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BERGSON E A FORÇA DA FILOSOFIA

Por Amauri Ferreira

Estudo filosófico – 2014

www.amauriferreira.com

Para nos adaptarmos à vida social é necessário, por meio do reconhecimento habitual,
distinguirmos objetos que percebemos justapostos simultaneamente no espaço para agirmos sobre
eles, onde frequentemente nos servimos do número, da linguagem e do raciocínio inteligente para
superarmos resistências materiais por meio da fabricação de instrumentos artificiais 1. Somos
capazes de conhecer as relações de causa e efeito entre certas coisas exteriores a nós, de
desenvolvermos o conhecimento científico, de dominarmos uma porção da matéria inerte através da
mecânica, em busca de bem-estar e prazer. Agarramo-nos a ideias gerais – e aos hábitos que
caracterizam a moral fechada – para nos conservarmos. Mas, diante de ideias consideradas
verdadeiras que sustentam a vida social de uma determinada época, surge, então, alguém que ousa
romper com o senso comum: o filósofo. “Diante de ideias correntemente aceitas, de teses que
parecem evidentes, de afirmações que haviam passado até então por científicas, assopra no ouvido
do filósofo a palavra: Impossível. […] Força singular, essa potência intuitiva da negação”2. As ideias
que o filósofo expõe através da sua obra vêm, primeiramente, desta rejeição de ideias consideradas
socialmente como inquestionáveis. Ele avança no desenvolvimento da sua doutrina servindo-se da
filosofia e da ciência de seu tempo e, sem dúvida, mergulha nesta jornada. Embora o resultado seja
incerto, ele segue adiante e aceita riscos porque sente que tocou em algo que o impulsiona à
materialização da obra 3.
Para esse despertar filosófico, que é necessariamente subversivo, é indispensável uma
suspensão dos nossos hábitos que correspondem às exigências da vida social. Para Bergson, somos
constituídos por uma zona de indeterminação que concerne ao intervalo entre o estímulo recebido

1
EC, p. 150.
2
PM, p. 126.
3
PM, p. 142.
(sonoro, visual, olfativo...) e a resposta efetuada através dos nossos mecanismos motores. Em razão
da suspensão das ações utilitárias, as nossas lembranças passam a desfilar em nossa consciência
com maior riqueza de detalhes, isto é, o nosso passado coexiste com o presente ou, para falar de
outro modo, quando percebemos um objeto qualquer no mundo exterior, sentimos e nos recordamos
de algo. Porém, a vida social exige de nós ações utilitárias, que implicam uma diminuição deste
intervalo que caracteriza a zona de indeterminação, recalcando uma atualização mais rica do nosso
passado e, sem dúvida, nos impedindo de experimentarmos o tempo real, onde cada instante
percebido por nós se compõe com todo o nosso passado, razão pela qual mudamos sem cessar.
Bergson denomina duração este tempo constituído pela continuidade dos estados psicológicos 4.
Portanto, a duração se distingue do tempo espacializado que é representado simbolicamente pelo
número.
Em vez de se dirigir para a fixidez das coisas exteriores que nos aparecem como
descontínuas, o filósofo ousa voltar-se para si mesmo, onde há continuidade de sensações e
sentimentos, mudanças qualitativas que o enriquecem gradualmente, pois somente a partir dessa
direção voltada para si mesmo que ele pode fazer com que seja despertada a intuição da duração:
“Nada mais de estados inertes, nada mais de coisas mortas; apenas a mobilidade da qual é feita a
estabilidade da vida. Uma visão desse gênero, na qual a realidade aparece como contínua e como
indivisível, está no caminho que leva para a intuição filosófica” 5. Para acontecer esse despertar da
intuição filosófica, a experiência de uma consciência que se abstém de agir de modo utilitário é
plenamente estimulada pelo filósofo, que ocorre ao mesmo tempo em que ele amplia a sua
capacidade de sentir o que as excitações materiais produzem no seu corpo e no seu espírito. Essa
experiência, que é possível a qualquer um de nós, é impedida quando nos limitamos ao
reconhecimento habitual, cuja atenção passa de um objeto percebido a outro objeto: de uma notícia
de jornal passamos rapidamente para outra notícia, de um canal de televisão a outro canal, de um
site na internet a outro... O embotamento dos sentidos e o esmagamento da experiência de que
mudamos sem cessar são efeitos de um modo de existir reduzido ao utilitarismo, à comunicação
gregária, à necessidade de nos adaptarmos ao meio para sobrevivermos.
Uma relação simpática com o objeto percebido, por meio do reconhecimento atento,
permite, enfim, sentirmos que não estamos separados da continuidade material que nos afeta a todo
instante. A intuição surge dessa experiência que, da perspectiva da conservação gregária, é inútil,
porém, ela é essencial para que seja desenvolvida uma atenção suplementar, que é a do espírito
sobre ele mesmo: “Ela [a intuição] representa a atenção que o espírito presta em si mesmo, de
sobejo, enquanto se fixa sobre a matéria, seu objeto. Essa atenção suplementar pode ser
metodicamente cultivada e desenvolvida”6. Ora, Bergson sublinha que, apesar da raridade da
experiência dessa atenção suplementar, ela pode, no entanto, ser cultivada e desenvolvida por meio
de métodos que podem nos servir. Mas em qualquer método que nos leve à intuição da duração
estão implicadas algumas noções essenciais do bergsonismo: suspensão do mecanismo sensório-
motor, ampliação da zona de indeterminação, atualização crescente do passado no presente, atenção
sobre o objeto (que pode ser um livro, uma música, uma paisagem), estímulo da nossa capacidade
de sentir. Evidentemente, são noções essenciais também para que alguém se torne filósofo.
Por partir de uma intuição original, ou seja, do conhecimento da vida de dentro como
impulso para criar, o filósofo não imita, ou melhor, não pode imitar a filosofia de ninguém. Essa
ideia de “falta de originalidade” somente aparece ao leitor por meio de uma leitura apressada e, por
isso, superficial, pois, de fato, diante da obra de um grande pensador, “ali mesmo, onde parece
repetir coisas já ditas, [o filósofo] as pensa à sua maneira” 7. Certamente ele foi influenciado pelas
ideias de outros filósofos e cientistas, porém, como ele as recebeu, como ele as submeteu à intuição
e como ele soube comunicar por meio das palavras a sua visão original da vida, é algo
profundamente verdadeiro e singular. Ao ser atingido por uma ideia original, o filósofo extrai da

4
DI, p. 77.
5
PM, p. 147.
6
PM, p. 88.
7
PM, p. 128.
vida o impulso para comunicar o seu pensamento – seus conceitos trazem a sua assinatura. Apenas
aparentemente, ou seja, pela forma, sua obra pode ser considerada como uma “evolução na história
da filosofia”, mas, de fato, através de um exame mais profundo, sua obra nos revela sua novidade e
simplicidade, e não uma “evolução”: “O filósofo poderia ter vindo vários séculos antes; teria lidado
com uma outra filosofia e uma outra ciência; ter-se-ia posto outros problemas; ter-se-ia expresso por
outras fórmulas; nenhum capítulo, talvez, dos livros que escreveu teria sido como é; e no entanto ele
teria dito a mesma coisa”8. Bergson, que foi um grande leitor de Espinosa, considera o livro
principal deste filósofo, a Ética, como grande exemplo de contraste entre a forma e o fundo de uma
obra filosófica. É o fundo que sustenta a forma, é o pensamento vigoroso que está por trás do desfile
de proposições, demonstrações, escólios, corolários. “É, por trás da pesada massa dos conceitos
aparentados ao cartesianismo e ao aristotelismo, a intuição que foi a de Espinosa, intuição que
nenhuma fórmula, por simples que seja, será suficientemente simples para exprimir. […] Quanto
mais remontamos para essa intuição original, tanto melhor compreendemos que, caso Espinosa
tivesse vivido antes de Descartes, teria sem dúvida escrito algo diferente do que escreveu, mas que,
Espinosa vivendo e escrevendo, teríamos certeza de ter apesar de tudo o espinosismo”9.
Em uma carta pouco conhecida, escrita em homenagem a Gabriel Tarde 10, Bergson enfatiza
a existência de dois gêneros de pensadores que a história da filosofia nos ensina a distinguir.
Existem os que “caminham metodicamente rumo ao seu objetivo, elevando-se de grau em grau até
uma síntese querida e premeditada”. Esta busca pela unificação do saber soa estranha aos ouvidos
de Bergson, porque mantém o filósofo condicionado a levar adiante os resultados que o cientista
alcançou através da experiência. Deste modo, o filósofo se limita a induzir e a deduzir, sem aceitar
riscos, seguindo a mesma direção da ciência ao generalizar os mesmos fatos: “Há uma certa
concepção da filosofia que quer que todo esforço do filósofo tenda a abarcar numa grande síntese os
resultados das ciências particulares. […] Estranha pretensão, na verdade! Como a profissão de
filósofo poderia conferir àquele que a exerce a capacidade de avançar mais longe do que a ciência
na mesma direção que ela?”11
Mas existem aqueles pensadores que assumem riscos, que têm consciência de que nem tudo
que a filosofia nos diz é verificado ou verificável, porque simplesmente sentem que estão certos
daquilo que querem nos comunicar. São os que vão, “sem método aparente, aonde sua fantasia os
conduz, mas cujo espírito é tão bem afinado ao uníssono das coisas que todas as suas ideias se
harmonizam naturalmente entre elas. […] Eles são filósofos sem haver procurado sê-lo, sem haver
pensado nisso. Sua reflexão, partindo não importa onde e engajando-se em não importa que
caminho, arranja-se para conduzi-las sempre ao mesmo ponto”. Para Bergson, a filosofia não é uma
síntese mais sofisticada da ciência, porque é tarefa da filosofia se colocar na experiência da duração.
Ora, a experiência da duração implica consciência, direção para o interior de nós mesmos, onde a
intuição filosófica pode ser, inclusive, intensificada pela emoção criadora. Portanto, o filósofo deve
seguir esse movimento da vida, que é a criação, para colocar verdadeiros problemas, pois, alerta
Bergson, a história da filosofia errou durante muito tempo em se deter nos falsos problemas, cujas
questões são inerentes à estrutura da nossa inteligência, tais como o Ser, o não-Ser, o Nada, o
Fundamento – problemas que nos mantém distantes do conhecimento da vida. Ao contrário da
ciência, que nos promete bem-estar e prazer, a filosofia pode nos dar a alegria e, também, como ele
sublinha na carta em homenagem a Tarde, “nos tornar melhores e mais fortes”. Esta é a força
subversiva da filosofia que não pode ser esquecida.

8
Idem.
9
PM, p. 130.
10
“Carta de Bergson, do Instituto, Professor de Filosofia no Collège de France.”
11
PM, p. 140.