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Categorias e conceitos da Geografia

Os conceitos da Geografia são importantes instrumentos de análise do espaço


geográfico, constituído a partir das relações humanas com a natureza.
 

A Geografia é uma ciência humana que estuda o espaço geográfico e


suas composições, analisando a interação entre sociedade e natureza. No
âmbito desse mérito, essa área do conhecimento utiliza, em suas
abordagens, uma série de conceitos que são considerados como basilares
para a fundamentação de seus estudos. Trata-se das
chamadas categorias da Geografia.
Os principais conceitos da Geografia, nesse sentido,
são: lugar, paisagem, região e território.

Lugar: o conceito de lugar para a Geografia está, nas principais


abordagens, vinculado a uma análise compreensiva – e, portanto, não
objetiva e nem racionalista – da realidade. Nesse sentido, ele se articula a
partir da relação ou compreensão do ser diante do espaço geográfico, ou
seja, o lugar é o espaço apropriado ou percebido pelas relações humanas.
Sabemos que cada pessoa enxerga o mundo de forma específica, pois
isso se relaciona com o conjunto de experiências dos indivíduos ao longo
do tempo, suas concepções culturais e seus valores morais e até
religiosos. Portanto, as análises geográficas pautadas no conceito de lugar
concebem o espaço analisado não de uma maneira direta ou racional, mas
por meio da compreensão humana e, muitas vezes, com base em valores
afetivos ou de identidade. Esse tipo de análise é mais comum no âmbito
da Geografia Cultural e da Geografia da Religião, mas pode envolver
outras áreas do saber em questão.
Paisagem: em algumas análises, a paisagem é diretamente definida
como o “aquilo que a visão alcança” ou como o “mundo conforme a sua
aparência externa”. Portanto, a paisagem costuma ser definida como as
formas com que a produção do espaço geográfico revelam-se diante de
nossos olhos.
Todavia, outras concepções desse modelo são apresentadas a partir da
refutação desse conceito. Em muitas abordagens acadêmicas, concebe-
se a paisagem não apenas a partir da visão, mas da multissensorialidade,
ou seja, a utilização dos demais sentidos (tato, olfato, paladar e audição).
Além disso, a paisagem é, muitas vezes, reveladora de experiências e
atrelada a fatores da expressão humana e pessoais, o que dá à paisagem
uma dimensão cultural.

Região: o conceito de região é amplamente utilizado no senso comum,


sendo geralmente empregado em referência a uma área do espaço mais
ou menos delimitada. Na Geografia, a região refere-se a uma porção
superficial designada a partir de uma característica que lhe é marcante ou
que é escolhida por aquele que concebe a região em questão. Assim,
existem regiões naturais, regiões econômicas, regiões políticas, entre
muitos outros tipos.
Dessa forma, a região não existe diretamente, mas é uma construção
intelectual humana, em uma ideia muito defendida pelo geógrafo
estadunidense Richard Hartshorne (1899-1992) com base na filiação
filosófica de Immanuel Kant. No âmbito da Literatura, por sua vez, essa
noção está vinculada ao conceito de regionalismo, que expressa o
conjunto de costumes, expressões linguísticas e outros valores que
apresentam variação entre uma região e outra, dando uma identidade
coletiva para os diferentes lugares.

Território: muito utilizado no âmbito da política, o território é comumente


entendido como uma área delimitada por fronteiras. No entanto, nem
sempre essas fronteiras são visíveis ou bem delineadas. Na maioria das
abordagens geográficas, o conceito de território está relacionado com uma
configuração de poder. É portanto, uma área apropriada, uma porção do
espaço geográfico onde uma relação hierárquica estabelece-se.
O território possui uma característica importante, que é a sua
multiplicidade em termos de tipificações e de escala. Ele pode abranger
desde uma área muito restrita, como uma rua ou um terreno qualquer, até
uma coalizão internacional composta por forças militares de diversos
países. Ao mesmo tempo, seus tipos envolvem territorialidades militares,
jurídicas (vinculadas ao Estado), naturais, culturais e até criminais, como
os territórios do tráfico de drogas ou de grupos mafiosos.
 

Conceito de paisagem
A paisagem, que é composta por elementos do presente e do passado, é
dotada de aspectos naturais e culturais do mundo.
 

Existem vários elementos conceituais sobre os quais nós podemos melhor


observar e compreender o espaço geográfico e suas inúmeras formas de
análise. Um dos elementos mais importantes nesse ínterim é o conceito
de paisagem, que representa um dos aspectos mais notórios e
necessários para a compreensão do mundo em que vivemos.
A paisagem é, pois, os aspectos perceptíveis do espaço geográfico, isto
é, a forma como compreendemos o mundo a partir de nossos sentidos,
tais como a visão, o olfato, o paladar, entre outros. É claro que a visão é,
geralmente, o mais preponderante dos sentidos quando falamos em
compreensão da paisagem, porém não é o único, de forma que podemos
perceber o espaço também pelos seus cheiros, sons, sabores e aspectos
externos.
A análise da paisagem permite-nos verificar as diferentes dinâmicas
concernentes ao funcionamento das sociedades, pois ela revela ou omite
informações, de forma a denunciar as características econômicas,
políticas e culturais que estruturam o processo de formação e organização
do espaço social. Afinal de contas, o espaço geográfico é o resultado de
uma complexa interação entre sociedade e a sua paisagem.
É interessante observar que as paisagens apresentam aspectos e
elementos referentes ao presente e ao passado, que muitas vezes
convivem em um mesmo espaço. Se observarmos, por exemplo, a
paisagem de uma cidade histórica, podemos notar elementos do passado
que foram conservados em conjunto com aspectos do presente ou que
surgiram em tempos mais recentes. Assim, é possível comparar essas
paisagens e observar ao menos algumas de suas principais
características, como a sua arquitetura, estilos culturais e outros.
Além do mais, a paisagem carrega consigo aspectos naturais e também
aspectos culturais ou humanizados. Quando uma determinada área é
formada apenas pelos elementos da natureza, falamos de uma paisagem
natural, mas quando ela apresenta alguma intervenção humana, então
falamos de paisagem cultural, também chamada de “paisagem
humanizada” ou de “paisagem geográfica”.
Uma área de floresta com rios, cachoeiras e animais silvestres constitui
um exemplo de paisagem natural. Já a área de uma cidade ou um campo
de cultivo agrícola são exemplos de paisagens culturais. Em muitos casos,
é possível observar cenários em que os dois tipos se apresentam
conjuntamente, o que representa, ao menos em tese, um equilíbrio entre
natureza e sociedade.

Exemplo de um tipo de paisagem natural sem a intervenção direta do ser humano


Exemplo de paisagem cultural, uma cidade construída a partir da alteração do meio
Não obstante, é preciso considerar que as paisagens também possuem
seus aspectos diferenciados não tão somente pelas suas características
físicas em si, mas também de acordo com o olhar de quem observa. É
comum que duas pessoas diferentes observem uma mesma paisagem e
possuam visões, impressões e opiniões distintas sobre ela, fazendo com
que exista uma relação de identidade e subjetividade entre a paisagem e
o ser humano, o que remete à ideia de cultura, que influencia a forma como
a sociedade enxerga a sua realidade.
  

Conceito de Território
O território é uma das categorias conceituais da Geografia. Seu entendimento é
necessário para uma melhor compreensão sobre o espaço.
 

O Território é um dos principais e mais utilizados termos da Geografia,


pois está diretamente relacionado aos processos de construção e
transformação do espaço geográfico. Sua definição varia conforme a
corrente de pensamento ou a abordagem que se realiza, mas a
conceituação mais comumente adotada o relaciona ao espaço apropriado
e delimitado a partir de uma relação de poder.
Friedrich Ratzel (1844-1904) foi um dos pioneiros na elaboração e
sistematização do conceito de território. Em sua análise, esse está
diretamente vinculado ao poder e domínio exercido pelo Estado nacional,
de forma que o território conforma uma identidade tal que o povo que nele
vive não se imagina sem a sua expressão territorial.
Outro importante autor que discutiu esse conceito foi o geógrafo suíço
Claude Raffestin (1936-1971), que ressaltava o fato de o espaço ser
anterior ao território. Com isso, ele queria dizer que o território é o espaço
apropriado por uma relação de poder. Essa relação encontra-se, assim,
expressa em todos os níveis das relações sociais.
Atualmente, o território é concebido, nas mais diversas análises e
abordagens, como um espaço delimitado pelo uso de fronteiras – não
necessariamente visíveis – e que se consolida a partir de uma expressão
e imposição de poder. No entanto, diferentemente das concepções
anteriores, o território pode se manifestar em múltiplas escalas, não
possuindo necessariamente um caráter político.
O geógrafo Marcelo Lopes de Souza, por exemplo, cita que o processo de
formação territorial nem sempre ocorre por meio de expressões concretas
sobre o espaço. Ele evidencia a existência de múltiplas territorialidades,
como as das prostitutas, as do narcotráfico, as do comércio ambulante,
entre outras.
Assim, os territórios podem possuir um caráter cíclico (que varia com o
tempo), móvel (que se desloca nos mais diferentes espaços) e que se
organiza a partir de redes que se interligam pelo fluxo de informações ou
contatos. Um exemplo de território em rede seria o dos traficantes, que se
organizam em células que nem sempre se encontram próximas uma das
outras, mas que se articulam em redes de transporte de armas, drogas e
comunicação.

As expressões espaciais podem se expressar em redes territoriais


Dessa forma, podemos compreender que o território possui vários níveis,
variando desde o local até o global. Além disso, ele pode se expressar
através de relações naturais ou biológicas, culturais, políticas, sociais,
econômicas, militares, entre outras.
 
Espaço geográfico
 

O espaço geográfico é o palco das realizações humanas, no entanto,


abriga todas as partes do planeta passíveis de serem analisadas,
catalogadas e classificadas pelas inúmeras especialidades da ciência
geográfica.

Quando especificamos o espaço geográfico, como, por exemplo, o


espaço geográfico do Domínio do Cerrado, referimo-nos ao conjunto de
elementos naturais, tais como relevo, clima, vegetação, hidrografia, entre
outros, e a partir dessa análise temos dados homogêneos que nos leva a
pensar que cada um dos elementos será resultado da interligação entre
eles. Por exemplo, o solo do cerrado é rico em hidróxido de alumínio,
portanto sua vegetação sofre reflexos, pois suas folhas e galhos são
retorcidos em razão desse fator. Também sabemos que o clima é tropical
subúmido com um período de seca e um chuvoso, essas informações já
são concretas.

No entanto, surgiram novos conceitos acerca desse tema. A


configuração da hierarquia das cidades provavelmente é proveniente do
estudo do conjunto de atividades de bens e serviços disponíveis para
aquelas populações que vivem nas proximidades (áreas rurais, cidades
menores), nesse exemplo existe um espaço hierárquico e não
homogêneo, como no caso do cerrado.

A Geografia Cultural na análise do ser humano disponibiliza outra


definição para o significado de Espaço Geográfico: lugar onde os seres
vivos, inclusive os humanos, buscam instituir laços afetivos relacionados
ao respeito ou mesmo ao temor.

Os espaços sagrados formados por um conjunto de ritos religiosos e


culturais são exemplos de conceitos que a expressão pode ter.

Sociedade e Natureza
As relações entre sociedade e natureza refletem e produzem as
transformações ocorridas no contexto do espaço geográfico.
 

Desde a constituição das primeiras sociedades e o surgimento das


primeiras civilizações, observa-se a existência de uma intensa e nem
sempre equilibrada relação entre sociedade e natureza. Essa relação diz
respeito às formas pelas quais as ações humanas transformam o meio
natural e utilizam-se deste para o seu desenvolvimento. Além do mais, diz
respeito também à forma pela qual as composições naturais – seres vivos,
relevo, clima e recursos naturais – interferem nas dinâmicas sociais.
Por esse motivo, é importante entender a complexidade com que se
estabelece a interação entre natureza e ação humana, pois, mesmo
com a evolução dos diferentes instrumentos tecnológicos e das formas de
construção da sociedade, a utilização e transformação dos elementos
naturais continuam sendo de fundamental relevância.
Originalmente, os primeiros agrupamentos humanos, que eram nômades,
utilizavam-se da natureza como habitat e também para a extração de
alimentos. Com o passar do tempo, a constituição da agricultura no
período neolítico possibilitou a instalação fixa das primeiras sociedades e,
por extensão, o desenvolvimento de diferentes civilizações. Isso foi
possível graças à evolução ocorrida nas técnicas e nos instrumentos
técnicos, que permitiram o cultivo e a administração dos elementos
naturais.
Com o tempo, as sociedades tornaram-se cada vez mais desenvolvidas e,
consequentemente, produziram transformações cada vez mais avançadas
em seus sistemas de técnicas, gerando um maior poder de construção e
transformação do espaço geográfico e os consequentes impactos sobre
a natureza. Portanto, a influência da ação humana sobre a dinâmica
natural tornou-se gradativamente mais complexa.
Essa influência acontece de muitas formas e perspectivas, como é o caso
das consequências geradas pelo desmatamento, retirada dos recursos do
solo, alteração das formas de relevo para o cultivo (como as técnicas
de terraceamentodesenvolvidas pelos astecas), etc. Após o século XVIII,
com o desenvolvimento da Revolução Industrial, podemos dizer que os
impactos da sociedade sobre o meio natural intensificaram-se de maneira
jamais vista, propiciando uma união de fatores que levou ao aceleramento
da geração de impactos ambientais.
Mas é preciso considerar que a natureza também gera impactos sobre a
sociedade. Essa perspectiva é de necessária compreensão para que não
se considere o espaço natural como um meio estático, passivo, sem ação.
Um exemplo mais evidente disso envolve os desastres naturais, como a
passagem de um forte ciclone sobre uma cidade ou a ocorrência de um
intenso terremoto. Essas são apenas algumas das muitas formas com que
a natureza pode gerar mudanças no espaço geográfico e na constituição
das ações humanas.
Em muitas abordagens, considera-se que há uma interação muitas vezes
caótica e até reativa entre a natureza e a sociedade. Nesse ponto de vista,
entende-se que os impactos gerados sobre a natureza reverberam, cedo
ou tarde, em impactos gerados da natureza sobre a sociedade. Um
exemplo seria o Aquecimento Global, fruto da poluição e da degradação
ambiental (embora, no meio científico, essa teoria não seja um consenso).
Portanto, é preciso considerar que, independente da forma com que se
estabelece essa complexa relação entre natureza e sociedade, é preciso
entender que os seres humanos precisam conservar o espaço natural,
sobretudo no sentido de garantir a existência dos recursos e dos meios
inerentes a eles para as sociedades futuras. A evolução das técnicas,
nesse ínterim, precisa acontecer no sentido de garantir essa dinâmica.
 

Meio Técnico-Científico-Informacional
O meio técnico-científico-informacional corresponde à atual fase dos processos
de transformação da natureza e de construção do espaço geográfico.
 

O geógrafo Milton Santos deixou, como um dos seus principais legados


teóricos, a noção de Meio técnico-científico-informacional, que
corresponde à evolução dos processos de produção e reprodução do meio
geográfico. Para compreender o seu conceito, é necessário entender a
evolução das transformações do espaço, que vão desde o meio natural,
passando pelo meio técnico, até chegar ao período atual, em que há uma
maior inserção das ciências e do meio informacional sobre as formas com
que as produções espaciais ocorrem¹.
Portanto, as três etapas mencionadas (meio natural, meio técnico e meio
técnico-científico-informacional) formam uma periodização do meio
geográfico, conforme a sua apropriação pelas atividades humanas. Assim,
estabelece-se uma melhor noção das relações entre natureza e sociedade
ao longo do tempo.
O meio natural corresponde ao período em que o emprego das técnicas
esteve diretamente vinculado à dependência sobre a natureza, da qual o
homem fazia uso sem propiciar grandiosas transformações. Assim, as
ações de interferência sobre o meio eram, sobretudo, locais, e a
participação das atividades antrópicas, bem como as suas
transformações, era limitada pela harmonização e preservação da própria
natureza.
Milton Santos utilizou como exemplos do conceito de meio natural as
técnicas de pousio, rotação de culturas e agriculta itinerante, em que o uso
do solo limitava-se à sua preservação para manter um equilíbrio entre uso
e preservação da natureza.
A técnica do terraceamento foi desenvolvida em sociedades pré-capitalistas
O meio técnico representa a emergência do espaço mecanizado, com a
introdução de objetos e sistemas que provocaram a inserção das
tecnologias no meio produtivo. Podemos citar como exemplo mais
determinante a I Revolução Industrial, mesmo que antes disso já
houvesse algumas técnicas em que a atuação mecânica existisse e agisse
sobre o meio geográfico.
Assim, nesse período, ocorreu uma crescente forma de substituição ou de
sobreposição dos objetos técnicos sobre os objetos culturais e naturais,
mesmo que essa substituição não tenha se manifestado de forma
igualitária, justa e homogênea nas diferentes regiões e territórios. Nesse
momento, a Divisão Internacional do Trabalho intensificou-se, bem
como a dependência das atividades humanas sobre o uso de maquinários
e instrumentos.

O meio técnico introduziu a produção mecanizada na sociedade


O meio técnico-científico-informacional representa, então, a atual
etapa na qual se encontra o sistema capitalista de produção e
transformação do espaço geográfico, estando relacionado, sobretudo,
à Terceira Revolução Industrial, que, não por acaso, passou a ser
reconhecida como Revolução Científica Informacional, cuja impactação
manifestou-se de forma mais intensa a partir dos anos 1970.
Nesse momento ocorreu uma união entre técnica e ciência, guiadas pelo
funcionamento do mercado, que, graças aos avanços tecnológicos,
expande-se e consolida o processo de Globalização. Um exemplo de
como as técnicas e as ciências estão constantemente se interagindo e
propiciando a expansão do capital pode ser visto na recente ação
promovida pelo Facebook em levar o acesso à internet a comunidades
afastadas por meio do uso dos drones, veículos aéreos não tripulados.

Drones: exemplos do poder de transformação do meio técnico-científico-informacional


Portanto, além de serem técnicos, os objetos também carregam em si a
informação e trabalham a partir dela, o que justifica o nome do atual
período de transformação do meio geográfico. Podemos, então, dizer que
o processo de globalização só se manifesta em seu atual estágio graças
aos avanços propiciados pelo meio técnico-científico-informacional.