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AULA TEÓRICO-PRÁTICA – 10/02/2016

PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS

Os pressupostos processuais são as condições necessárias para o Tribunal conhecer o mérito da causa (apreciar e

decidir sobre o pedido formulado).

 Condições da ação: requisitos de direito substantivo que integram a previsão da norma cuja estatuição

de pretende alcançar. Os pressupostos são requisitos que dizem respeito à relação jurídica processual.

 Questões prejudiciais: questões de cuja resolução está dependente a decisão da ação, não sendo

questões que impedem o juiz de se pronunciar sobre a (im)procedência da ação. Ao contrário dos

pressupostos processuais, que podem determinar a absolvição e extinção da instancia, as questões

prejudiciais podem determinar a suspensão do processo.

Assim, não podem existir vícios processuais, devendo preenchidos os requisitos formais referentes ao Tribunal, às

partes e ao objeto.

PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS RELATIVOS ÀS PARTES

1. Personalidade Judiciária (art. 11º, CPC)

Suscetibilidade de ser parte de um litígio (demandar e ser demandado). Em sentido formal, parte é quem propõe

ou contra quem é proposta uma determinada ação; em sentido material, parte é o verdadeiro sujeito da relação

material controvertida. O art. 11º, CPC adota o conceito em sentido formal, pois parte é quem demanda e é

demandado (e não quem pode demandar ou ser demandado).

À luz do princípio da equiparação (art. 11º, nº2, CPC), quem tem personalidade jurídica tem personalidade judiciária.

Assim, quem goza da suscetibilidade de ser sujeito de direitos e obrigações tem, por inerência, personalidade

judiciária.

Ex.: (A) comprou um carro ao Stand da Curva em dezembro de 2015. O preço do carro foi de 10 mil euros, tendo-

lhe sido referido, na altura, que o carro tinha 5 anos de antiguidade e 15 mil km. Numa inspeção de rotina, (A)

descobriu que o carro, em 2014, tinha feito uma revisão apresentando 80 mil Km. (A) quer anular o negócio com

base em erro (ação constitutiva extintiva). Tem personalidade judiciária?


Autor: (A); Réu: Stand da Curva. À luz do princípio da equiparação, quem tem personalidade judiciária, tem

personalidade jurídica (como pessoas físicas e jurídicas). O estabelecimento comercial não é o mesmo que a pessoa

que está “por trás” do estabelecimento. O sujeito que explora o estabelecimento comercial pode ser singular ou

plural e é contra este que vai ser proposta a ação (é este que tem personalidade judiciária).

Existem, porém, situações em que, não havendo personalidade jurídica, existe personalidade judiciária por atribuição

da lei. Trata-se da extensão da personalidade judiciária (arts. 12º e 13º, CPC), atribuída:

 A herança jacente e os patrimónios autónomos semelhantes cujo titular não estiver determinada: herança

jacente é a herança aberta, mas ainda não aceita ou declarada vaga a favor do Estado (art. 2046º, CC). A

indeterminação dos sujeitos resulta do desconhecimento dos herdeiros ou da falta de aceitação da herança.

Quanto às heranças indivisas (aceitas e não partilhadas), atendendo que a ratio da equiparação assenta na

indeterminação dos sujeitos, sendo conhecidos os herdeiros e tendo aceite a herança esta carece de

personalidade. Quanto ao patrimônio autônomo (conjunto de bens autonomizados afetos em regra a um

regime de especial responsabilidade pelas dívidas), é necessário, atenta a letra da lei, que o seu titular seja

indeterminado.

 Associações sem personalidade jurídica e as comissões especiais (arts. 195º e 199º, CC)

 Sociedades civis (art. 980º, CC): são incluídas sociedades civis que não tenham formam comercial, pois as

dotadas de forma comercial têm personalidade jurídica (e judiciária), atento ao art. 1º, nº 4 e 5, CSCom.

 Sociedades comerciais, até a data do registro definitivo do contrato pelo qual se constituem, nos termos

do art. 5º, CSCom

 O condomínio resultante da propriedade horizontal, relativamente às ações que se inserem no âmbito dos

poderes do administrador (arts. 1433º, nº 6 e 1437º, CC).

 Os navios, nos casos previstos em legislação especial (art. 28º, DL 352/86): para poder fazer valera

responsabilidade civil pelo incumprimento do contrato de transporte, nos casos em que não se conhece a

identidade do transportador ou conhecimento da carga tenha sido emitido por quem não tem essa

qualidade.

Quanto ao Estabelecimento Individual de Responsabilidade Limitada, LEBRE DE FREITAS entende que não tem

personalidade judiciária, pois não basta estar perante um patrimônio autônomo, sendo necessário que o seu titular

não se encontre determinado.


O art. 13º, CPC atribui personalidade judiciária ativa e passiva a entidades que fazem parte de pessoas coletivas, mas

que não são dotadas de personalidade jurídica, como sucursais, agencias, filiais, delegações ou representações.

Ex.: Nas festas da Srª. Da Agonia, a Comissão de Festas contratou (A) para lançar foguetes. (A), observando todas

as regras da arte, lançou um foguete que caiu em cima do automóvel de (B). (B) quer ser indenizado pelos danos

no valor de mil euros.

(B) terá de propor a ação contra a Comissão de Festas, que não tem personalidade jurídica, mas tem personalidade

judiciária.

Falta de personalidade judiciária: A falta de personalidade representa um vício muito grave e, em princípio,

insanável (exceção dilatória), pelo que o Tribunal indefere liminarmente da petição e absolve o réu da instância (art.

590º, nº 1, art. 577º, c; art. 57º, nº 2 e art. 278º, nº 1, c, CPC). Exceção (há sanação da personalidade judiciária):

 Quando a ação é proposta contra alguém que já morreu ou que já se extinguiu, caso em que o vício pode ser

sanado mediante a intervenção/habilitação dos sucessores. É caso da morte do demandado, ainda que antes

da propositura da ação (óbito certificado apos as diligências para citação) e no caso da ação proposta pelo

mandatário do autor tendo este falecido antes de instaurada a ação (art. 351º, CPC).

 Quando a ação é intentada contra uma filial, sucursal, agência ou delegação, sem poderes de representação

(art. 14º, CPC; não se verificam as situações do art. 13º), sendo sanado mediante intervenção da

Administração Principal. Falta de personalidade judiciaria das sucursais, agências, filiais, delegações ou

representações (art. 14º, CPC).

2.Capacidade Judiciária (art. 15º, CPC)

Suscetibilidade de alguém estar, por si, em juízo (capacidade de exercício de direitos e deveres processuais). O art.

15º, nº2, CPC estabelece que a capacidade judiciária tem por base e por medida a capacidade de exercício de direitos

(extensão da capacidade judiciária depende da extensão da capacidade jurídica de exercício).

Pessoas Singulares: nem todas as pessoas singulares necessitam ser representadas. Porém, há pessoas que

necessitam estar em juízo por intermédio dos seus representantes ou autorizados pelo curador: os menores podem

ser representados pelos progenitores que exercem o poder paternal ou, subsidiariamente, pelo tutor; os interditos

pelo tutor e os inabilitados podem ser assistidos pelo curador (art. 16º, CPC)
 Menores (art. 127º, CPC): o poder paternal compete a ambos os progenitores, sendo exigível o seu acordo

para a propositura da ação; e a citação de ambos quando o menor é réu. No caso de desacordo entre os

progenitores (art. 18º, CPC), se este disser respeito à conveniência de intentar a ação, qualquer dos pais pode

requerer ao tribunal a resolução a do conflito; se surgir no decurso da ação, o juiz tem a faculdade de optar

por: conferir a representação a apenas um dos progenitores; designar curador especial ou conferir

representação ao MP. O menor de 16 anos pode dispor, pessoal e livremente, de bens que tenham adquirido

por seu trabalho e assim pode estar por si mesmo em juiz, necessidade de representação, nas ações que

tenham como causa de pedir tal ato de disposição (art. 16º, nº 1, CPC).

Ex.: (A), 10 anos de idade, estava a jogar à bola com os amigos e, ao dar um chute com mais força, partiu um vidro

do carro de (B). Além disso, danificou uma peça de cristal que estava dentro do carro, no valor de 5 mil euros. (B)

falou com (C) e (D), pais de (A), que se recusam a pagar os danos.

O autor é (B) e o réu é (A). Apesar de menor, tem personalidade jurídica e, consequentemente, judiciária. Contudo,

(A) não tem capacidade judiciária, devendo ser representado em tribunal pelos seus pais. (A) terá que identificar os

seus representantes.

 Inabilitados (art. 153º, CC): podem intervir na ação pessoal e livremente nos atos de mera administração de

bens; devem ser citados quando tiverem a posição de réus (são citados o curador e o inabilitado - art. 19º,

CPC); nas ações que colocam em jogo a titularidade de bens, o inabilitado necessita do curador. A diferença

em relação aos demais incapazes justifica-se atendendo à circunstância de os inabilitados poderem agir

pessoalmente e não estarem sujeitos a regime de representação, mas ao da assistência.

Se os incapazes não tiverem representantes legais ou for necessária a nomeação de um curador especial, importa

ter em conta o regime do art. 17º, CPC. Se o incapaz não tiver representante geral, deve-se requerer a sua nomeação

ao tribunal competente; havendo urgência na nomeação, deve requerer-se um curador provisório. O tribunal

competente para a ação será igualmente competente para a nomeação do curador especial, quando: existirem

conflitos de interesses entre o incapaz e seu representante ou entre incapazes com o mesmo representante (Art.

1881º, nº2, CC); existir norma que especialmente determine; ocorra uma impossibilidade de fato de se proceder à

citação (art. 20º, CPC).

Se a incapacidade judiciária disser respeito ao autor, a nomeação deu curador provisório ou especial deve ser

promovida pelo Ministério Público, podendo ser requerida por qualquer parente sucessível. Dizendo respeito ao réu,

sobre o autor recai o ónus de requerer.


Quanto às situações de incapacidade de fato do reu rege o disposto no art. 20º, CPC. As pessoas impossibilitadas,

por motivo grave, de receber a citação são representadas na ação por um curador especial.

A representação dos incertos cabe ao Ministério Público, nos termos do art. 22º, CPC. Cabe igualmente ao Ministério

Público a representação dos incapazes e ausentes sempre que para acautelar os seus interesses seja necessário

intentar em juízo quaisquer ações, ainda que os mesmos tenham representantes (art. 23º, CPC), bem como a

representação dos ausentes e incapazes demandados em ações judiciais nas situações do art. 21º, CPC.

Pessoas Coletivas: quanto às entidades que gozam de personalidade judiciária, o legislador define o modo de

representação em juízo destas entidades (não se trata de suprimento). A representação em juízo das pessoas

coletivas e das sociedades cabe às pessoas designadas na lei, nos estatutos ou pacto social (art. 25º, CPC); a

representação das associações, fundações e sociedades civis é regida no disposto nos arts. 163º e 996º, CC; as

sociedades comerciais tem a disciplina jurídica relativa a cada tipo de sociedade.

O art. 26º, CPC rege a representação das entidades que carecem de personalidade jurídica (mas que tem

personalidade judiciária: patrimônios autônomos devem ser representados pelos seus administradores, as soe

cidades e associações sem personalidade, assim como as sucursais, agências, filiais ou delegações, pelas pessoas que

ajam como diretores, gerente ou administrados. A herança jacente deve ser representada por um administrador ou

curador; o condomínio é representado pelo administrador; os bens doados ou legados a nascituros por quem os

administra, eu pode ser o próprio doador.

Ex.: O Stand da Curva é explorado por (B) e filhos, LDA e o sócio-gerente é (B). Foi (B) que “mentiu” a (A) sobre os

kms. Quem vendeu o carro foi a sociedade, logo é contra ela que a ação será proposta (entidade interveniente na

compra e venda). A sociedade não pode estar, por si, em juízo (capacidade judiciária), necessita de representação.

Estado: A representação do Estado cabe ao Ministério Público (art. 24º, CPC). O termo Estado é usado no sentido de

“Estado-Administração”, incluindo órgãos e serviços hierarquicamente dependentes do Governo. Os serviços

públicos personalizados e institutos públicos que gozam de personalidade jurídica são representados pelos seus

órgãos (só cabe a Ministério a representação se a lei o prever). O Estado sendo autor, a ação será proposta em seu

nome pelo Ministério Público, junto do tribunal em que ação deva ser proposta; sendo réu, a ação deve ser intentada

contra o Estado requerendo que, para a mesma, seja citado o respectivo magistrado.
Modos de suprimento da incapacidade: a incapacidade e irregularidade de representação são sanadas através da

intervenção ou citação do representante ou curador do incapaz (art. 27º, nº 1, CPC). Pode-se concluir que a

incapacidade judiciaria do autor se sana através da intervenção e ratificação do processado pelo seu representante

ou curador; a incapacidade do réu sana com a intervenção ou citação do seu representante ou curador.

Se o representante do incapaz ratificar os atos processados, consideram-se sanados os vícios resultantes da

incapacidade; se intervir e não ratificar, são ineficazes os atos processados, passando a correr novamente os prazos

para que os atos sejam renovados. Não havendo renovação, deve-se distinguir: (a) vício diz respeito ao reu, incumbe

ao Ministério Público deduzir a defesa e, caso não conteste, a ação segue à revelia; (b) vício diz respeito ao autor, a

não renovação faz cair o ato de propositura da ação (petição inicial) e o réu é absolvido da instância (art. 27º, nº

278º, nº1, c). Há também absolvição da instância quando o incapaz é o réu, mas o não suprimento da incapacidade

é imputável ao autor, como nos casos em que ao autor cabe providenciar pela nomeação de um curador ao réu e

assim não procedeu (art. 17º, nº4).

3. Legitimidade Processual

Relação que existe entre a parte e o objeto do litígio.

Ex.: (A) comprou o carro ao Stand da Curva, mas a ação é intentada contra a sociedade (B) e Filhos, LDA. Terá esta
última legitimidade?
Não. No entanto, se esta sociedade não contestar a ação, consideram-se os fatos como admitidos. O autor é parte
legítima quando tem interesse direto em demandar (art. 30º, nº1, CPC). Contudo, como é evidente, a sociedade (B)
e Filhos, LDA tem interesse em contestar a ação. Ela vem afirmar que não vendeu carro nenhum, ou seja, vem dizer
que é parte ilegítima. Será isso que o tribunal deve considerar?

1ª hipótese: considera o réu parte ilegítima e absolve-o da instância (doutrina de Alberto dos Reis). Aqui, a partir do
momento em que o réu afirma não ser parte, o juiz absolve-o da instância.

2ª hipótese: considera o réu parte ilegítima e absolve-o do pedido (doutrina de Barbosa de Magalhães). Aqui, o que
interessa é o modo como o autor configura a ação, isto é, se o autor diz que o réu lhe vendeu um carro, mesmo que
isso não seja verdade, o réu é parte legítima.
Absolvendo da instância: o réu é absolvido, o tribunal não se pronuncia sobre mais nada.
Absolvendo do pedido: o tribunal profere na sentença qual a parte legítima (teoria acolhida no art. 30º, nº3,
CPC).

Qual o único caso em que o réu é, para Barbosa Magalhães, parte legítima?

Ex. 2: A intenta uma ação contra B e Filhos, LDA, pedindo a anulação do CCV mas, ao narrar os factos, ignora por
completo essa sociedade e diz que quem lhe vendeu o carro foi a sociedade Stand e Curva, LDA (ou seja, não aponta
o sujeito que explora aquele estabelecimento mas apenas este último).

CASO PRÁTICO
(A) e (B) celebraram contrato-promessa de compra e venda, em que (A) se comprometia a vender ao segundo, que
prometia comprar-lhe um apartamento em Braga no valor de 500 mil euros, tendo (B) entregue, a título de sinal,
a quantia de 100 mil euros. (A) ficou de marcar a escritura pública no prazo de 30 dias, o que não fez.
a) (B) quer adquirir o apartamento e intentou ação de execução específica. Qual a ação a intentar?
Ação constitutiva-constitutiva (art. 10º, nº 2 e 3, c, CPC).
b) (B) intentou uma AEE no TAF de Braga. Quid iuris?
Há violação da competência interna em razão da matéria, pois ocaso tem foro privado. Está-se perante
incompetência absoluta (art. 96º, a, CPC), tendo por consequência a absolvição do réu da instancia (regra do art. 99º,
nº 1, CPC). Excepcionalmente, há remessa do processo para o Tribunal competente, no respeito de determinadas
condições (art. 99º, nº 2, CPC).
c) Suponha que (A), no dia seguinte ao da citação, marcou a escritura pública, a qual foi realizada dois dias depois.
Quid iuris?
(B) teria várias hipóteses: desistir do pedido (tem o inconveniente de fazer com que o autor pague as custas); desistir
da instância; comunicar ao juiz que não tem interesse em prosseguir com o processo e que essa falta de interesse se
deve ao réu que, voluntariamente, cumpriu a obrigação, pedindo-se a extinção da instância por inutilidade
superveniente.
(d) Suponha que (B), na pendência da ação, foi declarado interdito por anomalia psíquica. (B) poderia continuar a
ser parte da ação?
Sim, porque mantém-se a personalidade judiciária. (B) perdeu capacidade judiciária, razão pela qual deve ser
representado em juízo por um tutor. Se esta anomalia só se verificar a meio da ação, só daí em diante haverá
representação; porém se esta anomalia já se verificasse desde o início da ação, o tutor teria que ratificar tudo o que
(B) praticasse no processo (na falta de ratificação, teria de se repetir tudo).
Aula Teórico-Prática de 17/2/2016

Problema da Legitimidade Processual

Legitimidade singular - quando uma ação judicial só tem um autor ou um réu 30º/1 Legitimidade plural - quando
uma ação tem mais do que um autor e/ou mais do que um réu
Litisconsórcio
o Voluntário, art. 32º
o Necessário, art. 33º
Legal - quando a própria lei assim o determina - obriga à presença de todos os intervenientes ex.: A é proprietário
de um apartamento e celebrou um contrato de arrendamento com B e C, casados (regime de comunhão de
adquiridos). B e C estabelecem nesta casa a sua casa de morada de família. Um ano depois, A diz que B e C estão a
usar a casa para um fim diverso (discoteca) e intenta uma ação de despejo. Litisconsórcio ou coligação? Litisconsórcio
porque só há uma relação jurídica (contrato de arrendamento). Voluntário (posso propor a ação de despejo contra
quem eu quiser) ou necessário (tenho de demandar contra os dois)? Se demandasse só o B esta ação tinha algum
tipo de efeito útil? Não, porque se quero despejar os dois, com esta ação só vou conseguir despejar o B. C não é
parte no processo. Para ser eficaz, teria de ser requerido contra os dois arrendatários. Aliás, quando está em causa
a casa de morada de família, há uma disposição legal que obriga a demandar os dois cônjuges - art. 34º/1 e 3. Neste
caso, o litisconsórcio é necessário e legal. A ação só foi proposta contra B. Consequência: falta um pressuposto
processual - há aqui um vício: ilegitimidade. O processo chega às mãos do juiz e este vê que o autor só demandou
um dos réus, falta o outro. O que é que deve fazer? Deve tentar sanar este vício - art. 6º/2. Como é que se sana este
vício? É preciso provocar a intervenção no processo de C - demanda-se a parte em falta. Quando é preciso chamar
alguém ao processo que está em falta, o juiz não o pode fazer oficiosamente. Não é o juiz que vai chamar C ao
processo. Apenas pode convidar a parte interessada em sanar o vício a chamar ao processo a pessoa que está em
falta - art. 6º/2 in fine. Quem é a parte interessada? O autor, A.
(Alberto dos Reis - maior processualista de todos os tempos - defendia que o juiz não
é nenhum mestre escola, não tem que ensinar nada aos advogados, o advogado não fez bem, paciência.
Se tinha que demandar os dois e não o fez, há uma exceção
dilatória: absolvo da instância.)
Convencional - se existir algum acordo das partes nesse sentido - ex.: A empresta um quadro de um pintor famoso a
B e a C, e as partes acordam entre si que só têm de restituir o quadro ao A quando os dois forem interpelados nesse
sentido. Se o quadro não for restituído, depois da interpelação dos dois, a ação de reivindicação tem que
ser proposta contra os dois.
Natural - quando, pela natureza da relação jurídica, a sentença só produza o seu efeito útil se forem demandados
todos os interessados - ex.: A morreu e deixou 3 filhos: B, C e D. Houve habilitação de herdeiros e partilha
extrajudicial, onde o prédio rústico foi adjudicado aos 3 em partes iguais. Cada um deles ficou com 1/3 (abstrato) do
prédio. Mais tarde, B quer deixar de ser comproprietário do prédio. Como é que se põe termo a esta relação de
compropriedade? Pode intentar uma ação de divisão de coisa comum. Se esta ação for proposta por B contra C, há
algum tipo de efeito útil? Esta sentença não produz qualquer efeito em relação ao D. Numa ação de divisão de coisa
comum, se não demando todos os comproprietários, a sentença não produz qualquer tipo de efeito útil - é inútil.
Mesmo que fosse procedente, não produziria qualquer tipo de efeito jurídico. Conclusão: na ação têm que estar
presentes todos os

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comproprietários. B tinha que demandar C e D em litisconsórcio necessário natural. O mesmo sucede com
a ação de partilha (por morte de alguém) - tem de ser proposta por todos os herdeiros. Não se pode fazer
a partilha dos bens deixando de parte um dos herdeiros.
Coligação, têm de existir duas ou mais pessoas no lado ativo ou passivo, e duas ou mais relações jurídicas.
Está aqui em causa o P. da Economia Processual. Para ser admissível, é preciso, cumulativamente, que se
verifique algum dos requisitos positivos previstos no art. 36º (causa de pedir ou pedido igual, existir alguma
relação de dependência ou de prejudicialidade entre os pedidos ou existir vantagem na apreciação
conjunta da prova). Por outro lado, não se pode verificar nenhum dos casos previstos no art. 37º.

Caso:
A foi ao notário com B e C. Simularam um contrato de mútuo, no qual A emprestou 10 mil euros a B e a C.
Acordaram que cada um deles deveria pagar 5 mil euros no prazo de 60 dias. Nenhum pagou e A quer
demandar B e C.
Se, por exemplo, B pagou, mas C não, estamos perante um caso de legitimidade singular - A contra C.
Temos um autor e dois réus - problema de legitimidade plural. Este é um caso de litisconsórcio ou
coligação?
Quando é que há litisconsórcio? Quando só há uma relação jurídica.
(Alguns autores defendem que há litisconsórcio quando só há um pedido, no entanto este critério não serve
porque pode ser uma só r.j. e dois ou mais pedidos).
Coligação se existem duas ou mais relações jurídicas.
No caso em concreto, a r.j é o contrato. Quantos contratos temos? 1 contrato - litisconsórcio
2 contratos - coligação
R: Um único contrato com 3 intervenientes (várias partes) - problema de litisconsórcio.

Caso:
A, B e C vão ao notário. A empresta a B 5 mil euros e empresta a C 5 mil euros. A celebra um contrato com
B.
A celebra um contrato com C.
No dia seguinte, B e C querem anular os contratos porque dizem que foram coagidos a assiná-los (previam
juros de 20%). Litisconsórcio ou coligação?
2 contratos autónomos, distintos, mas que têm um elemento em comum.
B pode propor a ação contra A sozinho. C pode propor a ação contra A sozinho. Ou podem os dois associar-
se e demandam os dois, em coligação, o A. Vão poder coligar-se porque há aqui um elemento comum, que
é o vício.
1 relação jurídica - litisconsórcio
2 ou + relações jurídicas - coligação
O litisconsórcio pode ser voluntário ou necessário - arts. 32º e 33º voluntário -
necessário -

Caso:
A celebra um contrato de mútuo com B e C, em que fica convencionado que cada um deles teria de restituir
a A a quantia de 5 mil euros.
Litisconsórcio voluntário ou necessário? Nenhum.
Esta obrigação é conjunta ou solidária? Conjunta, pois cada um deles só é responsável por uma quota parte
da dívida (5 mil euros).
Nenhum deles pagou. Tenho que demandar os dois, ou posso demandar apenas um deles?

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Se eu puder demandar só um deles, e se demandar só o B, qual é a consequência? Só consigo obter uma


condenação por 5 mil euros.
Esta obrigação é conjunta, o litisconsórcio é voluntário. mas se o autor demandar apenas um deles, apenas
consegue a condenação do réu na sua quota parte da responsabilidade. 32º/1/2ª parte

Se o advogado quiser ser honesto, diz ao cliente para propor uma ação única contra os dois - paga só uma
taxa de justiça.

Caso:
A demanda só o B por 5 mil euros e B é condenado.
Depois demanda C por 5 mil euros, mas este diz que há violação de caso julgado, porque já houve uma ação
anterior com o mesmo pedido (5 mil euros) em relação ao mesmo contrato. Não há aqui violação de caso
julgado, porque tinham de ser iguais as partes, o pedido e a causa de pedir. Ora, as partes não são iguais.
Só há aqui uma ação judicial desnecessária, podia ter logo aproveitado a inicial para demandar os 2.
Ao propor duas ações judiciais contra cada um deles, há o risco de serem proferidas decisões contraditórias.
Pode ocorrer que numa delas a prescrição seja julgada procedente, e na outra seja julgada improcedente
Importância de demandar os 2 numa única ação: economia processual + evitar contradições de julgados =
a ação deve ser proposta contra todos
A demanda só o B. Este, em sede de contestação, alega que é parte ilegítima porque o contrato tem 3
intervenientes (A, B e C), e o C não foi demandado.
O juiz julga esta ação improcedente, porque, se o litisconsórcio é voluntário, A pode demandar quem
quiser. O autor é que decide quem quer demandar.

Caso:
A foi ao notário com B e C. Celebraram um contrato de mútuo em que A emprestava a B e a C 10 mil euros,
sendo que qualquer um deles tinha de pagar 10 mil euros no prazo de 30 dias.
1 - Litisconsórcio ou coligação? Litisconsórcio porque só há um contrato. 2 - Litisconsórcio voluntário ou
necessário?
Os dois não pagam. A tem que demandar os dois, ou pode demandar só um deles? Como pode demandar
só um deles (é uma obrigação solidária), é um litisconsórcio voluntário.
Se a obrigação é solidária, qualquer um deles responde pela totalidade da dívida.
E se pagar a totalidade da dívida, há direito de regresso sobre a outra parte. E, neste caso, quem é que A
demandava? Processualmente falando, pode demandar só o B, só o C, ou os dois. Em termos de eficácia de
cobrança da dívida, convinha demandar os dois - 2 patrimónios a responder pela dívida.
3 - E se demandar só o B, que é condenado a pagar 10 mil euros, e quando vou a executar a sentença, este
é declarado insolvente? E agora, posso demandar o C, por mais 10 mil euros? Não vou ficar a ganhar 20 mil
euros Se demando um deles e não consigo depois cobrar, nada me impede depois de propor uma outra
ação contra outro responsável (C). O que não posso fazer é demandar B e receber 10 mil euros e depois
demandar o C e pedir mais 10 mil euros.
Se for o caso de o credor ser de má fé e demandar os dois em ações autónomos para auferir mais do que
devia, e depois os devedores descobrirem, podem demandar A numa ação de enriquecimento sem causa.

Caso:
Há um stand que se chama “Automóveis de Luxo”. A, casado com B, compra, neste stand, um automóvel.
No stand é dito a A e a B que este automóvel apenas consome 4 litros aos 100, em

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percurso citadino, e estes, com base neste pressuposto, compram este automóvel. C, no dia a seguir
compra um automóvel idêntico, também lhe é dito que só gasta 4 litros aos 100, e D, noutro dia, compra
um automóvel idêntico, com base neste pressuposto. Passado alguns dias, constatam que em percurso
citadino, este carro faz médias de consumo de 10 litros aos 100. No Facebook criam lá um grupo, conhecem-
se todos, e veem que, por coincidência, há lá muita gente a queixar-se do mesmo problema e do mesmo
stand. O vendedor destes carros todos foi E, que é empregado da sociedade Braga Comércio de Automóveis
Lda., sendo que o gerente é F.
Neste caso haveria litisconsórcio, coligação, ou apenas situações de legitimidade singular? C pode propor
sozinho uma ação de anulação do ato de compra de venda com base numa informação errada e dolosa que
lhe foi transmitida? Contra quem?
Contra a sociedade Braga Comércio de Automóveis Lda. (tem personalidade jurídica e judiciária). O mesmo
pode fazer A, B e D.
Porque não litisconsórcio? Porque temos 3 contratos - 3 relações jurídicas. E podem coligar-se entre eles?
Sim, desde logo porque existem aqui 3 relações jurídicas diferentes.
O pedido é o mesmo? É o mesmo modelo de carro, mas são 3 carros diferentes. Concluindo, são 3 pedidos
diferentes.
E a causa de pedir, (todos os factos essenciais que servem de fundamento ao meu pedido) é a mesma ou é
diferente? Há aqui factos diferentes, porque estamos a falar de carros diferentes (embora com identidade
de marca e de modelo) - aspeto comum: todos eles foram ludibriados pelo mesmo vendedor.
A apreciação de um pedido de anulação destes 3 negócios jurídicos vai depender da apreciação dos
mesmos fatos: saber nestes 3 negócios se o vendedor disse ou não que o carro fazia médias de consumo
de 4 litros aos 100; se este carro, na verdade consome ou não 4 litros aos 100. Quando o juiz se for a
pronunciar, existem aqui vários factos que são comuns a todos. Eu posso pedir uma única peritagem nos 3
carros. Em vez de ter 3 ações diferentes com 3 peritagens diferentes, eu posso pedir numa única ação, uma
peritagem para os 3 carros.
Neste caso em concreto, só há uma coligação? Não, também existe um litisconsórcio necessário legal entre
A e B, porque está aqui em causa um carro comprado pelos dois. A ação tem de ser intentada pelos dois.
A - B: litisconsórcio A, B, C e D: coligação
Se a ação fosse proposta por A, C e D, coligados contra a mesma sociedade, havia aqui um problema. Em
relação a esta relação jurídica, o A sozinho é parte ilegítima. O juiz tinha de convidar A a chamar ao processo
B.

Qual é a vantagem em que haja uma coligação de autores? 1- Economia processual - só há um processo.
2- Produção de prova - podem associar-se entre eles, utilizar testemunhas conjuntas e realizar apenas uma
peritagem (poupam imenso em custas).
3- Vamos ter uma sentença uniforme em relação aos 3 pedidos - se intentassem ações autónomas podia
dar-se o caso de termos sentenças diferentes (num podia ser procedente, noutro improcedente).
4- Vou pagar, à partida, menos custas.
5- Uma vantagem que já extravasa o âmbito do processo civil: na prática, não vai haver igualdade de partes,
igualdade de armas, porque é muito mais fácil ganhar uma ação quando temos várias pessoas associadas,
do que quando estamos sozinhos. Os 3 podem mandatar 3 advogados associados contra um advogado
sozinho do lado contrário.

Aula Teórico-Prática de 24/2/2016

(Apontamentos de Margarida Queijo)

Caso 1
António e Berta são casados no regime de comunhão geral de bens e residem em Braga. No início de
novembro, António decidiu adquirir no estabelecimento comercial denominado Auto
Braga um veículo automóvel, no valor de € 15.000,00, para utilização pessoal do casal, tendo entregue
um cheque de igual montante para pagamento do preço.

a) Sabendo que esse cheque foi devolvido por falta de provisão e que o estabelecimento comercial
em causa pertence a Carlos, empresário em nome individual, pronuncie-se sobre a legitimidade ativa e
passiva.

Quem seria o autor da ação?

Auto Braga: estabelecimento comercial. Tem personalidade judiciária? Não, portanto não pode ser parte
no processo.

Contra quem pode a ação ser intentada?


Quem comprou o carro? O António.

É proposta a ação contra A ou contra os dois?


Art. 34º, nº3, CPC: proposta contra os cônjuges quando praticados por ambos.

No caso, foi apenas praticado por António, pelo que demandando apenas A, o património que vai
responder pela dívida será apenas a quota-parte de A dos bens comuns mais os bens próprios do mesmo.
Os bens de B não respondem pela dívida, nem a sua quota-parte dos bens comuns.

Assim, se se quiser atingir os bens do casal, é necessário demandar os dois (esta última opção é a mais
conveniente, visto que demandando apenas A, só se poderão penhorar os seus bens próprios). Se o credor
pretender atingir todo o património do casal, tem que demandar A e B. Neste caso, há um litisconsórcio
necessário legal. O autor tem de alegar a comunicabilidade da dívida (quando não é uma dívida própria) –
art. 1691º, CC + art. 34º, nº3, CPC. Trata-se de um litisconsórcio e não de uma coligação pois há apenas
uma relação jurídica (o CCV).

b) Suponha que a ação foi movida apenas contra António e que este, em sede de contestação, veio
invocar a sua ilegitimidade processual. Quid iuris?

Tudo depende do modo como o autor vai configurar a ação. Se o autor diz que esta dívida é uma dívida
própria de António e demanda só este último, o tribunal deve julgar a exceção improcedente, pois o
António é parte legítima.

Em contrapartida,

Se o autor diz na PI que esta dívida contraída pelo António é comunicável a Berta, se é da responsabilidade
de ambos, neste caso António é parte ilegítima (art. 34º, nº3, CPC, deve a ação ser proposta contra os dois
quando a dívida responsabiliza os dois, + art. 1691º, CC). Aqui o tribunal julga esta exceção procedente.

20
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

Qual a consequência?

O juiz deve convocar a parte interessada (Carlos) a sanar este vício (art. 6º, nº2, CPC). Como se sana este
vício?

É preciso a intervenção no processo de B. Através de um incidente de intervenção principal


provocada (art. 316º, CPC).

Caso o autor (Carlos) não convide a outra parte (Berta) a participar no processo, o tribunal
absolve o réu da instância.

Caso 2

Em Outubro de 2015, António celebrou um contrato de mútuo com Berto e Carlos. Nesse contrato ficou
convencionado que António emprestava a quantia de € 50.000,00 e que cada um dos devedores
liquidaria a quantia de € 25.000,00 até ao final de Dezembro de 2015.

a) Sabendo que na data fixada nesse contrato não foi efetuado qualquer pagamento, poderia António
demandar apenas Berto?

- Problema da legitimidade singular ou plural. A legitimidade é plural quando existem dois ou mais réus.

- Dentro da legitimidade plural, litisconsórcio ou coligação? No caso, só há um contrato com várias pessoas,
pelo que só há uma relação jurídica (litisconsórcio).

- Este litisconsórcio será voluntário ou necessário? É uma obrigação conjunta, cada um responde pela sua
quota-parte e nada impede de demandar apenas um deles.

- Pode-se então propor a ação contra B, C ou contra os dois? Se intentar uma ação apenas contra B, A só
verá o seu crédito pago completamente se intentar posteriormente uma outra ação autónoma contra C.
Por via do princípio da economia processual e por unanimidade de decisões (o juiz pode proferir decisões
diferentes em ações autónomas), convém que A proponha a mesma ação contra B e C.

b) Suponha que o juiz, atento o facto de Carlos não ter sido demandado, absolveu Berto da instância
com fundamento na sua ilegitimidade. Quid iuris?

Se o litisconsórcio é voluntário, o autor pode demandar quem quiser, logo o réu não pode ser absolvido da
instância.

O que é certo é que o juiz absolveu. Como se ataca isto? Tem que se recorrer da decisão.

Princípio do esgotamento do poder jurisdicional – não pode voltar atrás na sua decisão, a menos que haja
um erro formal.

21
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

c) Em hipótese distinta das anteriores, suponha que nesse contrato de mútuo ficou convencionado que
António poderia exigir o pagamento da quantia mutuada a qualquer um dos 2 devedores, logo após a
data do vencimento da obrigação. Contra quem devia ser intentada a ação sabendo que a dívida não foi
liquidada aquando do seu vencimento?

Neste caso, o litisconsórcio mantém-se voluntário. A única diferença é que, aqui, a obrigação é solidária.
Pode ser intentada a ação contra qualquer um deles, condenar qualquer um deles ao pagamento total da
dívida.

Caso 3

António, Bento, Carlos e Daniel são comproprietários de um terreno situado em Braga. António pretende
pôr termo à situação de indivisão do terreno, motivo pelo qual decidiu procurar um advogado para
intentar a correspondente ação judicial. Suponha que o advogado de António intentou a ação apenas
contra Berto e Carlos. Se fosse o juiz da causa, como procederia no caso em análise?

Estamos perante um caso de legitimidade plural.

O litisconsórcio necessário pode ser: - legal;

- natural;

- convencional.

No caso é natural, porque são todos comproprietários e é necessário demanda-los a todos. A ação só vai
ser útil se estiverem todos presentes. É a própria natureza da relação jurídica que obriga à presença de
todos, daí que seja litisconsórcio necessário natural.

Caso 4

António, residente em Barcelos, conduzia o veículo automóvel pertencente ao seu pai, Berto, pela
Avenida da Liberdade, em Braga. Sucede que, devido à velocidade excessiva com que circulava, acabou
por se despistar, tendo embatido contra os veículos de Carlos e de Daniel que se encontravam parados
num semáforo. Sabendo que Carlos e Daniel pretendem ser ressarcidos dos danos sofridos nos seus
veículos e que Berto tinha celebrado um contrato de seguro automóvel por danos contra terceiros com
a companhia de seguros Segurança Total, S.A., pronuncie-se sobre a legitimidade ativa e passiva.

Quem são os autores da ação? Os lesados, Carlos e Daniel.

Quem é o réu?

Berto transfere para a companhia de seguros a responsabilidade dos danos causados a terceiros.

Contra quem é proposta a ação?

Se os danos de C e D não excederem o valor do capital do seguro contactado, a ação é intentada contra a
companhia seguradora. Se, por outro lado, os danos ultrapassarem o capital do seguro,

22
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

é necessário propor a ação contra a companhia de seguro e, pela diferença, contra Berto, que é o segurado.
Posto isto, o réu será, em princípio, a seguradora.

Podem C e D coligarem-se entre si contra a seguradora? Sim, há responsabilidade civil, é um caso de


possível coligação pois existem duas relações jurídicas similares.
Convém esta coligação?
- Há factos e provas comuns a ambos. Os factos comuns são a dinâmica do acidente e divergem nos danos
provocados a cada um.

Caso 5

António, proprietário de um apartamento em Braga, celebrou com Carlos, casado com Daniela no regime
de comunhão de adquiridos, um contrato de arrendamento com a duração limitada de 5 anos
relativamente a esse apartamento. Por falta de pagamento das rendas convencionadas, António decide
instaurar uma ação de despejo contra Carlos, por ser este quem formalmente figurava no contrato de
arrendamento. Quid iuris?

Estamos perante um litisconsórcio, uma vez que há apenas uma relação jurídica. Será este, por sua vez,
voluntário ou necessário? A ação é movida contra um deles ou contra ambos? Depende do que se arrendou.
Se é a casa de morada de família, existe litisconsórcio necessário legal. Caso contrário, trata-se apenas de
um problema de singular. No caso, diz respeito à casa de família, pelo que se trata de um litisconsórcio
necessário legal, logo C é parte ilegítima.

Formalidades da Petição Inicial

Quando se inicia o processo judicial? Quando se apresenta a petição inicial – art. 259º, nº1, CPC.

Quais os elementos de uma PI?

1. Endereço: a quem se dirige? Ao juiz competente para conhecer o pedido: Exmo. Sr. Juiz de Direito
da Instância Central/Local de x (arts. 59º e ss, CPC).

Se houver um advogado constituído, deve-se ainda referir o seu nome e o seu domicílio
profissional (art. 552º, al.b), CPC).

2. Cabeçalho: indica-se quem é o autor. O seu nome, o estado civil (se for casado pode haver
litisconsórcio voluntário ativo, se for solteiro tem de invocar que é maior de idade). Pode-se indicar a
profissão, a residência e também o nº do cartão de cidadão e o nif.

- Vem propor a ação declarativa de: - simples apreciação (negativa ou positiva)

- condenação

- constitutiva (constitutiva, modificativa ou extintiva)

(art. 10º, CPC)

- Sob a forma de processo comum ou especial (art. 546º, nº1, CPC), contra (nome do réu, estado civil,
profissão, local de trabalho - por causa da citação -, residente em... – por causa da

23
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

competência territorial -, titular do cartão de cidadão x, nif x) nos termos e pelos fundamentos seguintes:

3. Narração dos factos / causas de pedir

Ao indicar causa de pedir, posso indicar matéria de facto ou matéria de direito.

I. Descrevo os factos.
II. Matéria de direito ou de facto – a indicação do direito não é obrigatória e tão pouco o tribunal
está vinculado aos argumentos jurídicos invocados pelas partes.

Regras na alegação de matéria de facto

Primeiro: os factos devem ser apresentados por ordem cronológica. Os factos têm de ser apresentados por
artigos.

Segundo: os factos devem ser alegados uma única vez, sem repetições.

Terceiro: cada artigo tem de conter uma oração gramatical completa (um facto por artigo).

Quarto: na descrição dos factos não devem ser usadas expressões jurídicas ou conclusivas. Por exemplo, o
veículo do réu circulava a velocidade excessiva. Isto é um conceito conclusivo, quem tem de decidir se é
excessiva ou não é o tribunal.

4. Apresentação do pedido

Deve a presente ação ser julgada procedente e em consequência (a consequência depende do tipo de ação)
ser condenado…, ser declarado…

Deve indicar a prova (documental, testemunhal, pericial). Se não indicar prova, perde oportunidade para a
apresentar. Indicar, por exemplo, testemunhas, mesmo que as não tenha.
Valor da ação

Para efeitos de competência, recursos e taxas de justiça.


Indicar o que junta à PI

- se há advogado constituído;

- documentos;

- documento único de cobrança;

- comprovativo do pagamento da taxa de justiça;

- se tiver apoio judiciário, o seu comprovativo exclui os dois últimos.

5. Assinatura do advogado

Eletrónica, se for pelo CITIUS.

Aula Teórico-Prática de 10/3/2016

Tipos de pedidos
De acordo com CPC (artigos 553º e ss.), o autor pode formular pelo mesmo processo mais do que um
pedido.

Caso 1 (este caso consta de apontamentos de Ana Luísa Ferreira)

A sofreu lesões graves na sequência de um atropelamento provocado pelo veículo conduzido por B. Para
reparação desses danos, A intenta uma ação judicial contra a companhia de seguros de B. Nessa ação, A
pede, a título de danos patrimoniais, 1000€ e, a título de danos não patrimoniais, 50mil€. Para formular
mais do que um pedido -> Artigo 555º

E se, naquela ação, A só pede o ressarcimento de danos patrimoniais? No decurso do julgamento, o juiz
constata que A também sofreu danos não patrimoniais. O juiz condena a companhia a pagar 1000€ de
danos patrimoniais e 50mil€ de danos não patrimoniais. Quid iuris?

Art. 609º, nº1, CPC: o tribunal não pode condenar o pagamento de objeto diverso do que se pedir.

Caso 2

A celebrou um contrato de empreitada com B. Através desse contrato, B obrigou-se a construir uma
moradia de três pisos pelo preço de 50mil €. A moradia foi construída e passados 2 meses começam a
surgir fissuras em toda a habitação. A denunciou os efeitos ao empreiteiro B, este não reconhece
qualquer deficiência e A intenta uma ação judicial, onde pede que o réu seja condenado.

Deve a ação ser julgada procedente e, em consequência, ser o réu condenado a:

a) Eliminar os defeitos OU
b) Executar nova construção.

Não há aqui uma cumulação real de pedidos, não há um “e” que, de resto, tornaria a cumulação
incompatível. Estes pedidos são alternativos. É para proteger o autor que a lei permite formular mais que
um pedido.

Se A tivesse pedido apenas a eliminação dos defeitos e o tribunal o considerasse impossível, a sua ação
seria julgada improcedente – A teria de pedir uma segunda ação.

Caso 3

A celebrou com B, por escritura pública, um contrato de mútuo, através do qual A emprestou a B a
quantia de 100mil €. Nesse contrato, combinaram que B restituiria os 100mil € a A, acrescidos de juros
remuneratórios no valor de 1000€, até ao final do mês de fevereiro de
2016. Findo o prazo, B não restituiu nada a A. Além disso, A descobriu que em janeiro de 2016, celebrou
com C, seu irmão, um CCV do único bem que B tinha, um apartamento em Braga. O valor constante da
escritura foi de 150mil €. A apurou ainda que B continua a viver no apartamento.

A pode pedir uma ação declarativa de condenação contra B, mas esta não valerá porque B já não tem bens.

28
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

A pode invocar a nulidade do negócio B-C, com base em simulação absoluta (ação de simples apreciação).
Nesta ação, A está apenas a atacar o negócio B-C e não a pedir o pagamento de 101mil €. Basta aqui que o
juiz declare a nulidade do negócio B-C: ação de simples apreciação positiva.

A vai demandar B e C em litisconsórcio (tem de atacar aquela relação jurídica que é apenas uma),
necessário (não pode demandar apenas um deles). Será este litisconsórcio convencional, legal ou natural?
Natural, porque não pode demandar apenas um deles.

A pode também pedir uma impugnação pauliana, impugnando o negócio. Esta impugnação tem de
obedecer a determinados requisitos para que seja julgada procedente:
- tem de ser um contrato oneroso e é necessário demonstrar a má fé do adquirente;
- se for gratuito, presume-se a má fé;
- tem um prazo de caducidade (para se pedir) de 5 anos desde a data do negócio.

Se A pedisse dois pedidos incompatíveis – nulidade + impugnação pauliana [ineficácia] -, a PI seria


considerada inepta (art. 186º, nº2, c), CPC). Está-se a dizer que o negócio é inválido e válido,
respetivamente. Então A deve fazer uma cumulação de pedidos alternativos: nulidade ou impugnação
pauliana.

Nos pedidos subsidiários, a PI é só uma, a contestação é só uma, o julgamento é só um, mas o juiz vai
fazer uma distinção entre os pedidos.
No caso, A pode pedir nulidade ou, se assim não se entender, a ineficácia…

Na sentença, o tribunal vai-se pronunciar apenas sobre a nulidade (pedido principal). Se o tribunal ficar
com a convicção de que o negócio B-C é simulado/nulo, este já não se pronunciará sobre quaisquer outros
factos ou causas de pedir e vai declarar a nulidade do negócio. O pedido subsidiário vai ser ignorado por
completo. Se o tribunal se pronunciar sobre a impugnação pauliana depois de declarar a nulidade do
negócio B-C, a sentença será nula.

Se, por outro lado, o tribunal ficar convencido de que não há simulação no negócio B-C, este pedido vai ser
julgado improcedente. É aqui que entra o pedido subsidiário. Se ficarem provados os pressupostos da
impugnação pauliana (supracitados) – ação procedente. Caso contrário – ação improcedente.

Em suma,

Nos pedidos subsidiários, o pedido que é deduzido em segundo lugar só é conhecido pelo tribunal se o
primeiro pedido for julgado improcedente. Caso contrário, se o primeiro pedido for julgado procedente, o
segundo pedido nem sequer é apreciado.

Nota: na PI devem-se distinguir os pedidos de forma expressa. Ex.:

Em via principal Em via subsidiária

Nulidade por simulação Ineficácia por impugnação pauliana

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Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

Aula Teórico-Prática de 16/03/2016 (Apontamentos de Margarida Queijo)

Efeitos Processuais e Substantivos da Apresentação da PI


Quais são os efeitos processuais?

1. Início da instância, com a entrada da PI na secretaria do tribunal, considera-se iniciada a instância,


ou seja, o processo judicial (art. 259º, CPC).

2. A competência do tribunal fixa-se no momento em que a ação é proposta, sendo irrelevantes


quaisquer alterações de facto. Esta regra visa proibir o desafor???. Visa-se impedir que o processo seja
retirado ao juiz inicialmente designado (art. 38º, LOSJ)

3. O valor da ação fixa-se no momento em que a ação é proposta (art. 299º, nº1. CPC). Seja como for,
compete ao juiz determinar o valor da causa de acordo com o art. 306º, nº1, CPC. Esta regra comporta
várias exceções:

- assim, o valor da causa pode ser alterado quando houver reconvenção, ou em caso de intervenção
principal de terceiros, ou de liquidação posterior do pedido. P. ex.: numa ação por indemnização por danos,
o autor formula um pedido genérico porque não consegue quantificar os danos no momento em que a
ação é proposta, sendo que esses danos são entretanto quantificados na pendência da ação.
Quais são os efeitos substantivos?

1. A propositura da ação judicial interrompe o prazo de caducidade (art. 331º, nº1, CC). A este
respeito, a caducidade é uma exceção perentória, pode ser conhecida pelo tribunal de forma oficiosa e
extingue o direito subjetivo. O que interessa é intentar a ação.

2. Com a apresentação da PI, inicia-se o prazo de 5 dias para se interromper a prescrição. Isto porque
nos termos do nº2 do art. 323º, CC, o prazo de prescrição interrompe-se se a citação não for feita no prazo
de 5 dias depois de ter sido conhecida. P. ex.: um direito prescreve no dia 6, a ação judicial entra no dia 1,
e o réu é citado no dia 7. Neste caso, o direito prescreveu? Na contagem deste prazo de 5 dias, a prescrição
interrompe-se. Autor tem o ónus, sempre, de intentar a ação pelo menos 5 dias antes do prazo de
prescrição.

Instituto jurídico da citação urgente do réu (art. 561º, CPC)

O autor pode pedir a citação urgente do réu. Quando o faz, ele tem de alegar que está próximo do prazo
de prescrição. A secretaria deve de imediato remeter o processo ao juiz e se o juiz deferir o pedido da
citação urgente, esta citação é feita mesmo antes de o processo ser distribuído.

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Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

Casos em que a jurisprudência se divide

- O autor deve pedir a citação urgente mesmo que a PI dê entrada no tribunal 5 dias antes do prazo de
prescrição OU o autor só deve pedir a citação urgente se a PIE entrar no tribunal já dentro do prazo de 5
dias, previsto no nº2 do art. 323º, CC?
Acórdão da Relação de Évora de 18/09/2007

Diz que a citação urgente só deve ser pedida se a ação entrar quando faltarem menos de 5 dias
– é o prazo que é necessário, 5 dias chegam para citar o réu. Nestes casos, deve-se sempre pedir citação
urgente, à cautela, para prevenção.

Em determinados casos, pode-se pedir citação urgente + citação por oficial de justiça – assim é possível
chegar à citação do réu sem o direito prescrever. É mais vantajoso por via postal.

Art. 323º, nº2, CC

Quais os factos imputáveis ao autor? P. ex:

- quando o autor indica uma morada incorreta do réu, aqui prescreve o direito;

- quando não paga taxa de justiça.

Nota: quando a PI é entregue no tribunal, a secretaria pode proceder à sua recusa, desde que esteja em
causa um vício formal (art. 558º, CPC – fundamentos da recusa da PI).

558º, al. i), CPC: requisitos regulamentares.

DL 153/99 – art, 24º (folha branca ou cores pálidas)


O que acontece se a secretaria não recusa uma PI que devia ter recusado?

Neste caso, a jurisprudência (acórdão da Relação de Coimbra de 13/10/2009) tem entendido que o juiz
logo que se aperceba do vício, deve convidar o autor a corrigi-lo no prazo de 10 dias. Não é possível recusar
a posteriori a PI. Isto, claro, se o autor não corrigir. Depois é possível.

Se a PI não for recusada, o processo é remetido para a distribuição (art. 203º, CPC), momento em que é
atribuído ao processo um número e um juiz. Esta distribuição é aleatória.

De acordo com o Código Civil?????, a secretaria tem de citar o réu sem necessidade de despacho judicial
(art. 226º, nº1 CPC). Ou seja, o juiz em princípio nem sequer sabe que lhe foi distribuído um processo. No
entanto, nos casos previstos no nº4 do art. 226º, CPC, o réu só deve ser citado depois de o juiz se
pronunciar.

Ex.: A intenta um processo cautelar contra B. A pede ao juiz que decrete a providência antes de ouvir o
requerido. O juiz pode fazê-lo. Na providência cautelar, A vai pedir dispensa da audição prévia, sendo que
aqui o funcionário envia o requerimento ao juiz – chama-se abrir conclusão.
Se o juiz deferir, decreta a providência sem ouvir B.
Se o juiz indeferir, vai ser B citado de imediato antes da providência. Aqui, o funcionário vai citar o réu
quando era pedida dispensa de audição prévia, pelo que se perde o efeito útil da providência cautelar.

31
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

Efeitos da citação (arts. 563º e 564º, CPC)

1. Quando o réu é citado, cessa a boa fé do possuidor (art. 564º, a)). Além disso, também tem efeitos
práticos quanto à invocação do réu na realização de benfeitorias.

2. A partir do momento em que o réu é citado, a instância torna-se estável. Ou seja, não pode existir
alterações, em princípio, quanto aos sujeitos ou quanto ao objeto (564º, b) com remissão para o art. 260º,
CPC).

Exceção: podem verificar-se alterações quanto aos sujeitos e quanto aos objetos nos termos dos arts. 261º
e ss., CPC. Por exemplo: A intenta uma ação contra B. B é citado e, no dia seguinte, morre. Isto só leva a
problemas de habilitação.

3. Quando o réu é citado, fica impedido de propor contra o autor uma ação destinada a apreciar a
mesma questão jurídica. Esta regra permite lançar mão de uma técnica processual dilatória – torpedo
italiano. Esta técnica usa da lentidão excessiva dos tribunais italianos.

4. Interrupção da prescrição.

5. O devedor fica constituído em mora pelo art. 805º, CC.

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Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

Aula Teórico-Prática de 29/03/16

Caso Prático

A casado com B no regime de comunhão geral de bens ganhou 500mil € no euromilhões.


Ambos residem em Barcelos. A e B decidem comprar à sociedade Carlos e Filhos, LDA, com sede em
Braga, dois apartamentos em Barcelos no valor, cada um deles, de 200mil €. Logo após a outorga da
escritura pública de compra e venda dos dois apartamentos, A e B dirigiram-se à Conservatória do Registo
Predial para registarem a aquisição dos imóveis e constataram que ambos estão penhorados pela
Fazenda Nacional para garantia de uma dúvida no valor de
1milhão €, dívida essa da sociedade vendedora. Perante esse facto, A e B contactam C, sócio gerente da
sociedade vendedora, tendo-lhe comunicado que pretendiam anular o negócio, o que este recusou.

a) Identifique o tipo de tutela/ação e a respetiva forma de processo.

Tipos de ação: art. 10º, CPC, existem ações declarativas e executivas. Dentro das executivas: simples
apreciação, condenação e constitutivas.

No caso em concreto, A e B querem anular um negócio – a venda de bens penhorados é válida mas ineficaz
em relação ao credor que penhorou o bem (art. 819º, CC). Deve ser intentada uma ação declarativa
constitutiva-extintiva, já que se visa alterar uma situação jurídica, A e B querem extinguir aquela relação
jurídica.

Quanto à forma do processo (art. 546º, CPC), o processo pode ser comum ou especial – só se aplica o
comum subsidiariamente, quando não há processo especial (arts. 578º e ss., CPC). Não havendo processo
especial, há lugar ao processo comum que segue a forma única (art. 548º,
CPC).

b) Imagine que C e D, casados num regime de separação de bens, compraram à mesma sociedade
um apartamento localizado no mesmo prédio, apartamento esse que está igualmente penhorado pela
Fazenda Nacional pela mesma dívida. Pronuncie-se quanto à legitimidade ativa e passiva.

Legitimidade enquanto pressuposto que pode revestir várias modalidades. Quando só há um sujeito ativo
e um passivo – singular; quando há dois ou mais ativos e/ou dois ou mais passivos
– plural (arts. 30º e ss,. CPC).

No caso concreto, há duas relações jurídicas: uma entre A e B e a sociedade Carlos e Filhos, LDA e outra
entre C e D e a sociedade:

Entre A e B – tendo ambos intervindo no negócio, ambos têm de intentar a ação. Estamos aqui perante
uma relação jurídica entre A e B e a sociedade, sendo que entre os dois primeiros existe um litisconsórcio
necessário (apenas um não pode intentar a ação) e não voluntário. Dentro do necessário (legal,
convencional ou natural) é legal) – art. 34º, CPC (litisconsórcio entre cônjuges).

Entre C e D há também um litisconsórcio necessário legal (art. 34º, nº1, CPC). Neste caso, eles são casados
em separação de bens – aqui não há bens comuns; na separação de bens trata-se de compropriedade. Art.
34º, nº1, CPC: caso haja separação de bens, se C tivesse comprado a casa e ela se tornasse a casa de morada
de família –

33
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

litisconsórcio necessário legal; se não fosse casa de família, C podia propor a ação sozinho (remissão para
o art. 1682º, CC).

Entre todos eles: todos os compradores querem anular os respetivos contratos com base no mesmo vício
– pode existir entre todos eles coligação de autores (art. 36º, CPC). A causa de pedir (factos essenciais que
fundamentam o pedido) tem de ser a mesma. No caso concreto, os imóveis, os contratos, os preços, todos
estes factos são distintos nas diferentes relações jurídicas: não pode haver coligação de autores (nº1).

Aparte sobre a causa de pedir: A dá uma estalada a B a 1/1/16. B intenta uma ação de divórcio. A pede
desculpa e B desiste do pedido. A volta a bater a B e A pede uma nova ação. Aqui o pedido é o mesmo, as
partes são as mesmas, mas a causa de pedir não é a mesma.

Entre os contratos acima descritos existe um fundamento comum – todos eles querem anular o contrato
com base numa penhora que está a onerar os imóveis. Aqui, na procedência das ações, vai ser apreciado
aquele mesmo facto, há aqui o mesmo ónus (art. 36º, nº2, CPC). Neste caso pode-se presumir a má fé dos
compradores pelo que, à partida, eles podiam ter consultado o Registo Predial antes de celebrar os
negócios.

Há aqui possibilidade de coligação (nunca obrigatória) com base no 36º, nº2.

c) Partindo da ação intentada apenas por A e B contra Carlos e Filhos, LDA, qual seria o tribunal
territorialmente competente para o conhecimento da ação?

O bem localiza-se em Barcelos – art. 70º nº1, CPC. Aparentemente parece que esta ação diz respeito a um
direito real de gozo sobre um imóvel, mas A e B não querem fazer valer o seu direito, eles querem, pelo
contrário, anular um contrato de compra e venda, ou seja, esta ação tem por objeto direito obrigacionais
e não reais – não está aqui em causa o bem que se adquiriu, não é relevante aqui ser móvel ou imóvel, pelo
que não se aplica o art. 70º, nº1, CPC. Aplicar-se-á o art. 80º, nº1 – é competente, em termos territoriais,
o tribunal do domicílio do réu – Braga.

d) Sabendo que a ré foi citada através de carta registada assinada por C, gerente da empresa, a 18
de março, quando terminaria o prazo para contestar com multa?

A ré considera-se citada no dia 18 (art. 230º, CPC).

Art. 569º, CPC: a ré foi citada para contestar – prazo perentório de 30 dias.

Podem existir prazos dilatórios de 5, 15 ou 30 dias, conforme as situações do art. 245º, CPC. No caso não
existem quaisquer prazos dilatórios. A ré tem então um prazo de 30 dias.

Se na carta tivesse lá, por engano, que a ré dispunha de 40 dias para contestar? Art. 191º, nº3, CPC
– a defesa deve ser admitida nesses 40 dias. O prazo começa a correr no dia seguinte, o próprio dia não se
conta (art. 279º, b), CPC), ou seja, dia 19.

Os prazos são contínuos – art. 138º, nº1, CPC – interrompem-se em férias judiciais (páscoa de 20 a 28 de
março). Dia 29 retoma-se a contagem. Dia 26 de abril é o 30º dia, sem multa é este o dia em que termina
o prazo de contestação. Com multa – art. 139º, nº5, CPC – termina a 29 de abril.

34
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

e) Suponha que a ré foi citada. No dia a seguir mudou a sede para Guimarães e, na contestação,
invoca incompetência territorial da instância central de Braga. Como devia o juiz julgar essa defesa?

A competência do tribunal fixa-se no momento em que a ação é intentada (art. 38º, LOSJ). Essa alteração
é irrelevante para efeitos de competência. O juiz tinha de julgar essa defesa improcedente. Se a ré tivesse
mudado antes de ser citada mas só registasse essa mudança depois de ser citada, a resposta seria a mesma.

f) Suponha que a ré apresentou contestação e o advogado desta morreu no dia a seguir. Que
consequências resultam da morte do advogado para o processo?

Art. 40º, nº1, CPC: o valor da ação ultrapassa a alçada da 1ª instância (5mil €), pelo que é obrigatório o
patrocínio judiciário.

Se o advogado falecer, a instância tem que ficar suspensa (art. 271º -> 269º, nº1, b), CPC). A suspensão
termina quando a ré constituir novo advogado. Se o réu demorar muito tempo a fazê-lo (art. 276º, nº3,
CPC), o autor pode requerer ao juiz para fixar prazo para que a ré constitua advogado. Se o juiz fixar um
prazo e a ré não constituir advogado, a ação procede sem advogado.

Se fosse o advogado do autor e este não constituísse rapidamente advogado, o réu era absolvido da
instância.

Aula Teórico-Prática de 6/4/16

(Apontamentos de Alexandre Ferreira)


Petição inicial;
Citação do réu;
Contestação.
I. Exceções
Estrutura da contestação dilatórias (art. 573º, nº1, CPC)
Ex.: incompetência absoluta
Exmo. Senhor
Sem prescindir,
Juiz de Direito
II. Exceções
Da instância local/central de…
perentórias: - impeditivas;
- m
odificativas;
Contestando a ação que lhe move (nome do autor), diz o réu o seguinte:
- e
Contestação do réu: xtintivas (art. 576º, nº3, CPC)
Ex.: prescrição.

III. Impugnação de factos;


IV. Reconvenção. Processo nº 71/15

Secção cível

Tipos de defesa.

O réu deve começar por defender-se pelas exceções dilatórias (se existirem).

Nota

Petição inicial. Contestação. Réplica. Despacho Sentença.

saneador.

Se existir algum vício processual (ex.: incompetência absoluta do tribunal), o processo acaba no despacho
saneador (o réu defende-se por exceção dilatória), pois os vícios processuais podem impedir o
conhecimento da matéria de facto.

40
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

Art. 573º, nº1, CPC: toda a defesa deve ser deduzida na contestação. Ex.: se estivermos perante
uma incompetência absoluta, não podemos só (ou não devemos) contestar dizendo que há uma
incompetência absoluta, devemos contestar tudo, todos os factos, pois o juiz pode entender que não há
qualquer vício processual (não há incompetência) e corremos o risco de ficar sem defesa.
Se tivermos duas exceções dilatórias (ex.: incompetência absoluta e falta de patrocínio judiciário), devemos
sempre invocar primeiro a mais grave (a primeira, neste caso).
Art. 576º, nº3, CPC

Ex.: sociedade A repara automóveis; a sociedade B é uma transportadora de mercadorias. B tem um camião
avariado e pergunta A se o pode reparar. A diz que sim e diz que o preço é de 10mil € e o tempo de
reparação é de 30 dias. Houve então a celebração de um contrato de prestação de serviços/contrato de
empreitada. Mais tarde, B não paga. A intenta uma ação contra B por este último não ter pago.

- Petição inicial de A: condenar B a pagar 10mil € pois este não pagou o montante relativo à
reparação do camião, tal como tinham convencionado.

- Contestação do réu: B diz que pagou e não deve nada.

Quem tem de provar que houve pagamento é o réu. Esta exceção perentória deste caso (de invocar o
pagamento) surge em que modalidade? Impeditiva, modificativa ou extintiva? Esta defesa está localizada
no fim da relação jurídica, logo, consequentemente, o réu defende-se por exceção perentória extintiva.

Outros exemplos de defesa:


E se B tiver sido coagido a celebrar o contrato (A apontou-lhe uma pistola)?
Neste caso, B ao invocar tal facto, trata-se de uma exceção perentória impeditiva (pois o vício está logo no
início da relação jurídica).

“Sr. Juiz, já paguei, mas não tenho o comprovativo pois já passaram 2 anos”, invocando a prescrição
da dívida: exceção perentória extintiva.

“Sr. Juiz, há um vício de forma, o contrato não foi celebrado por escritura pública”: exceção
perentória impeditiva.
Caducidade: exceção perentória extintiva.

Quando estamos perante uma exceção perentória, temos que nos localizar na relação jurídica: se está no
início – impeditiva; se está no final – extintiva. As modificativas são muito raras, acontecem sobretudo com
as servidões de passagem.

E se, no caso concreto, tivermos exceções perentórias extintiva e impeditiva, qual invocamos primeiro? Por
lógica, faz sentido invocar primeiro as impeditivas, pois vão condicionar tudo o que está a seguir.

41
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

Contudo, aquelas podem ser contraditórias entre si. Ex.: “Sr. Juiz, o contrato é nulo mas já paguei” ou “fui
coagido mas já paguei”. As impeditivas (nulidade) e extintivas (pagamento) são contraditórias entre si.

O código diz que temos de deduzir toda a defesa na contestação contudo, neste caso, isso é contraditório.
Assim devemos dizer “Exceção perentória impeditiva ou, se assim não se entender, exceção extintiva”.

Por impugnação
“Todos os factos alegados na P.I. são falsos.” Podemos fazer isto? Fazer este tipo de defesa é jurídica e
processualmente válido?

Este tipo de defesa designa-se por impugnação em bloco – art. 574º, nº1, CPC – “deve o réu tomar
posição definida sobre os factos”. Neste caso da impugnação em bloco, este tipo de defesa não é admissível
no processo civil porque viola esta disposição – o réu não toma posição quanto aos factos. Se diz que é
falso tem de dizer porque é que é falso.

Tipos de impugnação: Direta ou Indireta

“Os artigos 2 e 3 são falsos porque…” – Direta.

“Ao contrário da versão apresentada na p.i., o que se passou foi o seguinte…” – Indireta.

É muito frequente no caso de acidentes de viação. O réu conta outra versão dos factos (quando se tem
testemunhas presenciais para se produzir prova).
Se o réu invoca factos e se estes são constitutivos do direito do autor, é este último que
vai ter que os provar (Imp. Indireta);
Se o réu contra outra versão, invocando novos factos, é o próprio réu que vai ter de os provar (Imp.
Indireta).

Nota: e se se tratar de uma defesa do género “os artigos 1 e 2 da p.i. são verdadeiros”? Neste caso, os
factos presentes nos artigos respetivos ficam confessados. Isto favorece o autor, portanto, mesmo que
aqueles factos sejam verdadeiros, devemos sempre impugnar.

Exemplo de defesa não aceitável:

“Petição Inicial

1. O A e a ré contraíram matrimónio no dia 15/8/2000.”

A ré contesta a dizer “ignoro se é verdadeiro ou falso”. É claro que em certos casos, como este, esta defesa
não é aceitável. Trata-se de um facto pessoal! Há certos factos que não se podem ignorar (art. 574º, nº3,
CPC).

Por vezes ignorar é a melhor defesa mas temos de ter cuidado pois pode levar à confissão dos factos, Temos
que ter em atenção se se tratam de factos pessoais ou impessoais.

(Quanto a esta matéria: Manual do Prof. Antunes Varela)

42
Aula Teórico-Prática de 13/4/16

Caso Prático
A Sociedade Braga Imóveis, LDA, com sede em Braga, celebrou com A e B, casados no regime de
comunhão de adquiridos, um contrato de arrendamento para fins habitacionais, com início no dia
1/1/15, sendo que esse contrato tinha por objeto um apartamento localizado em Barcelos e o valor da
renda mensal era de 1000 €. Sucede que em finais de dezembro de 2015, a sociedade Braga Imóveis, LDA
descobriu que A e B, para além de não residirem no apartamento, mas antes em Guimarães, exploram
no arrendado uma pequena confeção de vestuário.

a) Sabendo que a Sociedade Braga Imóveis, LDA pretende recorrer à via judicial, que tipo de ação
devia intentar, pretendendo ela que o tribunal declare a resolução do contrato de arrendamento por
incumprimento dos arrendatários e a condenação destes na entrega do apartamento, livre de pessoas e
bens?

Art. 10º, CPC, sobre os tipos de ação. As ações podem ser declarativas ou executivas. Nas declarativas, há
ações de simples apreciação, de condenação e constitutivas.

Estamos perante uma cumulação de pedidos (art. 555º, CPC). Para o primeiro pedido (resolução do
contrato) – ação declarativa constitutiva – extintiva, o autor quer alterar a ordem jurídica, destruindo o
contrato de arrendamento (art. 10º, nº3, c), CPC. Quanto ao pedido da entrega do arrendado – ação
declarativa de condenação.

Este pedido de condenação é um pedido acessório/dependente do pedido principal da resolução do


contrato, logo a ação deverá ser declarativa constitutiva – extintiva.

E se o autor apenas pedir a resolução do contrato e se esquecer de pedir a entrega do arrendado? Ele pode
obrigar os réus a entregar o arrendado? Não, teria de haver nova ação a pedir a entrega do mesmo, porque
a sentença obtida inicialmente só extingue o contrato.

Há, no entanto, casos em que não é necessário pedir também a condenação. Ex.: casos de declaração de
nulidade; efeitos do divórcio,

b) Qual seria o valor da ação?


Arts. 296º e ss., CPC.

Critério especial do art. 301º, nº1, CPC – teoricamente, podia ser aplicado porque se trata da
resolução de um contrato mas há um critério mais específico: art. 298º, nº1, CPC, sobre as ações de despejo
– o valor da ação é o da renda de dois anos e meio, ou seja, 30mil €.

Se a ação for improcedente e o autor quiser recorrer:

Superior a 30mil € STJ Pode recorrer para a Relação, uma vez


5mil € - 30mil € Relação que os 30mil € excedem largamente os 5mil €.
Até 5mil € Comarca

Nestes casos excecionais de ações de despejo, o legislador quer proteger a parte mais fraca (o
arrendatário). Art. 629º, nº3, a), CPC: quando o arrendamento se destina a habitação, mesmo que o valor
da causa seja inferior a 5mil €, há sempre lugar a recurso para a Relação.

48
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

c) Qual o tribunal competente em razão do território para o conhecimento da causa?

Arts. 70º e ss., CPC: o art. 70º, nº1 trata ações de despejo, pelo que o tribunal competente é o tribunal da
situação dos bens.

Instância local ou central? Local, pois o alor da ação é inferior a 50mil € - Instância Local de Barcelos.

d) Suponha que, tendo A e B sido citados, apenas B contesta a ação. Que consequências processuais
decorrem da falta de contestação de A?

A foi citado e não contesta, ficando em estado de revelia.

Revelia absoluta ≠ relativa: o facto de o réu assinar o aviso de receção não tem relevância para a revelia, o
que importa é o que acontece posteriormente. Se A não dá nenhum sinal processual (constituição de
advogado, junção de requerimento, etc), a revelia é absoluta, caso contrário, é relativa.

No caso concreto, a revelia é absoluta.

A revelia absoluta é mais grave, em termos de consequências para o processo, pois existe uma incerteza
quanto à citação regular do réu. Na relativa, o juiz fica mais descansado, pois sabe que a revelia do réu não
se deve a irregularidades na citação. No caso, apesar de a revelia ser absoluta, a secretaria recebeu o aviso
de receção assinado por ambos os réus – o juiz sabe que a citação foi regularmente feita.

A falta de contestação resulta numa ficta confessio, ficciona-se que o réu confessa os factos (art. 567º, nº1,
CPC). Isto implica a procedência da ação? Não necessariamente, pode haver vícios substantivos, pode ter
caducado o direito do autor, etc.

No caso (art. 568º, a), CPC), tendo a ação dois réus e tendo um deles contestado, não se aplica o regime
da revelia, temos uma revelia inoperante – B contesta os factos e A aproveita essa contestação.

e) Caracterize a defesa apresentada na contestação de B, sabendo que esta alegou, entre outras
coisas, o seguinte:

1. Esta ação não pode ser julgada nos tribunais judiciais porque no contrato de arrendamento as
partes acordaram que, em caso de litígio, este seria resolvido nos tribunais arbitrais.

Um réu pode defender por:

49
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

Dilatória Vícios formais ou processuais.

Impeditiva
- Exceção
Perentória Modificativa
Extintiva

Mérito da
Direta
causa.
Matéria de facto
Indireta
- Impugnação
Matéria de direito

- Reconvenção

Quando o réu invoca vícios processuais ou formais a defesa só pode ser por exceção dilatória.

Se o réu se pronuncia sobre o mérito da causa (quem tem razão, quais os factos verdadeiros, se o direito
do autor prescreveu ou caducou), estamos na defesa por exceção perentória, impugnação ou
reconvenção.

O réu afirma aqui que, independentemente de quem tenha razão, o tribunal não é competente para
conhecer este litígio – vício em relação à competência, exceção dilatória (art. 577º, a), CPC). Esta
incompetência é absoluta (art. 96º, b), CPC – preterição de tribunal arbitral).

Consequência: o juiz tem de absolver o réu da instância (art. 278º, nº1, a), CPC).

2. A ré não consegue compreender a petição inicial e a pretensão da autora porque é muito confusa.

Estamos perante um vício formal (nem chega a pronunciar-se sobre o mérito), portanto trata-se de uma
exceção dilatória (art. 577º, CPC – rol de exceções dilatórias).

Existe aqui uma ineptidão da petição inicial – 577º, b) que remete para o 186º, nº1 é nulo todo o processo
quando for inepta a P.I. Se o réu afirmar que não compreende e o juiz julgar isto improcedente, o réu fica
sem defesa (Princípio da Concentração da Defesa), por isso, normalmente, o réu afirma que não
compreende MAS oferece defesa (“na eventualidade de o autor querer dizer isto, é tudo falso”) – ao
oferecer defesa, a invocação da ineptidão é improcedente, porque o réu está a afirmar que não percebe a
pretensão do autor mas, mesmo assim, defende-se do que é acusado (art. 186º, nº3, CPC).

Se a P.I. for mesmo inepta, há nulidade do processo e o réu é absolvido da instância (art. 278º, nº1, b),
CPC).

50
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

3. A ré desconhece se está ou não a ser explorada a atividade de confeção de vestuário, já que quem
trata desses assuntos é o seu marido.

Não se trata aqui de vícios mas do mérito da ação – a ré impugna os factos por desconhecimento. Porém,
se ela diz que desconhece se existe ou não aquela atividade num imóvel que era para sua habitação, isto
equivale a confessar os factos (art. 574º, nº3, CPC): trata-se de um facto pessoal que ela diz desconhecer,
pelo que a consequência é a confissão desse facto.

4. Mesmo que os factos fossem verdadeiros, o que a ré não admite, o pedido do autor não tem
qualquer fundamento jurídico.

A ré está a pronunciar-se não sobre factos mas sobre direito – impugnação da matéria de direito.

5. Há dois meses atrás, a ré instalou na fração arrendada um jacuzzi no valor de


30mil €.

A ré realizou uma benfeitoria, pelo que agora quer os 30mil € de volta. A ré teria de deduzir uma
reconvenção (art. 266º, CPC).

Se a ré tivesse instalado o jacuzzi depois de ser citada para uma ação de despejo, isto implicava a má fé:
reconvenção improcedente.

O autor, perante esta contestação-reconvenção, teria de realizar uma réplica (contestação do autor
primitivo à reconvenção do réu). O valor da ação era alterado (30mil € iniciais + 30mil € das benfeitorias) –
passava a 60mil € (art. 299º, nº2, CPC).

1ª consequência – taxas de justiça: o autor pagou, na PI, uma taxa de justiça sobre os 30mil € iniciais. Como
o réu acrescentou o valor das benfeitorias, o autor (reconvindo) terá de pagar um complemento na réplica
por causa dos novos 30mil €. O réu paga taxa de justiça sobre os 60mil € na reconvenção.

2ª consequência – competência do tribunal: se o juiz admitir a reconvenção, está a admitir que o valor do
processo se altere para 60mil €. Ora, se inicialmente o processo era tramitado na instância local de Barcelos,
esta só pode apreciar ações com valor até 50mil € -> o juiz terá de se declarar incompetente em razão do
valor e vai remeter o processo para a instância central de Barcelos.

Aula Teórico-Prática de 20/4/16

Caso Prático

A e B, casados no regime de comunhão de adquiridos, residem em Braga e são proprietários de um


terreno em Vieira do Minho. O terreno de A e B confronta a norte, nascente e sul com um terreno
pertencente a C e D, casados no regime de comunhão geral de bens, residentes no Porto, sendo que o
terreno de A e B está onerado com uma servidão de passagem a favor do terreno de C e D. Em fevereiro
deste ano, A ficou a saber que C e D venderam o terreno deles a E, solteiro, maior, residente em Vieira
do Minho, pelo preço de 100mil €, tendo esse negócio ficado a constar de uma escritura pública de
compra e venda celebrada no dia 22/1/16.
a) Suponha que A e B pretendem intentar uma ação de preferência, pedindo que seja declarado e
reconhecido o seu direito de preferência na compra do terreno e que, consequentemente, o terreno seja
transferido para a sua esfera jurídica, mediante o pagamento do preço de 100mil €, cancelando-se todos
os registos feitos a favor de E. Que tipo de ação seria essa?

O art. 1480º, CC determina que os proprietários do prédio serviente têm direito de preferência em relação
ao prédio dominante. Porém, C e D não permitiram que A e B exercessem, querendo, o seu direito de
preferência de compra e venda.

Numa ação de preferência, A e B vão depositar os 100mil € no tribunal e requerer ao juiz que, reconhecendo
a sua titularidade do direito de preferência, substitua a pessoa do comprador, ficando os autores como
compradores desse prédio.

A ação aqui será:

- Ação declarativa de simples apreciação (reconhecimento do direito): não é suficiente.

- Ação de condenação (condenar os réus a reconhecer aquele direito de A e B): não se pode condenar os
réus a fazerem o que eles não querem, nomeadamente a ir ao notário alterar a escritura.

Pretende-se algo mais grave: os autores querem alterar a ordem jurídica, mesmo contra a vontade dos
réus: ação constitutiva (art. 10º, nº3, c), CPC).

Dentro da constitutiva:

- Constitutiva (os autores querem constituir um direito a seu favor).

- Modificativa (quer-se manter o contrato como está, apenas se quer modificar o comprador).

- Extintiva (pretende-se que E deixe de ser proprietário).

Pode, desde logo, excluir-se a extintiva: os autores querem apenas modificar a ordem jurídica e não
extinguir o negócio entre C, D e E como causa principal.

Quanto à modificativa: aparentemente faz sentido. Contudo, existe um terceiro contrato que está a
interferir com a relação jurídica principal (C, D e E) – as ações modificativas implicam que

60
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

haja apenas uma relação entre as partes diretamente intervenientes no contrato (A e B são
“estranhos” ao CCV entre C, D e E; são terceiros que querem alterar a ordem jurídica).

- Resta a constitutiva – constitutiva: em caso de procedência da ação, vai-se verificar uma alteração da
ordem jurídica, constituindo-se a favor de A e B um direito de propriedade. A e B têm de fazer o depósito,
dinheiro esse que será entregue a C e D, tendo estes de devolver os 100mil € a E. Tudo se passa como se o
negócio inicial tivesse sido com A e B.

b) Pronuncie-se sobre a legitimidade ativa e passiva.

Estamos perante legitimidade plural: dois autores e dois réus.

- Litisconsórcio: uma relação jurídica.

- Coligação: duas ou mais relações jurídicas com relação de dependência entre as várias partes.

No caso em concreto temos uma única relação jurídica: CCV entre C, D e E. Estamos então num caso de
litisconsórcio.

Do lado ativo

A e B, ambos viram o seu direito de preferência lesado. Falando aqui de cônjuges – litisconsórcio necessário
legal (art. 34º, nº1, CPC).

Do lado passivo

C e D – estes têm de ser demandados em conjunto (litisconsórcio necessário legal – art. 34º, nº3, CPC), o
autor não pode escolher quem vai demandar (se pudesse, seria litisconsórcio voluntário), tendo de
demandar ambos. Este nº3 só se aplica no litisconsórcio quanto aos réus.

E quanto a E? Uma vez que os autores querem alterar a ordem jurídica – nomeadamente o CCV entre C, D
e E – eles têm de demandar todas as partes intervenientes no contrato.

Sendo assim, A e B têm de demandar todas as partes, não podem escolher: litisconsórcio necessário
natural (natural porque a sentença só produz efeitos em relação a todas as partes se todas elas forem
demandadas – art. 33º, nº2 e 3, CPC).

Os réus estão simultaneamente em litisconsórcio necessário legal (C e D) e litisconsórcio necessário


natural (C, D e E): há aqui dois litisconsórcios.

c) Qual seria o tribunal competente para o reconhecimento da ação?

Arts. 59º e ss., CPC, sobre a competência geral.

Estamos perante uma relação interna e não plurilocalizada – contacto apenas com um ordenamento
jurídico.

61
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

A competência interna reparte-se em quatro critérios:


Em Razão da Matéria
Os tribunais judiciais são competentes sempre que a causa não esteja atribuída a outra ordem jurisdicional
(art. 64º, CPC).

Art. 65º, CPC: podem existir secções de competência especializada, o que nos remete para o art. 81º, LOSJ
(Secções de Família e Menores, Cíveis, de Trabalho, de Execução de Penas, Marítimas, Comércio) – no caso,
por exclusão de partes, o caso será da competência da secção cível.
Em Razão do Valor
Art. 66º, CPC com remissão para os arts. 296º e ss., CPC: critério geral (art. 297º) e critérios especiais (arts.
298º, 301º, 302º e 303º).

Ora, neste caso não se aplica o critério do art. 302º porque não podem invocar um direito de propriedade
que não têm.

Quanto ao 301º, nº1, será este a aplicar-se: o objeto da ação em causa é o CCV entre C, D e E que viola o
direito de preferência de A e B – vai acabar por se modificar aquele contrato porque A e B vão substituir a
posição de E. O valor da ação é o estipulado pelas partes, ou seja, 100mil €.

Este valor, sendo superior a 50mil € faz a ação ser da competência da instância central.
Em Razão da Hierarquia

É sempre competente o tribunal da comarca. O valor desta ação permite recorrer até ao STJ.
Em Razão do Território

O art. 80º, CPC consagra o critério geral e os arts. 70º e ss., CPC os critérios especiais.

O art. 70º, nº1 estabelece a competência do tribunal da situação dos bens por se tratar de uma ação
referente a um direito de preferência – seria Vieira do Minho se aqui houvesse instância central.

Recorrendo ao Mapa Anexo da LOSJ, Vieira do Minho está na área de jurisdição de Braga, pelo que será a
Secção Cível da Instância Central do Tribunal da Comarca de Braga o tribunal competente para esta ação.

d) Identifique o tipo de defesa presente nos argumentos usados por C e D na sua contestação:
I. O direito dos autores já caducou.

Existem três tipos de defesa: por exceção, por impugnação e por reconvenção.

Dentro da defesa por exceção temos a dilatória e a perentória. As exceções dilatórias referem-se a vícios
formais e processuais, enquanto as perentórias se referem ao mérito da causa. Neste argumento, não se
invoca qualquer vício formal ou processual, pelo que a exceção é perentória. Dentro das exceções
perentórias: impeditiva, extintiva ou modificativa. Ao afirmarem que o direito de A e B existia mas caducou:
extintiva.

62
Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

II. Os réus desconhecem se os autores são ou não proprietários do terreno que confronta com o que
venderam a E.

Sempre que o réu diz ignorar/desconhecer um facto estamos perante impugnação do facto por
desconhecimento.

Neste caso (art. 574º, nº3, CPC), esse desconhecimento equivale a confissão, por se referir a um facto
pessoal? C e D não têm de saber se o terreno registado em nome de A e B pertence realmente a A e B, por
isso o desconhecimento equivale aqui a mera impugnação e não a confissão.

III. A ação não pode prosseguir porque não foi registada.

Há aqui um problema no processo – só há uma defesa possível aqui, que é a exceção dilatória (art. 577º,
CPC – este vício do caso não está descrito naquele artigo sendo, por isso, uma exceção dilatória inominada
[entre outros]).

Aula teórico-prática de 27/4/16

Caso Prático

A Sociedade Imóveis do Castelo, LDA, com sede em Guimarães, dedica-se à compra e venda de imóveis.
No dia 3/11/15, celebrou com A e B, solteiros, maiores, um contrato-promessa de compra e venda de
uma moradia ainda em fase de construção localizada em Braga, sendo que A e B residem em
V.N.Famalicão. Nesse contrato, ficou combinado que o preço de compra e venda era de 200mil €, que os
promitentes-compradores, A e B, entregariam um sinal de 50mil € e que a escritura definitiva de compra
e venda seria marcada até ao dia 1/2/16. Ocorre que a Sociedade Imóveis do Castelo, LDA, não marcou
a escritura definitiva de compra e venda, nem depois de ter recebido uma carta registada com aviso de
receção em que A e B perderiam o interesse no negócio e exigiriam o sinal em dobro se a escritura não
fosse marcada no prazo de
8 dias.

a) Sabendo que A e B pretendem intentar uma ação judicial, pedindo que o tribunal declare a
resolução do contrato e condene a ré no pagamento da quantia de 100mil €, correspondente ao sinal em
dobro, que tipo de ação seria essa?

Os autores pretendem a resolução do contrato e que o tribunal condene ao pagamento de 100mil €. A ação
seria constitutiva-extintiva, porque os autores pretendem a resolução do contrato. Quanto ao pedido de
condenação, este é um pedido acessório do principal que é a resolução do contrato (art. 10º, nº3, CPC).

b) Na sua contestação, a Sociedade Imóveis do Castelo, LDA veio alegar o seguinte:


I. A ação foi intentada na instância local de Braga quando, na verdade, devia ter sido
intentada na instância central de Guimarães. Que tipo de defesa é esta?

É posta aqui em causa a competência dos tribunais. Há aqui a invocação de um vício formal: exceção
dilatória.

Competência em razão do território (Braga vs. Guimarães) e em razão do valor (local vs. central). Esta
incompetência é absoluta ou relativa? (art. 96º e ss., CPC)
No caso, art. 102º - incompetência relativa e 577º, a).
Quanto à instância central e local, a ré tem razão?
Central: valor da ação é > 50mil €.

No caso em concreto: art. 296º e ss., CPC (297º critério geral, 298º e ss., critérios especiais)

Art. 301º: o objeto da ação é a resolução do contrato (nº1), pelo que o valor da ação será o valor do ato –
se o objeto é o contrato, o valor a considerar aqui não é o valor do sinal mas sim o do preço do bem objeto
do contrato, que é 200mil €.

Se as partes indicassem, por exemplo, um valor de 100mil €, ao abrigo do art. 305º, CPC, o juiz teria de fixar
o real valor.

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Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

A competência será então da instância central e não da local (100mil€ > 50mil €).
Quanto à competência em razão do território:
Arts. 70º e ss., CPC: o objeto da ação é a resolução do contrato (art. 71, nº1). Não poderia ser pelo art. 70º
porque estão aqui em causa direitos obrigacionais e não reais ou de gozo, entre outros, sobre bens imóveis.

O art. 71º, nº1 estabelece:

- O tribunal do domicílio do réu (Guimarães);

- Ou, se o réu for pessoa coletiva, o autor pode optar pelo lugar em que a obrigação deveria ser
cumprida.

Qual obrigação?

O pagamento do sinal em dobro (se a ré tivesse pago previamente, aquando da carta, o sinal em dobro,
não era necessária a ação judicial). Tratando-se de uma obrigação pecuniária, ela tem de ser cumprida no
domicílio do credor (art. 774º, CC) – V.N.Famalicão.

A ré tem razão quando diz que seria competente a instância central de Guimarães mas também a instância
central de Famalicão é competente (art. 71º, nº1, lugar em que a obrigação deveria ser cumprida).

- O juiz verifica que a instância local de Braga não é competente mas tem dois tribunais teoricamente
competentes. Como deverá ele resolver o problema?

O juiz deve convidar o autor a escolher o tribunal. Sempre que a lei permite propor a ação em mais que um
tribunal, se o tribunal for incompetente e se a incompetência for relativa, o juiz deve convidar o autor a
escolher o tribunal – à partida, o autor escolherá instância central de Famalicão.

II. A ação foi intentada só por A quando devia ser intentada por A e B. Qual a defesa?

Exceção dilatória – vício formal ou processual.

O réu diz que a ação tinha de ser proposta por dois autores, defendendo-se com base em ilegitimidade
plural (art. 577º, e), CPC).

Entre A e B: litisconsórcio e não coligação (uma única relação jurídica). Se o litisconsórcio for necessário, a
ré tem razão; se for voluntário, a ré não tem razão. Vejamos então:

Se B também é outorgante do contrato e se os autores querem a resolução do contrato, têm de estar


presentes A e B:
Litisconsórcio necessário:
- legal (não estão casados – art. 34º, CPC)
- natural (a sentença que extingue o contrato só produz efeitos plenos se todas as partes
intervenientes no contrato estiverem presentes – art. 33º, nº2 e 3, CPC)
- convencional (tinha de haver um contrato em que se dissesse que em caso de litígio a ação teria
de ser proposta por A e B).

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III. A escritura só não foi marcada dentro do prazo porque houve um atraso na construção, sendo que
esse atraso é da responsabilidade da Sociedade Construções Vimaranenses, LDA. Tipo de defesa?

Impugnação da matéria de facto:

- direta: frontalmente se nega um facto;

- indireta: a ré conta uma outra versão dos factos + confissão (a ré confessa que não marcou a escritura). –
é o caso.

IV. O contrato é nulo porque não foi celebrado por escritura pública. Tipo de defesa?

A ré não está a invocar um vício processual mas um vício quanto à validade do contrato-promessa. Não há
exceção dilatória.

Só resta: impugnação (de facto ou de direito). Se dizemos que os factos são falsos (facto), se dizemos que
os factos, apesar de verdadeiros, nunca conduziriam à pretensão do autor (direito). Não se aplica.

Resta a exceção perentória. A ré está a tentar extinguir, modificar ou impedir o direito do autor de resolver
o contrato e pedir o sinal em dobro? O contrato, sendo nulo, não vai produzir efeitos. Se dizemos que o
contrato é nulo, este vício está no início (impeditiva), no meio (modificativa) ou no fim (extintiva) da
celebração? Logo no início.

Exceção perentória impeditiva.

V. A ré procedeu à marcação da escritura dentro do prazo acordado, sendo que os autores faltaram à
escritura, pelo que o contrato deve ser resolvido por um incumprimento dos autores, com a consequente
perda do sinal a favor da ré. Tipo de defesa?

Aqui não há uma defesa, a ré sai da esfera da defesa para, ela própria, deduzir um pedido.

Neste caso, a ré poderia deduzir reconvenção? Para a reconvenção ser admissível, têm de estar
preenchidos:

- requisitos formais (art. 583º, CPC)

- requisitos substantivos (art. 266º, CPC)

Art. 266º, nº2, CPC: situações em que a reconvenção é admissível. No caso concreto, al. d) – quer o mesmo
efeito jurídico que o autor pretende (o réu quer que resolva o contrato por culpa dos autores, os autores
pedem a resolução do contrato por culpa da ré).

A al. d) aplica-se quando o pedido principal e o pedido reconvencional têm sentidos opostos, apesar de ser
a mesma coisa – nestes casos em que o pedido é o mesmo, para o valor da ação, o valor da reconvenção
não se soma ao da ação (só nesta alínea!).

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Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

c) Partindo da hipótese prevista na terceira defesa da al. b), como devia proceder a ré para
assegurar um eventual direito de regresso contra a Construções Vimaranenses, LDA?

Este processo inicia-se quando A intenta uma petição inicial. Após a entrada da petição inicial no tribunal,
este vai citar o réu (Imóveis do Castelo, LDA).

- art. 260º, CPC: após a citação, a instância deve manter-se a mesma. Quando o tribunal cita a ré, o processo
passa a ter um autor, um réu e um objeto (causa de pedir e pedido) – o processo judicial está estabilizado.

No entanto, no decurso do processo, é possível mudar sujeitos e objeto (com a reconvenção há uma
ampliação do objeto).
Quanto aos sujeitos é possível:

- Se A morrer, por exemplo, há habilitação de herdeiros;

- Se a Sociedade se declarar insolvente, é necessário recorrer à massa insolvente.

As modificações são então possíveis nos seguintes casos:

- habilitação (mortis causa ou inter vivos);

- intervenção de terceiros (arts. 311º e ss, CPC). Exemplo:

A intenta uma ação contra C e pede a resolução do contrato. Contudo falta B (litisconsórcio necessário
natural). O juiz pode convidar a parte interessada (A) a chamar terceiro ao processo
(B) – art. 6º, CPC. Para isso, A tem de apresentar no processo um requerimento de intervenção de terceiro,
corrigindo assim aquele vício.

O legislador distingue três intervenções:

- Provocada
Principal
- Espontânea

- Provocada

Intervenções Acessória - Por assistência


- Do MP

- Provocada
Oposição
- Espontânea

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1. Intervenção Principal

O terceiro passa a ser parte (no caso de cima, B vai passar a ser parte juntamente com A – autores). Neste
caso, vai ser provocada porque B é chamado. Contudo, B poderia, espontaneamente (não tão comum)
pedir para ser parte no processo.

2. Intervenção Acessória

O terceiro tem uma posição lateral ou complementar, não passa a ser parte. A intervenção acessória pode
ser de três tipos (provocada, por assistência ou do Ministério Público). A mais comum é a provocada.

Exemplo: A e B casam-se e contratam a boda de casamento com uma sociedade C que explora uma quinta
– contrato de prestação de serviços (10mil €). O camarão que serviram na boda estava estragado. A e B
pedem uma indemnização no valor de 10mil € numa ação. C diz que quem lhe forneceu os camarões foi D.
O réu (C) pode chamar D ao processo – intervenção acessória provocada. D não se torna parte, não é réu,
mas é chamado ao processo para que a sentença condenatória seja oponível a terceiro (se C for condenado
a pagar 100mil €, ele vai poder exigir a D, em direito de regresso, os 100mil €). A e B não têm qualquer
relação jurídica com D mas apenas com C, logo o D nunca poderá tornar-se réu – D tem uma relação paralela
(com C) à relação jurídica principal (entre A, B e C). Se C não chamasse D àquela ação, teria de propor uma
nova ação autónoma, pois a sentença da primeira ação não seria oponível a D.

Por assistência: quando um terceiro tem interesse em que a ação seja favorável ao autor ou ao réu. O
assistente vai “ajudar” o autor ou o réu. Exemplo: A intenta uma ação de despejo contra B. B subarrendou
um quarto a C. Se B for despejado, C vai atrás. A só precisa de propor a ação contra B. C vai pedir ao tribunal
para ajudar B, tem que haver um interesse reconhecido pelo tribunal.

Do MP: residual, estatuto do MP pode obrigar alguém a intervir num processo como assistente.

3. Por Oposição

Quando o terceiro tem uma posição contrária à do autor e à do réu.

Exemplo: A diz que é proprietário de um terreno e que B ocupou o terreno de forma abusiva. A intenta uma
ação de reivindicação, pede que B lhe entregue o terreno. C pede requerimento e vem dizer que o terreno
é seu e que se B tem de entregar o terreno a alguém é a si e não a A (oposição espontânea).

Exemplo: A, dono de um terreno, pede a B que lhe entregue esse mesmo terreno. B é citado. Entretanto,
em conversa com um amigo (C), este último diz a B que o terreno é seu. B fica na dúvida sobre a quem ai
entregar o terreno. B pode chamar C ao processo (oposição provocada).

No caso prático em análise, chama-se a Construtora como intervenção acessória provocada.

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Rita Faria Leitão Direito Processual Civil-Declaratório 2º Semestre

d) Sabendo que o processo foi concluso ao juiz, como devia proceder, tendo em conta a defesa
apresentada pela ré nos pontos I e II da al.b?

Conclusão: quando a secretaria envia o processo ao juiz para que este tome alguma decisão em forma de
processo (envio eletrónico).

Ponto I: exceção dilatória, incompetência relativa – este vício é sanável, remetendo o processo para o
tribunal competente.

Ponto II: vício processual de ilegitimidade plural, falta B no processo – o tribunal tem de chamar B ao
processo. A tem de apresentar um requerimento (incidente de intervenção de terceiros, que, como já
vimos, pode ser principal, acessória ou por oposição) – neste caso a intervenção é principal. Trata-se de
uma intervenção principal provocada porque é A quem vai apresentar um requerimento para a intervenção
de B.

E se o juiz absolvesse o réu da instância (art. 278º, d), CPC) por ilegitimidade? Esta decisão seria nula porque
o juiz omite um dever a que estava vinculado (art. 195º + 6º, CPC). Só se o vício persistisse é que o juiz
podia usar o art. 278º, d).

e) Suponha que o juiz considerou que o pedido apresentado pelo autor na petição inicial está mal
formulado, já que o autor pediu que a ré fosse condenada a pagar o sinal em dobro mas não pediu a
resolução do contrato. Além disso, o juiz considera que o autor devia ter apresentado o contrato com a
petição inicial, o que este também não fez. Em consequência, o juiz decide absolver a ré do pedido.

Findos os articulados, segue-se a fase do saneamento do processo. Nesta fase, o tribunal corrige os vícios
ou deficiências do processo.

- Art. 590º, CPC: Princípio da descoberta da verdade material, sempre que possível, o tribunal deve corrigir
vícios processuais – nº2, b): o juiz tem o dever de convidar as partes a aperfeiçoar os articulados.

Nota: petição inepta ≠ pedido com deficiências que se podem aperfeiçoar.

Ao pedir o sinal em dobro e não a Se pedisse só a resolução e não pedisse o sinal em dobro.
resolução, a ação não pode prosseguir.
Quanto ao contrato que não foi junto – saber se se trata de um documento essencial ou não para o
processo. Neste caso, o contrato é essencial. O juiz deve convidar o autor a juntar o contrato porque é esta
a parte interessada. Se o autor não o fizer, o mais provável é todos os factos que alegar sobre o contrato
não ficarem provados.

Aula Teórico-Prática de 4/5/16

Regras Processuais Referentes aos Meios de Prova

O CC regula o direito probatório material, ou seja, define os vários meios de prova e o respetivo valor. Por
sua vez, cabe ao CPC regular as regras referentes à produção de prova.

Em matéria probatória, importa referir em primeiro lugar as:

1. Presunções – juízos através dos quais, a partir de um facto conhecido, se afirma um faco
desconhecido (arts. 349º e ss. CC – legais ou judiciais).

Presunções legais: estabelecidas na lei. Exemplo: se o autor, numa ação judicial, reivindica a entrega de um
imóvel que está registado na conservatória a favor dele, a existência desse registo permite presumir que o
autor é proprietário do imóvel – presunção elidível.

Presunções judiciais: estas assentam em regras de experiência, sendo apreciadas livremente pelo tribunal.
Exemplo: A entrega um automóvel numa oficina para ser feita uma reparação no motor. Uma semana
depois, o automóvel é entregue a A, já reparado, sendo que no dia a seguir, o automóvel volta a apresentar
a mesma avaria no motor. A intenta uma ação contra a oficia e o juiz, na falta de outros elementos
probatórios, presume que a reparação efetuada foi realizada de forma defeituosa – presunções algo
discricionárias.

2. Prova por confissão (arts. 352º e ss, CC e 452º e ss, CPC)

Designada por prova rainha, porque a própria parte afirma no processo factos que lhe são desfavoráveis.
Esta confissão no processo atual pode ter lugar quer nos articulados quer em depoimento de parte – art.
459º, CPC –, que é feito sob juramento.

Se a pessoa confessar um facto, a confissão fica na própria ata de julgamento e é irretratável.

A confissão, em alguns casos, não é admissível.

Exemplo: o autor, na PI, diz que casou com a ré no dia 1/8/2000. A ré, na contestação confessa. Esta
confissão não tem qualquer valor porque só posso provar o casamento por documento.

Exemplo: o autor, na PI, diz que o réu é pai dele. O réu na contestação confessa a paternidade. Esta
confissão também não é admissível porque este direito é um direito de ordem pública e é um direito
indisponível (senão, podia haver fraude à ordem pública).

Exemplo: o autor intenta uma ação contra o réu relativamente a um dano de um terreno de que é
proprietário e diz que no dia 1/1/15, em virtude de chuvas fortes, houve um aluimento de terras que
provocou danos no terreno no valor de 100mil €. O réu confessa aquelas chuvas na contestação. O juiz
consulta a meteorologia e vê que esteve sol – confissão não admissível, facto impossível.
3. Prova documental (arts. 362º e ss, CC e 423º e ss., CPC)

De acordo com o novo CPC, os documentos têm de ser apresentados quer na PI (art. 552º), quer na
contestação (art. 572º). Excecionalmente, a lei permite que os documentos sejam apresentados
posteriormente: até 20 dias antes do julgamento, mas são condenados em multa,

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a não ser que a parte prove que não pôde apresentar documento mais cedo (art. 423º, nº2). Passando este
prazo, mesmo assim a parte pode apresentar documentos, se não pôde fazê-lo mais cedo ou se essa
apresentação só se tornou necessária em virtude de um acontecimento posterior.

Exemplo: em audiência de julgamento, uma testemunha afirma um determinado facto e, na sequência


dessa afirmação, pode ser necessário juntar algum documento.

Pode uma parte pedir ao tribunal que notifique a parte contrária a juntar documento – Princípio da
Cooperação (art. 417º), a parte fica obrigada a fazê-lo.

- Se a parte não juntar documento, o juiz pode condenar a parte em multa;

- O juiz pode apreciar livremente a recusa da parte na junção do documento;

- Pode inverter o ónus da prova (art. 417º, nº2).

Quando uma parte apresenta um documento, a parte contrária pode pronunciar-se sobre o documento
apresentar e, sempre que possível, deve impugnar o documento (arts. 444º, 446º). Se a parte não impugnar
o documento, é porque o aceita.

4. Prova testemunhal (arts. 392º e ss, CC e 495º e ss., CPC)

Prova mais comum do processo judicial. Depoimento de um terceiro sem qualquer interesse na causa.

- Pode ser testemunha num processo quem não é parte no processo.

Exemplo: a autora é sociedade por quotas, o gerente não pode testemunhar pois este é representante do
autor (art. 496º, CPC). As testemunhas são designadas quer na PI quer na contestação, devendo as partes
indicar nomes, moradas, profissões e outros elementos relevantes referentes às testemunhas (art. 498º,
nº1).

- 598º, nº2: pode-se alterar o rol de testemunhas até 20 dias antes do julgamento.

Se a parte indicar como testemunhas familiares diretos, essas pessoas elencadas no nº1 do 497º podem
recusar-se a testemunhar. Porquê? As testemunhas supostamente estão sob juramento, assim as relações
familiares não são prejudicadas.

Tal como as partes, também as testemunhas têm de prestar juramento (art. 513º, CPC).
O que acontece quando duas testemunhas prestam informações contraditórias?
O juiz pode pedir uma acareação por testemunhas – as duas testemunhas sentam-se à frente do juiz e
confrontam as suas versões.

Contradita (art. 521º, CPC): este instituto visa destruir a credibilidade de uma testemunha.
Notas finais:

- depoimentos de testemunhas que se dizem inimigas de uma das partes não são tomadas em
consideração;

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- de acordo com o nCPC, cada parte pode apresentar até cinco testemunhas se o valor da ação não ultrapassar 5mil €
ou dez testemunhas nos restantes casos.

5. Prova Pericial (arts. 467º e ss., CPC)

É utilizada nos casos em que a prova dos factos depende de conhecimentos técnicos que o tribunal não tem.

Exemplo: no âmbito de um contrato de empreitada, o autor alega que a obra tem defeitos; estes defeitos só podem
ser provados com recurso a peritagens.

De acordo com o nCPC, em princípio, a peritagem é feita por um único perito, mas nos casos excecionais do art. 468º,
nº1 pode ser feita por três peritos (perícia colegial).

O perito elabora um relatório pericial sob compromisso de honra, sendo que as partes podem reclamar do relatório e
podem pedir que o perito compareça em tribunal para prestar esclarecimentos.

6. Prova por inspeção

Pode ser feita por pessoas ou em coisas e tem lugar quando o exame judicial da pessoa ou de uma coisa é importante
para o apuramento dos factos.

Como novidade do CPC de 2013, destaca-se a possibilidade de a inspeção ser feita não pelo juiz mas por um técnico
nos termos do art. 494º, CPC.
Casos paradigmáticos: ações de direitos reais e ações de acidentes de viação.