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····....·•. 1.0 Estruturasintática da frase


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csznplexa, período composto
1.1 Frase, período, oração .c:r..._?(b"7o, constituído só por
~o por orações coordenadl
Frase é todo enunciado suficiente por si mesmo para estabelecer co-
municação. Pode expressar um juízo, indicar tuna ação, estado ou fenôme-
no, transmitir um apelo, uma ordem ou exteriorizar emoções. Seu arcabou- ·.t.l Frase, gramaticalidade
ço lingüístico encerra normalmente um mínimo de dois termos - o sujeito e
o predicado - normalmente, mas não obrigatoriamente, pois, em Português
pelo menos, há, como se sabe, orações ou frases sem sujeito: Há muito tem- Dentro da liberdade de combinj
õeniade que permite a cada q
po que não chove (em que há e chove não têm sujeito).2 pessoal, sem ter de repetir sem
Oração, às vezes, é sinônimo de frase ou de período (simples) quan- ~das - há certos limites im~
do encerra um pensamento completo e vem limitada por ponto-final, pon- ~ a invenção de uma nova li
to-de-interrogação, de-exclamação e, em certos casos, por reticências. O pe- ..:::er=...;ade de construir frases está, ad
ríodo que contém mais de uma oração é composto. ~calidade - que não significa
cã..u, (há frases que, apesar de, até cer
Um vulto cresce na escuridão. Clarissa se encolhe. É Vasco. _c:igíveis). Carentes da articulação
(E. Veríssimo, Música ao longe, p. J 18)3 arrepelam, não fazem sentido - e, q1
-d. não há frase mas apenas um ajun
Nesse trecho há três orações correspondentes a três períodos sim- vre para dizer o que quer, mas sob
ples ou a três frases. Cada uma delas encerra um enunciado expresso num uele a quem se dirija. A linguagem
arcabouço lingüístico em que entram um sujeito (vulto, claro na primei- -: se o discurso não é compreendido
ra, mas oculto na última, e Clarissa) e um predicado (cresce, se encolhe, é c..z Jean Cohen (Structure du langage
Vasco). O seguinte agrupamento, por
Mas nem sempre oração (diz-se também proposição) é frase. Em zaente agramatical, é totalmente inin~
"convém que te apresses" há duas orações mas uma só frase, pois somen- tristintos os jovens sentem. Só reagru~
+ígentes na língua, podem essas pala1
zaíndo então feição de frase: Os joven
2 Segundo Jean Cohen (Structure du langage poécique, p. 73), a frase pode ser definida em tranqüilos.
dois níveis: o semântíco e o fônico. O nível semântico, único que nos interessa aqui, desdobra- Não obstante, um conjunto de ~
se em dois planos: o psicológico e o gramatical. No primeiro, a frase é "a unidade que apre- por apresentar certo grau de gramadd
senta um sentido ccmplero", Quanto ao segundo, o gramatical, ela é "o conjunto de palavras ..orno o seguinte exemplo de Oswaldi
que estão sinratlcamenre solidárias". A seguir, cita o Autor a definição de A. Maninet: "um
enunciado cujos elementos se prendem a um ou a vários predicados coordenados" (p. 73). ~as bureaus assinadores do conhecime
3
Os trechos citados como exemplos vêm geralmenre com referência bibliográfica sumária. Para
nvendveis (Memórias sentimentais de
indicações completas sobre as fontes, consulte-se a Bibliografia no fim do volume. ,ues vestígios de gramaticalidade -
OTH ON M. GA RCIA + 33

conjunto das duas é que traduz um pensamento completo; isoladas,


=r;çmem simples fragmentos de frase (ver 1. Fr., 2.6), pois uma é parte
_ c __a: "que te apresses" é o sujeito de "convém".
Quanto à sua estrutura sintática, i.e., quanto à característica da inte-
:::::::....::e gramatical explícita (existência de um sujeito e um predicado), a
'::lS= pode ser simples (uma só oração independente) ou complexa (várias
~es oracionais). Esse agrupamento de orações é que merece legitima-
- o nome de período (do grego períodos, circuito). É o ambitus verbo-
segundo Cícero, isto é, o circuito de palavras encadeadas para formar
sentido completo. Entretanto, pela nomenclatura gramatical (brasileira
cão) vigente e tradicional, também a frase simples se diz período sim-
:: a complexa, período composto. Mas alguns professores distinguem o
~ composto, constituído só por orações coordenadas, do período com-
formado por orações coordenadas e subordinadas.

1.1.1 Frase, gramaticalidade e inte/igíbílídade


Dentro da liberdade de combinações que é própria da fala ou discur-
- liberdade que permite a cada qual expressar seu pensamento de ma-
~ pessoal, sem ter de repetir sempre, servihnente, frases já feitas, já es-
~tipadas - há certos limites impostos pela gramática, limites que im-
~ a invenção de urna nova língua cada vez que se fala. Nossa
-:erdade de construir frases está, assim, condicionada a um mínimo de
=--::s;:uaticalidade - que não significa apenas nem necessariamente corre-
d:C' ~á frases que, apesar de, até certo ponto, incorretas, são plenamente
e::::Eligíveis). Carentes da articulação sintática necessária, as palavras se
arrepelam, não fazem sentido - e, quando não há nenhum sentido possí-
:::. não há frase mas apenas um ajuntamento de palavras. "Cada qual é li-
sre para dizer o que quer, mas sob a condição de ser compreendido por
aquele a quem se dirija. A linguagem é comunicação, e nada é comunica-
u:o se o discurso não é compreendido. Toda mensagem deve ser inteligível",
ezz Jean Cohen iStructure du langage poétique, p. 105-6).
O seguinte agrupamento, por ser totalmente caótico, isto é, total-
~nte agrarnatical, é totalmente ininteligível: de maus tranqüilos se nunca
sistintos os jovens sentem. Só reagrupadas segundo as normas gramaticais
.igentes na língua, podem essas palavras tornar-se fala ou discurso, assu-
zaindo então feição de frase: Os jovens de maus instintos nunca se sentem
tranquilos.
Não obstante, um conjunto de palavras pode ter aparência de frase,
por apresentar certo grau de gramaticalidade e ser dificilmente inteligível,
como o seguinte exemplo de Oswald de Andrade: Romarias escadais de ho-
..as bureaus assinadores do conhecimento tomado e lavrado dos vencimentos
rnvenciveis (Memórias sentimentais de João Miramar, p. 153). Apesar dos tê-
nues vestígios ele gramaticalidade - ou justamente por serem muito tê-
34 • e o M u N I e A ç" o EM p R os A Mo D E R NA
I

: =--,sa6.::.u no plano me
nues esses vestígios - a frase de O. de A. depende quase que exclusiva-
mente da interpretação que· lhe possa dar o leitor. Ela não é auto-suficien-
'-'--"-=..., ser if'ii==-»Gida corno um coa
te, não pode ser claramente entendida, mesmo que situada no seu contex- - -;.:--=:;:~~t=i::leme. da am:i
to (capítulo "145. Criação de papagaios", em que o Autor faz a crônica ~- diz I, i. Revzín (cir,
rr.:r:J=:::JC-.;.:_ ~:iques", na revista !mj
mordaz da "sala verde das audiências no Fórum Cível Paulista"), a menos
que o leitor se encarregue de "mentalizar" os possíveis enlaces lógicos, sin-
- ~-el_se rrouven: justitj
táticos e semânticos entre os seus componentes.4 ~- 1

Portanto, ausência de gramaticalidade ou gramaticalidade muito pre- - fora desse ~uni\·e~


cária significam ausência de inteligibilidade. Mas a simples gramaticalidade, seJ3 gramatical para ser ·
o simples fato de algumas palavras se entrosarem segundo a sintaxe de uma ...,....-....,- condições. apresente ou
língua para tentar comunicação não é condição suficiente para lhes garantir 1":::3!e=:= ue apontamos a seguir
inteligibilidade. A célebre e assaz citada e comentada frase de Chomsky - enâm, que ela. além da
Colorless green ideas sleep furiou.sly (incolores idéias verdes dormem furiosa-
mente) - apresenta os traços de gramaticalidade integral; no entanto, cons- -:-!idtfacie de lllf0l71l!l"-rl!O (a
titui (fora, evidentemente, do plano metafórico, onde todas as interpreta- -~~.;:, - e sinrárícas, i.e..
ções são possíveis) um enunciado incompreensível no plano referencial-deno- ,...., ner levou-o ao suicídio
tativo, pois há incompatibilidade lógica entre os seus componentes, que se - ...."'ª~~, "Conheci-o quando aind
isoladamente têm sentido, no conjunto não têm: idéias não podem ser ver- ou o objeto (o) de "conhe
des nem incolores, e muito menos ser uma coisa e outra ao mesmo tempo. É
claro que metaforicamente poderiam ser isso ou algo muito diverso; mas, -ut ogias nulificadoras dt
então, um desses adjetivos ou ambos estariam desvinculados do seu traço se- da significação de der
mântico habitual, isto é, do seu sentido próprio; denotando cor ou ausência zsaas são mais competem
de cor, um exclui o outro, e nenhum deles se ajusta a idéias, entidade abs- - se ro-u"iguram como circulo ,.
trata. E se idéias não podem, no plano da realidade, se verdes nem incolo- _~.2.3):_ ?ul~o morreu
zaz mar a saúde porque pre
poh;
res, tampouco podem dormir (a menos que este verbo metafóricamente sig-
nifique algo diferente). Furiosamente, por sua vez, tem um significado tal não haverá nuüficacão 10
que só se aplica, denotativamente, a ser animado, da mesma forma que o - fra!mologisras~ se ~eves:ir-
verbo dormir. 5 Assim, por razões de impertinência semântica entre os seus 'OOIS'Sll\'el repugnância a termos
componentes, esse conjunto de palavras só é frase na sua estrutura gramati- a comunicação na oraçâ
d"Z porque nada acrescenta a

4 Predominante não apenas em Memórias sentimencais de João Miramar (1924) mas também
em Serafim Ponte Grande (1933), essa estrutura de frase reflete aquele experimentalismo estilís- oagruências incompaábili
tico rebelde e irreverente da segunda e da terceira décadas deste século (impressionismo, que, ms configuradas em ou resul
aliás, vem de muiro antes, dadaísmo, surrealismo, "escrita automática"). Fragmentada e inten-
cionalmente antidiscursiva, pictórica e visual à maneira da técnica cinematográfica pela sua jus·
riio lógica lueral: "os qua
raposíção de planos, essa frase revela o propósito de romper com os moldes tradicionais, de in- - e quadrada ". "seus olhos 31
vestir ironicamente, desdenhosamente até, contra a verbosidade oca, elitista, e engravatada que, ~ tipo só são conrradirórías se ~
não apenas entre nós mas também alhures (ou sobretudo alhures), acabara estiolando o estilo - roda possibilidade de um -9.~
daquela prosa (e também daquele verso) cuidada, pomposa, apolínea, preciosista e elegante,
co1:res-..a5ão c-es[a mesa, que
purista e canônica - herança parnasiana - que precedeu a "revolução" estilística desencadea-
da pelo advento dos vários "ismos" gerados pelo fuc:urismo martnennno. Se é válida como expe- arada . "seus olhos. que
riência, válida sobretudo por ter rompido os grilhões rigidamente gramaticais e retóricos do quer de um sentido meraf ·
passado írncdíaro ou remoto, não constitui, em virtude dos seus excessos, nem padrão nem mo- seus termos: "os quadrúpedes,
delo. Tendo rompido com um passado, está hoje sepultada em outro. Mas deixou as suas pega-
das, por onde outros seguiram e têm seguido com menos radica llsmo.
5 Cf. o comentário que, a próposito dessa frase de Chomsky, faz R. Jakobson em Lingü{stica e
rado por CH0!-151-."Y,~ t!t
comunicação, p. 94-5.
ÜTIION M. GARCIA + 35

mas só é mensagem no plano metafórico (ver l. Fr., 1.6.8 e 2. Voe., 1.4),


;:x,derá ser entendida como um contexto poético, que depende fundamen-
mente, predominantemente, da cultura e da subjetividade do leitor ou ou-
=re, pois, como diz l. I. Revzin (citado por T. Todorov no seu estudo "Les
23«: -nalies sérnantiques", na revista Longages, n9 1, p. 119), "le poête crée un
· ers dans lequel se rrouvent justifiécs des phrases qui n'avaient pas de
dans sa langue".
Em suma: fora desse "universo" a que se refere Revzin, não basta
e a frase seja gramatical para ser inteligível: importa, ainda, que ela pre-
encha outras condições, apresente outras características, entre as quais so-
t:e!:c;aem as que apontamos a seguir com propósito exclusivamente didáti-
importa, enfim, que ela, além da condição de gramaticalidade:

· exclua duplicidade de informação (ambiguidades léxicas - homofonias e


homografias - e sintáticas, i.e., anfibologias propriamente ditas): "O ciú-
IT'e da mulher levou-o ao suicídio" (quem tinha ciúmes? a mulher ou o
suicida?). "Conheci-o quando ainda criança" (quem era criança? o sujei-
tr- (eu) ou o objeto (o) de "conheci"?).

_ exclua tautotogias nulificaáoras de significado, quer as que resultam da


ignorância da significação de determinada palavra, cm frases do tipo
s oculistas são mais competentes do que os ofLalmologisrns",6 quer as
~ue se configuram como círculo vicioso ou petição de princípio (ver 4.
Com., 2.2.3): "Fulano morreu pobre porque não deixou um vintém", "o
fumo faz mal à saúde porque prejudica o organismo". No primeiro ca-
so, só não haverá nulificação total do significado, se, por hipótese, o
termo "oftalmologistas" se revestir de cena conotação irônica, a tradu-
-,r possível repugnância a termos técnicos menos pedestres. No segun-
do, só há comunicação na oração principal: a causal, ou explicativa,
nada diz porque nada acrescenta ao que se declara ames; é pura tauto-
logia.

xclua incongruências (incompatibilidades, impertinência, incoerência) se-


nãnticas, configuradas em ou resultantes de:
e mtradição lógica literal: "os quadrúpedes são bípedes", "esta mesa re-
donda é quadrada", "seus olhos azuis são negros". É certo que frases
desse tipo- só são contraditórias se tomadas "ao pé da letra", desprezan-
do-se roda possibilidade de um "subentendimento" quer de uma decla-
rada contestação Ç'esta mesa, que se supõe ser redonda, é, na verda-
de, quadrada", "seus olhos, que parecem azuis, são, na verdade, ne-
gros"), quer de um sentido metafórico subjacente em algum ou alguns
dos seus Lermos: "os quadrúpedes, isto é, as pessoas estúpidas, são bí-

Fxernplo inspirado por CHOMSKY, A.~pecrs de lu théorie sy11taxh1ue. trad. fr., p. 111.
36 • (OMUN CAÇÃO EM PROSA MODERNA

pedes". É o "subentendimento" do sentido metafórico subjacente que dá duos nos dias de hoje,
validade aos paradoxos do tipo "falo melhor quando emudeço", aos oxí- meios de comunicação."
moros, ou aliança de contrários (obscura claridade, triste contentamen- resulta uma inadequada
to, deliciosa desventura, doce amargura) e às sinestesias (rubras clari- queria dizer é que "apess
nadas, voz acetinada, cor berrante). municação" as relações
b) impropriedade ou ausência de partículas ou locuções de transição entre os tos ideológicos, raciais e
segmentos de uma frase: "A paz mundial tem estado constantemente
ameaçada, posto que a humanidade se vê dividida por ideologias anta- revele conformidade com
gônicas." "Posto que" não é "porque" nem "visto que", mas "embora", cultural: "O Sol é gélido
"se bem que". - "O progresso da ciência e da tecnologia tem resulta- répteis são mamíferos" e
do em extraordinário desenvolvimento dos meios de comunicação; os gral e indiscutível mas •
homens se desentendem cada vez mais." O que o autor da frase preten- rios a toda a nossa expe
dia era mostrar o contraste entre o desenvolvimento dos meios de co- 5 constitua um enunciado ~
municação e o desentendimento entre os homens, contraste que deve- re um mínimo de probal
ria vir explicitamente indicado por partícula de transição adequada, pos." Será que conhece?
como "no entanto", por exemplo; o simples ponto-e-virgula não é sufici- seja estruturada de tal ,
ente para estabelecer essa relação, de forma que os dois segmentos do componentes para se torr
texto não chegam a constituir uma unidade frasal, mas apenas duas de- de despejo que o advog
clarações desconexas (ver 3. Par., 4.0). desconheço mandou me
e) omissão de idéias de transição lógica: "O progresso tecnológico apresen- causa perdida." Apesar •
ta também seu lado negativo: a incidência de doenças das vias respira- vel com algum esforço.
tórias torna-se cada vez maior em cidades como Tóquio, Novà York e co~põem o período), e
São Paulo." A omissão de referência à poluição do ambiente, provoca- nhas das suas múltiplas.
da pelos gases venenosos expelidos por veículos, fábricas, incinerado- te confusa."
res, etc. das grandes cidades, torna as duas declarações, contidas nas
duas orações justapostas, se não incompatíveis, pelos menos descone- (Para outros aspecto
xas ou dissociadas. A omissão de certas idéias, de certos estágios do ra- ! .2, 1.3 e 2.5 a 2.8. Quar
ciocínio pode levar a estabelecer falsas relações: "Verdadeira revolução bérn 1.4.5.2, "Paralelismo ~
na área dos transportes e das comunicações levou ao desenvolvimento
de novas fontes de energia, e recentes conquistas da eletrônica e da n·
sica nuclear modificaram profundamente o conceito de guerra." É certo
que a "revolução na área dos transportes e das comunicações levou ao
1.2 Frases de situ:
desenvolvimento de novas fontes de energia", mas é preciso explicar co- Do ponto de vista d
mo, o que o autor não fez por ter omitido certas idéias de transição, uma unidade do discurso
certos estágios da seguinte relação de causa-e-efeito: revolução nos sempre é assim. Já vimos.
transportes > aumento do consumo de combustíveis > possível escas- jeito. Existem também as
sez ou exaustão deles > necessidade de novas fontes de energia (com- outro desses termos, ou o~
bustíveis, etc.). Difícil ainda de perceber é a relação entre "revolução Às vezes, no ccnre»
nos meios de transportes" e "recentes conquistas da eletrônica e da físi- rico onde se acha a frase
ca nuclear" que modificaram o conceito de guerra. No caso, uma locu- "ambiente físico e social o
ção como "por outro lado", em vez de um simples "e", correlacionaria
mais adequadamente as duas declarações, mostrando que elas correm
paralelas e vão ser desenvolvidas a seguir. Quanto à cssencia dos itens 4, S
d) subversão na ordem das idéias: 'Apesar dos conflitos ideológicos, raciais te "grammaticalité".
e religiosos que marcam inconfundivelmente as relações entre os indiví- 7 CÂMARA JÚNIOR, J. Matoso. l
ÜTHON M. GARCIA + 37

duos nos dias de hoje, é extraordinário o progresso alcançado pelos


meios de comunicação." A ordem das idéias parece subvertida, do que
resulta uma inadequada relação de oposição entre elas: o que o autor
queria dizer é que "apesar do extraordinário progresso dos meios de co-
municação" as relações entre os indivíduos se caracterizam por confli-
tos ideológicos, raciais e religiosos.

4. revele conformidade com a experiência geral de uma dada comunidade


cultural: "O Sol é gélido", "A Lua é quadrada", "A Terra é cúbica", "Os
répteis são mamíferos" constituem enunciados de gramaticalidade inte-
gral e indiscutível mas de significado absurdo ou falso, porque contrá-
rios a toda a nossa experiência cultural e lingüística. ·
5. constitua um enunciado que, no plano denotativo - frise-se bem - encer-
re wn mínimo de probabilidade: "A águia conhece a mecânica dos cor-
pos." Será que conhece?
6. seja estruturada de tal forma que não exija a remanipulação dos seus
componentes para se tornar inteligível: "Creio que já lhe disse que a ação
de despejo que o advogado que o proprietário do apartamento que eu
desconheço mandou me procurar me disse que me vai mover é uma
causa perdida." Apesar dos seus enlaces sintáticos indiscutíveis (é possí-
vel, com algum esforço, destrinchar, classificar e analisar as orações que
compõem o período), essa frase se enleia e se embaralha nas artima-
nhas das suas múltiplas incidências, tornando-se caótica e extremamen-
te confusa."

(Para outros aspectos sintáticos e estilísticos da frase, ver, a seguir,


1.2, 1.3 e 2.5 a 2.8. Quanto a gramaticalidade e incongruência, ver tam-
bém 1.4.5.2, "Paralelismo semântico".)

1.2 Frases de situação


Do ponto de vista da integridade gramatical, a frase é, como vimos,
uma unidade do discurso em que entram sujeito e predicado. Mas nem
sempre é assim. Já vimos, de passagem, que há orações ou frases sem su-
jeito. Existem também as que não têm ou parecem não ter nem um nem
outro desses termos, ou os têm de maneira puramente mentalizada.
Às vezes, no contexto da língua escrita - i.e., no "ambiente lingüís-
tico onde se acha a frase" - ou na situação da língua falada - i.e., no
"ambiente físico e social onde é enunciada" -, 7 urn desses termos ou am-

" Quanto à esscncía dos itens 4, 5 e 6, cf. DUBOIS, Jean, el ai., Diccionnaire de linguistic1ue, verbe-
re "grammaticalité".
7 CÂMARA JÚNIOR. J. Matoso. Princípios de lingii(stica geral, p. 103.
38 • e o M u N I e A e Ão EM p R os A Mo D E R NA

bos estão subentendidos. Uma advertência ou aviso (Fogo! Perigo de vida, Dá dois passos
Contramão), um anúncio (Leilão de obra de arte, Apartamentos à venda), ~ ~"10 de \lasm se
uma ordem (Silêncio1), um juízo (Ladrão, i.e., \locê é um ladrão), um ape-
lo (Socorro', Uma esmolinlia pelo amor de Deust), a indicação de um fenô- - Xão disse?
meno (Chuva! i.e., Está chovendo), um simples advérbio ou locução adver- A cama de ieri
bial (Sim, Não, Sem dúvida, Com licença), uma exclamação (Que bom!), nm. O lavatório esmaj
urna interjeição (Psiu!) são ou podem ser considerados como frases, embo- ra de pau, o rínteiro
ra lhes falte a característica material da integridade gramatical explícita.
Só mentalmente integralizados, com. o auxílio do contexto ou da situação,
é que adquirem legítima feição de frase.
A esse tipo de frase chamam alguns autores "frase de situação", 8 e _;;;;,; 511 verso:
outros "frases inarticuladas",9 entre as quais se podem ainda incluir, além
das acima indicadas, as saudações (Bom dia), as despedidas (Até logo), as
chamadas ou interpelações, isto é, vocativos desacompanhados (Joaquim!) 5..:lgue coalhado.
e fragmentos de perguntas ou respostas. No discurso direto (diálogo), se Espalmado
alguém nos diz "Ele chegou", é provável que peçamos um esclarecimento ?esadelo sinistro de ~
De sinisuas
sob a forma de um fragmento de pergunta representado por um simples
pronome interrogativo - Quem? - em que se subentende "Quem che-
gou?" - ou um advérbio interrogativo - Quando? i.e., "Quando che-
gou?" São frases de situação ou de contexto, insubsistentes por si mes- Sobre o capim on
mas, se destacadas do ambiente lingüístico ou físico e social em que são .laciez das boninas.
enunciadas. espinho de rosetas.
cncris sutis nesse m
tão pequenino ...
1.3 Frases nominais
Há outro tipo de frase que também prescinde de verbo, constituída __E as minhas unhas
que é apenas por nomes (substantivo, adjetivo, pronome): Cada louco com Idéia de olhos pinrad
sua mania, Ceda macaco no seu galho, Dia de muito, véspera de nada. Nes- ~.teus sentidos maqu
sas frases, chamadas nominais - e também, mas indevidamente, elípticas A tintas desconhecid
- na realidade não existe verbo, o qual, entretanto, pode ser "rnentado":
cada louco (tem, revela, age de acordo) com sua. mania, cada macaco (de-
ve ficar) no se.t galho, dia ele muito (é, sempre foi), véspera de nada. A fra- Firas de cor, vozeana
se, em si mesma, não é elíptica; o máximo que se poderia dizer é que o Os automóveis replec
verbo talvez o seja. Seus chauffeurs - o~
Com librés de fantasj
Característica de muitos provérbios e máximas, comum na língua fa- (M;i
lada, ocorre com freqüência na língua escrita, em prosa ou em verso. É
uma frase geralmente curta, incisiva, direta, que tanto indica de maneira
breve, sumária, as peripécias de uma ação quanto aponta os elementos es- ~ o primeiro exem
senciais de um quadro descritivo, quer em prosa: ~ não caótica, pois
_ no conjunto do quad
'llais verbos, mas ..-e~r
K Cf. FRANCIS, W. Nelson. Tne strucwre of Amcrican Englis/1, p. 374. de estado ou repo
9
CI'. MAROUZEAU. J. Précis ele scylistiquc .française, p. 146. Cf. ainda Said Ali, Meios de ex· seus associados semânri
pressão e alterações semânt.icas. p. 48 e ss.
_;abalhada à maneira tra
I UFPE Bibiioteca-C~~·

ÜTHON M. GARCIA + 39

Dá dois passos e abre de leve um postigo. A luz salta para dentro. E


o quarto de Vasco se revela aos olhos dela [Clarissa).

- Não disse? Não há mistério.

A cama de ferro, a colcha branca, o travesseiro com fronha de mo-


rim. O lavatório esmaltado, a bacia e o jarro. Uma mesa de pau, uma cadei-
ra de pau, o tinteiro niquelado, papéis, uma caneca. Quadros nas paredes.

(E. Veríssimo, op. cit., p. 220)

quer em verso:

Sangue coalhado, congelado, frio


Espalmado nas veias ...
Pesadelo sinistro de algum rio
De sinistras sereias.
(Cruz e Souza, "Tédio", Faróis)

Sobre o capim orvalhado e cheiroso ...


Maciez das boninas,
espinho de rosetas,
cricris sutis nesse mundo imenso,
tão pequenino ...
(Augusto Meyer, "Sombra vereie", Poesia)

... E as minhas unhas polidas -


Idéia de olhos pintados ...
Meus sentidos maquilados
A tintas desconhecidas ...

Fitas de cor, vozearia -


Os automóveis repletos:
Seus chauífcurs - os meus afetos
Com librés ele fantasia!
(Mário de Sá-Carneiro, "Sete canções de declínio", Poesias)

No primeiro exemplo, a enumeração relativamente longa, se bem


que não caótica, pois arrola apenas os elementos afiliados por contigüida-
de no conjunto cio quadro (o quarto de Vasco), poderia vir "enfiada" num
ou mais verbos, mas verbos, por assim dizer, anódínos, verbos de existên-
cia, de estado ou repouso, facilmente meneáveis: havia, existia, estava e
seus associados semânticos ocasionais (encontrava-se, via-se, estendia-se).
Trabalhada à maneira tradicional, a frase ficaria mais ou menos assim: Ha-
40 • e o M u N I e A e à o EM pR o sA MoDER NA

~a literatura bra.si
via uma cama de ferro (sobre a quaJ se estendia) uma colcha branca e
C.OillSIBS delas se se.rveni
(onde repousava) um travesseiro com fronha de morim ... etc. - com um
:re:::.: de preferência ou e
só verbo (haver) a servir de madrinha a toda a tropa de nomes, ou um
=XEJ:Iolo de um cro=·
para cada unidade do trecho (repousava, estendia-se, etc.). Mas, qualquer
-=!!!?()râneos que manit
que fosse ele ou eles, seriam verbos de "encher", e a consciência - ou
e-excedíveis:
presciência - de que seriam desse teor levou o autor a evitá-los, por pre-
sumíveis, contribuindo assim para a economia da frase, já que não era seu
propósito deter-se na descrição detalhada do quarto, nem lhe interessava Um calor d
fantasiar ou animizar os seus componentes. Tratava-se apenas de uma vi-
são inicial rápida, de um simples correr d'olhos sem mais detença.
Nos exemplos em verso, mais ainda do que no anterior, a presença
Abismos em
do verbo é praticamente - perdoem-nos o adjetivo e a grafia - "ínmentá-
bam de explodir um
vel". O que os três poetas queriam expressar eram puras sensações - de
asco e tédio, em Cruz e Souza, de volúpia sensorial, em Augusto Meyer, e
de imagens que se gravaram na retina e na memória do poeta, em Sá-Car-
neiro. Neste, aliás, como nos simbolistas e impressionistas de um modo ge- O segundo trecho
ral, são muito freqüentes as frases nominais: no poema de que extraímos o ío: pane com verbo
exemplo há vinte e duas estrofes assim constituídas. calvez mais comum:
No caso dos provérbios, o verbo é facilmente mentável. Num exame P3l()ào. são nominais,
rápido de cerca de trezentos deles, dos mais comuns, verificou-se que vin- verbo claro. Veja-se
te e seis eram constituídos por frases nominais do tipo "cada macaco no
seu galho" (urna unidade) ou "dia de muito, véspera de nada" (duas uni-
dades em paralelismo). Desses vinte e seis, dezesseis - mais de 60% - - Chuvas d
ponteiros dos pára-h
poderiam admitir o verbo ser ou correlatos; oito - cerca de 30% -, ha-
ver ou correlatos, e somente dois admitiriam verbos de outras áreas (um ir, recortada na noite.
gos. Cacadupas des;i
o outro, ter). ::uma água única, e
Ora, nos provérbios de estrutura frásica não nominal, a variedade mágico (. . .)
dos verbos é inumerável, o que nos leva a presumir que nominais são, na
quase-totalidade dos casos, aquelas frases cujo verbo, "mentável", i.e.,
"pensável" é ser ou da área de ser, excepcionalmente haver e raríssimamen- que, com o desa
te outros. pessoas ( ...)
A tradição das frases sem verbo data do próprio latim (''.A.rs longa,
vita brevis"), particularmente na linguagem familiar, como nas comédias de ruas igualmente
Plauto. Entretanto, mesmo os clássicos puristas como César e Cícero, para morros( ...)
não citar outros, delas se serviam habitualmente.
Todavia, ao classicismo dos séculos XVI a XVIII, principalmente na li,
teratura francesa, parecia repugnar esse tipo de construção, que, em certa
medida, só se generalizou no decurso do século XIX, a partir do romantis-
mo, ou mais exatamente, a partir de Victor Hugo: "Dans les lettres com-
me dans la société, point d'étíquette, point d'anarchie des lois. Ni talons
ooes reduzidas de gerú
rouges, ni bonner rouge."1 º ~ "quando os ponteí
se avista ...., (a de l
csoorregarem .. ", além
'"'tiz:lsfonnando o Palá ·
JO Apud COHEN, Marcel. Grammaire er style, p. 93 .

• v- • t·- ...
ÜTHON M. GARCIA + 41

Na literatura brasileira contemporânea, quase todos os novelistas e


cronistas delas se servem em maior ou menor grau - mas é preciso frisar
bem: de preferência ou quase exclusivamente no estilo descritivo. Veja-se o
exemplo de um cronista muito em voga, um daqueles cinco ou seis con-
temporâneos que manipulam a crônica com habilidade e senso artístico
inexcedíveis:

Um calor danado cm Roma, Nápoles em farrapos.


···················································································· ·······································

Abismos em Cosenza; primeiras notícias de Giuliano: os banditti aca-


bam de explodir um caminhão com oito carabinieri.
(Paulo Mendes Campos, in: Quadrante 2, p. 170)

O segundo trecho ("Abismos em Cosenza ... ") constitui um período hí-


brido: parte com verbo (acabam de explodir), e parte sem ele. É o proces-
so talvez mais comum: só algumas orações, quase sempre as primeiras do
período, são nominais, seguindo-se-lhes outra ou outras (subordinadas)
com verbo claro. Veja-se o exemplo que nos oferece Cecília Meireles:

- Chuvas de viagens: tempestades na Mantiqueira, quando nem os


ponteiros dos pára-brisas dão vencimento à água; quando apenas se avista,
recortada na noite, a paisagem súbita e fosfórea mostrada pelos relâmpa-
gos.' Catadupas despenhando sobre Veneza, misturando os céus e os canais
numa água única, e transformando o Palácio dos Doges num imenso barco
mágico ( ... )

Chuvas antigas, nesta cidade nossa, de perpétuas enchences: a de 1811,


que, com o desabamento de uma parte do morro do Castelo, soterrou várias
pessoas (. .. )

Chuvas modernas, sem trovoada, sem igrejas em prece mas com as


ruas igualmente transformadas em rios, os barracos a escorregarem pelos
morros (... )

("Chuva com lembranças", ín. Quadrante 2, p. 59)

As subordínadas que se seguem às nominais são na sua maioria ora-


ções reduzidas de gerúndio; mas Cecília Meireles nos dá exemplos de ou-
tras: "quando os ponteiros ... nem dão vencimento à água", "quando ape-
nas se avista " (a de 1811) "que ... soterrou várias pessoas", "os barracos a
escorregarem ". além das gerundiais "despenhando sobre Veneza" e
"transformando o Palácio dos Doges ... "