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© Alguns direitos reservados Alexandre Faria, Joâo Camillo Penna Sumârio

e Paulo Roberto Tonani do Patrocinio

Coordenaçâo éditorial
APRESENTAÇÂO C r i t i c a d e mutirào
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA
SILVIANO SANTIAGO 9
Produçâo éditorial e revisâo
JACQUELINE BARBOSA
INTRODUÇÂO Modulaçôes d a margem
Projeto grâfico e diagramaçâo
ALEXANDRE FARIA, JOÂO CAMILLO PENNA, PAULO ROBERTO TONANI
ADRIANA MORENO
DOPATROOÎNIO 1 9

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÂO NA FONTE


SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ CONTEXTOI 45

i.Jagunços, topologia, tipologia (Euclidese Rosa)


D32
Modos da Margem: Figuraçôes da marginalidade na literatura brasileira JOÂO CAMILLO PENNA 46
/ organizadores Alexandre Faria, joâo Camillo Penna, Paulo Roberto Tonani do a.Jagunços, pivetes e outros inocentes
Patrocinio. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Aeroplano, 2015.
608 p.; 18cm. ROBERTO CiRIO NOGUEIRA 76

3 . Tenda d o s milagres: A r c a n j o s e l a b a s nas ladeiras d a B a h i a


Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7820-115-9 GILVAN PROCÔPIO RIBEIRO 102

1. Cultura. 2. Antropologia. 3. Literatura marginal I . Faria, Alexandre. I I .


Penna, Joâo Camillo. I I I . Patrocinio, Paulo Roberto Tonani do
C O N T E X T O II '27

14-18062 C D D : 306 1 . O cemitério d o eu e d o outro: a escrita autobiogrâfica e


C D U : 316.7
ficcional d e Lima Barreto sobre o manicômio
19/06/2015 19/06/2015
DANIELA BIRMAN

2 . M a n g u e : a margem e o imaginârio

RENATO CORDEIRO G O M E S '55


Alguns direitos reservados.
Aeroplano Editora e Consultoria Ltda. 3 . M a l a n d r a g e m n a m o d e r n i d a d e c a r i o c a : mediaçôes entre
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Facebook: www.facebook.com/Aeroplano.Editora
Twitter: www.twitter.com/Ed_Aeroplano MARIA CÉLIA BARBOSA REIS DA SILVA 21
de guerra contra o Brasil que o marginalizara, e diagnôstico
do modo brasileiro de marginalizar".
Literatura de mutirâo, critica de mutirâo.
Modulaçôes da margem
Notas «if«UÉ-»ytv •
ALEXANDRE FARIA,
1 Lembremos ainda que para Benjamin os seres humanos estâo
JOÂO CAMILLO PENNA,
se privando hoje da "faculdade de intercambiar experiência", PAULO ROBERTO TONANI DO PATROCiNIO
isso porque "as açôes da experiência estâo em baixa, e tudo
indica que continuarâo caindo até que seu valor desapareça
de todo". À medida que a sociedade se moderniza, torna-se
mais e mais dificil o diâlogo enquanto troca de opiniôes sobre
Modos da margem. Figuraçôes da marginalidade na literatu-
açôes que foram vivenciadas. As pessoas jâ nâo conseguem
ra brasileira nasce de um sentido de urgência: produzir uma
hoje narrar o que experimentaram na prôpria pele.
resposta do ponto de vista da critica a um acontecimento:
2 Como exemplo, cite-se a incontornâvel frase de Ferrez: "Nâo
o surgimento sob a forma de um movimento, ao mesmo
somos o retrato, pelo contrario, mudamos o foco e tiramos
tempo disperso e intenso, de novas formas de enunciaçâo
nos mesmos a nossa foto".
saidas diretamente das periferias, favelas (rebatizadas co-
3 A metonimia figura o todo pela parte. No caso, figura a naçâo
munidades) das cidades brasileiras, ou seja, de territôrios
brasileira pela comunidade popular.
mal incluidos ou segregados, tradicionalmente silencia-
4 Leia-se a frase final do seu ensaio em que o jagunço, con-
dos, ou por saberes espetacular-midiâticos e/ou cientificos,
vertido em figura ontolôgica, "acrescenta uma nova dobra à
quando nào ventriloquos, objeto rotineiro de uma ûnica
topologia da margem: a de um Brasil capaz de colocar no seu
atençâo do estado: a policial-militar. Corrija-se logo de cara
centro a margem, e de pensar a si mesmo a partir delà".
um equivoco de percepçào dos céticos de plantào que afir-
mam/afirmaram que o movimento teve inicio com passos
timidos e inseguros, o que se viu foi justamente o oposto.
A cena literâria brasileira foi tomada de assalto por um nu-
méro considerâvel de autores marginais que expressam o
cotidiano de territôrios periféricos a partir de uma escrita
1
fortemente marcada pelo testemunho e por uma estética
que podemos nomear realista, mas que pouco tem a ver
com o que se codificou como realismo literârio: trata-se um

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realismo experiencial, o que se lê sâo experiência vividas, . .m Porém o ineditismo nâo réside apenas no fato de os
mesmo e sobretudo quando reconstruidas ficcionalmente. marginais ocuparem hoje um novo lugar na cena literâria
Parte significativa desse grupo de autores passou a se au- brasileira, trata-se de um fenômeno que utiliza formas de
tointitular marginal como uma forma de caracterizar sua il naçâo claramente inspiradas em métodos de organizaçôes
produçào e, principalmente, como resposta a uma interpe- sociocomunitârias, no que consiste em um novo modo de
laçâo identitâria. i onstituiçâo de movimentos literârios, até entâo desconhe-
Entenda-se ainda que a expressào "literatura brasileira" i ido no Brasil, o que provocou grande interesse por parte
contida no subtitulo, a nossa arte pûblica por excelência, deve ila critica, condenatôria ou favorâvel (mais a primeira do
ser entendida em sentido extensivo. Nela se incluem a per- que a segunda).
formance, o cinéma, a mûsica, a poesia recitada, a literatura A presença destes autores periféricos em nossa cena lite-
atuando, no entanto, como principio aglutinador, mas nâo râria forçou a emergêneia de um importante debate acerca,
subordinador. O que é visado em cada caso é um certo "labo- precisamente, da constituiçâo de novos sujeitos discursivos
ratôrio de gestos", na expressào de Ismail Xavier, em ensaio no no cenârio cultural brasileiro. No espaço circunscrito dos
présente volume, embutido em vârios suportes artisticos. Departamentos de Letras é possivel observar ainda certa per-
Esta produçào atual que reivindica o nome de marginal, plexidade dos criticos que se debruçaram sobre os textos da
nâo é, no entanto, uma novidade em nossas letras. Esta é a Literatura Marginal, provocando uma gama bastante gran-
hipôtese fundamental que move esta coletânea de ensaios: de de reaçôes. Resumamo-nas em duas: de um lado, aparece
o surgimento, a partir das periferias dos grandes centros com insistência surpreendente o veredicto normativo de que
urbanos, de uma escrita literâria como veiculo de um dis- nâo se trata de Literatura (sic?). Trata-se de "jornalismo", de
curso subalterno, que mescla com desenvoltura ficçâo e tes- "documento", de "exotismo interno", correspondendo a uma
temunho, nâo é um fenômeno inédito nas paginas de nossa persistente tradiçâo "neonaturalista" no Brasil, e exemplo ca-
literatura. Uma diferença da proposta contemporânea esta bal do "contrôle do imaginârio", e da falta de "voos de fanta-
no fato de os autores residirem no prôprio espaço subalter- sia" de nossos autores, e sua comprovada intranscendência.
nizado que serve de inspiraçâo e tema para suas obras. Fer- As expressôes entre aspas, com assinaturas diversas, perfeita-
rez, autor fundamental para a estruturaçào e construçâo do mente reconheciveis, resumem um diagnôstico comum, his-
movimento, apresenta tal questâo de modo claro e objetivo tôrico, que condena grande parte da Literatura praticada no
ao afirmar: "Nâo somos o retrato, pelo contrario, mudamos Brasil aos confins do literârio, ou ao nâo literârio. Falta-lhes,
2
o foco e tiramos nos mesmos a nossa foto". E m outras pa- em suma, uma elaboraçâo ou mediaçâo pela forma, que sô
lavras, os marginais abandonaram o papel de objeto retra- ela define a literatura e a distingue de seus outros. Mas, que
tado pelo intelectual letrado para, em seu lugar, exercer a coisa é isso, a Literatura7
A literatura contemporânea com
funçâo ativa de sujeitos donos de sua prôpria representa- seu apelo irresistivel ao real solicita uma nova ontologia, nào

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mais ligada à faculdade clâssica (kantiana) de produçào da teôricas, os estudos produzidos sobre Literatura Marginal
imagem e da imaginaçâo. A crise atual da literatura, de que propôem formas mûltiplas de ancoragem ao objeto, apre-
a Literatura Marginal é um dos indices, se assemelha aque- cniando questôes como a discussâo sobre a atuaçâo do
la, narrada pelo critico de cinéma André Bazin, infringida à Intelectual periférico, a anâlise das representaçôes da cida-
pintura pela invençâo da fotografia e do cinéma. Trata-se de de contemporânea na perspectiva de obras literârias mar-
3
uma crise espiritual e técnica. O embate se d â no campo da ginais, a leitura de uma politica identitâria agonistica por
discussâo sobre a norma e o valor literârios: o que e quem meio do texto literârio e o debate acerca dos limites entre
tem valor e pode assim ser literatura; o que e quem nâo tem fieçâo e real a partir do discurso testemunhal marginal.
valor e é jogado aos confins do nào-ou extra-literârio. I m - Além dos enfoques especificos surgidos na ârea dos estudos
portante lembrar, portanto, que o direito de existir como for- literârios, a Literatura Marginal e, de forma mais ampla, as
ma de resistência e sobrevivência, tema recorrente dos textos produçôes culturais da periferia urbana, despertaram o in-
aqui estudados, apareça até mesmo aqui: nos corredores das teresse e levaram à produçào de pesquisas, de natureza in-
universidades sob a forma da reivindicaçâo (polêmica) da terdisciplinar, principalmente nas âreas das ciências sociais,
existência de ser literatura. Mas os "pouco imaginativos" au- da antropologia e da educaçâo. Esse dado é sintomâtico e
tores da Literatura Marginal invadiram a praia dos estudos indica que a emergêneia desse fato cultural abrange estrutu-
literârios, montaram ali a sua tenda, e vieram para ficar, gos- ralmente diversas esferas da sociedade brasileira.
tem ou nâo gostem. De outro lado, os mais receptivos afir-
De essencial importância ainda, para o desenho do novo
mam de forma quase categôrica a insuficiência dos estudos
campo destas enunciaçôes intrinsecamente ligadas aos ter-
literârios de base estruturalista e imanentista frente ao objeto.
ritôrios em que os sujeitos destas falas vivem e sobrevivem,
Os textos de Literatura Marginal nâo sâo objetos autônomos,
é a importância que a noçâo de territôrio e territorialidade,
isto é, nâo contêm a sua prôpria lei de formaçào dentro de si 4
surgida na geografia politica, passa a ter. Cidade de Deus,
mesmos, eles sâo vazados de todos os lados pelas marcas de
Capâo Redondo, Rocinha, Nova Holanda, os topônimos
um real que eles nâo conseguem, e nâo querem, conter, que
dos morros, periferias, favelas, inscrevem estes textos e seus
os atravessa e que fala através deles. Tal constataçâo promo-
narradores no territôrio de suas falas, que falam estes terri-
veu um fecundo exercicio critico na pesquisa de referências
tôrios ou sâo falados por eles, antes de mais nada, e a partir
teôricas possiveis para a leitura e anâlise dos textos marginais.
dos quais elas fazem sentido.
A busca por novas ferramentas de trabalho para o exa- Mencionamos acima o testemunho como uma das ma-
me de um objeto dotado de tamanha particularidade resul- trizes da escrita marginal. Cabe aqui dizer sucintamente
tou em uma expressiva variedade de artigos, ditssertaçôes que a forma testemunhal, com sua évidente origem judi-
e teses que oferecem um olhar prismâtico sobre o movi- ciâria, no testemunho juridico em uma situaçâo litigiosa,
mento. Dessa forma, além da diversidade de ferramentas surge no século X X como marca das narrativas inseridas no

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contexto das grandes catâstrofes politicas genocidârias des- Inédite na cultura brasileira. Mas é a leitura retrospectiva a
te século: os testemunhos judaicos (mas nâo sô) que emer- partir da contemporaneidade que produz e solicita a cons-
gem dos campos de concentraçâo nazistas, os testemunhos truçâo de uma tradiçâo, ela prôpria marginal e marginali-
de resistentes ao stalinismo nos Gulags soviéticos, dentre Eada. O gesto se assemelha muito ao descrito por Borges,
outras. A testemunha depôe em texto sobre uma verdade em Kafka e seus precursores. A s suas palavras poderiam ser
catastrôfica que précisa ser contada, pois corre o risco de .iplicadas ao corpus de autores que intégra este volume:
desaparecer, jâ que parte do projeto genocida consiste em Se nâo me equivoco, as heterogênas peças que enumerei
aniquilar a testemunha. Mas é apenas nos anos 1960, que parecem-se com Kafka; se nâo me equivoco, nem todas se
surge, mais ou menos na mesma época, em contextos bas- parecem entre si. Este ûltimo fato é o mais significativo: em
tante distintos, em Israël, no julgamento de Adolf Eichmann cada um destes textos esta a idiossincrasia de Kafka, em
(1961), e em Cuba (1966), no que se tornaria o gênero do grau maior ou menor; mas se Kafka nào tivesse escrito, nâo
6

testemunho hispano-americano, a enunciaçâo da vitima, a perceberiamos; vale dizer, nâo existiria".


como forma de deposiçâo em juizo, respectivamente, sobre Ao lançarmos este olhar pelo retrovisor e estabelecer-
a experiência concentracionâria, e sobre a experiência da mos um recorte que alcança as primeiras décadas do século
escravidâo africana e o genocidio amerindio. O testemu- 5
passado, observamos que o conceito de marginal foi ampla-
nho parte de uma verdade experiencial traumâtica, coletiva mente adotado, com usos especificos, principalmente nas
e individual, indevassâvel e ao mesmo tempo que exige ser très ûltimas décadas, podendo ser entrevisto pelo menos
contada, que nâo pode ser subsumida à verdade referencial. em très modalidades distintas. A primeira, ligada à contra-
Gênero literârio limite, o testemunho produz uma crise no cultura, teve principal eco em manifestaçôes desde o fim
paradigma realista das anâlises literârias, ao solicitar uma dos anos 1960, de vocaçâo tropicalista e pôs-tropicalista,
verdade da experiência perspectivada e nâo referencial. como as intervençôes do artista plâstico Hélio Oiticica, ou

A simples utilizaçào da expressào "marginal" para no- do poeta Waly Salomâo, e do Cinéma Marginal de Julio

mear a literatura produzida pelo grupo (ou grupos) jâ é, por Bressane, Rogério Sganzerla, dentre outros. A segunda pas-

si sô, uma forma rentâvel de aproximaçâo do objeto, pois, sa pela relaçâo tensa com o mercado éditorial e por certo

a definiçâo apresentada pelos autores da periferia é muito desencanto politico do grupo de poetas associados ao que

diversa da concepçâo que outrora predominava no âmbito se convencionou chamar de "Geraçâo Mimeôgrafo", com

dos estudos literârios, que compreendia o termo marginal nomes como Chacal, Charles ou Cacaso. A terceira é a que

como uma oposiçâo ao conceito de cânone. E se hoje po- enfoca, no discurso ficcional, os grupos marginalizados so-

demos identificar neste movimento literârio a adoçâo do cial e economicamente, e encontra diversos e variados tipos

termo "marginal", como elemento unificador e de constru- de representaçâo na literatura do periodo, como o teatro de

çâo identitâria, é importante ressaltar que o seu uso nâo é Plinio Marcos, e a prosa de Joâo Antonio e José Louzeiro.

MODOS DA M A R G E M
Oigoniradores ALEXANDRE FARIA, J O Â O CAMILLO PENNA e PAUIO « O B E R T O TONANI DO PATROCINIO
Como se vê, a amplitude da noçâo de marginal percorre investigaçâo comparativo e transistôrico, que se ocupa da
uma ampla gama de lugares discursivos que vai desde a es- ulcntificaçâo de mecanismos discursivos, politicos e sociais
colha estética, que se manifesta por uma récusa voluntâria que rasuram as amarras temporais e promovem a estrutura-
do cânone literârio, até a escolha do temârio da violêneia e çâo de um movimento circular ou répétitive A figura-tipo
da marginalidade urbana como foco central das obras. do jagunço, personagem ligado ao mundo rural, lido como
O objetivo dos organizadores deste livro é produzir um gênese do personagem marginalizado na estrutura social
debate a partir de estudos literârios e culturais de obras e brasileira, surge como elemento identitârio de um Brasil
autores que produziram alguma forma de modalizaçâo do que transita entre o arcaico e o moderno, entre o sertâo e
personagem/tipo marginal. A definiçâo do elenco de escri- 0 litoral, entre o rural e o urbano. No segundo contexto, hâ
tores e obras obedeceu dois critérios distintos, duas formas o predominio de ensaios que tematizam o Rio de Janeiro.
possiveis de ancoragem ao conceito de marginal: seja en- A antiga capital fédéral surge como berço e palco de um
quanto representaçâo de sujeitos/personagens marginais novo personagem marginalizado que ira transitar entre o
e, por outro lado, enquanto forma de construçâo de uma mundo da ordem e da desordem: o malandro. O terceiro
identidade artistica e formai, passando inclusive pela auto- contexto se situa nas décadas de 1960 e 1970, em torno da
denominaçâo marginal por parte dos autores. O objetivo, compreensâo da figura do marginal e/ou da marginalidade
com este exercicio de visitaçâo à historia da literatura e cul- como radicalizaçâo estética e atualizaçâo performâtica de
tura brasileiras, é uma contribuiçâo teôrica e critica para a textos e de corpos. O quarto contexto inclui a cena contem-
compreensâo do momento contemporâneo. Nesta perspec- porânea, nascente do movimento de leitura retrospectiva e
tiva, os artigos e ensaios aqui reunidos objetivam oferecer desembocadura de reflexôes prospectivas e inquiétas sobre
uma visâo ampla dos usos do conceito "marginal" na cul- o que talvez se caracterize como o fato mais instigante e
tura e literatura brasileiras no periodo que vai desde o fim conséquente da cultura no Brasil atual. O quinto, e ûltimo,
do século X I X até a primeira década do século X X I . Résulta contexto marca a emergêneia de enunciaçôes performâticas
desta coletânea de ensaios a construçâo de um olhar histô- e coletivas, na poesia e na cultura, em que se encenam no-
rico que, ao percorrer de forma atenta pouco mais de um vos modos de comportamento no seio de uma cidade que
século de produçào cultural e literâria, elege figuraçôes do muda radicalmente e que é obrigada a abrigar a periferia
marginal e da marginalidade como elemento catalisador de como seu centro criativo e puisante.
sua elaboraçâo estética.
Ao utilizarmos, no titulo do livro, a expressào modos
O livro esta dividido em cinco sessôes temâticas, que de margem, desejamos propor uma leitura polissêmica do
denominamos contextos. A definiçâo dos contextos obede- conceito. O termo "modos" pressupôe ao mesmo tempo:
ce a critérios temporais, teôricos e topolôgicos. O primeiro uma tipologia, a ideia de que hâ uma modalizaçâo voltada
contexto do livro torna clara a presença de um modelo de para o subalterno e o marginal na fieçâo brasileira, e o fato

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de que esse lugar da margem acaba constituindo uma éti- 11 i mfluência exercida pelos estudos da Escola de Chica-
queta, no sentido do estereôtipo e no do comportamento 1 1 sobre os pesquisadores brasileiros.
padrâo. A busca por uma leitura polissêmica também pode A referêneia ao uso do termo/conceito periferia pela Es-
ser observada na liberdade dos autores em relaçâo ao uso Cola de Chicago se faz necessâria para observarmos a sua
dos conceitos e ferramentas de anâlise. Ainda que o con- i onstruçâo enquanto operador de leitura de espaços espe-
ceito de marginal seja o elemento catalisador dos ensaios, i ilicos da cidade. É no solo urbano que podemos localizar
cada autor utilizou e pensou a seu modo este personagem .1 icrritôrio identitârio da periferia, noçâo utilizada aqui
que vive fora de um centro hegemônico, seja ele urbano ou cm detrimento de outras noçôes afins como: favela, gue-
rural, de maneira independente. lo, subûrbio e margem. Dessa forma, estamos diante de um
Subalterno, periférico ou marginal, como nomear os su- implo mosaico de termos que remetem a um significado
jeitos que ocupam as franjas urbanas, os espaços esquecidos lemelhante. Tais termos apontam todos para a existência
da cidade? Cada conceito foi construido obedecendo a uma de uma relaçâo antagônica com os territôrios urbanos que
historicidade prôpria e respondendo a anseios igualmente podem ser definidos como centrais. Independente da deno-
prôprios. O termo "periferia" pode ser lido, hoje, como uma ininaçâo empregada, estes conceitos sâo sempre utilizados
construçâo social relacionada a prâticas e discursos de su- para nomear formas de ocupaçâo do territôrio que se er-
jeitos atuantes em movimentos sociais. Mais do que uma Ijucm em oposiçâo e em diferença para com o centro e, em
categoria de anâlise sociolôgica, o termo "periferia" - e o muitos casos, de forma subalternizada.
adjetivo correlato, "periférico" - passa a ser utilizado como Ao se estabelecer a relaçâo entre centro e periferia nâo
elemento que busca construir a identidade de sujeitos asso- ipenas a partir da lôgica da diferença, mas, principalmente,
ciando-a aos processos de marginalizaçâo urbana. .cgundo critérios hierarquizantes do ponto de vista socioe-
Dessa forma, mesmo que os estudiosos das ciências so- conômico, estamos localizando a existência de territôrios
ciais se esforcem por evidenciar as diferenças e as especifi- subalternos na cidade. Nesse sentido, nos defrontamos com
cidades das formas de segregaçâo ur.bana em um territôrio outro conceito especifico para a nomeaçâo dos autores mar-
pôs-industrial, é igualmente possivel enumerar as seme- ginais: subalterno. É importante ressaltar que a noçâo de
lhanças. A expressào "periferia" passa a ser elemento cata- subalterno" possui determinadas especificidades ligadas à
lisador de uma proposta de identidade cultural baseada na sua prôpria cunhagem por Antonio Gramsci. Nos Cademos
diferença coletiva, que busca reunir sob uma mesma égide do cârcere, o termo é utilizado como um sinônimo possivel
sujeitos oriundos de diferentes territôrios marginais. O em- para evitar o uso da expressào "proletârio" ou "proletariado"
prego do conceito "periferia" é prédominante nas anâlises e assim burlar a censura italiana. Ao ser apropriado pelos
das particularidades do desenvolvimento urbano de uma pesquisadores dos Estudos Subalternos, em torno de uma
métropole em um pais industrial subdesenvolvido e reve- revista epônima {Subaltern Studies), publicada entre 1982-

Orgonizodofes ALEXANDRE FARIA. J O Â O CAMILLO PENNA e PAULO ROBERTO T O N A N I D O PATROCiNIO MODOS DA M A R G E M


1987, integrando as pesquisas produzidas principalmente l " Ios criticos pôs-coloniais, no processo de construçâo do

por pesquisadores indianos saidos da India e radicados em • hm urso literârio marginal, mas de forma livre, prestando

diversas universidades do mundo anglo-saxâo, o conceito é i spécial atençào aos desdobramentos especificos, brasilei-

ampliado e passa a ser utilizado como denominaçâo de todo r o , , da ancoragem produzida pelos Estudos Subalternos.

e qualquer sujeito de "nivel inferior". Nesse sentido, nâo se ( ^onfrontados, no entanto, à escolha entre os termos "pe-

trata mais de um sinônimo para delimitar uma classe so- i ilci ico" e "subalterno", optamos por um terceiro: marginal,

cial especifica, seu uso passa a ser uma referêneia para no- llnda que este também possa igualmente levar a riscos teô-

mear uma teoria gérai da subordinaçâo de sujeitos sociais. rlcos. Identificamos pelo menos dois (ou très): o primeiro

Os Estudos Subalternos basicamente colocaram em crise o • le les é o de se cair no que Janice Perlman chamou de mito

estatuto da prôpria disciplina (o comparatismo, os "estudos d,i marginalidade. A sociôloga norte-americana ressalta que

de ârea", os estudos literârios) ao confrontâ-la ao seu objeto, . ta lavelados e suburbanos, como grupo, desempenham fun-

tornando impossivel qualquer historia dos subalternos. çôes que nâo sô sâo aceitas, mas sâo requeridas pelo restante
da sociedade. Desta forma, ao se autointitularem "margi-
O termo "subalterno" se tornou popular no âmbito da
nais", os prôprios autores da periferia, apenas confirmariam
critica brasileira e mundial devido à ampla circulaçâo do
i extensâo do mito, e, com ele, os mecanismos de contrôle
ensaio de Gayatri C . Spivak, Pode o subalterno falar? Nâo
I0( ial. Ao contrario do que aparenta ser, o resultado consis-
iremos aqui oferecer uma resposta à pergunta formulada
iina numa iniciativa literâria pouco libertâria ou autêntica,
por Spivak. O u quem sabe, jâ de cara, uma primeira res-
posta mesmo que precâria possa ser fornecida pelo simples I ondizente com o status quo do ponto de vista social, e presa

fato de estarmos diante de um livro que reûne uma série .m >s limites do realismo documentai e biogrâfico, do ponto de

de artigos que discutem a fala dos "subalternos". O que nos vista estético. Nâo obstante esse risco, vale observar, a partir

permitiria responder com simplicidade excessiva ao texto dos contextos evidenciados na sequêneia de seçôes do livro,

da critica indiana afirmando que os "subalternos" podem, um significativo processo de empoderamento da parte dos

sim, falar. No entanto, a questâo de fundo passa a ser defini- lujeitos em pauta, que encontra a sua sintese na passagem

cional e nâo estariamos mais nos ocupando da interrogaçào de Ferrez que citamos no inicio desta introduçâo. O sujeito

sobre se o subalterno pode falar, e sim sobre se o autor mar- marginal deixa de ser um objeto representado - sociologica-

ginal é o subalterno tal quai definido por Spivak. E m outras Diente pelo intelectual letrado da primeira metade do século

palavras, a questâo se torna a aplicabilidade de um conceito X X e performaticamente a partir dos anos 1960 - e passa a se

produzido fora do Brasil aos nossos narradores. Trocando autorepresentar e nomear seu movimento como "Literatura

em miûdos: interessa-nos pensar os mecanismos teôricos Marginal". Nesse sentido, produze uma inesperada tensâo,

que ligam autores como Carolina Maria de Jésus, Ferrez, interna ao prôprio mito, ou ao lugar problemâtico em que a

Paulo Lins e Allan Santos da Rosa às questôes elaboradas II adiçâo da leitura dos "problemas brasileiros" o colocou. E m

MODOS DA M A R G E M
O r 9 a n i z a d o . e s AlEXANDRE FARIA, J O Â O C A M I I I O PENNA e PAUIO ROBERTO T O N A N I D O PATROCINIO
outras palavras, o sujeito faz literatura, sem que isso neces- i il >st ituida, ou para dizer o minimo, diretamente desafiada
sariamente o faça ascender socialmente, ou seja, sem que ele pria 'dialética da marginalidade', a quai esta parcialmente
mude o lugar desde onde produz seu discurso. Ao exemplo fundada no principio da superaçâo das desigualdades so-
clâssico de mudança de classe pela inclusào subalterna, de . eus através do confronto direto em vez de conciliaçâo."
Paulo Lins, se acrescentam agora inûmeros outros, que nâo \ lupôtese parte de uma constataçâo: o surgimento da vio-
adotam essa estratégia. Eles permanecem na periferia, desen- I. ru ia nas novas produçôes culturais brasileiras, que con-
volvendo projetos culturais e/ou culturais, como a Cooperifa, lam com a tradiçâo do deslizamento, atenuamento e
de Sergio Vaz, ou a IdaSul, de Ferrez, ou entâo permanecem • NI .unoteamento da violêneia na tradiçâo da malandragem.
ligados à fala localizada de onde provêm. Nesse sentido, as- I ' (ermos da "dialética", oposiçâo, antinomia, contradiçâo,
sumir o lugar e a voz do marginal, com força suficiente para ifto bastante simples: malandragem versus marginalidade,
dar-lhes centralidade na dinâmica social, é subverter o mito. Conciliaçâo versus confronto, ocultamento versus exposi-
U m segundo risco consiste na acepçâo, a nosso ver, ,.iu, e suscitam ressalvas imediatas.
equivocada, que o termo obteve no Brasil a partir do ensaio, O ensaio tem méritos inegâveis. Modos da margem parte
"A guerra de relatos no Brasil contemporâneo. O u a Dialé- Je uma evidência anâloga: a nova linhagem de imagens na
tica da marginalidade", de Joâo César de Castro Rocha, pu- i ullura contemporânea brasileira, mas que nâo é tâo nova
blicado primeiramente em inglês, e em seguida traduzido i .un, é frequentemente violenta. Muitos dos pontos sensi-
em português. E m uma primeira leitura, o ensaio mapeia w is do momento cultural brasileiro, os mesmos onde esta
os termos da questâo, fazendo um levantamento do corpus i nietânea de ensaios toma como ponto de partida, foram
marginal atual, dando nome aos bois e situando a novidade II ii ados no texto: a natureza coletiva das novas produçôes
da questâo no contexto brasileiro. A tese de Joâo César su- u i gidas dos novos territôrios da pobreza urbana brasileira;
cintamente consiste em propor que a estratégia acomoda- as implicaçôes éticas de falar em nome, ou no lugar, dos
ticia, conciliatôria, "cordial" - para usar a noçâo de Sérgio que sofrem, por oposiçâo a uma enunciaçâo de experiên-
Buarque de Holanda num sentido afim ao utilizado pelo so- i las pelos prôprios sujeitos destas mesmas experiências, as-
ciôlogo - da malandragem, estabelecida pelo marco critico uinindo o contrôle destas imagens e redistribuindo-lhe os
do texto de Antonio Candido, Dialética da malandragem, beneficios; a novidade epistemolôgica, "adverbial", contida
conforme aprendemos a reconhecer certa configuraçâo da >lo ponto de vista "de dentro" e nâo mais de fora; as estraté-
cultura brasileira, foi hoje substituida - embora o autor hé- aias de sobrevivência envolvidas nestes projetos, uma outra
site sobre esta operaçâo - por uma estratégia de confronto, .uticulaçâo entre sujeitos e as instâneias nacionais e inter-
de choque, numa verdadeira guerra simbôlica, expressa por nacionais de mediaçâo.
uma nova dialética, a dialética da marginalidade. O cerne da dialética da marginalidade surge na anâlise
"A 'dialética da marginalidade' esta sendo parcialmente da oposiçâo entre uma exposiçào exotizante e infantilizante

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da violêneia, visando ao consumo voyeuristico, fetichizan- m prâtica predatôria se desvelara, ou ainda para a Brasilia
te, de imagens, e a estratégia da denûncia, que lança "no .i n.il o s malandros adaptados de antigamente deixaram as
rosto da sociedade sua indiferença", que assume o contrôle I MCinas bem humoradas da literatura para habitarem as es-
da prôpria imagem, e da expressào em voz prôpria. A dialé- i ii i i icas criminais, e as manchetes de politica. Demonstra-
tica da marginalidade se manifesta com clareza, por exem- • issim a permanência, ou sua transformaçâo "dialética",
plo, na passagem entre Cidade de Deus, o romance de Paulo • l.i lintese malandra.
Lins, e sua epônima adaptaçâo cinematogrâfica, e subpro- N o entanto, salta aos olhos o achatamento da Dialética
dutos como Cidade dos homens. malandragem, na operaçâo realizada no artigo: a dialé-
Critico arguto, para Joâo César, a oposiçâo entre as duas 11. .1 ila ordem e da desordem, do polo positivo e do negati-
dialéticas, da malandragem e da marginalidade, consiste ela \ o da sociedade do "tempo do rei", entrevista por Antonio
prôpria em uma dialética, isto é, na "substituiçâo" ou "supe- i .indido, a sutil descoberta do esquema ritmico de certa
raçâo" parcial, desafio ou batalha, entre dialéticas, gerando I K icdade brasileira, é transformada tâo somente em ten-
uma "guerra de relatos", segundo a expressào de De Certeau. de ne ia e desejo do malandro de ser "absorvido pelo polo
Joâo César em nota paga um tributo a Sérgio Paulo Rouanet: • nnvencionalmente positivo", ou seja, em gestâo na prâti-
a dialética de que se trata aqui nâo tem sintese. O que da- I I da sua linha de ascensâo social. Mas as coisas sâo mais
ria conta de uma coexistência das duas dialéticas em disputa i uniplicadas do que isso: a reduçâo da mecânica da malan-
simbôlica sem resoluçâo. Mas aqui começam as diferenças diagem a este traço é tanto mais complexa que a mesma
entre a sua abordagem e a nossa: a perspectiva do critico iciidência/desejo aparece em alguns dos prôprios exemplos
se situa num lugar distanciado, em que a guerra é elegante- paradigmâticos do que Joâo César chama de dialética da
mente descrita como uma guerra "simbôlica", de "relatos", ao marginalidade, diagnôstico em parte proposto pela sociôlo-
passo que esta coletânea desloca invariavelmente o campo de i',.i Janice Perelman, como vimos, a partir da noçâo de mito
suas anâlises para uma zona aderente ao real, de uma guerra, da marginalidade.
portanto, existencial e social, real, e nâo apenas simbôlica, tal
E m resumo, nâo vemos uma oposiçâo entre malan-
quai vista de dentro do gabinete do pesquisador.
dragem e marginalidade, vemos linhas de continuidade e
Assim, a figura do malandro ter-se-ia deslocado do cen- I ransformaçâo entre estas duas tradiçôes, que confluent e se
tro do Rio de Janeiro oitocentista, cenârio analisado por diferenciam. Afinal a vida do malandro nâo é o mar de ro-
Candido, a partir do romance de Manoel Antonio de A l - sas que aparenta ser, como o demonstra um estudo detido
meida, ou das paginas divertidas de Jorge Amado ou Dias da figura histôrica em seu tempo, justamente no momento
Gomes, estes ûltimos lidos através das respectivas adap- cm que ele se transforma em modo de organizaçào social,
taçôes cinematogrâficas, de grande sucesso internacional, no inicio do século X X , como o realizado por Giovanna
para as paginas de Cidade de Deus, romance e filme, onde a l'caltry, contido neste volume.

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M O D O S DA M A R G E M
A nosso ver, o ensaio de Joâo César constitui um esforço Btctiva no estabelecimento das grandes linhas de leitura
notâvel de traduçâo/adaptaçâo dos termos da critica cultu- • l.i ilcsigualdade do ponto de vista socioeconômico. Neste
ral brasileira em termos dos Estudos Culturais anglo-saxôes Hntido, a diferença entre a nossa abordagem e a que pauta,
ou especialmente norte-americanos, localizando em colo- •01 exemplo, uma notâvel obra coletiva como Os pobres na
caçôes seletivas de Antonio Candido e Roberto Da Matta lu, ratura brasileira 21
é facilmente perceptivel.
os pontos de contato entre problemâticas criticas bastante ( ) organizador daquela coletânea, Roberto Schwarz, ali-
distintas, mas visando primeiramente a uma traduçào para nIi.i o trabalho da critica literâria aos esforços das anâlises
fora do que se pensa e faz dentro do Brasil. Evidência disso it economistas de esquerda, em oposiçâo ao projeto do M i -
é o fato de que o ponto de partida do texto sejam adapta- ni si crio da Fazenda do régime militar em seus ûltimos es-
çôes cinematogrâficas de sucesso internacional, as prôprias Urtores (era o governo de Joâo Batista Figueiredo), como
referências literârias sendo lugares comuns da recepçâo i ontribuiçâo da literatura ao debate das ciências sociais, a
norte-americana da literatura brasileira fora do Brasil, re- I u i t ir da aposta em que "as crises da literatura e da sociedade
sultando dai uma espécie de Brasil para inglês ver. O ma- 22
«le classes sâo irmâs". O momento (os anos 1980), era preci-
landro é o malandro de exportaçâo de Dona Flor e seus dois samente o mesmo que veria no contexto internacional o sur-
maridos, de Capitâes de areia e do O pagador de promessas, gi mento das politicas neoliberais, que ainda pautam nossas
lidos através de anâlises de estrutura de enredo de filmes. vidas, e, no seio do quai, vai se configurer o lugar das novas
O que nâo retira de maneira nenhuma o mérito da propos- produçôes da periferia brasileira. Ora, o malandro, o margi-
ta. Por ela se pode aquilatar o legado importante da leitura nal, sâo figuras certamente marcadas pela pobreza, sem que
das ciências sociais e culturais praticada por brazilianistas este seja o traço déterminante em sua composiçâo. O margi-
(com "z"), que produziram e produzem uma importante re- nal nâo é estritamente falando um "pobre", jâ que a pobreza
novaçâo do campo dos Estudos Brasileiras. enquanto categoria social, e designaçâo eufemistica (com
Cabe ainda uma terceira pontuaçâo. E m um sentido matiz cristâo) das classes populares e/ou subalternas, indicia
bastante diverso, Dialética da malandragem, de Antonio Inevitavelmente uma carêneia ou diminuiçâo quantitativa, a
Candido, é de extrema importância para o desenvolvimen- partir do paradigma econômico (o "pobre" é por definiçâo
to da problemâtica que nos toca. Prova disso, a insistência menos que o rico). Enquanto que o marginal apresenta-se
com que as referências ao estudo aparecem nos ensaios como cifra radicalmente ambigua, mas irredutivel ao para-
contidos neste volume. Essencialmente, valorizamos nele o digma quantitative Dai a relevância da categoria arqui-am-
surgimento na critica de uma discussâo de fundo antropo- bigua e problemâtica, mas eficaz, de tipo e/ou figura.
lôgico, que procura dar conta de uma figura sociolôgica, em O ensaio de Candido destaca de modo inaugural dentro
termos que nâo sâo os da pobreza, e os da critica marxista, da critica literâria, na figura desentranhada de O Sargen-
embora reconheçamos a importância essencial desta pers- to de milicias de Manuel Antonio de Almeida, o desenho

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de caracteristicas prôprias que nào podem ser subsumidas mundializaçâo dos comportamentos e prâticas. Otimismos
aos traços de classe. Fato que nâo terâ escapado ao arguto à parte, vemos na construçâo da figura ou tipo antropolô-
escrutfnio da critica marxista, por intermédio do mesmo gico uma diferença nào-quantificâvel, constituida frequen-
Roberto Schwarz. Trata-se <di> é certo, da "situaçâo dos ho- temente a partir de uma inversâo estratégica do estigma e
mens livres e pobres no int^rior da ordem escravista", mas, da valoraçâo negativa ou preconceituosa da desigualdade.
explica Schwarz, Candido se utiliza de uma série de ou- Finalmente, Modos da margem aborda uma série de ma-
tros elementos: a precariedade da ordem matrimonial, as nifestaçôes das margens nada plâcidas da cultura brasileira,
mancebias, uniôes fortuita;;» a ambivalência entre o licito mas nâo deixa de ter algumas lacunas. Nâo nos ativemos às
e o ilicito na formaçào das "familias, fortunas, prestigios, formas bastante conhecidas de marginalizaçâo social, como
reputaçôes" para caracterizar o arcabouço dos costumes do a sexual, a racial e a de gênero, embora os autores e textos
23
romance. É verdade, continua Schwarz, que a questâo de abordados atravessem frequentemente todos estes opera-
classes é dominante, mas todos estes outros aspectos, que dores. Justifica-se esta ausência de formas reconhecidas de
poderiamos chamar de antropolôgicos (os côdigos de ma- exclusâo pelo procedimento reconhecîvel de autodenomi-
trimônio e do direito fazem parte dos objetos de base da naçâo: o marginal a que nos referimos aqui é aquele que em
antropologia), organizados a partir de um critério de "afi- gérai se nomeia ou pensa como tal. O u seja, no repertôrio
nidade", nâo chegam a compor uma totalidade ao nivel da aqui inventariado de marginalidades, o nome ocupa funçâo
forma, jâ que Candido adota aqui uma "construçâo mais constitutiva, vale dizer que é o prôprio nome da margem
solta". Estes fios soltos nâo foram devidamente submetidos que é aqui politizado e constitutivo do Brasil, que se deixa
à dialética, o que liga parte do ensaio a uma tradiçâo cultu- entrever nestas paginas.
24
ralista, ao situar um ethos oit "modo de ser brasileiro", ge- Imaginamos que um possivel e prôximo passo consis-
neralizando um modo de classe, é verdade que popular, e tent^ nessa transformaçâo experimentada na sociedade
fazendo-o abarcar o pais como um todo, no que configura brasileira, especialmente na maneira como ela eclode nos
literalmente uma ideologia. Estudos Literârios, seja dado pelos jovens autores que se
Ponto da provocaçâo lançada pelo ensaio de Candido: a autointitulam marginais também que passam a assumir o
liberalidade do modo de sef das classes populares do cen- seu lugar de origem para abordar o que leem, constituindo
tro do Rio de Janeiro oitoceiitista pode ser comparada com uma perspectiva critica sobre a Literatura Brasileira. É para
vantagem à ética protestante do trabalho, o moralismo e o a formaçào desse novo critico e para essa nova critica, que
estrito respeito à lei punitiva, tal quai representada pelo ro- hoje ocupa grande parte das carteiras nas Faculdades de
mance de Hawthorne, A letra escarlate, singularidade cul- Letras do Brasil, que Modos da Margem também préten-
tural brasileira que, no entanto, segundo Schwarz, estaria de contribuir. A reuniâo, entre os autores que assinam os
se perdendo, se é que alguma vez terâ existido, com a atual textos aqui apresentados, de pesquisadores, professores e

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U L O ROBERTO T O N A N I D O PATROCiNIO M O D O S DA MARGEM
criticos literârios de diferentes geraçôes, incluindo algumas de testemunho oriundo dos Gulags é o de Varlam Shamalov
vezes discipulos e mestres, talvez seja a principal evidência (Shamalov, Varlam. Kolyma Taies. Trad. John Glad. Londres/
dessa intençâo, dessa resistência de longo prazo, pela cons- Nova York: Penguin Books, 1994). Sobre o testemunho no
tituiçâo de um trabalho que se funda e se fundamenta nas e holocausto, cf. Wieviorka, Annette. L'ère du témoin. Paris:
pelas transformaçôes da sociedade brasileira. Pion, Hachette Littératures, 1998. O primeiro testemunho
cubano, que narra a vida de um ex-escravo, Steban Montejo,
Notas é: Cimarron (Barnet, Miguel. Cimarron. Buenos Aires: Edi-
1 Falaremos mais sobre o testemunho adiante. ciones Del Sol, 1987 [primeira ediçâo, 1966]). O testemunho
2 Ferrez. "Terrorismo literârio". In: Ferrez (org.) Literatura mar- hispano-americano mais célèbre é o de Rigoberta Menchû,
ginal. Talentos da escrita periférica. Rio de Janeiro: Agir, 2005. que Ihe valeu o Nobel da paz, em 1992 (Burgos, Elisabeth.
3 Bazin, André. O cinéma. Ensaios. Trad. Eloisa Ribeiro. Sâo Meu nome é Rigoberta Menchû e assim me nasceu a consciên-
Paulo: Ed. Brasiliense, 1991, p. 20. cia. Trad. Lôlio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e
4 Mencionamos aqui apenas algumas referências mais impor- Terra, 1993). O testemunho foi objeto de uma anâlise polê-
tantes. Foucault, Michel. Segurança, territôrio, populaçâo. Sâo mica que expandiu muito o seu alcance por Giorgio Agam-
Paulo: Martins Fontes, 2008; no Brasil, os estudos pioneiros ben (Agamben, Giorgio. O que resta de Auschwitz. Arquivo
de Milton Santos, por exemplo: Santos, Milton. Por outra e testemunha. Homo sacer III. Trad. Selvino J. Assmann. Sâo
giobalizaçâo - do pensamento ûnico à consciência universal. Paulo: Boitempo, 2008). No contexto das ditaduras militares
Rio de Janeiro: Record, 2003. E mais recentemente, o crucial: do cone sul, e nâo sô, cabe citar, no caso brasileiro, os teste-
Haesbaert, Rogério. O mito da desterritorializaçào; do 'fim munhos da tortura de Luiz Roberto Salinas Fortes e Rena-
dos territôrios' à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Ber- to Tapajôs (Salinas Fortes. Retrato calado. Sâo Paulo: Marco
trand do Brasil, 2011, 6" ediçâo. Zéro, 1988; Tapajôs, Renato. Em câmara lenta: Romance. Sâo
5 Para uma genealogia do testemunho como prâtica judiciâria, Paulo: Alfa-ômega, 1977). O conceito de testemunho vem
cf. Foucault, Michel. "Conferêneia II". In: A verdade e as for- sendo estudado no Brasil por Mârcio Seligmann-Silva (Selig-
mas juridicas. Trad. Roberto Machado e Eduardo Jardim. Rio mann-Silva. O local da diferença. Ensaios sobre memôria, arte,
de Janeiro: Nau Editora, 1999. Dentre os inûmeros testemu- literatura e traduçào. Sâo Paulo: editora 34, 2005) e por Jaime
nhos concentracionârios, vale ressaltar, dentre muitos outros, Ginzburg (Ginzburg, Jaime. Critica em tempos de violêneia.
os de Primo Levi (Levi, Primo. É isto um homem? Trad. Luigi Sâo Paulo: Edusp/FAPESP, 2012), dentre outros.
Del Re. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, 2a ediçâo; Os afogados e 6 Borges, Jorge Luis. "Kafka y sus precursores". In: Prosa com-
os sobreviventes. Trad. Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: pléta, vol. 3. Barcelona/Buenos Aires: Editorial Bruguera/
Paz e Terra, 1990) e o de Robert Antelme (Antelme, Robert. Emecé Editores, 1985, p. 117.
Lespèce humaine. Paris: Gallimard, 1957). O grande exemplo 7 Por exemplo, o estudo séminal de Oscar Lewis. Antropologia

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de la pobreza. Cinco familias. Trad. Emma Sânchez Ramirez. tes on Brazilian Contemporary Culture", como Working Pa-
Mexico: Fondo de Cultura Econômica, 1961. per do Centre for Brazilian Studies da Universidade de Oxford
8 Gramsci, Antonio. Sélections from the Prison Notebooks. Edi- (CBS 62-05). É esta versâo que sera traduzida em português
tado e traduzido por Quintin Hoare e Geoffrey Nowell Smith. e publicada no numéro 32 da Revista Letras, do Programa de
Nova York: International Publishers, 1971, impressâo de 1997. Pôs-Graduaçâo em Letras da Universidade Fédéral de Santa

9 Maniglier, Patrice. "Le tournant géologique de l'anthopologie". Maria, dedicado à "Ética e cordialidade", em maio de 2007.

Palestra proferida no Colôquio Os mil nomes de Gaia. Rio de 13 Rocha, Joâo César de Castro, "A guerra de relatos...", op.cit., p. 36.
Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 15 de setembro de 2014. Ver I I Ibidem, p. 46.
também: Spivak, Gayatri Chakravorty. Death of a Discipline. 15 Ibidem, p. 50.
Nova York: Columbia University Press, 2003. 16 Candido, Antonio, Dialética da malandragem, p. 29.
10 Spivak, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? (edi- 17 Schwarz, Roberto (org.). Os pobres na literatura brasileira.
çâo brasileira, trad. Sandra Regina Goulart Almeida e outros. Sâo Paulo: Editora Brasiliense, 1983.
Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010). Cf. Guha, Ranajit; Spivak, 18 Ibidem, p. 8.
Gayatri Chakravorty (orgs.) Selected Subaltern Studies. Nova 19 Schwarz, Roberto. "Pressupostos, salvo engano, de 'Dialética
York: Oxford University Press, 1988); Beverley, John; Ovie- da malandragem'", publicado originalmente em Arinos, Afon-
do, José e outros" Latin American Subaltern Studies Group/ so et alii. Esboço de figura. Homenagem a Antonio Candido.
Founding Statement". In: Beverley e Oviedo (orgs.) The Post- Sâo Paulo: Livraria Duas Cidades, 1979, p. 147. (O ensaio sera
modernism Debate in Latin America. A Spécial Issue of Boun- retomado em Schwarz, Roberto. Que horas sâo? Sâo Paulo:
dary 2, volume 20, numéro 3, outono 1993. Duke University Companhia das Letras, 1987.)
Press. Intéressante observar que, salvo uma intervençâo de 20 Ibidem.
Silviano Santiago neste volume, o Brasil permanece sintoma- 21 Schwarz, Roberto (org.). Os pobres na literatura brasileira. Sâo
ticamente fora desta configuraçâo latino-americana, embora Paulo: Editora Brasiliense, 1983.
o debate se reclame da inserçâo continental. 22 Ibidem, p. 8.
11 Perlman, Janice E.. O mito da marginalidade. Favelas e Politi- 23 Schwarz, Roberto. "Pressupostos, salvo engano, de 'Dialética
ca no Rio de Janeiro. Trad. Waldivia Marchiori Portinho. Sâo da malandragem'", publicado originalmente em Arinos, Afon-
Paulo: Paz e Terra, 2002, 3a ediçâo. so et alii. Esboço de figura. Homenagem a Antonio Candido.
12 Uma primeira versâo do ensaio apareceu no Caderno Mais! Sâo Paulo: Livraria Duas Cidades, 1979, p. 147. (O ensaio sera
da Folha de S. Paulo (24/02/2004), com o titulo de "Dialética retomado em Schwarz, Roberto. Que horas sâo? Sâo Paulo:
da marginalidade (Caracterizaçâo da cultura brasileira con- Companhia das Letras, 1987.)
temporânea)", uma segunda versâo foi publicada em inglês, 24 Ibidem.
sob o titulo de "The 'Dialectic of Marginality': preliminary no-

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