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AULA 2 – Teoria do Conhecimento – Investigando o Saber

“O que sou eu? Uma substância que pensa. O que é uma substância que
pensa? É uma coisa que duvida; que concebe; que afirma; que nega; que
quer; que não quer; que imagina e que sente.”
Descartes

1 – INTRODUÇÃO

O ser humano vive desde seus primórdios vive uma busca incessante por compreender a si
mesmo e o mundo a sua volta. Tanto que a preocupação inicial da filosofia era a origem e ordem
do mundo (kósmos). Pouco a pouco passou a indagar o que era o cosmos, qual o princípio
eterno que o ordenava e que o mantinha estável mesmo com todas as mudanças.
Dessa inquietação nasceu a Teoria do conhecimento. A teoria do conhecimento se
interessa pela investigação da natureza, fontes e validade do conhecimento. Entre as questões
principais que ela tenta responder estão as seguintes. O que é o conhecimento? Qual o
fundamento do conhecimento? Como nós o alcançamos? É possível ter conhecimento
verdadeiro? Podemos conseguir meios para defendê-lo contra o desafio cético?
Sendo assim, a teoria do conhecimento investiga as origens, as possibilidades, os
fundamentos a extensão e o valor do conhecimento.

2 – SUJEITO E OBJETO – ELEMENTOS DO CONHECIMENTO

Podemos definir conhecimento como sendo “uma representação mental da coisa


conhecida”. E neste processo há sempre dois elementos básicos: o sujeito (aquele que conhece)
e o objeto (o que é conhecido). Dessa forma, só haverá conhecimento se se o sujeito conseguir
apreender o objeto e representa-o mentalmente.
A corrente filosófica que dá mais importância ao sujeito é denominada idealismo, enquanto
que a que dá mais importância ao objeto é chamada de realismo, ou materialismo.
2.1 – IDEALISMO

O Idealismo considera que o fator determinante para o conhecimento é o sujeito. Dessa


forma a razão é subjetiva. Por essa abordagem, a razão subjetiva é válida para todo ser humano,
em qualquer espaço temporal ou físico.
A partir do pensamento idealista, a realidade se resume ao que é conhecido por meio de
ideias. Há, ainda, diferença entre a realidade e o conhecimento que temos sobre ela. Ou
seja, só podemos dizer que a realidade é racional para nós a partir de nossas ideias.
No Idealismo as coisas existem enquanto podemos pensá-las ou percebê-las e a realidade
não é a coisa em si, mas a imagem da coisa formada na consciência do sujeito e, neste âmbito,
só é possível conhecer o que se converte em pensamento ou já é abstrato, como uma ideia. Ou
seja, não há realidade fora da consciência e a realidade é uma cópia imperfeita, uma
representação na qual as coisas não existem por si mesmas (não há preexistência de objetos).
Sendo assim, a realidade é formada a partir do sujeito durante a interação que este formula com
objetos que existem somente na consciência do sujeito.

2.2 – REALISMO

O Realismo considera que o objeto determina o conhecimento e que as coisas seriam reais
e o sujeito as conhece tal como são, pois a realidade é tal como é, independente, portanto, do
sujeito que a observa.
O termo Realismo no sentido epistemológico considera que o objeto determina o
conhecimento e que as coisas seriam reais e o sujeito as conhece tal como são, pois a realidade
é tal como é, independente, portanto, do sujeito que a observa.

3 – POSSIBILIDADES DE CONHECIMENTO – A Capacidade de Conhecer a Verdade

Somos capazes de conhecer a verdade? É Possível que o sujeito apreenda o objeto? As


respostas para essas perguntas passam por duas correntes filosóficas, o Ceticismo, que defende
a impossibilidade de conhecimento da verdade, e o Dogmatismo, que admite a possibilidade de
conhecimento da verdade. Entenda verdade como o conhecimento da essência do que se quer
conhecer.
3.1 – CETICISMO ABSOLUTO: TUDO É ILUSÓRIO

O Ceticismo Absoluto nega de forma total a possibilidade de conhecimento da verdade.


Sendo assim, nada se pode afirmar de algo, porque nada se pode conhecer com plena certeza.
Como exemplos de céticos absolutos podemos citar o filósofo grego Górgias (485-380 a.C.)
que afirmava que “o ser não existe, se existisse não poderíamos conhece-lo; e se pudéssemos
conhece-lo, não poderíamos comunica-lo aos outros”.
Outro cético absoluto é Pirro (365-275 a.C.). Pirro afirmava ser impossível ao homem
conhecer a verdade por conta de duas fontes principais de erros: os sentidos e a razão. Na visão
de Pirro os sentidos não são dignos de confiança, pois podem nos induzir ao erro. Da mesma
forma, a razão induz ao erro por conta das opiniões contraditórias do ser humano.

3.2 – CETICISMO RELATIVO: O DOMÍNIO DO PROVÁVEL

O Ceticismo relativo nega apenas parcialmente a capacidade humana de conhecer a


verdade. Entre as linhas de pensamento cético relativista estão:
i – O subjetivismo que considera o conhecimento como sendo uma relação puramente
pessoal entre o sujeito e a realidade percebida; O conhecimento limita-
se às ideias e representações elaboradas pelo sujeito sendo impossível
alcançar a objetividade. O fundador do subjetivismo foi Protágoras que
afirmava que “o homem é a medida de todas as coisas”.
ii – O relativismo que entende que não existem verdades absolutas, mas apenas relativas
e que têm uma validade limitada a certo contexto histórico;
iii – O probabilismo propõe que nosso conhecimento é incapaz de atingir a certeza plena.
O que podemos alcançar é apenas uma verdade provável, que, mesmo
chegando a um alto nível de certeza nunca chegará a verdade absoluta;
iv – O pragmatismo que propõe uma concepção de ser humano como sendo práticos,
ativos, não apenas como seres pensantes por isso abandonam a
pretensão de alcançar a verdade. Para o pragmatismo a verdade não é
a correspondência entre o pensamento e a realidade, mas sim a
correspondência entre o pensamento e o objetivo a ser alcançado. Ou
seja, aquilo que é útil, que da certo, que serve ao interesse da pessoa
na prática;
4 – DOGMATISMO: A CERTEZA DA VERDADE

O Dogmatismo defende a possibilidade de atingirmos a verdade. Suas duas variantes


básicas são:

i – O dogmatismo ingênuo confia plenamente na possibilidade de conhecimento. Não vê


problema na relação sujeito conhecedor e objeto conhecido.
Defende que sem grandes dificuldades percebemos o mundo
tal como ele é. Esta visão predomina no senso comum;

ii – O dogmatismo crítico que defende nossa capacidade de conhecer a verdade a partir


de um esforço conjunto entre dos sentidos e da inteligência.
Defende que através de um trabalho metódico, racional e
científico o ser humano se torna capaz de conhecera
realidade do mundo;

5 – CRITICISMO: BUSCA E SUPERAÇÃO DO IMPASSE

Essa perspectiva foi desenvolvida pelo filósofo alemão Immanuel Kant. O representa uma
tentativa de superar o impasse causado pelo ceticismo e o dogmatismo. Tal como o dogmatismo
defende a possibilidade de conhecimento, mas se pergunta pelas reais condições nas quais esse
conhecimento seria possível. Admite a possiblidade de conhecer, porém tal conhecimento é
limitado e ocorre sob condições específicas.

6 – ORIGENS DO CONHECIMENTO – AS FONTES DO SABER

De onde se origina os conhecimentos, as ideias, os conceitos e a s representações? As


respostas para esses questionamentos estão nas seguintes correntes filosóficas: Empirismo,
Racionalismo e Apriorismo kantiano.
6.1 – EMPIRISMO: A VALORIZAÇÃO DOS SENTIDOS

A palavra empirismo vem do grego “empeiria” que significa “experiência sensorial”. O


empirismo defende que nossas ideias são provenientes de nossas percepções sensoriais. Como
mencionou John Locke, “nada vem a mente sem antes passas pelos sentidos”.
Locke defendia que a mente humana ao nascer é como uma folha em branco, ou seja,
desprovida de ideias. Todas as ideias viriam da experiência através da sensação e da reflexão. A
sensação se encarrega de levar para a mente a percepção das coisas, já a reflexão consiste nas
operações internas da própria mente.
O Empirismo atribui o conhecimento à experiência, e neste caso, considera-se que a
realidade é construída pela via dos sentidos, não havendo conhecimentos inatos e tampouco
verdades a priori, e mesmo os conceitos abstratos e universais partem de fatos concretos. Assim
sendo: “A consciência não tira os seus conteúdos da razão tira-os exclusivamente da experiência.
O espírito humano está por natureza vazio; é uma tábula rasa, uma folha em branco onde a
experiência escreve”. (HASSEM 1987, p.68).
Em outras palavras, Empirismo é a corrente filosófica que tem como fundamento que a
obtenção do conhecimento se dá através da experiência, assim, não se tira os conteúdos do
pensamento, como posiciona o racionalismo, ou seja, o espírito humano está vazio de conceitos
e somente através da experiência formulam-se os conceitos gerais. Todos os conceitos, mesmos
os mais abstratos e universais partem de fatos concretos.

6.2 – RACIONALISMO: CONFIANÇA NA RAZÃO

A palavra racionalismo vem do latim “ratio” que significa “razão”. O racionalismo atribui
confiança exclusiva a razão humana para conhecer a verdade. Da mesma forma combate a
experiência por entender que ela é uma fonte constante de erros e confusões sobre a complexa
realidade do mundo.
Em outras palavras, é a corrente que afirma que tudo que existe tem uma causa inteligível
(compreensível) sendo a razão, ou o pensamento, como a principal fonte do conhecimento
humano. Seu método é a dedução. Seu conhecimento só é aceito como racional se possuir em
seus juízos necessidade lógica e validade universal, sem precisar do uso da experiência.
No racionalismo, percebe-se a influencia da matemática, pois esta é um
conhecimento inteligível, puramente dedutivo e conceitual, com validade universal e necessária,
deste modo, pode-se enxergar, pois, que, a maioria dos racionalistas são matemáticos.
Para os racionalistas o conhecimento verdadeiro seria adquirido através da aplicação de
princípios lógicos por parte da razão humana. Para eles os princípios lógicos eram inatos ao ser
humano. Dessa forma, se algo podia ser explicado racionalmente, de forma lógica, então haveria
de ser verdade, mesmo sem comprovação da experiência.
Na visão racionalista o intelecto, através da razão, concatena os fatos levando-nos a uma
conclusão sobre determinado assunto, e assim se chega à validação do conhecimento. Dessa
forma, se a razão julga que um conhecimento é verdadeiro, é porque deve ser e sendo autêntico
esse conhecimento e de validade universal.

“Sabendo que nossos sentidos com frequência nos enganam, quis imaginar que nada existisse
que correspondesse ao que acreditamos. Mas, enquanto desejava considerar tudo falso, eu era
obrigado a pensar que eu, ao pensar, fosse alguma coisa. Percebi então que a verdade “penso,
logo existo” era sólida e verdadeira.”
(René Descartes)

6.3 – APRIORISMO KANTIANO: ENTRE A EXPERIÊNCIA E A RAZÃO

Kant afirmava que todo conhecimento começava com a experiência, mas ela sozinha não
nos dava conhecimento. Segundo o filósofo existem no ser humano certas faculdades ou
estruturas denominadas “formas de sensibilidade e entendimento” que possibilitam a experiência
e determinam o conhecimento.
Para o filósofo a experiência fornecia a matéria do conhecimento (os seres do mundo)
enquanto a razão organizava essa matéria, ou seja, dava sua forma, de acordo com categorias
ou “conceitos básicos” existentes a priori no pensamento humano (razão).
Na visão de Kant o material do conhecimento apresentava-se desorganizado e o
pensamento, através dessas categorias, se encarregava de dar ordem às informações recebidas
relacionando os conteúdos entre si.
Sendo assim, as categorias são “formas vazias” que só podem ser preenchidas pela
“matéria do conhecimento” (o que se quer conhecer) e essas matérias, por suas vez, só podem
ser pensadas dentro das categorias. O filósofo enumera 12 categorias divididas em 4 grupos
como segue:
1. QUANTIDADE: Unidade, Pluralidade e Totalidade...
2. QUALIDADE: Realidade, Negação e Limitação...
3. RELAÇÃO: Substância, Causalidade e Comunidade...
4. MODALIDADE: Possibilidade, Existência e Necessidade...
As categorias são independentes e anteriores a experiência, ou seja, são a priori. E atuam
como “recipientes vazios” que são preenchidos com os “conteúdos” provindos da experiência.
Dessa forma, o material do conhecimento provém da experiência, mas a forma que este material
adquire está no pensamento.
Assim, o processo de compreensão da realidade ocorria à medida que o pensamento
empregava essas categorias que, por sua vez, só poderiam ser aplicadas à experiência do que
acontece no espaço e no tempo.
Na visão de Kant no processo de conhecimento o pensamento sempre era anterior à
experiência e organizava o processo de conhecimento. Por isso a teoria de conhecimento de
Kant é denominada apriorismo.
Outro conceito importante na teoria do conhecimento kantiana é o Númeno e Fenômeno. O
Númeno é a natureza última da realidade, a essência ou a “coisa em si”. É o real tal como existe
em si mesmo, de forma independente da perspectiva subjetiva do observador. O fenômeno, por
sua vez, é tudo o que se observa no espaço e no tempo e aparece em nossa mente como uma
representação do que foi observado.
O Númeno não depende do sujeito para existir. Equivale ao real absoluto independente da
percepção humana, ou seja, é a realidade objetiva. Desse modo, o Númeno é um conceito
oposto ao conceito de fenômeno, pois enquanto o primeiro é objetivo, o segundo é subjetivo.
Para Kant só o Fenómeno pode ser conhecido.
O conceito Númeno é eminentemente filosófico e faz parte da terminologia implantada por
Immanuel Kant em suas reflexões sobre o conhecimento humano. A visão de Kant deve ser
entendida como um idealismo transcendental, isto é, a consideração de que o conhecimento
pode referir-se apenas aos fenômenos e não ao que são as coisas por si só.

Não conhecemos a realidade tal como ela é em si mesma,


mas apenas a realidade tal como ela se apresenta para nós.
(Immanuel Kant)