Ética e Mode

título deste ensaio(1) reúne

O dois temas candentes que
romperam os rigorosos li-
mites do debate acadêmico
e, projetando-se num es-
paço social mais amplo,
penetraram o circuito cultural da mídia,
no qual tudo se difunde e se deteriora
com extraordinária rapidez. Nesse "im-
pério do efêmero" em que as coisas e
pensamentos perdem a sua densidade
própria e se dissolvem em imagens,
proclama-se a primazia do signo desre¬
ferencializãdo, que circula rapidamente
e se deixa substituir aleatoriamente con-
forme a demanda do mercado e a dinâmi-
ca do desejo. Se tudo converte-se, afinal,
em simulacro, podemos descartar com
um alegre desdém neo-nietzscheano
a "vontade de verdade" e estigmati-
zar como ridículo o "espírito de serie-
dade"(2). Por isso, se já foi possível
identificar na política o destino e a tragé-
dia do homem moderno, podemos hoje
reconhecer, nesse momento crepuscular
de um grande ciclo civilizatório, que é a
nossa modernidade tardia, que a nossa
verdadeira tragédia só pode ser reconhe-
cida negativamente, como uma perda, a
perda do sentido trágico da vida. Afinal,
na "Gaia Ciência", o "louco" de Nie-
tzsche fica perplexo menos com a morte
de Deus do que com a ignorância dos que
o mataram. Gott ist tot, "Deus morreu",
e com que ligeireza e com que dar de
ombros nós recebemos a terrível notícia
e com que alívio nós nos desfazemos do
jugo daquela antiga transcendência,
daquele incomodo Absoluto: "agora
poderemos fazer o que quisermos", é o
que nos insinua a nossa leviandade "pós-
modema", pouco propensa a suportar a
dor daquela nova verdade. Entramos,

rnidade assim, na região sombria, mas não ne-
cessariamente tormentosa do niilismo
ético(3).
Por que começar assim, revestindo-
se de um ar dramático e adotando um
tom de pitonisa, cheio de negros pressá-
gios? Por que começar com esse estilo
Carlos Roberto Drawin*
moralista e profético um texto que de-
(*) Psicólogo, veria dirigir-se a um público preocupa-
professor de Filosofia da UFMG do com os problemas eminentemente
práticos que se disseminam no quotidi-
ano profissional?
em seus intocáveis privilégios e uma
enorme massa de indivíduos mergulha-
dos na estupidez, na apatia e na barbárie
do "salve-se quem puder", esse cons-
trangedor espetáculo de um individua-
lismo em andrajos e de uma esperteza
boçal. Referimo-nos antes à perplexi-
dade do que à mera indignação, à essa
espécie de desamparo racional diante de
nosso próprio desejo de agir moralmente.
Talvez para justificar a desmesura Quando alguém pergunta, mas, afinal,
da ambição filosófica em sua intenção "o que é ética?" não está interessado
de radicalidade, de não se deter na pru- numa obscura discussão filosófica ou
dente análise dos casos concretos para num bondoso conselho acerca de como
abismar-se na raiz e no fundamento de agir corretamente numa situação deter-
nossas interrogações e impasses. Mas minada. O que o interrogante manifesta
certamente para exorcizar de antemão a é o seu desamparo racional, a sua vonta-
inevitável frustração de nossos possíveis de de legitimar o seu agir moral, ou, em
leitores já cansados com a aparente outros termos, poder responder com força
inanidade dos discursos éticos. Pois, na persuasiva e seguro fundamento porque
verdade, a crescente demanda de discur- agir deste e não daquele jeito.
sos e reflexões sobre questões éticas Ora, reprimir essa reivindicação de
parece desaguar sempre numa espécie um fundamento ético-racional para o
de anti-climax: na reiteração das boas nosso agir é condenar a moralidade ao
intenções ou na abstração das belas teo- decisionismo subjetivista. Não é essa,
rias. Ora, a impotência do discurso ético, aliás, a conclusão que se tira de um certo
a enorme distância vivida, não é circuns- liberalismo que todos conhecemos? Sea
tancial, mas é um sintoma, dentre mui- moralidade, como a arte, a política ou a
tos, daquele niilismo ético a que alu- religião, escapa à esfera da racionali-
dimos anteriormente. dade, então não podemos argumentar
Daí a perplexidade e desorientação acerca de normas e de valores. Não é de
daqueles profissionais que, por sua "bom tom" discutir essas questões.
função, devem opinar e tomar decisões
acerca de questões éticas. Eles podem
contar com dois preciosos recursos na
resolução dos problemas concretos: por
um lado, têm como referência uma estri¬
tra deontologia, ou seja, uma simples
catalogação dos deveres e correspon-
dentes direitos que se aplicam dentro de
determinada configuração profissional,
de outro, podem lançar mão de uma
casuística que os guie na aplicação das
normas aos casos semelhantes. No en-
tanto, nem a estrita deontologia, o códi-
go ético na sua pura positividade jurídi-
ca, nem a formação de uma jurisprudên-
cia, a experiência que os conselhos
profissionais vão adquirindo e sedimen-
tando com a prática, são suficientes para
aplacar uma perplexidade que não é
apenas dos conselheiros mas de todos
profissionais e,não apenas dos profis-
sionais de um meio específico, mas de
todos os indivíduos que tenham uma
consciência mínima de cidadania. É a
perplexidade daqueles que ainda não
sucumbiram ao cinismo de uma razão
prisioneira da instrumentalidade e do
utilitarismo e que nos convida ao mais
desvairado individualismo.
Mas, é preciso sublinhar, não nos
limitamos aqui à justa e já quase deses-
perada indignação do cidadão brasilei-
ro, dilacerado entre uma elite profunda-
mente corrupta, predatória e acanalhada
porque afinal "gosto" não se discute e a a moralidade e legalidade do aborto, o soal cujos fatores centrais são o
moralidade deve circunscrever-se ao conceito de guerra justa ou o conflito juízo e o debate sobre os valores,
domínio da vida privada, da decisão entre a liberdade individual e a inter- porém onde não existe resolução
particular. Mas o que, então, nos seria venção estatal, não são passíveis de uma racional social dos problemas,
permitido discutir racionalmente? Re- solução racional, pois há uma incomen- encontra a sua internalização, sua
gras técnicas, resultados científicos, pro- surabilidade conceptual entre as argu- representação mais profunda na
cedimentos administrativos, performan- mentações rivais. Os conteúdos norma- relação do eu individual com os
ces, enfim, saberes operativos que pos- tivos das premissas de base de cada uma papéis e personagens da vida so-
sam ser objetivamente avaliados em das argumentações que se opõem são
função de sua maior ou menor ade- totalmente incompatíveis e, em conse- cial" (5).
quação a fins previamente fixados, se- quência, as argumentações se sucedem
gundo o critério da maximização da ad infinitum sem que haja uma efetiva Essa cisão ínternalizada, essa verda-
eficácia instrumental na relação dos comunicação dialógica que permita a deira esquizofrenia moral da moder-
meios aos fins. No entanto, os fins pre- obtenção de um consenso racional. Essa nidade ocidental, se exterioriza no de-
fixados acabam sempre remetendo a situação parece atestar o fracasso do bate político entre os que defendem um
algum conteúdo moral e, então, devere- programa ilustrado de uma justificação individualismo liberal e os que defen-
mos novamente recolocar a questão da moralidade com base na racionali- dem um coletivismo estatal. Debate que
acerca dos critérios que utilizaremos na dade moderna, pois esta vem marcada não é tão importante por si mesmo,
avaliação desses conteúdos. Ou seja, a por uma cisão que parece não poder ser como observa Macintyre, mas por reve-
racionalidade instrumental, esta que Max superada satisfatoriamente no horizonte lar o pressuposto comum dos dois con-
Weber denominou de "racionalidade simbólico da própria modernidade e que tendores:
meio-fim" (Zweck-Mittel Rationalitat) nos torna prisioneiros de uma aporia que
e que visa apenas ao ajuste dos meios aos Macintyre denominou invidualismo bu- "... (ambos)... estão de acor-
fins pré-determinados, recai sempre rocrático: do que temos abertos só dois
numa forma de arbítrio, seja na decisão modos alternativos de vida soci-
despótica do tirano ou na lógica anôni- "A bifurcação do mundo so- al, um em que são soberanas as
ma do sistema(4). cial contemporâneo em um opções livres e arbitrárias dos
O eminente filósofo moral inglês domínio organizativo em que os indivíduos, e outro em que a bu-
Alasdair Macintyre observou que algu- fins se consideram como algo dado rocracia é soberana para limitar
mas das mais vigorosas polemicas éticas e não suscetível de escrutínio precisamente as opções livres e
de nosso tempo, como as que envolvem racional, e um domínio do pes- arbitrárias dos indivíduos. Dado
esse profundo acordo cultural, mou não apenas o sujeito e os seus
não é surpreendente que a políti- papéis sociais, mas também a lingua-
ca das sociedades modernas osci- gem da moral e as formas do discurso
le entre uma liberdade que não é ético(7). Esse processo caracteriza, isto
sim, uma época bem determinada da
senão o abandono da regulamen- história, a modernidade, que agora se vê
tação da conduta individual efor- ameaçada em seu ideal programático de
mas de controle coletivo concebi- construir a moral do indivíduo emanci-
das apenas para limitar a anar- pado e a ética da razão crítica. No entan-
quia do interesse egoísta"(6). to, o processo de modernização foi tão
rápido e intenso, tão eficiente na dis-
Essa clivagem, que nós intemali¬ solução de nossa memória cultural, que
zamos, entre a esfera privada dos va- nos esquecemos quase por completo da
lores como espaço da autonomia do grande tradição ética do ocidente, aque-
indivíduo e a esfera pública das normas la que alguns autores, como Otfried
como espaço da heteronomia do estado- Höffe, procuram resgatar, e que jamais
sistema, não é uma condição inevitável restringiu a ética ao plano da vida pes-
do juízo moral, um predicado intempo- soal, mas que, de Platão e Aristóteles a
ral de toda comunidade humana. Ao Hegel e Marx, abordaram de um ponto
contrário, essa situação é o produto final de vista moral as instituições sociais, o
de um processo cultural que transfor- direito e o estado(8).
Portanto, a nossa perplexidade, o
nosso desamparo racional diante da
moralidade, pouco tem a ver com as
vicissitudes políticas de nosso desvalido
país. Ao contrário, é um impasse que se
abriga no coração mesmo da civilização
ocidental moderna, nesse momento de
sua história em que ela se vê confrontada
com o seu destino de civilização logocên¬
trica.
Então, poderíamos nos perguntar crepância brutal das forças em litígio se
agora, o filósofo autocomplacente con- o que conta é o sentido ideológico da-
forma-se indiferente à palavra que pro- quilo que está em jogo? Numa leitura
clama a sua própria impotência? O que quase que caricatural e, no entanto, tra-
fazer se concluímos que o impasse mo- gicamente factual, podemos dizer que
ral que vivemos não pode ser atribuído de um lado tínhamos o liberalismo, a
simplesmente às circunstâncias políti- democracia formal, os direitos indivi-
cas ou a uma configuração infeliz de duais burgueses, valores acessíveis ape-
nossa vida social, mas está enraizado nas a uma minoria privilegiada. Posição
nas camadas mais profundas do proces- representada pelo estudante solitário.
so civilizatório do ocidente moderno? Do outro lado temos o socialismo, a
Ora, podemos retrucar, a filosofia igualdade, as conquistas sociais da re-
pode exatamente isso, fazer o movimen- volução, enfim, o povo. Representado
to de auto-reflexão de sua própria im- pelo tanque. Ou seria o inverso? Como
potência, e isso significa, para que não dissipar essa dúvida se não há outra
pareça um mero jogo retórico, que o instância judicativa além da praxis? Uma
discurso filosófico deve reafirmar sua orto-praxis, uma ação politicamente
vocação de radicalidade, uma intenção correta, seria uma prática fundada nos
de explicitar plenamente os seus pressu- interesses verdadeiros da maioria, mas
postos de modo a estimular a crítica das esse "verdadeiro" supõe a posse de uma
ilusões, dos efeitos ideológicos que ciência da história, que não sendo au-
acompanham toda produção discursiva. tônoma, pois a autonomia do conheci-
Essa radicalidade, até há bem pouco mento é uma ilusão idealista, legitima-
tempo, parecia perfeitamente des- se ao vincular-se aos interesses da maio-
cartável, uma espécie de ócio acadêmi- ria. Como escapar desse círculo vicio-
co, uma vez que os tais "efeitos ideológi- so? Através do partido, que sintetiza a
cos" seriam facilmente detectáveis. Os ciência da história e o interesse real, não
problemas pareciam ser equacionáveis espontâneo, da maioria. Retome-mos
de modo muito mais efetivo e sem que se então à praça da Paz Celestial para re-
juízos de valor, a ortopráxis. Essa seria conhecermos na imagem da violência a
precisasse recorrer a abstrusas elocu¬ a única ética possível numa sociedade
brações teóricas recorrendo-se a uma elegância de um silogismo mate-
dividida, ainda não reconciliada consi- rialista:em nome de quem o tanque ati-
pretensa "análise marxista", um saber go mesma. Essa ideologização das
intermediário entre a ciência "positivis- ra? Não havendo o reconhecimento de
questões éticas foi, nos últimos anos, um uma moralidade racional autônoma,
ta" e a filosofia "idelista". Nesta pers- consolo para os militantes, justamente
pectiva os impasses éticos podiam ser resta-nos a resposta ideológica: o tanque
para os mais sensíveis a tais questões. atira em nome do povo. E se nos assalta
minimizados como secundários em re- Mas hoje, não podemos mais nos en-
lação à política. Falava-se recorrendo a a dúvida: e quem é o povo? Não havendo
clausurar nesse "sonho dogmático", que interesse verdadeiro sem uma ciência da
uma espécie de fórmula mágica: "tudo é já se prolongava indevidamente.
política", logo os problemas éticos são história que se encarna no partido, resta-
Aqui talvez seja oportuno evocar a nos a resposta operacional: ora, o povo
problemas políticos que se ocultam e imagem contristadora da praça ironica-
que serão desmascarados através de uma é aquele que possui o tanque! Assim,
mente designada como da "Paz Celes- tomamos um aconte-cimento político
correta "crítica ideológica". Assim, no tial" em Pequim: o estudante solitário
plano da moralidade, toda pretensão de determinado e o interpretamos de acor-
que procurava se interpor ao avanço de do com as categorias analíticas daqueles
universalidade seria uma mistificação um tanque de guerra do "exército do
ideológica, visando encobrir a realidade que o engendraram, para evidenciar,
povo". Na ausência de qualquer medi- numa "redução ao absurdo", as conse-
da luta de classes, diante da qual não ação discursiva, de qualquer instituição
haveria universalidade possível e sim a quências extremas da ideologização da
que possa garantir o pleno exercício de razão e da ética.
necessidade de se tomar uma posição uma racionalidade autônoma, todo con-
partidária. A pergunta subjacente era: a flito toma-se, interditados os procedi-
sua prática, por exemplo, a sua prática Justifica-se, assim, a radicalidade
mentos dialógicos, um conflito de morte crítica dofilósofo,que recusa as soluções
profissional, está a serviço de quem? Do em que um dos contendores deve pere-
povo? Dos oprimidos? Dada a resposta, apressadas, que recusa uma resposta fácil
cer. É natural, portanto, que o tanque e consoladora, para aqueles que, mer-
conhecendo-se a correção ou incorreção aniquile o estudante. E por que não?
daquela prática específica, teríamos o gulhados na urgência do quotidiano, a
Basta-nos recorrer ao critério da orto- buscam com ansiedade. A esses o filóso-
único critério legítimo para guiar nossos práxis: por que se indignar com a dis- fo diria que é preciso suportar e confron¬
tar a própria impotência, submeter-se à que resista às seduções da razão cínica, possível uma civilização sem ethos?(11).
disciplina do pensamento e evitar o con- mas não tema reconhecer a gravidade da Essa interrogação verdadeiramente
forto da síntese prematura, único meio crise que se agiganta no horizonte de dramática para o futuro humano de nos-
de reconstituir a gênese dialética do nossa civilização. Lucidez, não pessi- sa civilização não pode ser encarada
niilismo ético moderno. Este se associa mismo, pois não devemos nos iludir com como um mero artifício retórico e não é
ao agnosticismo de umarazão empobre- as promessas de harmonia e felicidade difícil apreender o seu significado práti-
cida pelas epistemologias reducionistas trazidas pela grande onda neo-liberal co na atual discussão acerca dos direitos
e menosprezada pelos esoterismos pós- que vem no refluxo do socialismo real. humanos: devemos privilegiar como
modernos. Mas, por que permanecer- A euforia pós-socialista mal disfarça o valor fundamental da existência huma-
mos apenas com essas alternativas: de esgotamento sócio-econômico, as con- na as condições concretas da felicidade
um lado a racionalidade minguada da tradições políticas, o decadentismo cul- como a segurança material (comer, ves-
ilustração positivista, e de outro, o irra- tural do capitalismo tardio. Até quando tir, morar, etc.) ou os imperativos abstra¬
cionalismo retoricamente iconoclasta do as enormes massas de marginalizados tos da liberdade como as prerrogativas
neo-obscurantismo anti-humanista? do terceiro e quarto mundos poderão ser jurídicas da cidadania (direitos de ex-
O filósofo, por princípio amigo da ignoradas pelos países desenvolvidos? pressão, locomoção, organização, etc.)?
sabedoria, não ama a crítica pela crítica, Estes poderão se imunizar da violência A simples proclamação de um catálogo
embrenhando no caminho estéril de um e da miséria no âmbito de uma civiliza- dos direitos humanos, conquista ine-
regressus ad infinitum, mas aceita o ção planetária? E, internamente, como gável da sociedade moderna, não solu-
desafio da dúvida na esperança de abrir as sociedades desenvolvidas enfrentarão ciona o impasse que contrapõe de um
um novo espaço de inteligibilidade que a crônica anomia que irá corroendo as lado a garantia formal de liberdade de
ilumine no ser das coisas veredas que suas instituições na medida em que a uma humanidade mergulhada na miséria
antes permaneciam ocultas. Nesse sen- liberdade subjetiva tende à máxima ex-
tido, Hegel nos deu uma lição definitiva: pansão e a participação social à máxima
o verdadeiro pensamento não se com- retração?
praz na vaidade de um indivídua cioso Na medida em que a crescente ex-
de sua originalidade, mas encontra a sua pressividade dos indivíduos perde-se na
densidade no acolhimento de seu tempo vacuidade de suas vidas e na insignificân-
e no paciente perscrutar de suas poten- cia de seus destinos?(10)
cialidades(9). Foi essa disciplina do pen- O intenso debate acerca do "fim da
samento, essa submissão à exigente modernidade" que, desde os fins dos
ascese do conceito que se concretizou anos setenta, envolve algumas das in-
nesse grandioso afresco da cultura oci- teligências mais brilhantes da filosofia e
dental que é a "Fenomenologia do Es- das ciências humanas, parece confirmar
pírito". A extraordinária dificuldade o extraordinário alcance histórico-cul¬
dessa obra genial não decorre do gosto tural dessas interrogações. No nível da
fútil pelo enigmático, mas da intenção reflexão ética a questão da crise do
de explorar a realidade em toda sua projeto moderno pode ser formulada
riqueza e complexidade, em não deixar sucintamente do seguinte modo: como
que se rompesse o nexo entre experiên- conceber uma civilização que, tendo
cia e razão. alcançado a sua efetiva universalidade
Mais do que nunca é necessário res- no piano da economia-mundo e da tec¬
gatar do esquecimento a lição hegeliana nociência, não foi capaz de constituir
de uma esperança lúcida, uma esperança um ethos verdadeiramente universal? É
e agrilhoada aos injustos mecanismos
que reproduzem a desigualdade entre os
povos e de outro o projeto de uma efetiva
justiça social que, sem as salvaguardas
do direito formal, se degenera numa
concretude inumana(12).
Aprofunda crise ética contemporânea
já havia sido genialmente apreendida,
na própria época da proclamação dos
"Direitos do Homem e do Cidadão"
(1789), no momento em que a sociedade
moderna afirmava-se como historica-
mente irreversível, pelos filósofos do
período clássico do pensamento alemão.
Assim, Kant compreendeu que a ética,
enquanto domínio da liberdade e da
autonomia do sujeito moral, não pode
reduzir-se à ciência, enquanto domínio
do determinismo e da legalidade da na-
tureza. Caso isso ocorresse, os homens
deixariam de ser fins em si mesmos,
como reza o imperativo categórico, para
tomarem-se meio de manipulação de po pós-revolucionário e propício, por- ou o abandono estratégico dos ideais
outros homens. No entanto, essa ir- tanto, para a captação da inteligibilidade programáticos da ilustração e da racio-
redutibilidade da ética à ciência não da história. Diagnosticava a "aporia da nalidade autônoma (Modernität)?
apontava em direção ao irracionalismo, modernidade" como "tragédia ética": Para nos situarmos esquematica-
ao decisionismo subjetivista, porque o de um lado, a separação entre Ethos (o mente nos intricados caminhos dessa
discurso moral tinha o seu estatuto conjunto de crenças, valores e normas discussão podemos recorrer as indicações
próprio de racionalidade (razão prática). de uma comunidade) e indivíduo (cioso fornecidas por Habermas. Antes, porém,
O grande desafio sitemático do pensa- da independência e liberdade de sua devemos diferenciar dois aspectos do
mento kantiano seria estabelecer uma ação) e de outro, a contradição entre o processo de modernização: o social e o
mediação entre as duas esferas da racio- indivíduo em sua pretensão de sujeito cultural(14).
nalidade, pois, afinal, a razão científica moral e o sistema com suas exigências A modernização social refere-se ao
(teórica) e a razão ética (prática) são tecno-burocráticas crescentemente co- desenvolvimento de sistemas autôno-
ambas faculdades humanas. ercitivas(13). mos como a economia (mercado) e o
Do ponto de vista hegeliano, o fra- Para Hegel a reconstrução conceptu- estado (tecnoburocracia), que operam
casso sistemático de Kant não se devia à al do longo itinerário da civilização oci- segundo as regras da racionalidade
uma deficiência do filósofo, mas à fide- dental, ao mostrar a inteligibilidade do sistêmica e instrumental que visa a ma-
lidade de seu pensamento ao seu tempo, processo, e, portanto, a impossibilidade ximização da produtividade, do desem-
o tempo de uma modernidade cindida e de se retomar ao passado, abriria um penho, da eficácia. A modernização
incapaz de reconciliar teoria e prática, novo espaço histórico: o da articulação cultural refere-se ao desenvolvimen-
ciência e moralidade. Hegel, ao con- dos saberes especializados no horizonte to de esferas autônomas de valor
trário, julgava-se o pensador de um tem- de uma ciência absoluta e da reconci- (Wertspharen), como a arte, a moral e a
liação dos interesses particulares dos ciência que reconem acritérios intrínse-
indivíduos num estado ético e racional. cos de validação sem remeter ao sagra-
Não foi isso, entretanto, que se deu na do, ao universo simbólico da religião,
história efetiva: a racionalidade científi- como instância de legitimação. A cultu-
ca acentuou ainda mais o seu caráter ra moderna seria, então, a primeira cul-
fragmentário e instrumental, a sociedade tura essencialmente secularizada na
mergulhou ainda mais na esquizofrenia história das civilizações.
de um individualismo exacerbado e de A partir dessa distinção podemos
um burocratismo hipertrofiado. compor os seguintes tipos de proposta
Essa crescente divergência entre o em relação ao problema da moderni-
curso efetivo da história, desaguando, dade e seu desdobramento no campo da
em nosso século, no totalitarismo, nas ética:
sociedades de consumo de massa e na
destruição da natureza e a exigência 1°. A proposta modernizante li-
filosófica de realização plena da hu- beral: implica na aceitação integral da
manidade determinou uma espécie de modernidade, social e cultural, na pers-
escândalo histórico da razão, um senti- pectiva da expansão e consolidação dos
mento generalizado de impotência que mecanismos de mercado, da democra-
poderíamos denominar de crise na auto- cia liberal e da tecnociência. No plano
consciência da modernidade: qual seria da ética o que se verifica é que a racio-
o significado do fim da época moderna nalidade sistêmica que caracteriza a
(Neuzeit)? Seria a transformação crítica modernização social é insuficiente para
fundamentar a moral, em consequência nhecer as distorções específicas de cada
tende-se ao irracionalismo moral e à uma delas: a tendência instrumentalista
hipertrofia da dimensão sistêmica da e utilitarista da modernizante liberal, o
sociedade (produção-consumo) em de- imobilismo decorrente da dualidade so-
trimento da dimensão interacional da ciedade e cultura da modernizante neo-
existência (valor, sentido), o que Haber¬ conservadora, o cinismo devido à con-
mas designou como "colonização do vivência de iconoclastia e conformismo
mundo da vida através dos imperativos tada, mas subsumida numa nova forma da pós-modemizante, mas também o
dos sistemas funcionais"(15). de racionalidade, a comunicacional,
capaz de fundar sem reducionismos o formalismo e utopismo da dialetizante,
discurso ético. incapaz de ultrapassar o limiar de uma
2o. A proposta modernizante neo- discussão acerca das condições de pos-
conservadora: implica na aceitação da Das quatro propostas acima esboça- sibilidade do discurso ético e formular
modernidade social e na rejeição da das parece-nos que a quarta seria a mais uma alternativa concreta de comporta-
modernidade cultural, na perspectiva de consistente e abrangente, porque evita- mento moral. Por outro lado, as posições
uma conciliação da economia de merca- ria diversos tipos de irracionalismo e de neo-conservadora e pós-modema po-
do e da ciência com valores e con- racionalismo reducionista, contornaria dem também abrir inesperadas possibi-
cepções da sociedade tradicional pré- tanto a nostalgia do passado pré-moder- lidades: a primeira enfatizando a neces-
modema. Essa posição neo-conserva¬ no quanto o endosso do presente capita- sidade de se retomar meditativamente à
dora pressupõe que o conteúdo da moral lista. No entanto, é recomendável reco- grande tradição ocidental grega e judai-
seja ahistórico e possa ser transportado co-cristã e a segunda apontando para a
de uma época para outra, mas o que se dimensão da alteridade moral, isto é, o
verifica é que essa dualidade entre so- reconhecimento do outro (indivíduo,
ciedade (moderna) e cultura (pré-mo¬ grupo, sexo, cultura, povo, etc.) como
dema) é insustentável. A racionalidade outro, pois nele há uma diferença ir-
sistêmica (moderna) inviabiliza como redutível ao meu ponto de vista ou a um
presença culturalmente significativa a elemento comum qualquer "(16).
racionalidade substancial (pré-moder¬ Em síntese, a racionalidade comuni-
na) típica das grandes concepções reli- cativa parece-nos necessária para o esta-
giosas do passado. belecimento de um discurso ético racio-
nal, mas não suficiente para suscitar
3o. A proposta pós-modernizante: uma alternativa concreta de moralidade
implica na rejeição integral da moder- para o nosso tempo. Para que o círculo
nidade, social e cultural, não na perspec- dialético do Ethos se complete permitin-
tiva de um impossível retomo ao passa- do a formação de uma verdadeira per-
do, mas visando uma desconstrução do sonalidade moral seria necessária a me-
projeto moderno como projeto de unifi- diação daquilo que Scannone denomina
cação e homogeneização da história. "racionalidade sapiencial", o contato
Pretende-se, assim, possibilitar a com os valores culturais que muitas
emergência de diferenças irredutíveis comunidades, sobretudo as comunidades
(étnicas, sexuais, individuais) que es- populares, ainda preservam e que
capeni da camisa-de-força normativa guardam uma vinculação ainda viva com
que caracterizou até hoje o logocentris- o passado e a tradição(17).
mo ocidental. O que se verifica, entre- Nesse fim de milênio em que nossa
tanto, é que a posição pós-modema pa- civilização parece ter chegado a um
rece debater-se entre a virulência do momento crucial de seu destino históri-
discurso que produz e a integração ao co, olhar para o passado, perscrutar na
individualismo necessário de uma so- escuridão dos tempos os caminhos que
ciedade que realimenta o consumo não soubemos ou quisemos percorrer, é
através da máxima diferenciação dos mais do que um gesto de nostalgia ou um
gostos, dos estilos de vida e dos valores desejo de erudição. Como na célebre
subjetivos. analogia de Jean Hyppolite entre a
fenomenologia hegeliana e a psicanálise
4°. A proposta dialetizante: impli- freudiana, se não é possível retomar ao
ca na aceitação da modernidade cultu- passado como tal, que está definitiva-
ral, isto é, de uma cultura secular e mente perdido, é possível reconstruí-lo
diferenciada em esferas autônomas de no presente, na rememoração (Erinne¬
racionalidade e numa crítica forte das rung) fenomenológica da consciência
patologias da modernização social na (Hegel) ou na posterioridade (Nach-
perspectiva de uma dialética interna do träglichkeit) do vínculo transferencial
projeto iluminista. Assim, as pretensões (Freud), e é só essa re-significação do
funcionais da economia e da adminis- passado que nos permite afrontar o pre-
tração seriam contidas pelo dinamismo sente e criar o futuro(18).
das interações comunitárias, pelo vigor Mas o sentido histórico que pre-
do "mundo da vida" (Lebenswelt). A cisamos recuperar não é, evidentemente,
racionalidade sistêmica não seria rejei- o da mera curiosidade historiográfica e
ainda menos o do relativismo historicis¬
ta que, ao datar as obras da cultura, acaba
por tudo diluir no fluxo do tempo. Esse
historicismo, nos ensina Nietzsche, é
uma expressão de decadência, da doença
niilista que consome as energias de nos-
so século(19).
O olhar que a crise contemporânea
nos convida a lançar sobre o passado não
pode se restringir a uma homenagem aos
mortos, mas deve nos levar a venerar no
passado o que ainda pode justificar nos-
sa esperança no futuro: a vitalidade de
uma tradição - e aqui aludimos à dramáti-
ca confluência das vertentes grega e
judaico-cristã que constituiu a identi-
dade de nossa civilização - que nos
estimula a romper com a inércia do
presente e com os pressupostos de uma
modernidade que aprisiona o pensamen-
to na esterilidade da abstração. Uma
tradição que, ao resgatar nossa origem
espiritual do esquecimento, liberte a
nossa razão para as possibilidades insus-
peitadas do reencontro com o rico ma-
nancial da experiência concreta, esse
impensado que não cessa de fecundar o
pensamento humano(20).

Notas
(1) Texto apresentado no seminário "A Fundamentação de uma filosofia crítica do Paulo, Cia das Letras, 1987. pp. 217-219.
função social dos conselhos" (CRP 04) em direito e do estado. Petrópolis, Vozes, 1991. (15) HABERMAS, Jürgen. Der philoso¬
Belo Horizonte (out. 1991) e posteriormente Cf.: o prefácio para edição brasileira. phische Diskurs der Moderne. Frardcfurt,
adaptado para publicação. (9) Hegel proporciona a chave de leitura de Suhrkamp Verlag, 1985. p. 421.
(2) LIPOVETSKY, Gilles. L ére du vide. sua própria obra com a célebre proposição: "A (16)MACDOWELL, João Augusto A.A.
Paris, Gallimard, 1983. filosofia e o seu tempo captado no conceito". . Ética e política: urg & encia e limites. In:
(3) NIETZSCHE. Friedrich. Die fröhli¬ Cf. HEGEL,G.W.F. Principes de la philosophie SÍNTESE XVII (48): 7-34. Artigo que nos
che Wissenschaft. In: Ind. Werke in drei du droit. Trad. André Kaan. Paris, Gallimard, oferece uma crítica pertinente da posição
Bänden (Hrsg.: K. Schlechta). Bd. II. 1940. p. 31. habermasiana
München, Carl Hanser Verlag, 1966. pp. (10) DRAWIN, Carlos R. História interdi- (17) SCANNONE, Juan Carlos. Nueva
126-128. tada. A propósito do "fim" do socialismo. In: Modernidad adveniente y cultura emergente
(4) Sobre a racionalidade meio-fim ver: Perspectiva Teológica 22 (1990) 363-372. en America Latina. In: STROMATA XSLVII
WEBER, Max. Essais sur la théorie de la (11) VAZ, Henrique C. de Lima. Ética e (19910 1-2:145-192. Sobre a dialética do
science. Paris, Plon, 1965. esp.p. 462. Para civilização. In:SINTESE XVII(49).5-14,1990. Ethos e uma abordagem sistemática dos
uma ampla discussão acerca da relação Ver também: Idem. SINTESE XVIII (52) :5-11. problemas éticos ver a obra magistral de
entre racionalidade e modernização, ver: (12) BOURGEOIS, Bernard. Philosophie Henrique Vaz: Escritos de Filosofia II. Éti-
HABERMAS, Jürgen. Théorie del'agircom¬ et droits del'homme.Paris,PUF,1990.esp.p.9. ca e Cultura. São Paulo, Loyola, 1988.
municationnel. T. I. Paris, Fayard, 1987. pp. (13) Ver em relação a Kant: HÖffe, Otfried. (18) HYPOLITE, Jean. Figures de la
159-281. Immanuel Kant. Barcelona Her-der, 1986. Em pensée philosophique. Tome I. Paris, Puf,
(5) MACINTYRE, Alasdair. Tras la vir¬ relação a Hegel ver: TAYLOR, Charles. Hegel. 1971. pp. 213-230.
tud. Barcelona, Ed. Crítica, 1987.pp. 53-54. Cambridge, CUP, 1975. Sobre o significado (19)NIETZCHE, Friedrich. Vom Nutzen
(6) IDEM. Op. Cit. p. 54. atual de HEGEL, ver: IDEM. Hegel and mo- und Nachteil der Historie. In: Werke in drei
(7) IDEM. Op. Cit. p. 55. Para além dern society. Cambridge, CUP, 1979. Bänden(Hrsg.: K. Schlechta). Bd. I. pp. 252
dessas citações específicas toda a obra de (14) HABERMAS, Jürgen. La modernité: ss.
Macintyre é estimulante para a reflexão un projet inachevé. In: CRITIQUE.37 (413): (20) HEIDEGGER, Martn. Identit: at
ética. 950-969.1981. Ver as considerações de Roua¬ und Different. Pfullingen, Günther Neske,
(8) HÖFFE, Otfried. Justiça política. net em: IDEM. As razões do iluminismo. São 1957. esp. pp. 34 e 36.