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TRIBUNAL DE JUSTIÇA

PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

Registro: 2016.0000441396

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº


0008087-39.2011.8.26.0428, da Comarca de Campinas, em que é apelante LARISSA
CORREA FANTINATTI (JUSTIÇA GRATUITA), é apelado MINISTÉRIO PÚBLICO
DO ESTADO DE SÃO PAULO.

ACORDAM, em 5ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de


São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento ao recurso. V. U.", de
conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores MOREIRA


VIEGAS (Presidente sem voto), J.L. MÔNACO DA SILVA E JAMES SIANO.

São Paulo, 22 de junho de 2016

ERICKSON GAVAZZA MARQUES


RELATOR
Assinatura Eletrônica
TRIBUNAL DE JUSTIÇA
PODER JUDICIÁRIO
São Paulo

APELAÇÃO CÍVEL Nº 0008087-39.2011.8.26.0428


Comarca : PAULINIA 1ª VARA JUDICIAL
Juiz : MARIA RAQUEL CAMPOS PINTO TILKIAN
Ação : RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL
Apelante : LARISSA CORREA FANTINATT
Apelado : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO
PAULO

VOTO Nº 20876
RETIFICAÇÃO DE REGISTRO CIVIL PRETENSÃO DE ALTERAR
PRENOME FEMININO PARA MASCULINO AUTORA
RECONHECIDA NO MEIO SOCIAL PELO PRENOME MASCULINO
POSSIBILIDADE DE ALTERAÇÃO, AINDA QUE NÃO TENHA SIDO
REALIZADA CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO -
OBSERVÂNCIA DO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA
HUMANA CONFIGURAÇÃO DE SITUAÇÃO CONSTRANGEDORA -
NECESSIDADE DE DILAÇÃO PROBATÓRIA PARA QUE A AUTORA
POSSA COMPROVAR O DIAGNÓSTICO CONTIDO NO LAUDO
PSICOLÓGICO - AÇÃO IMPROCEDENTE SENTENÇA ANULADA
RECURSO PROVIDO.

Vistos.

Trata-se de ação de retificação de registro civil, ajuizada


por Larissa Corrêa Fantinatti, que a respeitável sentença de fls.
36/37, cujo relatório fica fazendo parte integrante do presente,
julgou improcedente.

Inconformada, apela a requerente alegando, em síntese,


que vem se submetendo a tratamento médico e psicológico,
utilizando hormônio, remédios para que possa ser realizada a
cirurgia que depende de criteriosa análise. Afirma que o laudo
psicológico juntado corrobora sua pretensão de adequação de seu

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registro à sua atual aparência física e psíquica. Sustenta que a


mudança de nome de transexual é uma forma de satisfazer as
necessidades pessoais do indivíduo, colocando fim a conflitos
pessoais. Pede, ao final, a reforma da sentença.

O recurso foi recebido e respondido, tendo o D.


representante do Ministério Público, nesta instância, opinado pela
conversão do julgamento em diligência ou pelo provimento do
apelo.

É o relatório.

A autora ajuizou a presente ação visando a alteração do


seu nome para Lucas Correa Fantinatti, alegando ser transexual
apresentando-se socialmente como homem, por identificar-se desde
muito cedo como sendo do ge^nero masculino, sendo conhecido pelo
prenome masculino, causando conflito básico e sofrimento.

O juízo a quo julgou improcedente a ação, por entender


que, a não realização da cirurgia de mudança de sexo, impede o
acolhimento da pretensão da autora.

Pois bem. Não se pode deixar de considerar que o nosso


ordenamento jurídico tem por base o princípio da dignidade da
pessoa humana, sendo que o nome é a maneira pela qual nos

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relacionamos com o mundo.

Desta forma, o registro civil naÞ


o pode se prestar a ser
instrumento de discriminac?

o transexual ao indiviìduo que possui
disfunc?

o de ge?
nero, sendo identificado de maneira incompatível
com a condição física e psicológica.

Não se pode negar que a discrepa^ncia entre o prenome


formal do apelante e sua apare^ncia fiìsica podem lhe causar
constrangimentos e danos aÌsua sauìde psiìquica e integridade fiìsica,
tendo em vista a natureza masculina de seu sexo psicoloìgico.

Portanto, cabe ao judiciário buscar solução satisfatória


para que os direitos individuais da parte sejam garantidos.

No caso em questão, ressalvado o entendimento do


Magistrado sentenciante, o deferimento de eventual alterac?

o do
registro prescinde da realização da cirurgia de mudança de sexo,
sendo necessaìria apenas a demonstrac?

o das inadequac?

es da
pessoa ao sexo registrado, não podendo deixar de considerar que há
nos autos fortes indícios que corroboram as alegações da autora,
notadamente o laudo psicoloìgico de fls. 21/22.

Em recente julgado, decidiu esta Corte de Justiça:

“REGISTRO CIVIL. PEDIDO DE RETIFICAC?



O DE

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NOME MASCULINO PARA FEMININO. Transexual


que naÞ o realizou cirurgia de transgenitalizac? aÞ
o.
Sentenc?
a de extinc?

o do processo sem julgamento do
meìrito por impossibilidade juriìdica do pedido.
Possibilidade de o requerente demonstrar sua
inclinac?

o sexual, bem como a existe? ncia de transtorno
de identidade de ge?
nero. Necessaìria instruc?

o. Recurso
provido, para anular sentenc¸a.” (TJSP - Apelac? aÞ
o no
0005436-85.2012.8.26.0238 5ª Câmara de Direito
Privado Rel. FERNANDA GOMES CAMACHO -
j.02.03.16)

A decisão acima, não ficou isolada na jurisprudência


deste Tribunal:

“RETIFICAC? AÞ
O DE REGISTRO CIVIL - PretensaÞ o do
autor de alterac?

o de prenome masculino para feminino
- Nome atual que, em face da condic? aÞ
o atual do
apelante, o expoÞ
e ao ridiìculo - Requerimento de provas
que demonstrem, verdadeiramente, que a apare^ncia do
autor eì de uma mulher - Extinção do pedido por
carência da ação açodada Possibilidade em tese de
acolhimento do pleito - Necessidade de prévia
realização das provas requeridas - Sentença cassada -
Apelo provido para esse fim” (TJSP - Apelac? aÞ
o no
0062067-91.2012.8.26.0224 9ª Câmara de Direito
Privado Rel. Galdino Toledo Juìnior - j. 10.03.15)

Nessa conformidade, deve a sentença ser anulada,


tornando os autos ao primeiro grau de jurisdição para
processamento do feito, atendendo-se as providências solicitadas
pelo representante do Ministério Público a fls. 70 e outras que se

Apelação nº 0008087-39.2011.8.26.0428 - Campinas - VOTO Nº 5/6


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fizerem necessárias para a confirmação do diagnóstico contido no


laudo psicológico de fls. 21.

Pelo exposto, DOU PROVIMENTO ao recurso.

Erickson Gavazza Marques


Relator

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