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Ética e Mode

"Deus morreu". como uma perda. penetraram o circuito cultural da mídia. podemos hoje reconhecer. proclama-se a primazia do signo desre¬ ferencializãdo. Nesse "im- pério do efêmero" em que as coisas e pensamentos perdem a sua densidade própria e se dissolvem em imagens. veria dirigir-se a um público preocupa- professor de Filosofia da UFMG do com os problemas eminentemente práticos que se disseminam no quotidi- ano profissional? . que é a nossa modernidade tardia. revestindo- se de um ar dramático e adotando um tom de pitonisa. mas não ne- cessariamente tormentosa do niilismo ético(3). no qual tudo se difunde e se deteriora com extraordinária rapidez. e com que ligeireza e com que dar de ombros nós recebemos a terrível notícia e com que alívio nós nos desfazemos do jugo daquela antiga transcendência. nesse momento crepuscular de um grande ciclo civilizatório. que circula rapidamente e se deixa substituir aleatoriamente con- forme a demanda do mercado e a dinâmi- ca do desejo. rnidade assim. se já foi possível identificar na política o destino e a tragé- dia do homem moderno. Por isso. título deste ensaio(1) reúne O dois temas candentes que romperam os rigorosos li- mites do debate acadêmico e. é o que nos insinua a nossa leviandade "pós- modema". na região sombria. podemos descartar com um alegre desdém neo-nietzscheano a "vontade de verdade" e estigmati- zar como ridículo o "espírito de serie- dade"(2). na "Gaia Ciência". Gott ist tot. Entramos. em simulacro. Por que começar assim. pouco propensa a suportar a dor daquela nova verdade. Se tudo converte-se. projetando-se num es- paço social mais amplo. a perda do sentido trágico da vida. daquele incomodo Absoluto: "agora poderemos fazer o que quisermos". cheio de negros pressá- gios? Por que começar com esse estilo Carlos Roberto Drawin* moralista e profético um texto que de- (*) Psicólogo. Afinal. o "louco" de Nie- tzsche fica perplexo menos com a morte de Deus do que com a ignorância dos que o mataram. que a nossa verdadeira tragédia só pode ser reconhe- cida negativamente. afinal.

dentre mui. à essa espécie de desamparo racional diante de nosso próprio desejo de agir moralmente. dade. mas é um sintoma. ou seja. agir deste e não daquele jeito. decisionismo subjetivista. Mas minada. uma simples catalogação dos deveres e correspon- dentes direitos que se aplicam dentro de determinada configuração profissional. aliás. Não é de daqueles profissionais que. a experiência que os conselhos profissionais vão adquirindo e sedimen- tando com a prática. não é circuns. mas de todos os indivíduos que tenham uma consciência mínima de cidadania. na apatia e na barbárie do "salve-se quem puder". daquele niilismo ético a que alu. podem lançar mão de uma casuística que os guie na aplicação das normas aos casos semelhantes. rias. nem a estrita deontologia. devem opinar e tomar decisões acerca de questões éticas. na persuasiva e seguro fundamento porque verdade. reprimir essa reivindicação de parece desaguar sempre numa espécie um fundamento ético-racional para o de anti-climax: na reiteração das boas nosso agir é condenar a moralidade ao intenções ou na abstração das belas teo. Eles podem contar com dois preciosos recursos na resolução dos problemas concretos: por um lado. predatória e acanalhada . O que o interrogante manifesta certamente para exorcizar de antemão a é o seu desamparo racional. esse cons- trangedor espetáculo de um individua- lismo em andrajos e de uma esperteza boçal. sos e reflexões sobre questões éticas Ora. são suficientes para aplacar uma perplexidade que não é apenas dos conselheiros mas de todos profissionais e. como a arte. Talvez para justificar a desmesura Quando alguém pergunta. então não podemos argumentar Daí a perplexidade e desorientação acerca de normas e de valores. Mas. mas. da ambição filosófica em sua intenção "o que é ética?" não está interessado de radicalidade. Referimo-nos antes à perplexi- dade do que à mera indignação. a sua vonta- inevitável frustração de nossos possíveis de de legitimar o seu agir moral. a crescente demanda de discur. em leitores já cansados com a aparente outros termos. a conclusão que se tira de um certo a enorme distância vivida. nem a formação de uma jurisprudên- cia. é preciso sublinhar. É a perplexidade daqueles que ainda não sucumbiram ao cinismo de uma razão prisioneira da instrumentalidade e do utilitarismo e que nos convida ao mais desvairado individualismo. por sua "bom tom" discutir essas questões. Não é essa. função. religião. Ora. de não se deter na pru. liberalismo que todos conhecemos? Sea tancial. dilacerado entre uma elite profunda- mente corrupta. não nos limitamos aqui à justa e já quase deses- perada indignação do cidadão brasilei- ro. em seus intocáveis privilégios e uma enorme massa de indivíduos mergulha- dos na estupidez.não apenas dos profis- sionais de um meio específico. têm como referência uma estri¬ tra deontologia. Pois. escapa à esfera da racionali- dimos anteriormente. poder responder com força inanidade dos discursos éticos. ou. de outro. moralidade. a impotência do discurso ético. a política ou a tos. No en- tanto. o códi- go ético na sua pura positividade jurídi- ca. afinal. numa obscura discussão filosófica ou dente análise dos casos concretos para num bondoso conselho acerca de como abismar-se na raiz e no fundamento de agir corretamente numa situação deter- nossas interrogações e impasses.

se exterioriza no de- fixados acabam sempre remetendo a situação parece atestar o fracasso do bate político entre os que defendem um algum conteúdo moral e. dem um coletivismo estatal. Dado . o soal cujos fatores centrais são o moralidade deve circunscrever-se ao conceito de guerra justa ou o conflito juízo e o debate sobre os valores. enfim. então. Mas o que. (ambos). nos seria venção estatal. então. se. programa ilustrado de uma justificação individualismo liberal e os que defen- mos novamente recolocar a questão da moralidade com base na racionali. mentações rivais. seja na decisão modos alternativos de vida soci- despótica do tirano ou na lógica anôni. esta que Max superada satisfatoriamente no horizonte lar o pressuposto comum dos dois con- Weber denominou de "racionalidade simbólico da própria modernidade e que tendores: meio-fim" (Zweck-Mittel Rationalitat) nos torna prisioneiros de uma aporia que e que visa apenas ao ajuste dos meios aos Macintyre denominou invidualismo bu. quência..porque afinal "gosto" não se discute e a a moralidade e legalidade do aborto. No entanto. sua gras técnicas. permitido discutir racionalmente? Re. os fins pre.. essa verda- eficácia instrumental na relação dos comunicação dialógica que permita a deira esquizofrenia moral da moder- meios aos fins. arbitrárias dos indivíduos. performan. em conse. Essa nidade ocidental. da decisão entre a liberdade individual e a inter. um em que são soberanas as ma do sistema(4). encontra a sua internalização. e outro em que a bu- Alasdair Macintyre observou que algu. saberes operativos que pos. pro.. surabilidade conceptual entre as argu. estão de acor- fins pré-determinados. Ou seja. quação a fins previamente fixados. cial" (5). domínio da vida privada. porém onde não existe resolução particular. mas por reve- racionalidade instrumental. Debate que acerca dos critérios que utilizaremos na dade moderna. tivos das premissas de base de cada uma papéis e personagens da vida so- sam ser objetivamente avaliados em das argumentações que se opõem são função de sua maior ou menor ade. as argumentações se sucedem gundo o critério da maximização da ad infinitum sem que haja uma efetiva Essa cisão ínternalizada. avaliação desses conteúdos. obtenção de um consenso racional. representação mais profunda na cedimentos administrativos. ". pois há uma incomen. recai sempre rocrático: do que temos abertos só dois numa forma de arbítrio.. cial contemporâneo em um opções livres e arbitrárias dos O eminente filósofo moral inglês domínio organizativo em que os indivíduos. "A bifurcação do mundo so. resultados científicos. al. devere. a por uma cisão que parece não poder ser como observa Macintyre. e um domínio do pes. totalmente incompatíveis e. pois esta vem marcada não é tão importante por si mesmo. como as que envolvem racional. solução racional. fins se consideram como algo dado rocracia é soberana para limitar mas das mais vigorosas polemicas éticas e não suscetível de escrutínio precisamente as opções livres e de nosso tempo. não são passíveis de uma racional social dos problemas. relação do eu individual com os ces. Os conteúdos norma.

que agora se vê tação da conduta individual efor. tão eficiente na dis- Essa clivagem. nos esquecemos quase por completo da lores como espaço da autonomia do grande tradição ética do ocidente. mas também a lingua- ca das sociedades modernas osci.Höffe. No entan- quia do interesse egoísta"(6). de Platão e Aristóteles a ral de toda comunidade humana. esse profundo acordo cultural. e que jamais sistema. procuram resgatar. pado e a ética da razão crítica. isto sim. abordaram de um ponto contrário. um predicado intempo. mou não apenas o sujeito e os seus não é surpreendente que a políti. uma época bem determinada da senão o abandono da regulamen. to. história. como Otfried como espaço da heteronomia do estado. aque- indivíduo e a esfera pública das normas la que alguns autores. Esse processo caracteriza. entre a esfera privada dos va. não é uma condição inevitável restringiu a ética ao plano da vida pes- do juízo moral. mas que. Ao Hegel e Marx. que nós intemali¬ solução de nossa memória cultural. papéis sociais. soal. construir a moral do indivíduo emanci- das apenas para limitar a anar. essa situação é o produto final de vista moral as instituições sociais. gem da moral e as formas do discurso le entre uma liberdade que não é ético(7). a modernidade. o processo de modernização foi tão rápido e intenso. o de um processo cultural que transfor. ameaçada em seu ideal programático de mas de controle coletivo concebi. que zamos. . direito e o estado(8).

que o instância judicativa além da praxis? Uma discurso filosófico deve reafirmar sua orto-praxis. ta" e a filosofia "idelista". para evidenciar. necessidade de se tomar uma posição uma racionalidade autônoma. Na ausência de qualquer medi. o nosso desamparo racional diante da moralidade. Falava-se recorrendo a a dúvida: e quem é o povo? Não havendo clausurar nesse "sonho dogmático". visando encobrir a realidade que o engendraram. portanto. política". fo diria que é preciso suportar e confron¬ . poderíamos nos perguntar crepância brutal das forças em litígio se agora. as conquistas sociais da re- pode exatamente isso. a filosofia igualdade. que interesse verdadeiro sem uma ciência da uma espécie de fórmula mágica: "tudo é já se prolongava indevidamente. não podemos mais nos en- lação à política. podemos retrucar. democracia formal. valores acessíveis ape- nossa vida social. até há bem pouco mento é uma ilusão idealista. parecia perfeitamente des. os direitos indivi- cas ou a uma configuração infeliz de duais burgueses. É natural. nesse momento de sua história em que ela se vê confrontada com o seu destino de civilização logocên¬ trica. buscam com ansiedade. interditados os procedi- sua prática. a ortopráxis. assim. Ou seria o inverso? Como potência. por exemplo. Representado to de auto-reflexão de sua própria im. volução. diante da qual não ação discursiva. Assim. justamente pectiva os impasses éticos podiam ser resta-nos a resposta ideológica: o tanque para os mais sensíveis a tais questões. ra? Não havendo o reconhecimento de questões éticas foi. da maioria. resta- Aqui talvez seja oportuno evocar a nos a resposta operacional: ora. que o tanque e consoladora. Essa seria conhecermos na imagem da violência a precisasse recorrer a abstrusas elocu¬ a única ética possível numa sociedade brações teóricas recorrendo-se a uma elegância de um silogismo mate- dividida. consolo para os militantes. no entanto. ainda não reconciliada consi. a Basta-nos recorrer ao critério da orto. Retome-mos de modo muito mais efetivo e sem que se então à praça da Paz Celestial para re- juízos de valor. Como escapar desse círculo vicio- co. numa "redução ao absurdo". E se nos assalta minimizados como secundários em re. o que conta é o sentido ideológico da- forma-se indiferente à palavra que pro. gicamente factual. pois a autonomia do conheci- Essa radicalidade. a sua prática Justifica-se. para aqueles que. pouco tem a ver com as vicissitudes políticas de nosso desvalido país. interesses verdadeiros da maioria. apressadas. tônoma. toda pretensão de determinado e o interpretamos de acor- que procurava se interpor ao avanço de do com as categorias analíticas daqueles universalidade seria uma mistificação um tanque de guerra do "exército do ideológica. atira em nome do povo. o filósofo autocomplacente con. teríamos o gulhados na urgência do quotidiano. dos efeitos ideológicos que ciência da história. está a serviço de quem? Do em que um dos contendores deve pere- povo? Dos oprimidos? Dada a resposta. as conse- da luta de classes. o povo. Ao contrário. A esses o filóso- único critério legítimo para guiar nossos práxis: por que se indignar com a dis. povo". mas está enraizado nas a uma minoria privilegiada. uma vez que os tais "efeitos ideológi. tra- fazer se concluímos que o impasse mo. o povo problemas políticos que se ocultam e imagem contristadora da praça ironica- que serão desmascarados através de uma é aquele que possui o tanque! Assim. Nesta pers. um conflito de morte crítica dofilósofo. um saber go mesma. rialista:em nome de quem o tanque ati- pretensa "análise marxista". mer- conhecendo-se a correção ou incorreção aniquile o estudante.que recusa as soluções profissional. se ao vincular-se aos interesses da maio- cartável. todo con- partidária. que recusa uma resposta fácil cer. a radicalidade mentos dialógicos. é um impasse que se abriga no coração mesmo da civilização ocidental moderna. so? Através do partido. representada pelo estudante solitário. um uma moralidade racional autônoma. no tial" em Pequim: o estudante solitário plano da moralidade. enfim. uma intenção correta. logo os problemas éticos são história que se encarna no partido. não problemas pareciam ser equacionáveis espontâneo. E por que não? daquela prática específica. legitima- tempo. para que não dissipar essa dúvida se não há outra pareça um mero jogo retórico. seria uma prática fundada nos de explicitar plenamente os seus pressu. e isso significa. nos últimos anos. que sintetiza a cos" seriam facilmente detectáveis. fazer o movimen. Os ciência da história e o interesse real. A pergunta subjacente era: a flito toma-se. quilo que está em jogo? Numa leitura clama a sua própria impotência? O que quase que caricatural e. uma espécie de ócio acadêmi. Então. a Ora. de qualquer instituição haveria universalidade possível e sim a quências extremas da ideologização da que possa garantir o pleno exercício de razão e da ética. mas postos de modo a estimular a crítica das esse "verdadeiro" supõe a posse de uma ilusões. podemos dizer que ral que vivemos não pode ser atribuído de um lado tínhamos o liberalismo. que não sendo au- acompanham toda produção discursiva. so civilizatório do ocidente moderno? Do outro lado temos o socialismo. uma ação politicamente vocação de radicalidade. Posição nas camadas mais profundas do proces. tomamos um aconte-cimento político correta "crítica ideológica". mente designada como da "Paz Celes. pelo tanque. Mas hoje. a simplesmente às circunstâncias políti. Portanto. Essa ideologização das intermediário entre a ciência "positivis. ria. a nossa perplexidade.

etc. mas não tema reconhecer a gravidade da Essa interrogação verdadeiramente forto da síntese prematura. por princípio amigo da ignoradas pelos países desenvolvidos? pressão. submeter-se à que resista às seduções da razão cínica. mas da intenção reflexão ética a questão da crise do de explorar a realidade em toda sua projeto moderno pode ser formulada riqueza e complexidade. conquista ine- regressus ad infinitum. organização. no piano da economia-mundo e da tec¬ gatar do esquecimento a lição hegeliana nociência. uma esperança um ethos verdadeiramente universal? É . A extraordinária dificuldade o extraordinário alcance histórico-cul¬ dessa obra genial não decorre do gosto tural dessas interrogações. Estes poderão se imunizar da violência A simples proclamação de um catálogo embrenhando no caminho estéril de um e da miséria no âmbito de uma civiliza. o decadentismo cul. retração? praz na vaidade de um indivídua cioso Na medida em que a crescente ex- de sua originalidade. envolve algumas das in- nesse grandioso afresco da cultura oci. as con. e de outro. essa submissão à exigente modernidade" que. locomoção. mas encontra a sua pressividade dos indivíduos perde-se na densidade no acolhimento de seu tempo vacuidade de suas vidas e na insignificân- e no paciente perscrutar de suas poten. Este se associa mismo. mas aceita o ção planetária? E. humanos: devemos privilegiar como modernos. o irra. não ama a crítica pela crítica.tar a própria impotência. internamente. pois não devemos nos iludir com como um mero artifício retórico e não é ao agnosticismo de umarazão empobre. A euforia pós-socialista mal disfarça o valor fundamental da existência huma- mos apenas com essas alternativas: de esgotamento sócio-econômico. desde os fins dos ascese do conceito que se concretizou anos setenta. disciplina do pensamento e evitar o con. não solu- desafio da dúvida na esperança de abrir as sociedades desenvolvidas enfrentarão ciona o impasse que contrapõe de um um novo espaço de inteligibilidade que a crônica anomia que irá corroendo as lado a garantia formal de liberdade de ilumine no ser das coisas veredas que suas instituições na medida em que a uma humanidade mergulhada na miséria antes permaneciam ocultas. dos direitos humanos. como gável da sociedade moderna. Até quando tir. tendo cia e razão. alcançado a sua efetiva universalidade Mais do que nunca é necessário res. Mas. como a segurança material (comer. teligências mais brilhantes da filosofia e dental que é a "Fenomenologia do Es. não foi capaz de constituir de uma esperança lúcida. as promessas de harmonia e felicidade difícil apreender o seu significado práti- cida pelas epistemologias reducionistas trazidas pela grande onda neo-liberal co na atual discussão acerca dos direitos e menosprezada pelos esoterismos pós.)? sabedoria. único meio crise que se agiganta no horizonte de dramática para o futuro humano de nos- de reconstituir a gênese dialética do nossa civilização. No nível da fútil pelo enigmático. ves- ilustração positivista. O intenso debate acerca do "fim da samento. não pessi. etc. Nesse sen. por que permanecer. Hegel nos deu uma lição definitiva: pansão e a participação social à máxima o verdadeiro pensamento não se com. Foi essa disciplina do pen. que vem no refluxo do socialismo real.) ou os imperativos abstra¬ cionalismo retoricamente iconoclasta do as enormes massas de marginalizados tos da liberdade como as prerrogativas neo-obscurantismo anti-humanista? do terceiro e quarto mundos poderão ser jurídicas da cidadania (direitos de ex- O filósofo. sa civilização não pode ser encarada niilismo ético moderno. das ciências humanas. tural do capitalismo tardio. conceber uma civilização que. liberdade subjetiva tende à máxima ex- tido. morar. na as condições concretas da felicidade um lado a racionalidade minguada da tradições políticas. parece confirmar pírito". em não deixar sucintamente do seguinte modo: como que se rompesse o nexo entre experiên. possível uma civilização sem ethos?(11). cia de seus destinos?(10) cialidades(9). Lucidez.

abriria um penho. da independência e liberdade de sua devemos diferenciar dois aspectos do mento kantiano seria estabelecer uma ação) e de outro. o fra. de uma ciência absoluta e da reconci. ao con. ou o abandono estratégico dos ideais outros homens. da eficácia. No plano consciência da modernidade: qual seria da ética o que se verifica é que a racio- o significado do fim da época moderna nalidade sistêmica que caracteriza a (Neuzeit)? Seria a transformação crítica modernização social é insuficiente para . desenvolvimento de sistemas autôno- ambas faculdades humanas. a separação entre Ethos (o mente nos intricados caminhos dessa discurso moral tinha o seu estatuto conjunto de crenças. ercitivas(13). novo espaço histórico: o da articulação cultural refere-se ao desenvolvimen- ciência e moralidade. a impossibilidade ximização da produtividade. beral: implica na aceitação integral da manidade determinou uma espécie de modernidade. A proposta modernizante li- filosófica de realização plena da hu. essa ir. para a captação da inteligibilidade programáticos da ilustração e da racio- redutibilidade da ética à ciência não da história. mos como a economia (mercado) e o Do ponto de vista hegeliano. valores e normas discussão podemos recorrer as indicações próprio de racionalidade (razão prática). da democra- poderíamos denominar de crise na auto. No entanto. estado (tecnoburocracia). Caso isso ocorresse. pois. como instância de legitimação. segundo as regras da racionalidade uma deficiência do filósofo. social e cultural. A modernização incapaz de reconciliar teoria e prática. afinal. história efetiva: a racionalidade científi. nalidade. como reza o imperativo categórico. no totalitarismo. sem as salvaguardas do direito formal. Diagnosticava a "aporia da nalidade autônoma (Modernität)? apontava em direção ao irracionalismo. a contradição entre o processo de modernização: o social e o mediação entre as duas esferas da racio. dental. que se deu na do. de um individualismo exacerbado e de A partir dessa distinção podemos um burocratismo hipertrofiado. ao mostrar a inteligibilidade do sistêmica e instrumental que visa a ma- lidade de seu pensamento ao seu tempo. por. processo. enquanto domínio do determinismo e da legalidade da na- tureza. e. dos saberes especializados no horizonte to de esferas autônomas de valor trário. tanto. ao universo simbólico da religião. na própria época da proclamação dos "Direitos do Homem e do Cidadão" (1789). julgava-se o pensador de um tem. cos de validação sem remeter ao sagra- Não foi isso. Assim. indivíduo em sua pretensão de sujeito cultural(14). Antes. portanto. Para Hegel a reconstrução conceptu. para tomarem-se meio de manipulação de po pós-revolucionário e propício. mas à fide. pectiva da expansão e consolidação dos mento generalizado de impotência que mecanismos de mercado. os homens deixariam de ser fins em si mesmos. do desem- o tempo de uma modernidade cindida e de se retomar ao passado. a moral e a liação dos interesses particulares dos ciência que reconem acritérios intrínse- indivíduos num estado ético e racional. cia liberal e da tecnociência. porém. um senti. como a arte. Kant compreendeu que a ética.e agrilhoada aos injustos mecanismos que reproduzem a desigualdade entre os povos e de outro o projeto de uma efetiva justiça social que. nas ética: sociedades de consumo de massa e na destruição da natureza e a exigência 1°. porque o de um lado. a razão científica moral e o sistema com suas exigências A modernização social refere-se ao (teórica) e a razão ética (prática) são tecno-burocráticas crescentemente co. dade e seu desdobramento no campo da em nosso século. não pode reduzir-se à ciência. desaguando. A cultu- ca acentuou ainda mais o seu caráter ra moderna seria. na pers- escândalo histórico da razão. Aprofunda crise ética contemporânea já havia sido genialmente apreendida. enquanto domínio da liberdade e da autonomia do sujeito moral. Hegel. compor os seguintes tipos de proposta Essa crescente divergência entre o em relação ao problema da moderni- curso efetivo da história. O grande desafio sitemático do pensa. a sociedade tura essencialmente secularizada na mergulhou ainda mais na esquizofrenia história das civilizações. então. se degenera numa concretude inumana(12). que operam casso sistemático de Kant não se devia à al do longo itinerário da civilização oci. de uma comunidade) e indivíduo (cioso fornecidas por Habermas. a primeira cul- fragmentário e instrumental. (Wertspharen). entretanto. modernidade" como "tragédia ética": Para nos situarmos esquematica- ao decisionismo subjetivista. no momento em que a sociedade moderna afirmava-se como historica- mente irreversível. pelos filósofos do período clássico do pensamento alemão.

cativa parece-nos necessária para o esta- giosas do passado. do a formação de uma verdadeira per- do. sexo. analogia de Jean Hyppolite entre a fenomenologia hegeliana e a psicanálise 4°. passado como tal. Por outro lado. possibilitar a com os valores culturais que muitas emergência de diferenças irredutíveis comunidades. discussão acerca das condições de pos- conservadora: implica na aceitação da Das quatro propostas acima esboça. grande tradição ocidental grega e judai- seja ahistórico e possa ser transportado co-cristã e a segunda apontando para a de uma época para outra. Nesse fim de milênio em que nossa tanto. a racionalidade comuni- na) típica das grandes concepções reli. pois nele há uma diferença ir- sistêmica (moderna) inviabiliza como redutível ao meu ponto de vista ou a um presença culturalmente significativa a elemento comum qualquer "(16). tanto a nostalgia do passado pré-moder. "racionalidade sapiencial". etc. o que Haber¬ conservadora. é possível reconstruí-lo diferenciada em esferas autônomas de no presente. mas não suficiente para suscitar 3o. diação daquilo que Scannone denomina cação e homogeneização da história. as pretensões (Freud). A proposta modernizante neo. passado que nos permite afrontar o pre- tração seriam contidas pelo dinamismo sente e criar o futuro(18). o contato Pretende-se. freudiana. fundamentar a moral. dos estilos de vida e dos valores desejo de erudição. que está definitiva- ral. o da mera curiosidade historiográfica e . evidentemente. ria diversos tipos de irracionalismo e de neo-conservadora e pós-modema po- do e da ciência com valores e con. o verifica é que essa dualidade entre so. discurso ético.) como dema) é insustentável. para o nosso tempo. lidades: a primeira enfatizando a neces- modema. sidade de se retomar meditativamente à dora pressupõe que o conteúdo da moral lista. se não é possível retomar ao ca na aceitação da modernidade cultu. porque evita. ainda preservam e que capeni da camisa-de-força normativa guardam uma vinculação ainda viva com que caracterizou até hoje o logocentris. individuais) que es. A proposta pós-modernizante: uma alternativa concreta de moralidade implica na rejeição integral da moder. na rememoração (Erinne¬ racionalidade e numa crítica forte das rung) fenomenológica da consciência patologias da modernização social na (Hegel) ou na posterioridade (Nach- perspectiva de uma dialética interna do träglichkeit) do vínculo transferencial projeto iluminista. é recomendável reco. assim. Essa posição neo-conserva¬ no quanto o endosso do presente capita. social e cultural. mas o que se dimensão da alteridade moral. na perspectiva de consistente e abrangente. o sociedade (produção-consumo) em de. imobilismo decorrente da dualidade so- trimento da dimensão interacional da ciedade e cultura da modernizante neo- existência (valor. povo. é através da máxima diferenciação dos mais do que um gesto de nostalgia ou um gostos. é que a posição pós-modema pa. ciedade (moderna) e cultura (pré-mo¬ grupo. capaz de fundar sem reducionismos o formalismo e utopismo da dialetizante. o passado e a tradição(17). isto é. O que se verifica. olhar para o passado. racionalidade substancial (pré-moder¬ Em síntese. Como na célebre subjetivos. em consequência nhecer as distorções específicas de cada tende-se ao irracionalismo moral e à uma delas: a tendência instrumentalista hipertrofia da dimensão sistêmica da e utilitarista da modernizante liberal. A proposta dialetizante: impli. isto é. A racionalidade outro. racionalidade sistêmica não seria rejei. contornaria dem também abrir inesperadas possibi- cepções da sociedade tradicional pré. civilização parece ter chegado a um rece debater-se entre a virulência do momento crucial de seu destino históri- discurso que produz e a integração ao co. reconhecimento do outro (indivíduo. sibilidade do discurso ético e formular modernidade social e na rejeição da das parece-nos que a quarta seria a mais uma alternativa concreta de comporta- modernidade cultural. a comunicacional. sexuais. escuridão dos tempos os caminhos que ciedade que realimenta o consumo não soubemos ou quisemos percorrer. perscrutar na individualismo necessário de uma so. A cisamos recuperar não é. e é só essa re-significação do funcionais da economia e da adminis. sentido). sobretudo as comunidades (étnicas. Para que o círculo nidade. racionalismo reducionista. não na perspec. dialético do Ethos se complete permitin- tiva de um impossível retomo ao passa. mento moral. No entanto. mas visando uma desconstrução do sonalidade moral seria necessária a me- projeto moderno como projeto de unifi. cultura. o cinismo devido à con- mas designou como "colonização do vivência de iconoclastia e conformismo mundo da vida através dos imperativos tada. entre. pelo vigor Mas o sentido histórico que pre- do "mundo da vida" (Lebenswelt). de racionalidade. belecimento de um discurso ético racio- nal. mas também o dos sistemas funcionais"(15). mo ocidental. as posições uma conciliação da economia de merca. Assim. mas subsumida numa nova forma da pós-modemizante. populares. de uma cultura secular e mente perdido. incapaz de ultrapassar o limiar de uma 2o. das interações comunitárias.

Justiça política. 53-54. Bänden(Hrsg.p. Tras la vir¬ relação a Hegel ver: TAYLOR.Paris. Artigo que nos che Wissenschaft.: K. 55. Plon. Henrique C. municationnel. 1983. Gallimard. 1979. Para civilização. Paris. In:SINTESE XVII(49). sua própria obra com a célebre proposição: "A (16)MACDOWELL. O olhar que a crise contemporânea nos convida a lançar sobre o passado não pode se restringir a uma homenagem aos mortos. Petrópolis. II. 1987. CUP. Identit: at ética. André Kaan. Cambridge.1990. CUP. é uma expressão de decadência.F. 252 dessas citações específicas toda a obra de (14) HABERMAS. 217-219. 1986. (8) HÖFFE. 1975. In: Modernidad adveniente y cultura emergente (4) Sobre a racionalidade meio-fim ver: Perspectiva Teológica 22 (1990) 363-372. Frardcfurt. p. da doença niilista que consome as energias de nos- so século(19). São Paulo. In: Werke in drei (7) IDEM. 1988. 950-969. (5) MACINTYRE.A. Cit. Günther Neske. In: Ind.9. Principes de la philosophie SÍNTESE XVII (48): 7-34. p. In: CRITIQUE. Paris. Immanuel Kant. Tome I. ao resgatar nossa origem espiritual do esquecimento. ainda menos o do relativismo historicis¬ ta que.: o prefácio para edição brasileira. p. (10) DRAWIN. 1971. História interdi. Em pensée philosophique. Die fröhli¬ Cf. Barcelona.pp. (17) SCANNONE. Jürgen. Ed. 213-230. Barcelona Her-der. Loyola. Friedrich. (13) Ver em relação a Kant: HÖffe. Nueva 126-128.PUF. . As razões do iluminismo.1990.esp. In: (3) NIETZSCHE. 421.que nos estimula a romper com a inércia do presente e com os pressupostos de uma modernidade que aprisiona o pensamen- to na esterilidade da abstração. Juan Carlos. und Nachteil der Historie. Ver as considerações de Roua¬ und Different.G. Uma tradição que.1981. Gilles. L ére du vide.37 (413): (20) HEIDEGGER. Paris. (15) HABERMAS. atual de HEGEL. T. ao datar as obras da cultura. Bd. pp. Philosophie Henrique Vaz: Escritos de Filosofia II. 54. Gallimard. Vom Nutzen (6) IDEM. esse impensado que não cessa de fecundar o pensamento humano(20).5-14. Carlos R. Pfullingen. Sobre a dialética do science. Ética e (19910 1-2:145-192. pp. tud. pp. Bernard. 1987. Jürgen. ca e Cultura. Ética e política: urg & encia e limites. João Augusto A. habermasiana München. Paris. Crítica. Otfried. 462. Carl Hanser Verlag.e aqui aludimos à dramáti- ca confluência das vertentes grega e judaico-cristã que constituiu a identi- dade de nossa civilização . 1966. Sobre o significado (19)NIETZCHE. São 1957. Hegel. Puf. (9) Hegel proporciona a chave de leitura de Suhrkamp Verlag. I. phische Diskurs der Moderne. ver: (12) BOURGEOIS. Ethos e uma abordagem sistemática dos uma ampla discussão acerca da relação Ver também: Idem. função social dos conselhos" (CRP 04) em direito e do estado. 1985. Martn. SINTESE XVIII (52) :5-11. Para além dern society. Schlechta). In: STROMATA XSLVII WEBER. p. de Lima. 34 e 36. A propósito do "fim" do socialismo. Figures de la 159-281. pp. mas deve nos levar a venerar no passado o que ainda pode justificar nos- sa esperança no futuro: a vitalidade de uma tradição . Esse historicismo. . esp. 1965. Bd. Hegel and mo. tada.W. filosofia e o seu tempo captado no conceito". (18) HYPOLITE. Otfried. Schlechta). pp. Vozes. La modernité: ss. Alasdair.: K. en America Latina. pp. Macintyre é estimulante para a reflexão un projet inachevé. Werke in drei du droit. Jürgen. Charles. Paris. Jean. (2) LIPOVETSKY. Fayard. 31. Friedrich. Cit. oferece uma crítica pertinente da posição Bänden (Hrsg. I. Op. problemas éticos ver a obra magistral de entre racionalidade e modernização. 1991. ver: IDEM. 1991) e posteriormente Cf. adaptado para publicação. Cambridge.p. Éti- HABERMAS. Théorie del'agircom¬ et droits del'homme. Essais sur la théorie de la (11) VAZ. Max. 1940. Trad. nos ensina Nietzsche. Notas (1) Texto apresentado no seminário "A Fundamentação de uma filosofia crítica do Paulo. Op. net em: IDEM. HEGEL. 1987. Cia das Letras. Der philoso¬ Belo Horizonte (out. esp. liberte a nossa razão para as possibilidades insus- peitadas do reencontro com o rico ma- nancial da experiência concreta. acaba por tudo diluir no fluxo do tempo.