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Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa 2008/2009

Módulo IV.I – Epidemiologia

Tema da Aula: Medição


Docente: Dr. Mário Carreira
Data: 15/04/2009 Número da Aula Previsto: 2

Índice de Conteúdos

MÉTODO EPIDEMIOLÓGICO .................................................................................. 2

MEDIÇÃO ....................................................................................................................... 2

PROPRIEDADES DE UMA MEDIÇÃO .................................................................................. 4

VARIÁVEL ...................................................................................................................... 5

TIPOS DE VARIÁVEIS ........................................................................................................ 5

TIPOS DE ESCALAS .................................................................................................... 7

VALIDADE DA MEDIÇÃO ......................................................................................... 8

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Método Epidemiológico
 Observar
 Definir
 Identificar população (em risco), i.e. o universo
 Amostra probabilística – denominador
 Contar – numerador
 Calcular taxas
 Comparar taxas
 Interferências para o universo

Medição:
“Procedimento de aplicação de uma escala padronizada para uma
variável ou um conjunto de valores.”
Dictionary of Epidemiology, John M. Last, Fourth Edition, 2001

Quem diz medição em epidemiologia, pode também dizer medição em


clínica, uma vez que a prática clínica implica que se meçam coisas, como por
exemplo a PA, a Altura, o Peso, o IMC.

Todas as medições implicam um instrumento de medida físico, tal como:


 Estadiómetro (mede a altura)
 Balança (mede o peso)
 Esfingomanómetro (mede a tensão arterial)
 Equipamento de medição da glicémia
 Ecógrafo
 Questionários

Todavia todos os dias os médicos medem coisas sem utilizar estes


instrumentos. O acto clínico em si, a avaliação clínica é uma medição.

Quando o doente entra no consultório, antes de dizer qualquer coisa, à


partida já se sabe qual é o sexo, por exemplo uma mulher.

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A melhor maneira que temos de saber qual o sexo de uma pessoa é


confiar no cariótipo, no entanto, faz mais sentido determinar o sexo pela
aparência. Se houver 0,01% de pessoas que aparentem outro sexo, não terá
muito significado. Ou seja, é importante categorizar a amostra em estudo.
Executa-se um acto de medição – variável qualitativa dicotómica, isto é,
com duas variáveis. Esta medição é muito importante em Medicina, em Saúde
pública e na Epidemiologia. Sabe-se que sendo uma mulher, ou pelo menos se
aparentar ser uma mulher, provavelmente não terá um tumor da próstata e tem
uma alta probabilidade de vir a ter um tumor maligno da mama, que tanto pode
aparecer nas mulher como nos homens.
Os nossos olhos, as nossas mãos são instrumentos de medição dos
quais podemos ter, por exemplo, a sensibilidade do sexo de uma pessoa, e
esta sensibilidade deve ser quase 100%, portanto, o instrumento de medida
pode ser a nossa mão, o nosso olho, no fundo é o nosso cérebro.
Quando na clínica ou na saúde pública queremos saber se a população
actual é mais saudável do que há 30 anos atrás, são utilizados indicadores
para medir a saúde da população como por exemplo: a esperança média de
vida, a taxa de mortalidade, a taxa de mortalidade infantil, entre outros.
A taxa de mortalidade infantil é uma taxa que nos diz logo qual é o nível
de desenvolvimento socioeconómico de um país. Portugal é neste momento o
3º país no Mundo com menor taxa de mortalidade infantil. Medir o nível de
saúde de uma população é medir o nível de saúde dos indivíduos.

A população de uma amostra para um determinado estudo deve ser


categorizada, por exemplo, a Coca-Cola quando faz estudos de mercado está
interessada em saber como é que os dois sexos bebem Coca-Cola, sendo
mais provável o sexo feminino beber Coca-Cola Zero, em relação aos homens.
Não menos importante é a definição do caso. O Inquérito Nacional de
Saúde, que é uma grande fonte de informação sobre o estado de saúde dos
portugueses, diz que a taxa de prevalência de diabetes é de 6%, porque é a
diabetes auto-definida, a definição deste questionário é aquilo que os doentes
dizem ter, não é nenhuma observação clínica. Portanto, definições diferentes
de caso dão resultados diferentes e sempre que medimos temos que usar uma
definição.

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Propriedades de uma Medição:


- Precisão
- Exactidão
- Reprodutibilidade
- Validade

Precisão – grau de variação em torno de um determinado valor médio.

Fig. 1 – Precisão

Exemplos: Se pegarmos no nosso sangue, o dividirmos por 20 tubos e o


metermos num aparelho de medição da glicémia, a probabilidade de dar o
mesmo valor em 10 ou em 20 tubos é zero e se o der, provavelmente o
aparelho está avariado. Aquilo que vai acontecer devido ao acaso e devido
também a deficiências do equipamento, porque nenhum é perfeito, é que o
valor dos 20 tubos vai ser diferente mas muito parecido.
Não tem interesse uma medição que diga que a altura média dos
homens portugueses 1,72m +/- 50 cm. Convém que um instrumento de medida
seja o mais preciso possível, isto é, ele deve andar muito próximo do valor
médio ou do valor real.

Exactidão – grau de concordância entre a média dos valores obtidos e o


valor real que estamos a medir.

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Fig. 2 – Exactidão

Reprodutibilidade – o resultado de uma medição deve ser estável, isto


é, quando se repete uma medição, o resultado obtido deve ser o mesmo, por
exemplo, um indivíduo que pesa 70 kg agora, daqui a 5 minutos não deverá
pesar 72 kg, pois se isto acontecer significa que a balança que utilizamos para
pesar o indivíduo não é um instrumento de medição reprodutível. Outro
exemplo, um médico que olhe para a mesma pessoa dez vezes seguidas e não
saiba dizer se ela tem icterícia ou não, tem que treinar um pouco mais o seu
instrumento de medida, ou seja, o seu olho.

Validade – é o conjunto de todas as propriedades anteriormente


referidas, isto é, uma medição válida é aquela que é precisa, exacta e
reprodutível.

Variável:
“Qualquer atributo, fenómeno ou evento que pode ter diferentes valores”
Dictionary of Epidemiology, John M. Last, Fourth Edition, 2001

Tipos de variáveis

 Nominais – categorias não ordenadas;

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Exemplos: sexo, clubes de futebol, cor do cabelo, dos olhos, da pele, etc.
 Ordinais – categorias ordenadas, indicam que há uma ordem;

Exemplos: muito insatisfeito – insatisfeito – satisfeito – muito satisfeito.


Não se pode alterar a ordem, mas pode-se inverter a ordem, isto é, não
posso pôr o satisfeito depois do muito satisfeito, mas pode-se pegar nesta
escala e começar do muito satisfeito para o muito insatisfeito ou vice-versa. Isto
significa em termos práticos, que quando se codifica isto numa base de dados
tanto se pode atribuir o valor 1 ao muito insatisfeito ou ao muito satisfeito,
obviamente que na análise de dados tem que se ter cuidado para não tirar
conclusões erradas. Não se pode alterar a ordem, mas é possível atribuir o
valor 1 a qualquer um deles e o valor 5 ao outro extremo da escala, não
permitindo misturá-los.

 Numéricos – Quantidades.

 Contínuos – o intervalo entre valores sucessivos é constante,


independentemente da nossa posição na escala, mas só sendo
possível obter uma medição que pode assumir valores discretos
dentro de um contínuo.

Exemplos: peso, idade, mas normalmente esta última é utilizada como


uma variável discreta, embora ela seja contínua (tenho 49 anos, determinados
meses, dias, horas, etc.).

Uma variável contínua é uma variável em que entre dois valores existe
um número infinito de valores, por exemplo, entre o 1,20m e 1,21m existem
infinitos valores, só depende do refinamento do instrumento de medida.

 Discreto – o intervalo entre valores sucessivos é constante,


independentemente da nossa posição na escala, sendo possível
obter uma medição que pode assumir qualquer valor dentro do
contínuo.

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Exemplos: número de irmãos; é uma variável em que não existe um


número infinito de valores entre dois valores.

Tipos de Escalas

 Escalas dicotómicas

Esta escala aplica-se quando as características em estudo têm apenas


duas categorias. Por exemplo, “Reside em Braga?”; a resposta só poderá ser
“Sim” ou “Não” e nunca as duas ao mesmo tempo.

 Escalas nominais
São escalas meramente classificativas, permitindo descrever as
variáveis ou designar os sujeitos sem recurso à quantificação. As observações
são divididas em categorias segundo um ou mais dos seus atributos.

 Escalas ordinais
Nesta escala, os indivíduos ou as observações distribuem-se segundo
uma certa ordem que pode ser crescente ou decrescente, permitindo
estabelecer diferenciações. A escala ordinal é a avaliação de um fenómeno em
termos da sua situação dentro de um conjunto de patamares ordenados,
variando desde um patamar mínimo até um patamar máximo.

 Escalas de intervalo
Não há zero absoluto.
A implicação disto em termos práticos é que, por exemplo, um indivíduo
que tem uma temperatura de 20ºC não tem metade da temperatura de 40ºC.
Se a escala Celsius for convertida na escala Farenheight, as distâncias vão ser
diferentes. Muitas escalas de intervalo são utilizadas como se uma pessoa que
tem 40ºC tivesse o dobro do calor que o uma pessoa que tem 20ºC, o que não
é verdade.
 Escalas de razão

Têm zero absoluto, como a altura, o comprimento, o peso, etc.

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Em saúde cada vez mais são utilizados instrumentos de medida que


provêm de outras ciências, nomeadamente das ciências sociais, como por
exemplo os questionários, alguns mais qualitativos, outros mais quantitativos.
Independentemente de serem questionários ou outro instrumento de
medida, têm que ter um conjunto de características que traduzem a validade
da medição.

Validade da Medição

 Validade de constructo – em que medida a medição corresponde


ao conceito teórico;

 Validade de critério

 Validade concorrente – a medição e o critério referem-se


ao mesmo momento, por exemplo, se quero saber se as pessoas
estão deprimidas, o meu instrumento tem que me dizer se as
pessoas estão agora e não no passado, ou seja, a medição e o
critério referem-se ao mesmo momento.

 Validade predictiva – a medição é expressa em termos da


sua capacidade para predizer um critério, isto é, até que ponto a
medição poderá ser usada com confiança na previsão de um
comportamento ou uma realização, por exemplo.

 Validade de conteúdo – a medição incorpora os domínios do


fenómeno em estudo, por exemplo, para fazer um questionário de depressão,
este tem que apresentar um conjunto de critérios como perturbações do sono,
concentração, apetite, capacidade de socialização, astenia. Existe uma série
deles que são comuns à ansiedade, como as alterações de apetite. Podemos
não ter identificado bem os conteúdos da nossa medição e pensarmos que
estamos a medir uma coisa e estamos a medir outra. A ansiedade e a
depressão compartilham algumas coisas, mas não compartilham outras, por

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exemplo, as pessoas com ansiedade não têm tendência suicida, enquanto que
pessoas com depressão podem ter.

(Nota: foi referido que os handouts que não foram abordados (handouts
18-22) não estão relacionados com a validade da medição mas sim com a
validade dos estudos que será falada mais tarde)

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