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no banco dos réus

O evo lucio nism o não


se apoia em fatos.
Sua base é a fé no
natu ralism o filosófico.

£ Phillip E. Johnson
Darwin no banco dos réus
Phillip E. Johnson
Darwin no banco dos réus © 2008, Casa Editora Presbiteriana. Publicado originalmente com
o título Darwin on trial, © 1993 by Phillip E. Johnson, por InterVarsity, 6.400 Schroeder
Rd. P.O. Box 7895, Madison, em acordo com Regnery Gateway, Inc., 1.130 17th Street NW,
Suite 600, Washington DC 20036. Todos os direitos são reservados.

Ia edição - 2008
3.000 exemplares

Conselho Editorial
Ageu Cirilo de Magalhães, Jr.
Alex Barbosa Vieira
André Luís Ramos
Cláudio Marra (Presidente)
Fernando Hamilton Costa
Francisco Baptista de Melo
Francisco Solano Portela Neto Produção Editorial
Mauro Fernando Meister Tradução
Valdeci da Silva Santos Enézio E.de Almeida Filho
Revisão
Enézio E.de Almeida Filho
Paulo Pompêo
Wilton Vidal de Lima
Editoração
OM Designers Gráficos
Capa
Magno Paganelli

Johnson, Phillip E.
J661d Darwin no banco dos réus / Phillip E. Johnson;
tradução de Enézio E. Almeida Filho. _ São Paulo:
Cultura Cristã, 2008
224 p.; 16x23 cm
Tradução de Darwin in trial
ISBN 978-85-7622-223-1
1. Apologética 2. Criacionismo 3. Evolucionismo
CDD 239

€DITORR CULTURR CRISTR


R. Miguel Teles Jr., 394 - Cambuci - SP - 15040-040 - Caixa Postal 15.136
Fone (011) 3207-7099 - Fax (011) 3279-1255 - www.cep.org.br
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
Aos que ouviram, leram (especialmente Kathie)
e se esforçaram me ajudando seguir pelo
caminho estreito e apertado.

E àquelas almas destemidas que fizeram


perguntas difíceis mesmo quando não havia
nenhuma chance de receber uma resposta imediata.

E aos que na ciência desejam permitir


que as perguntas sejam feitas.
Sumária

Apresentação........................................................................................................... 9

Prefácio à segunda edição em inglês....................................................................... 13


Capítulo I: D cenário jurídico....................................................................................15

Capítulo 2: A seleção natural.................................................................................... 27


Capítulo 3: Mutações grandes e pequenas............................................................... 43
Capítulo 4: D problema do registro fóssil.................................................................54
Capítulo 5 :0 fato da evolução................................................................................. 70

Capítulo B: A sequência dos vertebrados.................................................................. 81

Capítulo 7: A evidência m olecular............................................................................ 93

Capítulo 8: A evolução pré-biológica........................................................................IDB

Capítulo 9: As regras da ciência...............................................................................117


Capítulo 10: A religião darw inista............................................................................ 128
Capítulo II: A educação darwinista........................................................................... 137

Capítulo 12: Ciência e pseudociência........................................................................ 148


Epílogo: 0 livro a seus crítico s................................................................................ 157

Notas de pesquisa.................................................................................................. 170

índice.................................................................................................................... 215
Apresentação

Qual a razão pela qual uma editora cristã lança no mercado a tradução de
uma obra contra o evolucionismo escrita em 1993, portanto com 15 anos de
atraso? A principal razão é a sua pujança, eficácia e relevância. Apesar dos
15 anos de idade, o livro de Phillip Johnson continua atualíssimo. Pouca
coisa surgiu nesse período que inovou a apologética antievolucionista além
do que Johnson tem feito.
Mas há outra razão. O livro que o leitor tem em mãos é diferente de
muitas outras obras antievolucionistas que existem no mercado. Há vários
motivos para isso.
Primeiro, pelo impacto que causou na comunidade científica por ocasião
do seu lançamento, provocando reações, resenhas e contestações de gran­
des nomes do meio científico, como o renomado evolucionista Stephen Jay
Gould. Muitos intelectuais consideraram essa obra como a primeira ameaça
séria ao evolucionismo a aparecer nos últimos 40 anos. Johnson, graduado
em Harvard e na Universidade de Chicago, escreve com mestria, lógica e
domina a retórica.
O livro de Johnson não é o primeiro a questionar o dogma que a evolução
é um fato científico inconteste. Em 1985 o pesquisador médico Michael Den-
ton, um agnóstico australiano, agitou o meio científico com o livro Evolu-
tion: A Theory in Crisis [Evolução: uma teoria em crise], cujo ponto era que
o darwinismo estava em dificuldades diante das evidências contraditórias
de campos diversos como paleontologia, biologia do desenvolvimento, bio­
logia molecular e taxonomia. O livro de Johnson vai no mesmo caminho,
embora partindo de diferentes premissas e usando um método distinto. A
voz de Johnson se junta a muitas outras, em tempos recentes, que questio­
nam o status de “fato” que o evolucionismo tem desfrutado na academia
por quase duzentos anos.
10 DARWIN no banco dos réus

Segundo, Johnson não é um cientista cristão tentando mostrar com base


na Bíblia e em dados científicos que o sistema darwinista está totalmente
contrário aos primeiros capítulos do livro de Gênesis. Johnson é advogado e
professor emérito de Direito da Universidade da Califórnia - Berkeley. Sua
especialidade é análise lógica de argumentos e identificação dos pressupos­
tos que estão por trás desses argumentos. E é este o alvo deste livro, trazer
Darwin e o darwinismo a um tribunal, por assim dizer, e examinar logica­
mente as suas asserções e afirmações para verificar se são verdadeiras, e iden­
tificar os pressupostos filosóficos e os compromissos epistemológicos que
estão subjacentes. Daí o nome do livro. Portanto, o que encontraremos aqui,
nas palavras do próprio Johnson, é um exame criterioso, lógico, analítico, dos
fundamentos teóricos, pressupostos e principais afirmações do darwinismo.
Terceiro, o método deste livro é diferente de muitos outros que fazem
parte da apologética antievolucionista - e é aqui, talvez, que resida em
grande medida a sua eficácia. Muitos autores antievolucionistas empregam
abertamente declarações e princípios fundamentados em suas crenças cris­
tãs como base da sua argumentação, apresentando uma visão alternativa
da realidade alicerçada na Bíblia. Embora cristão, Johnson evita cuidado­
samente esse tipo de abordagem, como se fosse um cético desinteressado
do evolucionismo e que procura analisar seus argumentos a distância, para
ver se os mesmos são apoiados pelas evidências. Essa falta de alusão aos
argumentos bíblicos geralmente empregados pelos criacionistas faz que a
obra de Johnson tenha penetração em círculos universitários e acadêmicos,
nos quais, via de regra, se pretende deixar o criacionismo fora da academia.
Essa abordagem de Johnson é característica da abordagem do movimento
do Design Inteligente, que permite reunir dentro do movimento inclusive
cientistas e filósofos que não têm convicções cristãs ou religiosas, unidos,
todavia, pela consciência de que o darwinismo, como paradigma científico,
já não tem mais respostas para as questões levantadas por recentes desco­
bertas, especialmente na área de bioquímica.
Todavia, não devemos pensar que Johnson escreve de maneira a supri­
mir totalmente suas convicções cristãs. Aliás, um dos seus objetivos em
escrever este livro, conforme ele mesmo declara, é “legitimar a asserção de
uma visão teísta de mundo na universidade secular”.
A estratégia de Johnson em Darwin no banco dos réus é dupla. Primeiro,
ele procura demonstrar que o evolucionismo está profundamente compro­
metido com o naturalismo filosófico-ateísta. Esse ponto está desenvolvido
em capítulos como “As regras da Ciência”, “A religião darwinista”, “A edu­
cação darwinista” e “Ciência e pseudociência”. Como tal, o evolucionismo
se sustenta sobre pressupostos filosóficos e metafísicos, como o ateísmo e o
naturalismo filosófico, tomando-se assim uma religião=do tipo fundamenta-
Apresentação

lista, o que tinge a análise dos dados e das evidências. Segundo, ele analisa
as evidências que os evolucionistas apresentam como prova científica da
sua teoria, É aqui que o expertise de Johnson mais lhe serve. Com sua ca­
pacidade ímpar de detectar o que está por trás de argumentos, ele analisa
essas evidências nos capítulos “A seleção natural”, “As mutações grandes e
pequenas”, “O problema do registro fóssil”, “Aseqüência dos vertebrados”,
entre outros. O veredito é sempre o mesmo. O compromisso da ciência evo-
lucionista com a visão ateísta e naturalista de mundo compromete e vicia
seus resultados.
Embora muitos evolucionistas tenham considerado que Johnson foi in­
justo em descrever o pensamento evolucionista neste livro, passando falsas
impressões e distorcendo as idéias principais do darwinismo, uma grande
parte considera que ele foi fiel em sua representação, mesmo sendo um
crítico ferrenho.
A tradução desta obra representa o esforço de uma década do Núcleo
Brasileiro de Design Inteligente, um pequeno mas crescente grupo de cien­
tistas e pesquisadores brasileiros de universidades públicas e privadas que,
no mesmo espírito de Johnson, embora não com as mesmas convicções
cristãs, questionam o status que o evolucionismo darwinista goza hoje de
“fato científico incontestável”.
É na expectativa de que este livro irá fazer a diferença no atual cenário
da controvérsia Darwin versus Design que o apresento e recomendo.

São Paulo, janeiro de 2008.

Rev. Prof. Dr. Augustus Nicodemus Lopes (PhD),


Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie
Prefácm à segunda edição em inglês
Esta segunda edição de Darwin no banco dos réus difere da primeira
nos seguintes aspectos:
O novo capítulo final, “O livro e seus críticos”, foi adicionado. Fiquei
muito contente, pois Darwin no banco dos réus atraiu a atenção de nume­
rosos críticos do mundo secular e cristão. Dá-me grande prazer ter a opor­
tunidade de responder aqui a esses críticos.
O Capítulo 5, “O fato da evolução”, foi expandido a fim de lidar com
alguns aspectos importantes da evidência da embriologia.
Uma nota de rodapé no Capítulo 3 lidando com “poliploidia” foi altera­
da a fim de descrever esse fenômeno mais adequadamente.
Em todos os demais aspectos a segunda edição é idêntica à primeira.
Capítulo I

D cenário
jurídico
m 1981 o legislativo estadual da Louisiana, Estados Unidos, aprovou

E uma lei que, se a “ciência da evolução” fosse ensinada nas escolas


públicas, as escolas também deveriam dispensar tratamento idêntico a
algo chamado “ciência da criação”. A lei era um desafio direto à ortodoxia
científica atual de que todos os seres vivos evoluíram por um processo
gradual e natural - de matéria inanimada a simples microrganismos, che­
gando eventualmente ao ser humano. A evolução é ensinada nas escolas
públicas (e apresentada na mídia) não como teoria, mas como fato, o “fato
da evolução”. Há, no entanto, muitos dissidentes, alguns com avançada
graduação científica, negando que a evolução seja fato e insistem que um
Criador inteligente fez que todos os seres vivos surgissem para o desen­
volvimento de um propósito.
O conflito requer cuidadosa explicação porque os termos são confusos.
O conceito de criação em si mesmo não implica oposição à evolução, se
evolução somente significar um processo gradual pelo qual um tipo de cria­
tura viva se transforma em algo diferente. Um Criador poderia muito bem
ter empregado tal processo gradual como um meio de criação. O termo
“evolução” somente contradiz o termo “criação” quando é, explícita ou ta­
citamente, definido como evolução totalmente naturalista — significando
evolução que não é dirigida por qualquer inteligência propositada.
16 DARWIN no banco dos réus

Semelhantemente, o termo “criação” somente contradiz a evolução


quando significar criação súbita, em vez de criação por desenvolvimento
progressivo. Por exemplo, o termo “ciência da criação”, como foi emprega­
do na legislatura da Louisiana, é no geral entendido como referência a um
movimento de cristãos fundamentalistas baseado numa interpretação por
demais literal da Bíblia. Cientistas da criação não insistem meramente que
a vida foi criada; insistem que a obra foi realizada em seis dias há uns 10
mil anos, e que toda a evolução desde aquela época envolveu modificações
triviais em vez de mudanças básicas. Em razão de a “ciência da criação” ter
sido objeto de muita controvérsia e atenção da mídia, muitas pessoas pre­
sumem que quem defender a “criação” apóie a posição da “Terra recente” e
atribua a existência de fósseis ao dilúvio da época de Noé. Esclarecer essa
confusão é um dos propósitos deste livro.1
A lei da Louisiana e leis semelhantes em outros Estados nos Estados
Unidos surgiram dos esforços de muitos anos dos cristãos fundamentalistas
em reafirmar a vitalidade científica da narrativa bíblica da criação contra sua
rival darwinista. O grande ponto de referência neste conflito Bíblia versus
Ciência foi o famoso caso Scopes, o “julgamento do macaco”123da década de
1920, que a maioria dos americanos conhece na versão lendária retratada
na peça e no filme Inherit the Wind? A lenda nos fala de fanáticos religiosos
que invadem uma sala de aula para perseguir a um inofensivo professor de
ciência, e do heróico advogado de defesa que simboliza a própria razão na
sua batalha infindável contra a superstição.
Como em muitos incidentes lendários o registro histórico é mais com­
plexo.4 O legislativo do Tennessee havia aprovado como medida simbólica
uma lei proibindo o ensino da evolução, que o governador assinara somente
com o explícito entendimento de que a proibição nunca seria aplicada. Opo­
nentes da lei (e algumas pessoas que apenas queriam colocar Dayton, Ten-

1Esclarecer confusão exige o uso cuidadoso e consistente de termos. Neste livro, [o termo] “ciência
da criação” se refere à criação recente da Terra, criação especial em seis dias. “Criacionismo” significa
a crença na criação num sentido mais geral. As pessoas que crêem que a Terra tenha bilhões de anos, e
que as formas simples de vida evoluíram gradualmente para se tomar formas mais complexas incluindo
os humanos, são “criacionistas” se acreditarem que um Criador sobrenatural não somente iniciou esse
processo, mas em algum sentido significativo o controla para desenvolvimento de um propósito. Como
veremos, [o termo] “evolução” (no uso científico contemporâneo) exclui não somente a ciência da
criação, mas [também] o criacionismo no sentido mais amplo. Por “darwinismo” quero dizer evolução
totalmente naturalista, envolvendo mecanismos ao acaso guiados pela seleção natural.
2N. do T.: O que ocorreu em Dayton foi, juridicamente, “um arremedo de julgamento”, “um julga­
mento grotesco”, pois o advogado darwinista recusou ser interrogado e admitiu a culpa de seu cliente
que pagou uma multa de US$ 100.
3 N. do T.: O título do filme foi traduzido em português como “O vento será tua herança”.
4N. do T.: Um livro equilibrado sobre o que realmente aconteceu é o de Edward J. Larson, Summer
fo r the Gods: The Scopes Trial and Am erica’s Continuing Debate over Science and Religion, Nova
York: Basic Books, 1997.
D cenário jurídico 17

nessee, no mapa) engendraram um caso-teste. Um ex-professor substituto


chamado Scopes, que não tinha certeza se realmente alguma vez ensinara
evolução, ofereceu-se voluntariamente para ser o acusado.
O caso se tomou um circo da mídia por causa dos brilhantes advogados
envolvidos. William Jennings Bryan, três vezes candidato a presidente pelo
Partido Democrata, e secretário de Estado na gestão do presidente Wilson,
conduziu a acusação. Bryan acreditava na Bíblia, mas não era um literalista
intransigente, pois acreditava que os “dias” do Gênesis se referiam não a
períodos de 24 horas, mas a eras históricas de duração infinita. Ele se opu­
nha ao darwinismo em grande parte, porque pensava que sua aceitação ti­
nha encorajado a ética da competição cruel que está subjacente a tais males
como o militarismo alemão e o capitalismo feroz.
A equipe de defesa de Scopes era comandada pelo famoso advogado cri-
minalista e palestrante ateu Clarence Darrow. Darrow habilmente fez com
que Bryan fosse interrogado como testemunha especialista na Bíblia e o
humilhou num interrogatório devastador. Tendo conseguido seu principal
objetivo, Darrow admitiu que seu cliente tinha violado a lei e instou aos
jurados que o condenassem. Assim, o julgamento acabou numa condenação
e uma multa nominal de US$ 100. Na apelação, a Suprema Corte do Ten-
nessee desconsiderou a multa por um detalhe jurídico, mas considerou a lei
constitucional. De um ponto de vista legal o resultado foi inconclusivo, mas
como foi apresentado ao mundo pelo jornalista sarcástico H. L. Mencken, e
mais tarde pela Broadway e Hollywood, o “julgamento do macaco” foi um
triunfo de relações públicas para o darwinismo.
Contudo, o establishment científico não estava exatamente se cobrindo
de glória na ocasião. Embora não tenha ido ao julgamento, o principal por­
ta-voz da evolução durante a década de 1920 foi Henry Fairfield Osbom,
diretor do Museu Americano de História Natural. Osbom confiava muito
no fóssil notório do Homem de Piltdown, hoje sabido ser uma fraude, e
sentia prazer em confirmar a descoberta de um dente fóssil supostamente
pré-humano pelo paleontólogo Harold Cooke no Estado natal de Bryan,
Nebraska. Depois disso, Osbom apresentava preeminentemente o “Homem
de Nebraska” (designação científica: Hesperopithecus haroldcookii) nos
seus artigos antifundamentalistas nos jornais e nos programas de rádio, até
que se descobriu que o dente era de queixada, um tipo de porco. Se Osbom
tivesse sido interrogado por um advogado tão hábil quanto Clarence Dar­
row, e satirizado por um colunista tão cruel quanto H. L. Mencken, ele teria
parecido tão bobo quanto pareceu Bryan.
As leis antievolução da década de 1920 nunca foram postas em vigor,
mas os editores de livros tendiam a dizer o mínimo possível sobre a evo­
lução para evitar controvérsia. A Suprema Corte dos Estados Unidos even­
18 DARWIN riQ banca dos réus

tualmente considerou as leis inconstitucionais em 1968, mas àquela época


os fundamentalistas tinham mudado de objetivo. Institutos de pesquisa da
criação foram fundados e livros começaram a aparecer atacando a interpre­
tação ortodoxa da evidência científica e argumentando que o registro geoló­
gico e fósseis podiam ser harmonizados com o relato bíblico. Nenhum livro
desse gênero de literatura foi levado a sério pelo establishment científico ou
pela mídia popular, mas os cientistas da criação se tomaram cada vez mais
confiantes que tinham um caso científico a ser estabelecido.
Eles também começaram a perceber que era possível virar os princípios
da lei constitucional liberal a seu favor, invocando o direito de debater os
evolucionistas em termos iguais nas aulas de ciência das escolas. O objetivo
deles não era mais suprimir o ensino da evolução, mas o de ser imparcial­
mente considerados no seu ponto de vista. Se há um caso a ser posto para
os dois lados de uma controvérsia científica, por que deveriam os alunos
das escolas públicas, por exemplo, ouvir apenas um lado? Os cientistas
da criação enfatizaram que desejavam apresentar somente os argumentos
científicos nas escolas. A Bíblia mesmo não seria ensinada.
É lógico que a ciência dominante não concorda que haja dois lados em
uma controvérsia, e considera a ciência da criação como uma fraude. Tem­
po igual para a ciência da criação nas aulas de biologia, os darwinistas
gostam de afirmar, é como conceder tempo igual para a teoria de que é a
cegonha que traz os bebês. Mas a visão consensual do establishment cien­
tífico não está inscrita na Constituição dos Estados Unidos. Os legisladores
são autorizados a agir baseados em diferentes suposições, pelo menos até
onde as cortes permitirem.
A lei da Louisiana nunca entrou em vigor porque um juiz federal ime­
diatamente a considerou inconstitucional sob a alegação de favorecer o “es­
tabelecimento da religião”. Em 1987, a Suprema Corte dos Estados Unidos
confirmou essa decisão com uma votação majoritária de sete votos a dois.
A lei da Louisiana era inconstitucional, foi a opinião da maioria declarada
pelo juiz William Brennan, porque seu propósito “era claramente o de avan­
çar o ponto de vista de que um ser sobrenatural criou a humanidade”. De
jeito nenhum, foi a opinião dissidente declarada pelo juiz Antonin Scalia,
porque “o povo de Louisiana, incluindo os que são cristãos fundamenta­
listas, tem o direito, como uma questão secular, de ter qualquer evidência
científica que haja contra a evolução apresentada em suas escolas, assim
como o senhor Scopes teve o direito de apresentar qualquer evidência favo­
rável que houvesse para ela”.
Tanto o juiz Brennan como o juiz Scalia, em um sentido, estavam certos.
A Constituição dos Estados Unidos exclui a promoção religiosa das salas
de aula das escolas públicas, e dizer que um ser sobrenatural criou a huma­
D cenário jurídica 19

nidade é, certamente, promover uma posição religiosa. Por outro lado, a


legislatura de Louisiana havia agido na premissa de que objeções científicas
legítimas à “evolução” estavam sendo suprimidas. Algumas pessoas podem
duvidar que tais objeções existam, mas a Suprema Corte não podia revogar
a decisão da legislatura sobre uma questão científica contestada, especial­
mente se considerando que não fora dada oportunidade ao Estado demons­
trar o que o tratamento imparcial seria na prática. Além disso, os cientistas
da criação argumentavam que o ensino da evolução em si tinha um objetivo
religioso, isto é, desacreditar a idéia de que um ser sobrenatural criou a
humanidade. Considerando isso, o juiz Scalia pensou que a Constituição
permitia à legislatura conceder às pessoas ofendidas pelo alegado ensino
dogmático da evolução uma oportunidade justa de replicar.
Como especialista jurídico, um ponto que atraiu minha atenção no caso
da Suprema Corte foi a maneira como termos tipo “ciência” e “religião”
foram usados para implicar conclusões que juízes e educadores poderiam
nem estar desejosos de explicitamente declarar. Se afirmarmos que a evo­
lução naturalista é ciência e que a criação sobrenatural é religião, o re­
sultado não é muito diferente em dizer que o primeiro é verdadeiro e o
segundo é fantasia. Quando as doutrinas da ciência são ensinadas como
fato, então o que aquelas doutrinas excluem não pode ser verdadeiro. Pelo
uso de rótulos, objeções à evolução naturalista podem ser dispensadas
sem uma justa consideração.
Minhas suspeitas foram confirmadas pelo argumento amicus curiae5 sub­
metido pela influente Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos re­
presentando os cientistas mais prestigiados do país. A ciência da criação não
é ciência, afirmou a academia no seu argumento à Suprema Corte, porque

... falha em apresentar as características mais básicas da ciência: con­


fiança nas explicações naturalistas. Em vez disso, os proponentes da
“ciência da criação” sustentam que a criação do universo, a terra, as
coisas vivas e o ser humano, foi realizada através de meios sobrena­
turais inacessíveis à compreensão humana.

Porque os criacionistas não podem realizar pesquisa científica para es­


tabelecer a realidade da criação sobrenatural - por definição impossível - a
academia descreveu os esforços dos criacionistas como objetivando princi­
palmente desacreditar a teoria da evolução:

5N. do T.: No sistema jurídico americano o amicus curiae [amigo da corte] é o documento apre­
sentado por um especialista ou um grupo de especialistas com seu parecer técnico tentando influenciar
a corte na decisão.
20 DARWIN no banco dos réus

A “ciência da criação” é, assim, um artifício obviamente elaborado


para diluir o grau de persuasão da teoria da evolução. O modo dua­
lista de análise e argumentação negativa empregado para conseguir
essa diluição é, além disso, antitético ao método científico.

Assim, a academia definiu “ciência” de tal modo que os defensores da


criação sobrenatural não podem nem argumentar a favor de sua posição
nem questionar as afirmações do establishment científico, Isso pode ser
uma maneira de se ganhar um argumento, mas não satisfaz a quem pensa
ser possível que Deus realmente teve algo a ver na criação da humanidade,
ou que algumas das afirmações que os cientistas fazem sob o título de “evo­
lução” podem ser falsas.
Abordo o debate criação-evolução não como um cientista, mas como um
professor de jurisprudência, o que significa, entre outras coisas, que sei algo
sobre os modos como as palavras são empregadas em argumentações. O que
primeiro atraiu minha atenção para a pergunta foi a maneira como as regras
de argumentação pareciam ter sido estruturadas a fim de tomar impossível
questionar se o que estamos sendo informados sobre a evolução é de fato
verdadeiro. Por exemplo, a regra da academia contra o argumento negativo
automaticamente elimina a possibilidade de que a ciência não tenha desco­
berto como os organismos complexos se desenvolveram. Não importa quão
errada a resposta atual possa estar, ela permanece até que melhor resposta
surja. É como se a um suspeito de crime não fosse permitido apresentar um
álibi a menos que também pudesse demonstrar quem cometera o crime.
Um segundo ponto que chamou minha atenção foi que as mesmas pes­
soas que insistem em manter a religião e a ciência separadas são ardorosas
no uso de sua ciência como uma base para pronunciamentos sobre a reli­
gião. A literatura do darwinismo está cheia de conclusões antiteístas, tais
quais - o universo não foi planejado e não tem propósito, e que nós huma­
nos somos o resultado de processos naturais cegos que não se importam
conosco. Além disso, essas declarações não são apresentadas como opi­
niões pessoais, mas como implicações lógicas da ciência evolucionista.
Outro fator que faz a ciência evolucionista parecer muito como religião
é o zelo evidente dos darwinistas em evangelizar o mundo, insistindo que
até pessoas que não são cientistas aceitem a verdade da teoria deles como
uma questão de obrigação moral. Richard Dawkins, um zoólogo da Uni­
versidade Oxford, é desavergonhadamente explícito sobre o lado religioso
do darwinismo. Seu livro The Blind Watchmaker6 de 1986 é, a um nível,
sobre biologia, mas a um nível mais fundamental é um argumento a favor

6N. do T.: Traduzido para o português como O relojoeiro cego, e publicado pela Companhia das
Letras, São Paulo, em 2001.
G cenário jurídico ZI
/I
do ateísmo. De acordo com Dawkins, “Darwin tomou possível ser um ateu
intelectualmente realizado”.
Quando contempla a perfídia dos que se recusam a acreditar na teoria
da evolução Dawkins quase não consegue moderar sua fúria. “É absoluta­
mente seguro dizer que, se você conhecer alguém que afirme não acreditar
na evolução, aquela pessoa é ignorante, estúpida ou insana (ou maligna,
mas prefiro não considerar isso).” Dawkins continuou explicando, a pro­
pósito, que o que ele particularmente não gosta nos criacionistas é que eles
são muito intolerantes.
Assim, temos de acreditar na evolução ou ir para o hospício, mas no
que, com precisão, devemos acreditar? “Evolução” pode significar qual­
quer coisa desde a declaração não controversa de que a bactéria “desen­
volve” resistência aos antibióticos à grande afirmação metafísica de que o
universo e a humanidade “evoluíram” inteiramente por forças mecânicas
sem propósito. Uma palavra elástica assim é capaz de induzir ao erro, dan­
do a entender que sabemos tanto sobre a grande afirmação quanto sabemos
sobre a pequena afirmação.
Aquela precisa distinção foi tema de extraordinária palestra dada por
Colin Patterson7 no Museu Americano de História Natural em 1981.
Patterson foi paleontólogo sênior no Museu de História Natural Britânico e
o autor do texto geral sobre evolução daquele museu. Sua palestra compara­
va o criacionismo (não a ciência da criação) com a evolução, e caracterizou
a ambos como conceitos de cunho científico vazios que são fundamental­
mente sustentados pela fé. Muitos dos pontos específicos da palestra são
técnicos, mas dois são de particular importância para este capítulo introdu­
tório. Primeiro, Patterson fez à sua audiência de especialistas uma pergunta
que refletia suas dúvidas sobre quanto que se pensa ser conhecimento segu­
ro sobre a evolução:

Vocês podem me dizer alguma coisa que vocês sabem sobre a evo­
lução, qualquer coisa... que seja verdade? Tentei essa pergunta com
o pessoal de geologia no Museu Field de História Natural e a única
resposta que obtive foi o silêncio. Eu a tentei com os membros do
seminário de Morfologia Evolutiva na Universidade de Chicago, um
grupo muito prestigiado de evolucionistas e tudo o que obtive foi o
silêncio por longo tempo e, finalmente, uma pessoa disse: “Eu só sei
uma coisa - não deveria ser ensinada na escola de ensino médio”.

Patterson sugeriu que tanto a evolução como a criação são formas de


pseudoconhecimento, conceitos que parecem implicar informação, mas não

7N . do T.: Colin Patterson morreu em 9 de março de 1998.


TL DARWIN no banco dos rÉus

o fazem. Um ponto de comparação foi em particular chocante. Uma objeção


comum ao criacionismo em eras pré-darwinianas era que ninguém podia
dizer nada sobre o mecanismo da criação. Os criacionistas simplesmente
apontavam para o “fato” da criação e concediam ignorância dos meios. Mas
agora, de acordo com Patterson, a teoria de Darwin da seleção natural está
sob fogo e os cientistas não estão mais certos de sua validade geral. Os evo-
lucionistas cada vez mais falam como criacionistas em que eles apontam
para um fato, mas não podem fornecer uma explicação dos meios.
Patterson era deliberadamente provocador, e não quero dar a entender
que seus pontos de vista céticos foram pela amplitude apoiados na comuni­
dade científica. Ao contrário, Patterson ficou sob fogo pesado dos darwinis-
tas depois que alguém circulou uma transcrição contrabandeada da palestra,
e ele no fim repudiou tudo que ocorreu. Se ele quis falar ou não para co­
nhecimento público, contudo, ele destacava um ponto importante. Podemos
apontar para um mistério e chamá-lo de “evolução”, mas isso é apenas um
rótulo. A questão importante não é se os cientistas concordam com um rótu­
lo, mas quanto eles sabem sobre como os seres vivos complexos como nós
passaram a existir.
Irving Kristol é um eminente teórico social com talento em reconhe­
cer obscurecimento ideológico, e ele aplicou aquele talento num artigo no
jornal The New York Times. Kristol observou que a teoria darwiniana, que
explica a vida complexa como o produto de pequenas mutações genéticas
e a “sobrevivência do mais apto”, é sabida ser válida apenas para variações
dentro das espécies biológicas. Que a evolução darwiniana possa gradual­
mente transformar um tipo de criatura em outra é meramente uma hipótese
biológica, não é um fato. Ele salientou que a ciência abunda com opiniões
rivais sobre a origem da vida e que alguns cientistas têm questionado se
a palavra “evolução” tem tal significado. Kristol admitiu que a ciência da
criação é uma questão de fé e não de ciência, e não deveria ser ensinada nas
escolas, mas achou que seus defensores ainda assim tinham uma razão:

É razoável supor que se a evolução fosse ensinada mais prudente­


mente, como uma idéia conglomerada consistindo de hipóteses con­
flitantes em vez de uma certeza incontestável, seria menos contro­
versa. Do jeito que estão as coisas, os fündamentalistas religiosos
não estão longe do alvo quando afirmam que a evolução, como no
geral é ensinada, tem uma margem anti-religiosa injustificável.

Um famoso evolucionista que deveria ter sido simpático com o ponto de


Kristol seria o professor Stephen Jay Gould,8 de Harvard. Em 1980, Gould

8N. do T.: Stephen Jay Gould morreu em 20/5/2002, com 60 anos.


D cenário jurídica 23

divulgou um artigo em uma publicação científica predizendo a emergência de


“uma nova teoria geral da evolução” para substituir a síntese neodarwinista.
Gould escreveu que, embora tivesse sido “iludido” pelo poder unificador da
síntese darwinista quando a estudou como aluno de graduação pelos idos
de 1960, o peso da evidência o levara à conclusão relutante de que a síntese
“como uma proposição geral está efetivamente morta, apesar de sua persis­
tência como ortodoxia no livro-texto”. O ensino dogmático daquela ortodo­
xia morta de livro-texto era com precisão criticado por Kristol.
Gould, apesar disso, escreveu uma réplica a Kristol que colocou firme­
mente este estranho no seu devido lugar. Gould negou que o preconceito
do livro-texto fosse mais predominante na evolução do que em quaisquer
outras áreas da ciência, negou que a ciência evolucionista fosse anti-reli-
giosa e insistiu que “a seleção [natural] darwinista... permanecerá como um
foco central de teorias evolucionistas mais inclusivas”. Seu ponto princi­
pal foi que Kristol ignorara uma “distinção central entre fato seguro e um
debate saudável sobre teoria”. Os biólogos ensinam a teoria evolucionista
como uma idéia conglomerada consistindo de hipóteses conflitantes, Gould
escreveu, mas a evolução também é um fato da natureza, tão bem estabele­
cido quanto o fato de que a Terra gira ao redor do Sol.9
Como um observador externo que se deleita em seguir a literatura da
evolução e seus conflitos, já me acostumei em ver esse tipo de resposta eva­
siva à crítica. Quando estranhos questionam se a teoria da evolução é tão
segura quanto temos sido levados a acreditar, somos firmemente informa­
dos que tais questões não fazem sentido. Os argumentos entre os especialis­
tas são expressos como sendo sobre assuntos de detalhes, tal como a exata
duração de tempo e o mecanismo das transformações evolucionistas. Essas
discordâncias são sinais não de crise, mas de um fermento criador saudável
dentro da área, e em qualquer caso não há lugar para qualquer dúvida sobre
algo chamado de “o fato” da evolução.
Mas considere a afirmação de Colin Patterson de que um fato da evolu­
ção é vazio a menos que venha acompanhado de uma teoria que o apóie. Na
ausência de uma explicação de como as transformações fundamentais pos­
sam ocorrer, a simples declaração que “os humanos evoluíram de peixes”
não é impressionante. O que faz a história do peixe impressionante e crível
é que os cientistas acham que sabem como um peixe pode se transformar
em um ser humano sem intervenção milagrosa.
Charles Darwin fez da evolução um conceito científico demonstrando,
ou reivindicou ter demonstrado, que as principais transformações poderiam
ocorrer em etapas muito pequenas através de meios puramente naturais, de

Os argumentos de Gould para o “ato da evolução” são assuntos dos Capítulos 5 e 6 deste livro.
24 DARWIN nn banca das räus

tal modo que tempo, acaso e diferencial de sobrevivência poderiam tomar o


lugar de um milagre. Se o cenário de Darwin de mudança adaptiva gradual
estiver errado, então a “evolução” pode ser não mais do que um rótulo que
apomos às observações que os seres humanos e os peixes têm certas carac­
terísticas comuns, tal como o esqueleto vertebrado.
Discordâncias sobre o mecanismo da evolução são, portanto, funda­
mentais para nós que queremos saber se os cientistas decerto sabem tanto
quanto vêm asseverando saber. Uma teoria adequada de como a evolução
opera é particularmente indispensável quando a evolução é considerada no
implicar, como incontáveis darwinistas têm insistido, de mecanismos ma­
teriais sem propósito serem responsáveis por nossa existência. “Evolução”,
no sentido no qual esses cientistas usam o termo, é um processo mecânico,
e assim o conteúdo de qualquer “fato” que for deixado quando o mecanis­
mo é subtraído é obscuro na sua plenitude.
Nos capítulos a seguir, considerarei a evidência a fim de ver se há um
mecanismo é conhecido para que possa realizar as mudanças de longa es­
cala que a teoria da evolução supõe tenham ocorrido, tais como a mudança
de uma bactéria unicelular em plantas complexas e animais, de peixes em
mamíferos, e de primatas em seres humanos. Se o mecanismo neodarwinis-
ta não realizar a obra, e se em vez de uma mudança estabelecida tivermos
somente aquilo que Gould e Kristol concordaram em chamar de “uma idéia
conglomerada consistindo de idéias conflitantes”, então podemos concluir
que os cientistas de fato não sabem como a evolução de longa escala pode
ter ocorrido. Então teremos de considerar se um “fato da evolução” pode ser
separado da teoria de Darwin. Nossa pesquisa requererá que exploremos a
nova evidência revelada pelos estudos moleculares, o estado da pesquisa da
origem da vida, e as regras da pesquisa científica.
Antes de empreendermos essa tarefa, devo dizer algo sobre minhas
qualificações e meu propósito. Não sou um cientista, mas um advogado
acadêmico por profissão, com especialização em analisar a lógica dos argu­
mentos e identificar as suposições que estão por trás daqueles argumentos.
Essa experiência é mais apropriada do que alguém possa imaginar, pois
o que as pessoas acreditam sobre evolução e darwinismo depende muito
profundamente do tipo de lógica que empregam e do tipo de suposição que
fazem.10 Ser um cientista não é, necessariamente, uma vantagem, quando
se lida com um tópico muito amplo como a evolução, que perpassa muitas
disciplinas científicas, e também envolve questões de filosofia. Cientistas
na ativa são, por necessidade, superespecializados, e um cientista fora de
sua área de especialização é apenas mais um leigo.

10 Quando a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos designou um comitê especial para
a elaboração do livrete Science and Creationism, quatro dos 11 membros eram advogados.
G CEnáriD jurídico 25

Acesso à informação científica relevante não apresenta nenhuma dificul­


dade. Charles Darwin e T. H. Huxley escreveram para o leitor em geral, e o
mesmo é verdade dos gigantes da síntese neodarwinista como Theodosius
Dobzhansky, George Gaylord Simpson e Julian Huxley. Autores atuais que
escrevem para o público geral e que são eminentes entre os cientistas incluem
Stephen Jay Gould, Richard Dawkins, Douglas Futuyma, e uma hoste de ou­
tros especialistas que são nomeados nas notas de pesquisa de cada capítulo.
A maioria da literatura científica profissional está disponível nas princi­
pais publicações científicas, como Nature e Science, os mais prestigiados
órgãos científicos na Inglaterra e nos Estados Unidos respectivamente, e a
um nível até certo ponto mais popular na Inglaterra, New Scientist e Scien-
tific American. Filósofos e historiadores têm também produzido livros bem
informados. Resumindo, a literatura disponível é volumosa, e as figuras
científicas preeminentes têm sempre presumido que os leitores não-cien­
tistas podem entender a evidência essencial. Mas a evidência nunca fala
por si mesma, tem significado somente no contexto de regras de raciocínio
que determinam o que pode ser considerado e o que conta como evidência.
Essas regras de raciocínio são o que particularmente desejo examinar.
O último assunto que devo abordar antes de começar é minha perspec­
tiva religiosa, porque os leitores são inclinados a se perguntar, e porque
eu não isento a mim mesmo da regra geral que o preconceito deve ser re­
conhecido e examinado. Sou um teísta filosófico e um cristão evangélico.
Acredito que Deus exista, e que poderia ter criado desde o nada se assim
quisesse fazer, mas que, em vez disso, pode ter escolhido operar através
de um processo evolucionista natural. Não sou um defensor da ciência da
criação e, de fato, não estou preocupado neste livro em abordar quaisquer
conflitos entre os relatos bíblicos e a evidência científica.
Meu propósito é examinar a evidência científica nos seus próprios ter­
mos, sendo cuidadoso em distinguir a evidência em si mesma de quaisquer
preconceitos religiosos ou filosóficos que possam distorcer nossa interpre­
tação daquela evidência. Presumo que os cientistas da criação são precon­
ceituosos pelo pré-comprometimento a um fundamentalismo biblicista, e
pouco terei a dizer sobre o posicionamento deles. A questão que desejo
investigar é se o darwinismo é baseado numa justa avaliação da evidência
científica, ou se é outro tipo de fundamentalismo.
Realmente sabemos com certeza que existem alguns processos naturais
pelos quais os seres humanos e todas as outras coisas vivas puderam ter
evoluído de ancestrais microbianos, e por fim com base em matéria não-
viva? Quando a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos nos
diz que a confiança em explicações naturalistas é a característica mais bá­
sica de ciência, implica dizer que os cientistas de algum modo sabem que
2G DARWIN na banca das réus
is
um Criador não teve papel nenhum na criação do mundo e de suas formas
de vida? Pode algo ser não-ciência, mas verdade, ou não-ciência significa
notisensel Considerando-se o enfático apoio à evolução naturalista pela co­
munidade científica, podem os estranhos à área até contemplar a possibili­
dade de que essa doutrina oficialmente estabelecida possa ser falsa? Bem,
venha comigo, vamos ver.
Capítula 2

seleção
natural
história de Charles Darwin tem sido contada muitas vezes e não é para

A menos. A relação dele com o geólogo-advogado Charles Lyell, a lon­


ga viagem no navio Beagle com o temperamental capitão Fitzroy, as
observações e as aventuras na América do Sul e nas Ilhas Galápagos, os
longos anos de preparação e demora, a publicação apressada do Origem das
Espécies quando surgiu Alfred Russell Wallace quase publicando uma teo­
ria similar, as controvérsias e o triunfo esmagador - tudo isso se constitui
em uma grande saga que sempre é digna de ser contada de novo. Contudo,
meu assunto não é história, mas a lógica da atual controvérsia, e assim o
meu interesse deve ser o darwinismo e não Darwin. Também não estou in­
teressado nas diferenças entre a teoria como Darwin propôs originalmente e
como é entendida hoje pelos neodarwinistas, que têm a vantagem de maior
entendimento de genética que a ciência alcançou desde o tempo de Darwin.
Meu propósito é explicar quais conceitos a teoria contemporânea emprega,
quais declarações significativas faz sobre o mundo natural, e quais pontos
de legítima controvérsia possam existir.
O livro clássico de Darwin argumentou três pontos importantes inter-rela­
cionados. O primeiro foi que “as espécies não são imutáveis”. Com isso, ele
quis dizer que novas espécies têm surgido durante o longo curso da história
da Terra por um processo natural que chamou de “descendência com modi­
28 DARWIN na banca das réus

ficação”. A segunda proposição foi que esse processo evolutivo pode ser es­
tendido para explicar toda ou quase toda diversidade da vida, porque todas as
coisas vivas descenderam de um pequeno número de ancestrais comuns, tal­
vez um único ancestral microscópico. A terceira proposição, e a mais distinta
de todas do darwinismo, foi que esse vasto processo foi guiado pela seleção
natural ou “a sobrevivência do mais apto”, uma força guiadora tão eficaz que
podia realizar prodígios de habilidade biológica que as pessoas em épocas
anteriores pensaram que requeria a mão guiadora de um criador.1A evidência
para essa terceira proposição é o assunto deste capítulo.
A questão não é se a seleção natural ocorre. É lógico que se dá, e tem
um efeito em manter o bem-estar genético de uma população. Bebês com
severos defeitos de nascimento não sobrevivem à maturidade sem o auxílio
de caríssimo cuidado médico, e as criaturas que não sobrevivem para se re­
produzir não deixam descendentes. Esses efeitos são inquestionáveis, mas o
darwinismo afirma muito mais do que simplesmente que as espécies evitam a
deterioração genética em razão do enfraquecimento natural entre os de modo
genético incapazes. Os darwinistas afirmam que essa mesma força de enfra­
quecimento tem um efeito de construção tão poderoso que pode iniciar com
uma célula bacteriana e de modo gradual construir seus descendentes ao lon­
go de bilhões de anos a fim de produzir tais maravilhas como árvores, flores,
formigas, aves e seres humanos. Como sabemos que tudo isto é possível?
A evolução darwinista postula dois elementos. O primeiro é o que Darwin
chamou de “variação”, e que os atuais cientistas chamam de mutação.12 As
mutações são mudanças genéticas ocorrendo de modo aleatório que, quase
sempre, são prejudiciais quando produzem efeitos bem grandes nos organis­
mos capazes de serem visíveis, mas que podem, de forma ocasional, melhorar
ligeiramente a habilidade de sobreviver e reproduzir. Os organismos no geral
produzem mais descendentes do que os que sobreviverão à maturidade, e dos

1Darwin não insistiu que toda a evolução ocorrera através da seleção natural, nem seus sucessores.
Ele escreveu no fim da introdução à primeira edição do Origem das Espécies (1859): “estou convencido
de que a seleção natural tem sido o principal, mas não o exclusivo meio de modificação” e, mais tarde,
das “constantes deturpações” que haviam ignorado essa qualificação. Por outro lado, Darwin foi vago
sobre a importância das alternativas, uma das quais foi a das “variações que nos parecem, em nossa igno­
rância, surgir espontaneamente”. Os neodarwinistas contemporâneos também praticam uma flexibilidade
taticamente vantajosa quanto à freqüência e à importância da evolução não-seletiva. Stephen Jay Gould
escreveu que essa imprecisão “impõe grande frustração sobre quem descrevesse a síntese moderna a fim
de criticá-la”, e estou certo que cada crítico compartilha a frustração. Os leitores, portanto, devem ficar,
prevenidos quanto a aceitar sem questionar as afirmações das autoridades neodarwinistas de que algum
critico não entendeu ou descaracterizou a teoria deles.
2 “Mutação”, conforme usada aqui, é um rótulo simples para um grupo de mecanismos que provê a va­
riação genética sobre a qual a seleção natural pode trabalhar. O grupo inclui mutações, duplicação cromossô-
mica, duplicação gênica e recombinação. O ponto essencial é que as variações são tidas como supostamente
aleatórias. A evolução criativa seria muito mais fácil de visualizar se alguma força guiadora fizesse com que
as mutações certas chegassem a tempo. A teoria genética ortodoxa insiste que não existe tal principio guiador
de mutação, assim, as criaturas têm de se virar com o que a natureza cega provê sem planejar.
A seleção natural 29
^4 .
descendentes possuidores de uma vantagem desse tipo se espera a produção
de mais descendentes, se tudo permanecer idêntico, do que os membros me­
nos avantajados da espécie. Na medida em que o diferencial de sobrevivência
continua, a característica por fim se espalha através da espécie, e pode se
tomar a base para mais melhoras cumulativas em sucessivas gerações. Dan­
do-se suficiente tempo, e suficientes mutações do tipo certo, órgãos extrema­
mente complexos e padrões de comportamento adaptivos podem assim ser
produzidos em pequenas etapas cumulativas, sem a assistência de qualquer
inteligência preexistente.
Isso é, tudo isso pode ocorrer se a teoria for verdadeira. Darwin não
podia apontar para exemplos fortes, impressionantes de seleção natural em
ação, e assim teve de confiar excessivamente em um argumento de analo­
gia. Nas palavras de Douglas Futuyma:

Quando Darwin escreveu Origem das Espécies ele não podia oferecer
bons casos de seleção natural porque ninguém havia procurado por
eles. Elaborou, em vez disso, uma analogia com a seleção artificial que
os criadores de animais e plantas usam para melhorar as variedades
domesticadas de animais e plantas. Ao cruzar somente com base nas
ovelhas mais lanosas, as galinhas mais férteis, e assim por diante, os
criadores têm sido espetacularmente bem-sucedidos em alterar quase
todas as características imagináveis de nossos animais e plantas do­
mésticos a ponto de a maioria deles diferir de seus ancestrais selva­
gens muito mais do que as espécies relacionadas diferem deles.

A analogia da seleção artificial é enganadora. Os criadores de plantas


e animais empregam a inteligência e o conhecimento especializado para
selecionar a linhagem de cruzamento e protegem seus resultados dos peri­
gos naturais. O ponto principal da teoria de Darwin, contudo, foi o de es­
tabelecer que processos naturais sem propósitos podem substituir o design
inteligente. Que ele tenha feito aquele ponto principal citando os feitos de
designers inteligentes prova somente que a audiência receptiva de sua teo­
ria era acrítica em sua plenitude.
A seleção artificial não é de forma básica o mesmo tipo de coisa como a
seleção natural, mas antes é algo fundamentalmente diferente. Os criado­
res humanos produzem variações entre ovelhas e pombos para propósitos
ausentes na natureza, incluindo o mero prazer de ver quanta variação pode
ser obtida. Se os criadores estivessem interessados somente em ter ani­
mais capazes de sobreviver na floresta, os extremos de variação não exis­
tiriam. Quando os animais domésticos retomam ao estado selvagem, os
cruzamentos superespecializados perecem rapidamente e os sobreviventes
revertem ao tipo selvagem original. A seleção natural é uma força conser­
3D DARWIN na banca das réus

vadora que previne o surgimento de extremos de variação que os criadores


humanos gostam de encorajar.
O que a seleção natural mostra na verdade é que há limites definidos
à quantidade de variação que até os mais altamente habilidosos criadores
podem alcançar. O cruzamento de animais não tem produzido novas espé­
cies, no sentido comumente aceito de novas comunidades cruzadoras que
são inférteis guando cruzadas com o grupo parental. Por exemplo, todos os
cães formam uma única espécie porque são de maneira química capazes de
intercruzamento, embora a desigualdade de tamanho em alguns casos toma
a cópula natural impraticável. O eminente zoólogo francês Pierre Grassé
conclui que os resultados da seleção artificial fornecem poderoso testemu­
nho contra a teoria de Darwin:

A despeito da intensa pressão gerada pela seleção artificial (elimi­


nando qualquer progenitor que não responda ao critério de escolha)
ao longo de um milênio, nenhuma nova espécie é formada. Um estu­
do comparativo dos soros, das hemoglobinas, das proteínas do san­
gue, da interfertilidade, etc., prova que as variedades permanecem
dentro da mesma definição específica. Isso não é uma questão de
opinião ou classificação subjetiva, mas uma realidade mensurável.
O fato é que a seleção dá forma tangível e reúne simultaneamente
todas as variedades que um genoma é capaz de produzir, mas não se
consliuii em um processo evolutivo inovador.

Em outras palavras, a razão pela qual os cães não ficam tão grandes
como os elefantes, muito menos se transformam em elefantes, não é pelo
fato que não os temos cruzados há muito tempo. Os cães não têm a capaci­
dade genética para aquele grau de mudança, e eles param de crescer quando
o limite genético é atingido.
Os darwinistas discordam daquele juízo, e têm alguns pontos impor­
tantes a destacar. Salientam com orgulho as experiências laboratoriais com
as moscas-das-frutas.3 Essas experiências não têm produzido nada a não
ser moscas-das-frutas, mas elas têm produzido mudanças em grande número
de características. Plantas híbridas têm sido desenvolvidas que podem cruzar
uma com a outra, mas não com as espécies parentais, e que por isso satisfa­
zem o padrão aceito de novas espécies. Quanto aos animais, os darwinistas
atribuem a inabilidade de se produzir novas espécies a uma falta de tempo
suficiente. Os humanos vêm cruzando cães somente por alguns milhares de
anos, mas a natureza tem milhões e até centenas de milhões de anos à sua
disposição. Em alguns casos, existe a evidência convincente circunstancial de

3N. do T.: São as famosas Drosophila melanogaster, também conhecidas como moscas-das-frutas.
A seleção natural 31

a evolução ter produzido novas espécies na natureza. Os exemplos familiares


incluem centenas de espécies de mosca-das-frutas no Havaí e as famosas
variações entre os “Tentilhões de Darwin ” das ilhas Galápagos.
A disponibilidade de tempo inquestionavelmente precisa ser considerada
na avaliação dos resultados das experiências de cruzamento, mas também é
possível que quanto mais tempo disponível a natureza dispuser, pode ser mais
do que contrabalançado pelo poder do propósito inteligente que é levado a
fruir na seleção artificial. Com respeito às famosas experiências com as mos-
cas-das-frutas, por exemplo, Grassé salientou que “a mosca-das-frutas (.Droso­
phila melanogaster), o bichinho de estimação favorito dos geneticistas, cujos
genótipos geográficos, biotrópicos, urbanos e rurais são hoje bem conhecidos,
parece não ter mudado desde os tempos mais remotos”. A natureza tem tido
bastante tempo, mas não faz o que os pesquisadores vêm fazendo.
A falta de tempo seria uma desculpa razoável se não houvesse outro
fator conhecido limitando a mudança que pode ser produzida pela seleção,
mas na verdade a mudança seletiva é limitada pela variabilidade inerente
no pool genético. Após um número de gerações, a capacidade para as varia­
ções se esgota. Pode, concebivelmente, ser renovado pela mutação, mas se
(e quão freqüente) isso ocorre não é conhecido.
Se a seleção alguma vez efetivou a especiação não é o caso. Uma espécie
é somente um grupo capaz de intercruzamento. O sucesso na divisão de uma
população de moscas-das-frutas em duas ou mais populações separadas que
não podem cruzar entre si não se constituiria em evidência que um processo
semelhante poderia no tempo produzir uma mosca-das-frutas de uma bactéria.
Se os criadores tiverem êxito um dia produzindo um grupo de cães que possa
se reproduzir entre si exceto com outros cães, ainda teriam apenas realizado o
passo menor possível para provar as importantes reivindicações darwinistas.
Que a analogia da seleção artificial é defeituosa não significa, neces­
sariamente, que a teoria de Darwin esteja errada, e sim que teremos de
procurar por evidências mais diretas a fim de verificar se a seleção natural
tem um efeito criativo. Antes de considerar o que os darwinistas têm sido
capazes de sugerir, contudo, precisamos perguntar se a evidência é necessá­
ria. Por mais estranho que possa parecer, há muitas declarações na literatura
darwinista para que a validade da teoria possa ser demonstrada simples­
mente como questão de lógica.

A seleção natural cqitio tautologia


Muitos dos mais eminentes neodarwinistas têm escrito de vez em quando
que a seleção natural é uma tautologia, um jeito de dizer a mesma coisa duas
vezes. Nessa formulação a teoria prediz que os organismos aptos produzirão
32 DARWIN no banco dos réus

mais descendência, e define os organismos mais aptos como os que produ­


zem mais descendência. É importante documentar esse ponto, porque muitos
darwinistas convenceram a si mesmos que a idéia de tautologia é um mal-en­
tendido introduzido na literatura pelos criacionistas e outros críticos que nada
entendem. Mas aqui estão alguns exemplos coletados por Norman Macbeth:

J. B. S. Haldane (1935): “... a frase, ‘sobrevivência do mais apto’ é


algo parecido a uma tautologia. Assim a maioria dos teoremas mate­
máticos. Não há nenhum mal dizer a verdade em dois modos”.

Emst Mayr (1963): “... aqueles indivíduos que têm mais descendên­
cia são, por definição,... os mais aptos”.

George Gaylord Simpson (1964): “A seleção natural favorece a apti­


dão somente se você defini-la como sendo deixar mais descendentes.
Na verdade, os geneticistas a definem daquela maneira, que pode ser
confusa para os outros. Para um geneticista, a aptidão não tem nada
a ver com a saúde, o vigor, a boa aparência ou qualquer coisa, mas
sucesso na procriação”.

A explicação de Simpson já citada indica por que não é fácil formular


a teoria da seleção natural a não ser como uma tautologia. Pode parecer
óbvio, por exemplo, que é vantajoso para um cavalo garanhão ser capaz de
correr velozmente, mas pelo sentido darwiniano isso somente será verdade
até onde o cavalo garanhão mais veloz procrie mais descendência. Se maio­
res velocidades levam a quedas mais freqüentes, ou se os cavalos garanhões
mais velozes tenderem a passar na frente das éguas e perderem a oportuni­
dade de reprodução, então a melhora pode não ser vantajosa.
Quase que qualquer característica pode ser vantajosa ou não, depen­
dendo das condições do ambiente circundante. A habilidade de voar parece
ser, obviamente, uma vantagem? Darwin aventou a hipótese de a seleção
natural ter causado a perda da habilidade de voar nos besouros da Ilha da
Madeira, porque os besouros capazes de voar tendiam a ser soprados para
o mar. O grande cérebro humano requer um grande crânio que provoca
desconforto e perigo à mãe no parto. Presumimos que o tamanho de nosso
cérebro seja vantajoso porque os humanos civilizados dominam o planeta,
mas está muito além do óbvio que o crânio grande foi uma vantagem final
nas circunstâncias nas quais o cérebro supostamente evoluiu. Entre os pri­
matas em geral, aqueles com o maior dos cérebros não são os que estão em
menor perigo de extinção.
Em todos esses casos, podemos presumir uma característica ser vanta­
josa porque a espécie que a tem parece crescer, mas na maioria dos casos é
 seleção natural

impossível identificar a vantagem independentemente do resultado. É por


isso que Simpson foi tão insistente em que a “vantagem” não tem significa­
do inerente a não ser sucesso existente de reprodução. Tudo o que podemos
dizer é que os indivíduos que produzem mais descendência devem ter tido
as qualidades requeridas para produzir mais descendência.
O famoso filósofo de ciência Karl Popper escreveu certa vez que o
darwinismo não é realmente uma teoria científica porque a seleção natural
é uma explicação para todos os propósitos que pode explicar qualquer coi­
sa, e que por isso não explica nada. Popper recuou desse posicionamento
após ter sido “sitiado” por protestos de darwinistas indignados, mas ele
tinha bastante razão para ter essa posição. Como escreveu em sua própria
defesa: “Alguns dos maiores darwinistas contemporâneos formulam a te­
oria de tal modo que equivale à tautologia dos organismos que deixam
mais descendência deixam mais descendência”, citando Fisher, Haldane,
Simpson “e outros”. Um dos outros era C. H. Waddington, cuja tentativa
de fazer sentido da questão merece ser preservada para a posteridade:

A maior contribuição de Darwin foi, certamente, a sugestão de que a


evolução pode ser explicada pela seleção natural de variações aleató­
rias. A seleção natural, que a princípio foi considerada como se fosse
uma hipótese que precisava de confirmações experimentais ou observa­
cionais, numa inspeção mais minuciosa resulta ser em uma tautologia,
uma afirmação de relação inevitável, mas previamente não reconheci­
da. Afirma que os indivíduos mais aptos em uma população (definidos
como os que deixam mais descendência) deixarão mais descendência.
Esse fato de modo algum reduz a magnitude do feito de Darwin. So­
mente depois que foi claramente formulado, os biólogos puderam per­
ceber o enorme poder do princípio como uma arma de explanação.

Aquela não foi uma declaração impensada, mas um juízo ponderado pu­
blicado em um artigo apresentado à grande convocação na Universidade de
Chicago, em 1959, celebrando o centenário da publicação do Origem das
Espécies. Aparentemente, nenhuma das distintas autoridades presentes dis­
se a Waddington que uma tautologia não explica nada. Quando quero saber
como um peixe pode se tomar em um ser humano, não sou bem esclarecido
ao ser informado que os organismos que deixam mais descendentes são os
que deixam mais descendentes.
Não é difícil entender como notáveis darwinistas foram induzidos na
formulação da seleção natural como uma tautologia. A síntese neodarwi-
nista contemporânea surgiu da genética populacional, uma área embasa-
da em matemática e interessada em demonstrar quão rapidamente muitas
pequenas vantagens mutacionais podem se espalhar em uma população.
34 DARWIN no banco dos réus

As vantagens em questão eram suposições em um teorema, não eram qua­


lidades observadas na natureza, e os matemáticos tenderam naturalmente
em considerá-las como “o que foi que causou o organismo e seus des­
cendentes a produzirem mais descendência do que outros membros da
espécie”. Esse tipo de pensamento se espalhou entre os zoólogos e pale­
ontólogos que julgaram conveniente presumir que a sua teoria orientadora
era simplesmente verdade por definição. Enquanto seus críticos externos
não prestavam atenção, o absurdo da formulação tautológica não se en­
contrava em perigo de ser exposto.
O que aconteceu para mudar essa situação foi que o comentário de
Popper recebeu bastante publicidade, e os criacionistas e outros críti­
cos hostis começaram a citá-lo para apoiar o argumento deles de que o
darwinismo não é realmente uma teoria científica. Os próprios darwi-
nistas tomaram conhecimento de uma situação perigosa, e depois dis­
so os críticos que levantassem essa afirmação de tautologia eram com
firmeza informados que simplesmente demonstravam sua incapacidade
em compreender o darwinismo. Como veremos em capítulos posteriores,
contudo, na prática a seleção natural continua sendo empregada na sua
formulação tautológica.
Se o conceito de seleção fosse decerto apenas uma tautologia eu poderia
encerrar o capítulo nesse ponto, porque um pedaço de repetição vazia ob­
viamente não tem o poder de guiar um processo evolucionário na sua longa
jornada desde a primeira macromolécula replicadora até aos seres humanos
modernos. Mas, embora a seleção natural possa ser formulada como uma
tautologia, e com freqüência tem sido formulada, ela também pode ser for­
mulada de outros modos que não podem ser facilmente desconsiderados.
Precisamos continuar considerando essas outras possibilidades.

A seleção natural como um argum ento dedutivo


Os visitantes do Museu de História Natural Britânico facilmente encon­
trarão à venda um manual do museu sobre evolução, escrito pelo paleontó­
logo Colin Patterson. Quando considera o status científico do darwinismo,
Patterson escreve que a teoria pode ser apresentada na forma de um argu­
mento dedutivo, por exemplo:1

1. Todos os organismos devem reproduzir.


2. Todos os organismos exibem variações hereditárias.
3. As variações hereditárias diferem no seu efeito na reprodução.
4. Portanto, as variações com efeitos favoráveis na reprodução terão êxito,
aquelas com efeitos desfavoráveis falharão, e os organismos mudarão.
A seleção natural 35

Patterson observa que o teorema estabelece somente que alguma se­


leção natural ocorrerá, não que seja a explicação geral da evolução. Na
verdade, o teorema nem estabelece que organismos mudarão. A amplitu­
de das variações hereditárias pode ser estreita, e as variações que sobre­
vivem podem ser apenas favoráveis o suficiente para manter a espécie
como ela é. É provável que as espécies mudariam muito mais (na direção
de uma eventual extinção) se os indivíduos menos favorecidos tivessem
mais êxito em reproduzir sua espécie. Que o efeito da seleção natural seja
o de evitar que uma espécie mude não é meramente uma possibilidade
teórica. Como veremos no Capítulo 4, a característica predominante das
espécies fossilizadas é estase - a ausência de mudança. Há numerosos
“fósseis vivos” que são idênticos hoje quanto foram há milhões de anos,
pelo menos até onde podemos determinar.
Patterson não é o único evolucionista que considera a seleção natural
como assunto de lógica dedutiva, embora a maioria que tem usado essa
formulação tem considerado a teoria de modo mais elevado do que ele apa­
renta fazer. Por exemplo, o pesquisador da origem da vida A. G. Caims-
Smith empregou a formulação silogística (substancialmente como o pró­
prio Darwin declarou) para explicar como organismos complexos podem
evoluir de organismos muito simples:

Darwin nos persuade que a construção aparentemente intencional das


coisas vivas pode com muita freqüência, e talvez sempre, ser atribuída
à operação da seleção natural. Se você tiver coisas que reproduzem o
seu tipo; se algumas vezes há variações, todavia, ao acaso na descen­
dência; se tais variações podem ser herdadas; se algumas dessas varia­
ções podem algumas vezes conferir uma vantagem aos seus possuido­
res; se há competição entre as entidades reprodutoras; —se há excesso
de produção de modo que nem todos serão capazes de produzir des­
cendência — então essas entidades se darão melhor na reprodução do
seu tipo. A natureza age como um criador seletivo nessas circunstân­
cias: a linhagem não pode fazer outra coisa a não ser mudar.

Na verdade, a linhagem tem freqüentemente maior sucesso em resistir à


mudança, muitas vezes por milhões de anos, por isso deve haver algo erra­
do com a lógica. Dessa vez é a confusão gerada pela palavra “vantagem”.
No sentido darwinista apropriado, vantagem, como George Gaylord Simp-
son explicou para nós, não significa melhora como nós humanos avaliamos.
Formigas e bactérias são tão avantajadas como somos, julgadas pelo critério
exclusivo de sucesso na reprodução. Em qualquer população alguns indiví­
duos deixarão mais descendência do que os outros, mesmo que a população
não esteja mudando ou indo diretamente para a extinção.
36 DARWIN no banco dos réus

A seleção natural coma uma hipótese científica


Até aqui, temos apresentado algumas das simples falácias para limpar
a área das distrações, mas agora nós chegamos à categoria importante que
merece nosso mais respeitoso escrutínio. Estou certo de que hoje em dia a
maioria dos cientistas evolucionistas insistiria que a seleção natural darwi-
nista é uma hipótese científica que tem sido amplamente testada e confirma­
da pela evidência que deveria ser aceita pelas pessoas racionais como uma
explicação presumivelmente adequada da evolução das formas complexas
de vida. A hipótese, para ser preciso, é que a seleção natural (combinada
com a mutação) é um processo evolutivo inovador capaz de produzir novos
tipos de órgão e organismo. Isso nos leva à pergunta crítica: qual evidência
confirma que essa hipótese é verdadeira?
Douglas Futuyma tem feito o melhor trabalho em apresentar essa evi­
dência, e aqui estão alguns exemplos que ele fornece de observações que
confirmam a eficácia criativa da seleção natural:

1. As bactérias naturalmente desenvolvem resistência aos antibióticos,


e os insetos de pragas se tomam resistentes aos inseticidas por causa
do diferencial de sobrevivência das formas mutantes possuidoras da
vantagem de resistência.
2. Em 1898, uma severa tempestade em Massachusetts, nos Estados
Unidos, deixou centenas de pássaros mortos e à morte na sua passa­
gem. Alguém levou 136 pardais exaustos para um cientista chamado
Bumpus, imagino para que ele cuidasse deles, mas Bumpus era de
natureza dura e matou os sobreviventes para medir seus esqueletos.
Ele descobriu que entre os pardais machos houve maior sobrevivên­
cia entre os animais maiores do que entre os menores, muito embora
o diferencial de tamanho fosse relativamente pequeno.
3. Uma seca nas ilhas Galápagos em 1977 provocou a escassez de
pequenas sementes das quais os tentilhões se alimentavam. Conse-
qüentemente, esses pássaros tiveram de comer sementes maiores,
que gerlmente ignoram. Após uma geração houve tanta mortalidade
entre os pequenos tentilhões, já que não podiam comer com facili­
dade as sementes maiores, que o tamanho médio dos pássaros (e em
especial seu bico) aumentou consideravelmente. Futuyma comen­
ta: “Muito possivelmente os pássaros vão evoluir de volta ao seu
estado anterior se o ambiente voltar ao normal,4 mas podemos ver

4 De fato, foi justamente isso que aconteceu. O artigo “Oscillating Selection on Darwin’s Finches” de
Gibbs e Grant [Nature, vol. 327, p. 511, 1987] relata que os adultos pequenos sobreviveram muito melhor
do que os maiores após o ano chuvoso de 1982-1983, revertendo por completo a tendência de 1977-1982.
A seleção natural 37

nesse exemplo o que aconteceria se os pássaros fossem forçados a


viver num ambiente constantemente seco: eles evoluiriam a uma
adaptação permanente a qualquer tipo de semente que estivesse dis­
ponível com freqüência. Isso é a seleção natural em ação, e não é
uma questão de acaso”.
4. O alelo (estado genético) responsável pela anemia falciforme em
populações africanas também está associado com uma característica
que confere resistência à malária. Os indivíduos totalmente livres do
alelo da anemia falciforme sofrem de alta mortalidade por malária,
e os indivíduos que herdam o alelo da anemia falciforme dos proge­
nitores tendem a morrer mais cedo de anemia. As chances de sobre­
vivência são maiores quando o indivíduo herda o alelo da anemia
falciforme de um progenitor, mas não do outro, c assim a caracterís­
tica não é eliminada da população. Futuyma comenta que o exemplo
demonstra que a seleção natural não somente é eficaz, mas também
“um processo mecânico insensível”.
5. Populações de ratos têm sido observadas deixando de reproduzir e de
se extinguir quando são temporariamente “inundadas” pelo espalhar
de um gene que causa esterilidade nos machos.
6. Finalmente, Futuyma resume as famosas observações de Kettlewell
sobre o “melanismo industrial” nas mariposas. Quando as árvores
foram escurecidas pela poluição industrial, as mariposas escuras
(melânicas) tornaram-se abundantes porque os predadores tinham
dificuldade em vê-las contra os troncos das árvores. Quando as ár­
vores se tornaram mais claras graças à redução da poluição do ar,
as mariposas mais claras tiveram a vantagem. As observações de
Kettlewell demonstraram em detalhe como a cor predominante das
mariposas mudou com a cor predominante das árvores. Comenta­
ristas subseqüentes observaram que o exemplo demonstra estabi­
lidade bem como mudança cíclica dentro de um limite, porque a
habilidade da espécie em sobreviver em um ambiente de mudança
é aumentada se mantiver em todo o tempo um estoque tanto de
mariposas claras como de mariposas escuras. Se a variedade clara
tivesse desaparecido durante os anos de árvores de troncos escuros,
a espécie teria sido ameaçada com extinção quando os troncos das
árvores ficassem claros.

Há alguns outros exemplos no capítulo de Futuyma, mas creio que fo­


ram usados como ilustrações para demonstrar como o darwinismo explica
certas anomalias como o comportamento de auto-sacrifício e a cauda do
pavão em vez de exemplos adicionais de observações confirmando o efeito
DARWIN no banco dos réus

da seleção natural em produzir mudança. Se tomarmos esses seis exemplos


como as melhores evidências observacionais da seleção natural disponí­
veis, podemos tirar duas conclusões:

1. Não há razão para se duvidar que circunstâncias peculiares podem, algu­


mas vezes, favorecer bactérias resistentes a drogas, ou pássaros grandes
em relação aos pequenos, ou mariposas escuras em relação às claras.
Em tais circunstâncias, a população de bactérias sensíveis às drogas, de
pequenos pássaros e de mariposas claras pode se tomar reduzida por
algum período ou enquanto as circunstâncias prevalecerem.
2. Nenhuma das “provas” provê qualquer razão persuasiva para acredi­
tar que a seleção natural pode produzir novas espécies, novos órgãos,
quaisquer outras grandes mudanças ou até menores mudanças que
sejam permanentes. O caso do alelo da anemia falciforme, por exem­
plo, demonstra que em circunstâncias especiais uma característica
aparentemente não vantajosa não pode ser eliminada da população.
Que os pássaros maiores têm uma vantagem sobre os menores em
ventos altos ou secas não tem nenhuma tendência seja lá qual for
em provar que fatores semelhantes deram, antes de tudo, origem aos
pássaros. É bem provável, os pássaros menores têm a vantagem em
outras circunstâncias, o que explica por que eles não continuam a se
tomar cada vez maiores.

Pierre Grassé não ficou impressionado com esse tipo de evidência assim
como eu não fiquei, e resumiu suas conclusões no fim de seu capítulo sobre
a evolução e a seleção natural:

A “evolução em ação” de J. Huxley e outros biólogos é simplesmente


a observação de fatos demográficos, flutuação local de genótipos, dis­
tribuições geográficas. Com muita freqüência as espécies em questão
têm permanecido praticamente inalteradas por centenas de séculos!
Flutuação como um resultado de circunstâncias, com a modificação
prévia do genoma, não implica evolução, e temos prova tangível dis­
so em muitas espécies pancrônicas [i.e. fósseis vivos que permane­
cem inalterados por milhões de anos]...

Essa conclusão parece tão obviamente correta que levanta outro pro­
blema. Por que outras pessoas, incluindo especialistas cuja inteligência e
integridade intelectual respeito, consideram que a evidência das flutuações
da população local confirma a hipótese de que a seleção natural tem a capa­
cidade de elaborar prodígios da engenharia, de construir maravilhas como
/A A seleção natural 39

o olho e a asa? Quem estuda a evolução sabe que o experimento das mari­
posas [Bisíon beiularia\ de Kettlewell é a demonstração clássica do poder
da seleção natural, e que os darwinistas tiveram de esperar quase um século
para ver essa modesta confirmação de sua doutrina central.5 Quem estuda
a experiência sabe que ela não tem nada a ver com a origem de quaisquer
espécies ou mesmo de qualquer variedade, porque as mariposas escuras e
claras já estavam presentes durante a experiência. Somente as proporções
de uma variedade em relação à outra é que mudaram. Como pessoas inteli­
gentes têm sido tão crédulas em imaginar que a experiência de Kettlewell
de algum modo apoiou as reivindicações ambiciosas do darwinismo? Para
responder essa questão precisamos considerar uma quarta maneira de como
se pode formular a seleção natural.

A seleção natural coma uma necessidade filosófica


A Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos informou à Su­
prema Corte desse país que a característica mais básica da ciência é a “con­
fiança em explicações naturalistas”, oposta aos “meios sobrenaturais ina­
cessíveis ao entendimento humano”. Na última categoria, a inaceitável, os
cientistas contemporâneos colocam não somente Deus, mas também qual­
quer força vital imaterial que por suposição guia a evolução na direção de
complexidade muito maior de consciência ou de qualquer outra coisa. Se a
ciência deve ter alguma explicação para a complexidade biológica, de al­
gum modo terá de lidar com o que resta quando a categoria inaceitável tiver
sido excluída. A seleção natural é a melhor das alternativas remanescentes,
provavelmente a única alternativa.
Nessa situação alguns podem decidir que o darwinismo simplesmente
deve ser verdadeiro, e para tais pessoas o propósito de quaisquer investi­
gações será meramente explicar como a seleção natural opera e resolve os
mistérios criados pelas aparentes anomalias. Para eles não há necessidade
de se testar a teoria em si, pois não há nenhuma teoria respeitável contra
a qual testá-la. Quaisquer pessoas que digam que a teoria em si tem um
apoio inadequado podem ser derrotadas pela pergunta que o “Buldogue de
Darwin”, T. H. Huxley, costumava perguntar aos que duvidavam na época
de Darwin; Qual é sua alternativa?
Não penso que muitos cientistas se sentiriam confortáveis aceitando o
darwinismo somente como um princípio filosófico, sem procurar achar,
pelo menos, alguma evidência empírica de que ele é verdadeiro. Mas há
uma importante diferença entre ir à evidência empírica a fim de testar uma

5 N. do T.: Veja crítica de Jonathan Wells, Ph.D. em Biologia Molecular, no artigo Haeckel 's Embryos
andEvoíution: Seííing theRecordStraight, AMERICAN BIOLOGY TEACHER 61:345, 345-49, 1999,
40 DARWIN na banca das raus

teoria duvidosa contra alguma alternativa plausível, e ir à evidência a fim


de procurar a confirmação da única teoria que alguém quer tolerar. Já vimos
que eminentes cientistas têm aceito acriticamente a questionável analogia
entre a seleção natural e a seleção artificial, e que eles com muita freqüência
não ficaram perturbados pelas falácias das formulações de “tautologia” e
de “lógica dedutiva”. Tal ilógica sobreviveu e reproduziu a si mesma pela
mesma razão que uma espécie aparentemente incompetente algumas vezes
evita a extinção: não havia competição eficaz no seu nicho ecológico.
Se não for exigida a confirmação positiva do poder criativo da seleção
natural, haverá pouco perigo da teoria ser refutada por evidência negativa.
Os darwinistas desenvolveram uma série de conceitos subsidiários capazes
de fornecer uma explicação plausível sobre qualquer eventualidade con­
cebível. Por exemplo, os fósseis vivos, que têm permanecido basicamente
imutáveis há milhões de anos enquanto seus primos por suposição estariam
evoluindo em criaturas mais avançadas como os seres humanos, não são ne­
nhuma dificuldade para os darwinistas. Eles não conseguiram evoluir por­
que as mutações necessárias não chegaram, ou por causa das “limitações
no desenvolvimento”, ou porque já estavam adequadamente adaptados aos
seus ambientes. Resumindo, não evoluíram porque não evoluíram.
Alguns animais dão sinais de alerta com a aproximação de predadores,
aparentemente reduzindo a própria segurança deles em favor dos outros no
rebanho. Como a seleção natural encoraja a evolução de uma característica
para o auto-sacrifício? Alguns darwinistas atribuem a aparente anomalia à
“seleção grupai”. As nações humanas se beneficiariam se dispusessem de
indivíduos desejosos de morrer em batalha por seu país, e do mesmo modo
os grupos animais contendo indivíduos auto-sacrificáveis podem ter uma
vantagem sobre grupos compostos exclusivamente de indivíduos egoístas.
Outros darwinistas são zombadores da seleção grupai e preferem ex­
plicar o altruísmo na base da “seleção de parentesco”. Sacrificando-se a si
mesmo a fim de preservar sua descendência ou parentes próximos, um indi­
víduo promove a sobrevivência de seus genes. A seleção pode, então, ope­
rar em termos genéticos a fim de encorajar a perpetuação das combinações
genéticas que produzem indivíduos capazes de comportamento altruísta.
Ao moverem o foco da seleção ou para cima (para o nível grupai) ou para
baixo (para o nível genético), os darwinistas podem facilmente explicar as
características que parecem contradizer a hipótese da seleção natural em
termos individual ou de organismo.
Potencialmente a ferramenta explicativa mais poderosa em toda a arma­
dura darwinista é a pleiotropia, o fato de um único gene ter múltiplos efeitos.
Isso significa que qualquer mutação que afete uma característica funcional
seja capaz também de mudar outras funções, e se é ou não vantajosa depende
A seleção natural 41

do efeito total. As características que à primeira vista pareçam ser mal adapta­
das podem, portanto, ser ligadas geneticamente a características mais favorá­
veis, e a seleção natural pode ser creditada em preservar o pacote.
Não dou a entender que haja algo inerentemente absurdo em invocar a
pleiotropia, ou a seleção de parentesco, ou das limitações de desenvolvi­
mento para explicar por que anomalias aparentes não são necessariamente
inconsistentes com o darwinismo. Se presumirmos que o darwinismo seja
basicamente verdadeiro, então é bastante razoável ajustar a teoria quanto for
necessário a fim de conformá-la aos fatos observados. O problema é que os
planos de ajuste são tão flexíveis que, combinados, dificultam a concepção
de uma maneira para se testar empiricamente as afirmações do darwinis­
mo. Aparentemente as características mal adaptadas podem ser atribuídas à
pleiotropia, ou à nossa incapacidade em perceber que a vantagem possa es­
tar lá, ou quando tudo mais falha simplesmente atribuir ao “acaso”. Darwin
escreveu que “se se pudesse provar que alguma parte da estrutura de uma
das espécies se tivesse formada para o bem exclusivo de outra, minha teoria
ruiria por terra, pois tal modificação não poderia ser decorrente da seleção
natural”. Mas esse é o mesmo Darwin que insistira nunca ter asseverado
que a seleção natural era o mecanismo exclusivo de evolução.
Um conceito subsidiário importante - seleção sexual - ilustra a habilida­
de dos darwinistas em incorporar em sua teoria exemplos recalcitrantes. A
seleção sexual é um componente relativamente mínimo na teoria darwinista
atual, mas para Darwin era quase tão importante quanto a própria seleção
natural. (O segundo livro clássico de Darwin, The Descent o f Man,6é princi­
palmente um tratado de seleção sexual.) O mais famoso exemplo de seleção
sexual é a cauda espalhafatosa do pavão, que é, obviamente, um estorvo
quando a ave tenta escapar de um predador. Contudo, a cauda é estimulante
às pavoas, e assim sua existência aumenta as possibilidades em produzir
descendência ainda que diminua sua expectativa de vida.
A explicação até aqui é razoável, até aprazível, mas o que considero in­
trigante é que os darwinistas não ficam preocupados pela inconveniência do
gosto sexual da pavoa. Por que a seleção natural, que supostamente formou
todas as aves de ancestrais inferiores, produziria uma espécie cujas fêmeas
sentem ardor sexual pelos machos que dispõem de decorações que ameaçam
a vida? A pavoa deveria ter desenvolvido uma preferência pelos machos com
garras afiadas e asas poderosas. Talvez o gosto por caudas esteja genetica­
mente associado com alguma característica vital como ovos de cascas duras,
mas então por que e como a seleção natural encorajou tal vínculo genético ab­
surdo? Todavia, Douglas Futuyma audaciosamente proclama o pavão como
um problema não para os darwinistas, mas para os criacionistas:

6 N. do T.: “A descendência do homem” .


42 DARWIN no bancados réus

Os cientistas da criação supõem realmente que o Criador deles consi­


derou adequado criar uma ave que não podia se reproduzir sem 1,80
metro de penas volumosas que a tomam presa fácil para os leopardos?

Não sei o que os cientistas da criação podem supor, mas me parece que o
pavão e a pavoa são exatamente o tipo de criação que um Criador capricho­
so poderia favorecer, mas que um “processo mecânico que não se importa”,
tipo a seleção natural, não permitiria se desenvolver.
O que vemos no comentário de Futuyma sobre o pavão é o princípio
do debate de que a melhor defesa é um bom ataque, mas também estamos
vendo a influência de um preconceito filosófico cegando um darwinista in­
teligente para a existência de um contra-exemplo. Julian Huxley escreveu
certa vez que “a improbabilidade deve ser esperada como um resultado
da seleção natural; e temos o paradoxo de uma aparente improbabilidade
excessivamente alta nos seus resultados poder ser considerada como evi­
dência do alto grau de sua eficácia”. Nesta base, a teoria não tem nada a
temer da evidência.
A seleção natural é o mais famoso elemento no darwinismo, mas não é
necessariamente o mais importante elemento. A seleção meramente preser­
va ou destrói algo que já existe. A mutação tem de fornecer as inovações
favoráveis antes que a seleção natural possa reter ou encorajá-las. Isso nos
leva para nosso próximo assunto, que exige um capítulo à parte.
Capítula 3

Mutações grandes
e pequenas
“evolução” é um conceito amplo o bastante para incluir qualquer alter­

A nativa à criação instantânea, e assim não é surpreendente que pensadores


tenham especulado sobre a evolução desde tempos imemoriais. A contri­
buição extraordinária de Charles Darwin foi descrever um mecanismo plausí­
vel, através do qual as transformações necessárias poderiam ocorrer, um me­
canismo que não necessitasse da direção divina, de forças vitais misteriosas,
ou quaisquer outras causas presentemente não operantes no mundo. Darwin
estava em particular ansioso para evitar a necessidade de quaisquer “saltos” -
pulos súbitos pelos quais novo tipo de organismo surge numa única geração.
Os saltos (ou macromutações sistêmicas, como são com freqüência chama­
das hoje em dia) são tidos como teoricamente impossíveis para a maioria dos
cientistas, e por boa razão. As criaturas vivas são a reunião extremamente
intrincada de partes inter-relacionadas, e as partes em si mesmas são também
complexas. É impossível imaginar como as partes poderiam mudar de manei­
ra harmoniosa como um resultado de mutação aleatória.
Resumindo (palavra de Darwin), um salto é equivalente a um milagre.
Na posição extrema, o saltacionismo é virtualmente indistinguível da cria­
ção especial. Se um ovo de cobra chocasse e surgisse um rato, poderíamos
com igual justiça classificar o evento como um caso de evolução ou de cria­
ção. Mesmo o súbito surgimento de um só órgão complexo, tal qual o olho
44 DARWIN no banco dos réus

ou a asa, implicaria intervenção sobrenatural. Darwin rejeitou com ênfase


qualquer teoria evolucionista desse tipo, escrevendo a Charles Lyell que

Se eu fosse convencido de que necessitaria de tais adições à teoria da


seleção natural, eu a rejeitaria como tola. Não daria nada pela teoria
da seleção natural, se ela exigisse adições milagrosas em qualquer
etapa de descendência.

Darwin pretendeu fazer com a biologia o que Lyell fizera com a geolo­
gia: explicar as grandes mudanças através de princípios uniformitaristas e
naturalistas, significando com isto a operação gradual de forças naturais fa­
miliares durante longos períodos que ainda podemos ver operando no pre­
sente. Ele compreendeu que a característica distintiva de sua teoria era seu
materialismo filosófico não comprometedor, que a fazia verdadeiramente
científica no sentido que não invocava forças místicas ou sobrenaturais que
são inacessíveis à investigação científica. Para alcançar uma teoria materia­
lista em sua plenitude Darwin tinha de explicar cada característica comple­
xa ou grande transformação como o produto cumulativo de muitos passos
pequenos. Nas suas próprias palavras eloqüentes:

A seleção natural pode agir só pela preservação e acúmulo de infini­


tamente pequenas modificações herdadas, cada uma benéfica ao ser
preservado; e assim como a geologia moderna tem quase banido tais
pontos de vista como a escavação de um grande vale por uma única
onda diluviana, assim a seleção natural, se for um princípio verda­
deiro, banirá a crença da criação contínua de novos seres orgânicos
ou de qualquer grande e súbita modificação nas suas estruturas.

Thomas H. Huxley protestou contra esse gradualismo dogmático desde


o início, advertindo a Darwin numa famosa carta que “você se sobrecarre­
gou com uma dificuldade desnecessária ao adotar o natura nonfacií salíum1
tão sem reservas”. A dificuldade era absolutamente desnecessária, conside-
rando-se o propósito de Darwin, mas era bastante real. Mais tarde o maior
de todos os problemas foi o registro fóssil, que não fornecia evidência das
muitas formas transicionais que a teoria de Darwin exigia terem existido.
Darwin deu a resposta óbvia, argumentando que faltava evidência pelo fato
de o registro fóssil ser incompleto. Naquela ocasião, isso era uma possibili­
dade razoável, e convenientemente livre de prova em contrário. Retomare­
mos a este assunto no próximo capítulo.

1N. do T.: A expressão latina significa “a natureza não dá saltos”.


Mutações grandes e pequenas 45

A dificuldade que exercia mais pressão era teórica. Muitos órgãos exi­
gem uma intrincada combinação de partes complexas para realizar suas
funções. O olho e a asa são as ilustrações mais comuns, mas seria enganoso
dar a impressão de que cada um seja um caso especial. Os corpos humanos
e dos animais estão, com exatidão, recheados de semelhantes maravilhas.
Como podem tais coisas serem construídas por “infinitamente pequenas
variações herdadas, cada uma delas benéfica para o ser preservado?” O pri­
meiro passo para nova função - tal como a visão ou a habilidade de voar -
não forneceria, necessariamente, qualquer vantagem a menos que as outras
partes exigidas para a função aparecessem ao mesmo tempo. Como uma
analogia, imagine um alquimista medieval produzindo por acaso um micro-
chip de silício, Na ausência de uma tecnologia de suporte computacional a
prodigiosa invenção seria inútil e ele a jogaria fora.
Stephen Jay Gould fez a si mesmo “a excelente pergunta - Qual é o bene­
fício de 5% de um olho?”, e especulou que as primeiras partes do olho podem
ter sido benéficas para algo que não a visão. Richard Dawkins respondeu que

Um animal antigo com 5% de um olho pode, sem dúvida, tê-lo usa­


do para algo que não a visão, mas me parece que provavelmente o
usou para 5% de visão. E na verdade eu não penso que isso seja uma
excelente pergunta. Uma visão que seja 5% tão boa quanto a sua ou
a minha é muito melhor de ter em comparação a visão nenhuma.
Assim, 1 por cento de visão é melhor do que cegueira total. E 6% é
melhor do que 5%, 7% é melhor do que 6%, e assim ascendendo às
séries contínuas e graduais.

A falácia daquele argumento é que “5% de um olho” não é a mesma coisa


que “5% de visão normal”. Para que um animal tenha uma visão plenamente
útil, muitas partes complexas devem funcionar juntas. Até um olho completo
é inútil a menos que pertença a uma criatura com a capacidade mental e neu­
rológica de utilizar a informação fazendo algo que aumente a sobrevivência
ou a reprodução. O que temos de imaginar é uma mutação aleatória que for­
neça essa capacidade complexa toda de uma vez, em um nível útil o suficien­
te para conceder à criatura uma vantagem em produzir descendência.
Dawkins prosseguiu em reafirmar a resposta de Darwin ao enigma do
olho, salientando que há uma série plausível de designs de olhos interme­
diários entre os animais vivos. Alguns animais unicelulares têm um ponto
fotossensível com uma pequena tela de pigmento atrás, e em alguns animais
multicelulares uma disposição semelhante é disposta numa taça, que con­
cede uma capacidade aperfeiçoada de localizar direções. O náutilo antigo
[molusco cefalópode marinho] tem um olho tipo orifício sem lentes, os
46 DARWIN riQ banco dos réus
.K
olhos da lula adicionam as lentes, e assim por diante. Contudo, nenhum
desses tipos diferentes de olho é tido como tendo evoluído de quaisquer
outros, porque eles envolvem vários tipos de estrutura em vez de uma série
de estruturas semelhantes aumentando em complexidade.
Se o olho evoluiu, evoluiu muitas vezes. Emst Mayr escreveu que o olho
deve ter evoluído independentemente pelo menos 40 vezes, uma circuns­
tância que lhe sugere que “um órgão por extremo complicado pode evo­
luir de forma repetida e convergentemente quando vantajoso, desde que tal
evolução seja plenamente provável”. Mas então por que as muitas formas
de olho primitivo que ainda estão conosco nunca evoluem em formas mais
adiantadas? Dawkins admite estar confundido pelo náutilo, que nas suas
centenas de milhões de anos de existência nunca desenvolveu uma lente
para seu olho, apesar de possuir uma retina que “praticamente clama por
(esta) simples mudança particular”.2
A asa, que existe em muitas formas em insetos, aves e morcegos, é o
outro enigma mais citado com mais freqüência. A primeira “modificação
herdada infinitamente pequena” direcionada na construção da asa conferi­
ria uma vantagem seletiva? Dawkins acha que conferiria, porque até uma
pequena prega de pele ou membrana interdigital pode ajudar uma criatura a
pular mais longe, ou impedir que quebre seu pescoço numa queda. Por fim,
tal proto-asa pôde se desenvolver a um ponto em que a criatura começaria
a planar, e através de melhorias graduais se tomaria capaz de vôo genuíno.
O que esse cenário imaginativo negligencia é que os membros evoluindo
provavelmente se tomariam desajeitados para subir ou pegar muito antes de
se tomarem muito úteis para planar, colocando assim a hipotética criatura
intermediária numa séria desvantagem.
Há boa discussão cética do problema da asa das aves no capítulo 9 do
livro de Denton - Evolution: A Theory in Crisis? Denton descreve a pena
das aves primorosamente funcional, com seus ganchos interconectados e
outras características complexas que a fazem adequada para o vôo e muito
diferente de qualquer outra forma de pena usada apenas para aquecimento.
As penas das aves devem ter evoluído das escamas dos répteis se o darwi-
nismo for verdadeiro, mas, novamente, os elos intermediários são difíceis
de serem imaginados. Ainda mais difícil é o problema apresentado pelo
pulmão característico das aves, que é muito diferente em estrutura do que
qualquer outro ancestral evolutivo concebível. De acordo com Denton,
2
Antes de deixarmos o assunto do olho, devo acrescentar que os darwinistas citam as imperfeições no
olho como evidência de que não foi planejado por um criador onisciente. De acordo com Dawkins, as fotocé-
lulas são “instaladas para trás”, e que “qualquer engenheiro bem habilidoso” não teria sido tão desleixado.
•5
N. do T.: “Evolução: uma teoria em crise” foi o livro que mais influenciou os teóricos e defensores
do Design Inteligente e outros críticos do darwinismo.
Mutações grandes e pequenas 47

Como tal sistema respiratório pode ter evoluído de modo gradual de


um design vertebrado padrão é fantasticamente difícil de ser imagi­
nado, em especial tendo-se em mente que a manutenção da função
respiratória é absolutamente vital para a vida de um organismo a
ponto de o mínimo mau funcionamento levar à morte em questão
de minutos. Assim como a pena não pode funcionar como um órgão
de vôo até que os ganchos e as bárbulas estejam co-adaptados e se
encaixem com perfeição, assim o pulmão da ave não pode funcionar
como um órgão de respiração até que o sistema parabrônquico que o
permeia e o sistema de sacos aéreos que garantem o suprimento de
ar aos parabrônquios estejam ambos muito desenvolvidos e capazes
de funcionar juntos de modo perfeitamente integrado.

Considerar plausível os cenários gradualistas no desenvolvimento de


sistemas complexos envolve um elemento de juízo subjetivo. Contudo, é
uma questão de fato objetivo que aqueles cenários são especulações. As
asas das aves e dos morcegos aparecem no registro fóssil já desenvolvidas,
e ninguém jamais confirmou por experimentação que a evolução gradual de
asas e olhos seja possível. Essa ausência de confirmação histórica ou expe­
rimental é, presumivelmente, o que Gould tinha em mente quando escreveu
que “essas estórias, que começam com ‘era uma vez’ na tradição da história
natural evolutiva, não provam nada”. Lidamos aqui com ciência ou versões
racionais das fábulas de Kipling?
Darwin escreveu que “se se pudesse demonstrar a existência de algum
órgão complexo que não pudesse de maneira alguma ser formado através
de modificações ligeiras, sucessivas e numerosas, minha teoria ruiria in­
teiramente por terra”. Determinado cientista eminente da metade do sé­
culo XX que concluiu que a teoria havia absolutamente “ruído por terra”
foi o geneticista germano-americano, professor Richard Goldschmidt, da
Universidade da Califórnia, em Berkeley. Goldschmidt lançou um famoso
desafio aos neodarwinistas, relacionando uma série de estruturas comple­
xas de pêlo mamífero à hemoglobina que ele considerava não podiam ter
sido produzidas pelo acúmulo e a seleção de pequenas mutações. Como
Pierre Grassé, Goldschmidt concluiu que a evolução darwiniana somente
podia ser responsável pelas variações dentro dos limites das espécies. Di­
ferente de Grassé, ele pensou que a evolução além daquele ponto deve ter
ocorrido em saltos singulares através das macromutações. Ele reconheceu
que em quase todos os casos as mutações de grande escala produziam
monstros mal adaptados, sem nenhuma esperança, mas pensava que em
ocasiões raras um acidente fortuito poderia produzir um “monstro espe­
rançoso”, um membro de uma nova espécie com a capacidade de sobrevi­
ver e propagar (mas com qual parceira?).
48 DARWIN nn banco dos raus
=K
Os darwinistas reagiram a essa fantástica sugestão com selvagem ridicu­
larização. Como Goldschmidt mesmo descreve, “desta vez, eu não somente
era doido, mas quase um criminoso”. Gould até comparou o tratamento dado
a Goldschmidt com “os 2 minutos de ódio” diários dirigidos a “Emmanuel
Goldstein, inimigo do povo” no livro 1984, de George Orwell. O veneno é
explicado pelo vínculo emocional que os darwinistas têm pela teoria, mas a
ridicularização tinha uma base científica correta. Se Goldschmidt realmente
quis dizer que todas as partes complexas inter-relacionadas de um animal
pudessem ser juntamente reformadas em uma só geração por uma macromu-
tação sistêmica, ele postulava um milagre virtual que não tinha base nem na
teoria genética nem na evidência experimental. As mutações são considera­
das originárias de erros aleatórios na cópia de comandos do código genético
do DNA. Supor que tal evento aleatório pudesse reconstruir até mesmo um
único órgão complexo, como o fígado ou o rim, é tão aceitável quanto supor
que um relógio melhorado pudesse ter sido criado se lançando um velho
relógio contra uma parede. As macromutações adaptadoras são impossíveis,
dizem os darwinistas, em especial se exigidas em qualquer quantidade, e
assim todos aqueles órgãos complexos devem ter evoluído - muitas vezes
independentemente - pela acumulação seletiva das micromutações durante
longo período.
Mas agora precisamos lidar com outra falácia, e uma que é supre­
mamente importante. Que a evolução por macroevolução é impossível
não prova que a evolução por microevolução seja provável ou até mesmo
possível. É provável que o gradualismo darwinista seja estatisticamen­
te tão improvável quanto o saltacionismo de Goldschmidt, uma vez que
concedamos a atenção adequada a todos os elementos necessários. As
micromutações vantajosas postuladas pela genética neodarwinista são pe­
queninas, no geral pequenas demais para serem notadas. Essa premissa é
importante porque, nas palavras de Richard Dawkins, “virtualmente todas
as mutações estudadas nos laboratórios - que são bem macros porque do
contrário os geneticistas não as notariam - são deletérias aos animais que
as possuem”. Mas se as mutações necessárias são pequenas demais para
serem vistas, deverá haver grande número delas (milhões?), do tipo certo,
vindas juntas, quando necessárias, no desenvolvimento do projeto de lon­
go alcance na produção de um órgão complexo.
A probabilidade da evolução darwinista depende da quantidade de micro­
mutações favoráveis exigidas na criação de órgãos e organismos complexos,
da freqüência com que tais micromutações favoráveis ocorrem somente onde
e quando são necessárias, da eficiência da seleção natural em preservar os
pequenos aperfeiçoamentos com a consistência suficiente em permitir que os
benefícios se acumulem, e do tempo permitido pelo registro fóssil para que
Mutaçfles grandes e pequenas 43

tudo isso tenha ocorrido. A menos que calculemos levando em conta todos
esses fatores, não temos como saber se a evolução por micromutação é mais
ou menos improvável do que a evolução por macromutação.
Alguns matemáticos tentaram calcular, e o resultado foi um confron­
to de certo modo áspero entre eles e alguns dos darwinistas eminentes no
Wistar Institute na Filadélfia, em 1967. O relatório do debate é fascinan­
te, não somente por causa da substância dq desafio matemático, mas ainda
mais por causa da lógica da resposta darwinista. Por exemplo, o matemá­
tico D. S. Ulam argumentou que era altamente improvável que um olho
pudesse ter evoluído através da acumulação de pequenas mutações, porque
o número de mutações teria de ser muito grande e o tempo disponível não
era suficientemente longo para que surgissem. Sir Peter Medawar e C. H.
Waddington responderam que Ulam fazia ciência ao contrário; o fato era
que o olho havia evoluído, e por isso as dificuldades matemáticas seriam
apenas aparentes. Emst Mayr observou que os cálculos de Ulam foram ba­
seados em suposições que podiam ser infundadas, e concluiu que “de algum
modo, ou ajustando-se os resultados, nós todos nos sairemos bem. Ficamos
confortados pelo fato de que a evolução ocorreu”. Os darwinistas tentavam
ser racionais, mas era como se Ulam tivesse apresentado equações provan­
do que a gravidade é uma força demasiadamente fraca em nos impedir de
flutuar no espaço. O darwinismo para eles não era uma teoria passível de
refutação, mas um fato a ser explicado, pelo menos até que os matemáticos
pudessem elaborar uma alternativa aceitável. O debate se tomou em particu­
lar inflamado depois que o matemático francês Schützenberger concluiu que
“há uma considerável lacuna na teoria da evolução neodarwinista, e cremos
que essa lacuna é de tal natureza que não pode ser preenchida dentro da atual
concepção biológica”. C. H. Waddington pensou que percebera onde esse
raciocínio iria dar, e replicou que “seu argumento é simplesmente que a vida
deve ter surgido por criação especial”. Schützenberger e vozes anônimas da
audiência bradaram “não!”, mas na verdade os matemáticos não apresenta­
ram uma alternativa.
As dificuldades tanto com a teoria micromutacional como com a macro-
mutacional são tão grandes que podemos esperar algum esforço sendo feito
para se chegar a meio-termo que minimize as desvantagens de ambos extre­
mos. Stephen Jay Gould tentou algo desse tipo, tanto no seu artigo científi­
co de 1980, propondo “uma nova teoria geral”, como no seu artigo popular
"The Return o f the Hopeful Monster”. Gould tentou reabilitar Goldschmidt
enquanto domesticava o monstro dele. Goldschmidt não quis decerto dizer
que “novas espécies surgem de uma vez, plenamente formadas, por uma
macromutação afortunada” explicou Gould, e o que ele quis dizer pode ser
reconciliado com “a essência do darwinismo”.
50 DARWIN na banca das réus

Vamos supor que uma mudança descontínua na forma adulta surja


através de uma pequena alteração genética. Problemas de discordân­
cia com outros membros da espécie não surgem, e a variante grande
e favorável pode se esparramar por uma população no modo darwi-
nista. Vamos supor também que essa grande mudança não produ­
za de uma vez uma forma aperfeiçoada, mas antes sirva como uma
adaptação-“chave” para mudar seu possuidor para novo modo de
vida. O sucesso contínuo nesse novo modo pode exigir grande gru­
po de alterações colaterais, morfológicas e de comportamento. Estas
podem surgir por uma rota mais tradicional e gradual, uma vez que a
chave de adaptação força profunda mudança nas pressões seletivas.

Temos de fazer todas essas suposições, de acordo com Gould, porque é


difícil demais “inventar uma seqüência razoável de formas intermediárias -
isto é, organismos viáveis e funcionais - entre ancestrais e descendentes nas
principais transições estruturais”. No fim teremos de aceitar “muitos casos de
transição descontínua em macroevolução”. Esse tipo de pequena alteração ge­
nética que Gould tinha em mente (e afirmara que Goldschmidt também tivera)
era uma mutação no gene regulando o desenvolvimento do embrião, na teoria
que “pequenas mudanças iniciais em embriologia se acumulam ao longo do
crescimento para produzirem diferenças profundas entre os adultos”. Na verda­
de, elas precisam fazer isso, porque do contrário Gould não poderia ver outro
modo como as principais transições evolutivas poderiam ter sido realizadas.
Gould publicou importante artigo na publicação científica Paleobiolo-
gy que expressava seu apoio a Goldschmidt ainda mais explicitamente, e
no qual pronunciava a morte efetiva da síntese neodarwinista. No lugar da
ortodoxia morta, ele saudava como “o exemplo perfeito e a fundação de
posições emergentes em especiação”, uma passagem de Goldschmidt que
insistia que “a evolução neodarwinista... é um processo que leva à diver­
sificação estritamente dentro da espécie... O passo decisivo em evolução,
o primeiro passo em macroevolução, o passo de uma espécie para outra
requer outro método evolutivo além da pura acumulação de micromuta-
ções”. Com respeito à evolução de órgãos complexos, Gould não admitiu a
confiança na “origem saltacionista de novos designs inteiros”, mas propôs
em vez disso “uma origem saltacionista potencial para as características
essenciais de adaptações-chave”. Resumindo, tentou fazer a distinção da
diferença entre o darwinismo e o goldschmidtismo.
E assim o monstro esperançoso voltou, mas suas esperanças foram logo
desapontadas mais uma vez. Emst Mayr, o mais prestigiado dos neodarwi-
nistas atualmente vivos, escreveu que Gould havia deturpado por completo
a teoria de Goldschmidt ao negar que ele advogara impossíveis macromuta-
ções sistêmicas em uma única geração. “Na verdade, é isso que Goldschmidt
Mutaçfles grandes e pequenas 51

repetidamente sustentara. Por exemplo, ele citou com aprovação a suges­


tão de Schindewolf4 de que a primeira ave nascera de um ovo de réptil...”
Mayr considerou que algumas mutações com efeitos de larga escala podem
ser possíveis,5 mas ele não pode encontrar evidência de que algum grande
número delas havia ocorrido, e ele percebeu que não havia necessidade de
se invocá-las porque considerou os mecanismos do neodarwinismo sendo
capazes de explicar a emergência de novidades evolutivas.
Richard Dawkins escreveu zombando de Goldschmidt no seu livro The
Blind Watchmaker. “O problema de Goldschmidt... não é nenhum proble­
ma”, porque não há dificuldade verdadeira em justificar o desenvolvimento
de estruturas complexas pela evolução gradualista. O que Dawkins parece
querer dizer com essa afirmação é que a evolução passo a passo de sistemas
adaptados complexos é uma possibilidade conceituai, não que haja algum
modo em provar que na verdade ela ocorra. Ele usa o morcego, com seu
maravilhoso sistema de ecolocalização tipo sonar, que tanto parece o produ­
to de uma sociedade tecnológica avançada, como o exemplo paradigmático
de como a seleção natural pode explicar o desenvolvimento de um sistema
complexo que poderia, de outra maneira, ser tomado como evidência para a
existência de “relojoeiro” criador. Dawkins está certo ao argumentar que se
a evolução darwinista pode elaborar um morcego, ela pode fazer qualquer
coisa, mas o que ele negligencia em fazer é provar que a evolução darwinis­
ta possa fazer qualquer coisa do tipo. É concebível que o sonar do morcego
evoluiu por algum processo passo a passo, no qual a primeira indicação de
uma habilidade de localizar por eco foi de tal valor para seu possuidor que
tudo o mais tinha de se seguir, mas como sabemos que tal coisa já aconte­
ceu, ou poderia ter acontecido?
A despeito de seu rígido apoio ao gradualismo darwinista, até Dawkins
considera impossível prosseguir sem o que possa ser chamado de modestas
macromutações, referindo-se a mutações que “embora possam ser grandes
na magnitude de seus efeitos, resultem não tão grandes em termos de sua
complexidade”. Ele usa como exemplo as cobras, alguns exemplos contem­
porâneos dos quais há mais vértebras do que seus presumidos ancestrais.
O número de vértebras tem de ser modificado totalmente nas unidades, e

4 Otto Schindewolf foi um eminente paleontólogo a quem encontraremos no próximo capítulo.


5 O debate sobre macromutações tem se preocupado principalmente com o reino animal, mas é
sabido que um tipo especial de macromutação, chamada de poliploidia, pode produzir novas espécies
de planta. Esse fenômeno, que envolve a duplicação dos números de cromossomos, pode ocorrer de
duas maneiras: (1) autopoliploidia que diz respeito somente a espécies hermafroditas capazes de auto-
fertilização, e (2) alopoliploidia, que pode ocorrer como um resultado de hibridização de duas espécies
diferentes. O último processo é tido como tendo desempenhado um importante papel evolutivo só para
as plantas, embora não esteja totalmente ausente no reino animal. De qualquer modo, a poliploidia não
explicaria a criação de estruturas adaptadas complexas, como as asas e os olhos.
52 DARWIN na banca das réus

para realizar isso “você precisa fazer mais do que somente introduzir um
osso extra”, porque cada vértebra tem associada a si um grupo de nervos,
vasos sanguíneos, músculos e assim por diante. Essas partes complicadas
teriam que aparecer todas juntas para que a vértebra extra tivesse algum
sentido biológico, mas “é fácil acreditar que algumas cobras com meia dú­
zia de vértebras a mais do que seus progenitores poderiam ter surgido num
único passo mutacional”. De acordo com Dawkins, isso é fácil de acreditar
porque a mutação somente adiciona mais do que já estava lá, e porque a
mudança parece ser macromutacional quando olhamos para o animal adul­
to. Num contexto embrionário, tais mudanças “revelam-se como micro-
mutações, no sentido que somente uma pequena mudança nas instruções
embrionárias teve grande efeito aparente no animal adulto”.
Gould supõe o que tem de supor, e Dawkins acha fácil acreditar o que
ele quer acreditar, mas supor e acreditar não bastam para se fazer uma ex­
planação científica. Há algum modo de se confirmar a hipótese de que as
mutações nos genes que regulam o desenvolvimento embrionário possam
fornecer o que for necessário para levar a evolução adiante das lacunas
intransponíveis? As criaturas que parecem diferentes quando adultas são
algumas vezes muito mais parecidas nos estágios embrionários iniciais, e
assim há certa plausibilidade quanto à noção de que uma simples mas bá­
sica mudança no programa genético regulando o desenvolvimento possa
induzir o embrião a se desenvolver numa direção incomum. A princípio,
esse é o tipo de mudança que podemos imaginar os engenheiros de genética
humana serem capazes de conduzir um dia, se esse ramo de ciência conti­
nuar a avançar no futuro como tem avançado no passado recente.
Vamos supor que, seguindo a enorme programa de pesquisa, os cien­
tistas consigam alterar o programa genético de um embrião de peixe a fim
de que se desenvolva em um anfíbio. Esse hipotético triunfo da engenharia
genética confirmaria que os anfíbios evoluíram de verdade, ou que pelo
menos poderiam ter evoluído de modo semelhante?
Não, não confirmaria, porque Gould e os demais que postulam macromu-
tações de desenvolvimento falam de mudanças aleatórias e não de mudanças
minuciosamente planejadas por inteligência humana (ou divina). Uma mu­
dança aleatória no programa que comanda meu processador de texto poderia
facilmente transformar este capítulo em um amontoado de palavras ininte­
ligíveis, mas não traduziria o capítulo em uma língua estrangeira, ou pro­
duziria um capítulo coerente sobre outro assunto. O que os proponentes de
macromutações no desenvolvimento embrionário precisam estabelecer não
é meramente (ou simplesmente) que haja um programa genético alterável
governando o desenvolvimento, mas que importantes inovações evolutivas
possam ser produzidas pelas mudanças aleatórias nas instruções genéticas.
A Mutações g ra n d e s e pequenas 53

A suposição dominante na ciência evolucionista parece ser que as pos­


sibilidades especulativas, sem confirmação experimental, é tudo o que é
realmente necessário. O princípio em ação é o mesmo que Waddington,
Medawar e Mayr invocaram quando desafiados pelos matemáticos. A natu­
reza deve ter fornecido o que a evolução precisava ter tido, porque de outro
modo a evolução não teria ocorrido. Daí que se a evolução precisou de
macromutações, então as macromutações devem ser possíveis, ou se as ma-
cromutações são impossíveis, então a evolução não deve tê-las requerido. A
teoria mesmo fornece qualquer evidência de apoio que seja essencial.
Se os darwinistas estiverem totalmente desconfortáveis com essa situ­
ação (na verdade, a maioria deles não parece estar), os antidarwinistas não
estão em melhor situação. O grande geneticista Goldschmidt foi reduzido
a endossar uma impossibilidade genética, e o grande zoólogo Grassé não
pode fazer melhor do que sugerir que as espécies em evolução de algum
modo obtinham novo suprimento de informação genética em razão de
“fatores internos” obscuros envolvendo “um fenômeno cujo equivalente
não pode ser visto nas criaturas atualmente vivas (ou porque não está
lá ou porque somos incapazes de vê-lo)”. Grassé está ciente de que tal
discurso “levanta suspeitas de muitos biólogos... [porque] evoca visões
do fantasma do vitalismo ou de algum poder místico que guia o destino
das coisas vivas...”. Repetidamente negou que tivera qualquer coisa desse
tipo na mente, mas as suspeitas de vitalismo uma vez despertadas não são
facilmente exorcizadas por simples negativas.
Podemos ver nesses exemplos por que o neodarwinismo retém seu
status como ortodoxia nos livros-texto a despeito de todas as dificulda­
des e até a imputação de ser moribundo. Se o gradualismo neodarwinista
fosse abandonado como incapaz de explicar os saltos macroevolutivos e
a origem dos órgãos complexos, a maioria dos biólogos ainda continuaria
acreditando na evolução (Goldschmidt e Grassé nunca duvidaram que a
evolução tinha ocorrido), mas eles não teriam uma teoria da evolução. Os
cientistas materialistas demonstram muito desdém por criacionistas que
evocam um criador invisível que empregou poderes sobrenaturais que não
podem ser observados operando em nossos dias. Se a ciência evolutiva ti­
vesse de confiar em forças místicas orientadoras ou sobre transformações
genéticas impossíveis, um materialista filosófico como Charles Darwin
chamaria isso de asneira.
Até agora tenho evitado discutir o registro fóssil a fim de me concentrar
nas dificuldades teóricas e experimentais que rodeiam a reinante síntese
neodarwinista. Mas quanto à história, a evolução está lá embaixo; tenta nos
dizer o que aconteceu no passado. Sobre aquele assunto, os fósseis são nos­
sa evidência mais direta, e é para eles que em seguida nos dirigimos.
Capítula 4

D problema do
registro fóssil
oje é amplamente presumido que a existência de restos fossilizados de nu­

H merosas espécies extintas implique necessariamente evolução, e a maioria


das pessoas não sabe que os mais impressionantes oponentes de Darwin
não foram os líderes religiosos, mas especialistas em fósseis. No começo do
século 19, a teoria geológica aceita era o “catastrofismo” defendido pelo grande
cientista francês Cuvier, o pai da paleontologia. Cuvier acreditava que o re­
gistro fóssil mostrava um padrão de eventos catastróficos envolvendo grandes
extinções, que eram seguidos de períodos de criação nos quais novas formas de
vida surgiam sem qualquer traço de desenvolvimento evolutivo.
No tempo de Darwin, o catastrofismo de Cuvier era suplantado pela
geologia uniformitarista defendida por Charles Lyell, o amigo mais velho
de Darwin, que explicava os feitos naturais espetaculares, como o resultado
não de cataclismos súbitos, mas do lento trabalho de forças diárias ao longo
do tempo extremamente imenso. Em retrospecto, uma teoria evolutiva do
tipo darwiniano parece quase uma extensão inevitável da lógica de Lyell,
mas o próprio Lyell tinha grandes dificuldades em aceitar a evolução bioló­
gica, como fizeram outras pessoas que conheciam muito bem a evidência.
Notou-se cada uma das divisões do mundo biológico (reinos, filos, clas­
ses, ordens), conformada a um plano estrutural básico, com muito poucos ti­
pos intermediários. Onde estavam os elos entre esses grupos descontínuos?
0 problema do registro fóssil 55
A
A ausência de intermediários transicionais incomodava até o leal defensor
T. H. Huxley, que advertiu Darwin diversas vezes, em particular que uma
teoria consistente com a evidência teria de permitir alguns grandes saltos.
Darwin mesmo se perguntou:

Já que as espécies descendem de outras, tendo-se afastado das ascen­


dentes de maneira gradual e imperceptível, por que não se encontram
numerosas formas de transição pelo mundo afora? Por que não se
apresenta toda a natureza como uma grande confusão de espécies,
em vez de ser assim como a vemos, ou seja, com as espécies muito
bem definidas?

Ele respondeu com uma teoria de extinção que era a réplica lógica da “so­
brevivência do mais apto”. O surgimento de uma forma melhorada implica
desvantagem para seus progenitores. Assim, “se considerarmos cada espécie
descendente de alguma outra forma desconhecida, tantos os progenitores e to­
das as variedades transicionais terão sido no geral exterminadas pelo próprio
processo de formação e perfeição da nova forma”. Essa exterminação por obso­
lescência implica que os surgimentos serão contra uma teoria em nosso mundo
vivente, porque vemos espécies distintas e estáveis (e grupos muito maiores)
com somente raras formas intermediárias. Os elos entre os grupos descontínuos
que uma vez existiram desapareceram em razão de má adaptação.
E se os elos necessários estiverem faltando não apenas no mundo pre­
sente, mas também no registro fóssil do passado? Darwin reconheceu que
sua teoria implicava que “o número de elos intermediários e transicionais,
entre todas as espécies vivas e extintas, deve ter sido inconcebivelmen-
te grande”. Por isso, devemos supor que os geólogos deveriam de modo
contínuo descobrir evidências de fósseis de formas transicionais. Contudo,
nitidamente isso não tem sido o caso. O que os geólogos descobriram fo­
ram espécies, e grupos de espécies, que apareceram de súbito em vez de
surgirem no fim de uma corrente de elos evolutivos. Darwin reconheceu
que o estado da evidência dos fósseis era “a mais óbvia e grave objeção que
possa ser levantada contra minha teoria”, e que era responsável pelo fato
de “os mais eminentes paleontólogos... assim como nossos maiores geólo­
gos... [defenderem] de maneira unânime, se não mesmo veementemente, o
princípio da imutabilidade das espécies”.
Darwin argumentou com eloqüência que o problema do registro fóssil,
embora admitido como sério, não era fatal para sua teoria. Seu ponto prin­
cipal era que o registro fóssil é extremamente imperfeito. Os fósseis são
preservados somente em circunstâncias especiais, e assim as várias cama­
das fossilíferas do mundo refletem não um registro contínuo, mas quadros
5G DARWIN no banco dos réus

de períodos relativamente breves, separados uns dos outros por longos in­
tervalos. Além disso, podemos falhar em reconhecer as relações ancestrais-
descendentes nos fósseis mesmo se estivessem presentes. A menos que ti­
véssemos todos os elos intervenientes para mostrar as conexões entre si, as
duas formas podem parecer por inteiro distintas aos nossos olhos. As vezes
Darwin até parecia sugerir que a ausência de formas transicionais era, em si
mesma, uma prova da insuficiência do registro fóssil, como seria se alguém
tivesse conhecimento a priori de que sua teoria era verdadeira:

Mas acho que jamais teria sequer suspeitado da insuficiência que


apresentam os registros das mutações das formas da vida, mesmo nas
camadas geológicas mais bem preservadas, não fosse a importância
dada ao argumento contrário à minha teoria, segundo o qual seria vir­
tualmente impossível encontrar os numerosos elos de transição entre
as espécies surgidas no início e no fim de cada formação geológica.

Darwin lidou com o problema fóssil até onde os fatos desencoraj ado­
res permitiam, mas para algumas perguntas ele teve de responder de modo
franco que não podia “dar nenhuma resposta satisfatória”, e às vezes há
certa sugestão de desespero na sua escrita, como na frase seguinte: “Quase
se pode afirmar que a Natureza se preveniu contra a freqüente descoberta
de seus elos e formas transicionais”. Mas Darwin nunca perdeu a fé em sua
teoria, o único problema difícil era como explicar os aspectos nitidamente
desorientadores do registro fóssil.
A essa altura, peço ao leitor que pare comigo por um instante e considere
o que uma pessoa imparcial deveria ter pensado a respeito da controvérsia
sobre a evolução no período imediatamente subseqüente à publicação do
Origem das Espécies. A oposição à teoria de Darwin dificilmente poderia
ser atribuída a preconceito religioso quando os céticos eram formados pe­
los eminentes paleontólogos e geólogos da época. A defesa de Darwin da
teoria contra a evidência fóssil não foi irracional, mas o que importa foi sua
defesa. Muito possivelmente as camadas fossilíferas sejam meros instan­
tâneos de momentos no tempo geológico, com tempo e espaço suficientes
entre si para que bastante evolução aconteça nas lacunas. Todavia, uma
coisa é afirmar que há lacunas, e outra bem diferente é reivindicar o direito
de preencher as lacunas com a evidência exigida para sustentar a teoria de
alguém. Os argumentos de Darwin poderiam, no máximo, estabelecer que
o problema fóssil não era fatal. Eles não podiam transformar a ausência de
evidência confirmatória em uma vantagem.
Contudo, havia um modo de testar a teoria pela evidência dos fósseis,
se Darwin e seus discípulos quisessem realizar um teste. Darwin enfati-
57
A 0 problema do registro fóssil

zou que o número de intermediários transicionais deveria ter sido imenso,


até “inconcebível”. Talvez a evidência da existência deles faltasse porque
em 1859 somente uma parte das camadas fossilíferas do mundo havia
sido pesquisada, e porque os pesquisadores não soubessem o que procu­
rar. Entretanto, a partir do momento em que os paleontólogos aceitassem
o darwinismo como uma hipótese funcional, e explorassem muitas novas
camadas fossilíferas em um esforço de confirmar a teoria, essa situação
deveria mudar. Com o passar do tempo se esperaria que o registro fóssil
parecesse muito diferente e muito mais darwinista.
No entanto, o teste não seria satisfatório para os céticos, a menos que
também fosse possível para a teoria falhar. Imagine, por exemplo, que a
crença na teoria de Darwin fosse se espalhar através do mundo científico
com tal poder irresistível que muito rapidamente se tomasse uma ortodoxia.
Suponhamos que a tendência fosse tão irresistível que até o mais prestigia­
do dos cientistas - um Louis Agassiz,1de Harvard, por exemplo, imediata­
mente se tomasse um cientista decadente porque não aderiu ao movimento.
Imagine que os paleontólogos se tomassem tão comprometidos com o novo
modo de pensar que os estudos de fósseis seriam publicados apenas se eles
apoiassem a teoria, e que seriam descartados como fracassados se mos­
trassem uma ausência de mudança evolutiva. Como veremos, foi isso que
aconteceu. O darwinismo aparentemente passou no teste dos fósseis, mas
somente porque não foi permitido que falhasse.
A teoria de Darwin predisse que não somente os fósseis transicionais se­
riam encontrados, mas indicava que um registro fóssil verdadeiramente com­
pleto seria composto na maior parte de formas transicionais, e que o que pen­
samos como espécies fixas seriam reveladas como sendo meros pontos de
vista arbitrários em um processo de mudança contínua. O darwinismo também
indicou importante predição sobre a extinção, aquele corolário necessário para
a luta da sobrevivência. Darwin reconheceu que sua teoria exigia um padrão
de extinção até mais gradual do que o padrão de emergência evolutiva:

A velha noção de que todos os habitantes da Terra foram desaparecen­


do sucessivamente em decorrência de grandes cataclismos está sendo
abandonada por quase todos os estudiosos, mesmo por certos geólo­
gos... cujas idéias naturalmente poderiam levá-los a tal conclusão...
Há razões para se acreditar que a extinção completa de um grupo no
geral constitui um processo mais lento que o da sua produção. Se o
surgimento e o desaparecimento de um grupo de espécies forem re­

1 N. do T.: Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), geólogo e biólogo suíço naturalizado ame­
ricano, que introduziu a idéia da Idade do Gelo, um período em que camadas de gelo cobriram a maior
parte do Hemisfério Norte.
58 DARWIN no banco cIds téus

presentados, como antes, por uma linha vertical de espessura variável,


esta se afinará de maneira mais gradual na parte superior, que assinala
sua extinção, do que ma inferior, que representa seu surgimento e sua
difusão inicial. Em alguns casos, entretanto, a extinção de grupos in­
teiros de seres, como o dos amonites, que desapareceram quase que no
fim da Era Secundária, foi espantosamente repentina.

Extinções contínuas e graduais são uma conseqüência necessária da ad­


missão da hipótese de que as espécies ancestrais são constantemente suplan­
tadas por descendentes melhores adaptados. Suponhamos, contudo, que fosse
demonstrado que uma proporção substancial de extinções tivesse ocorrido ao
longo de algumas catástrofes globais, como as que foram provocadas pela co­
lisão de um cometa com a Terra ou alguma súbita mudança de temperatura.
Em tais catástrofes, a sobrevivência não estaria relacionada necessariamente à
aptidão em circunstâncias mais normais, e deveria ter sido por inteiro aleatória.
Por isso, o darwinismo poderia ser testado não somente pela busca de espécies
transicionais em camadas fossilíferas recém-descobertas, mas também pelo es­
tudo dos padrões das extinções para medir a importância das catástrofes.
A evolução triunfou durante a época de Darwin, embora sua oposição
ao saltacionismo tenha permanecido controversa em círculos científicos por
muito tempo à frente. A descoberta do Archaeopteryx - um pássaro antigo
com características surpreendentemente reptilianas - foi uma confirmação
fóssil suficiente em si mesmo para satisfazer a muitos. Daí em diante foi um
sucesso de fóssil aparente atrás do outro, com relatos de ancestrais huma­
nos, antigos répteis parecidos com mamíferos, uma boa seqüência na linha
evolutiva do cavalo, e assim por diante. A paleontologia se juntou à síntese
do neodarwinismo na obra de George Gaylord Simpson, que declarou que
Darwin havia sido confirmado pelos fósseis (uma declaração comunicada
a gerações de estudantes de Biologia como sendo um fato). O que Stephen
Jay Gould descreveu em 1980 como “o mais sofisticado dos modernos li­
vros-texto americanos de introdução à Biologia” endossava a teoria sintéti­
ca baseado na evidência dos fósseis:

[Pode] uma mudança evolutiva mais extensa, a macroevolução, ser


explicada como um resultado dessas modificações microevolutivas?
As aves realmente surgiram dos répteis pelo acúmulo de substituições
de genes do tipo ilustrado pelo gene da visão de coloração framboesa?
A resposta é que isso é inteiramente plausível, e ninguém tem sugeri­
do melhor explicação... O registro fóssil sugere que a macroevolução
é, sem dúvida, gradual, regulada em um ritmo que leva à conclusão
que ela é baseada em centenas ou milhares de substituições de genes
nada diferentes do tipo daquelas examinadas em nossas pesquisas.
^4 . D problema do registro fóssil 59

Mas aquela última sentença é falsa, e por muito tempo já é conhecida


pelos paleontólogos como sendo falsa.
O registro fóssil foi revisitado pelos idos de 1970 nos trabalhos de Stephen
Jay Gould, Niles Eldredge e Steven Stanley. Gould e Eldredge propuseram
nova teoria que eles chamaram de “equilíbrio pontuado” [em inglês punctua-
ted equilibrium -p u n k eek para os irreverentes, que pode ser livremente tra­
duzido por “temor das pessoas inúteis”], para lidar com um fato embaraçoso:
o registro fóssil atual na sua totalidade se parece muitíssimo com o registro
fóssil de 1859, apesar do fato de uma enorme quantidade de caça a fósseis ter
ocorrido nos anos seguintes. Nas palavras de Gould:

A história da maioria dos fósseis das espécies inclui duas caracterís­


ticas particularmente inconsistentes com o gradualismo:

1. Estase. A maioria das espécies não exibe mudança direcional du­


rante seu domínio na Terra. Elas aparecem no registro fóssil pa­
recendo muito igual do modo quando desaparecem; a mudança
morfológica é no geral limitada e sem direção.
2. Surgimento abrupto. Em qualquer área, uma espécie não surge de
modo gradual pela transformação constante de seus ancestrais;
ela aparece de uma vez e “totalmente formada”.

Resumindo, se a evolução significa a mudança gradual de um tipo de


organismo em outro tipo, a característica eminente do registro fóssil é a au­
sência de evidência a favor da evolução. Os darwinistas sempre podem ate­
nuar o surgimento súbito de novas espécies afirmando que, de algum modo,
as formas intermediárias transicionais não se fossilizaram. Mas a estase - a
consistente ausência de mudança direcional fundamental - é positivamente
documentada. E também a norma, não é a exceção.
De acordo com Steven Stanley, a Bacia do Bighom no Estado de Wyo-
ming, nos Estados Unidos, contém um registro contínuo local de sedimentos
fossilíferos de cerca de 5 milhões de anos, durante um período recente na
era dos mamíferos. Pelo fato desse registro fóssil ser tão completo, os pale­
ontólogos supuseram que certas populações da bacia poderiam ser reunidas
para ilustrar a evolução contínua. Pelo contrário, as espécies que antes fo­
ram tidas como se transformando em outras se revelaram sobrepondo-se no
tempo aos seus alegados descendentes, e “o registro fóssil não documenta
de maneira convincente uma única transição de uma espécie transforman-
do-se em outra”. Além disso, as espécies permanecem fundamentalmente
inalteradas em média mais de 1 milhão de anos antes de desaparecer do
registro fóssil. Stanley usa o exemplo do morcego e da baleia, que são tidos
como tendo evoluído de um ancestral mamífero comum em menos de 10
DARWIN na banca das réus is .
milhões de anos, para ilustrar o problema insuperável que a estase fóssil
causa ao gradualismo darwiniano:

Vamos supor que queremos, hipoteticamente, formar um morcego


ou uma baleia... [por] um processo de transformações graduais de
espécies estabelecidas. Se uma cronoespécie comum durar aproxi­
madamente 1 milhão de anos, ou até mais tempo, e tivermos à nossa
disposição somente 10 milhões de anos, então teremos somente dez
ou 15 cronoespécies2 para alinhar, de uma extremidade à outra, para
formar uma linhagem contínua conectando nosso pequeno primitivo
mamífero com um morcego ou com uma baleia. Isso é claramente
absurdo. As cronoespécies, por definição, graduam-se uma na outra,
e cada uma encerra muito pouca mudança. Uma corrente de dez ou
15 dessas podem nos mover de uma forma pequena de roedor para
uma levemente diferente, talvez representando um gênero, mas não
um morcego ou uma baleia.

Para prover mudança mais rápida, Stanley confia parcialmente na teoria


até aqui não testada de que as mutações aleatórias nos “genes reguladores”
podem alterar o programa para o desenvolvimento embrionário o suficiente
para produzir nova forma de vida em uma única geração. Se as macromu-
tações estão envolvidas ou não, o mais importante conceito de evolução
pelo equilíbrio pontuado, conforme desenvolvido por Gould e Eldredge, é
que a especiação (a formação de novas espécies) ocorre com rapidez,3 e em
pequenos grupos que estão isolados na periferia da área geográfica ocupada
pelas espécies ancestrais. As pressões seletivas podem ser particularmente
intensas em uma área onde os membros das espécies mal são capazes de
sobreviver, e as variações favoráveis podem se espalhar de modo relativa­
mente ligeiro através de uma população pequena e isolada. Por esse meio,
nova espécie pode surgir em uma área periférica sem deixar evidência fós­
sil. Porque os fósseis são, na maioria, derivados de grandes populações cen­
trais, uma nova espécie surgiria abruptamente no registro fóssil seguindo
sua migração dentro da área central do raio de ação ancestral.

2 No mundo vivo, as espécies são comunidades reprodutoras separadas que não cruzam entre si.
Porque não podemos determinar as capacidades de cruzamento de criaturas conhecidas somente pelos
fósseis, essas devem ser designadas como espécies pelas suas características visíveis. Uma “cronoes­
pécie” é um segmento de linhagem de fóssil julgada como tendo evoluído tão pouco nas características
observáveis que permaneceu como uma única espécie.
3
Termos como “rapidamente” nesta conexão se referem ao tempo geológico, e os leitores devem
ter em mente que 100 mil anos é um período breve para um geólogo. O repúdio enfático dos pontuacio-
nistas ao “gradualismo” é confuso, e tende a dar a impressão que eles advogam o saltacionismo. O que
parecem querer dizer é que a mudança evolutiva ocorre ao longo de muitas gerações pelo método de
passo a passo de Darwin, mas em um período geológico relativamente breve. Contudo, a ambigüidade
pode ser deliberada por razões que serão explicadas neste capítulo.
D problema do registro fóssil BI

O equilíbrio pontuado explica a predominância de estase no registro fóssil


ao associar a macroevolução com a especiação. Essa identificação é necessá­
ria, de acordo com Eldredge e Gould, porque numa grande população que se
cruza entre si algo chamado de “fluxo de genes” impede a evolução. O que
isso significa é simplesmente que o efeito das mutações favoráveis é diluído
pelo volume grande da população através da qual elas devem se espalhar.
Esse fator explica por que as espécies parecem tão imutáveis no registro fós­
sil: a população como um todo não está mudando. A importante mudança
evolutiva ocorre só entre os isolados da periferia, que se juntam de novo à
população ancestral estável “subitamente” após ter formado nova espécie.
A maioria dos biólogos evolucionistas não aceita a hipótese de Eldredge
e Gould de que a mudança evolutiva é estritamente associada com a espe­
ciação. Grande quantidade de variação pode ser obtida dentro de uma espé­
cie biológica (lembre-se daqueles cães), enquanto as espécies separadas são
com freqüência muito semelhantes em características visíveis. Portanto, a
especiação e a mudança em forma parecem ser fenômenos diferentes. Se a
diluição ou o “fluxo de genes” na realidade impede a mudança em grandes
populações é o assunto de uma disputa teórica aparentemente não solucio-
nável. Falta a evidência de que as populações filhas se formam e depois se
reúnem com a espécie mãe. De acordo com Douglas Futuyma, “poucos, se
alguns”, exemplos têm sido documentados de uma forma ancestral persistir
na mesma região com um descendente modificado.
Por essas e outras razões, os neodarwinistas ortodoxos preferem explicar
o surgimento súbito na base tradicional de lacunas no registro fóssil e a estase
como uma reflexão de “evolução mosaica” e “seleção estabilizadora”. A pri­
meira significa que as partes moles dos corpos podem ter evoluído invisivel­
mente enquanto as partes que fossilizaram permaneceram iguais. A segunda
significa que a seleção natural impediu a mudança eliminando todas as inova­
ções, algumas vezes por períodos de milhões de anos e apesar das condições
de mudanças ambientais que deviam ter encorajado tal inovação adaptiva.
A seleção natural aparece aqui na sua formulação como uma tautologia com
poder por demais explicativo, uma explicação invisível para todo o propósito
de qualquer mudança ou falta de mudança que tivesse acontecido.
Se o darwinismo desfruta do status de uma verdade a priori, então o pro­
blema apresentado pelo registro fóssil é como a evolução darwinista sempre
aconteceu de tal modo a escapar ser detectada. Se, por outro lado, o darwinis­
mo é uma hipótese científica que pode ser confirmada ou falseada pela evi­
dência fóssil, então a coisa verdadeiramente importante sobre a controvérsia
do pontualismo não é a solução que Gould, Eldredge e Stanley propuseram,
mas o problema para o qual chamaram a atenção. Não vejo nenhuma razão
para duvidar que o pontualismo seja um modelo válido de evolução em al­
B2 DARWIN na banca das réus

guns casos. Há instâncias, tal como a proliferação de espécies de mosca-das-


frutas no Havaí, em que parece que uma rápida diversificação aconteceu após
migração inicial de uma espécie mãe para nova região. Contudo, a questão
importante não é se a especiação rápida em periferias isoladas tem aconteci­
do, mas se este mecanismo pode explicar mais do que um limite relativamen­
te reduzido de modificações que cruzam o limite das espécies, mas que não
envolvem grandes mudanças nas características corpóreas.
Considere o problema colocado pelo exemplo de Stanley das baleias e
morcegos, um caso de meio alcance dentro de uma única classe. Ninguém
propõe que um roedor ancestral (ou o que for) se tomou uma baleia ou um
morcego em um único episódio de especiação, com ou sem a ajuda de uma
mutação nos seus genes reguladores. Muitas espécies intermediárias teriam
de ter existido, algumas das quais deveriam ter sido numerosas e vivido
por muito tempo. Nenhuma delas aparece no registro fóssil. É claro que os
intermediários poderiam ter tido pouco tempo de existência se não fossem
bem adequados para sobrevivência, como provavelmente seria o caso de
uma criatura na metade do caminho no processo de mudar as pernas em
barbatanas ou em asas. Todavia, levantar essa questão nada adiciona quanto
à plausibilidade do cenário darwinista.
Sem dúvida que certa quantidade de evolução poderia ter ocorrido de tal
maneira que não deixou nenhum vestígio no registro fóssil, mas em algum
ponto necessitamos mais do que desculpas engenhosas para preencher as la­
cunas. As descontinuidades entre os principais grupos - filos, classes ou or­
dens - não somente são bem espalhadas, mas em muitos casos imensas. Nun­
ca houve nada lá a não ser casos isolados periféricos invisíveis nos espaços?
O maior de todos os problemas que o registro fóssil apresenta para o
darwinismo é a “explosão cambriana” de quase 600 milhões de anos atrás.
Quase todos os filos de animais aparecem nas rochas desse período sem um
traço de ancestrais evolutivos que exigem os darwinistas. Como Richard
Dawkins disse: “É como se estivessem plantados lá, sem nenhuma história
evolutiva”. No tempo de Darwin não havia nenhuma evidência da existên­
cia de vida pré-cambriana, e ele admitiu no Origem das Espécies que “por
ora, o caso ainda deverá permanecer inexplicável, podendo ser usado como
argumento de peso contra as idéias que aqui defendemos”. Se sua teoria
fosse verdadeira, escreveu Darwin, o mundo pré-cambriano deveria “ter se
enxameado de criaturas vivas”.
Em anos recentes a evidência de bactérias e algas tem sido encontrada
em algumas das rochas mais antigas da Terra, e hoje geralmente se aceita
que essas formas de vida unicelulares podem ter aparecido primeiro há uns
4 bilhões de anos. As bactérias e as algas são “procariontes”, o que significa
que cada criatura consistia de uma única célula sem um núcleo e organelas
D problema da registro fóssil G3

relacionadas. Células “eucariontes” mais complexas (com um núcleo) apa­


receram mais tarde, e depois dezenas de grupos independentes de animais
multicelulares apareceram sem nenhum processo de desenvolvimento evolu­
tivo visível. A teoria darwinista exige que tenha havido séries muito longas
de formas intermediárias entre os organismos unicelulares e os animais como
os insetos, minhocas e mexilhões. Contudo, a evidência de que essas formas
intermediárias existiram está faltando e sem nenhuma boa desculpa.4
O problema colocado pela explosão cambriana se tomou conhecido de
muitos leitores contemporâneos graças ao sucesso do livro de Gould Won-
derful Life, descrevendo a reclassificação dos fósseis cambrianos conheci­
dos como o Folhelho de Burgess. De acordo com Gould, o descobridor dos
fósseis do Folhelho de Burgess, Charles Walcott, foi motivado em “forçá-
los” nas categorias taxonômicas previamente conhecidas por causa de sua
predisposição em apoiar o que é chamado de “teoria do artefato” do registro
fóssil pré-cambriano. Nas palavras de Gould:

Dois tipos de explicação para a ausência de ancestrais pré-cambria-


nos têm sido debatidos há mais de um século: a teoria do artefato
(eles existiram, mas o registro fóssil não os preservou), e a teoria da
rápida transição (eles realmente não existiram, pelo menos como in­
vertebrados complexos facilmente vinculados com seus descenden­
tes, e a evolução dos planos anatômicos modernos ocorreu com uma
rapidez que ameaça nossas idéias costumeiras sobre a velocidade
imponente da mudança evolutiva).

Investigação mais recente tem demonstrado que os fósseis do Folhelho


de Burgess incluem entre 15 ou 20 espécies que não podem ser relacionadas
a qualquer grupo conhecido e, é bem provável, deveriam ser classificadas
como filos separados, bem como muitas outras espécies que se encaixam
num filo existente, mas ainda assim manifestam planos corporais bem dife­
rentes de quaisquer coisas conhecidas como tendo existido posteriormente.
Assim, o quadro geral da história animal é uma erupção de planos corporais
gerais seguida de extinção. Novos filos não evoluíram depois disso. Muitas
espécies que existem hoje estão ausentes das rochas do passado remoto,

4 O quadro é um pouco obscuro pela incerteza sobre o status das Ediacaras, um grupo de invertebra­
dos marinhos de corpo mole de águas rasas encontrados em rochas datando um pouco antes da explosão
cambriana. Alguns paleontólogos têm interpretado esses animais como os precursores de alguns dos grupos
cambrianos. Estudos mais recentes feitos por nm paleontólogo chamado Seilacher apóiam a visão, aceita por
Gould, de que “a fauna Ediacara não contém ancestrais para os-organismos modernos, e qne cada animal da
[fauna] Ediacara compartilha de um modo básico de organização bem distinto da arquitetura de grupos vi­
vos”. Assim interpretados, os animais da fauna de Ediacara na verdade demolem uma explicação darwinista
padrão para a ausência de ancestrais pré-cambrianos: qne os animais de corpo mole não fossilizariam, Na
verdade, existem muitos fósseis de animais de corpo mole no Folhelho de Burgess e em outras partes.
64 DARWIN na banca das réus Jk.
mas todas essas espécies se encaixam nas categorias taxonômicas gerais
presentes no início. O quadro é de evolução de um tipo, mas somente dentro
dos limites das categorias básicas que elas mesmas não mostram nenhuma
prévia história evolutiva. Gould descreveu a reclassificação dos fósseis de
Burgess como “o acorde fúnebre da teoria do artefato” porque...

Se a evolução pudesse produzir dez novos filos cambrianos e depois


exterminá-los rapidamente, então o que dizer dos grupos cambrianos
sobreviventes? Por que deveriam ter tido longo e honroso pedigree
pré-cambriano? Por que não teriam originado um pouco antes do
Cambriano, como o registro fóssil, lido literalmente, parece indicar,
e como propõe a teoria da rápida transição?

Um darwinista ortodoxo responderia que um salto direto com base em


organismos unicelulares para 20 a 50 filos de animais complexos sem uma
longa sucessão de intermediários transicionais não é o tipo de coisa para
a qual um mecanismo genético plausível exista, sem exagerar na afirma­
ção. Gould descreve algo que chama de “evolução”, mas o quadro é tão
diferente daquele que Darwin e seus sucessores tinham em mente que tal­
vez um termo diferente tenha de ser encontrado. O modelo darwinista de
evolução é o que Gould chama de “cone de crescente diversidade”. Isso
significa que a história da vida de um animal multicelular deve começar
com pequeno número de espécies evoluindo de formas muito mais sim­
ples. As dúzias de planos corporais básicos diferentes manifestados nos
fósseis cambrianos seriam então o produto de um processo de evolução
longo e gradual de começos menos diferenciados. Nem o cone deveria
ter parado de se expandir abruptamente após a explosão cambriana. Se os
fatos que não confirmam não fossem já conhecidos, qualquer darwinista
seria confiante que as centenas de milhões de anos de evolução pós-cam-
briana teriam produzido muitos novos filos.
Em vez disso, vemos os planos corporais básicos todos aparecendo em
primeiro lugar, muitos destes se tornando extintos, e maior diversificação
procedendo estritamente dentro dos limites dos filos originais. Esses gru­
pos cambrianos originais não têm história evolutiva visível, e a “teoria do
artefato”, que deveria fornecer tal história, tem de ser descartada. Talvez
alguns intermediários evolutivos existiram para alguns dos grupos, embo­
ra nenhum tenha sido identificado decisivamente, mas do contrário quase
tudo que nós temos entre animais multicelulares complexos e simples cé­
lulas são algumas palavras tal como “transição rápida”. Podemos chamar
isso de um cenário de “evolução” não-darwinista, mas estamos apenas
colocando um rótulo a um mistério.
0 problema da registro fóssil B5

Aparecimento súbito e a estase das espécies no registro fóssil são o


oposto que a teoria darwinista prediria, e o padrão de extinções é igual­
mente desapontador. Parece ter havido um número de grandes extinções na
história da Terra, e o debate ainda continua sobre o que as provocou. Duas
catástrofes em particular se destacam: a extinção do período Permiano de
cerca de 245 milhões de anos atrás, que exterminou a metade das famílias
dos invertebrados marinhos e provavelmente mais de 90% de todas as espé­
cies; e a famosa extinção “K-T” no fim da era Cretácea, cerca de 65 milhões
de anos atrás, que exterminou os dinossauros e, além disso, grande quanti­
dade de outras espécies, incluindo aqueles amonites cujo desaparecimento
Darwin admitiu ter sido assombrosamente súbito.
De acordo com Gould, os paleontólogos sabem o tempo todo a respei­
to dessas “grandes mortes”, mas têm tentado minimizar sua importância
porque “nossos fortes preconceitos pela mudança gradual e contínua nos
forçam a considerar as grandes extinções como anômalas e ameaçado­
ras”. Todavia, as explicações catastróficas de extinções têm forte retor­
no e muitos pesquisadores agora relatam que as grandes extinções foram
mais freqüentes, mais rápidas e mais profundas nos seus efeitos do que
havia sido reconhecido previamente.
O catastrofismo é um assunto controverso entre os geólogos e paleon­
tólogos. Muitos ensaios científicos têm argumentado que os dinossauros
e os amonites foram desaparecendo da Terra por milhões de anos antes
do impacto do meteorito que pode ter provocado a catástrofe do K-T. Os
interesses nessa controvérsia esotérica são altos, porque o darwinismo exi­
ge que as formas antigas (os ancestrais perdidos e os intermediários) mor­
ram gradualmente assim que elas são substituídas por novas formas melhor
adaptadas. Um registro de extinção dominado por catástrofes globais, nas
quais a diferença entre a sobrevivência e a extinção pode ter sido arbitrária,
é tão desapontador para as expectativas darwinistas quanto o registro de
súbita aparição seguida de estase.
Em breve haverá novas controvérsias sobre os fósseis, e provavel­
mente qualquer coisa escrita hoje estará obsoleta dentro de alguns anos.
Contudo, o ponto importante a se lembrar é que o problema fóssil para
o darwinismo piora o tempo todo. Os paleontólogos darwinistas ficam
indignados quando os criacionistas destacam isso, mas o que eles mes­
mos escrevem é extraordinariamente revelador. Como sempre, Gould é o
comentarista mais interessante.
Após assistir a uma conferência geológica sobre grandes extinções,
Gould escreveu um ensaio notável considerando como a evidência se vol­
tava contra o darwinismo. Ele disse aos seus leitores que há muito estava
intrigado pela falta de evidência, ao longo do tempo, de desenvolvimento
GB DARWIN no bancp dps réus

progressivo nos invertebrados com os quais tinha mais familiaridade. “Po­


demos contar fábulas de desenvolvimento para alguns grupos, mas em mo­
mentos honestos devemos admitir que a história da vida complexa é muito
mais uma história de grande variação de uma série de designs básicos do
que uma saga de excelência acumulada.” Mas a evolução darwinista deve
ser uma história de melhora em termos de aptidão,5 e por isso Gould con­
siderava “a falha de se encontrar um nítido ‘vetor de progresso’ na história
da vida como o fato mais intrigante do registro fóssil”.
Ele pensou que a solução para o enigma poderia estar em alternar períodos
de evolução por equilíbrio pontuado de um lado, e extinção arbitrária durante
as catástrofes de outro. Por essas circunstâncias, a evolução não seria uma
história de desenvolvimento adaptivo gradual, mas sim que “o sucesso evo­
lutivo deve ser avaliado entre as espécies mesmas e não em âmbito darwinis­
ta tradicional de organismos lutando dentro das populações”. Adotando sem
hesitação a fórmula de “tautologia” da seleção natural em termos de espécies,
Gould propôs que “as razões por que de as espécies terem êxito são muitas
e variadas - altos índices de especiação e forte resistência à extinção, por
exemplo, e geralmente não envolvem referência às expectativas tradicionais
de melhora no design morfológico”.
Quase todo mundo que fez um curso de biologia na faculdade durante
os últimos 70 anos ou mais foi levado a acreditar que o registro fóssil foi
um baluarte de apoio para a tese darwinista clássica e não algo falho que ti­
nha de ser explicado de qualquer modo. E se não assistimos a nenhuma aula
de Biologia, nós vimos o filme Inherit the Wind e rimos com todo mundo
quando Clarence Darrow ridicularizou William Jennings Bryan. Mas me
pergunto se Bryan teria parecido assim tão idiota se tivesse encontrado um
paleontólogo distinto tendo um desses “momentos honestos”, e o apresen­
tasse como uma testemunha surpresa para contar ao júri e à audiência do
teatro que o registro fóssil mostra um padrão consistente de súbita aparição
seguida de estase, que a história da vida é mais uma história de variação
em tomo de uma série de designs básicos do que de desenvolvimento acu­
mulado, que a extinção tem sido predominantemente através de catástrofes
do que pela obsolescência gradual, e que as interpretações ortodoxas do
registro fóssil no geral são devidas às pré-concepções darwinistas do que às

5 Gould apoiou aquele ponto com uma citação de Darwin, mas substituirei por uma muito melhor:
“Pode ser dito que a seleção natural está diariamente e a toda hora examinando minuciosamente, através
do mundo, cada variação, ate a mais insignificante, rejeitando aquilo que é mau, preservando e adicio­
nando tudo o que for bom: silenciosa e insensivelmente trabalhando, sempre e quando a oportunidade se
oferecer, no aperfeiçoamento de cada ser orgânico em relação à sua condição de vida orgânica e inorgâ­
nica”. Em edições posteriores do Origem das Espécies, Darwin adicionou a palavra “metaforicamente”
à frase, aparentemente chegando à conclusão de que tinha escrito sobre a seleção natural como se ela
fosse um ser inteligente e criativo.
0 problema do registro fóssil G7

próprias evidências. Imagine a confusão que Bryan teria causado em exigir


o direito de introduzir sua própria evidência preferida naquelas famosas
lacunas. Por que não, se Darwin pôde fazê-lo?
Os paleontólogos parecem ter pensado ser obrigação deles proteger o
restante de nós mortais das conclusões errôneas que poderíamos ter tirado
se tivéssemos conhecido o verdadeiro estado da evidência. Gould descre­
veu “a extrema raridade de formas transicionais no registro fóssil” como “o
segredo mais bem guardado da paleontologia”. Steven Stanley explicou que
as dúvidas dos paleontólogos sobre a evolução gradualista foram “suprimi­
das” por muitos anos. Ele escreveu que o processo começou com o próprio
T. H. Huxley que expressou sem muito entusiasmo “suas atitudes negativas
em relação à mudança gradual e seleção natural”, presumivelmente porque
“como um crente [na evolução], Huxley não estava disposto a ajudar aque­
les que estavam dispostos a jogar o bebê da evolução fora junto com a água
da seleção natural gradualista”. Mas por que Huxley temeria isso, a menos
que o bebê e banheira fossem impossíveis de ser separados?
Niles Eldredge tem sido muito mais revelador: “Nós paleontólogos temos
dito que a história da vida apóia [a história da mudança adaptiva gradual],
enquanto realmente sabendo que não apóia”. Mas como pode uma fraude
dessa magnitude possivelmente ter sido perpetrada por todo um grupo de
respeitada ciência, dedicada quase que por definição à busca da verdade?
A explicação de Eldredge é por demais crível para quem quer que esteja
familiarizado com as atitudes do mundo acadêmico:

Cada nova geração, parece, produz alguns poucos jovens paleontólo­


gos desejosos de documentar exemplos de mudança evolutiva nos seus
fósseis. As mudanças que têm sempre procurado têm, é claro, sido do
tipo gradual e progressivo. Mais do que freqüentemente seus esforços
não têm sido recompensados - seus fósseis, em vez de exibirem o pa­
drão esperado, só parecem persistir virtualmente sem mudança... Esse
extraordinário conservadorismo pareceu, ao paleontólogo entusiasma­
do em encontrar mudança evolutiva, como se a evolução não tivesse
acontecido. Assim, estudos documentando a persistência conservadora
em vez de mudança evolutiva gradual foram considerados fracassos e,
como regra, nem sequer foram publicados. A maioria dos paleontólo­
gos estava ciente da estabilidade, da falta de mudança que chamamos
de estase... Mas até onde se relaciona à própria evolução, os paleontó­
logos geralmente viram a estase como “sem resultados [evolutivos]”
em vez de uma contradição da predição da mudança evolutiva gradual
e progressista. As lacunas no registro fóssil continuam (até hoje) a ser
invocadas como a razão principal por que poucos casos de mudança
gradual são encontrados.
Capítulo 5

D fato da
evolução
s darwinistas consideram a evolução um fato, não apenas uma teoria,

D porque isso fornece uma explicação satisfatória para o padrão de rela­


ções conectando todas as criaturas vivas - um padrão tão identificado
em sua mente com o que eles consideram ser a causa necessária do padrão
- descendência com modificação - que, para eles, a relação biológica sig­
nifica relação evolutiva.
A classificação biológica é um assunto quase tão controverso como religião
e política, mas alguns princípios básicos são geralmente aceitos. Os biólogos
classificam os animais (e outros organismos) por categorias taxonômicas tais
como famílias, ordens, classes e filos. Uma classificação superficial pode agru­
par a baleia, o pingüim e o tubarão como criaturas aquáticas, e as aves, os mor­
cegos e as abelhas como criaturas voadoras. Mas o design básico corporal das
aves, dos morcegos e das abelhas é fundamentalmente diferente, seus sistemas
reprodutivos são diferentes, e até suas asas são semelhantes somente no sentido
em que todas elas são adequadas para voar. Dessa maneira, todos os taxonomis-
tas concordam que o morcego e a baleia deveriam ser agrupados com o cavalo
e o macaco como mamíferos, apesar das enormes diferenças em comportamen­
to e mecanismos adaptivos. As abelhas são “construídas” num plano corporal
fundamentalmente diferente dos vertebrados de qualquer tipo e entram numa
série de agrupamentos diferentes na totalidade.
D fato da evolução 71
/ i
Os biólogos antes e depois de Darwin têm no geral percebido que na
classificação eles não estavam simplesmente forçando as criaturas em cate­
gorias arbitrárias, mas descobrindo relações que são reais em algum senti­
do. Alguns taxonomistas pré-darwinistas expressaram este sentido dizendo
que as baleias e os morcegos são no superficial parecidos com os peixes e
as aves, mas eles são essencialmente mamíferos - isto é, eles se ajustam
na sua “essência” ao “tipo” mamífero. De modo semelhante, todas as aves
são na essência aves quer voem, nadem ou corram. O princípio pode ser
estendido para cima ou para baixo na escala de classificação: são-bemardos
e dachshunds são essencialmente cachorros, apesar da visível diferença, e
os pardais e elefantes são essencialmente vertebrados.
O essencialismo não tentou explicar a causa das relações naturais, mas
meramente descreveu o padrão na linguagem da filosofia platônica. Os
essencialistas sabiam a respeito dos fósseis e daí estavam cientes de que
diversos tipos de criatura tinham vivido em diferentes épocas. Todavia, o
conceito de evolução não fazia sentido para eles porque exigia a existên­
cia de numerosos intermediários - criaturas impossíveis que estavam em
alguma parte na transição de um estado essencial para o outro. Portanto,
os essencialistas atribuíam as características comuns ligando cada classe
não devido à herança de ancestrais comuns, mas a um tipo de molde cha­
mado de “arquétipo”, que existia somente em alguma esfera metafísica
tal como a mente de Deus.
Darwin propôs uma explicação naturalista para as características es­
sencialistas do mundo vivo, que foi tão formidável no seu apelo lógico
que conquistou o mundo científico até quando permaneceram as dúvidas
sobre importantes partes de sua teoria. Ele teorizou que os grupos des­
contínuos do mundo vivo eram os descendentes de ancestrais comuns há
muito extintos. Grupos bem relativamente relacionados (como répteis,
aves e mamíferos) compartilhavam um ancestral comum relativamente
recente. Todos os vertebrados compartilhavam um ancestral comum mais
antigo; e todos os animais compartilhavam um ancestral comum ainda
mais antigo. Ele então propôs que os ancestrais devem ser conectados
aos seus descendentes por longas cadeias de intermediários transicionais,
também extintos. De acordo com Darwin:

Podemos deste modo [pela extinção] explicar até mesmo a distinção


entre classes inteiras - por exemplo. O que distingue as aves dos de­
mais vertebrados - com base na crença de que muitas formas antigas
de vida se perderam inteiramente, e que através delas os ancestrais
das aves outrora se interligavam aos antigos ancestrais das outras
classes de vertebrados.
72 DARWIN nn bancados réus

Essa teoria de descendência com modificação fez sentido com base no


padrão de relacionamentos naturais de um modo que era aceitável para os
materialistas filosóficos. Ela explicava por que os grupos pareciam ser parte
do referencial natural em vez de mera invenção humana - para a imagina­
ção darwinista, eles são literalmente famílias. Quando combinada com a
teoria da seleção natural, ela explicava a diferença entre as características
comuns que são relevantes para a classificação (homologias) e aquelas que
não são (analogias). As primeiras eram remanescentes de um ancestral co­
mum; as últimas evoluíram de maneira independente pela seleção natural
para fornecer às diferentes criaturas partes corporais no superficial seme­
lhantes, que eram úteis a tais estratégias adaptivas, tais como voar e nadar.
Nas palavras históricas de Darwin:

Todas as... dificuldades em classificação são explicadas... na visão de


que o sistema natural é fundado na descendência com modificação:
que todos os caracteres que os naturalistas consideram como mos­
trando verdadeira afinidade entre duas ou mais espécies são aque­
les que foram herdados de uma origem comum, e até onde possível
toda a verdadeira classificação é genealógica; que a comunidade de
descendência é o elo escondido que os naturalistas têm inconscien­
temente buscado, e não algum plano desconhecido de criação ou o
anúncio de proposições gerais, e o mero colocar e separar objetos
mais ou menos parecidos.

Darwin terminou seu capítulo dizendo que o argumento da classificação


era tão decisivo que nessa base apenas ele adotaria sua teoria mesmo que
ela não fosse apoiada por outros argumentos. Essa confiança explica por
que Darwin não ficava desencorajado pelas diversas dificuldades no regis­
tro fóssil: sua lógica lhe dizia que a descendência com modificação tinha de
ser a explicação para as “dificuldades na classificação”, independentemente
de quaisquer lacunas na evidência. A mesma lógica inspira os darwinistas
de hoje, quando eles não levam em conta os críticos que afirmam que um
elemento ou outro na teoria é duvidoso. “Diga o que você quiser dizer con­
tra todos os detalhes”, eles respondem, “ainda assim, nada em biologia faz
sentido a não ser à luz da evolução”.
A teoria de Darwin tem, inquestionavelmente, um poder explicativo im­
pressionante, mas como podemos dizer se é verdade? Se definirmos “evolu­
ção” simplesmente como “qualquer coisa que produz classificação”, então a
evolução é um fato no mesmo sentido que a classificação é um fato. Contudo,
isso é outra tautologia, e como tal não tem nenhum valor explicativo genuíno.
Nessa forma, a teoria é apoiada principalmente pelas implicações semânticas
da palavra “relação”. Os darwinistas supõem que a relação entre, digamos,
D fato da evaluçãa 73

morcegos e baleias é semelhante àquela entre irmãos e primos em famílias


humanas. Possivelmente seja, mas a proposição não é auto-evidente.
A descendência com modificação pode ser algo muito mais substancial
do que uma tautologia ou um truque semântico. Poderia ser uma hipótese
científica testável. Se os ancestrais comuns e as cadeias de intermediários de
conexão existiram um dia, os estudos sobre fósseis deveriam ser capazes de,
pelo menos em alguns casos, identificá-los. Se é possível para uma única es­
pécie ancestral mudar por processos naturais para formas tão diferentes como
um tubarão, um sapo, uma cobra, um pinguim e um macaco, então a ciência
de laboratório deveria ser capaz de descobrir o mecanismo de mudança.
Se a ciência de laboratório não pode estabelecer um mecanismo e se
os estudos de fósseis não podem encontrar os ancestrais comuns e os elos
transicionais, então o darwinismo falha como uma teoria empírica. Mas os
darwinistas suprimem a consideração dessa possibilidade invocando uma
distinção entre o “fato” da evolução e a teoria particular de Darwin. As ob­
jeções baseadas no registro fóssil e inadequação do mecanismo darwinista
se aplicam somente à teoria, eles argumentam. A própria evolução (a expli­
cação lógica para as relações) permanece um fato, pelo qual parecem querer
dizer que é uma dedução inescapável do fato da relação. O artigo influente
de Stephen Jay Gould, “Evolution as Fact and Theory”, explica a distinção
citando o fato e a teoria da gravidade:

Os fatos são os dados do mundo. As teorias são as estruturas de


idéias que explicam e interpretam os fatos. Os fatos não vão embora
enquanto os cientistas debatem teorias rivais para explicá-los. A teo­
ria da gravidade de Einstein substitui a de Newton, mas as maçãs não
se suspenderam a si mesmas no ar aguardando o resultado. E os seres
humanos evoluíram de ancestrais tipo símios pelo mecanismo pro­
posto por Darwin ou por qualquer outro ainda por ser identificado.

A analogia é espúria. Observamos diretamente que as maçãs caem quan­


do são lançadas, mas não observamos um ancestral comum para os símios
e humanos modernos. O que observamos é que os símios e os humanos são
física e bioquimicamente mais parecidos um com o outro do que são pare­
cidos com coelhos, cobras ou árvores. O ancestral comum tipo símio é uma
hipótese numa teoria, que afirma explicar como essas semelhanças maiores
e menores surgiram. A teoria é plausível, em especial para um materialista
filosófico, mas pode ser falsa apesar de tudo. A verdadeira explicação para
relações naturais pode ser algo muito mais misterioso.
Porque Gould fixou um limite entre fato e teoria num lugar errado, a
distinção é virtualmente sem sentido. A teoria para ele é meramente a teoria
74 DARWIN riD banco dos réus
i v

da seleção natural, e o “fato” é o fato de que a evolução pode acontecer por


mecanismos aleatórios sem a influência de seleção. Gould explica a distin­
ção observando que...

embora nenhum biólogo questione a importância da seleção natural,


muitos agora duvidam de sua ubiqüidade. Em particular, muitos evo-
lucionistas argumentam que quantidades substanciais de mudança
genética podem não estar sujeitas à seleção natural e podem se espa­
lhar aleatoriamente pelas populações.

Todavia, como Gould reconhece, Darwin sempre insistiu que a seleção


natural foi apenas um dos mecanismos de evolução, e reclamou iradamente
quando ele foi acusado de escrever que a seleção é onipresente. O “fato”
que Gould descreve é, portanto, nada mais do que a teoria de Darwin devi­
damente entendida: a evolução é descendência com modificação impelida
por mudanças genéticas aleatórias, com a seleção natural fornecendo qual­
quer direção que seja necessária para produzir estruturas adaptivas com­
plexas como asas e olhos.1 O poder criativo da seleção natural está então
assegurado porque é uma implicação necessária do “fato” que a evolução
tem produzido todas as maravilhas da biologia. Remodelar a teoria como
fato não serve a nenhum propósito a não ser protegê-la de falsificação.
Ninguém precisa provar que maçãs caem em vez de subir, mas Gould forne­
ce três provas para o “fato da evolução”. A primeira prova é a microevolução:

Primeiro, temos abundantes evidências diretas e observacionais da


evolução em ação, de campo e laboratório. Essa evidência vai desde
incontáveis experimentos em mudança em aproximadamente tudo
sobre as moscas-das-frutas submetidas a seleção artificial no labo­
ratório até as famosas populações de mariposas britânicas que se
tomaram escuras quando a fuligem escureceu as árvores sobre as
quais as mariposas descansam. (As mariposas ganham a proteção
de aves predadoras de visão aguçada ao se combinarem com o am­
biente.) Os criacionistas não negam essas observações: como que
eles poderiam? Os criacionistas têm aperfeiçoado seu ato. Eles agora

1 Os leitores não devem ser enganados pelas ousadas especulações de alguns paleontólogos como
Gould e Steven Stanley, que flertam com as alternativas macroevolutivas ao gradualismo darwinista.
Nenhuma alternativa genuína ao darwinismo está em perspectiva. Desde a época de T. H. Huxley até
o presente tem havido paleontólogos que reconheceram que o registro fóssil é inconsistente com o
darwinismo estrito. Para mitigar a dificuldade, têm tentado descrever uma alternativa saltacionista em
linguagem que os puristas poderiam tolerar.
Todavia, o problema fóssil não é a questão principal. Um fato ou a teoria da evolução não seria dig­
no se não pudesse explicar a origem de estruturas biológicas complexas, e ninguém tem encontrado uma
alternativa naturalista para a micromutação e seleção para aquele propósito. Até Gould tem de se apoiar
no darwinismo ortodoxo quando se desvia do problema fóssil e se volta para justificar a “evolução”
como uma explicação geral para a origem de estruturas biológicas complexas como asas e olhos.
0 fato da evolução 75

argumentam que Deus criou somente “tipos básicos” e permitiu li­


mitados meandros evolutivos dentro deles. Assim, os poodles e os
cães dinamarqueses vieram de um tipo de cão e as mariposas podem
mudar de cor, mas a natureza não pode converter um cão num gato
ou um macaco num homem.

Gould está certo: todo mundo concorda que a microevolução ocorre,


inclusive os criacionistas. Até os cientistas da criação concordam, não por­
que eles “têm aperfeiçoado o seu ato”, mas porque sua doutrina sempre tem
sido de que Deus criou os tipos básicos, ou tipos, que subseqüentemente
se diversificaram. O mais famoso exemplo de microevolução criacionista
envolve os descendentes de Adão e Eva, que têm diversificado de um par
ancestral comum para criar todas as diversas raças de espécies humanas.
O ponto em disputa não é se a microevolução ocorre, mas se ela nos diz
algo importante sobre os processos responsáveis pela criação de aves, insetos
e árvores em primeiro lugar. O próprio Gould tem escrito que até o primeiro
passo em direção à macroevolução (especiação) exige mais do que a acumu­
lação de micromutações. Contudo, em vez de explicar como que as variações
das mariposas [Biston beíularia\ possuem o tipo de evolução que realmente
interessa, ele muda o assunto e ataca verbalmente os criacionistas.2
Outros darwinistas que simplesmente não ignoram o problema se vol­
tam para má filosofia a fim de evadi-lo. Por exemplo, Mark Ridley afirma
que “tudo o que é necessário para provar a evolução é a microevolução ob­
servada adicionada à doutrina filosófica do uniformitarismo que (na forma
que aqui se faz necessária) forma a base de toda a ciência”.
Mas que tipo de prova é essa? Se a nossa filosofia exige que pequenas
mudanças se transformem em grandes, então a evidência científica é irre­
levante. Os cientistas gostam de presumir que as leis da natureza foram
sempre uniformes e em todos os lugares, porque do contrário não poderiam
fazer inferências sobre o que aconteceu no passado distante ou no lado final
da fronteira do universo. Eles não presumem que as regras que governam a
atividade em um nível de magnitude necessariamente se apliquem em todos
os demais níveis. As diferenças entre a física newtoniana, a relatividade e a
mecânica quântica mostram quão injustificada seria tal suposição. O que os
darwinistas precisam fornecer não é um princípio filosófico arbitrário, mas
uma teoria científica de como a macroevolução pode ocorrer.

2 O ataque verbal aos criacionistas como substituto de evidência é comum na polêmica darwinista.
Por exemplo, o livro New Guide to Science de Isaac Asimov, de 884 páginas, tem uma seção de meia
página sobre a evidência a favor do darwinismo, que cita o exemplo das mariposas de Manchester
como prova suficiente para demonstrar toda a teoria. Isso é precedido por quase três páginas insul­
tando os criacionistas. A falta de profissionalismo é suipreendente porque em outros tópicos o livro é
cientificamente admirável.
7G DARWIN na banco dos réus

Muita confusão resulta do fato que um único termo - “evolução” - é


usado para designar processos que podem ter pouco ou nada em comum.
Uma mudança nos números relativos de mariposas escuras e claras numa
população é chamada de evolução, e do mesmo modo o processo criativo
que produziu a célula, o organismo multicelular, o olho e a mente humana. A
implicação semântica é que a evolução é fundamentalmente um único pro­
cesso, e os darwinistas com entusiasmo exploram aquela implicação como
uma substituta da evidência científica. Até mesmo a separação da evolução
em suas variedades “micro” e “macro” - ao que os darwinistas no geral
resistem - implica que todos os processos envolvidos na vida abrangem
um único fenômeno de duas partes que será adequadamente compreendido
quando descobrirmos um processo que faça novas espécies das já existentes.
Provavelmente esse é o caso, mas mais provavelmente não seja. O vocabulá­
rio darwinista inerentemente limita nossa compreensão das dificuldades por
cobri-las enganosamente com o termo todo inclusivo de evolução.
O segundo argumento de Gould, e o ponto central do seu caso para o
“fato” da evolução, é o argumento da imperfeição:

O segundo argumento - que a imperfeição da natureza revela evolu­


ção - soa de imediato a muitas pessoas como irônico, pois elas acham
que a evolução deve ser mais elegantemente mostrada nas quase que
perfeitas adaptações expressadas por alguns organismos - a curvatura
da asa da gaivota ou de borboletas que não podem ser vistas no lixo
do chão porque elas imitam com exatidão as folhas. Mas a perfeição
poderia ser imposta por um criador sábio ou ter evoluído pela seleção
natural. A perfeição cobre os vestígios da história passada. E a história
passada - a evidência de descendência - é a marca da evolução.
A evolução se encontra exposta nas imperfeições que registram
uma história de descendência. Por que deveria um rato correr, um
morcego voar, um golfinho nadar e eu digitar este ensaio com es­
truturas construídas com os mesmos ossos a menos que nós todos
as herdamos de um ancestral comum? Um engenheiro, começando
do zero, poderia projetar melhores membros em cada caso. Por que
deveriam todos os grandes mamíferos nativos da Austrália serem
marsupiais, a menos que descenderam de um ancestral comum nessa
ilha-continente? Os marsupiais não são “melhores”, ou idealmente
adequados para a Austrália; muitos têm sido dizimados por animais
de placenta importados de outros continentes pelo homem...

Gould meramente repete aqui a explicação de Darwin para a existência


de grupos naturais - a teoria para a qual nós buscamos confirmação - e dá
a ela um significado teológico inesperado. Um Criador de verdade teria
projetado cada tipo de organismo do zero para atingir a eficiência máxima.
G fato da evaluçãD 77

Essa especulação não é substituta de evidência científica para estabelecer a


realidade de ancestrais comuns. Também nada faz para confirmar o proces­
so natural pelo qual a transformação de formas ancestrais para descenden­
tes supostamente ocorreu. Afinal de contas, é Darwin que baniu da ciência
a especulação sobre o “desconhecido plano de criação”.
Douglas Futuyma também se apóia fortemente no tema “Deus não teria
feito isso”, citando exemplos da embriologia de vertebrados,

Por que as espécies que finalmente desenvolvem adaptações para


modos de vida por completo diferentes deveríam ser quase que in­
distinguíveis nos seus estágios iniciais? Como que o plano de Deus
para os seres humanos e tubarões exigiu que tivessem embriões qua­
se que idênticos? Por que as salamandras terrestres deveriam, se elas
não descendessem de ancestrais aquáticos, passar por um estágio lar­
val dentro do ovo, com guelras e barbatanas que nunca são usadas, e
depois perder essas características antes de eclodirem dos ovos?

Essas são perguntas retóricas, mas apontam para legítimos pontos ini­
ciais de investigação. As características que Futuyma cita podem existir
porque um Criador as empregou para algum propósito inescrutável; ou elas
podem refletir herança de específicos ancestrais comuns; ou elas podem ser
em razão de algum processo ainda não imaginado que a ciência pode des­
cobrir no futuro. O trabalho da ciência não é especular sobre por que Deus
poderia ter feito coisas dessa maneira, mas verificar se uma causa material
pode ser estabelecida por uma investigação empírica. Se a biologia evolu­
tiva é para ser uma ciência em vez de um ramo de filosofia, seus teóricos
devem estar desejosos em fazer a pergunta científica: Como a hipótese de
descendência com modificação pode ser confirmada ou falseada?
Gould e Futuyma apontam para um modo de responder essa pergunta.
Desde o tempo de Darwin até o presente, os biólogos evolucionistas têm
acreditado que a descendência comum implica algumas proposições muito
importantes sobre homologia e desenvolvimento embrionário. Se as carac­
terísticas homólogas são remanescentes de ancestralidade comum, elas de­
vem ser encontradas em partes embrionárias comuns. Inversamente, se as
partes que parecem ser homólogas em organismos adultos fossem demons­
tradas terem desenvolvido de modo bem diferente no embrião, isso seria
evidência que elas evoluíram em separado e, portanto, não foram herdadas
de um ancestral comum. Essa correspondência entre a homologia no adulto
e as formas embrionárias parecia tão logicamente inescapável a Darwin que
na sexta edição de Origem das espécies ele definiu a “homologia” como
“aquela relação entre as partes que resulta do seu desenvolvimento de par­
78 DARWIN no banco das réus

tes embrionárias correspondentes”.3 Os genes eram desconhecidos no tem­


po de Darwin, mas pela extensão da mesma lógica, os biólogos modernos
têm presumido que as partes embrionárias correspondentes em si mesmas
são controladas por genes homólogos.
A definição de homologia feita por Darwin refletiu uma crença muito di­
fundida entre os evolucionistas de que há uma profunda relação entre onto­
genia e filogenia - isto é, entre o desenvolvimento embrionário e a história
evolutiva. Nos primeiros anos este conceito foi expresso na chamada Lei
Biogenética de Emst Haeckel: “A ontogenia recapitula a filogenia”. Que os
embriões verdadeiramente recapitulam formas ancestrais adultas - que os
seres humanos passam por estágios de peixes e répteis, por exemplo, nunca
foi apoiada pela evidência, e os embriologistas descartaram isso em silêncio.
Todavia, o conceito era tão agradável teoricamente que gerações de estudan­
tes de biologia aprenderam isso como fato. Gould lembra ter aprendido a
fórmula na escola, 50 anos depois de ter sido descartada pela ciência.
Embora a lei de Haeckel tenha sido desacreditada, outra interpretação
da relação entre a ontogenia e a filogenia sobrevive sob o nome de Lei de
Von Baer. Essa hipótese afirma que as semelhanças entre os embriões re­
fletem níveis de classificação biológica, de modo que todos os vertebrados,
por exemplo, parecem muito semelhantes no desenvolvimento inicial, mas
se tomam cada vez mais desiguais à medida que se aproximam de suas
formas adultas. A declaração de Futuyma previamente citada expressa de
maneira abreviada a Lei de Von Baer (embora com as alusões de Haeckel).
O próprio Darwin colocou o mesmo ponto com sua eloquência costumeira.
Descrevendo os fatos da embriologia como sendo “os melhores” em impor­
tância para sua teoria, ele observou que o embrião no começo é “um retrato
mais ou menos apagado da forma ancestral comum de cada grande classe
de animais”. Quaisquer exceções a essa regra de semelhança embrioná­
ria nos estágios iniciais, Darwin acreditou, poderiam ser explicadas como
adaptações dos estágios larvais a diferentes ambientes. Uma vez que a larva
deve competir e sobreviver aos predadores, ela pode ser modificada pela
seleção natural, ainda que estágios posteriores não sejam afetados.
Essa declaração é ligada à lógica básica da compreensão darwinista de
homologia. Se as semelhanças herdadas de uma forma ancestral remontam
a processos de desenvolvimento comuns e genes comuns, é lógico esperar
que essas características ancestrais sejam produzidas logo no início do de­
senvolvimento embrionário. Os organismos diferentes em um único grupo
(como os vertebrados) deveriam começar na vida como organismos relati­

3 N. do T.: O glossário dos principais termos científicos em linguagem popular não foi redigido
por Darwin, mas por W. S. Dallas, mas sem dúvida que o glossário passou pelo crivo meticuloso de
pesquisador que foi Darwin.
^4 . 0 fato da evaluçãa 79

vamente semelhantes e depois formar suas características diferentes mais


tarde. Como com a Lei de Haeckel, o quadro é tão agradável que gerações
de estudantes de biologia foram ensinadas que isso era fato.
Infelizmente para a teoria, contudo, os fatos não se encaixavam com
perfeição nas pré-concepções teóricas. Longe de fornecer a simples con­
firmação que Futuyma sugere, os padrões embrionários produzem um que­
bra-cabeça monumental para a teoria. Embora seja verdade que todos os
vertebrados passem por um estágio embrionário no qual se assemelham
uns com os outros, na verdade se desenvolvem para esse estágio de modo
muito diferente. Depois que um ovo de vertebrado é fertilizado, sofre divi­
sões e movimentos celulares característicos de sua classe: os peixes seguem
um padrão, os anfíbios, as aves e os mamíferos outro. As diferenças não
podem ser explicadas como adaptações larvais, uma vez que estes estágios
iniciais ocorrem antes que as larvas se formem e assim não estão, aparente­
mente, expostos à seleção natural. Somente ignorando os estágios iniciais
de desenvolvimento pode alguém encaixar a teoria de Darwin aos fatos da
embriologia, mas foram com precisão os estágios iniciais que Darwin sus­
tentou serem os mais significantes.
Os estágios posteriores de desenvolvimento não são mais inclinados a
cooperar com as expectativas darwinistas do que os estágios iniciais. As
semelhanças entre as estruturas ósseas nos membros dos vertebrados pare­
cem sugerir uma origem comum. Como Gould retoricamente pergunta, por
que deveriam ser tão semelhantes se não fossem herdadas de um ancestral
comum? Mas, com base em uma perspectiva darwinista, a continuidade
genealógica deveria ser refletida na continuidade do desenvolvimento. Em
outras palavras, a semelhança de padrão no membro adulto deveria refle­
tir uma repetição dos padrões ancestrais no membro em desenvolvimento
no embrião. Infelizmente, comparações detalhadas de desenvolvimento de
membros em peixes, aves, anfíbios e mamíferos mostram que isso não é o
caso. Ao contrário, as células embrionárias que dão origem aos ossos de
membros exibem padrões de divisão, ramificação e produção de cartila­
gem que diferem de espécie para espécie sem se harmonizar às predições
baseadas na teoria de descendência comum. Pelos critérios embriológicos,
as semelhanças nos membros de vertebrados parecem mais analogias do
que homologias, e como tais não apoiam a afirmação de Gould de que elas
são imperfeições herdadas de um ancestral comum.
Que os embriões de vertebrados se desenvolvem ao longo de caminhos
diferentes, somente para convergirem em aparência na metade do proces­
so, depois divergirem mais uma vez até que finalmente produzam (de di­
versos modos) estruturas ósseas semelhantes em seus membros são fatos
bem conhecidos dos embriologistas. Existem maneiras concebíveis para
8D DARWIN na banco das réus

os darwinistas harmonizarem sua teoria a esses fatos desconcertantes - se


assumirmos apriori que a teoria é verdadeira. Todavia, essa não é a questão
que abordamos agora. Os fatos de homologia e embriologia têm sido ale­
gados como confirmação nítida do “fato da evolução”, e eles não são nada
disso. Se a embriologia é o nosso melhor guia para genealogia, como pen­
sou Darwin, o nosso guia parece nos dizer que os vertebrados têm múltiplas
origens e não herdaram suas semelhanças de um ancestral comum.
Isso nos leva à terceira prova de Gould, que nos leva de volta ao registro
fóssil. Gould admite que a evidência fóssil de transformações macroevoluti-
vas tem sido encontrada raramente, mas insiste que há pelo menos dois casos
na seqüência de vertebrados em que tais transformações podem ser confir­
madas. Um exemplo é “mamíferos parecidos com os répteis” que, conforme
o nome implica, parecem ser os intermediários na transformação de réptil a
mamífero. O outro exemplo são os hominídeos, ou “homens-símios”, que são
aceitos pela ciência convencional como os genuínos precursores dos homens
modernos. Essa evidência fóssil é o assunto do próximo capítulo.
Capítula 6

A seqüência dos
vertebrados
s darwinistas afirmam que os anfíbios e os peixes modernos descende­

O ram de um peixe ancestral; que os répteis descenderam de um ancestral


anfíbio e que as aves e os mamíferos descenderam separadamente de
répteis ancestrais. Por fim, eles dizem que os humanos e os símios mo­
dernos tiveram um ancestral símio comum do qual os humanos modernos
descenderam através de intermediários transicionais que já foram identifi­
cados de maneira positiva. De acordo com Gould, os fósseis nas transições
de répteis para mamíferos e de símios para humanos fornecem confirmação
decisiva do “fato da evolução”.
Antes de ir para a evidência, tenho de impor importante condição que
por certo deixará os darwinistas muito desconfortáveis. É que a evidência
deve ser avaliada independentemente de qualquer suposição a respeito da
verdade da teoria que está sendo testada.
A paleontologia, conforme vimos no Capítulo 4, tem considerado a des­
cendência darwinista como uma certeza dedutiva e tem tentado revesti-la de
detalhes em vez de testá-la. O sucesso para especialistas em fósseis que estu­
dam a evolução significa o sucesso na identificação de ancestrais, que fornecem
um incentivo no estabelecimento de critérios que permitirão que os ancestrais
sejam identificados. Gareth Nelson, do Museu Americano de História Natural,
disse em linguagem bem franca o que isso tem significado na prática:
82 DARWIN rio banca das réus
i s
“Nós precisamos ter alguns ancestrais. Nós vamos escolher aque­
les.” Por quê? “Porque sabemos que eles devem estar lá, e estes são
os melhores candidatos.” Essa é a maneira, de um modo geral, como
tem funcionado. Não estou exagerando.

Obviamente, os “ancestrais” não podem confirmar a teoria se eles foram


rotulados como tais só porque a teoria disse aos pesquisadores que os an­
cestrais deveriam estar lá.
Vamos considerar agora a seqüência dos vertebrados.

De peixes e anfíbios
A história a ser testada é que uma espécie de peixes desenvolveu a habi­
lidade de sair da água e se movimentar em terra, enquanto evoluía o sistema
reprodutivo peculiar dos anfíbios e outras características anfíbias mais ou me­
nos ao mesmo tempo. Nenhum fóssil específico de espécies de peixe tem sido
identificado como um ancestral anfíbio, mas há uma ordem extinta de peixe
conhecida como os rhipidistians, que os darwinistas com freqüência descre­
vem como um “grupo ancestral”. Os rhipidistians têm características esquelé­
ticas lembrando aquelas dos anfíbios primitivos, até mesmo ossos que parecem
que poderiam ter evoluído em pernas. Mas, de acordo com o livro-texto abran­
gente Vertebrate History, de Barbara J. Stahl, “nenhum dos peixes conhecidos
é considerado como sendo diretamente ancestral dos primeiros vertebrados de
ambiente terrestre. A maioria deles viveu depois que os primeiros anfíbios apa­
receram, e aqueles que vieram antes não mostram evidência de desenvolverem
membros e costelas resistentes que caracterizaram os tetrápodes primitivos”.
Em 1938, um celacanto, um peixe antigo considerado como sendo extin­
to por cerca de 70 milhões de anos, foi apanhado por pescadores no Oceano
Índico. Muitos paleontólogos consideraram o celacanto como sendo apro­
ximadamente relacionado aos rhipidistians, e assim se esperava que um es­
pécime vivo lançasse luz sobre as partes moles dos ancestrais imediatos dos
anfíbios. Todavia, quando o celacanto moderno foi dissecado, seus órgãos
internos não mostraram sinais de terem sido pré-adaptados de um ambiente
terrestre e ele não deu indicação alguma de como pode ser possível para um
peixe se tomar um anfíbio. A experiência sugere que um peixe rhipidistian
poderia ser igualmente desapontador para os darwinistas se suas partes cor­
porais moles pudessem ser examinadas.

De anfíbias a rÉpteis
Não existem candidatos satisfatórios para documentar essa transição.
Há fósseis de anfíbios chamados Seymouria que têm algumas característi­
A s E q ü ê n c ia dos v e rte b ra d o s 83

cas esqueléticas tipo réptil, mas aparecem muito tarde no registro fóssil e
evidência recente indica que eles eram verdadeiros anfíbios. A transição em
qualquer caso seria difícil de se confirmar com fósseis, porque a diferença
mais importante entre os anfíbios e os répteis envolve as partes moles não
fossilizadas de seus sistemas reprodutores. Os anfíbios colocam seus ovos
na água e as larvas sofrem complexa metamorfose antes de atingirem o es­
tágio adulto. Os répteis colocam um ovo envolto em casca dura e os filhotes
são réplicas perfeitas dos adultos quando emergem pela primeira vez. Não
existe explicação de como um anfíbio poderia ter desenvolvido um modo
de reprodução reptiliano pela descendência darwinista.

De répteis a mamíferos
Chegamos à última das jóias da coroa da evidência a favor do darwinis-
mo, os famosos répteis tipo mamíferos citados por Gould e muitos outros
como prova conclusiva. A grande ordem Therapsida contém muitos fósseis
de espécies com características esqueléticas que parecem ser intermediárias
entre aqueles répteis e mamíferos. Na linha divisória, os fósseis de répteis e
mamíferos são difíceis de ser distinguidos uns dos outros. O critério costu­
meiro é que um fóssil é considerado réptil se sua mandíbula tiver diversos
ossos, dos quais um, o osso articular, se conecta ao osso quadrado do crânio.
Se a mandíbula inferior consistir de um único osso dentário, conectando-se
ao osso escamoso do crânio, o fóssil é classificado como um mamífero.
Nessa característica crítica de estrutura mandibular, e em algumas outras
características, vários “therapsidas” se aproximam tanto das características
mamíferas que em alguns casos poderiam ser razoavelmente classificados
tanto como répteis como com mamíferos. A descrição nítida de Gould des­
taca a importância disso:

A mandíbula inferior dos répteis tem diversos ossos, a dos mamíferos


apenas um. Os ossos mandibulares de não-mamíferos são reduzidos,
passo a passo, em ancestrais mamíferos até que se tomam pequenís­
simos nódulos localizados na parte posterior da mandíbula. Os ossos
“martelo” e “bigorna” dos ouvidos de mamíferos são descendentes
desses nódulos, Como pode ser feita tal transição, pergunta o cria-
cionista. Certamente que um osso está ou por inteiro na mandíbula
ou no ouvido. Mas os paleontólogos têm descoberto duas linhagens
de therapsidas (os tão chamados mamíferos parecidos com répteis)
com uma articulação de mandíbula dupla - uma composta dos an­
tigos ossos quadrado e articular (que logo se tomariam o martelo e
a bigorna), a outra composta de ossos escamosos e dentários (como
nos mamíferos modernos).
84 DARWIN no banco dos réus

Podemos admitir o ponto limitado de Gould, mas sua afirmação mais


geral de que a transição de répteis a mamíferos está assim estabelecida é ou­
tra questão. Existiram criaturas com uma estrutura craniana óssea interme­
diária entre aquela dos répteis e mamíferos, e graças a isso a transição com
respeito a essa característica é possível. Por outro lado, há muitas caracte­
rísticas importantes além da mandíbula e dos ossos do ouvido, incluindo
os sistemas reprodutores necessários. Como vimos em outros exemplos, a
convergência em estruturas esqueléticas entre dois grupos necessariamente
não sinaliza uma transição evolutiva.
Douglas Futuyma faz uma declaração confiante sobre os therapsidas
que verdadeiramente revela quão ambíguos os fósseis therapsidas real­
mente são. Ele escreve que “a transição gradual de répteis therapsidas para
mamíferos é tão abundantemente documentada por numerosas espécies
em cada estágio de transição que é impossível distinguir quais espécies de
therapsidas foram os verdadeiros ancestrais dos mamíferos modernos”.
Mas grandes números de candidatos aptos é uma vantagem somente até
onde podem ser colocados numa única linha de descendência que pudesse,
concebivelmente, conduzir de uma espécie particular de répteis para um
descendente mamífero primitivo particular. A presença de similaridades
em muitas espécies diversas que estão fora de quaisquer linhas ancestrais
possíveis somente chama atenção para o fato de que as similaridades es­
queléticas não implicam necessariamente ancestralidade. A noção de que
os mamíferos em geral evoluíram de répteis em geral através de amplo
grupo de diversas linhas de therapsidas não é darwinismo. A transforma­
ção darwinista exige uma única linha de descendência comum.
Parece que as qualidades tipo mamíferas dos therapsidas eram ampla­
mente distribuídas por toda a ordem, em muitos subgrupos diferentes que
são mutuamente excluídos como candidatos para ancestrais mamíferos.
Uma linha artificial de descendência pode ser construída, mas só por mistu­
rar arbitrariamente os espécimes de diferentes subgrupos e por ordená-los
fora de sua verdadeira seqüência cronológica. Se nossa hipótese é a de que
mamíferos evoluíram dos therapsidas somente uma vez (um ponto ao qual
retomarei), então a maioria dos therapsidas com as características tipo ma­
míferos não era parte de uma transição macroevolutiva. Se a maioria não
era, então talvez todos não foram.
O caso dos therapsidas como uma cadeia ancestral ligando os répteis aos
mamíferos seria muito mais persuasivo se a corrente pudesse ser associada a
algo específico em qualquer uma das extremidades. Infelizmente, as diferen­
ças estruturais importantes entre os mamíferos primitivos tomam tão difícil
escolher um mamífero descendente específico quanto o escolher quaisquer
ancestrais therapsidas específicos. Essa situação desnorteante levou alguns
A seqüÊncia dos vertebradas 85

paleontólogos a considerar uma teoria incômoda de que mamíferos, há mui­


to tempo presumidos como sendo um grupo “monofilético” natural (isto é,
descenderam de um ancestral mamífero comum) foram, na verdade, diversos
grupos que evoluíram separadamente de linhas diferentes de therapsidas.
Transformar os mamíferos num grupo polifilético faria os therapsidas
mais plausíveis como ancestrais, mas somente com o custo inaceitável de
solapar o argumento darwinista de que as homologias mamíferas são relí­
quias de ancestralidade comum. Se os mamíferos evoluíram mais do que
uma vez permanece uma questão aberta até onde os fósseis dizem respeito,
mas o prestigiado George Gaylord Simpson diminuiu de maneira conside­
rável as apostas, decidindo que um grupo poderia razoavelmente ser con­
siderado monofilético se ele descendesse de uma única unidade de nível
inferior na hierarquia taxionômica. Tendo surgido a partir da ordem The-
rapsida, a classe Mammalia foi aceita como uma unidade natural.
Se alguém não pára com a transição réptil-mamífero, mas continua a
tentativa de prover um relato coerente de macroevolução para a própria
classe mamífera, imediatamente se toma aparente de que há muito mais a
explicar do que as diferenças em estrutura da mandíbula e do osso do ouvi­
do entre répteis e mamíferos. A classe mamífera inclui grupos tão diversos
como baleias, golfinhos, focas, ursos polares, morcegos, gado, macacos,
gatos, porcos e gambás. Se os mamíferos são um gmpo monofilético, en­
tão o modelo darwinista exige que cada um dos grupos tenha descendido
de um único pequeno animal mamífero terrestre não identificado. Grandes
números de espécies intermediárias na linha direta de transição teria tido de
existir, mas o registro fóssil falha em registrá-las.

Db répteis a aves
O Archaeopteryx (“asa antiga”), um fóssil de ave que aparece em rochas
calculadas em cerca de 145 milhões de anos, foi descoberto logo depois
da publicação do Origem das Espécies, e assim ajudou enormemente em
estabelecer a credibilidade do darwinismo e para desacreditar os céticos
como Agassiz. O Archaeopteryx tinha várias características esqueléticas
que sugerem um parentesco próximo a um pequeno dinossauro chamado
Compsognathus. É, na sua totalidade, parecido com ave, com asas, penas e
um ossinho da sorte, mas ele tem garras nas suas asas e dentes. Nenhuma
ave moderna tem dentes, embora algumas aves antigas tivessem, e há uma
ave moderna, o hoatzin, que tem garras.
O Archaeopteryx é um mosaico impressionante. A questão é se ele é pro­
va de uma transição de um réptil (dinossauro) para ave, ou se é apenas uma
daquelas estranhas variantes, como o contemporâneo ornitorrinco, que tem
DARWIN na bancadas réus

características lembrando aquelas de outra classe, mas não são intermediá­


rios transicionais no sentido darwinista. Até bem recente, a tendência entre
os paleontólogos era considerar o Archaeopteryx como um beco evolutivo
sem saída em vez de um ancestral das aves modernas. Os fósseis de aves
antigas mais próximas eram mergulhadores aquáticos especializados que
não pareciam como pudessem ser seus descendentes diretos.1
O quadro tem mudado um pouco após descobertas de fósseis de aves, um
na Espanha e o outro na China, em rochas datadas em 125 e 135 milhões de
anos, respectivamente. Os novos espécimes têm características esqueléticas
reptilianas que os qualificam como possíveis intermediários entre o Archae­
opteryx e certas aves modernas. Todavia, a evidência é muito fragmentária
para justificar quaisquer conclusões. De acordo com um artigo crítico escrito
em 1990 por Peter Wellnhofer, uma autoridade reconhecida, é impossível
determinar se de fato o Archaeopteryx foi o ancestral das aves modernas.
Wellnhofer conclui que “essa correlação não é da maior importância”, porque
os espécimes dqArchaeopteryx “fornecem pistas de como as aves evoluíram”
e porque “são documentos sem os quais a evolução não seria tão poderosa”.
No Archaeopteryx nós temos, portanto, um possível ancestral de aves em
vez de um ancestral com certeza. Como nos casos dos mamíferos, há muita
dificuldade em imaginar como qualquer um ancestral poderia ter produzido
descendentes tão variados como o pingüim, o beija-flor e a avestruz, através
de estágios intermediários viáveis. Todavia, a ausência da evidência fóssil
para as transições é com mais facilidade desculpada porque as aves seguem
um tipo de vida que garante que seu corpo raramente será fossilizado.
0 Archaeopteryx é, em geral, um ponto a favor dos darwinistas, mas quão
importante é esse ponto? As pessoas que se achegarem à evidência fóssil
como darwinistas convencidos verão uma surpreendente confirmação, mas
os céticos verão somente uma isolada exceção para um padrão consistente de
falta de confirmação fóssil. Se testamos o darwinismo em vez de meramente
buscar por um ou dois exemplos confirmadores, então um único bom candi­
dato para o status de ancestral não é suficiente para salvar a teoria que sugere
uma história de contínua transformação evolutiva no mundo inteiro.
Seja lá o que for que se conclua sobre o Archaeopteryx, a origem das
aves apresenta muitos mistérios. O vôo tinha de evoluir com as penas com­
plexas e outro equipamento especializado, até mesmo o pulmão caracterís­
tico das aves. Possivelmente as aves de algum modo se desenvolveram de
dinossauros predecessores, com o Archaeopteryx como uma estação inter-

1 Um paleontólogo chamado Chatterjee afirma ter encontrado uma evidência fóssil de uma ave que
ele chama de Protoavis, em rochas no Texas calculadas aproximadamente em 225 milhões de anos. Fós­
seis de aves mais antigos que 145 milhões de anos desqualificariam o Archaeopteryx como um ancestral
de ave, mas a afirmação de Chatterjee tem sido contestada.
A sequência des vertebradas 87

mediaria, mas mesmo nessa suposição nós não sabemos que mecanismo
poderia ter produzido todas as mudanças complexas e inter-relacionadas
que foram necessárias para a transformação.

De símios a seres humanos


No artigo “Fact and Theory”, de 1981, discutido no capítulo precedente,
Gould citou “seis espécies humanas descobertas em rochas antigas” como
prova de que os seres humanos evoluíram de símios. Quando ele publicou
uma versão revisada do mesmo argumento em 1987, o número de espécies
tinha sido reduzido para cinco, uma das quais era o próprio Homo sapiens,
mas o ponto era o mesmo:

Deus - por alguma razão inescrutável, ou meramente para testar nos­


sa fé - criaria cinco espécies, uma após a outra (Australopithecus
afarensis, A. africanus, Homo habilis, H. erectus e H. sapiens) para
imitar uma contínua mudança evolutiva?2

Essa maneira de colocar a questão faz soar como se Darwin propôs a sua
teoria porque a presença de uma abundância de fósseis intermediários entre
símios e seres humanos exigisse alguma hipótese explanatória. É claro que
o que realmente aconteceu é que a teoria foi aceita primeiro, e a evidência
confirmadora foi descoberta e interpretada no curso de um esforço determi­
nado de descobrir os “elos perdidos” que a teoria exigia. A questão que essa
seqüência de eventos levanta não é se Deus tem plantado evidência fóssil
para testar nossa fé em Gênesis, mas se a imaginação darwinista pode ter
desempenhado um importante papel construindo a evidência que tem sido
oferecida para apoiar a teoria de Darwin.
A antropologia física - o estudo das origens humanas - é um campo que
através de sua história tem sido mais fortemente influenciado por fatores
subjetivos do que quase qualquer outro ramo respeitável da ciência. Desde o
tempo de Darwin até o presente, a “descendência do homem” tem sido uma
certeza cultural que pede confirmação empírica, e a fama mundial tem sido a
recompensa para quem puder apresentar evidência fóssil plausível para os elos

2 As quatro espécies de macaco-antropóide que Gould cita incluem os dois Australopitecíneos no


lado macaco da linha, que tinham cérebros de macaco, mas supunha-se que andassem eretos, e as es­
pécies Homo de cérebros maiores. O Homo habilis (faz tudo) de Louis Leakey está no limite e recebeu
o status Homo principalmente porque foi descoberto num local com ferramentas primitivas, que se
presume as tenha usado. Leitores que aprenderam acerca desse assunto na escola podem se surpreender
ao descobrir que o homem de Neanderlal é considerado com freqüência um subgrupo dentro de nossa
própria espécie e que o homem de Cro-Magnon é simplesmente um homem moderno. Alguns outros
nomes familiares foram retirados do panteão ou absorvidos para as quatro espécies. A classificação de
fósseis hominídeos é um assunto muito controverso e estava no caos até que o onipresente Emst Mayr
entrou em cena e estabeleceu as regras da matéria.
88 DARWIN no banco das réus

perdidos. A pressão para encontrar a confirmação foi tão grande que conduzia
uma fraude espetacular, o Homem de Piltdown - que os dirigentes do Museu
Britânico protegeram zelosamente de inspeção fora de seus meios, permitindo
que realizasse 40 anos de serviço útil na formação da opinião pública.
As reconstruções de museus baseadas em evidência fóssil escassa têm
tido poderoso impacto na imaginação pública, e os próprios fósseis têm tido
um efeito semelhante sobre os antropólogos. A atmosfera psicológica que
circunda a contemplação de fósseis é inexplicavelmente reminiscente da ve­
neração de relíquias num santuário medieval. Foi assim mesmo como Roger
Lewin descreveu a cena na exibição d sAncestors em 1984 no Museu Ame­
ricano de História Natural, uma mostra sem precedentes de fósseis originais
contando a evolução humana de toda a parte do mundo.
As “relíquias sem preço e frágeis” foram carregadas por curadores an­
siosos nos assentos de primeira classe dos aviões e levadas para o museu
numa carreata de limusines vip com escolta policial. Dentro do museu, as
relíquias foram colocadas atrás de vidro à prova de bala para serem admira­
das numa pré-estréia por uma audiência seleta de antropólogos que falavam
em voz baixa porque “era como discutir teologia numa catedral”. Um so­
ciólogo observando esse ritual da tribo dos antropólogos disse: “Para mim,
parece adoração de ancestrais”.
Lewin considera compreensível que antropólogos observando os ossos
de seus ancestrais deveriam ser mais emocionalmente envolvidos com seu
objeto de pesquisa do que outros tipos de cientista. “Há uma diferença.
Há uma emoção inexprimível em segurar com muito cuidado nas mãos
um crânio tirado da sua própria ancestralidade.” Lewin está absolutamente
correto, e eu não posso pensar em algo mais provável em diminuir a objeti­
vidade do juízo de alguém. As descrições de fósseis de pessoas que anseiam
por segurar nas mãos com cuidado seus ancestrais deveriam ser examinadas
de maneira tão minuciosa quanto a carta de recomendação da mãe de um
candidato a emprego. No seu livro Human Evolution, Lewin relata numero­
sos exemplos da subjetividade que é característica da pesquisa das origens
humanas, levando-o a concluir que o campo é invisível, mas constantemen­
te influenciado pela mudança humana de auto-imagem. Em português bem
claro, isso significa que vemos o que esperamos ver, a menos que sejamos
extremamente rigorosos em checar nosso preconceito.
É claro que os antropólogos decerto criticam o trabalho uns dos outros
- suas rivalidades pessoais ferozes são parcialmente responsáveis pela sub­
jetividade de seu juízo - mas a questão que debatem é de quem é a série de
candidatos fósseis que conta a história da evolução humana mais de manei­
ra acurada, e não se a prova fóssil da transição símio-humana existe. Para
aqueles que escolheram devotar sua vida explorando exatamente como os
A sequência dos vertebradas

humanos evoluíram dos símios, as pessoas que duvidam da premissa básica


são, por definição, criacionistas, e por isso não devem ser levadas muito a
sério. Que possa não haver nenhuma evidência fóssil confiável da evolução
humana está fora de cogitação.
Contudo, um prestigiado estranho propôs o impensável. Solly Zucker-
man, um dos mais influentes cientistas britânicos e preeminente especialista
em primatas, é um bom materialista científico que considera a evolução do
homem com base nos símios como auto-evidente, mas que também consi­
dera muito da evidência fóssil como tolice. Zuckerman submeteu os Aus-
tralopitecíneos a anos de testes “biométricos” complexos, e concluiu que
“a base anatômica para a afirmação de que [eles] andavam e corriam eretos
como o homem é muito menos convincente do que a evidência que aponta
para a conclusão de que o modo de andar deles era alguma variante daquilo
que se vê em primatas subumanos, o que permanece inaceitável”.
A opinião de Zuckerman sobre os padrões profissionais da antropologia
física não foi generosa: ele a comparou com a parapsicologia e comentou que
o registro de especulação imprudente em origens humanas “é tão surpreen­
dente que é legítimo perguntar se ainda há muita ciência a se descobrir nesse
campo”. Os antropólogos, não surpreendentemente, ficaram ofendidos com
aquela opinião, que lhes deixaria sem fósseis e sem reputação profissional.
Wilffed Le Gros Clark realizou um estudo rival que chegou a conclusões
mais aceitáveis, e o consenso dos especialistas, significando aqueles que ti­
nham mais a perder, era que Zuckerman era um grosseirão sem tato real para
o assunto. As questões biométricas são técnicas, mas a verdadeira disputa era
um conflito de prioridades. A premissa metodológica de Zuckerman foi que
a primeira prioridade que os pesquisadores das origens humanas deveriam
ter seria evitar constrangimentos como os fiascos dos Homens de Piltdown
e Nebraska, e não encontrar fósseis que poderiam plausivelmente proclamar
como ancestrais. Sua verdadeira premissa era que a variação entre os fósseis
símios é suficientemente grande que um cientista, cuja imaginação fosse in­
cendiada pelo desejo de encontrar ancestrais, poderia com facilidade escolher
algumas características num fóssil símio e decidir que elas eram “pré-huma­
nas”. Admitindo-se essas duas premissas, isso resultou que todos os candida­
tos ao status de “ancestral” deveriam ser submetidos a uma análise objetiva
rigorosa e rejeitados se a análise fosse negativa ou inconclusiva.
Zuckerman entendeu que era provável que nenhum dos fósseis hominíde-
os tipo símios seria capaz de passar nesse tipo de teste, e que como uma con-
seqüência a evidência fóssil da evolução humana pudesse ser limitada a es­
pécimes tipo o Homem de Neandertal, que são humanos ou quase humanos.
A ausência de evidência direta de uma transição símio-homem não lhe inco­
modou, porque ele presumia que o modelo darwinista estava estabelecido em
DARWIN no banco dos réus

bases lógicas para humanos bem como para as outras espécies. Além disso, a
evidência de relações ancestrais é, em geral, ausente do registro fóssil. Sendo
esse o caso, deveria ser causa de suspeição em vez de congratulações se hou­
vesse um excesso de ancestrais numa área em que observadores humanos são
mais provavelmente dados ao desejo que isso fosse realidade.
A posição de Zuckerman pode ter parecido razoável para pessoas com
pouco a perder na questão, mas também tem de se considerar os aspectos
culturais e econômicos da situação. A história da descendência humana com
base em símios não é meramente uma hipótese científica; é o equivalente
secular da história de Adão e Eva, e uma questão de imensa importância
cultural. Propagandear a história exige ilustrações, exposições em museus
e representações em televisão. Isso também requer um sacerdócio, na forma
de milhares de pesquisadores, professores e de pintores que fornecem de­
talhes realistas e imaginativos e transmitem a história para o público geral.
As necessidades do público e da profissão garantem que a evidência confir-
matória será encontrada, mas somente uma auditoria realizada por pessoas
não comprometidas de antemão à hipótese sob investigação pode nos dizer
se a evidência tem algum valor como confirmação.
Por todas essas razões, não aceito as alegadas espécies hominídeas
como dados independentemente observados que podem confirmar o mo­
delo darwinista. Contudo, devo adicionar que esse grau de ceticismo não é
necessário para salientar que a série de hominídeos citados por Gould está
sujeita a questionamento. Alguns especialistas de boa reputação duvidam,
por exemplo, que A. afarensis e A. africanus foram espécies realmente dis­
tintas, e muitos negam que jamais houve tal espécie como a Homo habilis.
A hipótese mais excitante no campo hoje em dia é a teoria da “Eva mito-
condrial” baseada na hipótese do relógio »molecular discutida no Capítulo
7, que afirma que o ser humano emergiu da África a menos de 200 mil
anos atrás. Se essa hipótese for aceita, então todos os fragmentos de Homo
erectus encontrados fora da África estão necessariamente fora da cadeia
ancestral, pois são mais velhos do que 200 mil anos.
Ainda assim, estou contente em supor só para argumentar que os pe­
quenos símios (os Australopitecíneos) uma vez existiram e que andavam
eretos, ou mais eretos do que os símios modernos, e que possa também ter
existido uma espécie intermediária (Homo erectus) que andava ereta e que
tinha um tamanho cerebral intermediário entre aquele dos homens e símios
modernos. Nessa suposição há passos transicionais possíveis entre os sí­
mios e os humanos, mas nada como a linha de desenvolvimento isenta de
dificuldades que foi proclamada por Dobzhansky e outros neodarwinistas.
Temos de imaginar o que Steven Stanley chama de “rápida ramificação”,
um eufemismo para saltos misteriosos que, de algum modo, produziram
/I A seqüência das vertebradas 91

a mente e o espírito humanos com base em matérias animais. Sem confir­


mação que tal coisa seja possível, é razoável manter aberta a possibilidade
de que prováveis espécies hominídeas eram alguma coisa diferente do que
ancestrais humanos, mesmo se as descrições dos fósseis forem confiáveis.
Os hominídeos, como os répteis tipo mamíferos, fornecem, quando
muito, alguns candidatos plausíveis para a identificação como ancestrais,
se antes supormos que os ancestrais devem ter existido. Que quase 150
anos de esforços muito determinados para confirmar o darwinismo não têm
feito melhor do que encontrar uns poucos exemplos ambíguos de apoio é
uma evidência negativa significante. Também é significante que o muito do
apoio afirmado vem da história da evolução humana, em que a subjetivida­
de na avaliação é mais do que esperada.
Os fósseis fornecem muito mais desencorajamento do que apoio para
o darwinismo quando são objetivamente examinados, mas exame objetivo
com raridade tem sido o objeto da paleontologia darwinista. A abordagem
darwinista tem consistentemente sido a de encontrar alguma evidência fóssil
de apoio, afirmar como sendo prova a favor da “evolução”, e depois ignorar
as dificuldades. A prática é ilustrada pelo uso que foi feito de um fóssil re-
cém-descoberto de uma criatura tipo baleia chamado de Basilosaurus.
Basilosaurus foi um grande monstro marinho tipo serpente que viveu
durante a era primitiva das baleias. Ele foi originalmente tido como um
réptil (o nome significa “réptil rei”), mas logo foi reclassificado como um
mamífero e primo das baleias modernas. Os paleontólogos agora relatam
que um esqueleto de Basilosaurus recentemente descoberto no Egito tem
apêndices que parecem ser pernas e pés traseiros vestigiais. Para o quê esses
apêndices possam ter servido é obscuro. Eles são muito pequenos mesmo
para terem sido de muito ajuda para nadar, e concebivelmente não poderiam
ter suportado o grande corpo na terra. Os descobridores do fóssil especulam
que os apêndices podem ter sido usados como uma ajuda na copulação.
Relatos do fóssil nas publicações científicas e nos jornais apresentam
a descoberta como uma prova de que as baleias um dia andaram com per­
nas e por isso descenderam de mamíferos terrestres. Nenhum desses relatos
menciona a existência de quaisquer problemas não resolvidos no cenário da
evolução da baleia, mas os problemas são imensos. As baleias têm todos os
tipos de equipamento complexo que permitem mergulhar profundamente, a
comunicação subaquática por ondas sonoras, e até permitem que o filhote
mame sem engolir água do mar. O desenvolvimento adaptativo passo a pas­
so de cada uma dessas características apresenta os mesmos problemas discu­
tidos em conexão com as asas e os olhos no Capítulo 3. Até mesmo as pernas
vestigiais apresentam problemas. Por qual processo darwinista os membros
de pernas úteis diminuíram para proporções vestigiais, e em qual estágio
92 DARWIN no banco das réus

na transformação de roedor para um monstro marinho isso aconteceu? Os


membros dianteiros se transformaram por meio de estágios adaptativos gra­
duais em nadadeiras de baleia? Não ouvimos nada das dificuldades porque
para os darwinistas os problemas não resolvidos não são importantes.
Darwin admitiu que a evidência fóssil era imponentemente contra sua
teoria, e isso permanece assim ainda hoje. Portanto, não é surpreendente
que a ciência darwinista tenha voltado sua atenção para a evidência mole­
cular recém-descoberta, e afirma que aqui pelo menos é onde a prova con­
clusiva do modelo darwinista pode ser encontrada. Consideraremos essa
afirmação no próximo capítulo.
Capítula 7

A evidência
molecular
ntes de tentar obter quaisquer respostas da evidência molecular, se­

A ria melhor rever onde estamos, o que já sabemos e o que precisa­


mos saber?
Vimos no Capítulo 5 que é possível classificar criaturas, e que para fazer
isso é necessário identificar as semelhanças fundamentais chamadas ho-
mologias que refletem a verdadeira relação natural. Tanto antes como após
o triunfo do darwinismo, os classificadores concordaram que as relações
assim descobertas não são arbitrárias, mas expressam antes alguma pro­
priedade genuína da ordem natural. Os essencialistas que rejeitaram o pen­
samento da evolução pensaram que os grupos naturais se conformavam ao
padrão de um arquétipo, um molde existente em alguma esfera metafísica
tal como a mente de Deus. Os darwinistas se desfizeram dos arquétipos e
os substituíram por uma crença em ancestrais comuns, seres materiais que
existiram na Terra num passado distante.
A história da vida fornecida pelo registro fóssil é criticamente importan­
te como um teste do darwinismo, porque os ancestrais comuns e os interme­
diários transicionais necessários estão consistentemente ausentes do mundo
vivo. Nos mais altos níveis da hierarquia taxionômica, os grupos atuais são
descontínuos. Cada criatura pertence a um e somente um filo, classe, ordem
e não há intermediários. Isso é verdade até dos mosaicos esquisitos: o peixe
94 DARWIN na banco dos raus

pulmonado é um peixe e o ornitorrinco com o bico tipo de pato é um mamí­


fero. Os classificadores pré-darwinistas citaram a ausência de intermediá­
rios como razão conclusiva para rejeitar a evolução biológica.
Os darwinistas, em princípio, não negam a descontinuidade fundamen­
tal do mundo vivo, mas a explicam como sendo por causa da extinção de
grandes números de intermediários que uma vez ligaram os grupos discre­
tos aos seus ancestrais comuns remotos. Alguns darwinistas como Richard
Dawkins têm até apontado para a presente descontinuidade com orgulho,
como se isso mesmo fosse uma descoberta do darwinismo:

Enquanto permanecermos acima do nível das espécies e enquanto es­


tudarmos somente os animais modernos (ou animais de qualquer faixa
de tempo...) não há intermediários esquisitos. Se um animal parece ser
um intermediário esquisito, digamos que ele pareça ser exatamente
intermediário entre um mamífero e uma ave, um evolucionista pode
estar confiante de que ele deve ser em definitivo um ou outro... Na
verdade, é importante entender que todos os mamíferos - humanos,
baleias, ornitorrincos com bicos tipo de pato e o resto - são exatamen­
te bem iguais ao peixe, desde que todos os mamíferos são ligados ao
peixe por meio do mesmo ancestral comum.

Num sentido, é uma vantagem, acrescentou Dawkins, que o registro fós­


sil seja imperfeito. Um registro fóssil perfeito faria a classificação arbitrária
porque uma categoria se misturaria na outra. Muitos outros darwinistas têm
dito a mesma coisa, e a questão para aqueles que gostariam de ver prova é se
há alguma maneira de testar empiricamente tais declarações. Nos Capítulos
4 e 6 revimos as dificuldades que os darwinistas tiveram na reconciliação
de sua premissa da descontinuidade passada com a incapacidade de identi­
ficar ancestrais comuns e intermediários transicionais no registro fóssil, e
com a presença difundida de estase (a ausência de mudança significativa).
Hoje, exatamente como quando Darwin acabara de publicar Origem das
Espécies, em 1859, o registro fóssil como um todo é algo que tem de ser
explicado satisfatoriamente.
O darwinismo forneceu não somente uma premissa de mudança gradual
de ancestrais para descendentes, mas também uma explicação de como tal
mudança podia criar formas de vida e estruturas biológicas complexas. O
mecanismo era a seleção natural de organismos individuais - o conceito
darwinista mais importante - e analisamos a evidência nessa área nos Ca­
pítulos 2 e 3. Lá vimos que a hipótese que a seleção natural seja uma força
criativa mais importante não é bem apoiada de forma empírica, e que os
darwinistas têm empregado o conceito como uma proposição lógica vir­
tualmente auto-evidente, algo que decerto deve ser verdade. Apesar dos
A E v id ê n c ia m alscular 95

desmentidos oficiais, os darwinistas continuam a evocar a seleção natural


dessa maneira para explicar qualquer inovação ou estase que a natureza
porventura tenha produzido. Se novas formas surgem, o crédito vai para
a criativa seleção natural; se as formas antigas não mudam, a força con­
servadora é chamada de seleção estabilizadora; e se algumas espécies so­
breviveram a grandes extinções enquanto outras pereceram, foi porque os
sobreviventes foram mais resistentes à extinção.
Os darwinistas têm consistentemente afirmado que a seleção natural não
foi o meio exclusivo da evolução, mas com freqüência têm sido vagos sobre
o que mais era permissível e quão importante seria. Eles não negam neces­
sariamente que as macromutações têm ocorrido, mas com raras exceções,
negam com vigor que as macromutações adaptivas poderiam ter exercido
um papel importante na construção de novas formas de vida ou órgãos com­
plexos. Saltos ou macromutações sistêmicas, pelos quais todos os órgãos de
um corpo mudam harmoniosamente num único salto geracional, estão fora
de questão como milagres genéticos virtuais. Alguma evolução neutra, ou
“deriva genética”, é possível com clareza. Os darwinistas acreditam que as
variações surgem ao acaso, e que elas podem se espalhar aleatoriamente,
mas os darwinistas com mais lógica rigorosos têm insistido que as variantes
devem logo passar no teste da seleção natural ou desaparecer.
Essa posição é uma inferência natural dos princípios básicos do darwinis-
mo. Até mesmo pequenas mudanças devem ter um impacto significante no
êxito reprodutivo se a seleção natural for realizar as necessárias maravilhas
de habilidade. Relembre, por exemplo, como Dawkins explicou a evolução
da asa. Ele argumentou que a primeira micromutação (provavelmente im­
perceptível) naquela direção deve ter conferido alguma pequena vantagem
seletiva, talvez evitando que a criatura quebrasse seu pescoço numa queda.
Se as criaturas podem variar substancialmente sem qualquer efeito significan­
te sobre o êxito em sobrevivência ou reprodução, todavia, a seleção natural
não pode começar a funcionar até que a criatura esteja bem desenvolvida no
crescimento das asas. O “panselecionismo” - a doutrina que a seleção natural
preserva ou elimina até as pequeníssimas variações - é uma conseqüência
lógica da suposição de que a seleção natural pode construir estruturas bioló­
gicas complexas somente com as micromutações como matéria-prima.
A seleção natural opera de maneira direta sobre os caracteres do fenóti-
po1 que funciona no ambiente, mas por extensão lógica deve ter um efei­
to similar sobre o material genético que contém a informação que produz
aqueles caracteres no processo reprodutivo. Por esse motivo, o competente

10 “fenótipo” se refere às características visíveis de um organismo, ou mais precisamente à expres­


são detectável da interação entre o genótipo e o ambiente. O genótipo é o pacote invisível de genes que
dirige o crescimento do fenótipo no processo reprodutivo.
96 DARWIN no banco das réus

Emst Mayr anunciou, em 1963, assim que a revolução molecular começa­


va, que “considero extremamente improvável que qualquer gene permane­
cerá seletivamente neutro por qualquer tempo”.
O propósito dessa análise tem sido esclarecer o que teríamos de achar na
evidência molecular, ou qualquer outro corpo de nova evidência, antes que se­
jamos justificados em concluir que o darwinismo é provavelmente verdadeiro.
Precisaríamos achar evidência que os ancestrais comuns e os intermediários
transicionais realmente existiram no mundo vivo do passado, e que a seleção
natural combinada com as mudanças genéticas aleatórias decerto tem o tipo de
poder criativo que se afirma ter. Não será suficiente descobrir que os organis­
mos partilham de uma base bioquímica comum, ou que suas moléculas bem
como suas características visíveis podem ser classificadas como um padrão
de grupos dentro de grupos. A importante afirmação darwinista não é que as
relações existem, mas que aquelas relações foram produzidas por um processo
naturalista no qual as espécies originais foram transformadas gradualmente
em formas descendentes bem diferentes através de longos ramos (ou até den­
sos arbustos) de intermediários transicionais, sem a intervenção de qualquer
Criador ou outro mecanismo não naturalista. Se o darwinismo assim definido
for falso, então não temos nenhuma informação científica importante sobre
como a vida atingiu sua complexidade e diversidade atuais, e não podemos
transformar a ignorância em informação chamando isso de evolução.
Com a agenda de questões esclarecida, agora vamos à evidência para ver
o que ela nos diz sobre o poder da seleção natural e sobre se a existência de
ancestrais comuns e intermediários pode ser confirmada empiricamente.
Por causa dos enormes avanços em bioquímica, tomou-se possível com­
parar não apenas as características visíveis dos organismos, mas também suas
moléculas. Os principais componentes da célula biológica incluem as proteí­
nas, que governam os processos bioquímicos essenciais e os ácidos nucléicos
(o famoso DNA e o RNA) que dirigem a síntese das proteínas. A estrutura e
composição dessas moléculas supercomplexas são agora parcialmente enten­
didas, e desse modo as proteínas e os ácidos nucléicos de vários tipos de cria­
tura podem ser comparados e suas diferenças quantificadas com precisão.
Cada molécula de proteína, por exemplo, consiste de longa cadeia de
aminoácidos numa seqüência específica, análoga ao modo de uma sentença
que é composta de uma seqüência de letras e espaços numa ordem particular.
Os aminoácidos são compostos orgânicos mais simples, 20 dos quais podem
ser combinados de várias maneiras para produzir proteínas. Um tipo particu­
lar de proteína (como a hemoglobina) que é encontrada numa grande varie­
dade de espécies diferirá levemente ou não tão levemente nas seqüências de
seus aminoácidos de espécie para espécie. A diferença pode ser quantificada
se alinhando as seqüências e contando o número de posições nas quais os
A Bvidência molecular 97

aminoácidos diferem. Se houver um total de 100 posições e os aminoácidos


forem os mesmos em 80 delas e diferentes em 20, então o bioquímico pode
dizer que o grau de divergência é de 20%.
Técnicas de comparação podem ser empregadas para medir a divergência
nas seqüências moleculares das moléculas de DNA e RNA. Conseqüente-
mente, os bioquímicos têm descoberto que é possível classificar as espécies
e os maiores grupos pelo seu grau de semelhança no nível molecular. A va­
lidade da classificação assim obtida é um assunto controverso. Nem todas
as moléculas sugerem o mesmo padrão de relações, e em alguns casos as
classificações moleculares diferem das classificações tradicionais. Além dis­
so, parece não haver relação necessária entre o grau de diferença molecular
entre duas espécies e quaisquer diferenças em características tangíveis. Por
exemplo, todas as espécies de sapo são muito parecidas entre si, mas suas
moléculas diferem tanto quanto aquelas de mamíferos, um grupo que contém
formas fantasticamente diversas, como a baleia, o morcego e o canguru.
Apesar dessas dificuldades, muitos cientistas consideram a classificação
molecular como sendo não apenas possível, mas, em princípio, mais objetiva
do que a classificação baseada em características visíveis. Os estudos mo­
leculares também têm produzido afirmações tendo importantes implicações
filosóficas, particularmente no tópico sensível da evolução humana, porque
por algumas medidas moleculares os chimpanzés são muito mais semelhantes
aos humanos do que são em relação aos outros primatas não-humanos. Esse
grau de semelhança pode colocar em dúvida a importância de comparações
moleculares, porque faz pouco em explicar as profundas dessemelhanças en­
tre os humanos e os animais de qualquer tipo. É evidente que o conteúdo de
informação do sistema genético humano é significantemente diferente daque­
le dos símios, mesmo que a disposição das “letras” químicas pareça quase
idêntica. Esse ponto se perde em alguns darwinistas. No livro Blueprints:
Solving the Mystery ofEvolution, Maitland Edey e Donald Johanson com ca­
sualidade declaram que: “Embora os humanos possam parecer inteiramente
diferentes dos chimpanzés e gorilas, essas diferenças são superficiais. Onde é
importante - nos seus genes - todos os três são 99% idênticos”. Há bastante
filosofia acondicionada naquela frase “onde é importante”.
Porque os darwinistas têm como certa que “relação” é equivalente à an-
cestralidade comum, supõem que as classificações moleculares confirmam
o “fato da evolução” por confirmar a existência de algo que por definição
é produzido pela evolução. Eles também tendem em supor que as relações
particulares determinadas pelos taxonomistas foram “preditas” pela teoria
de Darwin. Quando essas suposições falaciosas são feitas, parece que a
semelhança molecular de “99%” entre os homens e os símios confirma o
darwinismo decisivamente.
98 DARWIN no banca das réus

O mal-entendido é fundamental. Darwin não inventou a classificação


nem reformou sua prática. Sua contribuição foi fornecer uma explicação em
termos materialistas de como as categorias surgiram e por que os classifica­
dores estavam certos no seu instinto de que os “tipos” são entidades reais e
não sistemas de classificação arbitrários (como o utilizado numa biblioteca
para livros). Os classificadores pré-darwinistas também eram cientes que os
humanos são fisicamente muito parecidos com os macacos antropóides. Foi
por isso que o criacionista Lineu, o pai da taxonomia, sem hesitação incluiu
os humanos entre os primatas. A semelhança genética confirma Lineu e não
Darwin. Ela nos diz de novo que símios e humanos são extraordinariamen­
te semelhantes em algumas maneiras, assim como eles são extraordinaria­
mente diferentes em outras, mas não nos diz como tanto as semelhanças ou
as dessemelhanças passaram a existir.
Uma coisa que a evidência molecular confirma é que os grupos da or­
dem natural são isolados uns dos outros, o que significa dizer que não
são conectados por quaisquer formas intermediárias sobreviventes. Uma
proteína chamada citocromo c, que é encontrada numa grande variedade
de espécies, tem sido estudada extensamente. Uma tabela de referência-
padrão mostra a porcentagem da diferença seqüencial entre o citocromo
c de uma bactéria particular e uma ampla variedade de organismos mais
complexos, incluindo mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes, insetos e
angiospermas (plantas). A seqüência de divergência da forma de bactérias
vai de 64% (coelho, tartaruga, pingüim, carpa, larvas de mosca varejeira)
a 69% (girassol). Se a restrição for limitada a animais, de insetos para o
homem, o limite de variação é de somente 64% a 66%.
Avaliadas pelas comparações de citocromo c, o gergelim e o bicho-da-
seda são tão quase diferentes das bactérias quanto são os humanos. Na verda­
de, cada planta e espécie de animal está aproximadamente à mesma distância
molecular de quaisquer espécies de bactérias, e não há traço sobrevivente de
quaisquer intermediários que pudessem ter preenchido o “espaço” entre as
vidas unicelular e multicelular. Se as moléculas evoluíram de modo gradual
até a sua presente forma, então, ao longo do tempo, os intermediários devem
ter preenchido aquele espaço, mas comparar moléculas atuais não pode nos
informar se essas formas transicionais existiram alguma vez.
Outro resultado de estudos moleculares tem sido revelar que há maior
número de divisões fundamentais no mundo vivo do que tinha sido pre­
viamente reconhecido. Um bioquímico chamado Woese comparou as “se-
qüências de RNA” numa ampla variedade de organismos. O RNA é uma
macromolécula muito importante que ajuda a formar as proteínas em todos
os tipos de organismo vivo. Antes de Woese ter publicado seus resultados,
se supunha que a divisão fundamental na natureza era entre os procariotos
A evidência molecular

(bactérias) e eucariotos (todas as plantas e animais). A diferença entre os


dois é de estrutura celular fundamental. A célula do procarioto não tem um
núcleo verdadeiro e o eucarioto tem um núcleo encapsulado por sua própria
membrana. Woese e seus colegas deram provas que o reino procarionte
incluía dois tipos de bactéria, tão diferente uma da outra em termos mole­
culares como também dos eucariotos.
Isso significa que há três divisões primárias do mundo vivo (em ter­
mos de construção celular) em vez de duas. Woese deu novo nome aos
procariotos mais convencionais de eubactérias, e chamou o novo reino de
arqueobactérias. Todas as arqueobactérias favorecem o que consideraría­
mos de estilos de vida incomuns: um grupo anaeróbio pode manufaturar
gás metano, outro grupo gosta de ambientes salinos saturados que matam
quase tudo e um terceiro grupo prefere ambientes de temperaturas extrema­
mente altas, como as fontes sulfurosas quentes. O prefixo “archae” significa
“velho”. Woese o escolheu porque especulou que um grupo favorecendo
tais ambientes extremos pode ter sido adaptado a condições tidas como
predominantes na Terra primitiva. Isso pode sugerir que as arqueobacté­
rias são ancestrais das eubactérias, mas os dois reinos bacterianos são tão
fundamentalmente diferentes um do outro que nenhum deles poderia ter
evoluído do outro. Eles são separados por uma imensa distância molecular
(e bastantes características mais tangíveis), com nada no meio.
Os bioquímicos supõem que os três reinos celulares evoluíram de um
único ancestral comum, porque a alternativa de supor uma origem inde­
pendente da vida duas ou mais vezes apresenta dificuldades ainda muito
maiores. Esse ancestral comum é meramente hipotético, assim como são
hipotéticas as numerosas formas intermediárias que teriam de conectar tais
grupos enormemente diferentes ao ancestral. De um ponto de vista darwi-
nista, todas essas criaturas hipotéticas são uma necessidade lógica, mas não
há confirmação empírica que elas existiram.
Isso nos leva à segunda maior questão discutida nos parágrafos intro­
dutórios a este capítulo. A teoria darwinista insiste que a seleção natural é
uma força criativa de poder imenso, que preserva as mais insignificantes
variações favoráveis e as espalha por toda uma população que se acasala de
modo que mais micromutações favoráveis podem se acumular e produzir
novas características de formidável complexidade, tais como as asas e os
olhos. Já temos visto que a hipótese de seleção natural criativa carece de
apoio experimental e que ela não é confirmada pelo registro fóssil. A evi­
dência molecular acrescenta mais dúvida por causa do fenômeno previa­
mente descrito da eqüidistância molecular.
Considere uma pequena parte do que supostamente aconteceu na linha
mamífera, por exemplo, depois que esse grupo “se separou” de seu hipotético
DARWIN nn banco dos réos

último ancestral comum com os répteis modernos. Várias outras separações


se seguiram, e uma dessas novas linhas foi em direção à água e, depois de
uma série de mudanças adaptivas quase inconcebíveis, tomou-se a primeira
baleia. Uma nova linha diferente foi para as árvores e cavernas, aprendeu a
voar passo a passo, e desenvolveu um sistema “sonar” de navegação como
um substituto da visão. As experiências das duas linhas foram tão diferentes
quanto às de suas formas eventuais, mas agora parece que essas diferenças
não tiveram efeito na taxa da mudança no citocromo c e em várias outras
moléculas. Quando se compara moléculas homólogas de baleias e morcegos
contemporâneos, elas estão cada uma nas distâncias moleculares aproxima­
damente iguais das comparações de moléculas de qualquer réptil moderno
como a cobra, que por hipótese tem assumido seu próprio caminho até sua
forma presente. Por razões que logo serão explicadas, esse surpreendente fe­
nômeno veio a ser conhecido como o “relógio molecular”.
Como pôde tal coincidência acontecer? Poderia ocorrer se a taxa da mu­
dança molecular fosse independente do que acontecia nos fenótipos, e não
afetada pela seleção natural. Em outras palavras, se a evolução molecular
se deu em ritmo tipo relógio, ela deve ter sido o produto de mutações de
ocorrência regular que não foram muito afetadas pelas condições ambien­
tais que se presume terem produzido grande mudança e longa estase nos fe­
nótipos. Essa é a essencial premissa da teoria neutra da evolução molecular,
cujo principal defensor é Motoo Kimura.
A princípio, muitos darwinistas consideraram incrível a teoria neutra.
As mutações ocorrem em organismos individuais, e, de acordo com a teoria
darwinista, elas se espalham por toda a população através da seleção natural.
Como pôde uma mutação neutra (que por definição não confere nenhuma
vantagem reprodutiva) espalhar-se para se tomar uma característica da totali­
dade das espécies? E como que um organismo pôde passar por mudanças fun­
cionais significantes na sua bioquímica sem nenhum efeito na sua aptidão?
Os neutralistas tinham respostas para todas as objeções. Há muitas va­
riações nas seqüências moleculares que não parecem ter nenhum impacto
funcional sobre o organismo. Por exemplo, há seqüências redundantes de
DNA que não codificam proteínas, e a linguagem do DNA contém sinô­
nimos, significando seqüências variantes que transmitem a mesma “men­
sagem”. Na medida em que as mutações moleculares não têm nenhum
efeito funcional significante ninguém deveria esperar que a seleção natural
guiasse a evolução molecular.
As mutações neutras se espalham de maneira aleatória assim que elas
ocorrem e assim que têm a sorte de serem passadas para seus descendentes.
Uma mutação particular pode se tomar fixa (característica de toda a popu­
lação reprodutiva) simplesmente como um resultado de sobreviver a um
A evidência molecular

longo processo contínuo de experimentação aleatória no qual formas alter­


nativas foram eliminadas. Circunstâncias especiais ausentes, a teoria neutra
prediz um alto grau de heterozigose - a coexistência de formas genéticas
variantes chamadas de alelos - nas populações contemporâneas. A seleção
natural tenderia eliminar as formas menos vantajosas. A evolução neutra,
por definição, não descrimina, e no mundo real geralmente se encontra mui­
to maior heterozigose do que a seleção aparentemente permitiria.
Até aqui a explicação é logicamente perfeita, embora Kimura admita
que ela depende de suposições sobre as taxas de mutação do passado, ta­
manhos de populações e efeitos seletivos que não podem ser testados de
modo independente. Contudo, Kimura se coloca em terreno escorregadio,
quando argumenta que o efeito seletivo de uma mudança genéticafuncional
depende como um todo de se verdadeiramente afetará a sobrevivência e a
reprodução. Nas suas próprias palavras:

A teoria neutra... não supõe que os genes neutros não têm função,
mas somente que os vários alelos podem ser igualmente eficazes em
promover a sobrevivência e a reprodução do indivíduo... Algumas
críticas da teoria neutra surgem de uma definição incorreta de “se­
leção natural”. A frase deveria ser aplicada estritamente no sentido
darwinista: a seleção natural age através - e deve ser examinada pelo
- diferencial de sobrevivência e reprodução do indivíduo. A mera
existência de detectáveis diferenças funcionais entre duas formas de
molécula não é evidência para a operação da seleção natural, que
pode ser examinada somente através da investigação dos índices de
sobrevivência e fecundidade.

O argumento de Kimura é meramente outro raciocínio para salvar a hi­


pótese de seleção natural de potencial falsificação redefinindo-a como uma
tautologia. Se a aptidão for determinada apenas pelo fato bruto de sucesso
na sobrevivência e reprodução, então não há diferença efetiva entre a evo­
lução neutra e seletiva. As duas ilustram a sobrevivência dos mais aptos, os
mais aptos sendo aqueles que sobrevivem...
Os neutralistas também podem explicar como uma grande quantidade de
evolução molecular pode coexistir com a evolução seletiva de fenótipos. Há
tantas mutações moleculares que, concebivelmente, uma pequena porcenta­
gem pode produzir suficientes mutações favoráveis para a seleção natural usar
na construção de estruturas adaptivas complexas. Naquela suposição (inveri-
ficável), a evolução selecionadora de fenótipos é ainda possível mesmo se a
maioria das mudanças moleculares seja seletivamente neutra. Kimura acres­
centou que a seleção natural é importante na teoria neutra no seu sentido nega­
tivo e conservador. Há evidência de que a variação ocorre mais ffeqüentemente
102 DARWIN na banca das réus

nas regiões moleculares que não controlam funções críticas para o processo de
vida e menos freqüentemente nas regiões “inibidas”, onde as alterações pode­
riam afetar de maneira adversa funções importantes. Em termos moleculares, o
efeito da seleção natural é, portanto, o de prevenir principalmente mudança.
Quaisquer que sejam seus efeitos sobre outras questões, a evidência mo­
lecular não faz nada em fornecer a hipótese da seleção natural criativa com a
confirmação empírica que tanto necessita. A seleção natural é uma força para
construir complexidade adaptiva somente quando é formulada como uma tauto­
logia ou como uma dedução lógica não conectada com nenhuma realidade em­
piricamente verificável. Sempre que a seleção natural é realmente observada em
operação, ela permite a variação apenas dentro dos limites e opera de maneira
tão eficaz em preservar os limites inibidores como faz em permitir a variação li­
mitada. A hipótese de que a seleção natural tem o grau de poder criativo exigido
pela teoria darwinista permanece não apoiada pela evidência empírica.
O argumento neutralista-selecionista nunca precisa ser encerrado, porque
as explicações selecionistas podem ter uma vantagem com respeito a uma
quantidade de dados e as explicações neutralistas com outra. Os dois lados são
darwinistas somente no sentido importante: eles supõem que a seleção natural
modelou os fenótipos, e que a mudança genética aleatória forneceu a matéria-
prima da evolução. A teoria neutra foi proposta não para desafiar o darwinis-
mo, mas antes como um modo imaginativo de reconciliar alguns dados muito
surpreendentes com os elementos essenciais da teoria de Darwin. Longe de ser
um perigo, ela aumentou grandemente o poder explicativo do darwinismo.
O conceito de evolução neutra em ritmo tipo relógio implicou que os
biólogos moleculares tinham descoberto uma ferramenta poderosa para da­
tar eventos macroevolutivos. Se supusermos os ancestrais comuns para os
grupos vivos de hoje - conectados ao presente mundo por longas linhas de
intermediários que desapareceram - , então é possível calcular o tempo que
passou desde quando quaisquer duas espécies “dividiram-se” de seu último
ancestral comum. Porque as mudanças parecem se acumular em moléculas
homólogas em diversas espécies em índices aproximadamente constantes,
tudo o que é necessário é “acertar o relógio molecular” de uma espécie em
relação à data de alguma transição evolutiva calculada desde o registro fós­
sil. As moléculas equivalentes em outras espécies deveriam, teoricamente,
mudar no mesmo índice, e assim, pela comparação das moléculas apropria­
das de quaisquer duas espécies, o bioquímico pode determinar há quanto
tempo elas se separaram de seu suposto ancestral comum.
O relógio molecular foi colocado para uso efetivo por Allan Wilson e
Vincent Sarich, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e teve um
impacto importante sobre as noções aceitas da descendência humana. Os
antropólogos que dependeram da evidência fóssil tinham calculado que as
A evidÊncia molecular

linhagens dos símios e humanos tinham se separado há pelo menos 15 mi­


lhões de anos, mas os cálculos moleculares apoiavam um período entre 5
a 10 milhões de anos. Uma data de cerca de 7 milhões de anos se tomou
aceita por completo, em parte graças à influência dos dados moleculares.
Mais recentemente, Wilson e outros estudaram a descendência dentro da
espécie humana analisando o DNA mitocondrial, que é passado apenas na
linhagem feminina, de mãe para filha. A conclusão deles é que todos os
humanos contemporâneos são descendentes de uma mulher que viveu na
África a menos de 200 mil anos. Contudo, alguns antropólogos não aceitam
esta conclusão, em parte porque isso implica que todos os fósseis de Homo
erectus encontrados fora da África, que são mais antigos do que 200 mil
anos, não poderiam estar na linha de descendência que resultou nos homens
modernos. Está se desenvolvendo um conflito entre os especialistas em fós­
seis e os biólogos moleculares sobre qual disciplina tem a autoridade para
resolver as disputas sobre o curso da evolução humana.
Com regularidade os darwinistas citam as descobertas do relógio mole­
cular como uma prova decisiva de que a “evolução é um fato”. O relógio é
somente o tipo de coisa que intimida os não-cientistas: é proibitivamente téc­
nico, parece funcionar como mágica, e fornece dados numéricos exatos que
impressionam. Ele vem de novo ramo de ciência desconhecida por Darwin,
ou até mesmo pelos fundadores da síntese neodarwinista, e os cientistas di­
zem que ele confirma independentemente do que ele nos diz todo o tempo. O
show de precisão high tech desvia a atenção do fato que a hipótese do relógio
supõe a validade da tese de ancestralidade comum que ela supõe confirmar.
O que a evidência molecular realmente fornece é uma reafirmação do ar­
gumento de classificação. As relações moleculares que têm sido relatadas até
aqui são no geral (mas não inteiramente) consistentes com as classificações
baseadas nas características visíveis. As divergências de datas calculadas das
relações moleculares também são consideradas como sendo aproximadamen­
te consistentes com os cálculos da primeira aparição dos novos grupos de
acordo com a evidência fóssil.2 Como as relações determinadas de caracterís-

2 Neste capitulo, considero a teoria neutra e os dados do relógio molecular no valor nominal, mas
devo notar que atualmente toda a matéria está envolvida numa controvérsia complexa. De acordo com um
recente artigo crítico de Roger Lewin, “A teoria de que nós podemos datar o nascimento de novas espécies
mapeando a constante acumulação de mutações ao longo do tempo evolutivo se encontra num sério pro­
blema” . Parece que os dados são muito invariáveis para uma interpretação selecionista, nem invariáveis o
bastante para uma explicação neutralista. De acordo com Allan Wilson, “muitos biólogos que fazem mode­
los matemáticos do processo evolutivo começam a acreditar que muitas das mutações acumuladas durante
a evolução molecular não são neutras. Eles argumentam que em vez de proceder suavemente, a evolução
molecular pode ser caracterizada por longos períodos de inatividade pontilhados por repentinas explosões
de mudanças. Se estiverem certos, aumenta o desafio de se encontrar uma explicação para o fenômeno do
relógio molecular”. Sobre tudo que pode ser dito agora é que um padrão de relações existe em termos mo­
leculares que é aproximadamente consistente com as relações determinadas pelas características visíveis, e
que poderia ter surgido por alguma combinação de taxas variáveis e constantes de evolução.
DARWIN no banco dos réus

ticas visíveis, as relações moleculares poderiam ter surgido pela divergência


de ancestrais comuns, se alguma vez os ancestrais existiram.
Para um darwinista, essa possibilidade é mais do que apenas evidência a
favor da evolução. É a própria evolução, porque para os darwinistas a rela­
ção significa relação evolutiva. E o fato carrega consigo todos os corolários
necessários, incluindo que qualquer poder criativo tem de ser atribuído à
seleção natural para tomar possível para os ancestrais simples se transfor­
marem em descendentes complexos. Como uma conseqüência dessa lógica,
os darwinistas consideram perverso que alguém familiar com a evidência
molecular duvidasse da “evolução” - significando com isso o desenvolvi­
mento natural e gradual de todas as formas de vida por descendência com
modificação por todo o processo desde procariotos até humanos.
Se as variações nas moléculas fossem a única coisa que precisasse ser
explicada, não haveria razão para se duvidar que as mutações neutras podem
se acumular e causar um padrão de relações moleculares. O problema é que
as moléculas tiveram de ser incorporadas aos organismos, que tinham de evo­
luir do ancestral para formas descendentes com as moléculas. Os ancestrais
comuns e os elos transicionais ainda são entidades teóricas, evidentemente
ausentes do registro fóssil mesmo após longa e determinada procura.
Ainda mais importante, a ciência não conhece nenhum mecanismo natu­
ral capaz de realizar as mudanças enormes em forma e função exigidas para
completar o cenário darwinista. Uma teoria que explica somente mudanças
que não têm efeitos funcionais importantes não faz nada para resolver o mis­
tério real da evolução, que é como as estruturas moleculares maravilhosas
evoluíram em primeiro lugar, e como uma célula (relativamente) simples
pode se transformar numa planta ou animal complexo. Ao contrário, a bio­
logia molecular acrescenta dificuldade ao revelar que as moléculas em si são
peças de maquinaria intrincada que exige a cooperação de numerosas partes
complexas para desempenharem suas funções. A molécula da hemoglobina,
por exemplo, é tão complexa na sua arquitetura e função que é muitas vezes
chamada de “pulmão molecular”. As dificuldades em explicar como as estru­
turas vivas poderiam evoluir por mutação e seleção aumentam cada vez mais
assim que cada nível adicional de complexidade é descoberto.
Portanto, a evidência molecular falha em confirmar tanto a realidade dos
ancestrais comuns como a adequação do mecanismo darwinista. Na verda­
de, testar o darwinismo pela evidência molecular nunca sequer foi tentado.
Como em outras áreas, o objetivo tem sido o de se encontrar a confirmação
de uma teoria que, conclusivamente, foi presumida ser verdadeira no início
da investigação. A verdadeira pergunta científica - a evidência molecular,
como um todo, tende a confirmar o darwinismo quando avaliada sem o viés
darwinista? - nunca foi formulada.
A evidência molecular 105
- A

Neste capítulo, analisamos a evidência concernente às semelhanças e di­


ferenças nas proteínas e nos ácidos nucléicos que estão entre os componentes
mais fundamentais de todos os organismos vivos. A questão permanece: como
essas estruturas moleculares complexas passaram a existir em primeiro lugar?
Isso nos leva ao nosso próximo assunto, que é a origem da vida mesmo.
Capítulo 8

A evülução
pré-biologica

Q
uando a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a lei do Estado
da Louisiana que exigia tratamento igual para a ciência da criação, o
juiz Antonin Scalia discordou da decisão porque pensou que “o povo
do Estado da Louisiana, inclusive aqueles que são cristãos fundamenta-
listas, tem todo o direito... de ter qualquer evidência científica contra a
evolução apresentada nas suas escolas”. Stephen Jay Gould ficou desnor­
teado pelo fato que um juiz com a erudição de Scalia (ele foi professor
em diversas universidades importantes) pudesse entreter a noção absur­
da de que os fundamentalistas poderiam ter evidência científica contra a
evolução. Gould foi procurar na opinião de Scalia uma explicação, e a
encontrou em várias sentenças dando a entender que a evolução é uma
teoria sobre a origem da vida.
Num artigo corrigindo “os mal-entendidos do juiz Scalia”,1 Gould ten­
tou pôr a questão em ordem. A evolução, ele escreveu, “não é o estudo da
origem suprema da vida, como um caminho para o discernimento de seu
significado mais profundo”. Até os aspectos puramente científicos do pri­
meiro surgimento de vida na Terra pertencem a outras divisões da ciência,
porque a “evolução” é meramente o estudo de como a vida muda assim que

1 N. do T.: O título em inglês é “Justice Scalia’s Misunderstanding”.


A evolução prã-biológica
- 4 .

já esteja existindo. Porque ele entendeu mal o tema estritamente limitado


da evolução, Scalia havia caído no mal-entendido de que é possível ter ob­
jeções racionais para as doutrinas da ciência evolutiva.
Na verdade, o juiz Scalia usou o termo geral “evolução” exatamente
como os cientistas o usam - para incluir não somente a evolução biológica,
mas também a evolução química ou pré-biológica, que procura explicar
como a vida evoluiu de início com base em elementos químicos inanima­
dos. A evolução biológica é apenas uma parte principal do grande proje­
to naturalista, que busca explicar a origem de tudo desde o Big Bang até
a atualidade sem permitir qualquer papel para um Criador. Se for para os
darwinistas manterem Deus fora de cena, eles têm de fornecer uma explica­
ção naturalista para a origem da vida.
A especulação sobre a evolução pré-biológica começou a aparecer as­
sim que o livro Origem das Espécies teve seu impacto, com o “Buldogue
alemão” Emst Haeckel assumindo o papel principal em primeiro lugar. O
próprio Darwin deu famosa contribuição ao campo numa carta de 1871:

Tem sido afirmado com frequência que todas as condições para a


produção inicial de um organismo vivo estão agora presentes, o que
podería sempre ter estado presente. Mas se (e oh! quão grande se!)
pudéssemos conceber em algum pequeno lago, com todos os tipos
de amónia e sal fosfórico, raios, calor, eletricidade, etc. presentes,
que um composto de proteínas foi quimicamente formado prestes a
passar por mudanças ainda mais complexas, no dia atual tal matéria
seria de imediato devorada ou absorvida, o que não teria sido o caso
antes de as criaturas vivas serem formadas.

Robert Shapiro notou, em 1986, que a especulação de improviso de


Darwin “é notavelmente corrente hoje em dia, o que é um tributo ou à sua
previsão ou à nossa falta de progresso”. Em 1953, o campo de evolução
pré-biológica parecia à beira de um sucesso espetacular. Hoje está justa­
mente onde Darwin o deixou.
A dificuldade básica em explicar como a vida poderia ter começado é
que todos os organismos vivos são extremamente complexos, e a seleção
darwinista não pode realizar a formação nem mesmo teoricamente até que
os organismos já existam e sejam capazes de reproduzir suas espécies.
Um darwinista pode imaginar que um roedor mutante pode aparecer
com uma membrana entre seus dedos, e por isso ganhar alguma vantagem
na luta pela sobrevivência, com o resultado que a nova característica se
espalhará pela população a fim de aguardar a chegada de mais mutações
que terminará finalmente em vôo com asas. O problema é que o cenário
depende do roedor ter descendência que herde a característica mutante, e
DARWIN no banca dos réus

elementos químicos não produzem descendência. O desafio da evolução


química é o de achar uma maneira de obter a combinação química a ponto
de a reprodução e a seleção poderem começar.
O campo atingiu seu maior êxito nos primeiros anos da década de
50 do século 20 quando Stanley Miller, então aluno de pós-graduação
no laboratório de Harold Urey na Universidade de Chicago, obteve pe­
quenas quantidades de aminoácidos ao aplicar descargas elétricas através
de uma mistura de gases considerados em simularem supostamente a at­
mosfera da Terra primitiva. Porque os aminoácidos são usados na cons­
trução de proteínas, eles algumas vezes são chamados de “tijolos/blocos
construtores da vida”. Experimentos subseqüentes baseados no modelo
de Miller-Urey produziram uma variedade de aminoácidos e outros com­
postos complexos empregados no processo genético, resultando em que
os pesquisadores mais otimistas concluíram que os elementos químicos
necessários para construir a vida poderiam estar presentes em abundância
suficiente na Terra primitiva.
O experimento de Miller-Urey validou parcialmente um modelo teórico
proposto por Alexander Oparin e J. B. S. Haldane durante a década de 20
do século 20. O modelo de Oparin-Haldane postulava, em primeiro lugar,
que a Terra primitiva tinha uma atmosfera “redutora” feita de gases como
metano, hidrogênio e amónia, com pouco ou nenhum oxigênio livre. Em se­
gundo lugar, postulava que dentro dessa atmosfera vieram várias formas de
energia, como as descargas elétricas no aparelho de Miller-Urey, forman­
do os compostos orgânicos essenciais. Terceiro, postulava, nas palavras de
Haldane, que esses compostos “devem ter se acumulado até que os oceanos
primitivos atingissem a consistência de uma sopa quente diluída”. A me­
táfora de Haldane pegou de supetão a imaginação jornalística e a “sopa
pré-biótica” se tomou um elemento de folclore científico, apresentado ao
público nos livros e em exposições de museus como a origem conhecida da
vida primitiva. O quarto elemento da teoria era o mais importante e também
o mais misterioso: de algum modo a vida emergiu da sopa pré-biótica.
O limitado sucesso do experimento de Miller-Urey ocorreu nos anos que
culminaram nas celebrações do centenário darwinista, em 1959. Isso foi o
auge do triunfalismo neodarwinista, logo quando da estréia literalmente es­
magadora da energia atômica que tinha feito parecer que todos os mistérios
se renderiam ao poder da investigação científica. Naquele clima de opinião,
o experimento parecia ter criado a vida por uma técnica renovadora de con­
fiança semelhante àquela empregada pelo doutor Frankenstein nos filmes.
Todavia, os anos 80 do século 20 foram um período de avaliação cética
durante os quais os especialistas colocaram em dúvida cada um dos quatro
elementos no cenário de Oparin-Haldane.
A E v o lu ç ã o p r é -b io ló g ic a

Hoje os geoquímicos relatam que a atmosfera da Terra primitiva pro­


vavelmente não era de uma natureza tão fortemente redutora exigida
pelo aparelho de Miller-Urey para dar os resultados desejados. Mesmo
sob condições ideais e com probabilidades irreais, os experimentos fa­
lharam em produzir alguns dos componentes químicos necessários da
vida. Talvez a crítica mais desencorajadora venha dos químicos, que têm
arruinado a sopa pré-biótica demonstrando que os compostos orgânicos
produzidos na Terra primitiva estariam sujeitos a reações químicas que
os tornariam inadequados para a construção da vida. Em toda a proba­
bilidade, a sopa pré-biótica pode nunca ter existido, e sem isso não há
razão para se acreditar que a reprodução de pequenas quantidades de
alguns aminoácidos por meio de descargas elétricas numa atmosfera re­
dutora tinha alguma coisa a ver com a origem da vida.
Embora essas objeções à significância dos resultados de Miller-Urey
sejam importantes, para os atuais objetivos prefiro desconsiderá-las como
uma distração do ponto principal. Vamos conceder que, de uma maneira
ou de outra, todos os componentes químicos exigidos estiveram presen­
tes na Terra primitiva. Isso ainda nos deixa num beco sem saída, porque
não há razão para se acreditar que a vida tenha uma tendência para emer­
gir quando os componentes químicos se estão revolvendo numa sopa.
Embora alguns componentes de sistemas vivos possam ser duplicados
com técnicas muito avançadas, os cientistas, empregando todo o poder
de sua inteligência, não podem fabricar organismos vivos de aminoáci­
dos, açúcares e similares. Então qual foi o truque feito antes da existên­
cia da inteligência científica?
O organismo mais simples capaz de vida independente, a célula bac-
teriana procariota, é uma obra-prima de complexidade miniaturizada que
faz uma espaçonave parecer bem inferior tecnologicamente. Mesmo que
alguém suponha que algo muito mais simples do que uma célula bacteria-
na possa ser capaz de iniciar a evolução darwinista - uma macromolécula
de DNA ou RNA, por exemplo - , a possibilidade de que tal entidade
complexa possa se auto-organizar por acaso é ainda fantasticamente im­
provável, mesmo que bilhões de anos fossem disponíveis.
Não citarei números porque os números exponenciais são irreais para
as pessoas que não estão acostumadas a eles, mas uma metáfora por Fred
Hoyle se tomou famosa porque transmite vividamente a magnitude do pro­
blema: que um organismo vivo emergiu por acaso de uma sopa pré-biótica
é tão provável quanto “um tomado passando por um ferro-velho fosse ca­
paz de montar um Boeing 747 dos materiais ali existentes”. A montagem
por acaso é apenas uma maneira naturalista de dizer “milagre”.
DARWIN na banco dos réus

Uma explicação científica desse milagre não é absolutamente necessá­


ria, porque os darwinistas in extremis podem lidar com o problema com ar­
gumento filosófico. A vida obviamente existe, e se um processo naturalista
é a única explicação concebível de sua existência, então as dificuldades não
devem ser tão insuperáveis quanto parecem ser. Mesmo os aspectos mais
desencoraj adores da situação podem ser transformados em vantagem quan­
do são vistos com os olhos da fé. Por exemplo, a vida parece ter existido
em forma celular há quase 4 bilhões de anos, talvez tão logo a Terra tivesse
esfriado o suficiente. Isso significa que o surgimento das primeiras molé­
culas auto-replicadoras e a subseqüente evolução de toda a maquinaria da
célula tinham de acontecer dentro de breve período geológico. Longe de fi­
car desencorajado pelo tempo limitado disponível, Cari Sagan concluiu que
a vida com probabilidade teria evoluído também em outros planetas. Seu
raciocínio era que a espontânea origem da vida deve ter sido relativamente
fácil, uma vez que aconteceu com rapidez na Terra primitiva.
Para aqueles que não se satisfazem com tanta facilidade, o “princípio
antrópico” está disponível para domar as probabilidades desfavoráveis.
Esse princípio começa com a existência de observadores - nós mesmos
- e funciona retrogradamente. Se as circunstâncias exigidas para a evo­
lução da vida não existissem não estaríamos aqui para comentar a respei­
to da questão. Aquelas circunstâncias podem parecer muito improváveis
se considerando nosso conhecimento limitado, mas não temos nenhum
meio de saber quantos universos há ou possam ter existido. Numa infi­
nidade de tempo e espaço até o evento mais improvável deve ter aconte­
cido pelo menos uma vez, e nós necessariamente existimos na região da
realidade em que uma série particular de coincidências necessárias para
nossa existência ocorreu por acaso.
Richard Dawkins, que tem a própria habilidade de Darwin de transfor­
mar um débito num crédito, tem até argumentado que a improbabilidade
dos cenários da origem da vida é um ponto a favor deles. Ele raciocina que
“uma teoria milagrosa (para a consciência humana comum) é exatamente o
tipo de teoria que deveríamos procurar nessa questão particular da origem
da vida”. Isso porque a “evolução equipou nosso cérebro com uma cons­
ciência subjetiva de risco e improbabilidade adequada para criaturas com
uma duração de vida de menos de um século”.
Na verdade, Dawkins fica encorajado pelo fracasso dos cientistas em
duplicarem a geração espontânea da vida nos seus laboratórios. Afinal de
contas, os cientistas também não podem duplicar a macroevolução. Se
construir a vida fosse bastante fácil de modo que os cientistas pudessem
fazê-lo, então a natureza teria feito com que a vida se originasse de manei­
ra espontânea na Terra muitas vezes, bem como nos planetas no alcance
A evolução pré-biológica

das ondas de rádio. Como parece que isso não aconteceu, o fracasso em
duplicar a origem da vida no laboratório é justamente aquilo que a teoria
darwinista nos induziria supor.2
Quando se torna necessário confiar em argumentos como aquele, o
trabalho experimental deve estar indo muito mal. Para aqueles que pre­
ferem abordar o problema com metodologia científica em vez de vir­
tuosidade retórica, deve-se encontrar um modo de estender o conceito
de evolução a um nível anterior às moléculas do sistema genético. Nos
organismos contemporâneos, o DNA, o RNA e as proteínas são mutua­
mente interdependentes, com o DNA armazenando a informação genéti­
ca e copiando-a para o RNA, e o RNA dirigindo a síntese das proteínas,
e as proteínas executando o trabalho químico necessário da célula. Um
cenário evolutivo deve supor que esse sistema complexo evoluiu de um
predecessor muito mais simples, primeiro empregando, provavelmente,
apenas um dos três maiores constituintes. O que veio primeiro, os ácidos
nucléicos (DNA ou RNA) ou as proteínas? E como a primeira molécula
viva funcionou e evoluiu na ausência das outras?
Essas questões definem a agenda para o campo da evolução química, em
que diversos cenários competem por atenção. Descreverei sucintamente os
principais candidatos, porque o assunto está muito bem discutido em outros
livros e há uma concordância geral de que nenhuma teoria tem obtido qual­
quer confirmação experimental substancial.
Por algum tempo o mais popular competidor tem sido “o gene nu” ou
a hipótese do “RNA primeiro”, baseada na premissa que a vida começou
quando uma molécula de RNA, de algum modo, conseguiu sintetizar a si
mesma de compostos orgânicos da sopa pré-biótica. O RNA é o candidato
mais provável para o primeiro componente do sistema genético porque não
somente age como o transportador da informação genética no seu papel de
“mensageiro”, mas também é capaz de catalisar algumas reações químicas
no modo das proteínas. Com essa versatilidade é concebível que o RNA
possa ter executado as funções essenciais da vida num modo primitivo até
que o verdadeiro DNA e as proteínas pudessem evoluir.
Concebivelmente está muito longe do provável ou do experimentalmen­
te verificável, é claro. Em capítulos anteriores vimos que não há evidên­
cia de que a seleção darwinista seja uma força planejadora suficientemente
poderosa para transformar uma molécula ou uma célula numa abundância
de plantas e animais complexos, mesmo concedendo-se alguns bilhões de

2 Se os leitores suspeitarem que Dawkins não estava sendo sério quando propôs este argumento,
provavelmente estarão certos. Ele concluiu a passagem com a seguinte frase: “Tendo dito tudo isso,
devo confessar que, porque há tanta incerteza nos cálculos, se um químico tivesse êxito em criar a vida
espontaneamente, eu não ficaria desconcertado!”.
IIZ DARWIN no banco dos réus

anos. Os químicos da origem da vida consideram o darwinismo biológico


universal como verdadeiro, mas eles podem identificar muitos problemas
com a proposição de que uma molécula de RNA replicadora pudesse ter
evoluído de compostos químicos na Terra primitiva. Os obstáculos para
a síntese do RNA foram analisados em 1989 num artigo extenso de G. F.
Joyce, na revista Nature. Joyce concluiu que o RNA “não é uma molécu­
la pré-biótica plausível porque é improvável que tenha sido produzida em
quantidades significativas na Terra primitiva”. Quanto aos demais modelos
já promissores de evolução pré-biológica, a teoria do “RNA primeiro” não
pode sobreviver a um exame minucioso.
Joyce conjeturou que o próprio RNA teria de ter evoluído de um sistema
genético muito mais simples que não existe mais. Uma idéia imaginativa
sobre como um sistema genético pré-biótico possa ter parecido foi proposta
mais recentemente por A. G. Caims-Smith num encantador livro intitulado
Seven Clues to the Origin o f Life? Bizarra quanto a idéia possa parecer à
primeira vista, ou até mesmo após uma reflexão, Caims-Smith acha que os
cristais de argila têm qualidades que podem fazer possível sua combinação
numa forma de vida mineral pré-orgânica. De acordo com as suposições
darwinistas, a seleção natural então favoreceria os replicadores de argila
mais eficientes, preparando o caminho para um eventual “controle genéti­
co” pelas moléculas orgânicas que tinham evoluído por causa de sua cres­
cente utilidade no processo pré-orgânico.
A imaginação envolvida na tese da origem da vida mineral é impressio­
nante, mas para meu propósito é suficiente dizer que ela também carece de
confirmação experimental. De acordo com o bioquímico Klaus Dose, “essa
tese está além da compreensão de todos os bioquímicos ou biólogos molecu­
lares que são confrontados diariamente com os fatos experimentais da vida”.
Isso comumente seria uma razão mais do que suficiente para se descartar
uma teoria, mas muitos cientistas ainda consideram com seriedade a idéia da
origem da vida mineral porque não há alternativa nitidamente superior.
Há outras possibilidades, incluindo um cenário de “proteína primeiro”
que parecia sair de moda, mas que pode retomar em razão da crítica devas­
tadora que o modelo rival de RNA tem recentemente sofrido. Na verdade,
a ausência de apoio experimental para qualquer teoria deixa a porta aberta
para qualquer outra especulação, menos o criacionismo. Uma análise geral de
teorias de evolução pré-biótica feita em 1988 por Klaus Dose concluiu que,
“no presente, todas as discussões sobre as principais teorias e experimentos
no campo acabam num impasse ou numa confissão de ignorância”. O artigo
crítico de Gerald Joyce, de 1989, finalizou com a observação sombria de que

3 N. do T.: Algo como “Sete indícios para a origem da vida”.


A evolução pré-biológica

os pesquisadores da origem da vida ficaram acostumados a uma “falta de


dados experimentais relevantes” e a alto nível de frustração.
As perspectivas de sucesso experimental são tão desencorajadoras que
os pesquisadores mais empreendedores têm se voltado para simulações em
computadores que evitam lidar com os bloqueios da estrada experimental
usando suposições convenientes. Um artigo de 1990 na revista Science re­
sumiu o estado da pesquisa computacional de “auto-organização espontâ­
nea”, um conceito baseado sobre a premissa de que sistemas com dinamis­
mos complexos tendem a cair num estado altamente ordenado mesmo na
ausência de pressões de seleção. Essa premissa pode parecer contradizer a
Segunda Lei da Termodinâmica, que afirma que a energia ordenada inevita­
velmente entra em desordem ou máxima “entropia”. Há, todavia, razão para
se acreditar que num sistema local (a Terra) que recebe energia do exterior
(o Sol), a segunda lei permita alguns tipos de auto-organização espontânea
acontecer. Por exemplo, estruturas ordenadas como flocos de neve e cristais
são comuns. Com mais precisão, a maioria dos cientistas supõe que a vida
se originou espontaneamente e, daí em diante, evoluiu ao seu estado atual
de complexidade. Isso não poderia ter acontecido, a menos que tendências
auto-organizadoras poderosas estivessem presentes na natureza.
Começando com suposições como essa, os cientistas podem planejar
modelos computacionais que imitam a origem da vida e sua subseqüen-
te evolução. Se os modelos têm alguma conexão com a realidade é outra
questão. De acordo com a revista Science, “os defensores da organização
espontânea são rápidos em admitir que não baseiam sua defesa em dados
empíricos e experimentos de laboratório, mas em matemática abstrata e no­
vos modelos computacionais”. O bioquímico G. F. Joyce comentou: “Eles
têm longo caminho a prosseguir, a fim de persuadir os principais biólogos a
respeito da relevância [deste trabalho]”.
Supor a inexistência de pontos difíceis é uma maneira de resolver um
problema intratável. Outra maneira é mandar o problema literalmente
para o espaço. Essa foi a estratégia de um dos mais famosos cientistas do
mundo, Francis Crick, co-descobridor da estrutura do DNA. Crick está
plenamente ciente da impressionante complexidade da vida celular e da
extrema dificuldade em explicar como tal vida pode ter evoluído no tem­
po disponível na Terra. Assim, especulou que as condições podem ter sido
mais favoráveis em algum planeta distante.
Aquela mudança deixa o problema de se obter a origem da vida no pla­
neta Terra. Primeiro num artigo com Leslie Orgel, e depois num livro de
sua autoria, Crick levou adiante uma teoria que ele chamou de “panesper-
mia dirigida”. A idéia básica é que uma avançada civilização extraterrestre,
possivelmente enfrentando extinção, enviou formas primitivas de vida para
DARWIN nn banco dos réus

a Terra numa espaçonave. Os construtores da espaçonave não puderam vir


por causa da enormidade de tempo exigida para uma viagem interestelar.
Assim, enviaram bactérias capazes de sobreviver à viagem e às severas
condições que lhes teriam saudado na sua chegada à Terra primitiva.
Que tipo de evidência científica apóia a panespermia dirigida? Crick
escreveu que se a teoria for verdadeira, devemos esperar que os microrga­
nismos celulares apareceram de súbito, sem evidência de que qualquer for­
ma mais simples nos precederam. Deveríamos também esperar descobrir
que as formas primitivas fossem distantemente relacionadas, mas altamente
distintas, sem nenhuma evidência de. ancestrais porque esses existiram so­
mente no planeta original. Essa expectativa encaixa os fatos de maneira
perfeita, porque a arqueobactéria e a eubactéria são ao mesmo tempo muito
diferentes para terem evoluído de um ancestral comum no tempo disponí­
vel, e ainda também muito semelhantes (compartilhando a mesma lingua­
gem genética) para não terem uma origem comum em algum lugar. Os que
são tentados a ridicularizar a panespermia dirigida devem se conter, porque
os extraterrestres de Crick não são mais invisíveis do que o universo de
ancestrais que os darwinistas com os pés na terra têm de invocar.
Crick desdenharia de qualquer cientista que desistisse da pesquisa cien­
tífica e atribuísse a origem da vida a um Criador sobrenatural. Mas a pa­
nespermia dirigida vem dar na mesma coisa. As mesmas limitações que
impossibilitaram os extraterrestres de viajar para a Terra impossibilitarão
os cientistas a que jamais inspecionem o planeta deles. A investigação cien­
tífica da origem da vida está efetivamente fechada como se Deus tivesse
reservado o assunto apenas para si mesmo.
Quando um cientista do calibre de Crick acha que tem de invocar es-
paçonautas indetectáveis, já é hora de considerar se o campo de evolução
pré-biológica chegou a um beco sem saída. E, mesmo assim, apesar da au­
sência de êxito experimental, muitos cientistas permanecem confiantes de
que o problema será resolvido num futuro previsível. Para entender essa
confiança, precisamos examinar a pergunta intelectual mais importante
no campo - a maneira como os cientistas definem a “vida” cuja origem
eles tentam descobrir.
No livro Seven Clues to the Origin ofLife , A. G. Caims-Smith explica a
concepção darwinista da vida que forma a base do campo da evolução pré-
biológica. “A vida é um produto da evolução”, ele escreveu, e o elemento
indispensável na evolução é a seleção natural. Isso significa que o propósito
de uma coisa viva “é sobreviver, competir, reproduzir sua espécie contra as
probabilidades”. Portanto, o objetivo da ciência pré-biológica é o de des­
cobrir (ou. pelo menos imaginar) a mais simples combinação de elementos
químicos que possam ser capazes de competir e se reproduzir de modo que
A evolução pré-biológico

a seleção natural possa começar sua obra. Nessa visão, a seleção natural não
é apenas algo que acontece à vida, é a característica definidora de vida.
Quando a “vida” é definida como matéria evoluindo por seleção natural,
há toda a razão em estar confiante de se encontrar uma explicação evolutiva
para sua origem. Se Darwin decerto explicou, em 1859, como todas as for­
mas de vida complexas e diversas podem evoluir de um só microrganismo,
então certamente nossa ciência muito mais avançada não será mais impedi­
da no passo final. Mas e se Darwin estivesse errado e a seleção natural não
tenha o fantástico poder criativo que os darwinistas lhe creditam? Nesse
caso, a ciência pré-biológica tem concebido de maneira errônea o proble­
ma, e seus esforços estão condenados à futilidade assim como foram os
esforços dos alquimistas medievais de transformar chumbo em ouro.
A definição darwinista de vida é a preferência filosófica de Cairns-
Smith. Contudo, quando ele descreve o que realmente vê, fala de algo
muito diferente:

Afinal de contas, o que nos impressiona a respeito de uma coisa viva


é a sua ingenuidade inerente, sua aparência de ter sido projetada,
elaborada, de ter sido montada com um propósito... A característica
singular é a [enorme] lacuna entre a mais simples versão concebível
de organismos como os conhecemos, e os componentes que a Terra
possa razoavelmente ter sido capaz de gerar. Mas o problema real
surge porque a complexidade em demasia parece ser necessária para
todo o modo no qual os organismos funcionam.

Caims-Smith também descreve as “mensagens” contidas na informa­


ção genética armazenada na “biblioteca” de cada célula de DNA, que são
transcritas e traduzidas para dirigir a síntese das proteínas. Sua linguagem
é na totalidade semelhante à dos outros que escrevem sobre este assunto:
praticamente todos enfatizam a aparência de design e propósito, a comple­
xidade imensa da célula mais simples, e a aparente necessidade de muitos
componentes complexos funcionando juntos para sustentar a vida. Todos
usam o vocabulário de comunicação inteligente para descrever a síntese
da proteína: mensagens, instruções programadas, linguagens, informação,
codificação e decodificação, bibliotecas.
Por que não considerar a possibilidade de que a vida é o que tão eviden­
temente parece ser, o produto de uma inteligência criadora?4A ciência não
chegaria a um fim, porque a tarefa permaneceria a de decifrar as linguagens
nas quais a informação genética é comunicada, e em geral no descobrir

4 A resposta de Cairns-Smith é que ele se inclina para o “preconceito da maioria”, que é “o exorcis-
•mo [de forças sobrenaturais] que Darwin iniciou e que continuará mesmo até a origem da vida”.
DARWIN no banca dos réus

de como funciona todo o sistema. O que os cientistas perderiam não é um


programa de pesquisas inspirador, mas a ilusão de domínio total da nature­
za. Teriam de enfrentar a possibilidade que além do mundo natural há uma
realidade mais além que transcende a ciência.
Todavia, encarar essa possibilidade é absolutamente inaceitável, razão
por que é o assunto dos próximos dois capítulos.
Capítulo 9

As regras
da ciência
m 1981, o Legislativo do Estado de Arkansas aprovou uma lei exigindo

E “tratamento igual para a ciência da criação e ciência da evolução”. Os opo­


nentes moveram uma ação na corte federal local para que a lei fosse decla­
rada inconstitucional, e se armou o cenário para uma disputa muito desigual.
A lei do Estado de Arkansas foi obra de ativistas ingênuos que não
tinham nenhuma idéia de como atrair apoio fora do seu próprio campo mui­
to fundamentalista. Conseqüentemente, enfrentaram poderosa coalizão de
grupos ansiosos em defender a ciência e a religião liberal contra os reli­
giosos extremistas. A coalizão incluía não só as principais associações de
cientistas e educadores, mas também a American Civil Liberties Union1 e
uma tropa impressionante de indivíduos e organizações representando o
Cristianismo e o Judaísmo mais socialmente aceitos e importantes.
A coalizão também tinha os serviços de uma equipe de primeira classe
de advogados processuais cedidos por um dos maiores e melhores escri­
tórios de advocacia dos Estados Unidos. Esses especialistas em “grandes
casos” de ação judicial sabiam como selecionar e preparar líderes religiosos
e científicos a darem testemunho de especialista no assunto que estabelece-

1N. do T.: A Aclu é a Associação Americana para as Liberdades Civis. Conhecida por se posicio­
nar contra algumas liberdades civis dos conservadores.
DARWIN no banco dos réus

ria a ciência da criação como um absurdo indigno de consideração séria. A


ciência ortodoxa ganhou o caso por um ano-luz de diferença.
A decisão do juiz William Overton reduziu a parte mais importante da
declaração das testemunhas especializadas no assunto, em particular o fi­
lósofo de ciência darwinista Michael Ruse, e forneceu uma definição de
“ciência” que deixou bem claro por que não pode haver qualquer coisa cha­
mada de “ciência da criação”. O juiz Overton começou definindo ciência
como sendo o que for “aceito pela comunidade científica”, significando, é
claro, a comunidade científica oficial. Aquilo em si mesmo não era muito
informativo, mas o juiz prosseguiu na especificação de cinco características
essenciais da ciência:

(1) É guiada por lei natural.


(2) Tem de ser explanadora se referindo à lei natural.
(3) É testável em relação ao mundo empírico.
(4) Suas conclusões são provisórias - isto é, não é necessariamente a
palavra final.
(5) É falsificável.

A ciência da criação não preenche esses critérios, de acordo com o juiz


Overton, porque apela para o sobrenatural, e daí não é testável, falsificável,
ou “explanadora se referindo à lei natural”. Como uma típica ilustração da
não natureza não-científica das afirmações criacionistas, o juiz citou a se­
guinte declaração pelo cientista da criação Duane Gish:

Nós não sabemos como Deus criou, quais processos ele usou, pois
Deus usou de processos que hoje não operam em nenhum lugar no
universo natural. É por isso que nos referimos à criação divina como
Criação Especial. Não podemos descobrir pela investigação científica
qualquer coisa sobre os processos criativos usados por Deus.

Ao mesmo tempo, o juiz Overton indignamente negou a reivindicação


criacionista de que “a crença num criador e a aceitação da teoria científica
da evolução são mutuamente exclusivas”, descrevendo essa opinião como
sendo “ofensiva às opiniões religiosas de muitas pessoas”.
Filósofos da ciência têm encontrado muitas faltas com a definição do
juiz Overton, e têm destacado que Ruse e os outros especialistas se saíram
bem com uma enganação filosófica. Esses críticos destacaram que os cien­
tistas não são, no mínimo, “provisórios” nos seus compromissos básicos,
incluindo seus compromissos com a evolução. Além disso, os cientistas têm
estudado com freqüência os efeitos de um fenômeno (como a gravidade)
As regras da ciência

que não puderam explicar por lei natural. Finalmente, os críticos observa­
ram que a ciência da criação faz afirmações específicas bem empíricas (uma
Terra jovem, um dilúvio universal, criação especial), que a ciência tem dito
serem comprovadamente falsas. Como podem as mesmas afirmações serem
tanto demonstravelmente falsas e não falsificáveis?
Contudo, se a definição de ciência de Ruse-Overton falhou em satisfazer
os filósofos, encantou o esíablishment científico. A principal revista cientí­
fica Science ficou tão entusiasmada que republicou toda a opinião como um
artigo importante. A opinião resumia o modo como muitos cientistas ativos
consideram seu empreendimento, o que faz disso bom ponto inicial para
discutir o que a ciência inclui e exclui.
Não estou interessado em quaisquer afirmações que são baseadas numa
leitura literal da Bíblia, nem entendo o conceito de criação de maneira tão
estreita quanto entende Duane Gish. Se um Criador onipotente existe, ele
pode ter criado as coisas de maneira instantânea numa única semana ou
através de uma evolução gradual ao longo de bilhões de anos. Ele pode
ter empregado meios totalmente inacessíveis para a ciência, ou mecanis­
mos que são, pelo menos em parte, compreensíveis através da investigação
científica.
O ponto essencial da criação não tem nada a ver com o tempo ou o me­
canismo que o Criador escolheu empregar, mas com o elemento de design
ou propósito. No sentido mais amplo, um “criacionista” é simplesmente
uma pessoa que acredita que o mundo (e especificamente a humanidade) foi
planejado e existe para um propósito. Com o ponto definido desse modo,
a questão se toma: A ciência convencional se opõe à possibilidade de que
o mundo natural foi planejado por um Criador com um propósito? Se for
assim, em qual base?
O juiz Overton foi persuadido que a “criação” (no sentido geral de de­
sign) é consistente com a “evolução” no sentido científico, Nesse sentido,
ele estava errado, ou antes, foi enganado. Quando os biólogos evolucionis-
tas falam de “evolução”, não se referem a um processo que foi ou pudesse
ter sido guiado por um Criador sobrenatural. Eles querem dizer evolução
naturalista, um processo puramente materialista que não tem nenhuma di­
reção e não reflete nenhum propósito consciente. Por exemplo, é assim que
George Gaylord Simpson definiu “o significado da evolução”:

Embora muitos detalhes ainda precisem ser resolvidos, já é evidente


que todos os fenômenos objetivos da história da vida podem ser ex­
plicados por fatores puramente naturalistas ou, num próprio sentido de
uma palavra que tem sido algumas vezes abusada, de fatores materia­
listas. Eles já são explicáveis na base de reprodução diferencial nas po-
120 DARWIN no banca das raus

pulações (o principal fator na concepção moderna de seleção natural)


e da inter-relação principalmente aleatória de conhecidos processos
hereditários... O ser humano é o resultado de umprocesso natural des­
provido de propósito que não o tinha em mente. [Ênfase adicionada.]

Porque o establishment científico tem achado prudente encorajar um grau


de confusão nesse ponto, devo enfatizar que o ponto de vista de Simpson não
era alguma opinião pessoal estranha à sua disciplina científica. Ao contrário,
ele meramente declarava de modo explícito o que os darwinistas querem
dizer com “evolução”. A mesma compreensão é expressa em incontáveis
livros e artigos, e onde não é expressa está muito implícita. Não se engane a
respeito disso. Na visão darwinista, que é a visão oficial da ciência conven­
cional, Deus não teve nada a ver com a evolução.2
A evolução, teísta ou “dirigida” tem de ser excluída como uma possibilidade
porque os darwinistas identificam a ciência com uma doutrina filosófica conhe­
cida como naturalismo,3O naturalismo supõe que todo o domínio da natureza
seja um sistema fechado de causas e efeitos materiais, que não podem ser in­
fluenciados por nada do “exterior”. O naturalismo não nega explicitamente a
mera existência de Deus, mas ele nega que um ser sobrenatural possa de algum
modo influenciar os eventos naturais, tal como a evolução, ou se comunicar
com as criaturas naturais como nós mesmos. O naturalismo científico faz o
mesmo argumento começando com a suposição de que a ciência, que estuda
somente o natural, é o nosso único caminho confiável ao conhecimento. Um
Deus que não pode nunca fazer algo que faça uma diferença, e de quem não
podemos ter conhecimento confiável, não é de importância para nós.
O naturalismo não é algo acerca do qual os darwinistas possam permitir
ser provisório, porque a ciência deles é baseada nele. Como já vimos, a

2 Uma segunda passagem do livro de Simpson, The Meaning o f Evolution, esclarece a relação entre
o naturalismo e o ateísmo. Os naturalistas científicos não são, necessariamente, oponentes da “exis­
tência de Deus”, desde que Deus seja definido como uma Primeira Causa inatingível e não como um
Criador que tenha um papel ativo na natureza ou nos negócios humanos. Nas palavras de Simpson:
Não há nem necessidade ou desculpa para postular a intervenção imaterial na origem
da vida, no surgimento do ser humano, ou de qualquer outra parte da longa história do
cosmos material. Mas a origem daquele cosmos e os princípios causais de sua história
permanecem inexplicados e inacessíveis para a ciência. Ele é a Primeira Causa escondi­
da buscada pela teologia e filosofia. A Primeira Causa não é conhecida e suspeito que ela
nunca será conhecida ao ser humano vivo. Nós podemos, se estivermos assim inclina­
dos, adorá-lo em nossas próprias maneiras, mas certamente não o compreendemos.

3 Uma variedade de termos tem sido usada na literatura para designar a posição filosófica que cha­
mo de naturalismo científico. Por propósitos atuais, os seguintes termos podem ser todos considerados
equivalentes: naturalismo científico, naturalismo evolucionista, materialismo científico e cientismo. To­
dos esses termos implicam que a investigação científica é ou o caminho exclusivo para o conhecimento
ou pelo menos o caminho muito mais confiável, e que somente os fenômenos naturais ou materiais são
reais. Em outras palavras, o que a ciência não pode estudar é efetivamente irreal.
As regras da ciÊncia 121
Æ

evidência positiva de que a evolução darwinista pode produzir ou tem pro­


duzido inovação biológica importante é inexistente. Os darwinistas sabem
que o mecanismo de mutação-seleção pode produzir asas, olhos e cérebros
não porque o mecanismo possa ser observado fazendo qualquer coisa do
tipo, mas porque sua filosofia orientadora lhes garante que nenhum outro
poder está disponível para fazer o serviço. A ausência de qualquer Criador
do cosmos é, portanto, o ponto de partida essencial para o darwinismo.
Os primeiros dois elementos da definição do juiz Overton expressam o
compromisso da ciência com o naturalismo. Os três elementos remanescen­
tes declaram seu compromisso com o empirismo. Um bom empirista insiste
que as conclusões sejam apoiadas pela observação ou experimento, e está de­
sejoso em descartar até as doutrinas mais estimadas se elas não se adequaram
à evidência. Supõe-se erroneamente com ffeqüência que o naturalismo e o
empirismo são quase que a mesma coisa, mas eles não são. No caso do darwi­
nismo, esses dois princípios fundamentais da ciência estão em conflito.
O conflito aparece porque a criação pela evolução darwinista é mais
observável com mais dificuldade do que a criação sobrenatural por Deus. A
seleção natural existe, sem dúvida, mas ninguém tem evidência de que ela
possa realizar algo que remotamente lembre os atos criativos que os darwi­
nistas lhe atribuem. Todo o registro fóssil testifica que qualquer “evolução”
que possa ter ocorrido não foi o processo de mudança gradual em linhagens
contínuas que o darwinismo insinua. Como uma explicação de como or­
ganismos complexos passaram a existir em primeiro lugar, é pura filosofia.
Se o empirismo fosse o valor principal em jogo, o darwinismo há muito
tempo teria sido limitado à microevolução, na qual ele não teria implica­
ções teológicas ou filosóficas importantes. Tal limitação não implicaria na
aceitação do criacionismo, mesmo na definição menos restritiva desse ter­
mo. O que isso realmente implicaria é que o establishment científico após
1859 foi arrebatado pelo entusiasmo, e pensou que tinha provado toda uma
história da criação quando tinha somente preenchido alguns detalhes. Se os
darwinistas aceitassem a primazia do empirismo, poderiam ainda ter espe­
ranças de no fim encontrar uma explicação naturalista de tudo, mas por ora
têm de admitir que cometeram grande erro.
Essa admissão ainda não veio, porque o empirismo não é o valor prin­
cipal em jogo. A prioridade mais importante é manter a cosmovisão natura­
lista e com ela o prestígio da “ciência” como a fonte de todo conhecimento
importante. Sem o darwinismo, o naturalismo científico não teria nenhuma
história da criação. Bater em retirada numa questão dessa importância seria
catastrófico para o establishment darwinista, e abriria a porta para todos os
tipos de falso profeta e de charlatão (pelo menos como são considerados
pelos naturalistas) que teriam de preencher a lacuna.
122 DARWIN no banca das réus

Para evitar tal catástrofe, os defensores do naturalismo devem impor


regras de procedimento para a ciência que excluem pontos de vista opo­
nentes. Com isso feito, o próximo passo crítico é tratar a “ciência” como
equivalente à verdade e a não-ciência como equivalente à fantasia. As con­
clusões da ciência podem então ser enganosamente mostradas como refu­
tando argumentos que foram de fato desqualificados de consideração já de
início. Enquanto os naturalistas científicos fazem as regras, os críticos que
exigirem evidência positiva para o darwinismo não precisam ser levados a
sério. Eles não entendem “como a ciência funciona”.
Não quero dizer com isso que os naturalistas científicos fazem algumas
dessas coisas com a intenção de enganar. Ao contrário, como regra estão
tão impregnados de suposições naturalistas que eles estão cegos para os ele­
mentos arbitrários de seu pensamento. Por exemplo, examine com cuidado
a seguinte passagem de The Dreams o f Reason, um livro sobre o raciocínio
científico, de Heinz Pageis:

Tão poderoso é o método [científico-experimental] que virtualmente


tudo que os cientistas sabem sobre o mundo natural vem dele. O que
descobrem é que a arquitetura do universo é sem dúvida construída de
acordo com regras universais invisíveis, aquilo que chamo de código
cósmico - o código de construção do Demiurgo.4 Exemplos desse códi­
go cósmico são os quantas e a teoria da relatividade, as leis da combina­
ção química e a estrutura molecular, as regras que governam a síntese de
proteínas e como os organismos são feitos, para citar somente algumas.
Os cientistas, ao descobrirem esse código, decifram a mensagem oculta
do Demiurgo, os truques que utilizou ao criar o universo. Nenhuma
mente humana poderia ter organizado qualquer mensagem tão coerente
e isenta de falhas, tão estranhamente imaginativa, e algumas vezes por
completo bizarra. Deve ser a obra de uma inteligência alienígena.
... Se Deus é a mensagem, escreveu a mensagem, ou se ela escre­
veu a si mesma, não é importante para nossa vida. Podemos cuidado­
samente deixar a idéia tradicional do Demiurgo, pois não há evidên­
cia científica para um Criador do mundo natural, nenhuma evidência
para uma vontade ou um propósito que vá além das conhecidas leis
da natureza. Até mesmo a evidência da vida na Terra, que promoveu
o convincente “argumento de design'’ para [a existência de] um Cria­
dor, pode ser atribuída pela evolução. [Pageis menciona para seus
leitores livros escritos por Dawkins e Gould como evidência.] Assim,
temos uma mensagem sem um remetente.

4 “Demiurgo” é um termo derivado da filosofia grega e da heresia gnóstica do Cristianismo primi­


tivo. Os gnósticos consideravam a matéria como uma coisa má e pensavam que Deus não a teria criado,
e por isso atribuíram o mundo material ao Demiurgo, uma divindade inferior que identificavam algumas
vezes com o Deus do Velho Testamento.
As regras da ciência 123

O primeiro parágrafo daquela passagem nos informa que a presença de


design inteligente no cosmos é tão óbvia que até um ateu como Pageis não
pode fazer outra coisa a não ser tomar conhecimento dele, e escrever de
maneira extravagantemente entusiasmada sobre isso, nomeando o Criador
de “Demiurgo”. O segundo parágrafo salienta de modo informal que não
há evidência científica para um Criador. O que faz da passagem uma boa
ilustração da mentalidade naturalista científica é que Pageis supõe todos os
pontos críticos. O que parecia ser uma evidência a favor do Criador se tor­
nou absolutamente nenhuma evidência, porque a evidência científica para
algo que vai além das leis da natureza seria uma contradição em termos.
Por outro lado, a evidência da “evolução” (que pode significar nada mais do
que microevolução mais a existência de relacionamentos naturais) de forma
automática exclui a possibilidade de design. A filosofia naturalista controla
sua mente tão completamente que Pageis pode olhar com fixação na evi­
dência de design inteligente, descrevê-lo como tal e ainda assim não vê-lo.
A “vontade do Criador” é um conceito no geral reconhecido como estando
totalmente além do alcance da ciência natural. Para um claro entendimento,
isso significa que a ciência não pode nos dizer se há ou não uma vontade ou
um propósito transcendentes que vão além das leis da natureza. Todavia, para
um naturalista científico, “fora da ciência” significa fora da realidade.
É por isso que os naturalistas científicos podem, em sã consciência, di­
zer num momento que não lidam com Deus ou com a religião, e então
no momento seguinte fazer declarações radicais sobre a falta de propósito
do cosmos. O que outras pessoas entendem como as limitações da ciência
são torcidas para limitações sobre a realidade, porque para os naturalistas
científicos a noção de que poderia haver uma realidade fora da ciência é
literalmente impensável.
Esse modo de pensar é encorajado pelo modo como a ciência empre­
ga os paradigmas como conceitos organizadores em orientar pesquisa. De
acordo com o famoso modelo de Thomas Kuhn, o progresso da ciência é
muito parecido com a teoria da evolução por equilíbrio pontuado de Gould
e Eldredge. Os períodos de estase, a “ciência normal” de Kuhn, são ponti­
lhados por revoluções na forma de “mudanças paradigmáticas”, em que um
modo de pensar sobre o assunto é substituído por outro. Como outras teo­
rias filosóficas, o modelo de Kuhn tem de ser aplicado com cuidado. Mas
quaisquer que sejam suas limitações como uma descrição de ciência em
geral, ele fornece um quadro iluminador da metodologia do darwinismo.
O mais importante dos conceitos de Kuhn é o paradigma, que não é uma
mera teoria ou hipótese, mas um modo de olhar o mundo, que é influen­
ciado pelo preconceito cultural bem como pela observação e experiência
científicas. De acordo com Kuhn, “um elemento aparentemente arbitrário,
124 DARWIN no banco dos réus

composto de acidente pessoal e histórico, é sempre um ingrediente for­


mativo das crenças esposadas por dada comunidade científica num dado
tempo”. Os cientistas, como o restante de nós, vêem a realidade através da
neblina de idéias e suposições que constituem o paradigma.
Quando um paradigma se torna estabelecido, serve como o principal
organizador para a pesquisa científica. Isso significa que ele define as
questões que precisam ser respondidas e os fatos que precisam ser reu­
nidos. Enquanto o paradigma permanecer efetivamente não desafiado, a
“ciência normal” continua elaborando suas implicações teórico-práticas
e a resolver os “enigmas” criados pelos fatos que parecem não encaixar
as explicações do paradigma. A ciência pode fazer grandes progressos
durante esses períodos, porque os cientistas compartilham de um enten­
dimento comum do que eles tentam fazer e como eles deveriam tentar
fazê-lo, e eles não se distraem pelas incertezas a respeito de suposições
fundamentais. De acordo com Kuhn:

Examinada de perto, seja historicamente ou no laboratório contem­


porâneo, [a ciência normal] parece uma tentativa de forçar a natureza
numa caixa pré-formada e de modo relativo inflexível que o paradigma
fornece. Nenhuma parte do objetivo da ciência normal é o de evocar
novos tipos de fenômeno. Na verdade, aqueles que não se encaixam
frequentemente não são vistos de modo algum. Os cientistas não obje­
tivam inventar outras teorias, e com assiduidade são intolerantes com
as teorias inventadas pelos outros. Em vez disso, a pesquisa científica
normal é dirigida para a articulação daqueles fenômenos e teorias que
o paradigma já fornece. [Ênfase acrescentada.]

Alguns enigmas se revelam recalcitrantes de solução e as “anomalias”


gradualmente se acumulam. Essas anomalias não ameaçam o domínio do
paradigma enquanto a pesquisa prossegue de maneira satisfatória em outros
aspectos. Até mesmo um paradigma relativamente inadequado pode definir
um campo de ciência e colocar uma agenda de pesquisa, e pode levar um
longo tempo até que os cientistas se convençam de que alguns problemas
importantes nunca serão resolvidos dentro dos conceitos do paradigma exis­
tente. Como Kuhn o descreveu, o compromisso intenso com o paradigma
produz tanto o sucesso da ciência normal como uma crise inevitável:

A ciência normal, a atividade na qual a maioria dos cientistas inevita­


velmente passa quase que todo o seu tempo, é baseada na suposição de
que a comunidade científica sabe como é o mundo. Muito do sucesso
do empreendimento deriva da vontade da comunidade em defender
aquela suposição, se necessário a um custo considerável. A ciência
As regras da ciência 125

normal, por exemplo, com freqüência suprime novidades fundamen­


tais porque, necessariamente, são subversivas aos seus compromissos
básicos. Contudo, enquanto aqueles compromissos retiverem um ele­
mento do arbitrário, a própria natureza da pesquisa normal garante que
a novidade não será suprimida por muito tempo.

Por fim, toma-se impossível negar que há problemas que não podem ser
resolvidos dentro do modo aceito de ver as coisas. Nesse ponto, um estado
de “crise” é atingido, e o campo parece ameaçado por uma confusão e caos
em todas as partes. A crise é resolvida pela emergência de novo paradigma,
e a ciência normal pode, mais uma vez, prosseguir com confiança.
Uma definição de ciência influente que o modelo de Kuhn desafiou foi o
critério de “falseabilidade” do filósofo Karl Popper, que apesar disso reapa­
receu como um elemento na definição [de ciência] do juiz Overton. Popper
pensou que uma teoria ou hipótese era científica somente na medida em
que, em princípio, fosse capaz de ser demonstrada falsa através de teste em­
pírico. O problema com esse critério é que é impossível testar cada proposi­
ção científica importante isoladamente. Deve-se fazer suposições básicas a
fim de que afirmações detalhadas possam ser testadas. O paradigma é feito
de suposições básicas que definem a cosmovisão científica corrente.
O paradigma não é meramente uma hipótese, que pode ser descartada se
falhar a um só teste experimental. É um modo de ver o mundo, ou alguma
parte dele, e os cientistas até entendem as anomalias pelos seus termos. De
acordo com Kuhn, as anomalias em si mesmas nunca falseiam um paradig­
ma, pois seus defensores podem recorrer a hipóteses ad hoc para acomodar
qualquer evidência potencialmente não confirmadora. Um paradigma reina
até que é substituído por outro, porque “rejeitar um paradigma sem substi­
tuí-lo por outro é rejeitar a própria ciência”. A regra contra “argumentação
negativa” que a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos invo­
cou no caso da Suprema Corte foi uma aplicação dessa lógica.
Quando novo paradigma emerge, faz mais do que explicar as anoma­
lias: ele reorienta a perspectiva de modo tão forte que as antigas anomalias
podem não mais parecer serem meros fatos, mas virtuais tautologias, decla­
rações de situações que concebivelmente não poderiam ter sido o contrá­
rio. Portanto, não é tão excepcional como possa ter parecido que cientistas
renomados tenham louvado a teoria de Darwin como profunda tautologia,
ou declarado-a como sendo uma proposição logicamente auto-evidente que
não exige confirmação empírica. Uma tautologia ou inevitabilidade lógica é
com precisão o que a teoria parece ser para eles: ela descreve uma situação
que, concebivelmente, não poderia ter sido o contrário. Dessa perspectiva,
a evidência “não confirmadora” é, com profundeza, desinteressante.
IZG DARWIN na banca das réus
is
Kuhn descreveu a evidência experimental mostrando que as pessoas co­
muns tendem ver o que elas foram treinadas a ver, e falham em ver aquilo
que sabem que não deveria estar presente. Os cientistas mais excelentes não
são a exceção, ao contrário, porque dependem de inferências e observações
que são difíceis de fazer, eles são particularmente inclinados à percepção
errônea influenciados pelo paradigma.
Kuhn citou exemplos de fenômenos celestiais visíveis que não foram
“vistos” até que o novo paradigma astronômico de Copémico legitimou
sua existência. Se Kuhn tivesse escolhido a biologia evolutiva como um
assunto de estudo, teria arriscado ser denunciado como um criacionista.
Como vimos no Capítulo 4, o padrão disseminado de estase no registro
fóssil passou muito tempo despercebido porque, para os darwinistas, isso
não valia a pena ser descrito. O problema de se considerar somente uma
parte da questão não é algo que pode ser esperado desaparecer à medida que
a ciência se toma mais sofisticada. Ao contrário, à medida que o financia­
mento essencial [de pesquisas científicas] fica cada vez mais sob o controle
centralizado do governo, os pesquisadores não têm alternativa a não ser se
concentrar na agenda colocada pelo paradigma.
Um novo paradigma não propõe meramente respostas diferentes às ques­
tões que os cientistas perguntam, ou explicar os fatos de maneira diferente:
ele sugere questões inteiramente desiguais e possibilidades factuais dife­
rentes. Por essa razão, os paradigmas oponentes são, até certo ponto, “inco­
mensuráveis”, no sentido de que seus respectivos aderentes acham difícil se
comunicar de modo inteligível uns com os outros. A idéia brilhante de Kuhn
nesse aspecto é particularmente verdadeira quando o paradigma não é uma
teoria científica específica, mas um amplo ponto de vista filosófico.
Para citar um exemplo de minha experiência pessoal, é inútil tentar en­
gajar um naturalista científico numa discussão sobre se a teoria da evolução
neodarwinista é verdadeira. A resposta provável é que o neodarwinismo
é a melhor explicação científica que temos, e isso significa que é nossa
aproximação mais detalhada da verdade. Os naturalistas geralmente conce­
derão que qualquer teoria pode ser melhorada, e que nosso entendimento da
evolução naturalista um dia pode ser muito maior do que é agora. Por outro
lado, questionar se a evolução naturalista em si é verdade é falar bobagem.
A evolução naturalista é a única explicação concebível para a vida, e por
isso o fato de a vida existir prova que ela é verdadeira.
É fácil perceber por que o naturalismo científico é uma filosofia atraente
para os cientistas. Ela dá à ciência um monopólio virtual na produção do
conhecimento, e assegura aos cientistas que nenhuma questão importante,
em princípio, está além da investigação científica. Todavia, a questão im­
portante é se esse ponto de vista filosófico é meramente um preconceito
As regras da ciência 127

profissional compreensível ou se é o modo objetivamente válido de com­


preensão do mundo. Essa é a questão real por trás da campanha promocio­
nal em fazer da evolução naturalista um dogma fundamental da sociedade,
ao qual todos devem ser convertidos.
Se o naturalismo científico deve ocupar uma posição cultural dominan­
te, deve fazer mais do que fornecer informação sobre o universo físico. Ele
deve derivar as implicações espirituais e éticas de sua história da criação.
Resumindo, a evolução deve se tomar uma religião. Veremos nos capítulos
seguintes como isso tem sido feito.
Capítulo ID

A religião
darwinista
prefácio de 1984 do panfleto Science and Creationism: A Viewfrom the

D National Academy o f Sciences,1assinado pelo presidente da academia,


Frank Press, garantiu à nação que “é falso... pensar que a teoria da
evolução represente um conflito irreconciliável entre a religião e a ciência”.
Doutor Press explicou:

Grande número de líderes religiosos aceita a evolução em bases cien­


tíficas sem abandonar suas crenças em princípios religiosos. Contu­
do, conforme declarado na resolução pelo Conselho da Academia
Nacional das Ciências, em 1981, “religião e ciência são domínios
separados e mutuamente exclusivos do pensamento humano, cuja
apresentação dentro do mesmo contexto leva ao mau entendimento
da teoria científica e da crença religiosa”.

A preocupação da academia foi somente a de justificar sua oposição à ci­


ência da criação, e não se sentiu obrigada em explicar qual “religião” pode­
ria ser, ou sob quais circunstâncias o domínio religioso pode se habilitar ao
direito de proteção de incursões da ciência. Todavia, Stephen Jay Gould ti­

1N. do X: “Ciência e Criacionismo: uma visão da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos”.
A religião darwinista

nha algo mais a dizer sobre esse assunto na sua réplica à acusação de Irving
Kristol de que o neodarwinismo, conforme ensinado atualmente, incorpora
“um preconceito ideológico contra a crença religiosa”. Gould respondeu
que a maioria dos cientistas não mostra hostilidade para a religião, porque
sua matéria “não cruza com os assuntos da teologia”:

A ciência não pode mais responder a pergunta de como devemos


viver do que a religião pode decretar a idade da Terra. Cientistas res­
peitáveis e perspicazes (a maioria de nós, acredito) têm sempre en­
tendido que os limites sobre o que a ciência pode responder também
descrevem o poder de seu método em seu próprio domínio. Darwin
mesmo exclamou que a ciência não podia tocar no problema do mal
e semelhantes enigmas morais: “Um cachorro pode muito bem espe­
cular sobre a mente de Newton. Que cada homem tenha esperança e
acredite no que ele pode”.

A nota de esclarecimento de Gould-Darwin contém uma ambigüidade


importante. Se a ciência não pode nos dizer nada sobre como devemos vi­
ver, isso significa que o conhecimento a respeito desse assunto pode ser
obtido através da religião, ou significa que não podemos saber nada mais
a respeito do bem e do mal do que um cachorro sabe sobre a mente de
Newton? Cada homem pode ter esperança e acreditar quanto puder, mas
há alguns que diriam que as esperanças e as crenças são meras expressões
subjetivas de sentimento, um pouco mais do que bobagem sentimental, a
menos que elas se apoiem no alicerce firme do conhecimento científico.
Um darwinista que diz exatamente isso é William Provine, professor da
Universidade Comell, um eminente historiador de ciência. Provine insiste
que o conflito entre ciência e religião é inescapável, a ponto de as pessoas que
conseguiram reter crenças religiosas enquanto aceitam a biologia evolutiva
“ter de conferir [seu] cérebro na entrada da igreja”. Especificamente:

A ciência moderna implica de forma direta que o mundo é organizado


estritamente de acordo com princípios mecanicistas. Não há quaisquer
princípios cheios de propósito na natureza. Não há deuses nem for­
ças de design que sejam detectáveis com racionalidade... Em segundo
lugar, a ciência moderna implica diretamente que não há leis morais
ou éticas inerentes, nem princípios guiadores absolutos para a socie­
dade humana. Em terceiro lugar, os seres humanos são máquinas ma­
ravilhosamente complexas. O indivíduo humano se toma uma pessoa
ética por meio de dois mecanismos primários: herança e influências
ambientais. Isso é tudo que existe. Em quarto lugar, devemos concluir
que quando morremos, morremos e isso é o nosso fim... Por último, o
livre-arbítrio, como é por tradição concebido - a liberdade para fazer
130 DARWIN na banco dos réus

escolhas não forçadas e imprevisíveis entre cursos de ações alterna­


tivas possíveis - simplesmente não existe... Não há meio pelo qual o
processo evolutivo, como é concebido hoje em dia, possa produzir um
ser qué seja verdadeiramente livre para fazer escolhas.

Gould assegurou a Kristol que entre os biólogos evolucionistas há


“todo um espectro de atitudes religiosas - desde devota oração diária e
adoração até ao ateísmo resoluto”. Eu mesmo tenho percebido muito mais
desse último do que do primeiro, e Provine concorda comigo. Ele relata
que a maioria dos biólogos evolucionistas é de ateus “e muitos foram
levados a isso pelo seu entendimento do processo evolutivo e outra ciên­
cia”. Os poucos que não vêem nenhum conflito entre sua biologia e sua
religião “ou são obtusos ou divididos no seu pensamento, ou são ateus
efetivamente sem perceberem isso”. As organizações científicas escon­
dem o conflito por temerem colocar em risco as subvenções para a pes­
quisa científica, ou porque elas pensam que a religião exerce um papel útil
na educação moral. De acordo com Provine, que tinha na mente especi­
ficamente a declaração de 1984 da academia, “essas racionalizações são
políticas, mas intelectualmente desonestas”.
Não é difícil reconciliar todas essas declarações, uma vez que nós de­
sembaracemos a terminologia confusa. A academia está literalmente corre­
ta em que não há incompatibilidade entre “evolução” e “religião”. Quando
esses termos não são definidos de maneira específica, nenhum tem bastante
conteúdo para ser incompatível com qualquer outra coisa. Nem há qualquer
conflito entre evolução e religião teísta. Deus pode muito bem ter “criado”
através do desenvolvimento gradual de um tipo de criatura com base em
outros tipos. A evolução desse tipo não é o que os cientistas têm em mente,
mas eles nada têm a ganhar fazendo isso claro para o público.
O comentário de Gould é igualmente errôneo. A maioria dos naturalis­
tas científicos aceita o que é chamado de “distinção de fato-valor”, e não
afirmam que uma descrição científica do que “é” possa levar diretamente a
uma teoria do que “devemos” fazer. Por outro lado, não consideram todas
as declarações sobre ética como sendo igualmente racionais. Uma pessoa
racional começa com o que é conhecido e real em vez do que é desconheci­
do e irreal. Como George Gaylord Simpson explicou a questão:

É claro que há algumas crenças que ainda são atuais, rotuladas como
religiosas e envoltas em emoções religiosas, que são no total incom­
patíveis com a evolução e, portanto, são intelectualmente insustentá­
veis apesar do seu apelo emocional. Contudo, agora considero como
auto-evidente, não exigindo mais discussão especial, que a evolução
e a verdadeira religião são compatíveis.
A religião darwinista
/ I
Uma teoria científica que estabelece o limite entre a religião falsa e a
verdadeira não é decerto “anti-religiosa”, mas ela contradiz diretamente a
afirmação da academia de que a religião e a ciência são dois domínios do
pensamento humano separados e exclusivos de forma mútua.
Os naturalistas científicos não vêem uma contradição porque nunca dis­
seram que os domínios da ciência e da religião são de igual dignidade e im­
portância. Ciência para eles é o domínio do conhecimento objetivo. Religião
é uma questão de crença subjetiva. Os dois não devem conflitar porque uma
pessoa racional prefere sempre o conhecimento objetivo à crença subjetiva,
quando a primeira estiver disponível. As religiões que são baseadas em idéias
intelectualmente insustentáveis (tais como a de que não existe um Criador
que, de algum modo, comunicou sua vontade para os seres humanos) estão na
esfera da fantasia. A religião naturalista, que busca na ciência seu quadro da
realidade, é uma maneira de controlar as forças irracionais por propósitos ra­
cionais. Ela pode realizar um serviço útil no recrutamento de apoio financeiro
para programas científicos tais como a proteção ambiental e pesquisa médica.
A American Scientific Affiliation (ASA)2 suscitou a ira dos darwinistas
ao misturar o tipo errado de religião com a ciência. O rol de membros da
ASA é composto de professores de ciência e outros que se identificam como
cristãos evangélicos comprometidos com Jesus Cristo e com o entendimen­
to científico do mundo natural. Os cientistas fúndamentalistas da criação
deixaram a ASA anos atrás desgostosos pela disposição dos membros em
aceitar não somente a evidência geológica de que a Terra é muito antiga,
mas também a teoria da evolução biológica.
A liderança da ASA tem geralmente adotado o “compatibilismo” (a dou­
trina de que a ciência e a religião não conflitam porque ocupam domínios
diferentes) e a “evolução teísta”. A evolução teísta não é fácil de definir, mas
envolve fazer um esforço em afirmar que o mundo natural é governado por
Deus enquanto evita discordar com o establishment darwinista em questões
científicas. Pelo fato de os darwinistas terem se tomado cada vez mais explíci­
tos sobre as implicações religiosas e filosóficas de seu sistema, essa estratégia
levou o teísmo na evolução da ASA a ficar sob pressão ainda muito maior.
Todavia, o compatibilismo tem seus limites, e alguns membros da ASA
foram estimulados a agir por causa do forte viés naturalista do panfleto da
Academia Nacional de Ciências, de 1984, que tentou dar ao público a im­
pressão de que a ciência tem todos os principais problemas da evolução bem
sob controle. Com apoio financeiro de fundação, a ASA produziu seu próprio
livrete ilustrado de 48 páginas, intitulado Teaching Science in a Climate o f

2N. do T.: “Afiliação Científica Americana”.


132 DARWIN na banca das réus

Controversy: A View from the American Scientific Affiliation,3 e o enviou a


milhares de professores de escolas. O teor geral do livrete foi o de encorajar a
imparcialidade, em especial em tais “questões abertas” como se a vida surgiu
por acaso, como que os primeiros animais poderiam ter evoluído na explosão
cambriana, e como a inteligência e a postura ereta humanas evoluíram.4
Os membros da ASA que escreveram o livrete Teaching Science ino­
centemente esperaram que a maioria dos cientistas iria acolher bem sua
contribuição como um corretivo à confiança exagerada de que a ciência
evolucionista tende projetar quando tenta persuadir o público para que não
entretenha quaisquer dúvidas. Todavia, as organizações científicas oficiais
estão em guerra com o criacionismo, e sua política é a de exigir rendição
incondicional. As pessoas que afirmam que são cientistas, mas tentam con­
vencer os professores de escola de que há “questões abertas” sobre o enten­
dimento naturalista do mundo, são traidoras naquela guerra.
A retribuição veio rapidamente em seguida. Um “consultor de ciência”
da Califórnia, chamado William Bennetta, que faz uma carreira profissional
em perseguir os criacionistas, organizou um grupo de cientistas de renome
para condenar o panfleto da ASA como “uma tentativa de substituir a ciên­
cia com um sistema de pseudociência devotado a confirmar as narrativas
bíblicas”. A revista especializada The Science Teacher publicou uma co­
leção de ensaios editados por Bennetta intitulada “Scientists Decry a Slick
New Packaging o f Creationism ”.5Nove cientistas preeminentes, incluindo
Gould, Futuyma, Eldredge e Sarich, contribuíram com severas condena­
ções do livrete Teaching Science. A mensagem difundida era que a ASA era
um front criacionista enganoso que disfarçava sua agenda bíblica literal sob
o pretexto de objetividade científica.

3 N. do T.: “Ensinando ciência num clima de controvérsia: um ponto de vista da Afiliação Cienti­
fica Americana”.
4 Os seguintes parágrafos refletem o tema geral do livrete Teaching Science'.
Muitos aspectos da evolução são atualmente estudados pelos cientistas que têm vários graus de
crença ou descrença em Deus. Não importa como essas investigações resultem, a maioria dos cientistas
concorda que uma “ciência da criação” baseada numa Terra de apenas alguns milhares de anos de idade
não oferece base teórica bastante lógica para servir como uma alternativa razoável.
Claramente, é difícil ensinar a evolução - ou até evitar ensiná-la - sem entrar numa controvérsia
carregada com todos os tipos de implicação: científicas, religiosas, filosóficas, educacionais, políticas e
legais. Os dogmáticos nos dois extremos, que insistem que a posição deles é a única posição possível de
ser defensável, tendem fazer que os dois lados pareçam desagradáveis.
Contudo, muitas pessoas inteligentes que aceitam a evidência de uma Terra com bilhões de anos e
reconhecem que as formas de vida têm mudado drasticamente ao longo de tal período, também levam
a sério a Bíblia e adoram a Deus como seu Criador. Alguns (mas não todos) que afirmam a criação em
bases religiosas são capazes de considerar a macro&iolução como uma possível explicação de como
Deus criou as novas formas de vida.
Em outras palavras, existe ampla posição intermediária em que a criação e a evolução não são
consideradas como antagonistas.
5 N. do T : “Os cientistas condenam a nova embalagem sutil de criacionismo”.
A religião darwinista 133

As acusações deixaram os autores de Teaching Science perplexos, e elas


eram tão errôneas que as pessoas familiares com a ASA podiam facilmente
se equivocar a respeito deles pelas deturpações intencionais. Todavia, seria
um erro inferir qualquer intenção de enganar porque os naturalistas cientí­
ficos, decerto zelosos, não reconhecem as distinções sutis entre os teístas.
Para os zelotes, as pessoas que dizem acreditar em Deus são, ou sentimen­
talistas inofensivos que acrescentam alguma fala sobre Deus vaga para uma
visão de mundo basicamente naturalista, ou elas são criacionistas. Nos dois
casos, são loucas, mas no último caso também são uma ameaça.
Do ponto de vista de um zelote, os escritores da ASA forneceram am­
pla evidência de um propósito criacionista. Por que escreveriam tediosa­
mente sobre “questões abertas” a não ser para implicar que Deus possa ter
tido uma ajuda no surgimento de novas formas? Aquela sugestão é cria-
cionismo por definição, e a ASA admite ser uma organização de cristãos
que aceitam a autoridade da Bíblia. A verdadeira razão deles em rejeitar a
evolução científica deve, portanto, ser que ela contraria a narrativa bíbli­
ca. Qual outra razão poderiam ter?
Misturar religião com ciência é ofensivo aos darwinistas somente quan­
do a religião errada está sendo misturada. Para provar esse ponto, podemos
citar dois dos mais importantes fundadores da síntese moderna, Theodo-
sius Dobzhansky e Julian Huxley. A religião de “humanismo evolutivo” de
Julian Huxley ofereceu à humanidade o “dever sagrado” e a “gloriosa opor­
tunidade” de perseguir “em promover o cumprimento máximo do processo
evolutivo na Terra”. Isso não quis dizer meramente trabalhar para garantir
que os organismos que têm mais descendência continuem a ter mais des­
cendência, mas, antes, promover a “realização mais plena” das “possibili­
dades inerentes” da humanidade. Inspirado pela mesma visão, o filósofo e
reformador educacional americano John Dewey lançou um movimento em
1933 para o “humanismo religioso”, cujo Manifesto refletia a suposição
corrente entre os naturalistas científicos na ocasião de que a extinção final
da religião teísta traria nova era de progresso científico e de cooperação
social para a humanidade. Logo em seguida, Hitler e Stalin forneceram
assombrosa realização de algumas das possibilidades inerentes da humani­
dade. Os sucessores de Dewey admitiram em 1973 que novo Manifesto era
necessário porque os eventos dos 40 anos anteriores fizeram a declaração
original “parecer por demais otimista”.
O Manifesto revisto faz algumas concessões não entusiásticas para a
realidade, tais como que “a ciência tem trazido algumas vezes o mal em vez
do bem”, e “as religiões tradicionais não são certamente o único obstáculo
para o progresso humano”. A mensagem total é a mesma de antes. É a men­
sagem que a salvação vem através da ciência:
134 DARWIN no banco dos réus

Usando de modo sábio a tecnologia, podemos controlar o nosso am­


biente, acabar com a pobreza, reduzir de maneira acentuada a doen­
ça, aumentar nossa duração de vida, modificar de maneira significa­
tiva nosso comportamento, alterar o curso da evolução humana e o
desenvolvimento cultural, abrir novos vastos poderes e fornecer à
humanidade oportunidades incomparáveis de atingir uma vida abun­
dante e significativa.

O cientista-filósofo que foi mais além do que qualquer um em derivar


uma mensagem de otimismo cósmico da evolução foi Pierre Teilhard de
Chardin, o paleontólogo jesuíta não-ortodoxo que desempenhou um papel
importante nas descobertas do Homem de Piltdown e de Pequim. Teilhard
objetivou modernizar o Cristianismo alicerçando-o com exatidão na rocha
da evolução em vez de certos eventos alegados como acontecidos na Pales­
tina há mais de 2 mil anos. Os darwinistas mais rigorosamente materialistas
descartaram a filosofia de Teilhard como uma conversa-fiada pretensiosa,
mas teve forte apelo para aqueles com uma disposição de mente mais espi­
ritual, tal como Theodosius Dobzhansky.
Na sua resposta a Irving Kristol, Gould citou Dobzhansky, “o maior
de todos os evolucionistas de nosso século e por toda a vida um fiel da
Igreja Ortodoxa Russa”, para ilustrar a compatibilidade da evolução e reli­
gião. Para Dobzhansky, as duas eram muito mais do que compatíveis, pois
ele escreveu em seu livro Mankind Evolving que Darwin havia curado “a
ferida infligida por Copémico e Galileu”. Essa ferida foi a descoberta de
que a Terra, e por conseguinte o ser humano, não é o centro do universo.
O darwinismo havia curado a ferida, colocando a humanidade no centro
espiritual do universo, porque agora o ser humano entende a evolução e
tem a capacidade potencial de tomar o controle dela. Dobzhansky exultou
que “a evolução não precisa mais ser um destino imposto de fora. Ela pode,
concebivelmente, ser controlada pelo ser humano, de acordo com a sua sa­
bedoria e seus valores”. Para mais detalhes ele remetia seus leitores para as
seguintes citações, que contêm a “visão inspiradora” de Teilhard:

A evolução é uma teoria, um sistema ou uma hipótese? E muito mais


- é um postulado geral diante do qual todas as teorias, todas as hi­
póteses e todos os sistemas devem daqui em diante se curvar respei­
tosamente e que eles devem satisfazer [epistemicamente] a fim de
serem pensáveis e verdadeiros. A evolução é uma luz que ilumina
todos os fatos, uma trajetória que todas as linhas de pensamento de­
vem seguir - é isso que é a evolução.
A religião darwinista

A evolução, resumindo, é o Deus que devemos adorar. Ela nos leva ao


céu, “o ponto Ômega” no jargão de Teilhard, que é:

uma coletividade harmonizada de consciência, equivalente a um tipo


de superconsciência. A Terra se cobre não somente por miríades de
unidades pensantes, mas por um único processo de pensamento, e
por fim formando uma única Unidade de Pensamento funcional de
dimensões planetárias. A pluralidade de pensamentos individuais
combina e mutuamente reforça uns aos outros num só ato de Pensa­
mento unânime... Na dimensão de Pensamento, como na dimensão
de Tempo e Espaço, o Universo pode atingir a consumação de qual­
quer coisa que não seja a Imensurabilidade?

O otimismo ingênuo dessas tentativas de modelar uma religião científica


sobrevive no movimento contemporâneo da “Nova Era”, mas a moda entre
os darwinistas hoje é a de adotar uma visão mais sombria das probabilidades
de êxito da humanidade. Escrevendo em 1989, Maitland Edey e Donald Jo-
hanson especularam que o Homo sapiens pode estar perto de extinguir a si
mesmo como resultado de uma guerra nuclear ou de uma catástrofe ecológi­
ca. Essa situação depressiva é o resultado de uma tecnologia descontrolada
que produz enormes quantidades de lixo tóxico, destrói a selva e a camada
de ozônio e permite o crescimento populacional incontido. Somos incapa­
zes de lidar inteligentemente com esses problemas porque “em nosso íntimo
somos pessoas da Idade da Pedra apaixonadas” que são capazes de criar tec­
nologia, mas não controlá-la. Edey e Johanson acham que a ciência está qua­
se desenvolvendo a capacidade técnica de planejar “melhores pessoas” pela
engenharia genética, Se for para a humanidade evitar a extinção, ela deve
convocar a vontade política para tomar o controle da evolução, e fazê-la no
futuro uma questão de escolha humana em vez de uma seleção cega.
Os esforços contínuos para basear na evolução uma religião ou um siste­
ma ético não são uma aberração, e praticamente todos os mais preeminentes
escritores darwinistas têm tentado escrevê-la. A evolução darwinista é uma
história imaginativa sobre quem somos e de onde nós viemos, o que signifi­
ca dizer que é um mito da criação. Como tal, é um ponto inicial óbvio para
a especulação sobre como devemos viver e o que devemos valorizar. Um
criacionista apropriadamente começa com a criação de Deus e a vontade
de Deus para o ser humano. Um naturalista científico tão apropriadamente
começa com a evolução e o ser humano como um produto da natureza.
Na sua dimensão mitológica, o darwinismo é a história da libertação da hu­
manidade da ilusão de que seu destino é controlado por um poder muito maior
do que ela mesma. Não dispondo de conhecimento científico, os humanos em
primeiro lugar atribuem os eventos naturais como o tempo e a doença a seres
DARWIN no banca das réus
I s s

sobrenaturais. Assim que aprendem a predizer ou controlar as forças naturais,


colocam de lado os espíritos mais inferiores, mas uma religião mais altamente
evoluída retém a noção de um Criador racional que governa o universo.
Finalmente, a maior de todas as descobertas científicas é feita, e os hu­
manos aprendem que eles são produtos de um processo natural cego que
não tem objetivo e que não se importa com eles. A resultante “morte de
Deus” é experimentada por alguns como uma profunda perda, e por outros
como uma libertação. Mas libertação do quê? Se a natureza cega tem, de
algum modo, produzido uma espécie humana com a capacidade de gover­
nar de maneira sábia a Terra, e se essa capacidade tem sido previamente
invisível apenas porque foi sufocada pela superstição, então as perspectivas
de liberdade e felicidade humanas são ilimitadas. Essa foi a mensagem do
Manifesto Humanista de 1933.
Outra possibilidade é que a natureza sem propósito tem produzido um
mundo governado por forças irracionais, onde o poder diz o que é certo e a
liberdade humana é uma ilusão. Nesse caso, o direito de governar pertence
a quem quer que possa controlar o uso da ciência. Seria ilógico para os go­
vernantes se preocuparem demais sobre o que as pessoas dizem que querem,
porque a ciência os ensina que os desejos são os produtos de forças irracio­
nais. Em princípio, as pessoas podem ser feitas para desejar algo muito me­
lhor. Não é nenhuma bondade deixá-las do jeito que são, porque as pessoas
da Idade da Pedra apaixonadas não podem fazer nada a não ser destruir a si
mesmas quando têm o poder da tecnologia científica no seu comando.
Se um darwinista adota a visão otimista ou pessimista, é imperativo que
o público seja ensinado a entender o mundo como os naturalistas científicos
o entendem. Os cidadãos devem aprender a olhar para a ciência como a
única fonte confiável de conhecimento, e o único poder capaz de melhorar
(ou até preservar) a condição humana. Isso implica, como iremos ver, num
programa de doutrinação em nome da educação pública.
Capítulo II

A educação
darwinista
Museu Britânico de História Natural, localizado num magnífico prédio

D de estilo vitoriano no imenso bairro de South Kensington em Londres,


celebrou o seu centenário em 1981 com a abertura de nova exposição
sobre a teoria de Darwin. Uma das primeiras coisas que o visitante encon­
trava logo ao entrar na exposição era uma placa em que se lia o seguinte:

Você já se perguntou por que há tantos tipos diferentes de coisas vivas?


Uma idéia é que todas as coisas vivas que hoje vemos EVOLUÍ­
RAM de um ancestral distante por um processo de mudança gradual.
Como pode a evolução ter ocorrido? Como uma espécie pode se
transformar em outra?
A exposição nesta sala considera somente uma explicação possível
— a explicação de Charles Darwin.

Um pôster adjacente incluía a declaração de que “outra visão é de que


Deus criou todas as coisas vivas perfeitas e imutáveis”. Uma brochura afir­
mava que “o conceito de evolução por seleção natural não é estritamente
um conceito científico”, porque tem sido estabelecido por dedução lógica
em vez de demonstração empírica. A brochura observava que “se a teoria da
evolução for verdadeira”, ela fornece uma explicação para a disposição da
DARWIN riQ banco dos réus

natureza para “os grupos dentro dos grupos” descritos pelos taxonomistas.
O teor geral da exposição era que o darwinismo é uma teoria importante,
mas não algo do que seja irracional duvidar.
Cientistas preeminentes reagiram furiosamente a essas expressões relati-
vistas. O fórum para a controvérsia foram as páginas editoriais e de corres­
pondência da principal revista científica britânica Nature. L. B. Halstead, um
adepto neodarwinista intransigente, começou os artigos com uma carta que
atacava não apenas a exposição de Darwin, mas também novas exposições no
museu sobre dinossauros e evolução humana. O que estava errado em todas
essas exposições, de acordo com Halstead, é que empregaram um sistema
de classificação conhecido como cladismo, que supõe que nenhuma espé­
cie pode ser identificada como a ancestral de quaisquer outras espécies.1 Ele
descreveu a literatura cladista como cheia de “abuso de Ernst Mayr e George
Gaylord Simpson, e sem dúvida do próprio Charles Darwin”, porque estes
grandes homens tinham aderido firmemente “à idéia de que os processos que
podem ser observados no dia presente, quando extrapolados no passado, são
suficientes para explicar as mudanças observadas no registro fóssil”.
Halstead acusou que algumas das exposições poderiam ser interpretadas
como atacando não somente o darwinismo, mas a própria evolução. Por
exemplo, a exposição “Man’s Place in Evolution”12 negava de maneira es­
pecífica que o Homo erectus fosse um ancestral direto do Homo sapiens, de
modo que “o que os criacionistas têm insistido há anos, agora é anunciado
abertamente pelo Museu de História Natural”.
Contudo, não foram os criacionistas que Halstead culpou por essas trans­
gressões, mas os marxistas. Os marxistas tendem a preferir um modelo de
mudança evolutiva que age por rápidas erupções em vez de constante gra-
dualismo, porque se encaixa com sua visão de que a mudança social ocorre
por salto revolucionário de um tipo de estado para outro. O gradualismo
darwinista, por outro lado, tem semelhanças inconfundíveis como modelo
de gradativa melhora social através da livre competição econômica e de
reforma democrática que era tão amplamente aceito na Inglaterra vitoriana.
Halstead não apresentou nenhuma evidência concreta de qualquer motiva-

10 cladismo tem tomado de assalto a ciência da classificação biológica em anos recentes, e é agora
amplamente empregado em exposições de museus e livros-texto. Para os atuais propósitos, o ponto im­
portante é que os “cladogramas” mostram relacionamentos entre os seres vivos e espécies fossilizadas,
mas nunca relações ancestrais. Se duas espécies (como o chimpanzé e o ser humano) são consideradas
como parecendo uma com a outra mais proximamente do que pareçam com qualquer terceira espécie,
então as duas são colocadas adjacentes uma da outra num cladograma. O hipotético ancestral comum
que é considerado ser o responsável pela relação nunca é identificado. Alguns darwinistas da velha
escola pensam que o cladismo predispõe a mente a pensar da evolução como um processo de súbita
ramificação em vez do gradualismo darwinista, e uns poucos cladistas têm dito que, até onde o trabalho
deles diz respeito, a hipótese da ancestralidade comum pode muito bem ser abandonada.
2 N. do X: “O lugar do ser humano na evolução”.
A educação darwinista

ção marxista entre os cientistas do museu, mas ele afirmou que o museu
dava apoio “inconsciente ou consciente” à teoria marxista ao lançar dúvida
sobre o gradualismo darwinista.3
A acusação de motivação política foi uma boa diversão, mas a questão
substancial foi que a equipe do museu estava “se expondo publicamen­
te” com dúvidas sobre o neodarwinismo e até da existência de ancestrais
fósseis - dúvidas que tinham sido previamente expressas só em círculos
profissionais. De modo específico, algumas das exposições sugeriam que
a teoria ortodoxa encontra seu apoio em certo tipo de lógica em vez da
evidência científica. Um comunicado na revista Nature citou que um dos
cientistas seniores do museu dizia ao público numa palestra filmada:

A sobrevivência do mais apto é uma frase vazia, é um jogo de pala­


vras. Por essa razão, muitos críticos acham que não somente a idéia
da evolução é acientífica, mas também a idéia de seleção natural.
Não há nenhum valor em perguntar se devemos ou não acreditar na
idéia de seleção natural, porque é a conseqüência lógica inevitável
de uma série de premissas...
A idéia de evolução por seleção natural é uma questão de lógica,
não de ciência, e o que segue é que o conceito de evolução por sele­
ção natural não é, estritamente falando, científico...
Se aceitarmos que a evolução ocorreu, embora obviamente deva­
mos manter uma mente aberta a respeito disso...
Não podemos provar que a idéia é verdadeira, somente que ela
ainda não foi mostrada ser falsa. Poderá um dia ser substituída por
uma teoria melhor, mas até então...

O repórter comentou: “Se essa é voz de nossos amigos e defensores,


então a Criação nos proteja de nossos inimigos”.
Um editorial da revista Nature intitulado “Darwin’s Death in South
Kensington”4 martelou os ofensores com perguntas retóricas:

Pode ser que os administradores do museu, que é a coisa mais pró­


xima de uma fortaleza do darwinismo, perderam a coragem, sem
mencionar o seu bom senso?... Ninguém discute que, na apresenta-

3 Embora a acusação de Halstead fosse infundada, é um fato que a ideologia política e a ideolo­
gia biológica com freqüência são intimamente relacionadas. Darwinistas preeminentes como Richard
Lewontin, da Universidade Harvard, e Stephen Jay Gould têm com orgulho reivindicado inspiração
marxista para suas teorias biológicas. Os darwinistas de direita têm frequentemente relacionado suas
teorias biológicas a noções de competição econômica ou racial. Numa reunião científica na antiga Ale­
manha Ocidental, em 1981, o filósofo da ciência darwinista Michael Ruse observou (com aprovação)
que “a biologia está cheia de muitos desejos, vontades e ansiedades, tanto quanto as muitas exortações
para ações corretas, como um sermão de Lutero ou Wesley”.
4 N. do T.: “A morte de Darwin em South Kensington”.
DARWIN no banca das réus

ção pública da ciência é adequado, sempre que apropriado, dizer que


questões discordantes estão em dúvida. Mas a teoria da evolução
ainda é uma questão aberta entre biólogos sérios? E se não for, que
propósito, exceto a confusão geral, pode ser servido por essas pala­
vras deliberadamente ambíguas?

O editorial especulou que a exposição deve ter sido planejada por al­
guém não em contato próximo com a equipe científica do museu, porque a
maioria dos biólogos eminentes “preferiria perder sua mão direita do que
começar com a frase ‘Se a teoria de evolução for verdadeira’”. Isso pro­
vocou uma resposta indignada de 22 dos eminentes biólogos, que estavam
“pasmados” que a revista Nature “defendesse que a teoria fosse apresenta­
da como um fato”. Os biólogos escreveram que “nós não temos nenhuma
prova absoluta da teoria da evolução”, embora tenhamos “evidência cir­
cunstancial irresistível a favor dela e até agora nenhuma alternativa me­
lhor”. Eles concluíram, talvez ingenuamente, que “a teoria da evolução se­
ria abandonada amanhã se uma teoria melhor aparecesse”.
A troca de cartas e os comentários editoriais continuaram por meses. Os
editores da revista Nature descobriram tardiamente que o darwinismo é mais
controverso entre os cientistas do que eles tinham pensado, e tentaram adotar
uma linha mais moderada num editorial sobre os limites da dúvida legítima.
Esse esforço - com o título provocador de “How True is the Theory of Evolu-
tion?”5 - contribuiu para a confusão geral de se fazer concessões que devem
ter sido mais alarmantes para os darwinistas do que as exposições no museu.
Os editores interpretaram Karl Popper como tendo dito que o darwinismo
é tanto metafísico como não falseável, admitiram insensatamente que essa
caracterização era “tecnicamente correta”, e depois responderam de modo
insatisfatório que “a teoria da evolução não está por inteiro sem apoio empí­
rico” e que “teorias metafísicas não são necessariamente más”.
O ensaio desconexo prosseguiu em reconhecer que “grandes seções do
público geral são céticas acerca do darwinismo”, e exigiu que o museu de­
safiasse esses céticos, lançando luz sobre os assuntos questionáveis. Os cé­
ticos foram divididos em duas categorias: “Enquanto alguns que duvidam
do darwinismo o fazem em bases respeitosas, outros afirmam que o curso
dos eventos pode ser determinado por influências sobrenaturais de modo li­
teral. Teorias daquele tipo não são nem metafísicas - elas são simplesmente
acientíficas”. O artigo terminou recomendando que o “agnosticismo” (sobre
a verdade absoluta das teorias científicas) não fosse “levado mais adiante”,
a fim de evitar desmoralizar os cientistas. Embora admitisse que, em geral,
o preconceito era para ser evitado, a revista Nature insistiu que “um precon-

5 N. do T.: “Quão verdadeira é a Teoria da Evolução?” .


A educação darwinista

ceito é permitido, até necessário - a preconcepção que teorias podem ser


construídas para explicar todos os fenômenos observáveis”.
O editorial da revista Nature não somente implicou que o darwinismo é um
sistema metafísico sustentado parcialmente pela fé, mas de imediato cortejou o
desastre ao encorajar o museu a educar o público sobre os problemas eviden­
ciais que fazem com que algumas pessoas se tomem céticas acerca do darwi­
nismo. As coisas dificilmente poderiam ser deixadas nesse ponto, e algumas
semanas mais tarde a revista Nature publicou outro artigo que tentava arrumar
a confusão ao declarar que embora “nenhum biólogo possa negar a possibi­
lidade que Deus criou o ser humano, poucos duvidariam que, se ele o fez, o
mecanismo que Darwin discerniu foi aquele que Deus escolheu usar”.6
A obrigação do museu não era satisfazer a vontade dos que duvidam,
mas estabelecer o caso a favor do evolucionismo:

Em face das pressões organizadas de seitas religiosas e místicas,


os evolucionistas precisam de alguma organização para representar
seus pontos de vista, não menos aceitos com fervor, com toda con­
vicção quanto possível. Não que se deva descer às meias-verdades e
à linguagem intencionalmente confusa da propaganda política. Mas
isso deve condizer com os termos de sua mensagem àqueles que a
ouvirão, em vez de embotar seus limites com a lógica excessivamen­
te minuciosa da filosofia da ciência.

Os cladistas também marcaram alguns pontos no debate. Particularmen­


te sarcástica foi a carta de Gareth Nelson:

Para a consternação, algumas vezes forte, dos membros mais cleri­


calmente orientados dessa profissão, a cladística trata os fósseis de
um modo secular - não como uma revelação, mas como alguns entre
muitos outros espécimes biológicos sujeitos a interpretação que é apta,
na verdade esperada, em ser diversa, em especial no que diz respeito
a detalhes... Quão razoável esse tratamento possa parecer para o de
fora, o efeito emocional dentro de tal paleontólogo confrontado invo­
luntariamente com a cladística (como tenho testemunhado em mais
ocasiões do que possa lembrar) não é diferente daquele experimentado
por um ministro fimdamentalista que tem forçado sobre si a noção não
convidada de que a Bíblia é apenas um livro entre muitos. Basta dizer
que mais de um tipo de igreja tem sido construída sobre a rocha.

6 Presumivelmente o mecanismo que aquele escritor teve em mente foi a seleção natural. Contudo,
o Darwin que escreveu The Descent o f Man estava desencantado com a seleção natural, desculpou-se
em parte por haver dado a ela muita importância no livro "Origem das Espécies ”, e ter se apoiado
em grande parte na seleção sexual (e outros vagos mecanismos que teriam pequeno apoio entre os neo-
darwinistas de hoje) para explicar a origem das características humanas.
142 DARWIN no banco dos réus

Contudo, a opinião prevaleceu de que apenas iria induzir ao erro os vi­


sitantes do museu serem apresentados com a noção de que o livro Origem
das Espécies é apenas um livro entre muitos. Anthony Flew, um filósofo
renomado por defender o darwinismo, ateísmo,7 e pensamento claro, expli­
cou subseqüentemente todo o episódio como um abuso de confiança pelos
“empregados civis” (isto é, os cientistas do museu) que tinham um dever
de apresentar a verdade estabelecida em vez de confundir o público com
opiniões não-ortodoxas. Ele denunciou esses presunçosos pelo seu “abuso
dos recursos de uma instituição estatal tentando incutir [a teoria preferida
deles, cladismo] a todos os inocentes e leigos predominantemente jovens
que afluem a essas galerias públicas, como se já fosse parte do consenso
estabelecido entre todos aqueles melhores qualificados para julgar”.
Flew relatou que “o material ofensivo tem desde então, aparentemente e
não cedo demais, sido removido”. Como esse comentário implicou, o mu­
seu havia se rendido à pressão. O porta-voz do museu explicou (numa carta
à revista Nature) que a tentativa da equipe em evitar o dogmatismo na sua
apresentação do darwinismo tinha infelizmente dado “outra impressão do
que a intencionada”. O quadro do filme que havia chamado a sobrevivência
do mais apto como uma frase vazia foi imediatamente removido, e seguiria
uma remoção mais geral das coisas indesejáveis nas exposições.
Quando visitei o museu em 1987, as exposições nada continham para
alertar os observadores casuais ao fato de que há alguma coisa controversa
sobre a teoria de Darwin. Por exemplo, o infame cartaz de “uma possível
explicação” na entrada da exposição de Darwin havia sido substituído com
a seguinte mensagem tranqüilizadora:

Quando nos comparamos com os nossos parentes fósseis, encontra­


mos evidência de que o ser humano evoluiu.
A obra de Darwin deu forte apoio para a visão de que todas as
coisas tinham se desenvolvido nas formas que vemos hoje por um
processo gradual ao longo de períodos muito extensos.
Isso é o que entendemos por evolução.
Muitas pessoas acham que a teoria da evolução não conflita com
suas crenças religiosas.

As “palavras deliberadamente ambíguas” na exposição original tinham


de modo amplo aludido que havia bases para se duvidar do darwinismo, mas
não haviam dado nenhuma indicação nítida de forma exata quais poderiam
ser as bases de dúvida. Como o porta-voz do museu explicou numa entrevis-

7 N. do T.: Em 2005 Anthony Flew, o mais famoso ateu do século 20, passou para uma posição
“deísta” após se convencer do design inteligente encontrado no DNA.
A educação darwinista 143

ta, as exposições não se referiram a problemas tais como a falta de [formas]


transicionais no registro fóssil, a súbita explosão de formas de vida complexa
no começo da era Cambriana, a dificuldade em explicar a origem do código
genético, os limites de mudança mostrados pelas experiências de acasala­
mento, a controvérsia do “monstro esperançoso”, a controvérsia do equilíbrio
pontuado, ou a importância das extinções catastróficas. Do ponto de vista de
um crítico informado, mesmo a exposição original foi mais um encobrimento
do que uma cândida revelação das dificuldades do darwinismo. O porta-voz
salientou que o museu tinha, apesar disso, avançado bastante desde a prévia
exposição sobre a evolução 20 anos antes, quando o diretor do museu (Sir
Gavin de Beer) “escreveu um manual no qual foi dito que nesses dias a evolu­
ção é aceita como um fato, e a seleção natural é o mecanismo para isso, ponto
final. Até onde o interessava, a parte conceituai interessante estava completa­
mente terminada, nada foi deixado acerca do que se pensar”.
A batalha no Museu Britânico de História Natural mostra que os criacio-
nistas não são necessariamente responsáveis pelo fato de que os educadores
tendem a se agarrar a generalidades quando apresentam a evidência a fa­
vor da evolução para os jovens. Os darwinistas ficam muito ressentidos se a
teoria deles é apresentada aos impressionáveis de uma maneira que com pro­
babilidade encorajará dúvidas. Uma explicação da controvérsia do equilíbrio
pontuado, por exemplo, está destinada a dar aos céticos a impressão de que os
darwinistas dão desculpas pouco convincentes para sua incapacidade de en­
contrar a evidência fóssil que apóie suas afirmações sobre a macroevolução.
Não importa quão avidamente os especialistas insistam que eles só discutem
sobre o tempo da evolução gradualista, e não sobre se ela alguma vez aconte­
ceu, alguns jovens brilhantes provavelmente pensarão que talvez a evidência
falte porque a transição passo a passo nunca aconteceu. Para os darwinistas,
ensinar sobre a evolução não significa encorajar mentes imaturas - ou madu­
ras, para aquele assunto - a pensar sobre as possibilidades inaceitáveis.
A Califórnia é um Estado com uma população diversa que inclui muitos
criacionistas e também grande e confiante comunidade científica. Nos pri­
meiros anos da década de 70 do século 20, os criacionistas persuadiram o
Conselho Estadual de Educação a adotar uma “política antidogmatismo”,
contudo, mais recentemente, os educadores de ciência contra-atacaram.
Eles pressionaram o Conselho Estadual de Educação a decretar regras cla­
ras obrigando o ensino da evolução como entendem os darwinistas.
Depois de muito debate, o conselho adotou uma Declaração Política so­
bre o Ensino de Ciência no começo de 1989. Embora a idéia geral da nova
política seja a de encorajar uma cobertura mais completa da evolução nos
livros-texto e em salas de aula, a Declaração Política em si não se refere
explicitamente à evolução. Os educadores preferiram fazer uma declaração
144 DARWIN no banca das réus

mais geral sobre a “ciência” porque não queriam admitir que a evolução é
um caso excepcional que envolve questões religiosas ou filosóficas distin­
tas daquelas presentes em outras áreas da ciência.
Na sua essência, a Declaração Política é razoável e liberal. Ela começa
afirmando que a ciência está interessada em fatos observáveis e hipóteses
testáveis sobre o mundo natural, e não com a criação divina, propósitos úl­
timos ou causas últimas. Esses assuntos não-científicos são relegados aos
currículos de literatura e estudos sociais. A Declaração Política enfatiza
que nem a ciência nem qualquer outra coisa deve ser ensinada dogmatica­
mente, porque “crenças que persuadem são inconsistentes com o objetivo
da educação” que é o de encorajar o entendimento. A Declaração Política
até repete essa importante distinção entre crença e entendimento: “Para se­
rem cidadãos completamente informados, os estudantes não têm de aceitar
tudo o que é ensinado no currículo de ciências naturais, mas têm de enten­
der as principais linhas do pensamento científico, incluindo seus métodos,
fatos, hipóteses, teorias e leis”.
A Declaração Política prossegue na explicação de que os fatos cientí­
ficos, teorias e hipóteses são sujeitos a teste e rejeição. Essa característica
distingue-os das crenças e dogmas, que não satisfazem o critério de testa-
bilidade e são, portanto, impróprios para consideração em aulas de ciência.
Os professores de ciência são profissionalmente obrigados a ficar só com a
ciência, e devem encorajar com respeito os alunos a discutir assuntos fora
do domínio da ciência com suas famílias e religiosos.
Uma pessoa desconhecedora das nuances da distinção entre conheci­
mento e crença pode imaginar que a Declaração Política protege o direito
dos alunos criacionistas a questionarem a verdade da evolução, desde que
eles “entendam” o assunto. Contudo, isso seria um mau entendimento por­
que da perspectiva darwinista entender a evolução de maneira honesta e não
crer nela é como entender aritmética e pensar que 4x2 seja igual a 7. Para
os darwinistas, a evolução totalmente naturalista é um fato a ser aprendido,
não uma opinião a ser questionada. Um estudante pode, em silêncio, não
acreditar, mas nem os estudantes e professores podem discutir as bases da
descrença em sala de aula, onde outros alunos podem ser contaminados.
O propósito da Declaração Política não é evitar a dissidência, mas o de
estabelecer uma justificação filosófica para o ensino da evolução naturalista
como um “fato” num sistema educacional que é, pelo menos, nominalmen­
te oposto ao dogmatismo. A justificativa é que a ciência é um mundo à parte
por causa de sua excepcional confiabilidade de seus métodos. Os fatos e
teorias científicas são sujeitos a contínuos testes, enquanto as crenças filosó­
ficas e religiosas “são baseadas, pelo menos em parte, na fé, e não estão su­
jeitas a teste e refutação científicas”. Embora crenças que persuadem sejam
145
-4. A educação darwinista

inconsistentes com o objetivo da educação, o conhecimento persuadível é o


que é a educação no seu todo. As pessoas que entendem as palavras-códigos
sabem que todas essas generalizações são feitas para estabelecer um único
ponto específico: a evolução naturalista pertence à categoria do conheci­
mento, não de crença, e assim a resistência a ela se origina na ignorância, o
que a educação corretamente objetiva eliminar.
À Declaração Política seguiu-se um guia curricular chamado Diretrizes
de Ciência, que informa os editores de livros-texto qual abordagem tomar se
quiserem que seus livros sejam aceitáveis no imenso mercado da Califórnia.
As Diretrizes exaltam falsamente o princípio de que o ensino não deve ser
dogmático, mas elas também transmitem nítida mensagem de que o propósito
da instrução em evolução é o de persuadir os estudantes a acreditarem na teoria
ortodoxa. As principais áreas de dificuldades são ignoradas ou minimizadas. Os
professores são instados a reafirmar aos estudantes que a ciência é um empre­
endimento confiável e autocorretivo, que todas as objeções científicas alegadas
contra as doutrinas aceitas têm sido consideradas e rejeitadas pela comunidade
científica, e que a evolução é um “fato aceito cientificamente”.
A linguagem na qual tudo isso é feito parece calculada mais para escon­
der informação do que revelá-la. Pór exemplo, em vez de reconhecer que a
ciência não pode demonstrar como estruturas adaptivas complexas podem
surgir pela mutação e seleção aleatórias, as Diretrizes fornecem uma distin­
ção sem sentido entre “seleção natural” e “adaptação”:

A seleção natural e a adaptação são conceitos diferentes. A seleção


natural se refere a um processo pelo qual os organismos, cujas carac­
terísticas biológicas os adaptam melhor aos seus ambientes, são me­
lhor representados em futuras gerações... A adaptação é um processo
pelo qual os organismos respondem aos desafios de seus ambientes,
através da seleção natural com mudanças e variações em suas formas
e seu comportamento.

A incapacidade dos paleontólogos de identificar fósseis ancestrais espe­


cíficos para qualquer um dos principais grupos é considerada obliquamente
numa sentença: “Descobrir as relações evolutivas é menos uma busca por
ancestrais do que para grupos com mais proximidade relacionados uns com
os outros”. As notórias controvérsias sobre a velocidade da macroevolução
são minimizadas com a observação de que o gradualismo é a regra exceto
quando não é a regra:

Embora a maioria das mudanças nos organismos ocorra em peque­


nos passos ao longo de um vasto período, algumas das principais
mudanças biológicas aconteceram durante intervalos relativamente
DARWIN rio banco düs réus

curtos e em certos pontos na história da Terra. Esses intervalos in­


cluem a evolução, a diversificação e a extinção de muita vida fóssil.

Finalmente, as Diretrizes incluíram uma tabela para ilustrar a extrema


regularidade nas divergências seqüenciais do citocromo c. Esse fenômeno
chamado de “relógio molecular” contradisse as expectativas baseadas na
teoria da seleção natural, e exigiu a invenção da teoria neutra da evolução
molecular. As Diretrizes comentam que o gráfico “mostra quão regular tem
sido a velocidade da evolução molecular nessas mudanças de seqüências de
aminoácidos. Seus resultados são exatamente o que seria esperado e predito
pela teoria evolutiva”.8
Na sua seção de introdução, os autores das Diretrizes exaltam a ciência
como “uma viagem ilimitada de exploração alegre”, e enfatizam a impor­
tância de inspirar os estudantes com a emoção do empreendimento científi­
co. Todavia, aquele sentido de emoção não deve presumir ser estendido às
questões fundamentais acerca da evolução. Os estudantes são encorajados
a pensar sobre carreiras em biotecnologia, mas resolver o mistério da evo­
lução está fora de cogitação porque os darwinistas têm de insistir que não
há mistério. A “parte conceituai interessante” já foi estabelecida, e somente
os detalhes permanecem para serem preenchidos.
A recomendação mais construtiva das Diretrizes é que os professores e
autores de livros-texto devem evitar a terminologia que implique que os juí­
zos científicos são uma questão de preferência subjetiva ou de contar votos:

Os estudantes nunca devem ser informados que “muitos cientistas”


pensam isto ou aquilo. A ciência não é decidida pelo voto, mas
pela evidência. Nem devem os estudantes serem informados de que
“os cientistas acreditam”. A ciência não é uma questão de crença,
antes, é uma questão de evidência que pode ser submetida a testes
de observação e de raciocínio racional... Mostre aos estudantes que
nada em ciência é decidido apenas porque alguém importante diz
desse modo (autoridade) ou porque essa é a maneira que sempre
tem sido feita (tradição).

Contudo, as Diretrizes de imediato contradizem aquela mensagem, ao de­


finir a “evolução” de modo vago, como “mudança através do tempo”. Um
conceito vagamente definido não pode ser testado pela observação e pelo

8 O gráfico do citocromo c causou constrangimento aos autores das Diretrizes quando foi descober­
to que continha erros tipográficos idênticos àqueles numa tabela similar impressa num livro criacionista
intitulado O f Pandas andPeople. Confrontado com a evidência, o consultor responsável pelas seções de
biologia evolutiva das Diretrizes admitiu que copiou o gráfico do livro criacionista, revertendo a ordem
dos organismos listados, mas repetindo os dados textualmente sem conferir sua exatidão.
A Educação darwinista 147

raciocínio objetivo. As Diretrizes então nos exortam a acreditar nesse vago


conceito porque muitos cientistas acreditam: “É uma explicação científica
aceita e, portanto, não é mais controversa em círculos científicos do que as
teorias da gravidade e do fluxo de elétrons”. Um apelo à autoridade é inevi­
tável, porque os educadores darwinistas não podem se dar ao luxo de revelar
que sua teoria se apóia exatamente naquilo que a Declaração Política chama
de crenças filosóficas que não são sujeitas a teste e refutação científica.
Os cientistas darwinistas acreditam que o cosmos é um sistema fechado
de causas e efeitos materiais, e acreditam que a ciência deve ser capaz de for­
necer uma explicação naturalista para as maravilhas da biologia que parecem
ter sido planejadas para um propósito. Sem adotar essas crenças, não pode­
riam deduzir que existiram uma vez ancestrais comuns para todos os princi­
pais grupos do mundo biológico, ou que as mutações aleatórias e a seleção
natural podem substituir um designer inteligente. Nenhuma dessas crenças
fundamentais é empiricamente testável e, de acordo com a Declaração Polí­
tica da Califórnia, tampouco fazem parte da sala de aula de ciência.
Os darwinistas podem ter cometido sério erro estratégico ao escolher le­
var a cabo uma campanha de doutrinação nas escolas públicas. Previamen­
te, os livros-texto do ensino médio americano diziam relativamente pouco
sobre a evolução, exceto que a maioria dos cientistas acredita nela, o que
é difícil de se contestar. Um exame sério da evidência científica foi adiado
até a faculdade, e foi fornecido principalmente para os que se especializam
em biologia ou alunos de pós-graduação. A maioria das pessoas fora da
profissão teve pouca oportunidade de aprender quanta filosofia era ensinada
em nome da ciência, e, se elas soubessem o que acontecia, não teriam opor­
tunidade de montar um desafio eficaz.
Os próprios darwinistas têm mudado essa situação confortável exigin­
do que as escolas públicas ensinem muito mais “a respeito da evolução”.
O que querem dizer é que as escolas públicas devem tentar muito mais
persuadir os estudantes a acreditar no darwinismo, e não que devam apre­
sentar honestamente a evidência que causa tanto problema ao darwinis­
mo. Contudo, o que acontece na escola pública é assunto público, e até
os criacionistas têm o direito de apontar erros e evasões nos livros-texto
e materiais de ensino. Invocar as autoridades pode funcionar por um tem­
po, mas pessoas decididas que eventualmente protestarem irão persuadir
que o público lhes conceda uma audiência imparcial sobre a evidência.
Quanto mais pessoas fora do campo bíblico-fundamentalista aprenderem
quão profundamente os darwinistas estão comprometidos na oposição ao
teísmo de qualquer espécie, e quão pouco apoio o darwinismo encontra
na evidência científica, mais os darwinistas podem desejar que eles nunca
tivessem saído do seu santuário.
Capítulo 12

Ciência e
pseudociência
arl Popper fornece o indispensável ponto inicial para a compreensão

K da diferença entre ciência e pseudociência. Popper passou seus anos


de formação acadêmica na Viena do começo do século 20, onde a
vida intelectual era dominada pelas ideologias baseadas na ciência como
o marxismo e as escolas psicanalíticas de Freud e Adler. Essas escolas
eram amplamente aceitas como ramos legítimos da ciência natural, e atraíram
grande número de seguidores entre os intelectuais porque pareciam ter imen­
so poder explanatório. A aceitação do marxismo ou da psicanálise tinha,
conforme Popper observou:

O efeito de uma conversão ou revelação intelectual, abrindo seus


olhos para nova verdade escondida daqueles ainda não iniciados. As­
sim que seus olhos eram abertos, você via instâncias confirmadoras
em todos os lugares: o mundo estava cheio de verificações da teoria.
O que acontecesse sempre a confirmava. Assim sua verdade aparecia
manifesta. E os incrédulos eram claramente pessoas que não queriam
ver a verdade manifesta, que se recusavam vê-la, ou porque ela era
contra o interesse de sua classe, ou por causa de suas repressões que
ainda estavam “não analisadas” e que imploravam por tratamento...
Um marxista não pode abrir um jornal sem encontrar em cada página
a evidência confirmadora para a sua interpretação da História, não so­
Ciência e pseudociência 149

mente nas notícias, mas também na sua apresentação - que revelava


a distinção de classe do jornal - e, é claro, em especial naquilo que o
jornal não disse. Os analistas freudianos enfatizaram que suas teorias
eram constantemente verificadas pelas suas “observações clínicas”.

Popper viu que uma teoria que parece explicar tudo, na verdade, não ex­
plica nada. Se os salários caíam, isso era porque os capitalistas exploravam os
trabalhadores, conforme Marx previra que fariam, e se os salários subiam isso
era porque os capitalistas tentavam salvar um sistema podre com suborno, o
que também foi o que o marxismo previra. Um psicanalista podia explicar
por que um homem cometia assassinato - ou, com igual facilidade, por que
o mesmo homem sacrificaria sua própria vida para salvar outra. Contudo, de
acordo com Popper, uma teoria com genuíno poder explicativo faz previsões
arriscadas, que exclui a maioria dos resultados possíveis. O êxito na previsão
é impressionante somente quando fracasso é uma possibilidade real.
Popper ficou impressionado pelo contraste entre a metodologia de Marx ou
Freud de um lado e Albert Einstein do outro. Einstein quase que afoitamente
expôs sua Teoria da Relatividade Geral à falsificação ao prever o resultado de
uma experiência ousada. Se o resultado tivesse sido outro do que o previsto,
a teoria teria sido desacreditada. Os freudianos, em contraste, procuravam so­
mente por exemplos confirmadores e fizeram sua teoria tão flexível que tudo
contava como confirmação. Marx fez previsões específicas - concernentes
às inevitáveis crises do capitalismo, por exemplo, mas quando os eventos
previstos falharam em ocorrer, seus seguidores responderam modificando a
teoria de tal modo que ela ainda “explicava” o que tivesse acontecido.
Popper se dispôs a responder não somente a questão específica de como
o método científico de Einstein diferia da pseudociência de Marx e Freud,
mas também a questão mais geral do que é “ciência” e como difere da
filosofia ou da religião. O modelo aceito, descrito sistematicamente pela
primeira vez por Francis Bacon, concebia a ciência como um exercício em
indução. Acreditava-se que os cientistas formulavam teorias a fim de expli­
car dados experimentais preexistentes, e que verificavam suas teorias pelo
acúmulo de evidência apoiadora adicional. Mas os filósofos céticos - espe­
cialmente David Hume - tinham questionado se uma série de observações
factuais podia estabelecer decerto a validade de uma lei geral. Uma coisa
pode se seguir após outra repetidas vezes em nossa experiência inevitavel­
mente limitada, mas há sempre a possibilidade de que mais observações
revelarão exceções que refutam a regra. Isso não foi mera possibilidade
teórica: os cientistas tinham ficado aturdidos de ver o edifício aparente­
mente invulnerável da física newtoniana se desmoronar quando as técnicas
modernas possibilitaram fazer novos tipos de observação.
DARWIN no banca das réus

A validade da indução como uma base para a ciência não era apenas inse­
gura filosoficamente, mas era também inexata, porque os cientistas não traba­
lham conforme prescreve o modelo indutivo. Na prática científica, a teoria no
normal precede o experimento ou o processo da coleta de dados em vez de ser
do outro modo. Nas palavras de Popper, “a observação é sempre seletiva. Ela
precisa de um objeto escolhido, uma tarefa definida, um interesse, um ponto
de vista, um problema”. Sem uma teoria, os cientistas não saberiam como
planejar experimentos ou onde procurar dados importantes.
A contribuição inspirada de Popper foi a de descartar o modelo indutivo
e descrever a ciência como começando com uma conjectura imaginativa
ou até mitológica a respeito do mundo. A conjectura pode ser total ou par­
cialmente falsa, mas fornece um ponto inicial para investigação quando é
enunciada com clareza suficiente que pode ser criticada. O progresso é feito
não pela busca no mundo por evidências confirmadoras, que sempre podem
ser encontradas, mas buscando-se a evidência falsificadora que revele a ne­
cessidade de nova e melhor explicação.
Popper expressou o ponto essencial num aforismo maravilhoso: “A vi­
são errada da ciência trai a si mesma pelo desejo ardente de estar certa”. Em
alguns casos esse desejo ardente resulta do orgulho de um descobridor que
defende a teoria com todo o artifício à sua disposição porque sua reputação
profissional está em jogo. Para os marxistas e freudianos, o desejo ardente
veio do sentido de segurança que ganharam de ter uma teoria que parecia
fazer sentido com base no mundo. As pessoas fundamentam suas carreiras
profissionais e sua vida pessoal em teorias assim, e se sentem pessoalmente
ameaçadas quando a teoria está sob ataque. O medo leva tais pessoas a se­
guir acriticamente qualquer método que preserve a teoria de falsificação.
Popper propôs o critério de falseabilidade como um teste para distinguir
a ciência de outras atividades intelectuais, entre as quais incluiu a pseudo-
ciência e a metafísica. Esses termos têm causado alguma confusão porque,
em linguagem comum, identificamos “ciência” como o estudo de um tipo
particular de assunto, tais como a física ou a biologia, opostas a (digamos)
história ou literatura. A lógica de Popper implica que o status científico de
uma teoria depende menos de seus assuntos do que da atitude de seus adep­
tos em relação à crítica. Um físico ou biólogo pode ser dogmático ou eva­
sivo e, portanto, acientífico no método, enquanto um historiador ou crítico
literário pode enunciar as implicações de uma tese tão claramente que fica
aberta a exemplos de refutação. A metodologia científica existe sempre que
teorias são submetidas a rigoroso exame empírico, e está ausente sempre
quando a prática é proteger a teoria em vez de testá-la.
“Metafísica” - um termo bem abrangente pelo qual Popper designou
todas as teorias que não são empiricamente testáveis - também é uma cate-
^4. Ciência e pseudociência 151

goria confusa. Muitos leitores presumiram que Popper implicava que a me­
tafísica é o equivalente a bobagem. Essa foi a visão de uma escola filosófica
da moda chamada “positivismo lógico”, com o qual Popper é incorretamen­
te identificado. Os positivistas lógicos tentaram julgar todo o pensamento
pelos critérios científicos, e para aquele fim classificaram as declarações
como significativas somente até onde pudessem ser verificadas. Uma de­
claração não verificável, tal como “o adultério é imoral” era barulho sem
significado ou simplesmente uma expressão de gosto pessoal.
Popper se opôs fortemente ao positivismo lógico, porque reconheceu
que descartar toda a metafísica como sem significado faria impossível todo
o conhecimento, até mesmo o conhecimento científico. As declarações
universais, tais como as leis científicas muito gerais, não são verificáveis.
(Como poderíamos verificar que a entropia sempre aumenta no cosmos
como um todo?) Além disso, Popper acreditava que é com base na metafí­
sica, isto é, desde conjecturas imaginativas sobre o mundo - que a ciência
tem emergido. Por exemplo, a astronomia deve enorme débito à astrologia
e à mitologia. O ponto da investigação científica não é rejeitar logo e total­
mente as doutrinas metafísicas, mas tentar onde for possível transformá-las
em teorias que podem ser testadas de forma empírica.
Popper insistiu que as doutrinas metafísicas são com freqüência signifi­
cativas e importantes. Embora não possam ser testadas cientificamente, po­
dem, apesar de tudo, ser criticadas, e razões podem ser dadas pela preferên­
cia de uma opinião metafísica em detrimento de outra. Popper até creditou
pseudocientistas como Freud e Adler com valiosos insights que podem um
dia desempenhar sua parte numa genuína ciência da psicologia. Sua crítica
não era de que suas teorias eram bobagens, mas meramente que estavam
enganados em pensar que poderiam verificar aquelas teorias pelos exames
clínicos que sempre lhes permitiram descobrir o que esperavam descobrir.
Por causa de todas essas complicações, o critério de falseabilidade não
diferencia necessariamente a ciência natural de quaisquer outras formas de
atividade intelectual. A contribuição de Popper não foi a de desenhar um li­
mite em tomo da ciência, mas fazer alguns pontos com freqüência ignorados
sobre a integridade intelectual que são igualmente importantes para cientistas
e não-cientistas. Ele nos diz que não devemos ter medo de errar, nem de co­
brir os erros que cometemos, nem buscar refugio na falsa segurança que vem
de ter uma cosmovisão que explica as coisas com muita facilidade.
Como é que o darwinismo se sai se julgarmos as práticas dos darwinistas
pelas máximas de Popper? Darwin foi relativamente cândido em reconhe­
cer que a evidência não era, em importantes aspectos, fácil de reconciliar
com sua teoria, mas no fim enfrentou toda a dificuldade com uma solução
retórica. Ele descreveu seu livro Origem das Espécies como “uma longa
152 DARWIN no banco dos réus

argumentação”, e o ponto da argumentação era que a tese da ancestralidade


comum era tão logicamente atraente que o teste empírico rigoroso não era
exigido. Ele não propôs testes experimentais ousados, e assim iniciou sua
ciência na estrada errada. Darwin mesmo estabeleceu a tradição de minimi­
zar a importância do registro fóssil, de citar o acasalamento seletivo como
verificação sem reconhecer suas limitações, e de tomar indistinta a distin­
ção crítica entre variações mínimas e principais inovações.
O conceito central darwinista que mais tarde veio ser chamado de o
“fato da evolução” - descendência com modificação - foi assim desde o co­
meço protegido de teste empírico. Darwin deixou algumas questões impor­
tantes abertas, até mesmo a importância relativa da seleção natural como
um mecanismo de mudança. Os argumentos resultantes sobre o processo,
que continuam até hoje, tiraram a atenção do fato de que o conceito central
todo importante tinha se tomado um dogma.
O conceito central é todo importante porque não há distinção real entre o
“fato” da evolução e a teoria de Darwin. Quando postulamos que os grupos
descontínuos do mundo vivo foram unidos no passado remoto nos corpos de
ancestrais comuns, sugerimos muito a respeito do processo pelo qual os an­
cestrais tomaram novas formas e desenvolveram novos órgãos. Os ancestrais
tiveram descendentes pelo mesmo processo reprodutivo que hoje observamos,
estendido através de milhões de anos. Um semelhante produz outro semelhan­
te, e assim este processo somente pode produzir principais transformações pela
acumulação das pequenas diferenças que distinguem a descendência dos seus
pais. Alguma força modeladora deve também estar envolvida para construir
órgãos complexos em pequenos passos, e aquela força só pode ser a seleção
natural. Pode haver argumentos sobre os detalhes, mas todos os elementos bá­
sicos do darwinismo estão implicados no conceito de descendência ancestral.
Somente podemos especular sobre os motivos que levaram os cientistas
a aceitar o conceito de ancestralidade comum acriticamente. O triunfo do
darwinismo de maneira clara contribuiu para uma ascensão no prestígio dos
cientistas profissionais, e a idéia de progresso automático encaixou tão bem
no espírito da época que a teoria até atraiu uma quantidade surpreendente
de apoio de líderes religiosos. De qualquer maneira, os cientistas aceitaram
a teoria antes que fosse rigorosamente testada, e daí em diante usaram toda
a sua autoridade para convencer o público de que os processos naturalistas
são suficientes para produzir um ser humano desde uma bactéria, e uma
bactéria com base em uma mistura de componentes químicos. A ciência
evolutiva se tomou a busca pela evidência confirmadora, e um modo de
minimizar a importância da evidência negativa.
A queda para pseudociência foi completada com o triunfo da síntese neo-
darwinista, e atingiu sua apoteose na celebração do centenário da publicação
Ciência e pseudaciência 153

do livro Origem das Espécies, em 1959, em Chicago. Por essa época, o darwi-
nismo não era apenas uma teoria de biologia, mas o mais importante elemento
numa religião do naturalismo científico, com sua própria agenda ética e seu
plano de salvação através da engenharia social e genética. Julian Huxley foi o
mais famoso palestrante em Chicago, e seu triunfalismo foi incontido:

Talvez os historiadores do futuro considerarão esta Semana do Cen­


tenário como o resumo de um importante período crítico na história
desta nossa Terra - o período quando o processo da evolução, na
pessoa do ser humano inquiridor, começou a ser verdadeiramente
consciente de si mesmo... Essa é uma das primeiras ocasiões públi­
cas na qual tem sido de maneira franca encarada que todos os aspec­
tos da realidade são sujeitos à evolução, de átomos, estrelas a peixes,
e flores, de peixes a flores até as sociedades e valores humanos - sem
dúvida, de que toda a realidade é um único processo de evolução...
No padrão evolutivo de pensamento não há mais nem necessi­
dade ou lugar para o sobrenatural. A Terra não foi criada, evoluiu.
Assim, todos os animais e plantas que a habitam, incluindo nossas
naturezas humanas, mente e alma, bem como o cérebro e o corpo.
Assim evoluiu a religião...
Finalmente, a visão evolutiva nos capacita a discernir, todavia de
modo incompleto, as características da nova religião que podemos
ter certeza surgirá para atender às necessidades da era vindoura.

Essas proposições vão além de qualquer coisa que a ciência empírica


pode demonstrar, é claro, e para sustentar essa cosmovisão os darwinistas
tiveram de recorrer a todas as táticas que Popper aconselhou aos que bus­
cam a verdade que evitassem. O expediente mais importante é o uso enga­
nador do termo vago “evolução”.
“Evolução” no emprego darwinista implica um sistema metafísico com­
pletamente naturalista, no qual a matéria evoluiu até seu presente estado de
complexidade organizada sem nenhuma participação de um Criador. Mas a
“evolução” também se refere a conceitos muito mais modestos, tais como
microevolução e relação biológica. Portanto, a tendência das mariposas es­
curas preponderarem numa população quando os troncos das árvores estão
escuros demonstra evolução - e demonstra também, por transformação se­
mântica, a descendência naturalista dos seres humanos desde uma bactéria.
Se os críticos são bastante sofisticados para ver que a variação popula­
cional não tem nada a ver com as principais transformações, os darwinistas
podem repudiar o argumento da microevolução e apontar para a relação
como o “fato da evolução”. Ou podem recorrer para a biogeografia, e sa­
lientar que as espécies em ilhas distantes da costa se assemelham muito
154 DARWIN na banca das réus

àquelas no continente mais próximo. Porque a “evolução” significa muitas


coisas diferentes, quase qualquer exemplo servirá. O truque é sempre pro­
var um dos significados mais modestos do termo, e tratá-lo como prova do
completo sistema metafísico.
A manipulação da terminologia também permite à seleção natural apare­
cer e desaparecer do comando. Quando os críticos inamistosos estão ausen­
tes, os darwinistas podem apenas assumir o poder criativo da seleção natural
e empregá-la para explicar qualquer mudança ou falta de mudança que tem
sido observada. Quando os críticos aparecem e exigem uma confirmação
empírica, os darwinistas podem evitar o teste respondendo que os cientistas
descobrem mecanismos alternativos, particularmente no nível molecular, o
que leva a seleção [natural] a um papel menos importante. Portanto, o fato da
evolução permanece inquestionável, mesmo se houver certa quantidade de
debate saudável sobre a teoria. Uma vez distraídos os críticos, o Relojoeiro
Cego pode reentrar pela porta do fundo. Os darwinistas explicarão que ne­
nhum biólogo duvida da importância da seleção [natural], porque nada mais
estava disponível para modelar as características adaptivas dos fenótipos.
Quando a evidência não confirmadora não pode ser ignorada por com­
pleto, ela é rebatida com hipótese ad hoc. O livro-texto de Douglas Futuyma
comunica aos alunos de faculdade que “Darwin, mais do que ninguém, es­
tendeu a todas as coisas vivas... a conclusão que a mutabilidade, não estase,
é ordem natural”. Assim ele fez, e em consequência os paleontólogos igno­
raram a prevalência de estase no registro fóssil. A estase não podia chegar ao
conhecimento público até que foi “vestida” como evidência para o “equilí­
brio pontuado”, que soou primeiro como uma nova teoria, mas se tomou uma
variante menor do darwinismo. Os darwinistas também podem minimizar a
importância da estase como um efeito de seleção estabilizadora, ou limitações
de desenvolvimento, ou evolução mosaica - e assim, como a mutabilidade,
ela é justamente o que um darwinista esperaria.
Os darwinistas algumas vezes descobrem evidência confirmadora, assim
como os marxistas descobriram os capitalistas explorando os trabalhadores
e os freudianos analisando pacientes que disseram que queriam matar seu
pai e casar com sua mãe. Eles descobrem mais instâncias de microevolu-
ção, ou exemplos adicionais de relações naturais, ou um grupo fóssil que
podem ter contido um ancestral dos mamíferos modernos. O que nunca
descobrem é a evidência que contradiga a tese do ancestral comum, porque
para os darwinistas tal evidência não pode existir. O “fato da evolução” é
verdade por definição, e desse modo a informação negativa não é interes­
sante, e geralmente não publicável.
Se os darwinistas quisessem adotar os padrões de Popper para a investiga­
ção científica, teriam de definir a tese de ancestral comum como uma hipótese
CiÊncia e psaudaciância 155

empírica em vez de uma conseqüência biológica do fato da relação. O padrão


de relação biológica - incluindo o código genético - implica um elemento de
qualidade comum, que significa que é improvável que a vida tenha evoluído
por acaso em muitas ocasiões diferentes. As relações podem vir de ancestrais
comuns, ou de predecessores que foram transformados por alguns meios que
não a acumulação de pequenas diferenças, ou de algum processo na totalida­
de além do alcance de nossa ciência. A ancestralidade comum é uma hipóte­
se, não é um fato, não importa quão fortemente atraia o senso comum. Como
uma hipótese, ela merece nossa mais respeitosa atenção que significa, em
termos popperianos, que devemos testá-la de modo rigoroso.
Faríamos isso predizendo o que esperaríamos encontrar se a hipótese de
ancestralidade comum fosse verdadeira. Até agora, os darwinistas têm pro­
curado somente pela confirmação. Os resultados demonstram quão certo
Popper estava em nos alertar que as “confirmações devem valer somente se
forem o resultado de predições arriscadas”. Se Darwin tivesse feito predi­
ções arriscadas sobre o que o registro fóssil mostraria após um século de
exploração, não teria predito que um único “grupo ancestral” como os ihe-
rapsidas e um mosaico como o Archaeopteryx seria praticamente a única
evidência para macroevolução. Contudo, porque os darwinistas procuram
somente pela confirmação essas exceções parecem para eles como prova.
Os darwinistas não predisseram a extrema regularidade das relações mo­
leculares que agora chamam de relógio molecular, mas esse fenômeno se
tomou “justamente aquilo que a teoria evolucionista prediria” - depois que
a teoria foi substancialmente modificada para acomodar a nova evidência.
Quando analisados pelos princípios popperianos, os exemplos que os
darwinistas citam como confirmação parecem mais como falsificação. Toda­
via, não há necessidade de se exigir um veredicto agora. Se os darwinistas fos­
sem declarar de novo a ancestralidade comum como uma hipótese científica,
e encorajar uma busca por evidência falseadora, evidência adicional surgiria.
A sentença final para o darwinismo pode, com segurança, ser deixada para
processos deliberativos da comunidade científica - assim que essa comunidade
tenha demonstrado sua vontade em investigar a questão sem preconceito.
Todavia, o preconceito é grande problema porque os líderes da ciência
vêem a si mesmos cercados numa batalha desesperada contra os religio­
sos fúndamentalistas, um rótulo que tendem aplicar amplamente a qual­
quer pessoa que creia num Criador que desempenha um papel ativo nos
assuntos mundanos. Esses fúndamentalistas são considerados uma ameaça
à liberdade liberal, e em especial como uma ameaça ao apoio público para
a pesquisa científica. Como o mito da criação do naturalismo científico, o
darwinismo desempenha um papel ideológico indispensável na guerra con­
tra o fundamentalismo. Por causa dessa razão, as organizações científicas
I5G DARWIN no banco dos réus

são devotadas na proteção do darwinismo em vez de testá-lo, e as regras da


investigação científica têm sido modeladas para ajudá-las a ter êxito.
Se o propósito do darwinismo é o de persuadir o público em acreditar
que não há inteligência propositada que transcenda o mundo natural, então
esse propósito implica duas limitações importantes sobre a investigação
científica. Primeira, os cientistas podem não considerar todas as possibili­
dades, mas devem se restringir àquelas que são consistentes com um estrito
naturalismo filosófico. Por exemplo, eles não podem estudar a informação
genética na suposição de que possa ser o produto de uma comunicação in­
teligente. Em segundo lugar, os cientistas não podem falsear um elemento
do darwinismo, tal como o poder criativo da seleção natural, até e a menos
que eles possam fornecer um substituto aceitável. Essa regra é necessária
porque os defensores do naturalismo devem ter o tempo todo uma teoria
completa à sua disposição, a fim de prevenir qualquer filosofia rival de es­
tabelecer uma posição segura.
Os darwinistas tomaram a visão errônea de ciência porque foram infecta­
dos pelo desejo de estar certos. Seus colegas científicos permitiram que esca­
passem impunes com a prática de pseudociência, em primeiro lugar porque
a maioria dos cientistas não entende que há uma diferença entre o método
científico de investigação, conforme articulado por Popper, e o programa fi­
losófico do naturalismo científico. Uma razão por que eles não são inclinados
a reconhecer a diferença é que temem o crescimento do fanatismo religioso
se o poder da filosofia naturalista for enfraquecido. Mas sempre que a ciência
é alistada em outra causa - religiosa, política ou racial - , o resultado é que
os próprios cientistas também se tomam fanáticos. Os cientistas percebem
isso com clareza quando pensam sobre os erros de seus predecessores, mas
eles acham difícil acreditar que seus colegas pudessem cometer os mesmos
erros hoje.
Expor o darwinismo a possível falsificação não implicaria apoio para
qualquer outra teoria, decerto nenhuma teoria pseudocientífica baseada em
dogma religioso. Aceitar o desafio de Popper é dar simplesmente o primeiro
passo em direção ao conhecimento: o reconhecimento da ignorância. A fal­
sificação não é uma derrota para a ciência, mas uma libertação. Ela remove
o peso morto do preconceito, e por isso nos liberta para a verdade.
Epílogo

D livro e
seus críticos

o seu livro de 1992, Dreams o f a Final Theory, Steven Weinberg me

N descreveu como “o mais respeitável crítico acadêmico da evolução”.


Não estou certo se isso pode ser considerado como um elogio na escala
de valores de Weinberg, mas estou mais interessado na descrição do que na
honra. O que é exatamente um “crítico da evolução”, e por que, num mundo
acadêmico em que a crítica de opinião estabelecida é altamente valorizada,
a crítica ao darwinismo é tão incomum?
Uma coisa que não estou fazendo é tomar posições num conflito Bíblia
versus Ciência. Estou interessado no que a investigação científica sem pre­
conceito tem a nos dizer sobre a história da vida, e em particular sobre como
os órgãos enormemente complexos de plantas e animais passaram a existir.
Este projeto não implica oposição em todos os sentidos daquele termo alta­
mente manipulado. Concordo, por exemplo, que os grupos que se acasalam
e que se tomam isolados numa ilha com freqüência variam das espécies de
terra firme como um resultado de acasalamento, mutação e seleção. Isto é
mudança dentro dos limites de um tipo preexistente, e não necessariamente
os meios pelos quais os tipos passaram a existir em primeiro lugar. A um ní­
vel mais geral, o padrão de relações entre as plantas e os animais sugere que
eles podem ter sido produzidos por algum processo de desenvolvimento de
alguma origem comum. O que é importante, não é se nós chamamos a esse
processo de “evolução”, mas quanto realmente sabemos a respeito dele.
DARWIN no banca das réus

O argumento de Darwin no banco dos réus é que sabemos muito me­


nos do que tem sido afirmado. Em particular, não sabemos como os siste­
mas de órgãos imensamente complexos de plantas e animais puderam ter
sido criados por processos naturais inconscientes e sem propósito, como os
darwinistas dizem que eles devem ter sido criados. A teoria darwinista atri­
bui a complexidade biológica à acumulação de micromutações adaptivas
pela seleção natural, mas o poder criativo desse mecanismo hipotético nun­
ca foi demonstrado, e a evidência fóssil é inconsistente com a afirmação de
que a criação biológica ocorreu daquela maneira. A parte filosoficamente
importante da teoria darwinista - seu mecanismo para criar coisas comple­
xas não existia antes - não faz, portanto, parte da ciência empírica de modo
algum, mas antes é uma dedução da filosofia naturalista. Resumindo, o que
me toma um “crítico da evolução” é que faço distinção entre a filosofia
naturalista e a ciência empírica, e me oponho à primeira quando ela vem
travestida na autoridade da segunda.
Para os naturalistas científicos como Steven Weinberg, a distinção que
faço entre o naturalismo e a ciência não faz sentido. Na mente deles, a ciên­
cia é o naturalismo aplicado e não pode ser outra coisa. Como diz Weinberg,
“a única maneira que qualquer tipo de ciência pode prosseguir é supor que
não há intervenção divina e ver até onde alguém pode ir com aquela supo­
sição”. Sem dúvida que alguém pode ir muito longe, porque a ciência julga
suas teorias por padrões relativos em vez de absolutos, e assim a melhor
teoria naturalista atualmente disponível pode reter o status de “conheci­
mento científico” mesmo que esteja em desacordo com grande quantidade
de evidência. Assim, Weinberg foi capaz de defender o neodarwinismo de
minhas críticas se baseando em princípios gerais, sem ter de considerar a
evidência. Ele simplesmente observou que, se a síntese neodarwinista tiver
problema com alguma evidência que não se harmoniza, isso não é incomum
na ciência. O que tudo isso significa é que “usando a teoria naturalista da
evolução, os biólogos trabalham com uma teoria esmagadoramente bem-
sucedida, mas uma que não completou seu trabalho de explicação”.
Para um grupo profissional que tem como certo o naturalismo meta­
físico e busca somente fornecer cada vez mais explicações naturalistas
completas, esse modo de pensar pode ser apropriado. Todavia, quando o
próprio projeto naturalista é questionado, convoca-se um diferente tipo de
raciocínio. Os darwinistas nos dizem que não há necessidade de considerar
a possibilidade de que plantas e animais devem sua existência a um Criador
sobrenatural, porque os mecanismos naturais como a mutação e a seleção
foram adequados para realizar o trabalho da criação. Quero saber se essa
afirmação é verdadeira, não somente se é a melhor especulação naturalista
disponível. Sem dúvida que os biólogos são devotados à teoria que define
Epílogo
/ I
a área deles, e sem dúvida que os naturalistas científicos consideram o pro­
jeto de explicação naturalista como esmagadoramente bem-sucedido. As
pessoas que não compartilham esse compromisso a priori ao naturalismo
podem, sem dúvida, estar corretas em pensar que a teoria reinante não está
simplesmente incompleta, mas bem inconsistente com a evidência.
Essas questões não podem ser deixadas à determinação única de uma
classe de especialistas, porque questões importantes de religião, filosofia e
poder cultural estão em jogo. A evolução naturalista não é meramente uma
teoria científica, ela é a história oficial da criação da cultura moderna. O
sacerdócio científico que tem a autoridade de interpretar a história oficial
da criação ganha, portanto, imensa influência cultural, que pode perder se a
história for colocada em dúvida. Por isso os especialistas têm um interesse
velado em proteger a história, e em impor regras de raciocínio que a tomam
invulnerável. Quando os críticos perguntam: “A sua teoria é realmente ver­
dadeira?”, não devemos ficar satisfeitos em sermos respondidos que “é boa
ciência, como nós definimos ciência”.
Uma pessoa da qual se esperava que entendesse o papel da filosofia e do
auto-interesse profissional na teoria evolutiva foi Stephen Jay Gould. Como
os leitores deste livro sabem muito bem, Gould foi algumas vezes franco
em reconhecer a fraqueza da afirmação que inovações evolutivas profun­
das ocorrem por acúmulo de microevoluções pela seleção natural, e suas
descrições do registro fóssil foram tão não-darwinistas quanto elas possi­
velmente poderiam ser. Embora Gould tivesse sido vigoroso oponente do
criacionismo, ele também foi um implacável inimigo da sociobiologia, que
é uma tentativa de aplicar a teoria darwinista à cultura e ao comportamento
humanos. Seus ensaios freqüentemente lidam com o papel que a ideologia
e o preconceito pessoal têm desempenhado na História da Ciência, em par­
ticular a ciência darwinista.
Gould foi até direto sobre a inerente oposição entre o darwinismo e a reli­
gião teísta. Ele escreveu que “antes de Darwin, pensávamos que um Deus be­
nevolente tinha nos criado”. Todavia, por causa de Darwin, aprendemos que
“nenhum espírito interveniente olha amorosamente sobre os acontecimentos
da natureza (embora o Deus de Newton, que dá corda no relógio, possa ter
elaborado a maquinaria no começo do tempo e depois a deixou funcionando).
Nenhuma força vital impele a mudança evolutiva. E seja o que pensarmos
acerca de Deus, sua existência não é manifesta nos produtos da natureza”.
Se o darwinismo tem tais implicações antiteístas tão profundas, e se o meca­
nismo darwinista crucial para a geração de inovações complexas tem tanta
dificuldade com a evidência conforme Gould tem dito, então poderia pare­
cer, sem dúvida, muito razoável para os teístas filosóficos questionarem se o
darwinismo é verdadeiro. É possível que um grupo dominante de cientistas
DARWIN nD banco dos réus

tenha estado tão devotado ao naturalismo filosófico que tenha ficado muito
facilmente satisfeito pela evidência inadequada a favor dos mecanismos natu­
ralistas de criação? Decerto que Gould, de todas as pessoas, deveria entender
por que essa é uma pergunta razoável para se fazer.
Mas ele pôde ser dar ao luxo de admitir isso? Uma coisa é expor o pre­
conceito e a ideologia na ciência do passado, outra coisa é reconhecer sua
viva influência no presente. Gould foi um dos mais preeminentes metafísi­
cos de ciência do mundo, que nunca deixou passar uma oportunidade para
transmitir a impressão de que a ciência descobriu que o mundo é governado
por acaso. Sua autoridade como uma estrela da mídia e guru da esquerda
acadêmica foi baseada na sua habilidade em interpretar a história darwi-
nista com um viés de igualdade. Seria do seu interesse admitir que a teoria
da qual ele ganha seu próprio prestígio está fundamentada em algo menos
seguro do que o fato incontestável?
Evidentemente que não. A resenha de Darwin no banco dos réus por
Gould cobriu quatro páginas da edição de julho de 1992 da revista Scientific
American, tendo aparecido um ano depois de o livro ter sido publicado. A
resenha foi um indisfarçável ataque cruel, objetivando dar a impressão que
o meu ceticismo sobre o darwinismo deve ser em razão de uma ignorância
dos fatos básicos de biologia,1e até invocou sua professora da terceira série
do ensino fundamental como uma autoridade sobre como escrever sobre
transições. Nada disso teria impressionado qualquer pessoa que tivesse lido
o livro, mas como a maioria dos leitores da revista Scientific American não
teria feito isso, provavelmente suporia que Gould descrevia o livro com
correção. É bem provável que eles não ouviriam nada ao contrário porque
os editores se recusaram publicar minha resposta ou quaisquer cartas de
leitores, embora eu saiba que eles receberam muitas cartas.
Longe de ficar desencorajado por esse tratamento, fiquei entusiasmado. A
maioria dos livros não é mais notícia um ano após a publicação. Meu livro
ainda era aparentemente uma ameaça suficiente para merecer um ataque ple­
no pelo darwinista mais preeminente dos Estados Unidos. Além disso, Gould
por escrito se mostrou muito menos formidável do que o Gould que muitos de
meus colegas tinham esperado. Todos que acompanhavam a controvérsia pre­
sumiram que Gould fosse o adversário mais formidável que eu encontraria,
e muitos esperavam para ver se ele viria com uma resposta devastadora. Que
ele não pode fazer melhor do que um ataque-surpresa e sair de imediato de
cena foi uma admissão implícita de que ele não tinha nenhuma resposta nos
méritos da questão. Como um amigo bioquímico escreveu me parabenizando:

1 Veja as notas de pesquisa após este capítulo para um resumo das objeções específicas de Gould.
Epílogo

“A julgar pelos gemidos de lamento das páginas posteriores da revista Scienti­


fic American, acho que você deve ter acertado um lugar vital”.
E eu tinha acertado, Na parte de sua resenha que abordava uma questão
substantiva principal, Gould tomou uma posição que convenceu a muitos
no seu próprio campo de que ele não colocava suas cartas na mesa. Ele
escreveu que estava particularmente ofendido pela minha “acusação falsa
e indelicada de os cientistas serem desonestos quando reivindicam respeito
igual para a ciência e a religião”. É claro, eu me referia aos apologistas
do naturalismo científico e não “cientistas”, estes últimos sendo um grupo
amplo que inclui muitas pessoas que não aceitam a metafísica naturalista.
Eu nem sequer acusei os naturalistas científicos de desonestidade, mas sim­
plesmente indiquei que o que eles querem dizer por “respeito pela religião”
tem de ser interpretado à luz de sua filosofia. Naquela filosofia, a ciência
(i.e., naturalismo) define o quadro objetivo da realidade para todos. A reli­
gião contribui com valores de juízo ou reações subjetivas àquele quadro.
Tentando refutar meu ponto, Gould de modo retumbante o confirmou. A
ciência e a religião são campos separados, mas iguais em importância, ele
escreveu, “porque a ciência trata da realidade factual, enquanto a religião
luta com a moralidade humana”. Isso, em resumo, é metafísica naturalista,
e sua versão de “separado, mas igual” significa aproximadamente o que a
mesma frase significou nos dias de Jim Crow.2 O poder de definir a “reali­
dade factual” é o poder de governar a mente, e assim confinar a “religião”
dentro de uma caixa naturalista. Por exemplo, uma suposta ordem de Deus
dificilmente pode fornecer uma base de moralidade, a menos que Deus exis­
ta decerto. As ordens de uma divindade imaginária são meramente ordens
humanas em roupagem de lei divina. A moralidade em metafísica natura­
lista é uma invenção puramente humana, como Gould admitiu na mesma
resenha ao observar de imediato que em questões de moralidade “não existe
nenhuma Tei natural’ esperando para ser descoberta Tá em cima’”. Por que
não? A resposta, claro, é que a metafísica naturalista empurra tanto a mo­
ralidade como a Deus ao domínio fora do conhecimento científico, em que
somente a crença subjetiva é para ser encontrada.
Outros naturalistas teístas com liberdade admitiram que a teoria darwinis-
ta é fúndamentalmente incompatível com uma compreensão teísta da reali­
dade. A resenha de David Hull na revista Nature insistiu que a racionalidade
científica exige adesão ao naturalismo, e que a teoria darwinista implica um
Criador que teria de ser desperdiçador, indiferente às suas criaturas e quase

2 N. do T.: Jim Crow, um estereótipo de negro numa canção e cena teatral do século XIX; também
significa a discriminação étnica contra os negros, especialmente pela legislação ou sanções tradicionais.
Hoje, os negros americanos são “mais iguais e menos separados” do que os negros no Brasil.
lez DARWIN na banca das réus

diabólico. Steven Weinberg discordou nesse ponto da resenha de Gould e


comentou de modo menos dramático que a maioria das pessoas que acredita
em Deus ficaria muito surpresa em saber que sua crença não tem nada a ver
com a realidade factual. Posso ilustrar a opinião dele pedindo aos leitores
que imaginem como os darwinistas reagiriam a uma sugestão minha de que
“respeito” a teoria deles como um artefato de crença naturalista e que de
modo algum pretendo menosprezá-la quando digo que ela não tem nada a
ver com a verdadeira história da vida.
O mais dramático reconhecimento das raízes filosóficas do darwinismo
veio de Michael Ruse, autor de Darwinism Defended e testemunha [como
especialista] a favor da “evolução” no famoso julgamento de Arkansas des­
crito no Capítulo 9 deste livro. Ruse participou de uma conferência sobre
Darwin no banco dos réus promovida pela Fundação para o Pensamento e
Ética, na Southern Methodist University, Dallas, Estados Unidos, em mar­
ço de 1992. A conferência em si foi um fato que marcou época na questão
de criação e evolução no mundo acadêmico. Pela primeira vez, até onde
sei, acadêmicos respeitáveis participaram nos dois lados para discutir a pro­
posição crítica de que o naturalismo metafísico fornece o apoio filosófico
essencial para a síntese evolutiva moderna neodarwinista. A parte singular
da conferência foi um debate público entre eu e Ruse. Argumentei que a
metafísica naturalista na qual o darwinismo está baseado é incompatível
com qualquer teísmo significativo. Ruse tomou a posição de que certos
tipos de teísmo podem ser reconciliados com a teoria. A diferença entre nós
é bem provável que surgiu em se um teísmo que tenha de respeitar as regras
do naturalismo científico é “significativo” intelectualmente.
Como com freqüência é o caso, o impacto verdadeiro do encontro foi
sentido algum tempo mais tarde. Em fevereiro de 1993, Ruse fez algumas
concessões extraordinárias numa palestra da reunião anual da American
Association for the Advancement of Science (AAAS).3A programação fora
organizada por Eugenie Scott, do National Center for Science Education
(NCSE), um grupo financiado por particulares dedicado a proteger a educa­
ção da ciência da ameaça do criacionismo. Na prática, esse projeto envolve
montar um ataque retórico em quem questione a evolução naturalista. A
linha costumeira do NCSE é que todos os críticos do naturalismo são bibli-
cistas literalistas manifestos ou disfarçados, e assim provavelmente foi um
passo em direção à realidade para o grupo pedir a Ruse que falasse sobre
um tópico chamado “O antievolucionismo não-literalista: O caso de Phillip
Johnson”. O objeto desse estudo de caso não foi convidado para se defen­

3 N. do T.: Equivalente à nossa Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).


der, mas os trabalhos apresentados foram oficialmente gravados e recebi
uma cópia quase que de imediato.
Depois de se deleitar em alguns momentos com o ritual de desancar
Johnson que o espírito da ocasião exigia, Ruse mudou seu tom de maneira
dramática e se envolveu em um exame de consciência profundo publica­
mente. A conferência de Dallas pareceu ter causado grande impressão nele.
Ele relatou que havia me achado, assim como outros participantes, uma
pessoa agradável, e achou que nossas discussões tinham sido “bem constru­
tivas”. Havíamos falado principalmente sobre metafísica e minha posição
de que a metafísica naturalista fundamenta a crença darwinista. Ruse ad­
mitiu para sua audiência da reunião da AAAS, “nos dez anos desde que eu
representei, ou apareci, no julgamento do criacionismo em Arkansas, devo
dizer que eu mesmo estou chegando a esse tipo de posição”. Embora ele
seja tão evolucionista quanto antes, Ruse agora reconhece “que o lado da
ciência tem certas suposições metafísicas incorporadas no fazer ciência, as
quais - pode não ser uma boa coisa admitir numa corte judicial - acho que
devemos reconhecer com toda honestidade”.
Fui informado que a audiência acolheu essas observações com impres­
sionante silêncio, indicando que perceberam as conseqüências políticas que
poderiam se seguir dessa linha de raciocínio. A reação entre os darwinistas
à probabilidade de admitir que eles fazem suposições metafísicas é indicada
pelo título do comentário do zoólogo Arthur Shapiro na edição seguinte
dos Relatórios NCSE\ “Did Michael Ruse Give Away the Store?”4 Shapiro,
que também participou da conferência de Dallas, contestou a visão de seus
colegas que tinham respondido aquela pergunta no afirmativo. Ele achou
que Ruse tinha “simplesmente causado mal-estar aos praticantes da ciência
que decerto acreditam na propaganda positivista de autojustificação sobre
a objetividade última”. Shapiro afirmou em itálico, “É claro que há um nú­
cleo irredutível de suposições ideológicas fundamentando a ciência ”, mas
ele acrescentou que essas suposições “não excluem a existência potencial
de entidades além do alcance da ciência”. Ele concluiu que “o darwinismo é
uma preferência filosófica, se por isso queiramos dizer que escolhemos dis­
cutir o Universo material em termos de processos materiais acessíveis por
operações materiais. Poderíamos escolher olhar uma tempestade e explicá-
la dizendo que ‘os deuses estão zangados’. Pode ter certeza disso”.
As observações de Shapiro ilustram uma concepção errônea de teísmo
que está enraizada com profundidade na mentalidade naturalista, e isso ex­
plica por que os reconhecimentos pro forma dos “limites da ciência” têm

4 N. do T.: O título do artigo de Shapiro pode ser livremente traduzido como: “Michael Ruse
entregou o ouro?”
DARWIN riD banco dos réus

de ser tão cuidadosamente interpretados como declarações naturalistas de


“respeito pela religião”. Para os naturalistas científicos, o reconhecimento de
uma realidade sobrenatural equivale a superstição, e daí a um abandono da
ciência. Para os teístas, por outro lado, o conceito de uma mente sobrenatu­
ral em cuja imagem somos criados é a base metafísica essencial para nossa
confiança de que o cosmos é racional e até certo ponto compreensível. Os
naturalistas científicos insistem, paradoxalmente, que o cosmos pode ser en­
tendido por uma mente racional somente se ele não foi criado por uma men­
te racional. (Por tal raciocínio, um computador deveria ser uma caixa-preta
impenetrável.) O que esse grotesco mal-entendido sobre teologia e história
da ciência nos diz é que o mundo científico está permeado por má filosofia,
especialmente considerando-se que o nível de mal-entendido de Shapiro é
muito avançado em relação aos de seus muitos colegas, que ainda repetem a
“propaganda positivista de autojustificação sobre a realidade última”.
Espero que com brevidade seja possível convocar uma conferência de
preeminentes cientistas e filósofos para maiores discussões das suposições
ideológicas que os cientistas influentes estão determinados impor não so­
mente dentro de suas próprias disciplinas, mas - através da educação pú­
blica - sobre toda a cultura. Obviamente, grande número de educadores
de ciência espera que os teístas se contentem com a fórmula de Gould de
“separados, mas iguais”, em que a ciência naturalista abarca toda a área da
realidade como a sua parte. Outros, como Steven Weinberg, afirmam com
mais agressividade a metafísica naturalista para desacreditar “crenças irra­
cionais”, querendo dizer especificamente a religião sobrenatural. Algumas
vozes influentes acham que a melhor estratégia é reconhecer os princípios
metafísicos do naturalismo científico e defendê-los. Outros estão com medo
de que isso seria “entregar o ouro” e planejam continuar a mostrar a evo­
lução naturalista como sendo um “fato” isento de juízos de valor. Parece
que um pouco de esclarecimento se faz necessário, e também um pouco de
discussão sobre se é apropriado alistar a educação em ciências na tarefa de
vender uma visão de mundo.
Michael Ruse não é o único darwinista preeminente lidando com as
sérias questões filosóficas que estão em jogo após ter, a princípio, descar­
tado meu argumento como indigno de séria consideração. William Provine
escreveu uma resposta sarcástica ao meu artigo “Evolution as Dogma”5
publicado na revista First Things, mas depois concordou que temos um
ponto importante em comum. Nas suas palavras, nós dois pensamos que
“evolucionistas preeminentes têm se juntado com teólogos e líderes re­
ligiosos igualmente preeminentes para jogar para debaixo do tapete as

5 N. do T.: “A evolução como dogma”.


Epílogo
/ I
incompatibilidades da evolução e da religião [teista], e nós dois deplora­
mos essa estratégia”. Um ano após Darwin no banco dos réus ter apare­
cido, e depois que Provine e eu nos conhecemos num debate amigável, a
área de concordância pareceu se expandir. Provine leciona um curso em
Biologia Evolutiva na Universidade Comell com mais de 400 estudantes,
e ele prescreveu para todos que lessem e escrevessem um trabalho sobre o
meu livro no semestre. Ele me procurou em Berkeley para uma memorável
discussão no café-da-manhã e me convidou a ir à Universidade Comell
naquele outono para dar uma palestra como visitante no seu curso e passar
um dia inteiro discutindo a questão com os estudantes e os professores-as­
sistentes graduados. Eu fui, a experiência foi um sucesso, e concordamos
em repeti-la no próximo outono. Provine e eu temos nos tomado adversá­
rios amigáveis, porque nossa concordância sobre como definir a questão é
mais importante do que nossa discordância em como respondê-la.
Meu primeiro objetivo ao escrever Darwin no banco dos réus foi le­
gitimar a afirmação de uma visão de um mundo teísta nas universidades
seculares. Dois anos após sua publicação, enorme progresso tem sido feito
em alcançar aquele objetivo. Na medida em que visito as universidades,
cada vez mais descubro que influentes cientistas, filósofos e historiadores
de ciência estão dispostos e até ansiosos em discutir as questões. Eles têm
aprendido que a discussão racional sobre o naturalismo científico é possí­
vel, e alguns começaram a se perguntar se a exclusão da perspectiva teísta
da ciência é inevitável ou justificada. Corre a notícia de que é engraçado
desafiar o tabu secreto do próprio modernismo, num ambiente que permi­
te uma análise racional em vez de mera colisão de posições partidárias.
Fiquei particularmente satisfeito com o professor de antropologia Ronald
Wetherington, da Southern Methodist University [Universidade Metodista
do Sul], que tomou a iniciativa de organizar um colóquio um ano após o
simpósio no qual Ruse e eu debatemos. Wetherington elaborou um “memo­
rando de discussão” equilibrado, resumindo nossos pontos concordantes e
discordantes, e nós o entregamos a todos que atenderam aquele colóquio.
Esse tipo de preparação é essencial em nossas universidades, onde muitos
estudantes e professores estão tão completamente impregnados nas suposi­
ções naturalistas que acham difícil acompanhar com atenção uma discussão
que não tem como certas aquelas suposições.
Meus colegas seculares geralmente supõem que um livro que desafia a
coluna central do naturalismo científico deve ter sido recebido com impe­
tuoso entusiasmo no mundo cristão. É verdade que muitos leitores cristãos
estão entusiasmados, mas há também muitos com sérias reservas. Há uma
variação de opinião muito grande entre os cristãos sobre a evolução, varian­
do desde cientistas da criação de uma “Terra recente” a teólogos liberais
que adotam a evolução naturalista com entusiasmo. Um grupo com o qual
IGG DARWIN no banco dos réus

tenho particularmente me envolvido em discussão e debate consiste de pro­


fessores de ciência e filosofia cristãos que tentam acomodar a ciência e a
religião adotando a “evolução teísta”. Os críticos nessa categoria incluem
William Hasker, Nancey Murphy, Howard Van Till e Owen Gingerich.
Uma crítica composta de Darwin no banco dos réus do ponto de vista
teísta evolucionista incluiria os seguintes pontos principais: (1) Johnson
não distingue entre a teoria científica da evolução, que os cristãos podem e
devem respeitar como ciência, e os excessos filosóficos de certos cientistas
preeminentes (e.g.: Cari Sagan e Richard Dawkins) que usam mal a teoria
para apoiar o ateísmo; (2) Cientistas como esses podem não reconhecer
nenhum papel para Deus na evolução, mas isso é somente porque a ciência,
por sua própria natureza, está comprometida com o ateísmo metodológico,
e não porque os cientistas estão necessariamente promovendo o ateísmo
como uma visão de mundo; (3) Na verdade, é grave erro inserir Deus nos
relatos científicos da (digamos) origem da vida, porque isto cria um “Deus
das lacunas” que, inevitavelmente, será colocado de lado assim que o co­
nhecimento científico avançar; (4) Em qualquer caso, Johnson exagera as
falhas da teoria científica da evolução, talvez porque ele seja um advogado.
Ele insiste em prova absoluta enquanto o raciocínio científico exige so­
mente que uma teoria seja mais forte do que suas rivais; (5) Uma vez que
Johnson não forneceu nenhuma teoria alternativa, sua crítica falha sob as
regras no geral aplicadas na ciência.
Provavelmente os leitores têm notado que esses pontos são, de um modo
geral, semelhantes àqueles feitos pelos naturalistas científicos. Tenho res­
pondido aos teístas evolucionistas em vários artigos de publicações espe­
cializadas e respostas às resenhas, e especialmente no meu ensaio “Creator
or Blind Watchmaker?”6na edição de janeiro de 1993 da revista First Things.
O ponto central é que definir a questão como se a “evolução” é “boa ciên­
cia” é permitir às categorias naturalistas a definição dos termos do debate
e assim controlar o desfecho. A “evolução” simboliza o conhecimento mo­
desto que a ciência realmente ganhou sobre como os organismos variam,
e também a vasta história da criação naturalista sobre como a mutação e a
seleção trouxeram a vida até sua complexidade presente. Você admite ou
não o “fato da evolução”? Negue-o e parece que você nega que as espécies
insulares variam de ancestrais de terra firme, ou que os cruzadores de cães
têm produzido são-bemardos e dachshunds de um cruzamento ancestral.
Admita-o e você será considerado como tendo admitido, sem o apoio da
evidência, que uma bactéria ancestral mudou por meio de vasta série de
passos adaptivos sem propósito para produzir as baleias, os seres humanos,

6 N. do T.: “Criador ou Relojoeiro Cego?”.


Epílogo IG7

os insetos e flores de hoje. Se a “evolução” for admitida como sendo um


único processo, então admitir qualquer aspecto é admitir toda a história.
Essa manipulação verbal tem poder até sobre as mentes treinadas - ou
talvez eu devesse dizer especialmente sobre as mentes que têm sido treina­
das para aceitá-la como “pensamento científico”. Assim Owen Gingerich
cita os pássaros que não voam do Havaí como evidência da “evolução”,
como se justificando que um processo que pode tirar o poder de voar deva
ser capaz de criar aquele poder. Assisti a uma palestra por um teísta evolu-
cionista, professor de genética, sobre “o futuro da evolução humana” - que
era inteiramente sobre doenças genéticas como Tay-Sachs e fibrose cística.
Howard Van Till afirma com ênfase que conceitos como “continuidade ge­
nealógica” e uma “economia de criação sem lacunas” são consistentes com
os pontos de vista dos reverenciados pais da igreja como Agostinho. E as­
sim eles são, mas a compreensão totalmente naturalista da história da vida
que o establishment científico contemporâneo incorpora no termo “evolu­
ção” é um assunto muito diferente.
A experiência com esse contínuo uso da terminologia vaga para confundir
as questões me levou a introduzir uma terminologia mais específica que ajuda­
ria os leitores e ouvintes de palestras a compreender o ponto realmente impor­
tante da evolução darwinista. Começando com as palestras no início de 1992,
insisti em evitar o termo “evolução” e descrevi a doutrina central do darwinis-
mo como a “tese do relojoeiro cego”, à maneira do famoso livro de Richard
Dawkins.7 Dawkins expôs a questão com esplêndida clareza. “A biologia”,
ele escreveu, “é o estudo das coisas complexas que dão a impressão de terem
sido planejadas para um propósito”.8 Essa aparência é enganadora, de acordo
com Dawkins, porque as forças sem propósito da mutação e seleção foram de
fato as responsáveis. “A seleção natural é o relojoeiro cego, cego porque não
enxerga adiante, não planeja conseqüências, e não tem propósito em vista.
Mas, ainda assim, os resultados vivos da seleção natural surpreendentemente
nos impressionam com a ilusão de design e planejamento.”
A metafísica e a ciência estão emaranhadas de modo inseparável na
tese do relojoeiro cego. Penso que maioria dos teístas evolucionistas aceita
como científica a afirmação de que a seleção natural realizou a criação, mas
rejeitaria a doutrina metafísica acompanhante que o entendimento científi­
co da evolução exclui o design e o propósito. O problema com esse tipo de
dividir as coisas é que a declaração metafísica não é mero embelezamento,
mas a fundação essencial para a afirmativa científica. Isto porque o poder

7 N. do X: O autor se refere ao livro “O relojoeiro cego” de Richard Dawkins (São Paulo: Compa­
nhia das Letras, 2001).
8N. do T.: A tradução brasileira de “O relojoeiro cego” foi muito precisa neste texto: "A biologia é
o estudo das coisas complexas que dão a impressão de ter um design intencional", p. 18.
IBS DARWIN no banco dos réus

criativo da mutação e da seleção nunca é demonstrado diretamente. Antes, ele


é considerado existir por necessidade, por causa da ausência de uma alternati­
va mais satisfatória. Por outro lado, se Deus existe, e ele tiver o poder de criar,
não há necessidade para a existência de um mecanismo de relojoeiro cego - e
a falta de evidência que um existe se toma digna de ser notada.
Tenho achado muito difícil fazer os teístas evolucionistas discutirem
a tese do relojoeiro cego. Eles preferem falar vagamente de “evolução”
e confortar a si mesmos com o pensamento de que esse termo pode ser
definido de maneiras que não são totalmente naturalistas. Por trás dessa
relutância em definir com nitidez as questões filosóficas está uma questão
muito maior. Deveriam os teístas (cristãos e outros fiéis) tentar competir
com os naturalistas científicos na tarefa de descrever a realidade, ou eles de­
veriam aceitar tacitamente o quadro naturalista e tentar encontrar um lugar
seguro dentro dele? Vários tipos de fundamentalista têm tomado a primeira
rota, e o exemplo deles não é encorajador para ninguém que queira ser um
participante respeitado na comunidade mundial de cientistas e intelectuais.
O naturalismo científico, por outro lado, deixa um lugar para a “crença
religiosa”, desde que os crentes religiosos não desafiem a autoridade da
ciência naturalista para dizer o que é e o que não é real. Alguns naturalistas
científicos como Richard Dawkins são ateus agressivos, mas muitos outros
reconhecem que a humanidade não vive somente da ciência e que um lugar
(cuidadosamente restrito) deve ser deixado para a satisfação de anseios es­
pirituais. Se um fundamentalismo que estiver em desacordo com o genuíno
conhecimento científico for a única alternativa aparente, tomar um pouco
indistinta as questões para guardar um lugar para a religião teísta numa
cultura intelectual naturalista pode parecer boa estratégia.
É claro, não concordo com essa estratégia. Não acho que a mente pode
servir a dois mestres, e estou confiante que sempre que qualquer tentativa
é feita, o naturalismo sempre será o mestre e o teísmo terá de se subme­
ter aos seus ditames. Se a tese do relojoeiro cego for verdadeira, então o
naturalismo merece reinar, mas me dirijo àqueles que acham que a tese é
falsa, ou pelo menos estão desejosos de considerar a possibilidade de que
ela possa ser falsa. Tais pessoas devem estar desejosas em desafiar as falsas
doutrinas, não na base do preconceito ou cega adesão à tradição, mas com
argumentos bem nítidos e racionais. Elas também precisam trabalhar num
entendimento positivo da visão teísta da realidade, uma que permita à ciên­
cia natural descobrir seu devido lugar como uma parte importante, mas não
totalmente importante da vida da mente.
É claro que há um risco a empreender tal projeto, como os teístas evolucio­
nistas com freqüência nos lembram se referindo à necessidade de evitar lançar
mão do “Deus das lacunas”. Se a compreensão naturalista da realidade for
Epílogo IBS

verdadeiramente correta e completa, então Deus terá de se retirar por completo


do cosmos. Não acho que o risco seja muito grande, mas, de qualquer maneira,
não acho que os teístas deveriam enfrentá-lo com uma rendição antecipada.
A evolução darwinista com sua tese do relojoeiro cego me faz pensar em
um grande navio de guerra no oceano da realidade. Seus flancos estão for­
temente armados com barreiras filosóficas contra a crítica, e seus conveses
estão empilhados com grandes canhões de retórica prontos para intimidar
quaisquer possíveis agressores. Na aparência, ela é tão inexpugnável quanto
a antiga União Soviética parecia ser apenas há alguns anos. Mas o navio tem
começado a fazer água numa brecha metafísica, e os oficiais navais mais
perceptivos começaram a sentir que todo o poder de fogo do navio não pode
salvá-lo e a embarcação do navio e alguns plausíveis salvadores convidarão
os oficiais a se refugiar nos barcos salva-vidas eletrônicos equipados com
direção de alta tecnologia como as séries autocatalíticas e os modelos com­
putacionais de sistemas auto-organizadores. O espetáculo será fascinante, e a
batalha prosseguirá por muito tempo. Mas, no fim, a realidade vencerá.
172 DARWIN no banco das réus

A palestra de Colin Patterson de 1981 não foi publicada, mas revi uma
transcrição [da palestra] e Patterson reafirmou sua posição, que eu rotularia
de “niilismo evolutivo”, numa entrevista com o jornalista Tom Bethell. (Veja
Bethell, “Deducing from Materialism”, National Review, 29 de agosto de 1986,
p. 43.) Discuti sobre evolução com Patterson por várias horas em Londres em
1988. Ele não se retratou de nenhuma de suas declarações céticas específicas
que tem feito, mas disse que continuava aceitando a “evolução” como a única
explicação concebível para certas características do mundo natural.
O artigo “Room for Darwin and the Bible” de Irving Kristol apareceu na
página de opinião do jomal The New York Times de 30 de setembro de 1986.
O título foi infeliz, porque a tese de Kristol não foi que a Bíblia deveria ser
incluída nas aulas de ciência, mas que o darwinismo deveria ser ensinado
menos dogmaticamente. O artigo-resposta de Stephen Jay Gould apareceu
na edição de janeiro de 1987 da revista Discover com o título “Darwinism
Defined: The Difference Between Fact and Theory”.
As citações atribuídas a Richard Dawkins são de seu livro The Blind Wa­
tchmaker (1986), edição americana e O relojoeiro cego - 2001, edição brasi­
leira, São Paulo, Companhia das Letras, e de sua resenha do livro Blueprints de
Donald Johanson e Maitland Edey, de 1989, no jomal The New York Times.
Para relatos do julgamento de Scopes veja os livros Darrow: A Biogra­
phy (1979) de Kevin Tierney; The Great Monkey Trial (1968) de L. Sprague
de Camp e Trial and Error: The American Controversy over Creation and
Evolution (ed. rev. de 1989), de Edward J. Larson. A história também é re­
contada com precisão no artigo de Gould “A Visit to Dayton”, no seu livro
Hen .’s' Teeth and Horse s Toes, que se apóia no livro Six Days or Forever de
Ray Ginger, de 1958. Aqui é o melhor de qualquer outro lugar para registrar
que sou um fã dos artigos de Gould. Apesar de uma diferença de ponto de
vista, quase sempre me beneficio ao lê-los. Talvez ele sentirá que eu não me
beneficiei o bastante. A história de Henry Fairfield Osbom e o “Nebraska
Man” é recontada no livro Bones o f Contention de Roger Lewin (1987).
A citação jurídica para a opinião da Suprema Corte do Tennessee é o
caso Scopes versus Estado, 154 Tenn. 105, 289 S. W. 363 (1927). Ao man­
ter a lei, a corte rejeitou um argumento que, ao proibir o ensino da evolução
violaria uma cláusula da constituição estadual exigindo que a legislatura
“considerasse importante a literatura e a ciência”. A corte raciocinou que a
legislatura pode ter pensado que, “por razão do preconceito popular, a cau­
sa da educação e o estudo da ciência geralmente seriam promovidos pela
proibição do ensino da evolução nas escolas do Estado”. Assim alguém
poderia argumentar que a lei no caso de Scopes cumpriu com a exigência do
“propósito secular” do caso Edwards porque a legislatura tinha o propósito
secular de obter apoio público para um currículo de ciência.
Notas de pesquisa 173

Capítulo 2: A seleção natural


A fonte primária para a defesa da seleção natural neodarwinista usa­
da neste capítulo é o livro Science on Trial: The Case for Evolution, de
Douglas Futuyma, de 1983. Esse é o livro mais citado para mim por darwi-
nistas como tendo estabelecido o caso mais poderoso a favor do darwinismo
e contra o criacíonismo. Futuyma faz um trabalho particularmente completo
de organizar a evidência, e seu ponto de vista é o neodarwinismo ortodoxo.
As citações neste capítulo são do Capítulo 6 do livro de Futuyma.
Futuyma não é apenas um polemista, mas o autor de um dos principais
livros-texto de faculdade sobre evolução e uma autoridade intemacionalmente
reconhecida. A capa do livro Science on Trial registra homenagens elogiosas de
Ernst Mayr, Richard Leakey, David Pilbeam, Ashley Montagu e Isaac Asimov.
O louvor de Mayr (“O professor Futuyma tem fornecido um sumário magistral
da evidência a favor da evolução...”) é especialmente importante. Mayr é a
mais prestigiada autoridade darwinista viva, um homem de prodigioso conhe­
cimento cujas opiniões virtualmente definem a ortodoxia no seu campo.
As citações de Pierre Grassé são da tradução inglesa de 1977 de seu livro
Evolution o f Living Organisms, pp. 124,125 e 130. Este livro foi originalmen­
te publicado na França em 1973 com o título L 'evolution du Vivant. Grassé foi
um evolucionista, mas um antidarwinista. Como veremos no próximo capítu­
lo, esse ponto de vista o conduziu em direção à heresia do vitalismo, que os
darwinistas consideram como um pouco melhor do que o criacíonismo. A re­
senha crítica do livro por Dobzhansky começa com a seguinte homenagem:

O livro de Pierre P. Grassé é um ataque frontal em todos os tipos de


“darwinismo”. Seu propósito é “destruir o mito da evolução como
um fenômeno simples, entendido e explicado”, e mostrar que a evo­
lução é um mistério sobre o qual pouco é e talvez possa ser conheci­
do. Bem, alguém pode discordar de Grassé, mas não ignorá-lo. Ele é
o mais distinguido dos zoólogos franceses, o editor dos 28 volumes
do Traite de Zoologie, autor de numerosas investigações originais e
ex-presidente da Academia das Ciências. Seu conhecimento do mun­
do vivo é enciclopédico.

Parece, portanto, ser possível para uma pessoa no completo comando


dos fatos chegar à conclusão de que o darwinismo é um mito. O parágrafo
de conclusão da resenha de Dobzhansky indica a base filosófica para a dis­
puta entre Grassé e os neodarwinistas:

A teoria da mutação-seleção tenta, com maior ou menor êxito, fazer


as causas da evolução acessíveis à razão. O postulado de que a evo-
DARWIN na banca das réus

lução é “orientada” por alguma força desconhecida nada explica. Isso


não significa dizer que a teoria... sintética tenha explicado tudo. Longe
disso, essa teoria abre para visualização um grande campo que preci­
sa de investigação. Nada é mais fácil do que destacar este ou aquele
problema como não resolvido e enigmático. Mas rejeitar o que é co­
nhecido e apelar para alguma maravilhosa descoberta futura que possa
explicar tudo é contrário ao bem fundado método científico. A senten­
ça com a qual Grassé termina seu livro é perturbadora: “E possível que
nesse domínio a biologia impotente ceda a base para a metafísica”.

Mas por que não é possível que o desenvolvimento da vida possa ter exigido
alguma força orientadora que nossa ciência não entende? Rejeitar aquela possi­
bilidade porque é “perturbadora” implica ser melhor ficar com uma teoria que é
contra o peso da evidência do que admitir que o problema não está resolvido.
Minha discussão da seleção artificial lida só resumidamente com os ex­
perimentos de cruzamento de moscas-de-frutas, e isso sem dúvida ocasio­
nará protestos darwinistas. Um experimentador pode aumentar ou diminuir
grandemente o número de cerdas numa mosca-de-frutas (esse é o principal
exemplo de Futuyma), ou reduzir grandemente o tamanho da asa, etc., mas
as moscas-de-frutas ainda são moscas-de-frutas, no geral moscas-de-frutas
mal-adaptadas. Alguns relatos creditam os experimentos com as moscas-de-
frutas com a produção de novas espécies, no sentido de populações que não
se cruzam uma com a outra. Outros contestam que a barreira de espécie tenha
sido realmente cruzada. Aparentemente a questão gira em tomo em quão es­
treita ou amplamente alguém defina uma espécie, em especial com respeito
às populações que são impedidas de cruzarem entre si, mas não totalmente
incapazes de fazer isso. Não estou interessado em me dedicar à questão, por­
que o que está em discussão é a capacidade de criar órgãos e organismos por
esse método, não a capacidade de produzir populações cmzadoras separadas.
De qualquer modo, não há razão para acreditar que o tipo de seleção usada
nos experimentos com moscas-de-frutas tem alguma coisa a ver com como
as moscas-de-frutas se desenvolveram em primeiro lugar.
Os horticultores têm desenvolvido plantas híbridas que podem cruzar
uma com a outra, mas não com as respectivas espécies genitoras. Veja
Ridley, The Problems ofEvolution (1985), pp. 4,5. Por outro lado, a capaci­
dade em alterar plantas pela seleção também é limitada pela carga genética
da espécie, e cessa assim que a capacidade para variação for esgotada.
A citação na seção de “tautologia” é do livro Darwin Retried (1971) pp. 63,
64 de Norman Macbeth; A Pocket Popper (1983), p. 242 e o artigo “Evolutio-
naryAdaptation”, no livro Evolution afterDarwin, vol. l,pp. 381-402 (Tax, ed.,
1960). As citações do “argumento dedutivo” são do livro Evolution (1978) de
Colin Patterson, p. 147 e do livro Seven Clues to the Origin ofLife (1985), p. 2.
Notas de pesquisa 175

Gould comentou sobre a questão da tautologia e a analogia entre a


seleção artificial e natural no seu artigo “Darwin’s Untimely Burial”,
na coletânea Ever Since Darwin. Esse artigo respondeu a um artigo de
revista crítico ao darwinismo por Tom Bethell, e os dois artigos foram
reimpressos na seleta literária Philosophy o f Biology (Ruse, ed., 1989).
Gould admitiu que a crítica da tautologia “se aplica a muito da literatura
técnica na teoria evolutiva, especialmente nas considerações matemático-
abstratas que consideram a evolução somente como uma alteração nos
números, não uma mudança em qualidade”. Todavia, ele argumentou que
“o design superior em ambientes alterados” é um critério de aptidão inde­
pendentemente do fato de diferencial de sobrevivência, e portanto a teoria
como Darwin formulou não é uma tautologia. Concordo, em princípio,
que a seleção natural pode ser formulada não de modo tautológico, como
na experiência do melanismo industrial de Kettlewell. O problema não é
que a teoria seja inerentemente tautológica, mas, antes, que a ausência de
evidência para as importantes afirmações que os darwinistas fazem para a
seleção natural continuamente os tenta a retroceder à tautologia. No Ca­
pítulo 4 vimos que o próprio Gould explica a sobrevivência das espécies
como sendo graças à sua posse da qualidade de “resistência à extinção”.
Ao levantar a questão da tautologia, não estou meramente tirando van­
tagem de algumas declarações imprudentes. Quando os críticos não estão
observando, os darwinistas continuam a empregar a seleção natural na sua
forma tautológica como a explicação auto-evidente para qualquer mudança
ou falta de mudança que porventura aconteça. O ponto importante é que os
darwinistas têm sido tentados com continuidade pelo pensamento de que
sua teoria pode receber o status de uma verdade a priori, ou uma inevitabi­
lidade lógica, de modo que ela possa ser conhecida como verdadeira sem a
necessidade de confirmação empírica. A suscetibilidade deles a essa tenta­
ção é compreensível. Quando a teoria é declarada como uma hipótese exi­
gindo confirmação empírica, a evidência apoiadora não é impressionante.
Para uma excelente crítica da questão da tautologia e das falhas nos ar­
gumentos da seleção natural como uma força criativa, veja o artigo “Dogma
and Doubt”, no Biological Journal o f the Linnaen Society (1982): 17:79-96.
As observações de Kettlewell do melanismo industrial nas mariposas
almiscaradas (Biston betularia) têm sido citadas em incontáveis livros-
texto e tratados populares como prova de que a seleção natural tem o
tipo de poder criativo necessário para produzir outros tipos de órgão e
organismo complexos. O Science Framework publicado pelo Conselho
Estadual de Educação da Califórnia, de 1990, para orientar os editores de
livros-texto (veja o Capítulo 11 para uma análise de seu conteúdo) tem
tentado corrigir esta deturpação:
DARWIN na banca das réus

Os alunos devem entender que isso não é um exemplo de mudança


evolutiva de mariposas claras para escuras e para claras, porque os
dois tipos já estavam na população. Isso é um exemplo de seleção
natural, mas em dois sentidos. Primeiro, condições temporárias no
ambiente encorajaram a seleção contra as mariposas escuras, e de­
pois contra as mariposas claras. Mas, em segundo lugar, e também
importante, é a seleção para manter um equilíbrio das duas formas,
escura e clara, que são adaptáveis a uma variedade de circunstân­
cias ambientais. Essa seleção equilibrada aumenta as chances para
a sobrevivência das espécies. Esta é, em muitas maneiras, a mais
interessante característica da evolução da mariposa almiscarada, mas
uma que tem sido deturpada nos livros-texto. [p. 103.]

Não é difícil entender por que essa ffeqüente deturpação tem aconteci­
do. Entendido de maneira adequada, o melanismo industrial ilustra a sele­
ção natural como uma força fundamentalmente conservadora, que induz
alguma variação relativamente trivial dentro do limite da espécie, mas que
também conserva a carga genética, de modo que as freqüências populacio­
nais podem mudar na outra direção quando as condições mudarem de novo.
Tal processo não produz mudança permanente, irreversível do tipo exigido
para produzir outras espécies, muito menos novos filos. Contudo, o que os
autores de livros-texto têm desejado ilustrar é um processo de seleção natu­
ral capaz de produzir um inseto de um micróbio, uma ave de um réptil e um
ser humano de um macaco-antropóide. Suprimir as implicações conserva­
doras do melanismo industrial foi necessário para atingir aquele objetivo.
Como os darwinistas explicam a aparente contradição entre a seleção
natural e a seleção sexual? O artigo de Mayr, “An Analysis of the Concept
of Natural Selection”, nota que a seleção sexual voltou à preeminência após
a comemoração do centenário do livro The Descent o f Man em 1971. Ele
admite que “a existência da seleção egoísta para o sucesso reprodutivo se
constitui num dilema para o biólogo evolucionista”, porque ela tende a fa­
zer a espécie menos apta para a sobrevivência, e pode até levar à extinção.
Todavia, não se espera que a seleção natural atinja a perfeição, e a freqü-
ência de extinção em si mesma mostra que a seleção, necessariamente, não
acha uma resposta apropriada para cada problema. Veja Mayr, Toward a
New Philosophy o f Biology (1988), pp. 105,106. Dawkins, que dedica di­
versas páginas no seu livro The Blind Watchmaker para a seleção sexual,
pergunta: “Por que o estilo [na preferência sexual das fêmeas] não deveria
coincidir com a utilidade?”.1Ele não faz nenhuma tentativa de responder, a

1 N. do T.: Na edição brasileira do livro de Dawkins, Laura Teixeira Motta preferiu traduzir
“fashion” por moda. Optamos por “estilo”.
^4. Natas de pesquisa 177

não ser que, por mais que a preferência feminina antiutilitarista atue, a força
da seleção sexual tenderia a preservá-la (p. 205).
No seu segundo livro clássico The Descent o f Man, Darwin chegou bem
perto de repudiar a teoria da seleção natural como ele havia exposto em
Origem das Espécies:

Uma extensão bem grande, mas indefinida, pode ser dada segura­
mente aos resultados diretos e indiretos da seleção natural; mas agora
eu admito... que nas primeiras edições do meu Origem das Espécies
provavelmente atribuí demais para a ação da seleção natural ou para
a sobrevivência do mais apto... Anteriormente eu não tinha conside­
rado suficientemente a existência de muitas estruturas que parecem
ser, até onde nós podemos julgar, nem benéficas ou prejudiciais; e
isso creio ser um dos maiores lapsos até agora detectado em minha
obra. Posso me permitir a dizer como alguma desculpa que eu tinha
em vista duas coisas distintas, em primeiro lugar, mostrar que as es­
pécies não tinham sido criadas separadamente, e, em segundo lugar,
que a seleção natural era o principal agente de mudança, embora
grandemente ajudada pelos efeitos de hábitos herdados, e levemente
pela ação direta das condições ao redor. Apesar disso, eu não fui ca­
paz de anular a influência de minha crença antiga, então amplamente
difusa, que cada espécie tinha sido criada com um propósito; e isto
conduziu à minha tácita suposição de que cada detalhe da estrutura,
exceto os rudimentos, era de algum serviço especial, embora não
reconhecido... Se eu errei em dar à seleção natural grande poder, que
estou longe de admitir, ou em ter exagerado o seu poder, que em si é
provável, tenho pelo menos, conforme espero, feito um bom serviço
em ajudar a destronar o dogma das criações separadas. [Darwin, The
Descent o f Man, citado no livro Darwin and the Darwinian Revolu-
tion, de Himmelfarb (1959), p. 302.]

Himmelfarb comenta sobre “o ritmo alternativo de auto-recriminação e


automitigação” nessa curiosa declaração. A explicação de Darwin por ter
exagerado na importância da seleção natural é particularmente intrigante,
porque ele não tinha nenhuma vinculação remanescente com o criacionismo
em 1859, e qualquer declaração exagerada teria sido motivada por um de­
sejo de fazer o caso contra a criação o mais poderoso possível. A passagem
quase implica que a seleção natural foi um esquema de retórica, importante
principalmente para construir o caso contra o criacionismo, que poderia ser
reavaliado e depreciado assim que seu propósito fosse atingido.
A citação de Julian Huxley é da p. 50 do livro Evolution in Action (1953).
DARWIN no banca das réus

Capítulo 3: Mutações grandes e pequenas


A carta de Darwin para Charles Lyell é citada no livro de Dawkins, The
Blind Watchmaker, na p. 249. Dawkins continua a comentar: “Isso não é
uma questão secundária. Na concepção de Darwin, todo o objetivo da teoria
da evolução pela seleção natural era fornecer uma explicação não milagrosa
para a existência de adaptações complexas”.
O “materialismo filosófico não comprometedor” de Darwin é o assunto
dos dois primeiros artigos na coletânea de Gould Ever Since Darwin. Gould
destaca que “outros evolucionistas falaram de forças vitais, história dirigi­
da, luta orgânica e da irredutibilidade essencial da mente - uma panóplia de
conceitos que o cristianismo tradicional poderia aceitar se comprometendo,
porque eles permitiam que o Deus cristão operasse pela evolução em vez
da criação. Darwin falou somente de variação aleatória e seleção natural”
(pp. 24,25). Gould também acha que a conversão de Darwin ao materialis­
mo pode ter sido, parcialmente, uma reação contra o fundamentalismo re­
ligioso do autoritário capitão Fitzroy, cuja conversa ele suportou por cinco
anos no Beagle. “Fitzroy pode muito bem ter sido mais importante do que
os tentilhões, pelo menos na inspiração do tom materialista e antiteísta da
filosofia e teoria evolucionistas de Darwin” (p. 33).
A descrição franca de Gould do papel que a preferência filosófica e até
o preconceito pessoal possam ter desempenhado na teorização de Darwin é
refrescante, porque a impressão freqüentemente dada é de que Darwin era
um criacionista devoto que desenvolveu sua teoria somente por causa da
irresistível pressão da evidência empírica. A indiferença de Darwin às obje­
ções empíricas ao gradualismo oferecidas por T. H. Fluxley e outros mostra
como é falso esse quadro. Como seu amigo Charles Lyell, o fundador da
geologia uniformitarista, Darwin tinha certeza de que a evidência poderia
ser enganadora quando levava a uma direção contrária à sua filosofia. Veja
também o ensaio fascinante de Gould sobre Lyell que observa que “para
evitar essa aparência literal [de catástrofes geológicas], Lyell impôs sua
imaginação sobre a evidência. O registro geológico, ele argumentou, é ex­
tremamente imperfeito, e nós devemos interpolar nele o que nós razoavel­
mente podemos inferir, mas não podemos ver” (Ever Since Darwin, p. 150).
Como veremos no próximo capítulo, Darwin levou a sério esse exemplo.
A biografia de Darwin por Gertrude Flimmelfarb é reveladora na ques­
tão de suas inclinações religiosas (e também sobre outros assuntos). O pai
de Darwin, Robert, era um incrédulo secreto que manteve uma fachada de
ortodoxia tão perfeita que incluía o planejamento de uma carreira clerical
para Charles. De acordo com Himmelfarb:
Notas de pesquisa 173

Embora o modo de Robert expressar, ou melhor, suprimir, a sua des­


crença não fosse recomendável para seu filho, o conhecimento daquela
descrença pode ter tido alguma influência. Não somente fez a descren­
ça parecer, quando surgiu, ser um modo natural e aceitável de pensa­
mento, de modo que a perda da fé nunca se apresentou para ele como
uma crise moral ou de rebelião; mais do que isso, pareceu desfrutar
da descrença exatamente como uma obrigação filial. Uma das passa­
gens que foram suprimidas da autobiografia explicava por que Charles
não somente não podia acreditar no Cristianismo, mas não gostaria de
acreditar nele. Citando a “execrável doutrina” que condenaria todos
os descrentes para a perdição eterna, ele protestou que “isto incluiria a
meu pai, meu irmão, e quase todos os meus melhores amigos” - o que
a fez uma idéia impensável, para não dizer totalmente imoral. Pode
haver razões mais sofisticadas para a descrença, mas jamais poderia
haver uma razão mais persuasiva e emocional (p. 22).

Esse tipo de informação não deve levar ninguém na “falácia genética”,


pela qual uma teoria é considerada estar errada se causada por fatores irra­
cionais. A conclusão correta a ser depreendida é meramente que o darwinis-
mo não deve ser eximido de um teste rigorosamente empírico que a ciência
exige de outras teorias.
Para a posição darwinista ortodoxa sobre a evolução de órgãos comple­
xos, este capítulo se baseia em Emst Mayr e Richard Dawkins. O livro de
Dawkins, The Blind Watchmaker, é em primeiro lugar dedicado a esse as­
sunto, e Dawkins é um defensor tão brilhante que um leitor pode facilmente
ignorar (como a maioria dos críticos tem ignorado) a ausência de evidência
para alguns dos pontos críticos. Para as citações, veja as páginas 81, 84,
85,86, 89-90, 93, 230-233, 249. As citações de Emst Mayr são de sua co­
letânea Toward a New Philosophy ofBiology : veja as páginas 72, 464-466.
Para a citação de Gould sobre Goldschmidt (alguns detratores se referem
à dupla como “Gouldschmidt”) veja “The Retum of the Hopeful Monster”
na coletânea The Panda ’s Thumb. O artigo de Gould sobre “a teoria nova e
geral” foi reimpresso na coleção Evolution Now: A Century After Darwin
(Maynard Smith, ed., 1982). Os leitores que quiserem ler Goldschmidt nas
suas palavras originais são aconselhados a ler seu artigo de 1952 na revista
especializada American Scientist (vol. 40, p. 84), em vez do seu volume
detalhado de 1940, The Material Basis o f Evolution, baseado nas palestras
Silliman [in memoriam] que ele proferiu em Yale em 1939.
O simpósio do Instituto Wistar é mencionado no livro Mathematical
Challenges to the Neo-Darwinian Interpretation o f Evolution (P. S. Moo-
rehead e M. M. Kaplan, ed., 1967). As citações de Darwin são do Origem
das Espécies, pp. 142,219,220 (Belo Horizonte: Villa Rica, 1994).
DARWIN na banca das réus

A teoria da seleção natural aceita está atualmente sob desafio de um


inesperado setor. Pesquisadores da Escola de Saúde Pública de Harvard pu­
blicaram um artigo na revista Nature em 1988 (vol. 335, p. 142), relatando a
evidência experimental de que algumas bactérias podem produzir mutações
úteis dirigidas em resposta à mudança em seu ambiente. Se essas indica­
ções preliminares forem substanciadas num contexto muito maior, nova
teoria de mutação completa pode surgir em lugar da teoria neodarwinista de
que as mutações são aleatórias e sem direção. Concebivelmente isso pode
levar a nova teoria da evolução mais alinhada com os pontos de vista de
Goldschmidt e Grassé do que com o neodarwinismo, mas por ora ninguém
sabe como admitir a um mistério como as mutações dirigidas, e a ciên­
cia convencional, compreensivelmente, exigirá bastante evidência antes de
aceitar que tal fenômeno seja de significância geral.

Capítulü 4: D problem a do registro fóssil


O artigo de Gould, “The Stinkstones of Oeningen”, na coletânea Hen ’s
Teeth and Horse 's Toes, fornece pequena introdução à ciência de George
Cuvier. Gould mostra aqui o entendimento compreensivo que freqüente-
mente adorna seus esboços históricos. A reputação de Cuvier está em de­
clínio hoje, mas no seu tempo ele era conhecido como o Aristóteles da
biologia, o fundador virtual da ciência moderna da anatomia e paleontolo­
gia, e um principal estadista e figura pública. Gould refuta totalmente o pre­
conceito que a crença de Cuvier sobre as catástrofes e fixidez das espécies
fosse enraizada em preconceitos religiosos. Ao contrário, Cuvier era menos
comprometido a princípios filosóficos a priori do que Lyell e Darwin.
Cuvier acreditava que a evolução era impossível porque os principais
órgãos de um animal são tão interdependentes que uma mudança numa
parte exigiria mudanças simultâneas em todas as outras - uma macromu-
tação sistêmica impossível. Gould comenta explanatoriamente: “Nós não
negaríamos a inferência de Cuvier hoje, mas somente sua premissa inicial
de correlação rigorosa e ubíqua. A evolução em caráter mosaico, proceden­
do em taxas diferentes em estruturas diferentes. As partes de um animal
são grandemente desassociadas, permitindo assim que a mudança histórica
prossiga”. Eu suspeito que essa conclusão esteja baseada não em prova ex­
perimental, mas desejar que isso fosse realidade - “isto tem de ser verdade
ou a evolução não poderia ter acontecido”. A observação de Gould sugere
um caminho no qual a hipótese da “evolução mosaica” poderia ser exami­
nada pelo transplante de órgãos de um tipo de animal em outro.
Darwin esperava que Charles Lyell finalmente mudasse de idéia e apoias­
se sua teoria. Após listar na primeira edição de Origem das Espécies todos
Natas de pesquisa

os distintos geólogos e paleontólogos que “defendem de maneira unânime,


se não mesmo veementemente, o princípio da imutabilidade das espécies”,
ele acrescentou: “tenho razões para acreditar que uma grande autoridade, Sir
Charles Lyell, ultimamente tem nutrido sérias dúvidas acerca deste assunto”.
A biografia de Himmelfarb relata que, quando Lyell deixou de dar um apoio
inequívoco da evolução num trabalho publicado em 1863, “o desapontamen­
to de Darwin quase que equivaleu a um sentimento de traição”. Lyell anun­
ciou sua conversão à mutabilidade numa edição posterior daquele mesmo
trabalho em 1867, talvez motivado por uma convicção genuína ou por uma
combinação de amizade e de uma relutância em não querer ficar para trás.
As citações de Darwin são da primeira edição em inglês do Origem das
Espécies (Penguin Library Edition, 1982), páginas 133, 205, 292,293, 301,
302, 305,309,313,316,322.
Louis Agassiz é o modelo do que aconteceu com cientistas que tentaram
resistir à maré crescente da evolução. A tragédia de Agassiz é descrita no
artigo de Gould, “Agassiz in the Galapagos”, no seu livro Hen’s Teeth and
Horse’s Toes. Como Gould conta a tragédia, o professor de Harvard, suíço de
nascimento, foi, “sem dúvida, o maior e o mais influente de todos os natura­
listas dos Estados Unidos do século 19”, um grande cientista e uma pessoa
importante de quase todo mundo que era importante. “Mas o verão da fama e
sorte de Agassiz se tomou um inverno de dúvida e confusão no pensamento”
porque seu preconceito filosófico idealista o impediu de aceitar a teoria de
Darwin. Todos os seus alunos se tomaram evolucionistas, e ele tinha sido uma
figura triste e isolada quando morreu em 1873. Concordo que o preconceito
filosófico de Agassiz foi forte, mas não mais forte do que o preconceito unifor-
mitarista de Lyell e Darwin, e pode ser que o seu conhecimento incomparável
da evidência fóssil tenha sido mais importante em impedi-lo de aceitar a teo­
ria que se apoiava tão fortemente em atenuar aquela evidência. Ironicamente,
o trabalho mais lembrado de Agassiz, o Essay on Classification, foi publicado
em 1859, agora lembrado como o ano do Origem das Espécies.
A rejeição de Agassiz por Futuyma ilustra quão avidamente os darwi-
nistas aceitaram um único fóssil intermediário como prova de seu caso:
“O paleontólogo Louis Agassiz insistiu que os organismos se encaixam em
grupos discretos, baseado apenas em planos criados diferentes, entre os
quais não podiam existir intermediários. Somente alguns anos mais tarde,
em 1868, o fóssil Archaeopteryx, um primoroso intermediário entre as aves
e os répteis, demoliu o argumento de Agassiz, e ele não tinha mais nada a
dizer sobre o caráter único das aves”. Futuyma, Science on Trial, p. 38. Ca­
sos específicos de intermediários fósseis são discutidos no Capítulo 6.
Douglas Dewar, um líder do Movimento Inglês do Protesto da Criação
dos anos 30 do século 20, descreveu o preconceito darwinista em termos
DARWIN no banco des raus

que prenunciam a crítica pontuacionalista de hoje. Ele escreveu que os biólo­


gos “permitiram que eles mesmos fossem dominados pelo conceito filosófico
da evolução. Eles deram à hipótese um cordial bem-vindo e partiram eles
mesmos em busca da evidência a seu favor... [Quando alguma evidência fa­
vorável era encontrada] não é surpreendente que a hipótese tenha se tomado
geralmente aceita pelos biólogos. Foi, talvez, exceto natural, no seu entu­
siasmo que deveriam considerar a teoria não meramente como uma hipótese
funcional mais útil, mas como uma lei da natureza. Nos anos 80 do século 20,
deparamos com o presidente da Associação Americana, o professor Marsh,
dizendo: ‘Eu não preciso oferecer nenhum argumento a favor da evolução,
pois duvidar da evolução é duvidar da ciência, e a ciência é somente outro
nome para a verdade’. Após a adoção dessa atitude, uma interpretação evolu­
tiva foi colocada em cada descoberta. Os fatos que pareciam não se encaixar
na teoria eram considerados enigmas que eventualmente seriam resolvidos”
Dewar, Difficulties o f the Evolutionary Theory (1931), pp. 2,3.
O livro de Gould, Wonderful Life de 1989, fornece uma esplêndida descri­
ção da explosão Cambriana e do “ajustamento dos fósseis de Burgess”, um
dos muitos esforços pelos paleontólogos em fornecer uma descrição da evi­
dência fóssil consistente com as preconcepções darwinistas. As observações
de Gould sobre a teoria do artefato e de sua rejeição foram tiradas das páginas
271-273. Gould também relata sobre o status corrente do debate sobre a fau­
na de Ediacara nas páginas 58-60 e 311 -314. Veja também seu artigo “Death
and Transfiguration”, na coletânea Hen s Teeth and Horse ’s Toes.
A tese filosófica de Gould no livro Wonderful Life é a coisa menos in­
teressante sobre o livro, embora tenha recebido bastante publicidade. Ele
especula que a evolução não poderia ser esperada em produzir o mesmo
resultado (i. e., os humanos) uma segunda vez, porque ela procede por fato­
res fortuitos em vez de leis deterministas. O quadro da evolução como pro­
gresso inevitavelmente conduzindo a formas “superiores” de vida tem sido
atraente para muitos darwinistas, e tem ajudado a fazer a evolução mais
aceitável aos teístas como uma versão naturalista de um plano divino. A
mim me parece que um teísta poderia pegar a descrição científica de Gould
e tirar a conclusão que uma inteligência criativa guiadora fora da natureza
tinha de estar envolvida, porque a criação da humanidade (ou de insetos,
por aquela razão) é inexplicável sem alguma força direcional poderosa para
forçar a vida em padrões de muito maior complexidade.
A teoria da evolução por ramificação rápida de Steven M. Stanley é apre­
sentada para o leitor não especializado no seu livro The New Evolutionary
Timetable (1981). As citações neste capítulo são das páginas 71,93-95,104.
O artigo de Eldredge e Gould, “Punctuated Equilibria, an Altemative to
Phyletic Gradualism”, está reimpresso como o apêndice do livro de Eldredge,
Natas de pesquisa 133

Time Frames. Esse livro é a fonte da maioria das citações de Eldredge no


capítulo: p. 59, 144,145. A maior de todas as citações é do seu artigo “Evo­
lutionary Tempos and Modes: A Paleontological Perspective”, na coletânea
What Darwin Began: Modern Darwinian and Non-Darwinian Perspectives
o f Evolution (Godfrey, ed. 1985). O capítulo 3 de Time Frames dá boa descri­
ção introdutória do dilema básico da paleontologia, que é ou se faz a leitura
do registro fóssil nos seus próprios termos (exemplo: Schindewolí) ou se fica
fiel a uma interpretação aceitável para os darwinistas (exemplo: Simpson).
A descrição básica do equilíbrio pontuado no texto é adaptada do capí­
tulo “The Episodic Nature of Evolutionary Change” no livro The Panda’s
Thumb de Gould. O próximo artigo na coletânea é “The Return of the Ho­
peful Monster”, que indica por que algumas pessoas ganharam a impressão
de que o equilíbrio pontuado era um termo-código para a tese de “Goldsch-
midt-Schindewolf’. As duas citações-tema de T. H. Huxley no frontispício
do artigo de Eldredge e Gould, de 1977, são (1) para Darwin: “Você se
sobrecarregou com uma dificuldade desnecessária ao adotar Natura non
facit saltum [A natureza não dá saltos] de modo tão franco”; e (2) para o
macromutacionista William Bateson: “Eu percebo que você é inclinado em
defender a possibilidade de consideráveis ‘saltus’ [saltos] por parte da Se­
nhora Natureza nas suas variações. Eu sempre tomei esse mesmo ponto de
vista, para muito desgosto do senhor Darwin”.
Que as acusações de “goldschmidtismo” não eram infundadas podem
ser prontamente documentadas dos artigos de Gould de 1980 e 1984. O ar­
tigo “New and General Theory”, de 1980, argumentava a seguinte tese: (1)
Richard Goldschmidt estava certo em concluir que a especiação é um pro­
cesso fundamentalmente diferente da microevolução, exigindo outro tipo
de mutação. Gould nomeou essa barreira das espécies de o “freio de Golds­
chmidt”. (2) A especiação é aleatória na direção comparada com as direções
macroevolutivas, de modo que as direções macroevolutivas são o resultado
de êxito diferencial entre as espécies ( i.e. “seleção de espécies”, em vez de
seleção natural entre organismos individuais como Darwin pensara). “Pe­
dindo desculpas pelo trocadilho, a ruptura hierárquica entre a especiação
e as direções macroevolutivas pode ser chamada de freio de Wright [após
Sewall Wright].2 (3) O êxito de reprodução de uma espécie não é necessa­
riamente o resultado das vantagens adaptivas, mas pode ser em razão da
presença fortuita de um nicho ecológico, ou a tais fatores como “altas taxas
de especiação e forte resistência à extinção”. Com respeito à evolução de
órgãos complexos, Gould negou se apoiar na “origem saltacional de novos

2 Após fazer um trocadilho, eu não sei como Gould pode ter resistido adicionar que as espécies que
prosperam são aquelas que têm “o material certo”. N. do T.: No original: Wright stuff. A pronúncia em
inglês pode soar como “right stuff’, coisa certa.
184 DARWIN no banco dos raus

designs completos”, mas propôs em vez disso “uma origem saltacional po­
tencial para as características essenciais de adaptações importantes”.
Para uma resposta neodarwinista ao artigo de Gould, veja o artigo de
Stebbins e Ayala, “Is a New Evolutionary Synthesis Necessary?”, na revista
Science, vol. 213, p. 967 (agosto de 1981). A linha básica deles é que a sín­
tese pode incorporar quaisquer características especiais de macroevolução
que “são compatíveis com as teorias e as leis de biologia populacional”.
Essa qualificação é extremamente importante, porque a necessidade para
uma teoria separada de macroevolução surge do fato que as teorias de bio­
logia populacional são inadequadas para explicar como ocorreu a macroe­
volução, se o problema do registro fóssil for honestamente encarado em vez
de exorcizado com hipóteses adhoc.
A explicação de Gould para o propósito da hipótese do equilíbrio pon­
tuado permitir o relato da estase é citada de seu artigo “Cardboard Darwi-
nism”, no livro The Urchin in the Storm.
A opinião de Emst Mayr da controvérsia do equilíbrio pontuado pode ser
encontrada no seu artigo de 1988, “Speciational Evolution through Punctuated
Equilibria”, na coletânea de seus artigos intitulada Toward a New Philosophy o f
Biology. Mayr geralmente tenta colocar a interpretação mais razoável (de uma
perspectiva neodarwinista) daquilo que Eldredge e Gould escreveram. O seu
juízo mais severo é que “nada deixou os evolucionistas mais enfurecidos do
que as afirmativas feitas por Gould e associados que eles tinham sido os primei­
ros a descobrir, ou pelo menos pela primeira vez enfatizado apropriadamente,
vários fenômenos evolutivos já amplamente aceitos na literatura evolutiva” (p.
463). Para uma apresentação mais vívida do mesmo ponto de vista, veja a des­
crição da controvérsia no livro de Dawkins, The Blind Watchmaker
Muito da controvérsia em círculos paleontológicos sobre as grandes
extinções tem sido sobre se a evidência apóia teorias como a de Louis e
Walter Alvarez. A teoria dos Alvarez é que um asteróide atingiu a Terra
no fim da era Cretácea (o limite K-T), provocando uma nuvem de poeira
em todo o mundo que suprimiu temporariamente a fotossíntese e assim
interrompendo a cadeia alimentar. De acordo com uma revisão do assunto
de 1982, por Archibald e Clemens [American Scientist, vol. 70, p. 377],
a evidência paleontológica, em geral, apóia um padrão de extinção mais
gradual ocorrendo ao longo de milhares ou até milhões de anos. Um artigo
de 1988 na revista Science (vol. 239, p. 729), relatando discussões nos
encontros anuais da Sociedade Geológica da América, concluiu que o pa­
drão de extinções ocorreu ao longo de milhares de anos no fim do período
Cretáceo, mas que a evidência para a teoria do asteróide é substancial e “o
grande impacto no limite poderia, sem dúvida, ter mandado um sistema
ecológico desestabilizado para o ponto crítico”.
Natas de pesquisa 185

A questão se as grandes extinções foram precedidas por períodos de


extinção mais gradual é o assunto de contínua pesquisa. De acordo com
uma reportagem na revista Science (11 de janeiro de 1991, p. 160), os no­
vos estudos mostram que os dinossauros e os amonites (moluscos antigos)
viviam com prosperidade até a ocasião do impacto do asteróide. Vale a pena
relembrar que a única evidência forte que Darwin citou na sua passagem
argumentando a favor das extinções graduais foi o extermínio “maravilho­
samente súbito” dos amonites.
Um bom resumo do atual estado de pesquisa pelo escritor de ciência
Richard Kerr apareceu no jornal The Los Angeles Times de 12 de junho de
1989, parte II, p. 3 (reimpresso do jornal The Washington Posf). Parece segu­
ro afirmar que a opinião científica predominante hoje é que aconteceu grande
extinção no limite dos períodos K-T, provocada pelo impacto de um asteróide
ou de um cometa. Uma minoria de geólogos atribui a grande extinção à ativi­
dade vulcânica, e muitos paleontólogos continuam a insistir numa explicação
gradualistapara as extinções. É claro, é difícil determinar quando as extinções
aconteceram com alguma precisão, especialmente se o registro fóssil for em
qualquer parte quase tão imperfeito quanto tem de ser para que o darwinismo
seja uma possibilidade séria. Mesmo se as grandes extinções ocorreram a o '
longo de muitos anos como um resultado de mudanças climáticas, oceanos
que recuaram, ou qualquer coisa, o padrão não seria necessariamente consis­
tente com a obsolescência gradual postulada por Darwin.
Sobre a questão se os livros-texto de ciência e outras fontes têm apre­
sentado um quadro distorcido do registro fóssil tanto para o público geral
e para a profissão científica, uma carta publicada na revista Science em,
1981 por David Raup é de interesse adicional. Raup, então trabalhando na
Universidade de Chicago e no Museu Field, é um dos mais respeitáveis
paleontólogos do mundo. A carta contém a passagem:

Um grande número de cientistas bem treinados fora da biologia evo­


lutiva e da paleontologia tem, infelizmente, ganho a idéia de que o
registro fóssil é muito mais darwinista do que é. Provavelmente isso
vem da simplificação exagerada inevitável em fontes secundárias: li­
vros-texto de nível baixo, artigos semipopulares, e assim por diante.
Provavelmente há também envolvido um pensamento tendencioso
para que isso fosse verdade. Nos anos após Darwin, seus defensores
esperavam encontrar as progressões esperadas. Em geral, estas não
foram encontradas - mas o otimismo reluta em morrer, e alguma
fantasia pura tem furtivamente invadido os livros-texto... Uma das
ironias do debate evolução-criação é que os criacionistas têm aceita­
do a noção enganadora de que o registro fóssil mostra uma progres­
são detalhada e ordenada e eles têm feito o possível para acomodar
esse “fato” na sua geologia do Dilúvio. [Science, vol. 213, p. 289.]
DARWIN no banco dos réus

A carta de Raup também comenta que “a teoria darwinista é apenas um


dos diversos mecanismos biológicos propostos para explicar a evolução
que nós observamos ter acontecido”. Contudo, a questão é se qualquer me­
canismo além da seleção darwinista tem sido proposto que possa tanto ex­
plicar o desenvolvimento dos sistemas complexos como também satisfazer
as exigências dos geneticistas de populações.
O artigo de Raup na edição sobre o registro fóssil na coletânea de
Godfrey, Scientists Confront Creaiionism é particularmente interessante.
No que era para ser uma polêmica contra o criacionismo, ele incluiu o
seguinte parágrafo:

Darwin predisse que o registro fóssil deveria mostrar uma seqüência


razoavelmente uniforme contínua de pares de ancestrais-descenden­
tes com um número satisfatório de intermediários entre os principais
grupos. Darwin foi até o ponto de afirmar que se isso não fosse en­
contrado no registro fóssil, sua teoria geral da evolução estaria em
sério perigo. Tais transições uniformes não foram encontradas no
tempo de Darwin, e ele explicou isso em parte na base de um registro
geológico incompleto e na parte da falta de estudo daquele registro.
Nós estamos há mais de cem anos após Darwin e a situação está pou­
co mudada. Desde Darwin, uma tremenda expansão de conhecimen­
to paleontológico tem acontecido, e nós sabemos muito mais sobre
o registro fóssil do que era conhecido na sua época, mas a situação
básica não é muito diferente. Na verdade, nós podemos ter muito
menos exemplos de transições uniformes do que tínhamos no tempo
de Darwin, porque alguns dos exemplos se mostram ser inválidos
quando estudados em mais detalhes. Para termos certeza, algumas
novas formas intermediárias ou transicionais têm sido encontradas,
particularmente entre os vertebrados terrestres. Mas se Darwin esti­
vesse escrevendo hoje, ele ainda teria de citar uma incômoda falta de
elos perdidos ou de formas transicionais entre os principais grupos
de organismos. [Ênfase adicionada.]

Raup prosseguiu na explicação de que os evolucionistas explicam a in­


cômoda falta de evidência de três maneiras: (1) Por causa da natureza do
sistema de classificação as criaturas têm de ser colocadas em um grupo ou
em outro, e assim a ausência de intermediários é, até certo ponto, um arte­
fato da prática taxonômica; (2) O registro fóssil ainda é incompleto; e (3)
A evolução pode ocorrer rapidamente por equilíbrio pontuado. A conclusão
de Raup: “Com estas considerações em mente, alguém deve argumentar
que o registro fóssil é compatível com as predições da teoria evolutiva”.
(De Godfrey, ed., pp. 156-158). Eu acho que o fraseado daquela conclusão
toca em certa falta de convicção.
A Notas de pesquisa 187

Para uma comparação erudita das teorias evolutivas de Schindewolf e


Simpson, veja o artigo de Marjorie Grene, “Two Evolutionary Theories”,
no The Briíish Journal for the Philosophy o f Science, vol. 9, pp. 110-127,
185-193. Grene conclui que a teoria de Schindewolf era a mais adequa­
da das duas porque o reducionismo darwinista de Simpson fez que ele
“não visse os aspectos essenciais dos fenômenos”, e em geral tenta evitar
empregar conceitos constrangedores que eram, no entanto, inevitáveis e
por isso tendiam voltar na sua análise de maneira dissimulada. Raup des­
creveu a Schindewolf, que morreu em 1972, como “o mais respeitável
erudito do registro fóssil na Alemanha e talvez do mundo, amplamente
conhecido pela sua pesquisa da grande extinção maciça no fim do período
Permiano, há 250 milhões de anos”. Schindewolf foi o primeiro especia­
lista a sugerir uma causa extraterrestre para as extinções maciças. (Raup,
The Nemesis Affair, p. 38.)

Capítulo 5 :0 fato da evolução


O argumento de Darwin com base na classificação é do capítulo 13 do
seu livro Origem das Espécies. A observação de que “nada em biologia
faz sentido a não ser à luz da evolução” é o título de uma famosa palestra
de Theodosius Dobzhansky. Ela é citada em virtualmente toda apologética
darwinista como um argumento decisivo a favor da teoria.
As citações de Gould são de seu ensaio “Evolution as Fact and Theory”
na coletânea Hen ’s Teeth and Horse ’s Toes. Gould faz substancialmente
os mesmos argumentos na sua resposta a Irving Kristol, que é descrito em
outros aspectos no capítulo 1. Eu uso Gould como um ponto inicial porque
ele faz o caso de maneira sucinta e tão persuasivamente como ninguém.
Gould observou na primeira página do seu livro Oniogeny and Phylogeny
(Harvard Belknap, 1977) que as escolas públicas de Nova York lhe ensina­
ram a doutrina de Haeckel, que a ontogenia recapitula a filogenia, 50 anos
depois de ela ter sido abandonada pela ciência. Gould prossegue em relatar
que por trás de portas fechadas muitos cientistas admitirão o pensamento
de que “afinal de contas há realmente algo nela”. Embora a Lei de Haeckel
não seja reconhecida como uma proposição geral, algumas características
embrionárias vistas de forma isolada parecem ilustrá-la, e essas são tidas
como vagamente significantes.
A citação de Futuyma neste capítulo é da página 48 do livro Science on
Trial. A citação de Mark Ridley sobre como a evolução universal é provada
pela microevolução mais o uniformitarismo é de seu livro Evolution and
Classification. Ridley faz o mesmo argumento no primeiro capítulo de Pro-
blems o f Evolution.
DARWIN no banco dos rÉus

O termo “homologia” foi usado pela primeira vez pelo rival de Darwin,
Richard Owen, o diretor fundador do Museu Britânico de História Natural.
É derivado da palavra grega para conformidade. Como destacado no texto,
Darwin incluiu um glossário3 na sexta edição de Origem das Espécies que
definia “homologia” como “aquela relação entre as partes que resulta de
seu desenvolvimento de partes embrionárias correspondentes”. De acordo
com uma monografia de 1971 de Sir Gavin de Beer, ex-diretor do Museu
Britânico de História Natural e uma autoridade renomada em embriologia,
“isto é justamente o que não é homologia”.
De Beer relatou que “a correspondência entre as estruturas homólogas
não pode ser pressionada até a semelhança de posições das células do em­
brião ou das partes do óvulo das quais essas estruturas são ultimamente
diferenciadas”. Além disso, “as estruturas homólogas não precisam ser
controladas por genes idênticos, e a homologia de fenótipos não emprega
a semelhança de genótipos”. Retoricamente, de Beer quis saber: “Qual me­
canismo pode ser que resulta na produção de órgãos homólogos, os mesmos
‘padrões’, apesar de não serem controlados pelos mesmos genes? Eu fiz
esta pergunta em 1938, e não foi respondida [até hoje]”.
É engraçado ver de Beer, um dos mais dogmáticos de todos os neodarwi-
nistas, parecer nesta ocasião como outro Richard Goldschmidt. A monografia
de de Beer, Homology: An Unsolved Problem foi publicada na série Oxford
Biology Readers (1971). Seus principais pontos são resumidos no capítulo
sobre homologia no livro de Denton, Evolution: A Theory in Crisis.
As diferenças iniciais de desenvolvimento em vertebrados que prece­
dem o estágio da faringulação (que geralmente é empregada para ilustrar
as semelhanças embrionárias) são descritas no livro de Scott F. Gilbert,
Developmental Biology (3a. ed., Sinauer Associates, 1991), pp. 75-154,
840. A dessemelhança de padrões no desenvolvimento de membros de ver­
tebrados é exposta no capítulo de Neal H. Shubin, “The Implications of ‘the
Bauplan’ for Development and Evolution of the Tetrapod Limb”, no livro
Developmental Patterning o f the Vertebrate Limb (J. R. Hinchliffe et al.,
eds., Plenum Press, 1991), pp. 411 -421; o artigo de Richard Hinchliffe, “To­
wards a Homology of Process: Evolutionary Implications of Experimental
Studies on the Generation of Skeletal Pattern in Avian Limb Development”,
no livro Organizational Constraints on the Dynamics o f Evolution (J. May­
nard Smith e G. Vida, eds., Manchester University Press, 1990), pp. 119-
131. Veja também o livro de Brian K. Hall, Evolutionary Developmental
Biology (Chapman & Hall, 1992), p. 190.

3 N. do T.: Glossário redigido por N. S. Dallas. Pesquisador meticuloso que foi, fica difícil aceitar
que Darwin não teve aqui o devido cuidado de verificar a validade do conceito de homologia dado por
Dallas. [Origem das Espécies, São Paulo, Hemus Editora, s/d, 5*. ed., p. 464.]
Notas de pesquisa

Devo destacar que nenhum dos embriologistas citados considera que as


anomalias originárias da embriologia contradigam o paradigma darwinista.
Todavia, o que deve ser mantido em mente é que a maioria dos biólogos
contemporâneos, incluindo os embriologistas, não considera a descendência
com modificação (ancestralidade comum) como uma teoria que precisa ser
provada. Seria mais exato dizer que a ancestralidade comum se tomou axio­
mática em biologia. Características como o membro pentadáctilo em vertebra­
dos são geralmente aceitas como homólogas, que seu síaíus não é ameaçado
quando se revela que elas surgem em classes distintas via diferentes padrões
de desenvolvimento. Como Thomas Kuhn nos diz (veja o Capítulo 9), as
anomalias em si nunca falsificam um paradigma entrincheirado, pelo menos
até que uma explicação mais satisfatória seja encontrada para elas. O ponto
da discussão neste capítulo não é argumentar que a evidência da embriologia
em si mesma falsifica a hipótese da ancestralidade comum, mas para refutar a
interpretação incorreta de que a embriologia fornece o tipo de apoio positivo
para a teoria que Futuyma e muitos outros têm afirmado.
Sou particularmente agradecido a Jonathan Wells e Paul Nelson por
me ajudarem com a informação e fontes concernentes ao desenvolvimen­
to embrionário.

Capítulo G: A seqüência dos vertebrados


A fonte principal pela informação sobre o registro fóssil de vertebrados
neste capítulo é o texto extenso de Barbara J. Stahl, Vertebrate History:
Problems in Evolution, (Dover, 1985), especialmente os capítulos 5 e 9.
A informação sobre o celacanto e os rhipidistians é do livro de Stahl, pp.
121-148; veja também o livro de Denton, pp. 179,180, e o excelente artigo
por Max Hall (na Harvard Magazine de janeiro de 1989) intitulado “The
Survivor”, com belíssimas ilustrações. Os celacantos e os rhipidistians são
classificados juntos como peixes crossopterígios, e este último termo mais
geral é usado em muitos textos e artigos para descrever o suposto grupo an­
cestral para os anfíbios. Stahl nota que os seymourias vieram tarde demais
no registro fóssil para serem os ancestrais dos répteis e em qualquer evento
são considerados como verdadeiros anfíbios nas páginas 238,239.
O comentário de Gareth Nelson sobre como os ancestrais são escolhidos
é de uma entrevista com o jornalista Tom Bethell publicada no The Wall
Street Journal (9 de dezembro de 1986).
A discussão dos répteis tipo mamífero é baseada em Stahl (capítulo
9), bem como os capítulos pertinentes em Futuyma e Grassé. A citação de
Futuyma nesse assunto é da página 85 de Science on Trial e a citação de
Gould é do artigo “Evolution as Fact and Theory” discutido no Capítulo 5.
DARWIN na bancados réus _K.
Seguindo o exemplo de outros escritores, agrupei os répteis tipo mamífero
como “terapsidas”, evitando o uso de termos técnicos mais específicos -
cinodontes, teriodontes, etc. - que distrairia desnecessariamente o leitor em
geral. Os répteis tipo mamífero também são algumas vezes chamados de sy-
napsida, a subclasse à qual o grupo pertence. O ponto essencial é que onde
quer que alguém trace a linha ao redor do grupo de ancestrais elegíveis
para os mamíferos, ela contém uma série de grupos e numerosas espécies,
nenhuma particular da qual possa ser conclusivamente identificada como
ancestral dos mamíferos. Uma citação de Grassé (p. 35) é útil:

Todos os paleontólogos notam... que a aquisição de características


mamíferas não tem sido o privilégio de uma ordem particular, mas de
todas as ordens de teriodontes, embora a graus variados. Essa evolu­
ção progressiva para mamíferos tem sido mais claramente notada em
três grupos de terapsidas carnívoros: os Theracephalia, os Bauria-
morpha e os Cynodontia, cada um deles numa ocasião ou outra tem
sido considerado ancestral a alguns ou a todos os mamíferos.

James A. Hopson, da Universidade de Chicago, é um destacado especia­


lista nos répteis tipo mamífero, e ele argumenta o caso para seu status como
ancestrais dos mamíferos no seu artigo “The Mammal-like Reptiles: A Study
of Transitional Fossils”, na publicação especializada The American Biology
Teacher, vol. 49, nffl 1, p. 16 (1987). Hopson não está testando a hipótese da
ancestralidade no sentido que faço neste capítulo, mas tentando demonstrar
a superioridade do “modelo da evolução” ao modelo de ciência da criação
de Duane Gish. Para aquele fim, ele demonstra que os terapsidas podem ser
dispostos numa seqüência progressiva conduzindo desde as formas reptilianas
até as mamíferas, com as formas tipo mamíferas cada vez mais aparecendo
mais tarde no registro fóssil. Até aqui tudo bem, mas Hopson não apresenta
uma linha ancestral genuína. Em vez disso, ele mistura exemplos de diferentes
ordens e subgrupos, e finaliza a linha num mamífero (Morganucodon) que é
substancialmente mais velho do que o terapsida que o precede. A prova pode
ser boa demais para fazer específico o ponto de Hopson, que é que por este
exemplo alguma forma de modelo evolutivo é preferível ao modelo da ciência
da criação de Gish, mas seu argumento não qualifica, ou dá a entender qualifi­
car, como um teste genuíno da hipótese do ancestral comum em si mesma.
Futuyma defende o Archaeopteryx como um intermediário transicional
nas páginas 188,189 do livro Science on Trial. Stahl destaca no texto dela
que “uma vez que o Archaeopteryx ocupa uma posição isolada no registro
fóssil, é impossível dizer se o animal deu origem a voadores mais avançados
ou se representou somente um ramo lateral da linha principal”. No prefácio
Natas de pesquisa

da edição de Dover de 1985, ela acrescentou a observação que “a recupe­


ração dos verdadeiros fósseis de aves da era Cretácea Inferior tem somente
fortalecido o argumento de que o famoso Archaeopteryx emplumado pode
ser um ramo lateral arcaico do tronco ancestral das aves”, [pp. viii, 369.] O
artigo crítico informativo de Peter Wellnhofer, “Archaeopteryx” apareceu
na edição de maio de 1990 da revista Scientific American. Não leva em
conta o anúncio de Paul Sereno da descoberta do fóssil de ave chinês, que é
relatado no jornal The New York Times de 12 de outubro de 1990.
Roger Lewin é um excelente escritor de ciência que tem elaborado di­
versos livros sobre a evolução humana. Para este capítulo, apoiei-me par­
ticularmente no seu livro Bones o f Contention4 (1987). Os dois descobri­
dores de fósseis mais preeminentes, Donald Johanson e Richard Leakey,
são também autores ou co-autores de livros informativos. Para um resumo
de todo o assunto, recomendo o artigo por Cartmill, Pilbeam e Isaac, “One
Hundred Years o f Paleoanthropology”, na revista American Scientist, vol.
74, p. 410 (1986).
Há dois relatos demolidores da história da evolução humana de autores
fora da ciência convencional que merecem escrutínio cuidadoso. Um é um
livro Ape-men, Fact or Fallacy, publicado pelo autor Malcolm Bowden.
Bowden é um cientista da criação, mas leitores sem preconceitos descobri­
rão que seu livro é plenamente documentado e cheio de detalhes interessan­
tes. Bowden tem um relato intrigante da fraude [do Homem] de Piltdown, e,
semelhante a Stephen Jay Gould, ele conclui que o filósofo e paleontólogo
jesuíta Teilhard de Chardin, provavelmente, esteve envolvido com culpa
na fraude. Bowden me persuadiu que há razões para se suspeitar tanto das
descobertas dos fósseis do Homem de Java como do Homem de Pequim,
que estabeleceram o que agora é chamado de Homo erectus. O livro está
disponível na Sovereign Publications, P. O. Box 88, Bromley, Kent BR2
9PF, Inglaterra. Gostaria de ver os detalhes que ele relata serem examinados
criticamente, mas com imparcialidade, por estudiosos sem preconceitos,
mas isso é um sonho impossível.
O outro relato demolidor fora da ciência convencional é o livro The
Bone Peddlers: Selling Evolution, por William R. Fix. Para mim, esse livro
está prejudicado pelos seus últimos capítulos, que aceitam a evidência de
fenômenos parapsicológicos acriticamente. Fix inicia o livro com um relato
de uma história de notícias da televisão CBS de 1981 sobre a declaração
do então candidato presidencial Ronald Reagan de que a teoria da evolução
“não é crida pela comunidade científica como sendo tão infalível quanto

4 N. do T.: A expressão “bones of contention” pode ser traduzida por “pomo da discórdia”. Por estar
no plural, este tradutor preferiu uma tradução mais livre e contextuai porque os ossos [fósseis] promo­
vem discórdia entre os evolucionistas.
192 DARWIN na banca das réus

já foi crida”. Um porta-voz da Associação Americana para o Avanço da


Ciência respondeu que os 100 milhões de fósseis que têm sido identificados
e datados “se constituem em 100 milhões de fatos que provam a evolução
além de qualquer dúvida possível”.
O livro de Stephen Stanley, The New Evolutionary Timetable, forne­
ce uma análise da evidência hominídea no capítulo 7. Stanley destaca que
a seqüência hominídea aceita é radicalmente inconsistente com a teoria
neodarwinista de Dobzhansky (no livro Mankind Evolving) que a evolução
australopitecínea em ser humano ocorreu numa linhagem contínua dentro
de um único pool gênico. Ao contrário, relata Stanley, havia um número
muito pequeno de discretas espécies intermediárias que viveram por muito
tempo que podem ter se sobreposto. Stanley propõe um modelo baseado na
“especiação rapidamente divergente”.
As declarações de Solly Zuckerman (agora Lorde Zuckerman) são de
seu livro de 1970, Beyond the Ivory Tower. Zuckerman voltou ao seu as­
sunto na sua obra autobiográfica Monkeys, Men and Missiles, na qual ele
recontou seu “debate contínuo” com Sir Wilfred Le Gros Clark na interpre­
tação dos australopitecíneos. Zuckerman acredita que Le Gros Clark era
“obcecado” com o assunto e incapaz da consideração racional da evidência.
Não há nenhuma dúvida de que a opinião era recíproca.
O livro popular de Donald Johanson e Maitland Edey sobre a descoberta de
A. afarensis, Lucy: The Beginnings o f Mankind ( \ 981), realiza bom trabalho em
descrever o ponto principal na questão entre Zuckerman e os antropólogos:

Para dar o crédito devido a Zuckerman, havia semelhanças entre os


crânios dos macacos e dos crânios dos australopitecíneos. Os cé­
rebros eram aproximadamente do mesmo tamanho, ambos tinham
mandíbulas prognatas (longas, salientes), e assim por diante. O que
Zuckerman perdeu foi a importância de algumas características que
os australopitecíneos tinham em comum com os homens. Charles
A. Reed, da Universidade de Illinois, tinha resumido habilmente
os equívocos de Zuckerman num artigo crítico da controvérsia dos
australopitecíneos: “Não importa o que Zuckerman escreveu de tais
caracteres como sendo ‘freqüentemente insignificantes’; o ponto
importante foi a presença de tais diversos caracteres incipientes em
combinações funcionais. Este último ponto de vista foi um que, na
minha opinião, Zuckerman e seus colaboradores falharam em com­
preender, mesmo quando eles declararam que entenderam. A abor­
dagem deles foi extremamente estática em que eles essencialmente
exigiram que um fóssil, para ser considerado por eles mostrando
alguma evidência de evolução em seres humanos, deve ter chega­
do essencialmente no último status antes que eles o considerassem
Natas de pesquisa 133

como tendo começado a jornada evolutiva”. Em outras palavras: se


não fosse substancialmente humano, ele não poderia ser considerado
como estando a caminho de se tomar humano (p. 80).

Esse argumento apóia de maneira surpreendente um dos principais pon­


tos de Zuckerman, que era o de que as tentativas de colocar os fósseis numa
seqüência evolutiva “dependiam... parcialmente em suposições, e parcial­
mente em alguma concepção preconcebida do curso da evolução hominí-
dea”, Os australopitecíneos possuíam caracteres incipientes, mais visíveis
para alguns olhos do que para outros, que podem ter se desenvolvido em
características humanas e que também podem não ter sido assim. Se as
criaturas fósseis estivessem “a caminho de se tomar humanas”, então o
mesmo foi indubitavelmente verdadeiro dos “caracteres incipientes”, mas
se não estavam, então os caracteres eram provavelmente insignificantes. A
descrição do que os fósseis foram, é influenciada decisivamente pela pre-
concepção sobre o que eles se tomariam.
O artigo de Zuckerman, “A Phony Ancestor”, no The New York Review
o f Books de 8 de novembro de 1990, fornece alguns comentários adicio­
nais no decorrer de uma resenha de um livro sobre a fraude de Piltdown.
Ele menciona para os leitores um artigo que publicou em 1933 negando
a “singularidade do Homem de Pequim” e sugerindo que os hominídeos
devem ser divididos em duas famílias contendo (1) o Homem de Pequim e
os neandertais; e (2) aqueles com crânios parecidos aos homens modernos.
Zuckerman atribuiu o sucesso da fraude de Piltdown para o fato que os
antropólogos iludiram a si mesmos em pensar que podiam “diagnosticar a
olho nu o que eles imaginaram ser os caracteres humanos em ossos e den­
tes”. Ele concluiu que “o problema é que eles ainda fazem isso. Uma vez
comprometidos com o que seus olhos ou os de outras pessoas lhes disse­
ram, tudo mais tem de concordar com o diagnóstico”.
A denúncia de Zuckerman do exagero biométrico dos australopitecíneos
ocorreu antes da descoberta de “Lucy” por Johanson. Lucy é um espécime
mais primitivo do gênero do que o A. africanus de Dart, e por isso seria des­
qualificado a fortiori se as conclusões de Zuckerman sobre Africanus forem
corretas. Embora Johanson e seu colega Owen Lovejoy afirmarem confian­
temente que Lucy andava ereta como um ser humano, essa afirmativa não
ficou sem ser desafiada. A controvérsia é resumida abreviadamente no livro
de Roger Lewin, Human Evolution: An IllustratedIntroduction:

Embora a pélvis de Lucy não seja mais definitivamente a pélvis de


um macaco, ela também não é totalmente humana na forma, par­
ticularmente no formato dos ossos ilíacos. Todavia, conclui Owen
DARWIN no banco das rÉus

Lovejoy da Universidade Estadual Kent, estudos bioquímicos e


anatômicos da pélvis mosaica indicam que a estrutura é consistente
com um estilo de bipedalismo que é surpreendentemente moderno.
Por contraste, dois pesquisadores da Universidade Estadual de Nova
York, em Stony Brook, interpretam a mistura de caracteres na pélvis
de Lucy como indicativo de alguma forma de bipedalismo símio,
quadris arqueados, um modo de andar com joelhos encurvados. A
diferença de opinião ainda está por ser resolvida.
Estudos sobre o esqueleto de Lucy e de outros espécimes de Hadar
mostram A. afarensis como tendo tido membros dianteiros longos e
membros traseiros relativamente curtos - uma configuração parecida
com macaco. (Todavia, Milford Wolpoff, da Universidade de Michi-
gan, argumenta que as pernas pequenas de Lucy são do tamanho que
alguém esperaria num humano de sua estatura diminuta.) Ainda mais
parecidos com macaco são os ossos distintamente curvados dos dedos
das mãos e dos pés. Os pesquisadores de Stony Brook, Randall Sus-
man e Jack Stem, interpretam essas características como adaptações a
significante arborealidade. Outros, inclusive Lovejoy e White, suge­
rem que outras interpretações podem ser possíveis (p. 41).

Sem dúvida que muitas interpretações são possíveis, mas a hipótese


testada neste capítulo é que Lucy e os outros hominídeos têm sido con­
clusivamente identificados como ancestrais humanos, sem assistência de
qualquer suposição que a questionada transição de macaco-antropóide a
homem deva ter ocorrido.
A hipótese da “Eva mitocondrial” e o conflito resultante entre os biólogos
moleculares e os antropólogos físicos receberam um bom tratamento popular
(se alguém pode relevar o estilo de escrita vulgar) no livro de Michael H.
Brown, The Search for Eve (Harper & Row, 1990). Brown parece incerto se
seu assunto é ciência ou ficção imaginária, e acho que muitos leitores sentirão
que sua incerteza é justificada. Esse livro mostra o desdém que os biólogos
moleculares da “ciência rigorosa” têm pelos paleontólogos “menos rigoro­
sos” que baseiam suas teorias sobre a evolução humana em reconstruções de
dentes isolados, topos de crânios despedaçados e mandíbulas fragmentadas.
De acordo com a colega de Allan Wilson, Rebecca Cann: “Muitos paleontó­
logos temem que, se expuserem os legítimos limites científicos da certeza de
suas teorias, os fundamentalistas e ‘cientistas’ da criação podem interpretar
mal estes dados para contestar o fato de que a evolução ocorreu” (p. 239).
Brown também cita uma interessante observação de Alan Mann, pro­
fessor de paleoantropologia na Universidade da Pensilvânia: “A evolução
humana é grande negócio nestes dias. Leakey é mundialmente conhecido,
Johanson é como um astro de cinema, as mulheres se curvam diante dele e
Natas de pesquisa 135

pedem seu autógrafo. Circuito de palestras. Fundação Nacional de Ciência:


grandes recursos financeiros. Tudo é questionável, especialmente quando
dinheiro está envolvido. Algumas vezes as pessoas manipulam deliberada-
mente os dados para combinar com o que elas estão dizendo” (p. 241).
A reconstrução do Basilosaurus está descrita para cientistas no artigo
“Hind Limbs of Eocene Basilosaurus: Evidence of Feet in Whales”, por
Philip D. Gingerich, B. Holly Smith e Elwyn L. Simons, na revista Science,
vol. 249, pp. 154-157 (15 de julho de 1990). O artigo declara que “os ossos
de braços, pernas e pés descritos aqui foram todos encontrados em associação
direta com os esqueletos articulados de Basilosaurus isis e indubitavelmente
representam essa espécie”. Embora aceite a descrição do autor por razões des­
te capítulo, confesso que expressões como “encontrados em associação direta
com” e “indubitavelmente” despertaram minha curiosidade. É certo que o Ba­
silosaurus tinha membros traseiros contraídos, ou é somente certo que os fós­
seis de ossos de pés foram encontrados razoavelmente próximos de esqueletos
de Basilosaurusl As histórias dos jornais citam o descobridor Philip Gingerich
dizendo que “eu me sinto confiante de que podemos voltar a qualquer esque­
leto, medir a distância desde a cabeça - uns 3,6 metros - remover a areia, e
achar mais pés”. Essa é uma predição arriscada, e se Gingerich pode fazê-la
bem, todas as dúvidas sobre quem possuiu os pés devem ser sepultadas.
Douglas Dewar, um biólogo criacionista que discordou preeminente­
mente da ortodoxia evolutiva na Inglaterra nos anos de 1930, forneceu
uma descrição engraçada do problema envolvido num cenário hipotético
de evolução da baleia:

Vamos notar o que estaria envolvido na conversão de um quadrúpe­


de terrestre, primeiro numa criatura tipo foca e depois numa baleia.
O animal terrestre teria, ainda em terra, de cessar de usar suas pernas
traseiras para locomoção e mantê-las permanentemente esticadas
para trás nos dois lados da cauda e se arrastar tediosamente usando
suas pernas dianteiras. Durante suas excursões na água, ela deveria
ter retido as pernas traseiras na sua posição rígida e nadar movendo-
as e a cauda de um lado para o outro. Como resultado desse ato de
autonegação devemos supor que as pernas traseiras eventualmente
se tomaram afixadas à cauda pelo crescimento de membrana. Assim
a parte traseira do corpo teria se tomado como o de uma foca. Ha­
vendo alcançado esse estágio, a criatura, em antecipação de um tem­
po em que daria à luz aos seus filhotes debaixo da água, desenvolve
gradualmente o aparato por meio do qual o leite é forçado na boca
do filhote, e enquanto isso uma cobertura tem de ser formada em
volta do mamilo no qual o focinho do filhote se encaixa firmemente,
a epiglote e a cartilagem da laringe se tomam prolongadas para baixo
DARWIN no banco dos réus

de modo tão firmemente a abraçar esse tubo a fim de que o adulto


seja capaz de respirar quando levar água na boca e o filhote quando
tomar leite. Essas mudanças devem ser completamente efetivadas
antes que o filhote possa nascer debaixo da água. Note-se que não
há estágio intermediário entre o nascer e o amamentar debaixo da
água e o nascer e amamentar no ar. No mesmo tempo, várias outras
mudanças anatômicas têm de acontecer, a mais importante das quais
é a completa transformação da região da cauda. A parte traseira do
corpo deve ter começado a se torcer na parte frontal, e este torcer
deve ter continuado até que os movimentos laterais da cauda se de­
senvolveram num movimento para cima e para baixo. Enquanto esse
torcimento prosseguiu, os membros posteriores e a pélvis devem
ter diminuído de tamanho, até que os primeiros cessaram de existir
como membros externos totalmente e desapareceram completamen­
te na maioria das baleias [Citado no livro de Denton, pp. 217,218],

Os darwinistas têm se concentrado quase que por completo na evolu­


ção animal e prestado pouca atenção aos problemas de macroevolução nas
plantas, provavelmente porque esse assunto não é tão relevante quanto a
ascensão do homem. A monografia de 1971, “The Mysterious Origin of
Flower Plants”, por Kenneth Spome (palestrante sobre botânica da Univer­
sidade de Cambridge) comenta:

Incontáveis teorias têm sido propostas sobre a origem e a evolução


subseqüente das plantas florais, mas nenhuma tem recebido aprova­
ção universal. Darwin, numa carta a Hooker escrita em 1879, fez o
seguinte comentário: “O desenvolvimento rápido, até onde podemos
avaliar, de todas as plantas superiores dentro das épocas geológicas
recentes é um mistério abominável, e a situação certamente não tem
mudado desde então, apesar dos admiráveis avanços que têm sido
feitos no século 20”.

Laurie Godfrey escreve que os paleobotânicos identificaram recente­


mente fóssil de pólens e folhas como “membros de uma radiação adap-
tiva primária de angiospermas” no livro Scientists Confront Creationism,
p. 201. Gostaria que os paleontólogos fizessem para a evidência das plantas
o mesmo que eu tenho tentado fazer com os vertebrados, e testar a hipótese
de ancestral comum pelo registro fóssil das plantas. Suspeito que os resul­
tados seriam constrangedores para os darwinistas. As fontes criacionistas
freqüentemente citam a observação do botânico da Universidade de Cam­
bridge, E. Comer, sobre o assunto:

Muita evidência pode ser mencionada a favor da teoria da evolução -


da biologia, biogeografia e paleontologia, mas ainda penso que, para
Natas de pesquisa 197

os não-preconceituosos, o registro fóssil das plantas está a favor da


criação especial. Todavia, se outra explicação puder ser encontrada
para essa hierarquia de classificação, ela seria a marcha fúnebre da
teoria da evolução. Você pode imaginar como uma orquídea, um ne­
núfar e uma palma vieram da mesma ancestralidade, e temos alguma
evidência para essa suposição? O evolucionista deve estar preparado
com uma resposta, mas acho que a maioria sucumbiria diante de uma
inquisição (Do ensaio “Evolution” [Evolução], no livro Contempo-
rctry Biological Thought, veja páginas 95 e 97, McLeod & Colby,
editores, 1961).

Capítulo 7: A evidência m olecular


Para informação do conhecimento sobre a evidência molecular tenho
confiado principalmente em três artigos publicados na revista Scientific
American por preeminentes autoridades: Motoo Kimura, “The Neutral The-
ory of Molecular Evolution” (novembro de 1979); G. Ledyard Stebbins e
Francisco Ayala, “The Evolution of Darwinism” (julho de 1985), e Allan
Wilson, “The Molecular Basis of Evolution” (outubro de 1985).
O dado com respeito às divergências da seqüência molecular do citocro-
mo c é da tabela do Atlas o f Protein Sequence and Structure de Dayhoff,
é reproduzido no livro de Denton, Evolution: A Theory in Crisis (1985).
Denton defende firmemente a tese de que a evidência molecular mostra um
mundo de agrupamentos naturais descontínuos que apoiam o ponto de vista
essencialista ou tipológico em vez do ponto de vista darwinista de conti­
nuidade ao longo do tempo. A resposta darwinista é supor que os grupos
descontínuos do presente surgiram pela contínua evolução de ancestrais
comuns distantes. A questão é se a suposição darwinista é meramente uma
preferência filosófica ou se é apoiada por evidência substancial.
A citação apoiando o panselecionismo por Emst Mayr e as citações
atribuídas a Kimura foram tiradas do artigo de Kimura na revista Scientific
American. Kimura reconhece que para testar a teoria neutra “é necessário
estimar tais quantidades como as taxas de mutação, os coeficientes de sele­
ção, os tamanhos das populações e as taxas de migrações” [por longos pe­
ríodos geológicos]. Ele admite que “muitos biólogos evolucionistas mantêm
que tais quantidades populacionais-genéticas nunca podem ser determinadas
com exatidão e que, por conseqüência, qualquer teoria dependente delas é
um exercício fútil”. Apesar disso, Kimura responde que “essas quantidades
devem ser investigadas e medidas se os mecanismos da evolução devam
ser entendidos”. Lida cuidadosamente, a lógica de Kimura não nos dá razão
para supor que “os mecanismos da evolução” na verdade possam ser enten­
didos pela investigação científica, uma vez que ele não tem uma resposta
DARWIN nn banca das réus
. K
real para a crítica de que é impossível estabelecer os fatos essenciais sobre
tais assuntos como os tamanhos populacionais e coeficientes de seleção no
passado distante. Por outro lado, Kimura corretamente destaca que a não-
testabilidade também é uma acusação válida contra as teorias selecionistas
“que podem invocar tipos especiais de seleção para encaixar circunstâncias
especiais e que no geral falham em fazer predições quantitativas”.
Um exemplo relatado por Kimura ilustra a qualidade do debate neutra-
lista-selecionista. A teoria neutra predisse quase que 100% de heterozigose
numa população grande. Francisco Ayala relatou que a heterozigose numa
população grande de espécie de mosca-da-fruta era de 18% e por isso a teo­
ria neutra estava errada. Não tem problema, respondeu Kimura: a discrepân­
cia poderia ser resolvida supondo-se que houve um gargalo populacional do
tamanho exato em alguma ocasião (talvez provocado pela última idade do
gelo), ou por ajustar as suposições do modelo matemático em algum outro
aspecto. Seja como for, os selecionistas tinham seus próprios problemas
explicando por que a seleção natural preservaria tanta heterozigose quanto
aparentemente existia. Os dois lados da controvérsia admitiram que tanto a
versão neutralista ou selecionista do darwinismo deve ser verdade, e assim
cada lado podia apoiar seu próprio caso ao invalidar o outro.
Os artigos citados na nota de rodapé 2 são de Roger Lewin, “Molecular Clo-
cks Run Out of Time”, revista New Scientist de 10 de fevereiro de 1990, p. 38;
e o artigo de Allan Wilson na revista Scientific American previamente citado.
Christian Schwabe expressou o que considero ser uma visão apropria­
damente cética das teorias moleculares evolutivas no seu artigo “On the
Validity of Molecular Evolution”, na publicação especializada Trends in
Biochemical Sciences, 1986, vol. 11, pp. 280-282. Ele destacou que “parece
desconcertante que muitas exceções existam para a progressão ordenada­
mente das espécies conforme determinada pelas homologias moleculares;
tantas de fato que as exceções, as sutilezas, podem portar a mensagem mais
importante”. Schwabe reclamou do uso freqüente de hipóteses ad hoc para
reconciliar os dados moleculares com o neodarwinismo, e notou que “a
hipótese neodarwinista... permite que alguém interprete as diferenças se-
qüenciais simples de modo a representar processos complexos, isto é, du­
plicações de genes, mutações, deleções e inserções, sem oferecer a menor
possibilidade de prova, em prática ou em princípio”.
Uma razão que pode ser imprudente tirar conclusões sobre a evolução com
base em dados moleculares é que a evolução molecular é um campo relativa­
mente novo, e relatos mais detalhados de seguimento das pesquisas podem
colocar em dúvida alguns dos resultados relatados por pioneiros entusiasma­
dos. Por exemplo, a edição de setembro de 1989 da publicação especializada
Evolutionary Biology tem um artigo do bioquímico alemão Siegfried Scherer
Natas da pesquisa IBB

intitulado “The Protein Molecular Clock: Time for a Re-evaluation”. Scherer


estudou dez proteínas representando mais de 500 seqüências individuais de
aminoácidos. Ele relatou que em nenhum caso os dados foram consistentes
com as predições baseadas no conceito do relógio e conclui que “a hipótese
do relógio molecular da proteína deve ser rejeitada”.
O livro Blueprints de Edey e Johanson faz um bom trabalho em âmbito
popular explicando a arqueobactéria, o relógio molecular e o impacto da
abordagem molecular sobre a paleoantropologia. É claro, esses autores não
questionam as preconcepções darwinistas.

Capítula 8: A evaluçãa pré-bialagica


Para os conhecimentos gerais sobre a evolução pré-biológica, recomen­
do particularmente os seguintes livros: A. G. Caims-Smith, Seven Clues to
the Origin o f Life (1985); Robert Shapiro, Origins: A Skeptic s Guide to the
Creation o f Life on Earth (1986) e o de Charles Thaxton, Walter Bradley e
Roger Olsen, The Mystery o f Life’s Origin (1984). Caims-Smith e Shapiro
são químicos importantes no campo. Os dois são popularizadores que com
candura revelam que os problemas de explicar a origem da vida freqüente-
mente têm sido subestimados quando os investigadores exageraram na im­
portância de pequenos êxitos. Os dois afirmam a existência de uma solução
naturalista como uma questão de fé. O livro The Mystery o f Life’s Origin foi
um relato cético desbravador do campo que surgiu enquanto alguém como
Carl Sagan estava ocupado em assegurar ao público que o problema virtu­
almente estava resolvido. O livro teve uma fria recepção da parte de muitos
porque de modo explícito considera o caso a favor da criação inteligente.
Todavia, ele está muito de acordo com o padrão técnico do campo e pode
ser muito difícil para leitores que não tenham uma formação em química.
O livro de Francis Crick, Life Itself (1981) é inferior à competição, apesar
da fama do seu autor, mas a descrição da panespermia dirigida não pode ser
perdida. Para os que preferem uma abordagem mais voltada para a Terra, o
trabalho experimental e teórico do grupo de Manfred Eigen sobre o “gene
nu” RNA é descrito no livro Blueprints de Edey e Johanson.
Há um bom tratamento cético breve da evolução pré-biológica no capí­
tulo 11 do livro de Michael Denton, Evolution: A Theory in Crisis (1985).
A conclusão de Carl Sagan de que a origem espontânea da vida deve ser
altamente provável porque aconteceu em um período tão breve na Terra
primeva é citada na p. 352 do livro de Denton. A lógica de Sagan “começar
da conclusão preferida e trabalhar para trás” é típica de trabalhadores nesse
campo. Por exemplo, alguns cientistas têm se recusado em creditar a evi­
dência de que a atmosfera da Terra primitiva não era de natureza fortemente
2DD DARWIN no banco dos réus

redutora pressuposta pela experiência de Miller-Urey, raciocinando que as


condições necessárias para a produção espontânea de aminoácidos devem
ter estado presentes porque do contrário a vida não existiria. Robert Shapiro
comentou que “chegamos a uma situação em que uma teoria tem sido aceita
como um fato por alguns, e a possível evidência contrária é posta de lado.
Essa condição, é claro, descreve novamente mitologia em vez de ciência”.
Para uma excelente revisão do campo para os cientistas profissionais,
recomendo o artigo “The Origin of Life: More Questions than Answers”,
por Klaus Dose, na publicação especializada Interdisciplinary Science
Review, vol. 13, nfl 4, p. 348 (1988). Veja também uma breve revisão por
Dose de uma coletânea de trabalhos sobre a tese da origem mineral da
vida que apareceu na publicação especializada Bio Systems, vol. 22 (1),
p. 89 (1988). Dose, uma figura expoente na evolução pré-biológica, é
diretor do Instituto de Bioquímica na Universidade Johannes Gutenberg
em Mainz, Alemanha.
O artigo citado no texto por Gerald F. Joyce, “RNA Evolution and the
Origins of Life”, apareceu na revista Nature, vol. 338, pp. 217-224 (16
de março de 1989). Joyce concluiu com a observação sombria de que os
pesquisadores da origem da vida já se acostumaram “a uma falta de dados
experimentais relevantes” e a um alto nível de frustração.
O capítulo 6 sobre “Origins and Miracles” no livro de Richard Dawkins,
The Blind Watchmaker é uma peça habilidosa de defesa darwinista, pres­
tando particular atenção ao cenário da evolução em argila de Caims-Smith.
Dawkins usou a metáfora do “depósito de ferro-velho” de Hoyle para ex­
plicar como uma micromutação no gene regulando o desenvolvimento em­
brionário pode produzir costelas adicionais, músculos, e assim por diante
no organismo adulto. A mutação apenas adicionaria mais daquilo que já es­
tava no programa, e assim Dawkins pensou que seria uma mutação “DC-8
alongado” em vez de uma mutação “Boeing 747”. Ele considera que é mui­
to mais provável que um furacão atingindo um DC-8 padrão num depósito
de ferro-velho pode transformá-lo numa versão alongada do mesmo avião
do que um furacão pudesse converter o ferro-velho puro num 747.
A pesquisa envolvendo modelos computacionais de sistemas auto-or­
ganizadores é mais completamente relatada em duas coletâneas de artigos
refletindo as conferências realizadas em 1987 e 1990 no Laboratório Na­
cional Los Alamos. A conferência de 1990 é relatada no artigo “Sponta-
neous Order, Evolution, and Life”, na revista Science, 30 de março de 1990,
p. 1.543. Esse é o artigo citado no texto.
Também tenho me beneficiado de dois artigos não publicados por Charles
Thaxton: “DNA, Design and the Origin of Life” (1986) e “In Pursuit of In-
telligent Causes: Some Historical Background” (1988).
Natas de pesquisa

Capítulo 9: As reg ras da ciência


A citação legal para a opinião do juiz Overton é McLean versus Arkan-
sas Board of Education, 1529 F.Supp. 1255 (W.D. Ark. 1982). A opinião
está reproduzida na coletânea But Is It Science? (Ruse, ed., 1988). Essa
coletânea também contém artigos críticos da definição de Ruse-Overton
pelos filósofos Larry Laudan e Philip Quinn, seguidos de réplicas de Ruse.
Para relatos adicionais do julgamento pelos participantes, veja o livro de
Langdon Gilkey, Creationism on Trial: Evolution and God at Little Rock
(1985), e o de Robert V. Gentry, Creations Tiny Mystery (2a ed., 1988).
Gilkey é um teólogo liberal que testificou a favor dos queixosos. Gentry é
físico e cientista da criação que depôs defendendo a lei.
Stephen Jay Gould elogiou a opinião nos seguintes termos: “Abrilhante
e habilmente elaborada decisão do juiz Overton é o documento legal mais
exato jamais escrito sobre esta questão - ultrapassando em muito qualquer
coisa que o julgamento de Scopes gerou, ou qualquer opinião [nos dois
outros casos que foram para a Suprema Corte]. As definições de ciência do
juiz Overton são tão convincentes e tão claramente expressas que nós pode­
mos usar suas palavras como um modelo para nossos próprios anais. Scien­
ce, a principal publicação especializada da ciência profissional americana,
publicou textualmente a decisão do juiz Overton como um artigo principal”
(“Post-script”, revista Natural History, novembro de 1987, p. 26).
Os relatos da mídia e as opiniões judiciais admitem que as leis de trata­
mento igual foram obras de uma coalizão nacional de cientistas da criação
altamente organizada, mas isso tem sido negado. De acordo com o advoga­
do da ciência da criação, Wendell R. Bird, a maioria das organizações nacio­
nais da ciência da criação se opõe à legislação desse tipo, “preferindo antes
persuadir aos professores e administradores do mérito científico da teoria
da criação sem a compulsão legal”. Um indivíduo chamado Paul Ellwan-
ger parece ter assumido a liderança em propor uma lei de tratamento igual,
com o resultado de que alguns cientistas da criação relutantes foram atraídos
para batalhas perdidas em bases que não foram de sua própria escolha. Veja
Wendell R. Bird, The Origin ofSpecies Revisited, vol. 2., pp. 357-359 (1989).
As citações do livro de Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções cientí­
ficas (2a ed., 1970), são das páginas 5,24,77-79 e 127,128. Interessantemen-
te, o modelo de Kuhn do empreendimento científico é em si mesmo baseado
na filosofia darwinista. Kuhn destacou que a característica distintiva da teo­
ria de Darwin, de um ponto de vista filosófico, era que ela abolia a noção de
que a evolução seja um processo orientado para um objetivo. A seleção natu­
ral não tem objetivo, mas apesar disso produz progresso na forma de órgãos
maravilhosamente adaptados como o olho e a mão. De modo semelhante,
2G2 DARWIN no banco dos réus

a ciência progride pela “seleção pelo conflito na comunidade científica da


maneira mais adequada de praticar ciência futura. O resultado final de uma
seqüência de tais seleções revolucionárias, separadas por períodos de pes­
quisa normal, é o conjunto de instrumentos com notabilidade adaptados que
chamamos de conhecimento científico moderno... E todo esse processo pode
ter ocorrido, como nós agora supomos ter ocorrido com a evolução bio­
lógica, sem o benefício de um objetivo preestabelecido, sem uma verdade
científica permanentemente fixada, da qual cada estágio no desenvolvimento
científico é um exemplar mais aprimorado” (pp. 172,173).5
A passagem do livro de Heinz Pagei, The Dreams o f Reason (1988) é
das páginas 156-158. Os dois parágrafos citados são separados por três pa­
rágrafos nos quais Pagei discute a lógica da matemática como um exemplo
adicional do código de construção cósmica do Demiurgo. As passagens por
George Gaylord Simpson são do livro The Meaning o f Evolution (ed. rev.,
1967), pp. 279, 344,345. Embora o critério de falseabilidade de Popper não
seja satisfatório como uma definição de “ciência”, a escrita de Popper nesse
assunto é extremamente valiosa por seus insighís na diferença entre ciência
e pseudociência. Isso é o assunto do Capítulo 12.

Capítula ID: A religiãa darw inista


A declaração de 1984 da Academia Nacional de Ciências e a réplica
de Gould a Irving Kristol são descritas nas notas de pesquisa no Capítulo
1. Gould rejeitou a acusação de Kristol de que os livros-texto sobre a
evolução têm um preconceito anti-religioso, citando a evidente impar­
cialidade dos autores de expoentes livros-texto, Dobzhansky e Futuyma.
A interpretação naturalista da “imparcialidade em relação à religião” não
inibe cientistas de tornarem explícitas suas suposições de que a religião
teísta é bobagem. Eis o que Futuyma tem a dizer nas páginas 12,13 do
livro Science on Trial: The Case for Evolution (1983):

Quem quer que acredite em Gênesis como uma descrição literal da


história deve sustentar uma visão de mundo que é totalmente incom­
patível com a idéia da evolução, para não falar da própria ciência. ...
Onde a ciência insiste em causas materiais, mecanicistas que podem
ser entendidas pela física e pela química, o crente literal no livro de
Gênesis invoca forças sobrenaturais desconhecidas.

5 N. do T.: A tradução brasileira acolheu assim: “Seleção pelo conflito da maneira mais adequada
de praticar a ciência - seleção realizada no interior da comunidade científica. O resultado final de uma
seqüência de tais seleções revolucionárias, separadas por períodos de pesquisa normal, é o conjunto
de instrumentos notavelmente ajustados que chamamos de conhecimento científico moderno... Todo
esse processo pode ter ocorrido, como no caso da evolução biológica, sem o beneficio de um objetivo
preestabelecido, sem uma verdade científica permanentemente fixada, da qual cada estágio do desenvol­
vimento científico seria um exemplar mais aprimorado” (pp. 215,216).
Notas de pesquisa 203

Talvez muito mais importante, se o mundo e suas criaturas se de­


senvolveram puramente por forças materiais, físicas, não poderiam ter
sido planejados nem terem propósito ou objetivo. O fimdamentalista,
em contraste, acredita que tudo no mundo, todas as espécies e toda ca­
racterística de cada espécie foram planejados por um artífice inteligente
e cheio de propósito, e que isso foi feito para um propósito. Em nenhu­
ma parte esse contraste se aplica com mais vigor do que a espécie hu­
mana. Alguns se esquivam da conclusão de que a espécie humana não
foi planejada, não tem propósito, e é o produto de meros mecanismos
mecânicos - mas essa parece ser a mensagem da evolução.

O artigo de William Provine, “Evolution and the Foundation of Ethics”


apareceu no MBL Science (uma publicação do Laboratório Biológico Ma­
rinho em Woods Hole, Massachusetts), vol. 3, nfl 1, pp. 25-29. Uma versão
abreviada apareceu como um editorial solicitado na edição de 5 de setem­
bro de 1988, da revista The Scientist, com correspondência e réplicas em
edições sucessivas. Provine também palestrou nesse tema numa principal
reunião de biólogos evolucionistas no Museu Field em Chicago em 1987.
O livrete Teaching Science in a Climate o f Controversy está disponível
na American Scientific Affiliation, P. O. Box 668, Ipswich, MA 01938-
9980. A edição de 1989 foi revisada meticulosamente a fim de enfrentar vá­
rias objeções, válidas e inválidas, de edições anteriores. As resenhas darwi-
nistas citadas no texto apareceram na publicação especializada The Science
Teacher, edições de fevereiro e setembro de 1987.
As citações do livro de Julian Huxley, Religion Withouí Revelation (1958),
são da página 194. Muitos cientistas têm promovido filosofias éticas ou ins­
pirativas baseadas na evolução. Para os detalhes deprimentes, veja o livro
de Mary Midgely, Evolution as a Religion (1986), e os ensaios na coletânea
de John C. Greene, Science, Ideology and World View (1981). Recomendo
especialmente o artigo de Marjorie Grene, “The Faith of Darwinism”, na En-
counter, vol. 74, pp. 48-56 (1959), cujo tema é que “É como uma religião da
ciência que o darwinismo controlou e controla as mentes dos homens”.
O endosso de Dobzhansky da filosofia de Teilhard de Chardin apare­
ce no fim do seu livro de 1962, Mankind Evolving (Bantam ed., 1970).
As citações de Teilhard são de seu livro The Phenomenon o f Man (1959).
Dobzhansky descreveu a fé de Teilhard como “não demonstrável pelos
fatos cientificamente estabelecidos”, mas não contraditados por qualquer
conhecimento científico, e como um “raio de esperança” para o homem
moderno que “encaixa bem com as exigências de nossos tempos”.
A aspiração de Teilhard de Chardin em reformular a fé católica com a
evolução no seu centro ilustra a dificuldade de se desvincular os motivos
religiosos e científicos nos dois lados da controvérsia da evolução. Teilhard
204 DARWIN no banco dos rÉus

não foi somente um teólogo, mas uma figura principal em paleoantropo-


logia. Ele estava intimamente envolvido com o caçador de fóssil amador
Charles Dawson e Sir Arthur Smith Woodward na descoberta do fraudulen­
to “Homem de Piltdown ” em 1912-1913.
Há bases fortes para se suspeitar que o entusiasmo religioso de Teilhard
pela evolução tenha o levado a participar na fraude. Muitas pessoas familiares
com a evidência (incluindo Stephen Jay Gould e Louis Leakey) concluíram
que, provavelmente, Teilhard esteve culposamente envolvido na preparação
da fraude de Piltdown, embora a evidência não seja conclusiva e os admira­
dores de Teilhard insistem que ele era um homem santo demais para consi­
derar tal coisa. Os ensaios de Gould, “The Piltdown Conspiracy” e “A Reply
to Critics” no livro Hen's Teeth and Horse’s Toes (1983) fornecem uma boa
introdução ao assunto. Veja também as notas de pesquisa do capítulo 6.
O Homem de Piltdown se tomou uma anomalia depois da descoberta do
‘Homem de Pequim”, na China, nos anos de 1930 (no qual Teilhard também
desempenhou um papel importante), isso levou os especialistas a proporem
a hipótese de um caminho diferente da evolução do ser humano primiti­
vo, e novo teste em 1953 por fim estabeleceu que o crânio foi habilmente
combinado com a mandíbula de um orangotango e o crânio de um homem
moderno. Até que o fóssil de Piltdown se tomasse inconveniente, após os
cientistas britânicos que receberam crédito por sua descoberta terem saído
de cena, o crânio foi guardado num cofre no Museu Britânico de História
Natural, fora do alcance de investigadores céticos. Considerando-se que al­
guns cientistas de grande conhecimento tinham expressado ceticismo sobre
o Homem de Piltdown desde o tempo de sua descoberta, essa ocultação da
evidência é um escândalo muito maior do que a fraude original.

Capítulo II: A aducação darw inísta


A história da controvérsia no Museu Britânico de História Natural é na
sua maior parte das páginas editoriais e de correspondência da revista Natu­
re de 1980-1982, volumes 288-291. As cartas de L. B. Halstead apareceram
no volume 288, p. 208; vol. 289, pp. 106, 742 e no vol. 292, p. 403. O pri­
meiro editorial de Nature, “Darwin’s Death in South Kensington”, apareceu
na edição de 26 de fevereiro de 1981, vol. 289, p. 735. A carta de resposta
dos 22 cientistas do museu está no vol. 290, p. 82. O editorial subseqüente
“How True is the Theory of Evolution” está no vol. 290, p. 75. A palavra
editorial final foi externada num artigo assinado por Barry Cox, vol. 291, p.
373. A carta de Gareth Nelson está no vol. 289, p. 627.
Relatos adicionais da controvérsia do museu podem ser encontrados no li­
vro de Anthony Flew, Darwinian Evolution, pp. 33,34; no de Alan Hayward,
Notas de pesquisa 205

Creation and Evolution: Some Facts and Fallacies, pp. 1,2 (1985); e o de
Francis Hitching, The Neck o f the Giraffe, pp. 219-223. A entrevista com o
diretor de serviços públicos do museu, doutor Roger Miles, está relatada no
livro de Hitching, pp, 222,223.
Esta palestra por Michael Ruse, intitulada “The Ideology of Darwinism”
foi dada numa conferência patrocinada pela Organização das Nações Uni­
das para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) na antiga Alemanha Oci­
dental, em 1981, e publicada em inglês sob os auspícios do Akademie der
Wissenschaften der DDR6 em janeiro de 1983.
Science Framework (para as escolas públicas da Califórnia) foi publica­
do pelo Conselho Estadual de Educação da Califórnia em 1990. A versão
publicada contém a Policy Statement on the Teaching o f Natural Sciences,
adotada pelo conselho em 1989 para substituir a Antidogmatism Policy ado­
tada pelo conselho em 1972. A tabela do citocromo c aparece no Framework
na p. 116; os números nesta tabela foram literalmente copiados de O f Pan­
das and People, p. 37, de Percival Davis e Dean H. Kenyon, com Charles
Thaxton (Haughton, 1989). Este livro é “criacionista” somente no sentido
que justapõe um paradigma de “design inteligente” com o paradigma do­
minante da evolução (naturalista), e estabelece o caso para o primeiro. Ele
não se apóia na autoridade da Bíblia, e sem dúvida que sua metodologia é
muito mais empírica do que aquela do Framework.

Capítulo 12: Ciência e pseudociência


O ensaio de Popper, “Science: Conjectures and Refutations”, da coletâ­
nea Conjectures and Refutations (1963)7, é a principal fonte deste capítulo.
O pequeno livro de Bryan Magee, Popper (1973), fornece lúcido sumário da
filosofia de Popper para o leitor em geral. A citação de Douglas Futuyma é
do seu capítulo de abertura do seu livro-texto Evolutionary Biology (1986).
A citação de Julian Huxley é do volume 3 do Evolution after Darwin (Tax,
ed., 1960), o registro da Celebração da Universidade de Chicago do Cente­
nário da publicação de Origem das Espécies.
O texto observa que o darwinismo condizia tão bem com o espírito de
sua época que a teoria atraiu a uma quantidade surpreendente de líderes
religiosos. Muitos dos primeiros defensores de Darwin eram ou clérigos ou
leigos devotos, incluindo seu preeminente defensor americano, Asa Gray,
o professor congregacionalista de Harvard. Os defensores da “evolução”
incluíam não somente pessoas que pensaríamos ser religiosas liberais, mas

6 N. do T.: Academia de Ciência da entSo República Democrática da Alemanha.


7 N. do T.: Traduzido em português como Conjecturas e Refutações, Brasília, UnB, 1982.
DARWIN nn banco das réus

evangélicos conservadores como o professor Benjamin Warfield, do Semi­


nário Teológico de Princeton. Dois fatores específicos influenciaram este
apoio: (1) os intelectuais religiosos estavam determinados a não repetir o
escândalo da perseguição de Galileu; e (2) com a ajuda de um pouco de
auto-engano, o darwinismo podia ser interpretado como “criação por ata­
cado” por uma divindade de mente progressiva agindo através de causas
secundárias racionalmente acessíveis. Sobre a surpreendente receptividade
dos teólogos conservadores ao darwinismo, veja o livro de David N. Livin-
gstone, Darwin ’s Forgotten Defenders: The Encouníer Between Evangeli-
cal Theology andEvolutiomry Thought (1987).

Epílogo: D livro e seus críticos


Darwin no banco dos réus não foi revisado de maneira crítica em ne­
nhum dos mais preeminentes jornais ou revistas voltados para o leitor em
geral, exceto pela revista National Review. Foi extensamente revisto ou co­
mentado em publicações científicas especializadas e publicações religiosas.
Meu arquivo contém dúzias de resenhas, e mais continuam a aparecer dois
anos após sua publicação. Nessas notas não tenho feito nenhum esforço
de pesquisar essa massa de material como um todo, mas antes tenho me
concentrado nos principais desafios críticos dos naturalistas científicos e de
teístas evolucionistas. Essa seleção pode dar uma impressão inexata, pois
ela ignora muitos críticos que concordaram com o livro.
Steven Weinberg discutiu um dos meus artigos de publicação especiali­
zada no penúltimo capítulo do seu livro Dreams o f a Final Theory (pp. 247-
249). As citações atribuídas a Weinberg neste capítulo são dessas páginas.
Weinberg é um físico laureado com o prêmio Nobel que anseia por grande
teoria de partículas físicas unificadas, que seria na verdade uma série com­
pleta de leis naturais que governaram o universo no instante mais inicial
do Big Bang. Na filosofia reducionista que atrai os físicos de partículas,
tal teoria unificada seria uma “teoria do tudo”: em princípio, governaria
tudo que tem acontecido na história do cosmos, embora na prática seria
capaz de predizer muito pouco. Meu ensaio crítico sobre o reducionismo de
Weinberg apareceu sob o título de “Science Without God”, no jornal The
Wall Street Journal de 10 de maio de 1993, p. A12. Weinberg e eu debate­
mos algumas dessas questões num estimulante seminário no almoço formal
dos docentes em Austin, Texas, em março de 1993.
Stephen Jay Gould destacou que “antes de Darwin, pensávamos que
um Deus benevolente havia nos criado” no seu ensaio “So Cleverly Kind
an Animal”, no livro Ever Since Darwin, p. 267. O contexto foi uma re­
flexão sobre como o avanço da ciência tem continuamente removido a hu­
Natas de pesquisa 207
A
manidade de um lugar central no cosmos e, no caso da biologia evolutiva,
enfatizado nossa “unidade com outros animais”. A passagem sobre como
nenhum espírito benevolente interventor está envolvido na natureza é do
ensaio “In Praise of Charles Darwin”, do livro Darwin’s Legacy, pp. 6,7
(Charles L. Hamrum, ed., 1983). Esse ensaio apareceu originalmente na
revista Discover de fevereiro de 1982.
A resenha crítica de Gould de Darwin no banco dos réus, intitulada “Im­
peaching a Self-Appointed Judge”, apareceu na edição de julho de 1992 da
revista Scientific American, pp. 118-192. Minha resposta “The Religion of the
Blind Watchmaker” pode ser lida na publicação especializada Perspectives on
Science and Christian Faith (publicação da Afiliação Científica Americana,
vol. 45, pp. 46-48 (março de 1993). Meus defensores também obtiveram re­
cursos financeiros para circular uma réplica a listas de correio de professores
de ciência e outros. Infelizmente, não puderam incluir a resenha de Gould nas
correspondências porque ele negou permissão. Antes eu não tinha me inco­
modado em replicar especificamente à lista de objeções de Gould - a maioria
sofismas - porque não queria cooperar com a sua tentativa de distrair a aten­
ção da principal linha de argumento. Para aqueles interessados nos detalhes,
eis aqui seus pontos [com as minhas respostas entre colchetes].
1. O livro não tem citação total das fontes ou bibliografia. [As citações
e as referências estão contidas nessas notas de pesquisa, para apre­
sentar a necessária informação em forma agradável de leitura. Gould
mesmo é citado mais freqüentemente como uma autoridade do que
qualquer outro; estou contente de ele não afirmar ter sido citado in­
corretamente.]
2. Johnson emprega as transições de capítulos que “a senhora Mclnemey,
minha durona, mas amada professora da terceira série do ensino funda­
mental”, teria “golpeado severamente suas juntas dos dedos” por usá-
las. [A minha professora da terceira série do ensino fundamental, Daisy
Poplin, não se desviou da grafia e da gramática.]
3. A afirmação de Johnson que o darwinismo está aliado ao naturalis­
mo é desmentida por contra-exemplos tais como “Theodosius Do-
bzhansky, um crente da Igreja Russa Ortodoxa”, De acordo com
Gould, “a ciência do darwinismo é plenamente compatível com as
crenças religiosas convencionais - e igualmente compatível com o
ateísmo, assim provando que as duas grandes esferas da realidade
da natureza e a fonte da moralidade humana não se sobrepõem forte­
mente”. [Dobzhansky foi, na verdade, um panteísta que fez da evolu­
ção uma religião. Gould mesmo tem escrito que o darwinismo con-
208 DARWIN no banca das réus

tradiz a crença numa divindade que exerce um papel ativo na criação


biológica. Deixando tudo isso de lado, quero que Gould fale com
mais franqueza na sua implicação de que “a moralidade” está exclu­
sivamente na esfera da “religião”. Ele decerto quer dizer que é para a
“religião” decidir as questões tais como se os cientistas podem fazer
experiências com tecidos embrionários humanos ou de animais? Em
qual base pode a “religião” decidir tais questões? Acho que a discus­
são não teria ido muito longe antes de descobrirmos que Gould não
tem a intenção de permitir à religião (especialmente a religião teísta)
qualquer autonomia real ou autoridade na esfera moral.]
4. Johnson escreve que o mecanismo darwinista para a criação de ou­
tros órgãos é composto de dois principais elementos, mutação e sele­
ção. “Depois ele chega à conclusão que negligenciou a recombinação
sexual, a predominantemente vasta fonte de variação imediata nas espé­
cies sexuais, mas ele toma pior seu erro ao incluir a recombinação como
uma categoria de mutação.” [Pura bobagem. É uma prática-padrão usar
a “mutação” como um termo conveniente para denotar as mudanças
genéticas supostamente aleatórias sobre as quais afirmam que a seleção
natural atua. A nota de rodapé nfi 2 no Capítulo 2 explica com clareza
este uso. A recombinação é uma fonte importante de variação imediata,
mas por definição não é uma fonte de genuínas inovações.]
5. Johnson escreve que “a seleção sexual é um componente relativa­
mente mínimo na teoria darwinista de hoje”, mas a seleção sexual “é
talvez o tópico darwinista mais quente da década passada”. [O ponto
importante não é se a seleção sexual é um tópico em moda, mas se
os biólogos evolucionistas contemporâneos lhe dariam um escopo
explanador tão amplo quanto tem sido afirmado por Darwin no livro
The Descent o f Man.\
6. A nota de rodapé nfl 5 na página 51 erroneamente equaciona a poli-
ploidia com a autopoliploidia, ignorando a forma de poliploidia mais
“evolutivamente potente” chamada de “alopoliploidia”. [Verdade:
até meus diligentes consultores científicos, que corrigiram muitos
outros erros antes da publicação, deixaram de perceber esse. A nota
de rodapé foi corrigida de acordo. Nada de importância para o prin­
cipal argumento se concentra nesse detalhe. Não penso que Gould
contestaria o ponto da nota de rodapé: seja o que for que a poliploidia
possa fazer, ela não explica a criação de outros órgãos complexos.]
7. Johnson chama Otto Schindewolf de saltacionista, mas Schindewolf
adotava uma teoria mais “sutil” e passou a maior parte de sua carreira
Notas de pesquisa zoe

estudando pequenas e contínuas mudanças nos padrões de sutura dos


amonites. [Sem dúvida que um rótulo como “saltacionista” não resu­
me adequadamente a obra de toda a vida de Schindewolf, mas pelo
menos estou em boa companhia usando esse termo. Emst Mayr des­
creveu a Schindewolf como um saltacionista no seu livro One Long
Argument (1991), p. 46. Gould mesmo classificou a Schindewolf
como um “macromutacionista” no livro Ontogenv and Philogenv
(1977), p. 387n.]
8. Johnson critica o darwinismo por não ser uma ciência experimental,
mas, em vez disso, o darwinismo deveria ser julgado como bem-
sucedido como uma ciência histórica por causa de sua capacidade
“em trazer informação amplamente discrepante sob uma explanação
incomparavelmente consistente”. [Isto é um ponto importante, mas
é totalmente abordado no livro. No Capítulo 5 declaro a questão: “A
teoria de Darwin inquestionavelmente tem um poder explicativo im­
pressionante, mas como determinaremos se ela é verdadeiraV A mi­
nha recusa em aceitar o poder unificador da teoria darwinista como
o equivalente da verdade está muito mais no espírito do comentário
famoso de Gould: “Eu me lembro muito bem como a teoria sintética
me enganou com o seu poder unificador quando eu era um aluno de
pós-graduação na metade dos anos de 1960. Eu tenho sido relutante
em admitir isso... mas se a caracterização de Mayr da teoria sintéti­
ca for exata, então aquela teoria, como uma proposição geral, está
efetivamente morta, apesar de sua persistência como ortodoxia de
livro-texto”. Veja Gould, “Is a New and General Theory of Evolution
Emerging?”, no livro Evolution Now [Evolução agora] (Maynard
Smith, ed., 1982).]
9. Os primeiros anfíbios têm “conservado características de passado de
peixe”. [Eu não duvido que alguém possa apontar para característi­
cas de vários organismos que parecem aludir a algum processo de de­
senvolvimento histórico. A questão é, quanto sabemos sobre aquele
processo? Um mecanismo defensável para transformar um peixe num
anfíbio, e eventualmente num humano, existe realmente?]
10. Johnson dá crédito insuficiente para a transição do terapsida (os­
sos da mandíbula em ossos do ouvido) como evidência convincente
de macroevolução. [Para mais detalhes nessa questão, veja minha
resposta para a resenha crítica de William Hasker citada adiante.
Pendente uma revisão não preconceituosa da evidência que espero
encorajar, momentaneamente aceito o exemplo do terapsida como
210 DARWIN na banco dos réus

rara exceção ao consistente padrão de não-confirmação fóssil das


expectativas darwinistas. Meu ponto foi que qualquer único exem­
plo desse tipo não pode ser conclusivo, e mesmo essa “jóia da co­
roa” da evidência fóssil darwinista ilustra pontos num “arbusto”
putativo em vez de uma linha ancestral específica levando até um
primeiro mamífero identificado. Que um exército de pesquisado­
res dedicados em encontrar a confirmação de um paradigma tem
achado alguma evidência aparentemente confirmadora aqui e acolá
não é surpreendente. Para avaliar o paradigma mesmo, temos de
considerar também as montanhas de evidência negativa - como a
ausência de quaisquer fósseis de ancestrais pré-cambrianos para os
filos de animais. Também temos de considerar se a descrição aceita
da seqüência do terapsida tem sido influenciada pelas preconcep-
ções darwinistas.]
11. Johnson escreve que “a possibilidade de que tal entidade complexa
[uma macromolécula DNA ou RNA] pudesse se juntar sozinha por
acaso é fantasticamente improvável”, mas “nenhum cientista tem
usado esse argumento por 20 anos, agora que entendemos muito
mais sobre as propriedades de auto-organização das moléculas e de
outros sistemas físicos”. [Minha declaração apareceu no começo de
uma discussão dos importantes cenários da origem da vida, que ten­
tam dominar o problema das grandes probabilidades estabelecendo
um ponto inicial muito mais simples. A noção de que o problema
pode ser resolvido pelo uso frívolo de termos como “propriedades
auto-organizadoras” é desejar que isso seja real]
12. Johnson “ataca” declarações antiquadas de George Gaylord Simp-
son e Emst Mayr. [Essas citações (pp. 83, 94) foram colocadas em
contexto histórico para demonstrar como prestigiados darwinistas
lidaram com ou anteciparam as questões da época.]
13. Johnson não credita H. F. Osbom pela correção de seu próprio erro
sobre o “Homem de Nebraska”, Hesperopithecus haroldcookii.
[Osbom ridicularizou repetidamente a Bryan pela recusa em aceitar
o ancestral humano forjado como obviamente genuíno. Meu ponto
foi que hábeis e cruéis defensores como Darrow e Mencken pode­
riam ter feito Osbom parecer um tolo se tivessem desejado fazê-lo,
o que não é inconsistente com o ponto de Gould de que críticos
mais simpáticos poderiam ter achado algumas coisas para serem
ditas em sua defesa (ou de Bryan). Por outro lado, os críticos do
comportamento de Osbom, após o fiasco ter vindo à luz, poderiam
Natas de pesquisa

ter escrito algo tão devastador quanto isso: “Osbom, que nunca foi
louvado por uma natureza gentil e tolerante, simplesmente ficou ca­
lado e nunca mais mencionou de novo o Hesperopiíhecus em seus
numerosos artigos posteriores sobre a ancestralidade humana. Ele
tinha desfrutado da glória, mas deixou [que seu colega] levasse a
culpa numa retratação franca publicada na revista Science”. Do en­
saio de Gould no livro Bully for Brontosaurus (1991), p. 442.]

Acho que isso cobre quase tudo. Espero que Gould retome para a discus­
são numa maneira mais digna de seus talentos, porque muitos leitores têm
observado que ele e eu na verdade concordamos a respeito de muita coisa. O
que nos divide são as mesmas questões metafísicas que tenho debatido com
Steven Weinberg e Michael Ruse: a “ciência”, por definição, é simplesmente
a filosofia naturalista aplicada? Se for, o naturalismo é essencialmente a mes­
ma coisa como a “razão”, ou pode o naturalismo mesmo ser questionado em
bases racionais? Surge muito assunto nas respostas para aquelas questões, e
por isso deve ser possível discutir esse assunto sem obscurantismo.
DavidHull foi honesto sobre a relação próxima entre o darwinismo e o
naturalismo metafísico. Sua resenha crítica, “The God of the Galapagos”,
apareceu na revista Nature, vol. 352, pp. 485,486 (8 de agosto de 1991).
Hull, um professor de filosofia que tem escrito extensamente sobre biolo­
gia e darwinismo, identifica o naturalismo com a razão do mesmo modo
que o artigo de Arthur Shapiro nos NCSE Reports (veja abaixo). Hull
destaca razoavelmente bem:

Johnson considera dogmático e obtuso o compromisso dos cientistas


a explicações totalmente naturalistas, mas os cientistas não têm esco­
lha. Enquanto eles permitirem referência a Deus ou forças milagrosas
para explicar a primeira origem da vida ou a evolução da espécie hu­
mana, eles não têm nenhuma maneira de limitar esse tipo de explica­
ção. Por que a Terra tem um campo magnético, por que os organismos
usam somente aminoácidos laevo, por que as cadernetas de poupança
estão em dificuldades? É muito fácil responder que esses fenômenos
são todos partes de um grande plano de Deus, mas na ausência de
algum conhecimento parcialmente independente de Deus e de suas
intenções, tais explicações não são menos vácuas do que as paródias
costumeiras do princípio da sobrevivência do mais apto.

É claro que isso é uma caricatura exagerada da racionalidade teísta. Os


teístas não desistem nem referem tudo ao grande plano de Deus, mas reco­
nhecem que as tentativas de explicar toda a realidade em termos totalmente
naturalistas podem deixar de fora algo de importância. Assim, rejeitam a
212 DARWIN riQ banco das réus

rotina de non sequiturs do cientismo que permeia a literatura darwinista:


porque a ciência não pode estudar um propósito cósmico, o cosmos deve
não ter propósito; porque a ciência não pode fazer juízos de valor, os va­
lores devem ser puramente subjetivos; porque a ciência não pode estudar
Deus, somente as forças materiais sem propósitos podem ser envolvidas na
criação biológica; e assim por diante.
Michael Ruse, Arthur Shapiro e o Simpósio de Dallas. Uma fita da
palestra de Michael Ruse citada no texto pode ser comprada da NCSE, R
O. Box 9477, Berkeley, CA 94709, Estados Unidos. Peça pelo programa
“The New Antievolutionism”, gravado no encontro anual da AAAS reali­
zado em 13 de fevereiro de 1993. O comentário de Arthur Shapiro, “Did
Michael Ruse Give Away the Store?” apareceu nos NCSE Reports, outono
de 1993, pp. 20,21. Shapiro é um professor de zoologia na Universidade
da Califórnia, em Davis. O programa “The New Anti-evolutionism” foi
relatado no Times Higher Education Supplement, de 9 de abril de 1993,
no artigo “The Ascent of M an’s Ignorance” por Michael Ince. Esse ex­
tenso artigo foi muito completo na sua cobertura do programa, com uma
exceção: omitiu qualquer menção de Michael Ruse, embora Ruse fosse o
palestrante mais preeminente. Acho uma aprazível ironia nessa omissão.
Como Thomas Kuhn nos ensinou, um paradigma duvidoso vive através
do seu poder de tornar as anomalias invisíveis.
Arthur Shapiro regularmente participa em discussões com os sociais
construtivistas, pós-modernistas, teóricas feministas e similares no seu
campus, e assim (como Ruse) ele está bem a par que as tentativas para de­
finir termos como “ciência” de modo a excluir os oponentes ideológicos
de alguém são freqüentemente carregadas com suposições filosóficas con­
troversas e retórica autojustificante. Por outro lado, deseja corretamente
evitar o relativismo extremo e o oportunismo político que caracteriza a
ideologia esquerdista desses dias, bem como o antiintelectualismo e a
rigidez associados com o fundamentalismo religioso. Há um modo de
fazer isso, mas isso exige dos cientistas o abandono de sua mentalidade
de casamata e que se tornem dispostos a se envolver no diálogo com as
pessoas que não aceitam o naturalismo científico como sendo o único ca­
minho válido para entender a realidade. Para ilustrar o problema: Shapiro
tentou me convidar para ir ao campus de Davis falar com os biólogos, mas
o convite foi vetado pelos seus colegas de departamento, que temeram
emprestar respeitabilidade ao “criacionismo”. O ponto de vista é muito
difundido entre os professores de ciência e administradores que enquanto
a liberdade de investigação e expressão seja, em geral, uma boa coisa,
a discussão crítica das raízes filosóficas do darwinismo é “religião” que
deve ser rigorosamente excluída das universidades seculares.
Notas de pesquisa 213

O simpósio na Southern Methodist University em Dallas foi em parti­


cular importante nesse respeito, porque os naturalistas científicos que par­
ticiparam ficaram satisfatoriamente surpresos com a qualidade acadêmica e
a cortesia que caracterizaram a ocasião. Os artigos do simpósio de Dallas,
até mesmo contribuições de Ruse, Shapiro e minhas, foram publicados em
1994 pela Foundation for Thought and Ethics. Eis aqui um relato da confe­
rência nos NCSE Reports pelo participante darwinista K. John Morrow da
Universidade de Tecnologia do Texas: “Meus sentimentos positivos sobre
o simpósio suplantaram meus receios. A operação foi bem administrada, os
anfitriões impecavelmente corteses, as discussões conduzidas num plano
intelectual. Os participantes pareceram ser genuinamente comprometidos
em estabelecer seus pontos de vista na base do discurso lógico”.
Convido os naturalistas científicos a participarem de outras conferên­
cias em que essas questões são levantadas, para verem por si mesmos se
é possível discutir a metafísica do naturalismo científico num alto nível
intelectual semelhante.
William Provine e a revista First Things. O artigo de revista especia­
lizada à qual Provine forneceu sua “réplica sarcástica” é o meu “Evolu­
tion as Dogma: The Establishment of Naturalism”, na revista First Things,
de outubro de 1990. Réplicas por Provine, Gareth Nelson, Irving Kristol,
Thomas Jukes e Matthew Burke apareceram na edição de novembro. Todo
o simpósio foi republicado em livrete pela Foundation for Thought and
Ethics; cópias podem ser encomendadas à Haughton Publishing Company,
P. O. Box 180218, Dallas, TX 75218-0218 (tel. 214-288-7511).
Aqui parece ser um bom lugar para inserir um anúncio para a First Thin­
gs, uma extraordinária revista especializada em que tenho a honra de ser
um freqüente articulista contribuinte. Sou muito agradecido aos editores
Richard John Neuhaus, James Neuchterlein e Matthew Burke pelo apoio
deles. Para assinar a revista por um ano (dez edições) entre em contato com
a First Things, Dept. FT, P. O. Box 3000, Denville, NJ 07834-9847.
Resenhas críticas por teístas evolucionistas. No meu julgamento, o me­
lhor de todos é o de William Hasker, “Mr. Johnson for the Prosecution”,
na revista especializada Christian Scholar’s Review, vol. 22, pp. 177-186
(dezembro de 1992). Minha réplica a essa resenha e a resposta de Hasker
estão na próxima edição do mesmo volume, nas páginas 297-308. Outra re­
senha que lida com as questões bem compreensíveis é a de Nancey Murphy,
“Phillip Johnson on Trial: A Critique of His Critique of Darwin” na revista
especializada Perspectives on Science and Christian Faith, vol. 45, pp. 26-
36 (março de 1993). Para um animado debate entre mim e Howard Van Till,
veja “God and Evolution: An Exchange”, na edição de junho-julho de 1993
da revista especializada First Things. Van Till ficou ofendido pela minha
214 DARWIN na banca das réus /v.
caracterização da posição acomodatícia como “naturalismo teísta” no meu
artigo “Creator or Blind Watchmaker?” na edição de janeiro de 1993 da First
Things. Não me arrependo. Para uma crítica mais limitada e ambivalente,
veja a resenha do livro de Owen Gingerich na revista especializada Perspec­
tives on Science and Christian Faith, vol. 44, pp. 140-142 (março de 1993).
As citações de Richard Dawkins sobre o relojoeiro cego são de seu ca­
pítulo de introdução do seu livro com o mesmo nome. Introduzi o concei­
to da “tese do relojoeiro cego” numa palestra pública na Universidade da
Califórnia em Irvine no começo de 1992. O videoteipe dessa palestra, com
animado período de perguntas, está disponível sob o título de Darwinism on
Trial do catálogo de Reasons to Believe [Razões para acreditar], P. O. Box
5978, Pasadena, Califórnia 91117, Estados Unidos. Os videoteipes também
estão disponíveis do Access Research Network, P. O. Box 38069, Colorado
Springs, CO 80937-8069. Escreva para informações detalhadas.
Duas outras publicações de 1993 merecem menção aqui. Um simpósio
intitulado Man and Creation: Perspectives on Science and Theology,
editado por Michael Bauman, foi publicado pela Hillsdale College Press.
Contém artigos meus e um número de outras pessoas preeminentemente
envolvidas com essas questões, incluindo diversos de meus críticos teís­
tas evolucionistas. Essa coletânea em brochura é adequada para o uso em
sala de aula do ensino superior e pode ser adquirida do Hillsdale College
Press, Hillsdale, MI 49242, Estados Unidos. A segunda, a American Scien-
tific Afíiliation publicou nova edição do seu livrete Teaching Science in
a Climate o f Controversy, que foi discutido no Capítulo 10 deste livro. A
nova edição contém alguns materiais de ensino excelentes para o desenvol­
vimento de capacidades do pensamento crítico em alunos de ciência. Pode
ser adquirida do Committee for Integrity in Science Education, American
Scientific Afíiliation, P. O. Box 688, Ipswich, MA 01938-0668.
O navio que está afundando. Peço a indulgência dos leitores pela me­
táfora, talvez exageradamente dramática, do parágrafo final. A um escritor
deve se permitir que se divirta um pouco. A referência a mecanismo de
controle de danos de “alta tecnologia” é para escola representada pelo livro
de Stuart Kauffman, Origins o f Order (1993). Suponho que era isso que
Gould tinha em mente quando se referiu às “propriedades auto-organiza­
doras de moléculas e outros sistemas físicos”. Se os “donos do poder” da
ciência quiserem realmente pular nesse barco salva-vidas, ficarei feliz em
participar na discussão resultante, mas acho que após aferirem as probabili­
dades de êxito, eles escolherão permanecer no barco que afunda e continuar
tentando tapar os buracos.
Indice
Som ente as m en çõ es substantivas inclusas, (n) sign ifica nota de rodapé.

Archaeopíeryx, 85-86, 155, 181, 190-191


A argumento, regras de, 19-20; entendendo,
Agassiz, Louis, 57, 57(n), 85,181 24-26
Alvarez, Louis e Walter, 184 Arkansas, estatuto do tratamento igual, 117,
American Association for the Advancement 162-163, 171,201
o f Science (AAAS), 162 arqueobactérias, 199; descrição, 99; em
American Scientific Affiliation (ASA), 131; relação à panespermia, 113
livrete para professores, 132-133 artefato, teoria do, 63-64, 182
aminoácidos, em proteínas, 96; nas asas, evolução de, 41, 47, 51 (n), 62, 70, 74,
pesquisas sobre as origens, 108, 146, 74(n), 8 5 ,9 1 ,9 5 ,9 9 , 107, 121
199,211 Asimov, Isaac, 75(n), 173
analogias, 72 atmosfera “redutora”, 109
ancestrais comuns, na evolução darwinista, australopitecíneos, 87(n), 89-90,192-193
2 8 ,7 1 ,1 4 7 , 152 ,1 5 4 ,1 5 8 , 188, 197; aves, evolução com base em répteis, 2 8 ,4 1 ,
problemas em encontrar, 73, 76-78, 93- 46-47, 58, 70
94, 95-96, 102, 103-105 Ayala, Francisco, 1 8 4 ,1 9 7 ,1 9 8
anfíbios, desenvolvimento com base
em peixes, 81-83, 208-209; grupos B
ancestrais, 189-190 Bacon, Francis, 149
anomalias, 124; como esquisitices na Bactérias, 98; e a resistência a antibióticos,
evolução, 37, 39,41; no paradigma, 37, 38; antigas, 62; em relação à
124-125, 189,212 panespermia, 113; mutações, 172
antropologia física, 87-89 baleias, evolução de, 62, 72-73
antropólogos, 88, como eles consideram os Basilosaurus, 91, 195
fósseis, 88-89, 102-103 Bateson, William, 183
216 DARWIN na banco dos réus

Bennetta, William, 132 a evolução, 21-22, 135; atitudes dos


Bethell, Tom, 172 darwinistas para com o(s), 5 3 ,6 5 ,75(n),
bioquímica, 96,100 83-84, 88,112,173,177,185-186; e a
Bird, Wendell R„ 201 ASA, 133; e a educação, 143,147
Bowden, Malcolm, 191 criação, 20-22,25-26,43-44, 54 ,7 4 ,1 1 9 -
Brady, R. H„ 175 1 2 0 ,131(n), 142,158-160,161-162,
Brennan, juiz William, 18-19 177, 181-182, 199, 205; contrastada
Brown, Michael H., 194 com a evolução, 15-22,119; Darwin e a
Bryan, William Jennings, 17, 66-67 72, 177, veja também criação especial
Burgess, folhelho de, 63(n), 63-64 criação especial, 18, 4 4 ,4 8 , 68-69, 119-
120, 197
c Criador, 15-16, 2 5-26,28, 51,119, 122,
130-131, 132(n), 137, 159; como
Caims-Smith, A. G., 35,112, 114-115,
o designer, 120; como a Primeira
115(n), 199-200
Causa, 120(n); como o Demiurgo,
Califórnia, Declaração Política e Diretrizes
120; exclusão do darwinismo, 93, 107,
da Ciência, 143-145, 147, 175, 205
153, 159; conforme considerado pelos
Cambriana, Explosão, 62-64, 63(n), 132,
cientistas materialistas, 53, 76, 83-84,
143,182
155; “erros” pelo, 42, 46(n), 77
Cann, Rebecca, 194
Crick, Francis, e a panespermia, 113-114,
casos jurídicos, 15-20,117-118,170-172,201
199
catastrofismo, 54, 65
cruzamento seletivo, 151,177
celacanto, 82, 190
Cuvier, 54, 180
Chatterjee, Sankar, 86(n)
ciência, definição da, 117-121, 149,156;
e religião definidas e contrastadas, 19, D
2 6 ,3 9 , 129-131; e a opinião sobre a Darrow, Clarence, 17, 6 6 ,1 7 2 , 210
religião, 23-24 Darwin, Charles, 20-21,25, 32-33, 3 5 ,4 1 -
ciência da criação, cientistas da criação, 42, 46-47, 54-55, 64, 66, 68-69, 73-74,
25, 74-75, 131, 132(n), 165, 192, 195, 76-79, 103,115,116, 134, 137-141,
201; definição de, 16(n); nas escolas, 142-143,154, 175,180-181,183, 196,
22-23, 171; tratamento igual com a 205; sua contribuição para a teoria da
ciência da evolução, 15,106,117-119; evolução, 18, 21-24, 29, 43, 151-152;
comparada com a ciência, 118-119, seu materialismo, 44, 53,177-179; e
191; conforme caracterizada pela o registro fóssil, 45, 5 5 ,5 7 -5 8 ,6 2 , 65,
National Academy o f Sciences, 20-23 66-67, 87-88, 92, 94, 155, 184-187; e
citocromo c, 9 8 ,1 0 0 ,1 4 6 ,146(n), 197,205 a classificação, 71-73, 97, 187-188; e a
cladismo, 138, 138(n), 142 origem da vida, 107; e a religião, 130,
classificação, 87(n), 94, 103; biológica, 177-178
70-73, 186-190; molecular, 97; pela darwinismo, darwinistas, definições de, 16,
cladística, 138 16(n), 27-29, 73-74
cobras, evolução das, 51, 52, 73 Dawkins, Richard, 25, 48-49, 68-69, 95,
compatibilismo, 131 1 6 5 -1 6 8 ,1 7 2 ,1 7 5 ,1 7 9 ,1 8 4 ,2 1 3 ;
Cooke, Harold, 17 e o ateísmo, 20-21; desprezo pelos
Comer, E., 196 incrédulos da evolução, 20-21; e o
criacionismo, criacionistas, 74,121, olho, 45-46; e macromutações, 51-52,
138,142,159,162-163,196,205; 189-190; e o registro fóssil, 62, 94; e a
diferenciado da ciência da criação, origem da vida, 110, 111
16(n), 119; conforme considerados pela de Beer, Sir Gavin, 143, 188
academia, 19,171, comparados com Demiurgo, 122-123, 122(n), 202
índice 217

Denton, Michael, 46, 188, 196-197, 199 evolucionistas, 131,165-169,212


descendência do homem, 41(n), 87 extinção, extinções, 146, 176, 184; a
descendência com modificação, 28, 70, teoria de Darwin de, 55, 57, 94, 177;
72-74, 77, 104, 152,189 grande(s), 63, 65-68, 94,185-187
design inteligente, 2 9 ,46(n), 123, 142(n), extinção K-T, limite dos períodos K-T, 65,
205 184
Dewar, Douglas, 181-182,195
Dewey, John, 133 F
diferencial de sobrevivência, 24, 29, 36,
falseabilidade, o critério de Popper de,
101,175
125,150-151, 202; como característica
distância molecular, 98-99
da ciência, 125
Dobzhansky, Theodosius, 2 5 ,9 0 ,1 3 3 -1 3 4 ,
falsificação, protegendo a teoria da, 74,
175, 187, 192, 202-203, 207
101,149,150; Einstein e a, 149;
Dose, Klaus, 112,200
darwinismo e a, 156
fato e teoria em evolução, 23-25,42, 46,
E 65-78, 136-139, 141, 143-145, 151,
Edey, Maitland, 1 3 5 ,1 7 2 ,1 9 2 ,1 9 9 153-154,16 0 -1 6 1 ,1 6 7 ,1 7 2 ,1 7 5 -1 7 6 ,
Ediacara, fauna de, 63(n), 182 181, 182-183,192,198
educação, cap. 11 (pp. 136-147), 162-166 fato-valor, distinção de, 130
Einstein, Albert, 73, 149 fenótipo, 95, 95(n), 100-102, 154, 188
Eldredge, Niles, 59-61, 67-68, 123, 132, filosofia da ciência, cap. 9 (pp. 117-127),
182-184 140,210
empiricismo, 121-122, 158 Fix, William R., 191
equilíbrio pontuado, 5 9 -6 1,66-69,123, Flew, Anthony, 1 4 2 ,142(n), 204
143,154,183-186 fundamentalistas, 16, 106, 131, 155, 194,
especiação, 31, 50, 60, 61, 62, 66, 75, 183, 179,202
192 Futuyma, Douglas, 25, 29, 36, 37, 4 1 ,4 2 ,
espécies, definição de, 30-31, 60(n); 61, 77, 78, 79, 84, 132,154, 173,174,
limitações, 30 181, 187, 189,190, 202, 205
essencialismo, 71
estase, 35, 59-61, 65-68, 94-95,100, 123, G
126,1 5 4 ,1 8 4 gene nu, 111, 199
eucariontes, eucariotos, 63, 99 Gingerich, Owen, 166-167,214
Eva mitocondrial, 90 ,1 9 4 Gingerich, Philip, 195
evidência molecular, cap. 7 (pp. 93-105), Gish, Duane, 118-119,190
91-92, 197-198; evolução mosaica, 62, Godfrey, Laurie, 183, 186,196
154, 180 Goldschmidt, Richard, 47-53, 68-69, 179,
evolução, definições de, 20-22,24, 64, 180,183, 188
76,119,142,153 ; contrastada com a Gould, Stephen Jay, 22-25, 22(n), 23(n),
criação, 15-16; e a verdade, 126,144, 28(n), 45, 47-49, 50, 58-61, 63(n),
159; nas escolas, 17-19,22-23, 58, 66, 63-69, 66(n), 73-81, 74(n), 83, 84, 87,
131-132,143,173,200; nos livros- 87(n), 90, 106, 122, 123, 128-130, 132,
texto, 17,22, 58,66,131-132,144-147, 1 3 4 ,1 3 9 ,1 5 9 -1 6 2 ,160(n), 171,172,
154,175-176,185; e aeducação, 136- 175-176, 178-184, 183(n), 187,189,
148,161-162; evolução neutra, teoria 1 9 1 ,2 0 1 ,2 0 2 , 204, 206-211,214
neutra, 95,100-102,104,146,197-199; gradualismo, 4 4 ,4 8 , 5 1 ,5 3 , 59, 60, 60(n),
evolução pré-biológica, cap. 8 (pp. 106- 69, 74(n), 138(n), 138-139,145,178;
116), 199-200; evolução química, 107- essencial para o darwinismo, 44, 54;
108,110-111; evolução teísta, teístas problemas com o, 59-61, 74(n), 178
218 DARWIN na banca das rÉus
jK
Grassé, Pierre-Paul, 30-31, 3 8 ,4 7 , 53,
173-174, 180, 189, 190
L
Greene, John C., 187,203 legislação do tratamento igual, 171
Le Gros Clark, Wilfred, 89,192
Leakey, Louis, 87(n), 204
H Leakey, Richard, 173, 191, 194
Haeckel, Ernst, 39(n), 78, 7 9 ,1 0 7 ,1 8 7 lei constitucional, 17, 18,170-172
Haldane, J. B. S , 32, 33, 108 lei natural, 118, 119, 161
Halstead, L. B„ 1 3 8 ,139(n), 204 leis, 17-18,118-120, 201
Hasker, William, 166, 209, 213 Lewin, Roger, 88, 103(n), 172, 191, 193,
heterozigose, 101, 198 198
Himmelfarb, Gertrude, 177,178, 181 Lewontin, Richard, 139(n)
hipótese científica, a seleção natural como, Lineu, 98
36-39, 61, 73, 90,155 lógica, argumentos lógicos, 20, 2 4 ,2 7 , 31,
história da criação, dos naturalistas 35, 40, 49, 54, 55, 72, 73, 78, 90, 94,
científicos, 90, 122, 127, 136,155, 9 9 ,1 0 2 ,1 0 4 ,1 2 5 ,132(n), 137,139,
159, 167 141, 150, 175, 197, 199, 202
hominídeos, 80, 87(n), 89, 90, 91,193-194 Louisiana, lei do tratamento igual, 15, 16,
homologias, 72, 79, 85, 9 3 ,1 9 8 18,106,170-171
Hopson, James A., 190 Lyell, Charles, 2 7 ,4 4 , 54, 178, 180, 181
Hoyle, Fred, 109, 200
Hull, David, 161,211
Humanismo, Manifesto Humanista, 133,
M
136 MacBeth, Norman, 32,174
Hume, David, 149 macroevolução, 48, 50, 58, 61, 75, 85, 110,
Huxley, Julian, 25, 3 8 ,4 2 , 1 3 3 ,1 5 3 ,1 7 7 , 132(n), 143,145, 155, 1 8 4 ,1 9 6 ,2 0 9
203, 205 macromutações, 43, 47, 48, 50, 51(n), 51,
Huxley, Thomas H„ 25, 39, 44, 55, 67, 69, 52, 53, 60, 95
74(n), 178,183 Mann, Alan, 194
mariposa de Manchester, Biston betularia,
39, 75,175
marxismo, 148-149
indução como base para a ciência, 149-150 Mayr, Emst, 32,46,49, 5 0 ,5 1 ,5 3 ,87(n), 96,
intermediários, veja também transicionais 138,173,176,179,184,197,209,210
intermediários mecanismo, 62, 119, 194, da evolução,
2 3 ,4 1 ,4 3 ,5 1 ,7 3 -7 4 , 95, 121,140-
J 141, 151, 157-160, 167, 207; nâo-
darwinista, 22, 96; problemas com, 64,
Johanson, Donald, 135, 162-163,166,
7 3 ,8 6 , 104-105,187-188
207-211
Medawar, Sir Peter, 49, 52
Joyce, Gerald, 112-113,200
metafísica, 21, 71, 93, 140, 150-151, 161-
julgamentos de Tennessee e de Scopes,
164, 167, 169, 174,211,213
23-24, 172
microevolução, 48,121; como prova do “fato
da evolução”, 74-75,123,153,183
K micromutações, 48, 50, 52, 75, 95, 99
Kettlewell, 37, 39, 175 Miller, Stanley, 67, 108, 200
Kimura, Motoo, 100-101, 197-198 Miller-Urey, experiência de, 108-109, 200
Kristol, lrving, 22-24, 129-130,134, 172, monstro esperançoso, 47, 50, 143
187,202,213 morcegos, evolução dos, 46-47, 62, 70-71,
Kuhn, Thomas, 123 -1 2 6 ,1 8 9 ,2 0 1 ,2 1 2 7 3 ,8 5 , 100
índice
___________________________

moscas-das-frutas, experiências com, 59, 63(n), 6 5 ,6 7 , 8 6 ,9 1 ,1 4 5 ,1 5 4 ,


30-31, 30(n), 74; variações, 74; e a 1 8 1 ,185,190; predisposição a favor
heterozigose, 198 do darwinismo, 59, 65, 68, 83^ 182;
mudanças aleatórias, 28(n), 29, 33, 52 em oposição ao darwinismo, 56, 74(n),
Murphy, Nancey, 166, 213 82, 196
Museu Americano de História Natural, 17, panespermia dirigida, 113,199
2 1 ,8 1 ,8 8 panselecionismo, 95,197
Museu Britânico de História Natural, 21,33, paradigmas científicos, 123-127
87; controvérsia, 137,143,188,204 Patterson, Colin, 21, 21(n), 22, 23, 34, 35,
mutações, cap. 3 (pp. 43-53), 22, 28(n), 172,174
28-29, 40 ,4 3 , 47-56, 60-61,75, 100- Piltdown, Homem de, 17, 88, 89, 134, 191,
101,103(n), 104, 107, 147,178, 180, 193,204
198; definição de, 22-23; limitações plantas, cruzamento de, 29-30,175;
das, 2 8 ,4 7 ,1 9 8 evolução das, 29, 51(n), 98, 111,153,
1 5 8 ,1 7 4 ,1 9 6
N pleiotropia, 40-41
Popper, Karl, 33, 125, 140, 148-151, 153-
National Academy o f Sciences, 24(n), 25;
1 5 6 ,1 7 4 ,2 0 2 , 205
e a Suprema Corte, 17, 18, 19, 39, 106,
positivismo lógico, 151
125, 170; e o panfleto sobre ciência e
Press, Frank, 116
criacionismo, 128, 131, 132, 202
pressuposições dos cientistas darwinistas,
National Center for Science Education
33, 98, 111-112, 147, 197-198; dos
(NCSE), 162,210-211
modelos matemáticos, 33 ,4 8 ; em
naturalismo, 120(n), 120, 126, 153, 155,
evidência molecular, 101-102; dos
156, 158-159, 160-161,164-165, 168,
naturalistas científicos, 122,162-163,
207, 211, 212, 213, 214; definição de,
165; e os paradigmas, 124-125
120(n)
princípio antrópico, 110
naturalismo científico, veja naturalismo
procariotos, 98-99, 104
Neandertal, Homem de, 87(n), 89
propósito, inteligente, 30-31,156,158; além
Nebraska, Homem de, 17, 89, 172, 210
das leis naturais, 1 5 ,16(n), 77,117,
Nelson, Gareth, 81, 141,188, 204, 213
123,178; em evolução, 22-116, 147; o
neodarwinistas, 27, 28(n), 3 1 ,4 7 , 50, 61,
darwinismo se opõe ao, 19,121, 124,
90,141 (n), 173,188
131,168,202,210; do autor, 24,26
Provine, William, 129-130,164-165, 203,
D 213
olho, evolução do, 39, 4 3 ,4 5 -4 7 ,46(n), pseudociência, cap. 12 (pp. 148-156), 131,
49, 51(n), 56, 74, 74(n), 76, 91, 99, 202
110, 121, 148, 193,201
Oparin, Alexander, 108
Origem das Espécies, 27, 28, 29, 33, 56,
R
raciocínio jurídico, regras do, 171
141 (n), 142, 151, 153, 177,179, 180,
Raup, David, 185-187
181, 187, 188(n), 188, 205
registro fóssil, cap. 4 (54-69), 18,44,
origem humana, 87-92
47, 54, 58, 60, 62, 68, 72, 74(n), 80,
Osbom, Henry Fairfield, 17, 172, 210-211
8 5 ,9 0 , 94, 9 9 ,1 0 2 ,1 2 1 ,1 3 8 , 143,
Overton, juiz William, 118, 119, 171, 201
1 5 2 ,1 5 5 ,1 5 9 ,1 8 0 , 189, 190, 196;
problemas para o darwinismo, 44, 46,
P 74(n), 90, 95, 120, 1 2 6 ,1 4 2 ,1 8 5 , 197;
Pageis, Heinz, 122, 123, 202 argumentos dos darwinistas lidando
paleontólogos, paleontologia, 34, 55, 57, co m o , 7 2 -7 3 ,9 0 ,1 3 8 , 155, 164, 177
ZZD DARWIN na banca das réus

relações, biologias e evolutivas, 17, 56, 17-18, 29, 106, 124, 172-174, 201;
70, 73, 90, 93, 96, 103, 103(n), 104, Tennessee, 17
138(n), 145,1 5 4 ,1 5 7
religião, cap. 10 (pp. 125-134), 148, 153, T
166,169
tautologia, 175; seleção natural como,
relógio molecular, 90, 100, 102,103,
31-34, 40, 61, 66, 72,102; evolução
103(n), 146,1 5 5 ,1 9 9
como, 72, a teoria de Darwin como,
répteis tipo mamífero, 83, 91, 189, 190
125
rhipidistians, 82, 189
Teilhard de Chardin, Pierre, 134,191, 203
Ridley, Mark, 75, 1 7 4 ,1 8 7 ,1 9 0 Tennessee e o julgamento de Scopes, 16-
RNA, sequências de RNA, 9 8,109,200,210 17,172
Ruse, Michael, 118-119, 119(n), 162-165, tentilhões, de Darwin, 31; variações nos,
163(n), 20 1 ,2 0 4 ,2 1 0 ,2 1 1 36
terapsidas, 83-85,155, 190, 209
s transicionais, transicionais intermediários,
Sagan, Carl, 110, 166,199 44, 55-59, 64, 67, 71, 73, 81, 86, 90,
saltos, 4 3 ,44(n), 47, 53, 55, 90, 95, 183 93-104, 143, 186
Sarich, Vincent, 102,132
S caliaju iz Antonin, 18,19, 106, 106(n), u
107,171 Ulam, D. S., 49
Scherer, Siegfried, 199 uniformitarianismo, 75, 190; veja também
Schindewolf, Otto, 51, 51(n), 68, 183, 187, gradualismo
208-209 Urey, Harold, 108-109, 200
Schützenberger, Marcel-Paul, 49
Schwabe, Christian, 198 V
seleção, artificial, 29-31, 38, 75, 175;
Van Till, Howard, 166-167, 213
estabilizadora, 61, 95,154; natural,
vertebrados, seqüência de, cap. 6 (pp. 81-
cap. 2 (pp. 27-42); como base do 92), 190
darwinismo, 17(n), 2 0 ,4 4 ,4 9 , 51,
vida, definição de, 114,115
66(n), 95-97, 104, 115, 142, 151-153,
vida, origem da, cap. 8 (pp. 106-116), 16,
174,201; teoria da, 97-100; evidência 16(n), 2 2 ,2 4 ,2 6 , 28, 35, 36, 4 1 ,4 7 ,
a favor da, 36-38; evidência contra a, 49, 62, 66(n), 120, 126,132, 155,157,
37; argumentos justificadores, 39-42; 166, 176, 199,200
como uma necessidade filosófica, 39;
limitações da, 62, 73-75, 121,138-
1 4 8 ,141(n), 184,198; em relação ao
w
relógio molecular, 144-145 Waddington, C. D , 3 3 ,4 9 , 53,175
Shapiro, Arthur, 163(n), 163-164,211-213 Walcott, Charles, 63
Shapiro, Robert, 107,199-200 Weinberg, Steven 1 5 7 ,1 5 8 ,1 6 2 ,1 6 4 ,2 0 6 ,
Simpson, George Gaylord, 25, 32, 33, 58, 211
68, 85, 119, 120, 120(n), 130, 138, Welenhoefer, Peter, 85, 190
183, 187, 202,2 1 0 Wilson, Allan, 102-103,103(n), 194,197-198
W irth, K evin, 170
sistemas auto-organizantes, 200, seleção
sexual, 41, 141(n), 176, 177, 208 Wistar Institute, debate entre matemáticos
e biólogos, 49, 179
sopa primordial, 108-111
Woese, Cari, 98-99
Stahl, Barbara, 82,189-190
Stanley, Steven, 59, 60, 61, 62, 74(n), 90,
108, 192 z
Suprema Corte dos Estados Unidos, Zuckerman, Solly, 89-90, 192-193
| 0 polêmico livro que mexeu |
com os fundamentos científicos
Por quê? Ele dem onstra que a teoria da evolução não tem sua
base em fatos, mas na fé - fé no naturalism o filosófico. Phillip Johnson
argum enta corajosam ente que sim plesm ente não há um vasto corpo
de dados que dêem suporte à teoria.
Com o clima intrigante de um mistério e detalhes que nos
prendem com o ao assistirmos a um julgam ento, Johnson conduz o
leitor através das evidências com a perícia de um advogado, a qual ele
adquiriu com o professor de Direito em Berkeley, especializando-se na
lógica dos argum entos.

"Qual a razão pela qual uma editora cristã lança no mercado a tradução
de uma obra contra o evolucionismo escrita em 1993, portanto com 15
anos de atraso? A principal razão é a sua pujança, eficácia e relevância.
Apesar dos 15 anos de idade, o livro de Phillip Johnson continua
atualíssimo. Pouca coisa surgiu nesse período que inovou a
apologética antievolucionista além do que Johnson tem feito."
Augustus Nicodemus Lopes
da Apresentação

Phillip E. Johnson é graduado em Harvard e na Universidade de


Chicago. Ele foi oficial de direito do presidente do Supremo Tribunal
Earl Warren e ensinou por mais de trinta anos na Universidade da
Califórnia, Berkeley, onde é professor emérito de Direito.

Apologética

GDITORfi CUITURR CRISTÃ


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