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UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DA BAHIA

CENTRO DAS HUMANIDADES


BACHARELADO INTERDISCIPLINAR EM HUMANIDADES
COMPONENTE: TÓPICOS ESPECIAIS EM HISTÓRIA DA ARTE NO BRASIL - 2017/2
DOCENTE: CAROLINA REICHERT DO NASCIMENTO
ALUNO: MATHEUS DANTAS DA SILVA

ZÉ RAMALHO, O HERDEIRO DE AVÔHAI

Matheus Dantas da Silva

Resumo: Com suas canções místicas, enigmáticas e apocalípticas, o cantor e compositor Zé


Ramalho divulga a essência do Nordeste nos cantos mais longínquos do país. Em sua música,
Zé Ramalho faz miscigenação de ritmos, com bastante influência de Bob Dylan, Luiz Gonzaga
e Raul Seixas, além de elementos retirados da Literatura de Cordel, dos violeiros nordestinos,
do blues e do rock. Em sua riquíssima obra, ele nos apresenta histórias da mitologia grega, do
folclore brasileiro, da Bíblia e da cultura do sertão nordestino. Aqui contarei um pouco da
história, da carreira e da arte desse compositor, que tem enorme importância para a música
popular brasileira.

Palavras-chave: Arte Nordestina; Música Nordestina; Cultura Sertaneja.

Em 3 de outubro de 1949, na pequena cidade de Brejo do Cruz no interior da


Paraíba, nasceu José Ramalho Neto, filho do seresteiro Antônio de Pádua Pordeus
Ramalho e da professora Estelita Torres Ramalho. Em 1951 perdeu seu pai que morreu
afogado após sofrer uma cãibra na tentativa de atravessar um açude a nado, com isso,
seu avô José Alves Ramalho o pegou para criar. Tiveram parte também em sua criação,
sua avó Soledade e suas tias, Maria Madalena, que foi também sua primeira professora,
Inês, Terezinha (Tetê), Zélia e seu tio Nonato Ramalho. Com seu avô, desde cedo
aprendeu a amar os animais e admirar a natureza. Ele também lhe deu a oportunidade
de estudar nos melhores colégios. Os estudos eram prioridade para Zé, que sempre
gostou de estudar e era o sonho de seu avô que ele se tornasse um médico.
A paixão pela música, surgiu na vida de Zé Ramalho a partir do segundo grau, quando
ele começou a se relacionar com os violeiros da região e por conta da sua admiração e
familiaridade com os cordéis passou a compor suas primeiras músicas. Com facilidade,
aprendeu a escrever em decassílabos, o que lhe possibilitou compor usando a técnica que é
chamada de "Martelo Agalopado" pelos repentistas do Nordeste.
Nos anos 60, Zé Ramalho se mudou para João Pessoa e começou a faculdade de medicina.
Lá também, começou a participar de conjuntos, tocando em bailes os grandes sucessos da
Jovem Guarda da época. Suas principais influências musicais do Brasil desse período eram
Renato Barros, Leno e Lilian, Roberto Carlos e Erasmo Carlos e o grupo Golden Boys e do
exterior eram os Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Bob Dylan. Em pouco tempo, Zé
Ramalho abandonou a faculdade de medicina, alegando que não teria vocação para essa
carreira, pois não conseguia ver sangue e ficava nervoso ao ver pessoas machucadas. Este fato
magoou profundamente seu avô, porém este não interferiu na sua escolha pela carreira musical.
No ano de 1974, ele parte rumo ao Rio de Janeiro, onde passou muitas dificuldades. Teve
que dormir em bancos de praça e fazer bicos para se alimentar e telefonar para as gravadoras.
Foi então que Zé Ramalho conheceu Alceu Valença e começou a integrar a sua banda no show
"Vou Danado pra Catende". Na banda, além de tocar viola, ele também cantava uma música de
sua autoria (Jacarepaguá Blues).
Ainda em 1974, Zé tem seu primeiro filho, fruto de sua relação com Isís, sua primeira
esposa. No entanto, este relacionamento não foi adiante. No mesmo ano lança seu primeiro
disco Paêbiru em parceria com Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Lula Cortês e Paulo Rafael
pela gravadora Rozenblit da cidade de Recife. O disco foi gravado em dois canais e era dividido
nos elementos Água, Terra, Fogo e Ar. As letras falam da Pedra do Ingá, um rochedo que
contém misteriosas inscrições. Porém a maior parte das cópias foram destruídas na enchente do
Capibaribe e o álbum nunca foi lançado comercialmente.
Em 1977, o produtor Augusto César Vanucci lhe convidou para participar da gravação
do disco Dez Anos de Vanusa, onde toca viola na música de sua autoria Avôhai. No mesmo ano
Zé recebe uma proposta da CBS e assina o contrato para lançar o primeiro disco com seu nome,
tendo como principal sucesso a música Avôhai, que já era sucesso na voz da cantora Vanusa.
Zé Ramalho explica que essa canção é uma homenagem para seu avô que lhe criou, daí que
vem a pronúncia Avôhai (Avô e Pai). Ele conta no documentário O Herdeiro de Avôhai que
este nome lhe foi soprado por entidades extraterrestres ou sensoriais e surgiu em sua cabeça
durante uma experiência com cogumelos alucinógenos. Enquanto estava sob o efeito da droga
escutava uma voz dizendo “Avôhai, Avôhai”.
Sem sombra de dúvidas, Avôhai é a música que mais demonstra a essência do cantor, a
que mais expressa a sua identidade, embora musicalmente talvez não seja a mais rica de suas
canções. À primeira vista parece se tratar de uma autobiografia, depois percebe-se que é um
longo depoimento que narra essa experiência de Zé. Como a maioria das canções do
compositor, Avôhai pode ser compreendida por qualquer pessoa, no entanto, como é cheia de
mensagens subliminares, de um misticismo característico de Zé Ramalho e de histórias pessoais
que não podem ser explicadas apenas numa música, ela nos envolve e nos faz imaginar mil
coisas das quais ela pode estar se referindo. Sua letra foi escrita passados alguns dias após uso
dos cogumelos e em poucos minutos, sem ser necessário alterar nada depois. Assim, ele explica
o acontecimento:

“Ela chegou de uma vez. (...) Peguei papel e caneta e fiz a letra muito rápido, tudo
chegava em um turbilhão. Foi a única vez que isso aconteceu, uma forte e intensa
experiência espiritual. Muito estranho... totalmente mediúnica. Como o velho Billy
[William Shakespeare] dizia, ‘há muito mais coisas entre o céu e a terra do que
podemos imaginar’. Havia muita coisa de [Bob] Dylan pairando em minha cabeça. Eu
ouvi como se fosse a voz dele. Quando fiz a letra, já sabia dos movimentos musicais;
quando estava escrevendo, já sabia das passagens todas. A letra chegou junto com a
melodia, e descreve minha experiência”. (Documentário “O Herdeiro de Avôhai”,
2009)

No seu primeiro álbum solo, trouxe também a canção Chão de Giz que é considerada uma
das mais belas composições da MPB. Nessa música, Zé Ramalho descreve o fim de um
relacionamento amoroso e consiste em uma canção poética, recheada de metáforas. É possível
concluir que Chão de Giz fala de um amor não correspondido ou do fim de um romance
conflituoso e abusivo. Entre os fãs do cantor, a teoria mais aceita é que a canção foi criada para
lidar com um relacionamento frustrado do compositor com uma mulher comprometida, que
apenas o usava para se satisfazer sexualmente, pois não tinha a menor intenção de deixar seu
marido por Zé. Isso explica os seguintes versos: “Mas não vou gozar de nós, apenas um
cigarro” e “Nem vou lhe beijar, gastando assim o meu batom”, onde o primeiro verso se dá
pelo fato de antigamente as pessoas terem o costume de fumar após as relações sexuais e no
segundo percebe-se que Zé não quer mais ser usado como um objeto sexual.
Em 1979, seu novo disco A Peleja do Diabo com o Dono do Céu faz enorme sucesso e
seu nome se torna conhecido por todo país, tendo dessa vez como principal canção a música
Admirável Gado Novo que faz uma alusão ao livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.
Zé Ramalho, apesar de não se filiar a partidos ou organizações ideológicas, diz se interessar
bastante por política e em muitas de suas canções sempre podemos notar críticas a respeito da
situação política do país, como acontece em Admirável Gado Novo.
Neste mesmo álbum, apresentou uma de suas canções mais enigmáticas chamada Beira-
mar, a qual possui muitos elementos simbólicos e pouco passíveis de compreensão. Zé Ramalho
explica que Beira-mar é como a vida que existe entre dois extremos como é o caso da terra e
do mar, do conhecido e do oculto, do dia e da noite, do bem e do mal etc. Nesta música há uma
simbologia alquímica muito rica que também pode ser explorada. Como na maioria das canções
de Zé Ramalho, Beira-mar nos chama atenção pela força de seus versos e pelo ocultismo
presente em sua letra.
Ainda em 1978, ele conhece Amelinha com quem passa ter uma relação de marido e
mulher. Com ela grava o sucesso Frevo Mulher e saem pelo país em uma turnê divulgando seu
trabalho. Com Amelinha, Zé Ramalho tem dois filhos, João Colares Ramalho e Maria Colares
Ramalho. Em 1981 lança o disco A Terceira Lâmina, que tem como principal sucesso a canção
de nome homônimo. No ano seguinte lança o disco Força Verde, o qual envolveu Zé em várias
polêmicas, sendo acusado de plagiar a canção do artista irlandês William Yeats. Ele se defendeu
das acusações, argumentando que a inspiração veio da capa de um disco do Pink Floyd, no qual
um homem carrega uma mala cheia de figuras e dessa capa criou versos "as figuras do mundo
vão levar". Zé Ramalho acrescenta que inspiração maior para a canção Força Verde, veio de
uma revista de quadrinhos do Incrível Hulk, onde versos da música fazem parte da história
contada pelos quadrinhos e que nunca imaginou seriam do poeta irlandês. A acusação de plágio
não chegou a ser formal e os advogados da revista Marvel Comics se retrataram em seguida,
pois era obrigação da revista ter dado os créditos devidos. No entanto, a mídia na época atacou
Zé Ramalho sem o menor pudor pelo ocorrido.
Tais acusações abalaram muito a vida de Zé, que durante esse período abandonou a
carreira na música. Durante esses tempos difíceis Amelinha o largou, fato esse que o fez se
entregar de vez às drogas. Zé Ramalho só conseguiu se reerguer com a aparição de Jorge
Mautner em seu apartamento que lhe dizia ter uma música que era a sua cara. Na letra dizia:
“Você é a orquídea negra; que brotou da máquina selvagem; e o anjo do impossível; plantou
como nova paisagem (...); parece até a própria tragédia grega; da mais profunda melancolia;
parece a bandeira negra; da loucura e da pirataria." (MAUTNER, 1983). De primeira, Zé
adora a música que foi feita para ele e inicia o projeto de seu 5º disco, que tem o nome da música
do Jorge Mautner (Orquídea Negra). Apesar de toda a dedicação que Zé Ramalho teve com o
disco Orquídea Negra, o mesmo não teve o sucesso esperado.
Em 1984, Zé Ramalho faz uma série mudanças no seu visual e no estilo musical, faz a
barba, corta os cabelos e lança o disco Pra Não Dizer Que Não Falei de Rock ou... Por Aquelas
Que Foram Bem Amadas exaltando o rock'n’roll dos anos 60. Mas, novamente o disco não faz
sucesso. O mesmo acontece em 1985 com o disco De Gosto, de Água e de Amigos. No entanto,
ainda em 1985, Zé Ramalho volta a fazer sucesso com a música Mistérios da Meia-Noite, que
foi trilha sonora da novela da Globo (Roque Santeiro). A canção retrata a lenda de uma das
figuras mais famosas do folclore brasileiro, o Lobisomem. A letra conta a história de uma jovem
que se apaixona pelo seu professor e este nas noites de lua cheia se transformava em lobisomem,
tal qual a trama que se passava na novela. Esta música foi incluída na segunda tiragem do disco
De Gosto, de Água e de Amigos em um LP duplo.
Em 1986 lança o disco Opus Visionário, cheio de misticismo que é uma das marcas de
Zé. No ano seguinte, sai o disco Décimas de um Cantador, último disco pela CBS. Neste disco
o que mais chama a atenção é a capa, onde seu nome está como se fosse escrito com cocaína.
Zé conta que depois de muito sofrimento por causa do vício, chegou à conclusão que o êxtase
causado por droga não valia a pena e decidiu se livrar dela. Ele resolveu se tratar em casa
mesmo, juntamente com sua nova mulher Roberta. Durante cerca de um mês ficou apenas
tomando remédios e descansando. Roberta era prima de Amelinha e fã de Zé, ele a viu pela
primeira vez em seu camarim logo após um show em 1980 e a convidou para conhecer a cidade
do Rio de Janeiro. Quando Roberta Fontenele Ramalho entra de vez para a sua vida, assume o
posto de empresária do marido. Frutos desse relacionamento, nascem em 1992 José Fontenele
Ramalho e em 1995 Linda Fontenele Ramalho.
Em 1991, pela Sony, Zé Ramalho lança o disco Brasil Nordeste onde ele canta forró, este
disco faz parte da série Academia Brasileira da Música. Dois anos depois, volta as paradas de
sucesso com a canção Entre a Serpente e a Estrela de Aldir Blanc que gravou para a novela
Pedra sobre Pedra da Rede Globo. Esta canção é um dos seus principais hits até hoje, mesmo
não sendo de sua autoria e foi incluída em seguida em seu disco Frevoador.
No ano de 1996, gravou o álbum ao vivo O Grande Encontro com Elba Ramalho e os
famosos nomes da MPB Alceu Valença e Geraldo Azevedo. O sucesso de O Grande Encontro
foi tão grande que Zé Ramalho decidiu gravar uma nova versão de estúdio em 1997, desta vez
sem Alceu Valença. O álbum vendeu mais de 300.000 cópias, recebendo os certificados ouro e
platina. Ele também lançou o álbum Eu Sou Todos Nós seguido do Nação Nordestina onde a
música do Nordeste foi novamente explorada. O álbum foi indicado para o Latin GRAMMY
Award de Melhor Álbum de Música Regional ou de Origem Brasileira.
Após a virada do século o primeiro trabalho de Zé Ramalho foi um tributo a Raul Seixas
com regravações de canções do músico baiano. Em 2003 fez uma participação especial na
canção "Sinônimos" do álbum Grandes clássicos sertanejos, de Chitãozinho & Xororó. Em
2007 lançou o álbum de inéditas chamado Parceria dos Viajantes e este foi indicado para o
Latin GRAMMY de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.
De 2008 a 2011, lançou quatro álbuns de covers de suas principais influências na música,
Bob Dylan (2008); Luiz Gonzaga (2009); Jackson do Pandeiro (2010) e The Beatles (2011).
Em 2012, lançou o seu primeiro disco de inéditas em cinco anos, Sinais dos Tempos, pela sua
própria gravadora, Avôhai Music. Seu trabalho mais recente foi o álbum ao vivo em parceria
com o cantor Raimundo Fagner, intitulado Fagner & Zé Ramalho Ao Vivo.
Com um ar de profeta visionário e uma voz grave, Zé Ramalho é a expressão viva da
cultura nordestina. Sua contribuição de Zé Ramalho para o campo musical no Brasil é
inquestionável, pois seu estilo de compor é único, as letras de suas canções são fortes e
carregadas de uma melodia profunda. Suas músicas parecem nunca tratar apenas de uma coisa,
estão sempre carregadas de experiências vividas de alguma forma pelo cantor, com letras
complexas e de inúmeras interpretações possíveis. Seu interesse por literatura greco-romana se
faz presente em sua obra, onde suas músicas são cheias de citações bíblicas e de mitos greco-
romanos. Fazendo uso do misticismo e elementos da cultura nordestina, as canções de Zé
Ramalho saíram do sertão e se espalharam por todo o país, ganhando uma legião de fãs e
admiradores que lotam os shows do compositor. Atualmente, o "Herdeiro de Avôhai" tem 68
anos, gosta de cuidar da saúde, de se dedicar a família e está com vários projetos em
desenvolvimento para os próximos anos.

Zé Ramalho em 2008, apresentando-se na Virada


Cultural de São Paulo. Foto: Silvio Tanaka
REFERÊNCIAS

ALVES, Luciane. Zé Ramalho: Um Visionário no Século XX. São Paulo, Editora Nova Era,
1997.

Marcus Ramone (16 de Julho de 2006). «Zé Ramalho e Hulk em: O plágio». Blog do
Universo HQ.

Os 100 Maiores Artistas da Música Brasileira». RollingStone

ZÉ RAMALHO. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation,


2018. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Z%C3%A9_Ramalho&oldid=51476110>.
Acesso em: 10 mar. 2018.

ZÉ Ramalho. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo:
Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa7663/ze-
ramalho>. Acesso em: 12 de Mar. 2018. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

Zé Ramalho relembra infância em passeio no Parque das Ruínas». Rede Globo. Rio de
Janeiro: Grupo Globo. 20 de junho de 2015. Consultado em 23 de junho de 2015.

ZÉ RAMALHO: O herdeiro de Avôhai (documentário). Direção: Elinaldo Rodrigues, 2009. 1


DVD (126 min).

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