


como segundo território e os espaços relacionais como terceiro território.
A ideia de fixo e fluxo está relacionada a todas as ordens e os tipos
de territórios. O primeiro e o segundo território são fixos ou são fluxos; já
o terceiro território contém a qualidade de ser fixo e fluxo. Os espaços de
governança são territórios fixos e fluxos, como por exemplo: o território
da nação, os palácios dos presidentes e governadores, seus aviões, carros e
navios. Da mesma forma podemos nos referir às propriedades fixas e aos
móveis. O terceiro território é formado pelas multiterritorialidades do se-
gundo no primeiro território ou pode ir além da escala nacional, como é o
caso dos transterritórios. É importante destacarmos que não compreende-
mos o primeiro território como espaço absoluto na acepção unidimensio-
nal. Compreendemos o espaço de governança como o território da nação,
gerador de multiterritorialidades por conter todos os outros tipos de terri-
tórios. O segundo território ou território – propriedade compreendida pela
diversidade e possibilidades dos tipos de propriedades ‒ é construído pelas
diferentes relações sociais praticadas pelas classes sociais. A seguir, analisa-
mos os tipos e ordens de territórios.

Primeiro território

O primeiro território é o espaço de governança da nação; é o ponto


de partida da existência das pessoas. Neste se constituem outros territórios
produzidos pelas relações das classes sociais. O primeiro, segundo e tercei-
ro territórios, assim como as formas material e imaterial, são indissociáveis,
contudo, para analisá-los com mais detalhamento, propomos uma tipolo-
gia com uma ordem. Para compreendermos melhor o território da nação é
necessário entendermos bem os territórios que o compõem.
Na primeira parte deste artigo, nos referimos à importância do terri-
tório para a compreensão das disputas territoriais geradas pela expansão das
políticas neoliberais e o processo de espoliação, que é também um processo
de desterritorialização. Todavia, como alertou Haesbaert (2004), a dester-
ritorialização deve ser compreendida no interior da multiterritorialidade.
Portanto, a espoliação de Harvey (2003) não é aqui utilizada como um fim,
mas como parte de um processo de disputa territorial gerador de conflitu-
alidades.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 39

Nos últimos anos, as transnacionais têm comprado enormes exten-


sões de terras em diversos países da América Latina, África e Ásia para
expandir seu modelo de desenvolvimento baseado na produção de com-
modities. Os movimentos camponeses e indígenas têm resistido a essa po-
lítica porque a expansão dos territórios das transnacionais ocorre sobre
seus territórios, provocando sua desterritorialização, empurrando-os para
novas áreas, provocando o desmatamento e abrindo novos territórios que
no futuro poderão ser controlados pelas transnacionais (STAVENHA-
GEN, 2005). Esse processo tem gerado ampla disputa territorial, êxodo
rural, mudanças nas relações campo – cidade – florestas, ou seja, provoca-
do fortes impactos socioterritoriais. A resistência dos movimentos socio-
territoriais aos processos de desterritorialização tem gerado multiterrito-
rialidade, promovendo também a desterritorialização das transnacionais.
Essas realidades têm gerado debates sobre a venda de terras às trans-
nacionais como uma questão de segurança nacional. Para além da questão
geopolítica está a questão do modelo de desenvolvimento socioterritorial
em disputa. A produção de commodities está associada a um modelo de
desenvolvimento que, além de atingir diretamente a população, desafia a
soberania dos países. A produção de alimentos, fibras e combustíveis para
o mercado internacional está relacionada ao uso dos territórios dos países
pobres e à dependência tecnológica e econômica dos países ricos. Exem-
plos são as monoculturas de árvores, de soja e laranja. A constituição de
um modelo de desenvolvimento organiza as infraestruturas e os serviços,
determinando os tipos de usos dos territórios, expropriando os sujeitos e
as relações sociais que não são incorporadas ou cooptadas.
O primeiro território ou espaço de governança está organizado em
diversas escalas e instâncias. Os estados, províncias, departamentos e mu-
nicípios são frações integradas e independentes do primeiro território, di-
ferentes escalas dos espaços de governança. As propriedades também são
frações do primeiro, mas compõem o segundo território. Essa classificação
tem como referências as relações praticadas pelas classes sociais. Elas pro-
duzem e organizam diversos territórios, configurando o primeiro territó-
rio. A eliminação da propriedade privada não elimina o segundo território.
Mesmo em países onde as propriedades individuais e familiares pertencem
ao Estado, há um território-propriedade. A relação entre primeiro e segun-
do território é intrínseca.
40 |

Segundo território

Nossa casa pode ser o ponto de partida de referência para a com-


preensão da propriedade que apresento neste artigo. Estou me referindo à
propriedade como espaço de vida, que pode ser particular ou comunitária.
Todos os sistemas políticos criam propriedades com diferentes formas de
organização do espaço. As propriedades podem ser definidas pelo seu valor
de uso e/ou pelo seu valor de troca. As sociedades capitalistas criaram as
propriedades capitalistas. Embora o poder soberano do capital crie a ima-
gem da totalidade, no entanto a maior parte das pessoas e das propriedades
das sociedades capitalistas não é capitalista. Pelas relações de dominação ar-
ticuladas no campo e na cidade, o capital concentra propriedades de modo
a controlar os territórios. E, recentemente, começou a comprar florestas.
As propriedades privadas não capitalistas, familiares ou comunitárias
e as propriedades capitalistas formam o segundo território. Territórios capita-
listas e não capitalistas produzem permanentes conflitualidades pela disputa
territorial. Territórios indígenas, quilombolas, camponeses, de moradia e com
suas várias identidades são constituídos na multiterritorialidade rural e ur-
bana. São movimentos socioterritoriais disputando o primeiro território em
todas suas escalas. As empresas transnacionais, de modo diferenciado, agem
para disputar esses territórios. Em alguns casos a disputa pelo primeiro terri-
tório também ocorre entre as próprias empresas capitalistas. O primeiro ter-
ritório e o Estado são disputados permanentemente. Os segundos territórios
são frações do primeiro, mas devem ser distinguidos porque as relações so-
ciais que os produzem são diferentes. Um território propriedade-privada não
pode ser confundido com um território espaço de governança.
A disputa territorial ocorre de dois modos: pela desterritorialização ou
pelo controle das formas de uso e de acesso aos territórios, ou seja, contro-
lando as suas territorialidades. Exemplos são os estudos de geógrafos e soci-
ólogos que analisam essas disputas e conflitualidades. Oliveira (1991) discute
essas disputas denominando-as de territorialização do capital ou do campe-
sinato e de monopólio do território pelo capital, chamando-as de frações do
território. Ramos Filho (2008) estuda as disputas territoriais pelas formas
de acesso ao território, tanto pela ocupação da terra quanto pela compra da
terra. Palau (2007) enfatiza a leitura territorial ao denominar de refugiados
os camponeses expropriados pela territorialização da monocultura da soja.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 41

Souza Júnior (2008) estuda a luta pela moradia em João Pessoa, denominan-
do-a luta por territórios. Indígenas, camponeses e sem-teto, na floresta, no
campo e na cidade, disputam territórios para garantir suas existências a par-
tir de suas identidades. Territórios como propriedades nas florestas, no cam-
po e na cidade possuem configuração e modos de usos distintos. Na cidade
são usados predominantemente para moradia. Nas florestas e nos campos,
além da moradia, são usados para a produção de alimentos e mercadorias.
O território recoloca a questão das classes sociais. As classes sociais
são formadas por pessoas que ocupam a mesma posição nas relações so-
ciais de produção em função das propriedades dos meios de produção, de
seus territórios e dos poderes de decisão. Não é suficiente estudar as classes
sociais somente pelas relações sociais. A propriedade é relação social e ter-
ritório, que nos possibilita estudar os territórios das classes sociais.
A afirmação de Haesbaert (2004, p. 20) de que “não há como definir o
indivíduo, o grupo, a comunidade, a sociedade sem ao mesmo inseri-los num
determinado contexto geográfico, ‘territorial’”, nos traz outra questão. Os su-
jeitos produzem seus próprios territórios, e a destruição desses territórios
significa o fim desses sujeitos. O desapossamento também destrói sujeitos,
identidades, grupos sociais e classes sociais. A ideia de acumulação por espo-
liação de Harvey (2003) revela seus próprios limites. E aí está o ponto forte da
luta territorial, da disputa territorial. Sujeitos, grupos sociais e classes sociais
não existem sem seus territórios. Este é o sentido supremo da luta pelos terri-
tórios dos povos camponeses e indígenas. O capitalismo sempre apropriou e/
ou subalternizou outras relações sociais e seus territórios. O desapossamento
significa a intensificação da destruição dos territórios não subalternos e é exa-
tamente nesse ponto que destaco as formas de resistências que emergem dos
campos e dos territórios rurais, muito mais que nas cidades.
As disputas territoriais são diferentes no campo e na cidade. Nas
cidades, os movimentos socioterritoriais lutam principalmente por mora-
dias. Os locais de trabalho e de moradia na cidade e no campo são distintos.
A propriedade camponesa reúne moradia e trabalho em um só território.
Na cidade, com a supremacia do trabalho assalariado, os territórios dos
trabalhadores são suas moradias. Os locais de trabalho são predominan-
temente territórios do capital. Desta maneira, em parte as conflitualidades
entre assalariados e capitalistas não são necessariamente disputas territo-
riais, mas disputas pelas riquezas produzidas pelo trabalho.
42 |

Terceiro território

O terceiro território é o espaço relacional considerado a partir de


suas conflitualidades e reúne todos os tipos de territórios. O caráter relacio-
nal, por unir as propriedades fixas e móveis, promove os seus movimentos
de expansão e refluxo. Esse movimento é determinado pelas relações so-
ciais e pelas conflitualidades entre as classes, os grupos sociais, a socieda-
de e o Estado. Enquanto a ideia de segundo território obedece ao caráter
jurídico da propriedade, o terceiro se apropria dessa condição, mas não
está subordinado a ela. Cavalcante (2008) e Girardi (2008) exemplificam
esse movimento com os processos de territorialização da soja e de outras
culturas que disputam as formas de usos dos segundos territórios. Exemplo
semelhante é a denominada “república da soja”, criada pela transnacional
Syngenta, que reúne partes dos territórios da Argentina, do Paraguai, Brasil
e da Bolívia (FERNANDES, 2008b, p. 284). O terceiro território está rela-
cionado às formas de uso dos territórios e, assim, às suas territorialidades.
No entanto, é importante alertarmos para não se confundir o terceiro ter-
ritório com a produção de sua territorialidade. Esta é a representação das
formas de uso dos territórios.
Outro exemplo de terceiro território pode ser esclarecido pela circu-
lação da mercadoria. Empresas expandem e perdem territórios de acordo
com o aumento e a diminuição do consumo de seus produtos. Também
podemos nos referir aos territórios do narcotráfico que se expandem ou
refluem de acordo com as correlações de forças entre as facções ou as ações
das polícias. Vale resgatar os exemplos que demos no início deste artigo so-
bre os transterritórios formados por projetos de “integração” ou por blocos
comerciais. O terceiro território nos atinge em todas as escalas e está cada
vez mais presente em nosso cotidiano.

Território imaterial

O território imaterial está presente em todas as ordens de territórios


e está relacionado ao controle, domínio sobre o processo de construção
do conhecimento e a suas interpretações. Portanto, inclui teoria, conceito,
método, metodologia, ideologia etc. O processo de construção do conhe-
cimento é, também, uma disputa territorial que acontece no desenvolvi-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 43

mento dos paradigmas ou correntes teóricas. Determinar uma interpreta-


ção ou outra, ou várias, convencer, persuadir, induzir e dirigir faz parte da
intencionalidade na elaboração conceitual. Estou me referindo ao mundo
das ideias em que forma, limite, referência, convencimento, conteúdo, área,
domínio, extensão, dimensão entre outras são noções necessárias para pen-
sar que o pensamento também é produtor de relações de poder. A produ-
ção material não se realiza por si, mas na relação direta com a produção
imaterial. Igualmente, a produção imaterial só tem sentido na realização e
compreensão da produção imaterial. Essas produções são construídas nas
formações socioespaciais e socioterritoriais. Os territórios materiais são
produzidos por territórios imateriais.
O território imaterial pertence ao mundo das ideias e das intencio-
nalidades, coordena e organiza o mundo das coisas e dos objetos: o mundo
material. A importância do território imaterial está na compreensão dos di-
ferentes tipos de território material. Nós transformamos as coisas, constru-
ímos e produzimos objetos na produção do espaço e do território. Penso o
território imaterial a partir da mesma lógica do território material, como a
determinação de uma relação de poder. Essa determinação deve ser compre-
endida como definir, significar, precisar a ideia ou o pensamento, de modo a
delimitar seu conteúdo e convencer os interlocutores de sua validade.
Esse procedimento é “autológico” porque é isso que estou fazendo
neste texto: convencer os leitores da importância da tipologia de território e,
principalmente, do território imaterial para fazer uma leitura geográfica da
realidade. É óbvio que a leitura da realidade pode ser feita dos mais diferen-
tes modos, a partir de qualquer ciência ou arte. Todavia, nenhuma ciência
ou arte consegue explicar essa realidade sem diálogo com as outras ciências
e artes. É o conjunto das construções dos conhecimentos que possibilita uma
aproximação mais qualificada das possíveis interpretações das realidades, e
esta é somente uma contribuição possível.
O território imaterial é formado por ideias e pensamentos diversos:
conceitos, teorias, métodos, ideologias, paradigmas etc., que definem a lei-
tura, o foco, a interpretação, a compreensão e, portanto, a explicação do
objeto, tema ou questão. Os pensadores, intelectuais, pesquisadores e es-
tudiosos constroem e produzem explicações a partir da intencionalidade,
que é parte do processo histórico de construção do conhecimento. Assim,
formam correntes teóricas interpretativas ou paradigmas que determinam
44 |

suas interpretações. Outros pensadores, estudiosos, intelectuais e pesqui-


sadores, ao utilizarem os conceitos ou as teorias, precisam compreender
e aceitar as significações e as definições previamente estabelecidas. Essa
aceitação é uma condição para garantir o rigor da referência. A fidelidade
às ideias originárias é necessária para qualificar o processo de desenvolvi-
mento do conhecimento.
O pensador originário ou seminal, ao elaborar o conceito, tem o pro-
pósito de explicar algo por meio de sua intencionalidade. O pensador usuá-
rio, ao aceitar e compreender a significação do conceito, usa a interpretação
proposta. Desta maneira, intencionalidade e fidelidade se realizam na mul-
tiplicação da possível explicação das coisas e dos objetos, das relações e dos
espaços, temas ou questões. Assim são construídas as correntes teóricas ou
os paradigmas no processo de disputa pela construção do conhecimento.
Esse processo pode ser reproduzido pela subalternidade ou pela autonomia.
O uso de conceitos, se não for feito pelo questionamento de seus significa-
dos, conduz o pesquisador usuário à comodidade da explicação fácil do ob-
jeto. Este é o sentido da subalternidade. O uso criterioso de conceitos, pro-
curando compreender bem seus significados por meio do questionamento
da validade e do reconhecimento, possibilita ao pesquisador usuário uma
posição autônoma e comprobatória do conceito.
O território imaterial não se limita apenas ao campo da ciência, mas
pertence ao campo da política e pode ser utilizado para viabilizar ou invia-
bilizar políticas públicas, por exemplo. Exemplos concretos são as políticas
de cotas nas universidades. Estas são produzidas como um território ima-
terial, cuja intencionalidade é promover a inclusão de sujeitos por meio de
processos qualificados. Essas políticas rompem com os processos seletivos
genéricos que, de fato, escondem outras condições políticas de acesso à uni-
versidade. Os exames universais de seleção para as universidades mantêm
os privilégios dos mais abastados, que são perdidos nos exames seletivos
por cotas. É assim que um território imaterial, uma ideia e uma política se
materializam em condição real de acesso à universidade e de mudança de
destino de muitas pessoas. Essa mudança não se realizaria sem a criação do
território imaterial, que materializou o novo rumo das vidas dos sujeitos.
Os territórios imateriais são as bases de sustentação de todos os ter-
ritórios, construídos e disputados coletivamente. As disputas territoriais
são alimentadas pelas organizações e seus think – tank. É impossível pensar
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 45

os diversos territórios sem pensar os territórios imateriais e as pessoas e os


grupos que pensam os territórios.

Soberania alimentar como território

Com esta breve reflexão sobre as formas e os tipos de territórios, ex-


plico por que compreendo a soberania alimentar como território. A ideia de
soberania alimentar está associada às múltiplas questões, como por exemplo,
à fome, ao alimento, à política pública, ao modelo de desenvolvimento, às re-
lações sociais, à tecnologia, ao trabalho, governo, campesinato, agronegócio,
à questão agrária, entre tantos outros.
Defender a soberania alimentar e transformá-la em política pública
significa assumir uma posição contra as políticas de commodities – das agri-
culturas agroexportadoras do agronegócio que provocam a fome no mundo.
Significa, também, defender a qualidade dos alimentos para o bem da saúde
pública, utilizar tecnologias apropriadas que não destruam o meio ambiente,
ou seja, respeitar a natureza, o tempo e o espaço da vida. Isso é acreditar
numa temporalidade e numa territorialidade humanas, contra os tempos e
espaços técnicos, que rompem com a lógica da existência e criam a lógica
da sobrevida por meios artificiais. Igualmente é defender o trabalho decente
sem exploração para garantir o sentido da soberania como hegemonia de
todas as pessoas que participam da produção e do consumo de alimentos.
Soberania alimentar só pode ser política de governos democráticos que não
estejam vendidos às corporações nacionais e transnacionais. Estas corpora-
ções colocam seus interesses acima dos interesses da sociedade e transfor-
mam os alimentos em mercadoria. E, nesse ponto, há uma diferença enorme
entre duas formas de organização que produzem alimentos para a sociedade:
o campesinato e o agronegócio.
Isso merece destaque porque muitas pessoas compreendem o cam-
pesinato como parte do agronegócio5. Embora o agronegócio controle a
maior parte do mercado mundial de alimentos, ele não é uma totalidade.
Apesar de o agronegócio controlar a produção mundial com seus pacotes
tecnológicos, ele não é uma totalidade. Ainda que o agronegócio tenha pro-

5 Temos insistido na diferença entre essas duas formas de organização do trabalho que compõem, in-
clusive, classes sociais distintas. Para um maior aprofundamento deste debate, ver Fernandes (2008b,
2008c).
46 |

duzido e reproduzido a ideologia da totalidade, ele é apenas uma parte das


organizações que produz alimentos no mundo. A outra parte é composta
pelos diversos tipos de organização do campesinato no mundo, que pro-
duz alimentos para grande parte da população mundial. Todavia, por causa
da compreensão que o campesinato é parte do agronegócio, essa produção
é contada como produção do agronegócio, de forma que a produção do
campesinato é invisibilizada. Ela só é vista quando, ao fazer nossas análises
dos censos agropecuários, separamos a produção de alimentos do trabalho
familiar da produção de alimentos das corporações.
Essas referências já me permitem pensar a soberania alimentar como
território imaterial e como território material. Como imaterial é uma ideia que
nasce da Via Campesina, em 1996, no seu documento “The right to produce and
access to land”, e ganha corpo político propositivo para a criação de políticas
públicas que superem o problema da fome, garantindo o alimento como direito
básico. O alimento na história do campesinato e nos documentos da Via Cam-
pesina não aparece como mercadoria. Ele é condição fundamental de existên-
cia e, portanto, da cultura da humanidade. Por isso os camponeses trabalham
com agricultura, e as corporações com agronegócio. Esta é uma diferença im-
portante para pensar o território do campesinato e o território do agronegócio.
Por que a ideia de soberania alimentar não nasceu do agronegócio?
Por que o agronegócio não utiliza em seus documentos a expressão sobera-
nia alimentar? Por que o agronegócio defende apenas a segurança alimen-
tar? A soberania alimentar exige divisão de poder para tomada de decisão
sobre o que produzir e onde produzir. Os governos nacionais perderam esse
poder desde que o agronegócio passou a determinar os projetos de desen-
volvimento rural no mundo. As organizações camponesas estão subalternas
a essas políticas de modo que o agronegócio é soberano no que se refere às
políticas agrícolas. Além da democratização de controle das decisões, defen-
der a soberania alimentar significa defender a produção local, o que choca
com os interesses da produção agroexportadora. Então, compreende-se bem
por que o agronegócio defende a segurança alimentar: porque esta é tão-
somente uma política compensatória que garante parcialmente alimentos
industrializados para as populações pobres, mas não garante à população fa-
minta o direito de produzir seu próprio alimento; porque, para produzir ali-
mentos, é preciso terra-território. Assim, a territorialidade da terra transfor-
ma o alimento em território. Para se ter alimento é necessário ter território.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 47

O documento originário da Via Campesina desconstrói os territórios


do agronegócio, tanto o imaterial – sua ideologia – quanto o material – suas
grandes extensões de terras que produzem tanto alimento e tanta fome.
A soberania alimentar está associada essencialmente à questão da fome
como questão política. Recuperando Geografia da Fome (CASTRO, 1946)6,
a questão da produção e distribuição dos alimentos já era analisada como
uma questão política. A fome não é produzida pela natureza, mas sim pelas
relações sociais7. A revolução verde prometeu acabar com a fome, depois
esse discurso foi apresentado pelos think tanks das transnacionais produ-
toras de transgênicos. No entanto, o diretor geral da Organização da ONU
para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Jacques Diouf, denunciou que o
número de pessoas que têm fome no mundo alcançou, em 2007, a marca de
923 milhões e, em 2008, chegou-se a mais de um bilhão de pessoas. Todos
os progressos da agricultura não foram suficientes para acabar com a fome,
porque o problema não será solucionado pelo progresso técnico, mas por
políticas de desenvolvimento socioterritorial. E é com este sentido que com-
preendo a soberania alimentar.
Trata-se de soberania alimentar como território porque contém um
dos princípios do conceito, a soberania. Recuperar o poder de produzir o
próprio alimento faz a diferença do que é o território da soberania alimentar.
Garantir aos povos e a suas nações os direitos sobre seus campos, suas flores-
tas e cidades é o que significa ser soberano. Por isso soberania alimentar é um
conceito multidimensional. Para discuti-lo é preciso pensar em várias ques-
tões, e as instituições que estão subordinadas ao agronegócio não consegui-
rão propor políticas de soberania alimentar, somente de segurança alimentar.
Soberania alimentar está associada a uma importante questão territo-
rial, que é a reforma agrária. A concentração de terra aumentou intensivamente
no mundo durante o século XX. Essa concentração está associada ao modelo
agroexportador que regionalizou o mundo para produzir commodities, criando
“repúblicas da banana”, “repúblicas da soja”, repúblicas da laranja”, “repúblicas
do café”, “repúblicas da cana-de-açúcar”, entre outras. A resistência camponesa
a esse modelo está na luta pela biodiversidade e pela agroecologia, que também
se transforma em várias políticas públicas e se territorializa pelo mundo.

6 Josué de Castro foi presidente da FAO de 1952 a 1956.


7 Nota-se que, em casos de catástrofes ambientais, há problemas de fome, mas não são esses os casos
predominantes de fome no mundo.
48 |

A soberania alimentar atualiza o debate sobre a questão agrária e o


capitalismo agrário. Com seu pioneirismo, a Via Campesina coloca ao cam-
pesinato uma grande responsabilidade: desenvolver políticas que defendam a
soberania camponesa. Isso significa expandir ideias, ou seja, territórios ima-
teriais e territórios materiais, configurados em terras produtoras de alimentos
saudáveis. A proposta da soberania alimentar reorganiza o comércio local e
mundial e coloca em questão a viabilidade do modelo do agronegócio. De-
fender o alimento significa defender o território em que se produz o alimento.
Soberania alimentar é um território do campesinato e gera um con-
junto de conflitualidades que possibilita ao campesinato a disputa territorial
tanto no campo das políticas públicas quanto no campo da produção agríco-
la. Ela exige outra escala geográfica da produção e da comercialização para
que tenhamos alimentos saudáveis em nossas casas. A soberania alimentar
se transforma a cada dia num movimento mundial em defesa de nossos ter-
ritórios. A nossa mesa, onde comemos, também é nosso território.

Considerações finais

Nestas considerações finais, não termino este artigo, pois este é


um processo de construção teórica. Proponho o debate e a pesquisa para
avançarmos na interpretação das realidades e de seus territórios. A ti-
pologia de territórios aqui apresentada está organizada em duas formas,
três ordens, três tipos de território e um conjunto extenso de qualidades.
Os territórios materiais e imateriais estão representados em primeiro, se-
gundo e terceiro territórios, entendendo-os como espaços de governança,
propriedades e espaço relacional. As qualidades são compreendidas pelos
fixos e fluxos, pela multidimensionalidade, conflitualidade e pluriescalari-
dade, pelas relações e classes sociais que produzem e são produzidas pelos
territórios.
Compreendo que essa proposta contribui para leituras mais apro-
fundadas dos processos socioterritoriais, evitando-se, assim, que falemos
de disputa territorial sem definirmos o que é território. Mas ainda há muito
a avançar. Esse avanço ocorrerá pela continuação das pesquisas, reflexões,
leituras, dos diálogos, debates e embates. Nota-se que escrever sobre terri-
tório sempre será uma relação de poder, e essa é uma responsabilidade dos
geógrafos, que têm o território como categoria de análise.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 49

Tomamos a soberania alimentar como um exemplo de território, par-


tindo de sua concepção como ideia materializada em política pública que
muda as relações sociais, gera conflitualidades entre classes sociais e muda
modos de vida. São ideias-territórios que, ao serem construídas, carregam
em si os princípios do espaço e das relações onde nasceram. Com este exem-
plo, procuramos demonstrar como os territórios estão presentes em nosso
cotidiano e como é importante compreendê-los.

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A EXPANSÃO DO CAPITAL NO CAMPO E A REPRESSÃO
POLÍTICO-JUDICIAL AOS MOVIMENTOS CAMPONESES
NO BRASIL E NA ARGENTINA

Rubens Souza1
Mariana Romano2

Introdução

O
aprofundamento da análise da forma e do conteúdo de processos
judiciais criminais no Brasil e na Argentina tem ampliado a com-
preensão sobre a tentativa de repressão política no campo desses
países. O intercâmbio entre pesquisadores dessas nações dá-se no bojo do
“Projeto Conjunto de Pesquisa entre Brasil e Argentina”, que é parte do
Programa de Cooperação Científica Internacional Mercosul, aprovado pela
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)
durante o processo seletivo 2010-2011. Os estudos vinculados a esse proje-
to têm permitido observar que o processo de repressão político-judicial a
movimentos camponeses extrapola as fronteiras nacionais.
O presente estudo parte da interpretação da expansão do capital
no campo, combinada com a repressão política, reflexo das conflituosida-
des manifestadas em diferentes modelos de desenvolvimento tanto para
o caso do Pontal do Paranapanema, em São Paulo, Brasil, como para o
caso do Departamento Rio Seco de Córdoba, na Argentina. Em seguida,
analisa a característica estrutural de acumulação por desapropriação de
terras e a expansão do capital no campo da Argentina e no Brasil. Adiante,
este trabalho tece considerações sobre a atuação do Estado nos dois paí-

1 Professor de Educação Básica no Distrito Federal e pesquisador do Núcleo de Pesquisa, Projetos e Es-
tudos de Reforma Agrária (Nera), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Presidente
Prudente (SP). E-mail: romaossp@yahoo.com.br.
2 Pesquisadora do Centro de Estudios Avanzados (CEA) Universidad de Córdoba, Argentina. E-mail:
romanomarian@yahoo.com.ar.
54 |

ses e analisa sua característica estrutural, que é a defesa dos interesses do


latifúndio e do agronegócio, ou seja, na mediação dos conflitos, o Estado
defende o direito inalienável de propriedade da terra, ainda que por meio
da legitimação da irregularidade dominial da sua posse, como é o caso da
grilagem.
No desfecho, apresentamos o capítulo que exibe a atuação do Po-
der Judiciário e o uso da força coercitiva do Estado nos conflitos terri-
toriais, a partir de uma mostra das condições de vida de camponeses
sem terra e do aumento da repressão aos movimentos campesinos na
Argentina e no Brasil, provenientes dos conflitos territoriais e da crimi-
nalização da principal estratégia de luta pela terra – as ocupações. Nessa
perspectiva, amplia-se a leitura para abranger também a realidade na
Argentina e abrem-se novos horizontes de estudos sobre a repressão po-
lítica no campo.

A expansão do capital no campo, combinada com a repressão política

A característica estrutural de acumulação do capital, a partir da territo-


rialização do agronegócio da cana-de-açúcar, parte da produção majoritária
de agrocombustíveis no Pontal do Paranapanema (Brasil), até mesmo dentro
do território camponês, transformando significativamente a estrutura agrá-
ria regional, contrastando o histórico recente da economia regional, baseado
nos grandes latifúndios com títulos falsificados e na pecuária (GONÇALVES;
FERNANDES; WELCH, 2011). De forma similar, o capital se territorializa
nas regiões extrapampeanas da província de Córdoba, na Argentina, trans-
formando territórios campesinos em territórios do capital (FERNANDES,
2009), por meio da expansão da produção de oleaginosas para exportação,
especialmente os cultivos de soja e milho transgênicos. Por esse processo, ob-
servam-se grandes transformações em zonas que eram marginais à produção
em larga escala, que conservavam características de território campesino, de
cultura, de diversidade, em que os valores socioambientais faziam parte da
paisagem. Essas áreas sofreram abrupta homogeneização na última década,
como resultado da expansão do capital (ROMANO, 2010).
A significativa transformação da estrutura agrária regional se dá a
partir da supressão do modelo alternativo e fundamental da permanência
na terra, dos valores, costumes e tratos culturais preventivos, que são o fun-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 55

damento da existência campesina. Esse processo se concretiza a partir da


judiciarização da luta pela terra, como forma de viabilizar o projeto de socie-
dade centrado na valorização do capital, em que se pode imbricar a leitura
geográfica de Thomaz Júnior (2003).
Os estudos realizados em Córdoba apontam que a judiciarização dos
conflitos territoriais na luta entre campesinos e os grandes capitais leva dire-
tamente a uma falha do Poder Judiciário, que não tem reconhecido o direi-
to comum dos camponeses de uso da terra e de produção. Essas terras são
historicamente mantidas pelos camponeses, enraizados em valores culturais
e nas formas de aproveitar melhor as escassas fontes de água da zona do
Chaco Árido Serrano. Nas regiões extrapampeanas da província, a penali-
zação da defesa da terra dos camponeses organizados conduz diretamente à
perda da terra pelos setores camponeses e à expansão do capital no campo
(ROMANO, 2010). O esforço reflexivo que se realiza neste trabalho propõe
que, em meio ao processo de espacialização da luta pela terra, realizado pelos
movimentos camponeses, resulta outro, de judiciarização, que ocorre conco-
mitantemente à reestruturação produtiva imposta pelo capital no início do
século XXI (THOMAZ JÚNIOR, 2003). Isso exige da comunidade científica
um dimensionamento espacial da questão da repressão política no campo, a
partir de sua organização, que de forma combinada e em escalas distintas se
reproduz no Pontal do Paranapanema e em Córdoba.
Diante disso, este estudo tenta compreender de que forma as reso-
luções do Poder Judiciário Criminal reprimem as ações dos movimentos
camponeses no Brasil e na Argentina, levando à territorialização do capital
nos espaços rurais. Para tanto, descreve a atuação desse poder nos países,
com suas semelhanças e diferenças. A diferença mais relevante é que na
legislação do Brasil está prevista a reforma agrária, que na Argentina nunca
chegou a se estabelecer. Entretanto, essa diferença de normas de caráter na-
cional tem cada vez menos peso em razão da incorporação dos tratados in-
ternacionais de direitos humanos, econômicos, políticos e sociais, tanto no
Brasil como na Argentina, e de toda a normativa constitucional de ambos
os países. Estes interpretam a propriedade privada dentro do contexto de
direitos gerais, com prioridade da função social da terra e dos direitos dos
camponeses como populações vulneráveis e protetoras do meio ambiente
(ROMANO, 2010). Entretanto, o estudo procura marcar as semelhanças e
diferenças nos dispositivos do poder de repressão do Poder Judiciário, mas
56 |

não pela comparação do nível das dimensões e dos detalhes em cada um


dos casos. O estudo desenvolvido no Pontal do Paranapanema propõe uma
análise quantitativa da repressão aos movimentos campesinos, ao passo
que o desenvolvido no Departamento de Rio Seco, na província de Cór-
doba, embora também seja quantitativo, enfatiza a análise da interpretação
e aplicação das normas em cada uma das sentenças. O objetivo é destacar
as distorções das práticas concretas do Poder Judicial argentino entre o es-
tabelecido pelas normas e sua aplicação, para criminalizar as resistências
contra-hegemônicas camponesas à expansão do capital.

O caso do Pontal do Paranapanema

A legitimação da causa que move milhares de camponeses sem


terra no Pontal do Paranapanema, a reforma agrária, comprova o pa-
pel histórico que os movimentos socioterritoriais imprimiram ao do-
mínio territorial e a interlocução que assumiram com a sociedade e o
Estado. As ocupações de terra em latifúndios e o agronegócio colocam
em evidência o campo contra-hegemônico das condições de acesso de-
mocrático aos direitos assegurados constitucionalmente. Esses direitos
não abrangeram historicamente a demanda dos camponeses, haja vista
a situação mencionada e a disputa arquitetada pelas classes populares e
hegemônicas (SANTOS, 2007) denunciarem o descaso ao Título VII –
Da Ordem Econômica e Financeira –, Capítulo III – Da Política Agrícola
e Fundiária e da Reforma Agrária –, artigos 184 a 191 de nossa Car-
ta Magna. Esta, entre outros pontos, destina terras públicas e devolutas
à reforma agrária, o que se concebe como parte integrante do Estado
Democrático de Direito, e não uma agressão a ele. O direito e a preser-
vação da propriedade privada são ressaltados em inúmeras sentenças
judiciais observadas no desenvolvimento da pesquisa sobre a repressão
no campo (SOUZA, 2011) e assumem centralidade na disputa territorial
entre camponeses, de um lado, e latifundiários e agronegócio, de outro.
Os limites, as formas e os procedimentos utilizados – as ocupações de
terra – pelos camponeses para a fixação dos direitos contidos na Consti-
tuição Federal e principalmente a sua regulamentação, conforme a Lei nº
8.629, de 25 de fevereiro de 1993, são instrumentos que asseguraram par-
te significativa da aplicação constitucional referente à reforma agrária.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 57

É possível elucidar também a dimensão espacial da repressão política


a partir da representação dos 368 processos criminais a que se teve acesso
nos onze fóruns e/ou comarcas do Pontal do Paranapanema. Com essa in-
tenção, elaborou-se o mapa da Figura 1, a seguir, em que são representadas
a quantidade de processos judiciais criminais movidos contra os movimen-
tos socioterritoriais e as pessoas envolvidas no processo de luta pela terra
entre os anos de 1988 e 2008. Na contínua construção metodológica foi
possível distinguir, na totalidade dos casos, as pessoas e relacioná-las a seus
respectivos movimentos socioterritoriais, instituições ou cargos públicos,
formando, consequentemente, a base de dados DATALUTA-REPRESSÃO.
Essa base de dados visa oferecer dados complementares ao Banco
de Dados da Luta Pela Terra (Dataluta), do Núcleo de Estudos, Pesquisas
e Projetos de Reforma Agrária (Nera) da Universidade Estadual Paulista,
câmpus de Presidente Prudente (SP). Seus procedimentos metodológicos
são a consulta e sistematização de dados on-line do Tribunal de Justiça do
Estado de São Paulo sobre processos criminais movidos contra os movi-
mentos de luta pela terra no Pontal do Paranapanema entre os anos de 1990
e 2009. Cabe ressaltar que a espacialização da repressão tem um significado
que vamos esforçar para aprimorar, mas que pode se correlacionar com a
espacialização da luta pela terra, ou seja, de forma combinada, a realização
das ocupações de terra, principal instrumento de luta pela terra, ocorreu
concomitantemente com a espacialização da repressão judicial por meio de
processos judiciais cíveis e criminais. O Movimento dos Agricultores Sem
Terra (MAST), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e
o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra da Base (MST da Base)
são movimentos socioterritoriais de maior enfrentamento da indefinição
dos domínios das terras do Pontal do Paranapanema, suspeitas de serem
terras devolutas. Por isso são alvos constantes de processos judiciais cíveis
e criminais (FERNANDES; PEREIRA; SOUZA, 2010).
58 |

Figura 1: Mapa do Pontal do Paranapanema: Geografia da Repressão – Processos


Judiciais Criminais contra os Movimentos Socioterritoriais e Pessoas Envolvidas,
1988-2008.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 59

O caso do Departamento Rio Seco, de Córdoba

Para o caso no Norte de Córdoba foram reveladas todas as sentenças


criminais de usurpação da terra durante o período de 1988 a 2008.3 Desse
estudo, 75% dos casos tratam dos conflitos interclassistas que os campo-
neses pobres e organizados enfrentam sobre a posse das terras por déca-
das, sem títulos sobre estas, e de produtores capitalistas que alegam direitos
sobre a terra, mas a grande maioria não comprova a relação de posse da
terra. Na maioria dos casos, os produtores capitalistas não têm a posse da
terra, mas usam da violência para fazer investimentos e melhoras contra a
vontade dos camponeses. Em seguida, realizam denúncias de invasão para
legitimar seu direito por conquista (ROMANO, 2010) e desalojar os campo-
neses. Nos estudos desses processos, observa-se que o Poder Judiciário atua
de maneira discriminatória, seletiva e arbitrária, condena os camponeses e
desapropria suas terras por meio de interpretação e aplicação distorcida das
normas legais. Essa postura contribui para a legitimação da desapropriação
dos territórios camponeses e mantém a expansão capitalista com caracte-
rística estrutural de acumulação pela desapropriação (ROMANO, 2010).
Essas características e as diferenças culturais, sociais e econômicas entre as
pessoas envolvidas nos processos permitem observar a distorção realizada
pelo sistema policial e judicial. Os atos praticados pelos camponeses – de-
tentores, por décadas, de terras marginais produtivas, nas quais conservam
as características de territórios camponeses – contrariamente às previsões
exatas das normas legais são julgados como delito. Assim, por meio de pro-
cessos judiciais, os produtores capitalistas conseguem desapropriar as terras
dos camponeses, e elas passam a ser território homogeneizado do capital.
Os principais argumentos do Poder Judiciário baseiam-se na con-
cepção segundo a qual a propriedade privada é um direito superior na es-
cala hierárquica de direitos. Isso justifica suas decisões, que deixam de levar
em conta um conjunto de direitos dos camponeses, como os direitos da
criança à alimentação, ao trabalho e à não regressão dos direitos (ROMA-
NO, 2010). Campesinos são desalojados das suas terras, sem que se leve em
conta sua vulnerabilidade social e econômica.

3 O estudo inclui uma pesquisa das causas de ocupações de terras na jurisdição de Dean Funes, no
Departamento Rio Seco, num total de 53 sentenças (ROMANO, 2011).
60 |

Direitos constitucionais previstos internacionalmente são omitidos


por juízes que deliberam pura e simplesmente o despejo de camponeses
que resistem em suas terras às violências do capital. A análise dos processos
criminais evidencia a ausência de uniformidade de critérios se o acusado
for um camponês que resiste à violência sobre suas terras ou um produtor
capitalista. Assim, o Poder Judiciário distorce as normas com fins políticos
e reprime os campesinos e os movimentos campesinos que resistem à ado-
ção do modelo produtivo hegemônico. Desta forma, o Direito, em sua apli-
cação, transforma-se em uma ferramenta política e funcional na expansão
do capital no campo (ROMANO, 2010).

Característica estrutural de acumulação por desapropriação:


A expansão do capital no campo da Argentina e do Brasil

As mudanças que se visualizam na agricultura mundial nas últimas


décadas são parte de um processo que conduz à formação de um siste-
ma agroalimentar de alcance global, cuja dinâmica integra e subordina de
maneira progressiva a agricultura dos países periféricos. Não é possível
entender esse processo de transformação da agricultura isoladamente das
mudanças estruturais que têm ocorrido na economia mundial nas últimas
décadas como parte integral do processo de globalização da produção. Na
América Latina, tem-se aprofundado o modelo produtivo hegemônico por
meio da dominação do capital sobre os processos produtivos agrícolas, que
se estende por diferentes regiões dos países por meio de cultivos de alta
rentabilidade e de capital intensivo. É o caso do plantio de soja, em Cór-
doba, na Argentina, e o de cana-de-açúcar, na região do Pontal do Para-
napanema, no Brasil. Esses cultivos representam a integração a uma cadeia
produtiva que começa pelo vínculo dos produtores às companhias comer-
cializadoras de insumos – sementes e agroquímicos – e tem sequência pela
venda para exportação da produção.
A expansão do novo imperialismo capitalista em sua característica
estrutural de acumulação desterritorializa os camponeses, que continuam a
disputar territórios materiais e imateriais em outras áreas, tanto na Argen-
tina quanto no Brasil, com toda a forma tradicional com que estabelecem
suas relações sociais (HARVEY, 2004). A força do capital destrói as relações
não capitalistas de produção, mas não as encerra. Trata-se da acumulação
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 61

pela espoliação, que tem por base a expropriação. Esse fato também trans-
forma o mundo do trabalho por conta da precarização das relações em seu
meio, com a destruição consequente dos territórios camponeses (HARVEY,
2004). Neste estágio atual de acumulação, a recriação de relações não capi-
talistas de produção é um devaneio, e a produção para a subsistência é uma
insanidade. Logo, o capital cria subterfúgios para eliminar esse tipo de pro-
dução, e a repressão política aos camponeses é um trunfo a seu favor, haja
vista o controle territorial consolidado pelos agentes latifundiários e pelo
agronegócio em ambos os países (HARVEY, 2004). Desta forma, a confli-
tuosidade de camponeses versus latifundiários e do agronegócio, de certa
forma, confronta a prerrogativa de acumulação por espoliação elaborada
por Harvey (2004), considerando-se a negligência às disputas territoriais
verificadas tanto em Córdoba quanto no Pontal do Paranapanema, que
tem na repressão política aos camponeses uma das dimensões evidencia-
das desse conflito.
É importante referenciar aqui outra obra por sua consequência, pro-
fundidade e originalidade: A acumulação do capital: contribuição ao estu-
do econômico do imperialismo, de Rosa Luxemburgo (1985), que aponta
a usurpação praticada pelas nações de capitalismo avançado contra países
como a Argentina e o Brasil. Segundo Loureiro (2009), a autora elabora sua
tentativa de explicação da acumulação de capital com base na estratégia ca-
pitalista de converter antigos direitos e bens públicos em mercadorias. Nes-
te estudo, verifica-se que, na questão da terra, os movimentos camponeses
resistem a essa nova forma de acumulação do capital tanto na Argentina
quanto no Brasil (LOUREIRO, 2009). A violência exercida pelo capital, em
sua característica estrutural de acumulação por substituição nesse avanço –
entendida naquela época como um processo de militarismo, sinal bastante
atual de sua obra –, vem combinada atualmente com formas sofisticadas de
obstrução do avanço da participação e construção de outro modo de vida,
que é a repressão política aos camponeses. Luxemburgo (1985) assume que,
mesmo na plenitude de sua expansão, o capital não pode prescindir da exis-
tência concomitante de camadas e sociedades não capitalistas. Desta manei-
ra, o capital não existe sem a presença dos meios de produção e da força de
trabalho de toda parte para desenvolver e ampliar sua acumulação. Disso re-
sulta uma tendência incontrolável do capital de se apossar de todas as terras
e sociedades (LOUREIRO, 2009).
62 |

Características e dimensões da expansão do capital no Departamento


Rio Seco, de Córdoba

O Departamento Rio Seco historicamente se caracterizou pela pro-


dução de gado, e os seus principais recursos alimentares foram o mato e a
pastagem. Os sistemas de produção dominantes foram: em primeiro lugar,
a criação extensiva e de subsistência de gado com bovinos e, em segundo
lugar, a combinação de gados caprino, bovino e ovino. A agricultura foi se-
cundária e prevaleceu o cultivo de milho em razão da sua funcionalidade
como alimento para o gado. O Quadro 1, a seguir, apresenta a continua-
ção da descrição das dimensões do processo de expansão do capital no nível
das transformações no uso do solo, a diminuição de unidades produtivas
campesinas e de pequenos produtores, com a consequente concentração da
terra por empresas que produzem em grande escala. Essas transformações
denotam graves perdas sociais nos territórios campesinos pela expulsão de
suas populações para as cidades, bem como as consequências ambientais da
territorialização do capital para as gerações presentes e futuras.

Quadro 1: Superfície plantada com cereais e oleaginosas, comparando os Censos


Nacionais Agropecuários argentinos de 1988 e 2002.

Cereais
Áreas de cultivo Variação
e oleaginosas
Censo de 1988 Censo de 2002 Área (ha) Percentual

Milho
1.854 5.049 3.195 172%
Trigo 30 16.391 16.361 54.537%
Sorgo em grão 4 906 902 22.550%

Soja de
675 36.378 35.703 5.289%
primeira

Soja de
0 7.196 7.196 7.196%
segunda

Fonte: PREDA apud ROMANO, 2010.


Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 63

O quadro representa em quantidades as grandes transformações no


uso do solo e a territorialização do capital no campo, com extraordinários
aumentos de nível, como os 54.537% no caso do cultivo de trigo e aproxi-
madamente 12.500% no caso do cultivo de soja.
A estrutura agrária do Departamento Rio Seco apresenta variações
em relação à quantidade de exportações agropecuárias, bem como concen-
tração das superfícies nos estratos maiores. Observa-se um processo de re-
conversão ou desaparecimento de pequenas unidades produtivas, que não
conseguem continuar sua produção nesse contexto. É preocupante o desa-
parecimento de 50% das unidades produtivas menores que 50 hectares, 37%
das menores que 100 hectares, 25% das áreas de até 200 hectares, em uma
tendência de expulsão do campo (ROMANO, 2010). De forma correlata ao
desaparecimento do campesinato e da pequena agricultura familiar, se con-
centraram na terra 25% dos estratos superiores a 2.500 hectares. A chegada
de novos atores procedentes da região dos pampas que portavam os conhe-
cimentos e a tecnologia criados para outras condições territoriais foi modifi-
cando a organização do território. A dinâmica de ocupação do solo, expres-
sa por poucas e diferentes formas de posses por arrendamento ou compra,
aproveitando-se dos preços diferenciados em relação à região dos pampas,
converteu esse espaço territorial em um campo de disputa entre os produto-
res tradicionais campesinos e os novos atores provenientes de outras regiões.
Ao longo da história, as formas de penetração do capital na produ-
ção agrícola se deram pelas formas extensiva e intensiva. Assim, entendia-
se a forma extensiva pelas relações capitalistas de produção sobre solos não
cultivados ou trabalhados sob relações não capitalistas e intensivas pelo
acréscimo das inversões de capital em processos produtivos em que pre-
existiam aquelas formas produtivas. A maior inversão do capital por uni-
dades de superfície é uma estratégia dominante na produção agropecuária
atual. Essa é uma forma de garantir a produtividade nos países que têm re-
serva de terras aptas para o desenvolvimento agrícola, gerando uma trans-
ferência produtiva, geralmente mediada pelo desenvolvimento tecnológico
experimentado em territórios mais aptos (ROMANO, 2010). A noção de
território conduz a pensar em espaços dinâmicos, construção permanente
e espaços de disputa de poder, em que se dirime uma multiplicidade de re-
presentações dos agentes sociais em interação e em que o capital encontra
um lugar para buscar constantemente uma maneira de encurtar os tempos
64 |

de reprodução. Desta forma, a ampliação da fronteira agrícola constitui o


movimento do capital que incorpora novos solos à produção, destruindo as
formas produtivas que o precederam na ocupação territorial ou ocupando
terras virgens (ROMANO, 2010).

Características e dimensões da expansão do capital no Pontal


do Paranapanema, em São Paulo

Algo já mencionado é que o direito e a preservação da propriedade


privada são ressaltados em diversos pareceres do Poder Judiciário no Pon-
tal do Paranapanema e assumem centralidade dentro da disputa territorial
entre os camponeses, os latifundiários e o agronegócio. Os limites, formas
e procedimentos utilizados – as ocupações terra – pelos camponeses para
a fixação dos direitos contidos na Constituição Federal e, principalmente, a
sua regulamentação dentro da Lei n. 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, são
instrumentos que asseguraram parte significativa da aplicação constitucional
referente à reforma agrária. Identificamos duas concepções construídas sobre
a questão da propriedade da terra, uma com base no Direito Agrário, rela-
cionada ao trabalho, e outra concepção mais individualista, relacionada ao
Direito Civil (SANTOS, 2007). A concepção mais individualista se ampara
na posse direta ou ao título de propriedade, que no Pontal do Paranapane-
ma se reveste na grilagem das terras públicas não discriminadas e deturpa o
preceito dominial das terras comprovadamente devolutas, o que reproduz a
conflitualidade histórica entre camponeses, latifúndio e agronegócio (FELI-
CIANO, 2011). A concepção relacionada ao trabalho coloca a questão da dis-
puta pela terra e, em decorrência, a reprodução do trabalho e da vida como
resultado de sua apropriação pretérita. Esse modo de ver corrobora a ideia
de que a repressão política, por meio de processos judiciais criminais contra
os camponeses do Pontal do Paranapanema de 1990 a 2009, é uma forma
alternativa e sofisticada de o Poder Judiciário comungar com os interesses
hegemônicos e contribuir na espacialização da luta pela terra (FELICIA-
NO, 2011). Logo, o aprofundamento da componente social da propriedade
assume papel essencial dentro de uma concepção do Direito Agrário, que
progride para o entendimento da propriedade socialmente referenciada no
trabalho e para a indefinição da questão agrária reproduzida nas terras do
Pontal do Paranapanema.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 65

A constituição da classe burguesa, emergente no decorrer do Estado


Moderno, tem a propriedade privada como marco preponderante na asse-
guração e manutenção dos seus prestígios e privilégios. No Brasil, desde a
invasão europeia, essa concepção tem sido contestada pelos ameríndios e,
mais tarde, pelos negros. Um salto histórico com o intuito de aprofundar a
interpretação sobre a atual realidade do Pontal do Paranapanema conduz este
estudo até a conflituosidade decorrente das ações fraudulentas do latifúndio e
agronegócio – como a grilagem de terras e, mais recentemente, a perversa su-
bordinação de frações de lotes camponeses ao avanço do agronegócio da ca-
na-de-açúcar – e a resposta dos camponeses – como as denúncias de ocupa-
ção de terras e a conquista de assentamentos rurais. Como já se mencionou, o
atraso na discriminação dominial das terras no Pontal do Paranapanema re-
sulta de uma letargia do Poder Judiciário na primeira e na segunda instâncias
processuais, que desencadeia diversos conflitos pela posse e regularização de
terras entre os agentes preponderantes da produção espacial: Estado, campo-
neses, latifundiários e o agronegócio (FELICIANO, 2009).
O debate que reitera a emergência de superação da lógica capitalista de
desenvolvimento no campo critica a construção do discurso que propõe ser
natural o direito à propriedade privada da terra, expondo uma ampliação da
leitura do direito de propriedade feita pelo judiciário, visto que não leva em
consideração a conflitualidade dominial imposta pela componente social da
terra. A propriedade privada, destarte, justifica o direito individual no qual o
Estado historicamente a manteve inviolável e incontestável, haja vista a pre-
ponderância das decisões em áreas de litígio, como o Pontal do Paranapane-
ma, da concepção da propriedade como direito natural em relação à dimensão
social quando da conflitualidade expressa. Assim, a componente territorial faz
jus a uma reflexão, com a necessidade de diálogo com a concepção sobre a
renda territorializada imersa dentro do modo capitalista de produção, resul-
tante de formas arquitetadas e essencialmente distintas: a renda da terra dife-
rencial, derivada da concorrência, a renda absoluta que decorre do monopólio
e a renda de monopólio que provém da exploração exclusiva sobre uma mer-
cadoria em um espaço determinado (OLIVEIRA, 2007).
A natureza de cada uma dessas rendas é intrínseca à consolidação da
propriedade privada da terra. A renda da terra diferencial está vinculada à
produção, largamente difundida pelo avanço majoritário do agronegócio
da cana-de-açúcar no Pontal do Paranapanema, em contraposição à pro-
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dução alimentar camponesa. A discussão sobre a renda da terra diferencial


passa pela compreensão de suas variáveis, que atuam de forma indissociável
sobre a propriedade da terra. Essas variáveis naturais e infraestruturais são
amplamente controladas pelo avanço da monocultura da cana-de-açúcar e
combinadas com a introdução desse capital canavieiro para a ampliação da
reprodução territorial capitalista (OLIVEIRA, 2007).
Atua decisivamente sobre os desdobramentos dessa obtenção suple-
mentar de renda da terra a conflituosidade sobre o seu próprio domínio,
entre os camponeses e latifundiários associados ao agronegócio, que se re-
produzem no Pontal do Paranapanema. Ao mesmo tempo, avança concomi-
tantemente a estratégia de controle social pela repressão política desencade-
ada nos processos judiciais criminais que tramitam no Poder Judiciário que,
em primeira instância, comungam sentenças majoritariamente favoráveis
aos interesses de conservação do latifúndio e à ampliação do agronegócio.
A menção à renda absoluta da terra, resultante da propriedade privada con-
centrada nas estruturas do agronegócio da cana-de-açúcar no Pontal do Pa-
ranapanema, possibilita constatar a territorialização de apenas dez usinas do
agronegócio canavieiro distribuídas nos municípios de Caiuá, Martinópolis,
Mirante do Paranapanema, Narandiba, Presidente Prudente, Regente Feijó,
Sandovalina, Santo Anastácio e Teodoro Sampaio (GONÇALVES, 2011).
O agronegócio canavieiro tem condições de territorializar sua cultu-
ra e aplicar elevações no preço a partir desse controle, enquanto controla a
posse de milhares de hectares de terras de domínio comprovadamente de-
voluto no Pontal do Paranapanema. Isso afirma a concepção individualista
sobre a propriedade da terra e acirra a conflituosidade expressa nas disputas
territoriais com o camponês nesse decurso espaço-temporal. A inserção des-
sa forma permanente de obtenção de renda absoluta da terra não demarca
diretamente, em suas estratégias de reprodução do capital, os mecanismos
da repressão política por meio dos processos judiciais criminais impetrados
contra os movimentos camponeses, fato que estamos desmascarando. Cons-
tatamos o avanço e o retrocesso do número de processos criminais de pri-
meira instância no Pontal do Paranapanema, conforme a conjuntura política
espaço temporal, que não leva em consideração a conflitualidade dominial
imposta pela componente social. Aprofundando a análise sobre a renda de
monopólio, verifica-se que a territorialização do agronegócio para a produ-
ção majoritária de agrocombustíveis no Pontal do Paranapanema alcança até
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 67

mesmo o território camponês, o que muda significativamente a estrutura


agrária regional e contrasta com a história recente da economia regional,
baseada nos grandes latifúndios grilados e na pecuária.
É isso que demonstra o avanço do cultivo de cana-de-açúcar de
71.095 hectares plantados na safra 2003-2004 para os 266.820 na safra
2009-2010, ao passo que os assentamentos rurais de camponeses – que mo-
tivaram a repressão política por meio de processos judiciais criminais – de
1984 a 2010 ampliaram sua ocupação em 143.803 hectares, conforme evi-
dencia o gráfico da Figura 2. Não se verifica, nesse processo, a componente
social da propriedade, pois o aumento da área destinada ao agronegócio
canavieiro nas últimas safras – de 2003-2004 a 2009-2010 – deu-se em áre-
as comprovadamente devolutas, em evidente negação dessa componente
na gestão da conflituosidade dominial pela terra. A desigualdade entre as
áreas incorporadas pelos camponeses e as destinadas ao agronegócio de-
monstra a territorialização do modelo de desenvolvimento fundamentado
na monocultura da cana-de-açúcar, em contraposição ao modelo alternati-
vo e fundamental de desenvolvimento camponês baseado na policultura de
vários gêneros alimentícios.

Figura 2: Representação gráfica dos antagonismos entre o território camponês e o


território do agronegócio no Pontal do Paranapanema, 1984 – 2010.

Fonte: Banco de Dados da Luta Pela Terra (DATALUTA, 2011) e CANASAT –


Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE, 2011). Org.: Rubens dos Santos
Romão de Souza.
68 |

A relação entre a disputa territorial e a repressão política imbrica


alguns fatos. Enquanto os camponeses ocupam a terra para reproduzir sua
vida, o agronegócio compra as terras griladas para a reprodução de capital;
enquanto os camponeses sofrem com a repressão política, o agronegócio
compra terra pública e a explora com incentivos estatais.

A atuação do Estado na defesa dos princípios da propriedade privada


capitalista: o caso de Córdoba, na Argentina, e a irregularidade
estrutural da posse da terra

O que aqui se considera característica estrutural do Estado na de-


fesa dos princípios da propriedade capitalista é a tentativa da repressão
política sobre a conflituosidade dos camponeses contra os latifundiários
e o agronegócio. Majoritariamente, o Estado, por meio de seu aparato
judicial, assume para si a responsabilidade de resolução dos conflitos e
emite sentenças judiciais que comungam com os interesses de manuten-
ção do latifúndio e a expansão do agronegócio, tanto em Córdoba, na
Argentina, quanto no Pontal do Paranapanema, no Brasil. A expansão
do capital se relaciona com a irregularidade estrutural da posse da ter-
ra, que produz setores campesinos e de pequenos agricultores em zonas
historicamente marginalizadas para a produção em escala. A caracterís-
tica estrutural de expansão do capital começa a ser demandada pelos
produtores empresariais para a produção em escala (ROMANO, 2010).
A discordância entre quem figura como titular dos imóveis nos registros
públicos e os titulares reais da terra conduz a analisar o problema do
saneamento de títulos.
Na província de Córdoba, dos 26 departamentos que a integram, 15
são parte da região do Chaco argentino (árido e serrano). Nestes, mais de
70% dos camponeses e pequenos produtores rurais não têm títulos de suas
terras, o que torna absolutamente insegura a continuidade dessa relação
no contexto de expansão da fronteira agropecuária (ROMANO, 2009). Os
conflitos mais comuns se dão entre produtores capitalistas e empresas agro-
pecuárias, que enfrentam os camponeses com posse de vinte anos (ROMA-
NO, 2009). A falta do saneamento dos títulos prejudica as famílias rurais
que historicamente têm exercido a posse, porque dificulta a aplicabilida-
de dos seus direitos à terra em relação a terceiros. Desde o ano 2000, na
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 69

Província, foram regulamentadas normas que têm como objetivo sanear os


títulos a favor dos posseiros com vinte anos de ocupação. Entre elas encon-
tram-se as Leis n. 8.884, de 2000; 9.100, de 2004, e 9.150, de 2004. A única
norma que realmente previa o saneamento de títulos foi a de nº 8.884/2000,
que previa também a escritura pública da terra a favor do posseiro. Essa
norma permaneceu esquecida e nunca se regulamentou. A principal razão
para evitar sua regulamentação foi a exigência de um importante pressu-
posto – vontade política – para alcançar um processo completo de sanea-
mento a favor dos titulares e produtores da terra.
Das informações contidas nos registros públicos se avalia que a ir-
regularidade das situações de titularidade e posse da terra é a regra geral,
e os casos regulares constituem exceções nessas zonas. Essa situação é um
terreno fértil para uma variedade de duvidosas transações sobre a terra,
expressas no aumento da conflituosidade territorial que se observa na
província, especialmente no aumento da penalização desses conflitos nos
últimos vinte anos.4 Estudos de Romano (2010) sobre a problemática men-
cionada descrevem conflitos entre a posse campesina histórica das terras
e titulares dominiais ausentes, em que a irregularidade na propriedade da
terra e a falta de políticas públicas que visem ao saneamento de títulos
na província de Córdoba foram denunciadas nos seguintes informes: da
Foodfirst Information and Action Network (Fian international), em 2004;5
da Defensoria Pública da Nação, em 2006,6 e da Missão integrada pela Cá-
tedra Unesco da Universidade da Catalunha, Engenheiros Sem Fronteira
(ISF), entre outros, em 2008, apresentados na Organização das Nações
Unidas.7

4 Observa-se um incremento de 1.600% na revelação das causas de ocupação realizadas em Dean Funes
no período compreendido entre 1988 e 2008.
5 Informe da Missão Fian International. Referência à problemática camponesa na Província de Córdo-
ba, ano de 2004.
6 Romano (2010) menciona a Execução n. 3084/2006, que constitui parte da Investigação Geral sobre
Uso Sustentável da Terra, e a Execução n. 6062/2003. Ver: http://www.dpn.gob.ar/main.php?cnt=a-
rea&id=44&area=1.
7 Uma missão integrada por cinco representantes visitantes do Noroeste Argentino (NOA) com o ob-
jetivo de investigar e documentar a situação dos direitos humanos nas paisagens rurais onde vivem
camponeses e indígenas das províncias de Santiago de Estero, Jujuy, Catamarca, Mendoza e Córdoba.
A missão é composta pela Cátedra UNESCO de Sustentabilidade da Universidade da Catalunha, En-
genheiros Sem Fronteira (ISF), Espaço Social de Formação na Arquitetura (ESFA), Setem Catalunha,
Educação para a Ação Crítica (EdPAC) e o Grupo de Cooperação do Campus de Terrassa (GCCT).
Segundo Romano (2010), o informe denuncia o grau de responsabilidade do Estado argentino na
violação de suas obrigações contraídas na matéria de Direito Internacional para ratificar os tratados
como o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), o Convênio 169
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A falta de seguridade jurídica sobre as terras dos camponeses dessa


zona, observada e constatada na denúncia pela Missão Fian international,8
no ano de 2004, realizou recomendações ao governo provincial depois de
visitar as paisagens rurais, em que afirma:

A insegurança da propriedade da terra é um problema muito grave no


Noroeste e Nordeste e o maior limitante para que as famílias campesinas
se consolidem como produtoras. Estes grupos, assim como os campos
comunais, requerem processos de titulação completos para superar a
inseguridade de propriedade (FIAN INTERNACIONAL apud ROMA-
NO, 2010, p. 19).

Em sentido coincidente se expressa o informe realizado pela Defen-


soria Pública da Nação durante uma passagem pelas paisagens rurais do
Norte de Córdoba, ao afirmar que:

A Província conta com um sistema legal que vai cobrir os direitos dos
titulares, que também são sujeitos de direitos, são os guardiães naturais
da preservação dessas florestas. Somente esta legislação seria desrespei-
tada, como se denuncia no presente informe, pelas dificuldades para o
acesso a justiça por parte dos campesinos, pela falta de dinheiro para
pagar seus advogados, por ignorância, pela ação inescrupulosa de al-
guns profissionais, pela ação francamente irregular de quem tem que
administrar a justiça (EXECUÇÃO nº 3084/2006. Defensoria Pública
da Nação apud ROMANO, 2010, p. 13).

A análise crítica dessa problemática e das denúncias realizadas pelos


organismos de direitos humanos sugere interrogar sobre suas leituras e seus
impactos políticos. A apresentação desses informes ao governo provincial,
ao Poder Judicial e ao Ministério da Justiça é uma ferramenta de denúncia e
legitimação dos movimentos camponeses perante as autoridades do Estado
provincial que, em geral, demonstram-se funcionais à consolidação do mo-
delo agroexportador, a partir da omissão das políticas públicas que protegem
a relação entre os titulares há mais de vinte anos e a terra em que produzem.

da OIT, entre os mais importantes, e foi apresentado para o Alto Comissariado da ONU para os Di-
reitos Humanos em Genebra.
8 Organização internacional de direitos humanos com status de consultora permanente da ONU. Fun-
dada no ano de 1986, conta com cinquenta países membros. Informe da Missão de Investigação da
Argentina. Fian International e a Via Campesina. Documento FIAN D37s. http://www.fian.org/re-
sources/documents/others/informe-de-la-mision-de-investigacion-a-argentina/?searchterm=d37s.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 71

Lei n. 9.150/2004: suas funções e seus limites

Para analisar os efeitos da Lei n. 9.150/2004 desde sua promul-


gação até 2008, apresentaremos um breve parágrafo com os avanços e
limites expressos nos dados da instituição e em entrevistas realizadas
com os funcionários da unidade executora encarregada da aplicação
dessa lei na província. A base do estudo realizado9 mostra que se deu
entrada em 28.133 expedientes com pedidos de registro de titulares. Ob-
servou-se que, até 2008, foram resolvidos apenas 588 expedientes, o que
equivale a cerca de 2% do total iniciado. Dessa mínima porcentagem, 19
expedientes foram resolvidos e inscritos no Registro Geral da Província.
Isto equivale a afirmar que, desde o ano de 2004, a unidade executora
da Lei n. 9150/2004 resolveu apenas 0,065 dos trâmites requeridos. Dos
28.133 expedientes iniciados, 24.898 correspondem ao âmbito urbano
e 3.235 pertencem ao âmbito rural. Na entrevista com os funcionários
atuais são tomados os seguintes dados: do total dos trâmites ingressa-
dos, apenas 32% são viáveis, ou seja, continuam tramitando. Os outros
68% são arquivados ou suspensos. Segundo explicam os funcionários,
as maiores causas dos arquivamentos são a existência de um processo
judicial iniciado sobre a propriedade e/ou a falta de dados e a solicita-
ção de registros sem a apresentação de provas de propriedade, entre as
mais importantes.10 Os dados referentes ao funcionamento da unida-
de executora permitem afirmar que a política de saneamento de títulos
orienta-se preferencialmente para os setores urbanos pobres, de modo
que a política pública aplicada é insuficiente e ineficiente para resolver a
problemática com o caráter geral que ela apresenta nas zonas rurais da
província.

9 Apresentação desenvolvida no Encontro Nacional sobre: “Apoio a Gestão Institucional para Facilitar
o Acesso a Terra e Serviços Básicos, com fins de Seguridade e Soberania Alimentar e de Uso Susten-
tável dos Recursos do INTA”. Pedido de Informes Expediente: 0160/L/08 – Leg. Adela Coria – Pedido
de Informes Expediente: 1228/L/08 – Leg. Adela Coria – Pedido de Informes Expediente: 0845/L/08
– Leg. Nadia Fernández.
10 Entrevista realizada com o presidente e o coordenador da Unidade Executora de Saneamento de
Títulos da província, em 15 de outubro de 2010.
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A atuação do Estado na defesa dos princípios da propriedade


privada capitalista: o caso do Pontal do Paranapanema (Brasil)
e a irregularidade estrutural da posse da terra

A característica estrutural da atuação do Estado no Pontal do Pa-


ranapanema também vista a partir do seu aparato judicial é marcada pela
postura de assumir a responsabilidade da resolução da questão agrária, e a
tentativa da repressão política dos conflitos é uma decisão majoritária, como
identificam as sentenças judiciais. Estas comungam com os interesses de ma-
nutenção do latifúndio e a expansão do agronegócio, tanto em Córdoba como
no Pontal do Paranapanema. É importante retomar as reflexões realizadas
em outros trabalhos (SOUZA, 2011b)11 sobre o conceito de criminalização,
judiciarização e repressão, haja vista as particularidades de cada termo desde
sua conceituação no Direito Agrário, na Sociologia Agrária até as divergên-
cias paradigmáticas expressas no debate da Geografia Agrária atual sobre a
questão agrária, em que a tentativa de repressão política pelos processos judi-
ciais criminais se insere. Antes, deixa-se claro que as condições democráticas
de acesso aos direitos assegurados constitucionalmente não abrangem histo-
ricamente a demanda dos camponeses, como está explícito nas ocupações de
terra pelo latifúndio e pelo agronegócio, o que denuncia o descaso para com
o Capítulo III – Da Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária – do
Título VII – Da Ordem Econômica e Financeira – de nossa Carta Magna.
O diálogo com outras áreas do conhecimento começou pela con-
cepção do Direito clássico, que não expressa condição efetiva de se assentar
numa cultura jurídica democrática por duas razões contundentes: a distân-
cia entre o direito formalmente concedido aos cidadãos e as práticas sociais
que impunemente o violam e excluem os camponeses. Estes, insatisfeitos, se
organizam, reclamam coletivamente contra a impunidade e partem para a
resistência (SANTOS, 2007). Entendia-se que o Poder Judiciário havia en-
contrado uma forma para, ao longo do século XX, figurar como instrumento
e/ou aparato burocrático do Estado, mas ele se sujeitou ao controle do Poder
Executivo, conforme Santos (2007), e acabou, no decorrer do processo de luta
pela terra, se politizando e assumindo parte do protagonismo de seu desfecho.

11 Como o trabalho completo apresentado na XII Jornada do Trabalho de 2011. Disponível em: http://
www4.fct.unesp.br/ceget/ANAISXII/GT2/TRABALHOS/GT_2_40_Rubens_dos_Santos.pdf .
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 73

O debate atual sobre a questão agrária pressupõe que os proces-


sos judiciais criminais derivam da tomada de decisão de transferência
de responsabilidade da política agrária nacional para o Poder Judiciário.
A questão que se propõe é que, paralelamente aos sistemas hegemônicos,
que dinamizam a economia do capital, sustenta-se uma economia baseada
na unidade familiar, que desenvolve suas atividades produtivas com base
em relações não assalariadas, o que implica uma leitura mais abrangente
do que a que considera apenas o fenômeno econômico capitalista e seus
desdobramentos, como a renda da terra e o salário (CHAYANOV, 1981).
Emergia-se a necessidade de discutir as economias distintas da capitalis-
ta, em virtude de se desenvolverem e se disseminarem em outros espaços,
sem haver, até então, teoria sistematizada sobre o assunto, o que devia ser
preocupação da ciência para apontar a morfologia das distintas economias
que se expressam no decorrer histórico. Na economia camponesa familiar,
em contraste com o modelo hegemônico de desenvolvimento econômico
baseado no latifúndio e no agronegócio, a renda obtida, com base na pro-
dução anual da unidade familiar, amplia suas condições de permanência
na terra, ao passo que a renda da economia capitalista vincula-se ao salário
e à exploração da força de trabalho. Esse quadro pressupõe uma disputa
territorial entre modelos distintos de apropriação da terra.
Nessas disputas, na atualidade da questão agrária, empregam novos
elementos, como a repressão política, representada por processos judiciais
criminais. O processo judicial pressupõe a manifestação das formas de ex-
ploração econômica compatibilizadas com os interesses elementares e an-
tagônicos dos trabalhadores rurais e do latifúndio e agronegócio (STRO-
ZAKE, 2000). Assim, os processos judiciais podem ser entendidos como a
tomada de decisão e transferência de responsabilidade da política agrária
nacional – acerca da disputa territorial e de modelos de desenvolvimen-
to entre camponeses e o latifúndio/agronegócio – para o Poder Judiciário.
Alguns elementos acentuam a realidade repressiva e de disputa territorial,
como o avanço do agronegócio da cana-de-açúcar para a produção majo-
ritária de agrocombustíveis no Pontal do Paranapanema sobre o território
camponês. Esse fenômeno constitui uma mudança significativa na estrutu-
ra agrária regional e gerou um aumento do número de ocupações de terra
(GONÇALVES; FERNANDES; WELCH, 2011). Aqui também se correla-
ciona a não realização de reforma agrária em âmbito nacional, que priori-
74 |

zaria a execução de regularizações de terras, majoritariamente, na Amazô-


nia, descentralizando-as das áreas de maiores conflitos, como o Pontal do
Paranapanema. Isso também pressupõe uma possibilidade de espacializa-
ção dos processos judiciais criminais. É o que comprova o fato de nenhum
assentamento ter sido criado no Pontal do Paranapanema em 2008 (REDE
DATALUTA, 2009).
A análise foi necessária em virtude do acúmulo de fatos histórico-ge-
ográficos que ainda não haviam sido trabalhados na perspectiva de supera-
ção dos processos judiciais criminais, desencadeados para reprimir a ação
dos movimentos socioterritoriais que fazem das ocupações de terra seu
trunfo na luta pela reforma agrária. E refletiu-se sobre as formas e os con-
teúdos assumidos pelo controle social, partindo-se do conceito de crimi-
nalização usualmente empregado tanto pelos movimentos socioterritoriais
quanto pelo Poder Judiciário. Concluiu-se que o Poder Judiciário comunga
com os interesses do latifúndio e do agronegócio e aplica e materializa suas
ações em ocorrências de restrição à ação dos movimentos camponeses,
pela sua penalização, concessão de liminares e decretação de prisões de tra-
balhadores e de seus coordenadores (ARAÚJO, 2005). A outra elaboração
conceitual com que se dialogou, ainda sobre a orientação do Direito Agrá-
rio, é aquela que determina a criação de uma cultura jurídica que aponta os
camponeses sem terra organizados, a partir de sua própria condição social,
como perigosos e tendentes a praticar crimes. Tal elaboração se processa
por meio de informações disseminadas de forma contundente pelos veícu-
los midiáticos hegemônicos (ALFONSIN, 2008).
Na sequência dessas reflexões sobre o conceito de criminalização,
deparou-se com obras realizadas a partir de relações sociais estabelecidas,
que colocam a propriedade da terra como elemento concreto e motivador
de reações autoritárias do Estado, a partir da utilização de novas estratégias,
ainda violentas, desde a redemocratização do País (SAUER, 2010). O apri-
moramento das práticas violentas de coerção do Estado no trato da questão
agrária é conceituado aqui como a criminalização dos movimentos de orga-
nização camponesa. Esta se baseia na tentativa de transformar a luta pela ter-
ra em práticas de violação das leis, em atos ilegais e consolidação de crimes,
como, por exemplo, a acusação aos movimentos socioterritoriais de forma-
ção de quadrilha pelo Poder Judiciário em vários estados do Brasil (SAUER,
2010). O processo de criminalização a partir dessa reflexão é visto como:
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 75

Uma violência, mas é também um aprimoramento ou sofisticação dessa


mesma violência, possuindo características particulares. A força bru-
ta (policial ou miliciana) e a violência direta e explícita (assas­sinatos,
ameaças de morte, despejos violentos etc.) vêm sendo complementadas
por mecanismos mais sofisticados de repressão das demandas sociais.
De um lado, estes mecanismos não têm o mesmo grau de rejeição da
sociedade como acontece com a violência aberta e, de outro, retira a
legitimidade e a eficácia das ações populares (SAUER, 2011, p. 150).

Com base nesses termos de Sauer (2011) é possível identificar a


imprescindibilidade de se caracterizar e analisar a sofisticação e a di-
versificação do controle social realizado pelo Estado por meio da es-
pacialização da repressão política por processos judiciais criminais em-
pregados aos movimentos socioterritoriais. Entretanto, ainda sobre essa
leitura, a ação dos parlamentares do Congresso Nacional, na tarefa de
criminalizar as bandeiras históricas no processo de espacialização de
luta pela terra, como a reforma agrária, assume, no início deste sécu-
lo, uma abrangência descomunal e brutal por meio da consolidação de
Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito (CPMIs), como é o caso
da CPMI da Terra, entre 2003 e 2005 (SAUER, 2010). Os atos dessa co-
missão constituem um retrocesso no processo de participação política
dos movimentos socioterritoriais na definição de seu modelo alternativo
e fundamental de desenvolvimento para o campo brasileiro, haja vista
também o significado incorporado pela mídia hegemônica na dissemi-
nação dos resultados dessa CPMI, que considera crimes hediondos e
atos terroristas as ocupações de terra.
A trajetória de luta pela terra na região de Bauru (SP) desencadeou
a implantação da CPMI do MST, no ano de 2010. O objetivo da ocupação
realizada em outubro de 2009 era denunciar que a Fazenda Capim, entre
os municípios de Iaras, Lençóis Paulista e Borebi, está em terra grilada,
de propriedade da União, e foi utilizada ilegalmente durante cinco anos
pela corporação do agronegócio Cutrale (REDE BRASIL ATUAL, 2011).
A denúncia foi rechaçada pela maioria dos parlamentares, que instauraram
a CPMI do MST em 2010 (PAHNKE, 2011). Os objetivos eram: apurar as
causas, condições e responsabilidades relacionadas a desvios e irregulari-
dades verificados em convênios e contratos realizados entre a União e or-
ganizações ou entidades de reforma e desenvolvimento agrários; investigar
o financiamento clandestino e a evasão de recursos para invasão de terras;
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analisar e diagnosticar a estrutura fundiária agrária brasileira e, em espe-


cial, a execução da reforma agrária (SAUER, 2010).
Outra perspectiva do debate conceitual que indica a judiciarização
em meio ao processo de espacialização da luta pela terra realizada pelos
movimentos socioterritoriais, que se dá em concomitância com a reestru-
turação produtiva imposta pelo capital na virada para o século XXI, exigin-
do uma leitura da questão do trabalho, a partir da sua organização, que, de
forma combinada e com escalas distintas, se reproduz no Pontal do Para-
napanema (THOMAZ JÚNIOR, 2003).
A significativa mudança na estrutura agrária regional, marcada pela
territorialização do agronegócio da cana-de-açúcar para a produção ma-
joritária de agrocombustíveis no Pontal do Paranapanema em território
camponês, associada a fatos relacionados por Souza (2011b),12 contribuiu
para o agravamento da conflituosidade entre camponeses, de um lado, e
latifundiários e o agronegócio, do outro, no Pontal do Paranapanema. Essa
mudança se deu pela supressão do modelo alternativo e fundamental de
permanência na terra de valores, costumes, tratos culturais preventivos e
fundamentos da base de existência camponesa. Esse fenômeno é calcado
na judiciarização da luta pela terra como forma de viabilizar o projeto de
sociedade centrado na valorização de capital (THOMAZ JÚNIOR, 2003).
Ao caracterizar e analisar os processos judiciais criminais emprega-
dos aos movimentos socioterritoriais, este estudo recorreu à primeira ocu-
pação de terra realizada pelo MST na região (FERNANDES, 1999), fato
emblemático quando do processo de territorialização do MST na região e
da concomitante construção de uma cultura jurídica de ocorrência do pro-
cesso de judiciarização de luta pela terra. O primeiro caso digno de menção
foi o da Associação dos Proprietários Rurais do Pontal do Paranapanema,
entidade da elite agrária local, formada em 1992, num período em que a
União Democrática Ruralista – que em tese seria a entidade que assegura-
ria o direito primordial da propriedade da terra – não atendia ao interesse
de um expressivo número de proprietário de terras (FERNANDES, 1999).
Neste caso, a territorialização do processo de luta pela terra desencadeou
os primeiros processos de judiciarização no Pontal do Paranapanema. Esse

12 Relatório final de iniciação científica: http://www2.fct.unesp.br/nera/projetos/


relatorio_rubens_souza_2011b.pdf.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 77

fato significou o desencadeamento dos processos combinados e comple-


mentares, o de espacialização de luta pela terra e o de territorialização da
repressão política, a partir dos processos judiciais criminais movidos contra
os movimentos socioterritoriais. Em 22 de julho de 1992, o Poder Judiciá-
rio de Mirante do Paranapanema concedeu um mandado de prisão preven-
tiva, pedido pelo Promotor de Justiça Júlio Antônio Sobottka, contra oito
militantes coordenadores do MST, acusando-os de formação de bando e
quadrilha, processo que não se materializou, visto o aceite, pelo Tribunal
de Justiça, do pedido de habeas corpus impetrado pelo advogado do MST,
Aton Fon Filho (FERNANDES, 1999). Outro fato de extrema relevância foi
a prisão, em 30 de outubro de 1995, de José Rainha Júnior, Diolinda Alves
de Souza, Márcio Barreto e Laércio Barbosa, todos na época militantes do
MST, decretada pelo Poder Judiciário de Pirapozinho, com base no artigo
288 do Código Penal. Essa prisão marcou o início do processo de judiciari-
zação no Pontal do Paranapanema. A acusação sobre eles foi de formação de
quadrilha ou bando (FERNANDES [b], 1999). A proposição teórica cons-
truída pelas reflexões realizadas durante os anos, nas reuniões de orienta-
ção e nos colóquios do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma
Agrária (Nera), sobre a repressão política dos processos judiciais criminais
pode ser expressa a partir de paradigmas diferenciados das relações sociais
no campo.
Há uma concepção, construída sobre o Paradigma do Capitalismo
Agrário (PCA), que propõe uma abordagem legalista da atuação dos mo-
vimentos socioterritoriais no Pontal do Paranapanema (FELÍCIO, 2010).
Construída à base do não entendimento dos camponeses como sujeitos
que se organizam, propõe práticas políticas distintas e territorialidades an-
tagônicas, materializando-se a repressão por meio dos processos judiciais
criminais (SOUZA; FERNANDES; PEREIRA, 2010). Por seu turno, Felício
(2010) propõe o Paradigma da Questão Agrária (PQA), uma concepção
que progride para a construção da base de compreensão de que as ações
diretas dos movimentos socioterritoriais não devem ser reprimidas, pois
as compreende como uma questão não resolvida. Essa concepção supera
a visão adotada pelas decisões majoritárias dos magistrados nos proces-
sos judiciais criminais sobre a questão agrária (FERNANDES; PEREIRA;
SOUZA, 2010). As decisões advindas do Poder Judiciário em sentenças
de primeira instância, nas matérias que tenham no seu horizonte a luta
78 |

pela terra dentro do período de 1990 a 2009, podem ter entendimentos


diversos. Que essas decisões sejam uma tentativa de repressão política dos
camponeses é um possível entendimento, haja vista que, entre os processos
criminais consultados, nem todos encerraram determinada conflituosida-
de territorial, afirmando a consolidação dos interesses dos latifundiários
e do agronegócio a partir dos recursos impetrados pelos advogados que
orientam os movimentos camponeses. Outro entendimento que considera
as decisões um fato político-jurídico ganha mais espacialidade, evidência
e fundamento por conta daquelas decisões majoritárias nos onze fóruns e/
ou comarcas do Pontal do Paranapanema que, em suas resoluções, comun-
gam com os interesses do latifúndio e do agronegócio. A espacialidade da
repressão política, considerada uma forma sofisticada e alternativa de con-
trole social no processo de luta pela terra desencadeada pelos movimentos
camponeses, extrapola a composição e a escala de atuação dos onze fóruns
e/ou comarcas do Pontal do Paranapanema. Alcança, ainda, outras mani-
festações dos movimentos camponeses, como a realização de ocupações
de terra e prédios públicos, que são alvos de processos criminais movidos
pelos latifundiários e pelo agronegócio. A espacialidade da repressão polí-
tica tem algo de mais sofisticado. Trata-se da parcela de poder ‒ limitado
geograficamente ‒ e espacialidade que cada juiz possui (SOUZA, 2011b).
Um fato ocorrido na área de jurisdição de um fórum e/ou comarca
só pode ser julgado pelo juiz desse mesmo fórum e/ou comarca. O juiz de
Presidente Bernardes não pode julgar um fato ocorrido em Presidente Pru-
dente e vice versa. Isso também se manifesta nos atos processuais – depoi-
mento de testemunhas de defesa e acusação ‒, no recebimento de denúncia
do Ministério Público, nas prisões preventivas etc. Um juiz de Presidente
Prudente não pode determinar a realização de um ato processual em outra
comarca. Entretanto, por conta da espacialização do processo de luta pela
terra, pode ocorrer que, em uma determinada matéria, um ou outro ato pro-
cessual incida sobre outra comarca. Também se pode elucidar a dimensão
espacial da repressão política a partir da representação dos 368 processos
criminais a que se teve acesso nos onze fóruns e/ou comarcas do Pontal do
Paranapanema. Com essa intenção, elaborou-se a representação do mapa
da Figura 2, em que se representa a quantidade de processos judiciais crimi-
nais sistematizados nos onze fóruns e/ou comarcas com sede no Pontal do
Paranapanema, que tenham a luta pela terra como matéria, e os movimen-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 79

tos camponeses e as pessoas envolvidas como sujeitos dessa historicidade,


compreendida entre os anos de 1990 e 2009. Cabe ressaltar que o fórum e/
ou comarca de Teodoro Sampaio possui o maior número de processos judi-
ciais criminais movidos contra militantes dos movimentos socioterritoriais
e pessoas envolvidas no processo de luta pela terra, com aproximadamente
80% da totalidade dos processos acessados no período. Todos os sujeitos
identificados na pesquisa têm alguma sentença nesse fórum e/ou comarca.

Figura 2: Mapa do Pontal do Paranapanema – Geografia da repressão na luta pela


terra: pessoas envolvidas.
80 |

A atuação do Poder Judiciário e o uso da força coercitiva do Estado nos


conflitos territoriais: aumento da repressão aos movimentos campesinos
na Argentina e no Brasil

No contexto caracterizado pela expansão do capital no campo, este


trabalho analisa como incide a atuação do Estado e do Direito por meio da
descrição dos fatores que interagem nesse processo, a situação estrutural
de irregularidade na propriedade/posse da terra. Segundo dados revelados
e informes oficiais, 70% dos produtores campesinos localizados nas áreas
marginais para a produção em escala, no Chaco Árido Serrano, não pos-
suem títulos sobre as terras em que produzem (ROMANO, 2009; 2010);
em algumas zonas, esse percentual é ainda maior.13 Analisaram-se a relação
existente entre a falta de políticas públicas sociais que regularizam a pro-
priedade da terra e a repressão seletiva aos campesinos que resistem à ex-
pansão do capital. Partiu-se do pressuposto de que existe uma relação entre
o sistema produtivo e o sistema judicial e considerou-se especialmente sua
função de controle social a partir do aumento da criminalização dos seto-
res pobres do campo quando eles reagem em defesa da terra (ROMANO,
2010). Neste contexto, a penalização da defesa da terra é vista como conse-
quência do Estado neoliberal, que redefine seu perímetro e modalidade de
ação: restrito no econômico e social e expandido na matéria policial e penal
(ROMANO, 2010).
Em relação às mudanças e transformações observadas, perguntou-
se como incide, nesse contexto, o aumento da repressão aos camponeses
nos conflitos territoriais, a quem isso beneficia, a quem prejudica e como
a repressão se relaciona com a expansão do capital. A fim de relacionar
esse processo com a atuação do Poder Judiciário nos conflitos territoriais,
descreveu-se a legislação penal sobre ocupação e analisaram-se as práti-
cas judiciais na interpretação e aplicação do Direito. Observaram-se, tam-
bém, graves distorções legais nas interpretações que realizam as agências
judiciais penais. A ocupação, segundo a legislação penal, é um delito e “a
conduta típica consiste em alienar um imóvel – parcial ou totalmente – o

13 Na zona rural de La Rinconada, localizada no Departamento Rio Seco, em uma superfície de 28


mil hectares, aproximadamente 87,5% dos posseiros não são titulares dominiais do imóvel em que
produzem. Isso denota uma situação estrutural generalizada nestas paisagens rurais, cuja reversão é
possível por meio de políticas públicas de regularização dominial, com base na Lei n. 24.376, Políti-
cas Públicas de 1994, conhecida como Lei Pierri, por exemplo.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 81

seu proprietário e/ou titular” (ROMANO, 2010). Há o esclarecimento de


que a ação violenta e a ameaça objetiva ou subjetiva devem orientar-se
com o fito de perturbar a posse ou a propriedade. O pressuposto da alie-
nação é a existência de uma posse, propriedade ou direito real que se ma-
nifesta como propriedade ou posse: “a conduta do agente está canalizada à
alteração de toda passividade pela mediação da violência em qualquer de
suas formas” (ROMANO, 2010). Mencionam-se como sujeitos do delito
os seguintes:

1) Sujeito Ativo ou Autor é a pessoa que com violência ou clandestinidade


invade ou perturba parcial ou totalmente um imóvel;
2) Sujeito Passivo ou Vítima é a pessoa que se encontra pacificamente na
propriedade ou posse de um imóvel e tem sua propriedade perturbada
por outrem.

O bem jurídico protegido tem estabilidade – o proprietário (quem


exerce a posse física do imóvel em nome de um terceiro proprietário), a
posse (segundo o Código Civil tem a posse quem exerce uma relação fí-
sica com o imóvel sem reconhecer outro titular), o portador (tem posse
porque possui, art. 2523 do Código Civil Argentino), e/ou é proprietário
de qualquer direito real que tenha uma relação física com o imóvel. Nesses
conflitos, aumenta-se a dúvida acerca da titularidade do domínio resultante
da proteção pelo delito.
A esse respeito, Núñez argumenta que: “Resulta indiferente o exame
da legitimidade ou ilegitimidade do título que confere o direito a ter ou
possuir o imóvel ou para a posse do direito real” (NUÑEZ apud ROMA-
NO, 2010 p. 79).
A doutrina penal é unânime em considerar, no caso de bem jurídico
protegido, a relação física (posse, propriedade) entre uma pessoa e um imó-
vel, independentemente da abstração do exercício do direito de propriedade.
Para enquadrar os conflitos territoriais analisados no contexto de judiciari-
zação penal da propriedade da terra, realizou-se um levantamento de de-
núncias de ocupação durante o período compreendido entre os anos de 1988
e 2008 e analisaram-se suas variações na Jurisdição de Dean Funes. Poste-
riormente, complementou-se com informações obtidas do levantamento das
sentenças de ocupações na Câmara Penal da mesma circunscrição. Em 1988,
82 |

houve três denúncias de ocupações e, de forma correlata com a expansão


da fronteira agropecuária, em 2008 se registraram 49 denúncias de ocupa-
ções. Nesse período, o expressivo aumento de 1.600% nas denúncias reflete a
importância assumida pelas disputas territoriais na região. Complementa o
estudo das denúncias a revelação das sentenças de ocupação durante o mes-
mo período. Perguntou-se sobre as características das pessoas perseguidas
por cometerem delitos de ocupações, aquelas pessoas que foram extraídas
das descrições contidas nas sentenças. Entre os anos de 1988 e 2008 foram
encontradas 68 sentenças de ocupações nos dados da Câmara Penal de Dean
Funes, das quais 53 – ou seja, aproximadamente 77% – correspondem a cau-
sas relacionadas a ocupações rurais, portanto, a principal nessa circunscrição
judicial.
O número de causas de ocupações que chegou à Câmara Penal au-
mentou significativamente nesse período. Os dados revelam que os julga-
mentos de ocupações nesse tribunal, no período de 1998 a 2000, tiveram
um crescimento marginal. A partir de 2001, começou a aumentar paulati-
namente até alcançar 17 julgamentos por ocupação no ano de 2005, o que
equivale a um aumento de 1600%. Observou-se um incremento coincidente
nas instâncias penais. Dos 69 imputados penalmente por ocupação, 47 –
68% – eram pessoas de escassos recursos e 22 – 32% – de classe média:
advogados, veterinários, contadores, produtores agropecuários. Entre estes
últimos, observou-se abuso de poder, melhor nível de escolaridade, con-
dições de contratar advogados para a defesa de seus direitos, entre outras
características.
Entre as pessoas acusadas, 71% têm relação física com o imóvel
objeto de julgamento, são oriundas das zonas rurais e dispõem de es-
cassos recursos. Esses dados chamam a atenção e conduzem críticas à
atuação dos tribunais desde as teorias interacionistas e fenomenológicas
de estigmatização social (ROMANO, 2010). Tais teorias argumentam
que o crime é criado em nossas sociedades por agências de controle
social, que relativizam a ideia da infração à lei como uma razão para o
processo criminal.
As agências policiais e judiciais, com o apoio da ideia difundida
pelos meios de comunicação, reproduzem seu “público ou clientela” pelo
processo seletivo e condicionante, criminalizando setores determinados
da sociedade. Assim, os infratores da lei penal são pessoas pobres, de de-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 83

terminadas características físicas, que se dedicam a trabalhos informais e


precários. Essas características definem o sujeito como delinquente. Todo
um processo de socialização dessa ideia nas agências policiais e na socie-
dade predispõe uma sociedade paranóica contra determinados sujeitos e
não contra qualquer sujeito que realize um ato tipificado como delito. Os
trabalhos acerca da crise de legitimidade do sistema penal na América
Latina confirmam a existência de arbitrariedade, autoritarismo e seletivi-
dade/discriminação na atuação das agências judiciais penais (ROMANO,
2010). O cenário descrito permite afirmar que, ante o avanço do capital
no campo, se acrescentou uma tendência à repressão seletiva de pessoas
pobres nos conflitos territoriais. Observou-se criticamente que o direito
penal segue pensado e dirigido majoritariamente a um público infrator da
lei em nossa sociedade: o setor mais pobre e vulnerável. Estamos diante
de uma política criminal dirigida ao público perigoso e atentatório aos
interesses hegemônicos do capital (ROMANO, 2010). Desde as teorias crí-
ticas do Direito Penal (BECKER, 1973; BERGER; LUCKMAN, 1986; ZA-
FFARONI, 2003; ROMANO, 2010), afirma-se que as agências de aplicação
judiciais “criam” o público infrator da lei; as teorias da estigmatização so-
cial vêm demonstrando amplamente esses princípios. A análise do público
majoritariamente perseguido por cometer delitos de ocupação conduz à
conclusão de que é o sistema judicial que determina o público a ser perse-
guido, e não os atos de infração às leis. O que determina o movimento de
perseguição penal são os preconceitos sociais acerca de quem comete de-
litos. Não é fato que o sistema penal persegue da mesma forma a todos os
que violam a lei. Esse mito deve ser criticado desde as práticas concretas.
A situação de inseguridade da posse da terra prejudica a sociedade em seu
conjunto, mas, como se observa nos julgamentos até o ano de 2004, 86%
das pessoas condenadas por cometerem delito de ocupação rural dispõem
de escassos recursos e residem no campo. Essas características evidenciam
uma perseguição pela prática de delito em grande parte aos camponeses
pobres. A análise detalhada dos julgamentos e a leitura sistemática das
sentenças evidenciam que as agências judiciais penais operam com alto
nível seletivo do público infrator da lei e têm perseguido os setores mais
vulneráveis, não aplicando o mesmo critério quando do julgamento de
delitos econômicos explicitamente constatados nos processos, que não in-
citam qualquer imputação penal.
84 |

Conflitos territoriais e criminalização do protesto

Esse contexto econômico, caracterizado pela alta concentração de


terra e expulsão/deslocamento do campesinato, tem sua correlação nas po-
líticas judiciais. A análise da relação entre as resistências e reivindicações
das famílias campesinas posseiras, organizadas no Movimento Campesino
de Córdoba (MCC), e as políticas de controle social do Estado conside-
ram que existe uma política judicial que se mostra funcional ao sistema
hegemônico, como a criminalização da resistência das famílias campesinas
organizadas em defesa de suas terras. No caso da província de Córdoba,
verifica-se que mais de 10% dos membros do MCC se encontram impu-
tados por exercer a defesa de suas terras.14 Essa informação é confirmada
pelo Informe da Missão FIAN durante o ano 2004 para o caso de Córdoba,
em que expressa as inúmeras denúncias de criminalização das lutas e dos
protestos sociais, o que demonstra que as autoridades estatais fazem uma
análise equivocada do problema da província e, por isso, dão respostas er-
rôneas, conforme relata nestes termos:
Em relação ao caso verificado em Córdoba, a Missão considera
que o governo da Província de Córdoba falha no cumprimento de sua
obrigação de proteger, garantir e respeitar: “proteção” porque permite
que os capitalistas do campo usurpem as terras dos campesinos; “res-
peito” porque, em muitas ocasiões, autoridades estatais do poder exe-
cutivo e do poder judiciário se envolvem direita ou indiretamente nas
violações de direitos humanos e “garantia” porque o governo não conta
com um programa claro com metas e prazos para solucionar o problema,
demonstrando que não existe vontade política para regularizar as terras
dos camponeses do norte do Córdoba (FIAN INTERNATIONAL apud
ROMANO, 2010, p. 19-20).

14 As fontes judiciais em que se baseia essa relação de criminalização são as seguintes ações criminais:
“ALLENDE JUAN MEDARDO e outros, acusados de Danos Qualificados”: 11 imputados penais;
“AREVALO GRACIELA DEL VALLE e outros, acusados de Ocupação”: 8 imputados penais; “GO-
DOY ALCIRA OCTAVIANA e outros, acusados de Impedimento Funcional”: 3 imputados penais;
“DIAZ PEDRO BENITO e outros, acusados de Perturbação de Posse”: 7 imputados penais; “BUSTA-
MANTE ROBERTO, acusado de Roubo”. 3 imputados penais. “ORTIZ e outro, acusados de Ocupa-
ção”: 4 imputados penais. “ORELLANO DE BUSTAMANTE e outros, acusados de Ocupação”: 7 im-
putados penais; 4 imputados penais. “NUÑEZ CLAUDIO RUBÉN e outros, acusados de Ocupação”:
3 imputados penais. “CALDERÓN IVAN e outros, acusados de Ocupação”: 3 imputados penais,
entre outros. Todas as causas estão radicadas nos tribunais do interior da província, jurisdição de
Dean Funes, Cruz Del Eje e Villa Dolores.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 85

Existe uma continuidade entre a política agroexportadora, consequ-


ência da nossa dependência do mercado mundial globalizado, e as políti-
cas de tolerância zero, socializadas e difundidas desde os centros de poder
mundial para os países periféricos (ROMANO, 2010). As relações desi-
guais de intercâmbio na esfera mundial entre os países se reproduzem nas
estruturas internas da província. Por meio das políticas de criminalização
da pobreza e da defesa da terra, abrem caminho à expansão do capital, fa-
vorecendo os interesses hegemônicos e desalojando as famílias campesinas
de suas terras. Em uma relação direta com a criminalização, por parte do
governo, da defesa do território campesino, há referência de que:

O objetivo do governo com o seu programa é controlar a luta dos tra-


balhadores rurais em um determinado espaço político, o espaço do ca-
pital. Essa é uma ação estratégica do Governo, porque atinge princípios
e tenta aniquilar os valores de uma instituição histórica que é o campe-
sinato. As teses elaboradas pelo grupo de inteligência do governo que
defendem a integração subserviente do campesinato ao capital contri-
buem para facilitar esse aniquilamento. Assim a expropriação dos tra-
balhadores rurais não é somente resultado da lógica desigual do capital,
mas também das teorias que possibilitam a elaboração de políticas para
ativar esse processo. Com essas políticas, o governo tornou-se o maior
adversário do MST (FERNANDES, 2001, p. 18).

Isso é verdade, ressalvadas as diferenças de magnitude e o alcance da


experiência histórica do MST como movimento social a respeito dos movi-
mentos campesinos na Argentina. Para o caso dos campesinos organizados
no Movimento Nacional Camponês e Indígena (MNCI), observa-se que se
registra um notório aumento da criminalização dos conflitos pela defesa da
terra, ordenando – desde as políticas criminais dirigidas pelo governo – a
sua penalização. É relevante que mais de 10% de seus membros, no caso
de Córdoba, se encontrem submetidos a algum tipo de processo penal por
exercerem resistência em defesa da posse da terra. Essa situação não é ex-
ceção na província, pois a mesma política criminal é aplicada em outros
estados provinciais com organizações camponesas de Mendoza, Santiago
del Estero,15 Misiones, Salta e Jujuy, entre outras. A elaboração do quadro

15 O caso da criminalização dos campesinos que integram o MOCASE tem sido analisado por Barbetta
(2005) e Domínguez (2005).
86 |

territorial do Poder Judiciário no Pontal do Paranapanema possibilitou aos


autores ampliar sua compreensão sobre a atuação do judiciário no julga-
mento de processos criminais contra os movimentos camponeses em meio
ao processo de luta pela terra. Assim, reorganizaram-se os dados no Quadro
3, que associa os fóruns e/ou comarcas e suas respectivas espacialidades mu-
nicipais com a quantidade de processos criminais a que se teve acesso e in-
clui os movimentos camponeses, as pessoas envolvidas e as instituições que
sofreram a tentativa da repressão política por meio de processos criminais.

Quadro 3: Territorialização do Judiciário, processos criminais e luta pela terra –


1988 a 2008.

MUNICÍPIOS E MOVIMENTO SO-


PROCESSOS
FÓRUM DISTRITOS CIOTERRITORIAL/
CRIMINAIS
E/OU COMARCA QUE COMPÕEM O INSTITUIÇÕES E
POR FÓRUM
FÓRUM PESSOAS ENVOL-
E/OU COMARCA
E/OU COMARCA* VIDAS

Iepê Iepê e Nantes Não identificadas N/I N/I

Martinópolis,
Indiana,
Martinópolis N/I N/I
Guachos (distrito) e
Tecaindá (distrito)
Mirante do Paranapa-
nema,
Mirante MST,
Cuiabá Paulista
do Paranapanema MST DA BASE e 14
(distrito) e
N/I
Costa Machado
(distrito)
Pirapozinho, Estrela
do Norte,
MST,
Narandiba, Tarabaí e
Pirapozinho MST DA BASE e 8
Itororó do
N/I
Paranapanema
(distrito)

Presidente Bernardes,
MST e
Emilianópolis,
Presidente Bernardes N/I 8
Araxes (distrito) e
Nova Pátria (distrito)

MAST, MST DA
Presidente Epitácio Presidente Epitácio 21
BASE e N/I
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 87

Presidente Prudente,
Sandovalina,
Alfredo Marcondes,
Álvares Machado,
Anhumas,
MST DA BASE e
Santo Expedito,
Presidente Prudente N/I 3
Ameliópolis (dis-
trito),
Eneida (distrito),
Floresta do Sul
(distrito), Montalvão
(distrito)

Presidente Venceslau,
Presidente Venceslau MST e
Caiuá e 1
MST DA BASE
Marabá Paulista

Quatá João Ramalho N/I N/I


Rancharia, Agissé
MST e
Rancharia (distrito) e 6
N/I
Gardênia (distrito)
Regente Feijó, Caia-
bu, Taciba,
Espigão (distrito),
Regente Feijó MST DA BASE N/I
Boa Esperança d’Oes-
te (distrito)
e Iubatinga (distrito)
Santo Anastácio,
NÃO ALIADO e
Santo Anastácio Piquerobi e 7
N/I
Ribeirão dos Índios

Teodoro Sampaio, ALIADOS, ITESP,


Rosana e MAST, MST,
Teodoro Sampaio 269
Euclides da Cunha MST DA BASE,
Paulista. NÃO ALIADO e N/I

* Conforme a Lei n. 8.092, de 28 de fevereiro de 1964 (SÃO PAULO, 1964).


FONTE: São Paulo, 1964; Souza, 2012 e Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo, 2012. Org.: Rubens dos S. R. de Souza, 2011.

Interessa a esta pesquisa analisar como os sistemas de governo têm


recorrido historicamente à criminalização da pobreza e aos protestos como
forma de Política Criminal.16 No contexto atual de intensa expansão capi-
talista sobre os territórios camponeses, as concepções de desenvolvimento,
progresso e modernização exercem a função de apoio ou de sujeito absolu-

16 Para maior informação sobre repressão a protestos na Argentina, ver Gargarella (2001; 2005), Zaffa-
roni (2003), CELS (2001; 2002), entre outros.
88 |

to (ROMANO, 2010). Em razão disso, legitima-se o processo de desapro-


priação das terras dos camponeses e sua transformação em assalariados
rurais, desapropriados do meio de produção: a terra (ROMANO, 2010).
Importa neste trabalho não só reafirmar que o governo provincial re-
corre à penalização de conflitos para os mitigar, mas também problematizar
como exerce este poder para o fim de sua legitimação perante a sociedade.
Nessa linha argumentativa, é inevitável a referência ao que se tem chamado
de “Tendência Global à ‘Judicialização’”, expressão utilizada para caracterizar
o desaparecimento das fronteiras entre o político e o jurídico (SANTOS, 1991;
GARGARELLA, 2001; CAPELLA, 2006). O neologismo “judicialização” sig-
nifica que um tratamento judicial tende a substituir um modo anterior de re-
gulação social. São cada vez mais difusos os limites entre direito e política, e os
conflitos políticos têm sido resolvidos juridicamente (ROMANO, 2010). Isso
se observa na atual “penalização” da vida política que afeta nossas democra-
cias, especificamente na criminalização de integrantes de organizações sociais,
assembleias locais e movimentos campesinos, para o caso deste estudo, cri-
minalizando seus atos de protesto e reivindicações de direitos como delitos.17
Com nome parecido, porém com significado distinto, a judiciarização com-
preende a atuação do Judiciário que, com base no Código Penal, tenta barrar
as ações dos movimentos e das organizações de luta pela terra, desencadeando
o indiciamento penal daqueles que participam dela (MITIDIERO JR., 2007).
O que foi expresso destaca o modo como o Poder Judiciário resolve esses ca-
sos e põe em marcha seu aparato penal distante da concepção liberal, em que
o Direito Penal é subsidiário, a última medida a se tomar perante situações
incompatíveis com outros tipos de mediação política. Com o regime demo-
crático, o argumento é a ordem, a pacificação da sociedade, a importância das
instituições e a imposição do controle social necessário para sustentá-las.

Considerações finais

O progresso aparece como um valor indiscutível, não planejado,


uma forma de se alcançar desenvolvimento inclusivo para todos os seto-

17 Na atualidade, vemos com preocupação esta distorção do sistema judicial ao tentarmos atribuir a
prerrogativa de intervir em qualquer conflito político que se submete a sua jurisdição, como foi o
caso da amplamente debatida Lei da média na Argentina, que tenta “anular” a partir de demandas
cautelares apresentadas ao Poder Judiciário.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 89

res sociais, que diminui desigualdades. Assim, este estudo constatou que o
sistema judicial criminaliza seletivamente e faz imputações, judiciarizando
conflitos sociais, econômicos e políticos. Partiu-se das heterogeneidades
culturais, produtivas e sociais, que conformam nossa sociedade pluralista
e variada (ROMANO, 2010); destacou-se a ação das organizações da so-
ciedade civil, das associações ambientalistas, das organizações campesi-
nas e indígenas, em que as representações, ideologias e discursos sociais
hegemônicos, associados ao domínio territorial, se reproduzem de uma
concepção como direito absoluto a uma formulação que integra os direitos
comunitários. Nesse movimento, o direito de propriedade se torna sujei-
to de uma ordem política democratizante e desmercantilizante (SANTOS,
2007), que tende a regular o uso e o domínio que, condicionados ao social,
perdem sua dimensão de direito absoluto de uso privado e, condicionados
aos requisitos ambientais, perdem sua dimensão de direito absoluto sobre a
natureza (ROMANO, 2010). Indicou-se o debate que conduz a conceituar
a propriedade privada da terra como um direito cada vez menos privado
– regulado no Código Civil – e cada vez mais público. Desde essa perspecti-
va, é inevitável o debate em torno da função social da terra, em atenção aos
múltiplos valores que essa função integra para a sociedade em seu conjunto
e para as gerações futuras.

REFERÊNCIAS

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A FUNÇÃO SOCIOAMBIENTAL DA TERRA,
OS SUJEITOS DE DIREITOS E AS SUAS LUTAS

Maria Cristina Vidotte Blanco Tárrega1


Bárbara Luiza Ribeiro Rodrigues2

Por onde passei,


plantei
a cerca farpada,
plantei a queimada.
 
Por onde passei,
plantei
a morte matada.
 
Por onde passei,
matei
a tribo calada,
a roça suada,
a terra esperada...
 
Por onde passei,
tendo tudo em lei,
eu plantei o nada.

Pedro Casaldáliga
(Confissões do Latifúndio)

Introdução

N
ão se pode falar em função socioambiental da terra sem se pensar
no mês de abril, o abril vermelho. Essa cor primária está associada
à ideia de revolução, ação e transformação em várias bandeiras e
também à violência disseminada no campo, em decorrência das disputas

1 Mestre e doutora pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora titular na Universida-
de Federal de Goiás e professora na Universidade de Ribeirão Preto.
2 Mestre em Direito Agrário pela Universidade Federal de Goiás. Professora na Faculdade de Direito
de Jussara.
94 |

pelo cumprimento desse princípio, dessa norma, desse instrumento de luta,


que é a função socioambiental da terra.
Dezessete de abril é o Dia da Luta Campesina. Esse dia não foi escolhido
ao acaso. Ele guarda uma simbologia. João Pedro Stédile, da Coordenação Na-
cional do MST, emociona-se ao explicar a importância do 17 de abril vermelho:

Uma marcha pacífica com mais de mil trabalhadores rurais organizados


pelo MST percorria uma rodovia de Parauapebas a Marabá em 17 de
abril de 1996. Foram encurralados por dois batalhões da Policia Militar,
em uma no (sic) localidade conhecida como Curva do S, no município
de Eldorado de Carajás. Um batalhão saíra de Parauapebas e outro de
Marabá, apoiados por caminhões boiadeiros, que trancaram a estrada
dos dois lados.
Assim começou um massacre premeditado, realizado para dar uma
lição naqueles “vagabundos vindos do Maranhão”, como expressaram
os policiais nos autos dos processos. Os policiais saíram dos quartéis
sem identificação na farda, com armamento pesado e balas verdadeiras.
O comando de Marabá chegou a avisar o Pronto Socorro e o Instituto
Médico Legal (IML) para ficarem de plantão…
O julgamento demonstrou que, além das ordens explícitas de Paulo Set-
te Câmara, secretário de segurança do governo tucano de Almir Ga-
briel, a empresa Vale do Rio Doce financiou a operação, cobrindo todos
os gastos, porque o protesto dos sem-terra na rodovia atrapalhava a cir-
culação de seus caminhões.
O resultado foi 19 mortos no ato, sem direito a defesa, 65 feridos incapa-
citados para o trabalho e dois mortos dias depois. O líder Oziel da Silva,
com apenas 19 anos, foi preso, algemado e assassinado a coronhadas,
na frente dos seus companheiros, enquanto um policial mandava que
gritasse “Viva o MST”.
Esses episódios estão registrados em mais de mil páginas dos autos do
processo e foram descritos no livro “O Massacre”, do jornalista Eric
Nepomuceno (Editora Planeta). Passados 17 anos, foram condenados
apenas os dois comandantes militares, que estão recolhidos em algum
apartamento de luxo dos quartéis de Belém. 
O coronel Pantoja ainda tenta se livrar da prisão e pede para cumprir a
pena de 200 anos em regime domiciliar. Os demais responsáveis no gover-
no federal e estadual e empresa Vale foram inocentados. A Justiça se con-
tentou em apresentar à sociedade dois bodes expiatórios (STÉDILE, 2013).

Após 17 anos desse massacre e “quatro séculos de latifúndio”, o con-


texto no campo não continua menos violento: a Comissão Pastoral da Terra
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 95

lançou o seu “Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2012”, cujo relatório


registra 36 assassinatos em conflitos no campo, naquele ano. De acordo
com o relatório, houve um aumento de 24% no número de assassinatos, em
relação a 2011, e:

[…] os conflitos no campo, em especial os conflitos por terra, tiveram


acentuado crescimento, bem como as tentativas de assassinatos e pri-
sões. [e complementa:] o ano de 2013 se inicia com mais violência no
campo. Até o mês de abril, 9 pessoas já foram assassinadas em conflitos
no campo (COMISSÃO PASTORAL DA TERRA, 2013).

E essa violência não é apenas física, mas também simbólica e ins-


titucionalizada: na terça-feira, dia 16 de abril de 2013, foram soltos dois
militantes do MST em Goiás – Belchior Viana e Paulo de Sousa –, após
mais de 150 dias presos. Segundo o MST de Goiás , sob o fundamento da
ordem pública, da aplicação da lei e da conveniência da instrução criminal,
evidenciou-se uma nova face da criminalização dos movimentos sociais de
luta pela terra, os crimes financeiros.
Pesquisa realizada pelo Programa de Pós Graduação em Direito
Agrário da Universidade Federal de Goiás (TÁRREGA; MAIA; FERREI-
RA, 2012), concluiu-se que a atuação do Judiciário nas ações possessórias
envolvendo ocupações de terras por movimentos sociais de luta pela terra
consagra a violência.

O Judiciário diante do conflito no campo

Em sua atuação nas lides em que se disputa a terra e em que os su-


jeitos são os movimentos sociais, o Poder Judiciário não tem compromisso
com a função socioambiental da terra e consagra, muitas vezes, a violên-
cia, submetendo-se ao padrão do direito moderno, individualista, liberal
e forjado para servir ao estado liberal moderno. Entretanto, a proprieda-
de é colocada pelos sujeitos coletivos que a disputam no espaço público.
O conflito tem caráter público a partir do momento que suas bases foram
redesenhadas e articuladas pelo Estado. Esse padrão de direito, portanto,
não garante a cidadania democrática.
A atuação do Judiciário nessas causas demonstra que ele não consi-
dera o contexto histórico na construção do sentido do direito. Em outras
96 |

palavras, se oculta e se desconhece a formação histórica excludente gerada


no modelo agrícola que concebeu o complexo agroindustrial. Verifica-se,
na análise dessas ações, que a identificação/qualificação do tipo de conflito
e dos atores sociais envolvidos só pode dar-se na compreensão desse pro-
cesso histórico em que se concretiza o caráter público do conflito. Fora do
contexto histórico, ele é tratado como um conflito privado. O Judiciário
trata o conflito agrário no plano privado e as ações de ocupação como es-
tratégias de esbulho, como um problema de caráter civil, desconhecendo-
lhe a historicidade.
O estudo de Tárrega, Maia & Ferreira (2012), na análise das ações
possessórias que envolvem movimentos sociais, observou uma práxis ju-
diciária constitutiva de um direito informado pela civilística. Este estava
engendrado numa normatividade intencional de negação dos sujeitos co-
letivos, em um projeto histórico-cultural voltado à realização de valores de
mercado e a uma noção individualista e excludente da propriedade da ter-
ra, contrária ao discurso do bem comum de realização da justiça, da Cons-
tituição de 1988 (BRASIL, 1988). Trata-se de um direito que muitas vezes
se afastou do mínimo garantidor das liberdades, como o contraditório e a
ampla defesa. Essa práxis construiu um sentido de justiça circunstancial,
contingenciado pelo poder econômico, comprometido com um modelo li-
beral de apropriação de riquezas.
Dentre os aspectos mais interessantes para a configuração da nega-
ção de direitos, na constituição de um sentido de direito que oculta a rea-
lidade dos sujeitos em conflito, encontram-se os referentes à identificação
das pessoas que entre si litigam. Nota-se, segundo Tárrega, Maia & Ferreira
(2012), nas ações em tramitação, uma despreocupação com a correta quali-
ficação dos réus, no caso, do movimento social agrário envolvido na causa.
Predomina a invisibilidade desses atores como cidadãos jurisdicionados,
em condições de igual defesa e contraditória. Nas peças processuais, são
denominados “de tal” nas relações de reconhecimento. “De tal” que, como
já temos afirmado, não compõe efetivamente o conflito. A decisão que os
alcança os coloca do lado do inimigo.
Na interpelação casuística desses tribunais, o discurso constitutivo
do direito nega os sujeitos. O Poder Judiciário brasileiro considera irre-
levante ser “de tal”. Ser de tal é ser ninguém. O sujeito “de tal” só passa a
ser alguém na criminalização. O caráter argumentativo das formulações
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 97

jurídicas constrói os fundamentos da impossibilidade da qualificação cor-


reta de todos os réus no processo. A violência permeia a mediação de reco-
nhecimento. Os adjetivos aplicados aos integrantes dos movimentos sociais
agrários nas relações processuais em litígio denotam um indicativo de cri-
minalização que se antecipa ao próprio julgamento da ação na esfera cível.
Os sujeitos são tratados por “invasores”, expressão usada pelos juízes em
referência aos integrantes dos movimentos, como por exemplo, nesse tre-
cho da decisão exarada pelo Juiz de Direito Silvânio Divino de Alvarenga,
da Comarca da Cidade de Goiás-Go, em primeira audiência de conciliação,
de 14 de agosto de 2010, constante no Processo n. 200603007400:

Expeça-se mandado de diligencia para que uns dos oficiais de justiça


levante o nome de cada uns dos invasores e determine para que eles saiam
no prazo de 30 dias, caso eles não cumpram a ordem desde já o juízo
avisa que vai decretar a prisão preventiva de cada um deles e vai deter-
minar a abertura de inquérito policial por crimes de desobediência e
resistência (TÁRREGA; MAIA; FERREIRA, 2012, p. 45, grifo nosso).

Segundo esses autores, 20% das ações no estado de Goiás apre-


sentam a qualificação correta dos réus (TÁRREGA; MAIA; FERREIRA,
2012). A respeito do ato de citação, verifica-se que o polo passivo da rela-
ção processual que envolve conflitos agrários e movimentos sociais de luta
pela terra é do tipo múltiplo, isto é, com a participação de mais de um réu.
A análise constante do relatório adverte que, como consta nos cumprimen-
tos dos mandados apenas o nome de um dos requeridos, há uma preterição
do direito dos demais réus de exercer sua defesa, diante da possibilidade de
apenas alguns deles serem devidamente citados. Porém, não há cuidado com
a adequada representação. O defeito do ato ou a ausência da citação pessoal
dos réus viola gravemente direitos mais básicos, fundamentais no Estado
brasileiro. Também a banalização do uso da citação por edital, nos casos em
que há essa multiplicidade de réus, constitui afronta à cidadania.
Outro fator é o tempo. O tempo do processo é o tempo da demora.
É o tempo punitivo, da negação do direito. O tempo da consagração da
violência, sobretudo para quem vive a dura realidade do acampamento.
O relato do Observatório (TÁRREGA; MAIA; FERREIRA, 2012) mostra
que o tempo médio dos processos em tramitação é de três anos, contados
do protocolo da ação à atual fase em que se encontram. Via de regra, esses
98 |

processos estão na espera de realização de audiência de instrução e julga-


mento. Três anos de demora sem sequer ter havido audiência de instrução!
Segundo os autores, em termos de realidade jurídica, isso é uma afronta aos
princípios norteadores da celeridade e eficiência. O documento denuncia
também que, em ações cujas partes são protagonistas no cenário agropecu-
arista do estado de Goiás, há maior celeridade na tramitação dos processos.
Exemplo disso está nos autos do processo n. 200801381694, envolvendo o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a empresa agrí-
cola Monsanto do Brasil Ltda., em que, em menos três anos, a ação já se
encontra em fase recursal julgada (TÁRREGA; MAIA; FERREIRA, 2012).
O Observatório aponta casos de grave violação da justiça, como na-
queles em que o juiz concede liminar em ações possessórias sem ouvir a
parte contrária, porque a lei lhe faculta decidir por se tratar de “posse nova”.
Consta do relatório:

Das decisões liminares, foi unânime nos casos a não realização de au-
diência de justificação para a concessão ou não do pedido liminar nas
ações possessórias. Em regra, provados os requisitos da: a) posse; b)
a turbação ou o esbulho praticado pelo réu; c) a data da turbação ou
do esbulho e; d) a continuação da posse, embora turbada, na ação de
manutenção; a perda da posse, na ação de reintegração, e tendo o fato
constrangedor da posse ocorrido antes de um ano e dia, poderá o juiz
deferir liminarmente a reintegração ou manutenção na posse, sem ouvir
a parte contrária, expedindo o respectivo mandado (TÁRREGA; MAIA;
FERREIRA, 2012, p. 63).

Para além disso, mantém-se o modelo criminalizatório dos movi-


mentos sociais. O Observatório relata que, nas decisões civis, há indicativos
para a criminalização na esfera penal dos sujeitos atuantes pelos movimen-
tos sociais. Na reintegração da posse com ordem de retirada, o movimento
social é denominado “invasores”. O discurso é construído de modo a deixar
os movimentos sociais em luta à margem do ambiente de licitude. Negam-
se o modelo constitucional democrático e o direito vigente.
Um aspecto importante que denota a intenção de construir uma
normatividade que nega o direito posto e a própria orientação constitucio-
nal é a ausência da prova da função social da terra para a concessão de de-
cisão liminar. Nos processos com pedido liminar em análise, não se buscou
verificar o cumprimento da função social, e o Judiciário apenas requereu
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 99

os requisitos básicos probatórios constantes nos artigos 920 e seguintes, do


Código de Processo Civil3.
A Constituição federal (BRASIL, 1988) manda observar a função
social da propriedade no plano coletivo, e não no individual. Assim, a pro-
priedade que não cumprir a sua função social não terá garantia constitucio-
nal. Seu proprietário não deverá ter assegurada a defesa nas ações posses-
sórias. Segundo o Observatório (TÁRREGA; MAIA; FERREIRA, 2012), na
prática, dá-se o contrário. Nenhum dos processos analisados no estado de
Goiás, com peculiaridades observadas em sentido contrário no Pará, exigiu
a prova da função social da terra, ignorando-se o mandamento constitucio-
nal. Mesmo nos julgamentos para a concessão de liminar não há qualquer
menção ao cumprimento ou não dos requisitos elencados no artigo 186 da
Constituição federal. De maior gravidade essa ausência também se verifica
naqueles casos em que já houve julgamento e concessão de liminar sem que
a parte contrária tenha sido ouvida.
A função social da terra é exigível nas ações possessórias que envol-
vem ocupações coletivas por movimentos sociais de luta pela terra. Essa
exigência remete à questão para exame no campo do Direito Agrário, que
está estruturado em princípios fundamentais, a exemplo da função social da
terra e da proteção à posse agrária, e não apenas no campo do Direito Civil.

O Direito Agrário, diferentemente do Direito Civil, tem uma lógica


coerente sobre a função social da propriedade, pois garante o direito
de propriedade, estabelece condições para que a mesma seja exercida
(função social), e, em caso de descumprimento da função social, a pro-
priedade rural deve ser desapropriada e destinada à reforma agrária. Ou
seja, por mais que seja propalada a mudança do conteúdo do direito à
propriedade civil, a partir da constitucionalização/publicização deste,
com surgimento do novo Código Civil (2002), em nada muda o con-
ceito de propriedade, como muitos querem, porque efetivamente não
há qualquer sanção àquele que não cumprir a função social. Aqui reside
uma diferença substancial entre o Direito Agrário e o Direito Civil, que
é o fato do Poder Público poder desapropriar a propriedade e destiná-la
a outra pessoa para que dê destinação ao imóvel e cumpra sua função
social e os objetivos da Constituição. Por outro lado, isso não ocorre
com o Direito Civil (FRANCO; LEITE FILHO, 2011, p. 210).

3As ações possessórias estão previstas, nos artigos 920 a 933, do Capítulo V, do Código de Processo
Civil (Lei n. 5.869, de 1973), e preveem a proteção legal da propriedade, por meio de manutenção da
posse, a reintegração e o interdito proibitório, além de condenação por perdas e danos e desfazimento
de construções e plantações.
100 |

Neste trabalho, adota-se a expressão empregada por Souza Filho (2003):


“função social da terra”, em detrimento daquela corrente na lei, na doutrina e
na jurisprudência: “função social da propriedade”. Conforme esse autor,

na realidade quem cumpre uma função social não é a propriedade, que


é um conceito, uma abstração, mas a terra, mesmo quando não alterada
antropicamente, e a ação humana ao intervir na terra, independente-
mente do título de propriedade que o Direito ou o Estado lhe outorgue
(SOUZA FILHO, 2003, p. 116).

Assim, caso eventualmente se fale em “função social da propriedade”,


isso é apenas uma forma de adesão ao convencionado no campo do direito
e por considerar que a expressão traduza submissão à tradição linguística
materializada no direito. A concretização4 dessa função social ocorre, con-
tudo, pelo exercício da posse agrária, entendida como:

o exercício direto, contínuo, racional e pacífico pelo possuidor de atividade


agrária desempenhada sobre um imóvel rural, apto ao desfrute econômi-
co, gerando, a seu favor, um direito de natureza real especial, de variadas
consequências jurídicas, e visando ao atendimento de suas necessidades
sócio-econômicas [sic] bem como as da sociedade (LIMA, 1990, p. 103).

A posse da terra foi objeto de especulação teórica, sobretudo no sé-


culo XIX, com Savigny e Ihering, no marco do abstracionismo conceitual
pandectista, representantes respectivamente da Escola Histórica e da Juris-
prudência dos Interesses (CAMARGO, 2003). São referências na reflexão
sobre a teoria da posse, notadamente sobre a natureza jurídica do instituto,
no cenário alemão daquele período. A principal discussão que colocam é se
a posse traduz um exercício de fato ou se é um direito.
Savigny (1870 apud ARONNE, 2003) é defensor da chamada Teoria
Subjetiva da Posse, para cuja caracterização se exige tanto o corpus quanto
o animus. O corpus se traduz no “apoderamento da coisa”, na “retenção do

4 Vale-se aqui do conceito de concretização como “o processo de reconstrução do Direito aplicável ao


caso, à luz do padrão constitucional e através de um procedimento argumentativo e racionalmente
controlável” (PEREIRA, 2001, p. 164). O parâmetro de concretização da função social da terra, a
ser feita pelo juiz em cada caso concreto, no procedimento especial das ações possessórias, é o texto
normativo do Art. 186, conjugado com o Art. 5o, incisos XXII e XXIII, todos da Constituição Federal
de 1988 (BRASIL, 1988), numa leitura hermenêutica sistemática. O que exige necessariamente todo
um afazer hermenêutico no âmbito jurisdicional, em que texto normativo, caso concreto e atuação do
intérprete se mostrem imprescindíveis.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 101

bem” (ARONNE, 2003, p. 222), e o animus remete à “vontade de possuir a


res” (ARONNE, 2003, p. 222). Ihering (2002), idealizador da Teoria Obje-
tiva da Posse, concebe esta como um direito cuja caracterização independe
do animus; basta o corpus.
O resgate dessas ideias se justifica, pois elas são importantes para a
compreensão dos requisitos que o direito impõe para o reconhecimento
da posse. Tais requisitos podem ou não estar presentes como fundamentos
para o reconhecimento da posse nas decisões judiciais relativas às ações
possessórias, que são importantes, também, para fundamentar ou não a
distinção das noções de posse civil e de posse agrária. Embora essa cons-
trução teórica se dê no contexto espaço-temporal da Europa, no século
XIX, que em nada se assemelha ao brasileiro do início do século XXI, ela é
a matriz do desenvolvimento do pensamento contemporâneo sobre o tema.
Enquanto na posse civil se admite a ficção da posse indireta, carac-
terizada pela inexistência do corpus, a posse agrária não conhece essa for-
ma meramente ficcional indireta. Admite apenas a posse direta, obtida no
corpus enquanto apreensão física do bem, no caso, a terra (MARQUES,
2005; LIMA, 1990). Isso porque é a partir dela, em sua materialidade, que é
possível o desenvolvimento das atividades agrárias. Ademais, a posse civil
pensada pela civilística não vislumbra a perspectiva funcionalista, de ser-
ventia dela a valores existenciais, como a realização de direitos fundamen-
tais ao trabalho, à moradia, à alimentação etc. A posse civil é meramente
patrimonial. A posse agrária reveste-se de funcionalidades notórias, em
que se incorporam os objetivos constitucionalmente fixados, a exemplo da
efetivação dos direitos fundamentais, inclusive aqueles de cunho transindi-
viduais, como é a proteção ao meio ambiente.
Nessa perspectiva, a posse agrária é a que tem validade e deve ser
discutida nas ações que versam sobre os conflitos no campo, pois é uma
posse cuja legitimação jurídica pressupõe o cumprimento de tarefas so-
ciais, como garantia de alimentação, de trabalho, de moradia àqueles que a
exercem, ou mesmo de proteção ao meio ambiente.

As lutas

A ocupação de imóveis rurais é a principal estratégia dos integrantes


dos movimentos sociais do campo para trazer à tona o debate acerca da
102 |

concentração e utilização da terra no Brasil. Miguel Carter (2010) denomi-


na “ativismo público” tal ação, pela qual os movimentos sociais pressionam
o governo a efetivar a distribuição de terra por meio das políticas de refor-
ma agrária.
O resultado de tais atividades dos movimentos sociais, como a fun-
ção e o alcance social, é produto de uma equação e de um cenário político/
social que envolve desde:

os recursos mobilizadores disponíveis ao movimento (humanos, ma-


teriais e de ideias) como as oportunidades políticas de ação (tolerância
do regime, a capacidade do Estado, a instabilidade das elites, a disposi-
ção do governo, os aliados políticos e a atenção pública) (TÁRREGA;
MAIA; FERREIRA, CARTER, 2012, p. 29-30).

Assim, nesse mesmo sentido foi a análise do Relatório do Observató-


rio dos Conflitos do Campo do Programa de Mestrado em Direito Agrário
da UFG:

As ocupações de terras como forma de ativismo público são caracte-


rizadas por escolhas racionalmente condicionadas a interpretação que
os movimentos fazem da legitimidade do latifúndio no Brasil. As es-
colhas das terras a serem ocupadas não obedecem a um único objetivo
e plano no Brasil, dependendo em muitos aspectos das regiões e dos
grupos que atuam em cada estado da federação. Nas mais diversas lo-
calidades, onde se estruturam os conflitos são escolhidas grandes pro-
priedades de empresas agrícolas, terras suspeitas de grilagem, que não
cumprem a função social, que exploram de forma predatória os recur-
sos naturais, que estão sobre controle de empresas que dominam tec-
nologias peculiares de exploração da agricultura, enfim, as ocupações
de alguma maneira se relacionam com a forma como os movimentos
camponeses compreendem o seu direito a terra ou entendem que o
Estado não cumpre a legislação que define os parâmetros da Refor-
ma Agrária, desta forma, a ocupação para além de chamar a atenção
da sociedade para o problema agrário ou direcionar a desapropriação
de terra a ser executada pelo estado, procura estabelecer um diálogo
com a sociedade e com o estado sobre a necessidade da organização
de um outro padrão agrário no Brasil, que atenda os interesses dos
camponeses, mas também conduza a um sistema agrícola e social de
distribuição da terra entendido como mais justo (TÁRREGA; MAIA;
FERREIRA, 2012, p. 63).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 103

A ocupação da terra é a mais relevante ação dos movimentos, pois,


como assegura Carter (2010), essa é a forma de ativismo que mais ganha aten-
ção social. A ocupação organizada de terra reclama respostas do Estado – tan-
to do Judiciário quanto dos órgãos de controle –, sobretudo se houver proces-
so de desocupação da área ou conflito judicial de outra natureza. A ocupação
é originária do autorreconhecimento do direito social à terra, constituído no
processo histórico de formação da propriedade agrária no Brasil. Como ex-
plica Daudelin (2008),

os conflitos de terra sempre estão explicitamente associados com dife-


renças objetivas no acesso a terra, na segurança de posse e na distribui-
ção dos títulos de propriedade. Tais diferenças definem o ‘potencial’ de
conflito especialmente quando se sobrepõem às diferenças de classe e
etnicidade (p. 276).

A escolha das terras a serem ocupadas não obedece a um único


projeto. Depende, em muitos aspectos, das características locais e do
aparato humano que elabora a proposta e é nela agente. Em algumas
localidades observadas pelo Observatório dos Conflitos no Campo da
Universidade Federal de Goiás, os grupos sociais que ocuparam as ter-
ras usaram critérios e justificativas diversas, tendo sido apontada a baixa
produtividade das glebas. Nesse caso, o critério de eleição foi o legal
(da função social e, consequentemente, da produtividade), e a estratégia
da ocupação foi eleger um meio de pressionar o INCRA a proceder à
vistoria dos imóveis, procedimento inicial para o processo de desapro-
priação para fins de reforma agrária.5 Nesses casos, a ocupação não teve
natureza de esbulho, mas reivindicatória de ação do Estado na área de
política agrária.
O modelo de ocupação estudado por Tárrega, Maia & Ferreira
(2012) mostra que a ocupação dá publicidade ao problema agrário e, ainda,
dá diretrizes ao Estado para promover a desapropriação de terra. O modelo
usado é o da promoção do diálogo e da discussão com a sociedade e com o
Estado sobre a necessária reorganização, estabelecendo-se outro padrão de
distribuição de terras no País.

5 Conforme a Lei Complementar n. 76, de 6 de julho de 1993, que dispõe sobre o procedimento con-
traditório especial, de rito sumário, para o processo de desapropriação de imóvel rural, por interesse
social, para fins de reforma agrária (BRASIL, 1993).
104 |

A ocupação da terra faz parte do processo histórico de formação de lu-


tas e é considerada a estratégia mais importante de ativismo público na busca
pela reforma agrária no Brasil. Ela perdeu importância ou diminuiu sua inci-
dência em razão das medidas de Estado para o desempoderamento dos movi-
mentos sociais, com a edição da Medida Provisória n. 2.027-38, de 4 de maio
de 2000 (BRASIL, 2000), que proibiu por dois anos as avaliações e vistorias em
terras ocupadas por movimentos sociais. A medida destruiu as estratégias dos
movimentos sociais de ocupar terras para exigir do INCRA a vistoria sobre as
propriedades, para aferir o cumprimento da função social por produtividade.
Desta forma, o Governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) conse-
guiu restringir a estratégia da ocupação de terras, que caiu vertiginosamente.
No ano de 2001, foram registrados 194 casos, e no ano de 2002, 184.6
O governo Lula (2003-2010) não mudou a situação. A ocupação, já
em número reduzido, é utilizada como estratégia para a defesa da refor-
ma agrária. Continua nos estados observados por Tárrega, Maia & Ferreira
(2012), com maior incidência no Pará e no Paraná, mas perdeu muita força.
No Paraná, que se caracteriza como uma região agroindustrial consoli-
dada e agressiva, o que indica a ocorrência de fortes conflitos agrários, ocorre
a presença marcante de grupos de movimentos sociais de abrangência nacio-
nal. Nesse estado, a maioria das ocupações foi dirigida por grupos sociais de
abrangência nacional. Em 2010, de oito ocupações, três foram dirigidas pelo
MST e cinco pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura
(Contag). O mesmo se deu em 2009 quando, de 21 ocupações, cinco foram
dirigidas pela Contag, oito pelo MST e uma pelos dois grupos em associação.
No que diz respeito à relação entre ocupação da terra e violência –
tomando-se como referencial de violência os casos de mortes registrados
nas várias regiões do Brasil, por representarem o seu grau extremado –, os
dados do Caderno de Conflitos da CPT indicam que foram registrados no
período em análise – de 2003 a 2011 – o total de 333 mortes no campo em
decorrência de conflitos agrários. Observou-se que o número de mortes
no campo não é proporcional ao número de ocupações de terra, nem aos
períodos de maior número de ocupações no próprio estado de registro das

6 Todos os dados utilizados nesta pesquisa, seja quanto ao número de ocupações de terras, conflitos
agrários e mortes no campo, tiveram como fonte o Caderno de Conflitos editado a cada ano pela
Comissão Pastoral da Terra (CPT). Disponível em:< http://www.cptnacional.org.br/index.php/publi-
cacoes/conflitos-no-campo-brasil>.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 105

mortes. A título de exemplo, observa-se que o maior número de mortes no


estado do Pará foi no ano de 2003, quando foram registradas 33 mortes,
num ano em que ocorreram 20 ocupações, número inferior ao ocorrido
em quatro outros anos. O ano de 2009 foi o de maior número de ocupações
naquele estado, e ocorreram ali oito mortes.
No processo de luta, segundo Tárrega, Maia & Ferreira (2012), é im-
possível considerar que as ocupações de terra não têm relação direta com
o grau extremado de violência ocorrente e com a conformação dos grupos
envolvidos ou dos sujeitos nos conflitos agrários. Os grupos tradicionais são
desconsiderados na proteção estatal dos sujeitos em conflito. O estado do
Pará, onde atuam os grupos tradicionais de luta pela terra, registrou os maio-
res números de mortes no campo. Observa-se que esse estado conta com a
atuação especializada do Judiciário, em virtude de dispor de vara agrária.
A análise da atuação dos movimentos sociais permite a análise da
resposta apresentada na prestação da tutela jurisdicional, sobretudo na in-
terpelação dos proprietários de terras para fazer frente ao ativismo público
desses novos sujeitos de direito.
Compreendendo-se que os movimentos sociais do campo, ao longo do
processo de disputas e conquistas de direitos, perceberam que a resolução do
conflito agrário perpassa, necessariamente, pelas esferas de governo ‒ seja por
meio dos processos judiciais de ocupação de terra para um posicionamento
judicial acerca do imóvel em litígio, tendo em vista que os movimentos ocu-
pam estrategicamente propriedades com irregularidades legais, seja por meio
dos procedimentos administrativos para desapropriação dos imóveis para fins
de reforma agrária, seja, ainda, pela associação dessas duas formas de ação ‒,
começando-se a refletir sobre o que é a função socioambiental da terra.
Como já se mencionou no início, essas reflexões veem a função socio-
ambiental da terra como regra, como princípio e como instrumento de luta.

A dimensão socioambiental da função social da terra

Dentre os condicionantes da função social da terra, destaca-se aquele


socioambiental, descrito no Artigo 186, Inciso II, da Constituição brasileira
(BRASIL, 1988), pela notoriedade daquilo que se tem chamado, no campo
teórico, de “crise ecológica” (BECK, 2002, p. 33) ou de “problemática socio-
ambiental” (LEFF, 2001, p. 73).
106 |

No tocante ao critério de proteção ambiental, o juiz, nas ações posses-


sórias, com base na interpretação sistemática da ordem jurídica brasileira,
deverá atentar para aquilo que na jurisprudência do Supremo Tribunal de
Justiça vem sendo chamado de “função ecológica do domínio e da posse”.
Isso porque, ao menos normativamente, há de prevalecer “hoje a postura
de que o dono só é senhor da terra na medida do respeito às aspirações es-
tabelecidas em favor de toda a coletividade e das gerações futuras, entre as
quais ganha crescente realce a proteção do meio ambiente” (STJ, SEGUN-
DA TURMA, Resp. n.º 1.240.122/PR, rel. Herman Benjamim, 28.06.2011).
Essa proteção expressa uma necessidade decorrente da própria “generali-
zação e globalização da problemática socioambiental” (LEFF, 2001, p. 73).
Como regra, Carlos Frederico Marés de Souza Filho mostra que o
modelo da civilística é impraticável para a redução das desigualdades sociais:

Para combinar com os compromissos de eliminar desigualdades so-


ciais e regionais, a Constituição não poderia repetir a velha propriedade
privada do Código de Napoleão, absoluta e acima de todos os outros
direitos. A propriedade privada teria que ser desenhada como uma con-
sequência dos novos direitos coletivos à vida, ao fim das desigualdades
e ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, introduzindo nela uma
razão humana de existência, vinculando-a em todos os lugares que re-
conheçam como direito à função social, especialmente em relação à ter-
ra. É tão insistente a Constituição que se pode dizer, fazendo eco ao pro-
fessor colombiano Guillermo Benavides Melo, que no Brasil pós 1988 a
propriedade que não cumpre sua função social não está protegida, ou,
simplesmente, propriedade não é. Na realidade quem cumpre uma fun-
ção social não é a propriedade, que é um conceito, uma abstração, mas
a terra, mesmo que não alterada antropicamente, e a ação humana ao
intervir na terra, independentemente do título de propriedade que o Di-
reito ou o Estado lhe outorgue. Por isso a função social é relativa ao bem
e ao seu uso, e não ao direito. A desfunção ou violação se dá quando há
um uso humano, seja pelo proprietário legitimado pelo sistema, seja por
ocupante não legitimado. Embora esta concepção esteja clara por todo
o texto constitucional, a leitura que tem feito a oligarquia omite o con-
junto para reafirmar o antigo e ultrapassado conceito de propriedade
privada absoluta. A interpretação, assim, tem sido contra a lei (SOUZA
FILHO, 2003, p.115-116).

De acordo com a Constituição, a função social é cumprida com o


atendimento simultâneo dos requisitos de:
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 107

I. Aproveitamento racional e adequado;


II. utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preser-
vação do meio ambiente;
III. observância das disposições que regulam as relações de traba-
lho;
IV. exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários e dos
trabalhadores.

Em síntese, há proprietários que não cumprem a função socioam-


biental de suas terras e que, por conseguinte, não deveriam ser proprie-
tários. Há, ainda, não proprietários que a cumprem, tendo em vista que a
função socioambiental se dá em relação ao bem e ao seu uso.
Nessa perspectiva, as ocupações de terras pelos movimentos sociais se
dão justamente para questionar esse direito. Ora, se a terra não cumpre a sua
função socioambiental e, muitas vezes, a propriedade desta é destrutiva, qual
o sentido desse direito em uma sociedade democrática, que busca a elimina-
ção das desigualdades, um meio ambiente saudável e equilibrado, soberania
alimentar em um contexto de patenteamento da vida e justiça social?
A resposta do Estado para essas ações estratégicas é uníssona, con-
forme, como se percebe em uma das decisões de reintegração de posse en-
contradas na pesquisa citada:

A resposta do Estado a essas ações estratégicas é uníssona, conforme


se pode perceber na decisão de reintegração de posse do processo n.
125/2009, proferida pela juíza Edleuza Zorgetti Monteiro da Silva, da Co-
marca de Cuiabá (MT): “a inviolabilidade da propriedade está garantida
na Constituição Federal e a proteção ao direito de propriedade está asse-
gurado nos Códigos Civil e de Processo Civil, razão pela qual a liminar há
que ser deferida” (TÁRREGA; MAIA; FERREIRA, 2012, p. 74).7

Quando muito, por perceberem a função socioambiental como prin-


cípio que, nas palavras de Vladimir França (1999, p. 15), “informa, direcio-
na, instrui e determina o modo de concepção jurídica de todo e qualquer
princípio e regra jurídica, constitucional ou infraconstitucional, relacionada

7 Processo n. 125/2009, com decisão proferida pela juíza Edleuza Zorgetti Monteiro da Silva, da Co-
marca de Cuiabá.
108 |

à instituição jurídica da propriedade”, certos juízes tomam decisões como a


do magistrado da Vara Especializada em Direito Agrário de Mato Grosso:

Versam os autos, inequivocamente, sobre conflito coletivo estabelecido


em torno da posse de imóvel rural.
A matéria em questão desafia, como já observado na mais atualizada
doutrina e mais competente jurisprudência, uma reflexão fundada prio-
ritariamente nos preceitos constitucionais, dentro daquilo que hoje já se
conhece como o movimento de constitucionalização do direito.
Assim, as exigências constitucionais que dizem respeito ao direito de
propriedade, direito inequivocamente fundamental – já não só de ca-
ráter individual, mas social – impõem uma leitura da lei civil sob as
luzes e de acordo com a Constituição. Nessa esteira, exsurge a questão
da função social da propriedade, que, intrínseca ao exercício do direi-
to de propriedade, salutarmente contamina o consectário da posse que
lhe diga respeito.
Não há, pois, como se discutir, na atualidade, qualquer questão pos-
sessória sem ferir, por natural, o atendimento ao requisito essencial da
função social. Mais que rima, mostra-se como solução das questões
possessórias que ocupam a Vara de Conflitos Agrários e parâmetro que
norteia os debates possessórios.
Data vênia a entendimentos contrários mostra-se insubsistente qual-
quer argumento residente na perspectiva de que as questões sociais se-
jam matéria de polícia. Hoje, mais do que nunca, as questões sociais são
de responsabilidade do Estado, por todos os seus órgãos constitutivos.
Assim, a questão agrária, bem além de ser “problema do governo” (Po-
der Executivo), é também questão afeta ao Poder Judiciário.
Ora, a Constituição dispõe regras e, mais que regras, princípios que nor-
teiam a vida dos cidadãos e orientam a atuação do Poder Público, seja
por que órgão for. Assim, diz-se que na propositura de um pleito posses-
sório deva o autor declinar e comprovar que no exercício da sua posse
preenche os requisitos legais que a Constituição sintetizou na expressão
“função social”.
É certo, no entanto, que em ações como a presente não se mostra razoável
exigir uma prova completa, exaustiva, desse requisito para o fim de aten-
der ao pedido de concessão liminar. Mas isso não isenta o autor da ação
em ao menos indicar que tal se dá (TÁRREGA; MAIA; FERREIRA, 2012,
p. 75-76, grifo nosso).

Como não se pode exigir prova completa e exaustiva do cumprimen-


to da função socioambiental da terra, se a fundamentalidade do direito de
propriedade está justamente no uso que o sujeito faz sobre esse bem? Perce-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 109

be-se que o Judiciário é aparelhado na proteção de direitos individuais, por


meio de instrumentos legais inadequados, tendo em vista que se protege,
notoriamente, o direito de propriedade privada da terra (SOUZA FILHO,
2003), em detrimento de direitos coletivos, como questionam os movimen-
tos sociais de luta pela terra.
Por isso que a função socioambiental é um instrumento de luta: nesse
contexto descolonial, a função socioambiental da terra é uma forma de empo-
deramento popular para questionar as violências físicas e epistêmicas perpe-
tradas pela modernidade e, no contexto latino-americano, pela colonialidade,
que legitima e autoriza determinados sujeitos sociais a falar, possuir bens, pro-
duzir/impor conhecimento, criar normas jurídicas e sociais, enquanto outros
sujeitos são subalternizados e autorizados a obedecer (LANDER, 2005).

Considerações finais

A exclusão e a violência no campo resultam de um processo his-


tórico de organização fundiária e de industrialização do modelo agrícola
no Brasil que mercantiliza a terra e capitaliza a produção agrícola. Cria-se
um modelo de concentração dos bens relacionados à atividade agrícola de
impossível acesso ao agricultor camponês, que tira da posse da terra sua
subsistência e da sua família.
A exclusão desses sujeitos do sistema econômico gera sua sujeição a
todo tipo de violência e, por fim, a sua criminalização. A organização dos
movimentos sociais deriva da deformação histórica da propriedade agrária
e da ordem jurídica que a tutela, que nega ao camponês o pedaço de terra
que reivindica para viver.
A ocupação de terras é estratégia de ativismo público dos movimen-
tos sociais. É instrumento de luta dos integrantes dos movimentos sociais
do campo para trazer à tona o debate acerca da concentração e utilização
da terra no Brasil. O ativismo público é o meio pelo qual os movimentos
sociais pressionam o Poder Executivo para a efetivação da distribuição de
terra, por meio das políticas de reforma agrária. Observa-se, entretanto,
que os poderes públicos não se têm mostrado sensíveis a essa luta. Assim
como no Executivo, no Poder Legislativo houve um retrocesso, nas últimas
décadas, que fragilizou a ação dos movimentos sociais. A violência, entre-
tanto, manteve-se fortalecida.
110 |

O Poder Judiciário pouco tem contribuído para mudar esse quadro.


A violência no campo não encontra solução nas esferas públicas. Pelo con-
trário, muitas vezes a atuação dos poderes instituídos tem sido cada vez
mais fator de exposição dos sujeitos coletivos.
Os movimentos tradicionais e os camponeses mais pobres e de me-
nor inserção política ficam mais vulneráveis. Embora sejam sujeitos de di-
reitos, vivem o tempo da punição e ocupam o espaço do ocultamento e da
negação. Os poderes públicos os privatizam, consagrando o primado mo-
derno da igualdade liberal civil. Somente são vistos nos espaços públicos
quando sujeitos da punição.
O desrespeito à função socioambiental, às lutas e ao reconhecimento
do processo histórico em que se organizam os sujeitos coletivos consagra
a violência e o desrespeito à Constituição federal. Esse desrespeito se con-
solida com a atuação de um Poder Judiciário que se serve de um modelo
de direito forjado a serviço do Estado liberal capitalista, sem compromisso
com as questões sociais emergentes. Nas ações originárias da luta dos mo-
vimentos sociais, a adoção do modelo de direito moderno, individualista,
que privatiza as relações e os sujeitos, ignorando os espaços público e polí-
tico de embate social, nega o democrático exercício da cidadania.

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Pamela Caro2

Introducción

L
a sociedad rural chilena, a partir de los años 60, fue testigo de una
serie de transformaciones que estremecieron a las viejas instituciones
agrarias. Los cambios en la estructura de la tenencia de la tierra y
posterior reconversión productiva producida en el marco de la instauración
del neoliberalismo en la economía en general y en la agricultura en particu-
lar, modificaron las formas tradicionales de producción y la estructura del
mercado laboral.
La descomposición de la hacienda tradicional y casi desaparición del
latifúndio, con la reforma agraria (1964-1973), dio paso a la instauración
de empresas agroexportadoras capitalistas de corte moderno y complejos
agroindustriales, vinculados o pertenecientes a corporaciones transnaciona-
les, transformando las relaciones sociales y técnicas de producción agraria, y
desencadenando la proletarización de la población rural. En las zonas agrí-
colas donde predominaban campesinos y parceleros, surge una propiedad
empresarial y un nuevo tipo de empresario agroindustrial adquiere tierras.
La desintegración del sector reformado contribuyó al crecimiento
del capitalismo agrario, pues los antiguos propietarios que retuvieron una
reserva la capitalizaron y prosperaron bajo el actual modelo económico
(REBOLLEDO, 1997, p. 1-6; KAY, 1995, p. 60-68). Las formas de produc-

1 Artículo inédito elaborado a partir de la investigación doctoral “Encrucijadas entre trabajo y familia.
Contratos de género y transformaciones sociales en temporeros/as del vino en Casablanca y Mendo-
za”.
2 Doctora en estudios sociales y políticos. IDEA/USACH.. Directora Centro de investigación y Estudios
en Trabajo, Familia y Ciudadanía - CIELO, Facultad Ciencias Sociales, Universidad Santo Tomás,
Chile.
116 |

ción actualmente en uso, se basan en la flexibilidad laboral, expresada en


una demanda de fuerza de trabajo agrícola que se incrementa en los perío-
dos de cosecha, relaciones contractuales por tiempo o faena, fragmentán-
dose cada vez más, implantación de remuneración pactada por unidad de
medida o “a trato” que elimina el salario estable, y jornadas laborales que se
extienden y desestandarizan3.
Los cambios en la inserción laboral en la agricultura han afectado de
manera diferenciada a hombres y mujeres. El proceso de feminización del
mercado de trabajo agrícola (VALDÉS, 1988, 1999, 2007) y des-sexuación
de tareas, se da en un contexto de crisis de la sociedad salarial sustenta-
da sobre la base de los derechos laborales, sistemas de protección social y
reafirmación del salario masculino e imagen del hombre como único pro-
veedor. Para ellos se ha producido la reducción de empleos permanentes
y aumento de temporales, que los ha hecho transitar de obreros agrícolas
de fundos o empresas con contratos indefinidos hacia empleos transito-
rios por faena, aumentando la precariedad y vulnerabilidad de su inser-
ción laboral y con ello su papel en la familia. En el caso de las mujeres, el
tránsito ha sido de dueñas de casa, empleadas al interior de la hacienda
o ejecutoras de actividades productivas campesinas para el autoconsumo
o comercialización4, conceptualizadas como fuerza de trabajo marginal o
ayuda familiar no remunerada (REBOLLEDO, 1997, p. 04) a asalariadas
agrícolas temporales, produciéndose un aumento gradual y sostenido de
dicha condición ocupacional.
En el plano de las características que asume el trabajo de temporada
agrícola en condiciones precarias, en términos del aumento de la flexibilidad
laboral interna o cualitativa (mayor polifuncionalidad) y externa o cuantita-

3 Impera una tendencia a la hiper fragmentación de la faena agrícola, prevaleciendo contratos por pe-
ríodos tan breves como siete días, circulando una alta cantidad de contratos y finiquitos que generan
una pérdida de derechos laborales, como el derecho a la indemnización y al descanso pagado. En ma-
teria de remuneraciones, investigaciones recientes han identificado más de una docena de unidades
de pago distintas, fragmentando las modalidades salariales y aumentando la incertidumbre respecto
al monto final. Dichas formas de pago generan una “autorregulación” forzada de la jornada laboral y
un aumento excesivo de los tiempos de trabajo para incrementar el salario (WILLSON, et al, 2009).
4 Entre las actividades productivas que realizaban las mujeres de grupos familiares de inquilinos o de
familias de pequeños propietarios antes de la modernización de la agricultura, se cuentan los empleos
de servicios en casas patronales, ordeñadoras o hilanderas-tejedoras de la hacienda (VALDÉS, 1988),
o desarrollando actividades productivas como la crianza de aves de corral y cultivo de huerto, labores
de hilado, tejido, elaboración de artesanías para el consumo familiar, trueque o comercialización, así
como también actividades de recolección de productos forestales no madereros o del mar (REBOL-
LEDO, 1997, p. 4).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 117

tiva (mayor inestabilidad, fragmentación del contrato y del salario) (LARA,


2006 [c]; CHAZARRETTA, 2005), las preguntas centrales de este artículo es
¿cuál es el impacto de la mayor flexibilidad en las transformaciones de las
familias de los temporeros/as del agro?, ¿qué tipo de desincronizaciones pro-
voca el trabajo con otras actividades (sociales, familiares)? y ¿cuál es la auto-
nomía y/o subordinación de trabajadores y trabajadoras respecto a la gestión
de su tiempo?. El territorio donde se basa el trabajo empírico que da origen a
este artículo es el valle vitivinícola de Casablanca, región de Valparaíso.

Desplome de la sociedad salarial, bajo el modelo neoliberal

Desde la sociología del trabajo se ha teorizado acerca de las transfor-


maciones surgidas en la producción, relaciones, espacios laborales y condi-
cionantes del empleo, que han afectado al mundo entero. La desintegración
del trabajo típico abrió paso a diversos cambios que integran el diagnóstico
contemporáneo. La subordinación laboral, el debilitamiento de la acción
colectiva sindical, la transformación de las condiciones de trabajo, el desdi-
bujamiento de la condición de asalariado/a tradicional, el cuestionamiento
de la concepción de protección laboral, y la paulatina incorporación de las
mujeres al trabajo remunerado5, forman parte de los fenómenos surgidos
a partir de los años 70. Tales procesos han dado paso a redefiniciones en
los límites entre las diversas esferas de la vida, las que se han expresado en
diferentes tensiones que hoy los individuos6, hombres y mujeres, deben con-
frontar a partir de sus elementos identitarios particulares, en un escenario
social que cambia.

5 Desde ya consideraremos la tensión que provoca el análisis de Santos (1998, p. 401) que señala que
la entrada al mercado de trabajo les permite a las mujeres salirse de la dominación patriarcal del es-
pacio - tiempo doméstico, pero esta dominación se traslada de este espacio hacia el espacio – tiempo
de la producción, y por ese camino reproduce y amplía, la discriminación sexual contra las mujeres.
6 A lo largo del siglo XX la sociología se ha dedicado a estudiar situaciones estables, desplazando su
centro de interés de las lentas transformaciones de la sociedad y de las estructuras de la personalidad.
Desde la perspectiva de la no segregación, N. Elias (1968) nos propone tratar la relación de los con-
ceptos individuo y sociedad, como dos cuerpos de existencia no separados, y más que considerarlos
en su estado normal de reposo, abordarlos en su carácter de proceso, considerando la idea de una
“sociología del largo plazo”. Por otro lado, propone dejar de aferrarnos a la imagen de homo clausus,
es decir, individuo aislado, como cáscara cerrada, sino que hablar de homines aperti, es decir, sujetos
cuya existencia presupone un referente plural –los seres humanos se manifiestan como pluralidades,
en una sociedad que es un entramado de interdependencias constituidos por individuos- ubicado en
un entramado de interdependencias con otros que nos permita captar la dinámica de los procesos
sociales (1968, p. 16-44). La convivencia de los seres humanos está llena de contradicciones, tensiones
y estallidos, y se realiza en el seno de un grupo humano, de una sociedad. La historia es siempre la
historia de una sociedad, pero sin duda, de una sociedad de individuos (ELIAS, 1990, p. 64).
118 |

Castel (1997) nos ayuda a comprender las características del de-


rrumbe de la sociedad salarial, justo cuando la “civilización del trabajo”
parecía consolidada, mostrando los cambios radicales que se producen
en el mundo de los/as asalariados/as en la modernidad post-industrial,
procesos que producen nuevas incertidumbres, generadas principalmente
por la flexibilización de las relaciones laborales y los procesos de recon-
versión productiva empresariales. Nombra a este fenómeno como la meta-
morfosis de la cuestión social, explicando las nuevas incertidumbres, los
cambios radicales en el régimen de asalarización y la aparición de nuevos
modos de inserción en la estructura social, desempleo masivo, inadecua-
ción de los sistemas clásicos de protección, multiplicación de empleados
precarios e intermitentes, son elementos de la condición salarial actual
(CASTEL, 1997, p. 10-13).
La crisis del modelo típico de relación de trabajo, podría explicar-
se por las crisis particulares de cada uno de los pilares que lo sostenían:
i) debilitamiento de los Estados nacionales, ii) introducción de cambios
en la organización de la producción y del trabajo, y iii) desocupación y
crecimiento del sector informal, que afecta a la sindicalización. Las em-
presas pierden buena parte de sus funciones integradoras y se transforman
en “máquinas de excluir”, a través de la subcontratación, externalización,
contratos de trabajo “atípicos”, preferencia por relaciones de servicio for-
malmente no subordinadas. Bajo dichas reconfiguraciones, apelan más am-
pliamente a los temporarios y practican la tercerización a gran escala. Los
antiguos colectivos de trabajo no funcionan y los trabajadores compiten
unos con otros, con efectos profundamente desestructurantes sobre las so-
lidaridades obreras (CASTEL, 1997; 2009, p. 25).
El salario, como modo de retribución de la fuerza de trabajo, supo-
nía tanto el disciplinamiento que regula el ritmo de la producción, como el
marco legal que estructuraba las relaciones laborales, es decir, contrato de
trabajo y disposiciones, que hicieron que el salariado, en la década de los
60, se constituyera en la matriz básica de la “sociedad salarial” moderna.
Sin embargo, dicha condición, se desploma con el debilitamiento de un Es-
tado social regulador de las actividades económicas, que aseguraba protec-
ción social generalizada, conducía la economía y establecía el compromiso
entre los distintos actores asociados al proceso de crecimiento (CASTEL,
1997, p. 14).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 119

El trabajo en tanto soporte privilegiado de inscripción en la estructura


social, por la fuerte correlación entre el lugar que ocupa en la división social
del trabajo y la participación en las redes de sociabilidad y sistemas de protec-
ción que “cubren” al individuo ante los riesgos de la existencia7, ya no cum-
ple una función de integración. Por el contrario, la ausencia de participación
productiva y el aislamiento relacional producen “desafiliación” laboral, enten-
dido no como ruptura de un proceso sino como recorrido, perteneciendo al
mismo campo semántico que los conceptos de disociación, descalificación o
invalidación social. La zona intermedia, inestable, que conjuga precariedad
laboral y fragilidad de los soportes de proximidad es conceptualizada como
vulnerabilidad social (CASTEL, 1997, p. 15-17)8.
Para Castel los trabajadores/as que no logran inscribirse, viven la
amenaza de la invalidación social, pues carecen de los “capitales”, en el
sentido de Bourdieu, o soportes/recursos para hacer frente positivamente
a la novedad (CASTEL, 2009, p. 25). Por su parte, Santos (1998, p. 308)
enfatiza que el trabajo asalariado como unidad homogénea y autónoma
del tiempo vital se descaracterizó9, a partir de las estrategias de flexibiliza-
ción y precarización de la relación salarial que han venido siendo adopta-
das: disminución de los tiempos de contrato por tiempo indeterminado,
sustituidos por contratos a término fijo o temporal, y por el trabajo fal-
samente independiente que genera fragmentación y heterogenización del
proletariado.

7 El término sociedad (industrial) del riesgo, se ha usado para argumentar la imperceptibilidad de los
peligros, su dependencia respecto del saber, su supra-racionalidad, la “explotación ecológica”, en de-
finitiva el paso de la normalidad a la absurdidad (BECK, 1998, p. 15). Santos (2009, p. 241) advierte
que, frente a dicha teoría habría que observar que las formas de ser y vivir en América Latina han
estado permanentemente en tránsito y transitoriedad, cruzando fronteras, creando espacios fronteri-
zos, acostumbrados/as al riesgo (con el cual se ha vivido mucho antes de la invención de la “sociedad
del riesgo”).
8 Posteriormente Castel señala que nuevos riesgos sociales, como el “riesgo dependencia”, “riesgo des-
ocupación” o “riesgo precariedad” se amplifican en un contexto de pérdida de protección social (CAS-
TEL, 2009, p. 31). Por otra parte, análisis recientes desde la sociología del individuo, plantean que las
desestabilizaciones socioeconómicas, especialmente para quienes están en el empleo informal, viven
una fragilidad objetiva, que los conduce a una situación de inquietud posicional. Más que vulnerabi-
lidad se hablaría de inconsistencia posicional, definida no como un riesgo en particular, sino que es
el propio emplazamiento social (“en su conjunto”) el que se percibe como poroso y susceptible
de deterioro (ARTEAGA; MARTUCCELLI, 2011, p. 288). La mayor parte de los individuos,
y aún más quienes pertenecen a empleos precarios, como los/as asalariados/as del sector pri-
mario, siente que su posición es extremadamente permeable al cambio y sujeta al deterioro
social; el sentimiento generalizado es que todas las posiciones pueden sufrir procesos activos
de desestabilización, que instalan una preocupación permanente, bajo una sociedad atrave-
sada por sentimientos plurales de inestabilidad (ARAUJO; MARTUCCELLI, 2012, p. 127).
9 Además las relaciones sociales de la producción se descaracterizan como campo privilegiado de do-
minación y jerarquización social (SANTOS, 1998, p. 316).
120 |

Castel (1997, 2009) y Santos (1998) contribuyen a comprender la si-


tuación estructural del trabajo asalariado temporal vitivinícola de hombres
y mujeres en Chile. Empleo inestable, precario, inclusión/expulsión consti-
tuyen ejes de integración que caracterizan a este sector. Los/as temporeros/
as aparecen como “siluetas inciertas y sujetas a situaciones cambiantes”, como
víctimas de las reconversiones productivas que le imprime a la producción el
proceso de globalización, se trata de sectores laborales en que se conjunta
precariedad económica con inestabilidad social. El informe de desarrollo
humano del PNUD sobre Chile Rural (2008) señala que el empleo de tem-
porero/a no se elige, sino que se encuentra como única opción, no se trabaja
por competencias, sino por disposición en tanto trabajo no calificado y de
menor categoría social. Es la opción de los sin opción, “es que esa es la rea-
lidad, porque ser temporero es como decir tengo un puro zapato, me falta
otro, como que no vas derecho proyectando tu vida”10.
La flexibilización del trabajo y los cambios en los modelos de pro-
ducción han instalado la incertidumbre como una situación normalizada,
en la medida que esta forma de acceder al empleo se ha “estabilizado”, ori-
ginando que sea la “inestabilidad” lo que organiza a vastos sectores de tra-
bajadoras y trabajadores.
Castel, en El Ascenso de las incertidumbres (2009), señala que fren-
te a la instalación de la precariedad como una condición “normal” de la
organización del trabajo, con sus características propias y su propio régi-
men de existencia, estaríamos transitando desde la “condición salarial” de
“salariado” a la “condición precaria”, es decir al “precariado”, bajo la cual la
condición de precariedad se convierte en un registro propio y único de la
organización del trabajo (CASTEL, 2009, p. 132).
Las implicancias del cambio radical que ha experimentado la eco-
nomía y el trabajo, ha sido tratado también por Sennet (2000), desde la
perspectiva de las consecuencias personales que el capitalismo tardío neo-
liberal y la flexibilidad produce en hombres y mujeres. Si bien flexibilidad
pudo haber estado ligada a la noción de libertad, la nueva economía polí-
tica traiciona ese deseo personal de libertad, produciendo más bien nuevas
estructuras de poder y control (SENNET, 2000, p. 48). Con la expresión

10 Entrevista grupal temporeros, en Informe “Desarrollo humano en Chile rural. Seis millones por nue-
vos caminos”. PNUD. 2008.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 121

“capitalismo flexible”, se les pide a los trabajadores/as un comportamiento


ágil, que estén abiertos al cambio y que asuman un riesgo tras otro, creando
con ello ansiedad e incertidumbre (SENNET, 2000, p. 9).
Para Sennet (2000, p. 48-57), el sistema de poder de las nuevas
formas de flexibilidad tiene tres características esenciales: i) reinvención
discontinua de las instituciones de manera decisiva e irrevocable, basado
fundamentalmente en la inestabilidad de la demanda del consumo. ii) es-
pecialización flexible (como antítesis del sistema de producción encarnado
por el fordismo), la producción en cadena ha sido reemplazada por islotes
especializados con habilidad de innovación, capaces de cambiar las tareas
semanales, y a veces diarias, que los/as trabajadores/as han de realizar11,
iii) y concentración del poder sin centralización del poder, es decir, des-
centraliza el poder, dándole a los/as trabajadores/as inferiores más control
sobre sus propias actividades y a las jefaturas inferiores mayor dirección de
pequeños grupos de trabajo, pero es sólo una apariencia pues el poder sigue
desigual y arbitrariamente distribuido dentro de la empresa.
Estos tres elementos del poder flexible corroen el carácter o persona-
lidad de los/as trabajadores/as, que tratan de jugar de acuerdo con las reglas
planteadas, produciendo como consecuencia dos rasgos, falta de apego du-
radero y tolerancia a la fragmentación (SENNET, 2000, p. 64-65), caracte-
rísticas que, en investigaciones recientes, han sido avizoradas en los/as com-
portamientos habituales de temporeros/as del agro (WILLSON et al., 2009).
Las transformaciones productivas y requerimientos de trabajo no
sólo aumentaron la participación de los/as trabajadores/as temporarios sino
que, modificaron su perfil. Esta tendencia obedecería a cierta “autonomía”
por parte del trabajo estacional respecto de las condiciones propias del ciclo
productivo anual y que formaba parte de la interpretación clásica acerca de
la presencia del trabajo estacional agrícola, para pasar a ser explicada por
las estrategias empresariales que buscan minimizar el uso de trabajadores
permanentes “sustituyéndolos” por la contratación continua de trabajado-
res transitorios. De esta manera, las empresas reducen costos de producción
y simplifican la gestión de la mano de obra para lo cual, entre otros dispo-
sitivos recurren a distintos tipos de “intermediarios” para la contratación
de temporeros/as, incrementando las situaciones de desempleo estacional,

11 Lara (2006 (c)) la llama flexibilidad cualitativa, en el sentido de la polifuncionalidad.


122 |

haciendo más incierta su inserción laboral y debilitando o desdibujando la


relación salarial. Se presenta una caída en la utilización de trabajo perma-
nente que es aportado por trabajadores familiares y asalariados/as perma-
nentes a medida que aumenta el nivel tecnológico de las empresas.
Por lo tanto, las distintas formas que asume la transitoriedad incluyen,
a los/as ocupados/as exclusivos de la agricultura aunque con inserciones dis-
continuas y períodos variables de desocupación; los insertos parcialmente
en la agricultura y que trabajan también en otras ramas de actividad no agrí-
colas y generalmente urbanas; y los estacionales tradicionales que alternan
períodos de trabajo con otros de inactividad (NEIMAN, 2011, p. 05).
Otra distinción útil en la vitivinicultura argentina es la flexibilidad
externa e interna. La primera dada por la temporalidad del trabajo, donde
originalmente la demanda estacional genera una repetición cíclica, sin em-
bargo a partir de la re-organización flexible del trabajo se ha extendido el
empleo temporal más allá de la estacionalidad de las labores. Por su parte,
la flexibilidad interna alude a la polifuncionalidad del trabajo. La jornada
de trabajo no es una unidad homogénea ni lo es tampoco la hora de trabajo,
sino que aparecen la intensidad y el esfuerzo como las variables más impor-
tantes. Durante las cosechas los trabajadores ocupan entre 12 y 14 horas, en
tanto durante la época de baja actividad pueden hacerlo sólo dos o cuatro
(CHAZARRETTA, 2005, p. 51).
Acerca de la flexibilidad del trabajo en la agricultura, Lara (1998, apud
MARTIN, 2009) acuñó el concepto de “agricultura flexible” que responde a
una búsqueda dinámica de las empresas por insertarse competitivamente
en el nuevo orden internacional. En el caso del mercado de trabajo agríco-
la la flexibilidad es cuantitativa; pues implica variación de horarios, even-
tualidad del empleo y pagos a destajo; y también es flexibilidad cualitativa,
consistente en la reorganización de las tareas al interior del personal para
que cada trabajador pueda desempeñarse en más de un puesto de trabajo,
implica exigencias de calificación, especialización, estímulos a la producti-
vidad, multifuncionalidad – pues son obreros/as que han debido desarrollar
una gran flexibilidad en el manejo de distintas técnicas para una misma
labor cultural respondiendo a las exigencias y especificaciones de las distin-
tas bodegas compradoras-, organización de la fuerza de trabajo en equipos
y mayor implicación de los trabajadores en todo el proceso. Para Lara esta
flexibilidad se logra mediante el empleo de mano de obra femenina que es
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 123

capaz de pasar por todas las fases de las cadenas productivas desempeñando
actividades con características diversas porque cuenta con una calificación
previa obtenida la mayoría de las veces en las unidades domésticas.

El valle de casablanca y sus características socioeconómicas y productivas

El valle de Casablanca, ubicado en la región vitivinícola del Aconca-


gua, por su singularidad desde el punto de vista de la modernización de la
industria, posee como una de las principales actividades económicas de su
comuna la producción de uva de vinificación, elaboración de vino y activi-
dades conexas.
El proceso de transformaciones espaciales en la comuna es el rasgo
más destacado de las últimas décadas. Una parte significativa del espacio
agrícola de Casablanca ha experimentado cambios en las estructura del
uso del suelo post-reforma agraria. Consecuencia de ello es un valle que
presenta nueva alta dinámica espacial producto del proceso de reconver-
sión productiva vinculado a la modernización económica y tecnológica
(TRONCOSO, 2006, p. 104). Hasta la década de los 80, Casablanca era
una comuna de agricultura tradicional dónde predominaban cultivos de
cereales, trigo, maíz, avena y plantas forrajeras para la ganadería como
la alfalfa, que con el paso del tiempo dejaron de ser competitivos, y en
menor medida chacras, zapallos o porotos para el autoconsumo o venta
menor. La ganadería lechera, constituida por productores medianos, gran-
des y cooperativas era el principal motor económico de la comuna. En la
actualidad sigue teniendo un peso importante que comparte con la indus-
tria vitivinícola.
En 1982 el enólogo Pedro Morandé, inspirado en lo que observó en
California, plantó las primeras 20 hectáreas de viñas (Chardonnay, Sau-
vignon Blanc y Riesling). Fue pionero en visualizar las potencialidades del
valle para este rubro, imitado tímidamente por otros. Así, el valle de Casa-
blanca fue el primero en la región que adquirió fama mundial, y uno de los
precursores en constituirse legalmente, al que luego siguieron otros valles
como San Antonio, Limarí y Leyda. En 1985, presentó sus primeros Sauvig-
non blanc y Chardonay a la Asociación de Ingenieros Agrónomos-Enólo-
gos, quienes quedaron gratamente sorprendidos. Nueve años más tarde se
funda Viña Morandé enfocada en varietales premium. En 1989, había sólo
124 |

90 hectáreas plantadas, pero a partir de ese momento la situación cambió


radicalmente iniciándose el boom de la viticultura del valle (RIFFO [a],
2008; TRONCOSO, 2006).
La fortaleza de esta zona no está en la cantidad, sino en la calidad.
Los productores son mayoritariamente externos al valle, lo que explica que
49 de las viñas nacionales esté allí directa o indirectamente, ya que pueden
elaborar mostos blancos que los mercados compradores pagan muy por
encima de otras cepas.
El estudio realizado por Troncoso (2006, p. 126-129) da cuenta de
un fuerte y grave problema de concentración de la tierra. Los nuevos inver-
sores, a su vez demandan tierras, para implementar una producción más
intensiva, mientras la oferta ha estado constituida básicamente por fraccio-
nes medianas, provocando que la concentración sea mayor. Las mutaciones
desarrolladas por estos nuevos empresarios implican un emprendimiento
productivo a mayor escala, convirtiéndose la producción en un “negocio
agrícola”, cuyo objetivo primordial es obtener máxima rentabilidad. Del
conjunto de actividad silvoagropecuaria, las explotaciones de gran tamaño
(cerca de un 2%), son las que ocupan la mayor cantidad de la tierra (cerca
de un 30%) (AGUIAR, 2010, p. 10).
Campesinos y antiguos parceleros beneficiados de la reforma agraria
se han visto obligados a vender sus tierras a bajo precio. En Tapihue hubo
parceleros prácticamente “regalaron” sus parcelas, pues “venía gente que
tenía plata y les ofrecía entre 300 mil y 400 mil pesos por una parcela …
cuando llegaron estos señores instalando viñas ahí empezaron a vender”
(Silvia, permanente, 61 años).

Los nudos de la industria y su relación con el empleo

Hoy día la vitivinicultura en Casablanca es una industria vinculada


a procesos de globalización, dinámica y abierta a la economía mundial. El
Estado ha ayudado a la industria, a través de proyectos PROFO –Proyec-
tos Asociativos de Fomento- de CORFO –Corporación de Fomento de la
Producción-, Ministerio de Economía, para inversiones en infraestructura
y constituir en el 2001 la Asociación de Empresarios Vitivinícolas del valle.
Sin embargo, como polo emergente, no presenta un desarrollo equitativo
de los diferentes segmentos sociales de los encadenamientos productivos.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 125

A juicio de analistas12 presenta un desarrollo dual; es un valle fragmentado


en dos, pues por una parte está el exitoso sector empresarial y en el otro los
precarios grupos sociales como los/as temporeros/as y la comunidad local,
que en su mayoría no participa de la bonanza económica, ni del aumento
de conocimiento y tecnología. Está por un lado un sector de punta repre-
sentado por las viñas, y por otro el resto del valle, rezagado y sin potenciali-
dad autónoma para un desarrollo territorial equilibrado e inclusivo. Dicho
desarrollo dual se presenta con fuertes desequilibrios internos donde no
hay una real distribución; los sindicatos no tienen poder de negociación y
no existe un ambiente que facilite la innovación en la relación capital - tra-
bajo. Se conforman dos realidades paralelas el sector empresarial desple-
gando su iniciativa y creando una industria exitosa, de renombre mundial,
innovadora, moderna, posicionando a Chile en el mundo; y por otra parte
los otros actores sociales, en especial los/as temporeros/as, presentan una
situación de desorganización social producto de la precariedad y estacio-
nalidad del empleo. En síntesis es un sector de punta que está de espalda al
pueblo, comunidad y sus trabajadores/as.
Se configura una estructura productiva que, si bien es heterogénea,
está dominada por empresas grandes y grandes/medianas, generándose
densidad del tejido empresarial en el territorio. Aunque hay asociación lo-
cal entre las principales viñas, no hay un desarrollo de encadenamiento
entre empresas, que pudiera favorecer ese desarrollo endógeno territorial
(AGUIAR, 2010, p. 13-16).
Desde el punto de vista medioambiental, “en Casablanca lo que más
se valora es la uva […] Casablanca está actualmente dedicado a vender cli-
ma y suelo pero no territorio, por lo que al clima y suelo se le debe agregar
la gente y su identidad cultural”13.
La percepción de la comunidad acerca del desarrollo empresarial
apela directamente a una desvinculación entre ambos actores. El presidente
de la Unión Comunal de Juntas de Vecinos enfatiza en la falta de acerca-
miento de las empresas con la comunidad organizada y en la inexistencia
de espacios de diálogo. El único beneficio es la generación de empleo, pero

12 Gonzalo Falabella y Juan José Rocca, docentes e investigadores de la Facultad de Ciencias Sociales
de la Universidad de Chile. Disponible en: <www.facso.uchile.cl/noticias/2009/investigación_casa-
blanca_fn.html>. Accedido en 30 mar. 2012.
13 Idem.
126 |

bajo condiciones salariales precarias. Las empresas no han logrado estable-


cer una relación permanente, ni menos sustentable con las organizaciones
sociales, de tal manera que desconocen la realidad, problemas y necesida-
des de la comunidad local (MOLINA, 2008, p. 19).
Inicialmente los actores de la comunidad forjaron grandes expecta-
tivas con el desarrollo de esta emergente industria. Sin embargo, en sus 20
años de existencia perciben que el desarrollo empresarial se ha generado “a
espaldas” de la población local, utilizándola cada vez más como mano de
obra estacional, salvo algunas excepciones en la donación de recursos para
jardines infantiles del Hogar de Cristo. En materia de formación técnica se
encontró una disociación entre la formación que se entrega en los liceos
(electricidad, administración y mecánica automotriz) y las posibilidades de
empleo calificado en las viñas.
Cuando se instalaronn las viñas hace más de dos décadas, además
de las bondades del clima, se consideró como un valor la existencia de
agua. Sin embargo, en la actualidad hay un problema de sequía grave que
ha dificultado que ríos y esteros renueven las napas subterráneas. El es-
tablecimiento de viñas, junto a las lecherías existentes, generó una cre-
ciente demanda de agua, motivando la construcción de diversos pozos
profundos. Dicho aumento generó que el recurso esté menos disponible
para pequeños productores campesinos y para la comunidad, dado que el
agua de los tranques se agota rápidamente en verano, y los más pobres no
cuentan con pozos profundos y equipamiento de riego14. La consecuencia
más evidente es la imposibilidad de los campesinos de seguir producien-
do para el autoconsumo, teniendo que acceder a los alimentos a través del
mercado. “Antes no tenías ni siquiera que salir a trabajar, porque antes
uno cosechaba las cosas y ahora hay que comprarlas” (trabajador perma-
nente, 63 años).

Flexibilidad, estacionalidad y precariedad en los itinerarios


laborales anuales

Las viñas son las que en la actualidad dan más trabajo en la zona. Al-
gunos, sobre todo hombres y mayores, obtienen la oportunidad de acceder

14 Proyección 2010. SERPLAC. I Municipalidad de Casablanca, p. 48.


Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 127

a un trabajo estable, con contrato indefinido. Algunas mujeres, reciente-


mente, están logrando este privilegio, priorizando a las que han alcanzado
una escolaridad alta, y son valoradas para hacer trabajos que impliquen
tareas de control (de calidad), supervisión y vigilancia.
Luego de la estabilización y ampliación de la vitivinicultura iniciada
con gran fuerza en los 90, se ha producido un proceso creciente de pérdida
de empleo estable e indefinido, siendo reemplazado por empleo temporal.
Ello ha llevado a que en la actualidad, quienes tienen contratos indefinidos
son prácticamente sólo quienes se iniciaron en esta industria, es decir, con
antigüedades laborales en las empresas pioneras, como Veramonte que se
instaló a principios del 90, por lo tanto se trata de hombres de 45 años y
más. Los más jóvenes en cambio, son contratados sólo por periodos cortos,
por obra o faena, por semanas o a lo más por tres meses, quedando el con-
trato indefinido como un bastión en extinción.
A partir de la transformación productiva del valle, la población local
tuvo que aprender un nuevo oficio. Antes del auge de las plantaciones en
el valle no sabían nada del trabajo en las viñas. Lo han aprendido con el
transcurso del tiempo, sólo con la práctica.
En los inicios todo el valle estaba aprendiendo el oficio, desde obre-
ros hasta supervisores y jefaturas. A pesar de que el conocimiento experto
de los/as trabajadores/as antiguos es el que más vale en estos momentos, no
está siendo compensado con mejores remuneraciones.
La producción agrícola generó transformaciones radicales internas
en el mercado laboral, pues ha adquirido de cara a los acelerados procesos
de flexibilización y desregulación que ocurren en otras ramas productivas,
no sólo en el país, sino en el mundo entero, los rasgos distintivos de un
mercado de trabajo estructuralmente inestable, desregulado e intermedia-
do, en el marco de un modelo económico neoliberal consolidado. Estos
cambios, y las nuevas formas que adquiere el trabajo en la producción de
vinos, condiciona y tiene impactos concretos y prácticos en la vida de las
personas, los que no son homogéneos, sino que tienen manifestaciones di-
ferentes desde la perspectiva de género. En específico es posible anunciar
que las transformaciones aludidas en el trabajo en la producción del vino,
tiene incidencias en el uso del tiempo de las personas y en el control del
cuidado del propio cuerpo.
128 |

Trabajar “puertas adentro”: nuevo inquilinaje sin acceso a ración


de tierra

En Casablanca, hay fundos vitivinícolas que mantienen la práctica


de otorgar alojamiento a obreros/as permanentes al interior de la gran pro-
piedad agrícola. Se trata de trabajadores/as vitivinícolas “puertas adentro”.
Los empleadores otorgan casa habitación, no siempre en las mejores con-
diciones, y sin beneficios extra salariales como ración de tierra o siembra a
medias, como en los antiguos fundos y en el sistema de inquilinaje.
La experiencia del inquilinaje agrícola tradicional la tuvieron práctica-
mente todos los/as entrevistados/as de la generación mayor, en Tapihue o las
Dichas en Casablanca, o bien en el sur. Como fundos ganaderos, de crianza
de vacunos, lecheros y de siembra de cultivos tradicionales, allí las familias de
inquilinos debían pagar obligación. A cambio se les daba un magro salario,
pero también una cantidad de terreno, la ración de tierra, para que hicieran
sus chacras, donde producían hortalizas y criaban aves y animales menores.
Las familias de inquilinos eran numerosas, era una época sin control
de natalidad y los/as hijos/as eran la fuerza de trabajo del jefe de familia.
Siendo aún niños, desde los diez años, dejaban la escuela y comenzaban a
trabajar con sus padres en todo tipo de labores agrícolas, las mujeres reem-
plazaban a sus madres en la ordeña, actividad eminentemente femenina.
En la actualidad, en las localidades de Orozco y Tapihue, conocimos
a dos parejas jóvenes, con hijos pequeños, en que a lo menos uno de los
dos es migrante de alguna localidad sureña, que trabajan en una parcela, en
un caso de arándanos y en el otro de uva vinífera, y además deben vivir n
ella. El empleador les cede una modesta vivienda, les financia los servicios
de agua y luz, y además les paga un salario, levemente superior al salario
mínimo. Tienen doble trabajo, obreros de día y responsables del cuidado
nocturno de las parcelas de noche.
No es excepcional que los fundos de la zona conserven y dispongan de
habitaciones para los temporeros/as15, de hecho la ley así lo establece para quie-
nes vienen de otras zonas, lo extraño es que se implemente para trabajadores
permanentes que, aunque residen en la misma comuna, se les pide pernoctar en
su lugar de trabajo, para cumplir diversas funciones en jornadas excepcionales.

15 Como lo hace viña Veramonte y Viña Quintay.


Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 129

La actividad intensiva por excelencia es la cosecha o vendimia, que


se realiza entre los meses de marzo y principios de mayo, a la que se in-
corporan hombres y mujeres sin mayor distinción. Las viñas con mayor
infraestructura, tiene casas de hospedaje, las que ocupan para las personas
que vienen desde otras regiones durante la cosecha. El fundo Mundo Nue-
vo es uno de los que implementa dicha modalidad, sin embargo, sus habita-
ciones están en muy precarias condiciones. La empresa exige hasta ahora a
los trabajadores permanentes de la viña o lechería, generalmente hombres,
que ya tienen sus viviendas propias en la ciudad16, que alojen durante la
semana en el fundo, el que está a sólo 20 minutos en transporte terrestre.
Más que por razones prácticas, pues la cercanía del fundo con la ciudad,
junto con el mejoramiento del transporte y vías de acceso, no justifica que
los obreros trabajen en esa modalidad, se trata de conservar una antigua
práctica, consistente en mantenerlos aislados y dedicados con exclusividad
a las actividades productivas agrícolas a cualquier horario y frente a múlti-
ples demandas. Es decir, se los confronta a estar sobre implicados en el tra-
bajo (ARAUJO; MARTUCCELLI, 2012). La dueña del fundo, hoy de casi
90 años, insiste en la mantención de esta práctica, en contra de la voluntad
de los propios trabajadores, quienes hasta ahora sólo se han sometido a
aceptar resignadamente, pues dicen no tener otra opción más que acatar.
Juan, llegó el 2001 desde Traiguén, a trabajar a este fundo. Vivió cin-
co años ahí. No era precisamente en relación de inquilinaje, pues no tenía
beneficios extra-salariales. Ya no vive ahí, pero hay otros obreros que si lo
hacen. No está de acuerdo con dicha práctica porque fue desventajoso para
él y claramente lo asocia a una relación de trabajo esclavo.

Labores y características de la actividad agrícola vitivinícola en el


presente

Las labores agrícolas referidas al trabajo de las viñas que se masifi-


caron en Casablanca, responden a un trabajo versátil y diversificado, tanto
para permanentes como para temporales, aludiendo al concepto de flexibi-
lidad interna o cualitativa (CHAZARRETA, 2005; LARA, 2006 [c]).

16 Soluciones habitacionales básicas obtenidas por intermedio de subsidio estatal en el caso de los
locales, o viviendas arrendadas en el caso de los migrantes del sur.
130 |

Luego se realiza la poda. En el valle de Casablanca éste es un traba-


jo masculino, actividad que se realiza entre junio a septiembre, período
en que aumenta la cesantía en las mujeres. Es un trabajo lento, porque
junto con podar hay que limpiar los sarmientos que están enredados en
los alambres. Julio es prácticamente el único mes sin empleo en las viñas
para los/as obreros/as temporales. Son las vacaciones obligadas, pero sin
salario, sin derechos, en que se empobrecen, pues deben gastar los aho-
rros que han generado. Entre agosto y septiembre, cuando se termina de
podar, un grupo de trabajadores/as mucho menor se vuelca a las labores
de amarre de los brazos a las parras, arreglo de alambres, cabezales, man-
gueras y palos (sobre todo cuando se cosecha a máquina), y enrejado,
que es cuando el brote ya está grande, se enreja para dar orden a la hilera.
Septiembre también es el mes en que se planta. Estas labores requieren
muchos menos trabajadores/as, por ende se mantiene alto el desempleo
que se generó en julio.
Se llama “trabajos en verde” al desbrote y deshoje, los que se realizan
entre octubre y enero. El primero consiste en desbrotar el tronco para que
la parra críe fuerza hacia el fruto, no de la raíz. Saca el brote con la mano,
con guantes de goma, o con una herramienta se corta el brote desde la raíz
del tronco. El sacado de mellizos es cuando hay dos brotes juntos, hay que
dejar pura varilla para priorizar por la calidad de un fruto, además se sepa-
ran, para que no se forme exceso de follaje, y así evitar que la uva se pudra.
Deshojar es la labor que se realiza cuando la uva está grande, buscando que
entre más aire y luz al racimo para su madurez. Estas labores no se realizan
en todos los campos ni se hace en todas las variedades.
Febrero es un mes de poco trabajo, pues es el período en que se
espera a que la uva madure, por lo que a muchos temporeros/as se les
desvincula, a veces sólo semanas. A pesar de que es un mes pasivo labo-
ralmente, los/as trabajadores/as de planta no pueden tomar vacaciones,
cuestión que quisieran pues coincide con las vacaciones escolares y con el
verano, sin embargo por regla se les otorgan sus vacaciones entre mayo y
julio. Sólo los jefes pueden hacerlo en febrero, siendo claramente un ele-
mento discriminador.
Otros meses de bajo empleo son septiembre y diciembre, no por falta
de actividad, sino básicamente porque hay muchos feriados. Para el diecio-
cho de septiembre “paran” gente, es decir, la despiden en vísperas de festi-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 131

vos, por una o dos semanas, y las recontratan en octubre. Es una práctica
usada especialmente por contratistas, pues así generan ahorros, pues aun-
que los/as temporeros/as ganen “a trato”, de todas formas hay que pagarles
el salario diario mínimo por día trabajado cuando coincide con un feriado.
Frecuentemente se despide más a las personas de fuera de la comuna, pues
en ellos se incurre en mayores costos de transporte.
La tradición ganadera y de producción de cultivos tradicionales de
la zona configuró un perfil de trabajador agrícola adaptado al trabajo pesa-
do y en condiciones ambientales complejas. Ello explica que la percepción
mayoritaria de los/as entrevistados/as, aún más los que vienen desde el sur,
señale que el trabajo en las viñas, a diferencia de la ganadería, forestal y
actividades mineras, sea una labor más liviana y sencilla.
Trabajadores calificados en los viñedos son los tractoristas, regado-
res y supervisores de labores agrícolas de los/as obreros/as intermediados
por contratistas. Es un personal difícil de cambiar, saben el oficio por lo que
tienen un alto reconocimiento y se generan relaciones de confianza.

El sistema de intermediación laboral y contratistas

Para entender la intermediación laboral es necesario distinguir entre


las figuras del intermediario “enganchador”, contratista y empresa de servi-
cios transitorios (EST). El primero, de larga data en la agricultura chilena,
cumple una función pagada de reclutamiento de trabajadores/as para una
faena y trabajo que finalmente proporciona otro empleador, normalmente
exigiendo desplazamientos geográficos; en este caso dichos trabajadores/
as son dependientes de la empresa mandante. El contratista, por su parte,
ejerce en general en la agricultura como persona natural, es empleador de
mano de obra y presta servicios bajo un acuerdo contractual, por su cuenta
y riesgo, con trabajadores/as bajo su dependencia, a una empresa mandan-
te, llamado trabajo en régimen de subcontratación. En general son ex tra-
bajadores que inician el negocio por solicitud de las mismas empresas. En
tercer lugar, las EST surgidas a partir de la ley 20.123 de subcontratación,
vigente desde el año 2007, aparecen como una figura jurídica formal que
suministra trabajadores/as transitorios prestando servicios determinados,
intentando evitar la práctica de simulación de contrato (externalización fal-
sa de tareas y responsabilidades, cuando la relación de subordinación y de-
132 |

pendencia se da realmente con la empresa principal) (CARO, 2012, p. 169).


En el valle de Casablanca se encontró sólo intermediarios contratistas.
¿Quiénes usan más el sistema de contratistas?. De acuerdo a los/as
entrevistados/as, los productores medianos y pequeños usan más el sistema
que las bodegas y viñas grandes. Sin embargo, cuando las viñas grandes
tienen contratistas, llegan a tener entre dos y seis en el mismo predio, con
cuadrillas que varían entre los 20 y 25 trabajadores/as cada uno. En cambio
un productor pequeño puede tener uno o dos contratistas, los que a su vez
pueden tener apenas dos trabajadores, tratándose de una cadena de empleo
de muy pequeño volumen y factura.
La mayoría de las labores en que la forma de pago se pacta “a tra-
to”, son hechas por temporeros/as intermediados/as por contratistas. Sólo
se obtuvo información que la Viña Veramonte contrata de manera directa a
sus empleados/as temporales, lo que aumenta la reputación de esta empresa.
Sin embargo, como se señaló, la empresa ha ido aumentando sus trabajado-
res/as temporales en detrimento de los permanentes, como la gran mayoría,
probablemente para pasar a tener más trabajadores/as subcontratados que
directos en un tiempo más. Se pudo constatar que el perfil de los contratistas
coincide con lo evidenciado en otros estudios (CARO, 2005). Se trata de per-
sonas que previamente trabajaron en el rubro, y en algunos casos, el cambio
de rol fue sugerido por sus antiguos empleadores, ahora clientes del servicio
que venden. Los/as temporeros/as no tienen otra opción que emplearse in-
termediados por estos pseudo-empleadores.
En términos socioeconómicos se han ido configurando perfiles dife-
rentes, a pesar de que comparten la característica de tener bajos niveles de
escolaridad. Legalmente el contratista está obligado a notificar cada una de
sus actividades en un registro que para estos efectos tiene la Dirección del
Trabajo, que permita saber exactamente cuántos contratistas operan en el
valle y poder así aumentar la fiscalización de una conducta empleadora, que
se plantea abiertamente como irresponsable. Sin embargo, se trata de una
obligación legal con un alto nivel de incumplimiento. En concreto, no se
sabe cuántos contratistas hay, existiendo un enorme subregistro. De acuerdo
al relato de una de las entrevistadas, debe haber unos 80 contratistas en Ca-
sablanca, es decir, más contratistas que viñas. Aunque una antigua dirigenta
del único sindicato de temporeras que ha habido en el valle, estima la exis-
tencia de más de tres veces de la cifra dada.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 133

La mayoría dispone de medio de transporte para trasladar a los/as


temporeros/as, furgones de ocho o diez personas, antes usaban pequeñas
micros. Pueden ser propios o los arriendan para la cosecha. En Casablanca
hay mujeres y hombres contratistas, y para llegar a serlo, se necesita un
capital de a lo menos dos millones de pesos para poder iniciar el oficio for-
malmente, pues es la garantía que están pidiendo las empresas mandantes
para resguardar el pago de los salarios a los/as trabajadores/as. A partir de
la ley de subcontratación se estableció que la empresa es responsable soli-
dariamente frente a salarios e imposiciones impagas. Además de ese capital
inicial y de medio de transporte, necesita contactos con trabajadores/as
para lograr formar una cuadrilla de trabajo.
Entre los contratistas existe competencia y rivalidad, “el contratista
más grande y antiguo, siempre jode y tira a partir al más nuevo”. Cuando
se inician en la actividad, lo hacen de una manera modesta, siguen vivien-
do en las mismas poblaciones o villorios rurales de los/as temporeros/as,
y en algunos casos comparten además el rol de obrero, cuando tienen una
cuadrilla pequeña de trabajadores/as y solamente trabajan para un fundo.
Sin embargo, en la medida en que se consolidan, comienza a crecer su car-
tera de clientes y por ende sus utilidades, evidenciando que se trata de un
excelente negocio. Los temporeros/as entrevistados han sido testigos de la
acumulación patrimonial de los contratistas, cuestión que es observada con
recelo, pues consideran que es un dinero “mal ganado”, toda vez que se com-
portan precariamente como empleadores.
El trabajo que hacen las cuadrillas de contratistas necesita ser super-
visado. En el fundo El Marco, donde hay 13 personas permanentes, una de
ellas, Sandra se dedica a supervisar la calidad del trabajo de las cuadrillas
de contratistas, para lo que emite reportes permanentes a su jefe directo.
Llegó a ser supervisora por tener mayor escolaridad que sus colegas
y porque tenía “buena letra”, sabía de cuentas y conocía completamente el
trabajo que hay que hacer en terreno en las parras. Gana el sueldo mínimo,
sin embargo por la supervisión recibe un bono extra diario, independiente
del número de personas o cuadrillas que supervise. Su trabajo consiste en
llevar estadísticas del trabajo realizado por los intermediados y exigir que
se corrija el trabajo mal realizado.
Respecto a la fidelidad de los obreros/as con uno o varios empleadores
la realidad muestra una composición diversa. Algunos rotan entre varios con-
134 |

tratistas, sobre todo los que vienen sólo por la temporada desde fuera de la co-
muna. Sin embargo, los/as obreros/as rurales locales mantienen trayectorias
continuas, a veces con un solo contratista, y trabajando en pocos fundos. Los
mecanismos de reclutamiento de trabajadores/as son básicamente informales
y orales. “Todos trabajan con contratistas y se van dando el dato, que éste
trabaja acá y está por allá” (Silvia, 35 años, temporera viñas).
Las viñas desconocen y no se hacen cargo de las faltas de los contra-
tistas, lo que hace sostener entonces que la responsabilidad solidaria de la
ley de subcontratación, quiso establecer, no funciona en la práctica, dado
que, la corta duración de los empleos, el desconocimiento del empleador
director y la rotación de contratistas dificulta reaccionar ante malas prácti-
cas empleadoras y denunciar a ambos actores empleadores de la infracción.
Los/as temporeros/as intermediados tienen peores condiciones am-
bientales y de seguridad laboral y social, que los/as temporeros/as directos,
y ambos a su vez que los de planta (indefinidos). Cuando la empresa mejora
su infraestructura es un beneficio del que gozan los permanentes y directos,
o los temporales directos, como los comedores, pero no los subcontratados.
Además alegan que sus empleadores no les pagan las imposiciones ni les
dan implementos y herramientas para trabajar.
Frente al actual gobierno de centro derecha, han bajado los niveles
de denuncia y fiscalización. Esto porque las actuales autoridades no han
enfatizado en que la denuncia puede ser anónima para proteger al trabaja-
dor/a, que ya labora en un entorno sumamente fragilizado por la condición
estructural estacional del empleo. Además como operan las listas “negras”,
no se están atreviendo a denunciar.
Una de las prácticas reñidas con las normas legales, usada amplia-
mente por los contratistas para conseguir un salario mayor, es la disparidad
en el cálculo que estos realizan en relación al cálculo que hacen los propios
trabajadores/as. En la confusión y dado el mayor poder de los contratistas
prima lo establecido por estos. Adicionalmente no pagan semana corrida,
un derecho del trabajo agrícola, dado que siempre se paga “a trato”, por lo
tanto día trabajado es día pagado.
Así como no pagan semana corrida, los contratistas tampoco toman a
trabajadores/as en fechas cercanas a los festivos, como fiestas patrias o fin de
año, fechas en que los trabajadores/as tienen “libre”, pero sin pago, a cuenta
de sus propios recursos. Sólo dejan a algunas personas, para no quedar sin
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 135

gente. En términos generales los contratistas son peores empleadores que las
empresas o productores directos. Además se agudizan los problemas de se-
guridad en el trabajo, con el manejo de plaguicidas y con la precariedad en el
transporte. En caso de accidentes, estos pseudo empleadores frecuentemente
intentan evadir responsabilidades, especialmente las referidas a la protección
de la maternidad, porque simplemente las mujeres no son vistas como suje-
tas trabajadoras con derechos particulares.
La situación descrita genera obviamente que el trabajador/a de con-
tratista no establezca una relación de fidelidad con su empleador, actitud que
observamos en este estudio, sostienen más las mujeres que los hombres. Ya
dejaron de obedecer como “corderos” según ellas mismas señalan, por ejem-
plo “si está malo el trato se van no más” (Fernanda, temporera, 48 años). Por
lo general se cuenta con más de un contratista como opción laboral.
Existe coincidencia en personas de distinta generación, trabajadoras
permanentes de fundos productores y de viñas, que además de ser “malos”
empleadores, el servicio que prestan los contratistas es de mala calidad. La
pregunta entonces es por qué las viñas usan esta modalidad. La respues-
ta está en el ahorro indirecto en costos laborales. Aunque una dirigente
explica que a largo plazo los supuestos ahorros, se transforman en costo
y recarga de trabajo especialmente para los permanentes, pues son los en-
cargados de “repasar” o remendar los errores o falencias dejadas por los/as
temporeros/as de contratistas, grupos compuestos por personas diversas,
muchas inexpertas y sin conocimiento especializado de la labor.
Sin embargo, es la modalidad de pago más que el tipo de empleador,
el factor que influye preponderantemente en la menor calidad del trabajo
realizado, pues la rapidez para podar el mayor número de hileras o co-
sechar el mayor número de tarros, y así obtener un ingreso más alto, no
necesariamente va acompañado de pulcritud en la realización de la tarea.
Fundos que ya conocen esta realidad, la enfrentan responsabilizan-
do a personal de planta, encargado de la supervisión del trabajo de los/
as obreros/as intermediados para evitar que el personal permanente deba
corregir el trabajo mal realizado, y así hacer dos veces el mismo trabajo. Su
labor consiste en hacer un estricto control de calidad del trabajo realizado,
revisando en forma inmediata y exigiendo su corrección instantánea, an-
tes de pasar a una siguiente actividad. Las funciones que desempeñaba un
trabajador con contratista han ido cambiando. En un principio sólo hacían
136 |

el trabajo en verde, como la poda y la cosecha. Ahora se les están asig-


nando otras tareas que antes eran propias y exclusivas de los/as obreros/as
permanentes, confirmando el tránsito de trabajadores permanentes (o con
contrato) a temporales.

El salario mínimo congelado expulsó a los permanentes al empleo


temporal “a trato”

El salario mínimo congelado ha presionado u obligado a las familias


de trabajadores/as a cuatro situaciones. A empujar a que tanto hombres
como mujeres trabajen remuneradamente, pues una familia ya no puede
prescindir de dos o más salarios. A instalar, especialmente en los hombres,
la modalidad del segundo empleo, que en condiciones aún más precarias,
complementan los ingresos que se generan por la actividad principal esta-
cional y esporádica que constituye el trabajo en las viñas. A buscar insta-
lar como rutina y no como excepción la realización de horas extras para
aumentar los ingresos. Y a abandonar el empleo permanente para buscar
empleos temporales “a trato”, en búsqueda de un ingreso, aunque inestable
y sin seguridad social, inmediatamente mayor. Estas tres últimas modalida-
des, fundamentalmente masculinas están justificadas por el rol proveedor
que socialmente está adscrito a los hombres, autoconfrotándolos a asumir
distintas estrategias por un lado, para liderar la función proveedora en el
hogar y por otro, para permitir la sobrevivencia económica de su familia.
Entre los hombres permanentes se observó que simultáneamente al
trabajo que realizan como obreros estables en fundos vitivinícolas, los fines
de semana se emplean como temporeros por día. Juan, quien es tractorista,
los fines de semana o después de su jornada, trabaja con su pareja como
temporero “a trato”.
Algunas temporeras tienen paralelamente un segundo empleo, que
complementa ingresos de los que obtienen como trabajadoras agrícolas es-
tacionales. Se trata de empleos informales, como por ejemplo vendedora en
un vivero, al que asiste sólo en la medida que los turnos en la agroindustria
se lo permitan. En su caso dos trabajos más responsabilidades domésticas y
de cuidado material y afectivo, conducen a un cuadro de sumo cansancio.
En este estudio se encontró que los trabajadores de viñas permanen-
tes con mayor antigüedad en el valle, son los más afectados por el congela-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 137

miento del salario (durante 32 años el fundo paga sólo el salario mínimo),
cuestión que es más grave en aquellas empresas donde no existe sindicato
(o sean, en casi todas, pues como será analizado más adelante, hay sólo 5
sindicatos en todo el valle), pues los trabajadores no se logran articular
para demandar colectivamente por el aumento del salario mínimo en ge-
neral o el salario de su empresa en particular. Explicitan que no se sienten
en condiciones de pedir aumento salarial, anticipándose a una contienda
desigual y perdida.
Por el contrario, hacen horas extras como estrategia para aumentar
sus ingresos, convencidos de que es normal, que está bien, naturalizando
esta forma de acceder a mejores salarios, en lugar de luchar por un aumen-
to salarial. Argumentan que es voluntario, pero a la larga lo incorporan
como la única opción de ganar más, convirtiéndose en una obligación e
imperativo, generando como consecuencia una sobre implicación en el tra-
bajo y pérdida de solidaridades obreras (CASTEL, 2009, p. 25)17.
Trabajadores de viñas consolidadas, piden silenciosamente un reco-
nocimiento económico y simbólico del aporte que hacen en las primeras
etapas productivas, que es el inicio de todo el proceso de producción y
comercialización de un vino “premium” que luego viaja a las mejores mesas
del mundo.
Al igual que en todos los fundos y viñas de los que forman parte
los/as entrevistados/as de esta investigación, la política salarial es pagar el
ingreso mínimo a los trabajadores/as permanentes de planta, como regla
general. Sin embargo, también ha pasado a formar parte últimamente de
las políticas, el fijar un salario base y luego incentivos por actividad, ins-
taurándose un complemento entre jornal diario y “trato”. De esta forma un
temporero que por jornal diario gana el salario mínimo, puede aumentar
su ingreso en un 25%, al fijarse parte de sus tareas “a trato por rendimiento”.
Ahora, esta es una posibilidad que no está disponible para todos, sino sólo
para algunos privilegiados, los que están bien evaluados por la empresa, y
en su calidad de permanentes, son en general hombres.
En uno de los fundos una trabajadora que supervisa el trabajo de los/
as intermediados/as, también recibe un incentivo, pagado sólo las semanas

17 Castel señala que una de las metamorfosis del trabajo es el aumento de la competencia entre los
trabajadores, con elementos profundamente desestructurantes de las solidaridades obreras (2009,
p. 25).
138 |

o meses en que hay empleo temporal. Con ese bono puede llegar a un sala-
rio mensual mayor que el mínimo, que si bien es menor que lo que ganan
los temporeros, es más estable, aunque no totalmente, pues no lo recibe los
12 meses del año, sino sólo los meses de temporada. Finalmente, aunque es
empleada permanente el monto de su ingreso depende del empleo tempo-
ral, configurándose la figura híbrida de permanente/temporal.
La antigüedad estaría jugando como un freno al alza del salario. De
acuerdo a los testimonios, lo que el empleador espera es que el trabajador
con muchos años de servicio evalúe que la única manera de ganar más es
trabajando como temporero y finalmente renuncie, así la empresa se ahorra
la indemnización. Es lo que ocurrió con Nelson, de 45 años, que con más
de 11 años de servicio, y ya no poder seguir conciliando gastos familiares
con el salario mínimo, y que además su señora terminaba ganando más que
él, afectando su virilidad, decidió renunciar y en sus palabras “independi-
zarse”, compleja forma de explicar su situación laboral actual, pues sigue
siendo un trabajador asalariado, pero esta vez “a trato”. Sin embargo para él
esto es trabajar independiente, pues lo que hizo fue “tirarse solo” a trabajar
a las viñas como temporero, con la expectativa de ganar más, por la vía de
la auto gestión de un empleo asalariado de manera individual, asumiendo
personalmente todos los riesgos que podría conllevar este nuevo proceso.
En este nuevo empleo gana un 30% más del salario e iguala el ingreso
con su esposa, quien, trabajadora permanente, también ha sido tentada,
incluso por sus propios actuales empleadores, a hacer el mismo cambio. Sin
embargo, ha optado por una posición menos arriesgada para preservar en
la familia, que a lo menos un integrante, mantenga un puesto estable, aun
cuando sea por menos salario.
Otro testimonio del paso “voluntario” de permanente a temporero
es de Joaquín, 45 años. Trabajó como obrero tractorista permanente en una
viña grande durante casi dos décadas. Como su familia se sostenía sólo con
su salario (debido a que su esposa padeció de un cáncer y no trabajó ni tra-
baja remuneradamente), negoció su despido para poder obtener el dinero,
que no pudo ahorrar por sus propios medios desde su salario regular, para
el pie del crédito hipotecario que le permitiría comprar su actual vivien-
da, justificando su salida bajo el argumento de querer ser un “buen papá”.
La misma empresa que lo finiquitó lo recibió después como temporero,
vía contratos sucesivos por obra o faena, asumiendo que se terminaron los
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 139

contratos indefinidos para él, a pesar de que sigue ejecutando un empleo


totalmente estable, calificado e imprescindible para una viña, como mane-
jar un tractor todo el año.
Las razones para transitar de permanente a temporero son diversas,
puede ser para obtener una indemnización o bien para aumentar el salario
líquido mensual trabajando “a trato”. En ese cambio se pierden beneficios y
derechos como el salario estable y la posibilidad de estar en el sindicato de
la empresa, y así obtener los beneficios de una negociación.

“En casablanca se gana plata cuando es a trato: todo está en el empeño


que uno le ponga”

En esta modalidad, el ingreso como recompensa material frente a la


realización de un trabajo, está mediado por una especie de supra capacidad,
totalmente física, de la persona. Es lo que ella denomina “empeño”.
La unidad de medida por sobre la que se realiza el pago varía de
acuerdo a la función desempeñada, pudiendo ser gamela o tarro cosecha-
do, hilera o mata podada, o hectárea limpiada o barrida, entre otras mo-
dalidades. El amarre, desbrote y sacar la cinta de las parras se paga por
mata. Por supuesto el rendimiento no es homogéneo, depende no sólo de
las capacidades físicas personales, sino también de la calidad de la propia
viña. Ahora bien, las condiciones ambientales y los calendarios de feriados
también afectan, pues si llueve no trabajan y no ganan, cuando es feriado
“están parados”, por lo que tampoco ganan.
Se encontraron diferencias de género en el pago que realizan los con-
tratistas a cuadrillas de mujeres y de hombres. En las labores de amarre hay
contratistas que a las mujeres les pagan 10 pesos por mata, y otros en la
misma viña, pero con trabajadores hombres les pagan 12 pesos. En prome-
dio amarran mil matas diarias, la diferencia de pago puede llegar a ser del
20% del salario diario. El contratista argumenta que a las mujeres les paga
menos, pues es la única forma de ahorrar para comprarse un nuevo trans-
porte, cuestión que si bien es reconocida como un abuso, sienten impoten-
cia de reclamar, pues temen que dejando a ese contratista no encuentren
con facilidad un nuevo empleador18.

18 Lo curioso en este caso es que se requiere encontrar empleador no trabajo, en el sentido de espacio
140 |

Esta situación, extendida ampliamente en los últimos años, ha genera-


do una transformación importante en la mentalidad de los/as trabajadores/
as, pues el valor que tuvo el salario por jornal, por la estabilidad asociada, se
pierde toda vez que se mantiene en un piso extremadamente bajo, al borde o
igualando el salario mínimo, ingresos con los que las familias hoy no pueden
sobrevivir o vivir dignamente, porque simplemente el salario mínimo dejó
de operar como mínimo para mantener incluso las necesidades de alimenta-
ción y los servicios básicos de una familia19, que además responde a un perfil
de parejas jóvenes en proceso de consolidación y expansión.
Los/as trabajadores/as entonces, especialmente hombres, asumen que
la única manera de incrementar sus ingresos es por la vía de la autogestión de
su capacidad laboral, y se retiran del empleo formal y estable, con salario mí-
nimo. Un trabajador que gana por rendimiento podría considerarse que está
en la frontera, a medio camino, entre un empleo asalariado y uno indepen-
diente o por cuenta propia, pues vende su fuerza de trabajo como un servi-
cio. Podría denominarse como un “empre-trabajador” (PONGRATZ; VOB,
2003: 01), que puede ganar hasta un 70% más de lo que gana un trabajador
con un salario estable mínimo, eso sí como resultado de un gran sacrificio,
basado en el cumplimiento estricto del perfil del “esforzado”, que se levanta
más temprano, saca a los/as niños/as al alba para que los cuiden, llega más
tarde a la casa, trabaja horas extras permanentemente y los fines de semana,
a cuenta de ganar un ingreso mayor. Además es una opción valorada simbó-
licamente en tanto genera la ilusión de que se puede decidir libremente tra-
bajar o no trabajar, y ser dueño de sus tiempos. Pero ésta es sólo una ilusión.
Se encontró entonces trabajadores hombres en el valle de Casablan-
ca, que decidieron abandonar empleos estables con salarios exiguos segu-
ros, para preferir trabajar “a trato”, pues es la única alternativa que les ofrece
el mercado laboral vitivinícola para aumentar sus ingresos. Lo anterior, ha
implicado mayor informalidad y pérdida de seguridad social.

físico laboral, pues éste es el que les provee de los contactos de lugares de trabajo.
19 El ingreso mínimo es tan mínimo en Chile que no alcanza necesariamente para que las familias estén
por encima de la “línea de pobreza”, pues cuando un sólo miembro de la familia trabaja, el salario
mínimo líquido ($145.600) no alcanza a cubrir la canasta básica -definida en términos absolutos
como un mínimo de ingresos que permita satisfacer las necesidades básicas, estimadas en función
del costo de la canasta de satisfactores de necesidades básicas-, de dos personas en el caso de las zonas
urbanas ($64.134 per cápita, 2 veces la canasta básica de alimentos) y tres personas en las zonas ru-
rales ($43.242 per cápita, 1.75 veces la canasta básica de alimentos). Disponible en: <www.mideplan.
cl>. Accedido em 30 mar. 2012.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 141

Por su parte, los/as trabajadores/as no ven con nitidez que constituya


una ventaja tener contrato de trabajo, toda vez que los derechos protegidos
por la formalidad laboral se cumplen sólo parcialmente. Por ejemplo, se
impone para la vejez, pero sólo por el salario mínimo por lo que se accederá
a una pensión de bajo monto. De los derechos que otorga el contrato for-
mal, si son apreciados, especialmente por las mujeres, el acceso a la salud de
libre elección, pues quien cotiza en el sistema de FONASA (Fondo Nacio-
nal de Salud), puede elegir libremente con quien atenderse, incluyendo la
salud privada. En un segundo caso, se aprecia, pues se usó por dos trabaja-
doras con contrato indefinido, los derechos de protección a la maternidad,
como la licencia pre y post natal, siendo éste el techo. Los/as trabajadores/
as temporales, con contratos a plazo fijo o por faena, valoran el acceso al
seguro de cesantía.
El pago a trato ha hecho que se relativice el valor de la formalidad y
del contrato de trabajo, pues la frustración ante un salario estancado y la
premura de contar con mayores ingresos, junto con la necesidad de resol-
ver problemas económicos de sobrevivencia en el presente, produce una
mirada de corto plazo e inmediatista.
En otro plano, la pérdida real de derechos laborales y de seguridad
social de la fuerza de trabajo contratada, actúa como desincentivo directo
a la formalidad laboral. No es sólo el salario, también lo es la baja rentabi-
lidad de las Administradoras de Fondos de Pensiones –AFP- que ha pro-
ducido mermas en las futuras pensiones de los afiliados/as que, afecta de
mayor manera cuando se es pobre y no se cuenta con mecanismos perso-
nales o familiares de protección. Un segundo ejemplo es lo que ocurre con
la respuesta empleadora frente a accidentes laborales en el agro, que, para
evitar que aumente la prima de las aseguradoras, envían a sus trabajadores/
as accidentados/as al sistema público de salud. Por lo tanto, ¿para qué tener
contrato si los fondos que estoy acumulando en mi cuenta de capitaliza-
ción individual están perdiendo rentabilidad?, ¿para qué tener contrato si
en caso de accidente me enviarán al sistema público de salud?. La mirada
frente al riesgo se contrapone a la necesidad actual de las familias por ge-
nerar un mayor ingreso que mejore las condiciones de vida del presente
a través del aumento del consumo, cuestión que se muestra más evidente
entre los hombres, por el mandato social que los responsabiliza del sosteni-
miento económico de los hogares.
142 |

Tener pactada una forma de pago “a trato”, conduce a creer que se


tiene acceso a ingresos más altos que quienes tienen pago por jornal dia-
rio o mensual y están con contrato. Sin embargo, la evidencia empírica no
permite afirmar que efectivamente se obtenga un ingreso mayor, si se anua-
lizan los ingresos. Probablemente existe el espejismo de que se gana más,
pues quien trabaja a trato deja en su memoria los montos de los meses o se-
manas en que ganó más, estableciendo como respuesta que se puede llegar
a ganar dicho monto. En esa visión engañosa, probablemente no considera
los días, semanas e incluso meses no trabajados al año, por ende sin ingre-
sos, porque el furgón del contratista no los pasó a buscar y no les avisó anti-
cipadamente, porque se sintieron mal de salud y no pudieron simplemente
salir a trabajar, porque alguno de sus hijos/as o la cuidadora se enfermó y
uno de los dos no pudo salir a trabajar, porque por razones climáticas no
se pudo trabajar o bien, porque estando cerca de días festivos, el empleador
los “cortó” y no tuvieron trabajo.
Por otro lado, en este tipo de trabajadores/as se consolida la ines-
tabilidad en los ingresos, además de las razones mencionadas, por la dis-
paridad entre el cálculo del trabajador y del empleador contratista20. Otro
argumento más para afirmar que el salario alto es sólo una quimera y no
una realidad, pues cuando se cree que se va a ganar más, se termina ganan-
do finalmente menos.
Los salarios congelados y el “trato” ha producido un cambio en las men-
talidades y una corrosión del carácter (SENNET, 2000), sobre todo en la ge-
neración más joven. Pues muchos consideran que el trabajador que no se “au-
to-explota” bajo esta modalidad y no alarga su jornada de trabajo diaria para
aumentar los ingresos que obtiene, es considerado por sus pares como “flojo”.
Efectivamente en otros estudios (CARO, 2012, p. 154), se ha identi-
ficado la existencia de un perfil de trabajadores hombres jóvenes, sin res-
ponsabilidades parentales, que prefieren trabajar a trato, no necesariamen-
te para “ganar más”, sino que para “trabajar menos”, y para ello se ponen
límites, en relación a la jornada e intensidad del trabajo, asociado al salario
que quieren ganar. En ese sentido el pago a trato y la informalidad les da
esa libertad, la que es vista como una ventaja. La idea de que ellos se au-

20 El contratista gana un margen del trato.


Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 143

togestionan se sustenta en que deciden diariamente ir o no a trabajar y la


hora a la que quieren salir del trabajo. Entonces, ser un “trabajador a trato”
ha pasado a ser una identidad ocupacional, que se muestra con paradojas,
pues se asocia a ser un trabajador esforzado y luchador, pero como es libre
de comportarse así, cuando no lo hace es tildado de holgazán.
Por otro lado, el recibir un ingreso inestable y temporal también con-
tribuye a crear trabajadores conscientes de la necesidad del ahorro.
Sobre los salarios, emergen dos conclusiones. Una, la idea de ser un
trabajador libre que decide, en condiciones de precariedad y pobreza, se
desvanece totalmente. Dos, ese salario inestable, incierto y fluctuante, ge-
nera el espejismo de que se va a ganar más, pero en la práctica no es así. En
las entrevistas hay contradicciones sobre el monto ganado, pues cuando se
les pregunta por sus ingresos hay una estimación de lo que “se puede llegar
a ganar”, pero cuando se les interroga acerca de lo que efectivamente ganan
los montos declarados bajan considerablemente, pues aparecen contingen-
cias de la cotidianeidad que van bajando sus ingresos.
El salario mínimo, a pesar de que se justifica como un mínimo legal,
para este sector se constituye en una regla, en un techo que no logran tras-
pasar, el que resulta insuficiente. Si éste no existiera, se les pagaría menos
a los/as trabajadores/as agrícolas. Claramente en este sector no es un piso
desde donde partir, sino el techo que cuesta traspasar.

El derecho a vacaciones: una diferencia radical entre temporeros/as


y permanentes

La misma visión ilusoria que se tiene con el salario, se tiene con otros
derechos laborales, como las vacaciones pagadas y otros recursos intangi-
bles como el uso del tiempo de trabajo. El trabajador temporero a trato dice:
“las vacaciones me las puedo tomar cuando yo quiera”. Pero en la práctica
no es así. Por razones de estacionalidad del cultivo, el verano y los meses de
vacaciones escolares están vetados para todos, permanentes y temporales.
Los/as trabajadores/as permanentes, no pueden tomar vacaciones porque
se debe estar cuidando al fruto para que madure antes de la cosecha. Se les
da tres semanas de vacaciones, o cuatro si es que tienen días progresivos,
sólo a partir de mayo. Ya en junio los permanentes están disponibles para
arreglar las estructuras, alambres, palos quebrados y las mangueras.
144 |

Trabajadores mayores y con años acumulados saben que tienen


derecho legal a días progresivos de vacaciones después de 11 años de
imposiciones y luego de tres años de antigüedad por empleador. Y los
cobran. Sin embargo, usan sus vacaciones para trabajar remunerada-
mente, como forma de aumentar sus ingresos anuales. No siempre
pueden, pues le asignan sus vacaciones en el período de baja actividad
laboral en las viñas, cuando no existen otras ofertas disponibles. Por
otra parte, dada la cultura del rigor con que han experimentado el tra-
bajo durante toda su vida, no tienen incorporado en su imaginario la
realización de actividades recreativas o de esparcimiento en ese tiempo
de descanso, y además no cuentan con el dinero para financiarlas, por
lo que en cierto sentido, perciben ese período como “una pérdida de
tiempo”.
Definitivamente los/as temporeros/as no pueden programar días de
descanso, sino que están más bien obligados a no trabajar y “descansar” en
días de cesantía forzada por no haber otras ofertas temporales de empleo.
Cuando ello ocurre, no pueden salir de vacaciones fuera, porque no tienen
recursos para solventar los gastos y porque están a la espera de una llama-
da. Sus posibilidades se reducen a visitar un día al año la playa, que está a
sólo 40 minutos de Casablanca.

Condiciones laborales y el cuerpo de los/as Trabajadores/as

Entre los/as trabajadores/as del vino las apelaciones a las precarias


condiciones ambientales de trabajo son frecuentes, siendo las principales
la baja dotación de agua fresca, la no disposición de lugares para consu-
mir alimentos, el incumplimiento de factores protectores para la salud de
los/as trabajadores/as, considerando riesgos como la exposición al sol, los
plaguicidas y la carga física, entre otros. Los temas más sensibles y enun-
ciados apuntan al cuerpo, dada las características del trabajo productivo
vitivinícola. Las condiciones ambientales del trabajo en las parras, el sol
del verano, la humedad y el frío en el invierno, lo hace un trabajo sacrifi-
cado físicamente, aun cuando se reconozca que las innovaciones produc-
tivas han favorecido el ingreso de mujeres, por ejemplo disminuyéndose
el peso de los canastos y utilizando en la actualidad gamelas más livianas;
y aún cuando es menos pesado físicamente que la lechería, el empleo fo-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 145

restal y la minería de carbón piedra, trayectorias de las que vienen espe-


cialmente los hombres.
En las faenas agrícolas al aire libre, un derecho básico como proveer
agua fresca para beber es restringido entre los/as temporeros/as del valle.
Se trata de una demanda ampliamente reiterada en la historia del vino, pues
el agua fresca y limpia constituye un satisfactor básico, y un indicador muy
sensible de la calidad del empleo, con el que se cumple formalmente, pero
descuidando su condición.
Así como no hay agua fresca, tampoco logran disponer de un lugar
donde comer dignamente. Si bien la industria ha mejorado la disposición
de comedores, porque han aumentado las fiscalizaciones gubernamentales
y porque forma parte de los indicadores de certificación para la exporta-
ción del vino, estos no son usados en la práctica por dos razones. Porque
están retirados del lugar físico de la faena, y las empresas no disponen de
medios de traslado; y dos, porque al tener poco tiempo para almorzar, pre-
fieren seguir comiendo en el suelo debajo de las parras, para así no alargar
la pausa de almuerzo y terminar la jornada laboral más tarde, o ganar me-
nos porque se les paga “a trato”. “A veces la gente no va al casino y se queda
en el fundo o campo almorzando… pero ahí no se pueden lavar las manos”
(Silvia, 35 años, temporera viñas).
Por su parte, no todas las empresas dan cumplimiento a la obliga-
ción de disponer bloqueador solar. Hay productores medianos y gran-
des que si disponen de este elemento de protección de manera perma-
nente, además de lentes y gorro protector, porque están más expuestos
a fiscalizaciones, a diferencia de los productores más pequeños. Pero
también existen productores medianos que no les dan, “ni lo conoce el
jefe”, señalan.
Los viñateros nuevos, que vienen de otros rubros productivos, cum-
plen en mayor medida con dicha disposición, en cambio los que vienen de
la tradición ganadera, y ahora tienen viñas, no se preocupan de esos as-
pectos. Además existe la idea de parte de las empresas de que no se cuidan
los implementos de seguridad otorgados, por lo que se ha implementado
un procedimiento de entrega de implementos, contra firma de un docu-
mento. Los/as propios temporeros/as reconocen que hay hombres que no
se echan bloqueador solar, porque dicen que les pica la cara, les hace mal
o les salen granos.
146 |

Los productos químicos que se aplican a las parras son de muy


distinta variedad, fertilizantes, pesticidas, matamalezas, y azufre seco y
líquido, se utilizan en forma persistente durante tres a cuatro meses del
año. La exposición a estos productos se hace más delicada cuando se está
embarazada, pues existe evidencia empírica suficiente, conocida por las
temporeras y denunciadas hace años por la Asociación Nacional de Mu-
jeres Rurales e Indígenas –ANAMURI- que establece la asociación en-
tre la exposición a dichos productos tóxicos y la prevalencia de abortos
espontáneos o nacimientos de niños/as con malformaciones congénitas
(ANAMURI, 2009).
Sandra tiene clara esta situación pues trabajó estando embarazada
en el campo. Conocía la norma que establece que frente a la aplicación de
plaguicidas el jefe tenía que cambiarla de hilera o cuartel, cuando no ocu-
rría, ella lo hacía por su propia cuenta. Sin embargo, reconoce que estuvo
expuesta a algún grado de peligro, el que finalmente asumía para no perder
el puesto de trabajo.
La altura de las parras, que tiene una gran variación entre las planta-
ciones, es fundamental para estimar la comodidad para trabajar, la calidad
de vida laboral y la eventual ocurrencia de dolores crónicos.
Una mujer que empezó a los 23 años como temporera, después de
25 años, es decir, a los 48 años de edad, siente secuelas físicas en todo su
cuerpo. Tiene menos energía, y ya no se siente tan ágil como en el pasado.
Se confirma como en otros estudios (WILLSON et al., 2009) la presencia de
dolencias como tendinitis, producto del movimiento repetitivo con las ma-
nos. “El campo mata, que no se nos note, es otra cosa … esta parte de aquí
(se toca el hombro), si anduve cuantos años con el capacho puesto aquí … y
éramos de esas que corríamos con el capacho porque trabajábamos “a trato”,
nos convenía … los dedos también, las manos, porque aparte que trabajaba
todo el año, podaba manzanos y a tijera no más” (Fernanda, temporera, 48
años).
La modalidad de pago e inseguridad de la duración del empleo,
desdibuja el sentido del autocuidado, se deja de observar el cuerpo y
se autoimponen altas exigencias, no siendo conscientes del costo que
ello puede alcanzar, instalándose la idea de que les conviene “matarse”
trabajando.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 147

Conclusiones

Ya a principios de los 90, investigadores avizoraban la presencia del


temporero permanente en desmedro de relaciones de estabilidad (FALA-
BELLA, 1990, p. 262). Se establecía la existencia de temporeros que tienen
trato de permanentes, pues año tras año trabajan en la misma empresa, al
punto que tienen su puesto casi asegurado, pero en un marco de descon-
fianza y falta de garantías para el o la trabajadora, surgiendo la categoría de
temporero-permanente.
La población rural de Casablanca está atrapada en un proceso de
proletarización, que en palabras de Kay (1995, p. 77) a la larga favorece
a los capitalistas rurales, porque elimina la competencia de los pequeños
campesinos en la producción agrícola y los transforma en mano de obra
barata y desechable. Que por el alto nivel de rotación serían los “sobrantes”
en el lenguaje de Castel (2009).
El proceso de modernización de la agricultura, y de la vitivinicul-
tura, es concentrador y excluyente. Sin embargo, el trabajo que ofrece la
producción de vino es relativamente más estable y de mayor duración que
el que ofrece la fruticultura, rubro al que acceden en mayor proporción las
mujeres temporeras de las comunas agrícolas de la zona central del país,
cuya oferta se intensifica sólo en prácticamente tres meses.
La expansión de la vitivinicultura en el valle se produce cuando el país
retorna a la democracia, con altos niveles de pobreza, por lo que la generación
de oferta de empleo asalariado fue vista con muy buenos ojos. Sin embargo,
con dos décadas de producción en Casablanca, el crecimiento y desarrollo de la
industria es evidente y un modelo a difundir e imitar, que no va acompañado
de un crecimiento y desarrollo de la población trabajadora, ni siquiera para el
personal de planta, que no ha logrado superar el techo del salario mínimo. “La
gente gana el mínimo, es una miseria, la gente necesita tener su comida y todo
para salir a trabajar” (María, temporera, 59 años). Se trata de una mano de obra
que con el salario que gana no alcanza a reproducirse materialmente de mane-
ra digna, si no es acompañado de un aumento de sus exiguos ingresos por la
realización de horas extras que, en realidad ya no se hacen para enfrentar una
demanda excepcional de trabajo, sino que, para aumentar el miserable salario
mínimo, o bien a través del endeudamiento que genera altos niveles de angustia.
Bajo la lectura de Sennet (2000) sería una adaptación o tolerancia al bajo sueldo.
148 |

El patrón asalariado masculino, caracterizado por mayor itinerancia,


flexibilidad y precariedad laboral, ha producido la reducción de empleos
permanentes y aumento de temporales, lo que ha hecho transitar a obreros
de fundos o empresas con contrato de trabajo indefinido hacia empleos
transitorios por faena. Trabajar de temporero implica “vivir el día”. Aún así
están obligados a ahorrar para vivir, resultando una gran paradoja, cómo
se hace eso si “se come todo lo que se gana”. La experiencia indica que los
ahorros se gastan en un mínimo plazo.
En esta investigación ha quedado en evidencia que los inicios laborales
de las generaciones mayores y jóvenes ocurren en la infancia, para hombres y
mujeres, cuestión que recién cambia con la actual generación de niños/as, que
como será abordado en el capítulo de familia, se los “liberó” del trabajo. Hasta
hace veinte años, los niños se iniciaban pasados los diez años en el trabajo
agrícola acompañando a sus padres y las niñas generalmente en el empleo do-
méstico o bien en la ordeña. Realidades enmarcadas en una pobreza campesi-
na dura y el retiro de la escuela. En el caso de las mujeres además, el embarazo
temprano condicionó el abandono escolar, el acceso a empleos intermitentes,
precarios y supeditados a la función reproductiva, en el marco de relaciones
de pareja con presencia de violencia de género.
Los habitantes de Casablanca se encontraron con un oficio desco-
nocido. A principios de los noventa nadie sabía trabajar las nuevas parras.
Sureños con tradición vitivinícola fueron los primeros maestros. Todos
aprendieron, pero se generó una segregación por sexo, las mujeres casi sólo
a la vendimia, los hombres diversificados en más tareas, lo que implicó que
ellos accedieran a más meses de empleo y al cada vez más escaso trabajo
permanente. La zona de residencia, ser rural o urbano, no marca diferencias
en el acceso ni calidad del trabajo. Si la condición de género, por el carácter
segregado del empleo, las mujeres casi no tienen opción a la relación labo-
ral indefinida, salvo las que tengan mayor escolaridad asumiendo labores
de control (no así los hombres, pues ingresan al empleo permanente inde-
pendientemente de su nivel de instrucción), siendo entonces más altas las
exigencias para las mujeres que logran acceder al empleo estable. Segundo,
en los salarios, hay contratistas que les pagan menos por unidad realizada
sólo por ser mujeres. Tercero, no se las visualiza en su condición sexual,
pues la reproducción y la maternidad incomoda a empresas y empleadores,
no contemplando cuidados frente a ciertas tareas o exposición a plaguici-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 149

das, ni menos considerando en sus diseños de contratación los derechos


de protección a la maternidad como el fuero, licencias, ni menos sala cuna.
Con el paso del tiempo la calidad y estabilidad del empleo ha dis-
minuido por la masividad de la figura del contratista. Hoy día hay más
contratistas que viñas, quienes son los encargados de reclutar e intermediar
la relación laboral. El salario en las viñas de Casablanca, se mantiene con-
gelado en el piso mínimo o un poco más, generando tres fenómenos. La
necesidad que ambos miembros de la pareja trabajen, la búsqueda de un
segundo empleo, mayoritariamente por parte de los hombres y la renuncia
al trabajo estable, aun cuando implique perder indemnización por años de
servicio, pues la única manera de ganar más es auto gestionándose como
trabajador “a trato” con contratistas (pero sin estabilidad, seguridad social
y beneficios extra salariales).
En el proceso de exacerbación de la flexibilidad laboral implantada
en las formas de organizar el trabajo en el sector del vino, han cambiado las
mentalidades de empleadores, pero también de los/as propios trabajadores/
as. Primando la priorización por la salida individual a las precariedades
laborales, especialmente de los temporeros, desdibujándose la noción de
derechos colectivos y por ende de participación sindical (el único sindicato
de temporeras dejó de tener vigencia y los sindicatos de empresa sólo nego-
cian para los escasos trabajadores/as de planta).
Si bien trabajar como temporero/a “a trato” resulta atractivo por la
promesa de un salario más alto, con un mayor manejo del tiempo, la con-
cepción de ser un “trabajador libre” se desvanece al no poder elegir si tra-
bajar o no, pues no se sabe si habrá oferta laboral al día siguiente. Por otro
lado, al hacer el ejercicio de anualizar los ingresos inestables, este salario
mayor, se vuelve una falacia.
En realidad los/as trabajadores/as son como “piezas de puzle” o “sol-
dados de plomo” que mueven los contratistas y empresas a favor de las ne-
cesidades de la producción, de una industria pujante y moderna, orienta-
da a la exportación, y que crece progresivamente de manera cada vez más
concentrada. Las temporeras son quienes más nítidamente evidencian las
secuelas del trabajo en sus cuerpos. El no acceder a agua potable limpia y
fresca; el tener que consumir almuerzos a veces descompuestos por las altas
temperaturas; el no disponer de bloqueador solar; el usar tijeras en precario
estado, ampliando el daño a las ya averiadas muñecas por el movimiento
150 |

repetitivo; y el trabajo intenso y sin pausas de descanso, tiene costos visibles


en sus cuerpos, su principal recurso para el trabajo.
Podemos sostener que la exacerbación de la inestabilidad se crista-
liza con nitidez en la conformación de tres nuevas figuras laborales. Pri-
mero, la emergencia de un/a trabajador/a pemanente/temporal/estacional,
es decir, aquel/la que tiene contrato permanente, pero que dada la com-
posición de su salario, fijo más una adición estacional por supervisar a
temporeros, adquiere la connotación de ser permanente/temporal (en esta
investigación esta figura la asume una mujer). Segundo, la figura del asa-
lariado/temporal/independiente o “empre-trabajador”, que bajo la lectura
de Robles (2005), es un trabajador que se ve compelido a auto hacerse, de-
cide abandonar el empleo estable pero con menor ingreso, formando una
condición híbrida entre asalariado e independiente (el perfil corresponde
prioritariamente a hombres). Y el tercero es el permanente enmascara-
do de temporero, o dicho en otros estudios el “temporero falso” (CARO,
2012), pues se le hace contratos por 11 meses o bien por razones sociales
distintas, fenómeno que viven hombres y mujeres.
Finalmente, en las trayectorias laborales observamos tensiones que
pueden ser vistas como una oportunidad para el cambio. Para las mujeres
transitar de empleos altamente feminizados (como el empleo doméstico
o la cocina en los fundos) a un empleo que al interior de la rama agricul-
tura fue visto como el más masculino, como lo es el vino, las desmarca y
desestereotipa. Aun cuando en el presente las condiciones laborales son
igualmente precarias para hombres y mujeres, estas últimas ven el trabajo
con “mejores ojos”, hablan bien de sus experiencias laborales, y no tra-
bajan sólo por dinero. Lo que hay detrás es un cambio femenino de pro-
porciones en su estatus social y laboral, que se materializa en incursionar
en un empleo considerado tradicionalmente masculino, con un ingreso
autónomo, sin la sumisión del empleo en el servicio doméstico (empleo
en las casas patronales o bien cumpliendo obligación en la ordeña), en
un oficio en el que han demostrado amplias cualidades, y con el que se
relacionan (de acuerdo a los testimonios sobre todo de migrantes) sin la
obediencia al “patrón” heredada del inquilinaje, pues “si la pega está mala”
se cambian de contratista o de viña, pues como son temporeras no están
“amarradas” a ningún empleador.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 151

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“ROMPENDO O SILÊNCIO”: A RESISTÊNCIA DAS MULHERES
CAMPONESAS FRENTE À EXPANSÃO DA MONOCULTURA
DO EUCALIPTO NO RIO GRANDE DO SUL
E A CRIMINALIZAÇÃO DAS LUTAS SOCIAIS

Sônia Fátima Schwendler1

Introdução

O
presente estudo analisa os conflitos agrários provocados pelo
avanço do capitalismo no campo, com ênfase na resistência das
mulheres da Via Campesina,2 frente à expansão da monocultura
do eucalipto no estado do Rio Grande do Sul. Busca-se compreender os
principais fatores que têm contribuído para a ação coletiva de enfrenta-
mento e resistência da mulher camponesa ao modelo de agricultura capi-
talista. Além disso, examinam-se as diferentes formas de criminalização
da luta das mulheres, utilizadas pelo Poder Judiciário, pelo Poder Legisla-
tivo e pelos meios de comunicação de massa. Para esta análise, tomou-se
por referência a pesquisa empírica realizada em março e abril de 2011 no
estado do Rio Grande do Sul3, por meio da história oral (MARRE, 1991;
PORTELLI, 2006; THOMPSON, 1988)4, com membros da Via Campesina,

1 PhD em Estudos Ibéricos e Latino-Americanos pela Universidade de Londres, Inglaterra. Professora


Associada do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Pesquisadora na área
de Gênero, Educação do Campo e Movimentos Sociais. Pesquisadora Honorária da Universidade de
Londres, Queen Mary College.
2 A Via Campesina é uma organização internacional do movimento camponês e indígena de diversos
continentes. No Brasil, as mulheres da Via Campesina são integrantes de diversos movimentos so-
ciais, em especial, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Movimento das
Mulheres Camponesas (MMC).
3 A pesquisa de campo integrou um projeto mais amplo, no qual se desenvolveu um estudo compara-
tivo sobre a participação das mulheres na luta pela terra no Brasil e no Chile, defendido como tese de
doutorado na Universidade de Londres (SCHWENDLER, 2013). Além da Bolsa CAPES, essa pesqui-
sa contou com o financiamento da Universidade Central de Londres – grant awarded by the Academic
Trust Funds committee from the Convocation Trust Appeal Fund for the Central Research Fund, e do
College Queen Mary, bem como com o apoio da Universidade Federal do Paraná.
4 Tendo como critério de amostragem a diversidade e a saturação, as entrevistas foram gravadas, transcritas
e analisadas com base na singularidade e na totalidade dos informantes (QUEIRÓZ, 1991; MARRE, 1991).
156 |

mais especificamente, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra


(MST).
O campo brasileiro, nas últimas décadas, tem sido marcado por um
processo intenso de criminalização dos movimentos sociais, com forte im-
pacto sobre a ação política das mulheres camponesas. Embora elas tenham
participado ativamente das lutas de resistência e de ocupação de terras e se
organizado em movimentos autônomos desde o início da década de 1980,
sua atuação política ganha visibilidade na medida em que elas organizam a
ocupação do território do agronegócio. Em sua ação está o questionamento
do modelo hegemônico de desenvolvimento da agricultura e a afirmação
de um projeto de agricultura camponesa, pautado na soberania alimentar,
na produção do alimento saudável e diversificado, bem como na preserva-
ção do ecossistema e da vida do planeta.
No estado do Rio Grande do Sul, em específico, as mulheres da Via
Campesina acirraram a luta contra a monocultura do eucalipto. Desde
2006, como parte da Jornada Nacional de Luta da Mulher Camponesa, elas
trazem para a agenda pública o impacto desse modelo de produção sobre o
meio ambiente e sobre a condição de sobrevivência do campesinato. Além
disso, elas denunciam as diferentes formas de expulsão das populações in-
dígenas, das camponesas e dos quilombolas de seus territórios, o que tem
intensificado os conflitos no campo (VIA CAMPESINA, 2006a). Segundo
Sauer (2008, p. 239), as ações dos movimentos de luta organizada “explici-
tam e materializam a resistência aos processos violentos que constituem a
realidade agrária e o modelo agropecuário”, de modo que o contexto agrá-
rio e a luta social que aparecem na história dos movimentos camponeses
constituem “a história das diferentes modulações da revolução que o capi-
talismo provoca no campo” (IANNI, 1985, p. 31).
Para discutir a resistência das mulheres camponesas diante da ex-
pansão da monocultura do eucalipto no estado do Rio Grande do Sul, par-
te-se de uma análise contextual da disputa territorial presente no contexto
agrário. Na sequência, examinam-se as diferentes matrizes que contribuí-
ram para a constituição do papel político das mulheres camponesas na luta
contra o agronegócio. Com base na análise de três eventos significativos
de ação política das mulheres camponesas durante a jornada de luta, pro-
blematizam-se a intensificação dos conflitos no campo e a criminalização
dos movimentos sociais camponeses, com destaque para o seus efeitos na
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 157

participação das mulheres na luta social. Este estudo evidencia que a luta
política das mulheres, construída a partir de sua participação no trabalho
do campo e na luta social, é carregada de uma consciência ecológica, de
preservação da vida, do planeta e do próprio campesinato como sujeito
histórico. Nessa luta de classe, as mulheres também avançam na luta histó-
rica contra as diferentes formas de opressão, discriminação e desigualda-
des de gênero.

O contexto da disputa territorial

Os processos de disputa territorial que ocorrem no campo brasileiro,


tendo como questão central o enfrentamento entre dois modelos de de-
senvolvimento – o do agronegócio e o da agricultura camponesa –, serão
analisados com base no paradigma da territorialização (FERNANDES;
WELCH; GONÇALVES, 2010). Fernandes (2003; 2008) argumenta que a
territorialização do capital implica a desterritorialização do campesinato
e vice-versa. Como o capital não reproduz o campesinato na mesma in-
tensidade que o exclui, o próprio campesinato se reintegra na economia
pela ocupação da terra. Isso se evidencia nos dados do DATALUTA, que
indicam a existência de 9.070 assentamentos de reforma agrária no Bra-
sil, criados entre 1979-2012, frutos na sua grande maioria do processo de
ocupação de terra pelos movimentos sociais. Por intermédio da luta so-
cial, há um contingente de aproximadamente 933.836 famílias camponesas,
que se reintegraram à terra e se territorializaram num espaço agrário de
81.781.828 hectares (NÚCLEO DE ESTUDOS, PESQUISAS E PROJETOS
DE REFORMA AGRÁRIA – NERA, 2013).
Da mesma forma, as populações indígenas e quilombolas têm-se
reapropriado por meio da luta social, das terras pertencentes aos seus pre-
decessores, usurpadas durante a colonização e modernização do País. Um
exemplo desse processo tem sido a expropriação das terras indígenas e
quilombolas pela empresa Aracruz Celulose,5 no estado do Espírito Santo,

5 Segundo De’Nadai, Overbeek e Soares (2005), a partir dos anos 1980, a Aracruz Celulose se expandiu
para os estados da Bahia, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. Em 2005, a empresa possuía 357
mil hectares, dos quais 247 mil eram utilizados para a plantação de eucalipto. Além dessa área, 58 mil
hectares eram cultivados por meio de contrato com 2.593 agricultores. Como maior produtora mun-
dial de celulose, a companhia exportava 97% de sua produção, especialmente para a Europa (38%) e
os Estados Unidos (36%).
158 |

durante o período da ditadura militar.6 Muitas dessas terras foram negocia-


das por valor simbólico entre a empresa e o Estado, como terras devolutas
(GUIMARÃES apud LOUREIRO, 2006). Um dado significativo, é que, des-
de 1978, as comunidades indígenas vêm lutando pela reapropriação de suas
terras,7 o que tem gerado violentos conflitos. Em janeiro de 2006, a comu-
nidade Tupiniquim, que lutava pela reapropriação de 11.090 hectares que
ainda estavam no domínio da Aracruz Celulose, foi violentamente expulsa
pela polícia federal, com o uso de máquinas da própria empresa.
A história da expropriação da terra é apenas um dos lados do
processo de acumulação do capital, ao que se vincula a subjugação do
trabalho (MARTINS, 1991). Por exemplo, a “política agressiva de acultu-
ração” (IANNI, 1998, p. 182) e o empobrecimento das comunidades in-
dígenas e quilombolas vêm forçando-as a estabelecer contratos de arren-
damento de suas terras e de sua força de trabalho para a própria empresa.
A subcontratação de trabalhadores para o cultivo de eucalipto nas suas
próprias terras, identificada como outgrower scheme, tem sido uma das
novas estratégias adotadas em nível mundial pelas empresas de celulo-
se (OVERBEEK, 2005). Para acumular capital, as empresas descentrali-
zam suas unidades de produção para áreas rurais, onde subcontratam a
execução de determinadas etapas do processo de produção industrial.
Esse fenômeno tem transformado o processo de produção agrícola, bem
como a estrutura agrária (SCHNEIDER, 1996), levando povos indígenas,
quilombolas e camponeses a perderem autonomia e controle sobre o uso
do seu território.
Situação semelhante pode ser verificada em pequenas propriedades,
incluindo os assentamentos de reforma agrária. Uma líder comunitária
assentada na Antiga Fazenda Annoni, no estado do Rio Grande do Sul,
demonstra a tentativa das empresas de celulose de subcontratar as famílias
assentadas para o cultivo de eucaliptos em suas propriedades. Contudo, a
organicidade comunitária, certa compreensão dos efeitos da monocultura

6 Antes da chegada da companhia, em 1967, havia cerca de quarenta comunidades indígenas distribuí-
das em mais 30 mil hectares. Destas, restaram apenas três, em 40 hectares de terra. Ainda, das 12 mil
famílias quilombolas que viviam no norte do Espírito Santo, em um território de 256 mil hectares,
restaram somente 1.330 famílias, que constituem 32 quilombos (VIA CAMPESINA, 2006b).
7 Em 1996, estudos da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) indicam que 18.000 hectares no municí-
pio de Aracruz, onde a empresa Aracruz Celulose opera, são terras indígenas. Contudo, 11.009 hecta-
res ainda estavam no poder da Empresa até 2010, quando a demarcação das terras indígenas (18.154
hectares) foi ratificada pelo governo brasileiro por meio do Decreto de 08/11/2010 (CIMI, 2011).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 159

do eucalipto no solo e na sobrevivência do campesinato, bem como o papel


das mulheres contribuíram para frear o processo.

Porque as mulheres enxergam que quando falta comida na casa. Quem


vai atrás se falta comida? O marido não vai. E dai só vai ter madeira.
Daqui a 50 anos, nós não vamos estar aqui. São os nossos netos. Vamos
deixar os assentamentos pra plantar eucalipto? Vieram aqui pra plantar
eucalipto, vieram trazer proposta. Foi a Aracruz. Eu perguntei e daí, da-
qui a sete anos vocês tiram os eucaliptos e o que eu faço com os tocos?
O que vai fazer com aquela terra morta? E quando as mulheres mexe-
ram no eixo, daí eles pararam. Nunca mais vieram. As mulheres se reu-
niam. Todo mundo se reuniu. Um vizinho com outro. Pensamos: o que
vai virar esta terra? Secam as águas (E.S., entrevista, 2011).8

Embora haja resistência, também há aceitação, sobretudo diante das


tímidas políticas públicas direcionadas para o projeto de agricultura cam-
ponesa. Nos últimos anos tem havido muita subcontratação de terras de
camponeses assentados e da pequena agricultura para o plantio de euca-
lipto, como evidenciam os dados do censo em relação à silvicultura. Há
uma diminuição da participação das grandes propriedades, de mais de 80%
para pouco mais de 60%, em favor das propriedades de cem a mil hecta-
res, e também de dez a cem hectares (WILKINSON; REYDON; SABBATI,
2012). Apesar da relevância dos contratos com os agricultores por meio do
outgrower scheme, o processo de expansão da monocultura de eucalipto no
Rio Grande do Sul, desde 2003, tem-se dado fortemente por meio da mono-
polização do território. Em 2006, as empresas Aracruz Celulose, Stora Enso
e Votorantim ocupavam uma área de 300.000 hectares com plantações de
eucalipto (MORELLI, 2011). Além disso, naquele período, as companhias
planejavam expandir a plantação para 1.000.000 de hectares até 2015 (VIA
CAMPESINA, 2006c).
Morelli (2011) aponta para a tendência de transformação do territó-
rio da Região Sul do Rio Grande do Sul – chamada “metade sul” – junta-
mente com áreas da Argentina e do Uruguai, em monopólios das empresas
de celulose. Parte dessa área foi adquirida pela empresa de capital sueco-
finlandesa Stora Enso, considerada uma das maiores corporações do setor

8 Para manter o anonimato, os entrevistados serão citados somente com as iniciais de seu nome.
160 |

florestal mundial. Segundo o autor, em seu relatório 2007/2008, consta que


45.500 hectares foram adquiridos na metade sul do estado, dos quais 8.900
já tinham sido cobertos por eucalipto. Contudo, por constituir área de
fronteira, a empresa enfrentava dificuldades para a regularização das terras
(MORELLI, 2011). Isso também pode situar-se no contexto da estrangeri-
zação,9 que constitui um fenômeno recente, como parte da nova geogra-
fia política da questão agrária (FERNANDES, 2011). Essa nova forma de
colonização pode ser vista claramente nos dados estatísticos de 2010, nos
quais 4.2 milhões de terras brasileiras já se encontravam sob o domínio de
proprietários estrangeiros (FERNANDES; WELCH; GONÇALVES, 2012).
No contexto da revolução verde, o Brasil foi o primeiro dos países
em desenvolvimento a estabelecer, em larga escala, a plantação industrial
de árvores de rápido crescimento (GERBER, 2011). Atualmente, o Brasil
está se convertendo em um dos principais eixos da produção mundial, dos
principais commodities agroflorestais (WILKINSON; REYDON; SABBATI,
2012). Os estudos apontam a ocorrência, na última década, de uma trans-
formação da indústria mundial de celulose e papel, com a transferência da
produção primária para os países do Sul, em especial a América do Sul.
O Brasil, por exemplo, possui mais de 6.000.000 de hectares de “bosques
plantados”, melhor dizendo, de monocultura de eucalipto (WILKINSON;
REYDON; SABBATI, 2012, p. 121). A expansão do eucalipto nos países do
Sul tem sido promovida por diversas agências, incluindo o Banco Mundial
e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e o Desenvolvimen-
to – FAO. Para colaborar, os governos têm beneficiado os setores privados
com incentivos e subsídios. Alguns dos incentivos recentes para a expan-
são da plantação de árvores têm sido a Convenção da Mudança Climática
e o mercado emergente do sequestro de carbono (GERBER, 2011). Shiva
(2003) aponta quatro principais razões que têm favorecido a instalação da
rede de produção de celulose nos países do Sul: acessibilidade de extensas
áreas de terra a custo baixo; mão de obra barata; suporte do Estado por
meio de incentivos e subsídios, e falta de legislações ambientais.
Gerber (2011) argumenta que a monocultura do eucalipto, como
principal forma de desenvolvimento da indústria florestal, está causando

9 Compra ou arrendamento de terras em larga escala por grandes potências estrangeiras, visando à
produção agrícola (FERNANDES; WELCH; GONÇALVES, 2012).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 161

um elevado número de conflitos entre companhias e populações locais.


Pesquisa realizada envolvendo 58 casos de conflitos nos países do Sul de-
monstra que as principais causas da resistência estão relacionadas ao con-
trole de terras pelas empresas, resultando na expulsão das populações que
as ocupavam e no término dos usos locais dos ecossistemas (GERBER,
2011). Há uma rede de efeitos negativos na biodiversidade, visto que a
monocultura do eucalipto cria um habitat menos favorável para a fauna
e a flora em relação ao ecossistema anterior, o que se agrava com o uso de
pesticidas (HARTLEY, 2002). Apesar de ser uma questão controversa, há
evidências de que a cultura do eucalipto, que tem no elevado consumo de
água uma condição sine qua non para seu crescimento, afeta as qualidades
hidrológicas e de solo (GERBER, 2011). Chomenko (2008) demonstra que
as consequências da implementação da cultura do eucalipto no Rio Grande
do Sul são visíveis e se manifestam na redução do montante de água, no
empobrecimento do solo e na diminuição ou erradicação de produtos que
integram o ser humano à natureza.
A autora destaca que a alteração do bioma Pampa tem afetado a po-
pulação que habita a região, levando à destruição de sua identidade cul-
tural.10 Um claro exemplo é o impacto da monocultura de eucalipto nos
assentamentos de reforma agrária, localizados na metade sul do estado, cuja
região historicamente tem dado forte contribuição na economia por meio
da produção de arroz e de outros produtos alimentares. Além disso, há uma
clara disputa de território e de projetos de desenvolvimento para a região,
em que concepções econômicas, ambientais e territoriais são polarizadas.
Por um lado, as companhias de plantação da monocultura do eucalipto têm
desenvolvido pesquisas para promover a expansão dessa monocultura de
forma sustentável, enfatizando o desenvolvimento econômico e social da
região. Por outro, o MST e, especialmente, a Via Campesina advogam o de-
senvolvimento da economia camponesa, baseado na distribuição de terra
e na preservação do bioma Pampa (MORELLI, 2011). A Via Campesina
(2006c) enfatiza que enquanto a Aracruz gera somente um emprego a cada
187 hectares plantados, a produção familiar de pequena escala viabiliza um
emprego a cada nove hectares. Melgarejo (2008) observa que a Empresa

10 O Pampa é considerado um bioma único, visto que ocupa somente um estado brasileiro (CHO-
MENKO, 2008).
162 |

Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) tem identificado os as-


sentamentos como a base constitutiva para a produção de alimentos nas
localidades onde estão situados. O autor ressalta que o cultivo do eucalipto
poderá ser um negócio rentável de curto prazo, mas os impactos negativos
na agricultura familiar e no desenvolvimento territorial da metade sul serão
irreparáveis.
Os fatores apontados constituíram-se na materialidade objetiva da
luta radical assumida pelas mulheres camponesas no Rio Grande do Sul.
Entretanto, outros elementos explicam o seu protagonismo na resistência
ao projeto hegemônico de desenvolvimento do campo.

O papel político das mulheres na luta contra o agronegócio

A mulher camponesa tem-se constituído num dos atores mais ati-


vos na resistência da luta contra o aumento avassalador da monocultura
do eucalipto no estado do Rio Grande do Sul. Seu papel político pode ser
compreendido a partir de diferentes matrizes.
O primeiro elemento a ser destacado é que o papel histórico da mulher
na agricultura, em especial na produção dos alimentos, tem contribuído para
que ela se constitua numa das principais defensoras da produção do alimento
saudável e da soberania alimentar, ameaçadas com a produção da monocul-
tura e o uso de fertilizantes e pesticidas. O trabalho da mulher camponesa na
agricultura – geralmente considerado como “ajuda”, como mais “leve” (PAU-
LILO, 1987), como parte integrante do chamado “trabalho reprodutivo” e de
menor valor social – tem assegurado, pela diversificação da produção, a so-
berania alimentar e a biodiversidade, sendo crucial na economia camponesa.
Sua experiência na produção e transformação de alimentos produz um saber
social, uma consciência social do cuidado com o planeta, com a produção
da vida, com a preservação das sementes. Essas práticas têm tido um papel
importante “na resistência à agricultura de mercado e sua tentativa de homo-
geneizar a produção do campo” (FARIA, 2009, p. 24).
De fato, foram as mulheres camponesas, como principais responsá-
veis pelo bem-estar de suas famílias, que introduziram no paradigma da
soberania alimentar proposto pela Via Campesina a questão da alimenta-
ção saudável, bem como a crítica a um modelo de agricultura dependente
do uso de agroquímicos (DESMARAIS, 2003; SUÁREZ, 2005). Além disso,
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 163

elas criticam a política agrícola excludente, que historicamente privilegiou


o homem no acesso aos recursos produtivos e afirmam a necessidade de
maior participação das mulheres nas políticas de desenvolvimento do país
(DESMARAIS, 2003). Um dado significativo demonstrado por Siliprandi
(2013) é que os processos de transformação das propriedades rurais em
sistemas sustentáveis e agroecológicos geralmente são iniciados pelas mu-
lheres. Os homens geralmente aderem a essa forma de produção após veri-
ficarem a rentabilidade econômica. A autora enfatiza que o fato de as mu-
lheres terem assumindo para si os temas da agroecologia tem colaborado
para que os movimentos sociais rurais reconheçam a sua contribuição na
economia camponesa.
O protagonismo das mulheres camponesas tem contribuído para a
proposição de um modelo de desenvolvimento do campo que combina as
questões ecológicas com a bandeira histórica da igualdade de gênero, inaugu-
rada pelo movimento feminista. Em termos históricos, a organização das mu-
lheres está fortemente associada às transformações que ocorreram na agricul-
tura com a implementação do capitalismo transnacional durante a ditadura
militar (1964-1985) e o avanço das políticas neoliberais nas últimas décadas.
Um fenômeno que merece destaque é que a monocultura e a mecanização da
agricultura contribuíram enormemente para a exclusão e o desaparecimento
do trabalho desenvolvido historicamente pela mulher camponesa.
A organização das mulheres camponesas que participam da Via
Campesina, em especial as trabalhadoras do MST e do MMC, deu-se a
partir de meados dos anos 1980 e teve como principal demanda o seu
reconhecimento como trabalhadora rural (DEERE, 2003; CARNEIRO,
1994; SCHWENDLER, 2009). Isso trouxe a necessidade da luta por di-
reitos – aos benefícios sociais, à documentação, à terra, ao crédito –, pela
participação política nas instâncias historicamente consideradas masculi-
nas – nos sindicatos e nas instâncias decisórias dos movimentos campesi-
nos por meio da paridade de gênero – e pelo reconhecimento de sua par-
ticipação na economia camponesa. Esmeraldo (2013) afirma que a luta
das mulheres pelo reconhecimento de sua profissão como trabalhadora
rural, desencadeada na década de 1980, é permeada pelo signo da con-
tradição. A autora demonstra que ao mesmo tempo em que o trabalho da
mulher é considerado como “ajuda” no interior das relações familiares – o
que mantém a ordem moral e hierárquica entre o casal –, ele é afirmado
164 |

publicamente no intuito de promover as lutas pelo seu reconhecimento


profissional.
Apesar dos limites impostos pelos regimes patriarcais de gênero
(JACOBS, 2010; WALBY, 1997), a organização específica da mulher, bem
como sua participação nos diferentes espaços e instâncias organizativas do
movimento camponês, sobretudo na luta pela reforma agrária, contribuí-
ram para a compreensão das “geometrias do poder” (MASSEY, 2009), para
a sua relação com a cultura de gênero e para o empoderamento da mulher
enquanto agente na esfera pública. Além disso, a experiência da ocupação
da terra e a organicidade vivenciada nos acampamentos de reforma agrária
do MST geraram um “saber de experiência feito” (FREIRE, 1992), que pode
ser aplicado a outras situações da luta contra-hegemônica. Esse processo é
claramente demonstrado por N. P., dirigente do MST/Via Campesina.

Nós só conseguimos fazer aquela ação [na Aracruz] porque nós sempre
brigamos para estar nos espaços da luta pela terra, de decisão. Mas foi
a ferro e fogo que nós enfrentamos o preconceito, as condições, com
crianças pequenas, até com medo. Algumas companheiras estiveram
na vanguarda, na direção política da luta pela terra. Isto produziu um
aprendizado (N. P., entrevista, 2011).

Isso leva à constatação de um segundo elemento: a participação na


luta pela terra e na organização do movimento de mulheres campesinas
tem gerado um capital político (VIEIRA, 2010), um aprendizado de or-
ganização da luta, fator crucial para que a mulher, por iniciativa própria,
se organizasse numa luta de enfrentamento e denúncia no campo da es-
fera pública, considerado historicamente território masculino. Esmeraldo
(2013) afirma que, ao incorporar um novo saber/fazer militante e político,
a experiência da mulher camponesa se modifica. Ao saber/fazer do espaço
doméstico agregam-se novos aprendizados, elaborados na resistência polí-
tico-organizativa.

As formas, os conhecimentos e as capacidades experimentadas e incor-


poradas como novos saberes e práticas materializados na luta, na rei-
vindicação, na resistência, na coordenação, na organização, na tomada
de decisão, no discernimento, na comunicação, no debate, na reflexão
são assimilados pelas mulheres. São saberes vivos, dinâmicos, que se
realizam no cotidiano da luta e na ação e formação feitas de maneira
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 165

concomitante. São aprendizados que resultam de desejos, motivações


e também de intencionalidades políticas que se transformam em força
produtiva fundamental para a tomada de consciência e a ação protago-
nista e transformadora das mulheres. As relações políticas e formativas
que se realizam entre mulheres potencializam possibilidades de incor-
poração de modo interligado da formação e da luta contra o projeto
neoliberal, contra o avanço de políticas de destruição das economias
camponesas, de suas identidades culturais e a favor de sua autodetermi-
nação e soberania (ESMERALDO, 2013, p. 254).

O saber social produzido na luta social constitui um elemento fun-


dante da organização política das mulheres e a inauguração de uma luta de
gênero dentro da luta de classes (SCHWENDLER, 2013). Neste processo,
de acordo com Molyneux (1985, p. 232-233), ocorre uma clara politização
dos “interesses práticos de gênero” – que decorrem da condição da mulher
em função da divisão sexual do trabalho – e sua transformação em “interes-
ses estratégicos de gênero” – que resultam da compreensão da subordinação
da mulher e da construção de alternativas contra-hegemônicas. A mobili-
zação da mulher camponesa nos anos 1980 tem sido mais forte em torno
dos interesses práticos de gênero. Contudo, seu contato com um discurso
feminista, seu envolvimento político nas lutas sociais e sua organização na
esfera local, nacional e internacional têm sido essenciais à sua politização e
organização em torno dos interesses estratégicos de gênero. Neste contexto,
as mulheres têm pautado a luta pela distribuição econômica e pelo duplo
reconhecimento como camponesa e como mulher (SCHWENDLER, 2013).
Destaca-se, ainda, um terceiro elemento, que é a organização da mu-
lher no âmbito local e global, por meio da Coordenação Latino-Americana
de Organizações do Campo (CLOC) e da Via Campesina (a partir dos anos
1990). Cabe destacar que, como um movimento local/global, a Via Cam-
pesina é considerada politicamente o mais importante movimento agrário
transnacional do mundo (BORRAS; FRANCO, 2010; DESMARAIS, 2009).
No Rio Grande do Sul, sua organização ocorreu em 2001, durante o Fó-
rum Social Mundial, realizado em Porto Alegre (SCHWENDLER, 2014).
A articulação dos diferentes movimentos sociais pela Via Campesina tem
fortalecido a ação política de resistência e de enfrentamento ao modelo ne-
oliberal globalizante.
Esses espaços organizativos possibilitaram à mulher maior compre-
ensão do contexto da agricultura e das estratégias político-econômicas,
166 |

bem como uma força de aglutinação política (SCHWENDLER, 2012).


A articulação transnacional do movimento camponês constituiu um espaço
vital de participação da mulher e teve como ponto de partida a institucio-
nalidade da paridade de gênero na representação. Além do acesso a uma
compreensão das políticas em nível macro e dos modelos de desenvolvi-
mento, as mulheres construíram a sua própria organização nas instâncias
internacionais por intermédio da Assembleia de Mulheres.11 Isso lhes deu
condições de pautar uma agenda de gênero dentro das lutas camponesas e
influenciar o debate nos espaços locais e internacionais (DEERE; ROYCE,
2009). Os autores destacam três principais fatores que contribuíram para
a incorporação da perspectiva de gênero na Via Campesina e na CLOC: o
desenvolvimento, nos anos 1990, de organizações de mulheres camponesas
que não temeram em se identificar com o feminismo; o contato dos movi-
mentos da América Latina com as organizações camponesas da Europa, nas
quais o discurso da igualdade de gênero é mais avançado; a consideração de
que a transformação das relações de gênero é pré-condição para o desen-
volvimento de uma nova sociedade baseada nos princípios da igualdade, da
justiça social e da cidadania.
Desmarais (2011) mostra que as mulheres adquiriram significativos
espaços e influência dentro do movimento internacional. Por exemplo, atu-
almente, elas estão mais ativas nas tomadas de decisão, mais visíveis nas
ações da Via Campesina, e a posição do movimento reflete mais claramente
uma análise de gênero. Essas políticas e a participação da mulher na arena
internacional têm tido visível influência na organização das mulheres no
Brasil. A esse respeito, I. M., líder nacional do MST/Via Campesina, afirma:
“nós mulheres soubemos agarrar forças, com este instrumental da luta, da
participação nos congressos, nas assembleias latino-americanas e interna-
cionais. Nós influenciamos e fomos influenciadas” (I. M., entrevista, 2011).
Além disso, I. M. destaca a importância da organização das mulheres cam-
ponesas por meio da Articulação Nacional das Mulheres Trabalhadoras do
Campo (ANMTR).12

11A Assembleia de Mulheres é um encontro que precede os congressos da CLOC, desde 1997, e da Via
Campesina, desde 2000.
12De 1995 a 2004, a ANMTR cumpriu um papel significativo na organização e no fortalecimento das
lutas das mulheres camponesas que participavam de movimentos autônomos ou mistos. Posterior-
mente, essa articulação foi retomada pela Via Campesina.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 167

Nesse processo, situa-se um quarto elemento que merece destaque,


a decisão das mulheres de organizar ações concretas para denunciar os im-
pactos da monocultura e do agronegócio nas condições de sobrevivência
do campesinato. Essa decisão foi tomada em 2000, durante uma manifes-
tação organizada pela ANMTR, que reuniu 3.000 mulheres em Brasília.
Assim, as mulheres camponesas adotaram o dia 8 de março como o dia
que integra a jornada de luta contra o avanço do modelo de agricultura do
agronegócio no campo. Elas condenam o impacto da monocultura, do uso
de agroquímicos e pesticidas e da transgenia nas condições de reprodução
do campesinato, na produção de alimentos e na sobrevivência do planeta.
Ao mesmo tempo, condenam as desigualdades de gênero, bem como todas
as formas de violência contra a mulher. Ou seja, articulam as demandas fe-
ministas com a luta pela reforma agrária, contra o latifúndio e o modelo de
produção excludente (SCHWENDLER, 2014). Entendem que, para além
do estudo, as mulheres precisam se capacitar na ação, denunciar e enfrentar
o modelo de agricultura empresarial.
Desse modo, pode-se afirmar que a estratégia política de luta das
mulheres, no Dia Internacional da Mulher, contra todas as formas de
dominação e exploração do ser humano, também pautou a ação coleti-
va das mulheres no Rio Grande do Sul. Desta maneira, aponta-se algo
novo na história em relação à ação política das mulheres camponesas.
Há evidências de que elas estão desenvolvendo alternativas ao modo he-
gemônico de desenvolvimento do campo e de domesticidade da mulher
(SCHWENDLER, 2013). Por meio de sua radicalidade política, elas trou-
xeram o discurso de gênero para o centro da luta de classes. Elas não
somente assumiram publicamente uma ação feminista e classista, mas
também vêm ressignificando a própria concepção feminista dentro das
organizações sociais, a que denominam “feminismo camponês e popu-
lar”13 (SCHWENDLER, 2012).
Siliprandi (2013) afirma que a mobilização política das mulheres ru-
rais tem surpreendido não somente a sociedade e o Estado, mas também os
próprios movimentos sociais do campo, uma vez que extrapolaram o que
seria socialmente esperado em relação às suas atribuições de gênero. A autora
destaca que os movimentos de mulheres rurais não têm ficado restritos

13 Conforme entrevista (2011) com I. M. (MST) e S.K (MMC).


168 |

às reivindicações históricas de inclusão das mulheres em políticas pú-


blicas, mas avançam na proposição de um modelo de desenvolvimento
para o campo, que combine questões estratégicas presentes nos movi-
mentos ecológicos e ambientais com elementos trazidos historicamente
pelo feminismo (SILIPRANDI, 2013, p. 336).

O conjunto dessas matrizes tem contribuído para a construção de


uma resistência organizada das e pelas mulheres frente ao avanço do cha-
mado “deserto verde” no contexto agrário.14 A seguir serão examinados três
eventos que foram significativos na história das lutas sociais.

A ação das mulheres contra a monocultura de eucaliptos no Rio


Grande do Sul

Foi a partir desse contexto econômico, político e organizativo que,


no dia 8 de março de 2006, as mulheres da Via Campesina do Rio Grande
do Sul entraram nas propriedades da Aracruz Celulose, a Fazenda Barba
Negra, onde está a principal unidade de produção de mudas de eucalipto,
localizada na municipalidade de Barra do Ribeiro, perto de Porto Alegre.
Lá, as mulheres destruíram as estufas e milhares de mudas de eucalipto,
como uma forma de protesto e denúncia contra os impactos da monocultu-
ra do eucalipto, do pinus e da acácia sobre o meio ambiente e as condições
de reprodução do campesinato. Outra razão que motivou a manifestação
foi a solidariedade aos povos indígenas e quilombolas que têm sido ex-
pulsos de suas terras de origem (VIA CAMPESINA, 2006b). Além disso, a
denúncia da formação do deserto verde foi levada pelas mulheres para a II
Conferência Internacional da FAO sobre a Reforma Agrária e o Desenvol-
vimento Rural, realizada em Porto Alegre.15
A ocupação do território da Aracruz e o ato radical de destruição da
estufa e das mudas de eucalipto geraram diferentes e controversas reações e
manifestações da sociedade civil, dos órgãos políticos e jurídicos, da mídia,
bem como das próprias organizações populares. Esse evento afrontou o capi-
tal transnacional, mas também a cultura patriarcal, e trouxe a luta de classe e

14A expressão “deserto verde” refere-se ao empobrecimento do bioma nativo causado pela introdução
de plantas exóticas (CHOMENKO, 2008, p. 31).
15 Conferência da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e o Desenvolvimento), de
7 a 10 de março, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 169

de gênero para o centro do debate. Itelvina Masioli, da direção Nacional e do


Setor de Gênero do MST, argumentou no Jornal dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra (março/2006) que o evento não somente foi polêmico, mas também
marcante para os movimentos sociais, devido a três fatores: à ocupação de
uma propriedade privada de uma das companhias mais poderosas no Brasil;
ao desenvolvimento radical de uma ação coletiva; a uma ação organizada so-
mente por mulheres, o que contrasta com a imagem de fragilidade, docilidade
e passividade a elas associadas. Essa forma de confronto, organizada somen-
te por mulheres, é um fenômeno novo (SCHWENDLER, 2014). Um exame
mais detalhado no estudo dos 58 casos de conflito entre trabalhadores e em-
presas nos países do Sul, desenvolvido por Gerber (2011), faz perceber que
a ocupação da Aracruz foi a única forma de resistência organizada somente
por mulheres. Essa forma de ação teve implicações para dentro e para fora do
movimento social, como relata N. P., dirigente do MST/Via Campesina no RS.

A luta da Aracruz trouxe um impacto para dentro e para fora. Nós fomos
criminalizadas pelo governo, pela mídia e pelo judiciário. Mas isto tam-
bém gerou um impacto na sociedade. Em primeiro lugar se criou este
terror; algumas pessoas ficaram contra, outras a favor. Mas trouxe o tema
para a pauta e era isto que a gente queria. Que as pessoas se posicionas-
sem em relação às consequências desse modelo agrícola, baseado na mo-
nocultura e na concentração fundiária, e seus efeitos sobre a agricultura
camponesa e a reforma agrária. Este evento também produziu muitos
resultados dentro do movimento camponês, em particular; a afirmação
das mulheres numa perspectiva feminista e classista. Nós já estávamos
fazendo isso na luta pela reforma agrária, mas ao lado de nossos compa-
nheiros. Mas uma ação desta envergadura surpreendeu os companhei-
ros dos movimentos sociais, não só por causa do tamanho, mas também
pelo conteúdo que esta ação gerou. Mulheres de um setor mais sofrido
da agricultura organizam uma ação desta envergadura. Só mulheres, que
vão atrás de cuidar da geografia, de como chegar lá, de como organizar,
como realizar a ação [...]. A realização de uma ação desta dimensão re-
vela aos nossos companheiros que nós somos capazes de dirigir a nossa
luta (N. P., entrevista, 2011).

Conceição Paludo (2009, p. 14-15) ressalta que a luta das mulheres


camponesas está em uma direção promissora: “a de se afirmar no interior
da classe trabalhadora, como integrante da mesma, dando um sentido real
para a luta específica”. Paludo destaca que a luta das mulheres revela que o
170 |

processo de exploração, dominação e discriminação não é um subproduto


do capitalismo, mas um componente substancial do vetor dominação/ex-
ploração, elemento central na análise teórica e nas estratégias de luta dos
trabalhadores. A luta das mulheres, que de incapazes se tornaram prota-
gonistas, capazes e perigosas, “foi um marco na luta de classe, com recorte
de gênero, da classe trabalhadora no confronto com o capital” (CARLOS;
CONTE, 2009, p. 158). As autoras afirmam que, com a ocupação da Ara-
cruz, além de questionarem o modelo da agricultura dominante, as mulhe-
res assumiram, em conjunto com a Via Campesina, a construção do projeto
da agricultura camponesa. Assim, trouxeram também para o foco da dis-
cussão o trabalho histórico e invisibilizado das mulheres como componen-
te essencial da economia familiar camponesa.
Apesar das repressões, a luta das mulheres contra a monocultura
continuou e se intensificou. Da mesma forma, houve o acirramento da luta
de classes. Dois outros casos merecem destaque. Em março de 2008, na Jor-
nada Nacional de Luta, cerca de 900 mulheres da Via Campesina ocuparam
a Fazenda Tarumã, de 2.100 hectares, no município de Rosário do Sul, a
aproximadamente 400 quilômetros de Porto Alegre. Em um ato de protesto
contra a monocultura e de afirmação da biodiversidade, as mulheres fize-
ram o corte de eucaliptos e plantaram árvores nativas em área pertencente
à empresa sueco-finlandesa Stora Enso. F. B., dirigente do MST-RS, mostra
o significado desse ato enquanto uma mística em defesa da vida:

A mulher gera vida, é a que tem filho, ela é o símbolo da fertilidade,


da reprodução, da continuação do ser humano. E o eucalipto, não pelo
eucalipto, mas a monocultura do eucalipto esteriliza o solo, seca a água.
E daí as mulheres cortando os eucaliptos, é como se fosse um confronto
entre a vida e a morte, a fertilidade e a esterilidade (F. B., entrevista,
2011).

As mulheres também denunciam que a Stora Enso adquiriu terras


em área de fronteira, o que é proibido pela lei brasileira quando se trata de
estrangeiros.16 Para viabilizar a transação, as terras foram adquiridas por
uma empresa laranja: a Agropecuária Azenglever Ltda., cujos donos são

16 A Lei brasileira n. 6.634/1979 proíbe a aquisição de terras por estrangeiros em uma faixa de 150
quilômetros da fronteira do Brasil com outros países.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 171

“funcionários” da empresa sueco-finlandesa. Em manifesto (2008), as mu-


lheres da Via Campesina declararam:

Nossa ação é legítima. A Stora Enso que é ilegal. Plantar deserto verde
na faixa de fronteira é um crime contra a lei de nosso país, contra o
Bioma Pampa e contra a soberania alimentar de nosso estado, que está
cada vez mais sem terra para produzir alimentos. Estamos arrancando o
que é ruim e plantando o que é bom para o meio ambiente (VIA CAM-
PESINA, 2008).

No manifesto, as mulheres reivindicaram a anulação da compra ile-


gal das terras pela empresa em faixa de fronteira e sua destinação para o
projeto de reforma agrária. Elas afirmaram que nos 45 mil hectares, que
estão em nome da Agropecuária Azenglever, poderiam assentar-se 2.000
famílias e gerar 6.000 empregos diretos. Na época, havia 2.500 famílias
acampadas no estado, e o INCRA justificava o seu não assentamento pela
ausência de terras. Além disso, as mulheres demandaram a retirada de pro-
jetos de lei no Senado e na Câmara Federal, que propunham a diminuição
da área da faixa de fronteira, cuja venda é proibida a estrangeiros (VIA
CAMPESINA, 2008).
Em março de 2009, como parte da Jornada Nacional de Luta, 700 mu-
lheres da Via Campesina ocuparam a Estância Aroeira – antiga Fazenda Ana
Paula –, de propriedade da Votorantim Celulose e Papel (VCP), no municí-
pio de Candiota (RS). Essa área de 18 mil hectares, que circunda 53 assen-
tamentos onde vivem 1.800 famílias que produzem para a subsistência e o
mercado local, é reivindicada pelo MST para o projeto de reforma agrária,
visto que se constituía em área improdutiva antes da instalação da empresa
de celulose. Uma das consequências denunciadas é o impacto da monocul-
tura na produção camponesa, uma vez que as lavouras dos assentados estão
sendo invadidas por animais silvestres que perderam seu habitat natural.
Além de ressaltarem a importância da agricultura familiar, as mulheres ain-
da denunciam a diminuição das águas para o consumo humano e dos ani-
mais, como consequência da monocultura do eucalipto. De’Nadai, Overbeek
e Soares (2005) alertam para o fato de que as populações circunvizinhas são
atingidas pelo uso do agrotóxico, tanto pela ação do vento quanto pela con-
taminação das águas. Há, portanto, um claro desequilíbrio do ecossistema
que afeta as condições de sobrevivência dos diferentes seres que habitam o
172 |

espaço. O testemunho de E. S., líder comunitária do MST, mostra por que as


mulheres reagiram diante da expansão da monocultura de eucalipto.

Aí fomos à Fazenda de 18000 hectares que era pra ser um assentamento.


A área foi ocupada, dai teve despejo. Daí esta gente fez um financiamen-
to e comprou esta terra e encheu de eucalipto. Dai os assentamentos ao
redor estão sofrendo com isto. Não colhe mais milho, os bichos comem
tudo, de tanto periquito. E quantos litros de água chupa por dia. E os
homens não pensam muito, se vai faltar boia [sic], se vai faltar água,
nem os governos. E largam o dinheiro pra estas firmas (E. S., entrevista,
2011).

Em sua agenda de protesto e denúncia, as mulheres incluíram a de-


missão de trabalhadores feita pela companhia, bem como o apoio governa-
mental recebido pela empresa para a ampliação de sua área de exploração.17
O papel histórico da mulher na agricultura, o aprendizado da luta social,
a consciência de classe e de gênero, assim como a compreensão da disputa
política entre o projeto de campo do agronegócio e o da agricultura campo-
nesa trouxeram sua ação política para a cena da história. O que fica eviden-
ciado com a ação das mulheres na luta contra a monocultura do eucalipto
é uma forte consciência da necessidade da preservação do meio ambiente
e da sobrevivência do campesinato. Por parte das lideranças do MST, há o
reconhecimento de que, “como movimento geral não se tinha esta força,
mas como mulheres, elas conseguiram fazer uma parte mais sensível do
agronegócio, do capitalismo e teve uma repercussão enorme” (D. M., diri-
gente do MST, RS, entrevista, 2011).

A intensificação dos conflitos e a criminalização dos movimentos sociais

A exacerbação dos conflitos no campo resulta da implantação de um


modelo agropecuário “moderno”, numa sociedade extremamente desigual
e excludente, em termos econômicos, sociais, políticos e culturais (SAUER,
2008). A luta da mulher camponesa entra para a geografia dos conflitos so-

17As mulheres da Via Campesina fazem a denúncia de que a empresa Votorantim Celulose e Papel re-
cebeu R$ 6.6 bilhões do governo brasileiro para adquirir a Aracruz Celulose. E, mesmo com isenções
fiscais dos governos federal, estadual e de municípios, houve uma demissão em massa diante da crise
do capital, o que contrasta com a promessa de geração de empregos (PONT, 2009).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 173

ciais do campo e revela uma forte relação entre o aumento da violência física
e simbólica e o desenvolvimento do agronegócio. A primeira ocupação feita
pelas mulheres (o caso da Aracruz Celulose) foi reprimida pelo uso da vio-
lência simbólica, da repressão política, do fechamento dos espaços de orga-
nização das mulheres da Via Campesina, sobretudo as secretarias do MMC,
e da desqualificação política da mulher como organizadora de um protes-
to dessa natureza. “Até de búfalas fomos chamadas” (militante do MST/Via
Campesina, entrevista, 2011).
Nesse contexto, destaca-se o papel da mídia na condenação da ação
das mulheres – por meio da destituição do seu conteúdo político e ambien-
tal e de seu enquadramento como “vandalismo”, “depredação”, “invasão” e
“destruição” – e na vitimização da empresa – com foco nos seus prejuízos
materiais (RODRIGUES, 2009). A esse respeito, J. S., dirigente do MST/Via
Campesina, declara:

Dizem que a gente causou tanto prejuízo, mas o maior prejuízo a po-
pulação nem sabe, e é o que a gente tentou levar para as ruas de Porto
Alegre e dialogar com a sociedade sobre o real prejuízo da plantação do
eucalipto no Brasil. E o que saiu na imprensa. O prejuízo que a Via Cam-
pesina tinha causado. Mas o prejuízo que a empresa deixa para o solo,
para a nação brasileira não se colocava em cheque. Nem um momento.
Só com algumas breves falinhas, e nos espaços de comunicação que não
são da burguesia, que são mais comprometidos (J. S., entrevista, 2011).

Além da afirmação de sua posição de classe, a mídia também revelou


uma postura patriarcal de desqualificação da capacidade política e organi-
zativa da mulher. Enfatizava-se a necessidade de descobrir “quem” estava
por trás da ação das mulheres, que só podiam estar “a mando dos homens,
braços do MST” (CARLOS; CONTE, 2009, p. 157). Mano (2010) destaca
a mídia como um espaço privilegiado de reprodução das desigualdades de
gênero, de naturalização de papéis sociais e de transmissão de modelos he-
gemônicos masculinos e femininos na sociedade.
Além da mídia, o Estado também persegue e condena as ações políticas
das mulheres. Além disso, intensifica a criminalização dos movimentos so-
ciais, como afirma N. P., dirigente do MST/Via Campesina (entrevista, 2011):
“Esta ação da Aracruz contribuiu enormemente para aumentar o padrão de re-
pressão no Rio Grande do Sul contra o MST e os movimentos como um todo”.
174 |

Na segunda e terceira manifestação das mulheres – os casos da Stora


Enso e da Votorantim Celulose e Papel –, aplicou-se também a violência
física. Nos dois casos, houve despejo da ocupação e uma repressão – física
e simbólica – violenta contra as mulheres. Por exemplo, os filhos são sepa-
rados das mães e colocados no chão com as mãos sobre a cabeça.18 Muitas
mulheres também saíram feridas. I. L., líder do MST/Via Campesina, que
participou da ocupação, assim declara:

Foi violento demais por parte da brigada. Foi a ira da brigada em cima
das mulheres e crianças. Foi uma batalha campal. Foi assim um mo-
mento de muito pânico. Depois, a forma como fomos tratadas. Fomos
colocados num ginásio. Passamos a noite com muito frio, sem roupa,
sem cobertor. Crianças chorando com fome, sede. Marcou muito as
mulheres que participaram lá. Porque foi um momento de muito pâ-
nico. Na medida em que cavalaria avançou, eu acho que saímos de lá
marcadas. Acho que algumas saíram muito apavoradas. Mas por ou-
tro lado, isto mostrou que não estamos mexendo com qualquer coisa.
A luta de classe é isto. Pra defender o capital deles eles fazem qualquer
negócio, como bater em crianças, matar, atirar em mulher. Não há nada
que segura. Eu acho que não dá para dizer que recuou a luta. Acho que
ajudou as mulheres a ter clareza. Foi um momento místico, de muita
força entre as mulheres. Foi de pânico, mas teve muita solidariedade
entre as mulheres (I. L., entrevista, 2011).

A violência contra as mulheres teve um forte impacto na própria luta


social. Por um lado, fortaleceu a ação coletiva e a organização das mulheres,
mas por outro contribuiu para frear a luta social e criminalizar os movi-
mentos sociais. As entrevistas revelam que, devido à repressão, muitas mu-
lheres ficaram com medo ou perderam o apoio de suas famílias para conti-
nuarem participando da jornada de luta de enfrentamento ao agronegócio.
Mas isso difere conforme o nível de inserção e de compreensão política das
mulheres. Por exemplo, aquelas que estão num processo mais avançado, de
liderança nas diferentes instâncias, possuem maiores condições estruturais
e de consciência para permanecerem na luta. Já as mulheres que participam
de forma mais esporádica e estão mais presas aos regimes domésticos de

18 A ocupação da Fazenda Tarumã foi desfeita violentamente no mesmo dia, e cerca de 250 crianças
que estavam no acampamento foram separadas de suas mães.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 175

gênero, mais vulneráveis no seu poder de decisão, possuem maior dificul-


dade para resistir ao processo de criminalização.
Os casos de conflito analisados revelam que o agronegócio se utiliza
da concentração fundiária e da violência para estruturar as relações sociais
e de poder no contexto brasileiro (PORTO-GONÇALVES; ALENTEJANO,
2010). O uso da violência física entra em cena quando a violência simbólica
já não atende aos seus interesses. Todas as formas de violência ultrapassam
gênero e geração. “Mas eles não tiveram a duvida de bater em mulher. Ali
foi dada a mostra, em se tratando de luta de classe, não tem gênero. Aí
foram muitas mulheres feridas com bala de borracha” (I. L., entrevista,
2011). Embora mostrem os mecanismos de reprodução da estrutura de
classes, esses casos também revelam como o funcionamento do regime
de gênero patriarcal se reproduz. Fica muito claro o modelo de violência
masculina das forças policiais, incorporado em homens e mulheres, como
modo de dominação e de coerção do outro. O Estado masculino deixa de
cumprir o seu papel de proteção quando o outro revela desobediência e
rebeldia à “ordem social instituída”, o que justifica a sua agressão. Saffioti
(2004, p. 81) destaca que a violência de gênero deriva de “uma organização
social de gênero, que privilegia o masculino”. Os fundamentos da violência
doméstica e pública estão ancorados na mesma concepção jurídica e cultu-
ral e se intensificam com a desigualdade econômica. A violência de gênero
aprofunda-se na medida em que as próprias contradições do modo de pro-
dução capitalista se intensificam. Ianni (2004) demonstra como os conflitos
agrários se situam no âmbito destas contradições.

à medida que se desenvolvem as forças produtivas e as relações de pro-


dução próprias do capitalismo, desenvolvem-se as diversidades e as
desigualdades, as formas de alienação, técnicas de dominação e lutas
pela emancipação. Aprofundam-se, generalizam-se e multiplicam-se as
contradições. Ao mesmo curso das lutas e conquistas polarizadas pela
democracia e pela cidadania, desenvolvem-se as técnicas de repressão e
as formas de tirania (IANNI, 2004, p. 170).

O uso de diferentes mecanismos de repressão pelo capital diante da


própria crise e com vistas à desterritorialização dos movimentos de resis-
tência fica evidenciado no processo de criminalização dos movimentos so-
ciais do campo. Segundo Canuto (2010), a criminalização dos movimentos
176 |

sociais agrários, que se intensificou em 2009, ocorreu a partir da aliança


entre o Poder Judiciário, o Poder Legislativo e os meios de comunicação
de massa. Neste contexto é perceptível que, em nome do Estado de Direito,
a luta dos povos indígenas e dos movimentos sociais é descaracterizada,
criminalizada e alvo da violência física e simbólica, que se institucionaliza.
Isso fica evidente nas três ocupações aqui analisadas, por meio da: perse-
guição às mulheres camponesas e seus movimentos sociais; prisão de li-
deranças; perseguição ao MST e criminalização das ocupações de terras;
desqualificação do papel da mulher na luta política; criminalização da par-
ticipação das crianças, e formação da CPI para investigar a reforma agrária
e todos os projetos a ela relacionados. Sauer (2010) faz uma distinção entre
violência e criminalização. Ele afirma que, para criminalizar, não é neces-
sário o uso da força policial na repressão às manifestações sociais, mas me-
canismos legais que julguem e condenem ações e pessoas à margem da lei e
da ordem e, portanto, criminosas. Para o autor, a criminalização como uma
forma de violência pode ser vista como um mecanismo mais aprimorado
de repressão contra as demandas populares, nas quais, ao invés da força,
utilizam-se princípios legais aceitos pela opinião pública. Assim, deslegiti-
mam-se as ações populares, diminuindo-se a força política e aglutinadora
das organizações sociais.
Um dos casos recentes e inovadores de criminalização das lutas
sociais que tem sido usado como forma de violência simbólica contra
as mulheres e como uma poderosa arma para diminuir o potencial po-
lítico de ação coletiva das mulheres da Via Campesina e do MST é o
fechamento das escolas itinerantes. O estado do Rio Grande do Sul foi
pioneiro na organização da escola itinerante (1996), que é um sistema
legal de educação proposto pelo MST que permite que a escola se insta-
le e acompanhe o itinerário dos acampamentos, assegurando, dessa for-
ma, o direito à educação e certificação escolar aos acampados.19 Como
um espaço de educação contra-hegemônico, a escola itinerante também
entra num território de disputa. Em 2009, a governadora Yeda Crusius
(2007-2010), do PSDB, e o Ministério Público fecharam as escolas iti-

19 No Rio Grande dos Sul, as escolas itinerantes foram aprovadas em 1996, como experiências pedagó-
gicas, pelo Conselho Estadual de Educação, sob o Parecer n. 1.313/1996. Os professores, geralmente,
são membros dos próprios acampamentos, pagos por meio de contrato entre a Secretaria de Educa-
ção e o MST. Essa proposta também foi adotada em outros estados, como no Paraná, em 2003; em
Santa Catarina, em 2004; em Alagoas e no Piauí, em 2007. Para maiores detalhes, ver Camini (2009).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 177

nerantes, numa ofensiva política contra o MST, obrigando as crianças


a se deslocarem para as cidades próximas. Bahniuk (2011, p. 14-15)
afirma que o fechamento das escolas itinerantes e a intensificação do
processo de criminalização do Movimento, se “colocam na perspectiva
da construção da educação para o consenso, com vistas a garantir os
interesses do grande capital”.20 Estas ações não são isoladas. De acordo
com dados do INEP, nos últimos dez anos, mais de 32 mil escolas rurais
foram fechadas. Das 102 mil que existiam em 2002, restaram apenas,
em 2013, 70 mil (BRASIL, 2013).21 Uma das maiores causas deste fe-
chamento consiste na territorialização do agronegócio, que se verifi-
ca através da expansão da monocultura e da concentração da terra e,
consequentemente, da despossessão dos camponeses, povos indígenas
e quilombolas de seu território.
Embora o modelo de educação e seu sentido político estejam em jogo,
o fechamento das escolas itinerantes se coloca no cenário estratégico da cri-
minalização do movimento social, visando frear a ação coletiva dos trabalha-
dores sem terra. Isso ficou claro nos seus testemunhos, bem como no impacto
que o fechamento das escolas tem sobre as lutas sociais, a exemplo do caso da
ocupação da Estância Aroeira pelas mulheres da Via Campesina. O fechamen-
to da escola afeta toda a estrutura organizacional do MST, baseado na parti-
cipação da família, como argumenta N. P., dirigente do MST/Via Campesina.

A própria escola itinerante foi fechada para prejudicar o avanço da re-


forma agrária e a vinda das famílias para os acampamentos. Porque
antes as famílias podiam ir para as lutas e levar as crianças junto. Por-
que a escola ia junto. Agora as crianças estudando em escolas normais
nas comunidades, elas não podem ir junto com as famílias. Então boa
parte das famílias, quando tem marchas e mobilizações, só vai um e
o outro tem que ficar. Não tem como deixar os filhos fora da escola.
O governo fecha a escola não pelo que ele disse: que a escola tinha
um conteúdo revolucionário. Na verdade ele fecha a escola com esta
cortina de fumaça, mas o objetivo era frear a luta pela terra. E de certa

20 Bahniuk (2011) mostra que a razão afirmada pelo Ministério Público para investigar e fechar as
escolas itinerantes parece não ser o da qualidade de educação desenvolvida pelo MST, como sustenta
o Termo de Ajustamento de Conduta firmado em 2008 entre o Ministério Público do Estado e a
Secretaria de Estado da Educação. Esse termo determina que o estado do Rio Grande do Sul tome as
medidas necessárias para o fechamento dos cursos experimentais nas escolas itinerantes.
21 Esta situação fez com que, em 2011, o Setor de Educação do MST lançasse a campanha “Fechar
escola é crime!”.
178 |

forma conseguiu, porque são famílias pobres, que com raras exceções
não recebem bolsa-família. A criança fora da escola, legalmente, perde
seus direitos de compensação. Então os pais não podem abrir mão,
porque tem muitos casos de mães que não são casadas, não vivem jun-
to com seus companheiros. Então é um recurso que é necessário (N. P.,
entrevista, 2011).

O fechamento das escolas itinerantes é crucial para a análise da cri-


minalização das lutas, visto que o seu funcionamento tem permitido a par-
ticipação das mulheres na luta política e nas atividades organizativas, so-
bretudo diante da divisão sexual do trabalho, que ainda persiste fortemente
na cultura camponesa, na qual o cuidado e a educação são naturalizados
como função feminina. “E isto no MST é muito forte. São muitas as mulhe-
res que vão pra luta com seus filhos” (F. B., dirigente do MST, RS, entrevista,
2011). Essa forma de criminalização é facilitada por meio da cultura do
medo e pela própria condição de pobreza dos camponeses, como revela N.
P., dirigente do MST/Via Campesina:

Se as crianças fossem vistas em alguma manifestação, elas seriam reco-


lhidas pelos conselhos tutelares e iriam para um abrigo. Então, os pais
ficam aterrorizados. O que acontece é que alguém da família tem que
ficar com elas. Daí diminui o número de gente na luta, na resistência (N.
P., entrevista, 2011).

F. B., dirigente do MST, RS, entrevista, 2011, também ressalta:


“A ideia era esvaziar as mobilizações. Que fossem poucas mulheres e crian-
ças, e daí os homens eles resolvem a base da paulada”.
A forma de violência utilizada no despejo das mulheres da Via Cam-
pesina na ocupação na Estância Aroeira é uma evidência desse processo.
Além da violência física, produziu-se uma violência simbólica. Houve uma
separação das mulheres com filhos das demais, e destas separaram-se aque-
las que tinham crianças em idade escolar. Havia uma clara tentativa da Bri-
gada Militar de responsabilizar mães com crianças em idade escolar, por
meio dos Conselhos Tutelares de municípios próximos. E, como em feve-
reiro de 2009, a existência das escolas itinerantes, que sempre funcionavam
em qualquer ocupação, ficou proibida, e a Brigada Militar se utilizou de um
expediente legalista para responsabilizar as mães pela ausência das crianças
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 179

na escola.22 Segundo Sauer (2010), os direitos e as garantias assegurados


pela Constituição Federal são utilizados para criminalizar os movimentos
sociais populares, em especial o MST, colocando-os fora da ordem. O autor
destaca que, entre as ações do Ministério Público do Rio Grande do Sul que
atacam direitos fundamentais dos militantes de movimentos sociais, estão
o cancelamento de títulos de eleitores de assentados e o fechamento das
escolas itinerantes.
Relevante na análise das diferentes formas de criminalização e de
violência utilizadas contra os trabalhadores coloca-se o estudo de Porto-
Gonçalves e Alentejano (2010). Um exame das lutas sociais no campo entre
o período de 1985 e 2009, nas diversas regiões do País, evidencia que a
violência privada tende a diminuir onde os movimentos sociais são mais
organizados, como no Centro-Sul, passando para o poder público o pa-
pel repressivo contra a luta pela terra. Já nos lugares em que a organização
camponesa é mais débil, a exemplo da Amazônia, é o poder privado que
age com violência, reforçado por ações arbitrárias do poder estatal, na de-
fesa da propriedade privada.

Conclusões

Os conflitos do campo e suas diferentes manifestações revelam os


diferentes estágios de desenvolvimento do capitalismo e suas contradições
sociais, aos quais se vinculam distintas formas de resistência das massas
populares, mas também formas de repressão social e política. A crimina-
lização das lutas se coloca nesse cenário para deslegitimar o papel político
do movimento social, considerado ilegítimo, fora da ordem. A tentativa de
deslegitimar a atuação política das mulheres se coloca tanto na perspectiva
da luta de classe como na questão de gênero. A mulher está fora da ordem
por afrontar o sistema, o direito de propriedade privada, e por ocupar um
lugar que “não lhe pertence”: a esfera pública. Além disso, ela é condenada
por não ficar em casa cuidando das crianças; melhor ainda, por levá-las
consigo, já que elas deveriam estar na escola da cidade.
As mulheres também utilizam diferentes estratégias de resistência
e radicalizam as formas de ação política ao enfrentarem as empresas que

22 Destaca-se que os educadores populares também estiveram na manifestação.


180 |

monopolizam terras e disseminam o deserto verde no campo. A mística


da destruição das mudas e do corte de árvores de eucalipto revela uma
ousadia, mas também o papel histórico da mulher camponesa na defesa
da vida, do alimento saudável, do planeta. Mostra, ainda, o aprendizado da
luta, construído “a ferro e fogo”, como revela uma das entrevistadas, dentro
dos movimentos sociais camponeses, que foi o espaço da luta política, mas
continha também, no seu interior, os germes de uma cultura patriarcal que
cria limitações para a participação efetiva da mulher.

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A PROTEÇÃO JURÍDICA DA TERRITORIALIDADE ÉTNICA:
AS COMUNIDADES QUILOMBOLAS 1

Cesar Augusto Baldi 2

“Quem vai nos ensinar uma história da qual também somos capazes?”

Derek Walcott

A

Constituição brasileira de 1988 refere-se a quilombos em apenas
dois dispositivos. O primeiro, situado no capítulo da educação, da
cultura e do desporto, determina que “ficam tombados todos os
documentos e os sítios detentores de reminiscências históricas dos antigos
quilombos” (BRASIL, 1988, Art. 216, § 5o). O segundo, inserido no Ato
das Disposições Constitucionais Transitórias, afirma que “aos remanescen-
tes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é
reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhe os títu-
los respectivos” (BRASIL, 1988, Art. 68). A regulamentação da titulação
das comunidades quilombolas foi efetuada pelo Decreto n. 3.912, 10 de
setembro de 2001, hoje revogado pelo Decreto n. 4.887, 20 de novembro de
2003, cuja constitucionalidade pende de apreciação pelo Supremo Tribunal
Federal (STF).3
A aparente ênfase colocada nas expressões “reminiscências” e “rema-
nescentes” as associa a resíduo e vestígio. Assim, trazem uma visão estática
de cultura que deve, contudo, ser matizada por uma leitura mais atenta de
outros dispositivos constitucionais, dentro de uma ótica alargada de uma
Constituição que assegura a diversidade étnico-cultural e o pluralismo, em
seu sentido mais amplo.

1 Versão atualizada e parcialmente reformulada de Baldi (2009). As duas primeiras partes, substancial-
mente alteradas, foram publicadas em espanhol sob o título Protección jurídica de territorios quilom-
bolas en Brasil (BALDI, 2010).
2 Mestre em Direito pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), doutorando pela Universidad Pablo
Olavide, em Sevilha, na Espanha; organizador do livro Direitos Humanos na Sociedade Cosmopolita,
lançado pela Editora Renovar, São Paulo, 2004.
3 Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) n. 3.239, Relator: Ministro Cezar Peluso, único voto
proferido.
190 |

Esses dois dispositivos constitucionais, por sua vez, colocam proble-


mas relevantes a resolver: (a) o significado de quilombo para fins da prote-
ção constitucional; (b) a forma de proteção da propriedade definitiva; (c)
o estatuto jurídico da propriedade assegurada – seria uma forma especial
de usucapião, um “direito originário” ou “afetação” constitucional, e (d) a
possibilidade de utilizar-se da desapropriação para tal hipótese – em que
sentido e com que base legal?

Contextualização do processo na América Afro-Latina4

Ainda que com matizes distintas e durações diferenciadas os pro-


cessos de escravidão marcaram o período colonial da América, o Brasil
foi, por sua vez, o país em que a duração do processo foi mais longa e a
sua abolição mais tardia. No geral, a independência da metrópole signifi-
cou a abolição do trabalho escravo e a ascensão de uma elite criolla. Neste
ponto também o Brasil é atípico: além de o herdeiro da Coroa proclamar
a independência, tratou-se do único caso em que a colônia foi sede do
Império, com a fuga da família real, em 1808, uma forma peculiar de
colonialismo (SANTOS, 2006). Fugas, agrupamentos, revoltas e distintas
lutas negras – mas também indígenas – marcam, portanto, toda a Améri-
ca Latina. E isso se refletiu, de alguma forma, no Direito Constitucional.
Alguns países no continente têm previsões expressas na legislação
ou em suas constituições sobre comunidades negras ou de descendentes
de escravos.
A atual Constituição de Honduras, de 1982, assegura que “no caso de
conflito entre tratado ou convenção e a lei prevalecerá o primeiro” (HONDU-
RAS, 1982, Art. 18),5 respeita o direito de autodeterminação dos povos (Artigo
15) e estabelece ao Estado “[...] medidas de proteção dos direitos e interesses
das comunidades indígenas”, especialmente de suas terras (Artigo 346).
Apesar de não fazer referência às comunidades negras, a Ley de Pro-
piedad – Decreto n. 82, 28 de maio, de 20046: (a) no seu Artigo 93, faz

4 Para uma perspectiva regional das histórias de dominação e resistência racial na América Latina e os
efeitos para os países de forte presença negra, vide Andrews (2007).
5 As diversas citações de constituições e leis de países hispanoamericanos constantes neste trabalho
foram traduzidas pelo autor.
6 http://www12.georgetown.edu/sfs/clas/pdba/Security/citizensecurity/honduras/leyes/LeyPropiedad.
pdf. Para uma análise das tentativas de alteração de tal situação, veja-se Clavero Salvador (2010).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 191

referência à “importância especial que para as culturas e valores espirituais


reveste sua relação com a terra e reconhece o direito que os indígenas e afro
-hondurenhos têm sobre as terras que tradicionalmente ocupem e que a lei
não proíba”; (b) prevê titulação coletiva e observância do usufruto nas for-
mas tradicionais da propriedade comunal (Artigo 94), bem como consulta
prévia, pelo Estado, em caso de exploração de recursos naturais existentes
em seus territórios (Artigo 95), cabendo indenização em caso de danos;
(c) a prevalência dos direitos de posse e propriedade desses povos sobre os
títulos emitidos a favor de terceiros que nunca os tenham possuído (Artigo
96), cabendo indenização pelas benfeitoras se o título for anulável (Artigo
98), e (d) o regime comunal acarreta a inalienabilidade, inembargabilidade
e imprescritibilidade (Artigo 100).
A Constituição da Nicarágua, de 1987 (NICARÁGUA, 1987), por
sua vez, garante às comunidades da costa atlântica, em seu Artigo 89, o
direito a:

preservar e desenvolver sua identidade cultural na unidade nacional,


dotar-se de formas próprias de organização social e administrar seus as-
suntos locais conforme suas tradições, [reconhecendo, ao mesmo tem-
po,] as formas comunais de propriedade das terras, bem como o uso,
gozo e desfrute das águas e dos bosques dessas terras.

De forma expressa, afirma que “o desenvolvimento de sua cultura e


seus valores enriquece a cultura nacional” e que constitui dever do Estado
a criação de programas especiais para o exercício de seus direitos de livre
expressão e “preservação de suas línguas, arte e cultura” (NICARÁGUA,
1987, Art. 90).
O texto constitucional colombiano de 1991 (COLOMBIA, 1991), no
Artigo 7o, reconhece a diversidade “étnica e cultural da nação”. Estabelece
prazo de cinco anos para a edição de lei que reconheça:

às comunidades negras que tenham ocupado terras baldias nas zonas


rurais ribeirinhas dos rios da Cuenca do Pacífico, de acordo com as suas
práticas tradicionais de produção, o direito à propriedade coletiva sobre
as áreas que a referida lei demarcar (COLOMBIA, 1991. Art. 55, transi-
tório, tradução nossa).

Disponível em: <http://clavero.derechosindigenas.org/?p=6400>. Acesso em: 20 fev. 2015.


192 |

Esse procedimento foi regulamentado pelas Leis n. 70, de 27 de agos-


to de 1993, e n. 397, de 7 de agosto de 1997.
Não somente a previsão constitucional, mas todo um desenvolvi-
mento de jurisprudência por parte da Corte Constitucional, reconheceu:
(a) a algumas comunidades negras, como as de Jiguamiandó e Curvara-
dó, do departamento de Chocó, os mesmos direitos previstos no Artigo 55
transitório (Sentencia C-169, 14 de fevereiro de 2001, Magistrado Ponente.
Carlos Gaviria Díaz); (b) com base no mencionado artigo e no de número
310, que se refere às comunidades raizales do arquipélago de San Andrés e
Providencia, a existência de diversos grupos étnicos, o que torna necessário
desenhar um sistema de saúde especial para tais grupos, incluídos ciganos,
porque a Lei n. 691, de 18 de setembro 2001, somente trata das comuni-
dades indígenas (Sentencia C-864, de 03 de setembro de 2008, Ministério
Público. Marco Gerardo Monroy Cabra); (c) o deslocamento interno for-
çado das comunidades negras, em decorrência do processo de guerra civil,
determinando medidas de proteção.7 Aliás, a Lei n. 1.381, de 25 de janeiro
de 2010, reconheceu, como línguas nativas, além das indígenas, também a
“romani”, falada pelos ciganos, as criollas, faladas por comunidades afro-
descendentes, e a língua falada pela comunidade raizal.8
A Constituição do Equador, de 1998 (ECUADOR, 1998), nos artigos
84, itens 2 d 3, e Artigo 85, já assegurava aos “povos negros ou afro-equato-
rianos” os mesmos direitos que aos indígenas de conservar “a propriedade
imprescritível das terras comunitárias, que serão inalienáveis, não embar-
gáveis e indivisíveis, ressalvada a faculdade do Estado para declarar sua
utilidade pública”, mantendo a posse das terras e obtendo sua “adjudicação
gratuita, conforme a lei”.
Em maio de 2006, afinal, foi promulgada a Lei dos Direitos Coletivos
dos Povos Negros ou Afro-equatorianos – de 22 de maio de 2006 (ECUA-

7 Rodríguez Garavito & Rodríguez Franco (2010) demonstram o componente étnico dos deslocamen-
tos internos e a reelaboração da questão pela Corte Constitucional. A Corte, por meio da Sentencia
T-025, 22 de janeiro de 2004, declarou, a propósito do deslocamento decorrente do conflito armado,
um “estado de coisas inconstitucional”. A Lei n. 1.148, de 10 de junho de 2012, estabeleceu, por fim,
medidas de assistência e reparação integral às vítimas do conflito armado interno (comunidades indí-
genas, rrom, negras, afro-colombianas, raizales e palenqueras).
8 A lei estabelece direitos não somente de uso amplo das línguas nativas em nomes próprios – antropô-
nimos e topônimos –, no comparecimento perante o Judiciário em sua própria língua, mas também
estabelece diversas normas de proteção, tanto para meios de comunicação quanto para a produção de
material de leitura. No marco de proteção de “diversidade étnica e cultural da nação colombiana” e de
“igualdade e dignidade de todas as culturas que convivem no país”, sobreveio o Decreto n. 2.957, de 6
de agosto de 2010, para proteção integral dos direitos do grupo étnico “Rrom” ou “gitano”.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 193

DOR, 2006) –, que assegurou: o respeito a distintas expressões culturais e


artísticas dos povos negros (Artigo 3o); o reconhecimento de direitos eco-
nômicos, sociais, culturais e políticos (Artigo 9o); a conservação da biodi-
versidade em benefício coletivo (Artigo 11); a caça e pesca para subsistência
com prioridade ante o aproveitamento comercial e industrial (Artigo 12);
os direitos sobre recursos genéticos e filogenéticos (Artigo 14); a consulta
sobre planos e programas de prospecção e exploração de recursos natu-
rais que possam afetar referidas comunidades ambiental ou culturalmente
(Artigo 15); a garantia do fortalecimento e organização, em áreas urbanas
ou rurais, dos sistemas e práticas de medicina natural tradicional (Arti-
go 18) e o respeito de “formas próprias de organização e integração social
afro-equatorianas, tais como palenques, comunas, comunidades urbanas e
rurais, organizações de base e demais formas associativas que se determi-
nem” (Artigo 24).9
O atual texto constitucional, aprovado por referendo em 2008 (ECU-
ADOR, 2008), reconhece aos indígenas, ao povo montubio, às comunas e ao
povo afro-equatoriano, dentre outros direitos coletivos: (a) não serem objeto
de racismo ou forma de discriminação étnica ou cultural; (b) conservação
da propriedade imprescritível das terras comunitárias, que serão “inaliená-
veis, inembargáveis e indivisíveis”, além de isenção de taxas e impostos; (c)
manutenção da posse de suas “terras e territórios ancestrais” e obtenção de
sua adjudicação gratuita; (d) participação no uso, usufruto, administração e
conservação dos recursos renováveis que se achem em suas terras; (e) obri-
gatoriedade de consulta prévia, livre e informada, dentro de prazo razoável,
sobre planos e programas de prospecção, exploração e comercialização de
recursos não renováveis localizados em suas terras; (f) direito de não serem
traslados de suas terras ancestrais; (g) participação na “definição das polí-
ticas públicas a elas concernentes, bem como no desenho e na decisão das
prioridades nos planos e projetos do Estado”; (h) obrigatoriedade de consul-
ta “antes da adoção de medida legislativa que possa afetar qualquer de seus
direitos coletivos” (ECUADOR, 2008, Art. 55).
Além disso, são reconhecidos: (a) especificamente ao povo afro-e-
quatoriano os “direitos coletivos estabelecidos na Constituição, lei e pactos,

9 Disponível em:<http://www.derechoecuador.com/index.php?option=com_content&task
=view&id=4044&Itemid=418>.
194 |

convênios, declarações e demais instrumentos internacionais de direitos


humanos” (ECUADOR, 2008, Art. 58); (b) às comunidades retromencio-
nadas, a possibilidade de “constituir circunscrições territoriais para a pre-
servação de sua cultura”; (c) as comunas, “que têm propriedade coletiva da
terra como forma ancestral de organização territorial” (ECUADOR, 2008,
Art. 60).
Por se observar o alargamento da proteção jurídica, não só para tra-
tados internacionais de direitos humanos, mas também, de forma expressa,
para declarações e outros instrumentos internacionais, percebe-se um redi-
mensionamento da questão da diversidade cultural, ao assumir, como eixo
transversal das previsões constitucionais, a interculturalidade.10
De acordo com o Artigo 32 da Constituição boliviana (BOLIVIA,
2009), também aprovada em referendo em 2009, o povo afro-boliviano
goza, “em tudo o que corresponda, dos direitos econômicos, sociais, políti-
cos e culturais reconhecidos” para as nações e os povos indígenas originá-
rios campesinos. A esses povos, o novo texto dedica os artigos 30 e 31 – o
item II do Artigo 30 enumera 18 direitos específicos.
Os garífunas de Honduras, Guatemala e Belize – que nunca chega-
ram a ser empregados no sistema escravocrata, em virtude do naufrágio do
navio que os trouxe do continente africano11 ‒, bem como os maroons do
Suriname ‒ que são 15% da população do país, distribuídos pelas comu-
nidades N’djuka, Matawai, Saramaka, Kwinti, Paamaka e Boni ou Aluku
– e do oeste da Guiana Francesa, todas comunidades negras, encontram-se
em processo de reconhecimento, em seus respectivos países, do direito às
propriedades ocupadas, inclusive porque alguns deles são signatários da
Convenção n. 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que
assegura direitos às comunidades indígenas e às comunidades tribais12
A Nicarágua, por meio do Decreto A. N. n. 5.934, de 04 de junho de
2010, ao aprovar a referida Convenção, de forma expressa, estabeleceu que
as disposições eram aplicáveis aos “povos e comunidades afrodescendentes

10 Para uma análise da nova Constituição equatoriana, vide, dentre outros, Grijalva Jiménez (2011),
Ávila Santamaría (2011), Andrade, Grijalva Jiménez & Storini (2009).
11A língua garífuna foi incluída, em 2001, como patrimônio oral e imaterial da humanidade. Maiores
informações sobre as lutas da comunidade, vide: http://www.cohre.org/store/attachments/Quilom-
bol@%20-%20NovDez%202006%20-%20Portugu%C3%AAs.pdf. p. 3-4.
12 Interessante observar que, “apesar das condições históricas e ecológicas amplamente semelhantes [as
comunidades] variam em tudo, de idioma, dieta e vestimenta, a padrões de casamento, residência e
trabalho assalariado sazonal”. Vide, para análise de tal situação, Price & Price (2004).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 195

(garífunas e creoles)” do país. A Constituição de Belize, de 1981 (BELIZE,


1981), teve uma emenda de 2001 em seu preâmbulo, admitindo políticas de
Estado que “protejam a identidade, a dignidade e os valores sociais e cul-
turais dos belizenhos, incluídos os povos indígenas” (BELIZE, 2001), não
fazendo referência às comunidades negras.13
Em novembro de 2007, a Corte Interamericana de Direitos Huma-
nos (CIDH), em processo envolvendo a comunidade Saramaka – negros
descendentes de escravos – e o governo do Suriname – que não é signatá-
rio da Convenção n. 169 da OIT, mas assinou os pactos de direitos econô-
micos, sociais e culturais –, entendeu que: (a) as características específicas
culturais, econômicas e sociais, distintas da comunidade nacional, colo-
cavam os “saramakas” ao abrigo do Artigo 21 da Convenção Americana
de proteção do “direito de integrantes de povos tribais ao uso e gozo de
sua propriedade comunal”; (b) tanto a propriedade privada de particulares
quanto a propriedade comunitária de membros de comunidades indígenas
e tradicionais tinham a proteção dessa convenção; (c) a legislação interna
do Suriname não havia estabelecido proteção especial a tais comunidades
– o Brasil, por seu turno, tem o Artigo 68 do Ato das Disposições Consti-
tucionais Transitórias (ADCT) –; (d) um tratamento especial de tais comu-
nidades não implicaria “discriminação não permitida”, sendo necessárias
“ações afirmativas”; (e) a mera possibilidade de reconhecimento judicial
não era substituto de um reconhecimento real de tais direitos; (f) a especial
relação de tais comunidades com o “território” não se restringia a aldeias,
assentamentos e parcelas agrícolas, mas sim ao “território em seu conjun-
to”, havendo uma íntima conexão entre “território” e “recursos naturais ne-
cessários para sobrevivência física e cultural”; (g) a necessidade de consulta
prévia, de boa-fé e informada, sobre medidas que possam ser prejudiciais

13 A Suprema Corte de Belize, em 28 de junho 2010 (Claim n. 366, de 01 de junho de 2008), reconheceu
que nem o colonialismo espanhol do século XVIII, nem o britânico do século XIX, extinguiram o
direito indígena à propriedade da terra, hoje com reconhecimento e garantias constitucionais. Mas o
país não assinou a Convenção Americana de Direitos Humanos e rege-se pela Common Law, o que
fez a Corte recorrer, no citado julgamento, a precedentes de tribunais britânicos, australianos e ca-
nadenses. Além disso, a sentença discutiu concessões de títulos por princípios e formas da Common
Law em oposição ao direito indígena, entendendo a necessidade, “tanto para as concessões do Esta-
do quanto da Coroa, da existência de cláusula explícita de extinção do título indígena para que ela
ceda ante pretensões pretéritas ou presentes” (Vide a análise do julgado em Clavero Salvador (2011).
Sentença disponível em: <http://www.belizelaw.org/supreme_court/judgements/legal2/Claim%20
No.%20366%20of%202008%20-%20The%20Maya%20Leaders%20Alliance%20and%20the%20To-
ledo%20Alcaldes%20et%20al%20and%20The%20Attorney%20General%20of%20Belize%20et%20
al%20and%20Francis%20Johnston%20et%20al.pdf>. Acesso em: 29 ago. 2014.
196 |

às comunidades envolvidas; (h) era dever do Estado a procura de instru-


mentos jurídicos hábeis para, independentemente da personalidade jurídi-
ca da comunidade, propiciar o reconhecimento do direito de propriedade,
em conformidade com o seu sistema comunal (CORTE, 2007).
Pode-se afirmar, dessa forma, que a disposição contida no Artigo 68
do ADCT não se encontra isolada no contexto constitucional do continen-
te americano, inserindo-se em um contexto de significativa alteração que
vem dando forma a um novo tipo de constitucionalismo. Este assume a
plurinacionalidade, a pluriculturalidade, a plurietnicidade e a intercultura-
lidade dos países e põe em discussão, assim, a simultaneidade de tradições
culturais no mesmo espaço geográfico, o pluralismo jurídico, a ressignifica-
ção de direitos coletivos, a democracia intercultural, a territorialidade, a in-
clusão cultural e um grau razoável de incertezas e instabilidades (SANTOS,
2007a; BALDI, 2008; 2012).
Significativo, em relação às legislações em outros países do continente,
é verificar que: (a) as terras são comunitárias e, pois, a propriedade é coletiva,
o que implica reconhecer uma pluralidade de propriedades – e não somente
a clássica propriedade privada; (b) existe, de forma expressa ou implícita, ao
menos a noção de que as terras reconhecidas são inalienáveis e imprescrití-
veis; (c) as práticas de produção são tradicionais; (d) a identidade cultural das
comunidades é parte da memória nacional, e (e) há uma associação, na me-
dida do possível, com a situação dos indígenas. Por sua vez, a Constituição da
Nicarágua (NICARÁGUA, 1987) e o julgamento da CIDH (Comissão Intera-
mericana de Direitos Humanos) reforçam a íntima relação entre “território” e
“sobrevivência física e cultural” das comunidades. Esses elementos, pois, são
fundamentais para uma análise comparativa com a situação brasileira.

O significado constitucional de quilombo

O conceito de quilombo tem, originalmente, profundas raízes colo-


niais, de caráter penal e discriminatório. Um amplo processo de revisão – e,
pois, de “descolonização”, no meio jurídico, da noção de “quilombo” ‒ deve
ser feito em conjunto com o profundo redimensionamento realizado, desde
a década de 1980, pela historiografia e pela antropologia.
Segundo Rios (2008, p. 190-192), o regramento do Conselho Ultra-
marino de 1740 conceituava o quilombo como a “habitação de negros fu-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 197

gidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham
ranchos levantados e nem se achem pilões nele”, o que fora reafirmado na
Provisão de 06 de março de 1741 e em algumas legislações municipais,
como a Lei Provincial n. 157, de 09 de agosto de 1848, da cidade de São
Leopoldo (RS), que fixava o número de dois. Para Alfredo Wagner Almeida
(1999), cinco aspectos eram fundamentais:

a. a fuga ou situação vinculada a escravos fugidos;


b. uma quantidade mínima de “fugidos”, variando, de período a período;
c. a “localização sempre marcada pelo isolamento geográfico, em luga-
res de difícil acesso e mais perto de um mundo natural e selvagem do
que da chamada ‘civilização’”, o que marcou profundamente o “senso
comum”, que trata “os quilombos fora do mundo da produção e do tra-
balho, fora do mercado”;
d. o “rancho”, ou seja, se há moradia habitual, consolidada ou não, “enfati-
zando as benfeitorias porventura existentes”;
e. o fato de “nem se achem pilões”, pois o pilão, “enquanto instrumento
que transforma o arroz colhido, representa o símbolo do autoconsumo
e da capacidade de reprodução” (ALMEIDA, 1999, p. 12).

Esses elementos funcionaram como definidores de quilombo. Daí a


necessidade de “uma leitura crítica da representação jurídica que sempre se
revelou inclinada a interpretá-lo como algo que estava fora, isolado, para
além da civilização, confinado numa suposta auto-suficiência [sic] e negan-
do a disciplina do trabalho” (ALMEIDA, 1999, p. 12). Antes, pelo contrário,
foram as transações comerciais da “produção agrícola e extrativa dos qui-
lombos que ajudaram a consolidar suas fronteiras físicas, tornando-as mais
viáveis porquanto acatadas pelos seguimentos sociais com que passavam a
interagir” (ALMEIDA, 1999, p. 12). Esse conceito que se quer “frigorificado”
(ALMEIDA, 1999) é que necessita ser reavaliado, primeiro, porque ele não
tinha validade prática nem no período colonial. Sua intenção repressiva era
evidente: inviabilizar qualquer forma de autonomia individual ou coletiva
– daí a necessidade de “quantidade mínima” de fugidos. Perdigão Malhei-
ros (1867), já em 1867, destacava:

Entre nós foi frequente [sic] desde tempos antigos, e ainda hoje se re-
produz, o fato de abandonarem os escravos a casa dos senhores e inter-
narem-se pelas matas ou sertões, eximindo-se assim de fato ao cativeiro,
198 |

embora sujeitos à vida precária e cheia de privações, contrariedades e


perigos que aí pudessem ou possam levar. Essas reuniões foram deno-
minadas quilombos ou mocambos; e os escravos assim fugidos (fossem
em grande ou pequeno número) quilombolas ou calhambolas. No Brasil
tem sido fácil aos escravos em razão de sua extensão territorial e densas
matas, conquanto procurem eles sempre a proximidade dos povoados
para poderem prover às suas necessidades, ainda por via do latrocí-
nio (MALHEIROS, 1867, p. 28-29, grifos nossos).

Nesses termos, a existência de famílias de escravos nas mesmas co-


munidades reforça certo processo produtivo singular, que vai redundar,
mais adiante, no “acamponesamento”, a partir do processo “de desagrega-
ção das fazendas de algodão e cana-de-açúcar e com a diminuição do poder
de coerção dos grandes proprietários territoriais” (ALMEIDA, 1999, p. 13).
Em segundo lugar, porque variavam, aliás, profundamente, as diver-
sas comunidades negras – em sua maioria rurais –, tanto étnica quanto
socialmente, sem excluir, inclusive, a realidade de coexistirem, simultane-
amente, na “casa grande”, em decorrência da decadência da plantação de
algodão e de cana-de-açúcar. O caso do quilombo Frechal no Maranhão,
primeira comunidade reconhecida pelo governo federal, localizado a 100
metros da “casa grande”, é paradigmático.
Assim, a ideia de uma comunidade sem qualquer relação com a so-
ciedade englobante é absolutamente destoante da realidade brasileira. Mes-
mo em Palmares – “o arquétipo do quilombo” no imaginário social ‒, há
forte de presença de “brancos, mestiços de vária estirpe e índios, além de
negros africanos e nascidos no Brasil [e, portanto,] um território social e
econômico, além de geográfico, no qual circulavam diversos tipos sociais”
(REIS; GOMES, 2000;14 FUNARI; CARVALHO, 2005).
Os quilombos, ao contrário do que tinham sido, enfatizam a historio-
grafia. Segundo Gomes (2006), foram forjados dentro da escravidão, de tal
forma que também os mundos dos aquilombolados acabaram afetando os
mundos dos assenzalados. Desta forma, estabeleceram políticas de alianças
entre os fugitivos e outros setores da sociedade, como forma de manter a
todo custo sua autonomia e, ao mesmo tempo, agenciar resistências (GO-
MES, 2006). Aliás, grupos de escravos chegaram a se aquilombar nas terras

14 Nessa obra, ver especialmente a Introdução, p. 9-23, sobre os resultados de investigações arqueológi-
cas em Palmares, consultando-se Funari (1995,1996).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 199

dos seus senhores, “exigindo melhor tratamento, melhores condições de


trabalho, a substituição de feitores [etc., ou seja,] escolhiam, se não a com-
pleta liberdade, pelo menos uma outra escravidão” (GOMES, 2005, p. 31).
Eram, assim, “inúmeros”, com “várias cabeças”. Por isso, os chefes de polícia
da época utilizavam a metáfora da Hidra de Lerna, “cansados de ver novas
comunidades de fugitivos nascerem dos escombros daquela que acabavam
de destruir” (SLENES, 2005, p. 15).
Em terceiro lugar, recoloca-se a discussão da imensa concentração
fundiária do País, cujo caráter étnico de discriminação ficara oculto, por-
que a abolição deu por encerrado o problema do negro, excluindo-se dos
textos legais e constitucionais qualquer referência a quilombos, que só rea-
pareceram cem anos depois na Constituição de 1988.15
Findo o sistema de doações de terras por sesmarias, em 1822 – em
que primeiro se recebia o título para depois trabalhar a terra –, estas não
eram mais concedidas e tampouco existia uma lei disciplinando a questão.
Com isso, Sodero (1990) viu quatro situações configuradas: (a) sesmarias
concedidas e integralmente confirmadas, com o atendimento de todas as
exigências e, assim, o proprietário tinha o domínio sobre a gleba; (b) ses-
marias simplesmente concedidas, faltando cumprimento de alguma exi-
gência, com o que inexistia domínio, mas simples posse; (c) glebas ocupa-
das por simples posse, sem qualquer título, e (d) terras sem ocupação, não
concedidas ou já revertidas para o Poder Público por não cumprimento das
exigências.
É o período de posse das terras devolutas e a época, também, da con-
cessão, a cada província, de seis léguas por quadra de terrenos considerados
devolutos, para fins de colonização, com a vinda de suíços e alemães para
a província fluminense, açorianos para o Sul e alemães para São Leopoldo
(RS), em 1824 (SODERO, 1990).

Conforme Ataíde Jr. (2006), a Lei n. 601, de 18 de setembro de 1850, ao


disciplinar o novo regime jurídico de terras, não reconheceu a ocupação
indígena nem permitiu que camponeses adquirissem terras necessárias
a sua sobrevivência. Como somente era possível a aquisição de terras

15 Richard Miskolci (2012) salienta que o imaginário social do Império idealizou o indígena como
símbolo da brasilidade, “ignorando os massacres coloniais dos nativos, ao mesmo tempo em que
desviava os olhos de nossa pálida elite da população formada por negros e mestiços que viviam a
cruel realidade escravagista” (MISKOLCI, 2012, p. 36).
200 |

por meio de compra, elas não podiam ser adquiridas por índios ou por
negros que estavam sendo libertos (ATAÍDE JR., 2006, p. 174-177).

Essa situação ocasionou um sistema informal de registros, simultâ-


neo à grilagem e à concentração de terras em mãos de poucos proprietá-
rios. Nesse momento também se estabeleceu o conceito de “terras devolu-
tas”, que vigorou até o advento do Decreto-Lei n. 9.760, de 5 de setembro
de 1946.
Aqui se evidenciam alguns paradoxos da Lei de Terras: (a) erige-se
um aparato regulatório para “proteger a propriedade privada da terra con-
tra as ocupações, quando até essa data (a partir de 1822) a posse era norma
para consegui-la” (MARICATO, 2000, p. 33); (b) há um constrangimen-
to para o reconhecimento de posses, ao mesmo tempo em que inúmeros
imóveis foram recadastrados com registros em cartórios, devolvidos, nova-
mente reconhecidos e titulados, comportando em seus domínios inúmeras
situações de posse; c) criação, para fins de demarcação de terras devolutas,
de arquivos, registros e organismos ineficientes sucessivamente substituí-
dos, de forma a poder-se afirmar que “até praticamente nossos dias, as ter-
ras devolutas têm sido privatizadas, tirando proveito de uma situação de
fragilidade na demarcação da propriedade de terra no Brasil durante mais
de quatro séculos” (MARICATO, 2000, p.16). Mais que isto: os governos
provinciais declararam extintos os antigos aldeamentos indígenas e incor-
poraram tais terras para os municípios em formação.16
Assim, encontraram-se, ocupadas por comunidades predominante
negras,17 terras de índios – entregues formalmente a indígenas ou a seus
descendentes, sob a forma de doação ou concessão, a título de compen-
sação por serviços prestados ao Estado, como abertura de estradas e cola-
boração com expedições militares de desbravamento (ANDRADE, 2008);
“terras de pretos” –, domínios doados, entregues ou adquiridos por famí-
lias de ex-escravos, ou concessões a essas famílias mediante prestação de
serviços guerreiros; “terras de santo” – as extensões de terras exploradas

16 Daí a edição da Súmula n. 650 do STF, segundo a qual os incisos I e XI do Artigo 20 da Constituição
não alcançam aldeamentos extintos, ao pressuposto da jurisprudência desse tribunal de que as terras
de tais aldeamentos, extintos antes da Constituição de 1891, perderam seu caráter de afetação “por
uso especial” e passaram à propriedade dos estados, como terras devolutas, na forma do Artigo 64
daquela constituição e, pois, incluídos no conceito do atual Artigo 26, Inciso IV, da Constituição de
1988. Nesse sentido, ver BRASIL (2011).
17 Para uma análise das distintas situações e denominações, ver Almeida (2008).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 201

por ordens religiosas abandonadas ou entregues a determinados morado-


res, as quais recebem a denominação da santidade padroeira, por exemplo,
Santa Teresa; “terras de herança” – domínios titulados, tornados espólios,
que permanecem indivisos, sem a formalização da partilha – e tantas ou-
tras denominações (ALMEIDA, 2005).
A ausência de registros formais e a própria característica da posse/
propriedade são singulares.18 Em alguns casos, tais territórios são hoje alvo
de disputa com as Forças Armadas, que alegam motivos de preservação de
segurança nacional. São exemplos Alcântara (MA), onde existe uma base
de lançamento de foguetes, e Marambaia (RJ), que é sede naval.
O laudo antropológico da comunidade de Alcântara (ALMEIDA,
2006) é bem revelador: (a) até o Diretório de 1758,19 os índios recebiam a
designação de “negros” – o que então ficou proibido –, e o Alvará de 1755
incentivou o casamento dos vassalos do rei de Portugal com as índias e de
portuguesas com índios, proibiu que os descendentes fossem denominados
“caboclos”, ao mesmo tempo em que, abolindo a escravatura indígena, in-
tensificou a formação de fazendas por doações régias e incentivos para in-
trodução de escravos africanos, mantendo, com isso, a estigmatização dos
“pretos”, aos quais se davam os atributos de “vileza”, “infâmia” e “desonra”;
(b) o debilitamento econômico e social dos fazendeiros, pela derrocada das
fazendas de algodão, acarretou uma aproximação entre índios e escravos,
por pertencerem “afetiva e economicamente a territorialidades que contro-

18 Almeida (2008, p. 33) salienta que um “aspecto frequentemente ignorado da estrutura agrária bra-
sileira refere-se às modalidades de uso comum da terra”, situações em que o controle dos recursos
básicos “se dá através de normas específicas instituídas para além do código legal vigente e acatadas,
de maneira consensual, nos meandros das relações sociais estabelecidas entre vários grupos fami-
liares, que compõem uma unidade social” (op. cit., p. 133). Justamente por “colidirem frontalmente
com as disposições jurídicas vigentes e com o senso comum de interpretações econômicas oficiosas
e já cristalizadas” (op. cit., p. 134-135), jamais foram objeto de qualquer inventariação.
19 Interessante observar que o mesmo “Directorio que se deve observar nas povoações dos índios do
Pará e Maranhão”, de 1758, ao reconhecer que a introdução do próprio idioma nos povos conquis-
tados é “um dos meios mais eficazes para desterrar dos povos rústicos a barbárie de seus antigos
costumes”, estabeleceu, como um dos primeiros cuidados, “nas suas respectivas povoações o uso da
língua portuguesa, não consentindo por modo algum, que os meninos e meninas, que pertencerem
às escolas, e todos aqueles índios, que forem capazes de instrução nesta matéria, usem da língua
própria das suas nações, ou da chamada geral”. É a institucionalização da língua portuguesa como
idioma oficial, com proibição do uso de todas as línguas indígenas e do “nheengatu”, a chamada
língua geral, que, introduzida pelo clero para a comunicação entre os distintos povos indígenas, era
utilizada inclusive entre os escravos trazidos da África. A dispersão de escravos de diferentes etnias
em distintas fazendas, a fim de evitar agrupamentos, passou, então, a constituir um forte mecanismo
de controle sobre os trabalhadores escravos e uma forma de facilitar a imposição do português como
língua de comunicação obrigatória. Simultaneamente a isso, a manutenção de “índios” e “negros”,
como categorias homogêneas, ocultando a pluralidade étnica, linguística e cultural (ALMEIDA,
2007).
202 |

lavam efetivamente, [em que] viviam como suas e às quais emprestavam


suas próprias auto-atribuições [sic], num momento em que não lhe era
permitido por lei ter quaisquer propriedades e pecúlios”20 (ALVARÁ, 1755
apud ALMEIDA, 2006); (c) ao afirmarem, implicitamente, “direitos pesso-
ais e de grupos não reconhecidos como legalmente habilitados à posse/ou
propriedade, marcam uma diferença diante do ordenamento jurídico colo-
nial e descrevem uma trajetória que colide com ele ao se erigirem como su-
jeitos” (ALVARÁ, 1755 apud ALMEIDA, 2006); (d) o que era considerado
infâmia para as autoridades coloniais passou a ser atributo de autodefinição
dos agentes sociais e de seu território, invertendo, pois, o “sinal negativo,
que oficialmente as contrapunha ao Estado e que as destituía de qualquer
direito”, passando a assumir um “sentido afirmativo”, ao “batizar” com elas
suas próprias territorialidades; (e) inexiste correspondência entre a con-
dição jurídica de sesmeiro e a apropriação real dos meios de produção, e
as fazendas consistiam mais em “símbolos de um poder que efetivamente
não mais se baseava nelas”, pois as famílias buscavam prestígio em cargos
públicos e carreira política.
Aliás, a Lei de Terras é contemporânea da proibição do tráfico ne-
greiro no País – Lei Eusébio de Queirós, de 1850 – e, portanto, não pode ser
analisada separadamente do imaginário racial da época, em que proprie-
tários temiam revoltas escravas similares à Revolução Haitiana de 1804,21
ao mesmo tempo em que os abolicionistas apelavam para uma solução que
evitasse uma guerra civil à imagem da ocorrida nos Estados Unidos (1861-
1865).
Como bem destaca Richard Miskolci (2012, p. 29), “a passagem de
uma sociedade monárquica e escravista para uma republicana e de trabalho
livre [é um] acontecimento histórico marcado por medos de revoltas ou
vinganças negras, assim como por fantasias elitistas de embranquecimen-
to populacional.” Segundo o autor, esse ideal de nação branca e civilizada,
como projeto político coletivo, está relacionado com o controle e discipli-
namento da vida individual e íntima, porque se temia a reprodução ou a

20 Por pecúlio, entende-se “tudo aquilo que ao escravo era permitido, de consentimento expresso ou
tácito do senhor, administrar, usufruir, e ganhar, ainda que sobre parte do patrimônio do próprio
senhor” (MALHEIROS, 2008, p. 39. § 33). Perdigão Malheiros, a propósito, lembra que “nenhuma
lei garante ao escravo o pecúlio [,mas] se os senhores toleram que, em vida ou mesmo causa mortis,
o façam, é um fato, que todavia deve ser respeitado” (MALHEIROS, 2008, p. 34, § 34).
21 Eduardo Grüner (2010) faz uma análise interessante da especificidade da Revolução Haitiana.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 203

preponderância das raças consideradas inferiores e inaptas ao progresso.


Daí a necessidade de inculcar “no indivíduo a responsabilidade pelo au-
tocontrole e domínio sobre os instintos, vistos como a ameaça sempre à
espreita à moralidade da qual dependia a formação de casais saudáveis que
gerariam os filhos da nação” (MISKOLCI, 2012, p. 43).22
Em quarto lugar, porque a Associação Brasileira de Antropolo-
gia (ABA), na tentativa de orientar e auxiliar a aplicação do Artigo 68 do
ADCT, divulgou, em 1994, um documento elaborado pelo Grupo de Tra-
balho sobre Comunidades Negras Rurais, em que se define o termo “rema-
nescente de quilombo”.

Contemporaneamente, portanto, o termo não se refere a resíduos ou


resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação
biológica. Também não se trata de grupos isolados ou de uma popu-
lação estritamente homogênea. Da mesma forma nem sempre foram
constituídos a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados, mas,
sobretudo, consistem em grupos que desenvolveram práticas de resis-
tência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característi-
cos num determinado lugar (COMISSÃO, 20/08/2014).

Dessa forma, desde então, para fins de laudos antropológicos, o ter-


mo “quilombo” é entendido como “toda comunidade negra rural que agru-
pe descendentes de escravos vivendo da cultura da subsistência e onde as
manifestações culturais têm forte vínculo com o passado”.
Em quinto lugar, porque, com base em Arruti (1997), pode-se afir-
mar que os próprios antropólogos reconhecem que, ao serem identificadas
como “remanescentes”, aquelas comunidades, em lugar de representarem
os que estão presos às relações arcaicas de produção e reprodução social,
passam a ser reconhecidas como símbolo de uma identidade, de uma cultu-
ra e, sobretudo, de um modelo de luta e militância negra. Assim,

os laços das comunidades atuais com grupos do passado precisam ser


produzidos hoje, através da seleção e da recriação de elementos de me-

22 Para uma análise similar, em que se salienta que a secularização foi, também, um processo em que o
espaço público foi-se “purificando” de tudo o que não é nacional ou civilizado, ao passo que o espaço
privado se localizou onde estão os colonizados e as subjetividades racializadas, ver Maldonado-Tor-
res (2008, p. 366-369). Para uma leitura que desmistifica a associação entre secularismo e a defesa dos
direitos das mulheres, veja Scott (2011).
204 |

mória, de traços culturais que sirvam como os ‘sinais externos’ reconhe-


cidos pelos mediadores e o órgão que tem a autoridade de nomeação
(ARRUTI, 1997, p. 23).

O autor destaca que, em sua gênese, a expressão “remanescentes”,


fruto da interlocução com o movimento indigenista ainda na década de
1930, procurou enfatizar a: presencialidade do estado de índio naqueles
grupos, sem deixar de reconhecer neles uma queda [descontinuidade] em
relação ao modelo original [, ou seja,] um sentido de que tais grupos apre-
sentam] profundas e talvez irremediáveis perdas culturais, mas que não ne-
gam seus direitos ao estatuto legal (ARRUTI, 1997, p. 21).
Isso implica, ainda, um repensar do conceito de “comunidade tradi-
cional” existente na Convenção n. 169, da OIT, da qual o Brasil é signatário,
rompendo com: (a) o pensamento eurocêntrico que parte do pressuposto
de que o conhecimento tradicional associado – e toda a fitoterapia rela-
cionada –, as cosmologias étnicas, a associação com a presença indígena
ou negra, a especificidade cultural, o manejo sustentável da economia são
símbolos de que tais saberes, temporalidades, diferenças e escalas são in-
feriores e, portanto, devem manter-se ignorados, silenciados, eliminados
e/ou condenados à inexistência ou irrelevância; (b) o etnocentrismo, que
entende as culturas como atemporais – ou, quando distintas, como “presas
ao passado” – e, portanto, inalteráveis.
As “comunidades tradicionais” – das quais os quilombolas, os faxi-
nalenses, as quebradeiras de coco de babaçu e os ribeirinhos são exemplos
– não são representantes de um passado, nem “vestígio”, nem meros “rema-
nescentes”: são parte da estrutura agrária do presente e são tão modernas
e contemporâneas quanto os agricultores que utilizam transgênicos ou os
pesquisadores de células-tronco.
Isso suscita duas outras questões: (a) uma, social: essas terras re-
presentam cerca de um quarto do território nacional, o que implica a
possibilidade de proliferação de conflitos fundiários, num contexto de
valorização econômica de terras; (b) a outra, epistemológica, diz respei-
to ao privilégio, nesses casos, à história oral – Silvia Rivera Cusicanqui
(1987; 2008) bem o destaca –, em evidente contraposição à visão euro-
centrada de escrita.
São depoimentos, lembranças, relatos e vivências inseridos em
processos administrativos e judiciais a justificar a territorialidade, a an-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 205

cestralidade, a convivência em comunidade, os laços de parentesco, as


formas de religiosidade e as disposições de utilização da propriedade.
Ao contrário das provas apresentadas pelos proprietários rurais que,
sistematicamente, “negam a presença histórica e social de negros, es-
cravos, quilombolas, indígenas ou posseiros nas terras que reivindicam
para si” (MOREIRA, 2009, p. 245), a memória comunitária admite a
existência do outro – o fazendeiro, o senhor, a empresa mineradora ou
de celulose etc.
Nessa perspectiva, “o mito da terra virgem é também o mito da terra
vazia, envolvendo tanto uma despossessão de gênero quanto de raça” (MC-
CLINTOCK, 2010, p. 57-58),23 de tal forma que, nas narrativas coloniais,
a “erotização do espaço ‘virgem’ também faz uma apropriação territorial
[,pois, sendo assim,] os povos colonizados não podem reivindicar direitos
territoriais originários, e o patrimônio masculino e branco é assegurado
violentamente (MCCLINTOCK, 2010, p. 57-58).” Dessa forma, como não
se supõe que os povos estejam:

espacialmente lá – pois as terras estão ‘vazias’ – eles são simbolicamente


deslocados [para o] espaço anacrônico [, ou seja,] não habitam a história
propriamente dita, mas existem num tempo permanentemente anterior
no espaço geográfico do império moderno como humanos anacrônicos,
atávicos, irracionais, destituídos de atuação humana – a encarnação viva
do arcaico ‘primitivo’ (MCCLINTOCK, 2010, p. 58).

Em sexto lugar, porque a demasiada “reverência” ao conceito colonial


e, portanto, o “congelamento” da definição jurídica no tempo, acarretaria
impor, no século XXI, o conceito empregado pela legislação escravocra-
ta, com fins penais e repressivos, a uma norma constitucional garantidora
de direitos e imbuída de propósitos emancipatórios.24 Seria, pois, impor-

23 Para a autora, há uma persistente generificação da incógnita imperial e, se, à primeira vista, a “fe-
minização da terra parece não ser mais do que um sintoma familiar da megalomania masculina,
ela também trai uma paranoia aguda e um profundo – se não patológico – sentido de ansiedade e
perda de limites” (MCCLINTOCK, 2010, p. 47-48). Em fevereiro de 2010, Tonya Gonnella Frichner,
do Foro Permanente para Questões Indígenas da ONU, apresentou um estudo preliminar sobre as
consequências para os povos indígenas da teoria jurídica internacional conhecida como doutrina
do descobrimento. Esse documento está disponível em:<http://www.un.org/esa/socdev/unpfii/do-
cuments/E.C.19.2010.13%20ES.pdf>.
24 Camerini (2011) destaca a continuidade discursiva com os argumentos, por parte dos contrários aos
direitos dos quilombolas, de falsidade ideológica ou reforma agrária ilegal, pela conexão que “ocorre
através do tema do quilombo como ilícito ou crime, especialmente contra a ordem econômica, re-
presentada pelo trabalho e pela propriedade privada” (CAMERINI, 2011, p. 98-99). Daí as contínuas
206 |

tar a cultura da época da escravidão, mantendo um “colonialismo interno”


para a hermenêutica constitucional, o que foi bem apontado por Deborah
Duprat (2007), em relação ao anterior regramento por meio do Decreto n.
3.912/2001:

a norma pretensamente regulamentadora do artigo 68 do ADCT con-


duz à conclusão absurda de que a Constituição, rigorosamente, estaria
a instituir, agora com todo o peso do direito, quilombos tais como
concebidos em 1741, pois o espaço de liberdade para a regulação ritual
da vida seria obtido à custa do confinamento. [...] Nesta perspectiva,
não se autoriza que, hermeneuticamente, se conclua que um direito fun-
damental apenas tenha condições de se realizar com o sacrifício absoluto
do outro [...] Neste passo, o que postula [...] é que o direito assegurado
no artigo 68 do ADCT só se torne possível mediante o aniquilamen-
to do direito de liberdade, do direito de ir e vir, do direito de eleger,
constantemente, o local de permanência (DUPRAT, 2007, p. 37-38,
grifos nossos).

Ao contrário, o dispositivo constitucional orienta-se “numa perspec-


tiva de presente, com vistas a assegurar a grupos étnicos ligados historica-
mente à escravidão o pleno exercício de seus direitos de autodeterminação
em face de identidade própria” (DUPRAT, 2007, p. 38). Há, pois, que des-
colonizar o senso comum do conceito de quilombo, de forma a interpretar
o Artigo 68 do ADCT, com o seu nítido caráter de inclusão e reconheci-
mento de direitos, e de afirmar a necessária justiça histórica e cognitiva às
comunidades etnicamente distintas como portadoras de conhecimentos e
de direitos territoriais e culturais. É nesse sentido, pois, que deve ser reco-
nhecido que, no Brasil,

a injustiça social tem um forte componente de injustiça histórica e,


em última instância, de racismo anti-índio e antinegro [e que ao]
contrário do que se pode pensar, a justiça histórica tem menos a ver
com o passado que com o futuro [, porque] estão em causa novas con-
cepções de país, soberania e desenvolvimento (SANTOS, 2008, p. 3).

Valem, pois, para as populações negras, as observações constantes


do voto proferido pelo Ministro Carlos Ayres Britto, no dia 27 de agosto de

alegações de que todos vão se autodefinir quilombolas.


Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 207

2008, em relação às comunidades indígenas, no julgamento da demarcação


do Território Indígena Raposa Serra do Sol (Pet 3388):25

Pensar diferente, para desproteger as populações aborígenes, seria a con-


tinuidade de uma soma perversa que a nossa Lei Maior quis apagar do
mapa do Brasil: a soma de um passado histórico de perseguição aos índios
com uma hermenêutica jurídica da espécie restritiva. Esta, uma segun-
da subtração, constitutiva do que se tem chamado de “arma limpa”, por
implicar um processo de dizimação sem derramamento de sangue (DE-
CRETO-LEI N. 3.200, grifos do autor).

Uma perversidade maior ainda quando se recorda que o escravo era:


(a) “coisa”, para fins civis, e, portanto, nada adquiria para si, mas apenas
para o senhor, e, na condição de propriedade, poderia passar por suces-
são ou por testamento, “do mesmo modo que os outros bens do defunto
senhor”; (b) em relação à lei penal, “sujeito do delito ou agente dele”; era,
pois, “pessoa na acepção lata do termo, ‘um ente humano’, igual pela na-
tureza aos outros homens livres seus semelhantes” (MALHEIROS, 2004,
p. 40). Mais que isso: era uma coisa que poderia se tornar uma pessoa, se
obtivesse a liberdade, e uma pessoa que podia voltar a ser coisa, “caso não
cumprisse com as obrigações de todo liberto, como o reconhecimento da
devida gratidão ao seu senhor, e fosse reescravizado” (GRINBERG, 2002, p.
55).26 Como sustentou o camaronês Achille Mbembe (2003 p. 21), “a vida
de escravo é, de várias maneiras, uma forma de morte-em-vida”, e a con-
dição escrava, uma tríplice perda: de “casa” (morada), de direitos sobre o
corpo e de status político (MBEMBE, 2003, p. 21), o que tampouco significa
inexistência de perspectivas alternativas em relação ao tempo, trabalho e a
si mesmo. Conforme Keila Grinberg (2002), enquanto existiram pessoas
livres que foram escravas e pessoas escravizadas que trabalhavam em tro-
ca de uma remuneração, ninguém conseguiu escrever um Código Civil.
Clóvis Beviláqua (apud GRINBERG, 2002), diante do texto do Código de
1916, salientava que a “escravidão e outras leis e instituições que anulam a
liberdade civil são repelidas”, a indicar, pois, que a “memória de seu passado

25 Disponível em:<http://www.stf.gov.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/pet3388CB.pdf>.
26 A reescravização poderia ocorrer tanto por revogação da alforria quanto por escravização ilegal de
descendentes de indígenas, libertos ou africanos chegados depois de 1831 – ano em que se promul-
gou a lei que proibia o tráfico atlântico (GRINBERG, 2006).
208 |

– e das relações jurídicas que engendrou, por extensão – ainda estava bem
viva” (BEVILÁQUA apud GRINBERG, 2002, p. 69).
Em sétimo lugar, porque implica a necessidade de reconhecer a
diversidade étnico-cultural e socioambiental brasileira, em um contexto
constitucional de preservação do patrimônio imaterial, de reconhecimento
da formação cultural diversificada – em que negros e índios são estruturan-
tes – e de distintas formas de conhecimento ambiental. Mais ainda: obriga a
rever a ideia de que a preservação ambiental se dá somente quando inexiste
presença humana.
Não à toa, 75% da biodiversidade se encontram em terras indígenas
e de comunidades ditas “tradicionais”: o respeito à biodiversidade se faz,
também, com a preservação da sociodiversidade. As plantas medicinais
utilizadas pelas comunidades de Oriximiná (PA), por exemplo, estão sendo
objetos de pesquisa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Não se olvide que as comunidades quilombolas são, legalmente, pela in-
ternalização da Convenção da Diversidade Biológica, por meio da Medida
Provisória n. 2.186-16, de 23 de agosto de 2001(BRASIL, 2001),27 depositá-
rias de conhecimento tradicional associado, conforme o Artigo 7o, incisos
II e III. Têm, ainda, reconhecido seus direitos para decidirem sobre o uso
de seus conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético do
País, pois este integra o patrimônio cultural brasileiro e poderá ser objeto
de cadastro, segundo o Artigo 8o, Caput e §§ 1o e 2o, de titularidade coletiva,
assegurado pelo Artigo 9o, Parágrafo Único.28
Em oitavo lugar, porque se trata de afirmação da proteção de patri-
mônio cultural imaterial, como manifestação de modos de “criar, fazer e
viver”, conforme o Artigo 216, inciso II da Constituição Federal (BRASIL,
1988), em ruptura com a visão “monumentalista” ou “arqueológica”. A pre-
servação do patrimônio cultural é muito mais uma questão do presente,
não somente de tombamento, documentação antiga, registros ou inventá-
rios, consoante os termos do Artigo 216, § 1o do texto constitucional bra-
sileiro. E isso tem sido objeto de pouca atenção dos doutrinadores – José
Afonso da Silva é honrosa exceção! –, apesar de a Constituição estabelecer

27 Para uma crítica ao modelo ainda colonial de pensamento subjacente à referida convenção interna-
cional, leia-se Clavero Salvador (2012b).
28 Sobre a discussão acerca de propriedade intelectual, colonialismo, conhecimentos tradicionais e re-
cursos genéticos, vide Clavero Salvador (2012a).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 209

a proteção das manifestações das culturas populares, indígenas e afro-bra-


sileiras, integrantes do processo civilizatório nacional – Artigo 215, § 1o
(BRASIL, 1988), dentro da política cultural de “valorização da diversidade
étnica e regional” (BRASIL, 1988, Art. 215, § 3o, Inciso V).
Em nono lugar, porque a noção de territorialidade como espaço de
reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica põe em xeque a
visão tradicional que associa terra e pura utilidade econômica. São comunida-
des a reivindicar o “pleno exercício dos direitos culturais” (BRASIL, 1988, Art.
215), entre os quais o seu território é elemento essencial. Como bem destaca
Boaventura Santos (2007b), aqui a temporalidade é distinta das lutas de indí-
genas e de sem terras: a luta pela terra está ligada ao tempo largo da escravi-
dão, ao passo que, na primeira, à colonização e ao esbulho dos territórios pe-
los conquistadores e, na última, ao momento atual de concentração fundiária.
Os laudos antropológicos salientam sobremaneira tal aspecto; não é
demais lembrar manifestações de representantes do movimento quilombo-
la em pesquisa realizada pelo Programa de História Oral do Centro de Pes-
quisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da
Fundação Getúlio Vargas:

O que nos junta é a mesma condição de desigualdade racial. Ou seja,


estamos no mesmo contexto de desigualdade e discriminação, viemos
de uma mesma origem. [...] Tem duas coisas que são fortes, para que
todas essas comunidades, dentro da multiplicidade que as caracteriza,
se reconheçam como quilombo. Uma é a herança africana, saber de
onde viemos. As pessoas podem nem saber o que é quilombola, mas
sabem que são originárias de um processo de escravidão. A outra é
exatamente a defesa de um território. A territorialidade é o que nos
unifica. Como ela foi constituída em cada quilombo é diferente, mas
o que nós queremos com ela é igual. Ao se manter ali, criou-se um es-
paço de reprodução social daquele grupo e nós queremos zelar por ele.
A territorialidade é baseada na relação de parentesco, no respeito aos
mais velhos, no uso comum dos recursos naturais, no papel das mu-
lheres, na religiosidade... – uma série de elementos que constitui esse
patrimônio [...] toda essa área geográfica tem uma correlação na vida
das pessoas, que constitui a territorialidade. Ou seja, as nossas festas
religiosas ou os nossos rituais, a gente faz aqui, e há uma relação com
o povoado seguinte. [...] então, essa relação de territorialidade tem
espaço geográfico definido, tem uso coletivo desses espaços e ela é
aquele espaço que eu necessito para viver socialmente. [...] Mas e o
210 |

cemitério, que tem uma relação que não é geográfica, é cultural, é re-
ligiosa? Se eu digo que o cemitério não vale nada e corto no meio, estou
acabando com um valor cultural na comunidade [...] Isso é sagrado
para nós. Então como eu ouso acabar com os cemitérios? E os meus
antepassados, eu não tenho mais direito de cultuar? Tudo há que ser
pensado na delimitação dessas áreas, porque a constituição da territo-
rialidade quilombola extrapola a questão geográfica e administrativa.
O território Kalunga, por exemplo, está em três municípios em Goiás,
que são Monte Alegre, Cavalcante e Teresina. A comunidade extrapo-
la a unidade administrativa geográfica. [...] eu vou cortar a terra? Eu
tiro o espaço para as pessoas se reproduzirem? (ALBERTI; PEREIRA,
2007, p. 310-312, grifos nossos).

Essa distinta forma de perceber, entender e se relacionar com o mun-


do foi bem descrita em relatos orais no Equador, nestes termos:

Nossos antepassados chegaram para semear nestes territórios suas formas


de vida quando aqui não havia ninguém e ninguém queria viver aqui. Por
isso, para os mais velhos e para nós, seus herdeiros, ‘nosso’ mundo são
estes territórios e não buscamos apropriar o mundo dos outros. Porque
sabemos que cada povo necessita um território para viver (SALAZAR,
2010, p. 64).

A Convenção n. 169, da OIT, em seu Artigo 13.1, enfatiza:

a importância especial que para as culturas e valores espirituais dos po-


vos interessados possui a sua relação com as terras e territórios, ou com
ambos, segundo os casos, que eles ocupam ou utilizam de alguma ma-
neira e, particularmente, os aspectos coletivos dessa relação (OIT, 1989),

e no Artigo 13.2, afirma incluir-se no termo “terras” o conceito de


“territórios”, abrangendo “a totalidade do habitat das regiões” ocupado ou
utilizado de alguma forma, noção que é expressa no Artigo 2o, §§ 2o e 3o
do Decreto n. 4.887/2003 (BRASIL, 2003), e veio reforçada pela previsão
do Decreto n. 6.040, de 07 de fevereiro, de 2007, segundo o qual territórios
tradicionais são os:

espaços necessários à reprodução cultural, social e econômica dos povos


e comunidades tradicionais, sejam eles utilizados de forma permanente
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 211

ou temporária, observado, no que diz respeito aos povos indígenas e


quilombolas, respectivamente, o que dispõem os arts. 231 da Constitui-
ção e 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e demais
regulamentações (BRASIL, 2007, Art. 3o, Inciso II).

Aqui, pois, a territorialidade quilombola guarda similitudes com a


territorialidade indígena na perspectiva de preservar os “quatro círculos
concêntricos”: (a) habitação em caráter permanente; (b) utilização das ter-
ras para suas atividades produtivas; (c) utilização, de modo imprescindível
à preservação, dos recursos ambientais necessários ao seu bem-estar; (d)
reprodução física e integral.
Em perspectiva intercultural de tradução de realidades não eurocen-
tradas, a necessidade de um “princípio da proporcionalidade extensivo”, na
linha do voto do Ministro Carlos Ayres Britto, antes referido:29

Por ela, o próprio conceito do chamado princípio da proporcionali-


dade, quando aplicado ao tema da demarcação das terras indígenas,
ganha um conteúdo irrecusavelmente extensivo. Quer dizer: se, para os
padrões culturais dos não-índios, o imprescindível ou o necessário ad-
quire conotação estrita, no sentido de que “somente é dos índios o que
lhe for não mais que suficiente ou contidamente imprescindível à sua
sobrevivência física”, já sob o visual da cosmogonia indígena a equação
é diametralmente oposta: “dêem-se aos índios tudo que for necessário
ou imprescindível para assegurar, contínua e cumulativamente: a) a
dignidade das condições de vida material das suas gerações presentes
e futuras; b) a reprodução de toda a sua estrutura social primeva” (STF
Nº 517, Brasília, 25 a 29 de agosto de 2008, grifos nossos).

A jurisprudência brasileira30, ao contrário da colombiana, não tem


desenvolvido o conceito de “igualdade extensiva”. Segundo a Corte Cons-

29 Vide nota 25. Aplicação similar já fora feita em relação à constitucionalidade das ações afirmativas
(RAUPP RIOS, 2004, p. 36). O autor salienta que o juízo de proporcionalidade, aqui, exige que sem-
pre se busquem, “para alcançar os benefícios gerais necessários, as alternativas menos onerosas do
ponto de vista do dever de superar a situação de subordinação do grupo desavantajado” (RAUPP RIOS,
2004, p. 36), de tal forma que, não havendo esta alternativa, é necessário verificar “se o propalado
benefício geral é mais importante para a sociedade do que a superação da situação da subordinação”
(RAUPP RIOS, 2004, p. 36).
30 Roger Raupp Rios, analisando a jurisprudência do STF sobre o princípio da igualdade, salienta que,
entre 1950 e 1988, “predominaram a condescendência diante de realidades discriminatórias e a de-
soneração argumentativa perante tratamentos díspares” (RAUPP RIOS, 2011, p. 36), versando sobre
questões administrativas e processuais, para, somente a partir de 1988, haver “maior rigor em face de
diferenciações e a emergência do conteúdo antidiscriminatório do princípio da igualdade” (RAUPP
RIOS, 2011, p. 36).
212 |

titucional da Colômbia31, o princípio da igualdade, na forma do Artigo 13,


implica quatro mandatos:

(i) um mandato de trato idêntico a destinatários que se encontrem em


circunstâncias idênticas, (ii) um mandato de trato inteiramente diferen-
ciado a destinatários cujas situações não compartem nenhum elemento
em comum, (iii) um mandato de trato paritário a destinatários cujas
situações apresentem similitudes e diferenças, (iv) um mandato de trato
diferenciado a destinatários que se encontrem também em uma posição
em parte similar e em parte diversa, mas em cujo caso as diferenças se-
jam mais relevantes que as similitudes (SENTENCIA C 624).

Dessa forma, tem-se entendido que a omissão legislativa relativa de


caráter discriminatório, produzida pela não inclusão de todos supostamen-
te iguais aos regulados pela lei, significa, no geral, que tais disposições não
são inconstitucionais pelo que, em si, dispõem, mas sim “por não fazer ex-
tensivas essas disposições a outros supostos de fato iguais aos regulados”,
fazendo que a Corte profira uma sentença integradora, “que faz extensivos
os efeitos da regulação legal aos fatos não contemplados pela lei”.32
Na doutrina nacional, Jayme Weingartner Neto (2007) tem defen-
dido que se trata, pois, de estender a todos os grupos um direito que já se
encontra concretizado, à falta de fundamento racional ou material que de-
termine tratamento diferenciado: extensão, por igualdade, do regime mais
favorável já disciplinado. Jónatas Machado (1996) salienta que, se a religião
católica tem um regime mais favorável já legislado, isso não impede sua
extensão às religiões afro-brasileiras, por exemplo, devendo-se considerar
a situação da confissão religiosa, da orientação sexual ou do grupo mais
favorecido como “patamar normal de referência [e, desta forma] qualquer
desvio de tratamento das minorias, em relação à maioria, é concebido a
priori como restrição ao direito de igualdade” (MACHADO, 1996, p. 302).
O voto do ministro Ayres Britto, ainda que calcado na expressa dis-
posição do Artigo 231, § 1o, da Constituição Federal (BRASIL, 1988), re-
força, lido em consonância com os termos da Convenção n. 169 da OIT,
a argumentação constante de parecer exarado pelo então consultor-geral

31 Sentencia C-624, de 2008, M. P. Humberto Antonio Sierra Porto.


32 Sentencia C-864∕2008, M. P. Marco Gerardo Monroy Cabra.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 213

da União, Manoel Lauro Volkmer de Castilho, a respeito do Artigo 68 do


ADCT:

o que a disposição constitucional está a contemplar é uma territoriali-


dade específica cujo propósito não é limitar-se à definição de um espaço
material de ocupação, mas de garantir condições de preservação e pro-
teção da identidade e características dos remanescentes destas comuni-
dades assim compreendidas que devem ser levadas em linha de conta na
apuração do espaço de reconhecimento da propriedade definitiva. [...]
a noção de quilombo que o texto refere tem de ser compreendida com
certa largueza metodológica para abranger não só a ocupação efetiva se-
não também o universo de características culturais, ideológicas e axio-
lógicas dessas comunidades em que os remanescentes dos quilombos
(no sentido lato) se reproduziram e se apresentam modernamente como
titulares das prerrogativas que a Constituição lhes garante. É impróprio
[...] lidar nesse processo como ‘sobrevivência’ ou ‘remanescentes’ como
sobra ou resíduo, quando pelo contrário o que o texto sugere é justa-
mente o contrário (CASTILHO, 2007, p. 54).

A denominação constitucional, pois, de “remanescentes das comuni-


dades de quilombos” deve ser interpretada nesses termos, e o Artigo 2o do
Decreto n. 4.887/2003 não destoa de tal entendimento ao prever como rema-
nescentes das comunidades dos quilombos os “grupos étnico-raciais, segundo
critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de rela-
ções territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacio-
nada com a resistência à opressão histórica sofrida” (BRASIL, 2003, Art. 2o).
Mais que isso: a insistência no critério de autodefinição – como prevê o
Artigo 1o, § 2o da Convenção n. 169 da OIT – é outro elemento questionador do
etnocentrismo da sociedade – os critérios de classificação social são, em geral,
frutos de heterodefinição – de que “negro” e “homossexual” são casos clássicos.33
Mas esse processo de autoidentificação de uma comunidade como quilombola,

categoria externa aos grupos sobre os quais ela incidirá, dependerá do


processo – mais ou menos autônomo – de tradução das formas locais de
organização e pertença para as formulações generalizantes do direito e
das políticas (FIGUEIREDO, 2012, p. 213).34

33 Laudos antropológicos vêm salientando, ainda, a influência dos laços de parentesco na autodefinição
dos quilombolas (CAMERINI, 2011, p. 93).
34 No caso específico analisado, a falta de uma memória vinculada à escravidão, a comunidade inseriu
sua própria história no contexto escravista regional e encontrou nexos de identificação com outras
214 |

Como bem destaca João Pacheco de Oliveira, tal critério tem a van-
tagem de:

abandonar imagens arquitetônicas de sistemas fechados e se passar a


trabalhar com processos de circulação de significados, enfatizando que
o caráter não estrutural, dinâmico e virtual é constitutivo da cultura [,
evitando exigir-se a] aceitação de pressuposições quanto ao isolamento,
ao distanciamento e à objetividade (OLIVEIRA, 1999, p. 35).35

A recuperação das discussões históricas, antropológicas e socioló-


gicas, bem como da “ressemantização” dos conceitos, na temática quilom-
bola, é um bom exemplo de aplicação da “sociologia das ausências”36 ou
seja, de uma “investigação que visa demonstrar que o que não existe é, na
verdade, activamente produzido como não existente, isto é, como uma al-
ternativa não-credível ao que existe” (SOUSA SANTOS, 2010, p. 102-104,
grifos nossos).37 Deste modo, as cinco formas sociais de não existência – o
ignorante, o residual, o inferior, o local e o improdutivo – são, portanto,
“formas irreversivelmente desqualificadas de existir” (SOUSA SANTOS,
2010, p. 102-104).
Ao salientar a produção da “não existência das comunidades negras
no pós-abolição” (GOMES, 2009, p. 174), a autora recorda um número
significativo de estudos voltados para o período da escravidão e, somente
a partir da década de 1980, “uma nova tendência que aponta para a pre-
ocupação em compreender o fenômeno [em sua] contemporaneidade”.

comunidades, operando a interpretação do trabalho na “carvoagem” como forma análoga – e, de


certo modo, sucedânea –, à escravidão. Uma interpretação similar à proposta por Joan W. Scott
(1998), que, criticando o uso da experiência como evidência, salienta que não são os sujeitos que têm
experiências, mas sim as experiências que os constituem como sujeitos.
35 O autor salienta que o atributo da invisibilidade, ao estabelecer uma identificação entre visão e co-
nhecimento, continua “caudatário de uma etnologia das perdas e das ausências culturais” (OLIVEI-
RA, 1999, p. 28).
36 Conceito utilizado em Gomes (2009, p. 174).
37 Para o autor, são cinco os modos de produção de não existência: (a) a monocultura do saber e do
rigor do saber, que transforma a ciência e a alta cultura em critérios únicos de verdade e qualidade
estética e, pois, produz a “ignorância”; (b) a monocultura do tempo linear, que produz a não existên-
cia pelo ato de declarar atrasado “tudo o que, segundo a norma temporal, é assimétrico em relação
ao que é declarado avançado” (SOUSA SANTOS, 2010, p. 102); (c) a lógica da classificação social,
que naturaliza diferenças e hierarquias, de tal forma que “quem é inferior, porque é insuperavelmente
inferior, não pode ser uma alternativa credível a quem é superior” (SOUSA SANTOS, 2010, p. 103);
(d) a lógica da escala dominante, que produz como inexistentes o local e o particular; (e) a lógica pro-
dutivista, que produz o “improdutivo que, aplicado à natureza, é esterilidade e, aplicado ao trabalho,
é preguiça ou desqualificação profissional” (SOUSA SANTOS, 2010, p. 104).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 215

A consequência disso foi que “a questão das comunidades negras não foi
contemplada pela literatura que pensou a questão agrária do Brasil, sobretu-
do a partir da década de 1950, quando a luta pela terra se tornou um tema
mais recorrente no espaço público” (GOMES, 2009, p. 176, grifos nossos).

O reconhecimento da propriedade: “direitos originários”, usucapião ou


“afetação”?

Verificam-se singularidades das comunidades quilombolas: (a) uma


pluralidade de processos de resistências e de localizações geográficas, que su-
pera a tradicional distinção “urbano/rural”; (b) um forte laço de territorialida-
de construída como espaço de reprodução cultural, social, religiosa, ancestral
e econômica; (c) um caráter de utilização para fins de subsistência que disso-
cia terra e pura utilidade econômica e, pois, põe-se inclusive em oposição ao
processo de “mercantilização” da terra, iniciado com a Lei n. 601/1850; (d) o
reconhecimento do caráter étnico de discriminação na enorme concentração
fundiária brasileira e, dessa forma, a necessidade de discussão do racismo ins-
titucionalizado e reproduzido, legalmente, por meio de normas “aparentemen-
te” neutras; (e) um caráter de “tradicional” que, longe de ser “atrasado”, repõe a
função socioambiental da propriedade, questiona o modelo de monoculturas
e de extenuação das terras e demonstra a pluralidade de regimes de proprieda-
de; (f) a evidência da diversidade étnico-cultural brasileira e da necessidade de
preservação do patrimônio cultural imaterial e a imposição, ainda, da reflexão
sobre o legado africano e as consequências do período colonial. Uma proteção
constitucional, portanto, que obriga repensar as relações ocultas da “moderni-
dade” com o racismo e o colonialismo. A partir disso, segue também que esse
reconhecimento jurídico acarreta outras discussões importantes.
A natureza jurídica do reconhecimento da propriedade definitiva
não se encontra definida nem pela doutrina nem pela jurisprudência. O
Decreto n. 4.887/2003 estabelece, em seu Artigo 13, a possibilidade de de-
sapropriação, cuja admissibilidade dependeria, portanto, do estatuto jurí-
dico de tal proteção à propriedade.
Na fundamentação da ADIN38, que contesta a constitucionalidade
da previsão, sustenta-se que a hipótese do Artigo 68 do ADCT é um “usu-

38 Ação Direta de Inconstitucionalidade, Artigos 102, I, “a” e 103 da Constituição Federal.


216 |

capião extraordinário” e, portanto, comprovada a posse mansa e pacífica


desde 1888 até o momento presente, é desnecessário qualquer procedimen-
to desapropriatório. Essa leitura guarda similitude com a previsão cons-
tante no Decreto n. 3.912/2001, que disciplinou a questão anteriormente.39
Diante do que já foi explicitado relativamente ao que a historiografia e a
antropologia têm apontado, não tem como prevalecer, como bem salienta
Deborah Duprat (2007), em relação ao mencionado decreto:

Mas não só o interregno de tempo entre os marcos inicial e final da ocu-


pação, como condições do exercício do direito, padecem de inconstitu-
cionalidade. Eles próprios, considerados cada qual de per se, revelam
idêntico vício. De início, não há razão, constitucional ou mesmo histó-
rica, para que o direito previsto no art. 68 do ADCT remonte aos idos
de 1888. Historicamente, a figura do quilombo – tal como significado à
época, reitere-se – antecede, em muito, o marco apontado, e tampouco
encontra nele o seu período áureo, à vista mesmo de medidas tendentes
à abolição da escravidão já implementadas ou em franco curso. Resul-
taria ofensivo ao princípio da isonomia que o direito fosse reconhecido
aos remanescentes dos quilombos estabelecidos em 1888, e não àque-
les que existiram em época pretérita e não lograram prosseguir em sua
existência até a época apontada. Careceria, assim, de qualquer razoabi-
lidade o marco inicial previsto no decreto (DUPRAT, 2007, p. 6).

O marco final, no entender da subprocuradora-geral da República,


segundo Duprat (2007, p. 6), também ofenderia duplamente o texto consti-
tucional, porque: (a) atribuía a alguém estranho ao grupo étnico o poder de
determinar o “prazo final de sua existência constitucionalmente amparada, o
que, evidentemente, conflita com a noção de plurietnicidade”; (b) impõe uma
rigidez cultural etnocêntrica, impedindo o grupo de, a partir de 5 de outubro
de 1988, “conceber novos estilos de vida, de construir novas formas de vida
coletiva, enfim, a dinâmica de qualquer comunidade real, que se modifica, se
desloca, idealiza projetos e os realiza, sem perder, por isso, a sua identidade.”
A ofensa, ao princípio da isonomia, estaria caracterizada por outro
aspecto ainda: ao estabelecer um prazo máximo de quinze anos para reco-
nhecimento de usucapião (Artigo 1.238, Código Civil), não há sentido que

39 “Art. 1o […] Parágrafo Único. Para efeito do disposto no caput, somente pode ser reconhecida a pro-
priedade sobre terras que: I – eram ocupadas por quilombos em 1888; e II – estavam ocupadas por
remanescentes das comunidades dos quilombos em 5 de outubro de 1988” (BRASIL, 2001).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 217

a disposição constitucional, com o intuito de proteção, seja desfavorável às


partes envolvidas. Como sustenta Daniel Sarmento (2014), “por esta in-
terpretação, o art. 68 do ADCT, editado para proteger um grupo étnico,
vulnerável, torna-se num passe de mágica [o] veículo de uma odiosa dis-
criminação perpetrada contra os integrantes desse grupo”.
Ademais, não encontra substrato constitucional a caracterização
do Artigo 68 do ADCT como “usucapião extraordinário”. A Constitui-
ção de 1988, quando previu hipóteses de usucapião, tais como os artigos
183 e 191, referiu-se sempre à “aquisição de propriedade”. Ao contrário,
no caso das comunidades quilombolas, a disposição refere-se ao “reco-
nhecimento da propriedade”, com a subsequente titulação. Vale dizer: a
propriedade é preexistente, e são necessários seu reconhecimento e sua
titulação.
A “preexistência da propriedade” é um dos motivos para se alegar o
enquadramento na mesma figura jurídica de “direitos originários”, à seme-
lhança do que se vem entendendo em relação aos indígenas. Importante,
contudo, destacar algumas diferenciações.
A primeira reside no fato de as terras tradicionalmente ocupadas pelos
indígenas configurarem bens da União (BRASIL, 1988, Art. 20, Inciso XI) e de
serem assegurados às comunidades a “posse permanente” e o “usufruto exclu-
sivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes” (BRASIL, 1988,
Art. 231, § 2o). No caso do Artigo 68 do ADCT, a Constituição não assegura a
posse permanente, mas a propriedade, que, por sua vez, não é da União, mas
dos remanescentes das comunidades de quilombos (BRASIL, 1988).
A segunda, no fato de que a Constituição expressamente afirma “di-
reitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas”, conforme
dicção do Artigo 231, caput (BRASIL, 1988). A doutrina sempre se orien-
tou segundo o entendimento de que isso constituía a:

constitucionalização ‘da posse indigenata’, ou seja, a tradição jurídica


derivada do Alvará de 1o de abril de 1680, confirmado pela Lei de 6 de
junho de 1755, que firmara o princípio de que, nas terras outorgadas
a particulares, seria ‘sempre reservado o direito dos índios, primários e
naturais senhores destas’” (SILVA, 2004, p. 836).

O indigenato seria, pois, fonte primária e congênita da posse territo-


rial, um direito que independe de apresentação de título, e, por serem ori-
218 |

ginariamente reservadas, as terras não podem ser consideradas devolutas.


No caso das comunidades quilombolas, é inaplicável o regime do in-
digenato do período colonial: enquanto este estipulava que os índios eram
os primeiros e naturais senhores das terras brasileiras, os instrumentos ju-
rídicos que definiam os quilombos partiam da premissa de necessária re-
pressão à resistência negra, ou seja, a legislação colonial sempre reconheceu
a reserva de direitos dos indígenas, ao passo que sempre negou direitos aos
negros aquilombados.40 De toda forma, o STF, no julgamento do caso Ra-
posa Serra do Sol, afastou a teoria do indigenato, por entender que a Cons-
tituição previu, em realidade, a “teoria do fato indígena”, ou seja, a efetiva
presença constante e persistente das comunidades na área questionada, em
05 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição. Ademais, não
se tratavam de povos originários, mas de povos que foram transferidos à
força de seus territórios africanos para serem escravizados. Não há, pois,
como deixar de salientar uma proteção constitucional distinta, prevista no
Artigo 68 do ADCT em relação aos demais proprietários/possuidores.
O voto do Ministro Ayres Britto, no referido julgamento, lança mais
argumentos nesse sentido.41 Ao salientar que o termo “originários” traduz
“situação jurídico-subjetiva mais antiga do que qualquer outra, de maneira
a preponderar sobre eventuais escrituras públicas ou títulos de legitima-
ção de posse em favor de não índios”, destaca tratar-se de uma qualificação
jurídica “tão superlativa a ponto de a Constituição dizer que ‘os direitos
originários’ sobre as terras indígenas não eram propriamente outorgados
ou concedidos, porém, mais que isso, reconhecidos” (parte inicial do Art.
231, Caput). Portanto, uma carga de proteção constitucional “maior que a
defluente da simples outorga de direitos que não gozam de tal qualificação”,
em virtude de uma “natureza especialíssima” carregada de “clara consciên-
cia histórica de compensação” (BRASIL, 2009).
Destarte, a locução do Artigo 68 da ADCT – “é reconhecida a proprie-
dade definitiva” (BRASIL, 1988) – deve ter a mesma interpretação conferida ao
Artigo 231, da Constituição Federal – “são reconhecidos aos índios” (BRASIL,

40 Recorde-se, inclusive, que o Código Imperial previa o crime de “insurreição”, cometido “reunindo-se
vinte ou mais escravos para haverem a liberdade por meio da força. — Penas: aos cabeças, de morte
no grau máximo, galés perpétuas no médio, e por 13 anos no mínimo; aos mais, açoites” (MALHEI-
ROS, 1867).
41Nota 25, § 80, item II.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 219

1988), na linha de moderna interpretação constitucional (CANOTILHO, 2003,


p. 1223-1225), pautada pela “unidade da Constituição” – evitando-se contra-
dições entre as normas – e “máxima efetividade” – atribuindo-se o sentido
que maior eficácia lhe dê. Assim, ainda que não prevejam “direitos originários”,
demonstra a especificidade da comunidade negra no período pós-abolição, a
justificar uma proteção especial de sua propriedade, com uma carga valorativa
maior que a decorrente de outorga de direitos sem a mesma qualificação.

Expansão futura da área, reassentamento e o direito


de consulta∕ consentimento prévio

Duas situações merecem atenção: (a) a necessidade de expansão futu-


ra da área, e (b) a eventual necessidade de reassentamento das comunidades.
A primeira diz respeito à possibilidade de exigir-se – em decorrên-
cia do aumento da população ou de a forma de utilização coletiva implicar
tal necessidade – a expansão na área, o que deve ser confirmado por laudo
antropológico que indique quão necessário se faz para a reprodução dessa
“territorialidade específica”. Devido a essa hipótese, caberá ao Estado a
utilização da desapropriação na forma do Artigo 216, §1o, da Constituição
Federal, para criar os acréscimos territoriais necessários ao integral reco-
nhecimento do direito constitucionalmente assegurado. É, pois, hipótese
“inversa” à da extinção ou desaparecimento da comunidade.
A condicionante n. 17 – “é vedada a ampliação da terra indígena já
demarcada” –, fixada no julgamento do caso Raposa Serra do Sol, é, dessa
forma, contrária ao estabelecido na referida convenção e, portanto, tam-
bém não pode ser aplicada aos processos quilombolas.
Assim, deve-se aplicar o entendimento firmado pela Corte Intera-
mericana de Direitos Humanos e, para o caso brasileiro, recentemente con-
firmado, de que a decisão de conformidade de uma lei com a Constituição
é, de fato, uma questão de direito interno. Mas isto não impede, contudo,
que a Corte “realize um controle de convencionalidade, ou seja, a análise
da segunda incompatibilidade daquela lei com as obrigações internacionais
do Brasil contidas na Convenção Americana” (BRASIL, 2009). E isso não
era invasão de competência do STF.42 Vale dizer: o exame da constituciona-

42 Caso (§ 49). No mesmo sentido, o voto do Juiz ad hoc, Roberto Caldas: “se aos tribunais supremos ou
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lidade não dispensa a análise da convencionalidade, e cada tribunal decide


no âmbito de sua competência.43
A segunda vem sendo motivo de preocupação de tais comunidades e en-
contra previsão na Convenção n. 169 da OIT, que garante, sempre que possível,
o direito “de voltar a suas terras tradicionais assim que deixarem de existir as
causas que motivaram seu traslado e reassentamento” (OIT, 1989, Art. 16.3). Em
qualquer hipótese, as comunidades devem ser consultadas (OIT, 1989, Art. 16.2,
16.4, 17.2) e sua participação no processo é sempre indispensável (OIT, 1989,
Art. 2o.1), em especial quando existentes “medidas legislativas ou administrati-
vas suscetíveis de afetá-los diretamente” (OIT, 1989, Art. 6o. 1.“a”). Aqui, nova-
mente o reconhecimento constitucional da territorialidade específica determina
a readequação ao status quo ante, sempre que possível e com o respeito às pecu-
liaridades de reprodução cultural da comunidade e eventual indenização.
Um detalhe tem sido ignorado: a necessidade de consulta livre, pré-
via e informada.44 Esse verdadeiro dever/direito de consulta já foi reconhe-
cido, de forma expressa, pela Corte Suprema da Colômbia, como integrante
do “bloco de constitucionalidade”, na categoria de verdadeiro direito fun-
damental das comunidades, em discussões judiciais envolvendo a comuni-
dade Embera Katió, em disputa com usinas hidrelétricas, os Uwa, em luta
contra empresa petrolífera, bem como em autorizações para fumigações
em plantações de coca na Amazônia.45
Da mesma forma, a decisão “Pueblo Saramaka vs. Surinam”, da
CIDH, afirmou que o Estado deveria consultar com a comunidade, “em
conformidade com suas tradições, nas primeiras etapas do plano de desen-
volvimento ou inversão e não unicamente quando surja a necessidade de
obter a aprovação da comunidade, se fosse este o caso”, assegurando-se que
os membros da comunidade “tenham conhecimento dos possíveis riscos,
incluindo os riscos ambientais e de salubridade”.46

aos constitucionais nacionais incumbe o controle de constitucionalidade e a última palavra judicial


no âmbito interno dos Estados, à Corte Interamericana de Direitos Humanos cabe o controle de
convencionalidade e a última palavra quando o tema encerre debate sobre direitos humanos” (§ 5).
43 Para uma discussão dessa questão, vide Mazzuoli (2009).
44 Vide, em relação ao panorama da discussão envolvendo a declaração dos povos indígenas, a Conven-
ção 169 da OIT, o Direito Internacional e decisões de cortes constitucionais latino-americanas em
Yrigoyen Fajardo (2011).
45 Disponível em:<http://www.socioambiental.org/banco_imagens/pdfs/13022007.pdf e a íntegra dos
julgados:http://www.isa.org.br/inst/esp/consulta_previa/sites/default/files/sentenciat-su_039_97.
pdf;http://www.isa.org.br/inst/esp/consulta_previa/sites/default/files/sentencia_c_208_2007.pdf>.
46 Vide nota 11, § 133, da referida decisão.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 221

Mais recentemente, a decisão Sarayaku vs. Ecuador47, de 27 de ju-


nho de 2012, salientou: (a) a necessidade de garantir efetiva participação
das populações nos planos de desenvolvimento dentro de seu território,
devendo ser consultados, segundo seus costumes e tradições, já nas pri-
meiras etapas de tais planos e “não unicamente quando surja a necessida-
de de obter a aprovação da comunidade” (§ 177); (b) o reconhecimento
do direito à identidade cultural como ingrediente e via de “interpretação
transversal para conceber, respeitar e garantir o gozo e exercício dos direi-
tos humanos” dos povos e comunidades protegidos pela Convenção 169
da OIT (§ 213); (c) que, tendo em vista a importância que têm “os sítios de
valor simbólico para a identidade cultural” e sua cosmovisão, bem como
o forte laço que existe entre os “elementos da natureza e da cultura” e as
“dimensões do ser de cada integrante do povo”, isto acarreta profundas
afetações quando “diferentes elementos da natureza que os rodeiam são
destruídos” (§ 220).
Ainda mais se considerando que a recente Constituição do Equa-
dor erigiu a direitos constitucionais coletivos das comunidades tradicio-
nais, aqui incluído o povo afro-equatoriano: (a) “consulta prévia, livre e
informada, de caráter obrigatório, dentro de prazo razoável, sobre planos
e programas de prospecção, exploração e comercialização de recursos
não-renováveis localizados em suas terras” (ECUADOR, 2008, Art. 57.7,
tradução nossa); (b) participação, mediante seus representantes junto aos
organismos oficiais, na “definição das políticas públicas a elas concernen-
tes, bem como no desenho e na decisão das prioridades nos planos e pro-
jetos do Estado” (ECUADOR, 2008, Art. 57.16); (c) consulta “antes da
adoção de medida legislativa que possa afetar qualquer de seus direitos
coletivos” (ECUADOR, 2008, Art. 57.17).
Nesse sentido, a OIT tem-se pronunciado estabelecendo o que não
pode ser considerada consulta prévia: (a) não é simples informação; (b)
não pode ser compreendida como um evento; (c) não é sinônimo literal de
participação – não é a inclusão de representante em determinado órgão es-
pecial que cumpre tal requisito –; (d) o Estado não pode delegar a execução
do processo de consulta a particulares – não se trata de negociação de bens
privados –; (e) não é direito de veto, tampouco implica ausência de poder

47 Disponível em:< http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_245_esp.pdf>.


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vinculante. A consulta, nesses termos, implica a “disposição de adiantar um


processo de negociação que termine numa decisão conjunta, mutuamente
influenciável.”48
Importa salientar que a Corte Constitucional colombiana, analisan-
do a lei florestal, na Sentencia C-030, de 2008 (M. P. Rodrigo Escobar Gil),
declarou-a inconstitucional por violação ao direito fundamental à consulta
prévia, um direito que materializa a democracia participativa e que “garan-
te que as vozes das minorias culturais, grupos que têm sido historicamente
discriminados e que são vulneráveis desde o ponto de vista social e econô-
mico, sejam efetivamente ouvidas pelo Estado.”49
Observe-se, porém, que tanto a Constituição equatoriana (ECUA-
DOR, 2008, Art. 57.7 e 57.16) quanto a boliviana (BOLIVIA, 2009, Art. 30.
II.15) preveem o direito à consulta prévia, livre, informada e de boa fé rela-
tivamente a medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetar as
comunidades indígenas, em especial programas de exploração de recursos
não renováveis.
Ocorre que ambas as constituições, como já se mencionou, dão novo
status aos tratados internacionais de direitos humanos, naquilo que sejam
mais favoráveis ao regramento interno. Isso, depois da Declaração dos Po-
vos Indígenas, de 2007, da ONU.50 Nela, ao contrário da Convenção n. 169
da OIT, não se fala mais em “consulta prévia”, mas em “consentimento pré-
vio, livre e informado”; vale dizer, não em exercício de direito de veto, como
usualmente se alega, mas direito próprio à autodeterminação e, portanto,
de manter-se, em assim querendo, na condição e no patamar de isolamento
ou de não perturbação em que se encontram. Disso segue, pois, que o exer-
cício do consentimento – e não mais de uma consulta objetivando a um
“acordo” sobre as medidas propostas – é a condição para uma autodetermi-
nação que, nos dois instrumentos internacionais, em momento algum lhes
dá o mesmo patamar que a expressão “povos” tem no direito internacional.
Daí porque a livre determinação é o “direito à autonomia e autogoverno
nas questões relacionadas a assuntos internos e locais” (OIT, 2007, Art. 4o).

48 Disponível em:<http://www.isa.org.br/inst/esp/consulta_previa/?q=o-que-e>, onde são disponibili-


zadas legislações e decisões judiciais da Colômbia, do Equador, da Bolívia e da Venezuela.
49 Para uma análise do julgamento e suas consequências, leia-se Bonilla Maldonado (2010).
50 Para uma discussão dos direitos indígenas a partir de interpretação complementar entre a declaração
da ONU e a Convenção n. 169 da OIT, veja-se Benites (2010).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 223

Como bem recorda César Garavito (2012), trata-se de um campo so-


ciojurídico altamente dinâmico e complexo: de um lado, resquícios de um
paradigma integracionista, de “governança”, em que os indígenas são objeto
de políticas; e de outro, uma forma contra-hegemônica de multicultura-
lismo, inspirada na autodeterminação e no reconhecimento de sujeitos de
direitos. No primeiro caso, o consentimento é exceção e é visto como “veto”,
para casos de discordância; no segundo caso, é regra e, pois, exercício de
um direito humano e fundamental. Por isso, é cabível a indenização quan-
do os territórios e recursos são “confiscados, tomados, ocupados, utiliza-
dos sem o consentimento livre, prévio e informado” (OIT, 2007, Art. 29.1).
A discutir-se, pois, a jurisprudência internacional vai associar tais parâme-
tros inovadores, quando inexistentes previsões constitucionais, tais como a
boliviana e a equatoriana, para os direitos que envolvem as comunidades
negras e outras “tradicionais”.
Isso propõe outra questão, qual seja, a da conveniência, dadas as
peculiaridades já apresentadas em relação a tais comunidades – sejam
“tradicionais”, indígenas ou quilombolas –, da existência de um “tradu-
tor cultural”, um profissional que não se confunde nem com intérprete
nem necessariamente com perito, podendo ser um antropólogo – ou
de qualquer das ciências sociais –, mas que seja “capaz de fazer com-
preender ao juiz e às demais partes do processo o contexto sócio-polí-
tico [sic] e cultural daquele grupo”, um responsável, pois, pelo diálogo
intercultural, tornando mutuamente inteligíveis as demandas e espe-
cificidades, evitando-se que o “sistema judicial ignore a diversidade e
aplique o direito sempre do ponto de vista étnico dominante”.51 Ora, se
a Constituição assegura às minorias étnicas o exercício de seus direitos
sem a necessidade de serem assimiladas, deve-se, consequentemente,
adotar “medidas para garantir que os membros desses povos possam
compreender e se fazer compreender em procedimentos legais, facili-
tando para eles, se for necessário, intérpretes ou outros meios eficazes”
(OIT, 1989, Art. 12).

51 CASTILHO, Ela, op. cit., p. 295-299. A possibilidade foi admitida como conveniente no julgamento
do AI n. 2008.04.00.010160-5/PR (Rel. Desembargadora Federal Maria Lúcia Luz Leiria, julg. 01-07-
2008, publ. DE 31-07-2008).
224 |

Considerações finais

Apesar de a questão quilombola estar presente apenas em dois artigos


constitucionais, o exame das disposições constitucionais de outros países, o
processo de descolonização da noção de quilombo, a releitura do desenvol-
vimento fundiário brasileiro, a ampliação da noção de patrimônio cultural
protegido pela Constituição, o reconhecimento pelas ciências sociais de es-
pecificidades de tais comunidades também no que diz respeito à territoria-
lidade, a análise do estatuto jurídico negro no período pós-abolição e uma
leitura intercultural da diversidade densificam o conteúdo posto no texto
constitucional e servem de parâmetros para analisar as especificidades de
proteção jurídica para situações que envolvem comunidades quilombolas.
O sucesso das estratégias de proteção de afrodescendentes em situ-
ações não típicas da vida urbana não tem dependido somente dos níveis
de organização dos movimentos quilombolas, mas também do “fato de
que a concessão de tais direitos está baseada na posse de uma identidade
cultural de grupo distinta” (HOOKER, 2006, p. 99). Em certas situações,
portanto, os afrodescendentes se encontram em desvantagem em relação
aos indígenas para reivindicar direitos coletivos – incluídos os territoriais
e culturais –, tendo em vista que “o modo diferente pelo qual os dois gru-
pos foram historicamente racializados afeta as respectivas capacidades
para afirmar uma identidade cultural de grupo distinta” (HOOKER, 2006,
p. 101), que, muitas vezes, passa pela afirmação de língua, usos, costumes
e cultura distintas.
Ariel Dulitzky (2010), analisando a jurisprudência da Corte Intera-
mericana, recentemente destacou algumas dificuldades: (a) a aproximação
cultural opta por localizar geograficamente somente as comunidades ru-
rais que podem demonstrar sua “indigeneidade” ou “africanidade” de uma
maneira cultural determinada, podendo produzir efeitos no interior do
movimento negro, obrigando a ressaltar a identidade cultural antes que a
racial52; (b) deve ser avaliada, durante o processo de litígio, a possibilidade

52 Foi o que sucedeu quando a Corte Constitucional colombiana, na citada Sentencia C-169, de 2001,
M. P. Carlos Gaviria Díaz, afirmou que os direitos coletivos das comunidades negras, para efeitos de
aplicação da Lei n. 70∕93 (“terras de comunidades negras”) se davam em razão de seu status de grupo
étnico e não da cor de pele, o que equivaleria dizer que “os afro-colombianos que não pertencem às
comunidades negras sofrem uma dupla discriminação: socialmente, por serem negros em termos
raciais, e, legalmente, por não serem suficientemente negros em termos étnicos” (ARIZA, 2009, p.
315, tradução e grifos nossos).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 225

de ocorrência de conflitos intra e intercomunitários; (c) a Corte deveria ser


mais casuística em suas decisões, evitando a repetição mecânica de deci-
sões prévias, nem sempre adequadas “às particularidades de cada caso ou
ao contexto legal, político, social ou econômico no qual se produzem as
diferentes reclamações” (DULITZKY, 2010, p. 39); (d) a falta de proteção
efetiva dos territórios indígenas e negros não pode e não deve ser conside-
rada, exclusivamente, um problema de “falta de reconhecimento de suas
particularidades distintivas, mas sim de discriminação e marginalidade a
que os Estados os submetem” (DULITZKY, 2010, p. 42, tradução nossa).
Para o autor, uma aproximação com a perspectiva da igualdade e não dis-
criminação “permitiria considerar as desigualdades e racismo estrutural de
que são vítimas indígenas e afrodescendentes” (DULITZKY, 2010, p. 42,
tradução nossa).53
Sérgio Costa e Guilherme Gonçalves (2011), em outro marco teó-
rico, e tendo em conta as decisões da Corte Interamericana envolvendo
as comunidades do Suriname,54 salientam a necessidade de “considerar o
impacto de certas políticas públicas e de outras formas de intervenção na
articulação e rearticulação dos grupos socioculturais”, lembrando que, no
lugar de “um Estado ou de uma corte neutros, que ‘meramente’ fornecem
as oportunidades para certos grupos socioculturais preservarem suas iden-
tidades”, é necessário considerar que “qualquer intervenção do Estado e do
Direito redesenha o mapa das negociações de identidade”, intervindo na
constituição destes mesmos grupos.55

53 O autor questiona qual será a orientação da Corte Interamericana em relação aos países: (a) “onde
a propriedade coletiva é reconhecida a povos indígenas, mas não a afrodescendentes” (DULITZKY,
2010, p. 30); (b) “onde as regulações constitucionais de direitos coletivos para indígenas são maiores
que os direitos coletivos reconhecidos aos afros” (DULITZKY, 2010, p. 30). A Corte necessita, ainda,
superar a errática aproximação desde a igualdade e a não discriminação, talvez avançando nos ter-
mos de uma igualdade extensiva, conforme destacado em ponto anterior, com base na jurisprudên-
cia da Corte Constitucional colombiana.
54 Os autores ainda enfatizam que as decisões mais recentes da Corte acabam por caracterizar as co-
munidades como anistóricas e “cuja existência supostamente não mudou nos últimos três séculos”
(COSTA; GONÇALVES, 2011, p. 64), e criticam que, ao determinar a criação de um fundo de re-
parações, administrado em parte por estranhos à comunidade, a Corte supõe que “a necessidade de
proteção dos marroons beneficiados deriva, ao mesmo tempo, da representação de sua humanidade
e de sua especial fragilidade [, ou seja,] sob o manto de um discurso humanista, de identidades,
assimetrias e dominações [...] fixas” (COSTA; GONÇALVES, 2011, p. 63). Sobre as consequências
profundas e provavelmente irreversíveis das decisões de indenização em dinheiro, vide Rodríguez
Garavito (2012, p. 57-61).
55 A crítica de Costa (2011) é quanto ao risco, inerente às políticas multiculturalistas de que, “com
intenção de preservar a cultura associada aos afrodescendentes em sua suposta forma originária,
dificultam os processos dinâmicos de intercâmbio e difusão que conferem vitalidade e perenidade às
diferentes formas de expressão cultural” (COSTA, 2011, p. 267).
226 |

Daí porque tanto o enquadramento das comunidades quilombolas


e de outras comunidades tradicionais no sistema jurídico de proteção da
Convenção n. 169 da OIT quanto as pautas hermenêuticas constitucionais
que associam o Artigo 68 do ADCT com o Artigo 231 da Constituição bra-
sileira, se, por um lado, podem ser consideradas exitosas na afirmação de
uma especificidade cultural, trabalhando com o reconhecimento cultural,
por outro, não podem constituir, nesse mesmo processo, num descuido em
relação à luta contra a discriminação racial.
O fato de índios e afrodescendentes sofrerem os dois tipos de
injustiça deve alertar para a necessidade de se promoverem, simulta-
neamente, as duas políticas. Para tanto, contudo, há de se dar atenção
especial à falta de adequada capacitação em matéria de direitos huma-
nos, em particular com respeito aos direitos consagrados em tratados
internacionais,56 especialmente na judicatura e entre os agentes públicos
e a identificação e eliminação “de todas as formas de racismo institucio-
nalizado, ou seja, o racismo que reside de forma aberta ou encoberta nas
políticas, nos procedimentos, nas práticas e na cultura das instituições
públicas e privadas”.57
Os desafios em tempos de constitucionalismo intercultural são, por-
tanto, consideráveis. Ainda mais quando envolvem aspectos étnico-raciais e
questionam, como no caso da “disposição transitória”, o colonialismo e o ra-
cismo que a sociedade brasileira insiste em considerar inexistentes ou findos.

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56 Recentemente, a Corte Interamericana, no caso Sarayaku vs. Ecuador, salientou a necessidade de o


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nacionais e internacionais em direitos humanos dos povos e comunidades indígenas, dirigidos a
funcionários militares, policiais e judiciais, assim como a outros cujas funções tenham relação com
povos indígenas” (§ 302).
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O DIREITO QUILOMBOLA E OS ENTRAVES
DA ESTRUTURA AGRÁRIA FUNDIÁRIA BRASILEIRA

Lilian Cristina Bernardo Gomes1

O
caminho da cidadania no Brasil tem sido difícil, sobretudo, na
perspectiva dos grupos que historicamente ocuparam as posições
inferiores na hierarquia social. O objetivo desse estudo é indicar
que as opções feitas no Brasil desde o início do período colonial até a Abo-
lição da Escravidão fundamentaram um modo de concepção da terra que
não muda com a Proclamação da República. Em consequência, desenvol-
veu-se um modelo agrário que contribuiu para ampliar as desigualdades
socioeconômicas e gerou uma distribuição desigual de cidadania por sécu-
los, tanto nos regimes colonial e imperial quanto no republicano. Diversos
são os segmentos sociais e identitários atingidos por esse modelo exclu-
dente e iníquo. Aqui, porém, essa questão será tratada na perspectiva das
comunidades quilombolas.
Esses grupos étnico-raciais organizaram, coletiva e socialmente, os
seus territórios e tiveram como modalidade de utilização dos recursos na-
turais e de produção as “terras de uso comum”, que emergem como ex-
pressão das relações de uso e, consequentemente, de trabalho na terra. Eles
construíram, em diversas localidades dentro de estados brasileiros, formas
complexas de organização, nas quais se interpenetram: os planos originais
de ocupação; deslocamentos diversos; aquisição e sucessão de terras com
interseções sociais, culturais, econômicas, ecológicas, religiosas e políticas,
configurando, assim, um território étnico. Essa situação social se organiza
em parâmetros bastante diferentes daqueles pautados pela lógica capitalis-

1 Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (DCP/UFMG), coordena-
dora técnica do Projeto Formulação de uma Linguagem Pública Sobre Comunidades Quilombolas
(NEAD/OJB/NUQ/CERBRAS). Professora da Unifenas e ISTA.
240 |

ta, pois a sua relação com a terra e com os recursos naturais está informada
por “relações de parentesco e proximidade, configurando uma organização
social particular, essencialmente relacionada à história das comunidades e
ao território” (ZUCARELLI, 2006, p. 72).
O reconhecimento público do direito desses grupos, expresso na
Constituição de 1988 através do Artigo 68 do Ato das Disposições Consti-
tucionais Transitórias (ADCT),2 é um marco no processo de luta local, pois,
desde a Abolição da Escravidão, em 1888, a questão dos quilombos ficou
invisibilizada no cenário político nacional e não houve legislação, até en-
tão, que tratasse dessa questão. No entanto, diversos relatórios antropológi-
cos (GUSMÃO, 1996; 1998; ALMEIDA, 2006; LIMA, 2007; MOTA, 2003)
apontam que esses grupos construíram formas diversas de ocupação do
território em momentos históricos diferentes, constituindo-se em patrimô-
nio histórico e cultural de toda a população brasileira (SARMENTO, 2007).
Apesar dessa riqueza nas formas de existência coletiva, esses grupos
foram tratados de modo excludente até a Constituição de 1988. Durante o
período da Escravidão no Brasil, de 1530 a 1888, é possível indicar a existên-
cia de um aparato jurídico formal que enquadrava essa experiência nos parâ-
metros legais, tal qual exemplifica a determinação do Conselho Ultramarino
de 1740 (MOURA, 1983). A legislação desse período visava a evitar, coer-
citivamente, a possibilidade de que esse evento - fuga para quilombos - se
repetisse. Contudo, feita a Abolição e proclamada a República, não existiu le-
gislação, até 1988, que redefinisse a categoria quilombo ou que repensasse os
desdobramentos dessa experiência no cenário nacional (ALMEIDA, 1996).
Embora, como experiência concreta, continuasse a reproduzir, nas diversas
territorialidades, seus modos de criar, fazer e viver, os quilombos ficaram
invisibilizados no espaço público como questão nacional.
Devido à pressão dos movimentos sociais e à atuação de parlamen-
tares voltados para essa questão (SILVA, 1997), o direito quilombola foi in-
troduzido na Constituição de 1988. Contudo, devido ao modelo de distri-
buição de terras, são inúmeros os conflitos em torno da questão das terras
no Brasil (OLIVEIRA, 2006), tornando o tema da vinculação entre o acesso

2 Esse artigo determina que “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocu-
pando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos
respectivos” (BRASIL, 1988). Também os artigos 215 e 216 da Constituição Federal (BRASIL, 1988)
reafirmam esse direito.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 241

à terra e à cidadania um desafio fundamental a ser enfrentado pelo Esta-


do brasileiro. Avritzer (2008) afirma que a “questão da cidadania na terra
está ligada às estratégias de construção da cidadania no país” (AVRITZER,
2008, p. 159). No que se refere ao tema que especificamente interessa neste
estudo, o direito quilombola ao território, essa questão dos conflitos não
tem sido diferente e é possível citar a existência de diversos tipos deles (SIL-
VA, 1997), como, por exemplo, com latifundiários, empresas mineradoras e
com o próprio Estado em torno de “áreas de segurança nacional” ou “áreas
de preservação ambiental”.
Neste trabalho, a análise se centra tanto na questão das opções exis-
tentes — que poderiam ter resultado na adoção de outro modelo de distri-
buição de terras no Brasil — quanto nas escolhas feitas pelo Estado, o que
levou à consolidação de um modelo de distribuição de terras e de direitos
de modo desigual, que privilegia um tipo particular de cidadão, direito este
exercido como privilégio por esse segmento social específico (HOLSTON,
2008). Embora tenha conhecido mudanças e crises, esse tipo particular de
cidadão que se privilegiou com o modelo de distribuição de terras no Bra-
sil está emblematicamente representado no Congresso Nacional, hoje, pela
Bancada Ruralista. A capacidade de mobilização desses grupos em torno
do direito à propriedade individual vem desde o período colonial e tem-se
ampliado a partir da década de 1930, quando as esquerdas incluíram na
pauta de reivindicações a questão da reforma agrária. A pressão desses gru-
pos se radicalizou nas décadas de 1950 e 1960. A Sociedade Rural Brasileira
(SRB)3 e a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Proprieda-
de (TFP) são entidades contrárias à reforma agrária (MOTTA, 2006).
Soma-se a isso a constante expectativa das elites intelectuais, políticas
e econômicas pela busca de meios para associar o Brasil aos países civiliza-
dos do hemisfério Norte. Esse desejo de associação à civilização ocidental
é explicitado ao mesmo tempo pelo preconceito racial — reforçado pelas
teorias do branqueamento4 do final do século XIX — e por uma afirmação

3 Motta (2006) informa que a SRB foi fundada por iniciativa de setores ligados à grande lavoura paulista
em 1919 para defender a grande propriedade (MOTTA, 2006). Barcelos e Berriel (2009) indicam que,
atualmente, a SRB é vinculada à Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA),
órgão máximo de representação do patronato rural.
4 As teorias que estavam em voga na Europa, no final do século XIX, foram pensadas para a realidade
brasileira por teóricos tais como Oliveira Viana. Esse autor recorre a uma análise da formação social
brasileira a partir das diferenças entre os tipos étnicos e psicológicos e confere um lócus quase natural
aos brancos nos cargos dirigentes, pois ele próprio reconhece que a única forma possível de demo-
242 |

da democracia racial, sobretudo a partir da década de 1930. Essa imbrica-


ção entre preconceito e democracia racial impediu o enfrentamento do real
peso que a questão racial tem no Brasil. Deste modo, diversos elementos se
aglutinaram para consolidar um modo de conceber a terra. No Brasil, esses
elementos estão relacionados à Igreja católica e ao modelo de colonialismo
português; sua associação com as elites econômicas, intelectuais e políticas
tornou bastante complicado o acesso à terra para os outros grupos. No pe-
ríodo colonial e imperial, é gestada, cristalizada e naturalizada a associação
entre grandes propriedades individuais, homens brancos, privatização do
poder e patriarcalismo. Esse quadro não foi superado mesmo com os avan-
ços representados pela Constituição de 1988.
Para apresentar esse modelo agrário e fundiário brasileiro na Co-
lônia e no Império, o qual fundamenta uma opção de modernização no
Brasil que consolida a grande propriedade de terras, estas reflexões se di-
vidirão em quatro seções. Na primeira, faz-se um percurso das sesmarias
à posse, apontando que havia uma abertura para o reconhecimento do di-
reito quilombola ao território. Na segunda seção, indica-se a centralidade
da Lei de Terras de 1850 no processo de associação entre terra e mercado.
Na terceira, apresenta-se o processo do abolicionismo, que ocorreu sem
reparação econômica e redistribuição de terras. Finalmente, passa-se às
considerações finais.

Das sesmarias à posse

Conforme se discutiu anteriormente é necessário voltar ao período


colonial para se compreender de que modo as escolhas, já nos primeiros
anos da dominação portuguesa no Brasil, explicam o caminho tomado
pelos agentes estatais nos períodos subsequentes — Império e República
— no que se refere à questão da distribuição de terras no Brasil. É possí-
vel adiantar que, em determinados momentos, houve a possibilidade de se
optar por um modelo que não se pautasse na grande propriedade de terras.
No entanto, o que se verifica ao longo dos períodos é o afunilamento das
opções e o estabelecimento de um modo de se conceber essa questão, que

cracia no Brasil seria aquela em que as oligarquias esclarecidas realizassem o “governo dos melhores”
(VIANA, 1949, p. 205).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 243

tornarão as ações futuras, com vistas à reforma agrária ou ao cumprimento


de uma garantia constitucional — tal qual o direito dos quilombolas à terra,
garantido pelo Artigo 68 do ADCT —, de difícil execução, em razão das
forças e da tradição conservadora que se criam desde o período do estabe-
lecimento das sesmarias.5
O sistema de sesmarias adotado no Brasil com a chegada de Martim
Afonso de Sousa, em 1530, já era praticado em Portugal e se caracterizava
pela concessão de terras públicas para o cultivo. Caso ficasse comprovado
que essas terras não estivessem cumprindo sua função, elas poderiam vol-
tar à Coroa. Se a determinação de funcionamento do sistema de sesmarias
tivesse mantido suas características iniciais, o modo de percepção das ter-
ras no Brasil poderia ter seguido rumo diferente daquele pautado na gran-
de propriedade de terras que acabou por predominar.
No entanto, uma série de desvirtuamentos no próprio sistema de
sesmarias levou, ao final da vigência dessa Lei — ocorrido com o processo
de Independência em 1822 —, à abertura de caminho para o estabeleci-
mento do latifúndio. Pelo menos dois aspectos que conduziram a esses des-
virtuamentos podem ser citados. O primeiro está relacionado às primeiras
ações da Coroa portuguesa que, em 1530, enviou Martim Afonso de Sousa,
determinando que ele concedesse sesmarias e, já em 1532, estabeleceu uma
nova determinação para o sistema de distribuição de terras, que seria a di-
visão do Brasil em Capitanias Hereditárias.6 Conforme afirma Lima (1990),

a 28 de fevereiro de 1532, D. João III escrevia [...] a Martim Afonso de


Souza, participando-lhe a resolução que tomara de dividir o litoral do
Brasil, de Pernambuco ao Rio da Prata, de modo a formar capitanias com
cinquenta léguas de costa, dentre as quais prometia, desde então, cem
léguas a Martim Afonso e cinquenta a Pedro Lopes, seu irmão. Dos pés-
simos resultados dessa deliberação, a história diz (LIMA, 1990, p. 37).

5 Ruy Cirne Lima (1990) afirma que sesmaria deriva “para alguns, de sesma, medida de divisão das
terras do alfoz; […] para outros, de sesma ou sesmo, que significa a sexta parte de qualquer cousa; ou
ainda para outros, do baixo latim caesina, que quer dizer incisão, corte. [...] Certo é que a constituição
das sesmarias não se fazia, sem preceder à divisão e repartição das terras incultas; a pensão ou renda
estipulada consistia, geralmente, na sexta parte dos frutos; e, por último, o fim, a que atendia para
constituí-las, era o roteamento — o rompimento, pelo arado ou pela enxada, das terras abandonadas.
Sesmeiros, de outra parte, eram denominados os magistrados municipais, encarregados da repartição
e distribuição das terras do alfoz” (LIMA, 1990, p. 19-20).
6 Essa determinação de D. João III (Dinastia de Avis, 1521-1557) estabeleceu a divisão do território
brasileiro – desde o litoral até a linha de Tordesilhas – em quinze faixas de terras.
244 |

De fato, essa resolução pode ser considerada um dos principais ele-


mentos para disseminar a prática de acúmulo de terras por parte das elites
coloniais. Isso porque, se o sistema de sesmarias fixava a extensão conce-
dida em uma légua quadrada (43,56 Km2), não podendo exceder três lé-
guas, a extensão da capitania variava de 10 a 100 léguas. A vasta extensão
das capitanias hereditárias pode ser considerada um importante fator para
que os beneficiados com as sesmarias já não se satisfizessem com pequenas
porções de terras. Warren Dean (1996) observa que a concessão de apenas
uma sesmaria já não atendia aos interesses e, “para os notáveis rurais, isso
parecia uma benesse insignificante e frequentemente reivindicavam direi-
tos sobre diversas sesmarias mediante testas-de-ferro ou parentes” (DEAN,
1996, p. 163). Lima (1990) argumenta que a

concessão de sesmaria não é mais a distribuição compulsória, em bene-


fício da agricultura, das nossas terras maninhas, ao tempo tributárias ao
Mestrado de Cristo; antes reveste o aspecto de uma verdadeira doação
de domínios régios, a que só a generosidade dos doadores serve de regra
(LIMA, 1990, p. 41).

Essa tendência se consolidou ainda mais quando, em 1695, a Coroa


impôs uma taxa anual (foro) que deveria ser paga “segundo a grandeza
ou bondade da terra” (LIMA, 1990, p. 41). A partir dessa determinação, o
sistema de sesmarias perdeu o caráter de terra pública com um destino es-
pecífico, qual seja, a produção agrícola. Depois disso, as sesmarias, gradu-
almente, tiveram menos restrições administrativas na apropriação da terra
por indivíduos privados ou entidades públicas (HOLSTON, 2008).
Ora, é preciso lembrar que o Brasil foi colonizado à época da política
mercantilista, que se apoiou na monocultura em larga escala para o merca-
do externo, com mão de obra escrava, cujo comércio gerava muitos lucros
para os mercadores portugueses. Deste modo, a constituição do latifún-
dio, inicialmente para a produção de cana-de-açúcar, era importante como
modo de gerar os lucros esperados pela Coroa portuguesa.
Isso nos leva ao segundo aspecto desse desvirtuamento, ou seja, à
perpetuação da prática do patrimonialismo7 — já em voga em Portugal —,

7 Nos dois volumes da obra Os Donos do Poder, Raymundo Faoro analisa os elementos do patrona-
to político brasileiro e assim define o patrimonialismo: “A comunidade política conduz, comanda,
supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos depois,
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 245

segundo a qual a Coroa portuguesa utilizava o seu patrimônio para obter


apoio do clero, da nobreza e da alta burguesia ou para premiar vassalos
mais fiéis. No Brasil, essa prática foi reproduzida pelos donatários de ter-
ras ou pelos funcionários da Coroa, “que empregavam sua posição e suas
riquezas para aumentar seu prestígio pessoal e de seus amigos. Destarte,
mantinham fiéis e sob controle uma clientela que lhe devia inúmeros favo-
res” (RIGATTO, 2006, p. 46-47).
Formou-se, então, uma rede de poder que liga Igreja católica, elite ru-
ral e funcionários da Coroa portuguesa (MARX, 1998). Essas relações privi-
legiadas permitiram à elite rural não apenas se apossar das melhores terras,
mas também aprender a dominar o sistema de distribuição de terras, tornan-
do o seu acesso cada vez mais difícil para os outros. Holston (1993) indica
que a estratégia das elites não foi negar a lei, mas, ao contrário, “o intuito foi
criar um excesso de leis, de modo a aplicar minuciosamente o fundamento
Teuto-Romano segundo o qual a ‘lei não tem lacunas’” (HOLSTON, 1993, p.
80). O autor afirma que as elites agrárias mandavam seus filhos estudarem
Direito na Universidade de Coimbra, e eles, ao retornarem, ocupavam os
altos escalões das carreiras políticas e jurídicas.

Como juízes, legisladores, políticos, administradores e dirigentes de


Estado, essas elites formavam os quadros dos governos locais e dos
tribunais, arranjavam leis para impor perdas às propriedades de seus
oponentes, manipulavam as regras que incidiam sobre as heranças, ob-
tinham concessões a mais através de discretos e longínquos contatos fa-
miliares — através dos quais também arranjavam casamentos — e apos-
savam-se de terras, fossem elas devolutas, estivessem elas sob disputa.
Em suma, a elite tinha aprendido a complicar o sistema jurídico e disso
tirar vantagens (HOLSTON, 1993, p. 80).

O primeiro passo a ser dado para atestar a legalidade das transações


em torno das terras foi o registro. Em muitos lugares, esse primeiro registro
poderia ser feito nas paróquias locais, que serviam como cartório (HOLS-
TON, 1993). Isso atesta a vinculação entre os negócios do Estado, da Igreja

em linhas que se demarcam gradualmente. O súdito, a sociedade, se compreende no âmbito de um


aparelhamento a explorar, a manipular, a tosquiar nos casos extremos. Dessa realidade se projeta, em
florescimento natural, a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo,
cuja legitimidade assenta no tradicionalismo — assim é, porque sempre foi” (FAORO, 2000, v. II, p.
363).
246 |

católica e das elites no estabelecimento de uma hierarquia de status, confor-


me tem sido afirmado. Tal vinculação serviu para reforçar a inferioridade
dos africanos, o que mais tarde explicará as razões que levaram à escolha
da imigração como forma de resolver a questão da substituição da mão de
obra escrava. Essa constatação torna relevante a teoria de Anthony Marx
(1998) sobre a questão da relação entre Estado e raça no Brasil, pois o autor
afirma que, por meio de barganhas, as elites implantam a autoridade do
Estado e unificam um núcleo constituído por brancos dentro do Estado-
nação, pela exclusão dos afro-brasileiros (MARX, 1998).
Esse argumento parece bastante relevante, pois, já no processo de Inde-
pendência, no século XIX, o sistema de sesmarias tinha se tornado uma “tra-
ma invencível da incongruência dos textos, da contradição dos dispositivos,
do defeituoso mecanismo das repartições e ofícios de governo, tudo reunido
num amontoado constrangedor de dúvidas e tropeços” (LIMA, 1990, p. 46).8
Essa realidade do sistema de sesmarias, conforme foi indicado, serviu aos
interesses pessoais dos membros de uma elite local. Isso tornou os grandes
proprietários de terras não apenas os detentores do poder econômico, mas
também do poder político. Lima (1990) afirma que há “muitas famílias po-
bres, vagando de lugar em lugar, segundo o favor e capricho dos proprietários
de terras, e sempre faltam meios de obter algum terreno em que façam um
estabelecimento permanente” (LIMA, 1990, p. 46). No entanto, conforme se
verá no próximo item, parecia surgir uma brecha para essas populações, pois,
com o fim do sistema de sesmarias, as posses ganharam espaço, constituindo
um modo de acesso à terra para os indivíduos sem recursos econômicos.
No que se refere às áreas das comunidades negras de quilombos, es-
tas continuavam a ampliar seus contingentes e a se reterritorializar (FREI-
TAS, 1982). Sobre essa reterritorialização e o sistema de sesmarias, dois
aspectos devem ser analisados. O primeiro é que a doação de terras no
sistema de sesmarias inaugurou um modelo de concessão de terras no Bra-
sil cujo beneficiário era uma pessoa. Ou seja, essa legislação não abria es-
paço para que fossem reconhecidas formas coletivas de ocupação da terra.

8 Motta (2009) desenvolveu minucioso estudo, no qual perpassa os modos de funcionamento do siste-
ma de sesmarias em Portugal e no Brasil. Esse estudo indica que o sistema de sesmarias sofreu desvir-
tuamentos no Brasil. A autora afirma que foram feitas tentativas, por parte da Coroa, de regulamentar
a doação de sesmarias, como, por exemplo, o Alvará de 1795, de D. Maria I. Embora esse alvará tenha
sido revogado um ano depois de sua promulgação, os seus 29 artigos tinham o objetivo de regulamen-
tar as concessões de sesmarias (MOTTA, 2009).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 247

Essa simples constatação levou ao segundo aspecto, porque as diferentes


experiências de ocupação de territorialidades, tais como as efetuadas por
um grupo étnico — no caso os afro-brasileiros —, demoraram a ser re-
conhecidas como legítimas no âmbito do Estado liberal, que se pauta no
direito individual. No caso dos quilombolas, esse reconhecimento ocorreu
apenas com o Artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constitui-
ção Federal de 1988. O reconhecimento jurídico tardio dessas territoriali-
dades específicas abriu uma lacuna entre aquilo que constava na ordenação
fundiária produzida pelos registros escritos de terras no Brasil, de 1850 a
1985, e a experiência concreta das localidades que, muitas vezes — confor-
me atesta Almeida (2006) ao analisar o caso de Alcântara —, só pode ser
resgatada por meio de relatos orais. Mesmo que os moradores dessas áreas
de comunidades negras tivessem a possibilidade de fazer o registro escrito
dessas terras em cartórios naquele momento, isto ficaria inviabilizado, pois
as áreas de quilombos eram consideradas ilegais e marginais no sistema
colonial instituído. Assim, levando-se em conta os entraves impostos pela
experiência dos aquilombados durante o período da escravidão, torna-se
difícil o resgate das genealogias das famílias escravas, fazendo da história
oral um recurso fundamental para a recuperação das posses (ALMEIDA,
2006). Almeida (2006) chama a atenção para a importância da história oral
no resgate das genealogias, da compreensão sobre como era feito o controle
dos recursos naturais, bem como o “[...] sistema de apropriação desses re-
cursos e às extensões de terra correspondentes” (ALMEIDA, 2006, p. 31).
No dia 17 de julho de 1822, terminou, no Brasil, o regime de sesma-
rias, que havia consumado o estabelecimento do latifúndio como forma de
poder e prestígio para a elite econômica e política. A partir de então, a pos-
se passou a dominar, abrindo espaço para que os indivíduos sem recursos
econômicos pudessem ter acesso à terra. Lima (1990) afirma sobre a posse:

era a ocupação, tomando o lugar das concessões do Poder Público,


e era, igualmente, o triunfo do colono humilde, do rústico desampa-
rado, sobre o senhor de engenhos ou fazendas, o latifundiário sob o
favor da metrópole. A sesmaria é o latifúndio, inatingível ao lavrador
sem recursos. A posse é, pelo contrário — ao menos nos seus primór-
dios —, a pequena propriedade agrícola, criada pela necessidade, na
ausência de providência administrativa sobre a sorte do colono livre, e
vitoriosamente firmado pela ocupação (LIMA, 1990, p. 51).
248 |

Dois aspectos merecem destaque sobre as posses. O primeiro refere-


se ao fato de que estas representaram, no início do Império, a possibilidade
— ao menos nos seus primórdios — de estabelecer a pequena propriedade
agrícola. E, naquele momento da vida nacional, foi a necessidade que cons-
tituiu o estabelecimento das ocupações.
O segundo aspecto é que essas posses não diziam nada, naquele
momento histórico, em relação à possibilidade de os moradores das co-
munidades negras de quilombo alcançarem a legalidade, pois a escravidão
estava em curso, e essas áreas mantinham o status de áreas ilegais. No en-
tanto, caso a posse tivesse sido regulada e o cultivo e uso efetivo das terras
tivessem passado a ser critérios para a legitimação de terras no Brasil, os
aquilombados, no pós-abolição, poderiam ter-se beneficiado desse regime
de terras. De fato, antes da abolição, não havia possibilidade de os aquilom-
bados buscarem meios de legitimar a posse, pois lidariam com antagonistas
hostis, já que viviam, do ponto de vista jurídico, em condição irregular — o
que ilegalizaria, por si mesmo, suas pretensões de direito a terras. No en-
tanto, no pós-abolição, já existiam casos históricos de áreas de quilombos
que poderiam ter-se beneficiado. Por exemplo, aquelas possibilitadas pelo
próprio dono da fazenda, como é o caso de Joaquim Breves, na Comu-
nidade de Marambaia (RJ). Podem-se citar, ainda, todas as situações de
Alcântara nas quais ocorreu a posse, em muitos casos, devido à “fuga” dos
fazendeiros após a decadência econômica ligada ao cultivo do algodão e
cana-de-açúcar, na segunda metade do século XVIII e no início do século
XIX (ALMEIDA, 2006).
No entanto, o que ocorreu com o regime de posses foi que, mais
uma vez, os grandes proprietários usaram as lacunas e a confusão da
lei — já consagrada no sistema de sesmarias — para se apossar de gran-
des extensões de terra. Lima (1990) observa que as “compras e vendas
dessas posses manifestavam irregularidades, não obstante, rapidamente
se multiplicavam” (LIMA, 1990, p. 57). A diferença entre as posses dos
pequenos agricultores e dos grandes proprietários — que estavam em
busca de ampliar seus domínios — é que os pequenos agricultores não
tinham recursos para legalizar sua situação junto aos órgãos competen-
tes, pois isso significaria arcar com todos os impostos e taxas. As eli-
tes agrárias, por sua vez, tinham como arcar com esses custos. Holston
(1993) afirma:
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 249

Para envolver a propriedade numa teia de transações legítimas, o inva-


sor pode pagar os impostos de sua posse, vender uma de suas partes,
doar uma fração a uma organização religiosa, pedir seu levantamento,
usá-la como garantia em um empréstimo, deixá-la como herança, ou
dá-la como dote. Seus herdeiros e sócios continuariam a honrar essas
transações, tomando o cuidado de pagar em dia os impostos e taxas.
Mais importante ainda, eles deverão sem demora registrá-los nos livros
da paróquia mais próxima, a qual em muitos lugares servia de cartório.
Todos os papéis acumulados nessas transações — recibos, promissórias,
procurações, levantamentos, acordos, contabilidade, etc. — eram utili-
zados para provar que o Estado e a Igreja as haviam sancionado. É uma
técnica, como vemos, que requer um conhecimento jurídico considerá-
vel. Sua utilização dissimula, no interior de uma teia de alegações legí-
timas, a usurpação e a fraude. O objetivo é sobrecarregar essa teia com
relações sociais a tal ponto que, e mesmo com a passagem do tempo, seu
desmantelamento se torna impossível, de maneira tal que a legitimação,
por um decreto do executivo ou um ato do legislativo, se torna inevitá-
vel. Nesse tipo de complicação, a fraude encontra na lei seu cúmplice
(HOLSTON, 1993, p. 83).

Algumas das características indicadas no texto acima já tinham sido


apontadas como existentes no período de predomínio do sistema de sesma-
rias. De fato, mesmo com o fim desse sistema, as artimanhas continuavam
as mesmas para transformar o ilegal em legal. Já aos pequenos agricultores,
que não tinham como arcar com as despesas das taxas e impostos, restava
a ilegalidade. Essa situação colocou esse tipo de cidadão do outro lado da
lei, pois a necessidade de viver na ilegalidade gerou uma condição que di-
minuiu o acesso desses grupos aos direitos e à justiça (HOLSTON, 2008).
Esse é o elemento central para compreender o que significa uma cidadania
diferenciada, tema ao qual se voltará nas seções seguintes.
Oliveira Viana (1938) frisa o uso da ilegalidade como modo de pro-
moção do desenvolvimento:

Nessa obra de conquista civilizadora da terra, o bugreiro vence o obs-


táculo material, que é o índio nômade, povoador infecundo da floresta
fecunda. Há, porém, um outro obstáculo, o obstáculo jurídico, que é o
direito à propriedade [...]. É ao “grileiro” que cabe resolver esta dificul-
dade. Ele é que vai dar ao colonizador progressivo, cheio de ambição
e de capitães, o direito de explorar esse tesouro infecundo. Para isto,
cria, pela chicana e pela falsidade, o indispensável título de propriedade
(VIANA, 1938, p. 130-131).
250 |

Nessa passagem, Oliveira Viana associa progresso com a ocupação


da terra pelos meios que forem necessários para criar o indispensável título
de propriedade. O índio é o povoador infecundo. Já o colonizador, que se
beneficia da ilegalidade, é “progressivo”. Sem nos determos nessa caracteri-
zação, o que importa salientar é que Oliveira Viana, conforme já indicado,
é um emblemático autor do pensamento brasileiro, que justifica e percebe,
como signo de progresso, o acúmulo de terras nas mãos dos colonizadores.
Essa lembrança serve para enfatizar de que modo se constrói e se naturaliza
a imagem do branco como aquele vocacionado para ser o grande proprie-
tário de terras no Brasil.
Embora as posses tenham aberto caminho para esse tipo de ação,
essa forma de ocupação das terras constituía uma alternativa concreta
para o estabelecimento das pequenas propriedades, passível de con-
cretização por meio de uma legislação específica, caso fosse interesse
do Estado impedir esse tipo de abuso. No entanto, o que ocorre é que
a reforma legislativa, com vistas a substituir o sistema de sesmarias,
levou à aprovação da Lei de Terras, de 1850, que representou a vincu-
lação entre terra e mercado, o que significou o fim da possibilidade de
a pequena propriedade de terras vigorar na estrutura agrária fundiária
brasileira.

A Lei de Terras de 1850: a associação entre terra e mercado

Em 6 de junho e 8 de julho de 1842, o Governo Imperial solicitou


à Seção dos Negócios do Império do Conselho de Estado que formulasse
uma proposta de reforma legislativa para definir, após quase vinte anos do
fim do regime de sesmarias, as questões de acesso à terra no Brasil (LIMA,
1990). No entanto, muito antes dessa data, já em 1821, existia um intenso
debate sobre como conceber essas questões, e José Bonifácio de Andrada e
Silva elaborou uma série de “instruções” para aqueles que iriam representar
a Província de São Paulo nas Cortes de Lisboa.9 Dos “Apontamentos sobre
as Sesmarias no Brasil”, ele recomendou:

9 Com a Revolução do Porto, em 1820, e com o retorno de D. João VI para Portugal, ocorreram as
primeiras eleições indiretas no País para representar o Brasil nas chamadas Cortes de Lisboa. Foram
eleitos 72 representantes, uma minoria frente aos 130 lusos, mas menos de 50 representantes ousa-
ram viajar até Lisboa (ALENCAR; RAMALHO; RIBEIRO, 1985, p. 91).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 251

1º) Todos os possuidores de terras que não têm título legal perderão
as terras que se atribuem, exceto num espaço de 650 jeiras, que se lhes
deixará, caso tenham feito algum estabelecimento ou sitio.
2º) Todos os sesmeiros legítimos que não tiverem começado ou feito
estabelecimento nas suas sesmarias serão obrigados a ceder à Coroa as
terras, conservando 1300 jeiras para si, com a obrigação de começarem
a formar roças e sítios dentro de seis anos.
[...]
4º) Haverá uma caixa em que se recolherá o produto destas vendas, que
será empregado nas despesas de estradas, canais e estabelecimentos de
colonização de europeus, índios, mulatos e negros forros (ANDRADA
E SILVA, 2000, p. 80).

Dois aspectos desses “Apontamentos sobre as Sesmarias no Brasil”


devem ser mencionados: o primeiro é que José Bonifácio manifestava pre-
ocupação com o estabelecimento da pequena propriedade, pois instruiu, no
item 1o, que, mesmo os que não tinham título legal, ficassem com uma parte
da sesmaria, caso esta fosse produtiva. Tanto no item 1o quanto no 2o existia
uma clara preocupação com a questão de a terra ser ou não produtiva. Ora,
para as preocupações que se manifestaram até aqui com o destino dos pe-
quenos proprietários, essa solução de José Bonifácio poderia ser interessante,
pois a ideia de preservação da pequena propriedade estava no cerne de suas
preocupações. Um segundo aspecto é que ele criou uma caixa com recursos
que seriam aplicados na colonização de europeus, índios, mulatos e negros
forros, dentre outras funções. Isto parece interessante, pois abriu espaço para
que estes pudessem explorar terras. Entretanto, é preciso observar que José
Bonifácio de Andrada e Silva não colocou esses grupos no mesmo patamar
que os brancos, pois acreditava na superioridade destes últimos.10 No entanto,
o ponto a se ressaltar é que ele apresentou uma alternativa para o sistema de
sesmarias que claramente valorizaria as benfeitorias e a pequena propriedade.
Warren Dean (1996) observa, por exemplo, que, além do projeto de
José Bonifácio de Andrada e Silva, houve outras propostas. O autor cita a de

10 Dolhnikoff (1998) afirma que “Bonifácio acreditava que a mestiçagem criaria um repertório cultural
comum, em que prevaleceria a superioridade branca sendo, portanto, também um instrumento ci-
vilizador. Assim, por exemplo, julgava ser dever do governo ‘animar por todos os meios possíveis os
casamentos dos homens brancos e de cor com as índias, para que os mestiços nascidos tenham me-
nos horror à vida agrícola e industrial’” (DOLHNIKOFF, 1998, p. 8). Essa população, nacionalizada
através da miscigenação e da integração social, deveria, então, ser devidamente educada e civilizada
por um governo de sábios, uma elite ilustrada, que, justamente por isso, estaria capacitada para tal
(DOLHNIKOFF, 1998).
252 |

Baltasar da Silva Lisboa, que “queria reverter para a Coroa as sesmarias não
efetivamente ocupadas e distribuí-las a pequenos proprietários para ‘abolir
o desemprego de homens e terras’” (DEAN, 1996, p. 165). Outra proposta
que, se aprovada e colocada em vigor, poderia ter resolvido a questão da
situação dos ex-escravos com a abolição é a de Antônio Rodrigues de Oli-
veira. Este último juntava:

reforma agrária com abolição da escravatura — cada um dos libertos


deveria ser contemplado, com um hectare ou dois, com titulação bem
definida. A Coroa deveria honrar com o título de fidalgo os proprietá-
rios que doassem terras para esse fim (DEAN, 1996, p. 165).

Uma das mais consistentes propostas e diagnósticos dessa realidade


é aquela formulada por Tavares Bastos (1867).11 As preocupações manifes-
tas na obra de Tavares Bastos são fundamentais, e ele se espelhava na bem-
sucedida experiência dos Estados Unidos, onde, em algumas das Treze Co-
lônias, ocorreram “concessões gratuitas ou quase gratuitas, a preço ínfimo”
(BASTOS, 1976, p. 74). Além de contrastar com a realidade dos Estados
Unidos, Tavares Bastos indica que:

Um dos maiores obstáculos à imigração espontânea é serem possuídas


pelos grandes proprietários vastas extensões das melhores terras, das
terras vizinhas dos mercados e das estradas. Esse resultado fatal do in-
teligente sistema de doação empregado sem critério pelo governo da
metrópole é também, além disso, um estorvo ao desenvolvimento do
trabalho livre (BASTOS, 1976, p. 75).

É possível perceber nas formulações de Tavares Bastos a preocupa-


ção com o estabelecimento de um critério adequado no sistema de conces-
são de terras que também incentivasse o interesse do imigrante pelo Brasil.
Enfim, Tavares Bastos elencou diversos elementos na comparação entre o
sucesso da experiência de colonização dos Estados Unidos e o fracasso da
colonização no Brasil. Para ele, esse fracasso estava relacionado, dentre ou-
tros fatores, ao sistema inseguro de posse de terras no Brasil e à ausência de
uma política nacional de terras que instituísse mecanismos claros, seme-

11 Posteriormente, vários textos desse relatório foram reunidos no livro Os Males do Presente e as Espe-
ranças do Futuro (BASTOS, 1976).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 253

lhantes aos que existiam nos Estados Unidos, como, por exemplo, mapas
das terras e registros, demarcações acuradas e audiências públicas (BAS-
TOS, 1976).
No entanto, após um intenso debate e passados mais de vinte anos do
fim do sistema de sesmarias, os legisladores brasileiros fizeram uma opção
de modernização do País que deixou profundas consequências para os ru-
mos da estrutura fundiária brasileira. A Lei de Terras de 185012 é uma das
responsáveis pela consolidação de um modelo agrário fundiário que prima
pelo latifúndio no Brasil, “decorrendo daí o fechamento da fronteira agrí-
cola e a exclusão do acesso à terra dos negros, mulatos e imigrantes brancos
pobres” (RIGATTO, 2006, p. 57). Dois aspectos devem ser mencionados,
antes de passarmos ao conteúdo dessa lei.
O primeiro é que não se pode esquecer o contexto de mudanças so-
cioeconômicas significativas no qual essa lei foi gestada. Em termos sociais,
é preciso lembrar que, em 1850, com a Lei Eusébio de Queiroz, chegou-se
ao fim o tráfico de escravos, colocando definitivamente na pauta das elites
agrárias a questão da substituição da mão de obra escrava. Em termos eco-
nômicos, havia um crescimento da produção agrícola, e a terra passava a
ter um novo valor no cenário econômico.
O segundo aspecto é que, embora existissem diversos projetos e
muitas alternativas para definir a questão do acesso à terra no Brasil, que
também contemplavam a pequena propriedade agrícola, o que predomi-
nou na Lei de Terras de 1850 foi a vinculação entre terra e mercado, o que
limitou a possibilidade do acesso à terra àqueles que não tivessem recursos
econômicos para adquiri-la. Essa concepção adotada pelas elites econô-
micas e políticas do Brasil estava fortemente influenciada pelas ideias de
Edward Gibbon Wakefield (1796-1862), o que é atestado por vários autores
que estudam essa temática (FREITAS, 1982; GUIMARÃES, 1977; LIMA,
1990; HOLSTON, 2008).
Wakefield (1929) desenvolveu uma teorização por meio da qual as-
sociava a “arte da colonização” aos anseios do mercado capitalista (WA-
KEFIELD, 1929, p. 113). Sua teorização foi desenvolvida em resposta às
tentativas fracassadas do governo britânico para reter trabalhadores imi-

12 A Lei de Terras — Lei n. 601, de 18 de setembro, com seus nove capítulos — foi aprovada duas sema-
nas após a extinção do tráfico de escravos. Ela também ficou conhecida como “Lei do Cativeiro da
Terra”, pois o trabalho era livre, mas a terra era cativa (MARTINS, 1979).
254 |

grantes na Austrália. Em uma crítica ao sistema adotado nos Estados Uni-


dos, segundo ele, a possibilidade de acesso à terra provocou a perda da
organização aristocrática. Nessa concepção, as terras públicas deveriam ser
vendidas por um preço suficientemente elevado, o que teria como conse-
quência o não acesso à terra para os imigrantes pobres. Lima (1990), assim,
apresenta os postulados do bom regime colonial na visão de Wakefield:

a) A prosperidade das colônias depende principalmente da abun-


dância da mão de obra, na proporção do território ocupado, e
esta, os capitalistas é que a têm a seu dispor.
b) Podem ser, porém, importados, para as colônias, trabalhadores
das metrópoles, tomadas as providências necessárias a fim de
obrigá-los a servir durante dois ou três anos, pelo menos.
c) Para que estes não se possam tornar proprietários demasiada-
mente cedo, preciso é, entretanto, que as terras sejam vendidas a
preço suficientemente elevado, at a sufficiently high price.
d) O produto total da venda das terras deve ser incorporado a um
fundo de imigração, destinado a custear o transporte para as co-
lônias de trabalhadores da metrópole, e só com o emprego inte-
gral daquele produto para esse fim se pode manter o equilíbrio
exato, entre a extensão das terras cultivadas, a quantidade da mão
de obra e a soma dos capitalistas.
e) O preço das terras deve ser uniforme e fixo, sem distinção de
qualidade, variando unicamente segundo a extensão. Deve ser,
portanto, vedada a venda em praça pública (LIMA, 1990, p. 83).

Se tomarmos a Lei de Terras de 1850 à luz das ideias de Wakefield


(1929) é possível perceber que muitas de suas propostas foram incorpo-
radas a essa lei. Três artigos são indicados para atestar isso: o Artigo 1o e
o14 estão relacionados à vinculação entre terra e mercado como forma de
atingir preços elevados pelas terras:

Art. 1o Ficam proibidas as aquisições de terras devolutas por outro título


que não seja o da compra.
[...]
Art. 14 Fica o Governo autorizado a vender as terras devolutas, em
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 255

praça pública, ou fora dela, como e quando julgar mais conveniente,


fazendo previamente medir, dividir, demarcar e descrever a porção das
mesmas terras (BRASIL, 1850).

Conforme se declarou anteriormente, da promulgação dessa lei de-


correu o fim da possibilidade de acesso à terra para os afro-brasileiros, mu-
latos e imigrantes pobres, bem como o estabelecimento da relação direta
entre terra e mercado. O Artigo 18 define:

O Governo fica autorizado a mandar vir anualmente à custa do Tesouro,


certo número de colonos livres para serem empregados, pelo tempo que for
marcado, em Estabelecimentos agrícolas, ou nos trabalhos dirigidos pela
Administração Pública, ou na formação das Colônias nos lugares em que
estas mais convierem; tomando antecipadamente as medidas necessárias
para que tais colonos achem lugar logo que desembarcarem (BRASIL, 1850).

A lei expressa a ideia de que o objetivo seria ligar o mercado de tra-


balho ao Estado e evitar o acesso dos trabalhadores livres à terra. Estes tra-
balhadores não teriam outra escolha senão trabalhar nas plantações dos
grandes proprietários. Holston (2008) considera que a teoria de Wakefield
não era apenas uma estratégia de defesa dos interesses imediatistas dos
grandes fazendeiros brasileiros, mas oferecia também uma crítica explícita
ao desenvolvimento econômico e social dos Estados Unidos (HOLSTON,
2008). Essa teoria serviu como suporte para a concepção da modernização
brasileira, que fez a opção pelo acesso à terra, consolidando as desigualda-
des na sociedade brasileira. O autor afirma que:

Independência e governo republicano, em muitos países, sinalizam


o progresso de movimentos para a igualdade de direitos. No entanto, o
surgimento da república no Brasil marcou o início de disparidades ainda
maiores entre os cidadãos. Como resultado, a maioria dos brasileiros,
por séculos, têm recebido distribuição desigual de cidadania sob os regi-
mes colonial, imperial e republicano. Essa persistência extraordinária de
uma massiva desigualdade caracteriza todos os aspectos da cidadania,
não só os aspectos políticos, e afeta a sociedade tanto quanto ao Estado.
A compreensão que os brasileiros têm tido dessa imensa desigualdade
é expressa de forma sucinta no seguinte aforismo: “O Brasil é uma ter-
ra sem povo e um povo sem terra” (HOLSTON, 2008, p. 112, tradução
nossa).
256 |

Esse viés de modernização do Estado brasileiro provocou inúme-


ras consequências, pois, sem o regime de posses — pautado no cultivo
e na moradia habitual —, restou aos que viviam nesses moldes o outro
lado da lei, uma vez que a necessidade de se manterem no local onde
viviam os colocava em situação de ilegalidade. Essa realidade diminuiu
o acesso desses grupos ao direito e à justiça, enfraquecendo a lei como
instituto da e para a cidadania, colocando-os no lugar de inimigos da lei
(HOLSTON, 2008).
O Artigo 13 da Lei de Terras de 1850 exigia que o governo fizesse se
“organizar por freguesias o registro das terras possuídas, sobre as declara-
ções feitas pelos respectivos possuidores, impondo multas e penas àqueles
que deixarem de fazer nos prazos marcados as ditas declarações, ou as fize-
rem inexatas” (BRASIL, 1850). A extensão das terras, nesses registros, era
determinada pela autodeclaração do possuidor. Por exemplo, na situação
de Alcântara, as declarações eram, muitas vezes, feitas a partir de referên-
cias vagas e da “tentativa de se materializar pontos de imóveis rurais que
apenas existiam na imaginação dos que só fizeram declará-los entre 1854-
57” (ALMEIDA, 2006, p. 133), porque essas áreas eram ocupadas efetiva-
mente por comunidades de quilombos. O autor cita, por exemplo, que, em
Santo Inácio (Alcântara), surgiram nove pretensos donos de terras, as quais
eram efetivamente ocupadas por comunidades de quilombos (ALMEIDA,
2006). A sobreposição entre a legitimidade da ocupação efetiva da terra por
décadas ou séculos e a força dos registros feitos em cartórios possibilitou
pretensos proprietários a demandarem terras que nem sequer conheciam,
mas que entraram num mercado de terras — sobretudo a partir da Lei
de Terras de 1850, tornando-se prática comum e, muitas vezes, conforme
aponta Holston (2008), é o modo de tornar o ilegal legal do ponto de vista
da lei no Brasil.
É nesse contexto que se faz compreender a denúncia de Abdias do
Nascimento (1980) em O Quilombismo. Segundo o autor:

Para os africanos escravizados assim como para seus descendentes


“libertos”, tanto o Estado colonial português quanto o Brasil [...] têm
uma única e idêntica significação: um estado de terror organizado
contra eles. Um Estado por assim dizer natural em sua iniquidade
fundamental, um Estado naturalmente ilegítimo. Porque tem sido a
cristalização político-social dos interesses exclusivos de um segmen-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 257

to elitista, cuja aspiração é atingir o status ário-europeu em estética


racial, um padrão de cultura e civilização. Este segmento tem sido o
maior beneficiário da espoliação que em todos os sentidos tem viti-
mado as massas afro-brasileiras ao longo de nossa história (NASCI-
MENTO, 1980, p. 261).

Abdias do Nascimento menciona uma tendência, presente no Bra-


sil, de naturalizar a ideia de uma sociedade hierarquizada que, com al-
guns avanços e retrocessos, se mantém predominante até hoje. Guimarães
(1977) afirma que, embora tenham surgido pequenos estabelecimentos
agrícolas no século XX, também ocorreu, em contrapartida, a “reagluti-
nação e o refortalecimento da propriedade latifundiária” (GUIMARÃES,
1977, p. 159).13 O que se pode observar é que também as formas de domi-
nação atualizam-se, pois as elites econômicas do século XVI ao XIX, que
se caracterizavam basicamente pela face da monocultura escravocrata e
local, chegaram ao século XXI levando os processos de globalização para
o campo, com a expansão do agronegócio, tornando o acesso à terra mais
complexo para aqueles que vivem “do outro lado da lei”. Conforme Bruno,
sobre a atual dinâmica que rege as relações no campo,

o latifúndio de hoje, se de um lado desfruta os privilégios da sociedade


informatizada e “atua na intimidade” com o capital financeiro-industrial
nacional e internacional, nem por isso deixa de reproduzir-se enquanto
expressão da improdutividade e da violência explícita, oprimindo, espe-
cificamente, um contingente expressivo de trabalhadores rurais.
A tecnologia, ao mesmo tempo em que imprimiu novos dinamismos
e abriu novos horizontes produtivos, transformou-se também em uma
das fontes de legitimação ideológica e mistificadora das novas e velhas
classes e grupos dominantes no campo (BRUNO, 1997, p. 5).

Assim, lado a lado com as velhas práticas das elites agrárias, o modo
de gerir as propriedades passou por mudanças que impactaram as áreas das
comunidades quilombolas. Rigatto (2006) resume o modo como se pode
pensar, num tempo longo, a questão do direito agrário no Brasil:

13 Segundo Bruno (1997): “É do final dos anos 50 e dos anos 60 e 70 a grande transformação que expul-
sou da terra centenas de milhares de trabalhadores e deu-lhes a face que poderiam ter no mundo das
relações monetarizadas e de mercado, a de operários do campo, migrantes, trabalhadores da cidade”
(BRUNO, 1997, p. VII).
258 |

a legitimidade político-social e o fundamento das políticas agrárias e do


direito agrário no Brasil foram consolidados ao longo da história jurídi-
co-agrária segundo os paradigmas legalistas e privatistas, que utilizam a
estrita aplicação e interpretação semântica da lei e concede primazia ao
direito privado e aos interesses particulares em detrimento da aplicação
do texto constitucional e de métodos hermenêuticos incompatíveis com
os paradigmas que fundamentam o Estado Democrático de Direito (RI-
GATTO, 2006, p. 16).

Esse paradigma do Direito Positivo aplicado às políticas agrárias tem


se mostrado incapaz de responder às dinâmicas e demandas da sociedade
brasileira. A ampliação do leque de demandas no campo, que ocorre com
a entrada do direito quilombola, a partir da Constituição de 1988, é um
elemento a mais que indicará de modo flagrante a incapacidade de o Estado
brasileiro se libertar do paradigma legalista e privatista, conforme se verá
mais adiante. A seguir, se tratará do lócus da Abolição de 1888 o processo
de continuísmo de uma política de Estado que não associa liberdade com
redistribuição de terras no Brasil.

Abolicionismo sem reparação econômica e redistribuição de terras

A Abolição da Escravatura não foi acompanhada de um projeto


de incorporação do ex-escravo à nova ordem econômica, e a Lei de
Terras de 1850 dificultava o acesso à terra aos recém-libertos. Neste
contexto,

a solução imigracionista aparecia não apenas como resposta ao proble-


ma imediato da escassez de mão-de-obra na agricultura, mas também
como parte de um projeto de modernização a mais longo prazo, em que
o branqueamento da população nacional era altamente desejado (HA-
SENBALG, 2005, p. 165).

Assim, a Abolição da Escravatura não associava, no Brasil, liberdade


e igualdade (GOMES; CUNHA, 2007), embora no discurso oficial apare-
cesse como uma “dádiva” (SCHWARCZ, 2007, p. 47). No entanto, isso foi
apenas uma representação oficial da abolição, pois, no plano das ações con-
cretas, os recém-libertos continuaram a ser explorados em formas servis ou
semisservis (FACÓ, 1976), sem acesso legal à terra, mesmo após a Procla-
mação da República, em 1889.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 259

Conforme já se afirmou, a Lei de Terras foi uma opção de moder-


nização que associou a terra ao mercado, impedindo o acesso à terra para
aqueles que não tivessem recursos para adquiri-las. Essa é a principal refe-
rência para se compreender qual era o marco legal que regulava a aquisi-
ção de terras no Brasil à época da abolição, não existindo, portanto, outro
projeto associado ao processo de abolição para garantir o acesso dos ex-es-
cravos à terra ou para garanti-lo àqueles que já viviam nas mais diversas
situações de relação com a terra.
No entanto, isso não ocorreu por falta de projetos ou opções apre-
sentadas por diversos políticos e intelectuais para se repensar a questão da
terra. Os projetos de José Bonifácio de Andrada e Silva, Antônio Rodrigues
Oliveira e Tavares Bastos queriam mudar a lógica no modo de concepção
da terra no Brasil. Devem-se mencionar, ainda, os projetos de André Re-
bouças e do Senador Dantas.
André Rebouças, em seu projeto de democracia rural, fazia campa-
nha contra o latifúndio e defendia a subdivisão da terra para a pequena
propriedade. Em carta escrita a Joaquim Nabuco, no dia 12 de março de
1897, disse:

Produziram-se grata emoção estas doutas palavras, de seu venerado pai,


citadas à página 130 da Revista Brasileira do 1o de fevereiro de 1897: “a
nossa propriedade territorial está tão concentrada, tão mal dividida, tão
mal distribuída, que neste vasto império, afora os sertões e os lugares
incomunicáveis, não há terras para serem cultivadas pelos brasileiros e
estrangeiros [...]”. Na verdade são estas palavras admirável síntese que
resume todos os males produzidos pelo monopólio territorial no Brasil
(REBOUÇAS, 1938, p. 442).

Esse diagnóstico dos “males produzidos pelo monopólio territorial


no Brasil” também era partilhado por outros abolicionistas, tais como o
Senador Dantas que, segundo indica Conrad (1975, p. 198), “trabalhou ati-
vamente pela reforma agrária nos meses seguintes à abolição, tanto como
líder do Partido Liberal quanto como membro do Senado”. O mesmo Sena-
dor Dantas esboçou, em uma reunião da Confederação Abolicionista, em
agosto de 1888, o Programa do Partido Liberal para o futuro, que deveria
incluir, entre outras reformas, “a divisão das grandes propriedades” (CON-
RAD, 1975, p. 198).
260 |

Apesar dos diagnósticos e das propostas de outra concepção de ter-


ras, predominou no Brasil — mesmo no pós-abolição e pós-proclamação
da República — a estrutura agrária baseada no latifúndio. Uma das explica-
ções possíveis para isso é o fato de a terra e a posse de escravos terem sido
símbolo de status social desde o período colonial. Assim, de acordo com
Queiroz (1986), não é de se estranhar a longa luta pela extinção do cativeiro,
visto que a escravidão não mobilizava apenas elementos de ordem econô-
mica, mas também simbólicos. Linhares e Silva (1999), ao analisarem o sig-
nificado da entrada da terra na esfera da circulação de capital, afirmam que,

para homens que viam na terra, para além de seu óbvio valor econômi-
co, um padrão de vida marcado pelo mandonismo e o prestígio social, a
transformação em meros agentes econômicos, à mercê de um mercado
de risco, era insuportável (LINHARES; SILVA, 1999, p. 72).14

Ora, é preciso lembrar que o processo de colonização está eivado de


elementos de afirmação e negação, como afirma Bhabha (2007):

A construção do sujeito colonial no discurso, e o exercício do poder


colonial através do discurso, exigem uma articulação das formas da di-
ferença — raciais e sexuais. Essa articulação torna-se crucial se consi-
derarmos que o corpo está sempre simultaneamente (mesmo que de
modo conflituoso) inscrito tanto na economia do prazer e do desejo
como na economia do discurso, da dominação e do poder (BHABHA,
2007, p. 107).

O autor toca em dois elementos do exercício do poder colonial que


foram amplamente utilizados como forma de subjugação no patriarcalismo
brasileiro: as relações raciais e sexuais. O patriarcado brasileiro, no período

14 A reação pró-escravatura deu-se, sobretudo, por parte proprietários de escravos e seus representan-
tes no Parlamento. Conrad (1975) afirma, por exemplo, que o senador baiano José Antônio Saraiva,
que era “comprometido com a reforma eleitoral e um orçamento equilibrado, liderou a defesa do sta-
tus quo, brandindo o voto livre numa das mãos, nas palavras de um crítico, e o chicote da escravidão
na outra” (CONRAD, 1975, p. 200). Os abolicionistas também sofriam ataques na imprensa: o Jornal
O Paiz, do Maranhão, referia-se a Nabuco como um homem “‘sem a autoridade do bom senso, sem a
prudência e o tino de estadista, sem a consciência sã do patriota’. Nabuco, que presumia esse jornal,
‘declama contra a escravidão por ambição de glória, por vaidade somente, e mais para ser aplaudido
do estrangeiro do que por verdadeiro amor à liberdade’” (CONRAD, 1975, p. 200). Além disso, a
reação pró-escravatura revelou-se também nas eleições de 1881, “em que quase todos os candidatos
do partido abolicionista foram derrotados. O novo gabinete, estabelecido no início de 1882, era che-
fiado, na realidade, por Martinho Campos, o deputado de Minas Gerais, que sugerira enfrentar os
abolicionistas de revolver em punho” (CONRAD, 1975, p. 205).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 261

da escravidão, construiu o seu status a partir do poder sobre as terras, sobre


as diferenças raciais e sexuais. As observações de Carole Pateman sobre o
contrato sexual também se aplicam ao Brasil, pois, aos beneficiados pelo
contrato social — homens brancos — havia a possibilidade de passar “de
um lado para outro, entre a esfera privada e a pública, e o mandato da lei do
direito sexual masculino rege os dois domínios” (PATEMAN, 1993, p. 29).
Há de se destacar que a mulher negra escravizada era submetida a essa du-
pla forma de subjugação e tinha de passar pela situação de perceber e sentir
o seu corpo transformado em mero objeto de poder dos homens.
Dados os limites deste trabalho, não se deterá em diversos aspectos
que poderiam ser discutidos a partir dessa percepção, mas destaca-se que
as formas de resistência a essa ordem constituída foram diversas e causaram
temores entre a elite senhorial.15 Assim, parece simbólico que as mulheres
negras, ex-escravas, ao se organizarem nos quilombos, reapropriaram-se
de seus corpos. É certo que todas essas formas de resistência e temor em
relação à perda de status por parte das elites agrárias permitiram localizar,
em um espectro maior que não apenas o econômico, as razões que levaram
as elites a resistirem à abolição da escravidão e à possibilidade de uma re-
forma no campo.
Motta (2006) afirma que as elites “se opuseram, resistiram e tra-
balharam pela manutenção de uma estrutura fundiária concentradora
da propriedade consagrada na Lei de Terras de 1850” (MOTTA, 2006, p.
239). De acordo com esses argumentos, fica claro que a manutenção da
estrutura fundiária concentrada na grande propriedade constituía meio
para a manutenção do status quo que, no Brasil — devido à ausência de
hierarquias sociais rígidas ao modo da nobreza e do clero europeu —, era
frágil. Ou seja, o status quo que se construiu nesse país jovem e subjugado
por colonizadores, ávidos por riquezas, estava pautado na escravidão e na
terra. Assim, compreende-se por que a luta pela extinção da escravidão
no Brasil foi uma das mais longas e difíceis já registradas na história do

15 Machado (1994) informa que, no período final da escravidão no Brasil — segunda metade do século
XIX —, os temores em relação às resistências dos afro-brasileiros escravizados na região cafeeira de
São Paulo e fronteiras com o Rio de Janeiro era grande: “Atos grupais de desobediência às regras dis-
ciplinares das fazendas, revoltas organizadas, crimes sangrentos e constantes denúncias de feitiçaria
ocuparam espaço nos jornais, nas crônicas dos viajantes que por essas zonas transitaram, tornan-
do-se a principal preocupação das autoridades mas, sobretudo, alimentaram fortes temores entre a
camada senhorial” (MACHADO, 1994, p. 67).
262 |

País (QUEIROZ, 1986). Embora a resistência tenha sido forte e pratica-


da em um contexto no qual as teorias raciais vindas da Europa serviam
como aporte para justificar a subjugação dos afro-brasileiros, havia tam-
bém um forte apelo liberal e econômico para que a extinção da escravidão
fosse realizada.
Desse modo, a terra permaneceu como símbolo de status quo, o que
permite compreender o intenso investimento feito pelas elites, nos anos
subsequentes, para manter a estrutura fundiária concentrada na grande
propriedade. Embora se tenha abolido a escravidão, a “soberania territorial
e o absolutismo étnico” (GILROY, 2001, p. 25) continuaram a imperar no
Brasil, pautados pelos interesses da elite rural que, na maioria das vezes,
detinha o poder econômico e político.
No entanto, a abolição — em alguns casos — trouxe certos bene-
fícios para aqueles que já viviam em situação de aquilombolamento, pois
a desestruturação do sistema escravista e a consequente ruína de muitos
grandes proprietários permitiram que as comunidades negras ampliassem
seus modos de criar, fazer e viver nas áreas onde viviam. Dois exemplos: o
primeiro caso, na Fazenda de Joaquim Breves, em Marambaia (RJ). Ele era
um grande importador de escravos que entrou em decadência após a abo-
lição. Os descendentes de escravos permaneceram nas terras abandonadas
pelo senhor, e existem relatos de que a ilha lhes foi doada pelo comenda-
dor (MOTA, 2003). No entanto, essa doação se deu apenas “de boca”, sem
documentação comprobatória. O segundo caso, em uma das versões sobre
a origem do quilombo de Campinho da Independência, também no esta-
do do Rio de Janeiro, diz que a Fazenda da Independência foi abandonada
devido a uma crise na região, agravada pela abolição. Conta a tradição que
essas terras foram doadas pelo fazendeiro a três ex-escravas: as irmãs Vovó
Antonica e Tia Marcelina, e sua prima, Vovó Luiza (GUSMÃO, 1998).16
Reside neste fato o marco fundador da comunidade de Campinho da In-
dependência (RJ). Portanto, foi apenas pela resistência e permanência na
área que as mulheres ex-escravas e seus descendentes tiveram acesso à
terra, pois não existia um projeto de concessão de terras aos libertos.

16 Gusmão (1998) indica que, nas terras de Campinho da Independência, “as mulheres se destacam em
todas as gerações — Tia Bernarda, Tia Xará, Tia Joaquina — todas com posição definida no quadro
das descendências. Todas lembradas em razão dos bens e dons herdados. Nisso tudo, outras mulhe-
res são tias ou Madrinhas — em geral uma tia materna” (GUSMÃO, 1998, p. 49).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 263

Conforme se afirmou, com a Abolição da Escravidão e a Procla-


mação da República, não foi criada legislação, até a Constituição de 1988,
com marcos regulatórios para esses grupos, fazendo parecer que essa era
uma questão superada e extinta, juntamente com a escravidão (ALMEIDA,
1996). Dados os limites desse trabalho, não se tratará dessa questão no
período republicano, embora em termos da questão agrária seja possível
identificar uma série de fatores, tais como a legislação em momentos di-
ferentes da República no Brasil, as diretrizes das ações dos governos e os
movimentos sociais que imprimem avanços e retrocessos no quadro ge-
ral da estrutura agrária brasileira (CAMARGO, 1986; LINHARES; SILVA,
1999). Contudo, o modelo agrário fundiário brasileiro tem suas raízes cal-
cadas nas opções das elites nos períodos colonial e imperial, e a Bancada
Ruralista no Congresso Nacional hoje representa emblematicamente esses
grupos e a capacidade que as elites agrárias tiveram para refazer seu acervo
conservador. Em termos do direito quilombola, podem ser citadas várias
ações desses grupos no Congresso Nacional, além da investida contra o
marco regulatório central dos quilombolas, que é o Decreto n. 4.887, de 20
de novembro de 2003.17 A ação desses grupos continua a ser pautada, tal
como na Colônia e no Império, pelos interesses privatistas de grupos que
insistem em compreender os direitos como privilégios dos latifundiários.

Considerações finais

Neste trabalho, indicou-se que a distribuição de terra no Brasil, des-


de o período colonial, favoreceu o estabelecimento de uma estrutura fundi-
ária que se apoiou na grande propriedade e permitiu o desenvolvimento de
uma elite econômica e política “simultaneamente vinculada aos interesses
agrários e ao desempenho das funções do Estado” (CAMARGO, 1986, p.
123). Essa imbricação com a máquina estatal fez com que esta última esti-
vesse permeável aos interesses privados desses homens brancos. Isso leva à
identificação de pelo menos quatro aspectos. O primeiro é que, conforme

17 Esse Decreto está sendo questionado no Supremo Tribunal Federal (STF), pela Ação Direta de In-
constitucionalidade (ADIN) n. 3.239, de 12 de agosto de 2004, proposta pelo então Partido da Frente
Liberal (PFL) – atual Democratas (DEM). Essa ação questiona a constitucionalidade do Decreto n.
4.887/2003 sob a alegação de que este, ao regulamentar o Artigo 68 do ADCT, invade a esfera da lei,
incorrendo, portanto, em “autonomia ilegítima”. O argumento é que, ao dispensar a mediação de ins-
trumento legislativo e dispor ex novo, o ato normativo editado pelo presidente da República invade a
esfera reservada à lei e incorre em manifesta inconstitucionalidade (BRASIL, STF, 2004).
264 |

se afirmou no início desse estudo, nos períodos colonial e imperial, é ges-


tada, cristalizada e naturalizada a associação entre grandes propriedades
individuais, homens brancos, privatização do poder e patriarcalismo. Esses
grupos tiveram a capacidade de superar crises e refazer-se ao longo do pe-
ríodo republicano.
O segundo aspecto, decorrente do primeiro, é que esse quadro
gerou uma profunda desigualdade socioeconômica, que colocou em
polos opostos uma elite agrária com poder econômico e político e uma
população rural sem acesso legal à terra e, muitas vezes, submetida a
formas de trabalho semisservil. Embora essas desigualdades tivessem
sido detectadas e denunciadas em diversos momentos da história do
Brasil e projetos de reforma agrária tenham sido propostos, essa vincu-
lação entre as elites agrárias e o Estado serviu como forma de impedir
que essas iniciativas fossem bem-sucedidas. Portanto, as desigualdades
socioeconômicas e as dificuldades de acesso à terra atingiram os di-
versos grupos sociais e atravessaram, por exemplo, as questões de raça,
gênero e territorialidade.
O terceiro aspecto, relacionado ao anterior, é que se pode perceber
que, tomando-se a realidade das comunidades negras de quilombos, esses
grupos étnico-raciais construíram formas de uso e significados da terra
contrapostos à concepção hegemônica de mercado. Essas comunidades
vivem, na maioria das vezes, em áreas com fartos recursos naturais, e o
conceito de riqueza e pobreza para elas está intimamente ligado ao ecos-
sistema. Portanto, o que lhes falta é o título da terra, além de políticas
públicas direcionadas a essas áreas, com o necessário cuidado de associar
essas localidades a áreas de pobreza, pois isso poderia servir como argu-
mento legitimador de programas de remoção desses grupos de suas áreas
de origem.
O quarto e último aspecto é que a luta das comunidades negras de
quilombo pelo direito à terra torna-se ainda mais complicada exatamente
porque ela perpassa terra — pautada em uma estrutura fundiária voltada
para o grande latifúndio — e raça, o que impõe imensos desafios ao projeto
de aprofundamento democrático. Faz-se mister a superação tanto da com-
preensão do direito à terra apenas pela matriz da propriedade individual
quanto do racismo presente na sociedade brasileira.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 265

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EL DEBER DE CONSULTAR A LOS PUEBLOS INDÍGENAS
EN CHIAPAS O EL ARTE DE LA SIMULACIÓN

Elisa Cruz Rueda1

Introducción

E
n este trabajo hago un análisis del marco jurídico sobre la Consulta
a los Pueblos Indígenas en El Estado de Chiapas, a partir de un
trabajo anterior, que realicé en 2008 (CRUZ, 2008; 2009). Al final
se hace referencia a casos concretos para demostrar la pertinencia de una
Consulta para los Pueblos Indígenas, siguiendo los parámetros jurídicos
internacionales, y comparándolos con los federales y estatales en materia
de pueblos indígenas y consulta. Estos parámetros jurídicos son el Conve-
nio 169 de la OIT (1989) y la Declaración sobre Derechos de los Pueblos
Indígenas (2007), la Constitución Política de los Estados Unidos Mexica-
nos (CPEUM, 2002) y el marco jurídico estatal. Finalmente, se concluye
que tal cual están los mecanismos e instituciones sobre participación ciu-
dadana en México y en el Estado de Chiapas, son insuficientes y no consi-
deran la diversidad y especificidad cultural de los pueblos indígenas.
Parto de un trabajo anterior (CRUZ, 2008; 2009) en el que señalo que
los Estados están obligados a consultar a los pueblos indígenas tomando en
cuenta sus derechos fundamentales a la tierra, el territorio, la autonomía,
sus formas de organización, a tener un derecho propio, entre otros, recono-
cidos en el Convenio 169 de la OIT y en la Declaración sobre derechos de
los Pueblos Indígenas de la ONU.

1 Abogada y Antropóloga. Licenciada en Derecho por la Universidad Nacional Autónoma de México,


maestra y doctora en Ciencias Antropológicas por la Universidad Autónoma Metropolitana Unidad
Iztapalapa. Profesora e Investigadora de Tiempo Completo en la Licenciatura en Gestión y Autode-
sarrollo Indígena de la Universidad Autónoma de Chiapas, Campus III San Cristóbal de las Casas
Chiapas. Miembro del Sistema Nacional de Investigadores de CONACYT, NIVEL I.
272 |

En ese trabajo inicial (CRUZ, 2008; 2009) agrego a las características


fundamentales de la consulta según el Convenio 169 de la OIT mi propues-
ta de Consulta, tomando en cuenta los que se plantea en los artículos 6 y 7
del Convenio:

Cuadro 1 – Comparativo entre los requisitos para la Consulta del Convenio


169 OIT
y propuesta de Consulta como proceso de negociación

Convenio 169 OIT


Propuesta
Arts. 6 y 7

1. Adecuada y
apropiadas a las …Además
formas de orga- 1. Información cabal, plena y de buena fe.
nización de los
Pueblos Indígenas.
2. De buena fe. 2. Con carácter vinculante

3. Tomando en 3. Proceso de negociación, por lo tanto es un mecanismo y


cuenta las nece- no un fin en sí mismo, impulsado a largo plazo, encaminado
sidades y valores a establecer las bases de una Nueva Relación entre el Estado
culturales sobre la y la Sociedad con los Pueblos Indígenas. A partir de este
tierra, el territorio mecanismo los Estados deben reconocen que los pueblos
y el desarrollo indígenas han sido excluidos de las decisiones gubernamen-
que esos pueblos tales y de Estado, que los han afectado y eso los ha condi-
tienen. cionado a rechazar cualquier iniciativa de ser consultados.

4. Participación de los pueblos indígenas en el diseño, imple-


mentación y seguimiento de los resultados de la Consulta.

Es decir, en total son siete requisitos los que debe cumplir una Con-
sulta a Pueblos Indígenas, en la que efectivamente se respete su derecho no
solo a la Participación, o a ser Consultados — para que eventualmente (no
forzosamente otorguen su consentimiento previamente informado) — sino
a que sus derechos internacionalmente reconocidos no sean violentados.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 273

Consulta para

Participar en las políticas públicas y decisiones que los afectan


Salvaguardar sus derechos
Establecer una nueva relación con el Estado y la sociedad nacional.

Así, la expresión gráfica del proceso de Consulta sería:

En donde se puede observar que la Consulta es un proceso cíclico


y continuo para establecer una nueva relación de confianza, inicialmente
por lo menos, para impulsar un diálogo sobre la intervención del Estado
(por acciones, omisiones, políticas públicas) en regiones indígenas para la
salvaguarda de derechos.
De esta manera, en la propuesta que planteo sobre Consulta son re-
levantes los siguientes aspectos: a) La Consulta a los pueblos indígenas es
un proceso de negociación que debe apegarse al Convenio 169 de la OIT
sobre pueblos indígenas y tribales en países independientes, en lo general
274 |

y concretamente en los artículos 6 y 7; b) Las Consultas deben establecer


obligaciones y acuerdos que el Gobierno debe cumplir en plazos determi-
nados y ciertos. Es decir, las Consultas deben tener carácter vinculante. Por
ello, deben establecerse los criterios de este carácter, así como las hipótesis
y alcances del mismo. c) La Consulta debe considerar mecanismos de parti-
cipación de los indígenas en el diseño, implementación y seguimiento de la
Consulta; d) Los talleres, foros de información, consultas de opinión y otros
mecanismos, son herramientas que pueden ayudar en los fines que persigue
una Consulta (que se apegue al Convenio 169), pero NO se pueden consi-
derar consultas; e) El acceso a la información sobre los temas o asuntos a
Consultar, la calidad de ésta y el manejo que de ella tengan los interesados
(indígenas, pueblos indígenas y sus organizaciones), determinan la calidad
de la Consulta y, eventualmente el cumplimiento del principio de la Buena
Fe. Ésta es un requisito fundamental de cualquier acto jurídico, por lo que
los vicios de la voluntad como el engaño, o el dolo, atentan contra ese prin-
cipio. Debe considerarse la nulidad de una Consulta que no cumpla con
este principio o bien, se compruebe que ha habido mala fe o algún vicio de
la voluntad.

1. La consulta y el consentimiento previo e informado

Es importante precisar que tanto el Convenio como la Declaración


señalan como esencial el deber de Consultar, en el primer instrumento
se señala que la Consulta a Pueblos Indígenas será llevada a cabo con la
finalidad de llegar a un acuerdo o lograr el consentimiento acerca de las
medidas propuestas (artículo 6), lo cual no implica necesariamente que
la Consulta logre el consentimiento o bien, que el acuerdo tenga que ser
relativo a aprobar las iniciativas o proyectos que afecten sus derechos y
territorios.
Por su parte la Declaración retoma la consulta en su finalidad de
conseguir el consentimiento previo de los pueblos indígenas para ejecutar
proyectos sobre sus tierras y territorios — cuando el interés público así lo
exija — (según interpretación de funcionarios de la ONU), aspecto que en
absoluto comparto pues tal pre condición re-edita sutilmente, una manera
unilateral y autoritaria de tomar decisiones y ejecutar leyes y proyectos (de
extracción e infraestructura) a costa de los derechos indígenas, rompiendo
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 275

con el sentido fundamental de la Consulta como mecanismo de negocia-


ción para una nueva relación y de salvaguarda de los derechos indígenas2.
Antes de referirme al marco jurídico chiapaneco sobre consulta, ex-
pongo algunos elementos fundamentales sobre la Consulta a Pueblos Indí-
genas que se plantean en los artículo 6 y 7 del Convenio 169 de la OIT, que
como documento jurídico vinculante para México tendría que reflejarse
en la Constitución Política de los Estados Unidos Mexicanos, en sus leyes
reglamentarias y en las leyes estatales.
El Artículo 6 señala fundamentalmente: a) consultar mediante pro-
cedimientos apropriados; b) a través de sus instituciones representativas; c)
cada vez que se prevean medidas legislativas o administrativas susceptibles
de afectarles diretamente; d) que los pueblos indígenas puedan participar
libremente, y a todos los niveles en la adopción de decisiones en institucio-
nes electivas y organismos administrativos y de otra índole responsables de
políticas y programas que les conciernan; e) establecer los medios para el
pleno desarrollo de las instituciones e iniciativas de esos pueblos, y en los
casos apropiados proporcionar los recursos necesarios para este fin; f) debe-
rá efectuarse de buena fe y de una manera apropiada a las circunstancias; g)
con la finalidad de llegar a un acuerdo o lograr el consentimiento acerca de
las medidas propuestas.
El artículo 7 complementa la intencionalidad de lo que se plantea en
el artículo anterior, pues alude a los valores culturales sobre el desarrollo,
afectaciones y derechos: a) decidir y definir el desarrollo desde sus propias
prioridades y circunstancias históricas; b) la incidencia social, espiritual,
cultural y sobre el medio ambiente que las actividades de desarrollo pre-
vistas puedan tener sobre esos pueblos son criterios fundamentales para la
ejecución de las actividades mencionadas.

2 En este sentido es loable la reflexión que James Anaya actual Relator Especial (2009) para los derechos
y libertades fundamentales de los pueblos indígenas hace, pues si bien, reconoce el derecho de estos
ser consultados, en su intento de conciliar intereses, plantea que no tienen derecho de veto sobre los
proyectos que se quieran implementar o se implementen sobre sus territorios (citando al Comité de
Expertos de la ONU, que por cierto son nombrados por los Estados). Lo cual expone un punto de
tensión entre el derecho de los pueblos indígenas a salvaguardar sus derechos, sobre todo a la tierra y
el territorio, y la facultad de los Estados de pasar sobre esos derechos en aras del interés público (sobre
el cual se tienen razonables dudas cuando intervienen en su tendencia, definición, causas y motivos,
los intereses políticos y económicos de determinados grupos de los cuales los indígenas están exclui-
dos). (ONU, 2010). Una postura crítica sobre la Consulta es la de Magdalena Gómez quien señala
que finalmente la Consulta es un derecho de procedimiento que no desplaza ni debería de desplazar
el cumplimiento por parte de los Estados de los derechos fundamentales de los pueblos indígenas
(MARISCAL, 2009).
276 |

Pese a las consideraciones jurídicas señaladas, la constante en el caso


mexicano, es que la Consulta como procedimiento y fin en sin mismo, para
cambiar la relación entre el Estado y la sociedad con los Pueblos Indígenas,
no se cumple y más bien, lo que se presentan son casos de NO CONSULTA,
como ejemplo, están los casos de los pueblos zapotecos o biniza’a y huaves
o ikoot del istmo de Tehuantepec que abordo en dos trabajos más (CRUZ,
2011).

2. El marco jurídico chiapaneco sobre consulta

2.1. La constitución

El marco jurídico chiapaneco sobre derechos indígenas está encabe-


zado por la Constitución Política del Estado Libre y Soberano de Chiapas,
concretamente por el artículo 13 (2007), seguido en rango de jerarquía por
la Ley de Derechos y Cultura Indígena (1999) —que en adelante llamare-
mos Ley indígena de Chiapas3. La mención a la consulta se encuentra en el
párrafo sexto del precepto constitucional que a la letra señala: “El estado,
con la participación de las comunidades indígenas, instrumentará los pla-
nes y programas necesarios para impulsar su desarrollo socioeconómico”.
Párrafo que no cumple con los requisitos sobre la Consulta que se-
ñala el Convenio 169 ni tampoco con el Pacto Federal en su artículo 2º de
la CPEUM en cuanto a la Consulta a Pueblos Indígenas (Cfr. fracción IX
del Apartado B):

IX. Consultar a los pueblos indígenas en la elaboración del Plan Nacio-


nal de Desarrollo y de los estatales y municipales y, en su caso, incor-
porar las recomendaciones y propuestas que realicen. Para garantizar el
cumplimiento de las obligaciones señaladas en este apartado, la Cámara
de Diputados del Congreso de la Unión, las legislaturas de las entidades
federativas y los ayuntamientos, en el ámbito de sus respectivas compe-
tencias, establecerán las partidas específicas destinadas al cumplimiento
de estas obligaciones en los presupuestos de egresos que aprueben, así
como las formas y procedimientos para que las comunidades participen
en el ejercicio y vigilancia de las mismas.

3 No se hace mención a la consulta, solo en la parte de exposición de motivos en cuanto a los foros de
discusión que se promovieron para hacerla.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 277

Sin perjuicio de los derechos aquí establecidos a favor de los indígenas,


sus comunidades y pueblos, toda comunidad equiparable a aquéllos
tendrá en lo conducente los mismos derechos tal y como lo establezca
la ley (CPEUM, 2002).

Es decir, en el precepto federal se señala expresamente la consulta ade-


más de las obligaciones del Estado a través de la Cámara de Diputados, para
que apruebe las partidas específicas para este fin y que establezca las formas y
procedimientos de participación de las comunidades indígenas. Sin embargo,
hasta estos momentos no se ha cumplido con esta disposición porque las con-
sultas han sido hechas por el Ejecutivo sin establecer normas y procedimientos
específicos para los indígenas, pues los mecanismos aplicados son los que se
refieren a la Consulta popular o ciudadana establecida en el artículo 26 de la
CPEUM.
Otro precepto de la constitución chiapaneca que interesa aludir es el
artículo 14bis (último párrafo del apartado A.) en donde se establece a la
Consulta Ciudadana como un derecho de los ciudadanos chiapanecos, esto
viene a anunciar las características de consultas de este tipo, pues se sigue
un principio de igualdad o igualitario (igualdad ante la ley), cuyo cuestio-
namiento y discusión dieron lugar precisamente a las reformas constitu-
cionales en materia indígena del artículo 4º (1990) y posteriormente del 2º
(2002) de la CPEUM. Así, se establece en ese artículo:

Apartado A. De los ciudadanos chiapanecos


Los ciudadanos tendrán derecho a participar en las consultas ciudada-
nas de conformidad con lo establecido en la ley (CPEUM, 2002).

Es decir, cuando se establece la Consulta Ciudadana no se conside-


ran las especificidades histórico-culturales de los pueblos indígenas y sus
miembros, sino que se invisibiliza esta circunstancia haciendo tabla rasa de
esas diferencias y especificidades, colocando a los indígenas y sus pueblos,
como cualquier ciudadano, lo cual, en cierta medida no respeta el espíritu
del Convenio 169 de la OIT (cfr. Preámbulo).
Por lo tanto, en ningún nivel de gobierno existe el mecanismo de
Consulta como se prevé en el Convenio 169 y en el artículo 2º de la CPEUM,
mucho menos ha habido consulta a los pueblos indígenas que cumpla con
el espíritu del Convenio 169 de la OIT, en el sentido de que
278 |

cuando las decisiones del Estado afectan los intereses particulares de


los pueblos indígenas, se requieren procedimientos especiales y dife-
renciados de consultas, procedimientos especiales que se justifican por
la naturaleza de esos intereses particulares, que derivan del carácter dis-
tinto de los modelos e historias culturales de los pueblos indígenas, y por-
que los procesos democráticos y representativos corrientes no suelen
bastar para atender a las preocupaciones particulares de los pueblos
indígenas, ya que por lo general están marginados en la esfera política.
El deber de los Estados de celebrar consultas con los pueblos indígenas,
así como los diversos componentes normativos de dicho deber, se basan
en el reconocimiento generalizado, como se manifiesta en la Declara-
ción, de las características distintivas de los pueblos indígenas y de la
necesidad de medidas especiales que permitan corregir sus condiciones
desfavorecidas. (ONU, 2009)4.

Lo anterior, marca una constante en las legislaciones en materia in-


dígena de las entidades federativas, pues si bien, se mencionan la partici-
pación popular y/o ciudadana, este tipo de mecanismos no consideran la
especificidad cultural, histórica y social de los pueblos indígenas, mucho
menos consideran a la consulta como proceso de negociación (Cfr. art. 42
fracc. XXVII sobre Plebiscito para Consultar).
Finalmente, a nivel estatal se enarbolan con mucha vehemencia que
los Objetivos de Desarrollo del Milenio establecidos por la ONU, tienen
rango constitucional (cfr. art. 42 y 62 constitucionales que señalan las facul-
tades del Gobernador y los Ayuntamientos respectivamente), sin embargo
en términos jurídicos el Convenio 169 es superior a esos Objetivos (pues
estos tienen a nivel internacional rango de Declaración y no de Tratado)
y sin embargo, no se cumple ni con ese Convenio ni con el artículo 2º del
Pacto Federal.

2.2. El código de elecciones y participación ciudadana

Para continuar con el análisis de este marco jurídico chiapaneco, otro


instrumento jurídico procedimental que se refiere a formas de participa-
ción y consulta (sin mencionar a los pueblos indígenas ni sus particula-
ridades históricas y jurídicas) es el Código de Elecciones y Participación
Ciudadana.

4 El subrayado en negritas es del texto original.


Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 279

Este Código, como su nombre lo indica es de corte político electoral,


es decir, la participación política queda constreñida al ámbito electoral, por
lo que otro tipo de participación política y social es jurídicamente inconce-
bible, por lo menos para la hechura de este Código. Esto se puede apreciar
en los mecanismos de participación ciudadana:

Artículo 502. Son instrumentos de participación ciudadana:


I. Plebiscito;
II. Referendo;
III. Iniciativa Popular;
IV. Consulta Ciudadana;
V. Audiencia Pública; y
VI. Los demás que establezcan otras disposiciones aplicables o las au-
toridades estatales o municipales, en los ámbitos de sus competencias,
para garantizar la participación y colaboración ciudadana.

Artículo 503. Son instrumentos de organización ciudadana:


I. Los Consejos de Participación y Colaboración Ciudadana; y
II. Los demás que establezcan otras disposiciones aplicables o las autori-
dades estatales o municipales, en los ámbitos de sus competencias, para
garantizar la organización ciudadana.

El plebiscito (arts. 510-518) y el referéndum (arts. 519-524) tienen


disposiciones comunes y son mecanismos mediante los cuales el Ejecuti-
vo o el Legislativo (respectivamente) ponen a consideración (aceptación o
rechazo previo) de la ciudadanía actos o decisiones del Gobernador y los
Ayuntamientos o bien, sobre la creación, modificación, derogación o abro-
gación de leyes propias de la competencia del Congreso del Estado. Ambos
mecanismos deben seguir criterios de votación y conteo (porcentajes de
votación y mayoría arts. 525-527) de acuerdo al padrón electoral del Es-
tado. La institución encargada de llevar a cabo estos dos mecanismos es el
Instituto de Elecciones y Participación Ciudadana (encargada de organizar
las votaciones y por tanto los comicios estatales), los resultados de las vo-
taciones que se den para el plebiscito o referéndum, siguiendo esas reglas,
son vinculantes para el Ejecutivo y el Legislativo (art. 526) de lo contrario
se consideraran como recomendaciones.
Por lo que toca a la Consulta Ciudadana, se establece como facul-
tad del Ejecutivo y de sus dependencias someter, en el artículo 534, del
280 |

Capítulo V. De la consulta ciudadana, “a consideración de la ciudadanía


por medio de preguntas directas, foros, o cualquier otro instrumento de
consulta, cualquier tema que tenga impacto trascendental en los distintos
ámbitos temáticos y territoriales en el Estado de Chiapas”. Además de que
sus resultados no tienen carácter vinculante (art. 536).
Como se puede observar del precepto citado, la Consulta Ciudadana no
tiene nada que ver con la Consulta a Pueblos Indígenas planteada por el Con-
venio 169 y la Declaración y ampliada en mi propuesta (basándome en esos
instrumentos internacionales), pues sus motivaciones son distintas. Esto es así,
porque como ya habíamos apuntado que una de las características de la Con-
sulta a Pueblos Indígenas, tiene como finalidad establecer un proceso de ne-
gociación para que los Estados y sus gobiernos, en este caso el mexicano y por
consiguiente el chiapaneco, establezcan una relación distinta con esos pueblos.
Este panorama nos previene de escenarios por venir, y pistas de aná-
lisis de lo que ha pasado como fue la intención del Gobernador del Estado
y del Legislativo de establecer una nueva Ley Indígena (MARISCAL, 2009)
en donde uno de sus artículos vislumbraba la legitimación de lo que ahora
se conoce como las ciudades rurales y otro tipo de “empresas indígenas”
con el pretexto de impulsar una política neo-indigenista:

La justificación de la nueva ley, promovida por el gobernador Juan Sabi-


nes Guerrero, dice que plasma los principios normativos para reconocer
el derecho a la libre determinación y la autonomía de los pueblos indíge-
nas, contenidos en los acuerdos de San Andrés Larráinzar.
Sin embargo, el artículo primero dice que la ley aprobada es reglamen-
taria del artículo 13 de la Constitución Política del Estado de Chiapas,
que reconoce a esta entidad como un estado pluricultural basado en los
pueblos indígenas.
El artículo 77 estipula que el gobierno del estado y los ayuntamientos impul-
sarán empresas propiedad de las comunidades indígenas, para “optimizar”
la utilización de las materias primas de sus territorios. (MARISCAL, 2009)

Como lo hemos expuesto en otros trabajos (CRUZ, 1998b, 2001,


2008a), el indigenismo ha pasado por distintas etapas (DÍAZ-POLANCO,
1995; GUTIÉRREZ CHONG, 2004) y en los últimos tiempos se le llama
neo-indigenismo como política de Estado caracterizada por dar relieve al
fenómeno del multiculturalismo, la diversidad cultural y las políticas de
reconocimiento (HERNÁNDEZ; PAZ; SIERRA, 2004). El instrumento de
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 281

esta política de Estado o de este multiculturalismo oficial ha sido la modi-


ficación del marco jurídico nacional a través del cual se crea una estructura
de mediatización de las demandas indígenas que no generan ninguna mo-
dificación en las condiciones de vida de esos pueblos (DEL VAL, 2009).5
En el caso mexicano, el concepto de multiculturalismo se ha asocia-
do a las políticas de reconocimiento concretamente de los derechos indíge-
nas a nivel constitucional, por lo que para Burguete (en dictamen) éstas po-
líticas adoptadas por los Estados nacionales sobre los derechos indígenas,
es completamente distinto a las iniciativas propias de los pueblos indígenas:

[…] En resumen, como he intentado argumentar hasta aquí, autono-


mía y multiculturalismo son dos conceptos que no son gemelos. Como
vamos a ver líneas abajo en los ejemplos de México, con el ejemplo de
Chiapas, el paradigma del multiculturalismo en América Latina (en su
versión de “multiculturalismo constitucional”) ha sido usado desde el
poder del Estado para despolitizar el reclamo autonómico indígena;
presentándolo como equivalente, en su esfuerzo de ganar legitimidad.
Se puede concluir en que a más de treinta años de emergencia indígena
en América Latina, en la lucha por territorios, autogobierno y por la
descolonización del poder; las respuestas desde el Estado han sido po-
líticas de reconocimiento emitidas en gramática multicultural, que no
buscan cuestionar las jerarquías étnicas. Sino apenas tratan de encon-
trar acomodos para los pueblos indígenas, tratándolos como minorías,
para que ésos sean funcionales al capital y al orden de cosas existentes
(BURGUETE, 2008).

Indudablemente las acciones y omisiones (políticas públicas en gene-


ral) que a nivel estatal se han tenido con respecto de la materia indígena, están
enmarcadas y definidas como políticas multiculturales que por un lado quie-
ren, vía el reconocimiento de la pluriculturalidad y la diversidad, demostrar el
cumplimiento y salvaguarda de los derechos, sin embargo y de manera apa-
rentemente paradójica, los violentan al no establecer mecanismos concretos
de cumplimiento de derechos o bien, cuando estos no corresponden a la reali-
dad histórica de esos pueblos frente al Estado y la sociedad.

5 Del Val declaró algo así como: “La preocupación esencial es que con la nueva legislación estemos
haciendo neoindigenismo, es decir, que a partir del nuevo marco jurídico se esté creando una es-
tructura de mediatización de las demandas indígenas que no van a generar ninguna modificación en
las condiciones de vida de dichos pueblos indígenas”, en: Resumen de la Conferencia presentada por
él etnólogo José del Val Blanco, Director del Instituto Indigenista Interamericano, en la reunión de
trabajo de la Comisión de Asuntos Indígenas. Este trabajo se publica a solicitud expresa del Diputado
Efraín Zúñiga Galeana, Presidente de la Comisión de Asuntos Indígenas (DEL VAL, 2009).
282 |

Conclusiones

De esta manera, podemos advertir que todavía falta mucho por ha-
cer para que el marco jurídico chiapaneco esté realmente a la altura de las
exigencias internacionales en materia de derechos humanos, pues su legis-
lación en materia indígena (derechos que también forman parte del Siste-
ma Internacional de Derechos Humanos) deja mucho que desear tanto en
el reconocimiento de derechos como en los mecanismos apropiados para
su cumplimiento y salvaguarda.
De igual forma, los mecanismos de participación ciudadana que es-
tablece el marco jurídico chiapaneco, son insuficientes a la luz de una lectu-
ra de corte internacionalista, incluso frente a los países Latinoamericanos
a los que México veía como los hermanos menores, pues desde su origen
constitucional constriñen al mínimo los derechos de los pueblos indígenas,
mucho más por lo que respecta a su cumplimiento para realmente hacerlos
efectivos, pues se hacen a un lado más de dos décadas de discusión y por
consiguiente de instrumentos jurídicos sobre derechos indígenas porque
no se consideran sus especificidades culturales e históricas en su relación
con el Estado y la sociedad mexicanos y chiapanecos.
De esta suerte, una Ley de Consulta para Pueblos Indígenas que siga
la hechura de los mecanismos de participación ciudadana existentes, no tie-
ne razón de ser y más bien, solo serviría para mantener un estado de cosas
donde se tiene la presunción exaltada de estar a la vanguardia en el tema de
derechos humanos en general (v.gr. Los Objetivos de Desarrollo del Milenio)
y, particularmente de los derechos indígenas (con la arriba citada supuesta
ley —ya que al parecer nunca se promulgó) sin que esto se refleje en acciones
concretas de reconocimiento y respeto a los derechos fundamentales de los
pueblos indígenas: derecho a la tierra y el territorio, a la autonomía, a tener
un derecho propio, a la cultura, al desarrollo (o en palabras de ellos mismos
lekil kuxlejal6 “vida buena” o “bien vivir”, como concepto cada vez más uti-
lizado por los pueblos indígenas y sus organizaciones en oposición al “desa-
rrollo”), derechos fundamentales que son pilares tanto de su pervivencia y
existencia, como de la continuidad y diversidad cultural de la humanidad.

6 Para una revisión de este término en el contexto de la cosmovisión de los indígenas tseltales es impor-
tante consultar la obra de Antonio Paoli (2003).
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 283

Finalmente tal vez, el único camino que queda por lo pronto a los
indígenas, sus pueblos y organizaciones es continuar en la ruta de la mo-
vilización para demostrar razón y fuerza en la lucha por el respeto a sus
derechos fundamentales.

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México: CIESAS, 2004.
NOVOS SUJEITOS SOCIAIS E A CONSTRUÇÃO
PLURAL DE DIREITOS1

Antonio Carlos Wolkmer2

A questão dos novos sujeitos

P
artindo das premissas de que as novas fontes de produção jurídica de-
verão ser encontradas na própria sociedade (no âmbito urbano e agrá-
rio), nada mais correto do que realçar o processo de regulamentação e
controle social em função das contradições, dos interesses e das necessidades
dos novos sujeitos sociais. Esse direcionamento ressalta a relevância de se
buscar formas plurais de fundamentação para a instância da justiça oficial,
contemplando uma construção comunitária solidificada em plena realização
existencial, material e cultural de atores emergenciais. Trata-se, principalmen-
te, daqueles sujeitos que, na prática cotidiana de uma cultura político-institu-
cional e um modelo socioeconômico particular (estrutura agrária brasileira,
por exemplo), são atingidos na sua dignidade pelo efeito perverso e injusto
das condições de vida, impostas pelo alijamento do processo de participação
e desenvolvimento social, pela repressão e pelo sufocamento da satisfação das
mínimas necessidades. Na singularidade da crise que atravessa as instituições
sociais, degeneram-se as relações de vida cotidiana e pauperizam-se as con-
dições no campo agrário. A resposta para transcender as privações provém

1 Versão revisada de artigo publicado com o título de “Os movimentos sociais e a construção de direi-
tos” (VARELLA, Marcelo Dias (Org.). Revoluções no campo jurídico. Joinville: Oficina, 1998, p. 93-97).

2 Professor titular nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Direito da Universidade Federal de


Santa Catarina. Doutor em Filosofia do Direito e da Política. Professor visitante em várias universi-
dades do Brasil e do exterior (Espanha, Itália, México, Colômbia, Peru, Venezuela, Argentina e Costa
Rica). Autor de diversos livros, dentre os quais: Pluralismo Jurídico - Fundamentos de uma Nova Cul-
tura no Direito. 3 ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 2001; Direitos Humanos e Filosofia Jurídica na América
Latina. R. Janeiro: Lumen Juris, 2004; História do direito no Brasil. 6. ed. R. Janeiro: Forense, 2012;
Introdução ao Pensamento Jurídico Crítico. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.
286 |

da força contingente de novas sociabilidades que, por vontade própria e pela


consciência de seus reais interesses, são capazes de criar e instituir novos di-
reitos. Assim, as contradições de vida experimentadas pelos diversos grupos
voluntários, organizações sociais e movimentos coletivos, basicamente aque-
las condições negadoras da situação das necessidades identificadas com a so-
brevivência e a subsistência, acabam produzindo reivindicações que exigem
e afirmam direitos. Não há dúvida de que a situação de privação, carência e
marginalidade constitui a razão motivadora e condição de possibilidade do
aparecimento plural de direitos, engendrados por novos sujeitos sociais.

O aparecimento de novos sujeitos coletivos de juridicidade

Primeiramente, cabe diferenciar os antigos dos novos sujeitos cole-


tivos enquanto fonte de titularidade de uma juridicidade emancipadora.
Ora, se o metafísico “sujeito em si”, o “sujeito privado” da tradição liberal-
nacionalista, é o sujeito cognoscente a priori, que se adequa às condições
do objeto dado e à realidade global estabelecida, o “novo sujeito coletivo” é
um sujeito vivo, atuante e livre, que participa, se autodetermina e modifica
a mundialidade do processo histórico-social. Por conseguinte, o “novo” e
o “coletivo” não devem ser pensados em termos de identidades humanas
que sempre existiram, segundo critério de classe, etnia, sexo, religião ou
necessidade, mas em função da postura que permitiu que sujeitos inertes,
dominados, submissos e espectadores passassem a sujeitos emancipadores,
participantes e criadores de sua própria história. Trata-se da retomada e
ampliação de um conceito de sujeito fortemente associado a uma tradição
revolucionária de lutas e resistências, que vai do proletariado ou das massas
trabalhadoras (tradição identificada por K. Marx), dos marginalizados da
sociedade industrial (H. Marcuse) e dos condenados da terra (F. Fanon) até
o povo oprimido dos filósofos e teólogos latino-americanos (Enrique D.
Dussel, J. C. Scannone, Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff).
Na verdade, o novo sujeito histórico coletivo articula-se em torno
“do sofrimento ‒ às vezes centenário ‒ e das exigências cada vez mais claras
de dignidade, de participação, de satisfação mais justa e igualitária”3 das

3 Ver WOLKMER, Antonio Carlos. Pluralismo Jurídico - Fundamentos de uma Nova Cultura no
Direito. 3. ed. São Paulo: Alfa-Ômega, 2001, p. 238. Consultar também: DUSSEL, Enrique
D. Ética comunitária. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 96-97; GUTIERREZ, Gustavo. A Força
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 287

necessidades humanas fundamentais de grandes parcelas sociais excluídas,


dominadas e exploradas da sociedade.
É desse modo que, caracterizando a noção do sujeito enquanto iden-
tidade, que implica o novo e o coletivo, privilegiam-se, numa pluralidade
de sujeitos, os chamados novos movimentos sociais. De fato, na medida
em que os novos movimentos sociais são encarados, quer como sujeitos
detentores de uma nova cidadania apta a lutar e a fazer valer direitos já con-
quistados, quer como uma nova fonte de legitimação da produção jurídica,
nada mais natural do que equipará-los à categoria “novos sujeitos coletivos
de Direito”.4 Sendo assim, a presente designação para os movimentos so-
ciais não implica, de forma alguma, qualquer alusão ou aproximação à mí-
tica abstração liberal-individualista de sujeito de Direito, própria do velho
paradigma do formalismo legal positivista.
Investigações contemporâneas de teor crítico-interdisciplinar tendem
a reconhecer, nos novos movimentos sociais, sujeitos coletivos titulares de
direitos. Por essa via, vem se alinhando, dentre tantos autores, José Geraldo
de Sousa Júnior, para quem a significação político-sociológico dos novos
movimentos sociais, como potencial prático-teórico de enunciação e arti-
culação de direitos, possibilita e justifica seu enquadramento na esfera de
incidência jurídica. Com efeito, o empenho do jurista da Universidade de
Brasília é demonstrar a relação entre a condição social de sujeitos populares
em sua luta por reparar carências e injustiças.5
É nesse contexto de exclusão, carências e necessidades materiais que
se situam as práticas cotidianas e insurgentes dos movimentos sociais que,
ainda que com certas limitações, são portadoras potenciais de novas formas
de se fazer política, bem como fonte informal geradora de produção jurídica.

Novos movimentos sociais - fontes de produção jurídica

Certamente, a inoperosidade da instância jurisdicional e a desatua-


lização da legislação positiva dogmática proporcionam a expansão plural

Histórica dos Pobres. Petrópolis: Vozes, 1984. p. 160-161; DE LA TORRE RANGEL, Jesus
Antonio. El Derecho que Nasce Del Pueblo. México: CIRA, 1986. p. 12-19.
4 Constatar, nesse sentido: SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de. Sociologia Jurídica: condições sociais e
possibilidades teóricas. Porto Alegre: Sérgio A. Fabris, 2002, p. 53.
5 Ibidem.
288 |

de procedimentos extrajudiciais e práticas normativas não estatais, exer-


cidas e consensualizadas por movimentos sociais que, ainda que margina-
lizados e inseridos na condição de ilegalidade para as diversas esferas do
sistema oficial, definem uma nova forma de legitimação.
O problema das fontes do Direito, numa sociedade periférica e/ou
pós-colonial, marcada por uma cultura autoritária e formalista, não está
mais unicamente na priorização de regras técnico-formais e nas ordenações
teórico-abstratas, mas também na interação de uma práxis do cotidiano e
na materialização normativa comprometida com a dignidade de um novo
sujeito social. Os centros geradores de Direito não se reduzem tão somente
às instituições e aos órgãos representativos do monopólio do Estado, pois
o Direito, por estar inserido nas e ser fruto das relações sociais cotidianas,
emerge de vários e diversos centros de produção normativa.
Trata-se de uma forma plural de gerar legitimidade, a partir de prá-
ticas e relações sociais surgidas na concretude efetiva da sociedade. Na-
turalmente que a consequência desse processo de redefinição das fontes
de produção jurídica envolve também a transformação do Estado como
núcleo exclusivo e absoluto do poder societário. Encarar o Estado sob no-
vas funções implica não mais vê-lo como tutor permanente da sociedade
e detentor único do monopólio de criação jurídica, mas, agora, como uma
instância democratizada mandatária da comunidade, habilitado a prestar
serviços a uma ordem pública plenamente organizada pelo exercício e pela
participação da cidadania individual e coletiva.
As novas exigências, necessidades e os conflitos em espaços sociais e
políticos periféricos, tensos e desiguais, tornam, presentemente, significa-
tivo reconhecer, nos movimentos sociais emergentes (tais como, no Brasil,
o Movimento Rural dos Sem Terra), uma fonte geradora de novos direitos,
flexíveis e menos formalizados.6
Ainda que possa haver resistência por parte da cultura oficial
normativa e de seus aparatos burocráticos, a comprovação dessas ma-

6 Sobre a natureza e o poder dos movimentos sociais, constatar: TARROW, Sidney. El Poder en Movi-
miento. Los Movimientos sociales, La acción colectiva y la Política. Madrid: Alianza, 1997; SCOTT,
James C. Los Dominados y El Arte de La Resistencia. Pais Vasco: Txalapata, 2003; DALTON, Russell J.
& KUECHLER, Manfred (Comps.). Los Nuevos Movimientos sociales. Valencia: Alfons El Magnamin,
1992; GOHN, Maria da Gloria. Teoria dos Movimentos Sociais. Paradigmas Clássicos e Contemporâ-
neos. São Paulo: Loyola, 1997; ALBERNAZ, Renata O. & WOLKMER, Antonio C. Pluralismo Jurí-
dico, Estado e Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Brasil. Crítica Jurídica. México:
UNAM, v.33, 2012. p.141-178.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 289

nifestações de “legalidade paralela ou concorrente” a partir da luta por


direitos à terra torna-se, gradativamente, inconteste e por demais evi-
dente.
A partir das práticas sociais cotidianas e necessidades efetivas, in-
ternalizadas por movimentos sociais que têm consciência, identidade e au-
tonomia, emerge uma nova concepção de direitos mais mutável, elástica
e plural, que transcende aos direitos estatais, consagrados nos limites da
doutrina imperante e da legislação positiva. Materializa-se, assim, a com-
preensão não apenas por direitos estáticos, ritualizados e equidistantes dos
conflitos sociais, mas direitos “vivos” referentes à qualidade de vida, ou seja,
à subsistência, à saúde, à moradia, à educação, ao trabalho, à segurança, à
dignidade humana etc. Assim, esses novos direitos têm sua eficácia na le-
gitimidade dos múltiplos “sujeitos da juridicidade”, legitimidade assentada
nos critérios das necessidades, participação e aceitação. É inegável, em um
processo de luta por justiça, a importância e a interferência destes novos
movimentos sociais, como o MST, para dar eficácia a uma nova legalidade
advinda de práticas e negociações resultantes de demandas e carências su-
peradoras dos conflitos pela terra.

Conclusão

Enfim, algumas preocupações aqui apresentadas incidem no con-


texto de sociedades periféricas pós-coloniais e que ainda se encontram,
neste início do século, como a brasileira, marcadas por crises políticos
-institucionais, por intensos conflitos agrários e por uma cultura jurídica
tradicional, liberal e formalista. Esta cultura não consegue responder, com
eficácia, às novas formas, aos conflitos coletivos e às crescentes demandas
sociais (o problema agrário, no campo, e os conflitos urbanos por mora-
dia, por exemplo). Isso permite discutir a questão dos fundamentos (crise
e mudança dos paradigmas), dos novos sujeitos coletivos de legitimação,
bem como das formas plurais de revelação jurídica. Trata-se, em suma,
de uma discussão hoje essencial para redefinir e fazer avançar o projeto
de uma justiça mais democrática, pluralista e participativa, adequada às
contingências histórico-sociais das sociedades latino-americanas, como a
brasileira.
290 |

REFERÊNCIAS

ALBERNAZ, Renata O. & WOLKMER, Antonio C. Pluralismo Jurídico, Estado e


Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST) no Brasil. Crítica Jurídica. Méx-
ico: UNAM, v. 33, 2012. p. 141-178.

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WOLKMER, Antonio Carlos. Pluralismo Jurídico – Fundamentos de uma Nova


cultura no direito. 3. ed. São Paulo: Alfa-ômega, 2001.
QUESTÕES TERMINOLÓGICAS E HISTÓRICAS ACERCA
DA POLÍTICA AGRÁRIA BRASILEIRA, REFORMULADA
A PARTIR DO ESTATUTO DA TERRA DE 1964

Cláudio Grande Junior1

Introdução

O
s principais nortes de nossa atual política agrária foram inaugura-
dos em 1964 pelo Estatuto da Terra. Mas, no que consiste exata-
mente a expressão “política agrária”? A esse problema o presente
texto pretende oferecer uma nova proposição, a partir da distinção entre
os termos agrário, agrícola, rural e rústico. Estabelecido um entendimento
do que seja política agrária, no que significou exatamente a mudança da
política agrária a partir do Estatuto da Terra de 1964? A esse segundo pro-
blema, o artigo tenta apresentar respostas analisando o contexto histórico
da promulgação do Estatuto da Terra.

Questões terminológicas com os vocábulos agrário, rural e rústico

Gustavo Elias Kallás Rezek (2007, p. 36) expõe como “um grave pro-
blema terminológico à espera de solução” a confusão instaurada pela le-
gislação com os vocábulos agrário, rural e rústico. Concordando com esse
autor, “rural” parece indicar a mera localidade de algo como não situado
na urbs, ou seja, como não urbano. Já este adjetivo identifica algo que se
situa na cidade. Citando Octávio Mello Alvarenga (1985, p. 8), para quem
agrário equivale a ager, antigo terreno romano cultivado ou cultivável, en-
tão agrário seria a terra susceptível de produção (REZEK, 2007, p. 45).

1 Mestre em Direito Agrário pela Universidade Federal de Goiás. Especialista em Direito Constitucio-
nal pela Universidade Federal de Goiás. Especialista em Direito Administrativo Contemporâneo pelo
Instituto de Direito Administrativo de Goiás. Procurador do Estado de Goiás.
292 |

Assim se distingue rural de agrário, sendo que o primeiro simplesmente


identifica a localização de algo e, consoante Alvarenga, um conceito está-
tico, e o segundo se refere ao trabalho de agilização dos fatores produtivos
da natureza, um conceito dinâmico, com o que concorda Benedito Ferreira
Marques (2009):

o rural é concebido como o terreno que se situa distante da urbs, pouco


importando a sua destinação. Já o agrário é considerado o campo susce-
tível de produção ou destinado à exploração. O rural tem uma conota-
ção estática, enquanto o agrário tem caráter dinâmico (p. 03).

Por sua vez, o vocábulo rústico também não se confunde com o rural
e muito menos com o agrário. Ulpiano (apud REZEK, 2007) lembra que
o termo vem do latim rusticus, referente a “terreno não edificado”, onde a
terra se manifesta em sua virgindade. De acordo com Rezek (2007, p. 48),
“Um parque verde no centro da cidade é imóvel rústico, mas não é rural”.
Não é o aproveitamento ou a exploração do imóvel que determina sua não
rusticidade, mas sim o grau de artificialidade do meio:

Se o resultado da ação humana produziu um ambiente preponderante-


mente natural (assemelhado àquele que pode ser observado na nature-
za), ou, pelo contrário, artificial, como galpões, tanques cimentados de
piscicultura, estufas, edifícios de criação, onde prevalece a obra humana
(REZEK, 2007, p. 48).

Rezek enfrentou esses problemas terminológicos ao abordar o imóvel


agrário, a fim de distingui-lo do imóvel rural e do imóvel rústico, criticando
a histórica confusão que a legislação foi provocando com esses institutos.

Problemática nas designações das políticas voltadas para


as atividades agrárias

Este artigo leva a discussão terminológica, acima narrada, para a se-


ara das políticas voltadas às atividades agrárias, na qual surge a confusão
com mais outro vocábulo, o “agrícola”, uma vez que a legislação pátria o
adota para designar uma determinada política que, na verdade, é muito
mais abrangente do que esta expressão tende a sugerir.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 293

Agrícola, segundo Aurélio Buarque Holanda Ferreira (2004), signifi-


ca: “1. Relativo à agricultura. 2. Que se dedica à agricultura. 3. Que é base-
ado na agricultura, ou é próprio dela”.
Agricultura, por sua vez, conforme o mesmo dicionarista (FERREI-
RA, 2004) denota, significa: “1. Arte de cultivar os campos; cultivo da terra;
lavoura; cultura. 2. Conjunto de operações que transformam o solo natural
para produção de vegetais úteis ao homem”.
Observar-se-á, adiante, que a nossa legislação chamada política
“agrícola” não é destinada somente à produção de vegetais úteis ao ho-
mem, mas também à reprodução de animais igualmente proveitosos ao
ser humano, alcançando, portanto, a pecuária. Poder-se-ia falar, então, em
política “agropecuária”. Contudo, ainda é mais do que isso, é uma política
para as atividades “agrárias”, cujas definições têm causado intensos debates
doutrinários que levaram à certeza de que seu alcance é mais amplo que o
de atividade agropecuária e continua a se expandir. Além disso, tal política
inevitavelmente acaba se direcionando também ao suporte territorial in-
dispensável ao exercício da esmagadora maioria das atividades agrárias2,
disciplinando seu acesso e, se for o caso, sua redistribuição.
Por isso, defende-se, neste artigo, o emprego da expressão política
agrária em um sentido amplo, que abarque as três políticas enunciadas pelo
Capítulo III do Título VII da Constituição da República de 1988, a saber:
política agrícola, política fundiária e política de reforma agrária. Este capí-
tulo nem precisaria ter tão extensa denominação e poderia simplesmente
receber a alcunha “Da Política Agrária”.
Nessa perspectiva, os arts. 184 e 185 tratam precipuamente da políti-
ca de reforma agrária, enquanto os arts. 188 e 191 se voltam principalmente
para a política fundiária. Já o art. 187 disciplina especificamente o que ele
chama de política agrícola.
Tais nomenclaturas e delimitações auxiliam no estudo, na interpre-
tação e aplicação do direito. Contudo, deve-se reconhecer que elas não
têm força normativa, pois não passam de classificações meramente dou-
trinárias. O direito não é uma ciência. Melhor explicando, Eros Roberto

2 Teoricamente, cogita-se a possibilidade de desempenho de atividades agrárias não diretamente no


solo, como em edifícios, elevados, carretas, embarcações ou mesmo estações espaciais. Contudo, a
realidade demonstra que tais conjecturas ainda permanecerão como exceções raríssimas por muito
tempo.
294 |

Grau (1988) lembra que as relações entre o homem e a terra não são uma
ciência, porém constituem o objeto de estudo da geografia humana, esta
sim, uma ciência. Do mesmo modo, o direito pode ser objeto de estudo
de algumas ciências. A ciência que visa especificamente descrever o direi-
to é chamada de Ciência Jurídica ou Ciência do Direito. Pode-se afirmar,
assim, que o ordenamento jurídico é objeto de estudo da ciência do direi-
to (GRAU, 1988). Por meio desta, é possível descobrir e compreender me-
lhor as normas jurídicas. A rigor, o curso superior não deveria se chamar
curso de Direito, mas curso de Ciência Jurídica ou de Ciência do Direito.
Se, por um lado, o direito é normativo e produzido por órgãos dos Po-
deres Legislativo, Executivo e Judiciário, a ciência jurídica é descritiva e
produzida por cientistas.
Nessa ordem de raciocínio, pode-se afirmar que o direito é uno e não
se divide. Mas, no caldo de normas jurídicas, a ciência trata de criar divisões
para facilitar a pesquisa. A primeira e fundamental divisão traçada nos sis-
temas jurídicos romano-germânicos é entre o direito público e o privado.
Tal bifurcação não está no direito em si, mas no olhar que se lança sobre ele.
Tanto que essa divisão é de menor importância na ciência jurídica dos paí-
ses que seguem o sistema da common law. Lá o estudo jurídico não parte da
grande divisão entre direito público e direito privado, mas da distinção entre
“common law e equity” (DAVID, 2002, p. 388).
Aceita a grande divisão doutrinária entre direito público e direito
privado, são delineadas divisões menores da qual resultam os conhecidos
ramos do direito, a saber: constitucional, administrativo, internacional, pe-
nal, tributário, processual, trabalhista, comercial, civil, agrário etc.
A partir disso, a ciência jurídica traça subdivisões menores, identi-
fica instituições e institutos, esboça conceitos e apresenta definições. Fala-
se, então, em política agrária e, dentro desta, em política agrícola, política
fundiária e política de reforma agrária, sempre tentando identificar esses
conceitos com partes específicas do ordenamento jurídico.
É desse tipo de estudo empreendido pela ciência jurídica que certas
correspondências despontam com facilidade, como as referências anteriores
dos arts. 184 e 185 à reforma agrária e dos arts. 188 e 191 à política fundiá-
ria. Contudo, o cientista do direito não pode perder de vista a unidade sistê-
mica deste e reconhecer que os mencionados dispositivos constitucionais ir-
radiam efeitos também sobre as duas outras subdivisões da política agrária.
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 295

Não por outro motivo, a função social, esquadrinhada pelo art. 186,
perpassa pelas três subdivisões da política agrária e, mais do que isso, se
espraia por todo o ordenamento jurídico. Assim, fica fácil entender que o
art. 189 foca na política de reforma agrária, porém com reflexos na política
fundiária, ao passo que o art. 190 trata em primeiro plano desta, mas tendo
por pano de fundo a política agrícola e a política de reforma agrária.
Por fim, o jurista se depara com o art. 187, que diz tratar da política
agrícola. Cumpre aqui realçar que a ciência do direito não pode ser mera-
mente descritiva, mas deve também ser crítica e propositiva, até mesmo
para auxiliar a futura evolução do direito. Da leitura do art. 187 percebe-se
que, na verdade, ele trata mais do que de uma política apenas para a agri-
cultura. Constata-se facilmente que ele se destina igualmente à pecuária e
seu § 1º chega a enunciar que se incluem no planejamento agrícola as ativi-
dades agroindustriais, agropecuárias, pesqueiras e florestais.
Há uma evidente impropriedade terminológica na utilização do vo-
cábulo agrícola no art. 187 e na designação do capítulo da Constituição
que ele integra. Marques (2009, p. 150) salienta que o problema começou a
partir do Estatuto da Terra (Lei n.º 4.504, de 1964), que ora fala em política
agrária, ora em política agrícola, de forma aparentemente a “adotar uma
nova linguagem, utilizando-se a palavra agrícola para adjetivar a política
destinada a amparar o produtor rural” (art. 1º, caput, e § 2º), mais restrita
do que a política agrária. Ato contínuo, o agrarista da Universidade Federal
de Goiás obtempera preferir chamá-la de “política de desenvolvimento ru-
ral”, como, aliás, fez o Estatuto da Terra em seu Título III, pois pertence ao
campo da economia rural, “destinando-se a todas as atividades agropecuá-
rias e não somente aos misteres da produção agrícola” (MARQUES, 2009,
p. 150). De qualquer forma, o ilustre professor reconhece que “a doutrina
agrarista, ao discutir essa questão, defende o emprego da expressão Políti-
ca Agrária, porque esta envolve conteúdo mais abrangente” (MARQUES,
2009, p. 150). E prossegue, citando lições de Silvia e Oswaldo Opitz, Rafael
Augusto de Mendonça Lima, Raymundo Laranjeira e Emílio Alberto Maya
Gischkow.

Apesar de todas essas considerações, o legislador brasileiro preferiu


manter a expressão Política Agrícola. Tanto isso é verdadeiro que a Cons-
tituição Federal de 1988 insistiu em sua adoção [...]. Por consequência,
296 |

a Lei n.º 8.171, de 17.1.1991, [...] também a adotou, incorporando-a, em


definitivo, na legislação agrária brasileira (MARQUES, 2009, p. 151).

A redação do caput art. 187 da Constituição federal poderia qua-


se perfeitamente falar em política agropecuária. Não se negligencia que a
política enunciada pelo art. 187 alcança outras atividades correlatas, mas
este problema é minimizado pelo fato de o § 1º mandar incluir nela as ati-
vidades agroindustriais, agropecuárias, pesqueiras e florestais. Mas, como
ultimamente se tem reconhecido o alargamento das atividades agrárias,
correr-se-ia o perigo de deixar de contemplar alguma atividade, porque
a redação do § 1º também apresenta imperfeições, ora não se referindo a
todas as possibilidades de atividades agrárias, ora se referindo a atividades
que nem sempre são agrárias, como as pesqueiras e florestais. Tendo isso
em vista, melhor seria o caput do aludido artigo falar em política de desen-
volvimento das atividades agrárias e seu § 1º estendê-la a atividades outras
que, conquanto não agrárias, o constituinte entendeu por bem oferecer
tratamento semelhante. Reconhecendo que a alcunha proposta é um tan-
to extensa, poderia ser resumida em política de desenvolvimento agrário,
política para atividades agrárias ou simplesmente política agrária, mas em
sentido estrito, a fim de diferenciá-la da política agrária em sentido amplo,
anteriormente comentada.
Aliás, é muito melhor falar em política de desenvolvimento agrário
do que em política de desenvolvimento rural, como fez o Estatuto da Terra,
em seu Título III, confundindo indevidamente rural com agrário.
Concluindo essa parte, propõe-se, apesar de assim não constar em
nossa Constituição e legislação, o reconhecimento de uma política agrá-
ria (em sentido amplo) que compreende a política fundiária, a política de
reforma agrária e a política de desenvolvimento agrário (ou de desenvolvi-
mento das atividades agrárias ou para atividades agrárias ou, ainda, política
agrária em sentido estrito).

Contexto histórico da promulgação do estatuto da terra, o marco legal


de uma virada da política agrária brasileira

No Brasil, na durante a década de 1960, a política agrária (em sen-


tido amplo) passou por uma reviravolta, não tão ampla como propunham
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 297

alguns, nem tão eficaz como supuseram outros, mas reconhecidamente


passou por mudanças importantes, cujo marco legal definitivo foi a Lei n.º
4.504, de 30 de novembro de 1964, conhecida como Estatuto da Terra. Até
então, reinava quase absoluta, mas já perdendo força, a antiga política agrá-
ria exportadora, fundada no latifúndio e na monocultura, dominante desde
a nossa colonização.
Rememorando, a colonização do Brasil não visava assentar exceden-
tes populacionais portugueses. Aliás, muito pelo contrário, faltavam braços
para cultivar tamanhas terras, tanto que se tornou lucrativa a importação
de escravos africanos. Não encontrados metais preciosos num primeiro
momento, nossa colonização objetivava a produção para o mercado inter-
nacional, mais precisamente visando atender as necessidades da metrópole
e do mercado europeu. Assim, chegou-se até mesmo a vedar certas ativida-
des agrárias que tinham potencial para o abastecimento interno da colônia,
ao passo que era incentivada a abertura de grandes fazendas movidas a
trabalho escravo e produção destinada ao mercado externo. Até então, a
forma regular de exploração das terras brasileiras era mediante o recebi-
mento de sesmarias, concessões que a Coroa portuguesa não fazia a qual-
quer lavrador, mas somente aos homens de estirpe, com capitais suficientes
para investir em grandes empreendimentos agroexportadores.
Apesar da independência, o esquema econômico anterior conti-
nuou e, durante todo o Império, os grandes produtores continuaram sen-
do aqueles voltados ao mercado internacional. Não havia incentivos às
atividades agrárias que visavam o abastecimento interno. Grandes pro-
priedades rurais se espalharam, movidas a trabalho escravo e, posterior-
mente, à mão de obra livre miserável. Mas a incessante expansão da mo-
nocultura começou a exigir capitais cada vez mais vultosos, e a falta de
uma política de crédito agrário favoreceu a proliferação de atravessadores
de empréstimos, implicando acréscimos às taxas de juros pagas pelos to-
madores finais. Nos momentos de maior desespero, o socorro era pres-
tado diretamente pelo Estado, o que se tornou rotina devido às crises de
1857, 1864 e 1875 e por conta das restrições à escravidão. Isso, contudo, foi
provocando insatisfação nos demais setores da sociedade. Iniciaram-se,
portanto, as tentativas de se estabelecer uma política agrária que, mesmo
voltada para o setor agroexportador, esbarrava na fragilidade do sistema
financeiro nacional e na extrema dependência de mecanismos externos de
298 |

financiamento. O financiamento agrícola foi uma das grandes dificulda-


des do país nas últimas décadas do século XIX, apesar de a Lei de Terras
de 1850 ter almejado transformar a terra em mercadoria. Isso demorou
a acontecer, porque a lei foi desrespeitada e não se instituiu um sistema
registral imobiliário seguro.
Proclamada a República, a Constituição de 1891 se restringiu a
enunciar que “incumbia ao Congresso, não privativamente, animar no País
o desenvolvimento das letras, artes e ciências, bem como a imigração, a
agricultura, a indústria e comércio, sem privilégios que tolham a ação dos
Governos locais” (art. 35).
Desse modo, continuávamos reféns da monocultura agroexporta-
dora, realizada em grandes fazendas que exploravam a mão de obra livre,
mas miseravelmente dependente, pois não havia possibilidade de acesso à
propriedade da terra. O uso político das terras públicas pelas oligarquias
da República Velha continuou a atrapalhar a consolidação das pré-con-
dições básicas para a estabilização de um eficaz sistema de crédito agrá-
rio (SANCHES, 2008). Assim, atividades econômicas (inclusive agrárias)
que visassem ao abastecimento interno continuaram sem incentivo. De
qualquer forma, surgiram rudimentos de uma política agrícola voltados
exclusivamente para a proteção da monocultura cafeeira, por meio de es-
tratégias que mantivessem o preço do produto valorizado, o que se viabili-
zava pelo fato de o Brasil controlar três quartos da oferta mundial de café.
A compra e armazenagem das sacas de café excedentes se tornaram possí-
veis com a celebração do Convênio de Taubaté pelos Estados de São Paulo,
do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, em 1906. O governo federal parti-
cipou da jogada entre 1921 e 1923 e, de 1924 a 1929, atuou o Instituto de
Café de São Paulo.
Em que pese a crise de 1929, quando da Revolução de 1930, a ativi-
dade agroexportadora ainda era a mais importante para a economia do país
e não podia ser desprezada. O novo governo se viu obrigado a continuar
a proteger o setor. Em 1931, o governo provisório transferiu para a esfera
federal a responsabilidade pela política cafeeira e criou o Conselho Nacio-
nal do Café (CNC), que atuou por meio de: controle de estoques e regula-
mentos de transporte de café; controles dos níveis de produção; cobrança
de taxa por pé de café plantado; proibição do plantio de café; cobrança de
taxas sobre a exportação; imposição de quotas de exportação, e destruição
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 299

do produto (70.000.000 de sacas de café foram incineradas de 1931 a 1944).


O art. 6º, § 3º, das Disposições Constitucionais Provisórias da Constituição
de 1934 previu que as taxas sobre exportação, instituídas para a defesa de
produtos agrícolas, continuariam a ser arrecadadas, até que se liquidassem
os encargos aos quais elas serviam de garantia. Até 1965, o Brasil continuou
a bancar, sozinho, uma política mundial de preços do café por meio da re-
tenção de seus excedentes de produção. Os emergentes países produtores
concorrentes vendiam sem tal preocupação ‒ alguns inteligentemente pri-
mando pela qualidade do produto ‒ e assim foram, aos poucos, dominando
o mercado internacional.
Cumpre lembrar também que, em 1931, foi determinada a adição de
5% de álcool anidro à gasolina e, em 1933, criou-se o Instituto do Açúcar e
do Álcool (IAA), que até 1990 foi o órgão formulador e executor da política
açucareira do País. Implementou-se a obrigação de depositar, em armazéns
previamente indicados, 10% da quantidade de açúcar saído das usinas para
a formação de um estoque regulador. Também se instituíram mecanismos
para incentivar mais, ora a produção de açúcar, ora a de álcool.
O art. 135 da Constituição de 1937 previu a possibilidade de inter-
venção do Estado no domínio econômico “para suprir as deficiências da
iniciativa individual e coordenar os fatores da produção, de maneira a evi-
tar ou resolver os seus conflitos e introduzir no jogo das competições indi-
viduais o pensamento dos interesses da Nação, representados pelo Estado”.
Embora a Revolução de 1930 não tenha provocado uma ruptura
imediata com a tradicional política agroexportadora, até porque não podia
pelas circunstâncias do momento, ela sedimentou o debate sobre um novo
modelo de desenvolvimento que exigia a reformulação da política agrária
em sentido amplo.
Um dos motivos para o desproporcional movimento de 1964, que
derrubou um governo constitucional democrático, foi o temor dos rumos
que poderiam tomar a mudança de orientação da política agrária no Brasil.
Naquele momento, chegava ao auge o embate sobre a questão, o desenrolar
de uma disputa que começara quarenta anos antes. No seio do movimento
revolucionário de 1930, discutiu-se a necessidade de uma reforma ou revi-
são agrária para prover o trabalhador rural de terra própria para sua pros-
peridade e bem-estar. O assunto não logrou êxito na Constituinte de 1934,
porém, ao final do § 4º do art. 121, essa Constituição estabeleceu: “Procu-
300 |

rar-se-á fixar o homem no campo, cuidar da sua educação rural, e assegurar


ao trabalhador nacional a preferência na colonização e aproveitamento das
terras públicas”. Assim, plantou-se a semente para a Constituição de 1946 e
para a violenta reação de 1964.
Era o início de uma trajetória de luta para se tentar alterar a histórica
política latifundiária agroexportadora que até então dominava o cenário
nacional. Mas, apesar de não mais hegemônico, o setor agrário conservador
seguiu resistindo fervorosamente às propostas e tentativas de mudanças.
Conseguiram acuar Getúlio Vargas que, embora tenha tentado reorientar
a agricultura para o mercado interno, não pode levar muito adiante este
plano, porque abriria uma nova frente de lutas contra o forte setor agroex-
portador. Não parecia possível contrariar tantos interesses econômicos ao
mesmo tempo (LINHARES, 1999). Nessa esteira, a ameaça comunista foi
expressamente invocada como uma das justificativas para o golpe de 1937,
conforme se constata no preâmbulo da Constituição outorgada naquele
ano: “Atendendo ao estado de apreensão criado no País pela infiltração co-
munista, que se torna dia a dia mais extensa e mais profunda, exigindo re-
médios, de caráter radical e permanente”. Com efeito, o pacto de 1937 supe-
rou os focos de conflito até então existentes e possibilitou ao Estado Novo
consolidar uma revolução burguesa, objetivando a industrialização do país,
mas sem possibilidade de rompimento da primitiva estrutura agrária.
Com a redemocratização, a Constituição Federal de 1946 progra-
mou planos de colonização e de aproveitamento das terras públicas para
fixação do homem no campo, assegurando aos moradores de terras devo-
lutas preferência para aquisição de até vinte e cinco hectares. Tratava-se de
uma importante mudança, porque até então as terras públicas eram nor-
malmente concedidas às elites mediante: a concessão de sesmarias durante
a colonização; a má execução da Lei de Terras na segunda metade do Impé-
rio; o uso político da privatização dessas terras durante a República Velha;
a violência, grilagem e outras fraudes, tanto que, só naquele mesmo ano de
1946, foi regulamentado, de forma definitiva, o processo discriminatório de
terras devolutas. Ou seja, passados quase cem anos da promulgação da lei
imperial de terras, que criara o instituto.
Não se pode esquecer que a Constituição de 1946 também estabe-
leceu o instituto da desapropriação por interesse social (art. 141, § 16º).
Abria-se a possibilidade de redistribuição da propriedade e de condicio-
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 301

namento de seu uso ao bem estar social, entretanto, a indenização prévia


e justa em dinheiro significava a garantia ao direito de propriedade ou, em
última análise, a própria confirmação desta (SOUZA FILHO, 2003).
Enquanto isso, um período de industrialização e modernização toma-
va conta do país. Todavia, alguns estudiosos acreditavam que, inevitavelmen-
te, em algum momento, os resquícios do arcaísmo agrário estrangulariam o
crescimento econômico. Supunha-se que o fosso abissal entre os polos avan-
çado e atrasado impediria a formação de um amplo mercado consumidor,
obstaculizando a continuidade da industrialização e do desenvolvimento.
Aliás, essa era a tese que preponderava na Comissão Econômica
para a América Latina e o Caribe (CEPAL), criada em 1948 pelo Conse-
lho Econômico e Social das Nações Unidas, com o objetivo de incentivar a
cooperação econômica entre os seus membros. A CEPAL é uma das cinco
comissões econômicas da Organização das Nações Unidas (ONU), tendo
sede permanente em Santiago do Chile. Reunindo grandes nomes do pen-
samento desenvolvimentista latino-americano, desde seus primórdios, a
CEPAL postulava que a industrialização era o principal caminho para su-
peração do subdesenvolvimento dos países da América Latina. Seu modelo
era dual e enxergava a realidade socioeconômica como sendo dividida em
dois setores opostos, um moderno e um tradicional (OLIVEIRA, 1997).
Em algum momento este também precisaria ser mecanizado para não atra-
palhar o desenvolvimento daquele. Mas a mecanização do campo enxotaria
grandes contingentes de mão de obra para a cidade, onde o capital ainda
incipiente não possibilitaria a absorção dessa mão de obra na indústria e
no comércio. Portanto, a isolada tecnicização da agricultura poderia ser
desastrosa, gerando desemprego no campo e na cidade. Para propiciar um
amplo setor econômico modernizado, convivendo simultaneamente com o
setor agrícola tradicional, seria igualmente necessário o estímulo ao merca-
do interno e uma política de reforma agrária para promover sua ampliação.

A Cepal apregoava políticas de transformação tanto na forma de produ-


ção agrícola, através da mecanização e do progresso técnico, como na
estrutura da propriedade, através da tributação ou da reforma agrária,
de forma a romper com as estruturas improdutivas que conspiravam
contra a industrialização, o caminho mais curto e direto para o desen-
volvimento (CORAZZA; MARTINELLI, 2002, p. 28).
302 |

A questão agrária passou a ser cada vez mais discutida pela socieda-
de como um possível obstáculo ao desenvolvimento do país.

O campo brasileiro tornava-se, assim, o centro das questões referentes


ao desenvolvimento econômico do país. Não só por uma questão de
justiça social se exigia a reforma agrária. Num debate fortemente im-
pregnado de análises econômicas, por vezes precárias, a reforma agrária
era vista como indispensável para superar o estrangulamento da indus-
trialização do país (LINHARES; DA SILVA, 1999, p. 160).

Foi do Poder Executivo, “mais sujeito às pressões diretas de amplas


massas” (CAMARGO apud FAUSTO, 1981, p. 127), que partiram as inicia-
tivas mais contundentes de reformulação da política agrária. Porém, exis-
tiam entraves financeiros e jurídicos. Para superá-los, foram apresentados
projetos de lei para reforma agrária e propostas de emendas constitucio-
nais, objetivando viabilizá-la, como, por exemplo, a estipulação do paga-
mento da indenização, neste caso, em títulos da dívida agrária resgatáveis
em determinado lapso temporal. Entretanto, conforme estudado por Aspá-
sia de Alcântara Camargo, a tendência de oligarquização do voto tornava
o Congresso “sede das representações regionais”, tornando “inoperantes os
numerosos projetos de reformulação da estrutura agrária, através de artifí-
cios legais ou da recusa frontal” (CAMARGO apud FAUSTO, 1981, p. 127).
Diante desse impasse as pressões populares foram aumentando e igualmen-
te as tensões políticas, até que se irrompeu o movimento militar de 1964.
Uma das motivações do golpe era evitar uma alteração mais drástica
da estrutura fundiária brasileira. Porém, estava claro naquele momento que
nossa estrutura agrária precisava passar por algum tipo de modernização.
Começara, em 1946, uma política de preços mínimos para o arroz, feijão,
milho, amendoim, a soja e semente de girassol. Não obstante, a política ma-
croeconômica do País ainda dava pouca importância ao desenvolvimento da
produção de grãos, fixando preços mínimos bem abaixo dos preços de mer-
cado e nada investindo em infraestrutura de comercialização. O grosso da
produção de alimentos básicos, como milho, arroz e feijão, era feito de forma
rudimentar, voltado para a subsistência, com poucos excedentes para abaste-
cer os centros urbanos. Em 1962, ocorreu uma grande crise de abastecimen-
to. Mesmo a exploração do café e do açúcar era baseada no emprego intensi-
vo de mão de obra e na qualidade natural do solo. Suas técnicas de preparo e
Conflitos Agrários: seus sujeitos, seus direitos | 303

uso do solo também eram muito rudimentares, com emprego de queimadas


e ciclo de fertilidade bastante curto. Predatória a atividade, esses agricultores
sempre migravam de um lugar para outro em busca de terras mais férteis.
Até mesmo os Estados Unidos, temendo a ameaça comunista na Amé-
rica Latina após a Revolução Cubana, se interessava pela modernização de
seus vizinhos do Sul. Com esse intuito, firmou-se a Aliança para o Progresso
(Alianza para el Progreso), um programa dos Estados Unidos efetuado entre
1961 e 1970, com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico
mediante a colaboração financeira e técnica em toda a América Latina, a fim
de evitar que outros países da região seguissem o exemplo cubano. A ideia
partiu do Governo Kennedy e se consolidou na Carta de Punta del Este, de
17 de agosto de 1961, que pormenorizou os termos da aliança e, em linhas
gerais, preconizou melhorar o padrão de vida por meio do progresso econô-
mico mais acelerado e de justiça social mais ampla aos seus povos.
Especificamente sobre a questão agrária, o Título Primeiro da Carta
de Punta del Este estabelecia:

5. Aumentar consideravelmente a produtividade e a produção agríco-


las, e melhorar, igualmente, os serviços de armazenamento, transporte
e distribuição.
6. Impulsionar, respeitando as particularidades de cada País, programas
de reforma agrária integral, encaminhada à efetiva transformação onde
for necessária a modificação das estruturas dos injustos sistemas de pos-
se e uso da terra, a fim de substituir o regime de latifúndios e minifúndios
por um sistema justo de propriedade, de maneira que, complementada
por crédito oportuno e adequado, assistência técnica, comercialização e
distribuição dos seus produtos, a terra se constitua, para o homem que
a trabalha, em base da sua estabilidade econômica, fundamento do seu
crescente bem-estar e garantia de sua liberdade e dignidade.

Estava muito clara, no citado trecho da Carta, a necessidade premente de


políticas não só de desenvolvimento agrário, como também de reforma agrária,
o que se observa também no seguinte ponto do Título Segundo da Carta:

2. Os programas nacionais de desenvolvimento deverão incorporar es-


forços próprios visando a:
[...]
c) Reforçar a base agrícola, estendendo os benefícios da terra, em pro-
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porção crescente, aos que a trabalham; e assegurando, nos países em


que há população indígena, a integração desta no processo econômico,
social e cultural da sociedade moderna. Para a realização destes propó-
sitos, deverão ser adotadas, entre outras, medidas tendentes ao estabe-
lecimento ou melhoramento, conforme o caso, dos seguintes serviços:
extensão, crédito, assistência técnica, pesquisa e mecanização agrícolas;
saúde e educação; armazenamento e distribuição; cooperativas e asso-
ciações camponesas e programas de desenvolvimento comunitário;

Nesse cenário, que exigia mudanças, e visando atender à Carta de


Punta del Este, o Regime Militar apressou em promulgar o Estatuto da Ter-
ra, em 1964. Este significou uma importante mudança na política agrária
brasileira a partir de então, na qual foi incluída uma política de reforma
agrária, só possível graças à confiança dos setores agrários conservadores
no comedimento de sua aplicação pelo Regime Militar. Além disso, houve a
reformulação da política fundiária e da política de desenvolvimento agrário.

Conclusões

Aceita a distinção entre agrário, rural e agrícola, propõe-se denomi-


nar a política mais ampla para o setor agrário de “política agrária”. Dentro
desta política agrária em sentido amplo estariam a política fundiária, a po-
lítica de reforma agrária e a política de desenvolvimento agrário ou política
agrária em sentido estrito.
A atual “política agrária em sentido amplo” teve início, em nosso
País, com a promulgação do Estatuto da Terra, objetivando corrigir as dis-
torções provocadas pela antiga política agrária exportadora, mediante a
implantação de uma política de reforma agrária e a reformulação das polí-
ticas fundiárias e de desenvolvimento agrário.

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Os textos conferem com os originais, sob responsabilidade dos autores.

ESTA PUBLICAÇÃO FOI ELABORADA PELA EDITORA DA PUC GOIÁS


E IMPRESSA NA DIVISÃO GRÁFICA E EDITORIAL DA
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