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PARTE 1

A Ciência e os
Blocos Construtores da Vida
CAPÍTULO

1 Estudando a Vida

neceu aos cientistas um conjunto de novas perspecti-


Por que as rãs estão coaxando?
vas sobre o tema.
Em agosto de 1995, um grupo de estudantes do en- Em 1996, o estudante de segundo ano da Univer-
sino médio de Minnesota, em uma viagem de campo, sidade de Stanford, Pieter Johnson, foi apresentado
caminhava através de alguns pântanos locais quando a uma coleção de rãs do Pacífico com patas extras
descobriu uma horda de rãs jovens com patas defor- crescendo dos seus corpos. Ele decidiu direcionar seu
madas, extras ou faltantes. O achado dos estudantes projeto de pesquisa para a busca do que causava es-
foi divulgado na mídia nacional e chamou a atenção sas deformidades. As rãs vieram de um pequeno lago
do público para o declínio da população de anfíbios, em uma região de agricultura próxima a minas de mer-
tópico já em estudo por muitos cientistas. cúrio abandonadas; assim, duas causas possíveis para
Existem várias razões possíveis para os problemas as deformidades eram os agentes químicos usados
na agricultura e os metais pesados provenientes das
que os anfíbios enfrentam. A poluição da água é uma
minas antigas.
possibilidade óbvia, pois esses animais se reprodu-
Pieter aplicou o método científico. Com base no
zem e vivem os estágios iniciais de vida em pequenos
que sabia e em sua pesquisa bibliográfica, propôs uma
lagos e córregos. A chuva ácida resultante da poluição explicação lógica para as rãs monstruosas – poluição
atmosférica também poderia afetar seus ambientes aquática ambiental – e elaborou um experimento para
aquáticos. A radiação ultravioleta poderia causar a testar a idéia. O experimento comparou lagos onde
existência de rãs “mutantes”? O aquecimento global existiam rãs deformadas com lagos onde as rãs eram
afeta os anfíbios de forma adversa? Alguma doença normais e testou a presença ou ausência de poluen-
está atacando esses animais? Existem evidências tes. Como freqüentemente acontece na ciência, a
para fundamentar cada uma dessas possibilidades, explicação proposta, ou hipótese, foi invalidada. Entre-
e não há uma única resposta. Por exemplo: um es- tanto, esse trabalho de campo conduziu a uma nova
tudante de graduação trouxe uma possível resposta hipótese: as deformidades seriam causadas por um
para as questões mencionadas e neste processo for- parasita. Pieter realizou experimentos laboratoriais, e
os resultados fundamentaram a
conclusão de que um determinado
tipo de parasita está presente em
alguns lagos. Esses parasitas se
alojam nos girinos e interrompem
o desenvolvimento das patas tra-
seiras das rãs adultas. A pesquisa
de Pieter não explicou o declínio
global dos anfíbios, mas esclare-
ceu um tipo de problema que os

As rãs estão apresentando graves


problemas Estas rãs do Pacífico
(Hyla regilla) preservadas exibem de-
formações múltiplas nas suas patas
traseiras. Deformidades semelhantes
foram encontradas em rãs de diferentes
regiões do mundo.
DESTAQUES DO CAPÍTULO
1.1 O que é biologia?

1.2 Como está relacionada toda a vida na Terra?

1.3 Como os biólogos investigam a vida?

1.4 Como a biologia influencia a política pública?

1.1 O que é biologia?


Biologia é o ramo da ciência que estuda os seres vivos. Os bió-
B
logos definem“seres vivos”como todos os diversos organismos
lo
descendentes de um ancestral unicelular que surgiu há quase 4
d
bilhões de anos. Devido a sua ancestralidade comum, os orga-
b
nismos vivos compartilham muitas características não-encon-
n
tradas no mundo inanimado. A maioria dos organismos vivos:
tr
Um biólogo no trabalho Como estudante do segundo ano ■ consiste em uma ou mais células;
da graduação, Pieter Johnson estudou numerosos lagos onde
habitavam as rãs do Pacífico, tentando descobrir por que al- ■ contém informação genética;
guns lagos tinham tantas rãs deformadas. ■ usa a informação genética para se reproduzir;
■ é geneticamente relacionada e evoluiu;
■ pode converter moléculas obtidas a partir do seu ambien-
te em novas moléculas biológicas;
anfíbios apresentam. A ciência geralmente progride a ■ pode extrair energia do ambiente e usá-la para o trabalho
pequenos, mas sólidos passos. biológico;
Os biólogos utilizam métodos científicos para in- ■ pode regular seu ambiente interno.
vestigar os processos da vida em todos os níveis,
Essa lista pode servir como guia básico sobre os principais
desde as moléculas até os ecossistemas. Alguns temas e para unificar os princípios da biologia encontrados
desses processos acontecem em milionésimos de neste livro. Uma lista simples, entretanto, contradiz a incrível
segundo, já outros se estendem por milhões de anos. complexidade e diversidade da vida. Algumas formas de vida
O objetivo dos biólogos é compreender como organis- podem não dispor de todas essas características ao mesmo
tempo. Por exemplo, a semente de uma planta do deserto
mos ou grupos de organismos funcionam e, às vezes, pode permanecer por muitos anos sem extrair energia do am-
eles usam esse conhecimento de formas práticas e biente, converter moléculas, regular seu ambiente interno ou
benéficas. reproduzir; mas a semente ainda está viva.
E os vírus? Embora não consistam em células, provavel-
mente evoluíram de organismos celulares, e muitos biólo-
gos os consideram organismos vivos. Os vírus não realizam
funções fisiológicas por si sós, mas parasitam para que o
maquinário das células hospedeiras faça essas funções por
eles – incluindo a reprodução. Além de possuírem informa-
ção genética, eles certamente evoluem (como sabemos, a
NESTE CAPÍTULO examinamos as ca- evolução do vírus da gripe exige mudanças anuais nas vaci-
nas criadas para combatê-los). Os vírus estão vivos? O que
racterísticas mais comuns dos organismos vivos
você acha?
e colocamos essas características no contexto Este livro explora as características da vida, como essas ca-
dos mais importantes princípios que fundamen- racterísticas variam entre os organismos, como elas evoluem e
tam a biologia. Posteriormente, oferecemos uma como funcionam juntas para permitir que os organismos so-
breve descrição geral de como a vida evoluiu e brevivam e se reproduzam. A evolução é o tema central da bio-
logia e, portanto, também deste livro. Por meio da reprodução
como os diferentes organismos na Terra estão re-
e da sobrevivência diferencial, os sistemas vivos evoluem e
lacionados. Então focamos os assuntos de ques- se adaptam aos diversos ambientes da Terra. Os processos
tionamento biológico e o método científico. de evolução geraram a enorme diversidade que vemos hoje
como vida no planeta (Figura 1.1).
4 ■ Sadava, Heller, Orians, Purves & Hillis

Os organismos vivos consistem em células ros biólogos a melhorar essa tecnologia e a usá-la para estudar
organismos vivos foram Anthony van Leeuwenhoek (holandês) e
As células e os seus processos químicos são tópicos da Parte 2 Robert Hooke (inglês), no final do século XVII. Foi van Leeuwe-
deste livro. Alguns organismos são unicelulares, constituídos por nhoek que descobriu nas gotas de água organismos unicelulares e
uma única célula que realiza todas as funções da vida, enquanto fez outras descobertas que ajudaram a melhorar, progressivamen-
outros são multicelulares, formados por um conjunto de células es- te, seus microscópios após um longo período de pesquisa. Hooke
pecializadas em diferentes funções. conduziu estudos semelhantes: a partir de observações de tecidos
A descoberta das células foi possível devido à invenção do mi- vegetais (usando cortiça, para ser mais específico), ele concluiu
croscópio, na última década do século XVI, por Zaccharias e Hans que os tecidos eram constituídos de unidades repetitivas chama-
Janssen, pai e filho holandeses que fabricavam óculos. Os primei- das de células (Figura 1.2).

(A) Sulfolobus (B) Bacilos Bactérias helicoidais (C) Cocolitoforídeo

Cocos
(D) Banksia escarlate (F) Gafanhoto (ninfa)

(E) Cogumelos “Stinkhorn”

(G) Tartaruga gigante Águia de Galápagos

Figura 1.1 As muitas faces da vida Os processos de evolução têm


permitido que milhões de organismos diversos habitem a Terra hoje.
Archaea (A) e bactéria (B) são organismos unicelulares. As três diferentes
bactérias em (B) representam as três formas (bastonetes ou bacilos; héli-
ces; esferas ou cocos) freqüentemente vistas nestes organismos, descritos
no Capítulo 26. (C) Os organismos unicelulares que apresentam maior
complexidade são comumente chamados de protistas. Os protistas são
analisados no Capítulo 27. (D) Os Capítulos 28 e 29 tratam dos vegetais
multicelulares. Os outros grupos de organismos multicelulares são (E) os
fungos, discutidos no Capítulo 30, e (F, G) os animais, descritos nos Capítu-
los 31 a 33.
Vida ■ 5

(A) (B) (C) (D)

Figura 1.2 Toda a vida consiste em células (A) O desenvolvi-


mento de microscópios, tais como o instrumento de Robert Hooke,
revelou o mundo microbiano para os cientistas do século dezesse-
Em 1676, Hooke escreveu que van Leeuwenhoek tinha te. (B) Hooke foi o primeiro a propor o conceito de células, baseado
observado “um número grande de pequenos animais em nas suas observações de finas fatias de tecido vegetal (cortiça) em
seus excrementos, os quais eram abundantes quando ele microscópio. (C) Uma moderna versão do microscópio óptico. (D)
estava sofrendo de algum desconforto, e muito poucos Uma moderna micrografia revela a complexidade de células em
ou nenhum quando ele estava bem”. Essa simples obser- uma folha.
vação representa a descoberta das bactérias.

Mais de uma centena de anos passaram antes de os estudos Hoje, prontamente aceitamos que as células provêm de célu-
com células avançarem significativamente. Em 1838, Matthias las preexistentes. Além disso, compreendemos que as proprieda-
Schleiden, biólogo alemão, e Theodor Schwann, da Bélgica, es- des funcionais dos organismos derivam de suas células. Também
tavam jantando juntos e discutindo seus trabalhos com tecidos compreendemos que as células de todos os tipos compartilham
vegetais e animais, respectivamente. Estavam impressionados muitos mecanismos essenciais, porque elas compartilham um an-
com as semelhanças nas suas observações e concluíram que os cestral comum de bilhões de anos atrás. Portanto, adicionamos
elementos estruturais de plantas e animais eram essencialmen- mais elementos à teoria celular:
te os mesmos. Formularam sua conclusão, a teoria celular, que ■ Todas as células provêm de células preexistentes.
define:
■ Todas as células são semelhantes em composição química.
■ As células são as unidades estruturais básicas e fisiológicas de
todos os organismos vivos. ■ A maioria das reações químicas da vida ocorre dentro das cé-
lulas.
■ As células são entidades distintas e os blocos construtores dos
organismos mais complexos. ■ Conjuntos completos de informação genética são replicados e
repassados durante a divisão celular.
Entretanto, Schleiden e Schwann não entendiam a origem das cé-
lulas. Pensavam que as células emergiam pela auto-organização Ao mesmo tempo em que Schleiden e Schwann construíam as
de matérias não-vivas, como os cristais formados em uma solução fundações para a teoria celular, Charles Darwin começava a com-
de sal. Essa conclusão estava de acordo com a visão prevalente do preender como os organismos sofrem mudanças evolucionárias.
momento, na qual a vida surge a partir de matérias não-vivas por
geração espontânea – camundongos a partir de roupas sujas, lar- A diversidade da vida decorre da evolução por
vas a partir de carne morta e insetos a partir de misturas de palha
seleção natural
e poças d’água. O debate sobre se a vida poderia ou não surgir da
matéria não-viva continuou até 1859, quando a Academia Fran- A evolução por seleção natural, como proposta por Charles
cesa de Ciências patrocinou uma disputa do melhor experimento Darwin, é talvez o mais importante princípio unificador da biolo-
para provar ou refutar a geração espontânea. O prêmio foi venci- gia e é o tópico da Parte 5 deste livro.
do pelo grande cientista francês Louis Pasteur – seu experimento Darwin propôs que os organismos vivos descendem de an-
provando que a vida deve estar presente para que possa ser ge- cestrais comuns e estão, portanto, relacionados uns aos outros.
rada está descrito na Figura 3.30. A visão de Pasteur sobre os mi- Ele não tinha a vantagem de conhecer os mecanismos de herança
crorganismos o levou a propor a teoria dos germes das doenças e genética que você aprenderá na Parte 3, mas mesmo assim su-
a explicar o papel dos organismos unicelulares na fermentação do pôs que tais mecanismos existiam porque a prole se assemelhava
vinho e da cerveja. Ele também criou um método de preservação aos pais de muitas maneiras. Esse simples fato é a base para o
de leite por aquecimento para matar microrganismos, processo conceito de espécie. Embora a definição precisa de uma espécie
hoje conhecido por pasteurização. seja complicada, em seu mais amplo uso, se refere a um grupo de
6 ■ Sadava, Heller, Orians, Purves & Hillis

organismos que se assemelham (“são morfologicamente seme- para reproduzir. Então, qualquer traço que confira um pequeno
lhantes”) e podem se reproduzir de forma bem-sucedida com um aumento na probabilidade de que seu possuidor sobreviverá e se
outro organismo. reproduzirá seria fortemente favorecido e poderia se espalhar na
Entretanto, a prole também difere dos seus genitores. Qual- população. Darwin chamou esse fenômeno de seleção natural.
quer população de uma espécie de planta ou animal apresenta Porque os organismos com certos traços sobrevivem e se re-
variação, e, se você selecionar os pares para reprodução com base produzem melhor sob conjuntos específicos de condições, a sele-
em algum traço específico, esse traço tem mais probabilidade de ção natural conduz a adaptações: traços estruturais, fisiológicos
estar presente na sua prole do que na população geral. Darwin ou comportamentais que aumentam as chances de um organismo
reproduziu pombos e estava bem atento aos tipos extravagantes sobreviver e reproduzir no seu ambiente (Figura 1.3). Os muitos
selecionados por padrões de penas, formas do bico e tamanhos ambientes diferentes e as comunidades ecológicas de organismos,
do corpo incomuns. Ele percebeu que, se os humanos poderiam que têm se adaptado ao longo da história evolucionária, têm con-
selecionar traços específicos, o mesmo processo poderia acontecer duzido a uma extraordinária quantidade de diversidade, a qual
na natureza – daí o termo seleção natural. contemplaremos na Parte 6 deste livro.
Como a seleção poderia funcionar na natureza? Darwin pos- Se todas as células provêm de células preexistentes e se to-
tulou que diferentes probabilidades de sobrevivência e sucesso das as diversas espécies de organismos na Terra estão relaciona-
reprodutivo poderiam fazer esse trabalho. Ele raciocinou que a das por descendentes com modificação a partir de um ancestral
capacidade reprodutiva das plantas e animais, se não controlada, comum, então qual é a fonte de informação que é passada de
resultaria em um crescimento ilimitado da população na nature- células-mãe para células-filha e de organismos genitores para
za; portanto, somente uma porcentagem da prole deve sobreviver a sua prole?

Muitas folhas são amplas e planas, As folhas de muitas


configuração que apresenta o coníferas verdes, como
máximo de superfície fotossintética pinheiros, são agulhas
para o sol. Algumas árvores, tais cobertas por ceras que
como o bordo sacarino, perdem as resistem à perda da água e
folhas em resposta ao frio ou ao não são trocadas
tempo seco. anualmente.

Estes lírios-d’água são enraizados As folhas de plantas-jarro


na parte inferior do lago. Suas formam um vaso que mantém
grandes folhas são “plataformas” água. A planta recebe nutrientes
planas que flutuam na superfície. extras a partir da decomposição
dos corpos dos insetos que se
afogam no jarro.

A habilidade para escalar pode ser vantajosa para


uma planta, permitindo atingir o topo de outras
plantas a fim de obter mais luz do sol. Algumas das
folhas deste pepino têm gravinhas fortemente
enroladas que se prendem ao redor de uma estaca.

Figura 1.3 Adaptações ao ambiente As folhas


de todas as plantas são especializadas em fotossín-
tese – a transformação da água e dióxido de carbono
em moléculas estruturais maiores chamadas de car-
boidratos, acionada pela luz do sol. As folhas de dife-
rentes plantas, entretanto, apresentam muitas adap-
tações diferentes aos seus ambientes individuais.
Vida ■ 7
Um nucleotídeo
Figura 1.4 O código genético é o protótipo da vida As ins-
Quatro nucleotídeos (C, G, T e A) truções para a vida estão contidas na seqüência de nucleotídeos
T
são os blocos construtores do DNA. C nas moléculas de DNA. Seqüências de DNA específicas cons-
tituem os genes, e a informação em cada gene fornece à célula
A
G as informações de que ela necessita para produzir uma proteína
O DNA é composto de duas específica. O comprimento médio de um único gene humano é
fitas de seqüências de 16.000 nucleotídeos.
nucleotídeos ligados.

organismo devem expressar distintas partes do seu genoma. O


controle da expressão gênica, que viabiliza o desenvolvimento e o
DNA funcionamento de um organismo complexo, é o principal foco da
atual pesquisa biológica.
O genoma de um organismo consiste em milhares de genes.
Se a seqüência de nucleotídeos de um gene for alterada, é pro-
Um gene consiste de uma seqüência vável que a proteína que ele codifica seja alterada. Alterações de
específica de nucleotídeos. genes são chamadas de mutações. As mutações ocorrem esponta-
Gene
neamente; elas também podem ser induzidas por fatores externos,
DNA
incluindo agentes químicos e radiação. A maioria das mutações é
deletéria, mas, ocasionalmente, uma mudança nas propriedades
de uma proteína altera sua função, de forma a melhorar o funcio-
A seqüência de nucleotídeos em
namento do organismo sob as condições ambientais encontradas.
um gene contém a informação para
construir uma proteína específica. Tais mutações benéficas são a matéria-prima da evolução.

Proteína As células usam nutrientes para fornecer a


energia e construir novas estruturas
Os organismos vivos adquirem substâncias chamadas nutrien-
tes a partir do ambiente. Os nutrientes suprem os organismos
A informação biológica está com energia e matéria-prima para construir estruturas biológi-
contida em uma linguagem genética cas. As células obtêm moléculas de nutrientes e as quebram em
comum a todos os organismos unidades químicas menores. Fazendo isso, elas podem capturar
a energia contida nas ligações químicas das moléculas de nu-
As instruções das células – ou “protótipos” para existência – estão trientes e usar essa energia para diferentes tipos de trabalho.
contidas no seu genoma, que é o conjunto total de todas as molé- Um tipo de trabalho celular é a construção, ou síntese, de novas
culas de DNA na célula. As moléculas de DNA (ácido desoxirribo- moléculas e estruturas a partir de unidades químicas menores.
nucléico) são longas seqüências de quatro diferentes subunidades Por exemplo, estamos todos familiarizados com o fato de que os
chamadas nucleotídeos. A seqüência dos nucleotídeos contém a carboidratos ingeridos hoje podem ser depositados no organis-
informação genética. Os segmentos específicos de DNA chama- mo como gordura amanhã (Figura 1.5A). Outro tipo de trabalho
dos de genes contêm a informação que a célula usa para produ- que as células fazem é o mecânico – por exemplo, moléculas se
zir as proteínas (Figura 1.4). As proteínas representam muito da movimentando de uma localização celular para outra, ou mesmo
estrutura de um organismo e são as moléculas que coordenam as o movimento de células ou tecidos completos, como no caso dos
reações químicas no interior das células. Fazendo uma analogia, músculos (Figura 1.5B).
os nucleotídeos do DNA são como as letras de um alfabeto e as
moléculas de proteína são as frases que elas escrevem. As combi-
nações de proteínas que constituem estruturas e controlam pro- Os organismos vivos controlam
cessos bioquímicos são os parágrafos. As estruturas e os processos o ambiente interno
organizados em diferentes sistemas com tarefas específicas (tais
como digestão ou transporte) são os capítulos do livro e o livro A vida depende de milhares de reações bioquímicas que ocorrem
completo é o organismo. A seleção natural é a autora e a editora dentro das células. Essas reações requerem materiais que se mo-
de todos os livros na biblioteca da vida. vem para dentro ou para fora das células de maneira controla-
da. Dentro das células, as reações estão ligadas de forma que os
produtos de uma serão as matérias-primas da próxima. Para essa
Se você tivesse que escrever seu próprio genoma usan- complexa rede de reações ser propriamente integrada, as veloci-
do quatro letras para representar os nucleotídeos, es- dades das reações dentro de uma célula devem ser precisamente
creveria um total de mais de 3 bilhões de letras. Se você controladas. Uma grande proporção das atividades celulares está
usar o mesmo tipo de letras como estas neste livro, seu direcionada para a regulação de múltiplas reações químicas conti-
genoma preencheria cerca de mil volumes do tamanho nuamente em andamento no seu interior.
deste. Os organismos compostos de mais de uma célula têm um am-
biente interno que não é celular. Isto é, suas células são banhadas
em fluidos extracelulares, a partir dos quais recebem nutrientes
Todas as células de um organismo multicelular contêm o mes- e para os quais excretam seus dejetos. As células de organismos
mo genoma. Diferentes células têm diferentes funções e formam multicelulares são especializadas em contribuir de alguma forma
estruturas diversas. Portanto, diferentes tipos de células em um para a manutenção do ambiente interno. Entretanto, com a evo-
8 ■ Sadava, Heller, Orians, Purves & Hillis

(B) Átomos
As moléculas são compostas
de átomos. As células são
constituídas de moléculas.

Molécula

As células de muitos tipos


são os componentes
necessários para o
Célula (neurônio) funcionamento dos
(A) organismos vivos.

Um tecido é um grupo de
muitas células com funções
semelhantes e coordenadas
(tais como sensores de odores).
Tecido (bulbo olfatório)

Os órgãos combinam diversos tecidos que


Órgão (cérebro) funcionam juntos. Os órgãos formam os
sistemas, como o sistema nervoso.

Organismo (peixe)

Figura 1.5 A energia a partir dos nutrientes


pode ser armazenada ou usada imediata-
mente (A) As células deste esquilo do Ártico
População (conjunto de peixes)
degradam carboidratos complexos de plantas e
convertem suas moléculas em gorduras, que são
armazenadas no corpo do animal para fornecer Um organismo é um indivíduo
o suprimento de energia nos meses frios. (B) As reconhecível, em si mesmo. Um
organismo multicelular é constituído
células deste canguru estão degradando moléculas por órgãos e sistemas de órgãos.
do alimento e usando a energia em suas ligações
químicas para fazer trabalho mecânico – neste Uma população é um grupo
caso, pular. de muitos organismos da
mesma espécie.

lução de funções especializadas, estas perdem muitos


dos papéis exercidos por organismos unicelulares e, As comunidades
portanto, dependem do ambiente interno para os tra- consistem em
balhos essenciais. A interdependência dos diferentes populações de muitas
tipos de células em um organismo multicelular pode espécies diferentes.
ser expressa no famoso lema dos Três Mosqueteiros:
“Um por todos e todos por um!”.
Para cumprir tarefas especializadas, conjuntos de
células semelhantes são organizados em tecidos. Por
exemplo, uma única célula muscular não pode gerar
muita força, mas, quando muitas se combinam para
formar o tecido de um músculo em contração, força
e movimento consideráveis podem ser gerados (ver
Figura 1.5B). Os diferentes tipos de tecidos são orga-
nizados para formar órgãos que cumprem demandas
específicas. Os órgãos familiares incluem o coração, o
cérebro e o estômago. Os órgãos cujas funções são in-
ter-relacionadas podem ser agrupados em sistemas de
órgãos. Os papéis das células, dos tecidos, dos órgãos Comunidade (recifes de corais)

As comunidades biológicas na mesma


Figura 1.6 A biologia é estudada em muitos níveis de or- localização geográfica formam os ecossiste-
ganização As propriedades da vida emergem quando o DNA mas. Os ecossistemas trocam energia e criam a Biosfera
e outras moléculas são organizados em células. A energia flui por biosfera da Terra.
todos os níveis biológicos demonstrados aqui.
Vida ■ 9

(A) Figura 1.7 Conflito e


cooperação Os orga-
nismos da mesma espécie
(B) interagem uns com os
outros de várias formas. (A)
Elefantes marinhos territo-
riais defendem extensões
de praia de outros machos.
Um único macho que con-
trola uma extensão de praia
é capaz de se acasalar
com muitas fêmeas (veja
ao fundo) que vivem ali. (B)
Membros de uma colônia
de suricatos estão comu-
mente relacionados uns
aos outros. Suricatos co-
operam de muitas formas,
tais como controlando a
presença de predadores e
dando um sinal de alerta se
um deles aparecer.

e dos sistemas de órgãos são todos integrados para organismos As descobertas na biologia podem
multicelulares (Figura 1.6). A biologia dos organismos é o assunto ser generalizadas
das Partes 8 e 9 deste livro.
Como a Figura 1.6 demonstra, os organismos individuais não Como toda a vida está relacionada a descendentes provenientes de
vivem em isolamento e a hierarquia da biologia continua além um ancestral comum, e compartilha um código genético e consiste
deste nível. em blocos de construção semelhantes – as células –, o conhecimen-
to obtido a partir de investigações de um tipo de organismo pode,
Os organismos vivos interagem com cuidado, ser generalizado para outros organismos. Portanto,
uns com os outros os biólogos podem usar sistemas-modelo de pesquisa, sabendo
da possibilidade de estenderem seus achados a outros organismos
Os organismos interagem com os ambientes externos tão bem e aos humanos. Por exemplo, nosso conhecimento básico das rea-
quanto com os ambientes internos. Os organismos individuais in- ções químicas nas células origina-se da pesquisa sobre bactérias,
teragem entre si e fazem parte de uma população que, por sua vez, mas é aplicável a todas as células, incluindo as células humanas. De
relaciona-se com populações de diferentes organismos. modo semelhante, a bioquímica da fotossíntese – o processo em
Os organismos interagem de muitas formas diferentes. Por que as plantas usam a luz do sol para produzir moléculas biológicas
exemplo, alguns animais são territoriais e por isso tentam preve- – foi amplamente estudada por meio de experimentos em Chlorella
nir outros indivíduos de sua espécie da exploração do recurso que (um tipo de alga; ver Figura 8.12). Aprendemos muito do que sabe-
eles defendem, seja alimento, ninhos ou parceiros (Figura 1.7A). mos sobre os genes que controlam o desenvolvimento de plantas
Os animais também podem cooperar com membros de suas espé- a partir de trabalhos acerca de uma única espécie (ver Capítulo 19).
cies, formando unidades sociais, tais como uma colônia de cupins, O conhecimento de como os animais se desenvolvem provém de
um cardume de peixes ou uma colônia de suricatos (Figura 1.7B). estudos sobre o ouriço-do-mar, sobre os anfíbios, sobre as aves, so-
Essas interações entre indivíduos têm resultado na evolução de bre os nematóides e sobre as moscas-das-frutas. Recentemente, a
comportamentos sociais, como a comunicação. descoberta do principal gene controlador da cor da pele humana foi
As interações das populações de muitas espécies diferentes obtida com base em um estudo do peixe-zebra. Ser capaz de gene-
formam uma comunidade, e tais relações são uma força evolucio- ralizar a partir de sistemas-modelo é uma ferramenta poderosa.
nária importante. As adaptações que dão a um indivíduo de uma
espécie vantagens em obter membros de uma outra espécie como
alimento (e o inverso, adaptações que reduzem as chances de um 1.1 RECAPITULAÇÃO
indivíduo de se tornar alimento) são primordiais na história evo- Os organismos vivos são constituídos de células, evoluem
lucionária. Organismos de diferentes espécies podem competir por seleção natural, contêm informação genética, obtêm
pelos mesmos recursos, resultando em seleção natural para adap- energia a partir do seu ambiente e a utilizam para fazer tra-
tações especializadas que permitam certos indivíduos explorarem balho biológico, controlar seu ambiente interno e interagir
esses recursos mais eficientemente do que os demais. uns com os outros.
Em uma dada localidade geográfica, as comunidades intera-
gem formando ecossistemas. Os organismos no ecossistema po- ■ Você pode descrever a relação entre a evolução por seleção
dem modificar o ambiente de várias formas que afetam outros natural e o código genético? Ver p. 5-7.
organismos. Por exemplo, em alguns ambientes terrestres, as
plantas dominantes modificam bastante as condições ambientais ■ Você compreende por que os resultados da pesquisa bioló-
nas quais animais e outras plantas devem viver. As formas nas gica de uma espécie podem ser generalizados para outras
quais as espécies relacionam-se umas com as outras e com seu espécies muito diferentes? Ver p. 9.
ambiente é assunto da ecologia, o tópico da Parte 7 deste livro.
10 ■ Sadava, Heller, Orians, Purves & Hillis
A presença de moluscos amonóides bem
preservados em um leito fóssil
Agora que fizemos uma revisão sobre as principais característi- freqüentemente ajuda os cientistas a datar
cas da vida, que serão exploradas com profundidade neste livro, outros fósseis encontrados no mesmo local.
podemos perguntar como e quando a vida surgiu primeiramente.
Na próxima seção, descrevemos a história da vida tendo em vista
as suas formas mais simples até os organismos mais complexos e
diversos que habitam nosso planeta hoje.

1.2 Como está relacionada


toda a vida na Terra?
O que os biólogos entendem quando dizem que todos os organis-
mos são geneticamente relacionados? Eles querem dizer que todas
as espécies na Terra compartilham de um ancestral comum. Se duas
espécies são semelhantes, como os cães e os lobos, provavelmente
possuem um ancestral comum em um passado bastante recente.
O ancestral comum de duas espécies diferentes – como cachor-
ros e cervos – viveu provavelmente no passado distante. E se dois
organismos são muito diferentes – como um cão e um molusco –
então devemos voltar para um passado ainda mais distante para Figura 1.8 Os fósseis fornecem uma visão da vida passada
Os mais proeminentes dos muitos organismos fossilizados nesta
encontrar o seu ancestral comum. Como podemos dizer o quanto
amostra de pedra são amonóides, um grupo extinto de moluscos
distante viveu o ancestral comum de qualquer organismo? Em
cujos parentes vivos incluem os cefalópodes. Os amonóides se
outras palavras, como descobrimos as relações evolucionárias en- desenvolveram entre 200 milhões e 60 milhões de anos atrás; este
tre os organismos? grupo específico de fósseis tem cerca de 185 milhões de anos.
Por muitos anos, os biólogos investiga-
ram a história da vida por meio do estudo
do registro fóssil – os restos preservados dos
organismos que viveram em um passado Cada “dia” representa cerca A vida provavelmente surgiu há
distante (Figura 1.8). Com base no conhe- de 150 milhões de anos. cerca de 4 bilhões de anos.
cimento produzido pelos geólogos sobre as
idades dos fósseis e sobre a natureza dos
ambientes nos quais eles vivem, os biólogos Formação Origem
da Terra First life? da vida
inferiram as relações evolucionárias entre
organismos vivos e fósseis ao comparar suas Fósseis
semelhanças e diferenças anatômicas. O de- mais
antigos
senvolvimento de modernos métodos mo-
leculares para comparar genomas, descrito Evolução
no Capítulo 24, tem permitido aos biólogos da
fotossíntese
estabelecer, de forma mais precisa, os graus
de relação entre organismos vivos e usar esta Evolução Organismos
informação para nos ajudar a interpretar os das células multi-
registros fósseis. eucarióticas celulares
Em geral, quanto maiores forem as dife- 27
renças entre os genomas das duas espécies,
mais distante o ancestral comum. Usando
técnicas moleculares, os biólogos estão ex-
plorando questões fundamentais sobre a
vida na Terra. Quais foram as formas mais Vida aquática 27 Primeiras plantas 28 29 30
precoces de vida? Como organismos simples terrestres Florestas que originaram Primeiros pássaros
Fósseis abundantes o carvão mineral Primeiras plantas
deram origem à enorme diversidade de or- Primeiros animais com flores
Insetos
ganismos vivos hoje? Podemos reconstruir a terrestres Surgimento de mamíferos Primeiros
Primeiros mamíferos
árvore genealógica de toda a vida? hominídeos
Era dos dinossauros
Homo sapiens
A vida surgiu a partir de O Homo sapiens (homem
moderno) surgiu nos últimos
matéria não-viva por meio 10 minutos do dia 30. 12
2 A história registrada
da evolução química preenche os últimos
segundos do dia 30.
Os geólogos estimam que a Terra tenha cerca
de 5 bilhões de anos. No primeiro bilhão de 9 3
anos, o planeta não era um local muito favo- Figura 1.9 O calendário da vida Ao descre-
rável para a vida. A vida provavelmente sur- vermos a história da vida na Terra em uma esca-
gira apenas no final desse período, ou cerca la de um mês correspondendo a 30 dias, tem-se
6
de quatro bilhões de anos atrás. Se compa- noção da imensidão do tempo evolutivo.
Vida ■ 11

rássemos a história da Terra como um calendário de 30 dias, este


evento ocorreria aproximadamente no final da primeira semana
(Figura 1.9).
Quando consideramos como a vida pode ter surgido da
matéria não-viva, devemos considerar as propriedades da jo-
vem atmosfera terrestre, oceanos e clima, que eram muito di-
ferentes quando comparadas com as dos dias atuais. Os biólo-
gos postulam que as moléculas complexas surgiram através de
uma associação física de agentes químicos naquele ambiente.
Os experimentos que simularam as condições da Terra, naque-
la época, confirmaram que a geração de moléculas complexas
sob tais condições é possível, até mesmo provável. Entretanto, o
passo crítico para a evolução da vida teria sido o aparecimento
de moléculas que poderiam se reproduzir e também servir como
modelos para a síntese de moléculas maiores com formas com-
plexas, mas estáveis. A variação das formas dessas moléculas
grandes e estáveis (descrita no Capítulo 3) permitiu a elas parti-
cipar em um crescente número e tipos de interações com outras
moléculas: as reações químicas.

A evolução biológica começou Figura 1.10 Os organismos fotossintéticos mudaram a at-


quando as células se formaram mosfera da terra Esta moderna cianobactéria pode ser muito
parecida com os procariotos fotossintéticos antigos que introduzi-
O segundo passo crítico na origem da vida foi a delimitação de ram o oxigênio na atmosfera terrestre.
moléculas biológicas complexas em membranas, que as manti-
nham próximas e aumentavam a freqüência com que elas inte-
ragiam. Moléculas semelhantes a gorduras foram os ingredientes
críticos: como estas não são solúveis em água, elas formam filmes quebradas para fornecer energia metabólica. Uma vez que os
parecidos com membranas. Esses filmes tendem a formar vesícu- processos que capturam energia fornecem alimento para outros
las esféricas, as quais poderiam manter as organizações de outras organismos, a fotossíntese é a base de uma significativa parte da
moléculas biológicas. Os cientistas afirmam que há cerca de 3,8 vida na Terra hoje.
bilhões de anos, esse processo natural de formação de membra- As células fotossintéticas antigas eram provavelmente seme-
nas resultou nas primeiras células com habilidade de se replicar lhantes aos procariotos dos dias atuais, chamados de cianobac-
– um evento que marcou o início da evolução biológica. térias (Figura 1.10). Ao longo do tempo, os procariotos fotos-
Dois milhões de anos após as células se originarem, todos os sintéticos se tornaram tão abundantes que vastas quantidades
organismos consistiam somente de uma célula. Esses primeiros de gás oxigênio – O2, produto da fotossíntese – começaram len-
organismos unicelulares eram (e são, desde que inúmeros de seus tamente a se acumular na atmosfera. O O2 foi venenoso para
descendentes existem de forma similar ainda hoje) os procario- muitos dos procariotos que viveram naquele tempo. Entretanto,
tos. A estrutura da célula procariótica consiste de DNA e outros aqueles organismos que toleraram o O2 foram capazes de proli-
metabólitos delimitados por uma membrana. ferar, já que a presença de oxigênio abriu vários caminhos para
Esses procariotos antigos estavam confinados nos oceanos, a evolução. O metabolismo baseado no uso de O2, chamado de
onde havia abundância de moléculas complexas que eles pode- metabolismo aeróbico, é mais eficiente do que o metabolismo ana-
riam usar como matéria-prima e fonte de energia. O oceano pro- eróbico (que não usa oxigênio), que caracterizava os organismos
tegia esses organismos dos efeitos deletérios da luz ultravioleta, mais antigos. O metabolismo aeróbico permitiu que as células
que era intensa naquela época, porque não havia oxigênio na at- crescessem mais e hoje é usado pela maioria dos organismos
mosfera e, portanto, sem a proteção da camada de ozônio. da Terra.
Por milhões de anos, as vastas quantidades de oxigênio libe-
rados pela fotossíntese formaram a camada de ozônio (O3) na at-
A fotossíntese mudou o curso da evolução mosfera. Com o aumento da camada de ozônio, foi interceptada
muito da letal radiação solar ultravioleta. Somente nos últimos
A soma total de todas as reações químicas que ocorrem dentro de
800 milhões de anos, a presença de uma densa camada de ozônio
uma célula constitui o metabolismo celular. Para abastecer seu
permitiu que os organismos deixassem a proteção dos oceanos e
metabolismo, os procariotos obtinham moléculas diretamente do
vivessem na superfície terrestre.
seu ambiente, degradando estas pequenas moléculas para libe-
rar a energia contida nas suas ligações químicas. Muitas espécies
mais recentes de procariotos ainda funcionam desta maneira e de As células eucarióticas evoluíram a partir
forma muito bem-sucedida. dos procariotos
Um passo extremamente importante que mudaria a natu-
reza da vida na Terra ocorreu há cerca de 2,5 bilhões de anos Outro importante passo na história da vida foi a evolução das cé-
com a evolução da fotossíntese. As reações químicas da fo- lulas com discretos compartimentos intracelulares chamados de
tossíntese (explicadas no Capítulo 8) transformam a energia da organelas, capazes de realizar funções celulares especializadas.
luz solar em uma forma de energia capaz de ativar a síntese de Esse evento aconteceu em torno de 3 semanas no nosso calen-
grandes moléculas biológicas. Essas moléculas grandes se tor- dário da história da Terra (ver Figura 1.9). Uma dessas organelas,
nam os blocos construtores das células; elas também podem ser o núcleo, surgiu para conter a informação genética da célula. O
12 ■ Sadava, Heller, Orians, Purves & Hillis

núcleo tem a aparência de um denso cerne, dando a estas célu- Os biólogos podem delinear a
las o seu nome: eucariotos (do grego eu, “verdadeiro”, e karyon, árvore evolutiva da vida
“cerne”), o que as distingue das células de procariotos, que não
possuem compartimentos internos (pro,“antes”). Se todas as atuais espécies de organismos no planeta são descen-
Hipóteses indicam que as organelas se originaram de células dentes de um único tipo de organismo unicelular que viveu há
que ingeriram outras menores (ver Figura 4.26). Por exemplo, a quase 4 bilhões de anos, como elas se tornaram tão diferentes?
organela especializada em conduzir a fotossíntese, o cloroplasto, Já que indivíduos dentro de uma população se acasalam ale-
poderia ter se originado de um procarioto fotossintético ingerido atoriamente, mudanças funcionais e estruturais podem evoluir
por um eucarioto maior. Se as células maiores não quebraram o dentro daquela população, mas esta permanecerá uma espécie.
provável objeto alimentar, poderia ter evoluído uma associação Entretanto, se algum evento isola alguns membros de um grupo
na qual o procarioto ingerido fornecesse os produtos da fotos- de outros, diferenças funcionais e estruturais entre eles podem se
síntese e a célula hospedeira, um bom ambiente para o seu par- acumular ao longo do tempo. Em resumo, as vias evolucionárias
ceiro menor. dos dois podem divergir para o ponto onde seus membros não
podem mais se reproduzir entre eles. Transformaram-se em espé-
cies diferentes. Esse processo evolucionário, chamado especiação, é
A multicelularidade surgiu e as
detalhado nos Capítulos 22 e 23.
células se especializaram Os biólogos dão a cada espécie um nome científico formado
Há aproximadamente 1 bilhão de anos, todos os organismos que por dois nomes latinizados (binomial). O primeiro nome identifica
existiam – procariotos ou eucariotos – eram unicelulares. Outro o gênero da espécie – um grupo de espécies que compartilha um
importante passo evolucionário ocorreu quando alguns eucario- ancestral comum recente. O segundo é o nome da espécie. Por
tos falharam em se separar após a divisão celular, permanecendo exemplo, o nome científico da espécie humana é Homo sapiens:
ligados uns aos outros. A permanente associação das células pos- Homo é o nosso gênero e sapiens é a nossa espécie. Os nomes
sibilitou que algumas células se especializassem em certas fun- científicos geralmente se referem a alguma característica da espé-
ções, como reprodução, enquanto outras se especializassem em cie. Homo deriva da palavra latina para “homem” e sapiens deriva
outras finalidades, como a absorção de nutrientes e sua distribui- da palavra latina para “inteligente” ou “racional”.
ção para células vizinhas. Essa especialização celular permitiu Em torno de 30 milhões de espécies de organismos podem
aos eucariotos multicelulares aumentarem seu tamanho e se tor- existir na Terra hoje. Algumas espécies viviam no passado, mas
narem mais eficientes na obtenção de recursos e na adaptação a atualmente estão extintas. Milhões de eventos de especiação cria-
ambientes específicos. ram essa vasta diversidade, e o desdobramento desses eventos
pode ser diagramado como uma “árvore evolucionária”, demons-
trando a ordem na qual as populações se dividem e, finalmente,
evoluem em novas espécies. Uma árvore evolucionária traça os
descendentes dos ancestrais que viveram em diferentes tempos
no passado. Assim, os organismos de qualquer ramo comparti-
BACTERIA lham um ancestral na base daquela linha. Os grupos mais pro-
Ancestral ximamente relacionados são colocados juntos no mesmo ramo;
comum
ARCHAEA enquanto os organismos mais distantemente relacionados estão
de todos em diferentes ramos. Neste livro, adotamos a convenção de que o
organismos
tempo flui da esquerda para a direita, de modo que a árvore na Fi-
gura 1.11 (e outras árvores neste livro) se posiciona sobre seu lado,
com sua raiz – o ancestral de toda a vida – na esquerda. Muitos
Archaea e Eukarya detalhes ainda precisam ser esclarecidos, mas os aspectos gerais
compartilham um da Árvore da Vida foram determinados. Seus padrões de ramifi-
ancestral comum cação estão baseados em um rico conjunto de evidências obtido
não compartilhado com base em fósseis, em estruturas, em processos metabólicos,
pelas bactérias.
em comportamento e em análises moleculares de genomas.
Não existem fósseis para nos ajudar a
Plantas
A célula eucariótica provavel- determinar as divisões anteriores na linha-
mente evoluiu somente uma gem da vida, já que aqueles organismos
Três principais
vez. Muitos grupos diferentes grupos de unicelulares não possuíam partes que po-
de eucariotos microbianos eucariotos deriam ser preservadas como fósseis. En-
(protistas) surgiram de um multicelulares tretanto, evidências moleculares têm sido
Fungos
ancestral comum. evoluíram de usadas para separar os organismos vivos em
diferentes grupos três domínios principais: Bacteria, Archaea
de eucariotos
microbianos.
e Eukarya (Figura 1.11). Os organismos de
EUKARYA cada domínio têm evoluído separadamente
Animais de organismos em outros domínios por mais
de um bilhão de anos.
Antigos Atuais Os organismos dos domínios Archaea e
Tempo
Bacteria são procariotos. Archaea e Bacteria
Figura 1.11 A árvore da vida O sistema de classificação usado neste livro divide os organis- diferem tão fundamentalmente entre si nos
mos terrestres em três domínios: Bacteria, Archaea e Eukarya. Os ramos não marcados em azul seus processos metabólicos que acredita-se
representam vários grupos de eucariotos microbianos, comumente conhecidos como “protis- que eles se separaram em linhagens evoluti-
tas”. (Ver Apêndice A para uma versão mais detalhada da árvore.) vas distintas muito antes.
Vida ■ 13

Membros do terceiro domínio – Eukarya – possuem células A observação é uma importante habilidade
eucarióticas. Os três principais grupos de eucariotos multicelula-
res – plantas, fungos e animais – evoluíram a partir de eucariotos Os biólogos têm observado o mundo ao seu redor, mas hoje
microbianos, geralmente referidos como protistas. O protista fotos- suas habilidades para observar são bastante aumentadas por
sintético, que deu origem às plantas, era completamente distinto tecnologias sofisticadas, como microscópios eletrônicos, chips
do ancestral dos animais e fungos, como pode ser visto pelo pa- de DNA, imagens por ressonância magnética e satélites de po-
drão de ramificação da Figura 1.11. sicionamento global. Os avanços na tecnologia têm sido res-
Algumas bactérias, algumas archaea, alguns protistas e a ponsáveis pela maioria dos progressos na biologia. Por exemplo,
maioria das plantas são capazes de fazer fotossíntese. Esses or- há certo tempo era extremamente difícil e se despendia muito
ganismos são chamados de autotróficos (auto-alimentadores). As tempo para decifrar a seqüência de nucleotídeos que constituem
moléculas biológicas que eles produzem são o alimento primário um gene. Novas tecnologias permitiram aos biólogos realizar o
para quase todos os outros organismos vivos. seqüenciamento completo do genoma humano em apenas 13
Os fungos incluem mofos, cogumelos, leveduras e outros orga- anos (1990-2003). Os cientistas agora usam esses métodos roti-
nismos semelhantes, sendo todos heterotróficos (alimentam-se de neiramente, seqüenciando os genomas dos organismos (incluin-
outras fontes), ou seja, eles precisam de uma fonte de moléculas do os que causam sérias doenças) em alguns dias. Exploraremos
algumas dessas tecnologias e o que aprendemos a partir delas
sintetizadas por outros organismos, que são quebradas para obter
na Parte 4 deste livro.
energia para os seus processos metabólicos. Os fungos degradam
Nossa habilidade de observar as distribuições dos organismos,
moléculas de alimento ricas em energia no seu ambiente e, então,
como os peixes nos oceanos ao redor do mundo, também melho-
absorvem os produtos do processo para suas células. Alguns fun-
rou significativamente. Há pouco tempo, pesquisadores poderiam
gos são importantes decompositores de resíduos e corpos mortos
colocar marcas físicas nos peixes e então esperavam que algum
de outros organismos.
pescador pescasse um desses peixes e enviasse de volta a marca, o
Como os fungos, os animais são heterotróficos, mas, ao con-
que poderia ao menos revelar até onde o peixe chegou. Hoje, dis-
trário dos fungos, eles ingerem sua fonte de alimento, então de-
positivos eletrônicos de registro ligados ao peixe podem registrar
gradam o alimento no trato digestivo. Os animais ingerem outras
continuamente não só onde o peixe está, mas também a que pro-
formas de vida, inclusive plantas, fungos e outros animais. Suas fundidade ele nada nos diferentes períodos do dia e a salinidade
células absorvem os produtos da degradação e obtêm energia e temperatura da água ao seu redor (Figura 1.12). Em determina-
destes produtos. dos intervalos, esses dispositivos encaminham informações para
um satélite, que são retransmitidas para os pesquisadores. Assim,
1.2 RECAPITULAÇÃO estamos adquirindo muito conhecimento sobre a distribuição da
vida nos oceanos.
A primeira vida celular na Terra foi procariótica e surgiu há
cerca de 4 bilhões de anos. A complexidade dos organismos
que existem hoje é o resultado de diversos eventos evolu-
cionários importantes, incluindo a evolução da fotossíntese,
das células eucarióticas e da multicelularidade. As relações
genéticas de todos os organismos podem ser demonstradas
como uma ramificação da Árvore da Vida.

■ Você pode explicar o significado evolutivo de fotossíntese?


Ver p. 11.
■ O que os domínios da vida representam? Quais são os prin-
cipais grupos de eucariotos? Ver p. 12 e Figura 1.11.

Em fevereiro de 1676, Robert Hooke recebeu uma carta do físi-


co Isaac Newton. Nessa carta, Newton comentou com Hooke,
“Se eu vi mais longe, foi por estar em pé sobre os ombros dos
gigantes”. Todos estamos sobre os ombros de gigantes, cons-
truindo com base na pesquisa dos cientistas do passado. No fi-
nal deste curso, você saberá mais sobre evolução do que Darwin
poderia saber e conhecerá infinitamente mais sobre células do
que Schleiden e Schwann sabiam. Veremos os métodos que os
biólogos usam para expandir nosso conhecimento a respeito
da vida.

1.3 Como os biólogos investigam a vida?


Figura 1.12 Rastreamento de atuns A bióloga marinha Bár-
Os biólogos usam muitas ferramentas e métodos na sua pesqui- bara Block prende uma etiqueta com registro computadorizado de
sa, mas independentemente dos métodos utilizados, os biólogos dados (ver figura menor) em um atum-azul. O uso de tais etiquetas
adotam duas abordagens básicas para suas investigações sobre a permite acompanhar os atuns de forma individual, onde quer que
vida: observar o mundo e conduzir experimentos. eles viajem nos oceanos do mundo.
14 ■ Sadava, Heller, Orians, Purves & Hillis

O método científico combina


observação e lógica
EXPERIMENTO
As observações conduzem a questiona- HIPÓTESE: Algum fator ambiental está causando anormalidades nas patas
mentos que são respondidos pelos cien- de rãs do Pacífico (Hyla regilla).
tistas por meio de observações adicionais
e de experimentos. A abordagem con-
MÉTODO
ceitual, que fundamenta o planejamento
e a condução da maioria das modernas 1. Identificar uma área teste de pequenos lagos em uma
investigações científicas, é chamada de área onde as rãs anormais foram encontradas (terra
cultivável no Condado de Santa Clara, Califórnia).
método científico. Trata-se de pode- 2. Coletar e analisar amostras de água dos lagos.
rosa ferramenta, também chamada de 3. Pesquisar os organismos nos lagos.
método hipotético-dedutivo (H–P), cuja 4. Procurar correlações entre a presença das
Pata
abordagem conceitual fornece uma forte anormalidades nas rãs e as características dos lagos.
deformada
fundamentação para produzir avanços
RESULTADOS
no conhecimento biológico. O método
As rãs do Pacífico foram encontradas em 13 dos 35 lagos.
científico tem cinco passos: Aquelas com anormalidades nos membros foram
Condado de
■ fazer as observações; encontradas em 4 dos 13 lagos. As análises e pesquisa dos
Santa Clara, CA
13 lagos com rãs não revelaram diferença na poluição da
■ formular questões; água, mas revelaram a presença de lesmas infestadas com
um parasita do gênero Ribeiroia nos 4 lagos com rãs
■ formular hipóteses ou tentativas de anormais.
responder às questões; Resíduos de Metais Contaminantes Larvas de
pesticidas pesados industriais Lesmas Ribeiroia Ribeiroia
■ realizar predições com base nas hipó-
na água? na água? na água? na água? na água? nas rãs?
teses;
Lagos com
■ testar as predições, fazendo observa- rãs normais
Não Não Não Não Não Não
ções adicionais ou realizando experi-
Lagos com Não Não Não Sim Sim Sim
mentos. rãs anormais
Uma vez que uma questão tenha sido
proposta, o cientista usa a lógica indutiva CONCLUSÃO: A infecção pelo parasita Ribeiroia pode causar anormalidades
para propor uma resposta provável para no desenvolvimento das patas de rãs do Pacífico.
a questão. A resposta provável é chama-
da de hipótese. Por exemplo, no início
deste capítulo, você ficou sabendo que
Pieter Johnson observou rãs anormais
Figura 1.13 Experimentos comparativos procuram diferenças entre grupos Pieter
em certos lagos. A primeira questão es- Johnson analisou as diferenças entre os lagos, nos quais rãs deformadas estavam presentes
timulada por essa observação foi: existe versus lagos próximos, em que não existiam rãs deformadas. Tais comparações podem re-
algo nesses lagos que induziram as rãs a sultar em valiosas descobertas.
desenvolverem anormalidades anatômi-
cas extremas?
Ao formular uma hipótese, os cientistas utilizam os fatos que dade de demonstrar que a dedução está errada. Se a dedução está
já conheciam para elaborar uma ou mais respostas possíveis para errada, a hipótese deve ser questionada, modificada ou rejeitada.
a questão. Pieter sabia que provavelmente existiam contaminantes As duas deduções iniciais de Pieter Johnson provaram estar
nos lagos onde as rãs deformadas foram encontradas, porque pes- erradas. Ele analisou rãs e outros organismos em 35 lagos na re-
ticidas eram intensamente usados na agricultura da região. Além gião onde os anfíbios deformados tinham sido encontrados e me-
disso, a mineração de mercúrio já tinha sido feita na região, e as diu os agentes químicos na água. Treze dos lagos eram o habitat
minas abandonadas poderiam ser fonte de metais pesados en- das rãs do Pacífico, mas ele encontrou rãs deformadas em somente
contrados na água. Ele também sabia que existiam lagos vizinhos quatro deles. Para a surpresa de Pieter, a análise das amostras da
com rãs normais. A sua primeira hipótese, portanto, foi de que os água não revelou altas quantidades de pesticidas, agentes quími-
contaminantes na água causaram mutações nos ovos das rãs. cos industriais ou metais pesados nos lagos com rãs deformadas.
O próximo passo, no método científico, é aplicar uma diferen- Surpreendentemente, quando coletou ovos naqueles lagos e os
te forma de lógica – a lógica dedutiva – para fazer predições basea- manteve no laboratório, ele sempre obtinha rãs normais. A hipó-
das em hipóteses. Com base nas suas hipóteses, Pieter deduziu tese original de que contaminantes causaram mutações nos ovos
(1) que encontraria contaminantes nos lagos com rãs anormais; das rãs tinha sido rejeitada. Uma nova hipótese foi formulada e
e (2) que os ovos desses lagos produziam rãs anormais quando novos experimentos foram conduzidos.
mantidos em laboratório. Existem dois tipos de experimentos gerais e Pieter usou ambos:
■ Em um experimento comparativo, deduzimos que existirá
Bons experimentos têm o potencial uma diferença entre as amostras ou grupos com base em nossa
de descartar hipóteses hipótese. Então testamos se a diferença prevista existe ou não.
Uma vez que as deduções são feitas com base em uma hipótese, os ■ Em um experimento controlado, também comparamos amos-
experimentos podem ser desenvolvidos para testar essas deduções. tras ou grupos, mas, neste caso, começamos o experimento com
Os experimentos mais informativos são aqueles que têm a habili- grupos tão semelhantes quanto possível. Deduzimos com base
Vida ■ 15

nas quatro hipóteses que algum fator ou variável desempe-


nhou um papel no fenômeno que estamos investigando. Então EXPERIMENTO
usamos algum método para manipular aquela variável em um
grupo “experimental”, enquanto deixamos o grupo “controle” HIPÓTESE: A infecção dos girinos das rãs do
inalterado. Dessa forma, testamos se a manipulação criou a di- Pacífico pelo parasita Ribeiroia causa anormalidades no
ferença prevista entre os grupos experimental e de controle. desenvolvimento dos membros.

EXPERIMENTOS COMPARATIVOS Experimentos comparati- MÉTODO


vos são valiosos quando não sabemos ou não podemos contro- 1. Coletar ovos de Hyla regilla de um local sem registro de
lar as variáveis críticas. Pieter Johnson realizou um experimento rãs anormais.
comparativo quando testou a água nos lagos (Figura 1.13). O 2. Deixar os ovos eclodirem no aquário do laboratório.
seu desafio foi encontrar algumas variáveis que diferiam entre os Aleatoriamente dividir números iguais dos girinos
resultantes em grupos controles e experimentais.
lagos com rãs normais e anormais. Sem encontrar diferenças na
3. Deixar o grupo-controle se desenvolver
química da água nos dois tipos de lagos, ele rejeitou a hipótese normalmente. Submeter os grupos experimentais a
de que contaminantes ambientais estivessem causando mutações infecção com Ribeiroia, um parasita diferente (Alaria) e
nas rãs. Então, ele comparou os dois tipos de lagos para observar uma combinação de ambos os parasitas.
quais variáveis eram diferentes entre eles. 4. Acompanhar o desenvolvimento dos girinos. Contar e
avaliar as rãs adultas resultantes.
Pieter constatou que uma espécie de lesma aquática estava
presente nos lagos com rãs anormais, mas ausente nos lagos com
rãs normais. As lesmas aquáticas eram hospedeiras de muitos pa-
rasitas. A nova hipótese era de que um parasita infectando as les-
mas era, de alguma forma, responsável pelas deformidades das rãs.
Para testar essa hipótese, ele realizou experimentos controlados.
Controle Experimento 1 Experimento 2 Experimento 3
EXPERIMENTOS CONTROLADOS Em experimentos contro- (sem parasitas) (com Alaria) (com Ribeiroia) (com Alaria
lados, uma variável é manipulada enquanto outras são mantidas e Ribeiroia)
constantes. A variável manipulada é chamada de variável indepen- RESULTADOS
dente e a resposta, que é medida, configura-se na variável depen-
100
dente. Um bom experimento controlado não é fácil de planejar, Sobrevivência
porque variáveis biológicas são tão inter-relacionadas que é difícil 80 (percentual de
Percentual

isolar apenas um fator. girinos atingindo


60 a vida adulta)
Muitos parasitas possuem complexos ciclos de vida com di-
40
versos estágios, cada um dos quais exige um específico animal Taxa de
hospedeiro. Pieter analisou a possibilidade de que algum parasita, 20 anormalidade
(percentual de
que usava lesmas aquáticas como um de seus hospedeiros, estava 0 adultos com
infectando as rãs e causando as deformidades. Pieter encontrou Controle Alaria Ribeiroia Alaria anormalidades
e nos membros)
um parasita com este tipo de ciclo de vida: um pequeno platel- Ribeiroia
minto chamado Ribeiroia, presente nos lagos onde as rãs defor-
madas foram encontradas.
No experimento controlado de Pieter, a variável independente CONCLUSÃO: Ribeiroia causa anormalidades no
era a presença ou ausência da lesma e do parasita (Figura 1.14). desenvolvimento dos membros em rãs do Pacífico.
Ele controlou todas as outras variáveis pela coleta de ovos das rãs
e os manteve no laboratório. Dividiu os girinos resultantes em dois
grupos e os colocou em tanques separados. Introduziu as lesmas e
os parasitas em metade dos tanques (grupo experimental) e deixou Figura 1.14 Experimentos controlados manipulam uma variá-
os outros tanques (grupo-controle) livres de lesmas e parasitas. Sua vel A variável que Johnson manipulou foi a presença e a ausência
variável dependente era a freqüência de anormalidades nas rãs que de duas espécies de platelmintos. Outras condições dos experi-
se desenvolveram sob diferentes condições. Ele constatou que 85% mentos permaneceram constantes.
das rãs nos tanques experimentais com Ribeiroia desenvolveram
anormalidades, mas isso não ocorreu com nenhuma das rãs nos
demais tanques. Assim, os resultados de Pieter fundamentaram Métodos estatísticos são ferramentas
sua hipótese, e ele poderia investigar como os parasitas causaram
as anormalidades nas rãs em desenvolvimento.
científicas essenciais
Se estivermos realizando experimentos comparativos ou contro-
lados, ao final, temos de decidir se existe uma diferença entre as
A Ribeiroia usa três hospedeiros nos lagos da Califórnia: amostras, indivíduos, grupos ou populações no estudo. Como de-
lesmas, rãs e pássaros predatórios, como garças. Para o cidimos se uma diferença medida é suficiente para confirmar ou
parasita completar seu ciclo de vida e se reproduzir, deve não uma hipótese? Em outras palavras, como decidimos, de forma
ser capaz de se mover de uma rã para um pássaro. As objetiva, que a diferença medida é significativa?
deformidades dos membros que Ribeiroia causa podem A significância pode ser medida por métodos estatísticos. Os
realmente tornar as rãs infectadas mais fáceis de serem cientistas usam a estatística porque eles reconhecem que a varia-
capturadas pelos pássaros predatórios. bilidade é ubíqua. Os testes estatísticos analisam esta variação e
calculam a probabilidade de que as diferenças observadas possam
16 ■ Sadava, Heller, Orians, Purves & Hillis

ser devido à variação aleatória. Os resultados dos testes estatís- A ciência descreve os fatos sobre como o mundo funciona, não
ticos são, portanto, probabilidades. Um teste estatístico começa como “deveria ser”. Diversos dos recentes avanços científicos que
com uma hipótese nula – premissa de que não existe diferença. têm contribuído muito para o bem-estar humano também des-
Quando as observações quantificadas, ou dados, são coletados, os pertam muitas questões éticas. Desenvolvimentos na genética e
métodos estatísticos são aplicados para calcular a probabilidade biologia do desenvolvimento, por exemplo, agora nos permitem
de que a hipótese nula esteja correta. selecionar o sexo das nossas crianças, usar células-tronco para re-
Mais especificamente, os métodos estatísticos nos dizem a parar os nossos corpos e modificar o genoma humano. Embora o
probabilidade de obter os mesmos resultados, por acaso, mes- conhecimento científico nos permita fazer esses procedimentos,
mo se a hipótese nula fosse verdadeira. Colocado de outra for- a ciência não pode nos dizer se devemos ou não fazê-los, nem
ma, precisamos eliminar, na medida do possível, a chance de que como devemos regulá-los.
quaisquer diferenças demonstradas nos dados sejam, meramente, Tomar decisões prudentes sobre esses tópicos exige uma clara
o resultado de variação aleatória nas amostras testadas. Os cien- compreensão das implicações da informação científica disponível.
tistas geralmente concluem que as diferenças que eles medem são O sucesso em uma cirurgia depende de um preciso diagnóstico,
significativas se os testes estatísticos demonstram que a probabi- assim como o sucesso no gerenciamento ambiental. Entretanto,
lidade de erro (a probabilidade de que os resultados possam ser para tomar decisões adequadas sobre política pública, também
explicados por acaso) é de 5 % ou menos. Em experimentos parti- precisamos empregar o melhor raciocínio ético possível na de-
cularmente críticos, como testes de segurança de uma nova droga, cisão sobre quais resultados deveríamos buscar. Para um futuro
os cientistas exigem probabilidades muito mais baixas de erro, de brilhante, a sociedade necessita de boa ciência e de boa ética, bem
1 % ou mesmo 0,1 %. como de um público educado, que compreenda a importância de
ambas e a importante diferença entre elas.
Nem todas as formas de questionamento
são científicas 1.3 RECAPITULAÇÃO

A ciência é um dos empenhos humanos que está ligada a certos O método científico do questionamento começa com a for-
padrões de prática. Outras áreas do conhecimento comparti- mulação de hipóteses baseadas em observações e dados.
lham com a ciência a prática de fazer observações e questiona- Experimentos comparativos e controlados são desenvolvi-
mentos, mas os cientistas se distinguem pelo que fazem com dos para testar hipóteses.
suas observações e como respondem às suas questões. Dados,
sujeitos a apropriada análise estatística, são críticos no teste de ■ Você pode explicar a relação entre uma hipótese e um ex-
hipóteses. O método científico é a mais poderosa forma que os perimento? Ver p.14.
humanos elaboraram para aprender sobre o mundo e como ele ■ Quais aspectos caracterizam as questões que podem ser
funciona. As explicações científicas para os processos naturais respondidas somente usando uma abordagem comparati-
são objetivas e confiáveis porque a hipótese proposta deve ser va? Ver p.14 e Figura 1.3.
testável e deve ter o potencial de ser rejeitada por observações di-
retas e experimentos. Os cientistas claramente descrevem os ■ O que é controlado em um experimento controlado? Ver
métodos que eles usaram para testar as hipóteses de forma p.15 e Figura 1.14.
que outros profissionais possam repetir suas observações ou ■ Você compreende por que os argumentos devem ser fun-
experimentos. Nem todos os experimentos são repetidos, mas damentados por dados quantificáveis e reprodutíveis com o
resultados surpreendentes ou controversos são sempre sujei- objetivo de serem considerados científicos? Ver p. 16.
tos à verificação independente. Todos os cientistas ao redor do
mundo compartilham esse processo integral de testar e rejeitar
hipóteses, dessa forma contribuindo para um corpo comum do
A vasta quantidade do conhecimento científico acumulado ao
conhecimento científico.
longo dos séculos da civilização humana nos permite compreen-
Se você entender os métodos da ciência, poderá distinguir
der e manipular aspectos do mundo natural de uma forma que
ciência de não-ciência. Arte, música, literatura são atividades que
nenhuma outra espécie pode. Estas habilidades nos são apresen-
contribuem para a qualidade da vida humana, mas não são ciên-
cia, pois não usam o método científico para estabelecer o que é tadas com desafios, oportunidades e, acima de tudo, responsabili-
um fato. Religião não é ciência, embora as religiões tenham pre- dades. Vamos ver como o conhecimento da biologia pode afetar o
tendido historicamente explicar eventos naturais, indo desde pa- desenvolvimento da política pública.
drões incomuns do clima para prejuízos na colheita até doenças
humanas e aflições mentais. Muitos desses fenômenos, que uma
vez eram misteriosos, agora apresentam explicações em termos de
princípios científicos.
O poder da ciência deriva da objetividade descomprometida e
1.4 Como a biologia influencia
a política pública?
da absoluta dependência das evidências que provêm de observa- O estudo da biologia tem tido relevantes implicações para a vida
ções reprodutíveis e quantificáveis. Uma explicação religiosa ou espi- humana. A agricultura e a medicina são duas importantes ativida-
ritual de um fenômeno natural pode ser coerente e satisfazer uma des que dependem do conhecimento biológico. Nossos ancestrais
pessoa ou um grupo que mantém esta visão, mas não é testável e, inconscientemente aplicavam os princípios da biologia quando
portanto, não é ciência. Invocar uma explicação sobrenatural (tais domesticavam plantas e animais. As pessoas também especula-
como um “designer inteligente”, sem nenhuma ligação conheci- vam sobre as causas das doenças e buscavam métodos para com-
da) é se afastar do mundo da ciência. batê-las desde os tempos antigos. Antes de as suas causas serem
Vida ■ 17

conhecidas, as pessoas reconheciam que as doenças poderiam ser lógica. Como um exemplo do valor do conhecimento científico
transmitidas de um indivíduo para outro. O isolamento dos in- para avaliação e formulação de políticas públicas, vamos retornar
fectados era praticado desde que os registros escritos se tornaram ao estudo de rastreamento do atum-azul, introduzido na Seção
disponíveis, mas a maioria das então chamadas curas não era efe- 1.3. Antes desse estudo, os cientistas e pescadores sabiam que os
tiva até os cientistas encontrarem o que causava as enfermidades. atuns-azuis tinham uma região de reprodução no oeste do Golfo
Hoje, graças ao deciframento dos genomas e à habilidade do México e um campo de reprodução mais ao leste do Atlânti-
para manipulá-los, existem diversas novas possibilidades para co, no Mar Mediterrâneo. A pesca exagerada colocava em risco a
melhor controle das enfermidades humanas e produtividade na população reprodutora do oeste. Considerou-se que os peixes dos
agricultura. Ao mesmo tempo, essas capacidades têm levantado dois grupos reprodutores tinham regiões de alimentação separa-
importantes questões públicas e éticas. Quanto e de que forma das geograficamente, bem como campos de reprodução separa-
deveríamos modificar a genética dos humanos e de outras espé- dos. Então, uma comissão internacional desenhou uma linha no
cies? Quanto importa se nossos cultivos e animais domesticados meio do Oceano Atlântico e estabeleceu cotas mais restritas no
são alterados por tradicionais experimentos de reprodução ou por lado oeste da linha. O objetivo era permitir que a população desse
transferência gênica? Quais regras deveriam governar a liberação ponto se recuperasse. Entretanto, novos dados revelaram que de
de organismos modificados geneticamente no ambiente? A ciên- fato as populações de atuns-azuis do leste e do oeste se mistu-
cia sozinha não pode fornecer respostas para essas questões, mas ravam livremente nas regiões de alimentação (e, portanto, para
decisões políticas prudentes devem ser baseadas em informação pesca) através de todo o Atlântico Norte (Figura 1.15). Assim, um
científica precisa. peixe pego no lado leste da linha poderia ser da população de re-
Outra razão para estudar biologia é compreender os efeitos do produção do oeste, de modo que a política estabelecida se revelou
aumento da população humana. Nosso uso de recursos naturais inapropriada para atingir o objetivo pretendido.
está colocando sob estresse a habilidade dos ecossistemas terres- Ao longo deste livro, acompanharemos com você a satisfação
tres de continuar a produzir os bens e os serviços dos quais nossas de estudar os organismos vivos e ilustrar a rica variedade de mé-
sociedades dependem. As atividades humanas estão mudando o todos que os biólogos usam para determinar por que o mundo
clima global, causando a extinção de um grande número de espé- desses seres parece e funciona como tal. O mais importante mo-
cies e disseminando novas doenças enquanto facilitam o ressur- tivador da maioria dos biólogos é a curiosidade. Muitas pessoas
gimento de doenças antigas. A rápida disseminação dos vírus da são fascinadas pela riqueza e diversidade da vida, por isso querem
SARS (síndrome respiratória aguda severa) e do Nilo Ocidental, aprender mais sobre os organismos e como eles interagem uns
por exemplo, foi facilitada pelos modernos modos de transporte, com os outros. A curiosidade humana pode até mesmo ser vista
e o recente ressurgimento da tuberculose é resultado da evolução
das bactérias resistentes a antibióticos. O conhecimento biológico
é vital para determinar as causas dessas mudanças e para elabo-
Figura 1.15 O atum-azul não reconhece as linhas desenha-
rar políticas sensatas para lidar com elas. Uma compreensão da
das nos mapas por comissões internacionais. Considerou-se
biologia também ajuda as pessoas a apreciar a maravilhosa di- que as populações reprodutoras ocidentais (pontos vermelhos) e
versidade dos organismos vivos que fornece bens e serviços para orientais (pontos dourados) do atum-azul também se alimentavam
a humanidade e, também, enriquece nossas vidas estética e espi- nos respectivos lados do Oceano Atlântico. Por isso, cotas separa-
ritualmente. das de pesca foram estabelecidas para qualquer um dos lados de
Cada vez mais os biólogos são chamados para orientar as 45º de longitude (linha pontilhada). Acreditava-se que isso permitiria
agências governamentais a respeito de leis, regras e regulamen- que população em risco do oeste pudesse se recuperar. Entretanto,
tações sobre como a sociedade lida com o crescente número de os dados de rastreamento demonstraram que os dois grupos se
problemas e desafios que tem ao menos uma parcial base bio- misturavam livremente, especialmente nas águas de intensa pesca,
no Atlântico Norte (círculo azul); então, de fato, a política estabeleci-
da não protegia a população do oeste.

Canadá

Europa

EUA

África

Área oriental de procriação


Oceano Atlântico Área ocidental de procriação
18 ■ Sadava, Heller, Orians, Purves & Hillis

como adaptativa, e poderia ter sido selecionada se indivíduos mo- Existe um vasto número de questões para as quais não temos
tivados a aprender sobre seus arredores provavelmente tivessem respostas, e novas descobertas normalmente criam questões que
sobrevivido e se reproduzido melhor, na média, do que seus pa- ninguém pensou em perguntar antes. Talvez você finalmente par-
rentes menos criativos! ticipe e responda a uma ou mais dessas questões.

RESUMO DO CAPÍTULO

surgiram posteriormente. As células eucarióticas têm compar-


1.1 O que é biologia?
timentos intracelulares separados chamados de organelas,
Biologia é o estudo da vida em todos os níveis de organização, incluindo um núcleo que contém o seu material genético.
desde as moléculas até a biosfera. As relações genéticas das espécies podem ser representadas
A teoria celular define que toda a vida consiste em células e to- como uma árvore evolutiva. As espécies são agrupadas em
das as células provêm de outras preexistentes. três domínios: Bacteria, Archaea e Eukarya. Os domínios
Todos os organismos vivos estão relacionados uns aos outros Bacteria e Archaea consistem em procariotos unicelulares. O
através de descendentes com modificações. A evolução por domínio Eukarya contém os eucariotos microbianos (protis-
seleção natural é responsável pela diversidade de adapta- tas), plantas, fungos e animais. Rever Figura 1.11.
ções encontrada em organismos vivos.
As instruções para a célula estão contidas no seu genoma, que 1.3 Como os biólogos investigam a vida?
consiste em moléculas de DNA, formadas por seqüências de
nucleotídeos. Os específicos segmentos de DNA, chamados O método científico usado na maioria das investigações biológi-
de genes, contêm a informação que a célula usa para produzir cas envolve cinco passos: fazer as observações, formular as
as proteínas. Rever a Figura 1.4. perguntas, formular as hipóteses, realizar as predições e testar
As células são as unidades estruturais e fisiológicas básicas da essas predições.
vida. A maioria das reações químicas vitais ocorre nas células. As hipóteses são tentativas de respostas a questões. As predi-
Os organismos vivos controlam seu ambiente interno. Eles ções são construídas com base em uma hipótese e testadas
também interagem com outros organismos da mesma espécie com observações adicionais e dois tipos de experimentos:
e de espécies diferentes. Os biólogos estudam a vida em to- experimento comparativo e experimento controlado. Rever
dos esses níveis de organização. Rever a Figura 1.6. Figuras 1.13 e 1.14.
O conhecimento biológico obtido com base em um sistema- Os métodos estatísticos são aplicados aos dados para esta-
modelo pode ser generalizado para outras espécies. belecer se as diferenças observadas são ou não significa-
tivas, ou se elas poderiam ser esperadas por acaso. Esses
métodos começam com a hipótese nula, de que não há
1.2 Como está relacionada toda a vida na Terra?
diferenças.
Biólogos usam fósseis, semelhanças e diferenças anatômicas e A ciência pode nos dizer como o mundo funciona, mas não pode
comparações moleculares dos genomas para reconstruir a nos dizer o que devemos ou não fazer.
história da vida. Rever a Figura 1.9.
A vida surgiu primeiramente por evolução química. A evolução
biológica começou com a formação das células.
1.4 Como a biologia influencia a política pública?

A fotossíntese foi um importante passo evolutivo porque mudou Decisões prudentes relacionadas à política pública devem ter
a atmosfera da Terra e forneceu um meio de capturar energia base em informação científica precisa. Os biólogos são fre-
a partir da luz solar. qüentemente chamados para orientar agências governamen-
Os organismos mais antigos eram procariotos; os organismos tais sobre a solução de importantes problemas que tenham
com células mais complexas, chamados de eucariotos, algum componente biológico.
Vida ■ 19

PARA DISCUSSÃO

1. Mesmo se conhecêssemos as seqüências de todos os genes de um or- 3. Em uma recente descoberta dos genes que controlam a cor da pele
ganismo unicelular e conseguíssemos que esses genes fossem expres- no peixe-zebra, por que os biólogos consideram que os mesmos
sos em tubo de ensaio, ainda assim não poderíamos criar um desses genes podem ser responsáveis pela cor da pele em humanos?
organismos. Na sua opinião, por que isso acontece? Com base nesse
4. Por que é tão importante na ciência o planejamento e a realização de
fato, o que você acha da afirmação de que o genoma contém toda a
testes capazes de provar que uma hipótese é falsa?
informação para uma espécie?
5. Quais aspectos caracterizam as questões que podem ser respondidas
2. Se alguém falasse que as girafas desenvolvem longos pescoços porque
somente pelo uso de uma abordagem comparativa?
elas os esticam para atingir folhas mais altas nas árvores, como você
ajudaria esta pessoa a pensar sobre as girafas de forma mais acurada, 6 Em que situações do seu dia-a-dia você aplica o método científico
em termos de evolução por seleção natural? para resolver problemas?

PARA INVESTIGAÇÃO

1. As anormalidades das rãs no estudo de Pieter Johnson estavam as- 2. Assim como todas as células vêm de células preexistentes, as mitocôn-
sociadas à presença de um parasita. Como você investigaria a for- drias – organelas celulares que convertem a energia do alimento em
ma com que os parasitas induziram a formação de rãs deformadas? uma forma de energia capaz de fazer trabalho biológico – provêm de
Dica: quando os girinos foram expostos aos parasitas após começa- mitocôndrias preexistentes. As células não sintetizam mitocôndrias a
rem a desenvolver os membros, eles não demonstraram anormali- partir da informação genética em seus núcleos. Que investigações você
dades. poderia desenvolver para compreender a natureza da mitocôndria?