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PORTO

( ~. F. VEBISSIMO
Homem, mulher,
essas coisas corpos de
feto começa feminino, depois é que são acres.. passagem
O centados os atributos, digamqs assim, mascu-
linos. Por isso nós, homens, temos mamilos, e
não sabemos o que fàzer com eles. Quer dfieT: 7l~
ria biológica do ser humano é exatamente o inverso
do seu principal mito de criação, em' que a, muJ!ter sai
de dentro do homem. O mito é não apenas um des-
mentido do fato, e do feto, como uma apropriação
masculina de um feito feminino. Ao pôr o primeiro h0-
mem para dormir e retirar sua costela e produzir a
primeira mulher, Deus fez uma paródia de parto, rei-
vindicando para os homens, 110 caso Ele e Adão, a pri-
mazia do ato de dar vida. E com anestesia, um detalhe
que não deve escapar.às mulheres, depois condenadas
por Ele a padecer de toiJos as dores da procriação, e1J-
qJIIl1IIQA hometft, -responsável por tudo, só era conde-
nado a folhear Cams antigos na sala de espe1tl. Todos
os mitos desde os inaugurais, comO toda a cultura hu-
I
~ tina sido J'iOSculinos, mDn contraponto .res~enti-

de Iodo,. como um penetm, esperando em viiQr'f.Ue a vi-


da o ch4me para as SUIJS gmves verdades é obrigádo 'a
inventar: "Uma' história paralela de fantasia. Se você '
concordar que o pénis é ~ órgão que tege ~ história
poralela e que a civil~ se explica como uma an-
gú.nia de poiêncl~ o C11"! Freud quis dizer era que a
mulher invejava (J poderfalocrata, ou justamente o_
que o homem inventou para compenSar o fato de não
ser mulher. Outro mito ~r.
&ta manifestação não.'épaga, não'e encomendada
e não, não esl!Ju pensandQ. em ,mudar para O,. outro se- I
I
xo. É que semprefoi simpatizante.
1
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1
Denise Bemuzzi de Sant'Anna.

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corpos de
passagem

ensaios sobre a subjetividade contempopônea


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{Q Copyright Denise Bemuzzi de Sant' Anna, 200 1

SUMÁRIO
Revisão Marise Leal e Maria CecOia F. Vanucchi
Diagramação de miolo e capa Pedro Barros I Estação Liberdade
nustração da capa WaIl in Front of Sea (Grainy), 2000.
Foto de JFB I Stone Apresentação 11
Editor Angel Bojadsen 13
Notas sobre peso e velocidade dos corpos
Animação 13
A lentidão como escolha 17
O peso da leveza 20
Sant' Anna, Denise BernuZZÍ de 23
O direito à vida eterna
Corpos de passagem: ensaios sobre a
O cliente negociador 26
subjetividade contemporânea I Denise Bemuw de
Sant' Anna. - São Paulo: Estação Liberdade, 2001. 29
Pacientes e passageiros
O pacien te e suas esperas 30
Bibliografia.
ISBN 85 ..7448-043--6 Do hospital ao aeroporto 33
Dor nobilitante e dor sem sentido 38
I. Corpo humano 2. Corpo humano _. Aspectos 39
Tecnologia e novas ~nsibilidades
sociais 3. Hist6ria social 4. Subjetividade I.
Título. Coisas do outro mundo 41
Aerodinanúsmo e liberação 42
01-2465 CDD·302.54 46
Cidades encolhidas
( indlces para caWogo sistemático: 50
Cantatas mediados e imediatos
(
1. Corpo: Culto; Psicologia social 302.54
Um zapping na indústria da alegria 55

Corpo sem limites e totalitarismo fotogênico 65


COPIAR ESTE UVRO, POR QUAISQUER Mmos, CONSTITUl
O dedo de Daoud 71
UMA viOLAÇÃO DA LEGISLAÇÃO VIGENTE

Corpo: última fronteira? 75


Uma similitude ameaçadora 76
Todos os direitos reservados à
A necessidade da hist6ria 79
Editora Es~ção Liberdade Ltda.
Rua Dona Elisa, 116 01155-030 Slo Paulo-SP Sem solo e sem passado: a infonnação-capital 81
Tel.: (11) 3661 2881 Fax: (11) 3825 4239 Atos loucos, atos totalitários 83
e-mail: editora@estacaoliberdade.com.br
. http://www.estacaoliberdade.com.br
\

Passagens para condutas éticas na vida cotidiana 87


Náusea 88
Da liberação social à liberação biológica 90
Exercer a composição 94
Passagem a pequenos exemplos 96 Em um mundo que se fez deserto temos sede
Corpos-passagens de encontrar companheiros.
103
Posse e possibilidade 104 Saint-Exupéry
Elos 105
(
A boa forma e sua bagagem 107
Companheiros 109
AhaS1JeTUS - Chego d cláusula dos tempos;
(
Sutilezas e miséria 121 este é o limiar da eternidade.
A terra está deserta. (
Machado de Assis
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APRESENTAÇÃO

Os textos que se seguem foram escritos ao longo da década de


1990. Resultam de reflexões sobre a atual valorização do corpo
humano, acompanhada por sua intensa exploração comercial.
Expressam os limites do imperativo da beleza e da saúde perfeitas,
assim como a onipresença da mobilidade corporal em expansão:
silhuetas sempre de passagem, percepções sem detença, indivíduos
reduzidos a turistas, consumidores vorazes de novidades, organis-
mos liberados de seu patrimônio cultural e genético incessante-
J

mente ameaçados pelo risco do descarte e do isolamento. )


Há contud~ uma expectativa que atravessa a maioria dos tex-
tos aqui reunidos: abrir espaço para a invenção de relações, ritmos
e rustâncias resistentes à desertificacão da vida. No lugar de pro-
mover a aceleração ou a desaceleração do corpo, o aumento ou a t
diminuição de seu peso) sua liberação ou sua disciplina, talvez o (
. mais dificil seja criar elos entre cada corpo e o coletivo e, ainda,
entre o corpo, seu passado e seu devir. Elos capazes de perturbar a
confortável indiferença que os separa, fomentando coletlvos desti-
tuíQOS do espírito de rebanho.
Seria preciso, talvez, recorrer a alguma engenharia capaz de
religar o corpo às suas potências e às suas virtualidades. Conectá~
lo com a espessura da história e, ao mesmo tempo, abri-lo ao
imponderável. Um sonho e tanto. Mas ele s6 pode ser realizado
sem alarde, nunca totalmente nem de uma vez por todas. Realiza-
ção sempre em curso porqqe faz parte do ordinário, do mundo das

11
coisas banais. Por conseguinte. sua receita não está escondida nos
confins do universo, não é reservada a heróis espetaculares, nem é
exclusiva a monges sábios ou a top models de sucesso. FJa..m!Jlca
está pronta, precisa ser permanentemente construída. E necessita
serr;ercida com os materiais de que cada um dispõe a cada e n ..
contro e a cada separação.
NOTAS SOBRE PESO E
D. B. de S'A. VELOCIDADE DOS CORPOS

<.

ANIMAÇÃO
(

Os passageiros dos primeiros trens logo perceberam o quanto a (


v~locidade dotava a natureza de dinamismo e mobilidade. Através
das janelas dos wagons, eles apreciavam a palpitação de um novo
mundo: montanhas e campos tomavam a forma de figuras moles e
escorregadias, sugerindo imagens surrealistas; durante a noite,
"(
coroada pela luz do luar, a natureza parecia totalmente desperta. (
As árvores ganhavam silhuetas de divindades em ação, asseme ..
l
lhando-se a gigantes numa batalha, ora se aglutinando, ora se dis-
sipando feito fumaça, enquanto cada veículo passava por elas como (
o brilho de vaga-lumes. Cinema? Há um filme dos irmãos Lumiere (
chamado A chegada de um trem na estação de Ctotat. (
A imagem da locomotiva como um ser vivo e veloz, quente e
voraz, composto por músculos de ferro, habita inúmeros romances (
e poemas do século XIX, além de ocupar um lugar privilegiado no (
maquinismo do Modem Style de 1900. Numa época em que a in-
dústria transforma-se na deusa do tempo e as "bestas humanas"
proliferam nos campos e nas cidades, os trilhos estruturam um
imaginário francamente favorável aos sentimentos que sabem COf-
rer com elegância entre os refinamentos tecnológicos da cultura.
Com Zola, as alusões às máquinas da tennodinãmica já haviam
conquistado a linguagem literária. Trens, seguidos por automóveis
e aviões, não tardam a fazer parte da paisagem natural, acenando

12 13
CORPOS DE PASSAGEM NOTAS SOBRE PESO E VELOCIDADE DOS CORPOS

sem pudores para a possibilidade de liberação do homem de sua brações da luz foram solidárias à cinematlzação da percepção de a
geografia e de sua hist6ria, senvolvida durante a procura de formas que, de certo modo, ex~
Entretanto, o mundo criado pela invenção de deslocamentos pressavam a busca de um tempo dinâmico e aberto. Bergson
cada vez mais rápidos também teve seus críticos: 4CTod~ viagem se inspirava artistas inquietos em compreender a duração e a transa
to~a triste na proporção exata de sua rapidez"; no trem não se formação do devir em fluxo histórico, colocando o corpo no centro
trata de viajar, mas de ser uexpedido", pois dentro dele não há grande das ações humanas. Se em 1909 o manifesto lançado por Filippo
diferença entre um viajante e um pacote l • Morte do espé!Ço, !!!!se Tommaso Marinetti acentuaria a necessidade de acelerar o movia
Heine, modificação radical das cores da vida. A febre da velocida a mento dos corpos, antes dele, Etienne Jules Marey já havia realizado
de 2Iia liberdades novas mas fabrica agonjas singulares. Signo de experiências nas quais o principal a ser visualizado era o movi-
libeffiade e progresso, a passagem rápida do trem não tardaria a mento, e não o corpo. Estas experiências favoreceram sobremaneira
evocar novos acidentes e a sugerir uma poss~ade até então o trabalho dos fotógrafos de sensibilidade futurista em substituir a ( 1
iI)usitada de suicídio. A seguir, com a banalização das viagens em duração pelo instantâneo, a clareza das inlagens peJo fiou. a mate a V~
automóveis particulares e o advento das estradas de rodagem, o rialidade dos corpos por sua desmaterialização. André Kertész utí a

desaparecimento de paisagens e de cidades inteiras se acelera: lizou um espelho esfêrico em fotografias de nu feminino, obtendo
n
(~tes, para ir de Paris a Essoyes , conta Jean Renoir, upegávamos imagens de corpos distorcidos, elásticos instáveis. Fluidez dos cor-
1

um trem expresso até Ttoyes, onde aguardávamos a partida de outro pos e desmanche de seus limites.
trem, que nos levava a Pollseot". Enquanto esperava, a família Cézanne escreveu que a natureza tem horror à linha reta4 • Mas,
Renoir podia passear por Troyes e contemplar as esculturas de suas com a invenção das máquinas voadoras, o homem não demora a
igrejas. Mas, ao decidir vi~ar de automóvel, essa parada foi supri- aprendê-Ia5 . A abstração dos corpos e sua desmaterialização tora
mida. Troyes deixou de fazer parte da viagem. Talvez por essa ra- naDl::Se contemporâneas das viagens de avião6 , Vista do avião em
zão, quando perguntaram ao pai de Jean Renoir se estava satisfeito pleno võo, a Terra se assemelha a uma superficie plana, uma tota a
com a mobilidade proporcionada pelo automóvel, o pintor respon- lidade repleta de pontos e linhas. Fotografando o planeta contem-
deu: UNão tenho nada contra o automóvel, mas prefiro a Igreja de plado do céu, as imagens sem alto nem baixo se liberam das leis da
Saint-UrbainH2 • perspectiva. "Estradas, cidades, florestas se transfonnam em brin a
Em meados do século XIX, a palavra velocidade aparece nas quedo de criança"7, como se as coações e as disparidades terres a
competições esportivas e a percepção inaugurada por ela emerge tres fossem subitamente amenizadas, aplainadas, abstrafdas.
na pintura, com Thrner3; mais tarde, a velocidade inspira Monet, Quando a TelTa é vista abaixo do homem, a visão humana alcança
enquanto o adv!!lto da fotografia introduz o instante na atle. A in a uma escala cósmica, extraterrestre. Um primeiro passo para a con-
venção da cronofotografia e a paixão dos impressionistas pelas vi- quista de experiências distantes da condição de terráqueo. A guer-

1. The wurhs of John. Rusktn. E: T Cook e Alexander Wedderbum (orgs.). Londres:


Georges Allen, Ubrary Edition. 1908. t. V. apud Claude Pichois. Vttesse et vtsion du
4. ULettre de P. Cézanne à Félix Klein" in Le cahíer du Coll~ge lnternattonal de
PhtloBophie, n. 8. Paris: Osiris, 1989, p. 319.
r-::Jmonde. NeuchAtel: Baconnlê~. 1973, p. 49.
f L3' Jean Renoir. Escritos sobre cinema, 1926-1971, merrrorias, ensaios e cr6nicas do
grande cinea3tafrands.1rad. A. B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janetro: Nova fron-
5. Antoine de Saint-Exupéry. Terra dos homens. Trad. Rubem Braga. Rio de Janeiro:
José Olyrnplo, 1958, p. 78.
teira, 1990. p. 35. 6. Monique Slcard. La fabrique du regard, 1mages de scitmce et appareils de vision
3. Michel Baudson. "Introducdon" ln Uart et le temps, regaTtÚ ror la quatrteme (XVI-.XX- siecle). Paris: Odile Jacob, 1998, p. 181.
dimension, Mkhel Baudson (org.). Paris: Albin Miehel, 1985, p. 7. 7. Ibidem, p. 178.
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14 15
NOTAS SOBRE PESO E VELOCIDADE DOS CORPOS
CORPOS DE PASSACEM

! ragicamente facilitada com a transformação da abstração A LENTIDÃO COMO ESCOLHA


IÚmeno familiar: incluindo o uso de fotografias, é possível
I )•.tr os movimentos do inimigo e se opor a seus projetoSS.
Se a velocidade dota a naU Ireza e as coisas de uma mobilidade
começo da década de 1980, escreveu Viola: "Toda a super- inusitada, a lentidão realça a força de sua presença, tomando incon-
) planeta havia sido examinada por satélite". Para o artista tornáveis as singularidades da paisagem. A lentidão com seus
,1110, o conhecimento total da superfIcie terrestre por satéli-
channes e seus imponderáveis. Alguns escritores facilitam-lhe o
I ,' uma situação singular, uma espécie de superioridade da
trânsito, evitam colocá-la numa disputa frenética contra os apelos (
'l ,t computadorizada em detrimento das experiências sen·
da rapidez. Como se soubessem que uma lentidão definida como o
!lO espaço. Neste caso, são criados umodos de consciência
contrário da velocidade permanece sua escrava.
': estranhos, comparáveis aos sistemas militares de navega- Pierre Sansot é um deles. No livro Du bon usage de la lenteur lJ
L:omputador, nos quais nâo existe nenhum vinculo sensí- ele não esconde sua desconfiança diante da .I raça de infatigáveis", (
III com o mundo externo, Um foguete pode portanto viajar
criada ao sabor do culto à velocidade, tendo como contraponto a
" ,Ie velocidade sobre a terra tendo por referência apenas as desvalorização da vida conduzida com vagar, passo a passo. Mas
,\,,-()es contidas na memória do computador de bordo, dados seu propósito vai mais além. Deseja atentar para bons usos da len-
' \ IS mais uma vez por satélite. A memória substitui a expe-
tidão. diante dos quais os imperativos da performance e da eficácia (
- I 'liSOrial: um pesadelo proustiano"9. se tomam anêmicos. Por isso. ele não se contenta em receitar um (
i (lade, abstracão e relatividade formam o tripé de inúme· bálsamo para a ansiedade que agita sem cerimônia o cotidiano
I'lt'!ncias humanas posteriores ao advento do automóvel e contemporâneo. É como se Sansot estivesse todo o tempo afir- l
j Ilnclonando como condição de sucesso, poder e riqueza.
mando: a lentidão não precisa ser exclusivamente o oposto da ve .. (
I I I () náo cessa de lembrar o quanto "a corrida é ellminat6-
l~e. E nem deveria deftnir-se pelo que supostamente lhe falta.

Ir (listâncias. anula intervalos, suscita muito mais o uso de Pois ela não resulta de um traço defeituoso do corpo ou do caráter.
[" que da reflexão. Antes dele, Roland Barthes alertara não significa apatia, falta de imaginacão ou de-energia, não se as- l
I radoxo expresso pela velocidade: ''A 2000 por hora!,. em
semelha a um 9.uerer sem cora m n~m a um molengar alheio à {
, 1\ Istante, nenhuma sensação de velocidade
ll
o movimento ,
realidade. A lentidão não requer degredo. possível defini-la de (
I ' i percepção óptica, tem-se a impressão de que o corpo
diferentes maneiras e experimentar muitos de seus channes.
lunado. Numa palavra. o movimento transforma-se em Os mais apressados talvez duvidem da existência de algum
l ) jet-man, diz Barthes, define-se por uma cinestesia da uso fascinante e moderno da lentidão. E, se utilizam a lentidão (
l<le lllO • Em velocidades assim, voar deixa de ser uma aven- apenas como meio para serem belos, ainda não compreenderam o
r ' rtigem do vôo se transforma em mera mudança de dese- principal: não se trata de ser lento ou veloz de maneira fotogênica.
,lda. impassivelmente, por um visor. As viagens a jato Há também outro tipo de pressa: aqueles que solicitam um guia
,Iortanto, a arrancar os viajantes não apenas da Terra, para apreender a lentidão o mais rápido possível. Buscam os ata-
'd S vínculos com a humanidade.
lhos, menos pelo que neles há de original e mais pela redução do (
tempo que estes atalhos prometem ao conhecimento de qualquer
179. originalidade. Todavia, as dúvidas e reivindicaçóes apressadas de-
"Le son d'une Ugne de balayage". Trad. Giovanna Minelli, 1n Chimms. saparecem quando, no lugar de conceber a lentidão como deficiên-
.ciation Chimere5, p. 113.
ll'lhes. Mitologias. 6a ed. Trad. Rita Buongermino e Pedro de Souza. São
,-1 ,1985. p. 62. 11. Publicado peja Ed. Payot & Rlvages, 1998.

17
CORPOS DE PASSAGEM NOTAS SOBRE PESO E VElOCIDADE OOS CORPOS

cia, ela passa a ser entendida como uma escolha. Uma escolha que de descansar para o trabalho 0ll._.a o direito de usufruir do lazer
nada tem de passivo. após o labor.
Os exemplos para usar de boa maneira a lentidão são diversos, Nã: ociosidade, os prazeres prescindem de justificativa e os e-
cotidianos, banais, ao alcance da maior parte dos seres humanos. ventuais desgostos não funcionam como aberrações sem sentido.
Não é necessário cursar uma universidade para aprendê-los, nem . Sabe-se que a conquista da velocidade criou novas lentidões e
procurar algum consultório de relaxamento e de combate ao estres- muitas delas foram transformadas em erro, assim como a genera-
,
I

se. Escolher a lentidão não requer ciência nem mudanças abrup- lização da positividade do trabalho criou o ócio como anomalia.
tas para algum pais isolado da pressa habitual. Não é preciso chegar Aristóteles abominava a uvida de gado", vida sem espaço para a
a desertos e florestas selvagens, ao cume de montanhas e a outros contemplação e a política. Vários escritores do século XIX também
locais distantes das cidades para exercê-la. É possível experimentâ- desejaram sociedades nas quais os homens poderiam substituir a
la dentro das mega16poles. Seu uso pode inclusive reavivar o gosto corrida atrás do dinheiro pela dedicação às artes. Paul Lafargue
pelo realismo mágico fonnulado pela estética da velocidade. E pode, reivindicou o direito ao ócio, em pleno século de consagração das
igualmente, suscitar o encanto dos momentos acusados de serem massas destinadas unicamente ao trabalho. A procura de um tem-
somente a purgação do corpo em longas esperas. po perdido bem que poderia incluir a busca de ociosos e ociosi-
Escolher a lentidão não se deve forçosamente à vontade de ser dades dispostos a não tingir o trabalho com as cores do puro esforço.
mais saudável no futuro, embora a saúde possa efetivamente me- Assim como não há receita para o ócio, não há como planejar o
lhorar. Também não exige a aquisição de mais idéias, mais imagens, bom uso da lentidão. A única pista é justamente não planejar, não
mais deslocamentos. Pois não se trata de acrescentar coisas, e sim querer se apoderar de mais um guia, de mais uma fórmula para
de lidar com aquelas que já existem em cada um, para cada um. obter calma, equilíbrio e saúde. Como se a escolha da lentidão
Há uma semelhança entre os bons usos da lentidão e a expe- fosse também a possibilidade de suspender o desejo de Uviver sem-
riência de certos tipos de cansaço. Como aqueles narrados por Peter pre mais".
Handke: "A inspiração do cansaço diz menos sobre o que é preciso
fazer do que sobre o que se pode deixar de fazer. Cansaço: o anjo
que toca o dedo de um rei que sonha, enquanto os outros reis conti- Por vezes, a necessidade de desacelerar e de viver lentamente
nuam a dormir sem sonhos"12. é inconsciente, involuntária, ou considerada "dentro do ritmo nor-
Tal como a lentidão. o cansaço parece dotar a vivência de uma mal". O adjetivo lento resulta de comparações e é fruto de medi-
espessura densa e por vezes indivisa. Chrétien, outro pesquisador das, sempre culturalmente determinadas, historicamente sujeitas
que escreveu sobre o cansaço, sublinha a opacidade e o peso caracte- a modificações inusitadas. Quando a histórica conquista da veloci-
nsticos dessa experiência. Mas também admite que Ciuma tempora- dade cria novas lentidões como se estas fossem somente seus opos-
lidade sem cansaço seria irreal"13. E seria igualmente irreal uma tos, todo o peso material tende a ser percebido como mero obstáculo
escolha da lentidão que não se dispusesse a acolher a espessura a ser ultrapassado, aniquilado. O peso do corpo é um deles. Sócrates
do tempo, o peso de sua presença, a riqueza ofertada pela variação já havia sido porta-voz de um antigo sonho: escapar da resistência
de seus ritmos. Nesse aspecto. a lentidâo também se aproxima do da matéria, pois "o corpo nos causa mil dificuldades" 14. Ver-se livre
ócio, definido como espaço~tempo singular, irredutível ao dever do peso do corpo e de seus imponderáveis, na expectativa de atin-
gir o céu e se transformar em éter, espírito, escapando assim da
12. Peter Handke. Essai sur la fatigue. Paris: Gallimard, 1991, p. 65.
13. Jean·Louis Chrétien. De la fatigue. Paris: Minuit, 1996, p. 11. 14. Platão. Phédron. Trad. E. Cham2I)', 66a·67a. Paris: Garnier; Flammarlon, 1965, p. 115.

18 19
CORPOS DE PASSAGEM
NOTAS SOBRE PESO E VELOClDADE QC!S CORPOS

rispida passagem do tempo: antiga ambição de durar eternamen- para emagrecer que lhes pareceu bem mais pesado do que o seu
te. Ou de colocar a eternidade abaixo dos próprios pés. Dentro de pr6prio peso. Ou então foram chamado.s a dotar sua gordura de
um avião em pleno vôo, atinge-se o céu, mas também uma mudan- alguma utilidade pública, transformando-a, por exemplo, em ca-
ça nas referências religiosas e geográficas: "Náo se esqueça; abaixo pacidade para o trabalho duro, ou em ~avesseiro acolhedor das
dos mares de nuvens ... é a eternidade". Saint-Exupéry já alertara lágriinas alheias (encontramos no livro ode Béraud a imagem dos
para aquela doçura de nuvens que rodeía os passageiros dentro do "bons gordos", que servem de conselhe~st confidentes, cupidos
avião: na verdade, uma grande cilada"'5.
fl
ou co~o grandes humoristas). Como se o~ gordos precisassem com-
pensar o peso do próprio corpo, sendo fiéis produtores de alegria e (
de consolo. Outros, ainda, foram encarregados de aquecer com
ironia a memória hoje esquecida das virtudes que muitos corpos
o PESO DA LEVEZA pesados possuem. O personagem do livro mencionado não deixa
(
de ser irônico ao indagar: "Você já ouviu falar que a prudência é a
Em seu livro sobre o martírio de um obeso, o escritor Henri virtude cardinal do elefante?".
Béraud apresenta os dilemas de um homem "vasto" e apaixonado, Mas, em sociedades que trocaram o valor da prudência por aquele
porém desconfiado de que o suspiro amoroso estava "proibido ao do risco, os elefantes parecem figuras de outro tempo. Aliás, enten-
(
hipop6tamo"16. Numa sociedade que, desde pelo menos a década de-se por elefante branco uma obra destoante, não apenas porque o
de 1920, começou a nutrir uma franca aversão pelos gordos, a branco não é a cor habitual daquele animal, mas também porque se (
paixão tende a se transformar num bem exclusivo daqueles consi- trata de um animal pesado e grande. Em sociedades que valorizam
derados esbeltos. Apaixonado e gordo, o personagem criado por o risco e a leveza, desprestigiando a prudência e o peso, a presença
de elefantes de qualquer tonalidade (assim como os pesados e abun-
(
Béraud é abundante em suas lembranças de tempos menos duros
para com os corpos pesados. Durante o reinado de Luís XIv, lem- dantes seres de qualquer raça) não é prevista nem desejada. Muitas
bra ele, a palavra esbelto nem existia. Mesmo em tempos mais re- vezes, os espaços citadinos e seus equipamentos são os prtmeiros a
l
centes, como em 1900, os corpos redondos ainda exibiam o charme excluir a presença dos seres pesados e grandes: em escolas, cine-
(
de seu peso com orgulho: «O apetitoso Eduardo VII dava o tom". mas, teatros e aviões as cadeiras e poltronas costumam ser mais
Gordura era formosura. Ainda não havia se tomado sinônimo de confortáveis aos magros e pequenos. Há maçanetas que não aco..
doença e nem ofuscava o charme de milhares de homens e mulhe- lhem as mãos cheias, assim como há portas que muitos gordos não l
res dotados de ventres proeminentes, testemunhos de um certo conseguem ultrapassar. Quando além de gordo se é pobre, a dificul·
(
prestígio social. dade ganha peso. Uma empregada doméstica gorda precisa de muita
Foram inúmeras as sociedades que acolheram com alegria a inventividade e, sobretudo, paciência, para utilizar os minúsculos
presença dos gordos e desconfiaram da magreza, como se esta ex- compartimentos destinados aos serviçais naqueles "puxados", ha-
pressasse um déficit intolerável para com o mundo. Magreza lem .. bitualmente chamados de área de serviço, dentro dos modernos (
brava doença e o peso do corpo não parecia um pesar. Entretanto, apartamentos brasileiros. Além do elemento humano, a aversão ao
no decorrer deste século, os gordos precisaram fazer um esforço pesado se trallsforma facilmente em intolerância a vários seres;
inclusive às árvores frondosas, por vezes consideradas obstáculos
às ruas tomad~s por carros lépidos e cada vez mais aerodinâmicos.
15. Antoine de Saint-Exupéry. Op. cit., p. 18.
Em sociedades nas quais o espaço ainda não foi totalmente trans-
16. Henri Béraud. U martyre de l'obêse. Imprlmerle Nauonale de Monaco. Paris: Albin
Michel. 1922. fonnado em mercadoria. ocupá-lo com um pouco mais de corpo

20 21
CORPOS DE PASSAGEM NOTAS SOBRE PESO E VELOCIDADE DOS CORPOS

não é interpretado como uma invasão. Além disso, em sociedades dadas à apreciação da gordura, a magreza toma .. se solidária ao
para quem o tempo não é somente dinheiro, o gordo náo representa antigo imaginário da limpeza, constituido pelo fascínio diante da
perda de velocidade e, portanto, de riqueza e poder. E, ainda, em transparência e o repúdio perante a acumulação. Nelas, o corpo
sociedades que desconhecem a paixão pela democracia, o gordo não magro evoca uma economia de tempo para quem o aprecia: olha-
é visto como um individuo que come além da parte de alimentos se mais rápido um magro do que um gordo. diria um desses padres
que lhe é de direito l7 • Por vezes, a intolerância aos gordos é penneada ou cientistas fascinados por higiene. E, continuariam a dizer, con-
pela desconfiança de que eles são proprietários exclusivos de majes- templar um gordo exige um tempo maior de quem contempla,
tosas digestões, como se estas fossem um luxo perverso, sintoma de sem contar o risco de se perder na gordura, de patinar entre uma
uma desigualdade social por eles planejada. Ou ainda: os gordos evo- curva e outra. Para eles, a gordura liga-se ao turvo, ao esforço em
cam uma imobilidade angustiante para os herdeiros da raça homo percorrer grandes distâncias e, ainda, a um constrangedor silên-
americanus, intolerantes em relação aos vinculos estáveis. cio. Os corpos grandes lhes sugerem o abafamento de sons, a para-
Mas não sejamos tão generosos com aqueles considerados ma- lisia do olhar, o estancamento da agitação infantil. A ausência da
grosl Suas agruras também causam indignação. Gordos e magros gordura, ao contrário, lhes é eloqüente e promete movimento.
não são vistos de maneira uruvoca. Antigas aversões à magreza Mesmo quietos, os corpos magros lembram o estalar de membros
convivem sem transtorno com a intolerância à gordura. Especial- pontudos. Como se fossem ásperos, sugerindo gritos mais do que
mente quando o magro é interpretado como um 4'saco sem fundo", lamentos, agitação de nervos no lugar de sua discrição. Como se a
que come de tudo vorazmente. Como se o magro fosse mesquinho magreza fosse solidária aos extremos do gelo e do fogo.
porque não mostra em seu corpo os resultados de seu grande ape- Certas partes dos corpos magros lembram quinas de móveis,
tite. Come e não engorda: o cúmulo da avidez. Onde vai parar tudo bicos de aves, galhos de plantas. Diferentemente dos gordos, os
o que ingere? Eis uma indagação que lhe é feita com freqüência, magros parecem talhados com grande rigor, sem hesitação, desti-
não sem uma ponta de inveja, outra de admiração e outra de tuindo qualquer possibilidade de se ser indeciso e opaco. Para
desconfiança, afinal, visto desse modo, o magro também contraria aqueles que assim pensam, a única maneira de despertar um ver-
o gosto pela repartição democrática dos alimentos. De onde emer- dadeiro interesse pelos gordos é lhes repetir aquilo que o persona-
gem as associações entre magreza e avareza, magreza. e maldade. gem gordo de Béraud ironicamente disse: "Os obesos escapam dos
E há quem diga: um colo magro não é um colo; o abraço de um mistérios da morte, eles são como os edredons dos navios que,
magro não aquece nem conforta. Compensar a magreza, tal como depois dos naufrágios, não são atingidos pela ação das ondas e se
no caso da gordura, exige trabalho. Este trabalho pode ser braçal salvam, pois flutuam sobre o mar u1a •
ou intelectual, mas evocará sempre um certo transtorno emocio-
nal, um excesso de combate. O jovem Philippe Soupault, magro e
pálido, seco como um prego, não queria aparecer de corpo e alma.
Coincidentemente, os f~tasmas apareciam em seus poemas e ro- o DIRmo À VIDA ETERNA
mances. Fantasmas não têm peso.
Apesar das agruras d~ magro, ele não contradiz o fascínio atual A vida eterna é designada ao espírito e não ao corpo, insistem
pela velocidade e pela trânsparência. Em algumas culturas pouco os religiosos de várias igrejas. O corpo mortal não acompanha o
espírito em sua vida imortal e eterna. Vira pó, perece. Fassbinder

17. Claude FIschler. • Obeso benigno, obeso maligno" ln DenIse B. de Sant'Anna (org.),
Polfttcas do c01'p(}. São Paulo: Estação Uberdade, 1995, p. 69-80. 18. Henri Béraud, op. eit.

22 23
CORPOS DE PASSAGEM NOTAS SOBRE PESO E VELOCIDADE DOS CORPOS

lembra dessa terrível diferença entre corpo e alma com pesar: esta Evitar que o corpo seja um obstáculo para poder entrar em todos
diferença "sempre acaba nos vencendo". Há um espírito, diz ele, os lugares, passar por todos os tempos, navegar em meio a diferen-
u que , de um ponto de vista existencial, pode livremente movimen .. tes culturas. Por isso, o homem voltado à transparência também
tar·se pelo espaço, e um corpo com tripas, argh ... "19. é inquieto e incerto, amedrontado de não ser suficientemente 1
i,
Muito do imaginário ocidental associa o espírito à capacidade ágil, criativo, flexível. Buscando desvencilhar-se do peso de tudo o
de passar por todos os lugares sem tropeço, atravessar qualquer que tende a repousar sobre si, ele teme carregar muito corpo, (
porta ou pensamento, vencendo, livre de choques ou dificuldades, muita memória, muita identidade. E se vê ameaçado constante-
(
os limites do tempo. Enquanto o corpo pennanece ligado à terra, mente pela vertigem da compulsão consumista e pela depressão
dependente dela, preso ao peso, às cores e às necessidades materiais, aniquiladora.
o espírito é imaterial, transparente. A antiga paixão por essa figura O sociólogo Ehrenberg, pesquisador das figuras do individua-
etérea nem sempre, contudo, esperou consagrá..la com o martírio lismo moderno, alertou, recentemente, para a historicidade das
(
e a morte do corpo. Em sociedades devotadas a laicizar a vida e a doenças relacionadas ao aumento das cobranças feitas a cada in-
(
reconhecer a importância do corpo, uma parte daquela antiga pai· divíduo, em contraposição à retirada das instituições públicas e
xão pela alma foi transmutada na busca por um corpo transparen .. privadas das responsabilidades sociais, especialmente aquelas li-
te, imaterial, eternos capaz de se movimentar por muitos espaços e gadas à saúde. No livro sobre "o cansaço de ser eu mesmo", ele
(
ultrapassar todas as fronteiras. demonstra quanto a depressão está intimamente relacionada a
Em seus belos estudos sobre o sofrimento, Bertrand Vergely contextos em que homens, mulheres e mesmo crianças são cha- (
mostra o que seria o protótipo do corpo transparente num ser huma· mados a decidir sozinhos e permanentemente sobre o que deve ~
no fascinado pela imaterialidade fisica. Segundo Vergely, no mundo ser comprado, vendido, consumido em nome de sua saúde e bem-
(,
deste ser, a felicidade deixa de ser uma virtude para se transformar estar. Ele não tarda a concluir que a livre escolha é hoje uma nor-
em objeto de consumo, não apenas num dever mas também num ma, enquanto ser proprietário de si mesmo é o símbolo maior de
direito. A saúde toma o mesmo rumo ao substituir a salvação reli- civilidade. \
giosa. Por conseguinte, o homem transparente é impaciente, apres- Mas a criação desta espécie de "indivíduo soberano", liberado
(
sado, correndo o risco de ser compulsivo e depressivo. Ele vê na das coações familiares, geográficas, religiosas, morais (e, mais re-
velOCidade o signo do dinamismo e na transparência a imagem de centemente, genéticas), é acompanhada pela emergência de pato-
um mUndo que oferece a possibilidade de passar por tudo e todos logias relacionadas ao receio de não dar conta de escolher, de não (
sem nunca ser detidow. IãI como um espfI'ito. Ele acha natural conseguir atuar de modo livre, respondendo a todas as conseqQen- (
substituir o direito à saúde pelo direito de não mais morrer. tes responsabilidades. "Não dar conta" de si mesmo, em SOciedades
(
Depois do direito ao rejuvenescimento, o direito à pennanência. nas quais o ~~ f!1~mo" se tornou um neg6cio de total responsabi-
Nem que para permanecer seja preciso trocar de sexo, de sangue, lidad~e cada um toma-se um novo fantasma, tão terrível quanto
de cabelo, em suma, de corpo. E não apenas uma única vez, nem o antigo fantasma das culpabilidades escondidas a sete chaves. (
de uma vez por todas. Trocar de corpo sem cessar, de acordo com Ehrenberg postula que, enquanto a emancipação reivindicada pe-
as circunstâncias, como quem troca de site, de roupa, de shampoo. los movimentos de maio de 1968 contribuía para reduzir os dra-
mas da culpa e da obediência, ela também conduzia milhares de
indivíduos rumo ao aumento de responsabilidades e à necessida-
19. Rainer Werner Fassbinder. A anarquia dafantasta. Rio de Janeiro: Zahar, 1988,
p. 116. de de adquirir, vinte e quatro horas por dia, espírito de iniciativa.
20 . Bertrand Vergely. La souffrance, coI. Folio, Paris: Gall1mard. 1997. p. 184-5, O Prozac, diz ele, 4Anão é a pílula da felicidade, mas aquela da ini-

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CORPOS DE PASSAGEM NOTAS SOBRE PESO E VELOCIDADE OOS CORPOS

lembra dessa terrível diferença entre corpo e alma com pesar: esta Evitar que o corpo seja um obstáculo para poder entrar em todos
diferença "sempre acaba nos vencendo". Há um espírito, diz ele, os lugares, passar por todos os tempos, navegar em meio a diferen-
"que, de um ponto de vísta existencial, pode livremente movimen- tes culturas. Por isso, o homem voltado à transparência também
tar-se pelo espaço, e um corpo com tripas, argh ... "19. é inquieto e incerto, amedrontado de não ser suficientemente
Muito do imaginário ocidental associa o espírito à capacidade ágil, criativo, flexível. Buscando desvencilhar-se do peso de tudo o
de passar por todos os lugares sem tropeço, atravessar qualquer que tende a repousar sobre si, ele teme carregar muito corpo,
porta ou pensamento, vencendo, livre de choques ou dificuldades, muita memória, muita identidade. E se vê ameaçado constante-
(
os limites do tempo. Enquanto o corpo pennanece ligado à terra, mente pela vertigem da compulsão consumista e pela depressão
dependente dela, preso ao peso, às cores e às necessidades materiais, aniquiladora.
o espírito é imaterial, transparente. A antiga paixão por essa figura O sociólogo Ehrenberg, pesquisador das figuras do individua-
etérea nem sempre, contudo, esperou consagrá .. la com o martírio lismo moderno, alertou, recentemente, para a historicidade das
e a morte do corpo. Em sociedades devotadas a laicizar a vida e a doenças relacionadas ao aumento das cobranças feitas a cada in-
(
reconhecer a importância do corpo, uma parte daquela antiga pai- divíduo, em contraposição à retirada das instituições públicas e
xão pela alma foi transmutada na busca por um corpo transparen- privadas das responsabilidades sociais, especialmente aquelas li-
te, imaterial, eterno, capaz de se movimentar por muitos espaços e gadas à saúde. No livro sobre "o cansaço de ser eu mesmo", ele
(
ultrapassar todas as fronteiras. demonstra quanto a depressão está intimamente relacionada a
Em seus belos estudos sobre o sofrimento, Bertrand Vergely contextos em que homens, mulheres e mesmo crianças são cha-
mostra o que seria o protótipo do corpo transparente num ser huma- mados a decidir sozinhos e permanentemente sobre o que deve
no fascinado pela imaterialidade fislca. Segundo Vergely, no mundo ser comprado, vendido, consumido em nome de sua saúde e bem-
(
deste ser, a felicidade deixa de ser uma virtude para se transformar estar. Ele não tarda a concluir que a livre escolha é hoje uma nor-
em objeto de consumo, não apenas num dever mas também num ma, enquanto ser proprietário de si mesmo é o símbolo maior de
direito. A saúde toma o mesmo rumo ao substituir a salvação reli- civilidade. \
giosa. Por conseguinte, o homem transparente é impaciente, apres- Mas a criação desta espécie de "indivíduo soberano", liberado (
sado, correndo o risco de ser compulsivo e depressivo. Ele vê na das coações familiares, geográficas, religiosas, morais (e, mais re-
velOCidade o signo do dinamismo e na transparência a imagem de centemente, genéticas), é acompanhada pela emergência de pato-
um mUrído que oferece a possibilidade de passar por tudo e todos logias relacionadas ao receio de não dar conta de escolher, de não
sem nunca ser detid0 2U • lal como um espirito. Ele acha natural conseguir atuar de modo livre, respondendo a todas as conseqüen .. (
substituir o direito à saúde pelo direito de não mais morrer. tes responsabilidades. "Não dar conta" de si mesmo, em sociedades
(
Depois do direito ao rejuvenescimento, o direito à pennanência. nas quais o "si Il]~,smo" setOrnou um negócio de total responsabi-
Nem que para permanecer seja preciso trocar de sexo, de sangue, lidad~e cada um. torna-se um novo fantasma, tão terrível {)uanto (
de cabelo, em suma, de corpo. E não apenas uma única vez, nem o antigo f~tasma das culpabilidades escondidas a sete chaves. \
de uma vez por todas. Trocar de corpo sem cessar, de acordo com Ehrenberg postula que, enquanto a emancipação reivindicada pe ..
as circunstâncias, como quem troca de sUe, de roupa, deshampoo. los movimentos de maio de 1968 contribuía para reduzir os dra- \
mas da culpa e da obediência, ela também conduzia milhares de
indivíduos rumo ao aumento de responsabilidades e à necessida-
19, Rainer Werner Fassbinder. A anaTquia da fantasia. Rio de Janeiro: Zahar, 1988,
p.116. de de adquirir, vinte e quatro horas por dia, espírito de iniciativa.
20. Bertrand Vergely. La sauffrance, coI. Folio. Paris: Gallimard, 1997, p. 184-5. O Prozac, diz ele, Unão é a pílula da feliCidade, mas aquela da ini-

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CORPOS DE PASSAGEM NOTAS SOBRE PESO E VELOCIDADE OOS CORPOS

ciativa Jl21 • Não por acaso, em empresas de várias partes do mundo, meça a ser vivida como um acontecimento único, destacado da
a valorização do espírito de iniciativa é evidente, especialmen te existência, através do qual tudo termina para quem morre. E, com
quando associada ao abandono dos sistemas de hierarquia de ins- o desenvolvimento da vida metropolitana, este acontecimento único
piração fordista em favor de estruturas leves e pouco autoritárias. entra na era industrial. A procissão deixa de ser feita passo a passo,
Em contrapartida, Uesta nova leveza n resulta no aumento da inse- torna-se uma fila de automóveis passando quase depercebida pe-
gurança material e psicológica dos trabalhadores, na criação de las aveTÚdas movimentadas. Como lembra Gadamer, desaparece
indivíduos ansiosos, fortalecida pela adoção de empregos tempo~ 1.0 cortejo no qual cada um retirava seu chapéu diante da majesta-
rários, precários e incertos 22. de da morte"23. A morte é desmistificada e ingressa, juntamente
Quando a nonna não é mais fundada sobre a disciplina e a com a vida, na produção técnica da economia modema. Como
culpa, e sim sobre a responsabilidade e a iniciativa, aqueles que escreveu Paulo Leminski, Uhoje, a morte está difícil. Tem recursos,
não conseguem ser responsáveis e ter iniciativa são considerados tem asilos, tem remédios. Agora a morte tem limites. E em caso de
insuficientes. Ora, o deprimido tem dificuldade de fonnular seus necessidade, a ciência da eternidade inventou a criônica. Hoje,
projetos~ falta-lhe energia, motivação e, em particular, iniciativa. sim, pessoal, a vida é crônica"24.
Já o compulsivo tem dificuldade de cessar de consumir ou de pro~ A ambição. de limitar a morte é o outro lado da moeda da von-
dum. Deprtmido e compulsivo, duas figuras intimamente relacio~ tade de tomar a vida ilimitada, eterna, ··crónica". E, quando a na-
nadas a sociedades em que a iniciativa se tomou um valor maior e turalidade do envelhecimento do corpo desaparece, a frenética
toda decisão uma experiência individual e solitária. busca pela conservação da juventude já se transformou em equi-
valente geral de riqueza. Conservação antes concebida como virtu-
de ou vicio, hoje transformada em objeto de consumo (diet ou light),
através da medicina, da higiene e das técnicas de embelezamento.
"
<
o CUENTE NEGOCIADOR HTodos os desejos humanos de imortalidade contêm um pouco
da mania de sobreviver", escreveu Canetti. E, se "a forma mais bai-
Há quem diga que a ambição de durar eternamente brota ao de- xa de sobrevivência é a de matar't25, talvez seja possível pensar que
parar com o primeiro enterro. O luto, o cemitério, as lojas funerárias a forma mais arrogante de sobreviver seja a de querer permanecer
e toda a atua11ndústria da morte expressam a transfonnação desta eternamente. Mas este querer custa caro. A industrialização dos
num comércio rentável, mas também revela a impossibilidade de tratamentos para a aquisição de um superávit de vida não cessa de
durar para sempre. Quando boa parte da infãncia era vivida em transfonnar milhares de pacientes em clientes, sequiosos por garan-
quintais, SÍtios e roças, a criança podia descobrir a diferença entre tir seus direitos de consumo e coagidos a negociar constantemente
vida e morte ao deparar com uma fruta apodrecendo sobre a terra, o preço de cada tratamento. Evidentemente, nesta negociação, a
enquanto outra começava: a amadurecer no alto de uma árvore. Ta1~ responsabilidade pelo que é comprado e consumido tende a recair
vez a morte ainda parecesse conter alguma amenidade na medida mais sobre o cliente do que sobre o vendedor. Por conseguinte, o
em que não se destacava áa vida. Como se a morte fosse discreta.
Mas, em algum momento, a amenidade se esvai. A morte co- 23. Hans·Georg Gadamer. Philosophie de la santé. Paris: Grasset-Mollat, 1998, p. 72.
24. Paulo Lerntnsk:1, "O que passou, passou?" ln Melhores poemas de Paulo Leminski,
Fred G6es, Álvaro Martins (seleção e apresentação). 4 11 ed. São Paulo: Global, 1999,
21. Alain Ehrenberg. La fatigued'~tre sol. Paris: Odile Jacob, 1998, p. 203. p. 186-7.
22. Luc Boltanski e Eve Chiapello. Le Nouvel Esprit du cap1ta1tsme. Paris: Gallimard, 25. Elias Canett1. Massa e poder. São Paulo: Melhoramentos; Brasilia: UnB, 1983,
1999. . p. 251.

26 27
CORPOS DE PASSAGEM

indivíduo instigado a agir como cliente, comprador de quantida-


des crescentes de saúde e bem-estar, corre o risco de ficar cada vez
mais solitário e responsável por suas decisões, assim como por seus
lucros e prejuízos. Vencer e fracassar tornam-se respectivamente (

um mérito e um demérito relacionados unicamente às suas quali- ," (


dades e deficiências.
PACIENTES E PASSAGEIROS*
(

"O ilimitado do corpo substituiu outros ilimitados, hoje mais (


discretos"26, disse Vigarello, acerca da tendência contemporânea
em transformar o corpo numa entidade cada vez mais profunda,
complexa e sensível, enquanto a importância das transcendências (
religiosas e dos grandes projetos ideol6gicos é reduzida. Desde en- (
Quando frei Dainião se internou pela última vez, circulou em
tão, a vida eterna que o corpo quer alcançar não é como a eterni- (
Recife o boletim O Damic1mico. Talvez pouca gente se lembre des-
dade há muito prometida ao espírito, oscilante entre um céu de
te curioso boletim. Nele foram listadas as gafes cometidas por jor-
tranqüilidade e um inferno de sofrimentos. A eternidade do corpo
nalistas ao informarem sobre o estado de saúde do frei, falecido
exige um Cristo que no lugar de ressuscitar e subir aos céus pos- (
em 1997. Eis algumas delas: ''A situação de frei Damião é muito
sua um corpo imortal e permaneça na Terra. A cruz não lhe seria o
grave, mas ele passa bem"; teFrei Damião está em morte vegetativa";
martírio maior, apenas mais um obstáculo a ser vencido. No lugar
"Frei Damião permanece em coma artificial"; "Caso piore, frei
de Cristo, um performático herói do cinema ou da televisão. Pois a
Damião vai entrar na tubulação" 1.
eternidade almejada para o corpo não inclui os sentimentos que o
Para além do aspecto desastrado destas frases, é espantoso o
atravessam, nem os acontecimentos do mundo. Thata-se de uma
desconhecimento que expressam sobre o funcionamento da tec- l
eternidade parcial. Ela deixa a maior parte dos sentimentos e acon-
nologia empregada nos hospitais para o prolongamento da vida. (
tecimentos ao relento, vulnerável aos ventos constituintes das
Longe de ser exclusivo dos profissionais da midia, este desconhe-
mutações da história, ao sabor das águas, do fogo e da terra que (
cimento atinge a mator parte da população: fora dos círculos mé-
formam a geografia dos sentidos que nos ultrapassam. (
dicos, há pouca informação sobre a rotina hospitalar e os pacientes
em coma, ligados a máquinas. (
Toda situação similar ao coma de frei Damião desafia padrões
(
éticos e questiona o vocabulário cotidiano. Faltam palavras para
nomear estes pacientes que parecem vivos num certo sentido e (
mortos em outro. Falta entendimento e formas de expressão capa- (
zes de dar conta disto que se assemelha a um terceiro tipo de vida, (
\
garantido pelas tecnologias hospitalares. Faltam, enfim, critérios para
(
• Publicado na revista Interface, abri12000. (
26. Georges Vigarello. "Le grand bleu, la technique et l'alibi: Delage dans l'Atlantique", 1. Folha de S. Paulo, 5 de junho de 1997.
ln Communícattcms, nO 61. Paris: Seuil, 1996, p. 47.

28 29
CORPOS DE PASSACEM PACIENTES E PASSAGEIROS

designar esta existência, na qual o indivíduo (seria ainda um indi- hospital (que vem do latim hospes) sugere os termos hospedaria e
víduo?) repousa. sobre um não-Iugar, entre a vida e a morte. hóspede. Mas, na medida em que a cura deixou de ser aceita como
"Ficar" entre a vida e a morte não é uma possibilidade nova na resultado da evolução normal das doenças, o hospital se tornou
história da medicina. Mas, graças ao desenvolvimento tecnológico um espaço destinado a curar e, ao mesmo tempo, "uma escola de
das últimas décadas, esta possibilidade ganhou uma duração ou- aprendizado I1ara a morte"3. Aprendizado difícil pois, mesmo nos
trora inusitada: o espaço entre a vida e a morte se dilatou, a ponto hospitais ou alas hospitalares semelhantes a hotéis cinco estrelas,
de criar uma situação por vezes constrangedora para os familiares a transformação do indivíduo em pacien te inclui a vivência de uma
e amigos do paciente, pois eles também passam a viver uma espé- série de separações e, por conseguinte, de sofrirpento. Uma vez
cie de terceiro estado: nem estão totalmente de luto, nem podem internado, o paciente sofre uma ruptura com seu cotidiano, desen-
ll
comemorar verdadeiramente a volta do paciente à vida. cadeadora de um sentimento de Ufalta de existência como se ele ,

Talvez, como lembrou Jankélévitch, quem não morre não vive. ficasse repentinamente em déficit para com o mundo: separa-se da
A eterna vida de uma flor de estufa, por exemplo. é uma eterna farnllia, da residência, do bairro, do trabalho, dos amigos e começa
morte 2 • Mas não é somente nas situações de coma que se busca a a experimentar um constante desfazer de suas certezas e identi-
vida ao lado da conservação ou da retenção. O constrangimento de dades; suas diferenças de sexo, idade e profissão tendem a ser anu-
não saber como classificar aqueles pacientes em coma e a dificul- ladas em favor da condição de paciente; ele deixa de ter direitos
dade em lidar com os sentimentos de seus familiares não são ex- sobre o pr6prio corpo e se vê separado, de modo abrupto, da vida
clusivos às situações de enfermidade grave. que, dia a dia, construía e reconstruía sua identidade. Em diversas
Desde que os hospitais incorporaram tecnologias industriais e alas do hospital, a ausência de rostos, paisagens e objetos familiares
a cirurgia se tomou uma prática amplamente hospitalar, inúmeros acentua a perda de referências e o sentimento de abandono. Nas
produtos químicos e diferentes máquinas passaram a nutrir o tra- UTIs, este aspecto ganha contornos mais graves. Nestes locais, os
(
balho científico e o lucro de grandes empresas. Contudo, a decodi- pacientes deitados em seus leitos parecem diminutos diante de
ficação deste trabalho é raramente partilhada com toda a sociedade. toda a aparelhagem à qual seus corpos estão ligados.
A tendência geral é conhecer suas especiftctdades somente quan- A vivência de separações inclui a fragmentação do tempo, do
do se vive a experiência da internação, diretamente ou através de corpo e das atiVidades. A una em do conta-got nesse caso.
amigos e familiares. exemplar.-Em alguns casos, o visitantes são admitidos a conta-
gotas, enquanto toda a rotina do hospital que precede e sucede as
cirurgias parece ritmada pelo pinga-pinga: muitas infonnações so-
bre o estado do paciente, o potencial dos remédios prescritos, os
o PACIENTE E SUAS ESPERAS horários das cirurgias e da upróxima injeção" também são transmi-
tidas a pacientes e familiares em conta-gotas, aos pedaços. O que
Em várias partes do mundo, a decoração e a arquitetura hospi- implica viver sob a angústia da espera. ESEera-se o próximo remé-
talar tornaram-se semelhantes às de hotéis, aeroportos e shopping dio, oe!'óximo diagnÓstico, a próxima visita, a próxima refeição, o
centers. Espaços globalizados que incorporaram a presença de jardins próximo banho, o próximo dia e a próxima noite. Por vezes, a roti-
artificiais, pisos coloridos, quadros, salas de televisão, cabeleirei- na de esperas cria para o doente, com seus sofrimentos e solicita-
ro, lanchonete, salas de espera com jornais e revistas. A palavra
3. Michel Baudson. "[ntroduction" ln Cart et le temps, regareIs sur la quatrilme dimen-
2. Vladimir Jankélévltch. La morto ParIs: F1ammarlon, 1977, p. 449. sion, Michel Baudson (org.). p~: Albín Michel, 1985, p. 7.

30 31
CORPOS OE PASSAGEM PACIENTES E PASSAGEIROS

ções, a constrangedora sensação de que ele é um obstáculo ao bom confiança, podendo, assim, reduzir o constrangimento do pacien-
funcionamento do hospital. te provocado pela exposição constante de seus males e de suas
(
Ao transtorno de viver dependente dos cuidados alheios, pode- intimidades fisicas. 1ratar pacientes adultos como crianças pode
se somar aquele provocado pela quebra da conexão entre práticas resultar de uma intenção de reduzir a vergonha daqueles que, pos-
que, na vida do indivíduo fora do hospital, possuem alguma con- sivelmente, sentem-se embaraçados em precisar expor suas dores
tinuidade: o corpo do hospitalizado transfonna-se no prtncipallugar e sofrimentos a grupos de desconhecidos. Este embaraço possivel-
para manipulações descontínuas e fragmentadas; ele é freqüente- mente não existiria se, na vida diária, fora do hospital, não houves-
mente tratado por partes e abstraído através de exames e fichas de se tantas censuras e aversões à expressão da dor e da doença. Mas, (
cadastramento; a subjetividade do paciente é reduzida à identifi- como vivemos numa cultura em que a vergonha de estar doente (
cação de elementos corporais - sangue, genes, óvulos, espermas, parece ter sido naturalizada, talvez seja apenas desculpável se quei-
órgãos, ossos, etc. - passíveis de mensuração e avaliação científica. xar da dor quando se é criança, quando não se é totalmente res-
O indivíduo se torna divisível na medida em que a intimidade de ponsável pelo próprio corpo. Além disso, as referências à infância
seu organismo é exposta dia e noite. também podem servir como refúgio, uma maneira de acalentar a <
Corpos em pedaços, do mesmo modo que o sono do paciente, dor resultante da interrupção da vida produtiva do paciente4 •
(
que tende a ser cortado em diversas partes, transtornando a
alternância entre dia e noite. Mas a imagem da fragmentação tam- (
bém inclui os funcionários que cuidam dos pacientes. Freqüente-
mente, em hospitais grandes, muitos funcionários, inclusive Do HOSPITAL AO AEROPORTO
(
auxiliares de enfermagem, vivem uma rígida divisão de tarefas que
acaba clnâií1cI()"em muitos "pedaços" o trabalho hospitalar: nesse Transportar pacientes entre as alas é uma rotina hospitalar. (
caso, naos encarregados de verificar a pressão arterial, os respon- Especialmente o transporte daqueles que partem ou chegam de
sáveis pela retirada do sangue, os que trazem a comida, que carre- cirurgias: há qualquer coisa de viagem nesta experiência de ser
gam as macas, que nmpam o paciente, etc. O corpo de cada paciente transportado, admite Pouchelle em sua pesquisa etnográfica5.~
l
passa por dezenas de mãos, é visto, vasculhado e examinado por gem, transporte, suspensão da vida, mas também a presença de um (
inúmeros profissionais, de ambos os sexos e diversas idades. Os espaço muito parecido com o das viagens aéreas. A conotação ae- (
funcionários, por sua vez; passam seus dias manipulando inúmeros ronáutica do espaço hospitalar não é apenas subjetiva. No aspecto
corpos, vendo e presenciando diferentes tipos de sofrimento. tecnológico, o ar condicionado e os fluxos laminários horizontais
A ruptura com a vida cotidiana desencadeia uma carência de para eliminar a poeira foram primeiramente concebidos pela Nasa (
presença: enfermeiras funcionam, por vezes, como "doadoras" de para as cápsulas espaciais6 • Além disso, um novo conjunto de pes- (
presença e de atenção, "doadoras de tempo", figuras fundamen- quisas visando criar estações de trabalho em "telepresença" é atual- (
tais para reestabelecer os laços entre o paciente e a vida. A imagem mente sustentado tanto pelos fundos do Advanced Research Project
(
de anJos, mensageiros e mediadores entre a vida e a morte, ainda
se mantém, apesar da precariedade das mensagens e dos contatos 4. A este respeito ver Ana PUta. Hospital- Dor e marte camo oficio. São Paulo: Hucitec, <
estabelecidos. Em alguns casos, enfermeiras e auxiliares de en- 1990.
fermagem utilizam o diminutivo para se referir às partes do corpo 5. Marle-Christine Pouchelle. "Transports hospitaliers, extra·vagances de l'âme" in
Gestions religieuses de ÜI sanei, François Lautman e Jacques Maitre (orgs.). Paris:
do paciente (peminha, bracinho, mãozinha). Talvez porque lhes L'Hannattan, 1995.
pareça que, desse modo, seja possível transmitir algum afeto ou 6. Ibldem, p. 271.

32 33
PACl~ E PASSAGEIROS
CORPOS DE PASSAGEM

Agency quanto por aqueles da Nasa. Entre os objetivos destas pes- servando se estão presos a cintos de segurança, vigiando suas pos-
quisas está o de realizar a distância e de modo telerrobotlZado in- turas e auxiliando em eventuais indisposiçóes fisicas, E lembram
telVençóes cirúrgicas complexas. igualmente os anjos, mediadores e mensageiros aéreos, afinal, "ae-
romoça é uma moça do ar"7. .,"-"- - -
Viagem no espaço e no tempo: distanciados da rotina e de suas
experiências habituais, os pacientes, e também os passageiros de Como nos hospitais, nos aviões e nos aeroportos existem divi-
um avião, tendem a transfonnar o passar das horas numa de suas sões de classe e concentração de conforto para uma minoria. Mas
principais referências. Nos hospitais, a tirania do tempo do rel6gio todos estão sujeitos a acidentes, à morte, ao sofrimento ocasiona-
mostra-se coberta de razão, afinal, o respeito a ele pode salvar vidas. do por temores e indisposições. Os passageiros quase não vêem os
Mas é interessante observar o quanto a consulta às horas também é pilotos nos aviões, assim como os pacientes quase'náo vêem os mé-
freqüente entre os passageiros de avióes. Como se durante a passa· dicos nos hospitais. Vê-los é sempre motivo de preocupação e, ao
gem para outro lugar fosse quase impossível deixar despercebido o mesmo tempo, de alívio.
mover dos ponteiros do relógio. Como se esta fosse a única referên- Quase suspensos do cotidiano de cada cidade, hospitais e aero-
( .
cia capaz de ligar o passageiro à sociedade. Por isso, também, no portos funcionam como uma espécie de habitante estrangeiro pouco
aeroporto, a vivência da espera raramente passa despercebida. integrado, como se eles tivessem um pé dentro e outro fora das fron-
A espera da decolagem e a espera da cirurgia envolvem fre- teiras hist6ricas e geográficas dos diversos municípios, O arquiteto
qüentemente tensão, dúvida e receio. No aeroporto, antes de o pas- Renzo Piano disse que um aeroporto Hé quase um avião que não
s~geiro embarcar, ele deve passar pela sala de espera em que se
voa", no qual circulam pessoas de várias partes do mundo: ccHá.
encontram apenas os passageiros, e não mais os familiares e ami- qualquer coisa de universal na idéia de um aeroporto"8. Universal
gos que porventura não vão viajar. No hospital, ao ser conduzido e com tendência a aumentar a variedade de serviços, tal como
para a cirurgia, o paciente vive freqüentemente alguma espera, na ocorre com os hospitais. Recentemente, muitos hospitais começa~
(
qual ele está s6, oujunto com outros pacientes também destinados ram a contar com lojas, postos bancários, restaurantes, entre outros
a uembarcar". E, no momento do "embarque", a semelhança de serviços. Ao mesmo tempo, muitos aeroportos foram construídos
alguns hospitais com os aeroportos chega a ser flagrada inclusive fora das cidades e passaram a incluir vários de seus serviços e fun-
quando as informações sobre qual vai ser a pr6xima cintrgia são ções. Assim, diversos aeroportos deixaram de ser apenas um lugar
transmitidas por uma espécie de torre de comando, como se o pa- de embarque e desembarque. O aeroporto de Schiphol, por exem-
ciente fosse um avião esperando a decolagem. plo, próximo de Amsterdã, reúne restaurantes, hotéis, supermer-
Os indivíduos tornados pacientes no hospital e passageiros no cados e escritórios. Há uma população que procura este aeroporto
aeroporto passam por uma espécie de transporte que inclui uma como quem procura a cidade: para realizar as compras de casa,
entrega de suas vidas: entregam seus corpos e seus pertences pes- trabalhar e se divertir. Em várias partes do mundo os aeroportos
soais a profissionais desconhecidos e a equipamentos tecno16gicos incluem a presença de lojas, restaurantes, bares, piscina, business
cuja compreensão lhes escapa. Durante cirurgias e viagens, os cor- center, etc. De fato, quanto mais o aeroporto se afastou da cidade,
pos permanecem sob o comando de especialistas encarregados de mais ele passou a ser uma uaerocidade".
pilotá-los. Tanto os passageiros dos aviões quanto os pacientes dos Desde o primeiro aeroporto criado em Londres, em abril de 1920,
hospitais tendem a ser separados de suas bagagens, convidados,
ainda que discretamente, a manterem-se calmos e dóceis. As aero- 7. Segundo a aeromoça Yolanda Esturba, ln Giselle Beiguelrnan. No ar, 60 anos do
moças, tais como as enfermeiras, também fornecem informações aeroporto de Qmgonhas. São Paulo: Infraero, 1996, p. 85.
em conta-gotas, também cuidam dos corpos dos passageiros. ob~ 8. Robert Bordaz. Entretiens Rnbert Bordaz, Renz.o Piano. Paris: Diagonales, 1997, p. 64.

34
35
CORPOS DE PASSAGEM PACIENTES E PASSAGEIROS

(
até os megaaeroportos da década de 1990, passando pela criação do permaneceu em meio a todas estas mudanças, diz Ribeiro, é "o
aeroporto francês de Roissy e pelo aeorporto de Kansai, construido homem que sofre e morre"ll.
sobre o mar, numa imensa ilha artificiat os seus freqüentadores Ao contrário dos hospitais, os aeroportos atraem visitas volun-
deixaram de ser somente pessoas ilustres e pertencentes à elite9 • tárias. Alguns aeroportos, como o de Kansai, no Japão, tomaram- (
Atualmente, os passageiros são também pessoas anônimas e da se templos da modernidade, uma vez que expressam o refinamento
classe média, que viajam por lazer ou a trabalho. (
tecnológico contemporâneo. Neste aspecto, aeroportos, do mesmo
A banalização das viagens náo retira delas, contudo, todo o seu modo que os shoppings, integram-se ~m majestosos e custosos (
aspecto extraordinário. Banalização paralela à transformação dos projetos arquitetônicos, servindo, entre outras coisas, para osten- I\
aeroportos em locais de atendimento de companhias de aviação, tar internacionalmente o poderio econômico de determinad~s
passageiros e acompanhantes, contando com inúmeros serviços empresas.
que incitam o consumo de alimentos, roupas e diversáo. Na capi- O ano 1000 foi para a Europa o tempo das catedrais, mas o de
tal paulista, o aeroporto de Congonhas chegou a ser um espaço de 2000 dá lugar à transformação de aeroportos e shoppings em no- (
lazer domíngueiro das famílias e um ponto de encontro da boemia vas catedrais da indústria, da publicidade e da técnica. Nestas ca-
(
paulistana, uma vez que o "café do aeroporto" ficava aberto 24 tedrais contemporâneas há a fruição não mais do sagrado, e sim
horas. do laico consumo. Se nas antigas catedrais pretendia-se abrir pas-
Com a emergência dos aviões a jato, houve uma verdadeira sagem para o tratamento do espírito, nas novas a atenção é para a (
revolução na história da aviaçâo, que redefiniu a infra-estrutura passagem dos corpos.
(
aeroportuária e as relações entre o aeroporto e a cidade. Embora Nos aeroportos, por exemplo, trata-se de embarcar milhares
os motores dos aviões comerciais fossem de pistão, suas perturba- de corpos vivos ao céu. Voando, estes corpos se liberam provisoria- (
ções sonoras eram consideradas de nível aceitável. Mesmo quando mente da geografia e das temporalidades que regiam suas vidas na ('
os motores quebravam, o barulho ainda possufa alguma similitude Terra. Urn desligamento tão fascinante quanto aterrador. Para o !'(
com a barulheira de louça quebrada. Mas, a partir da década de aviador Saint· Exupéry, um desligamento desse tipo libera alguns
1960, a natureza do barulho mudou na proporção da evolução dos sonhos e sufoca outros: "A prisão não está ali onde se trabalha com l
motores. Uma vibração e um barulho até então desconhecidos fo- a enxada. Não há o horror mat.erial. Aprisão está ã1i, onde o traba- (
mentaram a necessidade do afastamento dos aeroportos do espaço lho da enxada não tem sentido, não liga quem o faz à comunidade (
urbano. dos homens. E nós queremos fugir da prisão" 12 • Talvez existam
Os hospitais também sofreram inúmeras modificações no de .. milhões de homens e de lugares carentes de sentido, contribuindo (
correr de sua longa história, incluindo a transfonnação da morte para desconectar populações inteiras, não apenas de suas casas, seus
numa missão hospitalar, assim como a tarefa de avaliar tecnologias
<
bairros e suas culturasj desconectá-las, também, de seus corpos. (
médicas de ponta10 . Ribeiro lembra que o hospital contemporâneo
não é apenas uma instituição que se modificou; ele é uma institUÍ- (
ção nova, com processos de trabalho, administração, finalidades,
instrumentos e características antes inexistentes. O elemento que

9. François Bellanger e Bruno Marzloff. Transtt, les lieux et les temps de la mobilité. 11. Ibidem. p. 31.
r:l Paris: De I'Aube, 1996, p. 15·25. 12. Antoine de Saint·Elmpéry. Thrra dos homens. Trad. Rubem Braga. Rio de Janeiro:
~ He~ Ribeiro. O hospital: história e crise, São Paulo: CoI1~ 1993, p. 28-9. José Olymplo. 1958. p. 241.

36 37
CORPOS DE PASSAGEM
PACIENTES E PASSAGEIROS

DOR HOBILITANTE E DOR SEM SENTIDO


dessa época, "repleta de sangue e pontuada por gritos do pacien-
te"14~ ainda sugere o suplicio. Tudo muito diferente de hoje, quan-
Quando a anestesia foi descoberta, em 1846, a dor ffsica ainda
do a cirurgia está mergulhada no silêncio, levando médicos e
possuía vártos sentidos. Podia exercer um papel enobrecedor: re-
pacientes a travar novas relações com a tecnologia.
sistir bravamente à dor durante a extração de um dente, por exem-
plo, contribuía para a boa formação do caráter, especialmente
quando se tratava do sexo masculino. Muitas narrativas que expu-
nham as penas sofridas em cirurgias e as dores vividas em aciden-
TECNOLOGIA E NOVAS SENSIBILIDADES
tes e doenças continham uma função pedagógica. Ensinavam a
valorizar o ser humano, principalmente as virtudes da coragem e
Entre o médico e o paciente, estão as máquinas. Desde a déca-
da persistência. No lugar de ser um limite para a vida, a dor mos-
da de 1970, os aparelhos endoscópicos, por exemplo, conhecem
" , trava os limites de cada corpo. No Brasil, entre 1890 e 1920, os um franco sucesso e, com a introdução das pequenas câmaras neles
anúncios publicitários para remédios ainda expunham sem cons- fixadas, as cirurgias puderam ser acompanhadas não apenas pelo
trangimentos longas narrativas sobre as dores tIsicas. Como se na- médico, mas por toda a sua equipe, através do monitor de vídeo.
queles tempos fosse mais tolerável do que hoje ouvir os discursos
O interior do corpo do paciente é visto na tela por um coletivo, e é
sobre a dor. A alusão aos prazeres ainda não era uma regra geral da
para ela e não para o corpo real que os olhares de toda a equipe se
publicidade e diversos desenhos e fotografias de rostos crispados
dirigem.
pela dor, pernas, úteros, ventres, enfraquecidas por feridas e ou-
Novamente a cena cirúrgica se transfonna. Nela, ganha den-
tros males, apareciam sem grandes pudores entre as páginas dos
sidade a presença da partiCipação coletiva em tomo do teleVisual.
principais jornais e revistas do país. Não que se fizesse a apologia
A partir da década de 1990, as cirurgias assistidas por computador
da dor. Apenas ela era acolhida com uma naturalidade que pode
tomam real o antigo sonho de fazer da medicina algo ao mesmo
parecer estranha em épocas como a nossa, de extrema naturaliza-
tempo experimental e preditivo. Inúmeras cirurgias deixam de ser
ção da saúde e do prazer infinitos. Existiam, evidentemente, aque-
verdadeiras provas de heroísmo e valentia do paciente diante do
les que faziam da dor o principal sentido da vida. Mas não era
enfrentamento da dor e das incertezas sobre a sua cura. Como se
inusitado encontrar quem insistisse em dizer: é a vida que fornece
as cirurgias, ao serem "micro", entrassem numa fase minimalista,
sentido à dor e não o contrário.
ganhando uma discrição até então desconhecida. As ablações de
O esquecimento dos diversos sentidos que a vida atribuiu à
vesícula biliar, por exemplo~ feitas através da endoscopia, trazem
I dor é sobretudo de natureza histórica. Antes da massificação da
{
vantagens evidentes ao paciente: pequenas cicatrizes, pouca dor e
anestesia nos hospitais, por exemplo, as cirurgias eram completa-
recuperação rápida.
mente diferentes das que conhecemos na atualidade. Ao abordá-
Cirurgias minlinvasivas que implicam, sem dúvlda~ o estreita-
las, Peter sugere um espetá.culo barulhento e pleno de suor, porque
mento dos vínculos entre medicina e engenharia, assim como a
povoado de gritos e de muita força fislca 13. Pacientes amarrados,
criação de novos objetos técnicos exigindo uma coordenação cada
amordaçados, que relutavam e hesitavam em ser operados, ou que
vez mais refinada entre os olhos e as mãos do cirurgião. Uma nova
fugiam da operação; pacientes que, ficando conscientes durante
escala de sensibilidade deve, portanto, ser apreendida pelo cirur-
as cirurgias, gritavam com todas as suas forças. A cena cirúrgica

13. Jean-Pierre Peter. De la dou1eur. PaI1s: Quai Voltaire, 1993. 14. Expressão de Ala1n Corbin em entrevista realizada por Sant'Anna, DeJúse B. de. "Uma
h1st6r1a quase impossível", Proj~ História, n° 19. São Paulo: Educ. 1999, p. 212.

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39
CORPOS DE PASSAGEM

gião. Especialmente a escala referente à sensibilidade táctil. Pois,


numa cirurgia por computador, o cirurgião percebe forças e resis~
tências durante a incisão de tecidos que seriam imperceptíveis se
realizadas com suas mãos diretamente no corpo real l5 , A familiari-
dade sempre exigida do cirurgião para com o corpo doente inclui
agora uma intima relação com a máquina e um aprendizado rela- (
tivo a inusitados usos da força na condução da mão e dos dedos, COISAS DO OUTRO MUNDO*
assim como uma precisão inédita na integração destes com seus
olhos. Tal rede de relações sensiveis e perceptivas é exigida, tam-
bém, quando o cirurgião planeja e simula uma cirurgia através das
técnicas de modelização por computador do corpo do paciente.
(
E, aqui, novamente, a semelhança com o universo aeroviário apa-
rece. Há tecnologias que permitem ao cirurgião repetir sua opera- Em 1908, Sílvio Álvares Penteado tomou-se o «(homem mais (
ção sobre o modelo numérico do paciente "exatamente como se rápido do Brasil". Ele foi o vencedor do Circuito de Itapeceríca,
ele estivesse num simulador de VÔO"16. primeira corrida de automóveis e motocicletas da América do Sul,
Simulação da cirurgia e do vôo, o que pennite aos profissionais um polígono rodoviário com 75 quilômetros de extensão. Em seu
destas áreas a experiência de perspicácias e de percepções novas. esplêndido Fiat, Silvio ganhou a competição com a média horária
Enquanto pacientes e passageiros experimentam novas tecnologias de 50 quilômetros 1• Um verdadeiro recorde para uma época em
que tendem a reduzir o desconforto durante cirurgias e viagens, que os automóveis sem tração animal ainda eram considerados
prometendo mais rapidez e segurança, médicos e pilotos vivenciam "coisas do outro mundo"2.
sensibilidades ligadas ao plano da simulação. Parece que estamos distantes do início do século passado, quan-
Resta saber quais novos receios e expectativas, tanto dos es- do boa parte da população paulistana estranhava o odor de com-
pecialistas quanto dos pacientes e passageiros, são inventados e bustível e o barulho de motores; distantes daquela cidade em que
o aerodinamismo das formas não havia penetrado nos costumes, (
fomentados por estas tecnologias que antecipam, simulam e m~
tualízam as diferentes situações de cirurgia e de vôo. Resta saber nem modificado as aparências. Mas entre os acepipes oferecidos (
ainda, e principalmente, se os sonhos e medos criados por elas pela moda daqueles antigos anos já constava o frisson de correr
sobre quatro rodas em competições esportivas. Quando Sílvio ga- <
têm a potência de reconectar os corpos às suas forças, não exata-
mente para que eles se livrem de uma vez por todas da doença e do nhou aquela competição, "as mais distintas famílias do hig-lif \
acidente, mas para retirar destes o perfil obsceno e antinatural paulista, com a garridice de suas toilletes", mostravam ansiedade f
que a contemporaneidade lhes atribuiu. e alegria diante do ronco dos motoresl. Não demorará muito para
<
(
• Parte deste texto foi apresentada na mesa·redonda do evento Cidade Manifesta
Ceuma (Centro Universitário Maria Antonia), em 25 de novembro de 1997. '
<
1. Diário Popular, 27 dejulho de 1908, p. 2. I
2. Gonçalves, Verginaud C. A primeira corrido. na América do Sul. São Paulo: Larbograf
@ Timothy Lenolr. 14Les Nouveaux Chirurglens", in Les CahleTs de Science & Vie. Paris: Artes Gráficas, 1988, p. 70·1; Paulo C. de Azevedo e Vladimir' Sacchetta. O sdculo
EXcelsior Publ., 1999, p. 58. da autnm6vel no Brarll. Bras1nca, 1989.
16. Ibidem, p. 59. 3. Commerdo de Selo Paulo, 27 de julho de 1908, p. 2.

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CORPOS DE PASSAGEM COISAS 00 OUTRO MUNOO

que a velocidade automobilistica seja espetáculo público banal e um ar anacrônico, lembrava um modo de vida rural distante dos
experiência individual cotidiana. sonhos de ser moderno. Os adeptos do automóvel se esforçavam
Mesmo aqueles que se mantinham "moralistas até o enfado ou para esquecer a milenar proximidade entre o homem e o cavalo.
avaros até o remendo'· já admitiam as vantagens do automóvel para Esquecimento por vezes impossível. Na capital paulista, por exemplo,
o progresso nacional. Aliás, durante a comemoração do sucesso do "o grosso dos serviços de abastecimento" era feito por carroceiros5;
jovem Sílvio, na mansão de Álvares Penteado, foi dito em alta voz durante décadas, os cavalos pennaneceram figuras comuns nas
que, doravante, s6 anda depressa quem anda de automóvel", Era
U ruas do centro, assim como era habitual conviver com os lugares e
apenas o começo da conquista da paisagem urbana pelo automóvel. equipamentos destinados à alimentação e descanso destes animais.
Não foi apenas a paisagem da cidade que o automóvel conquis- Foi preciso algum tempo para erradicar do espaço urbano as
tou. Ele ganhou o espaço rural e a atenção de seus habitantes. As marcas da presença dos animais de carga: a modernidade tecnoló-
competições automobilísticas também funcionaram como uma gica teimava em manter-se cambaleante, ambígua e incompleta.
\ ' espécie de publicidade ao estupendo híbrido homem-máquina em Todavia, o automobilismo não tardaria a confirmar a antiga
alta velocidade. Esta espécie de versão metálica e modema das suspeita de que dominar um carro é dominar o movimento. E o
idílicas visões de centauros e tantas outras quimeras voadoras logo sucesso das formas aerodinâmicas demonstrava que dominar o mo-
conquistaria uma presença assídua na publicidade. E, neste espa- vimento implicava acelerá-lo e generalizá-lo, liberando-o da tração
ço, a imagem do automóvel casa-se rapidamente com a da mulher. animal e dos trilhos. Em nome desta liberação, ganhou importân-
Automóvel e mulher: dois corpos sedutores e promissores, cujas cia um trabalho sobre as máquinas pautado pelo aerodinamismo
"
(
fotografias se tomam banais em capas de revistas de várias partes
do mundo.
das formas. Na Alemanha de 1904, um perfil tubular já havia sido
concedido às locomotivas e, no circuito inglês de Brooldands, em
1907, os automóveis possuíam formas alongadas. Economizar ao
máximo as formas sobre um mfnimo de volume transformava -se na
linha dominante do desenho de automóveis, eletrodomésticos e
AERODINAMISMO E UBERAçlo móveis, uma tendência que se mostrava também em relação à apa-
rência dos moradores das grandes cidades. Corpos longilíneos, ca-
No mesmo ano em que ocorreu o Circuito de Itapecerica, di- pazes de mostrar agilidade e flexibilidade, espeCialmente no
versos recordes marcaram a história do automobilismo e fizeram o trabalho, pareciam fornecer um atestado de decência e elegância
sucesso dejovens aventureiros bem-nascidos. Justamente quando incontestável. Para majorar a saúde e acelerar a produtividade,
a capital paulista ganhou o seu Automóvel Clube4, houve a famosa médicos e conselheiros da imprensa logo se apropriaram do ideal
viagem automobilística do conde Lesdain, entre o Rio de Janeiro e do aerodinamismo: principalmente ao decretarem o fim das rou-
~ão Paulo, com duração de' trinta e seis dias; Antônio Prado Júnior, pas pesadas, dos espartilhos, chapéus e penteados complicados.
outro exemplo, conseguiu, ·~m dois dias, realizar a primeira traves- Entre outrasjustificativas, constava o receio de dificultar a agilida-
sia entre São Paulo e Santos de automóvel. A voga automobilística de do corpo e sua velocidade de locomoção.
havia chegado para ficar e, em seu nome, as ruas da cidade preci- Solidário ao corpo esguio ejovem, o mundanismo das grandes
saram ser alargadas. O transporte puxado por animais ganhava cidades foi coagido a ganhar em leveza: tornoUese adepto dos n0 4

4. Ernani Silva Bruno. Htst6rta e tradições da cidade de Sdo Paulo, v. III. São Paulo: 5. Heloisa de Faria Cruz. Trabalhadores em serviços: dominação e resistência (São
Hucitec, 1984, p. 1082. Paulo - 1900/1920). São PautD: Marco ZerolCNPq. 1991, p. 30,

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CORPOS DE PASSAGEM COISAS 00 OUTRO MUNOO

vos regimes e estâncias minerais, dos xaropes destinados a descon- vestígios vitorianos. E a nudez de seu pescoço alongado dava a
gestionar e acelerar as funções orgânicas, das roupas retas e dos impressão de que sua cabeça pairava acima da possibilidade de ser
vestidos decotados. O organismo humano devia trabalhar cada vez acariciada. Talvez toda a sua silhueta esguia fosse mais um indício
mais rápido, queimar com facilidade os alimentos e transfonná- de que não valeria a pena olhar para o passado, pois nele restavam (
los em energia produtiva. Qualquer semelhança com o motor de apenas promessas e valores que morreram nas trincheiras ou, como (
combustão não é mera coincidência. As máquinas e os corpos des- sugeriu Karl Krauss, não passavam de rpentiras.
(
sa época expressavam a ambição de acelerar suas funções, toman- Como Lulu, outras figuras femininas. se revelaram próximas do
do o imaginário mecanicista excessivamente monótono, repetitivo, automóvel e distantes da Igreja. Modelos de ocasião, essas figuras (
pouco criativo. Filhas da termodinâmica, estas máquinas vão além possuíam o estranho poder de fazer com que homens diversos fQs- (
da repetição dos movimentos: elas transfonnam a natureza das sem reduzidos a um único personagem: mero prisioneiro dos de-
matérias-primas, assim como os corpos transfonnam os alimentos (
sejos da mulher, capturado por seu sexo. Essas mulheres-máquinas
em energia produtiva. inspiraram a mutação do amor fisico em nova utopia moderna: (
Paralelamente, e não por acaso, a moda passou a ser menos possuí-las não era uma bênção, mas a possibilidade de renascer.
uma sucessão de volumes e muito mais um jogo de linhas sobre um E renascer em ambientes votados à mobilidade incessante. Quan-
espaço plano. E, para segui-la, a estética do aerodinamismo forne- ("
to mais a sedução feminina se associa ao autom6vel moderno,
ceu um cardápio desafiador dos valores morais de então: depilação menos ela evoca ' os recintos fechados e estáticos, cobertos pelo (
de pernas e axilas, somada à voga da navalha Gilette e dos cremes veludo vermelho de cortinas e tapetes, nos quais há sempre um (
anti-rugas; modismos que acentuam a aversão aos relevos epidér- perfume guardado em vidro de cristal sobre a penteadeira. Após
micos e a toda superfIcie que não seja um convite ao toque efêmero Lulu, e a partir dela, a sedução começou a traçar constantes alian-
e ao passeio rápido do olhar. ças com o gosto pela diversão em competições esportivas, sugerin-
Este investimento no aerodinamismo dos costumes e das apa- do o espaço aberto, o dia ensolarado, as embalagens portáteis para (
rências se casou harmoniosamente com a valorização do automa- cosméticos, a liberdade das saias e cabelos curtos. A sedução fisica
tismo e dajuventude, com a emergência das lingertes e dos "cabelos se libera do peso do veludo e das sombras, toma-se tão aerodinâ- l
de seda", fáceis € rápidos de pentear. Antes dos anos 1920, o cine- mica quanto os novos bólidos de corrida. (
ma de Hollywood já empregava adolescentes para atuar em papéis Ora, desde o famoso circuito de Brooklands, em 1907, até as (
de adultos, o que parecia compatível com a busca de rostos isentos competições mais recentes, cresceu globalmente o investimento
(
das marcas do tempo, pois havia a impiedosa iluminação Klieg e nas formas aerodinâmicas. Alongamento, polimento e aversão ao
Cooper-Hewitt, com tubos de mercúrio, precursores das luzes fluo- acúmulo de curvas. A htstórta do esporte, do automobilismo ao ci- (
rescentes. As jovens precisavam ter it, uma beleza sintética, ex- clismo, passando pela natação e pela corrida, testemunha o quanto
pressando juventude e agilidade. A imagem da fascinante Loulse o aerodinamismo atingiu roupas e objetos de uso pessoal, asso-
{
Brooks, a Lulu de Pabst, ilustra de modo lapidar a sedução exercida ciando-se, enfim, às atividades cotidianas de trabalho e de lazer
por uma beleza aerodinâmica, salpicada de jCcostumes leves". Numa (
dos pafses industrializados. Com esta espécie de generalização da
sociedade em que as únicas moedas válidas pareciam ser o dinhei- aversão a tudo o que impede a emergência das formas e atitudes <
ro e o sexo, Lulu permitia a circulação de ambos. Mas, se o look de aerodinâmicas, assistimos, mais uma vez na história, ao fortaleci-
Lulu ameaçava os monop6lios morais ciosamente acumulados, ela mento da antiga intolerância ao peso e a toda espera.
o fazia com a graça de uma bailarina. Seus cabelos, severamente
curtos, pareciam anunciar um futuro sem a nostalgia de antigos

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CORPOS DE PASSAGEM COISAS 00 OUTRO MUNDO

ÚDADES ENCOLHIDAS cidade toda se converte num imenso tapete de asfalto, permanece
uma exaustão que não resulta da possibilidade ou da impossibili-
Massitlcadas as competições automobilísticas e transformadas dade de correr. Além do cansaço diante do pensamento único, fre-
em experiências midiáticas comuns, a emoção de ver a passagem qüentemente apontado pelos críticos da globalização, a realidade
dos automóveis de corrida no espaço e no tempo real tende a ser única também exaure: a cidade reduzida a imensas filas de carros,
substituída pela de vê-la na televisão. Quando diversas câmeras fil- sonoridades diversas abafadas pelo rumor automobilístico, além
mam uma corrida, elas a refabricam. Criam novas maneiras de vê- da constante paisagem, quase ininterrupta, careada por oficinas,
la. Não se trata de ver melhor ou pior, mas de ver de outro modo. garagens, estacionamentos, postos de gasolina, entre outros espa-
Diferentes dos espectadores da corrida de Sílvio, que estavam no ços destinados ao automóvel. Como se a cidade inteira tivesse sido
local da partida e da chegada e que viam os competidores apenas feita para ele; embora nem ele consiga circular com facilidade.
num determinado trecho, aqueles que hoje assistem a uma corri- Numa cidade feita para o automóvel e inflacionada com as
da pela televisão podem ver os pilotos várias vezes, de diferentes marcas da sua presença, o pedestre se encolhe. Sustentados pela
ângulos, em muitos locais do trajeto. Ao contrário do espectador necessidade de segurança, assiduamente alimentada pela mídia,
dian te da televisão, o que está ·'plantado no espaço geográfico da emergem por toda parte verdadeiros bunkers imitando cidades,
corrida" sente o frisson diante da passagem fugaz dos automóveis. imóveis universais funcionando como centros de lazer e de encon-
Mas a televisão multiplica o conjunto de infonnaçôes sobre os con- tro. Felizmente ainda são multos os que torcem para que a cidade
\ correntes e cria uma visão de co~unto inacessível ao espectador não mingüe, para que ela resista à tendência de ser puro neg6cio
presente no espaço geográfico do acontecimento. E ela apaga, igual- de especuladores. A cité não cessa de ser destruída mas também
< mente, as sensações vividas neste espaço, impossibilitando os teles- desejada: aversão e paixão pela cidade, numa era de disjunção entre
( pectadores de conhecer odores, paisagens e sons que não sejam os urbs e civitas. Felizmente, também, há quem deseje esticar a cida-
( filtrados e modificados pelos aparelhos de transmissão. de hoje comprimida entre as ruas-rodovias, transformada em gueto
Nesta era de multiplicação acelerada das imagens televisivas, dos shoppings, em periferia de suas novas fronteiras presentes em
"
(
para além do esporte, o ideal do recorde se espa1ha no interior de
inumeras atlvidades. Ultrapassar-se no lazer e no trabalho trans-
todo o espaço urbano: guaritas, condomínios, ruas particulares e
vilas fechadas.
forma-se em regra. Manuais de instrução sobre como beirar os li- Ao contrário do tempo de Sílvio Penteado e de Louise Brooks,
mites de si mesmo para a seguir renov~-los tomam-se best-sellers. hoje há pouco pudor em apregoar as vantagens da liberdade de
Mas nem tudo nem todos acompanham tais corridas ou a elas so- expressão dos corpos, em aceitar velocidades de locomoção outro-
brevivem. Atualmente, fora das telas e dentro da cidade de São ra impensáveis. Entretanto, esta liberdade tem dificuldade de ser
Paulo, por exemplo, nem mesmo as ruas e pontes estão sintoniza- expressa nos espaços abertos e públicos. Hílária situação, especial~
das com a aceleração dos corpos. Ter um carro e cultuar infatiga- mente para a classe média de nossos dias: existe mais liberdade
velmente a sua presença ~ os locais a ele destinados não garante corporal e maior velocidade de comunicação do que no passado,
aos automobilistas a média"horária de 50 quilômetros. Sabe-se que mas estas se concentram em circuitos fechados, privados.
mesmo com sistemas de rodizios, nessa cidade que "não pode pa- Estamos mais conectados e mais isolados. A liberdade e a velo-
rar", bate-se o recorde da demora. cidade de comunicação conquistadas não garantiram a superação
Por conseguinte, há um cansaço em ser coagido a driblar cons- do gritante descompasso entre a minguada vida social nas ruas
tantemente e, muitas vezes, de modo desrespeitoso para com pilo- subllÚssas ao automóvel e a sociabilidade vivenciada em locais fe-
tos e pedestres; o trânsito, a poluição e os buracos. E, mesmo se a chados, incluindo os de rll0radia: nos Estados Unidos, principal-

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CORPOS De: PASSAGEM COISAS 00 OUTRO MUNDO
(
mente na Flórida e na Califórnia, florescem asgated communities, nomadismo, disse ele, pois a primeira impressão é a de que nas
no México há os fraccionamientos cerrados e no Brasil proliferam grandes cidades há nomadismo por toda parte: "tudo circula", músi-
os condomínios separados das cidades, nos quais se desenrola uma cas, chips, pessoas, automóveis~ pois milhares de corpos estão sem-
sociabilidade CCentre semelhantes". Assim como existem nações que pre de passagem. E, no entanto, tudo também parece estar fixo,
imóvel, imutável. Pois há mais agitação do que nomadismo. I.
rejeitam suas partes consideradas desintegradas e pobres, há gru- ,.
pos de pessoas que se divorciam das cidades. Muitas das gated Em meio à agitação, falta espaço par~ criar, fruir, pensar e brin-
cammunities são criadas segundo as preferências e estilos de vida car. Há momentos em que os pedestres,.Goagidos a se submeterem
de seus moradores: existem as voltadas para o contato com a nature- totalmente às necessidades dos automóveis, assemelham-se a ame- <
za, as construidas priorizando o lazer e o esporte, e as que investem bas: estes organismos são considerados os mais simples do reino (
sobremaneira na segurança. animal. Todo estimulo exterior atinge, quase ao mesmo tempo, a
(
Proclama-se freqüentemente que nesta era de ubiqüidade da in- superncie e a profundidade de seu minúsculo corpo. Comparado a
formação as novas tecnologias abrem ao homem a possibilidade de outros organismos, o da ameba parece possuir pouco tempo para
uma reflexão e de uma inteligência coletivas. Entretanto, quando este responder aos estímulos externos. Sua resposta ao exterior deve
mesmo homem está nas ruas das cidades-rodovias, o que ocorre? ocorrer quase no mesmo instante em que o estimulo é recebido.
Uma regressão desconcertante: ele é levado a conceber o outro como Como se agisse sempre por reflexo e jamais pela reflexão.
um estrangeiro ameaçador e a manter sua individualidade a salvo do Por vezes os pedestres são coagidos a reduzir de tal modo o tem-
contato com o outro. Se a interatividade entre homem e máquina po de elaboração de suas respostas aos estímulos da cidade, que (
ocorre no espaço virtual e privado das moradias e instituições - o pouca diferença lhes resta em relação à ameba. Mesmo que haja (
que implica compartilhar experiências -, no espaço geográfico das informação em grande quantidade, não há tempo de assimilá-la: a
(
ruas, compartilhar qualquer coisa tende a ser uma utopia. infonnação acaba sendo simplesmente acumulada. E, se os sinais
Há, certamente, inúmeras situações em que o telefone, o celu .. que não são decodülcados não se tomam infonnação, tem-se uni- (
lar, o fax, a intemet ou a carta são maneiras de se relacionar muito camente barulho. Ou, então, como lembra Guillaume, 4'a acumu-
\.
mais apropriadas do que a presença face a face dos corpos. Depen- lação sem assimilação produz apenas quase-saberes estreitamente
especializados", desprovidos de questionamento criativo 7 • (
dendo do que vai ser dito e ouvido, por exemplo, é preferivel o fax ou
o uso do telefone. Há situações, contudo, em que o encontro entre Há cineastas que, diante da monstruosidade atingida pelo es- (
pessoas no espaço real é o mais adequado ou o mais desejado. Infe- paço urbano, preferem filmar dentro de estúdios e neles recriar a (
lizmente, porém, não é a possibilidade de escolher os meios de comu- própria cidade imaginária8 • Há, também, habitan~s que se refugiam
(
nicação e de transporte de acordo com a circunstância que tem sido dentro de Cidades recriadas nos condomínios, clubes e shoppings.
oferecida à maior parte da população de inúmeras megalópoles. Em O tamanho desmedido de algumas cidades, somado à ausência de
algumas delas, uma vez nas ruas, homens e mulheres tendem a ser atendimento das necessidades vitais de sociabilidade e lazer, pro- (
reduzidos a organismos que náo têm outra preocupação e outro tempo voca medo e cansaço. Pensar em sair de casa desanima em vez de
(
além daqueles dos reflexos desprovidos de toda reflexão. Como se a entusiasmar. Os lugares de algum modo favoráveis à contempla-
cidade se recusasse a ser ureflexiva", a proporcionar o desenvohi- ção, ao descanso, ao namoro e à reflexão tomam-se raros e caros. (
menta da criatividade. Félix Guattari havia proposto a restauração
da cidade subjetiva numa de suas vindas a São Pau106 • Sair do falso 7. Marc GuilJaume. Vempire des réseaux. Parts: Descartes &. ele, 1999.
8. Max Tessier. "La ville dans le dnémajaponais" in CiUs-Cinés. Paris: Ramsay, 1987,
6. Ver Jornal do BrasiL, Caderno Idéias, 29 dejulho de 1990, p. 4. p.143.

48 49
\.

CORPOS DE PASSAGEM COISAS 00 OUTRO MUNDO

Em várias ocasiões, a busca do consumo e do lazer mescla-se ao pressa uma sala à outra e favorecendo, em alguma medida, a am-
desejo de realizar experiências outrora comuns na vida das ruas e pliação da pausa entre os encontros . Estes espaços ofertavam, a
praças. Experiências de sociabilidade, incluindo encontros e con- quem se dispusesse, um tempo de espera, uma duração esticada
templação gratuitos. Dentro de cidades que parecem sem começo capaz de acolher experiências de oração, reflexão, contemplação,
nem fim há. uma massa de pessoas dispersas, procurando lugares verdadeiros intervalos entre a aparição de alguém e seu desapare-
que facilitem a experiência de arrebatamentos inatuais, de elabo- cimento. Como se fossem espaços fundamentais aos hipertensos,
rações reflexivas refinadas e de diversões reconfortantes. Lugares mediações espessas entre o exterior e o interior, contribuindo para
afetuosos, intimistas, ou expansivos, que de algum modo levem o p"rlvar os passantes de deselegantes aparições de supetão, de en-
ser humano a amar o fardo da vida, a esquecê-lo ou a percebê-lo tradas e saídas abruptas. Abrandavam a rispidez de certos encon-
mais leve. Espaços que liberam o fervor juvenil porque não apren- tros, facilitando o cultivo da polidez e da discrição. Mesmo que os
deram a minar a dignidade dos pedestres. Sabe-se que uma cidade usos destes espaços pervertessem tais possibilidades (o que é sem-
contendo tais poSsibilidades não deveria ser uma coisa do outro pre possível), eles tenderiam a ser mais solidários à manutenção
mundo, nem somente um micromundo reduzido a uma dúzia de do trajeto do que à sua abolição. Semelhantes a estes espaços,
shoppings e clubes. muitas moradias, ainda hoje, guardam corredores e ante .. salas que
Mas talvez seja necessário saber. igualmente, o quanto é ur- favorecem a filtragem dos sons e evitam o contato direto entre quem
,
I
gente a tarefa de restituir a cidade a seus habitantes, inserindo no chega e quem sai de cada cômodo.
tecido urbano suas culturas e (o que é fundamental para que este Mas os locais espaçosos não o seriam devido a seu tamanho ou
tecido se mantenha vivo) seus engajamentos. Quando esta inser- forma. Seriam espaços generosos porque não ambicionam guardar
ção ocorre, pode-se falar em termos de habitante comprometido dentro deles apenas "o espaço", deixando o tempo do lado de fora.
( com a cidade, do mesmo modo que esta se compromete em ex.. São espaços-tempos que permitem a quem neles vive o contato
pressar seus desejos, necessidades e responsabilidades 1 sempre com a densidade de experiências sensoriais que envolvem, entre
compartilhados socialmente. outros acontecimentos, a aproximação de alguém.
Ver a aproximação da silhueta de uma pessoa querida é em
(
geral uma alegria. Por vezes, existe pouco tempo e pouco espaço
para usufruir desta visão an6dina, porém singular. Do mesmo
CONTATOS MEDIADOS E IMEDIATOS modo, ver seu afastamento alongar-se em passos não é mais uma
experiência comum, como já fora em outros tempos, quando não
É fácil elogiar os contatos imediatos e os meios que prometem existiam muitos aviões, automóveis, trens e outras tecnologias mo-
o encurtamento dos trajetos ou mesmo a sua abolição. Elevadores dernas.
costumam atrair mais usuários do que escadas. As vantagens da Ver o ente querido aproximar-se ou afastar-se passo a passo é
rapidez e da economia de esforço ffslco parecem indiscutíveis. Mas, ver sua silhueta sendo delineada e apagada no ar, como se a niti-
dependendo da círcunst~cla e dos meios utilizados, há, igualmen- dez do seu corpo se revelasse tão provisória quanto a do passar do
te, muitas vantagens no a~ongamento dos trajetos e na manuten- tempo. Nos primeiros instantes de reconhecimento mútuo, as si-
ção da distância entre os corpos. lhuetas de dois amigos que se aproximam um do outro, por exem-
Em épocas passadas, o longo trajeto de alguns corredores em plo, ainda são pouco discerníveis. É quando se tem a sensação de
conventos e escolas, por exemplo1 náo funcionava apenas como que o outro é uma pessoa conheCida mas ao mesmo tempo não o é
reduto da solidão e da clausura. Existiam corredores ligando senl completamente, pois seus traços familiares ainda não puderam ser

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COISAS DO OUTRO MUNDO
CORPOS DE PASSAGEM

distinguidos. Neste exato instante é comum um franzir do senho distante mas, também, ao mais próximo. A comunicação a distân-
na tentativa de logo reconhecer aqueles traços. Mas é justamente cia não é, contudo, uma novidade. Se compreendida em certo grau
neste momento de alguma incerteza, de leve hesitação, de leve como a separação entre a informação e seu suporte habitual, a
alegria, de leve entusiasmo, que os entes familiares e queridos en- escrita já nasceu como uma "teletecnolagia", ou como a primeira
tre si podem ser vistos com algum estranhamento. Como se esti- tecnologia intelectual que virtualiza a pessoa viva.
vessem sendo vistos pela primeira vez pelos olhos que os viram A emergência do modelo informacional, aplicado ao corpo desde
milhares de vezes. Seus rostos são como que esculpidos no ar; e, o final da Segunda Guerra, propiciou, por exemplo, o desenvolvi-
no ritmo dos passos, abre-se um espaço para que cada um possa mento da técnica Personal Area Network, resultante do amadure-
oferecer ao outro o seu melhor sorriso. cimento do conceito de "informática corporal". Aqui o corpo é
Na medida em que ocorre a aproximação entre eles, as linhas condutor de infornlaçóes contidas em dispositivos eletrônicos co-
e cores de seus corpos perdem a dispersão e os traços conhecidos locados junto à pele. Resultou, ainda, no desenvolvimento de uma
parecem instalados em seus devidos lugares. Mas a vivência do informação corporal compartilhada entre óculos, roupas, cintos e
trajeto evitou que ambas as fisionomias fossem abruptamente re- outros objetos de uso pessoal. Uma comunicação ampliada hori-
veladas ao olhar. Tudo se passa como se os rostos queridos tives- zontalmente, passando pelo natural e pelo sintético, demonstran-
sem acabado de ser pintados ao longo do trajeto, formando desenhos do o quanto a inteligência humana pode ser partilhada com o
suscetíveis de borrar ao primeiro toque. Mas essa impressão dura não-humano. No esporte, aliás, esta tendência é exemplar: tecidos
pouco e é comum passar despercebida. inteligentes, colocados à prova nosjogos olímpicos de Atlanta, con-
Talvez a redução do espaço e do tempo entre os encontros ten- feccionados com as fibras Coolmax e Lycra Power, da Du Pont de
da a vedar a percepção de sua provisoriedade. O artista americano Nemours, ajudam o atleta a manter uma temperatura corporal
Gary Hill, em seu trabalho chamado TaU Ships (1992), produz en- suportável, guardando sua pele seca, além de comprimir seus
contros entre os espectadores (que caminham por um corredor músculos em momentos de choques resultantes de um salto ou de
escuro) e algumas imagens de homens, mulheres e crianças que uma corrida. A comunicação entre sensibilidades humanas e sin-
deles se afastam e se aproximam. A passagem do espectador por téticas é, evidentemente, alimentada pela contaminação entre se-
aquele corredor permite reconhecer a densidade do ato banal de tores aparentemente separados: a estrutura de "ninho de abelhas",
encontrar pessoas estranhas. utilizada em pneus de naves espaciais da Nasa, por exemplo, deu
origem a alguns dos calçados esportivos da Reebok. Tecnologias
impensáveis na época do Circuito de Itapecerica.
Em nossos dias, a redução do espaço se expressa, principal- Voltadas à expansão da comunicação entre corpos, máquinas e
mente, nas máquinas e nos objetos de uso pessoal. Em particular, objetos, essas tecnologias trazem, sem dúvida, a possibilidade de
nos que contêm informação num pedaço bastante reduzido de modificar a secular relação de dominação entre homem e técnica,
matéria. Centenas de objetos eletrônicos tendem a ter a extensão substituindo-a por uma composição de ambos, sem a degradação
de suas distâncias reduzida, o que facilita a tarefa de portá-los. de nenhuma das partes. Mas para que esta mudança seja realmen-
E quando alguns meios de comunicação portáteis favorecem a co- te ampla, compondo, enfim, o desenho de uma rede, não seria ne-
nexão de qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer momento, cessário incluir nela o espaço das ruas? Caso contrário, nas ruas,
independentemente da realidade das ruas, torna-se possível pilotos e pedestres permanecerão limitados a relações autoritárias
miniaturizar também o antigo sonho do acesso generalizado, para com a técnica e com o humano. A banalização de tudo o que é
além dos limites de cada espaço geográfico. Acesso ao mundo mais teletransmissível não poderia ocorrer juntamente com a intensifi-

52 53
,
(
( CORPOS DE PASSAGEM

caçáo de uma espécie de C4 pedestrlanismo"? A intensificação dos


cantatas imediatos não deveria incluir e vitalizar as demais formas
de cantata?
( No tempo de Sílvio Romero e de Louise Brooks, as ruas ainda
eram espaços fundamentais para o acolhimento de experiências
inovadoras com a tecnologia e para a ampliação da sociabilidade.
Hoje, porém, é longe delas que essas experiências parecem ocor- UM ZAPPING NA INDÚSTRIA DA ALEGRIA
rer. Por vezes, há um abismo gigantesco entre aquilo que se pensa
sobre a tecnologia e a vida C4 en tre os nossos", dentro de casa, nas
<'
empresas e universidades, e aquilo que se faz com elas nas ruas.
(
Num congestionamento, por exemplo, o aerodinamismo dos obje-
tos, roupas e atitudes perde o sentido. Ou então ele tende a se
restringir à sua possibilidade mais pobre: a da distinção social.
São de fato muitos os motivos que justificam a necessidade Las Vegas não disfarça: cidade das ilusões, ela é totalmente
urgente de esticar a cidade. Nela foi excluída da possibilidade de dedicada ao lazer de massa. Casas de jogos, music-halls, gigantes·
participar das relações entre o homem e a técnica na qual a per- cos hotéis polivalentes, decorados com motivos que lembram a An-
gunta "quem donúna quem?" é, como na arte, dispensável. Esti- tiguidade clássica ou o Egito do tempo dos faraós. Em Las Vegas, "a
car a cidade, enftm, para que se possa escolher andar a pé ou se história sai de cena"l. E por isso mesmo Las Vegas tem valor indica . .
( tivo. Indica pelo menos duas tendências contemporâneas, dentro
locomover de carro, de metrô, de ônibus, de bicicleta, etc.; para
( que se possa escolher correr, andar ou ficar parado. Cidade esta, e fora da América: a transfonnação da história em pastiche e o es-
treito vinculo construido entre cultura, lazer e consumo, tendo por
tão encolhida ... parece coisa do outro mundo.
resultado a transformação de centros culturais em supennercados.
Quando nenhuma das ações humanas, nem mesmo a diversão
( e a cultura, consegue ser empreendida e experimentada sem a in-
clusão do consumo de suvenires, talvez seja urgente começar a
reivindicar, no lugar de uma política do lazer e da cultura, uma
política do espírito.

Desde o tempo em que Stendhal escreveu suas Mémoires d'un


tounste, os manuais e guias de viagem se espalharam pela Europa.
Eles estimularam o gosto pelas curiosidades gerais, "que merecem
ser vistas", criando uma nova propedêutica do olhar. Não demorou
muito para que os mapas rodoviários fizessem parte dos guias tu-

1. Marc Fumaroli. "La culture et les loisirs, une nouvelle religion d'Etal" ln Commentaire.
I

nO 51. Paris: JuJliard, 1990, p. 432.

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54
CORPOS DE PASSAGEM UM 1APPING NA INDÚ~ DA ALEGRIA

(
rísticos e que os habitantes de regiões pouco conhecidas se trans- Para conhecer as tradições indígenas, por exemplo, é preciso ir às ("
formassem em exotismos captados por fotografias, doravante guar- aldeias mas também aos museus, escolas e exposições de arte. Nada
dadas como suvenires nos álbuns familiares. Não demorou muito, (
garante ao etnólogo viajado e sofisticado de nossa época continuar
igualmente, para que o turismo social incentivasse o estabeleci- encontrando como objeto de estudo povos que não viajam nem se equi- (
mento das primeiras colônias de férias na Suíça e dos albergues da pam. O imperativo da mobilidade e do deslocamento penetrou os
juventude na Alemanha. objetos de estudo; antigas comunidades têm hoje uma grande neces-
(
A associação entre lazer e turismo não é nova. Viajar para com- sidade de se equipar e de serem plugad~ a várias partes do globo.
bater o spleen reinante nas cidades é um conselho médico antigo. Entre os deslocamentos valorizados -.atualmente estão as via-
Antes de a Inglaterra exportar para o mundo suas diligências e o fas- gens de férias. E, para o seu usufruto, a oferta de resorts e hotéis- (
cínio pelas viagens pitorescas, osjovens aristocratasjá conheciam as . fazendas, por exemplo, exibe um cardápio variado: tratamentos de
delícias do ~grande tour" e suas vantagens para a educação do espíri- beleza combinados a diversão, esporte aliado a saúde, repouso as-
to. Bath, cidade que na Inglaterra inventou a estação tennal moder- sociado à descoberta de novas paisagens e à possibilidade de viver
na, foi um centro de lazer disputadíssimo durante o Século das Luzes. situações arriscadas em segurança. Há quem faça a previsão de
Descobrir novas paisagens e expelimentar topografias diferen- que muitos destes megaempreendimentos de diversão vão repre-
tes mobiliza o corpo e estusiasma a alma. Enquanto a herança sentar para o setar o que o McDonald's significou para as lancho-
romântica fortaleceu o amor pelas montanhas, propiciando a fun- netes. Há, também, quem veja nesses novos Edens da ualegria
dação dos primeIros clubes de esqui no século passado, os usos saudável" uma espécie de "disneyização" do mundo e uma gene-
turísticos da praia transformaram várias cidades litorâneas em ralização do padrão shopping: se os telespectadores entraram na
(
modelos de urbanização e de prosperidade. O negotium tomava era do zapping, os turistas estariam vivendo os anos dourados do
(
progressivamente o lugar do otium, e o turismo recriava tradições imperativo comercial, viajando para consumir rapidamente espa-
e exotismos, misturando arqueologia e aventura. Com a conquista ços naturais, comidas exóticas, culturas singulares, novos trata-
das férias pagas, viajar deixaria, enfim, de ser um luxo para funcio- mentos de saúde e, ainda, muita "aventura segura", em fanúlia ou
nar como experiência de massa. entre amigos. Beatriz Sarlo escreveu que nos dias de hoje, usem o t
Atualmente o turismo transformou-se no terceiro produto do zapping ninguém mais assistiria à televisão"3. Talvez sem o turlsmo- (
comércio internacional. perdendo apenas para o petróleo e os anna- zapping e o modo de vida-zapping pouca gente suportasse viver
mentos. O Brasil está distante de esgotar seu potencial turistico mas, sob o imperativo da quantidade e da superficialidade das imagens
(
mesmo assim, é flagrante o aumento de estruturas de lazer destina- comercializadas em massa, não apenas pela televisão, mas por
das ao acolhimento de turistas em várias regiões do país. Nem mes- outros meios e. ainda, no turismo e nos pacotes de lazer. (
mo o "inferno verde" ficou imune à implantação de luxuosos hotéis Há, enfim, aqueles que sublinham a estreita relação entre a
e às excursões que vendem o exótico em pacotes com muita ou vontade de viajar e a degradação da qualidade de vida nos grandes
pouca ecologia, dependendo da preferência do consumidor. centros urbanos: poluição, falta de espaços verdes, insegurança; a
A atual onipresença das viagens foi detectada por James Clifford. lista é longa e inclui problemas novos e antigos. Quando, por exem-
No final da década de 1980, ele sublinhou a dificuldade em dividir plo, o espaço da rua não serve mais para promover encontros mas
o mundo entre populações que viajam e comunidades sedentária.s2 • para deles fugir, viajar nos finais de semana, férias e feriados deixa
de ser uma escolha para ser uma necessidade vital.
2. J. Clifford. The ~dicament ofCulture: 1Wentieth Century EthnographYJ Literature
and Art. Cambridge, Massachusetts: Harvard Un1v. Press, 1988. 3. Beatrlz Sado. Cenas da vida pós·moderna. Rio de Janeiro: UFRJ. 1997, p. 58.

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<
( UM ZAPPING NA INDÚSTRIA DA ALEGRIA
CORPOS DE PASSAGEM
(
( . ~ inegável importância do lazer em nossos dias entusiasma e estilo esportivo. Solidário à descontraçáo das aparências, outrora
mqweta. Justamente quando o mito de Prometeu parece ter sido submetida a complicados pudores, este estilo extrapola o linúte
(
colocado no lugar dos excluídos Dionísio teria finalment . d dos clubes, banaliza-se na publicidade e penetra nas empresas.
? " e, Vlll o
para ficar. Ou seria o conhecido Narciso que, abandonando acida. TaIl!bém ocorre o inverso, pois há uma forte relação entre a lógica
de, pretende inspirar a todos na conquista de "um tempo para si"? da competição no mundo do esporte e o funcionamento da con-
Dedicar ao corpo mais atenção e acumular experiências corrência no universo do trabalho. Em 1993, por exemplo, o paulista
prazerosas ,no lazer não são mais excentriddades de jovens abasta- Arnyr Klink, aventureiro solitário, autor de Cem dias entre o céu e o
dos, ou leVIandades de artistas mundanas e libertinas. Tornaram- mar, foi considerado um must do meio empresarial. Se o trabalho
~e direitos inalienáveis de homens e mulheres comuns, de todas as sobre si, baseado numa versão atlética da vida, concede ao indiví-
Idades e profissões. Principalmente após a Segunda Grande Guerra duo uma liberdade infinita de se auto-administrar, ele o transforma,
a necessidade de momentos plenamente dedicados ao "prazer d~ também, no único responsável por seus fracassos e seus recordes.
s~ cu:w-" é transfonnada em promessa banal na mídia, em reivin- Ser o empresário de si mesmo implica, por isso, acreditar na possi·
dicaçao natural e legítima. SPOTt, sun, sex and sea não tardam a bilidade de transformar seres comuns em campeões. Não por aca-
fonnar os "quatro Stj das férias consideradas ideais. Doravante os so, assiste·se à t'heroização do qualquer um na mídia e, em particular,
It

lazeres ecologicamente corretos e benéficos ao corpo não se~ão nos filmes americanos: pacatas donas de casa, funcionários públicos,
necessariamente aqueles que lutam pela regeneração moral de um crianças e até mesmo animais domésticos tornam-se, rapidamente,
( povo ou de uma raça. As austeras referências à pátria e os eugênicos her6is internacionais; recordistas banais do cotidiano que se en-
projetas de educação corporal, contidos nas excursões e jogos em volvem em experiências artiscadas desafiando seus medos e pro·
voga na década de 1930, por exemplo, serão preteridos em favor saicos vaIares. Eles são a prova do quanto os prazeres extremos,
( de atividades que valorizam o presente imediato, a ICsensação pura ti retirados de aventuras arriscadas, esportivas ou não, podem ser
( e as performances individuais. uma experiência de massa. Aventura democratizada, desde que o
Exemplar a este respeito é o advento do turismo·aventura dos labor de superar os pr6prios limites seja ordinário e constante.
"es~ortes c~orn1anos" (surfe, asa-delta) e dos esportes racllcais . 2) Um trabalho de domesticação dos espaços e de reconstru-
( ção da natureza4 • Reconstrução de cascatas, montanhas e flores-
(rald-nature, mcluindo bungee jumping, escaladas livres, raftings).
AtiVidades diferentes mas que, no conjunto, atualizam o imperativo tas dentro de clubes e resorts, mas, também, fabricação de cidades
do prazer total, de preferênciajunto à natureza. A utilidade públi- totalmente dedicadas ao consumo massivo de diversão. Quando
ca dos antigos lazeres parece esmaecida diante do colOrido inter- foi inaugurado o Terra Encantada no Rio de Janeiro, o Brasil ga-
nacionalizado das roupas esportivas atuais e das atividades que nhou um parque-shopping constituído por ruas com sinalização
buscam aliar diversão a superação dos próprios limites controle em português, inglês e espanhol, personagens inspirados em ani·
d~: emoções a liberação de adrenalina, tecnologia a ecoiOgia, pre- mais sllvestres e em lendas brasileiras,· além de um lago artificial
Clsao dos gestos a evasão dos sentidos. de 17 mil metros quadrados: Disneylãndia e Disney World já haviam
Todavia, o direito ao ~razer total, integrante da atual lnassifi. prescrito a receita: é possível, num mesmo local, reconstruir artifi-
cação d? lazer, não é um~ via de mão única. Prometeu reaparece, cialmente a natureza e acontecimentos históricos ou fictlcíos varia-
pois maIS prazer, mais diversão, mais saúde no turismo e no espor-
te exigem, pelo menos, dois tipos de trabalho:
4. A este respeito, ver, por exemplo, a interessante coletlnea organ1z.ada por Célia M.
1) Um trabalho sobre si, intenso e cotidiano, o que implica
T. Serrano e Heloisa 1: Bruhns. Viagens à natuTeza. TUrismo, cultuTa e ambiente.
uma atenção -crescente ao corpo e um investimento massivo no Campinas: Papirus. 1997.

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CORPOS DE PASSAGEM UM 1APP1NG NA INDÚSTRIA DA ALEGRlA
(

mentos rotineiros e extraordinários. Imita-se também a cidade (


dos, para colocá-los a serviço da diversão de massa. Um local em
~u~, como observou Umberto Eco a propósito da Disneylândia, a modema e, além dela, seu fruto próspero: a cidade-parque ou o
umtação se torna superior à realidade, confirmando que a técnica shopping·cidade. Como são cidades que se liberaram dos limites
pode oferecer mais realidade do que a própria natureza. Uma da geografia, da história, dos tempos e dos espaços locais, elas po-
criança poderá afagar uma cascavel, conversar com um cawboy do dem reinventar a composição entre cidade-diversão-comércio
Velho Oeste, enquanto um rinoceronte de brinquedo lhe parecerá (obviamente sustentando-se sobre um policiamento incessante),
mais convivial e acessível do que um rinoceronte vivo. Em suma, segundo padrões e medidas até então desconhecidos. Em alguns (
quase tudo é possível e (para o alívio de muitos) com a máxima casos as cidades privadas ocupam um vasto espaço aéreo. O proje-
(
segurança. Para proporcionar tamanhas possibilidades, um par- to do megaprédio que chegou à Câmata de São Paulo em 1999
que temático deve ser uma exploração extremamente racional de exemplificava esta tendência: com 510 metros de altura e 108 an- (

um suposto desejo do consumidor-cliente dentro de um espaço dares, este prédio, que seria o maior do mundo, estava projetado
mili~etricamente calculado, do qual se excluem os indesejáveis, para ser uma cidade verticalizada na qual a função dos elevadores
(
ou seja, aqueles que não se tornam consumidores dos serviços e se assemelharia à dos metrôs.
Outro exemplo é a tendência contemporânea de construir (
produtos oferecidos pelo parque. Até aqui, nenhuma novidade. Os
Criadores dos paraísos da diversão programada sempre ambiciona. shopping centers cada vez mais parecidos com as cidades tradicio-
ram lucros invejáveis. No Terra Encantada, por exemplo, era espe- nais: no lugar de vias margeadas por lojas quase iguais e de praças
rado um público de 3,5 milhões de visitantes por ano, capaz de de alimentação e espaços de lazer destacados dos demais serviços,
gerar uma renda de bilheteria anual de 70 milhões de dólares 5 . estas espécies de shoppings-cidades misturam lojas e serviços di-
O projeto do parque foi lançado em 1995 e o investimento total ferentes. Busca-se despertar no passante a sensação de estar, de
chegou a 235 milhões de d61ares. fato, em antigas ruas da cidade; as lojas possuem fachadas que
(
Desde a década de 1980, estas megaestruturas começaram a lembram bucólicos sobrados; as calçadas são decoradas com fontes
e plantas. Tenta-se criar a impressão de que ao freqüentar esse es- (
ser reproduzidas rapidamente em escala global. Enquanto o lazer
se transformava num must do setor imobiliário, muitas empresas paço é possível se tornar cidadão. O Auchan de Faches-Thumesnil, \
s~ interessavam em acoplar diversão e consumo ao património das por exemplo, na periferia da cidade francesa de Lille, é um desses
(
cId~d~s. A voga dos centros comerciais transformados em atrações shoppings-cidades com teto de vidro, o que garante a passagem da
(
tunstlcas, a emergência de megaestruturas reunindo comércio luminosidade externa para o seu interior e também um certo iso-
hospedag~m e diversão, além dos parques de atrações high-tech ~ lamento de quem o freqüenta em relação às intempéries. Flanar (
seu cortejo de privatização do espaço público e de submissão das nesta cidade de vidro e de fachadas reconfortantes seduz jovens e (
diversas localidades às exigências de uma cultura de massa global, idosos, especialmente aqueles que não têm condições de passear
(
demonstram o quanto diversão e comércio, entretenimento e con~ sem pressa e sem medo nas cidades onde residem.
sumo são prósperos parceiros. Unidos harmoniosamente, ou mes- \
mo, saudavelmente confundidos, eles fazem a fortuna de grandes (
sociedades industriais e resultam na criação de verdadeiras cidades Shoppings, parques, resorts, megaparaísos do consumo onde é
ar~ificiais. Nestas imita-se não apenas a Cidade tal qual os antigos preciso coragem para comprar menos e mais do que coragem para
a Imaginaram, com suas ruas, praças e a sucessão de aconteci- frear o desejo de consumir. Principalmente quando os apelos são
claramente dirigidos à beleza e à saúde. Curiosa situação que se
5. Folha de S, Paulo, 14 dejane1ro de 1998. repete na história ejá era conhecida de João do Rio, quando escre-

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\
(
CORPOS DE PASSAGEM UM ZAPPING NA INDÚSTRIA DA ALEGRIA

veu sobre o gosto pelas estações de cura: seja em balneários anti- carência de informações ainda persiste. Vivemos uma ~poca ~e
gos, seja nos novos spas, há um farto cardápio sobre como emagre- grande sucesso dos filmes e suplementos turísticos. ~s ~ntigos gmas
cer, incluindo mirabolantes receitas capazes de combinar regime e de viagem incluem hoje um índex complexo de cunosldades, con-
prazer. Entretanto continuam sem dieta as "gourmandises" do ego. selhos e classificação de paisagens. Justamente quando os e~p.reen­
Enquanto o corpo é desbastado nos sofisticados templos de beleza dimentos de diversão adquirem uma visibilidade pública ilimitada,
e bem-estar, as redundâncias do "eu" recusam dieta. Uma vez avan- suas formas de produção em série, o funcionamento de seu consu-
tajado, o u eu" inflaciona os espaços e obstrui a percepção do tempo mo generalizado e o trabalho que eles exigem sobre o~ corpos e
presente. A aquisição de uma forma fIsica depurada e concisa pa- sobre os espaços usufruem de uma invisibilidade, n~ núnimo, cons-
rece acentuar estas situações em que o u eu" não cabe num corpo e trangedora.
se espalha como mau hálito. Graças à sua obesidade é praticamen-
te impossível evitar uma espécie de repasse dos prejufzos.
Quando o turismo, por exemplo, inclui a estada num resort
destinado a majorar o prazer de cada consumidor, suavemente ou
de uma s6 vez, quem paga a conta pela falta de natureza e de
espaço público na cidade é a natureza e os espaços distantes dela.
O turista não carrega apenas suas roupas e equipamentos de di-
versão dentro da mala. Ele porta seus valores, suas expectativas e
intolerâncias. Por vezes, ele leva consigo a vontade ou o hábito de
ser tratado como um rei, o que implica considerar que as popula-
ções locais estão onde estão para servi-lo: com informações, sim-
patia e coisas típicas. E, quanto mais alto se paga pelo lazer, maiores
( deverão ser os barroquismos dos coquetéis e das mesuras que acom-
panham o ato de servir. Afinal, é usual o argumento de que em
férias não há dever, s6 direitos.
Prazeres totais no esporte e direitos absolutos no turismo. Nes-
ta era de massificação do lazer, seus resultados pouco divertidos
também são massivos e globais: em nome da atividade turística, as
tribos maSalS foram expulsas de suas moradias para dar lugar aos
safáris; centenas de pescadores indianos do Estado de Kerala per-
dem seu meio de subsistêt:lcla em nome das novidades turísticas
nas zonas costeiras. Os exemplos poderiam ser triplicados; e, cer-
tamente, não seria preciso atravessar os mares6 •
Felizmente os efeitos positivos e negativos do trabalho já foram
objeto de muitas lutas e debates, mas, quando o tema é lazer, a

6. Dora Valayer. "Pour une révolution du tourlsme" ln Le Monde diplomatiqueJ julho


de 1997, p. 32.

63
62
(
CORPO SEM LIMITES E TOTALITAfuSMO FOTOGÉNICO
(

Um corpo em reconstrução é infinito. A artista Orlan insiste


nesta possibilidade quase demiúrgica em suas cirurgias: recons-
truir o pr6pdo corpo transformando·o em território de espetacula-
res explorações e inusitadas metamorfoses; testá-lo, colocá-lo à
prova, expô-lo de diversas maneiras diante das câmeras e dos pró-
~
prios olhos.
(
Por vezes, as intervenções no corpo não evocam a sua ruína. E
noutras, o radicalismo das metamorfoses corporais repete um an- (
tigo medo: a impossibilidade de tornar o corpo cognoscfvel, legível, ,
I

eloqUente 'sobre si mesmo, humanizado. Sensível às reconfigura-


(
ções atuais do corpo, o filósofo José Gil salienta o quanto elas pare-
cem querer "descobrir uma língua do corpo à qual se subordinaria
qualquer terapia ou outra forma de linguagem"·, (

(
Pernas juntas, vestidos compridos, cabelos seguros por gram-
pos e laquê, seios dentro do sutiã de bojo, ventre comprimido por (
"cinturita": até meados da década de 1950, é comum encontrar
(
esse tipo de corpo feminino nas revistas brasileiras. Não demorará
muito contudo para que nele seja apontado um excesso de rigidez,
uma artificialidade intolerável para os emergentes brotinhos, no-
vas candidatas à aquisição de liberdade corporal e autenticidade

1. José Gil. Metamorfoses do CCIT'pO. Lisboa: RelÓgio D'Agua. 1997, p. 14.

65
CORPO SEM UMITES E TOTAUTARlSMO FOTOCtNICO
CORPOS OE PASSAGEM

dos sentimentos. Numa época de substituição do lânguido glamouT do deserto, sem abrigo, sem segredo, sem diferença entre o lá e o
pelo picante sex-appeal, as aparências bronzeadas, lépidas e riso- aqui, esturricados pela exposição midiática, destituída de pausa.
nhas terão pressa em anunciar o quanto a descontraçáo, a intimi- A salvo desta luz devastadora está o interior do corpo. Nada nele
dade e a sedução devem, doravante, ser os ingredientes básicos da pode ser considerado belo. Nem feio. Um órgão, uma célula, uma
felicidade. As novas sereias de Hollywood vão amar o sol, o mar e veia, não sugerem civilidade, não parecem pertencer ao reino da
as piscinas e em breve descobrirão a minissaia e o biquíni. Por cultura.
conseguinte, será preciso tornar sensual e belo até mesmo o dedão A aversão ao interior do corpo é antiga. Mas no decorrer das
do pé ou uma careta, será necessário descobrir as singularidades últimas décadas ela foi acrescida de novas intolerâncias. Até bem
do umbigo e expor partes do corpo até então pouco captadas pela recentemente, o interior de diversos corpos não provocava muitas
câmera fotográfica. náuseas. Basta lembrar o parto, geralmente feito em casa, com a
Mulheres vestindo jeans, com os cabelos em desalinho, ou presença de várias pessoas; as doenças eram tratadas pela própria
exibindo pernas e braços nus; mulheres de biquíni, saltando e cor- família e, antes da atual massificação industrial dos alimentos,
rendo com os cabelos ao vento, sugerindo uma total indiferença à milhares de mulheres matavam galinhas semanalmente e entra-
presença do olhar alheio: na revista CineUindia, os relatos de atrl- vam em contato com o sangue e as vísceras desses animais. Para a
zes transpirando uma liberdade fisica outrora considerada signo menstruação, era recomendado o uso de toalhinhas que não eram
de imoralidade viram moeda corrente. Nos contos e imagens de descartáveis, tal como não o eram as fraldas dos bebês, exigindo
moda das revistas Querida e Capricho, os conselhos de beleza apos- que fossem lavadas, secadas e passadas. O uso de penicas nos quar-
tam na necessidade de ser bela da cabeça aos pés, em todas as tos não oferecia tantos constrangimentos quanto oferece hoje. Os
horas do dia e em todas as idades. E as fotografias publiCitárias não freqüentes espinhos nos pés das crianças eram tirados por qual-
( deixam de mostrar partes do corpo cada vez mais íntimas, devida- quer um, e, de fato, o contato com o sangue, as fezes e a urina fazia
( mente depiladas, tratadas, embelezadas. A vontade de ser mulher parte da rotina. Para a sensibilidade atual, a repulsão a este conta-
livre rima com o dever de ser fotogénica para os outros e para si to é muito mais evidente do que no passado, especialmente depois
mesma, em todas as circunstânc1as2 • da banalização de certos equipamentos de higiene e de conforto e,
Nos dias de hoje, o direito à publicidade absorve o direito à ainda, da tecnologta médica que sucedeu à radiografia, contribuindo
privacidade, disse Eldeman3 • Numa época em que ccvideoclipes, para transformar o corpo num texto cuja leitura é infinita.
publicidade e consumo" fonnam o vitaminado ingerido por milhões A humanidade sempre temeu a doença e a associou ao rompi-
de jovens, o que porventura permanece refratário ao Udireito de mento do silêncio dos órgãos. Mas, na atualidade, este silêncio
exposição", ao "direito de virar publicidade" e "imagem de marca" também inquieta. Quando se é acostumado a considerar que o
carece de sentido. "Ser fotogénico ou náo ser", eis o lema desta corpo tem o dever de comunicar, informar e esclarecer, não ouvir a
demanda por exposição do corpo. Como se não fosse desejável re- si mesmo se torna um defeito gravíssimo. Se sob o paradigma da
legar nenhuma zona fisi~a à sombra. Esta tendência ganhou uma tennodinâmica o corpo deveria produzir energia, naquele da socie-
amplitude impressionanfe durante as duas últimas décadas. Há dade fascinada pela comunicação o corpo é coagido a produzir
uma multidão de corpos que parecem estar literalmente sob o sol informação. Por conseguinte, ele é chamado a se expressar e a ter
seus gestos traduzidos pelo verbo. Como se tudo devesse ser co-
municado, interpretado, esclarecido pela linguagem. A medicina
2. Desenvolvemos este estudo numa tese de doutorado: La recherche de la beauté, tem sua contribuição neste caso: os genes são considerados paco-
Universidade Parls VII, 1994.
tes de informações, muitos exames médicos contam com apare-
3. Bemand Edelman. La Personne en danger. Paris: PUF, 1999, p. 302.

66 67
CORPOS OE PASSAGEM CORPO SEM UMITES E TOTALITARISMO roTOGtNtco

lhos capazes de ler o corpo e de traduzir o seu interior em texto e tos o desejam e o público anda cansado de exposições, especial-
imagem, que pedem interpretações especializadas. Mas estas são mente aquelas cuja coreografia já se conhece de antemão.
infindáveis, assim como é ilimitada a busca pelo bem-estar e pela Na medida em que o corpo ganha direito de exposição e atua-
beleza. ção, ele também conquista o dever de ser civilizado e fotogénico e,
ainda, precisa relventar zonas de sombra, de sossego, uma espécie
de oásis, para não ser arruinado pela E;Xigência de exposição e de (
Fugir da homogeneização das aparências e do totalitarismo fo- tradução infinitas. Podemos expor o corpo com menos pudores do
que no passado, mas há novos pudores em gestação. Até que ponto (
togênico não é tendência inusitada. A história das artes plásticas e
da fotografia o demonstram. Escorregar do corpo-matéria para o o imperativo de ser fotogénico em todas as partes fisicas - inclu· (
corpo do artista como médium era uma tendência explorada por sive nas mais íntimas - não teria substituído ou mesmo atualiza-
diversos artistas do começo do século XX. Contra a padronização do o antigo imperativo moral de ser virtuoso?
dos gostos, em oposição à ~monocultura" na qual, segundo Lévi- Por vezes, homens e mulheres se vêem isolados como se esti-
Strauss, havia sido instalada a humanidade, levando-a a produzir vessem em pleno deserto com seus corpos em plena forma. Para
a Civilização em massa tal como ela produz beterraba, há combates eles a publiCidade não cessou de prometer um poder inédito de
filosóficos e Uterários seculares. Especialmente a partir da década transfiguração: pode-se passar o inverno bronzeado, chegar aos
de 1960, rebelar-se contra as padronizações da postura fisica e cinqüent.a anos com o rosto de quarenta e adqUirir a aparência
reivindicar o direito de expressão do corpo dentro e fora dos ambien- ideal para cada circunstância. Maravilhosa liberdade que, eviden-
tes privados deixaram de ser atitudes excepcionais. Ocupar-se com temente, faz algum sentido quando existem meios de consumir as
a beleza fisica não é mais, via de regra, um tabu, o uso de cosméti- centenas de tratamentos e produtos à venda. Mas, muitas vezes,
(
cos não indica necessariamente um caráter duvidoso, a cirurgia sem estes meios, a liberdade se instala como expectativa de poder
plástica livrou-se da ameaça de ser considerada um pecado ou um um dia reconstruir o corpo como se quer, de ingressar nessa elite (
desrespeito à obra divina. Raquel Welch e seus polêmicos silicones ilustrada pela midia, de homens e mulheres livres e ricos, que pa- (,
podem descansar em paz. recem dizer todo o tempo: "Meu corpo corresponde àquilo de que
(
Em nossos dias, existem várias indicações que demonstram o gosto, àquilo que sou, independentemente das minhas heranças
quanto usufruímos maior liberdade do que no passado para tratar genéticas, das minhas filiações culturais e de classe, do meu esta· (
do corpo, modificá-lo e expô-lo. Mas talvez estejamos mais solitários do civil e das maneiras pelas quais eu ganho dinheiro; minha casa (
do que antes diante das responsabilidades que tal liberdade exige tem a minha cara, [assim como] minha banheira e minhas roupas
(
e, ainda, amplamente expostos aos holofotes da exigência de ser não cessam de expressar aquilo que sou u. Como se cada objeto não
fotogênico. Encontramos companheiros para conversar a respeito pudesse ser nada além da imagem de marca de seu proprietário. Há (
da saúde, centenas de produtos de beleza e de espaços para expor casos em que o corpo é considerado um registro tão fiel dos dese-
nossas intimidades e confirmar que '·0 corpo é a principal marca jos pessoais quanto ele é infleI às condições que lhe são inatas e
identitária". Diferentemente do tempo de nossos avós, não é mais externas. Cadeiras. banheiras, automóveis, cachorros, plantas e se-
vergonhoso admitir que o corpo é um ente sensível, dotado de de- res humanos sáo limitados à repetição permanente de uma imagem
sejos a serem conhecidos e expressos. Mas não é certo que haja de marca e. por con~~~te!._~e sl!as.fuU:\l~ções n~ado.
com quem dividir as responsabilidades das decisões tomadas para ~espécie de autismo é perpassada contudo por alguns dra-
cada expressão corporal ou para cada cirurgia feita. Não é certo mas: cada um com seus remédios, suas terapias prediletas, seus
que haja quem queira ver um corpo se expressar porque hoje mui- cosméticos, seus médicos, seus ideais de saúde e sua banheira;

68 69
CORPOS OE PASSAGEM

por conseguinte, cada um com suas doenças, suas dúvidas e com a


responsabilidade de seus sucessos e de seus fracassos. Por ironia, o
corpo não poderia deixar de expressar exatamente isto: na medida
em que é reconstruido como se fosse algo exclusivo a cada um,
pronto para responder apenas às necessidades individuais indepen-
dentemente do espaço e do tenlpo em que vive, ele tende a expres-
sar unicamente este eu" e a ressoar exclusivamente para si mesmo.
U o DEDO DE DAOUO*
Todavia, as necessidades indiyiduais não nascem nem se re-
produzem de forma solitária, dentro dos limites dos corpos--E>r
isso, há aquf uf!1_~ situação curiosa: cada um espera expressar em
seu corpo o seu "eu", considera-o uma espécie de tesouro gessoaI,
mas acaba percebendo o quanto este corpo-eu é, ao mesmo tem-
po, banal: 'uma relíquia comum. Parece contraditório, mas há mais
contradições vivas do que mortas. No dia 27 dejunho de 1985, Janel Daoud, prisioneiro francês,
A multiplicação de imagens sobre corpos saudáveis e sempre cortou a metade do próprio dedo mindinho para enviá-lo ao minis-
belos é bem mais rápida do que a produção real de saúde e beleza tro da Justiça pelo correio. O objetivo de Daoud era chamar a aten-
no cotidiano. A corrida rumo à juventude é hoje uma maratona ção sobre o seu processo. Mas antes que ele pudesse de~p~cha: o
( que alcança jovens e idosos de diversas classeg sociais, mas estes seu dedo as autoridades da prisão confiscaram-no. O pnslonerro,
não conseguem ver o pódio, porque se trata de uma cQIrJda infinl- evidentemente, não tardou a reivindicar a restituição daquele dedo
tk Ignoram quem compete com quem, talvez porgue a principal que "era" seu. A partir daí teve início uma celeuma que extrapolou
( ,
competição se passe dentro de cada um, entre o cOrpo que se é e o os muros da prisão, envolvendo advogados, politicos e a imprensa.
ideal dehoa forma com que ~nha. As divergências se acumularam. De quem era aquele dedo sem
Ora, para que esta corrida chegasse a obter a amplitude que mão? O advogado do prisioneiro, por exemplo, alegou que um dedo
, I
hoje ela tem, foi preciso tornar normal o desli ento dos corpos não era um objeto como outro qualquer, tal qual uma carteira reti-
da geoK!:&ia e da ~stória local e considerar um negócio pessoal rada do prisioneiro em sua entrada à prisão e restituída no dia de
suas relações com o sagrado. Foi necessário, igualmente, transfor- sua saída. Um juiz, diferentemente, estimou que uma parte do
mãr o corponiim território privilegiado de experimentações sensí- corpo cortada e dele separada era uma coisa", um objeto como o
II

veis, algo que possui uma certa inteligência que não se concentra vidro onde estava o polêITÚco dedo.
apenas no cérebro. Foi preciso, ainda. libertá-lo de tradições e mora- Tão bizarro quanto o caso do dedo francês foi o das células do
lismos seculares, fornecer~lhe um status de prcstígiC?~ lugar ra- americano John Moore. Um belo dia, este cidadão descobre que
( I dioso, como se ele fosse ~alID-â~'i5esde então foi fácil considerá-lo células retiradas do seu corpo, consideradas únicas no mundo, fo-
uma .in~~gante fronteira a ::Ser vencida, explorada e controlada. ram patenteadas servindo à produção de medicamentos de em-
presas farmacêu ticas. Em 1988, ele reivindica a propriedade de
suas células e a Justiça lhe dá ganh~ de causa, baseada no princípio

PubUcado com o título "Corpo, a próxima fronteira do cap1W" na Folha de S. Pauw,


caderno "Maisl", 16 de março... de 1997.

70 71
O DEDO DE CAOUD
CORPOS DE PASSAGEM

de que um homem possui o direito de propriedade sobre os produ- cio ilegal e planetário de pedaços do corpo (entre os quais se desta-
tos de seu corpo. Mas, em 1990, a Corte Suprema da Califórnia cam córneas, rins e pele). Tráfico no qual as populações pobres
lhe nega esse direito. As células de Moore não são mais suas. servem de armazéns vivos às populações ricas. Pois não há "zona
O affaire Daoud, o caso Moore, assim como a lei brasileira so- neutra", distante de todo valor econômico, onde supostamente cir-
bre doação de órgãos, contribuem, cada qual a seu modo, para culariam células, genes, plasma, etc. Podendo ser cultivados e con-
colocar na ordem do dia um debate sobre o estatuto do corpo. No servados fora de seu contexto orgânico inicial, mesmo fragmentos
caso de Daoud, vê-se claramente como uma parte do corpo huma- microscópicos do corpo significam um ~apital altamente rentável
no pode flutuar entre uma interpretação que lhe concede a quali- aos grupos que detêm a sua propriedade.
dade de um Uobjeto" e uma visão que pensa o organismo como Sem informações sobre como a vida e o corpo são tratados eJll
uma totalidade cujas partes não podem ser alienadas. As células laboratórios, jndJ'''stria.s e hospitais, o discurso em prol da vida e do
do cidadão norte-americano John Moore também colocam em dis- corpo corre o risco de se assemelhar ao dedo cortado de Daoud:
-------~--------------~--~--~~~~--
cussão o problema da alienação de partes do corpo do sujeito hu- uma fi~ra anOnima, sem passado. Uma figura "desinformada",
mano. Mas elas fazem mais do que isso: a polêmica em torno da sem a memória dos interesses específicos que a ligavam a um cor-
sua propriedade demonstra, claramente, a transformação de frag- po. Fica-se, assim, com um argumento sem rosto e, por isso mes-
(
mentos do corpo em mercadorias; e o que é mais grave, sem a auto- mo, perigosamente capaz de servir aos mais diversos fins.
Ora, nossa época é particulannente sensível em relação à pro- (
rização õ'lJaquiescência de Moore. Uma vez que estas valiosas
células se tomaram componentes de medicamentos, ajustiça ame- messa do "direito à vida". A vulgarização dessa tendência floresce
ricana decidiu que, em nome da dignidade humana, John Moore na publiCidade seduzida pelo apelo ao ubio" e na megaindústria
não era proprietário de seu corpo, que as células retiradas dele alimentar-terapêutica, que facilmente se agrega às indústrias do lazer
e do bem-estar. Como se fosse passiveI dizer: a vida está na moda! (
eram um bem para aqueles que, ao transformá-las em mercado-
rias, poderiam patentear produtos industriais. Entretanto, parece que ainda estamos longe de dar lugar a sentimen- (
A lei brasileira de doação de órgãos também se insere neste tos tão gerais e enfáticos quando se trata de defender o direito à infor-
debate. Mas, no nosso caso, ela deu lugar a dois tipos de manifes- mação de toda a população sobre as possibilidades de vida, e também
de morte, geradas no cotidiano de laboratórios, indústrias e no do- (
tação: em nome do direito à vida, é-se a favor da doação presumi-
da; em nome da propriedade do corpo, a doação é recusada. Em mínio da pesquisa científica. A morte encefálica, por exemplo, não é (
nome do direito à vida, a recusa em doar os pr6prios órgãos toma- uma novidade criada pela lei de doação de 6rgãos, em seu artigo 3°. (
se um ato egoísta, anacrõnico, ridículo, e, em nome do direito à Aliás, somente este artigo mereceria um debate especial, pois, para o
(
propriedade do pr6prio corpo, a doação presumida toma-se auto- imaginário de muitos, doravante, morrer e viver mudaram de senti-
ritária, invasiva e desrespeitosa para com as diversas culturas. do: a vida do coração, outrora 6rgão rei, ou a vida do pulmão, que no (
Contudo, depois que a lei foi sancionada, o debate se tomou apogeu da termodinâmica foi considerado o centro do calor vital, o (
mais complexo: os interesses e as condições reais das instituições órgão do espírito, devem ser mantidas após a morte encefálica para
(
e dos profissionais encarregadosjustamente de cuidar da vida e do possibilitar o transplante. Aqui a morte ideal não é aquela em que o
corpo começaram a aparecer. Desde então, percebeu-se que, na udescanse em paz" pode ser dito a todos os órgãos. Bichat havia
prática, nem o direito à vida nem o direito à propriedade do corpo afirmado que a vida era "um conjunto de forças que resiste à morte". (
fazem sentido, se não forem consideradas as deficiências dos siste- Hoje, paradoxalmente, a morte encefálica, a morte ideal para possi-
(
mas de recepção e distribuição de órgãos, as condições da nossa bilitar o transplante, também possui esse significado.
pesquisa científica, sem falar da assustadora realidade do comér- Certamente, assistimos à circulação de muitas informações

72 73
CORPOS DE PASSAGEM

sobre o corpo. Talvez nossa época seja a mais dedicada em pro-


blematizar, adular, cultivar e explorar comercialmente o corpo,
sobretudo o dos jovens. A moda do corpo, o u c01pOréisme" anunciado
na França, nos anos 1970, é hoje uma tendência global, investida
pela tecnologia, a mais refinada. Nas clínicas, academias de ginás-
tica e na midia, a banalização das novas fusões entre o corpo hu-
mano e a eletrÔnica relativizaram tanto o fascínio quanto a aversão (ORPO: ÚLTIMA FRONTEIRA?*
tradicionais perante o progresso técnico. Já sabemos que nasce-
mo~ e morremos desiguais, não é mais novidade refutar a tendên-
cia que concede ao corpo um estatuto natural, assim COlno virou
rotina compreender que as relações entre natureza e cuItutnão
eminentemente históricas. Pensar o corpo deixou, há muito, de
ser uma heresia para significar ora um modo de fazê-lo render
mais, ora uma forma de conhecer a subjetividade da matéria. En- "A era dos terrenos vagos, dos territórios livres, dos lugares de
tretanto, tudo isso não significa que possamos dormir tranqüilos. ninguém, a era, portanto, da livre expansão
, está terminada ( ... ) O ~

Basta lembrar de duas situações do conhecimento de todos e que, tempo do mundo finito começa"·. E impressionante como esta
entretanto, quando se juntam, parecem transformar a antiga me- constatação de Paul Valéry, no início dos anos 1930, continua atuaI.
táfora marxista do vampiro numa realidade otimista I Primeira O sentimento de término dos espaços desconhecidos penetrou o
situação: o Brasil é um país tradicionalmente exportador de maté- cotidiano de milhares de homens e mulheres, enquanto a ação de
rias-primas; segunda situação: o Brasil vive numa época em que a satélites gigantes e a banalização de chips portáteis diminuem dis-
matéria-prima do capitalismo não é apenas a força de trabalho, tâncias e atingem regiões e culturas diversas. No limite, desenvol-
mas, também, as informações genéticas, os órgãos, a pele, em suma, veu-se aquilo que Michel Serres chamou de "pantopia": todos os
tudo o que no corpo for considerado são. Por isso, juslamente quan- lugares em cada lugafeCadãluiar em todos os lugares2 ; ou, então,
do se fala tanto .em globalização I é preciso saber de que maneira o a supressão paulatina dos trajetos e das diferentes temporalidades
patrimônio genético e os comas dos brasilejros integram o merca- em-Javor de um contato imediato e de um tempo global. conforme
do global; preocupações desse tipo não são somente de ordem indicou Paul Virilio em seus ensaios3 . Supressão favorecida pelo
eéõiiôiiiica. E, mesmo se o fossem, a economia está bastante inte- uso banalizado das tecnologias de teleação e da rápida transforma-
ressada na realidade corporal, sobretudo em nossos dias. Alguns ção de todo intervalo em mais uma interface.
economistas chamaram a atenção para essa vocação do capitalis- \ \ Todavia, se na época em que Valéry detectou a emergência do
mo atuaI de investir em "três esferas infinitas": a gestáo da socie- mundo finito os "espaços de ninguém" já pareciam coisas do pas-
dade, a reprodução da Ten:a (ar, água, vegetais) e are Iodu ão do sado, com o término da Segunda Guerra Mundial, a expansão dos
hu.l:!ill....no. Interesse econ mico que o corpo desperta deveria ser-
vir para esclarecer à socie~ade quais são os grupos que ganham e Este texto foi publicado. com algumas modificações. na revista Margem. nO 7. São
Paulo: PUC/EDUC. 1998.
quais são os que perdem com a transformação das diversas partes
1. Paul Valéry. Regards sur le monde actuel. Paris: Stock, 1931. p. 35, grifo do autor.
do humano em equivalentes gerais de riqueza. Informaçóes como
2. Michel Serres. Les messages à distance. Montréal: Fídes, 1995.
estas podem parecer simples. Mas sem elas voltamos a ficar como
3. A este respeito, ver, por exemplo, Paul Virilio. La vitesse de libération. Paris: Galilée,
o solitário e amnésico dedo de Daoud. 1995.

74 75
CORPOS DE PASSAGEM CORPO: ÚLTIMA FRONTEIRA?

empreendimentos colonizadores vai atingir não apenas o tempo e Naquele pós-guerra, que ainda não se sabia "entre-guerras", o
o espaço geográfico, mas, também, o corpo humano: como se o mundo ocidental era surpreendido pela rápida expansão dos meios
corpo fosse a última fronteira que doravante devesse ser rompida, de comunicação de massa, capaz de redobrar em segundos a força

\~
segundo a lógica dos contemporâneos mestres e possuídores do dos movimentos totalitários, banalizanºo tanto a militarização da
mundo. Após a colonização externa, a endocolonização massiflcada política quanto as políticas de racionalização do trabalho. Era
na medicina e expressa na cultura e no lazer. O corpo humano, apenas o começo de uma carreira bqlhante à publicidade e ao
derradeiro território a ser conquistado, desvendado e controlado, marketing, justamente quando a arte de contar perdia adeptos e
revela-se, assim, um campo preferido às experimentações da bio- enfraquecia, conforme alertou Walter Benjamin. Já em 1918, ob-
tecnologia e dos investimentos da economia de mercado, justamen- servou este agudo pensador, os combatentes voltaram silenciosos
te quando é fortalecido um paradoxo característico das sociedades do campo de batalha: "Mais pobres em experiências comunicá-
industriais: por um lado, tem-se o culto, a adoração, a valorização veis, e não mais ricoS"4.
extrema das aparências e da saúde; por outro, a fragmentação do Certamente, inúmeras seitas e crendices, incluindo a quiroman-
organismo e das terapias em expansão, a dispersão de células, genes cia e o vegetarismo, viravam, do dia para a noite, verdadeira moda.
e órgãos, além do comércio destes materiais em larga escala. Em Mas Benjamin, em sua delicada arte de separar o joio do trigo den- (
suma, esta era favorável aos cultos do corpo é também aquela que tro.-da..b,abel cultural, que naquela era do rádio estava literalmente
facilita a sua manipulação e comercialização desenfreada. O corpo no ar, percebeu aquelas manifestações muito mais como uma ~va­
pode fornecer mão-de-obra e também matéria-prima. Mais ainda: nizaçâQ...J;lQ que como uma renovação da cultura. Era o caso de
ele se torna produtor de materiais fundamentais, gestados ou de- perguntar: subtraída a -experiência, sua geografia e sua história, (
senvolvidos em seu interior, tais como os tecidos cultivados in vitro qual o sentido do patrimÔnio cultural? E a experiência não cessava
(
e em seguida colocados "in vivo" para evoluir. de ser solapada, não apenas pela inflação econômica do pós-guerra,
que havia dilapidado a personalidade monetária, mas também pela
política: os governos se mostravam mais inclinados a proteger a (
produção de seus países do que os seus homens5 . O sentimento de
(
UMA SIMILITUDE AMEAÇADORA incerteza, sobre o qual muito já se escreveu, expressava a ausência
de lugares, promessas ou momentos seguros.
Sensível aos efeitos da globalização da década de 1930, Valéry É interessante observar que, quanto mais mergulhamos as aten-
não se limitou a proclamar a perda dos antigos valores. Sua escri .. ções nos anos 1930, menos abusivas se tornam suas proximidades
ta expressava a ameaça que pesava sobre todos os valores de sua com a atualidade. ProEm1dades que, para muitos, soam como uma
época: longe de caminharem para além do bem e do mal, eles se ame~2~: ~to _de nossos dias, o entreguerras é um período no qual
mostravam voláteis, evaporavam feito moeda em economia infla- se gestava o extermínio de muitas vidas, o desaparecimento em
cionada. E naqueles anos de ascensão totalitária, ao som de hi- massa e abrupto de reâfidades construídas ao longo dos anos e, por
nos juvenis e da alegria dos jingles publicitários, certos valores vezeS,dOS séculos. --
caíam no esquecimento, enquanto outros eram tecidos entre o --- <.
corpo de cada indivíduo e o da Pátria; a aliança entre estes dois
termos exigiu, muitas vezes, uma série de manobras, incluindo o 4. W. Benjamin. 64Experiênc1a e pobreza", in Walter Benjamin. Obras escolhidas. ma·
9ta e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e hist6ria da cultu-ra. Trad.
retorno aos modelos iden titários fornecidos por mitos e crenças Sérgio P. Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985, v. 1, p. 115.
religiosas de um passado supostamente paradisíaco e sem pecado. 5. Elias Canettl. Massa e poder. São Paulo: Melhoramentos; Brasflia: UnB, 1983, p. 519.

76 77
CORPOS DE PASSAGEM CORPO: ÚL1lMA FRONTEIRA?

Os países industrializados se equipavam cada vez mais, notou refúgio no passado, porque este lhes parecia um lugar imaculado
VaIéry, tanto para a guerra quanto para a paz. Durante a década de pelos transtornos e incertezas do presente.
1930, ainda não se sabia sobre os efeitos sociais do casamento
realizado, em meados do século XX, entre infonnática e genética.
A partir dele, são utilizados desde os filhos da termodinâmica, fei-
tos de ferro e fogo (e a ferro e fogo), até os seus bisnetos, máquinas A NECESSIDADE DA HISTÓRIA
frias e objetos inteligentes, constituídos de silício, plástico e DNA.
Entretanto, os perigos sociais do eugenismo já eram conhecidos Quando Paul Valéry tinha vinte anos, as ciênçias exatas, e pos-
no século XIX. Desde 1865 até a Primeira Guerra Mundial, centenas sivelmente as ciências naturais, não o seduziam. Mais tarde, os
de médicos e moralistas organizaram cruzadas contra uma amea- tratados de James Clerk Maxwell começaram a influenciar a sua
ça que, segundo eles, era de importâncta capital: a degenerescência. escrita. Diversas cartas de Valéry a Gide expressaram sua proximi-
Como se fosse moda degenerar: degenerava-se devido a doenças, dade com a matemática, a química, a medicina e a biologia7 • Ele
por intoxicação e maus costumes, degenerava-se em razão de cer- não tardaria a concluir que nada conhecemos sobre o funciona-
tos climas, pela consangüinidade, devido à mistura das raças, e, mento do corpo humano e que, quanto mais criamos meios para
em breve, se tornaria famosa a acusação de uma arte degenerada. agir sobre ele e desvendar a natureza, menos a humanidade con·
Degenerava-se quando havia excesso de civilização ou, ao contrá- segue compreender a si mesma.
l
/
rio, a sua falta. Em contraposição, celebrava-se a ciênciaS. Cele- Quase cinqüenta anos mais tarde, um outro francês, François
bração conhecida também no universo socialista, basta lembrar a Dagognet, autor de uma volumosa e diversificada obra, também
irresistível ascensão de Lyssenko a partir de 1935, ou do neolamar- influenciado pela imagerie científica, escreve que o conhecimento
kismo que lhe havia preparado o terreno. Mais tarde, aliás, o mau do corpo é infindável, e os que buscam apreendê·lo têm a impres-
exemplo de Lyssenko contribuiu para opor uma ciência soviética são de caminhar sempre no escuro 8 , De fato, basta recorrer à his-
considerada puramente ideol6gica, à ciência ocidental, suposta~ tória da saúde para nela detectar a concorrência entre modelos e
mente livre da contaminação política. práticas, sejam eles científicos ou religiosos, que oferecem solu-
Mas, antes de a genética molecular conseguir impor sua ima- ções às doenças, ao mesmo tempo em que submetem o corpo a
gem de marca e apagar a memória do eugenismo, e antes de a noção novos riscos e incertezas. Os progressos em medicina, por exem-
de informação se tornar uma espécie de passe-partout, a incerteza plo, são bem reais, tanto quanto são verdadeiros os pontos obscu-
diante do futuro e a certeza de que os valores humanistas do pas- ros que a cada vez emergem em sua longa história.
sado haviam sido soterrados nas trincheiras representou, para Não se trata. portanto. de negar os avanços da tecnociência,
muitos, um sinal de que era preciso dar meia-volta e buscar o pas- nem de condená-la em bloco9 • Mas.de reconhecer que Q cOtponão
sado. O mundo que se e(Í.uipava cada vez mais sancionava uma ces..§..a de ser redescoberta, ao_mesffi_o tempo em que nunca é total-
extensão sem precedente~ dos poderes de alguns grupos sobre a mente revelado. Dagognet contribui (assim como contribuiu, a seu
maioria. Houve aqueles que resolveram lutar contra estes grupos e
os que decidiram atacar ~ técnica, independentemente de seus 7. A este respeito, ver Reino Virtanen. Vlmagerie scientifique de Paul Valéry. Paris:
Vrln,1975.
fabricantes. Mas outros recusaram estes combates e foram buscar
8. François Dagognet. Philosophte de l'image. Paris: Vrin, 1984, p. 105.
9. Para uma análise aprofundada sobre as diferentes dimensões da tecnociência, ver
6. ~~ Pichot. L' Eugbzisme cm les généticiens saisis par la phílantropie. Paris: Hatier, Hermetes R de Ara4jo (org.). TecnoctAncia e cultura, ensaios sobre o tempo presente.
São Paulo: Estação Uberdade,}998.

78 79
CORPOS DE PASSAGEM CORPO; ÚLTIMA FRONfEIRA?

modo, Michel Foucault) para perceber o corpo em sua fabricação cos e, por isso mesmo, perigosos. O mais difícilt no entanto. não é

I
histórica, partindo do princípio de que a vida não é tlm "tesouro
escQ.ndido", preserv~llÜL.das-llaixões e jdeoJor)as, separado dos so-
lavancos das temporalidades llli:!!!Qanas. Tan~o não é assim que
sobre a vida agiram em muitas épocas (e Valéx:y foi uma das teste-
munhas) os interess~s de mercado, os valores da cultura junta- (
compreender a recusa absolu~a ou _a aceita~_~ incontestável da I
população transgénica, mas continuar admitindo com grande na-
tura1ídade a não inclusão dos pesquisadÇ)res das ciências humanas {I
e, em particular, o historiador nestãS reflexões. Pois, com a expan-
são da cultura transgêrúca, o que se trapsplanta de um organismo
mente com as ações da ciência e da técnica. Se a vida não é um a outro é material genético e, com ele, valor infonnativo. Ou seja, a
tesouro escondido, torna-se impossível acreditar que as CiênCiat criação de animais transgénicos não é um simples aperfe~mento
que com ela lidam de modo direto sejam, elas também, uma rigue do~ métodos tradicionais de cruzamento. Rifkin sublinha que a
za ~-hist6rtca! ínacesSiVel à critica da maior parte dos mortais. fabricação de quimeras - tais como o "rato . ante" ortador de
A biologia hitech e, em particular, a fabricação de seres trans- genes umanos e crescimento - representa uma ruptura radical
gênicos poderiam ser submetidas à critica hístórica. Há muito a co@ a hist6ria ll . E, ainda, o que se manipula e por vezes se anula,
natureza começou a ser modificada de modo sistemático para aten- é a espessura histórica de tradições e de memórias encarnadas (

der às normas de produção e de consumo, mas, nas últimas déca- nos diferentes seres vivos. (
das, os progressos neste campo, atingindo diversas espécies de
plantas e animais, contribuíram claramente para a diminuição da
impo tância da qualidade da terra como fator deternunante da pro- <"
dutividade 1o . Também fa . 'taram a naturalização de um constante SEM SOLO E SEM PASSADO: A INFORMAÇÃO-CAPITAL
ultrapassamento de fronteiras entre gêneros e espécies. Diversos
organismos geneticamente modificados (OGM) são admitidos como Transfonnados em equivalentes gerais de t!queza, células, ór-
necessários ao mercado em expansão, mesmo quando determina- gãos, genes, embriões, corpos humanos e não humanos gerarn lu- (
dos alimentos transgênicos são acusados de provocar certas alergias cros exorbitantes quando servem ao utilitarismo biotecnológico, {
nos humanos e de espalhar genes novos na natureza, cujos efeitos segundo o qual tudo deve convergir rumo ao sacrossanto mercado.
(
são imprevisíveis. Evidentemente, este mercado está longe de ser um monstro abs-
Para justificar essa nova upop~ de seres transgênicos, o trato e desencamado socialmente. Assim como em outras épocas
secular argumento da melhoria da vida é, sem dúvida, o primeiro a da história do sistema capitãlista, o mercado se identifica com de-
ser levantado. Todavia, esse argumento é frágil, por seu nível de terminadas nações dominantes e com grupos construídos a partir
generalidade e, por isso mesmo, devido à facilidade com que ele se de alianças em escala planetária 12. Mas, diferentemente de outras
presta às mais diferentes finalidades. É certo que a invenção e a épocas, para os grandes investidores de nossos dias, enquanto o
comercialização de alimentos e animais transgênicos acordam an- espaço geográfico toma -se finito, aquele que não se limita às tro-
tigos receios ligados à artificialidade e atualizam posturas apoca- cas formais se torna ilimitado. Para Garcia dos Santos, por exem-
lípticas e tecnofóbicas de todos os tipos. Mas é certo também que plo, através da indústria de derivativos, em desenvolvimento desde
posturas ufanistas e sensacionalistas diante daquelas novidades a década de 1980, "o sistema financeiro global despede-se do mundo
tecnocientíficas podem ser acomodadas sob argumentos genéri-
11. Jeremy Rifkin. Le Si~cle Btotech: te commerce des genes dans te metUeuT eles mondes.
Paris: La Découverte, 1998, p. 141. .
10. A este respeito, ver Paul Rabinow. ''Artiflctalidade e ilustração, da soclobiologia à 12. Sarni Nair. "La mondiaUsaUon du libéralisme économique" in Edgar Morin & Sam1
b10·soc1abilidade" in Novos Estudos, nO 31, outubro de 1991. p. 90-1. NaIr. Une politique de ctutltsatWn. Paris: Arléa, 1997. p. 42.

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CORPOS DE PASSAGDf CORPO: ÚLTIMA FRONfElRA?

atual e ruma para o mundo virtual, o mundo do futuro, da inven- de acontecimentos imediatos. ( ... ) Os desígnios longamente acom-
ção e da antecipação"13. Paralelamente, o sistema agrícola, antes panhados, os profundos pensamentos de um Maquiavel ou de um
ligado às condições particulares de cada geografia, também se Richel1eu teriam hoje a consistência e o valor de um circuito de
desterritorializa para ser globalizado em beneficio de monopólios Bolsa"16. Em nome dessa valorização de materiais circulando no
internacionais detentores de patentes de sementes. E isto em de- globo, desses traços libertos de seus sentidos, meros números sem
trimento dos agricultores locais e da auto-suficiência alimentar das corpo, é dificil reconhecer algum compromisso histórico-geográfico.
populações, especialmente as do Terceiro Mundo 14 • Do milho ma- Após os progresso~_ da biônica - que criou borboletas acopladas a
nipulado geneticamente pela Ciba-Geigy aos tomates que dispen- circuitos e barãias com asas eletrõJÚcas -, após a u:ansferência de
sam pesticida, passando pelas resistentes beterrabas com genes de genes entre plantas e animais, toma-se evidente o quanto o capital
peixe, pelas alcachofras com genes de rato ou pela soja Roundup vampIriZã. não somente as tendências inovadoras da vida mas, tam-
Ready Monsanto, a presença da bioindústlia é evidente. Com ela, bém, a própria vida, especialmente uando esta ode ser transfor-
há a saída de um processo de produção agrícola por ciclos em favor mada num conjunto de in ormação numeriZada 11 • Mirko Grmeck,
historiador da medicina, escreveu que existe informação onde não
do processo técnico de produção não renovável, em prejuízo de
camponeses e da biodiversidade 15 • Na verdade, com a indústria
atual produtora da vida, se~ por simulação, seja por modific.ação
II mais existe transmissão analógica; há informação onde existe trans-
missão numerizada: ou seja, quando a mensagem não carrega mais
genética, o que ocorre com centenas de animais e milhares de nenhum traço de seu sentido. E, para este mundo em que a noção
lantas é uma espéMe de "autonomia" destas em relação à terra, de informação ocupa o centro da vida, o saber histórico habituado
às '[articularidades de sua geografia e, ainda, de suas histórias. Se, a lidar com a densidade das temporalidades e a aspereza de distin-
como propôe Shiva, cultivar a diversidade agr:ícola é uma resposta tas narrativas corre o risco de ser considerado mero ruído.
não violenta à globalização, pOdêdamos dizer que a defesa da di-
versidade ãgrlcola é, também, uma exi2:ência fundamentalltara a
defesa daquilo que em nossos diaa ver;
unhando cada vez mais a
simpatia dos pesquisadores das humanidades: a diversidade cul- ATOS LOUCOS, ATOS TOTALITÁRIOS
tural ou o multiculturaU§mo. Em outras palavras, seria preciso es-
( ( tim~ um n:!!ll!~culturallsmo radical capaz de nele incluir o Como assim? Fim da hist6ria? De modo algum. A menos que
) ) humano e o não humano. - as únicas respostas aos problemas atuais desemboquem na esco-
lha de uma ética da eternidade ou de uma ética da evolução pura
e perpetuaI do ser vivo. Simondon ensina que, quando se trata de
Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, Valéry já subli- refletir sobre o processo de individuação do ser vivo, é ~~iso es-
nhava que: "Doravante. toda ação faz reverberar uma quantidade capar daquelas duas éticas~nrrielra, que defende u~tabi­
de interesses imprevistos de todas as partes, engendra um colosso lidade do absoluto incondicional", a segunda, que busca JJma
uperpefua evolução de um relativo fluente". Em seu lugar, Simon-
13. Layrnert Garcia dos Santos. "Considerações sobre a realidade virtual" in Leila da
Costa Ferreira (org.). A sociologia no horizonte do século XXI. São Paulo: Boitempo, 16. Paul Valéry. Op. dt., p. 35-9.
1997. p. 118.
17. Para chegar a ser considerado um pacote de informação houve, evidentemente,
14. Vandana Shiva. Etique et agro·tndustrie, main bassesur la me. Paris: I.: Harmattan, um longo percurso histórico. Alguns de seus aspectos foram analisados em nosso
1996. artigo ·Corpo e história" in Cadernos de Subjetividade, revista do programa de es·
15. lbidem, p. 71. tudos pós-graduados em psicolegia cllnica. São Paulo: PUC/EDUC. 1995.

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CORPOS DE PASSAGEM CORPO: ÚLTIMA FRONTEIRA?

<..Io!!.E!:QPõe "a no~o de uma série sucessiva de equilíbrios metaes- )


--
táveis", considerando que, "em cada ato reside _ao mesmo tempo
- ---- ,,--_.
um movimento para ír mais longe", para além dele próprio, mas,
.-
Desde então, a fórmula "tudo é possível", reconhecida por
Hannab Arendt como a f6rmula do horror, foi banalizada na cultu-
ra e na dência. permitindo uma liberdade infinita de manipulação
ao mesmo tempo, um movimento de integração entre diversos atos, dos corpos, tanto para homens quanto para mulheres. Omma
incluindo uma ressonância entre eles. Um ato humano, por exem- Harawayadmitiu que esse processo histórico de libera ões~es­
plo, nâo seria uma unidade independente âe seu passado e de seu sivas (gsulta, por exemp o, num feminismo cujas bases não pQde-
devir, autônomo e separado dos demais atas que com ele fonnariam riam ser mais as do~onhecidos dualismos entre os sexos, e muito
um sistema (seja ele cultural, seja bio16~o). Diz Simondon: "0 menos a freqüente distância, que ainda se pretende manter, entte
ato não é uma unidade na corrida rumo ao infinito," Um ato desse ciênCia e cultura. Para ela, ciência é cultura e a tecnociência nos
tipo, que "é" somente ccele mesmo", considerando esse "ele" algo leva a conviver com seres pós-gênero. Haraway afirma, igualmen-
pronto e acabado, prescinde dos demais atos e de suas histórias. te, que o rompimento das fronteiras entre natureza e cultura não
Por isso, talvez, seja inevitável perceber nele uma semelhança com seria o fato mais característico do finaI do século XX, e sim a passa-
o ato amnésico, figura da esquizofrenia que, segundo Gilles Deleuze gem cada vez mais rápida existente entre~l 'á híbrido de
e Félix Guattari é cotidianamente fabricada pelo sistema capita- tecnologia e biologia e o re gitaI21 •
lista l8 • Nessa direção, o ser humano recusaria ser um "domínio fe- Sabe·se, porém, que a proliferação de seres p6s-gênero ~o
chado de realidade, singularidade destacada". Com efeito, um ato significaria o desaparecimento de antigas desigualdades entre os
que só faz ressoar para ele próprio, recusando participar das resso- gêneros hllJn@os. Com a queda do muro de Berlim, por exemplo,
nâncias capazes de nele afirmar sua função de utTansfer" seria e após meio século de legislação proclamando a plena igualdade
simiIãr ao ato totalitário 19 • -- entre os sexos no mundo soviético, surgiu uma desigualdade bru-
Retornando pela última vez a Paul Valéry: o crescimento da tal entre eles, traduzida por restrições ao aborto e à união livre,
potência de agir sobre a natureza e a expectativa demiúrglca de assim como pelo retorno de antigas posturas mis6g1nas22 •
criar a vida caracterizam boa parte da hist6ria da Civilização mo- De todo modo, nem mesmo no interior das biotecnologias se (
dema. Valéry escreveu que, ao longo da modernidade, a espécie estaria a salvo da coexistência e/ou das disputas entre as maneiras ('
humana, "reconheceu lentamente e irregularmente a figura super- de conceber os gêneros e a própria vida. Mesmo no Projeto Genoma,
ficial da Terra; visitou e representou cada vez mais de perto suas considerado um grande exemplo de modernidade, existem práti-
partes; desconfiou e verificou sua convexidade fechada; encon- cas e visões de mundo que concebem a vida segundo os moldes
trou e resumiu as leis de seu movimento; descobriu. avaliou, ex- mecanicistas. É muito interessante a análise de Shiva sobre as ca- (
plorou os recursos e as reservas utilizáveis da fina camada na qual racterlsticas desse modelo mecanicista nos setores de ponta da
toda a vida é contida [... ]"20. Investigação e controle da natureza biotecnologia atual, Modelo redutor, afirma ela: para o mecani-
que acabaram por incluir igualmente os corpos humanos. Para tanto cismo, os materiais de base da essência da vida não passam de
foi preciso liberá-los da natureza divina, das tradições locais e fa- meros parafusos e tarraxas. Como se os genes fossem os átomos do
miliares, liberá-los, ainda, de suas fronteiras de gênero e de espécie. organismo e a vida funcionasse exclusivamente a partir de dois

18. G1lles Deleuze e Félix Guattar!. O anti.Édipo. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
21. Ver por exemplo Donna Haraway. Modest Witness@Second-Millenniun.
19. Gllbert S1mondon. I:lndívidu et sa genese physico.biologique. Paris: PUF, 1964, FemaleMan·Meets-Oncomouse. Nova Iorque: Routledge, 1997.
p.295·301 .
22. Jacquelllne Heinen. "Illusions perdues pour les femmes de l'Est" 1n Le Monde
20. Paul Va1éry. Op. dt., p. 32. diplmnaUque, dezembro de 1996, p. 12-3.

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CORPOS DE PASSAGEM

pólos opostos (negativo-positivo, masculino-feminino, etc.)23.


É diflcil sustentar que a ciência ro de de combate em com-
bate, rumo a um entendimento universal. Mie e oucaultjá ha-
via mostrado o quanto ela cãiliIriha de dominação em dOminação 24 •
Por isso, conhecer sua história demanda o estabelecimento de la-
ços sociais entre os receios e os sonhos de hoje e os do passado. Por
isso, também aumenta a necessidade de reconhecer as alianças PASSAGENS PARA CONDUTAS ÉTICAS NA VIDA COTIOIANA*
entre cultura e ciência. Percebê-las é um modo de detectar o quanto
muitos dos atas pessoais estão impregnados pela lógica do possível
e pouco habituados à lógica do socialmente desejável. A finitude
que Valéry percebia em seu mundo talvez possa, assim, começar a
abrir infinitas possibilidades de reconstruir nossos mundos.

Há filmes e livros que parecem tocar de uma s6 vez em nossa


intimidade e na do mundo. Eles recriam o elo entre elas de modo
tão discreto e firme que, no final da leitura ou do espetáculo, mal
percebemos a costura que foi feita. Não se trataria. de fato, de uma 7

costura, mas de uma ressonância vital que essas obras,~enerosa-


mente, vêm ajudar a fomentar. Uma ressonância capaz de reforçar
as passagens entre autonomia pessoal e vínculo social, entre as
condutas do aqui-agora e as de outras épocas, que antecedem nos
sa existência ou que a ultrapassam.
No fihne O ponto de mutação l , a busca de uma visão ecológica
tenta valorizar o estabelecimento destas passagens. Contrapondo-
se à acelerada exploração técnica e industrial das fontes naturais
do planeta, o filme coloca em questão alguns princípios oriundos
do mecanicismo e da fisica clássica. Exemplos que vão da ciência
à política, passando pela economia e pela filosofia, constituem a
conversa entre um poeta em crise de meia-idade, um político que
acaba de perder as eleições para a Presidência da República nos
Estados Unidos e uma fisica que se considera ex-cidadã norte-
amertcana. O desenrolar da conversa entre eles revela a complexi-
dade de uma visão ecológica aplicada aos domínios da ciência e da
politica. No lugar de privilegiar os seres isoladamente, tenta-se

23. V. Shiva. op. clt.~ p. 57. Parte deste texto foi publicado na revista Margem, nO 9, 1999.
24. Mlchel Foucault. "NJetzsche. la généalog1e, 1'histo!re1t 1n Dtts et Ecrits. Paris:
Gallimard, 1994, v. II, p. 145. 1. Mtndwalk, dir. Bernt Capra, EUA, 1990, 111 rolo.

86 87
CORPOS DE PASSAGEM PASSAGENS PARA CONDlTTAS tnCAS NA. VIDA COTIDIANA

'[1etir sobre as conexões por eles estabelecidas. Uma ética d~ co- bandeiras de luta favoráveis ao florescim .. 'dades di-
I 'xão é proposta (mesmo que muitas vezes ela seja colocada em fere tes, inusitadas e alternativas. Mas-não demorou muito para
Icstao pelo politico norte-americano), contra uma moral da do- que jovens de várias partes do mundo descobrissem o quanto era
lnação sustentada por antigas concepções substancialistas. mais fácil escrever sobre os muros da Cidade frases como )ouir
Do filme apreende-se que uma coisa seria adotar a perspectiva sans entrave" do que executar esta nova conduta no cotidiano.
ser vivo como algo já constituído e, desse modo, transformá-lo Serão precisos alguns anos para perceber o quanto o prazer e a
I princípio do pensamento e da ação; mas outra coisa seria felicidade também podem ser recodificados pelo mercado, funcio-
('I !bê-Io em constituição ou, como diriam os historiadores, em nando na founa de regras e coações violentas (talvez mais sutis,
('SSO, tendo como princípio as conexões que o constituem ao como diria Michel Foucault, ou, ainda, traduzidas na forma de
, I de sua existência. nova pornografia, como alertaria Jean Baudrillard).
II )davia, o filme mencionado não se limita a mostrar a possibili- Para alguns, após maio de 1968, novas fonnas de luta emergi-
de um deslocamento da percepção, ao propor o rompimento ram, favoráveis à defesa das minorias, do multiculturalismo, da
leferências mecanicistas e utilitárias. Nas últimas cenas, há saúde do corpo humano e do planeta. Para outros, os cuidados
litro deslocamento, talvez ainda mais dificil do que o primeiro: com a saúde e a aparênctajuvenil haviam assumido um perfil mais
,ndo se torna evidente o quanto uma espécie de ética respeito- pessoal do que coletivo, mais intimo e menos politico, enquanto o
'conexões carece ser aceita não apenas em forma de discur- narcisismo teria corroído qualquer possibilidade de luta coletiva e (
ntífico ou como um programa político de governo. Pois ela de engajamento político. Neste caso, muito do combate das refe·
(
nda ser, igualmente, traduzida em ações práticas, cotidianas, rências morais exteriores e transcedentais teria sido introjetado
I~oder integrar-se ao curso ordinário da vida,. Graças à inter- em cada indivíduo. Flexibilizar normas, valorizar o COrpOI buscar (
'o do poeta, a personagem que representa a ffs1ca é, então, uma subjetividade fluida, nômade e em
harmonia com a natureza (
.ntada com sua dificuldade de estabelecer conexões com seus não tardam a ser consideradas experiências ~audáveis, mas, ao
~ e relaCionar-se com seus desejos, qualidades e fraquezas. mesmo tempo, moedas em alta nos circuitos do mercado global.
nente ela, que discorrera de modo brilhante sobre a necessi- Por conseguinte, parte das lutas em favor da liberação do corpo, do (
te uma ética das conexões acaba admitindo silenciosamen-
l reconhecimento das diferenças culturais e das identidades nõma- (
ainda não a havia estabelecido em seu ambiente doméstico. des não tarda a favorecer a exclusão social de milhares de homens
~bre a urgência de uma ética exercida cotidianamente que e mulheres. Como se a divisão entre conservadores e rebeldes ti-
tnos a seguir. Ela exige uma mudança de percepção, confor- vesse sido submetida à tirania da cisão entre incluidos e excluidos: (
Iposto no filme, incluindo uma mutação das ações ordinárias sujeitos filiados ao sistema e seres descartáveis2 •
_s. Talvez o atual retomo das filosofias morais e a preocupação
crescente com atitudes éticas estejam relacionados à experiência
de uma espécie de náusea vivida em nossos dias: o capitalismo
financeiro globalizado, juntamente com o complexo biotecnológico
produtor e manipulador da vida no planeta, é surpreendido por

movimentos sociais herdeiros de maio de 1968 contribuí-


rn certa medida, para transformar a liberdade num valor 2 . A este respeito é extremamente sugestiva a leitura do livro de Gilles Châtelet Ytvre
et pensercomme des pores: de l'incitatton à fenvie et à l'ennui dam les dhnocrattes-
~.ntal. A livre expressão do corpo e da mente era uma das marcM,. Paris: Exils, 1998.

89
PASSAGENS PARA CONOlITAS tnCAS NA VIDA COTIDIANA
CORPOS DE PASSACEM

descartáveis". Segundo Arendt, o totalitarismo não procura o do-

Z' -
U
nós defendendo valores que se parecem com os conquistados após
mínio despótico dos homens, mas sim um sistema em que os ho-
muitas lutas realizadas pelos movimentos sociais em várias partes
mens sejam supérfl~s"3. Daí a necessidade de lhes impor três
tipos de destruição, três tipos de morte: a destituição de seus direi- .~
do mundo: 'Iliberdade corporal", uflexibilidade", "fluidez", "ousa-
dia", "ultrapassamento de fronteiras" - culturais e biológicas - ,
tos ou de sua pessoa jurídica; a destruição de sua pessoa moral; e . c:::(.. ~
IIsuperação de limites", Como se o mercado utilizasse a mesma
a aníq~..Q~ção d~ t~da a diferença individual que ainda lhes resta. ..,~.;
linguagem que outrora pareciã'j;rtencer exclusivamente aos aves-
Seguindo o raciocínio de Arendt, as ideologias totalitárias não visam l/
sos à obediência ao sistyna. Da m:sma maneira, a reivindicação do
a uma mudança do mundo exterior, e sim a uma tr:ansformação da
multiculturalismo deixa de ser limitada aos movimentos considera-
pr6pria natureza humana. Arendt nos alerta para o fato de gúé' as
e
dos de esquerda para fazer parte de slogans publicttáriõs render
soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à gueda dos regi-
lucr?s exorbitantes às empresas de turismo e à indústrlada.moda.
mes totalitários, o que nos sugere que a fórmula ·'tudo é ossível"
A primeira vista, fala -se a mesma língua no mundo todo. E se
pode oresc ra os cam os e em aiversos regimes de governo.
existir, de fato, a utilização de argumentos que parecem os mesmos
Ora, a arrogância de um humamsmo pauta o pe a razão utili-
entre patrões e empregados, produtores e consuntidores rebeldes
l
tária e que, após "a morte de Deus ", teria a seu dispor um campo
e integrados, como e onde estabelecer a distinção? Poder-se-ia re-
infinito de experiências com a vida foi alvo de inúmeras críticas no
trucar que tal tarefa é inatual em tempos de globalização acentua-
decorrer do século passado. Pois não é novidade o fato de um ho-
da ou, ainda, que tal distinção representa uma redução dos
mem utilizar um outro ser humano, ou então um outro ser vivo,
complexos problemas contem orâneos a dois lados: dominantes e
visando exclusivamente a seus próprios fins, nem o fato de que
do~. Todavia, como já foi centenas de vezes escrito e dito, a
tais usos causam, freqüentemente, o recrudescimento de debates
complexidade das forças mundiais não exclui a existência de reÇ
\ éticos. Mas talvez seja necessário admitir que o atual desenvolvi-
çóes de poder e, portanto, a existência de excluídos e incluídos em
mento das tecnologias reprodutivas e das biotecnologias vem con~
( tODas as partes do planeta. "Este argumento não apaga contudo as
tribuindo, em grande medida, para confrontar o ser humano com
dificuldades colocadas por aquela questão, cuja resposta exige a
a possibilidade de uma modificação radical e inédita da vida.
retomada de uma visão de mundo em que as' condutas éticas pos-
Em última instância, preocupa-se, por exemplo, com a possibi-
sam oalizar tanto as açoes globaIS quanto as que são locais e cotidia-
lidade de introduzir em escala mundial, por via das biotecnologias,
nas, incluindo dominantes e dominados. Talvez, desse modo, seja
processos irreversíveis e inusitados, comprometendo, em definiti-
possível discernir pejo menoS oS momentos em que no luiéU' da
vo, a continuação da vida no planeta.
diferença é valorizada a variação, em que em vez da expressão
Com os recentes desenvolvimentos da biotecnologia tornou-se
corporal adota-se o imperativo da boa/arma e em que no lugar da
possível apagar fronteiras que, durante séculos, constituíram as
manífestação do dese o n6made são legitimados os prazeres
singularidades biológicas de cada ser vivo, inclusive do ser huma-
poliva entes e mutáv~is.
no. No entanto, como disse recentemente Garcia dos Santos, "quan-
do são apagadas as fronteiras entre o homem e a homem
e a m ~, o ornem e o anim e quando são apagadas também
as fronteiras nas relaçoes de parentesco (através das biotecnologias
DA LIBERAÇÃO SOCAL À LIBERAÇÃO BIOLÓGICA

Nos sistemas totalitártos analisados por Hannah Arendt, os cam- 3. Hannah Arendt Origens do totalitarismo: anti·semitisma, imperialtsmo, totalita-
rismo. São Paulo: Companhia d~s Letras, 1997, p. 508.
pos de concentração são verdadeiras fábrtcas produtoras de "seres

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90
PASSAGENS PARA CONDUTAS tnCAS NA VIDA COTIDIANA
CORPOS DE PASSAGEM

portanto, a sua existência é, de certo modo, promessa de reprodu-


ligadas à reprodução) o q~e_ocorre? Quando essas fronteiras, que
eramjustamente aquelas do indivíduo, são apagadas) o que ~me ..
ção da vida "para além ºQ.
bem e do macho"5.
b advento do clone de uma ovelha adulta foi massivamente
ça iser minado é a própria noção de indivíduo"4.
abordado pela núdia e acordou antigos receios apocalípticos tanto
Estarlamos vivendo uma espécie de destruição da pessoajurí-
quanto fortaleceu posturas, não menós antigas, defensoras do
dica, conforme havia sugerido Arendt ao analisar os sistemas tota- .~
triunfalismo da técnica e da ciência. No interior de debates sobre
litários? A realização do domínio secular que o homem exerce sobre I os novos poderes de criação da vida, a preocupação com a bioética6
a natureza não cessou de possibilitar a eliminação de distâncias e
ganhou uma evidência singular. Principalmente quando se perce-
de limites entre espécies dilerentes (animais e vegetais, por exem-
beu que a produção de clones humanos poderia ser um caminho
plo), entre gêneros distintos (masculino e feminino) e, em particu-
natural para o desenvolvimento científico e industrial. .
lar, entre aquilo que cada época e cada sociedade considera natural
Se Com a pílula anticoncepcional conquistou-se o prazer sexual
e artificial. Esta tendência em borrar as distâncias entre espécies e
sem a reprodução da espécie. com as novas tecnologias conq~ista­
entre artificio e natureza não é nova. Se retomarmos a 1791, quando
se o direito de reproduzir sem prazer sexual. A inovação exposta
houve a primeira gravidez por inseminação artificial, praticada pelo
na experiência que gerou a ovelha Dolly comprova que é possível
médico inglês John Hunter, estaríamos ainda longe da metade do
dissociar inteiramente a sexualidade da reprodução. Mas a potên ..
caminho dessa longa históda, pontuada por manipulações do ser
cia -â'Q'"gesto criador desta ovelha não repousa apenas sobre essa
vivo. Mas, certamente, esta história foi acelerada no decorrer do (
dissociação. Ela expressa, em grande medida, o quanto é flutuante
século XX. Em 1938, por exemplo, uma tecnologia similar àquela (
o estatuto de seres vivos criados pelas biotecnologias: qual seria,
que mais tarde permitiu o nascimento da ovelha Dolly estava s~ndo
por exemplo, o estatuto ontológico de toda a imensa população de (
desenvolvida por um nazista chamado Hans Spemann. O espectro
seres transgênicos? Quando um inseto é acoplado a um mecanis-
do homem clonado já perseguia cientistas, cineastas e escritores. \
mo industrializado, como e onde classificá-lo? Como compreen-
Em 1944 é a vez das primeiras experiências de fecundação in vitro (
der estes robôs vivos, híbridos de natureza e cultura, fabricados
(FIV) humana; em 1951, houve a primeira transferência de em ..
para servir aos interesses dos humanos? A criação de m1cromá .. \
brião entre duas vacas e, no ano seguinte, uma tentativa de clona-
quinas vivas, destinadas a servir ao conhecimento do homem (e
gem de rãs e o nascimento de um bezerro a partir de um esperma (
hã quem diga que os insetos-robôs poderão servir em missões de
congelado. Muitas outras novidades apareceram, até o nascimen- (
espionagem), torna até mesmo a barata um ser útil aos humanos?
to da ovelha Do11y em 1997.
Como se, de fato, tudo fosse possível uma vez integrado ao sistema (
A criação desta ovelha colocou na ordem do dia (e à disposição
de produção e de consumo.
do mercado) a possibilidade de, pela primeira vez, proceder-se à (
A figura do vampiro, evocada por Karl Marx para definir o sis-
clonagem não através de um animal precoce, nem de um feto.
tema capitalista, precisari~ agora perder os traços de nobreza que
Dolly resultou da clonagem de uma ovelha que já tinha sei,S.anos
de i-º-ª.de e que se tomou sua irmã gêmea, seu pai e sua ,!!lãe ao
mesmo tempo. Dolly não se enquadra comodamente nas classifi- 5. Expressão de François Dagognet ln I.:ElJbzement dujeudt, nO 644, março de 1997, p. 21.
cações até então existentes formuladas pelas ciências. Ela não pre- 6. Em 1971. Van Rensselaer Potter publica Btoethics: bridge of the future. Ele é um
dos primeiros a empregar a palavra bi~tica, traduzindo-a por uma série de condu-
cisou ser criada pela fecundação entre um macho e uma fêmea e, tas promotoras do respeito à vida.
7. Diversos insetos são utilizados em experiências s1mi1ares. Ver,. por exemplo, "Un
moustique? Non. une seringue volante" ln Counier InternattonQI, 24/30 de julho
4. Entrevista realizada em fevereiro de 1999, ln revista Projeto História, nO 18. São de 1997. p. 25.
Paulo: PUC/EDUC, 1999.

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92
CORPOS DE PASSAGEM ~DIAN~ ~-
PASSAGENS ""lIA CONDtn"AS

~
a caracterizaram no século XIX: não se trata de SUgar apenas o culto nauseante de transformar o singular numa mónada isolaqa e
sangue, a força de trabalho dos humanos, mas, também, de captu- liberadade toda relaÇão e transcendência. De fato, o respeito às

l
rar a sua carne, o seu espírito e, ainda, de ser alimentado detOclos relações aparece como uma questão de sobrevivência individual e
os seres vivos, sem luxo nem desperd1cio. O valor do requinte foi coletiva. Talvez por isso mesmo o respeito à vida não s~ja" s~ples- ,.i
substituído pelo da eficácia. Os vampiros querem músculos e não mente o objetivo final, mas, muito mais, o modo de eXlstencla dos G
temem mais os espelhos. A vampirização aburguesou-se e já faz seres, durante toda a sua duração.!.,Em suma, enten~-se por ética - (
tempo. Tornou-se menos espetacular e mais ordinária, defende o o estabelecimento de relações nas quais, no lugar da dominação,
se exercem composições entre os seres; estas não s~o nem adequa-
conforto e não se limita a antigos luxos: não dorme de dia nem tem
preferência pela noite. Sua insônia é sua força . Está nas praias,
nos shopptngs, nos laboratórios, nas cidades e nas florestas. Parece
enfim plugada a todo ser vivo, como uma larva banal.
I
(
ções harmoniosas entre diferenças, nem fusões totalitárias gda-
das a tomar todos os seres similares. Trata-se de estabelecer uma (
compõStção na qual os seres envolvidos se mantêm siJigulares, di-
I

ferenter,tlo-começo ao fim da relação: a composição entre eles


realça tais diferenças sem, contudo, degradar qualquer uma delas 4-
em proveito de outras. A avidez característica da vontade de con-
trole do corpo tende, neste caso, a empalidecer perante estas rela-
(

(
EXERCER A COMPOSIÇÃO
ções nas quais os c,9rpQs não precisam dominar ou ser dominados t)
Talvez o mais grave não seja a possibilidade de estabelecer para adquirirem importância e força.
conexões inusitadas entre os seres através d~s biotecnologias, e No caso dos humanos, estas relações de composição são capa-
sim realizá-las sem considerar os interesses e o devir dos seres zes de ~!1~lar ou, ao. m_en~ .ciu~duzir._ª-!1ecessidade e o fascínio
colocados em conexão. Talvez, ainda, a ênfase nessa possibilida- de sé relacionar com o mundo através de estratégias de do na-
( de fomente uma arriscada valorização das conexões por elas ção. PQ!s as mações e po er po em ser no mínimo de dois tipos:
mesmas. por um lado, há as relações de dominação habituais, milenares, e
Se, como alertou Merleau-Ponty, "a ciência manipula as coisas sobre as quais muito já foi escrito. Nelas um indivíduo domina um
e renuncia a habitá-Ias"8 é dificil não desembocar na escravidão
j
outro ou por ele é dominado. As relações de dominação povoam o
( de milhares de seres vivos. Na medida em que se passa a habitar as cotidiano e marcam a história das resistências e das lutas sociais
( pr6prias realizações, científicas ou não, percebe-se aquilo que já ao longo dos séculos. Podem ser traduzidas de inúmeras manei-
havia anunciado Simondon: plantas e animais experimentam uma ras, segundo relações entre marido e mulher, pai e filho, patrão e
atividade ~e individuação pennanente, o que impede pensá-los empregado, governo e governado, mas elas possuem em comum a
como se fossem substâncias separadas do vir a ser e como seres indi- tendência de o primeiro termo - no caso, o dominante - funcio-
viduados, fechados, forma~os, definidos, estáveis. Para Simondon, nar como sujeito em relação ao segundo termo, a quem restaria a
a ética existe ustamente uando o vivo recusa ser "individuo abso- condição de objeto. Po~tOI nas relações de domina~ºt º s~eito }
luto, domínio fechado de realidade, singular! a e estaca a . Nãa- garante a sua condição de S1JJejto na medida em Que mantém 011
bastaria apostar na singularidade de cada individuo e d~-la outro na posição de objeto. Assim, uma relação de dominação acar-
poreIa mesma, pois haveria o risco, mais uma vez, de cair no cir- reta, freqüentemente, a degradação de um dos lados, no caso, o
domInado.
-cOrltúdo, há, ainda, relações que não são de dominação e que
8. Merleau·Ponty. L:(Etl et l'~t , Paris: Gallimard. coI. Folio, 1992, p. 9,
9. Gilbert Slmond~n. I.:Individuet sagenesephysico·biologtque. Paris: PUF, 19641 p. 301 ,
não acarretam a degradação dos seres implicados. Relações que,

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PASSAGENS PARA CONDlITAS tnCAS NA VIDA COTIDIANA
CORPOS DE PASSAGEM

sem excluir as forças e as diferenças entre os seres em contato, os nando-o independente do processo vital, mas, também, não o re-
mantêm como agentes de uma composição metaestável. São rela- duz ao contrário dessa situação que, no limite, o tomaria total-
ções que também esbarram em dificuldades, pois elas não ocor- mente descartável. Saindo desses dois pólos extremos, é possível
rem a partir de uma adequação harmoniosa entre as partes, nem viver uma situação em que as oposições dão lugar à complexidade
realizam uma fusão entre elas através de uma suposta dissolução de sentidos.
de suas diferenças. Nesses casos, as diferenças entre os seres são Em nossos dias, nada é mais desolado!, do que constatar que o
<
bem-vindas e continuam a existir durante toda a duração da rela- pavor dos seres descartáveis pode dar lugar à construção de seres
(
ção estabelecida. Ora, se há diferenças entre os seres em relação, que queiram durar eternamente. Nada é,mais constrangedor do
como é possível escapar do domínio? que se esquecer de que é preciso desaparecer para que outros pOSe.
Nem fusão e diluição elos serjis...Lnem dominação com a degra- sam aparecer. Para Varela, "embora os indivíduos sejam provisórios,
dação de um deles, uma relação de composição seria um encontro eles são indispensáveis, essencíais"ll. Provisórias e essenciais são
entre conJurÜos de heterogeneidades (que podem ser grupos ou também relações com a vida que consigamser éticas, ou sej~1 que
tornem supérfluo não mais os homens, nem mais a vida, mas sim (
indivíduos, incluindo homens, mulheres, crianças, classes sociais,
nações, etc.) que se manteriam heterogêneos do principio ao fim as relações de dominação com o mundo em favor de encontros (
da relação, promovendo o mútuo fortalecimento das inteligências que p~tencializem, num mesmo gesto, a composição individual e a
em conexão; na verdade, esta relação náo seria composta por ter- composição coletiva,
mos, pois cada parte serta ao mesmo tempo "agente e teatro da "Nao há novid~de no elogio feito à relação de composição. Quan-
relação la.
II do Merleau-Ponty escreveu sobre a pintura, por exemplo, ref~e
a uma situação similar: é quando "isto que chamamos de inspira-
ção deveria ser tomado ao pé da letra: existe reãInlente inspiração
e expiração do Ser, respiração no Ser, ação e paixão tão pouco
PASSAGEM A PEQUENOS EXEMPLOS discerníveis que não se sabe mais quem vê e quem é visto, quem (
pinta e quem é pintado hI2 • Como se o pIntor tivesse se tornado a
(
Pode parecer distante da realidade cotidiana esta sumária ex- a~o de pintar e ~le fosse tão intensamente este ato que nada so-
(
posição sobre as relações de composição. No entanto, elas são ba- brasse dele para representar o papel de pintor, ou mesmo para
nais e felizmente existem nas experiências de diferentes classes observá-lo, Seu corpo e seu espírito seriam o próprio ato de pintar. (
sociais e culturas. As relações de composição resultam na afirma- Na vida cotidiana, há vários momentos desse tipo, em que milha-
(
ção da vida como um processo no qual cada ser não é nem mais res de humanos se tornam a própria ação que praticam. Nestas
nem menos do que uma dobra, ao mesmo tempo autônoma e de- situações em que a composição realizada prescinde do exercício
pendente em relação ao processo vital. Mantendo-se assim, como da dominação não há opressão de um indivíduo em favor do outro. ~"
algo que não é nem mais nem menos do que uma dobra no tecido Muit~tas vivem experiências dessa natureza, nas quais ~
ou teia da ,?da, o individuo não a obstrui, nem a degrada e, ao eles se tomam a ação em curso. Quando isto ocorre, e por vezes
mesmo tempo, nela se individua e se irradia. Ou seja, ele é apenas com a duração de segundos, tem .. se a impressão de que não é mais
uma dobra, m~ão é simplesmente mais uma dobra. Esta visáo
paradoxal do ser vivo impede de projetá-lo acima dos demais, tor- 11. Francisco 1. Varela. Autonomie et connai3sance, essa1 SUT te vivant. Paris: Seuíl,
1989, p. 70.
10. Ibidem, p. 69. 12. Merleau-Ponty. Op. cit, p. 31·2.

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PASSAGENS PARA CONDUTAS trlCAS NA VIDA COTIDIANA
CORPOS DE PASSAGEM

possivel separar o suO eito que pensa e questiona do su' eito que age. As relações entre seres que prescindem da dominação não es-
A reflexão deixa de ser c ' s ecto tipicam_~nte men- tão isentas de tensões e, especialmente, de potencial criativo. Por
tal, orque se conecta completamente à vida corpórea. Ao mesmo isso, elas se aproximam da arte e muitas delas ocorrem no terreno
tempo, esse sujeito que é pensamento e ação consegue sê-lo por- das artes. Mas também florescem no esporte, no trabalho, no estudo,
que, não se colocando fora da relação, mas totalmente nela, o tem- nas relações de amizade e de amor. Michel Foucault havia pergun-
po Pres~-ser Vivido como um trampolim para o futuro. tado por que razões, em nossa sociedade, a arte tem mais relação
O tempo presente se ampliã, se Intensifica. ,., com objetos do que com pessoas e do que com a vida. E lançou a
O exém.E,lo do surfe é neste caso ilustrativo sobre um encontro questão: "A vida de todo indivíduo não poderia ser uma obra de
arte?"14. .
entre o mar e o surfista, no qual o objetivo a ser atingido é a ação
de surfar: a meta final coincide com o processo. Por isso, a relação ~nstruir a vida de cada um como obra de arte, não com a
'; entre o surfista e o mar tende a ser menos a de um domínio de um intenção de expô-la em museus e galerias. Aqui o trabalho artístico
sobre o outro e mais a de uma composição de dois conjuntos de não busca elevar o artista ou a obra, destacando um ou outro peran-
forças heterogéneas. Poderíamos até mesmo dizer que, em diver- te o mundo. Não se trata de destacar, elevar, separar em alto e baixo,
sos momentos de sua prática, o surfista surfa com o mar, sem ten- superior e inferior. Mas de relacionar forças, potencializá-las, am-
{ pliar suas ressonâncias, realçando ao mesmo tempõ Õmdivfâuo e
tar apoderar-se dele, e sem por ele ser tragado ou anulado. Surfar
o coletivo, o humano e o não humano, não para colocá-los acima
X implica então estar com o mar, com a prancha, com o vento, com-
pondo os gestos com o meio que o cerca, num processo de afinada
seleção. No lugar de se apoderar do meio, de se agarrar a ele ou de
da vida, mas dentro dela, de tal modo que ao admirar um gesto
humano seja possível tornar admirável também os gestos que o cer-
( D\ se submeter a seus movimentos, para surfar é preciso aprender a cam no presente e aqueles que o sucederaIl). no passado. Trans-
~ estar com o meio. formar o corpo num território de ressonâncias destituído de todo
~ Para tanto, o surfista ao surfar é ação, pois ele está totalmente autismo. Evitar o constrangimento de corpos que remetem seu
~- presente nesta ação, completamente atento às especificidades de ~I brilho apenas para si, que começam e se esgotam unicamente ne-
seu encontro com o mar. Fora dali não sobrou nenhum resíduo les. Não reconhecer sedução alguma na avidez que busca colocar
i

\ dele para observar. A ação de surfar coincide com a sua percepção. o próprio corpo no começo e no fim dos processos. Fugir para,..9
Por isso, para o surfista, cada onda é, de fato, uma onda diferente meio onde se dão as lutas, as disputas, a criatividade. Fúgir para o
(
da seguinte. A habilidade do surfista, como a de um homem que mero: já havia escrito Deleuze, sem adiar o real para amanhã sair L

ama a matéria com a qual age, "não é o exercício de um despotismo dos extremos e das montanhas que não conseguem ter outra pre-
violento"13. A ação de surfar pode, assim, ser bela, não necessaria- sença senão aquela das extremidades, como se fossem o começo e
mente porque se assemelha a alguma imagem do surfe ideal, mas o fim do mundo; situar-se na grama na geog)Afia 15. Hitler amava
porque se insere de tal modo na paisagem real de um momento, as montanhas não pelo que guardavam de grama e outros rizomas,
que cada parte do corpo do surfista e de sua prancha vai expressá- mas pelo esforço linear e higiénico que evocavam. Montanhas que,
la e mesmo potencializá-li. Ele é belo porque prolonga a beleza do enquanto lambiam o céu, olhavam os homens com soberba gelada.
mundo em que habita. De modo que, ao contemplá-lo, nossos olhos
também são levados a surfar por toda a extensão da paisagem.
14. Entrevista com Mlchel Foucault in Hubert L. Dreyfus e Paul Rabinow. Michel
Foucault. Un parcouTs philosophique. Trad. de Fabienne Durand-Bogaert. Paris:
Galllrnard, 1984, p. 331.
13. Gilbert Slmondon. Du inode d'existence des objets techntques. Paris: Aubier, 1989,
p.92. 15. Ver por exemplo Gilles Deleuze e Claire Parnet. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998.

98 99
CORPOS DE PASSAGEM PASSAGENS PARA CONDUTAS trlCAS NA VIDA COTIDIANA

Mas há outras montanhas, assim como há outros olhos para Funcionar como elo implica conter o tempo e viver a união
(
apreciá-las. A tradição chinesa oferece muitos exemplos sobre os entre ação e reflexão. Estar atento ao curso das coisas e ao poten-
modos de existência da natureza 16 • Se há, por exemplo, monta- cial de cada situação: "Quando se é a ação, não permanece resí- (
nhas que inspiram confiança porque não se locomovem, há aque- duo algum de auto-consciência para observar a ação a partir do
las que por não se locomoverem suscitam nomadismos e mistérios exterior" 18. Quando se é a ação, nas mais diversas atividades exer-
que somente a água parece capaz de provocar. Há corpos que se cidas, é o doiriíriio sobre o outro (e nao ge0ufrõ) que tem a chance de
parecem com as montanhas idealizadas por Hider e C01J)OS que se tomar. enfim, supérfluo. Nessa circunstância, o ser humano não
lembram peixes circunscritos pelos vidros de aquários. Mas uhá representa a ética mas encarna-a. O surfista não suITa para res.peí-
homens que andam no mar", escreveu Drummond 17 , e e~s nã'o tar regras e sim para surfar. As condutas éticas são criadas iuruo à
são santos nem heróis. Ao contrário destes, há contudo os que invenção da habilidade de surfar, deixando de ser unicamente uma
aspiram a grandeza das cadeias montanhosas e imitam a sua soli- deséoberta intelectual ou científica.
dez. E, cedo ou tarde, os imitadores realizam a segunda parte da-
quilo a que aspiram: dão um passo adiante chamado substituição.
É quando, já se sentindo maiores do que as montanhas imitadas, Daí a impossibilidade de criar uma conduta ética universal ou
os imitadores desejam substituí-las. E chegam a fazê-lo. Imitaram (
com a aspiração de sê-lo. Daí, também, a dificuldade de êscrever
tanto a naturalidade de ser majestoso como as montanhas que não SODre condutas éticas. De nada adiantaria fazê-lo se a intenção
sentem nenhuma estranheza em abatê-las. Como se a existência fosse prescrever modelos e criar discípulos. Mas através de alguns
desses homens dependesse da eliminação daquilo ou daqueles que exemplos triviais é possível, quem sabe, lembrar diversos momen-
os ensinaram a ser o que são. Haveria outro destino aos imitadores tos da vida em que se é ético, conscientemente ou não. Ao surfaI,
que levam muito a sério a tarefa de se parecer com seu modelo? mas também ao tocar um instrumento, ao se relacionar com um
Imitação que desemboca na substituição: isto não é da mesma amTgo, um parente, ao amar, trabãIhar e escrever, várias vezes ho-
natureza que a composição entre seres. Talvez porque na composi- mens e mulheres comuns realizam conexões com o mundo sem
(
ção, menos do que aspirar ser belo de uma unica maneira durante de adã-lo e sem degradar sua condiçao numana. Indmeras vezes
um tempo infinIto, abre-se a possibilidade de estar belo de manei- eles reúnem ação e reflexão, inten . can o a vivência do presente (
ras dfrerentes em temporalidades finItas. Adistância entre compo- e tomando o eu de cadâüm menos sólido, menos uma substância (
sição e imitaçao é comparável à diferença existente entre uma do que um ato. E, ao lembrar da alegria vivida nesses momentos (
cadeia de montanhas e uma cadeia com montanhas. (por vezes tão fugazesl), talvez se possa estimular o corpo e a alma
Thdo o que foi anteriormente esc' su ere ma diferen a e a a continuar cultivando estas condutas éticas, agora e cotidiana- (
repete: o con r o o corpo totalitário talvez seja todo corpo que mente. (
no lugar de manter-se como substância, mônada isolada e livre,
existe como um elo entre corpos, floresce como uma dobra do teci-
do da vida; na ftnitude de sua existência este corpo ressoaria a
infinita potência criadora do mundo. (

16. Ver por exemplo Yue Dai Yun e Anne Saivagnargues. La nature. Paris: Presses
littéraires et artistiques de Sanghai, 1999.
17. Alfonso Romano de Sant'Anna. Drummond, o gauche no tempo. Rio de Janeiro:
Ua/lNL, 1972, p. 166. 18. Francisco J. Varela. Sobre a competlncía ética. Usboa: Ed. 70, 1992, p. 41.

100 101
CORPOS-PASSAGENS

"O omá é uma forca pura, àse imaterial, que só se torna per-
ceptível aos seres humanos incorporando-se em um deles. Esse
ser escolhido pelo orixá, um de seus descendentes, é chamado seu
~n, aquele que tem o privilégio de ser 'montado', gUn, por ele.
Toma-se o veículo que permite ao orixá voltar à Terra para saudar e
rece~r as provas de respeito de seus descendentes que o evocaram"} .
Ao receber o omá, o elégUn faz uma espécie de doação do
seu corpo. Ser possuído implica ofertar o corpo para a entidade
divina. Mêlhor dizendo, trata-se de encarnar uma entidade, tor-
nar-se veículo de suas forças. F

Ceder o próprio corpo a uma entidade sagrada não deixa de ser


um acontecimento destoante das tendências laicas e contemporâ-
neas destinadas, ao contrário, a fortalecer a consciência de sua
presença. Tendência destoante da vontade de transformar a exis-
tência corporal em veículo exclusivo de si mesmo, no limite, numa
espécie de marketing privilegiado do eu.

1. Vdi)l. Ortxds, deuses iorubds na África e no Novo Mundo. Trad.


Pierre Fatumbi
Mada Aparecida N6brega, fi. ed. Salvador: Corrupio, 1997, p. 19.

103
CORPOS DE PASSAGEM CORPOS-PASSAGENS

POSSE E POSSIBIUDADE do expressa-se principalmente através da dança. Os gestos dizem


não apenas o que os iniciados sabem, mas aquilo que os outros
A possessão é uma experiência presente em diversas religiões vêem e cada iniciado ignora. Entre o que é expresso na dança de
e faz parte de inúmeros cultos nos quais homens e mulheres sáo cada corpo e o que é visto, ouvido e sentido, há uma distância
periodicamente preparados para receber a presença do divino. Em difIcil de formular através de palavras. Talvez porque seja justo no
muitos deles, o corpo humano não é considerado um objeto do espaço entre corpos supostamente con~ientes e corpos voluntaria-
pensamento, independente dos demais corpos e do cosmo, nem mente possuídos que uma espécie de vibração quente e desconhe-
um ente destinado a comprovar os valores do eu. Ele é, entre OU-I cida ganha corpo.
tras coisas, espaço de acolhimento de forças invisíveis e sagradas, Em cerimônias do candomblé, por exemplo, ao som dos tam-
lugar de recebimento, de transmissão, em suma, de passagem de bores, diante dos giros dançantes das figuras possuídas e possibili-
entidades e fo:;-ças não-humanas. tadoras, muita coisa do que se passa escapa da capacidade de
Na religião nagô, o corpo humano é um microcosmo que re- interpretação. Provavelmente muito do que se passa é Q devir, que,
produz as dimensões do tempo e do espaço, dotado de poder para como disse Nietzsche, é iníormulável. Na longa repetição de ges- (
atuar no mundo e transformar as coisas2 • Há um vinculo entre tos e sons constltwntes da possessão em cada culto, há a invenção (
microcosmo e macrocosmo, heterogêneo e complexo, garantindo do diferente: este não é apenas uma sensação nova, ou um con-
a ambos relações analógicas entre vários elementos. Devido à junto de sensações inusitadas. É também uma maneira desconhe-
similitude entre cosmo e corpo humano, o Axé, força mágico- cida de sentir. Sente-se a partir de dimensões do corpo até então (
sagrada, pode ser encontrado em todos os seres e componentes da inexjstentes. Comõ se a sensação sentida nâo pertencesse aos (
natureza. Por isso também, quando há possessão, mais do que se
l modos de sentir habituais. Não porque ela estivesse recalcada, so-
tomar outro, de possuir um outro corpo ou de passar para outro terrada, inconscientemente guardada, mas porque, de fato, não
corpo, ocorre uma espécie de transformação do próprio corpo num e~. Trata-se apenas e em suma de uma ampliação do corpo

., jnYi~. ,~g@, .l?~~~_~<.~,~.r. ~~~~_~~rp?~!~~lhor l~'


sensível.
local p. ara a passagem..A.O
seria dizer que o corpo possufdo torna-se eTe mesmo uma passa-
. (

(
gem, ~~at)dô seuAXé~êõ{aõ ·mÜilad:· Pàrtãi'lrõ~à '<t·erm.ô·~ssu{do
não remete ~p~as à"pôssemas: rundii. 1 experiência de possibili- ~ (
t~ o corpo do possuído possibilita, de fato, uma presença sagra- ELOS
da, materializando-a em gestos visíveis, desdobrando-se em
(
macrocosmo, juntando num mesmo corpO o eterno e o efêmero. Um cor o tornado passagem é. ele mesmo tem o e~spaço
A transformaçáo do próprio corpo em veículo de forças que se ~dos. O p~nte su stit o pela presença. A duração e o (
situam para além do humano exige que este último ceda espaço e instante coexistem. Cada gesto expresso por este corpo tem pouca (
se recolha na inconsciência. Durante a possessáo, o possuído não importância uem si". O que conta é o que se passa entre os gestos,
(
tem consciêncIa de SI, abdica do controle de seu corpo e de seus o que liga um gesto a outro e. ainda, um corpo a outro.
atas. Entrega-se à ação divina, abre o próprio corpo à atuação da Quando o corpo é aberto e se transforma em passagem, a dis- (
~
entidade. Em certas cerimônias e festas religiosas o corpo possuí- solução da distância entre consciência e inconsciência deixa de
ser utopia ou sinônimo de redução da percepção. Porque DãOé a
alma que se abre para acolher o sagrado e, em seguida, se recolher
2. A este respeito ver por exemplo Monique Augras. O duplo e a metamarfose, a ide,,·
tidade mítica em comunidades NaglJ. Petrópolis: Vozes, 1983, p. 62·3. os
para confins da intÍmidàde cadade uni.)\'
alma se abre para ser
.. --~------ '- - . -_. -

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I "" CORPOS OE PASSAGEM •
d2. r6 .. se rl ~ ~ ~ ••

espraiada no corpo, tal como a espuma das ondas se dilata e se mo. Talvez entre as saudades mais duras estejam as saudac!~s de si ~~­
disperSã--nomar. A alma deiXa"de"ser"uma -espécie
de submarino I mesmo, rMI~bieJII. Ii . . §éht.ml@,n(,.~~pa~sado ~~tL
.' & paztir titS,te'
blindado navegando nas profundezas do corpo fluido do mar, sem- se torna alta e deixa d...-eJ~!.~!~l~"QÇ,~.Y!X.~,J.,l(l..m~m.Q"",Q.a e nas linhas ~\,
pre tentando partir ou chegar. Porque ela se desrealiza enquanto que constituem um corpo. Porque é falta, torna-se vergonhoso, e )"
embarcação que não cessa de viajar pelas vias do cOrpo, este se por vezes "pedeêreSquecimento através das cirurgias plásticas. ~(
transforma em passasem. Aqui a alma não é mais um elemento
destacado do corpo feito uma relíquia. Deixou de ser submarino
fechado para ser água e areia, mar de sensações, universo precioso
de elos liberado do risco de naufragar. Pois o mar não naufraga. E A BOA FORMA E SUA BAGAGEM
também não precisa ser salvo. Necessita apenas marear.
Há coryos que recusam ser passagem e esperam fazer evoluir Quando aumenta a sede de encontrar companheiros é preciso
seus nervos e tremores para ascendê-los à condição de uma alma insistir: há uma grande diferença entre um corpo que ressoa uni-
separada do corpo. Mas nos co os· assagens é a alma que
se
dure~e em TO enquantp sste abandona sua sueo~ co,! ição
2mê7 camente para ele mesmo e um corpo que serve como passagem de
forças, sem a preocupação de convergi-las unicamente para si. Há,
de su orte . s ão da vontade. ' ,.... , eln suma, uma imensa distância entre corpos que somente pas-
Vâtiás ocàslões na vida a tarn a transformação do corpo sam por todos os lugares e aqueles que, realizando ou não tais
numa passagem, Por vezes, a percepção de seu envelhecimento viagens, se tornam eles mesmos passagens.
favorece esta mudança: a princípio vêm o receio e o desconforto Em geral, a metamorfose de um carpo-passageiro em corpo
diante da juventude que abandona o corpo sem olhar para trás. passa~m n~o tem nada de espetacular nem de fora da realidade.
Quanto mais a velhice assusta, mais a juventude deixa o corpo Mesmo quando a sua formação ocorre a partir de práticas religio-
com a energia de um adolescente. A seguir, pode emergir o deses- sas, o importante, de fato, é que esta metamorfose e ge, para além
pero e a tristeza. Mas nada garante que estes sentimentos perma. de toda crença em forças divinas, um co o dinário constante
neçam sempre jovens. Por vezes, quando menos se espera, floresce e muito direto com as dimensões duras e cruas da realidade. Ela
uma consciência desperta diante do que está ocorrendo com o corpo faz portanto parte da vida, está ao alcance de todo ser humano,
em vias de envelhecer. Claude Olievenstein3 escreveu que se entra pois caracteriza a humanidade e singulariza sua existência.
na velhice refletindo. Mas não se trata de uma reflexão reduzida à No entanto, desde os primórdios da humanidade saQe-se o
neces~dade de resolver um problema. Trata .. se de uma ref1wcão quanto é diftcil fazer parte da Vida tal como ela se apresenta em
mais ampla, que ajuda a não existir como um morto-vivo. Ela serve cada circunstAncia. Talvez porque viver seja o que há de mais na-
para tt:solver problemas, mas também para observá-los. Uma Wle- (J)M..oJJ..- tural e oe mais dificil. A hist6rica divisão entre corpo e alma ex-

..:?
r-
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\J \l
xão ampla que não capta apenas os pontos salientes das formas do ~-.
mundo. Mais do que conte~plação da velhice, ela é uma contem. c..~
pIação ~o envelhecimento palílatino dos problemas da vida. Há qual -
quer coisa de cÓmico em ver os próprios problemas envelhecerem. r -: ~
Descobrir esta comicidade destituída de ironia é de certo modo OJ..
tll :
pressa, em grande medida, esta dificuldade, principalmente a partir
da época moderna. quando o corpo passou a ser visto muito mais
como aquilo que se tem do que aquilo que se é. Pelo menos nas
sociedades ocidentais, esta separação desdobra-se em muitas ou-
tras, sempre afirmando que o pen~ento é algo infinito e inteli-
I
enfraquecer um sentimento que a velhice aguça: a falta de si mes- ~.. gente. enquanto o corpo é finito e ignorante.

O· .QiIQ'!','!!e1n. N~e ~ de ..vlelJ",.e. Paris: Odlle Jacob, 1~9~~/ L Emalguns casos~ divisão entre alma e corpo - ou pensa-
mento e corpo - teve seu.. prim·eiro terr;o traduzido pela noção de

106 ~ ~
~~. 107
CORPOS DE PASSAGEM CORPOS-PASSAGENS

boa forma: a boa forma passa a ser considerada uma espécie de existiram almas de todos os tipos. Mas o que todas elas têm.s}llcul- i
í
melhor parte do indivíduo e que, por isso mesmo, tem o direito e o dade de aceitar é uma outra rela - o com o co - o trans- i
dever de passar por todos os lugares e experimentar diferentes acon- forme em mera agagem ou matéri~rima. A boa forma resiste, I
tecimentos. Mas aquilo que ainda não é boa forma e que o indiví- de fato, à mudança de sua visão empres;uial. Reluta em deixar de
duo considera uapenas" o seu corpo, toma-se uma espécie de mala considerar o corpo um mecanismo (em alguns casos admite-se I,
por vezes incomodamente pesada, que ele necessita carregar, em- que ele é sensível e dotado de inteligênçia) feito para servi-la. Vai- I
bora muitas vezes ele queira escondê-la, eliminá-la ou aposentá- dosa e dominadora, a boa fonna talvez seja mais obsessiva e apres- i
~
la. Durante séculos o corpo foi considerado o espelho da alma. sada em seus propósitos do que já o fora a alma. ~oís a boa forma
Agora ele é chamado a ocupar o seu lugar, mas sob a condição de sabe que não tem vida eterna.
se converter totalmente em boa forma. Assim, de nada adiantaria fazer uma revolução dos padrões
Acen.!uar a se aração entre boa forma e corpo é beirar a catica- estéticos se com ela, junto dela, não fossem prodUzidas metamor-
tura: o corpo vira uma esp cle e agagem e mão da boa fonna: foses capazes de transfonnar os sentidos da estética. Questionar
às vezes, tem-se a impressão de que a boa forma saiu por aí sozinha, os sentidos da estética pode despertar a chance de modificá-los e,
deixando sua bagagem guardada dentro de um annário. Mas, cedo ao menos, de criar um espaço para a tomada de fôlego em meio à
ou tarde, a bagagem aparece de surpresa, como se titesse sido libe- corrida rumo àquelas sucessivas trocas de ideal estético que em ;'\

rada por algum demônio ou vírus. Chega de repen1Je e se instala; nada modificam o dever do corpo individual de precisar se ade-
interrompe os sonhos da boa forma e pede atenção exclusiva. E como quar constantemente ao ideal de boa forma geral, seja para imitá- (
lo perseguindo seus rastros, seja para substituí-lo. Poderase-ia II
a tal bagagem sabe que raramente é bem-vinda, assume um perfil I,
choroso, dramático, dependente, aborrecedor. A boa forma entra perguntar se a estética não oferece outras possibilidades, além da
: ! (
em pânico e pergunta: onde foi que eu errei? E quanto mais a boa eterna corrida rumo à substituição de um padrão por outro. i
I: (
forma tenta se livrar de sua bagagem, seja fugindo dela, seja ten-
tando domesticá-la, mais a sua presença lhe parecerá inadequada l
e intolerável. Uma situação aparentemente sem saída.
(
É que a boa fC?rma, da maneira como foi mencionada, basela- COMPANHEIROS
se numa noção de estéticaCãrieatural: ser beloé-àprOxímaf-se de (
um ld~~;_se'mpre determinado de modo uií1verSal,
distinto do que Para os índios guaranis, gerar uma criança é dispor de um espa·
é cad~ .~~_rpoJ enquanto este, por sua vez, é considerado Jlm ente ç04. Para diversas religiões orientais, o espaço é um dos elementos
(
particular e local. Na busca pela boa fonna não há grande espaço constituintes do corpo humano, juntamente com a água, o ar, o fogo
(
para perceber o quanto é insuficiente mudar os padrões estéticos, e a terra. Para muitos artistas e cientistas contemporâneos o espa-
substituir, por exemplo, a pele negra pela branca, a estatura baixa ço não é apenas o solo sobre o qual se desenrolam os acontecimen- (
pela alta, ou mesmo revolucionar os ideais que conquistaram o tos humanos. seu te~o mas, pnnclpãImente, um
(
pódio estético atual. Não basta dar um golpe nos modelos. Algumas elemento concentrador edisSipador de forças. ~,
Talvez o trabalho de muitos decoradores esteja ligado à habili- (
versões da busca pela' boa forma até aceitam as variações cultu-
rais, econômícas e geográficas dos padrões de beleza, afinal, não dade de manusear estas forças. Não apenas buscando a beleza li-
se pode desprezar a inteligência que as alimenta.
Ainda de modo caricatural é possível dizer que há boas formas Pierre Clastres. A fala sagradJz: mitos e cantos sagrados doi índios guarani. Trad.
democráticas, tirânicas, violentas, sutis, delicadas, assim como Nfcla Adan BonatU. Cam mas: Paptrus. 1990~ p. 112.

108 109
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(
( CORPOS DE PASSAGEM

teral de cada espaço e de cada objeto separadamente, nem imitan- ficantes dos corpos acabam sugerindo a complexa atividade
do este ou aquele modelo, adaptando coisas a necessidades e so- humana 5 •
(
nhos humanos. Curiosamente, há móveis dentro de uma casa que, Em alguns casos, um mesmo esportista precisa cruzar vários
uma vez colocados em certos espaços, parecem feitos para esta- obstáculos para ter a chance de ver o receio e o cansaço serem
rem sempre lá. COJ:llo se eles tivessem sido inseridos em espaços tragados pela vontade de prosseguir. Afinal, nã~Jácillidar com as
que, de alguma maneira, afirmam as suas pr6prias forças sem aba- forças e as fragilidades da natureza. Experimentá-las é fruto de
far as dos objetos que lhes são vizinhos. um intenso "engate" entre a inteligência do corpo humano e aque-
Em certos momentos de sua prática, há e~ortistas gue tam- E la dos corpos que o circundam. Mas, quando este engate ocorre, o
( bém vivem uma insercão semelhante no espaço. É quando este 5 receio de prosseguir na atividade esportiva permanece, talvez até
deixa de ser uma paisagem vencida, medida, territorializada, para p ganhe mais cor, mas o desejo de se relacionar com rochas, água,
se transformar em lugar acolhedor ao ser humano. Esportistas, Q terra, vegetação, se amplia, a tal ponto que prosseguir a caminha-
amadores ou profissionais, acabam aprendendo que a sua inserção r-- da começa a significar não mais passar pelo espaço, vencê-lo, mas
no espaço resulta de um trabalho dificil, paciente e delicado. Espe- 1 encontrar-se com ele a cada passo. O receio de se ferir e de su-
cialmente quando o espaço inclui o que se convencionou chamar é cumbir ao cansaço cessa de crispar o desejo de prosseguir. Na ver-
de natureza hostil. dade a sensação de perigo não se esvai, chega a ser· -rqüe
Em abril de 1995, quando a alpinista inglesa Alison Hargreaves é vivida pela mente não maIS separa a do cOrpo. Por conseguinte,
<' atingiu sozinha e sem assistência respirat6ria o cume do Everest, ela ocupa um espaço real, justamente por ele ser limitado. Nesta
provavelmente pouca gente duvidava dos riscos que a ameaçavam. experiência, o prolongamento entre o corpo humano e o do espaço
Sua audácia não estava limitada por perigos totalmente calculados não os opõe mas também não os confunde; desafia de modos dife-
( de antemão. Havia uma parte de imponderável tanto em relação rentes o esportista e os seres à sua volta. Assim, vencer Q espaço
( ao espaço geográfico quanto em relação a seu corpo. Em situações natural não si . ca somente derrotá-lo mas, essencialmente, ven-

(
desse tipo, "o que ode um corpo" e "o que pode o espaço percor-
rido" são que ões freqüentes e e . c resposta. em seria o jli<é1- cer com ele. Vencê-lo não é ominá-Io, mas pode implicar boas
risadas em sua companhia.
caso de respondê-las, mas de verificar justamente o quanto é vão Alguns esportistas, escalando montanhas geladas e percorrendo
< tentar encontrar-lhes uma resposta definitiva. longas distâncias, vez por outra soltam gargalhadas e gritos entusias":
Caminhando sobre o gelo, a areia, ou dentro de florestas, es- mados, aliviados, emocionados. À primeira vista, é a comemoração
calando montanhas e nadando em rios turbulentos, <>cCorpo reve- da vit6ria de ter vencido obstáculos. Mas junto disto, e muitos es-
la com grande clareza algumas de suas diferentes possibilidades: portistas o sabem, há uma arte de riso ue se compartilha com os R,
as maos e os dedos se tomam cuias, pInças, garras ou patas, as obstáculos e os e aços. De onde vem o riso? vez de uma relação I
pernas servem como alavancas ou colunas, os braços funcio-
nam como nadadeiras, as.as, colo. Todas as partes do coryo se
trav a com rochas, abismõS, vento, vegetais, que exige que cada
es~rtista os veja tais como eles são, sem esperar servidões de ambas
~
revelam flagrantemente inteligentes. O esportista tende a perce- as partes nem projetar redundantes antropomorfismos naquilo que
ber, em seus ínfimos mo~mentos corpórais, forças singulares não é humano. Ver como eles são é, em parte, ver neles aquilo que
e~ jogo na fabricação da '1da. Esta percepção lembra o trabalho não esperávamos ver. >

reauzadO por Bresson no cinema: no lugar de focalizar um corpo ~~~~~Q~


com múltiplas partes, são os modos de ser de cada uma delas que ,~ /V--.s ~~ .q".~
(~:/~:lbert Bresson. Notes sur te cinhnat"f:.aplie. Paris: Gallimard, 1975, reeditado na
ganham relevância. E, nisto, parcelas aparentemente ínsigni- coI. Folio, 1988. ..
\\
110 111
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CORPOS DE PASSAGEM ta ~j
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CORPOS· PASSAGENS

\:""õ t)~~~ (~
modos de vida possuem uma complexidade cUjo entendimento,
Pode ocorrer, contudo, que o fascínio pela supera,áo çonstan- ~'L
te ~e ~i mesmot ou pela conquista de performances cada vez mais - í em muito, nos escapa. Mas pode fazer algum sentido nas momen-
arnscadas e de recordes cada vez maiores, não. seja o caminho mais ~ tos em que acolhemos, mesmo que seja por descuido, experiências
adequado para ver as coisas como elas são. Em muitos momentos, ~ irrepresentávels e vivemos emoções junta a seres e objetos dificeis
é justamente a impossibilidade de superar-se que insere com maior JW-4,.~( de serem alcançados por palavras.
pertinência a ser humano no espaço. Há situações em que as espor- ~'O Milhares de seres vivos não. humanos têm poderes. Certa vez,
tistas são duramente desafiados por ele. Quando, por exemplo, um ~- uma mãe-de-santo entrevistada par um francês disse que as plan-
alpinista se vê sem possibilidade de avanço ou recuo, sente-se cama ~ tas tinham poderes, principalmente aquelas que não mantinham
se tivesse sido capturado pela geografia da montanha; ap6s várias ~ ~ •. muita cantata com os humanos. Elas não. apenas tinha~~
ten~ativas de contornar a problema percebe que está apenas pia- cama possuíam os seus deuses e seus modas de existir. Para ela, ~ (
rando a situação. Então se vê sem saída, sem esperança de vencer, "a natureza não é bela nem feia, ela é carregada de força au insí- ra~.
enredado por forças muito maiores do que as de um ser humilnO. pida. Os deuses não são artistas. Eles são geradares de força no ~
Sentindo-se totalmente sem safda, p~so ao obstáculo, ele é obri- estado brutO)"6.
-------'"
gado a abandonar certos instrumentos, rau~as, bagagem. ou então. "Os deuses estão na cazinha", escreveu Dagagnet, j1.}statnente (.
a utilizá-los de uma nova maneira. Toda a sua atenção e todas as onde se encontram as erlai, QS temperos. os copos, os tecidos, os ~ (
partes da seu carpo se voltam agara para o obstáculo. Começa então plásticoS,substâncias anti as e novas, fabricadas e naturais. Atra-
a haver uma relação de extrema tensão entre eles, de intensa fre- O vés e uma via filosófica, Dagagnet acaba se aproximando das con-
cepções daquela mãe-de-san~ para ambos. a natureza e os
(

qüentação entre suas forças, que pode durar segundos ou dias, ~


ferir, irritar, desanimar. Mas, nesses momentas, de nada adianta- O produt~rlcados contem e ;;Q;ressarp forÇ.as. Pór isso. eles não
(
ria prajetar no obstáculo. sentimentos e ideãis pessoais. De nada B deixam de existir quando nos esquecemos delesl E se eles não são
(
serviria subestima-Iõ ou supervalorizá-Io, desperdiçar tempo e ener- ~ unicam~_~_~e a ue neles vemos, considerá·los dejeiOap6s nosso
gia amaldiçoanda-o. Se o esportista quer sobreviver, ele sabe que I, uso deixa de ser uma atitude natural. Passa a ser um ver a eiro
desperdíCiO, um assassinato. Bachelard, retomando Aristóteles e
'-
precisa tentar ver o obstáculo. tal como ele é: a gue não significa ver ~
(
além do que é visto nernyer somente o gue ~ visto. ~rim~~do G Zenon, tenta fazer a matéria existir fora da tendência de ser um
(
este paradoxo e canseguindo sair do obstáculo, faz algum sentido o U "fracasso "7. Inúmeros artistas colecionaram fragmentas de coisas
esportista rir com ele, coma quem ri naturabnente CD um com a- L aparentem~~~~_,!e;n ' vaiorJ recriaram uma IDirlade de formas utill· (
nh,eiro de VIagem que pãtêcera rfS Ida, snnpllSta .e pouco amigável, 0 zando ~~~eriais abandonados e descartadas pela saciedade d.e can- (
mas que ao lon o do percurso, se revelou camplexo, forte e delicado. s~ De Picasso a Annette Messager, passando par Schwitters,
por Mir6, que passuía "um amor quase franciscano pelas caisas", (
Ver as coisas e as seres como e es sao uma experiência que
não tem preferência, necessariamente, pelos momentos dramáti- e por Dubuffet, que toma o partido da matéria para nela perceber
cos, nem par esportistas. Uma visão assim soa como algo impossí- infinitas possibilidades, a lista de artistas voltados a expressar no- (
vel para quem acredita que ver as coisas como elas são é conhecê-las vas significações ou a alma de coisas relegadas à indignidade e à
e dominá-las campletamente ou então é fazê-las falar para saciar a ilegalidade do descartável é longa e diversificada.
preferência que escolhe as palavras e nega as coisas, quer as idéias
e rejeita os objetos. Também pode parecer algo inviável quando. a 6. SeCie Bramly. Macumba, furus noires du Brésil, entreUrns avec une mm eles lXeu.x_
existência de todos os seres, espaços e abjetos não é considerada Paris: Albin Michel, 1981.
diferente da existência humana ou quando não se admite que seus 7. G. Bachelard. Dialectique de la dUT~e. Paris: PUF, 1983.

112 O obtci~ ~ I ~"-" 113


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CORPOS DE PASSAGEM CORPOS-PASSAGENS D~ ~
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Co~ender e ver as coisas como elas são não é tratá-la~ como podemos distinguir; é preciso, enfim, que 5' silêncio não seja com- {/
coisas em si, indivisiveis, sem mistério nem profundidade. Tam- preendido unicamente como a falta da linguagem, e sim como a
bém não é considerá-las opacas porque seu sentido seria to-talmente presença desons que não conseguimos ouvir.
inacessível ou estaria alhures. Dizer iguatmente que o sentido 10- Frãncfs Ponge: poeta que tomou "o partido das coisas", já ha-
c a-se nas relações ainda não é suficiente, porque é preciso sa- via escrito ~e, mesmo qu~do v~s um animal, é no homem
ber Que as coisas e os seres possuem orças, apelos~lãiências, cujas que pensamos. Como~se~ -os outros
"ãnirria1s fossem abstratos. "A
s~ laridades a com reensão humana não consegue es otar. Se arca de "Noé riao-'quer" diZer-maiS nada"ló,
vetais, minerais e objetos em geral são mais complexos do que "Cachorros cõm sentimentos humanos, gatos que só faltam falar,
parecem, muitos rituais e cerimônias que os utilizam não poderiam automóveis que ~já sabem o caminho do seu dono", espaços adap-
ser outra coisa que a repetição do que difere. tados às necessidades de mulheres e homens ... toda uma lista de
Na verdade, não é apenas a cultura que pode ser pluralista. Os seres e objetos humanizados demonstra o quanto a psicologia ga-
fndios, por exemplo, são multinaturallstas, disse Viveiros de Cas- nhou espaço fora do reino humano. No cinema. os extraterrestres
tro; "eles postulam uma unidade transespecffiéaCtQ espírito e ~ma não escaparam dessa ambição imperialista, e os diversos monstros
diVersidade de CO~OS"8. Não há universalismo natural e, de certo costumam ser bem recebidos, na medida em que compreendem e
modo, lidar com as forças da natureza é entrar em contato com aceitam os sinais e os sentimentos humanos. Na publicidade os
suas multiplicidades. Por isso, tãlvez, ao manIpular as forças de alimentos ganham rostos, um simples dentifrício se transfonna num
seres não humanos, uma mãe-de-santo se vê como mais um entre ser animado que fala e dá conselhos.
eles. De onde resulta um respeito imbuído de grande fidelidade. Curiosamente, após humanizar a Terra, o Céu e o Inferno, a
São conhecidas as reclamações sobre o excesso de antropomor- Ciência e a Técruca, os Objetos e as Máquinas, estes, por sua vez,
( fismo e de projeção humana existente no mundo. Carpeaux lem- retornam àos homens e a eles se oferecem, com gestos sedutora-
(
brou o quanto Lichtenberg, nascido em 1742, havia sido um mente'" humanos, nas vitrines e na_.0!blicidade. As coisas então co-
ucaçador de antropomorftsmos'J9. E Nietzsche, em Humano, de- mandam os humanos, tal como o universo de roupas, sapatos, tapetes,
(
masiado humano, aflnnou: "Quer um si mesmo, e assim te torna- móveis e outros objetos comandam Jérôme e Sylvie, personagens
rds um si mesmo". Recentemente Clément Rosset escreveu um criados por Perec em Les Choses 11 , As coisas nos convidam e incitam
pequeno livro intitulado Loin de Moi para mostrar o quanto o co- O d~o humano com a mesma maestria que um belo corpo incita o

I~
nhecimento do eu é inútil. Por conseguinte, diz eie, ccwhecer a sj desejo de outro. É que, uma vez humanizadas, as coisas sabem dar
mesmo é na ce~ de si nem do mundo. Talyez haja nestes o troco sem nenhum pudor. Tal como nós, elas sabem seduzir, pro-
diferentes filósofos uma vonta vida metér e ameaçar. A estas alturas da SOciedade de consumo. seria o
que seja sem nome, sem interpretação. Para chegar aos limites l caso de perguntar: .. O qu~Ode'" uma lata de palmito, uma calça 4-- li
granãe ambição moderna,"'é preciso que eles existam. E é preciso Levis ou um Big Mac?". As coisas dispostas nas vitrines das lojas
amda que ao roçá-los ou ultrapassá-los a escuridão seja menos podem inclusive nos ver e nos perseguir com seus olhos. Porque,
reduzida ao vazio do que as=similada a cores cujos tons nem sempre quando as vemos e não as adquirimos, o que elas prontamente
sinalizam à nossa visão é o quanto elas vão doravante nos faltar.
.-ii} / ;;- J,;.
~ ~duardo Viveiros de Castro, "Tão humanos quanto animais" ln Folha de S. Paulo,
Caderno Maisl, 16 de agosto de 199B. 10. F. Ponge. "Extrait de: Préface à un Bestiaire ('notes éparses et informes')" in Guy
9. Otto Maria Carpeaux, A dnza do purgat6rto, ensaios, Rio de Janelro: Casa do Estu- Lavorel. Frands Ponge, Qui suts-je, Paris: La Manufacture, 1986.
dante, 1942, p. 60-2. 11. Georges Perec. Les Chases. Parli: Renê Julliard, 1965.

114
y\.../I-
~
C0I.\POS-PASSAGENS
CORPOS DE PASSAGEM

Mas ver as coisas tais como elas são não exige a sua compra antiga relação de dominação e colocar não humanos no lugar dos
nem, necessariamente, a sua destruição. Não é preciso detestar os humanos. Mas, paradoxalmente, ainda é tempo de combater a in-
shswping centers. Trata-se, muito mais, de quebrar o.autom-ati~o 1) diferença.
estabelecido entre ver na coisa aquilo quê(jUeremQs, el1IDJ~n~o_ela ~ ---mQuem considere a indiferença pior do que a dor. Sentir dor
vê em nós essa vontade sem fundo. é ~Jlqª-~m modo de sentir, de se confrontar com a vida. Mas a
Talvez ver a parte de humano que constitui um objeto seja uma indiferença é como um corpo de sombra sem perfis. Não tem cor
chance de entrar em relação com um pouco de sua singularidade. nem carne. Não tem lado nem quina, é aificll confrontá-la. Quem ·
Há ainda a possibilidade de perceber esta singularidade como sen- é atacado pela indiferença transforma o corpo em alma penada,
do a ··qualidade diferencial" das coisas, conforme escreveu Francis passa de um canto a outro sem nenhuma melodia. Nunca se sabe
Ponge. Sua poesia sobre rãs, camarões, vinho, lama, cão, abricot, quando _~ indiferença chega, nem quando parte. Assemelha-se ao
paisagem, rádio, etc. 12 resulta desse exercício de v~-~os sem esgotá- ~ K câncer. Uma vez presente. ela ocupa todo o espaço sem um pingo
l~s, ca tar suas sin laridades sem isolá-los do seu próprio mun- ~
_~ComQ Para o esportista, para o poeta tam ém não se trata de
vencer um objeto, um animal, uma planta. mas, talvez, confron ..
tar-se ~~~ a eloqüência de seu silêncio inumano. Ponge tenta fa-
llti'
• )-4it) "
de vergonha de ser desmedida. A indiferença sinaliza que a dife-
rença fracassou. Não é como o tédio. porque este já possui algum
go~ poâe ser comparado a um como fellildeJíldQs.
Mas há quem consid~re _~!.ºrdo ;e~ferença é aSIla
\
- (
zer com que as coisas e os seres não humanos venham até ele, eg,etização. Uma indiferença que faz pose supõe possuir alguma
saia~e seu mutismo e de sua servidão. Por isso, ele não esquece solidez. Ela tem ambições de rimar com a vida dos grandes ho-
o ser humano, mas lembra todo o tempo o quanto em seu favor mens. No lugar de um alheamento sem esperança, a estetização (
foram esquecidos os demais seres e as coisas. Seguindo esta orien- da indiferença espera obter aquilo que aparenta negar: sua apari ..
(
tação, Dagognet exclama: "Salvemos os objetosl"13. Mesmo vendo ção gloriosa. Esta estetização é epidémica. Precisa ser vista como
em Ponge uma tendência em tomar mais o partido das coisas na- uma peste. Seu combate pede gestos sem ilusão nem desespero e é (
turais do que dos objetos fabricados, Dagognet reconhece neste uma maneira de encontrar a espessura das coisas e dos seres: não (
poeta um guia. E toca no âmago de uma parte do secular receio de para consumi-los, mas para ver seus modos de existir. Isto inclui os
(
~ expor o interior dos objetos ao com ará-lo com o medo humano e objetos comezinhos e os seres ordinários. Ver os modos de exis.t.ên- / P~~' .....
I' expor o avesso do corpo: ódio da mecânica e os encanamentos cia de uma panela, uma montanha, um rio, uma rua, um sofá, um
ser. humano, um cão ... sem devoção, aversão ou vontade de tirar- ~~­
(
levou freqüentemente à camuflagem do coração dos aparelhos e (
fios"; afinal, o corpo humano fornece a referência, ensina que é lhes a pele. Sem consumo. Sem achar que o tempo está sendo
(
preciso recobrir qualquer corpo, da mesma forma que uma perdido. Considerar não somente os corpos vivos mas também os ~~ ,
objetos comomemórias ativas. Estas razões já seriam suficientes -•. (
uepiderme macia e contínua" recobre as vísceras l4 •
Não há mais tempo para ter somente os humanos como a- para concluir que uma visão como esta é menos um bálsamo, um ~ ~'O~ :
-.àQs. Nem espaço para descartar tantos objetos transformados em tranqüilizante ou uma terapia do que uma arma revolucionária. li

lixo. Estes luxos agonizam. Também não é possível (e esperamos Que esta arma seja bem-vinda, 'pois sempre estivemos numa
que não seja desejável) simplesmente inverter os termos de uma guerra. Dentro d~ e nas ruas, nos aeroportos. hospitais, clu~
bes e e~presas, trata-se de contrarjar constantemente a homoge~1
neização das experiências e as excessivas estilizações do afeto.
12. F. Ponge. Pieces. Paris: Gallimard, 1962.
13. François Dagognet. Eloge de l'objet. Paris: Vrin, 1989, p. 67.
Dilapidar as redundâncias do ego cujo drapear esconde a obscena
14. Ibidern. p. 218. distância que separa nossos pés da superncie terrestre. Nietzsche

116 P~l!~)~t t~ ~ 117


CORPOS- PASSAGENS
CORPOS DE PASSAGEM

ção de "homens·lata de lixo", tal como escreveu o artista plástico


já havia escrito que o aJ!lor ao ego é mais poderoso do Que o amor
português Leonel Moura. E, quanto mais a fabricação de tais seres
àJ?átrí...!: No decorrer do século XX, a produção deste amor con-
se banaliza, mais aqueles que se julgam não-descartáveis querem
quistou indústrias poderosas e se integrou à mídia. Tornou-se um
produto banal, trivial, caiu na morosidade dos hábitos, sem causar
grandes surpresas~ Mas este produto continua sendo prescrito em
doses volumosas. ingerido como um remédio uruversal e essencial
viver eternamente, produzindo quantidades assombrosas de dejetos.
Há um paradoxo que não cessa de crescer: quanto mais o ego e
corpo de cada um são alvos de coações. e loraçóes comerciais e
01
forçados a amp ar seus recordes de consumo e rentabilidade sob
para combater os entraves que impedem cada indivíduo ude ser
ele mesmo",
a ameaça e serem con ndidos com dejeto, mais eles ficam ca-
rentes de reconheclffiento, de ~uidados e de afElto.
Nesta guerr~ há. P9rtan!91..\1m aIQontoado de seres humanos '
Pelo menos desde Marx, é sabido o quanto o capitalismo fabri-
buscando uma fidelidade absoluta a eles mesmos. Este amontoado
ca miséria económica, e desde Foucault sabe-se que a liberação do
tem a fonna de um~ contradição ambulante: u~ rebanho disper-
sexo e sua colocação no discurso produziu miséria sexual. Hoje, a
s~~ num deserto cheIo de imagens, idéias e ambições consideradas
produção da miséria do afeto por si implica, imediatamente, a es-
mais re~~_.e importantes do que o soloreito de areia. Pois cada um
é coagido a ser fiel a si mesmo na medida em que se distancia cassez de afeto pelo outro.
Perceber os modos de faQrlcacão desta miséria, incluindo sua
geográfica e sensivelmente do outro; ca.da um com orelhas volta-
engenharia e sua informática, significa dar um passo rumo ao com-
das para dentro de si e boca~_que por isso mes~~" -~ã~' ~~~'d~zidas à
bate das servidões voluntárias e das tendências totalitárias que fa-
emissão degrrtos. esperando atrair a atenção do outro. Um deser-
zem do corpo de cada um a sua Pátria, ou melhor. o seu únfco
to repleto de corpos chamados a responder incessantemente aos
universo: tão-gra~~_ ~ _ ~_~ado quanto frágil. Sua fragilidade pode
anelos do prazer individual, defensores tenazes da necessidade de
ser revelàda pela presença de qualquer insignificante agulha. Por
"expressarem livremente seus se~timentosn ~,' Ü9~~'t~~edentos
isso, trata-se de uma guerra: não contra esses balões de gás, mas
de públIco~ otivl·~o~"e-.~t_ê"~-~~~; -S~breCâiregados de resP9n~abilida­
contra o mecanismo que os infla, lsõiàn-do-os no espaço, transfor-
des, dúvi~as e rec~j~s . .Uma.~.~a~~~._~parentemente sem saída.
man<1~:"õs-em planetas em busca de "órbitas pessoats". Uma guer"
Muito do que hoje é chamado de amor exclusivo pelo pr6prio
ra duríssima, pois o inimigo parece inexistente, ilUSÓrio. Ele se
corpo (ou pelo ego que no corpo encontra um assento privilegia-
assemelha a um curto-circuito, não respeita fronteiras externas
do), no lugar de fortalecer o afeto por si, tornou-se miserável. Pois,
em sua fabricação industrial. o cultivo de si foi separado das res- nem internas.
Trata-se quase de uma guerra Nal, colocando sob suspeita
ponsabilidades para com os outros. Por vezes esta fabricação che-
partes do corpo outrora insuspeitáveis. Ela faz crer que o sucesso e
gou a estabelecer uma oposição entre o bem-estar pessoal e o do
o fracasso residem dentro de cada ser vivo, de cada património gené-
coletivo, como se para estar bem fosse imprescindível desconectar-
tico, de cada inconsciente, muito mais do que na configuração
se do que se passa no meio em que se vive.
destes com os demais seres participantes de cada situação. Ela faz
Desde o tempo de L~lace, pelo menos, a hipótese de Deus
crer, ainda, que no lugar de inventar estratégias é preciso projetar
havia se tomado desnecessária à ciência ocidental. Deus deixara
bombas e construir casamatas, inscrevendo no pr6prio corpo aqui-
de ser um destino do coletivo para se transfonnar em escolha indi-
lo que Gil chamou de possibilidade e de vocação do assassinio 15 .
vidual. Não demoraria muito, contudo, para que "o outro" se tor-
Lutar nesta guerra é sobretudo um modo de perceber os riscos
nasse, igualmente, uma hipótese dispensável, dentro e fora da
ciência. Vivemos em sociedades que fabricam milhares de ima-
15. José Gil. Metamorfoses do corpo,.Jjsboa: Relóg10 D'Água, 1997. p. 91.
gens e objetos descartáveis e, jgu almente , uma crescente popula-

119
118
...:::::> ~r -\fl~t

- - - ---CORPOS DE PASSAGEM

existentes quando a precariedade dos elos sociais cria um exílio


confortável, macio e perfumado, um templo no qual amigos e inimi-
gos são dispensáveis. Por isso ela exige o afinamento da atenção para
tudo o que acaricia, mas igualmente para tudo o que machuca.
Estas razõesjã seriam suficientes para temer esta guerra, mas t1U{i,'Ll '
rir
também para enfrentá-la. Elas formam, ainda, um bom motivo para N
refletir sobre o sentido da amizade, definido, há muito, por Plutarco, ~
e, ju~to dela, sobre a importância dos obstáculos e dos inimigos, ~;ti.
I SUTILEZAS E MISlRIA

conSIderados necessários a djferentes guerreiros antigos. Não exata- ,ti I~


mente porque se desejava usufruir do prazer de vencê-los. Muitos
foram os que chegaram a pensar que "quando se quer ter c~­
nheiros é preCISO aprender a transformar inimigos e obstáculos em
mestres". ~ ~.......w
Esta transformação era fruto de um aprendizado que na a ti- É conhecída a idéia de que o mundo está dividido em duas
nha de mágico ou espetacular. Fazia parte do curso da vida. Como' partes desiguais: uma minoria de seres bem alimentados. protegi-
ainda hoje faz parte da vida, de milhares de seres humanos, a luta dos e ricos, rodeada por uma. maioria de seres desamparados, mal _/
pela dignidade. 'Ifansfonnar-se num ser digno lhes exige estraté-. nutridos e pobres. N'o primeiro grupo, o cultivo do corpo é demasia-
gias e uma enorme discrição. Por isso é dificil perceber o volume damente presente e suas necessidades ocupam cada vez mais
de seus êxitos. São pessoas comuns, que em várias partes do mundo espaços no ar, na terra e nas águas. Porque são detentore. de n); L
fazem algo semelhante aQ que François Jullien chamou de acumu- jestosos recursos, os seres do primeiro grupo são iguabnente pn)
lação de potencial, quando se referiu aos estrategistas chineses 16 : prietários de intolerâncias incalculáveis diante de qualquer amC~l,', L
provocam transformações de modo ordinário, discreto e imperceptí- de desconforto. Mas, no segundo grupo, no lugar de haver um se 11·
vel, tomam-se dimos todos os dias, m~ com tamanha naturalidade timento de ~demasia do eu", há a sua raridade. Com seus CODJOS
que ~amf!m sempre ter sido dignos. O impacto destas transfor- anêmicos, os ~eráve1s escorregam diariamente "iumo a um fim
maç6eSTtorte, em4Jora elas expressem a mesma naturalidade e o de linha: para eles, o futuro é apenas uma ~-ªYm.e Q ,Çonfor.tonão
mesmo frescor exalad de o p~e um luxo. Falta..lbes alimento, ar, água, terra e tempo de
I avena muitas coisas a aprender com antigos guerreiros e, vida. Mas não é apenas para eles que falta sentido.
. também, com os combatentes do cotidiano ordinário de nossos dias. Querendo distanciar-se dos miseráveis estão os remedia~s. -3
Drnci! encontrá-los, dizem uns, não vivem por aqui, dizem outros. Mediando e ao mesmo tempo remediando a esquizofrenia de habi-
Talvez vivam por aqui sim, e bem próximos; pois, se um bom estra- tar um meio de mundo ~usto, sem comunicação entre as partes,
tegista prima pela discrição, os melhores são aqueles que nãÇ(dei--..,..~. . . . esta categoria acolhe homens que parecem pedras duras, enve-
xam traços. _ lhecidas e ásperas, mas também aqueles sinúlares a pedrinhas bam-
bas, redondinhas e extremamente móveis. Homens fatigados,
hesitantes, incertos ou por demais medianos. Eles se vestem, se
alimentam e se instruem com dificuldade. Vivem .um cotidiano
impiedoso, com raros momentos de lazer, muito trabalho (ou bas-
16. TraiU de l'eJJicacit Paris: Grasset & Fasquelle. 1996. Trad. brasileira: Tratado da
eficácia. São Paulo: 34 Letras, 1998. tante esforço para conseguir um), pouca disponibilidade para cui-

121
CORPOS DE PASSAGEM SUTlLEZAS E MIStRlA

dar do corpo e da alma. Quanto menos estes seres conseguem aten- Há anos a publicidade promete "a felicidade", anunciando que
der a seus desejos, mais vulneráveis eles ficam diante das sedu- o sentido da vida pode ser saboreado individualmente, não apenas
ções da publicidade, que lhes promete justamente "um encontro no ato da compra mas, principalmente, na fidelidade às marcas.
consigo", "um carinho", a possibilidade, enfim "de ser" de "se Ser fiel nesse caso implica fazer parte Ilda marca", ser admitido
sentir", de adquirir marcas e produtos que repet~m exaust;vamen~ como personagem importante dentro da história de cada empresa.
te a disposição de fazer maravilhas u por cada um". Ao oferecer tais Como se as marcas fossem uma espécie de família Utop", dentro da
prazeres, com tanta desenvoltura e leveza, fica a impressão de que qual seria possível, enfim, Uestar garantido" e próximo de todos os
a publicidade das marcas e das empresas pode, melhor do que seres ricos, belos e famosos, podendo usufruir de. experiências co-
qualquer pessoa, nos tomar felizes. Como se elas fossem mais cre- biçadas pelojet set internacional. Vista desse modo, uma marca se
díveis, justas e interessantes do que os seres humanos. toma aquilo que muitas empresas já foram: o único lugar de socia-
Depois do estilo publicitário que reduzia todos os seres não bilidade possível, o mais rico instrumento de fantasia e, ainda, com
pertencentes à empresa à insignificância e à orfandade emerge pretensões de fomentar arte e sentido.
uma publicidade que ambiciona traçar vínculos, sem mediadores, Ocorre que, para muita gente, a vida deve frutificar sentido e,
entre os seres na empresa (e fora dela) com a marca anunciada ainda, ela deve fazê-lo com gratuidade, sem esforço nem econo-
"Você sonha", e a marca realiza. Não apenas uma conexão diret~ mia. Cedo ou tarde percebem que o sentido não é uma fruta nem
entre o "eu" mais íntimo de cada um e as marcas para todos, mas uma semente, e que seu território não é uma propriedade a priori,
uma conexão que se pretende limpa. Não por acaso, a política ten- muito menos um ornamento ou um segredo à espera de desvela-
(
de a ser considerada o lugar do roubo e da sujeira enquanto a menta. Algo semelhante ocorre com a felicidade: ao se tornar uma
,
public~dade de c~ntenas de marcas é percebida com~ o espaço da
(
idéia, há quem se esqueça de que elajá fora vivida, simplesmente,
( ecolOgIa, dos maIS altos vaIares hu.manitários, distante de toda cor- como um estado. Em épocas e sociedades nas quais a infelicidade
rupção: p~r meio da publicidade, as empresas denunciam proble- não significava forçosamente o fracasso absoluto da vida, ser feliz
mas sociaIS (a Benetton não foi a única a fazê .. lo), estimulam o não era considerado um dever.
respeito à natureza, tal como a Body Shop, entre outras fabrican- a imperativo da alegriafull time abafa a melodia expressa pelas
( tes de produtos de beleza sustentadas pela voga do "natural" e experiências pouco contentes. Recentemente Bruckner chamou de
seguirl do ubio • Não por acaso, igualmente, deixou de ser u~: "euforia perpetual" este udever de felicidade'· que substituiu a anti-
u
(
exceção o investimento de empresas na reciclagem do lixo, nas ga tarefa de multiplicação da espécie prescrita aos humanos pela de
campanhas em prol da conservação do meio ambiente e em ma~ ser felizl. Por conseguinte, sentir-se infeliz toma ares de uma anoma-
nifestaçóes favoráveis aos direitos das minorias. Não é estranho lia, o tédio confunde-se com doença. aproximar-se de sentimentos
por.tanto, que muitos empresários - especialmente os ligados ao~ tristes transfonna-se num risco de vida intolerável. Uma genealogia
meIOS de comunicação e ·à publiCidade - façam mais sucesso do desse desejo de ser feliz de modo eufórico e absoluto se impõe aos
q~e. os políticos. Publicj~ade limpa e política suja. E mais: pu- historiadores. Uma antropologia da transformação dos afetos ale-
blic:dade que pretende sér sutil. Quando isto ocorre, vaIores até gres eIE.. culto fascista pela felici~ade torna·se urgente, especialmente
entao caros à SOCiedade Ocidental, tais como os da liberdade de- em sociedades nas uais as ex eriências ale s, na música e na
mocracia e cidadania, são definidos como conseqüênCia~ do dança, foram convocadas a trocar a sutileza pela ru eza.
consumo.
1. PascaJ Bruckner. CEuphorieperpétuelJe: essai SUT te devoir de bonheur. Paris: Grasset
etFasquelle,2000,p.14.

122 123
CORPOS DE PASSAGEM SUTlLEZAS E MJstlllA
(

(
Há qualquer coisa de rude no puritanismo de modo geral. E que a sutileza é frágil ou cliente exclusiva dos restaurantes de luxo.
há algo de puritano na falta de sutileza, especialmente quando Gestos sutis são delkãdos e fortes, por isso eles se parecem com
esta é entendida como complexidade de gestos, sentimentos e foI4mgas avermelhadas que andam por toda a parte, como bar~t~s
ritmos do corpo. Um gesto sem sutileza tem dificuldade de suge- ancestrais, uma sempre seguida da outra. Seres que parecem mu-
rir. Se chega a fazê-lo tem pudores em se ofertar como enigma. teis nesse mundo de tantas usuras.
'Palavras sutis são paradoxais porque são breves, discretas e (
Um pudor diante do indecifrável à primeira vista pode desen-
cadear uma fervorosa devoção diante de quem se coloca como quase imperceptíveis mas. ao mesmo tempo, espessas: pro~g,m
t (
outras palavras, hist6rias, personagens e corpos. É que a sutileza,
intérprete do mundo. Prefere-se Édipo, enquanto a esfinge é es-
quecida nos museus. Devoção e pudor reunidos fortalecem, como assim como a delicadeza é fértil; elas sem re gestam outras falas.e t
já se sabe, a verve puritana. De todo modo, na partilha desigual atas. São ortanto coletivas . icam passagen criam envelo es,)
do mundo entre ricos e pobres, a rudeza não foi pedir morada epidermes capazes de amaciar certos cantatas e iniCi~r ~ corpo (

apenas a uma das partes. Pois seu lar está menos na miséria das para a~da junto a muitos outros. A delicadeza constltumte doi (
populações famintas do que na abundância internacional das ge~to sutíl é iniciadora. . .
O amor entre dois seres pode desencadear um Jogo de suule- (
palavras de ordem.
U~a ordem não pode sugerir. Ela deve ir direto ao ponto, fun- zas rizomático, capaz de esticar o tempo e modificar rapidamente
cionar como um revólver apontado para o outro, ser um gesto sem a sua percepção. Se há um tempo de sutileza este não seria como (
ramificações. A ordem deve, portanto. ser limpa de todo arsenal de aq uele de uma ordeiii", ligado a uma memória seq?encial qu~ s.e
(
mesuras consideradas supérfluas. Um rev6lver é de um puritanis .. afurula numa única Unha. O tempo da sutileza sena, talvez, smn-
m~z: é quando a sutileza se co~fu~de_ com afetação, hesita- lar ao "instante propicio", ao "momento o ortuno" tal como se
ção, erro fatal. define o termo to i no apão (tempo) ou como se utilizava o termo (
Se uma melodia vira palavra de ordem, no lugar de cantar e kairos na GréCia antiga. Uma certa métis é necessária para ex-
(
dançar, o corpo atira, metralha, subjuga. Quando o consumo vira pressar-se sutllmente. (
palavra de ordem, a compulsão substitui a fruição, e o objeto com- Assim, a sutileza é algo gue se aprende. Tal como a disciplina. (
prado perde a sua singularidade. Quando o cavalheirismo e a fe- Elas resultam" de exercícios, de atenção ao que se passa entre os (
minilidade se tornam palavras de ordem, a sutileza é a primeira a coipos. E, por mais tautológico que possa parecer, a atenção se
(
se esquivar, a se cobrir de vergonhas diante de suas sedutoras aprende COln atenção. Este aprendizado pode ser sedutoramen~e
inéluído no cotidiano orrliºªIÍo de pobres e ricos, desde que haja (
inflexões doravante consideradas patéticas. País a sutileza inclui
zOQas de sombra, e estas não significam caos nem, necessariamente, (' estímulo para levar adiante tal atividade. Estímulo que não cai.do (
s~o. O gesto sutil é em geral potente justamente porque sua céu porque emerge na terra, das relações entre os sere~2.._e eXIge
(
força não se explicita de uma só vez, como se se tratasse do último uma grande atenção sobre si. assim como um governo das emo-
ou "do melhor gesto. A sutileza não se· concilia bem com tais ro- ções completamente sintonizado com as situações que se apresen-
mantismos fatalistas, nem com a necessidade de aproximar o co- tam socialmente. nata-se, aqui, somente de um comportamento
meço do fim. Ela também não se adapta ao fascínio pelas palavras .,Eolido (por Vezes confundido com atitude reprimida) e que, na
<.
(ou pelos gestos), que se impõem como definitivos. De fato, a suti- verdade, é fundamental para compreender que o outro não foi fei-
leza não é um fast-food. O que não a impede de existir quando se to Pê1l ser tomado, invadido, submetido. ~ada além, para reto.n:~
come um hambúrguer ou quando se trabalha na cozinha de um Ortega em seu livro sobre uma política da amizade, d~ uma CIvili-
fast-food ou na limpeza de suas latrinas. É apenas na aparência dade, um meio, entre outros, e~sencial,_ª~J~vit~~~~.~.~}~~~da~e

124
( )

SUTILEZAS E MlstRlA
( I
CORPOS DE PASSAGEM

Por ser ao mesmo tempo singular e similar aos outros, o ser é


tã.Q....@Undida de incomodar o outro com o próprio eu, de lhe im-
( I
sempre uma interrogação, uma questão, uma resposta, tal ~omo as
por minha intimidade"2.
A sutileza foi e é uma prática de homens, mulheres e crianças. esculturas de Alberto Giacometti. P~eber o ser humanQlla.O..Como
uma figura indesfigurável, nem como um intérprete, m~ co~o uma
Quando a felicidade infantil deixa de ser considerada um dever
ínti"rrogaçáo: t~titude fecunda um interesse fortisSlffio p~lo ou-
inquestionável, e quando os adultos aprendem que um certo tédio
tro. Um interesse elo outro ue, quanto mais nos a roxuna de
pode favorecer seu contato com o mundo e consigo mesmo, abre-
se espaço para um "baixar armas", para uma brincadeira na qual
sUas singularidades, mais nos reenvia para todos os outros s~s do
mundo. com~se todos os seres fossem esfinges ..N.?.Jugar de ser
há perdas, ganhos e na qual o mais importante não é o ponto final,
mónumentoe museu, objeto de fascinação, foto~afla, ~r, I
mas a duração, propiciadora de exercícios lúdicos da experiência
ou um estado de eternidadêCOrifiscado por üirlpcu tod~oso, /
de ser atento e sutil.
Desde que a sutileza demonstrou sua aversão pela mais-valia a esfinge seria apresentada no corpo de cada ser.
Todos'os seres oO
·ue nos cercam e mesmo as coisas s" fin-
puritana e rude do u sempre mais, não importando por quais meios" ,
ela passou, na melhor das hipóteses, a ser considerada caracterís-
í;s; mas co~s_ardis da sutileza eles não nos revelam os seus :::,.
, 'enigmaS,-assim como nós, por delicadeza, não os deciframos. Ape·
tica do mundo feminino, ligada à noção de uma trama costurada
caprichosamente à sombra das varandas ou no interior das cozi- nas não os deixamos morrer.
nhas, um ,obordado confeccionado dia a dia, na qual os homen$
reatavam os fios de uma existência guerreira. Mas, no alvorecer da
era Singer, essa idéia perdeu a consistência e até mesmo a utilida-
de. Os caprichos de outrora foram severamente punidos, como se
fossem coqueterte mundana e ociosa. E o aspecto fino da sutileza
( !
tendeu a se associar à riqueza material e aos materiais levíssimos,
transparentes e novos, desertando o campo das linhas, agulhas, e
também aquele das palavras e dos gestos.
Não se trata de um desaparecimento da sutileza, mas da difi-
culdade de percebê-la e de cultivá-la nos seres humanos. princi-
palmente naqueles c410s corpos nos parecem, à prlmeira vista,
pouco sutis. To~avia, a "primeira vista" nem sempre é a primeira a ))<:r
~ Ou, diferentemente, pode acontecer de a primeira vista ser
apen_as' uma expressão da lingua, e que no lugar de indicar uma
\ j
primeira vez indica a vez em que se captou a qualidade °d iferencial
~~ser, se~do possível vê-lo desdobrado em inúmeras figyras:
elas. não são necessariamente extraordinárias, mas são sempre ea-
radoxais. Porque, como qual uer fi ra humana, quanto mais elas
sfo.inabarcávelS e singulares, mais e as se tomam parecidas com
todas as outras figuras que povoam este mUIfdo.
o Francisco Ortega. Para uma politica da amizade: Armdt, Derrlda, Foucault. Rio de
Janeiro: Relume·Dumará, 2000.
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