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AS PREFERÊNCIAS REVELAM O HOMEM

Quanto mais a pessoa tiver marcada e definida uma preferência por certo tipo de
comida, mais ela tende a ser excêntrica e extremista, o que cria pontos deficientes em sua
personalidade. Porém, é natural que o ser humano tenha as suas tendências, mesmo não se
levando em conta que elas sejam causadas por problemas de saúde. É provável, também, que
exista uma corrente de opiniões não admitindo a influência de tais preferências na
personalidade das pessoas.
Existe uma passagem que narro a seguir. Ocorreu em 1935 e, nessa época, além de ter
um negócio de verduras, eu acumulava a venda por atacado de konnyaku (gelatina comestível
de inhame). Dentre os meus compradores, havia um que dirigia um supermercado. Ele
começou a comerciar logo após o grande terremoto de Kanto, em 1922, abrindo uma pequena
peixaria que prosperou bastante, até se tornar proprietário de um imenso supermercado e
alguns hotéis no principal bairro de Tóquio.
No dia 5 de cada mês, eu, juntamente com outros comerciantes, ia fazer a cobrança
mensal. Num desses dias, enquanto aguardava na fila, à espera do pagamento, ao serem
abertas as portas, avistei esse comprador de longe, sendo por ele cumprimentado. A seguir
percebi-o assinando os cheques.
Repentinamente, entrou no gabinete dele uma moça, com certeza trazendo algum recado.
Quando saiu, ouvimos o comerciante dirigindo-se a ela:"Ei! Espere um pouco! Seu penteado
não está muito bom"- e entregou-lhe um pente barato, aconselhando-a a mudar um pouco o
estilo. A mocinha agradeceu, retirou-se e ele voltou a assinar os cheques normalmente.
Este comerciante tinha um bom porte físico, era simpático e agradável. No entanto, o que
mais me impressionou nele foi o seu jeito natural e descontraído de tratar as pessoas.
Interessei-me, então, em perguntar a alguns de seus funcionários e empregados sobre a
personalidade desse senhor, tão impressionado ficara com seu jeito de se relacionar com os
outros. Soube, então, que ele era natural da Província de Niigata e que, antes de iniciar seus
negócios, fora diretor de um reformatório juvenil.
Informaram-me, também, sobre a maneira interessante e diferente que utilizava para
admitir empregados. A maior parte de seus funcionários era natural da Província de Niigata.
Aliás, a seleção era feita lá. A seguir, ele levava os candidatos até Tóquio, dividindo-os em
grupos de dez pessoas, e designava, para cada grupo, um responsável dentre os empregados
mais antigos, que lhes, mostrava os pontos turísticos da capital.
Depois disso, eles regressavam a Niigata. A função dos responsáveis pelos grupos não
consistia em ser propriamente guia turístico, mas observar e anotar o tipo de comida pelo qual
cada um dos candidatos tinha preferência.
No alojamento eram servidas três refeições diárias, durante as quais os responsáveis
pelos grupos analisavam o quanto cada um dos candidatos comia e o que sobrava no prato, o
que era anotado. Todas as anotações serviam de base para a seleção do candidato, isto é,
aqueles que preferissem determinada comida, não eram aprovados, uma vez que teriam
preferência, também marcante, por certo tipo de pessoa. Em suma, encontrariam dificuldades
no relacionamento em grupo, o que lhes dificultaria trabalhar com terceiros, além de indicar
que não eram muito saudáveis. Depois, eram muito pessoais e lhes faltava paciência. Esta era
a conclusão a que ele costuma chegar.
Eu, por minha vez, concluí que o fato de chamar pessoas de uma mesma província era
para facilitar o trabalho, utilizando gente de um mesmo temperamento. E observar as pessoas
pelo gosto ou preferência por comida talvez tenha sido algo aprendido na época em que ele
foi diretor de reformatório juvenil.
Como eu já dirigia vários empregados e funcionários, também me preocupava com o
relacionamento entre eles e, por isso, concordei com a maneira pela qual este negociante
selecionava seus subordinados. Eu também já sabia que aqueles que possuem uma tendência
muito forte para escolher comida eram de
Para se tornarem pessoas mais fáceis de lidar, ao invés de ordenar que fizessem isto ou
aquilo, procurava orientar para que comessem de tudo. Como a advertência era apenas no que
se referia à comida, os funcionários não se aborreciam, e assim era evitado o surgimento de
tensão no ambiente, o que naturalmente ocorreria se eles fossem alvo de outra espécie de
reprimenda. E, realmente, à medida que eles se esforçavam para eliminar a escolha ou a
preferência pela comida, mudavam seu interior e personalidade.
Eu não agia assim para facilitar o meu trabalho - absolutamente. Procedia dessa forma
para o bem de cada deles. Na verdade, é bastante triste o homem limitar o seu gosto a certo
tipo de comida, já que comer é um dos maiores prazeres da vida.
Geralmente, as crianças japonesas detestam cenoura. Sabedor disso, eu mandava minha
esposa fazer bastante cenoura cozida e as saboreava na frente dos meus filhos, para que eles
aprendessem a gostar delas, como de fato aprenderam. Eles não sabiam etiqueta quando eram
crianças mas, observando-me, acabaram por aprender os bons costumes à mesa. Na verdade,
a impertinência e a repreensão não são os melhores caminhos. Se formos rigorosos com nós
mesmos, isso irá refletir-se nas pessoas que nos estão próximas. A mesma coisa pode-se dizer
da fé. Minha insistência e esforço são justamente no sentido de eliminar do meu íntimo, para
sempre, qualquer tipo de preferência.

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