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Preconceito Linguístico em rede: uma análise discursiva das

representações do Internetês em comunidades do Orkut

Linguistic prejudice in network: a discursive analysis of the


representations of the Internetês in Orkut communities
Leila Karla Morais Rodrigues Freitas1
(UERN)

Resumo: Neste trabalho objetivamos investigar os discursos que se insurgem contra o Internetês,
materializados especialmente no âmbito virtual, que se revestem do status de preconceito linguístico.
Analisando/descrevendo os enunciados/discursos (re)produzidos em duas comunidades do Orkut,
pudemos (entre)ver a retomada de discursos seculares como os da pureza linguística, da preservação
da língua sob os quais se ancoram às representações sociais acerca do domínio da fala/escrita.
Vinculados à norma culta/padrão, eleita pelos “iluminados” mestres da Gramática, os dizeres que
sustentam o preconceito na verve das práticas sociais cotidianas, ditas “reais”, agora migram para o
âmbito ciberespacial. Vindo à tona na/pela internet, esses discursos se transmutam e passam a integrar
a prática discursiva dos sujeitos, mesmo imersos nesse “novo” mundo. As discussões ora travadas
obedecem prioritariamente às orientações teórico-metodológicas oriundas da Análise do Discurso do
de matriz francesa a partir de Foucault (1998, 2005), Pêcheux (1999) e Orlandi (1999). Ajudam a
encorpar as nossas discussões as contribuições advindas Bagno (2003, 2007), Faraco (2007),
Marcuschi (2004) e Possenti (2002, 2006), dentre outros. Nossas análises, embora minimante
ilustrativas apontam para a disseminação de práticas discursivas preconceituosas no Orkut, em co-
extensão às práticas instadas na esfera não-digital, embora se possam ver também, timidamente,
lampejos de Contra-discursos emergindo dos interstícios mesmo de tais práticas.

Palavras-chave: Internetês, preconceito linguístico, Língua Portuguesa, discurso, Orkut

Abstract: In this paper we investigate the discourses about the Internetês, especially in virtual
space, which status are of linguistic prejudice. Analyzing / describing the statements / speeches (re)
produced in two communities in Orkut, we have seen the revival of secular discourse as linguistic
purity and preservation of the language upon which are anchored to the social representations about
the domain of speech / writing. Linked to norms / standard, elected by the masters of Grammar, the
speeches that sustain this prejudice in the everyday social practices, called "real" now migrate to the
cyberspace context. In the Internet, these speeches are transmuted and become part of the discursive
practice of even immersed in this "new" world. The discussions are based on approaches theoretical
and methodological derived from the Discourse Analysis of the French by Foucault (1998, 2005),
Pêcheux (1999) and Orlandi (1999). We also use contributions given by Bagno (2003, 2007), Faraco
(2007), Marcuschi (2004) and Possenti (2002, 2006) and others. Our analysis point for spreading of
prejudiced discourses practices in Orkut, as co-extension of practices encouraged in non-digital space,
though we could also see shyly flashes of discourses others in such practices.

Keywords: Internetês, linguistic prejudice, Portuguese language, discourse

1. Para começo de conversa

Afirmar que a Internet vem revolucionando a esfera da comunicação constitui um


verdadeiro dando mostras da sua grandiosa dimensão, especialmente neste campo. O
1
leila.km@hotmail.com

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Ciberespaço ─ ambiente virtual erigido na e pela Internet ─ figura atualmente como um dos
espaços mais profícuos para o estabelecimento da comunicação entre os indivíduos. Chats, e-
mails, Weblogs, Fotologs e Orkut são apenas alguns dos dispositivos aos quais os internautas
dispõem para viabilização desta nova forma de (inter)relaçã/ação.
Aliado a esse aspecto que tem despertado o interesse de estudiosos de vertentes
teóricas diversas, destaca-se a linguagem comumente empregada na Internet. A invasão do
chamado “internetês” é uma das questões centrais da agenda de discussões da sociedade no
século XXI, sobretudo nos espaços escolares e acadêmicos. No topo do debate situa-se a
relação desta nova modalidade de escrita ─ que se distingue em certos aspectos da escrita-
padrão vinculada à norma culta ─ e a Língua Portuguesa ensinada na escola, regida
vigorosamente pela norma-padrão.
Em que pese os pormenores que embasam essa discussão à qual esforçaremo-nos por
abordar mais adiante, o que se observa é que o debate em torno da categorização do Internetês
ganhou ares de preconceito linguístico, emergindo como uma extensão do (preconceito) já
impetrado contra as variedades não-padrão do Português dispostas nos espaços sociais
“reais”. Preconceito este que tem seu sustentáculo na força do discurso.
Para além disso, percebe-se que os posicionamentos acerca deste assunto
extrapolaram os muros escolares e acadêmicos, tendo-se feito presentes na mídia com notável
ênfase, atingindo inclusive a mídia em sua versão digital. No Orkut, por exemplo, encontram-
se muitas comunidades que se destinam á discussão dessa questão, donde se tem mais um
palco onde se reforça essa relação conflituosa.
O edifício teórico da AD, ao qual nos ancoramos, postula que as palavras não são
tomadas por si mesmas, mas a partir das posições ocupadas pelas pessoas que as proferem no
interior do discurso, de modo que, “não importa quem fala, mas o que ele diz não é dito de
qualquer lugar. É considerado, necessariamente, no jogo de uma exterioridade”
(FOUCAULT, 2005, p. 139).
Nesse sentido, o discurso é tomado aqui não como um mero conjunto de signos
aleatórios e/ou proferidos intencionalmente pelos sujeitos, mas, antes disso, como prática
discursiva. As práticas discursivas são as responsáveis pela inserção dos indivíduos na
chamada ordem do discurso (FOUCAULT, 1998).
As práticas discursivas, ainda conforme nos assegura Foucault (2005) não são
neutras. Pelo contrário, elas se inserem num universo relacional orquestrado por “jogos de
poder” que, por seu turno, determinam a aparição de objetos e saberes preponderantes numa

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dada época, concedendo-lhe o status de verdade. Na concepção foucaultiana, a verdade
inexiste enquanto essência, sendo, portanto uma construção sujeita a mudanças promovidas
no/pelo discurso, lugar privilegiado para o embate e a disputa rumo à constituição dos
regimes de verdade. (GREGOLIN, 2004).
A problemática deste trabalho consiste, portanto, em discutir a construção discursiva
da condenação do Internetês, concebido como modalidade de língua(gem) incompatível com
a nossa Língua Portuguesa, a partir dos comentários divulgados em comunidades do Orkut e
dos posicionamentos assumidos por teóricos da área da linguagem que versam sobre esta
temática, tais como: FARACO (2007), POSSENTI (2002; 2006), KOMESU (2006; 2007),
BAGNO (2003; 2007), dentre outros.
A fim de compreendermos as práticas discursivas que viabilizam tal consideração e
os “jogos de poder” a elas subjacentes, almejamos responder a questões tais como: Quais
discursos são (re)elencados no/para o estabelecimento da depreciação do Internetês face ao
Português? Quais deles assumem o status de verdade? Quais as regularidades discursivas que
demarcam os posicionamentos assumidos pelos sujeitos no Orkut ante a esta questão? Qual o
papel da memória discursiva no engendramento discursivo da (desta) (in)compatibilidade
entre estas modalidades da língua(gem)?
Constam do corpus deste artigo comentários/descrições dispostos em duas
comunidades do Orkut. A seleção do material se deu consoante nossa proposta de abordar a
materialização discursiva do (desse) preconceito linguístico para com o Internetês.

2. Internetês: o Português da/na internet?

O Internetês é a linguagem predominante do Ciberespaço e como tal é amplamente


utilizada nos gêneros textuais digitais. Dentre suas características, destacam-se o uso
excessivo de abreviações, a quase totalidade da supressão da acentuação gráfica e a alteração
do emprego (convencional) da sinalização.
Na verdade, tudo começou com o Internetês arcaico, conforme assegura Komesu
(2006), ─ que era tão-somente uma forma de abreviar as palavras e frases a fim de tornar a
comunicação mais rápida. Aos poucos, com a intensificação dos dispositivos virtuais e da
freqüência desses usos, outras abreviações foram se multiplicando, resultando na sua
configuração atual. Indiscutivelmente, esse é um dos fatores sob o qual se incide o maior
índice de críticas ao Internetês. Entretanto, segundo Komesu (2007), esse traço (a abreviação)

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não é inerente apenas a escrita da internet. Antes disso, o uso de abreviações faz parte da
história da própria língua Portuguesa, haja vista que na Idade Média esse recurso já fora
utilizado pelos copistas ─ pessoas especializadas na escrita de livros à mão. A título de
ilustração, pode-se citar o termo et cetera proveniente do latim que, em decorrência do uso
corrente da época transformou-se no etc, nosso velho e bom conhecido ainda hoje.
Outro traço típico do internetês é a utilização de símbolos, ícones e algarismos. Os
denominados emoticons respondem pela expressividade de sensações e/ou emoções
vivenciadas pelo internauta. Na falta do contato face a face, tais símbolos cumprem a função
de imprimir certa pessoalidade às falas dos sujeitos. De fato, a linguagem utilizada na internet
parece fundir, a um só tempo, duas modalidades de linguagem historicamente dicotomizadas:
a escrita e a falada. Nesse sentido, a e-escrita representa uma novidade sem precedentes no
campo linguageiro, configurando uma espécie de escrita oralizada ou fala escrita
criptografada. Nas palavras de Faraco,

O ‘internetês’ nada mais é do que uma espécie de taquigrafia. É apenas um modo de grafar a
língua que se tornou necessário nos chamados chats. Quando escrevemos, não conseguimos
acompanhar o ritmo da fala. Por isso, inventamos esses sistemas taquigráficos, estenográficos e
assemelhados. Foi exatamente o que aconteceu nas conversas na Internet (FARACO, 2007, p.
17).

3. A instauração da rivalidade entre o Internetês e a Língua Portuguesa

Desde a emergência do Internetês, tem-se travado uma verdadeira batalha


(discursiva) entre este e o português. As analogias realizadas entre ambos tendem, em geral, a
pô-los em posição de extrema rivalidade, como se se tratassem de códigos linguísticos
diferentes. Nesse ínterim, a linguagem da internet transita entre os discursos de absolvição e
os de condenação. Para alguns, ela consiste numa aberração da língua, uma espécie de
agressão desmedida ao nosso idioma, ao passo que para outros ele (o internetês) nada mais é
que mais uma das muitas variações por que passam (obrigatoriamente) a língua.
Um dos argumentos em que se sustentam algumas das principais críticas desferidas
contra o internetês é o de que se trata de uma linguagem alógica, caótica, sem regras de
estabelecimento. Este argumento, ao que tudo indica, apóia-se nos discursos de pureza
linguística amplamente estabilizados e institucionalizados pela Escola. Tais discursos,
conforme nos atesta Faraco (2007) integram o repertório de discursos vinculados ao ensino no
Brasil há alguns séculos e encontram-se de tal modo enraizados que quaisquer tipos de
mudanças transcorridas na língua são vista como negativas, expressão de

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degeneração/empobrecimento e, assim sendo, são evitadas a todo custo, como se fosse
possível coibir a evolução da língua.
Bagno (2003, 2007), por sua vez, nos assegura que os discursos em prol da pureza do
idioma estão associados a um forte preconceito (linguístico) em vigor no nosso país desde a
época da colonização; discurso este que se sustenta na premissa de que há apenas uma forma
(correta) de falar/escrever português, forma esta denominada norma culta que de tão
amplamente difundida pela escola assumiu a condição de norma padrão e/ou simplesmente de
A Norma. Segundo esse critério, todas as demais variantes da língua são meros desvios, não
devendo por isso serem levadas em consideração.
Isto posto, o argumento em prol da pureza da língua assenta-se num discurso
institucionalizado e francamente balizado pela Escola que postula a língua como um elemento
ideal, puro e inabalável. Quer seja, esse discurso assumiu o posto de verdade, dado que resulta
de uma vontade de verdade (FOUCAULT, 2005). Além disso, subjacente a tal discurso está a
associação comumente feita entre o português, tomado como idioma e a identidade nacional
─ neste caso a identidade brasileira, forjada por padrões importados da Europa, questão a
qual, em função do curto espaço de tempo de que dispomos não nos deteremos ─ baseada, em
última instância, no princípio da exclusão.
Vale ressaltar que, embora Bagno (2003, 2007) não trate especificamente da
modalidade de linguagem utilizada na internet, inferimos que suas observações a respeito das
relações de poder que perpassam a língua portuguesa e nós falantes aplicam-se ao internetês,
na medida em que presenciamos a ratificação de certos critérios/discursos para efetivação de
juízos de valor.
No que toca à acusação de que o internetês seja uma espécie de linguagem aleatória,
Possenti (2006) argumenta que, opostamente ao que se possa cogitar, a linguagem da internet
possui regras que a torna inteligível. Há entre os usuários adeptos desta forma de escrita, no
dizer do autor, um acordo tácito que os permite compartilhar tais regras. Caso contrário, os
internautas não poderiam fazer-se compreender, pois teriam diante de si o desafio de conviver
em uma versão renovada da torre de Babel.
O caminho tomado por nossas discussões remete-nos novamente às palavras de
Possenti para quem os ataques impetrados contra o internetês, são, muitas das vezes
infundados. Segundo o pesquisador, “quando se ataca a linguagem da internet, nem sempre se
sabe muito bem do que se fala” (POSSENTI, 2006, p. 30).

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4. As condições de produção discursiva no Orkut

Para a Análise do Discurso, as condições de produção são essenciais a uma


investigação bem sucedida sobre as práticas discursivas e os objetos por elas engendrados.
Logo, faz-se necessário refletir acerca das circunstâncias discursivas atinentes ao Orkut. O
Orkut é um site de relacionamento que, inserido na gigantesca rede virtual (a internet)
“aproxima” pessoas de todas as partes do planeta, alargando as fronteiras e desconsiderando o
distanciamento espacial.
As relações configuradas no Orkut, assim como por meio de outros hipertextos
dispostos no ciberespaço, erigem-se sob o traço da impessoalidade. Inversamente ao que
ocorre na vida real, o universo virtual confere uma liberdade sem precedentes aos indivíduos,
donde a verdade nem sempre impera. Embora apresente em seu regimento normas de
funcionamento às quais (supostamente) deverão aceder seus usuários, o Orkut configura-se
como um ambiente livresco, considerando que em seu interior os indivíduos dispõem do livre
arbítrio para expressarem-se, sobretudo no que concerne aos seus posicionamentos. O
indivíduo que adentra no Orkut, o faz, em geral, aderindo a um convite de outrem. Após sua
aceitação, ele se submete a procedimentos protocolares. Uma vez concluída esta etapa
protocolar, o indivíduo passa a figurar como um orkuteiro.
Além da home page, ajudam a compor o perfil do usuário, no Orkut, as comunidades
às quais este se filia. Há comunidades destinadas a versar sobre as mais variadas temáticas. A
partir delas, indivíduos se unem em torno de opiniões e posicionamento afins, o que nos
termos da Análise do Discurso, é revelador de posições-sujeito e, com efeito, de inscrições em
determinadas Formações Discursivas. É exatamente neste aspecto que reside nosso interesse.
As comunidades veiculadas no/pelo Orkut configuram-se como instâncias discursivas de
relevo na contemporaneidade, respondendo por uma significativa participação na produção e
propalação de discursos no cenário social.
Com efeito, a prática discursiva encetada no Orkut se demarca como um trabalho de
(re)produção, donde se destaca a memória como elemento fundamental. É graças a ela,
segundo Pêcheux (1999) e Orlandi (1999) que se tem a possibilidade de (re)dizer algo e, por
conseguinte, de que esse (re)dito possa fazer sentido.Nesse sentido, os discursos erigidos na
esfera do Orkut constituem também em um reengendramento discursivo que parte de
discursos já proferidos, relacionados a redes de sentidos já consolidadas com vistas a
promover deslocamentos, realocamentos bem como a irrupção de sentidos outros.

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4. O preconceito ao Internetês na prática (discursiva) do Orkut: de olho no
corpus

A fim de rastrear a materialização dos discursos que dão vazão ao preconceito


linguístico direcionados para o Internetês no universo virtual, optamos por investigar duas
comunidades do Orkut. Na esteira destas, lançamos mão do trabalho de descrição/análise dos
discursos (re)memorados, (re)arregimentados, a presença dos ditos e não-ditos, entre outras
estratégias de que se utilizam os indivíduos naqueles espaços para depreciar esta modalidade
de língua(gem). Cumpre ressaltar que a escolha das comunidades e os recortes nelas
empreendidos são fruto de um gesto de interpretação nosso de modo que direciona(re)mos
nosso olhar para os aspectos mais reveladores da corporificação do preconceito aqui
investigado.

Figura1: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=194344 ─ Acesso em 10/10/2010.

Na descrição da comunidade “Assassinaram o Português”, vários aspectos despertam


nossa atenção. O primeiro deles diz respeito ao emprego lexical. Alguns termos, antes mesmo
de nos remetermos ao enunciado em sua totalidade, revelam-nos, por si só, a assunção de
certos posicionamentos frente às questões concernentes ao uso da Língua Portuguesa, a
começar pelo título da comunidade. O uso do verbo assassinar conjugado em terceira pessoa
do plural do tempo passado já nos oferece fortes indícios do discurso ao qual se filiam os
membros deste espaço; indícios estes que se confirma(ra)m doravante. Percebe-se que o
lexema “assassinaram” se remete, a priori, a todos os indivíduos (falantes nativos do
português no Brasil) que não fazem uso ─ ou se o fazem, o fazem de maneira insatisfatória ─
do nosso idioma, tomando a norma culta padrão como paradigma.

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Ao se utilizar dessa estratégia, os integrantes dessa comunidade estão retomando o
discurso-vulgata escolar, segundo o qual o processo de aprendizado da língua se restringe ao
domínio da norma culta e baseado nas noções de certo/errado tão amplamente difundidas.
Este discurso, tão em voga ainda em nossos dias funda-se, no dizer de Bagno (2003, 2007)
numa visão unilateral da Escola que postula a norma culta como a única forma de expressão
da nossa língua, a correta, a ideal e desconsidera, por seu turno, todas as outras maneiras de
expressão linguística. Disso tem resultado o que o autor chama de Preconceito linguístico que
tem se feito incidir, incisivamente, sobre os indivíduos que não conseguem dominar essa
modalidade da língua. A partir do termo “assassinaram”, percebe-se, facilmente, a presença
desse discurso que, uma vez residente na memória discursiva (PÊCHEUX, 1999), é trazido à
baila nesta ocasião, acrescido, ao que nos parece, de um tom de raiva, de indignação, o que
nos dá mostras da adesão dos membros da comunidade à exclusão denunciada por Bagno.
No plano da descrição propriamente dita, observa-se logo no primeiro enunciado a
referência feita ao Internetês. Os ataques proferidos a esta modalidade de escrita assumem
dois tons. O primeiro deles o associa a “ingênuos enfeites a nossas lindas palavras”, ou seja ao
trabalho de “floreamento” ineficaz ─ no dizer desses sujeitos ─ feito sobre os vocábulos do
nosso idioma. Essa fala volve-nos ao discurso veiculado pelos Gramáticos para quem o
modelo de língua perfeito encontra-se entre os grandes literários, sobretudo os do passado.
Estes sim, na ótica dos mestres da Gramática é que sabem/podem fazer floreios com
perfeição.
Em seguida, o moderador da comunidade deixa ainda mais explícita sua posição
contrária ao internetês. As expressões “Lindu”, “Kéru” e “Migu” típicas da linguagem da
internet, são citadas e execradas. Apresentadas como atrocidades (da língua), são
responsabilizadas por rebaixar o nível gramatical e (até) mental das comunidades ─ leia-se
indivíduos.
Nota-se que estes enunciados, uma vez mais, se apóiam no discurso
institucionalizado escolar para quem o ensino da língua está intimamente ligado ao ensino da
Gramática que, por sua vez, está ligada ao ensino da norma padrão. O preconceito linguístico
é latente, sobretudo quando se associa o não domínio da Gramática à incapacidade cognitiva
dos falantes. Este discurso não é inédito. Pelo contrário, é um velho conhecido dos linguistas,
bem como nos relata Bagno (2003) ao que inferimos que apenas os que dominam o
“português culto” são considerados aptos a entrar na ordem do discurso (FOUCAULT, 1998).

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Figura 2 - Fórum da Comunidade “Assassinaram o Português”

No excerto 2 temos um dos tópicos que compõem o fórum de discussões da


comunidade acima mencionada. O título, por si só, já nos reporta aos discursos em que se
respalda o preconceito linguístico. Em tom apelativo, sua mentora, a primeira a postar um
comentário nesse espaço, ali autodenominada de “Glória”, pede, suplica, em nome de Deus,
para que as pessoas escrevam corretamente. Esse corretamente aí se refere, uma vez mais à
adequação/obediência à norma padrão da língua, vislumbrada como a correta, a única digna
de valoração. Partindo de críticas generalizadas aos falantes que “se desviam” e “desviam” a
língua culta, a orkuteira chega ao ponto central que determinará os rumos precisos das
discussões, a saber, o Internetês.
A linguagem típica da internet vai ser atacada exatamente naquilo que lhe é peculiar,
que a difere das demais modalidades da língua que são as abreviações, a subversão das regras
de pontuação e sinalização. A autora, inclusive, opta por transcrever alguns termos
comumente empregados no universo virtual, o que revela um esforço por marcar
incisivamente o objeto de suas críticas de modo que não reste qualquer dúvida por parte
daqueles que a vejam/leiam sobre a sua fala. Ainda na enunciação de Glória é possível
recuperar discursos como o da inviabilidade da comunicação e o da incapacidade cognitiva,
materializados, linguisticamente nas expressões: “Às vezes, não dá pra entender o que está
escrito” e “Será preguiça mental?”, donde nos é dado a captar o movimento do redizer, entre o
mesmo e o outro porque passam os enunicados/discursos (re)produzidos agora na (nessa)
esfera do Orkut.

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Por último, subjaz ao comentário de Glória, a ideia de modismo que dá vazão, em
parte, ao discurso da preservação linguística sobre o qual se erige uma sorte de atitudes,
dizeres, preconceitos à mudança, à variação. Calcado na premissa de que as transformações
são sempre mal-vindas e refletem o empobrecimento, a deterioração da língua, desse discurso
emanam sentidos que, em rede, atuam, insistentemente, com vistas a impelir os indivíduos a
coibirem, ceifarem as sementes da mudança/discórdia mesmo que a duras penas.
No que tange ao efeito imediato desse tópico, este parece ter sido extremamente
positivo (para a autora) considerando seu objetivo. Isto porque ele contou com um número
significativo de respostas/comentários, o que no Orkut, como em outros dispositivos
ciberespaciais, denotam sucesso, por refletirem aceitação/adesão. De fato, o post contabilizou
83 participações, ou seja, 82 pessoas, supostamente2, além de Glória, adentraram na
discussão, seja para reforçar a argumentação iniciada pela autora, seja para contrapô-la.
No segundo comentário, logo abaixo do lançado por Glória, uma usuária sai em
defesa do Internetês e, sobremaneira, dos escreventes desta modalidade. Se colocando no
grupo dos que comungam da e-escrita, a moça eleva a discussão, imprimindo em sua fala um
tom de réplica discordante. Fazendo uso da terceira pessoa do plural “nós”, Christian se
assume como interneteira em sua acepção linguageira e repudia, melhor dizendo, tripudia dos
argumentos proferidos contra ela e seus consortes. É interessante notar como a fala de
Christian, embora contrária a de Glória, parte, necessariamente daquela. Com efeito, é nos
discursos já existentes, nos sentidos já balizados acerca da língua, dos saberes e usos
lingüísticos (preconceituosos ou não) que a enunciação da moça encontra os elementos para
que possa emergir, caracterizando o já-dito como o motor propulsor para o seu (re)dizer.
Ademais, vale ainda destacar o fato de que o discurso evocado por Christian figura
como um Contra-discurso, conforme nos ensina Foucault (2005). De acordo com o autor, as
Formações discursivas são heterogêneas, ou seja, habitadas por discursos que pertencem a
mais de uma rede de sentidos. Uma vez sendo isso factível ─ e o é no dizer foucaultiano, de
um discurso, aparentemente solidamente identificados com uma só “causa” podem surgir
discursos-outros, inclusive diametralmente opostos ao “discurso-primeiro”. Nesse caso em
pauta, atribuímos ao discurso de Christian o estatuto de Contra-discurso visto o
enquadramento na descrição de Foucault.

2
Dizemos supostamente porque é cediço que um usuário, seja ele idealizador ou não do tópico do/no fórum,
pode, sem quaisquer problemas, postar seus comentários, réplicas e tréplicas quantas vezes se lhes aprouver.

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O terceiro comentário incluso no nosso recorte trata-se de uma adesão, ao que parece
total, à fala da idealizadora do tópico, tendo em vista a recorrência enunciativo-discursiva dos
mesmos elementos relacionados ao preconceito linguístico para com o Internetês.

Figura 3: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=6317135 ─ Acesso em 10/10/2010.

Na descrição da comunidade “Não ao ‘Internetês’!”, os ataques ao internetês se dão


de forma ainda mais latente, reforçando sobremaneira a rivalidade (discursiva) que permeia
essa relação. Na verdade, o internetês é usado como mote em torno do qual os membros desta
comunidade se unem.3 Os enunciados contidos nesse pequeno excerto se alicerçam, como
observado na análise anterior, no discurso de pureza e preservação da língua e, sobretudo no
papel atribuído à escola no processo de letramento. Contudo, o “saber a língua” nesse
contexto se resume ao domínio dos aspectos gramaticais. A menção das classes de palavras,
das regras sintáticas nos remete (novamente) ao discurso e as práticas escolares, além de nos
(re)memorar os velhos mitos que rondam a língua portuguesa, como bem nos relata Bagno
(2007), dentre os quais destaca-se o de que português é uma língua difícil e o de que, em
decorrência disso, o brasileiro não sabe a nossa língua. Esses mitos são aludidos quando o
3
À guisa de esclarecimento, as comunidades do Orkut se orquestram a partir de temas. A adesão dos indivíduos
a essas comunidades se dá mediante afinidade com as questões tratadas nestes espaços. A inserção nas
comunidades implica, em geral, a participação nos fóruns de discussão acerca do(s) assunto(s) enfatizado(s).

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moderador discorre acerca da sua (nossa) longa trajetória escolar rumo ao domínio das
habilidades de leitura e escrita; trajetória essa concebida como árdua para que o indivíduo
possa afinal “ter uma noção de concordância, verbos etc”.
Nota-se ainda que a crítica desferida contra o internetês atinge em cheio os
interneteiros, aproximando-se dos julgos comumente atribuídos àqueles indivíduos ditos
analfabetos ou iletrados, cujo acesso à escolarização lhes fora negado, de modo que se tem a
recorrência e conseqüente transmutação de um discurso naturalizado (o da exclusão) já em
outra esfera – a escolar ─ para a esfera virtual.
Ainda na descrição da comunidade ilustrada pela figura 2, observa-se certa confusão
entre a concepção de língua portuguesa e da Gramática. O discurso que vincula uma a outra,
já referendado anteriormente por Bagno (2003, 2007) e Possenti (2006), ecoa, nas vozes dos
membros dessa comunidade como um reflexo das diversas vozes sociais para quem ele já não
passa de um lugar-comum. Cumpre observar o apelo reiterado ao discurso da defesa da
língua; discurso que se alicerça no imaginário de língua pura cujo temor reside na
possibilidade de extinção da língua portuguesa (padrão) na internet e, posteriormente, no
âmbito da vida real. O tom enfático do convite, ou melhor, do chamado aos que se identificam
com essa causa “Divulgue essa idéia!!!”. “Seja um difusor da Língua Portuguesa, comece
agora!”denotam a força do (desse) discurso que, mediante o interdiscurso materializa as
relações de saber/poder contidas nessa prática discursiva como nos atesta Foucault (2005).

Figura 4 – Enquete da Comunidade “Não ao Internetês”.

Na figura acima temos uma das enquetes propostas na Comunidade acima


referendada. Nela, Daiá na ná, como se auto-intitula a criadora do post, levanta um

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questionamento que reflete uma preocupação muito em voga no bojo da sociedade atual. Ela
quer saber a opinião dos companheiros de comunidade acerca da inserção no universo escolar.
Não obstante o número reduzido de indivíduos que se propõem a externar seu ponto de vista,
6 apenas, consideramos relevante analisar o resultado ressalvando as devidas proporções.
Ora, em um universo de 6 participantes, 5 deles escolheram a opção que exprime em
termos de absurdo o uso desta modalidade de linguagem na esfera escolar. Mais uma vez, isso
nos deixa (entre)ver a força que o discurso secular da pureza linguística tem ainda hoje.
Propagado por anos a fio na/pela instância escolar, ele continua, ao que parece, reverberante,
presente, refigurado e reconfigurado para uma outra verve.
Essa questão nos volve ainda para um contexto mais amplo, o da escola enquanto
instituição social. Integra agenda de debates sociais contemporâneos, a discussão acerca da
atitude da escola frente ao mundo virtual, donde se insere com ímpeto estrondoso a
problemática da linguagem. Nesse universo, povoado por discórdias, ditos e contra-ditos, há
os que acolhem com bons olhos essas “novidades “e os que relegam-nas. Adotando a
discursividade/enunciabilidade como âncora, ambos os discursos: tecnófobo no dizer de
Xavier (2004) ou internófobo conforme Araújo (2004), ou favoráveis à mudança, à variação,
refletem um (o) universo maior da conexão história-língua, onde repousam todos os discursos,
seja aplicando-os ao vetor linguagem ou ao ensino em termos gerais.

5. Para efeito de fim

A hipótese inicial levantada neste trabalho, ao que nos parece, fora confirmada. O
preconceito linguístico de que é alvo o Internetês, conforme nos revela(ra)m os dados
observados, advém de um processo de constituição discursiva. De fato, a polêmica relação
estabelecida entre este e a Língua Portuguesa concebida em sua modalidade culta se origina e
se sustenta via discurso.
No centro deste embate, encontra-se o internetês, modalidade de linguagem que, por
se distanciar em muitos aspectos da língua portuguesa tomada em sua matriz tradicional
vinculada a norma culta padrão e aos extensos compêndios normativos gramaticais, figura
como vilão, como desertor da língua. Essa visão é insidiosamente sustentada por discursos
institucionalizados, sobretudo o escolar (BAGNO, 2003, 2007; POSSENTI, 2006); discurso
secular, fruto de uma vontade de verdade (FOUCAULT, 2005) que dá mostras de sua força
ainda hoje. Os apelos dos que dizem “odiar o internetês” ou que o acusam a ele ─ e logo aos

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seus usuários ─ de “assassinarem a língua” são ancorados ainda no ideário de pureza da
língua em nome do qual se deve coibir toda sorte de mudança em sua estrutura.
Levando em consideração que aprender a língua, na concepção da Linguística
moderna, vai muito além da capacidade de dominar regras previstas em manuais gramaticais,
dizemos se tratar de um movimento de continuidade do preconceito, este configurado contra a
linguagem da internet. De fato, parece ter havido um desdobramento dos mitos/discursos que
historicamente se incidem sobre o uso/domínio da língua, agora transpostos para a esfera
virtual literalmente.
Ora, a língua é viva, seus usos não são estanques. Ela é camaleônica e, nas
sociedades com elevado grau de letramento como as sociedades tecnológicas como a nossa,
onde é forte a influência das novas tecnologias digitais, sua complexidade é maior ainda.
Portanto, não há como classificar de outro modo esses dizeres que retomam e reafirmam os
discursos que sustentam o preconceito linguístico. Não importa em qual vertente, como nos
diz Bagno (2003; 2007) esse julgamento de valor que se lança, na verdade, contra os
falantes/usuários da língua, mais que aos próprios usos linguageiros, devem ser contrariados,
extirpados mesmo das práticas (discursivas) sociais. Essa possibilidade, a nosso ver, é factível
mediante o discurso, sendo o Contra-discurso (FOUCAULT, 2005) a via efetiva de acesso à
maestria das representações sociais vigentes.

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Recebido em 24/10/2010.
Aprovado em 09/12/2010.

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