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JUCA

brasileiros no multilateralismo
N
7 A experiência brasileira à frente
de organizações internacionais

2014 os 50 anos dos 3ds


Permanência e evolução de uma ideia

tríade modernista no itamaraty


Niemeyer, Burle Marx e Athos Bulcão
DIPLOMACIA E HUMANIDADES
política da indiscrição
A vergonha pelo vazamento de informações

Diplomacia e Transição Democrática

50 ANOS DEPOIS
DO GOLPE
Carta dos editores
Os 50 anos do Golpe militar. As manifestações de junho de 2013. A crescente abertu-
ra do Itamaraty ao diálogo com a sociedade civil. A exposição de limites da diploma-
cia tradicional. A consolidação da liderança brasileira em importantes organizações
multilaterais. Certamente, o período do curso de formação da Turma 2012-2014 do
Instituto Rio Branco coincidiu com episódios marcantes para a diplomacia, a política
e a sociedade brasileiras.
A produção de mais um exemplar da JUCA não poderia passar ao largo desse tem-
po de mudanças. O fato de sermos numericamente menos que os colegas das “Turmas
de 100” não anulou o entusiasmo de propor inovações. Primeiramente, renovamos o
projeto gráfico da Revista, de forma a reforçar a afinidade entre textos e identidade
visual. Além disso, fomentamos parcerias com jovens acadêmicos, coautores de dois
importantes artigos desta edição. “Last but not least”, a JUCA tem, pela primeira vez,
seu conteúdo traduzido para o inglês. Com a edição bilíngue e a recém-lançada pági-
na no Facebook (facebook.com/revistajuca), esperamos conquistar novas audiências,
nos lugares mais distantes.
Ao mesmo tempo em que instituímos mudanças, cuidamos da essência da JUCA. O
conteúdo desta edição reitera o compromisso dos jovens diplomatas em tomar parte
nas discussões relacionadas à profissão com a qual ainda se estão acostumando, além
de revelar seus talentos e opiniões sobre arte, política, literatura e filosofia. Na JUCA
7, apresentamos minúcias do trabalho do Itamaraty e da política externa brasileira.
Manuseamos objetos tão diversos como livros, notícias, obras de arte, expedientes e
moedas, para explicitar relações entre política externa e justiça de transição; arte e dita-
tura; diplomacia e numismática. Lançamos olhar sobre nossa Casa e a diversidade cul-
tural da região e de alhures. Damos voz o Ministro de Estado das Relações Exteriores,
Embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, e a brasileiros à frente de organiza-
ções multilaterais, mas também a oficiais de governo, ONGs, empresas e acadêmicos.
A JUCA 7 propõe-se a debater a democracia e a ser, ela mesma, um espaço democrá-
tico. Com isso, afirmamos o papel da Revista como lócus para que diplomatas, pesqui-
sadores e cidadãos, juntos, contribuam para o desenvolvimento da política externa, da
arte, da cultura e das ciências humanas em nosso país. 
Não poderíamos concluir sem agradecer ao Diretor-Geral do Instituto Rio Branco,
Embaixador Gonçalo Mourão, bem como a toda sua equipe, a gentil acolhida de nossas
ideias e o estímulo a nossas ambições. Um agradecimento especial às Professoras Sara
Walker e Susan Casement pela paciência de revisar os textos em inglês e pela confiança
no potencial de nossas ideias. Gostaríamos, por fim, de desejar sorte aos novos Jucanos.
Que nós, Terceiros-Secretários egressos do Instituto Rio Branco, sigamos aproveitan-
do as oportunidades oferecidas pela carreira de expor opiniões e talentos e de buscar
o debate construtivo – como tentamos fazer na JUCA 7 –, algo que, embora pareça lu-
gar-comum, deverá ter sido sonho distante para a Turma de 1964.  

Boa leitura!
Expediente Agradecimentos

JUCA Embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, Professor Paulo


Sérgio Pinheiro, Professor Marco Aurélio Garcia, Embaixador
Edição 07 / 2014
Osmar Vladimir Chohfi, Embaixador Luiz Augusto Saint-Brisson
Instituto Rio Branco
de Araujo Castro, Embaixador Marcus Camacho de Vincenzi,
Impressa em Brasília
Embaixador José Maurício de Figueiredo Bustani, Embaixador
Brasil
Gonçalo de Barros Carvalho e Mello Mourão, Embaixador Paulo
Cordeiro de Andrade Pinto, Embaixador Roberto Carvalho de Azevêdo,
Embaixador Benedicto Fonseca Filho, Embaixador Tovar da Silva
Nunes, Embaixador Pedro Henrique Lopes Borio, Embaixador
Diretor Honorário
Nelson Antonio Tabajara de Oliveira, Embaixador Sérgio Tutikian,
Embaixador Gonçalo de Barros Carvalho
Embaixador Carlos Moreira Garcia, Embaixador Guy Marie de Castro
e Mello Mourão
Brandão, Embaixador Oscar Soto Lorenzo Fernandes
Editor-chefe
Senhor José Graziano da Silva, Senhor Paulo de Tarso Vannuchi,
Luiz de Andrade Filho
Senhora Sylvia Helena de Figueiredo Steiner, Senhor Lucas Tavares
Editor-assistente
Ministro Carlos Alberto Michaelsen den Hartog, Ministro Achilles
Pedro Ivo Ferraz da Silva
Emilio Zaluar Neto, Ministro João Pedro Corrêa Costa, Ministro
Editora de Dossiê Sérgio Barreiros de Santana Azevedo, Ministro Luís Felipe Silvério
Mariana Yokoya Simoni Fortuna, Ministra Elizabeth-Sophie Mazzella di Bosco Balsa,
Ministro Antonio de Moraes Mesplé, Ministro Audo Araujo Faleiro
Editores de Entrevistas
Andrezza Barbosa, Bruno Quadros e Conselheira Janine-Monique Bustani, Conselheiro Pedro
Quadros, Laura Delamonica e Lucianara Frederico de Figueiredo Garcia, Conselheiro Geraldo Cordeiro
Andrade Fonseca Tupynambá, Conselheiro Marco Antonio Nakata, Conselheiro
Pedro de Castro da Cunha e Menezes, Conselheira Maria Rita
Editora de Cultura e Arte
Silva Fontes Faria, Conselheiro Carlos Eduardo da Cunha Oliveira,
Carlota de Azevedo Bezerra Vitor Ramos
Conselheiro Felipe Gastão Bandeira de Mello, Conselheiro André
Editora de Memória Diplomática Saboia Martins, Conselheiro Alfredo Rainho da Silva Neves
Lucianara Andrade Fonseca
Secretário Márcio Oliveira Dornelles, Secretário Olympio Faissol Pinto
Editor de Ensaios e Resenhas Junior, Secretário Marcos Henrique Sperandio, Secretária Sílvia Sette
Rui Camargo Whitaker Ferreira, Secretário Jorge Luiz Vieira Tavares, Secretário
Nicola Speranza, Secretário André Tenório Mourão, Secretário Denis
Editor de Artigos
Ishikawa dos Santos, Secretário Filipe Correa Nasser Silva, Secretária
Thiago Oliveira
Valeria Mendes Costa Paranhos, Secretário Felipe Krause Dornelles,
Diretor-executivo Secretária Amena Martins Yassine, Secretário Ricardo Kato de
Gustavo Fortuna Campos Mendes, Secretária Nádia El Kadre, Secretária Juliana de
Moura Gomes, Secretário Diogo Ramos Coelho, Secretária Joana
Diretora de Arte
D´Angelo Martins de Melo, Secretário Danilo Vilela Bandeira
Renata Negrelly Nogueira
Senhor Paulo Abrão, Senhora Tatiana Lacerda Prazeres, Senhor Luís
Diretor de Comunicação
Augusto Vicente Galante , Senhor Túlio de Almeida Costa, Senhor
Pedro Tiê Candido Souza
Rodrigo Gurgel de Magalhães, Senhora Carla Borges, Senhora
Projeto gráfico Carolina Negri, Senhora Luciana Nemes, Professora Sara Walker,
Clara Meliande e Rafael Alves Professora Susan Casement, Comissão de Anistia do Ministério da
Justiça, Associação de Diplomatas Brasileiros, Instituto Vladimir Herzog
Sumário

dossiê
diplomacia e transição Entrevista com Paulo Sérgio Pinheiro – 12 O caso argentino: verdade, justiça
democrática 50 anos Mariana Yokoya Simoni e memória – 22
depois do golpe Lucila Caviglia
O Brasil e o intercâmbio de arquivos
Justiça de Transição no Brasil: sobre as ditaduras militares do Cone Diplomacia pública no Brasil – 26
Memória e Verdade na Atuação Sul: o caso da Operação Condor – 16 César Yip, Luiz de Andrade Filho
do Itamaraty – 05 Bruno Quadros e Quadros e Pedro Tiê Candido Sousa
Mariana Yokoya Simoni e Sabrina Steinke

entrevistas memória diplomática cultura e arte


Ministro de Estado das Relações
Uma fórmula, várias ideias: os 50 anos A influência da “Tríade Modernista”
Exteriores, Embaixador Luiz Alberto
dos 3Ds de Araújo Castro – 58 no Itamaraty – 80
Figueiredo Machado – 32
Leandro Pignatari e Matheus Hardt Carlota de Azevedo Bezerra Vitor Ramos
Andrezza Barbosa, Bruno Quadros e
e Pedro Tiê Candido Souza
Quadros, Laura Delamonica e Lucianara
O Instituto Rio Branco: retratos de
Andrade Fonseca
diplomatas ao longo de 60 anos – 62 Exposição Resistir é Preciso – 84
Bruno Quadros e Quadros e Felipe Rui Camargo
Brasileiros no multilateralismo – 36
Pinchemel
Embaixador José Maurício Bustani (OPAQ)
Caleidoscópio: a América Latina
Professor José Graziano da Silva (FAO)
sob nossas lentes – 87
Embaixador Roberto Azevêdo (OMC) artigos Carlota de Azevedo Bezerra Vitor Ramos
Juíza Sylvia Steiner (TPI)
Equécrates ou sobre a representação
Paulo Vannucchi (CIDH)
estrangeira – 100 Exposição Universal (conto) – 92
Pedro Ivo Ferraz da Silva José Carlos Silvestre

ensaios e resenhas Diplomatas quebram paradigmas O viajante tremeluz (conto) – 94


Livro O fim do Poder – 67 e recordes – 104 Rafael Santos Gorla
Luiz de Andrade Filho Geórgenes Marçal, Leandro Pignatari
e Thiago Oliveira Perdas desrimadas e desmetrificadas
Para além do “orientalismo”: tirando as (poema) – 99
lentes ocidentais para ver a Rússia – 68 A língua portuguesa no “Século do Sul” – 108 Bruno Quadros e Quadros
Bruno Quadros e Quadros Bruno Quadros e Quadros
Calvinice pós-moderna (poema) – 99
Política da indiscrição – 71 O Itamaraty e o papel de outros Bruno Quadros e Quadros
Rui Camargo atores governamentais nas relações
internacionais do Brasil – 112
Ensaio fotográfico Coreia do Norte – 74 Igor Carneiro e Thiago Oliveira
Thomaz Napoleão e Rui Camargo
O outro lado da moeda: a diplomacia
Livro Cidades Rebeldes – 79 e a numismática – 116
Rui Camargo Bruno Quadros e Quadros
dossiê

Diplomacia e transição democrática


�� anos depois
do Golpe
Lembrar datas, eventos, pessoas permite-nos lançar um olhar
aos acontecimentos sem a circunstância atenuante de sua fuga­
cidade. 2014 é marcado por eventos de excepcional sig­ni­
ficado para o Brasil: os 50 anos do Golpe de 1964 e o lançamen-
to do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. É, por-
tanto, oportuno refletirmos a respeito da trajetória seguida
pela democracia e pela diplomacia no Brasil nos últimos anos,
a fim de decifrar a realidade atual do País e de tomar parte na
sua construção histórica. Com esse intuito, o presente dossiê abor-
da diferentes aspectos do processo de democratização brasilei-
ra, com ênfase na perspectiva internacional: o papel da Comissão
Nacional da Verdade e do Itamaraty para alcançar a justiça de tran-
sição no País; a consagração do conceito brasileiro de diplomacia
pública; a cooperação internacional para intercâmbio de arqui-
vos sobre as ditaduras do Cone Sul; e o interessante contraponto
da transição democrática na Argentina. Notícia e história, políti-
ca e diplomacia são reviradas com minúcia e debatidos com aten-
ção nas próximas páginas.
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Justiça de Transição no Brasil

MEMÓRIA E
VERDADE NA
ATUAÇÃO DO
ITAMARATY
texto Mariana Yokoya Simoni

Os principais eixos das medidas de justiça de transição desen-


volvidas no Brasil têm sido o reconhecimento da responsabilidade
estatal pela perseguição política, a política de reparação econômica
e simbólica e, recentemente, a busca pela verdade e a valorização
da memória. A discussão e a implementação dessas políticas pú-
blicas têm sido capazes de transmitir conceitos novos, como o de-
ver de responsabilização e de prestação de contas às gerações pre-
sentes e futuras, a diversas instituições públicas do país. É notória
a influência positiva de muitos dos avanços na agenda de transição
brasileira no âmbito do Ministério de Relações Exteriores (mre),
tanto em termos de posicionamento de política externa como no
que concerne à cultura institucional do órgão.
dossiê ilustrações Clara Meliande e Rafael Alves

Nos últimos 50 anos, houve significa- coletiva. Nesse debate, a verdade diz res-
tiva transformação no que diz respeito ao peito ao direito de vítimas de graves viola-
tratamento dos abusos causados pelo uso ções de direitos humanos e de seus fami-
discricionário do poder. Se a anistia polí- liares conhecerem as reais circunstâncias
tica de 1979 tinha, inicialmente, caráter de dos abusos passados, incluindo as causas
conciliação pragmática e de consecução e a autoria dessas violações. A investiga-
da paz, essa concepção clássica do direi- ção e o conhecimento da verdade sobre
to foi modificada para incluir, com a pro- os acontecimentos do passado são funda-
mulgação da Lei 9.140, em 1995, fundado- mentais para coibir a impunidade, promo-
ra da Comissão Especial sobre Mortos e ver os direitos humanos e contribuir para
Desaparecidos Políticos (cemdp), o re- o fortalecimento da democracia.
conhecimento da responsabilidade do A preservação da memória passa a ser
Estado por graves violações de direitos hu- declaradamente entendida como ato po-
manos. Com a Lei de Reparação, em 2002, lítico e o direito à memória, prerrogativa
iniciou-se política de reparação das per- de indivíduos e de gerações conhecerem
das sofridas pelos perseguidos políticos, o passado que confere coerência e senti-
à qual se agregaram atividades voltadas do ao momento atual. A reconstituição da
à memória e à homenagem do anistiando, memória da ditadura militar, fundada na
executadas pela Comissão de Anistia do verdade, permite que se crie uma repre-
Ministério da Justiça (ca-mj). sentação histórica do passado autoritário,
Com a criação da Comissão Nacional com o registro oficial das ações arbitrá-
da Verdade (cnv), em 18 de novembro de rias do Estado, a fim de que essas atroci-
2011, pela Lei 12.528, o Estado brasileiro dades não sejam relegadas ao esquecimen-
estabeleceu como meta o esclarecimento to. Busca-se, igualmente, a valorização da
dos fatos passados e a investigação de ca- memória e dos testemunhos das vítimas,
sos de desaparecimento forçado e morte
entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outu-
bro de 1988. Com isso, demonstra seu en-
Mecanismos de Justiça
gajamento com a efetivação da justiça his-
de Transição
tórica e do direito à memória e à verdade.
Têm a função de remediar o legado de
As mudanças na forma de tratamento das
violações em massa de direitos huma-
violações de direitos humanos e no signi-
nos, por intermédio de ações concre-
ficado conferido ao trabalho da cemdp, da
tas que busquem, por exemplo, exigir
ca-mj e da cnv influenciam a construção
a efetividade do direito à memória e à
da memória política a respeito da ditadu-
verdade e a prestação de contas sobre a
ra militar de 1964-1985 e da atual demo-
violência cometida no passado. Os ob-
cracia brasileira, traçando limites de con-
jetivos precípuos da “justiça de transi-
tinuidade e de descontinuidade entre os
ção” referem-se ao reconhecimento das
dois sistemas políticos.
vítimas, ao fortalecimento da confiança
cívica e ao comprometimento do Estado
O direito à memória e à verdade
Democrático de Direito com a efetivida-
Buscar a verdade em um período de tran-
de dos direitos fundamentais.
sição passa pelo complexo campo de in-
terseção entre política, direito e memória
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o que conforma, posteriormente, docu- da memória e da verdade no âmbito uni- Pablo de Greiff. A instituição de uma re-
mentação complementar na tarefa de es- versal e regional, assim como desenvolvi- latoria especial promove monitoramento
crever a história do período. O direito à do contribuições importantes para o tra- constante dos países e desenvolvimento de
memória e à verdade é fundamental para balho da cnv e na implementação da Lei uma visão prospectiva sobre o tema.
que não se desvirtuem interpretações so- de Acesso à Informação. A temática do direito à memória e à
bre acontecimentos passados e para que verdade permeia a agenda do mercosul e
esses não voltem a se repetir. Na onu e no Mercosul: de seus membros, uma vez que a democra-
O desenvolvimento do conceito e do cooperação e visão prospectiva cia e o Estado de Direito são esteios fun-
alcance do direito à memória e à verdade O Brasil tem-se comprometido, progressi- damentais da integração na América do
tem sido gradual e consistente no Brasil. Um vamente, com normas internacionais e re- Sul. A Comissão Permanente sobre Direito
primeiro passo foi o lançamento do livro gionais de justiça de transição, tendo aderi- à Memória, Verdade e Justiça constitui
“Brasil: nunca mais”, em 1985, a respeito do um dos grupos de trabalho mais ativos da
modo de operação do aparato repressivo, Reunião de Altas Autoridades em Direitos
por iniciativa da Arquidiocese de São Paulo Humanos do mercosul (raadh), criada
e do Conselho Mundial de Igrejas. Somente em 2004. A referida Comissão busca de-
com a publicação do livro-relatório “Direito senvolver ferramentas de cooperação in-
à Memória e à Verdade”, em 2007, é que ternacional na área de justiça de transição.
um documento oficial do Estado brasileiro Como resultado, aprovou-se, em 2012, a
deu conhecimento e reconhecimento pú- construção de um Memorial da Memória e
blico dos crimes cometidos, atribuindo-os a da Verdade do mercosul, em Porto Alegre,
membros das forças de segurança do Estado. com o objetivo de reunir documentos e es-
A criação do projeto “Memórias Reveladas”, timular debates sobre as ditaduras dos pa-
em 2009, foi essencial para o acesso facili- íses latino-americanos.
tado aos arquivos sobre a repressão política, No âmbito da raadh, os países sul-
na medida em que interligou digitalmente -americanos têm estabelecido tanto as me-
o acervo do Arquivo Nacional a arquivos lhores práticas para o tema como avança-
federais e de outros 15 estados brasileiros, do no processo de intercâmbio de arquivos
reunindo mais de cinco milhões de páginas (ver artigo sobre o assunto neste dossiê). O
de documentos. do às principais convenções internacionais compartilhamento das diferentes experi-
A importância do debate sobre a me- de direitos humanos atinentes ao tema, ências nacionais permite que se aprovei-
mória e a verdade reside, como destacou como o Pacto Internacional de Direitos te o conhecimento acumulado em outros
Paulo Sérgio Pinheiro (ver entrevista nes- Civis e Políticos (1966), a Convenção das contextos. Com vistas a partilhar informa-
te dossiê), membro da cnv, na centralida- Nações Unidas contra a Tortura (1984) e a ções sobre os períodos autoritários, cabe
de da edificação de um sólido sistema de Convenção Internacional para a Proteção destacar a assinatura, no dia 29 de janeiro
responsabilidade, com responsabilização contra o Desaparecimento Forçado (2006). de 2014, por Brasil, Argentina e Uruguai
das ações estatais no presente e no pas- Já assinou a Convenção Interamericana so- dos Memorandos de Entendimento bilate-
sado, para a consolidação da democracia bre Desaparecimento Forçado de Pessoas rais para o Intercâmbio de Documentação
no país. Para tanto, diversos órgãos pú- (1994), ainda em processo de ratificação. O para o Esclarecimento de Graves Violações
blicos federais e estaduais têm papel re- Brasil apoiou, igualmente, a criação em 2011 aos Direitos Humanos. A cooperação entre
levante no levantamento de informações de um Relator Especial das Nações Unidas os países é fundamental para a elaboração
e na investigação sobre o paradeiro dos para a Promoção da Verdade, Justiça, de uma lista completa de vítimas dos re-
desaparecidos políticos. Nesse contexto, Reparações e Garantias de Não Repetição, gimes militares da região e para o forne-
o mre não é diferente. O Itamaraty tem cujo cargo é atualmente exercido pelo ati- cimento de dados e provas para investiga-
participado de discussões sobre o tema vista de direitos humanos colombiano, ções judiciais.
dossiê

O Itamaraty tem não apenas anterior e estabelecer as bases para um fu-


turo de maior liberalização política.

disponibilizado à CNV acesso A cnv brasileira é pioneira, pois o ar-


tigo 1º de sua lei de criação incorpora cla-

irrestrito a documentos, como ramente o “direito à verdade”. Segundo o


ictj, poucas Comissões da Verdade fizeram

organizado arquivos dos postos no menção explícita ao direito à verdade como


fundamento legal e as que fizeram, como

Cone Sul, com envio de funcionários as da Guatemala e do Peru, limitaram-na a


considerações preliminares. A afirmação

dedicados a esse trabalho. — explícita desse direito é uma forte orien-


tação para os trabalhos da cnv na produ-
ção do esclarecimento circunstanciado de
fatos referentes às graves violações de di-
reitos humanos. O artigo 1º indica como
finalidade da cnv, igualmente, a “reconci-
liação nacional”, entendida como um pro-
cesso de refundação dos laços de confian-
ça cívica que estão na base da convivência
cidadã. Uma interpretação sobre a aliança
Os países do mercosul articulam primeiras Comissões da Verdade surgi- entre essas duas orientações aparece no
concertação política regional a respeito ram no Cone Sul, assim como várias das discurso de inauguração da cnv, em 16 de
de propostas de acordos e resoluções so- comissões mais bem-sucedidas e das ini- maio de 2012, em que a Presidenta Dilma
bre o tema da memória e da verdade. A ciativas mais criativas de busca da verdade. Rousseff afirma que a verdade não é revan-
Argentina liderou diversas iniciativas que chismo, tampouco perdão, mas tão somen-
foram levadas ao plano internacional – a Na Comissão Nacional da Verdade: te o contrário do esquecimento.
exemplo da Resolução 2005/66 (2005) da a filha do tempo No contexto da transição brasileira, a
extinta Comissão de Direitos Humanos As Comissões da Verdade são estruturas cnv representa grande oportunidade para
das Nações Unidas, que estabeleceu o di- oficiais temporárias sem caráter judicial, o avanço de medidas de justiça de transi-
reito à verdade no contexto do direito in- criadas para determinar as circunstâncias ção no país. A pesquisa da cnv tem como
ternacional – e o Brasil e outros países do das violações de direitos humanos referen- prioridade o esclarecimento circunstancia-
Cone Sul copatrocinaram a grande maio- tes a um período de exceção. São fundadas do de mortes, torturas, desaparecimentos
ria desses projetos. Futuramente, a ideia nos princípios de documentação, de repre- forçados e ocultação de cadáveres ocorri-
é que todas as propostas na matéria pas- sentação e da construção de legitimidade dos entre 1946 e 1988, mas também busca
sem a ter o apoio e o lastro do mercosul. do regime sucessor. Segundo o princípio investigar as violações de direitos humanos
É um passo importante para uma região de documentação, as Comissões devem de grupos específicos, as cadeias de coman-
que compartilha o legado histórico dos buscar registrar os fatos com o maior grau do do terrorismo de Estado, as articulações
regimes militares das décadas de 1970 e de detalhamento possível. Além dos no- internacionais (como a Operação Condor) e
1980, mas que, nas últimas décadas, tem vos fatos encontrados, as Comissões têm a constituição de uma “legalidade autoritá-
despontado como um continente de refe- de lidar com a representação e a lingua- ria” no Brasil. Além da significativa amplia-
rência para boas práticas e cooperação em gem usadas para caracterizar a violência ção do escopo temático tratado, a criação
matéria de justiça de transição. Segundo política do regime predecessor. O regime da cnv representa estímulo a uma expan-
o Centro Internacional para a Justiça de sucessor busca, ademais, redesenhar uma são horizontal, com o surgimento de comis-
Transição (ictj, na sigla em inglês), as linha de descontinuidade com o governo sões da verdade estaduais, municipais ou
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de organizações específicas (como a oab, a pelas missões da cnv. Na Embaixada do cooperação – com países como Argentina,
une e várias universidades), estabelecendo Brasil em Buenos Aires, por exemplo, a Bolívia, Chile e Paraguai – para averiguar
uma rede nacional de comissões da verdade. cnv recolheu nove pastas de documen- casos de morte e desaparecimento força-
Uma parte das pesquisas documen- tos remanescentes. Recentemente, a cnv do de brasileiros no exterior e de estran-
tais sobre esses temas tem sido realiza- analisou todo o acervo de documentos si- geiros no Brasil. Por fim, cnv e Itamaraty
da no Arquivo Nacional, no acervo do gilosos do Itamaraty, tendo selecionado encaminharam ofícios a aproximadamen-
Ministério das Relações Exteriores, e em cerca de 300 documentos ultrassecretos, te 15 países nos continentes americano, eu-
arquivos estrangeiros. Em 2006, a en- 600 documentos secretos, e digitalizado, ropeu e africano, e também a organizações
tão Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma transcrito e analisado 34 fitas sigilosas internacionais, para firmar bases de co-
Rousseff, determinou a transferência de com áudios referentes à Comissão Geral operação que permitam conhecer maior
toda a documentação das instituições fe- de Investigação (cgi), criada em abril de número de arquivos no exterior.
derais sobre a ditadura militar de 1964- 1964, de acordo com dados do relatório A cnv é o ponto culminante de um pro-
1985 para o Arquivo Nacional. Em 2007, o “Balanço de Atividades: 1 ano de Comissão cesso iniciado com as lutas pelas liberda-
Itamaraty foi o primeiro órgão público a Nacional da Verdade”. des democráticas e pela Constituinte; mas
atender à requisição e enviou os documen- As ações internacionais da cnv des- é, também, um novo ponto de partida.
tos do Centro de Documentação do MRE dobram-se em três frentes fundamentais. Representa salto qualitativo em relação a
e dos extintos Centro de Informações do Em primeiro lugar, a cnv tem realizado iniciativas anteriores, ao ter sido capaz de
Exterior (CIEX) e Divisão de Segurança e missões internacionais para identificar obter maior acesso às informações oficiais
Informações (DSI) do MRE, totalizando acervos de interesse e iniciar pesquisas e de construir um mapa de arquivos e novos
mais de 120 caixas de documentos. exploratórias. Cabe destacar o levanta- canais de investigação. Isso contribui para
O Itamaraty não apenas tem disponibi- mento realizado no Arquivo do Ministério que o trabalho de mobilização da socieda-
lizado acesso sem restrição a documentos das Relações Exteriores da Argentina e de brasileira – representado pelas mais de
da série telegráfica aos pesquisadores da no “Arquivo do Terror” do Paraguai, em 100 comissões de memória, verdade e justi-
cnv, como também organizado os arquivos que foi possível obter informações sobre ça espalhadas pelo país – desdobre-se para
dos postos no Cone Sul, com envio de fun- brasileiros presos ou exilados nesses pa- além do mandato da cnv, cujo relatório fi-
cionários para executar exclusivamente íses. Uma segunda linha de ação da cnv nal deverá ser entregue em dezembro de
esse trabalho, a fim de facilitar a consulta foi o estabelecimento de mecanismos de 2014. A ideia é que a cnv mobilize o espaço

“É um resgate da memória do meu


marido”, declarou a Senhora Maria
Thereza Goulart, na cerimônia de
chegada a Brasília dos restos mortais
do Presidente João Goulart. Parti­
ciparam da solenidade, em 14 de no­
vem­bro de 2013, a Presidenta Dilma
Rousseff e inúmeras autoridades (foto:
ichiro guerra/pr).
dossiê

Corrêa Costa, diretor do Departamento


de Comunicações e Documentação (dcd),
mesmo antes do surgimento da lai, o
Itamaraty já pautava seus procedimentos
de produção, classificação e arquivamen-
to da informação pelo princípio da publi-
cidade. De 2007 a 2011, por exemplo, de
1,41 milhão de telegramas trocados entre
o Itamaraty e sua rede de postos, apenas
0,7% foram classificados como “secretos”,
público durante dois anos, mas que o seu culturas institucionais de longa data, com e menos de 0,06%, como “ultrassecretos”.
legado seja aprofundado por meio de um vistas a alinhá-los aos novos objetivos do Somados os expedientes com grau de si-
compromisso de longo prazo da socieda- Estado democrático brasileiro e a uma po- gilo “reservado”, a média de documentos
de e do Estado brasileiros. lítica de Estado de busca da verdade histó- classificados produzidos anualmente pelo
O significado da cnv para a transi- rica e de valorização da memória. mre não passa de 7,5%, o que confirma que
ção brasileira ainda é um processo aber- a restrição ao acesso a informações é uma
to. Segundo a Secretária Sílvia Whitaker, Na Casa: abrir e virar exceção. Essa excepcionalidade funda-se
pesquisadora da cnv, seu principal avan- as páginas da História no fato de que a divulgação de certas infor-
ço é o fato de que “o Estado, simbolica- No Brasil, a Lei de Acesso à Informação mações poderia prejudicar ou pôr em risco
mente, quer saber o que aconteceu a essas (lai), lei 12.527, foi instituída junto com a condução de negociações ou as relações
pessoas [desaparecidas]”, reconhecendo a a cnv (lei 12.528), em novembro de 2011, internacionais do país, como expresso no
importância de conhecer, oficializar e dar representando fruto do longo processo de artigo 23 (II) da lai.
satisfação às vítimas, a seus familiares e à construção democrática e aprimoramen- No Itamaraty, esses esforços compre-
sociedade brasileira sobre casos de tortu- to institucional no país. A lai regulamen- endem mudanças na rotina e nos procedi-
ra, desaparecimento e morte. O relatório ta o direito à informação garantido pela mentos internos para tratamento da infor-
final da cnv poderá ser composto por es- Constituição Federal, determinando que mação diplomática e consultar. Segundo
sas informações, pelo testemunho de cerca os órgãos públicos considerem a publici- o Ministro João Pedro Corrêa Costa, já se
de 500 pessoas e por algumas recomenda- dade como regra e o sigilo como exceção. identifica, no Itamaraty, uma perceptível
ções. Como ressaltou o Conselheiro André A divulgação de informações de interes- mudança de cultura, administrativa e po-
Sabóia Martins, Secretário-Executivo da se público passa a ter procedimentos que lítica, em linha com as orientações da Lei
cnv, o que define se algo é “novo” é extre- facilitam e agilizam o acesso por qualquer 12.527. Conforme levantamento do dcd,
mamente sutil e depende do lugar a par- pessoa, inclusive por meio da internet, a nos dois primeiros meses de vigência da
tir do qual certa informação é difundida. fim de desenvolver uma cultura de trans- lei, houve visível redução no número de te-
Um relatório oficial que apresente teste- parência e de controle social no seio da ad- legramas classificados. Entre março e maio
munhos sobre a época e afirme, contun- ministração pública brasileira. Ao lado de de 2012, antes da lai, foram produzidos
dentemente, que determinada informa- medidas retrospectivas de justiça de tran- 3.259 expedientes telegráficos reservados
ção consta em um documento oficial tem sição, o estabelecimento de padrões e me- e 591 secretos. Nos dois meses seguintes,
um impacto diferenciado, em termos de canismos de livre acesso à informação é junho e julho de 2012, essas cifras redu-
legitimidade social para a escrita da his- importante passo para a constituição de ziram-se para 2.333 e 421, equivalente a
tória brasileira. uma sociedade aberta e mais participativa. uma queda de 28% e 29%, respectivamente.
O relatório final e as recomendações da A implementação da lai tem demanda- Segundo o Ministro, essa sinalização pode
cnv têm amplo potencial para serem tra- do esforços consideráveis em várias frentes ser explicada “por uma maior seletividade
balhados pelas instituições públicas bra- nas diferentes instituições públicas, inclusi- ao classificar a informação, contrastando
sileiras, modificando comportamentos e ve no mre. Segundo o Ministro João Pedro com o comportamento caracterizado por
12

uma propensão a atribuir confidencialida- Delimitar o “nunca mais” brasileiro e


leia mais
de a assuntos que não necessariamente me- criar uma narrativa de transição direciona-
receriam tal classificação”. da inequivocamente para a democratização brasil. Comissão Nacional da
tem alto potencial transformativo. É uma Verdade. Balanço de Atividade:
————— necessidade para a concretização de uma 1 ano de Comissão Nacional da
série de direitos, como o direito à memória Verdade. Disponível em: http://
O Brasil atravessa vívida e consciente e à verdade, inter-relacionado ao direito de www.cnv.gov.br/images/pdf/
produção histórica. Verifica-se como de- acesso à justiça, ao direito de obter efetivos balanco_1ano.pdf.
safio a distância entre a concepção de tran- remédio e reparação e ao direito de luto. É
costa, João Pedro Corrêa.
sição que se coloca “de costas para o passa- um incentivo para o desenvolvimento de
A Lei de Acesso à Informação e a
do”, como conclamou Ulysses Guimarães, uma política nacional de arquivos com sen-
Diplomacia Brasileira; In: Revista
na Constituinte de 1988, e a diretriz assu- sibilidade para temas afeitos aos direitos
Interesse Nacional, Ano 5, Nú­
mida pelo Estado brasileiro nos últimos humanos, em que a herança documental
mero 19, Outubro-Dezembro 2012.
anos, com a busca pelo esclarecimento do país seja preservada e disponibilizada,
circunstanciado de graves violações de em especial àquelas relativas a violações de pinto, Simone Rodrigues. Direito
direitos humanos e construção de uma direitos humanos. É a base para a formula- à memória e à verdade: Comissões
memória política com marcas de descon- ção de um projeto de país que possa olhar de Verdade na América Latina.
tinuidade com o legado autoritário. A cnv de frente para seu passado e, assim, cons- Revista Debates, Porto Alegre, v.4,
é uma grande oportunidade de refletir a truir uma democracia fundada nos novos n.1, p. 128-143, jan.-jun. 2010.
respeito dessa dissonância e iniciar pro- alicerces da liberdade de expressão, trans-
reis, Daniel Aarão; ridenti,
cesso sólido de esclarecimento e responsa- parência e participação social.  — J
Marcelo; motta, Rodrigo. O gol-
bilização pelas graves violações de direitos
pe e a ditadura militar: 40 anos
humanos cometidas no período ditatorial.
depois (1964-2004). Bauru, SP:
Edusc, 2004.

sikkink, Kathryn; walling,


Carrie Booth. The Impact of
Human Rights Trials in Latin
America. Journal of Peace
Research, 2007, Vol. 44, No. 4,
427-445.

soares, I. & kishi, S. Memória


e Verdade: a justiça de transição
no Estado democrático brasileiro.
Belo Horizonte, Fórum, 2009.

teitel, Ruti. Transitional Justice.


New York: Oxford University
Press, 2000.
dossiê

COMISSÃO
NACIONAL DA

VERDADE
Prestação de contas ao passado e ao futuro
foto un Photo/Jean-Marc Ferré 14

Entrevista com Paulo Sérgio Pinheiro


por Mariana Yokoya Simoni

Paulo Sérgio Pinheiro é membro da juca Qual o Senhor espera que seja o sig- Congresso Nacional o projeto de lei que
Comissão Nacional da Verdade e foi nificado e a contribuição da Comissão instituiu a cnv, sancionado solenemente
Ministro da Secretaria de Estado de Nacional da Verdade (cnv) para a socie- pela Presidenta Dilma Rousseff, na pre-
Direitos Humanos no governo Fernando dade brasileira? A cnv deixará legados sença de todos os seus antecessores vivos.
Henrique Cardoso. Preside, desde 2011, a importantes? Não tenho dúvida de que o mais im-
Comissão Independente Internacional de paulo sérgio pinheiro A instituição da portante legado da nossa Comissão foi o
Investigação da ONU sobre a República Comissão Nacional da Verdade por meio de haver desencadeado um processo com
da Síria. Foi Relator Especial da ONU da Lei no. 12.528, aprovada praticamente grande vitalidade e dimensões nacionais,
sobre o Burundi e o Mianmar, e Perito pela unanimidade do Congresso Nacional visando a resgatar a memória das graves
Independente do Secretário-Geral da em 2011, veio atender a uma antiga deman- violações aos direitos humanos que ocor-
ONU para o Relatório Mundial sobre da da sociedade brasileira - a da promo- reram durante o período 1946–1988, espe-
Violência contra a Criança. É Professor ção de uma accountability dos atos pra- cialmente depois do golpe de 1964. Hoje,
Adjunto de Relações Internacionais ticados pelos agentes públicos nos quais funcionam comissões da verdade em pra-
do Watson Institute of International sejam patentes as violações aos direitos ticamente todas as unidades da Federação
Studies, Brown University, e Pesquisador humanos e às liberdades democráticas. e em inúmeros municípios; multiplicaram-
Associado do Núcleo de Estudos da Não posso deixar de recordar que, já na -se as comissões da verdade de natureza
Violência (NEV), da Universidade de São Assembleia Constituinte de 1946, o General institucional, em universidades, sindicatos,
Paulo, tendo lecionado nas Universidades Euclydes de Figueiredo, deputado pelo en- entidades profissionais, como a oab; estão
de Columbia (EUA), Notre Dame (EUA), tão Distrito Federal, pugnou em vão pela em atividade mais de uma centena de co-
Oxford (Inglaterra) e na École des Hautes instalação de uma comissão da verdade mitês em prol da verdade, memória e jus-
Études en Sciences Sociales (Paris). avant la lettre, para investigar os ilícitos tiça, representativos da cidadania.
penais cometidos pelo aparelho policial —
sob o Estado Novo e durante o biênio que As Comissões da Verdade são definidas
se seguiu ao levante comunista de 1935. por buscar o esclarecimento dos fatos
Depois da última redemocratização de um período de exceção e por privi-
do País, com a restauração do poder civil legiar a perspectiva das vítimas. Quais
em 1985, foram dados passos importan- características particulares tem a cnv
tes como a Lei de Mortos e Desaparecidos brasileira em relação a outras experi-
Políticos, em 1995, e a regulamentação ências ao redor do mundo?
do instituto da anistia política, em 2002, Destacaria, como peculiaridade da
ambos no Governo Fernando Henrique Comissão brasileira, o fato de ela atribuir
Paulo Sergio Pinheiro agradece: “Ao di- Cardoso. O reconhecimento de que a res- suma importância à pesquisa documen-
plomata Ministro Antonio de Moraes ponsabilidade pelos crimes praticados pela tal, sem descuidar do depoimento de víti-
Mesplé, meu colega na cnv, por toda
sua contribuição a essa entrevista, mor- ditadura militar cabia ao Estado brasilei- mas, testemunhas e violadores dos direi-
mente quanto aos dados históricos aqui ro foi a pedra de toque sobre a qual está tos humanos. Ao extinguir o antigo Serviço
indicados. Naturalmente a responsa- baseado o processo de construção daque- Nacional de Informações (sni) por me-
bilidade pelo texto é somente minha.”
le accountability no período democrático. dida provisória, em 1990, sem a designa-
Coube ao Presidente Lula seguir adiante ção de um órgão sucessor, o Presidente
nessa trajetória democrática, ao enviar ao Fernando Collor abriu caminho para que
dossiê

Os contatos internacionais da CNV tiveram sempre


o apoio e a orientação do Itamaraty, produzindo
resultados extremamente frutíferos —

seu acervo documental fosse recolhido a uma gestão pessoal da Presidenta Dilma colaboração sincera e amistosa de seu an-
ao Arquivo Nacional, o que veio a ocor- Rousseff junto ao Presidente Joachim tecessor, o Embaixador Ruy Nogueira. Por
rer no Governo Lula. Estão à disposição Gauck, quando de sua visita ao Brasil, em dever de justiça, não poderia deixar de
da cnv, no Arquivo Nacional, mais de 16 maio de 2013. citar outros diplomatas e servidores de
milhões de páginas de documentos pro- É fundamental que esses esforços vi- menor hierarquia, como o Ministro João
venientes daquele polvo burocrático au- sando ao acesso à documentação disper- Pedro Costa, Diretor do Departamento de
to-intitulado sisni (Sistema Nacional de sa em arquivos estrangeiros não tenham Comunicações e Documentação (dcd); e
Informações), que agrupava o sni e as de- solução de continuidade, mesmo depois a equipe de servidores da Coordenação-
mais ramificações do aparelho repressivo do encerramento das atividades da cnv Geral de Documentação Diplomática (cdo),
da ditadura. A título de comparação, lem- em 2014. Há processos negociais sobrema- chefiada pelo Conselheiro Pedro Garcia.
bro, apenas, que a conadep argentina - a neira importantes, como aquele em anda- Não bastasse, o Itamaraty cedeu à cnv
chamada “Comissão Sábato” -, instituída mento com os Estados Unidos, cujo êxito quatro diplomatas, de diferentes gerações
pelo Presidente Raúl Alfonsín, fundamen- dificilmente acontecerá sem o talento ne- e classes funcionais na carreira. Três des-
tou seu relatório exclusivamente no depoi- gociador da diplomacia brasileira. ses servidores trabalham diretamente co-
mento das vítimas. — migo no “gt Estrangeiros” (Violações aos
— Como se desenvolveu a relação entre direitos humanos de brasileiros no exte-
Qual tem sido a atuação internacional Itamaraty e cnv? Quais têm sido as rior e de estrangeiros no Brasil). Posso tes-
da cnv? Quais o Senhor espera que se- principais contribuições do Itamaraty temunhar-lhes a dedicação e a qualidade
jam os resultados desses esforços? para o trabalho da cnv? de seu trabalho.
Além de realizar missões de informação a Desde o início de seus trabalhos, a cnv —
países vizinhos que passaram por experi- estabeleceu uma relação absolutamente Como os achados da cnv podem ser
ências semelhantes de ditadura e redemo- exemplar com o Ministério das Relações trabalhados dentro das instituições
cratização – como a Argentina, o Uruguai Exteriores. Por decisão do então Chanceler públicas brasileiras e das instituições
ou o Paraguai –, a cnv estabeleceu con- Antonio Patriota, os pesquisadores da cnv de ensino?
tato direto com autoridades de mais de tiveram não somente amplo acesso à do- Eis uma faceta pouco comentada do lega-
duas dezenas de Estados e com organis- cumentação recolhida ao arquivo cen- do da cnv – sua capacidade de introduzir
mos internacionais, visando a obter aces- tral da Secretaria de Estado das Relações conceitos novos na Administração Pública
so a fundos documentais importantes para Exteriores, em Brasília, como liberdade brasileira, como a valorização da accoun-
a compreensão dos processos políticos para pesquisar os fundos documentais exis- tability e de uma prestação de contas às
que permitiram sistemática violação aos tentes em embaixadas e consulados. Esse gerações futuras.
direitos humanos no Brasil, no período apoio praticamente irrestrito do Itamaraty Tenho claro que, ao produzir um rela-
pós-1964. Esses contatos tiveram sempre aos trabalhos da cnv foi reafirmado pelo tório onde estarão consolidadas informa-
o apoio e a orientação do Itamaraty, pro- Chanceler Luiz Alberto Figueiredo, logo ções acerca de um sem número de graves
duzindo, em certos casos, resultados ex- depois de assumir o cargo de Ministro de violações aos direitos humanos, ao longo
tremamente frutíferos, como a decisão da Estado das Relações Exteriores. de um período de mais de 40 anos, a cnv
República Tcheca de abrir seus arquivos Destacaria, igualmente, o valioso apoio contribuirá para uma reflexão mais apro-
a pesquisadores credenciados pela cnv. que a cnv tem recebido do Embaixador fundada sobre o porquê dessas violações e
Outro país que concordou em atender às Eduardo dos Santos, atual Secretário-Geral em que medida elas poderiam ter sido evi-
demandas da cnv foi a Alemanha, graças das Relações Exteriores, sem esquecer a tadas. Afinal, o recorte temporal presente
16

no mandato legal da cnv coincide prati- Universidade de São Paulo, e também como à “repercussão retardada” de grandes cor-
camente com o período da Guerra Fria, membro da Comissão Teotônio Vilela de rentes do pensamento ou de processos
que foi na origem um conflito estranho Direitos Humanos- fundada por Severo transformadores de dimensão universal.
ao Brasil. Sua internalização, a partir do Gomes e pelo próprio Teotônio, no impe- Assim sucedeu, por exemplo, com a escra-
Governo Dutra, levou à ruptura da ordem rativo de uma profunda reformulação do vidão, tendo sido o Brasil foi o último país
democrática em 1964, com o triunfo no in- aparelho policial, com a desmilitarização das Américas a suprimir essa prática so-
terior do aparelho de Estado, sobretudo das polícias estaduais. Só assim será pos- cial tão arcaica quanto abjeta.
após o ai-5, de uma visão do mundo mani- sível extirpar a cultura de violência ainda No mundo atual, os episódios do 11 de
queísta e autoritária, que menosprezava os prevalecente entre boa parte dos agentes setembro e suas sequelas levaram, em al-
direitos humanos, como valor essencial de públicos, herança das práticas da ditadura. gumas das sociedades mais avançadas do
uma sociedade em rápida transformação. Sem querer antecipar-me às conclu- planeta – nos Estados Unidos, no Reino
Ao elaborar uma narrativa oficial – e ab- sões do colegiado da cnv – que precederão Unido ou no Japão –, à adoção de instru-
solutamente única – sobre esse longo pe- as recomendações no relatório final –, te- mentos legais altamente restritivos à liber-
ríodo histórico, a cnv por certo ajudará a nho certeza que esse tema, o da correlação dades públicas. Em lugar da promoção da
cristalizar um novo discurso oficial, comum entre o legado autoritário da ordem ditato- transparência, valor fundamental em qual-
aos diferentes segmentos do Estado brasi- rial e a persistência de agravos aos direitos quer sociedade democrática, ampliou-se
leiro e em perfeita consonância com a letra humanos de parcelas significativas da po- de forma desmedida a noção de segredo
e o espírito da Constituição Federal de 1988. pulação brasileira, certamente terá lugar de Estado e a intrusão do poder público
Caberá às instituições de ensino veiculá-lo de destaque no texto que será apresenta- na vida privada dos cidadãos.
às novas gerações, que muitas vezes pou- do à Excelentíssima Senhora Presidenta Ao sancionar, simultaneamente, em
co sabem sobre a escala em que ocorreram da República, em dezembro de 2014. 2011 esses dois grandes diplomas legais
graves violações aos direitos humanos du- — que são a Lei de Acesso à Informação e
rante o período tratado pela cnv. Qual a relação entre o direito à informa- a lei que criou a cnv, a Presidenta Dilma
— ção e o direito à verdade estabelecidos, Rousseff fez com que o Brasil se situas-
Qual o impacto da implementação de respectivamente, pela Lei de Acessão se em corrente oposta àquela que levou
mecanismos de justiça de transição em à Informação (Lei 12.527) e pela lei de de roldão valores inerentes ao Estado de
um país? O Senhor acredita que há cor- criação da cnv (Lei 12.528)? Direito em algumas das grandes democra-
relações significativas entre essas medi- Sem dúvida foram movimentos convergen- cias industriais. Transformou o Brasil em
das e a consolidação democrática, a di- tes, que colocaram o Brasil no mainstream país de vanguarda na afirmação dos direi-
minuição da violência e a melhora nas da sociedade internacional contemporânea. tos humanos. Tenho certeza de que meu
práticas de direitos humanos? Um brasileiro ilustre, figura expo- saudoso mestre, o Doutor Alceu Amoroso
Trata-se de um problema que deve ser nencial de um passado recente, Alceu Lima, se aqui estivesse, ficaria muito con-
analisado caso a caso, sob pena de cair- Amoroso Lima - que foi um dos grandes tente com esse momento de exceção à ten-
mos em generalizações simplistas e nada mestres de minha geração, aliás o primei- dência histórica que conseguiu identificar
esclarecedoras. ro a denunciar em sua coluna no Jornal na sociedade brasileira.  — J
No caso específico do Brasil, venho in- do Brasil depois do Golpe de Estado de
sistindo há mais de duas décadas, como 1964 o “terrorismo de estado” na práti-
pesquisador e professor associado do ca da tortura - notou, em seus escritos, o
Núcleo de Estudos da Violência (nev), da existir no Brasil como que uma tendência
dossiê

Pedido formal da família de Lorenzo


Ismael Viñas à Comissão de Anistia.
Por meio da colaboração arquivísti-
ca, entre outras iniciativas, Lorenzo
foi considerado desaparecido políti-
co pelo Estado brasileiro, tendo sua
família recebido indenização por
isso. O caso demonstra como a coo-
peração arquivística entre os Estados
é fundamental para a elucidação do
passado referente aos regimes mili-
tares no Cone Sul.
18

texto Bruno Quadros e Quadros e Sabrina Steinke*

O BRASIL E O INTERCÂMBIO DE ARQUIVOS SOBRE


AS DITADURAS MILITARES DO CONE SUL

O CASO DA
OPERAÇÃO
CONDOR
Um dos desafios para a democracia brasileira e a dos
demais países do Cone Sul é reconstituir os traumáticos aconte-
cimentos de repressão política nas décadas de 1960 e 1970. A re-
gião foi palco de ditaduras militares de segurança nacional, que,
para além da repressão em território nacional, atingiam os consi-
derados “inimigos” do Estado em todo o Cone Sul. Se, na década
de 1970, os Estados se articularam para reprimir aqueles que se
opunham aos regimes castrenses impostos em cada um dos pa-
íses, com base na ideologia da Doutrina de Segurança Nacional
(DSN), adaptada de acordo com as peculiaridades de cada país,
hoje se verifica uma progressiva colaboração com intuito de re-
construir a história daquele período.
Nesse quadro, o Itamaraty tem um papel destacado. A atuação
do corpo diplomático nas ações em prol da memória, verdade e
justiça no Brasil e na região é salutar. Exemplo é a participação
de diplomatas na Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos
Políticos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da
República, bem como na Comissão Nacional da Verdade. Outro
exemplo é o trabalho executado no arquivo do Itamaraty, que
está com uma vasta documentação acerca desses anos aberta para
consulta, inclusive os documentos classificados como secretos.
O Itamaraty tem trabalhado para aprofundar a cooperação ar-
quivística tanto no âmbito bilateral quanto multilateral, de que são
exemplos os esforços de intercâmbio de arquivos sobre os aconteci-
mentos repressivos sob as asas do Condor. O condor é a maior ave
voadora de rapina do mundo, capaz de localizar sua presa a quilô-
metros de distância; alimenta-se de carniça ou de animais fracos e
doentes. No folclore andino, essa ave representa as lutas travadas
entre oprimidos e opressores. Os povos de língua quéchua traduzem
dossiê

por meio dessa ave o que consideram “vazio” não foram substituições de práticas, mas, de fôlego, valendo-se de todo o trabalho le-
de suas tradições. Certamente não foi pelo sim, ampliação da logística. Não existiu gado pela Comissão Especial sobre Mortos
peculiar papel da ave como signo dos opri- modelo padrão de conduzir ações, já que e Desaparecidos Políticos e pela Comissão
midos que Manuel Contreras, então chefe cada caso executado continha modo de de Anistia do Ministério da Justiça. Todos
da polícia secreta chilena, batizou a coorde- operação singular. esses trabalhos têm sido realizados com
nação repressiva entre os Estados do Cone O intercâmbio internacional de arqui- apoio do Itamaraty.
Sul como Operação Condor, formalizada vos é essencial para que possamos com-
em 28 de novembro de 1975, em Santiago preender como ocorreram as violações de
do Chile. Na ocasião, o Brasil enviou dois direitos humanos dos regimes de exceção O intercâmbio de arquivos
representantes como observadores, razão e quem delas participou. As trocas pontu- No aspecto documental, a Operação
pela qual a ata da reunião não contou com ais que vêm ocorrendo em relação aos ca- Condor é um quebra-cabeça extremamen-
a assinatura de brasileiros. sos do Condor são as primeiras iniciativas te complexo, bem como todos os aconte-
A Operação Condor constituiu uma do Estado brasileiro nesse sentido. Isso de- cimentos de subtração das democracias.
rede de colaboração entre organismos de monstra um efetivo esforço das instituições Além de possuir uma logística plural de
informação e/ou repressão de seis países nacionais em estabelecer uma política de ação - o que dificulta a caracterização
(Chile, Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina memória consistente e representa avanço das violações como parte desse operati-
e Bolívia). Esses organismos estavam liga- salutar para a justiça de transição no Brasil. vo -, depende de substratos em diferen-
dos aos seus respectivos Estados que, nesse A abrangência internacional da re- tes países. Um alento nesse campo são as
período, estavam sob a gestão de regimes pressão, no âmbito do Plano Condor, só iniciativas da sociedade civil, como o sí-
ditatoriais – com exceção da Argentina, foi considerada de forma densa e efetiva, tio Documentos Revelados, que reflete a
que sofreria o seu mais pesquisa conduzida
recente golpe militar so- por Aluízio Palmar e

O Itamaraty tem trabalhado


mente em março de 1976. contém grande quan-
A operação foi organizada tidade de documen-

para aprofundar a coopera-


e sistematizada para for- tos sobre a repressão
malizar as colaborações na América do Sul.

ção arquivística tanto no


repressivas, que já ocor- Aluízio é um sobrevi-
riam ocasionalmente en- vente do regime mili-

âmbito bilateral, quanto


tre os países do Cone Sul. tar brasileiro. Quando
A Operação Condor jovem, estudava Ci­

no multilateral —
foi estruturada em três fa- ên­c ias Sociais na
ses: a primeira, de troca Universidade Federal
de informações, envolveu Fluminense e atuava
a distribuição de listas na militância políti-
dos chamados “subversi- ca; posteriormente foi
vos”, procurados entre os países partici- pelo Estado brasileiro, quando do estabe- preso e banido do Brasil - na famosa tro-
pantes; a segunda consistiu em operações lecimento do Grupo de Trabalho Operação ca de presos políticos pelo Embaixador da
e ações na América Latina; e a terceira te- Condor (GT-Condor) da Comissão Suíça no Brasil. Palmar retornou ao país
ria como foco intervenções fora do terri- Nacional da Verdade (CNV), em setembro após a anistia política e, entre outras ativi-
tório latino-americano. O termo “opera- de 2012. O grupo, coordenado pela Doutora dades, mantém o acervo documental vir-
ções”, no âmbito desse sistema repressivo, Rosa Cardoso, pelo pesquisador e diploma- tual que contempla pesquisas realizadas
significava sequestros, torturas e desapa- ta André Saboia Martins e pela pesquisa- em inúmeros arquivos públicos e doações
recimentos. Essas fases se intercalavam; dora Vivien Ishaq, tem realizado projetos de acervos privados, desde quando estava
20

no exílio. As atividades do sítio começa-


ram em 2011, e sua média mensal de aces-
sos é oito mil.
Entidades públicas de direitos huma-
nos também se articularam com o fim
de tornar acessível documentação so-
bre ocorrências repressivas colaborativas
entre os Estados do Cone Sul. O Acervo
Documental Condor, projeto do Instituto
de Políticas Públicas em Direitos Humanos
do Mercosul (IPPDH), disponibiliza na in-
Lorenzo Ismael Viñas
ternet um guia para pesquisadores e demais
Estudante de Ciências Sociais em Buenos
interessados. Trata-se do levantamento de
Aires, militou no Montoneros. Casado
arquivos e fundos documentais do Brasil,
com Cláudia Olga Romana Allegrini, após
Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile. Os
viver exilado no México, voltou para a
dados disponíveis são: conteúdo de cada ar-
Argentina, de onde estava tentando viajar
quivo ou acervo, como se dá o acesso, nor-
até a Itália, quando desapareceu em 26 de
mas e restrições e, em alguns casos, resu-
junho de 1980.
mos dos documentos. Essa iniciativa tem
como objetivo promover a análise, a orga-
nização e a disponibilização das informa-
ções relativas ao patrimônio arquivístico
relacionado à Operação Condor. memória cujas trajetórias são bastante de pesquisa brasileiras já estiveram nes-
No âmbito da Comissão Permanente de distintas. A Argentina tem um papel de ses países compilando documentos, com
Memória, Verdade e Justiça da Reunião de vanguarda: imediatamente após a transi- o apoio do Itamaraty. Essas equipes es-
Altas Autoridades de Direitos Humanos ção democrática, foi instalada a Comissão tão trabalhando em conjunto de modo não
e Chancelarias do Mercosul e Estados Nacional sobre o Desaparecimento de formalizado – se entendemos como "for-
Associados (RAADH), foi estabelecido Pessoas (Conadep), que reverberou no mal" um acordo entre Estados que permi-
grupo técnico para obtenção de dados e relatório Nunca Más e já julgou uma cen- ta o acesso livre e até mesmo a construção
de pesquisas nos arquivos inseridos na tena de pessoas ligadas à repressão. Está de um arquivo comum acerca desses even-
Operação Condor. Uma das principais em vigor, além disso, um processo de le- tos. Com a Lei 12.527 de 2011, a conheci-
funções desse grupo técnico é favorecer sa-humanidade, com foco na Operação da Lei de Acesso à Informação, está sendo
o intercâmbio de dados entre os Estados Condor. Os acervos da Argentina encon- sistematizada no Arquivo Nacional uma
Membros e Associados do Mercosul, com tram-se dispersos em inúmeros arquivos documentação plural e inédita acerca dos
vistas a constituir um sistema regional de em todas as províncias, e o da Conadep eventos ocorridos nos 21 anos de ditadura.
dados sobre o tema. Em 2012, foi lançada é o que está sistematizado até o momen- O acesso é livre para qualquer cidadão, de
convocatória do IPPDH para o projeto de to. O Paraguai é onde se encontra um dos qualquer nacionalidade, o que demonstra
investigação sobre arquivos públicos vin- maiores acervos documentais específicos um enorme passo rumo a um intercâmbio
culados com as graves violações cometidas acerca do Plano Condor, o qual revela a es- de informação cada vez mais amplo entre
no marco da Operação Condor. trutura repressiva internacional da épo- os países do Cone Sul.
A agenda institucional de "trocas" de ca. Tanto a Argentina quanto o Paraguai O intercâmbio de arquivos foi feito, a
acervo que está sendo implantada nos já ofereceram seus acervos para os tra- princípio, por pesquisadores que buscam
países do Cone Sul serve a políticas de balhos do GT-Condor da CNV. Equipes substratos para suas investigações em
dossiê

Harry W. Shlaudeman – então funcio-


nário do Departamento de Estado nor-
te-americano – enviou um telegrama em
1976 ao Secretário de Estado Dean Rusk.
Este é um dos documentos que revela a
participação brasileira na aliança repres-
siva do Condor. Destacamos:

“Em resposta eles estão agrupando-se no


que pode vir a ser um bloco político de al-
guma coesão. Mas, mais significativamente,
eles estão juntando forças para erradicar a
‘subversão’, uma palavra que crescentemen-
te se traduz em dissidência não violenta da
esquerda e da centro esquerda. As forças de
segurança do Cone Sul:
diversos acervos espalhados no Cone Sul.
Em um processo paulatino e cumulativo,
· Coordenam agora as atividades de inte-
esse intercâmbio foi agregado ao trabalho
ligência mais de perto;
da Comissão de Anistia e da Comissão da
· Operam no território uns dos outros em
Verdade. Essas iniciativas têm foco na re-
perseguição a ‘subversivos’;
paração, no caso da Comissão de Anistia,
· Estabeleceram a Operação Condor para
e na construção de uma memória mais
encontrar e matar terroristas do ‘Comitê
abrangente e no desvelamento do que
Coordenador Revolucionário’ em seus
ocorreu com cidadãos brasileiros, no que
próprios países e na Europa. O Brasil
tange à Comissão da Verdade. Daí a ra-
está cooperando de perto com as ope-
zão de inexistir uma política de constru-
rações de assassinatos.”
ção de arquivo em comum, ou mesmo do
acesso aos arquivos por meio de platafor-
Esse informe demonstra a estreita relação
ma conjunta.
entre os países envolvidos na Operação
Os intercâmbios estabelecidos de-
Condor, inclusive o Brasil, bem como o
monstram a importância do assunto
nível de informação que os EUA tinham
para o aprofundamento da democracia.
acerca do que acontecia. Documento dis-
Um dos casos, que resultou em indeni-
ponível no site Documentos Revelados.
zação à família e contou com a colabora-
ção arquivística, é o de Lorenzo Ismael
Viñas. Argentino, desaparecido em ju-
nho de 1980 na fronteira do Brasil com a
Argentina, viajava de Buenos Aires com
destino ao Rio de Janeiro, de onde pre-
tendia ir à Itália. Lorenzo era militante
montonero e viveu seus últimos anos em
fuga dos agentes da repressão argentinos.
Por meio de um processo na Comissão de
22

Por meio de um processo na Comissão


de Anistia, o Governo brasileiro
assumiu que Lorenzo foi sequestrado
no Brasil com a ajuda de agentes
argentinos —

Anistia, o Governo brasileiro assumiu que colaboração arquivística é salutar para a


leia mais
Lorenzo foi sequestrado no Brasil com a consolidação democrática de cada um dos
ajuda de agentes argentinos. O processo países envolvidos nas atividades repressivas brasil. Direito à memória e à ver-
conta com vasta documentação de dife- do Plano Condor. As iniciativas menciona- dade. Comissão Especial Sobre
rentes acervos e foi encerrado em agos- das deixam claro que esse caminho está sen- Mortos e Desaparecidos Políticos.
to de 2005. A família foi indenizada e do trilhado de maneira consistente e com Brasília: Secretaria Especial de
Lorenzo, identificado como desapareci- vistas ao contínuo processo de ampliação de Direitos Humanos, 2007.
do político no Brasil. vínculos institucionais nesse domínio.
calloni, Stella. Operación
O aprofundamento das democracias
Condor: los años del lobo. Buenos
————— nos países do Cone Sul tem criado condi-
Aires: Peña Lillo Ediciones
ções favoráveis e vontade política para o
Continente, 1999.
O estabelecimento de vínculos institucio- desenvolvimento de um sistema de coo-
nais entre Estados para a cooperação em peração arquivística mais consistente. O cunha, Luiz Cláudio. Operação
matéria de intercâmbio de arquivos tem- Governo brasileiro tem demonstrado gran- Condor. O sequestro dos
-se ajustado de maneira gradual e vem-se de interesse no avanço dessa agenda, com Uruguaios. Uma reportagem dos
adaptando aos contextos particulares de o objetivo de que seja possível, em alguns tempos da ditadura. Porto Alegre:
transição democrática e de implementa- anos, que pesquisadores, familiares e de- L&PM, 2008.
ção de políticas de memória em cada país. mais interessados tenham acesso a docu-
mariano, Nilson. As garras do
A abertura dos arquivos é tema sensível mentos de uma série de países, os quais
Condor. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
em diversos aspectos. Não só os agentes poderão contribuir para a elucidação dos
da repressão temem a exposição pública casos ainda em investigação. É uma tare-
de suas práticas, mas algumas vítimas e/ fa árdua, que necessita engajamento de
ou familiares não se sentem confortáveis todos os setores e que envolve interesses
em lidar com a questão. São feridas que que são políticos no mais amplo sentido
estão abertas. do termo.  — J
* Sabrina Steinke é doutoranda em
Ao olhar para as trajetórias de enfren- História pela Universidade de Brasília.
tamento das graves violações de direitos
humanos, o estabelecimento de redes de
dossiê

texto Lucila Caviglia*

O CASO ARGENTINO
VERDADE
JUSTIÇA
MEMÓRIA

Mãe com retrato da filha desaparecida.


O movimento Mães da Praça de Maio
permanece um dos mais atuantes na
busca da verdade na Argentina.
foto Carlos Nahuel Baglietto 24

Desde a restauração da democracia, política sem precedentes, que consti- Conhecer a verdade sobre o destino
em 1983, a República Argentina tem desen- tui uma das mais obscuras etapas da das pessoas desaparecidas seria eventu-
volvido uma política de Estado em matéria história argentina. Durante o chamado almente reconhecido como um direito
de direitos humanos, articulada em torno Processo de Reorganização Nacional, as fundamental, que deve ser garantido pelo
de três eixos: verdade, justiça e memória. Forças Armadas instituíram o terroris- Estado. Nesse sentido, considera-se que o
Essa tríade encontra-se guiada pelo obje- mo de Estado como mecanismo geral e direito à verdade é “aquele que tem a so-
tivo último de reparação integral, não so- sistemático de repressão social. O grupo ciedade, em especial os familiares das ví-
mente das vítimas, mas do conjunto do co- militar que tomou o poder considerava timas das violações aos direitos humanos,
letivo social, agredido pela repressão ilegal que a sociedade e suas instituições esta- a conhecer o acontecido em decorrência
articulada durante a última ditadura mili- vam doentes, o que justificava a aplica- daquelas violações, individualizando os
tar no país (1976-1983). Nas três dimensões ção de métodos extremos na guerra con- fatos e os responsáveis”2. Não somente as
de verdade, justiça e memória, as políticas tra a subversão. vítimas e seus familiares têm a titularida-
reparatórias têm levado a medidas concre- A primeira narrativa das violações aos de desse direito, mas a sociedade toda, que
tas da parte do Estado argentino. direitos humanos acontecidas naque- deve poder conhecer a história nacional e
le período foi realizada pela Comissão suas causas.
————— Interamericana de Direitos Humanos Perto do final do governo militar, o eixo
da Organização dos Estados Americanos das demandas passou a ser a justiça. Já em
O debate sobre as violações aos direitos (cidh), em um relatório publicado depois 1982, organizou-se a Marcha pela Vida, de-
humanos ocorridas durante a última dita- da sua visita à Argentina, em setembro de mandando o julgamento e a pena de todos
dura militar tem passado no seio da socie- 1979. Neste, a cidh constatou a magnitu- os culpáveis.
dade argentina por uma série de etapas: de dos crimes cometidos pelo Estado, que-
esquematicamente, pode-se dizer que, des- brando o discurso do Governo e tornando Justiça
de uma fase inicial de reivindicação pelo visíveis para a comunidade internacional Procurando evitar qualquer indagação por
estabelecimento da verdade, transitou-se as massivas violações perpetradas pelos parte do futuro governo civil, a ditadura
a outra, centrada na demanda por justiça agentes da ditadura. militar emitiu o Documento Final da Junta
e, finalmente, ao momento atual de ênfa- Militar sobre a Guerra contra a Subversão
se na memória. Posteriormente, o próprio Verdade e o Terrorismo. Nele, assumia a responsa-
Estado Nacional adotou esses objetivos e Durante a ditadura, a principal reivindi- bilidade pela guerra antissubversiva, des-
procurou dar-lhes uma resposta, acrescen- cação dos familiares, dos exilados e das qualificava as denúncias por desaparição
tando a preocupação com a reparação. organizações de direitos humanos – tan- e relegava a “juízo divino” a avaliação de
A esquematização anterior – que é es- to nacionais quanto internacionais –era seus atos. Ademais, a fim de resguardar
pecialmente útil para compreender e ex- a de obter informações sobre o paradei- os atos cometidos sob as ordens de supe-
plicar o processo acontecido – deve ser ro dos desaparecidos (cidadãos presos riores, a ditadura sancionou a Lei 22.924
matizada: evidentemente, tratou-se de ilegalmente pela ditadura que se presu- de Pacificação Nacional, também chama-
uma dinâmica complexa, de sinergia po- miam vivos). Surgiu, então, a demanda por da Lei de Autoanistia, viciada de incons-
sitiva, na qual os avanços em uma área pro- verdade. Ainda não estava presente o an- titucionalidade, tanto pela origem quanto
moveram progressos em outras e, muitas seio de levar à Justiça os responsáveis pelo conteúdo.
vezes, produziram-se em paralelo. pelas violações, dado que não existiam as
condições necessárias para tanto. Só em
O último governo militar na República 1982, diante do enfraquecimento da dita-
Argentina (24 de março dura, os diferentes atores começaram a 1  Rosales, Sebastián. 2005. “El derecho a la verdad:
de 1976 – 10 de dezembro de 1983) exigir, cada vez com maior força, o julga- desarrollo en el ámbito internacional y en la República
Argentina”. Documento de Trabajo Nº 38. Buenos
O golpe de estado de março de 1976 mar- mento dos perpetradores de violações aos Aires, Instituto del Servicio Exterior de la Nación. P.
cou o início de um período de violência direitos humanos. 5 (ênfase nossa).
dossiê

Já reinstalado o governo constitucio- Criminal e Correcional da Capital Federal) Assim, com a Lei de Obediência Devida,
nal, o Congresso Nacional aprovou a Lei tomou para si o caso. a Lei de Ponto Final e os indultos, as víti-
23.040, que anulou a Lei de Autoanistia, e A sentença, emitida em 9 dezembro de mas diretas e indiretas do terrorismo de
o Presidente Raúl Alfonsín publicou os de- 1985, condenou os chefes da primeira Junta Estado ficavam privadas de justiça. Mas as
cretos 157/83 e 158/83, pelos quais ordenou Militar à prisão perpétua; os membros da reivindicações por parte dos movimentos
julgar os chefes guerrilheiros e os membros segunda Junta a diversas penas de prisão, de direitos humanos não cessaram. Dada a
das três primeiras Juntas Militares. e aqueles da terceira Junta não foram con- impunidade no âmbito nacional, as leis e
Ao mesmo tempo, além de ordenar o denados, por não se ter conseguido provar os indultos foram denunciados diante da
julgamento das Juntas, o Presidente criou, os delitos que lhes eram imputados. A sen- cidh, que se pronunciou favoravelmente
por decreto, a Comissão Nacional sobre a tença reconheceu que os atos do período ti- com relação às reclamações e solicitou ao
Desaparição de Pessoas (conadep), inte- nham sido uma ação planejada e sistemática governo argentino que reparasse o dano
grada por personalidades notáveis de di- de extermínio e, paralelamente, começaram sofrido pelas vítimas.
versas áreas, com a função de investigar as a ser investigados na justiça crimes cometi- Respondendo, então, às recomenda-
denúncias por violações aos direitos hu- dos por funcionários de menor hierarquia. ções da cidh para que o Estado argen-
manos ocorridas durante a ditadura e de Porém, como consequência da pressão tino garantisse as demandas de verda-
clarificar os fatos relacionados com o ter- dos grupos militares e de alguns grupos ci- de, começaram os Juicios por la Verdad.
rorismo de Estado. Em setembro de 1984, a vis, ditou-se, em dezembro de 1986, a Lei Trata-se de procedimentos de natureza
conadep publicou o relatório Nunca Más, 23.492, de Ponto Final, que estabeleceu a ex- judicial cujas sentenças são meramen-
que apresentou os primeiros elementos tinção das ações penais contra os autores te declaratórias, impulsionados desde a
para os processos judiciais contra os au- das prisões ilegais, as torturas e os homi- década de 1990 por familiares de pessoas
tores dos crimes. cídios, que não fossem chamados a prestar desaparecidas e organizações de direitos
Depois da sanção do Decreto 158/83, os declaração dentro dos sessenta dias poste- humanos, com o objetivo de conhecer o
membros das três Juntas Militares começa- riores (a Lei foi promulgada em 24 de de- destino dos seus entes queridos e os mo-
ram a ser julgados pelo Conselho Supremo zembro de 1986, e portanto, o prazo previs- tivos e as circunstâncias que levaram à
das Forças Armadas, dado que a legisla- to vencia em 22 de fevereiro de 1987). sua desaparição.
ção estabelecia que os militares deveriam Complementarmente, foi aprovada, em A importância daqueles Juicios está
ser julgados por foros daquela natureza. junho de 1987, a Lei 23.521 de Obediência em que, mesmo sem incluir a possibili-
Mas, em razão da demora, em fevereiro de Devida, a qual estabeleceu uma presun- dade de condenação, permitiram obter
1984, o Congresso Nacional sancionou a ção iuris et de jure (quer dizer, que não ad- provas documentais e orais que foram
Lei 23.049 de reforma do Código da Justiça mitia prova em contrário) de que os atos utilizadas posteriormente, quando os jul-
Militar, estabelecendo que esse foro só se cometidos pelos integrantes das Forças gamentos foram reabertos. Além disso, os
aplicaria a delitos de tipo militar (deser- Armadas entre 1976 e 1983 não eram pu- Julgamentos pela Verdade contribuíram
ção, insubordinação, etc.) e que as senten- níveis, por terem seus autores agido com enormemente à conscientização da socie-
ças dos tribunais militares poderiam ser base na “obediência devida” – conceito mi- dade sobre o acontecido. Tratou-se de uma
apeladas diante de tribunais civis, os quais, litar pelo qual os oficiais devem obedecer verdade não só associada ao propósito de
em caso de negligência ou demora injusti- às ordens emanadas dos seus superiores obter o a pena dos responsáveis, mas tam-
ficada, poderiam, inclusive, tornar-se dire- sem importar o conteúdo delas. bém ao de construir a memória, pilar que
tamente responsáveis pelas causas. Assim, Além disso, entre 1989 e 1990, o Poder adquiriu força no período seguinte.
dado que o Conselho das Forças Armadas Executivo, a cargo de Carlos Saúl Menem,
considerou impossível o julgamento dos estabeleceu uma sucessão de decretos pe- Memória
líderes militares, pela inexistência de ele- los quais se concedeu indulto a militares e Desde meados da década de 1990, as or-
mentos probatórios que demonstrassem civis processados e condenados por crimes ganizações de direitos humanos consegui-
a ilegalidade das ordens por eles emitidas, cometidos durante a ditadura, com o intui- ram instalar na agenda pública a demanda
um tribunal civil (a Câmara Federal no to de atingir a pacificação nacional. pela memória. O processo de elaboração e
26

de construção social da memória tem re- aconteceu em agosto de 2003. Esse fato humanos e de diversos indivíduos, grupos
sultado na produção e reutilização de figu- fundamental permitiu a reabertura dos jul- sociais e mesmo do Estado, que continua-
ras jurídicas e conceitos sociopolíticos que, gamentos penais contra os militares acusa- ram lutando até que as leis que bloqueavam
em geral, não estavam presentes nos pri- dos de terem participado na repressão ile- os avanços fossem anuladas e os criminosos,
meiros anos depois da recuperação demo- gal. Em 2005, a Corte Suprema de Justiça castigados. Hoje, a memória tem a função
crática. Entre esses conceitos, é possível da Nação convalidou a nulidade declarada social de impedir a repetição de situações
mencionar a caracterização da repressão pelo Congresso, ao estabelecer a inconsti- semelhantes e de gerar uma maior valori-
sistemática operada durante o Processo de tucionalidade das leis mencionadas. zação coletiva da democracia.
Reorganização Nacional como “genocídio”, A “estatização” do relato dos grupos de A defesa dos direitos humanos, que
que possibilitou sua inclusão na categoria direitos humanos evidenciou-se também nosso país entende como indivisíveis, in-
de crimes de lesa humanidade (portanto em medidas como a reconversão de anti- ter-relacionados, interdependentes e sem
imprescritíveis). gos centros de detenção clandestina em es- hierarquia, passou a ser uma política de
Aliás, a luta, que inicialmente centrou- paços para a memória e a instituição do 24 Estado que, como tal, irriga todas as ou-
-se na crítica ao passado, adquiriu um en- de março como feriado nacional sob a de- tras políticas públicas nacionais, incluin-
foque mais centrado no presente e no futu- nominação de “Dia Nacional da Memória do a política externa.
ro. O exercício da memória não se detém à pela Verdade e Justiça” – incorporando Nessa dimensão, a experiência nacio-
denúncia do sofrido; ela adquire o sentido no nome as três consignas fundamentais nal tem gerado uma intensa participação
preventivo de garantir que Nunca Más se re- daqueles organismos. da República Argentina em múltiplos fo-
pitam em nosso país tragédias semelhantes. Finalmente, como corolário da apro- ros internacionais relacionados aos direi-
Finalmente, o próprio Estado tem as- priação desde 2003 dos objetivos de me- tos humanos e a inclusão em nossa legis-
sumido sua responsabilidade nas viola- mória, verdade e justiça, o Estado Nacional lação – com hierarquia constitucional – de
ções cometidas e, em consequência, seu tem assumido a reparação como meta. um corpo vinculante de tratados e decla-
compromisso com a preservação da me- Portanto, se ditaram novas leis reparató- rações sobre a matéria. Hoje, a Argentina
mória. A inclusão da temática dos direi- rias2 que procuraram ressarcir pecuniaria- exerce posição reconhecida na comuni-
tos humanos nos conteúdos educativos mente vítimas da repressão ilegal. dade internacional que coloca sobre nós
e a proliferação de manifestações artísti- a responsabilidade de promover e prote-
cas e atos públicos referidos à preservação ————— ger os direitos humanos em nosso país e
da memória são evidência da importância no mundo.  — J
da questão na agenda política argentina. Apresentamos nesse artigo como surgi-
A República Argentina, converteu-se, as- ram as demandas de verdade, justiça e me-
sim, em um dos poucos países do mundo mória, e como elas passaram a integrar a
que aceitam ter perpetrado um genocídio agenda política argentina. Evidentemente,
contra sua própria população. os avanços nos distintos âmbitos estão re-
Especialmente após a chegada de lacionados e não se produziram em ordem
Néstor Kirchner à Presidência da Nação cronológica.
em 2003, o Governo assumiu como pró- A justiça tem sido concebida como o pi-
prios tanto o relato construído pelos or- lar principal do longo processo de repara-
ganismos de direitos humanos quanto as ção. Mesmo quando a resposta nos tribu- * Lucila Caviglia é diplomata argentina,
demandas de verdade, justiça e memória, nais foi limitada, em um primeiro momento, aluna da Turma 2012-2014 do Instituto
às quais nos temos referido. a verdade foi progressivamente conhecida Rio Branco. Todas as opiniões apresen-
Nesse sentido, o presidente Kirchner graças à ação de organizações de direitos tadas neste artigo são feitas em caráter
promoveu a declaração de nulidade, por pessoal e não representam, em nenhu-
parte do Congresso da Nação, das leis de 2  Referimo-nos à Lei 25.914 de 2004 e à ma hipótese, as posições do governo ar-
Obediência Devida e Ponto Final, o que Lei 25.564 de 2009. gentino a respeito da matéria.
dossiê

DIPLOMACIA
PÚBLICA NO BRASIL
texto César Yip, Luiz de Andrade Filho e Pedro Tiê Candido Souza
ilustrações Clara Meliande e Rafael Alves 28

Cada vez mais demandado,


o Itamaraty tem nas ações de
Diplomacia Pública a oportunidade
de aperfeiçoar suas estratégias de
inserção internacional e fortalecer
o interesse nacional

A ideia de Diplomacia Pública passou a ser es- Brasil no exterior, mas principalmente a um objetivo de
tudada quando, em 1965, o diplomata americano maior abertura do Itamaraty à sociedade civil, em um
Edmund A. Gullion inaugurou o Edward R. Murrow contexto de democratização das instituições nacionais.
Center of Public Diplomacy, na tradicional Fletcher A primeira referência nacional à ideia de Diplomacia
School of Law and Diplomacy. O conceito foi utilizado Pública reproduzia, contudo, a definição restritiva
para legitimar a atuação da United States Information dos estadunidenses. Em 1969, o Embaixador Geraldo
Agency e tinha como objetivo trabalhar a imagem dos Eulálio do Nascimento e Silva descreveu a ação de
Estados Unidos no exterior, no contexto da disputa Diplomacia Pública como “manter a opinião pública
mundial por mentes e corações durante a Guerra Fria. estrangeira devidamente informada das linhas mestras
Desde então, o conceito de Diplomacia Pública tem de sua política exterior, a ser apresentada de maneira
sido objeto de diversas interpretações. Ainda assim, a captar a sua simpatia.” A definição do Embaixador é
permanece, na prática diplomática da maioria dos pa- sintomática de sua época: era reduzido o interesse da
íses, a referência a um conjunto de atividades desti- grande maioria da população brasileira pelos assuntos
nadas a cultivar a imagem do país no exterior e a in- de política externa, resultando em menor participação
fluenciar o público estrangeiro. social na sua formulação e, portanto, menor necessi-
Não é dessa forma, no entanto, que o Ministério dade de se prestar informações ao público interno. Da
das Relações Exteriores entende a ideia de Diplomacia mesma forma, em oposição à opinião pública estran-
Pública. O conceito brasileiro de Diplomacia Pública geira, a opinião pública nacional não era vista como um
está ligado não somente à promoção da imagem do recurso que merecesse a mesma atenção.
dossiê

Essa situação mudou. Nos últimos anos, A opinião pública externa como alvo da civil, e sua participação na formulação e
transparência e participação tornaram-se Diplomacia Pública já foi objeto de diversos execução de políticas públicas. Trata-se de
princípios fundamentais das políticas pú- estudos no Itamaraty. Em 1983, em sua tese uma grande mudança: de uma relação indi-
blicas brasileiras, inclusive a política ex- de CAE, o Embaixador Samuel Pinheiro reta e vertical do Ministério com a socieda-
terna. A sociedade tem demonstrado mais Guimarães fazia propostas de “atuação do de civil, há hoje um esforço de comunica-
interesse pelos temas internacionais e vem Ministério das Relações Exteriores sobre a ção direta e inclusão no processo decisório.
demandando mais informação e maior formação do aparelho e das visões interna- Esse salto decorre de uma necessidade e de
participação ao Itamaraty. Ao incluir o pú- cionais assim como sobre os fluxos de infor- uma percepção de que as pautas e priori-
blico interno como interlocutor das ações mação”, com vistas a gerar uma visão exter- dades dos órgãos de imprensa não são, ne-
de Diplomacia Pública, entretanto, o que na autônoma e livre de estereótipos sobre cessariamente, as prioridades de divulga-
muda não é somente o público-alvo, mas o Brasil. Mais recentemente, já usando ex- ção do Itamaraty.
o próprio objetivo da comunicação. Passa- plicitamente o termo Diplomacia Pública, Para o Porta-Voz do Itamaraty, essa ini-
se da finalidade de propaganda e divulga- o Ministro Nilo Barroso também trata da ciativa de aproximação da sociedade ci-
ção para o objetivo de democratização e imagem do Brasil no exterior e do “esfor- vil visa, por um lado, a aumentar a trans-
transparência. ço para tentar convencer e influenciar au- parência do Ministério, e, por outro, a
É curioso que essa adaptação concei- diências estrangeiras.” aprimorar a sua imagem. Segundo ele, é
tual tenha ocorrido de forma tão natural. No contexto atual, entretanto, não é necessário apresentar à sociedade o dia-a-
De fato, não houve questionamento quan- somente a opinião pública externa que -dia dos diplomatas brasileiros, tanto em
to a um possível mau uso do conceito de interessa à Diplomacia Pública. Como ór- Brasília quanto em Postos no exterior, de
Diplomacia Pública. A necessidade e o ob- gão político, o MRE participa de disputas forma a desmistificar estereótipos de um
jetivo de democratização são tão evidentes internas e internacionais, e, por isso, pre- corpo diplomático elitizado e desvincula-
no Brasil que a ideia de Diplomacia Pública cisa divulgar suas atividades e defender do da realidade nacional.
é facilmente traduzida pelos diplomatas suas perspectivas.
brasileiros em iniciativas de transparência Para esse fim, conta há muito tempo Mídias sociais
e inclusão, e não somente de promoção da com forte relação com veículos de comu- O uso de mídias sociais é uma das formas
imagem do país no exterior. nicação e jornalistas. Essa vertente foi ana- de contato direto com a sociedade civil. As
Essa ressignificação evidencia como a lisada pelo Ministro Rodrigo Baena Soares, redes sociais são um fenômeno distintivo
mudança da mentalidade institucional para que, em sua tese de CAE, “Política externa do século XXI. Na medida em que pro-
uma maior abertura à sociedade civil ainda e mídia em um Estado democrático”, tra- movem contatos entre seus integrantes
é processo em curso. Em outros países, seja tou da incorporação da mídia à agenda da sem a necessidade de quaisquer interme-
porque a transparência já é prática corrente, política externa. Atualmente, como forma diários, as redes sociais são ferramentas
seja porque ainda não existe essa demanda, de reforçar esse vínculo, tanto o Ministro abrangentes e democráticas. Com seu as-
a Diplomacia Pública não assume essa fei- de Estado, Embaixador Luiz Alberto pecto de autogestão e com a possibilida-
ção. É no contexto da transição e da demo- Figueiredo Machado, como o Porta-Voz de de atualizações em tempo real, esses
cratização das instituições brasileiras que do Itamaraty, Embaixador Nelson Antonio sistemas ensejam o intercâmbio social e o
essa atribuição de significado faz sentido. Tabajara, têm buscado ampliar os encon- compartilhamento de informações, além
tros regulares com jornalistas e formado- de facilitar a comunicação de massas. Ao
Diplomacia Pública em três tempos res de opinião de diversos meios de comu- criar um perfil em uma rede social, é pos-
Em sua tese do Curso de Altos Estudos nicação nacionais e estrangeiros. sível difundir informações, fotos e vídeos
(CAE), o Conselheiro Marco Antonio A novidade do atual processo democrá- para usuários que podem encontrar pes-
Nakata identifica três públicos-alvo da tico, entretanto, é que não basta se comuni- soas ou instituições conhecidas e interagir
Diplomacia Pública brasileira: a opinião car com a sociedade por meio da imprensa. com elas de maneira instantânea.
pública externa, a imprensa e a socieda- A Diplomacia Pública atualmente obriga Diante disso, as redes sociais cons-
de civil brasileira. também o contato direto com a sociedade tituem importante instrumento para a
30

interação entre a sociedade e o governo. A interlocução dos Postos no exterior com os O público-alvo dos perfis de Embai­xadas
presença de órgãos governamentais (e, na- brasileiros residentes nesses países e com e de Delegações é principalmente a comu-
turalmente, de chancelarias) em redes so- as respectivas comunidades locais. Ao per- nidade local, com o objetivo de promover a
ciais é cada vez maior. Ciente da necessi- ceberem a eficácia e a capacidade de res- imagem do Brasil, por meio da divulgação
dade de prestar contas à população e de postas imediatas das redes sociais, diver- de eventos culturais, datas festivas e notícias.
manter um diálogo fluido com a socieda- sas Embaixadas, Consulados e Delegações Os Consulados, ademais, utilizam as redes
de civil, o Itamaraty está presente em di- criaram, de maneira espontânea, perfis em sociais como veículo de atendimento às co-
versas redes sociais. redes sociais. Diante disso e com o obje- munidades brasileiras. Independentemente
O primeiro perfil institucional do tivo de subsidiar a Secretaria de Estado de qual seja o tipo de trabalho, o público-al-
Itamaraty foi criado, em 2009, no YouTube na elaboração de estratégia para a utiliza- vo ou o idioma das publicações, o Facebook
(atualmente o maior arquivo audiovisual ção das mídias sociais pelos Postos no ex- tornou-se o principal meio de divulgação
do mundo), com o intuito de divulgar cole- terior como instrumentos de Diplomacia das atividades de diversos Postos.
tivas de imprensa, entrevistas do Ministro Pública, o Itamaraty consultou toda sua Além da criação de perfis próprios, al-
de Estado das Relações Exteriores e de rede de Postos para realizar uma espécie guns Postos têm adotado outras inicia-
outros diplomatas, sobretudo da alta che- de censo acerca desses perfis. tivas com relação às mídias sociais. A
fia, declarações oficiais e programas do Até o fechamento desta edição, 214 dos Embaixada do Brasil em Londres, por
governo. No mesmo ano, foi criado o ál- 227 Postos no exterior haviam respondido exemplo, organizou, em 23 de janeiro de
bum no Flickr, para publicar fotos ofi- à enquete que solicitava informações re- 2014, debate temático sobre mídias so-
ciais em alta resolução. Ainda em 2009, lativas à utilização de perfis em redes so- ciais em parceria com a dpaal (Diplomatic
o Itamaraty decidiu criar uma conta no ciais. Dos 214 Postos que responderam ao Press Attachés’ Association) e o London
microblog Twitter, para divulgação au- censo, 103 utilizam mídias sociais para di- Press Club. O evento, que contou com a
tomática de ‘links’ para notas à imprensa, vulgar suas atividades. Alguns deles che- participação de mais de 100 pessoas, ana-
discursos de autoridades do Ministério, ví- gam a ter perfis em duas ou mais redes lisou a incorporação de ferramentas como
deos incluídos no canal do Itamaraty no sociais. O mecanismo mais utilizado é o o Twitter à arena diplomática e a sua uti-
YouTube, avisos às redações e demais atu- Facebook (100 Postos), seguido do Twitter lização por diversas Embaixadas.
alizações relacionadas à atuação do MRE. (15 Postos).
Em 2010, foi a vez de o Facebook receber Em termos de idiomas, 31 Postos utili- Avançando a Diplomacia
uma página institucional do Itamaraty. zam exclusivamente a língua portuguesa, Pública no Brasil
Atualmente, o Ministério também man- 8 utilizam somente a língua local, e 64 uti- A partir do exposto, verifica-se o grande
tém o blog “Diplomacia Pública” e um ser- lizam ambas. Aproximadamente 70% dos potencial da Diplomacia Pública em am-
viço de “feed” RSS, sistema que permite ao Postos que utilizam mídias sociais desig- pliar a participação social e fortalecer o
usuário receber atualizações de diversos nam funcionário específico para essa ati- uso da política externa como instrumen-
sites sem precisar visitá-los um a um. O vidade. Cerca de 90% dos Postos avalia- to efetivo de promoção tanto do bem-estar
saldo dessa atuação nas redes sociais tem- ram como positiva a utilização das redes da população, como do interesse nacional.
-se mostrado positivo: de acordo com o es- sociais, destacando a facilidade de estabe- Há, pelo menos, três motivos para que se
tudo Twiplomacy, a conta @MREBRASIL lecer contato com o público local, com a aprofundem as estratégias de Diplomacia
figurava, em 2013, entre os perfis das 20 comunidade brasileira e com jornalistas; a Pública no Itamaraty. Primeiramente, é
diplomacias com mais seguidores na rede. rápida difusão das mensagens por meio de preciso que o cidadão melhor compreen-
Além dos perfis institucionais do compartilhamentos dos usuários; a possi- da a função da política externa no contex-
Itamaraty, diversos Postos no exterior bilidade de acompanhar a repercussão da to da capacidade de resposta do Estado
criaram perfis próprios. A dinâmica de in- divulgação, por meio de comentários e da às demandas individuais e coletivas. Para
teração propiciada pelas redes sociais não sinalização “curtir”; o estabelecimento de tanto, os instrumentos de Diplomacia
só promove o contato entre o Ministério e canal direto e rápido para respostas a dú- Pública, como as mídias sociais, os deba-
a sociedade civil brasileira, mas beneficia a vidas e atendimento ao público em geral. tes acadêmicos e as consultas à sociedade
dossiê

civil, devem ter presente o desafio de tra- e da viabilidade de discussões interativas. à Informação (LAI). Sancionada em 2011,
duzir estratégias e formulações complexas Para Sen, a democracia atual transita para a LAI consolida as expectativas sociais de
em objetivos simples e claros. ser julgada não apenas do ponto de vis- direito à informação e operacionaliza os
Além disso, por meio da Diplomacia ta das instituições que a apoiam, mas pe- demais direitos civis e políticos contidos
Pública, a sociedade poderá perceber a im- las distintas vozes da sociedade que dela da Constituição Federal. Desde o início da
portância de o Brasil obter maior protago- se beneficiam, se puderem ser ouvidas. vigência da LAI até o fechamento desta
nismo nas decisões mundiais, por meio da Os dois instrumentos de democratização edição, somavam-se 1253 pedidos de infor-
participação ativa em foros e organizações apontados por Sen parecem relevantes mação ao Itamaraty, por meio do Sistema
multilaterais e da ampliação dos contatos para indicar caminhos para Diplomacia Eletrônico do Serviço de Informação ao
bilaterais. Ainda que questões como a re- Pública brasileira. Cidadão (e-SIC), dos quais 1210 haviam
forma das instituições de governança in- A política externa aberta requer, ao sido respondidos no prazo, em uma média
ternacional e a ampliação dos fluxos de mesmo tempo, a disseminação, proativa de 20,69 dias. Para os pedidos recebidos,
comércio, atualmente, interessem mais às e reativa, dos posicionamentos, procedi- 56,85% tiverem seus acessos concedidos.
elites intelectuais e econômicas, os maio- mentos e resultados da ação diplomática, As negativas são justificadas, sobretudo,
res níveis de instrução que deverão ser assim como a incorporação efetiva da con- quando se requer tratamento adicional
alcançados por cidadãos brasileiros, nos tribuição cidadã. Expande-se, como resul- de dados (82,42% das negativas) ou quan-
próximos anos, bem como a expansão do tado, a concepção tradicional de uma po- do se trata de pedidos genéricos (6,88%),
alcance das tecnologias de comunicação, lítica externa amparada, mormente, pela de informações sigilosas (4,51%), de pe-
incluindo as já citadas redes sociais, pode- excelência do corpo diplomático brasilei- didos desproporcionais ou desarrazo-
rão ensejar o aumento do interesse social ro, para aquela em que se atribuiu o devido ados (3,56%)  ou de dados pessoais de
pelas questões de política externa. valor à contribuição da sociedade. servidores (1,42%). 
Por fim, a Diplomacia Pública poderá O acesso, por cidadãos brasileiros, a No que diz respeito à promoção de
contribuir para que se obtenha maior res- informações produzidas e circuladas no contatos próximos e regulares com a so-
paldo para ação externa do Brasil, já que a Itamaraty foi facilitado pela Lei de Acesso ciedade civil – brasileira, mas também
atuação do Itamaraty estaria amparada por
um número cada vez maior de indivíduos
que compreendem, contribuem e questio-
nam os seus meios e resultados. Trata-se, Modelo multissetorial de governança digital
portanto, de oportunidade de ampliar a base
de apoio das ações e ideias de política exter- “Em 1995, com a criação do Comitê Gestor da
na e de multiplicar as oportunidades de co- Internet (CGI.br), o Brasil adotou um modelo mul-
municação e conexões com uma sociedade tissetorial de governança da Internet, fórmula úni-
que atua, cada vez mais, por meio de redes. ca no mundo até hoje. O CGI.br, responsável por
Não restam dúvidas de que o tema é coordenar as atribuições de endereços IPs nacio-
prioritário para o Itamaraty. O desafio que nais e de nomes de domínios ‘.br’ e pela definição
se coloca é menos o “se”, e mais o “como” de diretrizes estratégicas para o desenvolvimen-
obter diálogo profícuo e mutuamente be- to da Internet no Brasil, é composto por membros
néfico com a sociedade civil. do Governo, do setor empresarial, do terceiro se-
Em um de seus mais recentes livros, in- tor e da comunidade acadêmica, todos com igual
titulado A ideia de justiça, o economista poder de decisão.”
laureado com Prêmio Nobel Amartya Sen
defende que é possível aprofundar o de-
bate democrático por meio do aperfeiço-
amento da disponibilidade informacional
32

estrangeira – há espaço para ampliação —————


e aperfeiçoamento. Julgamos apropriado
perguntar a representantes de ONGs, de A adoção da Diplomacia Pública no Brasil
movimentos sociais, do setor privado e da deve ser compreendida na lógica do proces-
comunidade acadêmica brasileira (alguns so mais amplo de amadurecimento demo-
dos quais já possuem histórico de diálogo crático do país. Esse processo não se esgota
com o Itamaraty) sobre quais passos pode- com a criação de uma estrutura institucio-
riam ser dados no sentido de aprimorar o nal para tanto, mas depende, principalmen-
diálogo sobre política externa. Ainda que te, de uma mudança de cultura. Por mais de
reconheçamos que o pequeno grupo de um século, o Itamaraty esteve acostumado a
dez representantes consultados (manti- lidar com um círculo restrito de pessoas in-
dos anônimos, no questionário eletrôni- teressadas por temas internacionais. Agora,
co utilizado) esteja longe de refletir con- vai aprendendo a lidar com as multidões das
senso, é possível identificar alguns pontos ruas, que marcham às suas portas.
de convergência, a partir das perguntas e Nesse contexto, a participação direta
pedidos de sugestões propostos. da sociedade civil deve ser vista não como
Entre as demandas recorrentes, esteve a um ônus, mas como fonte do poder brasi-
demanda por diálogo mais estruturado e re- leiro. Exemplo disso é o debate sobre a go-
gular, sobretudo no começo da formulação vernança da Internet. Graças ao modelo
de posicionamentos sobre os temas de polí- multissetorial de governança digital, com leia mais
tica externa, e por maior uniformidade dos ampla participação social, o Brasil foi al-
baena soares, Rodrigo de Lima.
canais de diálogo com as unidades que com- çado à posição de líder nos debates mun-
Política externa e mídia em um
põem o Itamaraty. Alguns sugerem a utili- diais sobre o tema. Em outras palavras, a
Estado democrático: O caso brasi-
zação de “briefings” semanais à imprensa e participação social traduziu-se em lide-
leiro. li cae. 2007.
de boletins informativos eletrônicos regu- rança para o país.
lares como instrumento proativo de infor- Em síntese, diríamos que o maior in- barroso neto, Nilo. Diplomacia
mação. Destacam, no entanto, que é pre- teresse por temas internacionais resulta pública: conceitos e sugestões para
ciso transitar da pura divulgação de ações em maior participação da sociedade ci- a promoção da imagem do Brasil
para a coleta de insumos, e que o diálogo é vil na elaboração da política externa, as- no exterior. li cae. 2007.
muitas vezes dificultado pelo desconheci- sim como a concepção de política exter-
guimarães neto, Samuel
mento mútuo. Um mapeamento das opor- na como política pública resulta em maior
Pinheiro. O impacto das imagens
tunidades de inserção da sociedade civil na transparência do Itamaraty. No mundo
dos países nas relações internacio-
formulação e execução da política externa atual, informação é poder. A recepção, a
nais. vii cae. 1983.
– o que tem sido tentado, por exemplo, por difusão e acompanhamento de sua circu-
meio da iniciativa “Diálogos sobre Política lação são recursos poderosos para o Brasil nascimento e silva, Geraldo
Externa” – constitui passo importante, as- e para o Itamaraty. A Diplomacia Pública, Eulálio do. Diplomacia e Protocolo.
sim como análise da experiência de chan- portanto, é instrumento valioso para pro- Rio de Janeiro: Record. 1969.
celarias de outras democracias. A diploma- moção dos interesses nacionais..  — J
nakata, Marco Antonio. A Mídia
cia moderna, para que alcance resultados
Digital como instrumento de
ambiciosos, deve ser capaz de ultrapassar
Diplomacia Pública. lviii cae. 2013.
as fronteiras estritamente governamentais,
de forma a criar vínculos duradouros com sen, Amartya. A ideia de Justiça.
a sociedade e a fazer uso efetivo das redes São Paulo: Companhia das Letras,
de ação nacionais e globais. 2011.
entrevistas

Entrevista com o Ministro


de Estado das Relações Exteriores
Embaixador Luiz Alberto
Figueiredo Machado

por Andrezza Barbosa,


Bruno Quadros e Quadros,
Laura Delamonica e
Lucianara Andrade Fonseca
foto Ana de Oliveira/aig-mre 34

juca Qual é, na opinião do Senhor, o Mas sem dúvida o Brasil, por todos os grandes e que se destacam em seus con-
perfil internacional do Brasil hoje e títulos, é também muito próximo da África. tinentes pelo peso de suas economias ou
qual deve ser o perfil que devemos bus- Temos um perfil que nos leva inexoravel- mesmo pelo tamanho geográfico, e países
car no futuro? mente também a uma projeção nas rela- que têm desafios semelhantes a enfrentar
ministro de estado É muito interessante ções com o continente africano, que são e que têm interesse em conversar e buscar
falar sobre o perfil do Brasil, porque é sem- relações cada vez mais densas. E esses úl- uma atuação conjunta sempre que possí-
pre algo muito dinâmico. Você tem perfis timos anos abrimos um número importan- vel. São, hoje em dia, inevitavelmente, os
que evoluem com o tempo, então o perfil te de embaixadas na África: quando entrei verdadeiros motores da economia mundial,
que nós temos hoje sempre visa a um per- na carreira, eram pouquíssimas; hoje em ou, pelo menos, motores incontornáveis
fil futuro. Especialmente no nosso caso: o dia, é um numero que já atende as neces- da economia mundial, sem os quais ela
Brasil, país emergente – como se fala –, que sidades da nossa política externa na África. não funcionaria. E, portanto, somos par-
na última década teve um desenvolvimento Sem dúvida – aí eu estou tendo uma te desse grupo. Há também outros grupos,
econômico importantíssimo, uma inclusão organização mental de vizinhanças –, eu como o BASIC (Brasil, África do Sul, Índia
social fantástica e (aí fala um pouco o lado não quero dizer com isso que as nossas re- e China), no caso das negociações de mu-
do diplomata que cuidou dos temas am- lações com os países desenvolvidos – com dança do clima. Mas aí já é um grupo mais
bientais também) uma proteção ambien- os Estados Unidos, por um lado; e com os específico. Quando falei de integração sul-
tal muito robusta, ou seja, nós estamos hoje países da Europa, pelo outro – serão pou- -americana, naturalmente, dei por suben-
de uma forma diferente. É um perfil dife- co importantes. Não, ao contrario: elas são tendido, mas é sempre bom reafirmar a
rente do que era algumas décadas atrás, e densas, são tradicionais e são uma parte importância do Mercosul, da UNASUL e
esse é um perfil que se projeta para o futuro. fundamental do nosso trabalho. da CELAC como instâncias agregadoras.
O que nós temos que ver é a inserção E nós temos um quarto polo, que é a O Mercosul sendo uma importante e fun-
internacional que nós queremos o Brasil Ásia, por todos os títulos. Temos relações damental instância agregadora.
tenha. Primeiramente, sem dúvida algu- muito intensas com o Japão, a China, a Acho que esse é o perfil nosso hoje. É,
ma, a inserção regional. O Brasil é parte da Índia, enfim, e em todos os países da re- seguramente, um perfil em evolução e que
América do Sul, de uma forma muito coesa, gião a presença nossa é forte. E não se sempre busca a melhor inserção possível
e parte de uma América Latina e Caribenha, pode pensar em uma politica externa que para o Brasil nesse mundo que se transfor-
também muito coesa, em que há sempre di- se projete como uma política global sem ma cada vez mais e que se multipolariza.
versidades, mas há uma união dentro dessa uma presença forte no continente asiáti- E, sem dúvida nenhuma, nós temos o que
diversidade, e nós somos ativos promotores co, que responde a interesses econômi- dizer nesse contexto.
disso. Eu costumo dizer que a gente mora cos, comerciais e financeiros importantes, —
em um bairro, e nesse bairro é importante mas também culturais, políticos, em todas Na esteira dessa discussão sobre o per-
que o bairro inteiro funcione, senão a sua as vertentes das relações internacionais. fil e a inserção do Brasil, existem mui-
casa não funcionará. O bairro inteiro tem Eu não posso deixar, nesse contexto do tos conceitos nas relações internacio-
que ter paz, concórdia, segurança e harmo- perfil que vocês perguntaram, de me refe- nais – hard power, soft power e smart
nia entre os vizinhos, luz e comunicações. rir à nossa participação em grupos, como power – para explicar a projeção geo-
Enfim, ou funciona em conjunto como um o G-20, o grupo das mais importantes eco- política dos Estados. Nessa discussão,
bairro ou a sua casa, isoladamente, não fun- nomias do mundo, que superou a lógica do quais conceitos o Senhor considera
cionará. Portanto, essa atividade agregado- G-5, do G-7 e do G-8. Parte-se para um ló- úteis na definição da atuação interna-
ra que nós temos, esse impulso à integração gica de que há atores importantes no mun- cional do Brasil? Qual tipo de poder o
é fundamentalmente um impulso a um de- do dos quais depende o funcionamento da Brasil deve buscar?
senvolvimento coletivo da região. É a no- economia mundial. Isso é um reconheci- Eu respeito muito as classificações clássi-
ção de que todos temos que ir juntos, em mento de uma multipolarização crescente cas de hard power, soft power e smart power,
beneficio de todos nós. Então essa é a pri- no mundo. A nossa inserção no G20 e nos mas acho que temos que encarar a ques-
meira área de inserção do Brasil. BRICS, onde você tem um grupo de países tão de uma outra forma. Qual é a finalidade
entrevistas

maior, fundamental, em termos de relações se tornado mais complexa nas últimas Em relação ao perfil do diplomata,
internacionais, de se obter poder? É obter décadas. Nota-se, por exemplo, a multi- como indivíduo e como servidor pú-
influência internacional junto outros paí- plicação das regras de comércio, a pro- blico, nesse contexto de novos temas
ses. Isso pode ser conseguido de várias for- liferação e a própria especialização dos e nova agenda internacional, que com-
mas. A forma clássica de poder tem a ver organismos internacionais. Isso faz com petências o Senhor acredita terem se
com força armada, a economia, o território: que o Itamaraty tenha que trabalhar tornado necessárias e imprescindíveis
são as bases clássicas de poder que existem cada vez mais com outros Ministérios. para o exercício da diplomacia no sé-
na teoria há muito tempo. Eu, novamente Nesse sentido, em que termos deve se culo XXI?
respeitando todas as definições, vejo que dar essa cooperação com a Esplanada? É uma ótima pergunta. Em primeiro lugar,
devemos buscar sempre a influência – e Ótimo, isso me permite completar a per- todos nós somos pessoas físicas, nascemos
os meios de se obter a influência são vários. gunta anterior. Quando eu falava em in- assim; mas, ao nos tornarmos um funcio-
Um principal, no nosso caso, é o que fluência benéfica e em sermos reconhe- nário público e um diplomata, nós pas-
chamamos de as credenciais que o Brasil cidos como tal, vocês me terão já ouvido samos a ser pessoa jurídica. E temos que
tem: de ser um país amante da paz – em dizer que eu considero que haja uma nova ter um comportamento adequado a esse
paz com seus vizinhos há mais de 140 anos agenda internacional, que tem muito a ver fato. Temos toda uma legislação em vi-
–; um país que não busca se imiscuir nos as- com as conquistas sociais que nós tivemos gor que diz muito claramente como deve
suntos internos de outros países; extrema- nos últimos anos e que atraem os parcei- ser isso, o tipo de comportamento que se
mente respeitoso; democrático; que busca ros de outros países. Eles vêm buscar, no espera, os cuidados que se deve ter, até
sempre o primado do direito e o primado Brasil, exemplos de como é possível ter na vida pessoal, para que isso não se re-
do direito internacional nas relações in- crescimento econômico com inclusão so- flita negativamente na imagem do Brasil.
ternacionais. Enfim, que tem uma postu- cial, porque até algum tempo atrás havia A nossa vida pessoal, em qualquer ponto
ra ética muito clara. uma dicotomia: ou você cresce ou distribui. da carreira, poderá, pelo fato de sermos
E isso nos dá influência. O Brasil é bus- Nós mostramos que é possível crescer dis- funcionários públicos, de sermos diplo-
cado e respeitado por essa ação coerente tribuindo. E a distribuição ajuda a crescer. matas, repercutir negativamente na ima-
da política externa brasileira ao longo das É um círculo virtuoso. E isso é algo que nos gem do próprio País. Então, esse é um cui-
muitas décadas. Isso nos dá um capital di- projeta internacionalmente. Ora, isso não dado, numa época de comunicações, de
plomático importantíssimo, que é um ca- é algo feito no Itamaraty ou pelo Itamaraty. novos meios, que todos nós devemos ter.
pital de política externa, de ser capaz de Isso é feito pelo conjunto do Governo, por- São desafios novos. A exposição que uma
atingir objetivos de política externa me- tanto pela Esplanada também. Daí, porque, pessoa tem hoje é muito maior do que a
diante um conceito que eu não chamaria entrando diretamente na pergunta, a nossa exposição que alguém poderia ter trinta
de poder, mas sim de capacidade de in- relação com a Esplanada tem que ser abso- anos atrás. Não havia Facebook, não ha-
fluenciar no bom sentido e, por ser reco- lutamente estreita, porque nós somos re- via Twitter, não havia e-mails. Isso já nos
nhecido que é no bom sentido, é que nós presentantes de um Governo e de um País. obriga a ter certos cuidados que antes, tal-
temos essa capacidade de influenciar. Como tal, nós temos que trabalhar em ab- vez, não fossem tão necessários assim, por
É claro que eu não minimizarei ja­ soluta harmonia e coordenação com os de- essa exposição que todas as pessoas, as
mais o tamanho do país, o tamanho da mais Órgãos públicos. Sem isso, o trabalho pessoas físicas, passaram a ter atualmente.
economia do país e o tamanho das tradi­ de projetar o País no exterior fica prati- Só que, além de físicas nós também somos
ções democráticas. Tudo isso é parte desse camente impossível. Eu tenho dito sem- pessoas jurídicas. Isso torna tudo mais
quadro, mas é um quadro que eu vejo pre e repetirei: é uma parte fundamental complexo. Além disso, o diplomata, hoje,
como de influência benéfica, e não um do meu trabalho, da minha função, como cada vez mais, deve conhecer tecnicamen-
quadro de poder. Ministro de Estado, buscar cada vez mais te os temas de que cuida. Por exemplo, se
— uma integração perfeita com os demais ele se dedica a uma área de comércio in-
Queremos abordar na próxima pergun- Órgãos públicos, senão o nosso trabalho ternacional, é importantíssimo, é funda-
ta o fato de a agenda internacional ter é impossível. mental que ele conheça a fundo as regras

36

Uma próxima pergunta é exatamente existe uma legislação que diz que se você
Nossa relação com a nessa linha da atualização constante do não se comportar com urbanidade com
Esplanada tem que ser diplomata, vemos hoje uma série de no- um colega, com um subalterno, com um
vos temas sendo debatidos: cibernéti- chefe, você será punido, porque é o que a
absolutamente estreita, ca, ao papel das mulheres em temas de lei diz. Mas, muito mais do que uma cul-
porque nós somos paz e segurança, a questão dos direitos tura de ameaça pela lei, nós temos que ter
sexuais e reprodutivos. Gostaríamos de uma cultura de propagação de maneiras
representantes de um saber como o Senhor vê a inserção do de relacionamento respeitosas, urbanas e
Governo e de um País. — Itamaraty frente a esses novos temas e republicanas. Isso também faz parte des-
como o diplomata, com esse perfil que o ses debates que temos que ter, do respei-
senhor acabou de descrever, pode con- to à diversidade, do respeito às minorias,
tribuir para que o Brasil tenha um pa- do profundo respeito como característi-
de comércio internacional. E eu não vou pel proeminente nesses debates? cas que têm que prevalecer no Itamaraty.
entrar naquela velha discussão “especiali- Como eu disse antes, entendo que haja —
zação” versus “generalização”, porque eu uma nova agenda internacional, que inclui Nossa última pergunta é sobre as mani-
acho que isso é algo que se deve superar esses temas que você mencionou e para festações de junho do ano passado. O se-
com a fusão das duas coisas. Nós temos os quais temos de estar preparados como nhor poderia dizer-nos, em termos ge-
que ter uma visão geral, temos que ler po- profissionais e como instituição. Isso quer rais, quais ensinamentos o Itamaraty
lítica externa, conhecer política externa, dizer que temos que nos atualizar constan- poderia extrair desses episódios?
discutir política externa, as grandes linhas, temente, temos que ter a agilidade de res- Em termos de política externa, repercu-
temos que permanentemente nos atuali- posta a esses novos desafios e temas. Para tiu, extraordinariamente, a reação que
zar em política externa. É muito comum tanto, estou buscando, pouco a pouco, em o Governo teve às manifestações do ano
se ver médico que lê sem parar os novos consonância com a Direção do Instituto passado: a serenidade, a disposição da
artigos médicos, porque isso é importan- Rio Branco, introduzir até mesmo altera- Presidenta da República de ouvir as ruas,
te para o trabalho dele. Advogados fazem ções no currículo que possam levar a um a compreensão profunda e democrática
o mesmo com relação a novas teorias de aprimoramento nessas áreas novas. É cla- de que o ato de manifestar-se é um direi-
direito. Nós temos a obrigação de fazer o ro que não podem ser feitas alterações de to democrático que estava sendo exercido.
mesmo: estudar sempre, aperfeiçoarmo- chofre, tem que haver uma evolução; são Obviamente, todos repudiarão a violência,
-nos sempre, tanto no plano do genera- tendências importantes que devem ser ins- e houve infiltração de violência, o que tem
lismo, quanto no plano da especialidade tituídas e eu estou debruçado sobre esse de ser canalizado em termos policiais. Mas
de que estamos cuidando naquele instan- assunto. Por exemplo, há, além das áre- eu recebi reações extremamente positi-
te. Então, esse perfil, sobre o qual alguém as que vocês mencionou como importan- vas de colegas chanceleres dizendo que o
poderia dizer “é um perfil mais técnico”; tes, outra área que julgo importantíssima, Brasil soube lidar com as reivindicações de
sim, é um perfil técnico do diplomata. O que é a de gestão, não só administrativa, uma maneira extraordinariamente demo-
diplomata é isto: é alguém que entende mas a de pessoas. Há a compreensão de crática e republicana. Isso me deixa sem-
de política externa, que é capaz de arti- que estamos em um corpo, em uma insti- pre, como cidadão brasileiro e como mem-
cular um pensamento coerente sobre te- tuição com relacionamentos humanos. O bro do Governo, muito feliz.  — J
mas de política externa, fazer uma análise que é chefiar? Como é ter uma relação ade-
política – isso é fundamental, nós somos quada com os colegas, com os subalternos,
analistas políticos – e, ao mesmo tempo, com os chefes? Isso é algo que também
temos que conhecer os fatos, porque vi- se aprende na escola, porque há técnicas
vemos dos fatos, das informações. E a in- sobre isso. Eu quero que haja um perfei-
formação quer dizer, mesmo, as questões to entendimento do diplomata que está
mais técnicas. se formando, nos primeiros anos, de que

entrevistas

ESPECIAL

BRASILEIROS NO
MULTILATERALISMO
por Andrezza Barbosa, Bruno Quadros e Quadros,
Laura Delamonica e Lucianara Andrade Fonseca

O que têm em comum pessoas com formações tão distin-


tas como a agronomia, a diplomacia, o direito, a engenha-
ria e o jornalismo? Ao buscar traçar o perfil dos “Brasileiros no
Multilateralismo”, nos deparamos com as diferentes trajetó-
rias dos entrevistados, os quais compartilham o fato de haverem
exercido, ou estarem exercendo, de maneira independente, im-
portantes funções em organismos internacionais, nas mais distin-
tas áreas: desenvolvimento social, paz e segurança, direito inter-
nacional, comércio e direitos humanos. A independência funcional
inerente aos cargos de comando de organizações internacionais
significa que os “Brasileiros no Multilateralismo” não estão mais
representando o País no desempenho de suas responsabilidades.
No entanto, pergunta-se: que contribuições específicas pode um(a)
brasileiro(a) dar para o multilateralismo? Por meio dessa e de ou-
tras questões, retratamos a atuação dos entrevistados nos meca-
nismos de governança global. Acabou-se revelando, também, um
pouco do perfil do País no mundo.
foto Embaixada do Brasil em Paris 38

Branco, tive a oportunidade de fazer es-


tágio na Divisão das Nações Unidas, ex-
periência que considero das mais relevan-
tes em minha formação e que determinou,
em grande parte, o curso de minha carrei-
ra. Foi um privilégio conviver desde tão
cedo com a maioria dos chefes da Casa, e
com eles aprendi enormemente. A hierar-
quia, que sempre foi fundamental, conju-
gava autoridade e responsabilidade, em um
sistema de democracia colegiada. Nesse
contexto, meu diálogo de jovem diploma-
ta com os chefes da Casa era não apenas
possível, como encorajado. Mais adiante,
quando voltei a trabalhar no Departamento
de Organismos Internacionais, beneficiei-
-me do contato profissional com os che-

Embaixador José
fes de outros departamentos importan-
tes, como os Embaixadores Italo Zappa e

Mauricio Bustani Pereira de Araújo.


Outra dimensão da minha formação do
Diretor-Geral da Organização para a Proibição de diplomata que considero de grande impor-
Armas Químicas, OPAQ (1997-2002) tância foi o aprendizado de idiomas estran-
geiros. Nesse particular, nossa formação
teve padrão elevado, com ampla exposi-
ção a vocabulário sofisticado de uso oficial.
O conhecimento de idiomas permitiu-me
interagir e comunicar-me com desenvoltu-
ra, segurança e um máximo de precisão à
mesa de negociação, onde o mau emprego
juca Como a experiência no Instituto entre outras, as aulas do Embaixador de um termo pode determinar o malogro de
Rio Branco contribuiu para a sua for- Alberto da Costa e Silva, nas quais me fo- um exercício. Por interesse próprio, estu-
mação diplomática? ram passadas noções de que até hoje me dei o russo, que me foi útil na então União
bustani Ingressei no Instituto Rio Branco valho. Além de me ter dado maior segu- Soviética e também na onu. No meu perí-
na década de 1960, ainda no Rio de Janeiro. rança no desempenho das funções, essa in- odo em Nova Iorque, o fato de falar inglês,
Tive grandes professores, entre os quais teração com os colegas já experientes que francês, espanhol e russo capacitou-me a
alguns diplomatas, os quais, mais além do me introduziam ao “exercício da carreira” coordenar tarefas, e fui por isso frequente-
ensino de sua matéria específica, trans- abriu-me o leque de temas substantivos de mente chamado a presidir reuniões. Os des-
mitiam-nos conhecimento acerca do fun- que tratava o Itamaraty no dia-a-dia, o que dobramentos recentes nas relações inter-
cionamento do Ministério e do trabalho me permitiu, por exemplo, melhor direcio- nacionais e a interação crescente do Brasil
diplomático propriamente dito, tanto na nar minhas leituras. com outros grandes atores do mundo em
Secretaria de Estado como no exterior, O contato com os profissionais mais ex- desenvolvimento devem servir de inspi-
buscando familiarizar-nos com as rotinas perientes constitui elemento importante ração e incentivo para que os diplomatas
e os desafios do ofício. Não posso esquecer, na minha formação. Ainda aluno do Rio brasileiros aprendam idiomas como árabe,
entrevistas

mandarim e russo, além do espanhol que O episódio que culminou na sua sa- menos na manutenção do cargo e mais
já é ensinado no curso regular. ída da opaq demonstrou a pressão no futuro da organização e do multila-
— política exercida pelos grandes fi- teralismo. Tentei, não fui bem sucedido
Há alguma personalidade, brasileira ou nanciadores de organizações interna- na minha experiência, mas talvez o meu
estrangeira, na qual o Senhor tenha se cionais. O Tribunal Administrativo da caso e a sentença proferida pelo Tribunal
inspirado para buscar a realização de Organização Internacional do Trabalho da oit tenham servido de alerta aos atu-
seus projetos profissionais? (OIT) considerou ilegal seu afastamen- ais dgs, ao mesmo tempo dando-lhes a
Logo que entrei para o Itamaraty, tive to, reafirmando o princípio da indepen- segurança de que não serão facilmente
a oportunidade de trabalhar com o dência dos chefes de organismos inter- objeto de uma investida como a que so-
Embaixador Ramiro Saraiva Guerreiro, nacionais. Tendo isso em vista, como fri. Foi uma experiência que nem os eua
então Secretário-Geral Adjunto para garantir os princípios da independên- desejam repetir.
Assuntos de Organismos Internacionais. cia e neutralidade da direção-geral —
O Embaixador Guerreiro foi um chefe di- desses organismos, assim como o da O Senhor acredita ter havido um for-
dático, que me transmitiu entendimento igualdade jurídica entre seus Estados talecimento do multilateralismo desde
profundo do que significava ser diploma- Membros? sua remoção do cargo de Diretor-Geral
ta. Foi um dos maiores profissionais que o Esse episódio ilustra as dificuldades com da opaq em 2002? O Senhor acredita
Itamaraty já teve e, naquele primeiro mo- que as organizações internacionais se de- que uma ação semelhante à daquele ano
mento, terá sido a minha grande fonte de frontam, que têm a ver com o peso político seria possível atualmente?
inspiração, não só pela sua capacidade in- e financeiro das grandes potências. O fato O multilateralismo que nós defendemos
telectual, mas também por sua visão da de que os eua e o Japão, normalmente ali- passa por crises, mas acredito que uma
carreira, seu compromisso com a ques- nhados entre si, contribuam com quase ação semelhante àquela seria hoje mais
tão do Estado, seu profissionalismo e sua 50% do orçamento das organizações inter- difícil. Fui à oit para obter uma definição
vasta cultura. Mais adiante, quando vol- nacionais lhes dá grande influência, além sobre a legalidade do que havia aconteci-
tei depois dos meus dois primeiros pos- de “poder de chantagem” sobre o Diretor- do. Tive, aliás, grande dificuldade em en-
tos no exterior, Guerreiro era Secretário- Geral (DG). No meu caso, a primeira amea- contrar um advogado, em razão inclusive
Geral (sg) e em seguida foi feito Ministro. ça consistia em suspender o pagamento das do ineditismo do caso, pois nenhum dg ha-
Tive, então, outras experiências imensa- contribuições se eu me recusasse a aban- via até então sido afastado. Quero crer que
mente gratificantes, ao trabalhar com os donar minha posição favorável ao ingresso o precedente de minha vitória na oit terá
Embaixadores Carlos Calero Rodrigues e, do Iraque na opaq. A implicação da ame- servido como obstáculo ou desestímulo a
mais adiante, João Clemente Baena Soares. aça americana sobre a saúde financeira da possíveis novas tentativas. Evidentemente,
Enquanto o Embaixador Guerreiro opaq seria devastadora. Decidi lutar até o isso depende também da capacidade de
foi o Secretário-Geral, tivemos também fim. Sabia que teria eventualmente de dei- mobilização dos países. Meu afastamen-
um grande Ministro de Estado, Azeredo xar o cargo, porém não estava disposto a sa- to se deu mais pelas abstenções do que
da Silveira. Alguém com espírito de esta- crificar o futuro e a credibilidade da orga- pelos votos negativos. Se o Brasil tivesse
dista, um articulador que exerceu grande nização apenas pela vaidade de continuar decidido mobilizar formalmente o apoio
influência. De sua posição de Chanceler, na Direção-Geral, o que me teria sido ga- (espontaneamente já existente) dos gru-
Silveira conseguiu estabelecer um diálo- rantido se eu permitisse a ingerência abu- pos latino-americano, africano e asiático,
go, às vezes muito direto, com os diplo- siva dos eua no funcionamento da opaq. eu não teria sido afastado e, sobretudo, o
matas jovens. Segundo-Secretário que eu A melhor maneira de garantir a inde- multilateralismo teria vencido uma gran-
era, tinha a sensação de que, do Gabinete, pendência e a neutralidade da Direção- de batalha. Se o Brasil tivesse agido con-
o Chanceler monitorava o meu trabalho. Geral é cumprir rigorosamente com o forme a orientação histórica de sua polí-
Essa sensação que podia ter um Secretário mandato, com os requisitos de funcio- tica externa, não teríamos perdido essa
da relevância do seu trabalho era sem dú- namento da organização e não se deixar chance de mobilizar forças em defesa do
vida muito estimulante. levar pelas pressões políticas. É pensar multilateralismo.

40

A independência das organizações e Nem a própria delegação americana tinha relevante nos processos de busca do diálo-
a eficácia do sistema multilateral depen- um Embaixador junto à opaq, mas man- go. O caso da crise síria é exemplar, e con-
dem também de outros fatores mais crô- tinha apenas uma representação técnica, firma que, se em 2010 o Iraque tivesse sido
nicos, como a representação no Conselho em nível equivalente ao de Conselheiro; o admitido na organização, as inspeções po-
de Segurança das Nações Unidas (CSNU). Embaixador dos eua vinha de Washington deriam ter esclarecido todas as dúvidas, le-
Enquanto o csnu não for reformado para para as reuniões, o que dificultava o co- gítimas ou não, que serviram de pretexto à
incluir outros agentes importantes, have- nhecimento e o aprofundamento do tra- invasão do país. Os fatos confirmaram pos-
rá dificuldade de equacionar os grandes balho de uma organização que estava co- teriormente que as alegações eram ampla-
problemas em bases que reflitam o espí- meçando a operar. Colocá-la na Haia foi mente exageradas, quando não mentiro-
rito da Carta das Nações Unidas. A figura assim uma forma de restringir a sua pro- sas, e alguns dos responsáveis pelas ações
do Secretário-Geral da onu também de- jeção e a implementação da Convenção militares no Iraque foram politicamente
veria ser reforçada. Ele não pode ser vis- de Armas Químicas. O Prêmio Nobel cha- condenados, tanto em seus países, como
to apenas como funcionário administrati- mou a atenção para o fato de que a opaq internacionalmente. Desse ponto de vista,
vo, mas como líder, precisa ter certo poder existe, está fazendo a sua tarefa e, desde estou convencido de que houve progresso
de atuação política. Os poucos Secretários- a sua criação, incrementou o seu número em favor do multilateralismo. Há dez anos,
Gerais que o tentaram pagaram o preço, de membros e fez progressos em termos não se admitiu o recurso a uma organiza-
como foi o caso de Boutros-Ghali e de Kofi da destruição dos arsenais químicos e das ção internacional para solucionar uma cri-
Annan, em alguma medida. Da mesma for- inspeções em indústrias. se. Hoje, aparentemente isso aconteceu, o
ma, em qualquer organização os dgs têm Sem falsa modéstia, sinto-me satisfei- que considero muito positivo.
um papel político a desempenhar, mas a to por ter contribuído em qualquer me- —
sua capacidade de trabalho político de- dida para esse prêmio. Participei da cria- Que papel o Senhor acredita que o
pende do apoio dos países-membros. ção de uma cultura para a organização, da Brasil pode desempenhar nas grandes
— instituição de seus métodos de trabalho, discussões internacionais contemporâ-
Na sua opinião, qual a importância da não apenas administrativos, mas políticos. neas sobre paz e segurança? A despei-
concessão do Prêmio Nobel da Paz em Criei um código de conduta para os então to do engajamento do P5+1 nas tratati-
2013 à opaq? O Senhor acredita que sua 211 inspetores, para fazê-los compreender vas atuais com o Irã, um novo acordo
atuação tenha contribuído, de alguma que sua lealdade deveria ser para com a de Teerã, intermediado pelo Brasil, se-
forma, para a concessão do prêmio? opaq e não para com seus países de ori- ria possível? Em que medida as condi-
A concessão do Prêmio Nobel da Paz deu gem. Tenho a impressão de que as bases ções atuais diferem da conjuntura que
grande relevo à opaq, tirando-a das som- deixadas foram aproveitadas pelos meus permitiu a assinatura da Declaração de
bras. Foi uma organização que lutou, du- sucessores, ainda que tenha havido evo- Teerã (2010)?
rante os seus primeiros 15 anos, para luções posteriores. De lá para cá, houve A busca da paz por meio do diálogo consti-
cunhar sua reputação de seriedade e in- redução importante do número de inspe- tui um dos pilares da política externa bra-
dependência, a despeito de enormes di- tores, terceirizando-se boa parte deles, a sileira, previsto até mesmo na Constituição.
ficuldades. A sua própria localização, na pretexto de reduzir custos; mas na verda- Isso nos credencia junto à comunidade in-
Haia, já indicava que as potências, so- de ao que se visa é atender ao interesse das ternacional para atuar como criadores de
bretudo os eua, a viam com certo receio. grandes potências de interferir no traba- consensos, navegando no amplo espectro
Genebra teria sido o local ideal para sua lho substantivo da Organização. Não obs- de posições político-ideológicas existen-
sede, pois é lá que estão lotados os gran- tante tais ingerências, acredito que a opaq te. Não causa surpresa, portanto, que em
des técnicos em Desarmamento. Na Haia, ainda consegue - e felizmente - atuar de 2010 o Irã tenha aceitado a intermediação
as Embaixadas geralmente não dispõem maneira independente. O Prêmio Nobel do Brasil, em conjunto com a Turquia, para
de elementos concretos ou de pessoal es- foi o reconhecimento do seu trabalho e, tratar do complexo dossiê nuclear. O atu-
pecializado suficiente para acompanhar mais importante, de que uma organiza- al mapa do caminho é fundamentalmen-
as reuniões e os trabalhos da organização. ção dessa natureza pode ser instrumento te o mesmo da solução prevista no acordo
entrevistas

anterior. Não se teriam perdido três anos a capacitar-se nuclearmente. Mais grave Busquei fazer com que
se os eua e outros países tivessem aceita- ainda, o tratamento é diferente para cada
do, naquele momento, a intermediação do país que adquire essa capacidade. Há um
a OPAQ fosse uma
Brasil. Ter-se-ia poupado muito dissabor à problema ideológico, falta atitude coeren- organização exemplar.
comunidade internacional. te por parte das potências nucleares, o que
As condições atuais, todavia, diferem não cria boas perspectivas. É possível al-
Ela tem uma caracterís-
das de 2010: houve uma evolução da admi- cançar acordos de redução de estoques tica que a diferencia
nistração democrata nos eua; o governo do ou de interrupção do desenvolvimento de
Irã parece não inspirar tão pouca confiança novas armas. Por outro lado, a tecnologia
do TNP, que foi o que
e o país encontra-se em situação mais vul- alastrou-se de tal maneira que o controle mais me atraiu [...]:
nerável, portanto mais inclinado a sentar-se do desenvolvimento desses armamentos
à mesa de negociação. Também terá ficado tornou-se uma tarefa mais difícil. A capa-
desarmar é objetivo tão
mais claro para os eua o caráter multiface- cidade letal das armas já pode ser testa- importante quanto
tado e complexo dos conflitos e tensões no da por meio de projeções em supercom-
Oriente Médio, em que o acirramento da putadores e o controle que pode ser feito
não-proliferar —
divergência sunita-xiita é central na dispu- sobre isso é muito relativo. As potências
ta do poder regional. Naturalmente, o pro- nucleares encontram-se em uma zona de
blema não está sanado, até mesmo porque conforto e não há pressão suficiente para
outros passivos históricos se foram acumu- fazer com que revejam suas posições. Por
lando. Vejo aí o início de um processo, no outro lado, há uma percepção crescente,
qual o Brasil poderá desempenhar um pa- nas próprias potências nucleares, de que
pel importante, indispensável mesmo, seja a arma nuclear representa um sorvedou-
no contexto do Irã ou da Síria, seja no do ro de recursos financeiros/humanos, com
conflito israelo-palestino e dos demais fo- custos e riscos ambientais, além de baixa
cos de tensão na região. relevância para seus principais desafios
— de segurança. Os últimos casos de proli-
O Senhor acredita que o desarmamen- feração não ocorreram em grandes potên-
to, como um dos três pilares do Tratado cias, mas em países instáveis e problemá-
de Não-Proliferação Nuclear (tnp), será ticos, enquanto Estados influentes como
algum dia completamente implementa- Brasil, Alemanha e Japão optam por não
do? Não haveria interesses vitais dos pa- desenvolver a bomba, embora tenham a
íses nuclearmente armados em garantir capacidade industrial e tecnológica para
sua própria segurança que inviabilizam tanto. Se o caso do Irã for bem resolvido,
o completo desarmamento no mundo? pela primeira vez na história não haverá
Não creio que o desarmamento nu- um país “próximo na fila” para conseguir
clear venha a ser implementado no futu- a bomba. Quem sabe o desarmamento nu-
ro próximo, certamente não no meu tem- clear então ocorrerá, se não total, pelo me-
po de vida. Os interesses cristalizados no nos na direção de estoques nucleares re-
artigo 6º do tnp são tão fortes que seria duzidos e discretos, menos pelo peso dos
desonesto afirmar que as potências nu- tratados que pela percepção dos altos cus-
cleares abrirão mão desse poder em um tos, dos riscos e dos benefícios duvidosos
horizonte previsível. A realidade lamen- da posse de grandes arsenais nucleares.
tavelmente aponta no sentido contrário. O que solapa a bomba é o custo e o ridícu-
Algumas potências fora do tnp continuam lo, não o direito, infelizmente.
42


O que significa para o multilateralis- tempo até que entre nós se desenvolvesse quais seriam suas expectativas. Esse co-
mo ter um brasileiro na liderança de uma relação de confiança. A legislação bra- nhecimento fez-me atribuir prioridade à
uma importante organização inter- sileira punia o diplomata que fosse traba- sensibilização do secretariado quanto a
nacional? Que contribuições específi- lhar em organizações internacionais. Não sua atitude perante as delegações. O se-
cas pode um(a) brasileiro(a) dar para sei se houve alteração nas regras, mas me cretariado tem de ser aberto ao diálogo e
o multilateralismo? recordo que o diplomata tinha de entrar disponível. Também sabia da importância
É inegavelmente um prestígio e um trunfo em licença, saía da lista de antiguidade, de- de se criar uma cultura para o secretaria-
para o País ter um brasileiro na Direção- via pagar a sua própria contribuição previ- do administrativo, de ser transparente na
Geral de um organismo internacional, mas denciária como autônomo e estava exclu- prestação de contas. Um dos principais
o Brasil demorou muito para se interes- ída qualquer possibilidade de promoção problemas em uma organização interna-
sar por isso. O primeiro salto que demos durante a cessão. Insisti muito para que cional é a suspeita de alguns países de que
foi com a eleição do Embaixador Baena se alterasse a legislação. A ausência de es- as suas contribuições não estão sendo uti-
Soares para a oea. O seguinte fui eu, na tímulos revela a falta de percepção de que lizadas de maneira satisfatória.
opaq. Mais recentemente, partimos para o diplomata que é indicado para organis- Em última instância, também contri-
a fao e a omc. O Brasil merece ter a dire- mo internacional também está trabalhando buiu para o meu trabalho político o que
ção dessas organizações. Os dgs brasilei- para o Brasil. Na Haia eu era repetidamen- eu havia aprendido com os chefes que eu
ros podem encarnar todas as característi- te visitado por Embaixadores que cobra- mencionei no início, em termos de ética,
cas da nossa visão do mundo e isso só vem vam a colocação de nacionais de seus paí- de comprometimento com o multilatera-
a contribuir para o bom encaminhamento ses. Nunca recebi, durante meus cinco anos lismo e com o caminho jurídico que me
das questões, pois essas instituições são os na Direção-Geral da opaq, qualquer ges- orientava naquele momento. Busquei fa-
atores por excelência na solução de con- tão do meu Governo pela entrada de bra- zer com que a opaq fosse uma organização
flitos e litígios internacionais. Da mesma sileiros na organização, o que sempre me exemplar. Ela tem uma característica que
forma, as trajetórias pessoais e a experiên- impressionou. a diferencia do tnp, que foi o que mais me
cia acumulada ao longo de suas carreiras — atraiu. A Convenção de 1993 não constitui
permite aos dgs contribuir segundo seu Considerando sua experiência no De­ um regime discriminatório. Ao contrário,
campo de atuação. O Professor Graziano partamento de Organismos In­t er­ estabelece que todos os países devem ser
teve uma trajetória importante na área do nacionais, na missão brasileira junto tratados em pé de igualdade, com o mes-
combate à fome antes de chegar à fao. O às Nações Unidas, bem como em Postos mo rigor respeitoso: desarmar é objetivo
Embaixador Roberto Azevêdo tem conhe- como Moscou e Viena, em que medida tão importante quanto não-proliferar. O
cimento aprofundado das negociações co- sua carreira no Itamaraty contribuiu desafio de implementar uma convenção
merciais, o que seguramente lhe dá um para o exercício de suas funções como com essas características exerceu sobre
instrumental de peso para buscar solução Diretor-Geral da opaq? mim grande sedução. Infelizmente, hou-
aos entraves que atualmente obstruem as Minha experiência prévia teve grande ve um acidente de percurso, mas eu guar-
negociações comerciais multilaterais. importância. Sobretudo em Nova Iorque, do como boa recordação a certeza de que
Apesar do salutar interesse por liderar ganhei um conhecimento em pormenor tentei e de que muitos dos frutos só vie-
instituições internacionais de prestígio, ain- do funcionamento de uma organização ram a aparecer alguns anos depois, legiti-
da falta ao País o entendimento de que é ne- internacional. Pude ver como atuam o mando uma postura que não é só minha, é
cessário integrar também os quadros dessas Secretariado e as delegações, como as ne- da diplomacia brasileira: a igualdade dos
organizações com diplomatas e nacionais gociações são levadas a cabo e quão impor- Estados perante o direito internacional, a
brasileiros em diversas posições. Lembro- tante é o trabalho de bastidores. Quando obrigatoriedade do respeito às regras e o
me não ter podido contar com nenhum di- assumi a direção da opaq, sabia o que se recurso preferencial ao diálogo.
plomata brasileiro quando atuei como dg passava, tinha noção de como as organi-
da opaq. Tive de constituir um núcleo ape- zações funcionam, de como as delegações
nas com estrangeiros e foi necessário algum perceberiam o trabalho do Secretariado e
entrevistas

O Brasil tem uma reconhecida tradição


de país promotor e defensor do multila-
teralismo. Membro fundador da onu, da
fao, da oea, da omc e de tantos outros or-
ganismos e mecanismos internacionais e
regionais, o Brasil sempre teve um papel
de destaque por suas posições coerentes
e consistentes, pela busca incansável de
consensos e pela promoção de princípios
políticos, éticos e jurídicos importantes
para o sistema internacional.
Minha eleição a Diretor-Geral da fao
em 2011 (é a primeira vez que um brasilei-
ro, e na verdade um latino-americano, ocu-
pa tal cargo) e a do Embaixador Roberto
Azevêdo na omc devem ser entendidas
como uma consequência natural do papel

Professor José
que o Brasil vem desempenhando naque-
le contexto, da ascensão do país no cená-

Graziano da Silva rio mundial e dos resultados que vem al-


cançando em matéria de desenvolvimento.
Diretor-Geral da Organização das Nações Unidas No caso da fao – e também no caso da
para a Agricultura e a Alimentação , FAO omc -, cabe recordar que o Brasil vem apli-
cando com sucesso políticas internas na
área agrícola e no campo da proteção so-
cial, que buscam concatenar a sua vertente
de agronegócio, de grande valor econômico
e voltada principalmente ao comércio ex-
terior, com a agricultura familiar, que visa
a atender o mercado interno e tem um as-
juca Em que medida sua experiência aca- do mundo acadêmico, especialmente com pecto importantíssimo em matéria de pro-
dêmica na questão agrária tem contribuí- instituições de pesquisa nas áreas das ci- teção social e de segurança alimentar e nu-
do para a formulação das políticas da fao, ências agrárias, das florestas e das pescas. tricional. Essas experiências brasileiras de
bem como para a consecução dos objeti- Mas há uma grande diferença: o nosso co- reconhecido êxito ajudaram, sem dúvida,
vos da Organização? Quão diferente é a nhecimento é orientado para embasar pro- na minha eleição e denotaram a expecta-
realidade de um organismo internacio- postas de ação no terreno, o que nem sem- tiva da maioria dos Estados Membros da
nal em relação ao ambiente acadêmico? pre acontece na área acadêmica. fao quanto ao novo rumo que desejariam
graziano A experiência acadêmica ajuda — dar aos trabalhos da Organização.
muito! Afinal, a fao é uma knowledge or- O que significa para o multilateralismo Mas como eu disse em meu discurso em
ganization: o conhecimento que ela pos- ter um brasileiro na composição de uma junho de 2011 ao ser eleito, eu concorri ao
sui (conhecimento próprio mas, na maioria das mais antigas e importantes organi- cargo como candidato do Brasil, mas assu-
das vezes, dos Membros) e pode comparti- zações internacionais que é a fao? Que mi minha função como Diretor-Geral de
lhar com outros é seu bem de maior valor. contribuições específicas pode um(a) todos os Estados Membros da fao. Como
Também trabalhamos muito com parceiros brasileiro(a) dar ao multilateralismo? Chefe da administração da organização, é
foto fao/Alessandra Benedetti 44


preciso ter na devida conta o interesse co- Membros minha visão de como eu gosta- Sabe-se que, atualmente, a produção de
mum de todo o conjunto de países membros. ria de transformar a fao. Minha visão se alimentos é suficiente para atender às
As propostas de mudanças na fao que baseava em acentuar o foco do trabalho necessidades da população mundial e
apresentei guardam uma relação impor- da organização, que vinha sofrendo pro- que a erradicação da fome passa por ou-
tante com a minha própria experiência no funda fragmentação de suas atividades; tros obstáculos, como a volatilidade dos
Brasil como Ministro extraordinário de e em escutar mais as demandas concre- preços e a concessão de subsídios agrí-
Segurança Alimentar e Combate à Fome tas dos Membros e respondê-las, de for- colas. Levando em consideração essa
e, posteriormente, como Representante ma mais ágil e concentrada. Para isso, ti- multiplicidade de fatores, como se dá a
Regional da fao para a América Latina e nha como ponto fundamental fortalecer articulação da fao com outros fóruns,
Caribe. E elas têm recebido o apoio dos os trabalhos da fao com seus parceiros- como a omc e o G-20 comercial, para a
Estados Membros, como se vê na aprova- -chave (as demais agências-irmãs, como solução do problema?
ção do programa de trabalho e orçamen- o pma [Programa Mundial de Alimentos] A fao, como instituição de conhecimento
to para o biênio 2014-2015 que submeti à e o fida [Fundo Internacional para o por excelência, tem um papel fundamen-
Conferência em junho passado. Desenvolvimento da Agricultura], a so- tal como geradora de estatísticas e dados
— ciedade civil e o setor privado, entre ou- e de análises, que balizam em grande me-
Há alguma personalidade, brasileira ou tros), buscar aumentar a eficiência e dar dida as discussões e decisões tanto de pa-
estrangeira, na qual o Senhor tenha se aos Estados Membros a clara noção do va- íses quanto de outras instituições inter-
inspirado para buscar a realização de lue for money que eles fornecem à fao. nacionais, como a omc, e mecanismos de
seus objetivos profissionais? Para levar isso a cabo, desenvolve- articulação política, como o G-20.
Meu pai: José Gomes da Silva, é minha mos, ao longo de 2012-2013, um proces- Sabemos que a produção de alimentos é
grande inspiração. Foi um homem que so de pensamento estratégico, por meio suficiente para atender as necessidades de
soube combinar como poucos seus conhe- do qual definimos cinco objetivos estra- toda a população, mas a produção em si não
cimentos técnicos e científicos com a prá- tégicos e um sexto objetivo técnico, que é condição suficiente para tanto. Milhões de
tica do dia a dia, com a ação. Mas muitas hoje dão um foco bem definido às ativi- famílias não têm condições para um aces-
outras pessoas me inspiraram. É uma lista dades da instituição, tendo metas que so adequado a alimentos: temos problemas
longa que começa, é logico, com Josué de vão até mesmo além do primeiro objeti- complexos de distribuição - tanto de ren-
Castro, que foi presidente independente vo do desenvolvimento do milênio: na 37a da (capacidade de aquisição de alimentos)
do Conselho da fao e colocou em evidên- Conferência da fao, realizada em junho quanto física (fazer o produto chegar ao
cia que a fome não era um problema na- de 2013, os Estados Membros elevaram a consumidor) - e temos agricultores de sub-
tural, mas um problema político. Também primeira meta global de reduzir para er- sistência com acesso apenas a recursos na-
quero lembrar o sociólogo Betinho e, em radicar a fome do mundo, tal como havia turais degradados. Temos também proble-
especial, uma frase dele: “quem tem sido idealizado pelos próprios fundado- mas sérios de desperdício e de má nutrição.
fome, tem pressa”. Essa frase traduz com res da fao, em 1945. Ademais, considerando os cenários de
simplicidade a urgência que nossa ação Creio sempre importante recordar às conflitos em vários países, é preciso ter
precisa ter. pessoas que a fao, ao tratar de alimen- em conta a relação intrínseca entre paz e
— tação e de agricultura, tem competência estabilidade, de um lado, e segurança ali-
O primeiro dos Objetivos de De­sen­ também em temas como pesca e aquicul- mentar, de outro lado; entre fome e con-
volvimento do Milênio é a redução da tura, florestas, e gestão de recursos natu- flito. Sem paz e estabilidade, o potencial
fome e da miséria no mundo. Que ini- rais de forma geral. O desenvolvimento dos setores alimentício e agrícola não será
ciativas o Senhor tem buscado imple- sustentável é um elemento que norteia atingido; e com fome e com acesso inade-
mentar, desde 2012, para que a fao possa permanentemente os trabalhos da fao nas quado aos recursos naturais, haverá obs-
contribuir para a realização dessa meta? questões de desenvolvimento agrícola, de táculos à paz e à estabilidade.
Durante minha campanha para o cargo produção de alimentos, de políticas de se- Sobre os preços internacionais das com-
de Diretor-Geral, apresentei aos Estados gurança alimentar e de nutrição. modities agrícolas, para evitar a repetição
entrevistas

Sem paz e estabilidade, de episódios de alta volatilidade de preços insegurança alimentar nos últimos dez anos
e que podem ter graves consequências para gerou um interesse global no modelo brasi-
o potencial dos setores a segurança alimentar, principalmente em leiro, sobretudo as políticas sociais e de de-
alimentício e agrícola países pobres e importadores de alimentos, senvolvimento inclusivo, como aquelas in-
o Grupo dos 20 (G20) instituiu o Sistema cluídas sob o guarda-chuva do Fome Zero,
não será atingido; e de Informação de Mercado Agrícola (amis, e seus mecanismos legais, institucionais
com fome e com acesso pela sigla em inglês). A fao lidera a secre- (consea, Conselho Nacional de Segurança
taria desse sistema, que tem também a Alimentar e Nutricional) e financeiros. E o
inadequado aos recursos presença de outras agências, como a ocde, Brasil se interessou em compartilhar sua
naturais, haverá omc, Banco Mundial, pma e fida. O amis experiência com outros países, em espe-
é uma ferramenta política voltada a exami- cial no desenho e implementação dos pro-
obstáculos à paz e à nar, discutir e agir, se e quando necessário, gramas de alimentação escolar e seu víncu-
estabilidade. — para evitar a repetição de crises de preços lo com a produção e o mercado local. Isso
como as de 2007-2008 e 2011. tem sido feito com êxito através da arti-
Ademais, decidimos criar um espaço culação com a abc [Agência Brasileira de
na fao, aproveitando a vinda de ministros Cooperação] e diversos ministérios.
a reuniões da organização, para promover Nesse contexto, iniciativas como
um intercâmbio de ideias e uma discussão o Programa Nacional de Alimentação
mais aberta ( já que nem todos os Estados Escolar, Programa de Aquisição de
Membros da fao participam do amis) so- Alimentos (paa) e o Bolsa Família estão
bre a questão de preços e oferta de com- entre os que mais despertam interesse de
modities alimentícias. outros países em desenvolvimento.
— O modelo brasileiro que vincula alimen-
Qual é a viabilidade de replicação, em es- tação escolar e agricultura familiar está sen-
cala mundial, de políticas brasileiras de do levado para cerca de 10 países da América
combate à pobreza, como o Programa Latina e Caribe e chegará em breve à África
Fome Zero e o Bolsa Família? Em que graças à colaboração com o Fundo Nacional
medida as políticas e tecnologias so- de Desenvolvimento da Educação (fnde).
ciais desenvolvidas pelo Brasil podem Com a cg-fome (Coordenação-Geral
ser transpostas para outros países? de Ações Internacionais de Combate à
Um dos cinco itens centrais da minha Fome, do Itamaraty), o paa já está pre-
campanha em 2011 foi a proposta de in- sente em cinco países africanos através
centivar a Cooperação Sul-Sul na agenda do paa África e inspirou o programa Let
da fao. Esse item foi sempre bem recebi- Agogo no Haiti. A fao também está ajudan-
do por meus interlocutores. Ao assumir o do o Brasil a compartilhar a experiência do
comando do Secretariado da fao, busquei Bolsa Família em países como o Senegal.
promover os trabalhos na área de coopera- Quando eu ocupava o posto de Repre­
ção técnica, e sobretudo a Sul-Sul. Nesse sentante Regional da fao para a América
campo, a maioria dos países tem algo a Latina e o Caribe, no Chile, também apoia-
aportar em matéria de conhecimento de mos a iniciativa “América Latina e Caribe
técnicas agrícolas, que podem ser replica- Sem Fome 2025”, que contém princípios
das ou adaptadas em outros países. e ideias baseada na experiência brasilei-
O sucesso da experiência brasileira ra do Fome Zero e, desde a primeira calc
em matéria de redução da pobreza e da (Cúpula da América Latina e do Caribe
46

sobre Integração e Desenvolvimento), rea- 3. Reduzir a pobreza rural; Num período de 36 anos, a fao teve ape-
lizada no Brasil, em 2008, conta com o firme 4. Propiciar sistemas agrícolas e alimen- nas dois Diretores-Gerais, que ocuparam
apoio dos Chefes de Estado e de Governo tares mais inclusivos e eficientes aos o cargo por 18 anos cada um. Nesse con-
dos países da região. Posteriormente, vários níveis local, nacional e internacional; texto, há uma forte, e aparentemente in-
países na África e Ásia se interessaram por 5. Aumentar a resiliência dos meios de contornável, tendência da burocracia a se
essa experiência e têm buscado coopera- subsistência a ameaças e crises. acomodar a suas rotinas e evitar atualiza-
ção brasileira, tanto bilateralmente quan- Isso deu novo ímpeto aos trabalhos da ções e mudanças. Havia uma necessidade
to por meio da fao. organização. de reforma e renovação da organização. Os
A cplp (Comunidade de Países de A descentralização – etapa final do pro- Estados Membros promoveram essa refor-
Língua Portuguesa), por exemplo, apro- cesso de reforma da fao –, que busca dar ma, inclusive reduzindo o prazo do man-
vou a Declaração de Maputo, em 2012, na maior autonomia aos Escritórios regionais, dato de seus Diretores-Gerais de 6 para 4
qual se abordaram os desafios da seguran- sub-regionais e nacionais da fao, foi con- anos e limitando a possibilidade de reelei-
ça alimentar e se definiu uma estratégia cluída e está começando a dar frutos, em ção a uma única vez.
para enfrentá-los. Em parte, o modelo de matéria de maior eficiência e de capacida- Creio já ser possível ver melhorias em
gestão escolhido se aproxima do brasilei- de de resposta mais ágil às demandas dos vários aspectos do funcionamento da fao,
ro, e a fao tem apoiado concretamente os Estados membros. desde a busca por mais eficiência ao foco
trabalhos da cplp e de seus países africa- No plano mais administrativo, foram claro em um número reduzido de objetivos
nos individualmente para levar a cabo essa implementados novos mecanismos e pro- estratégicos (hoje são 5 e antes passavam
estratégia. Não se trata de uma mera ré- cedimentos, cabendo destacar, por exem- de uma dezena) e incluindo um compro-
plica, cada país fará as adaptações neces- plo, o Sistema Global de Gerenciamento de misso muito maior de escutar e responder
sárias às suas condições. Recursos (grms) para agilizar os procedi- às necessidades dos seus países membros.
E, na Cúpula da União Africana reali- mentos e reduzir os custos da administra- Essas mudanças estão sendo vistas e
zada em janeiro de 2014, os líderes africa- ção financeira da fao. Foi concluída recen- são apreciadas por diversos parceiros e
nos aprovaram a meta de erradicar a fome temente uma reforma de pessoal e incluída membros da fao. Em 2011, por exemplo,
na região até 2025, que também não deixa a rotação entre sede e seus postos no ex- a agência de cooperação internacional do
de ser reflexo do êxito que países como o terior como uma característica natural do Reino Unido (dfid) havia avaliado a fao
Brasil tem tido no combate à fome. quadro de funcionários da organização. como uma das organizações com pior de-
— Foram aprovadas também estratégias de sempenho no seu Multilateral Aid Review
Considerando a alta demanda por po- parceria com a sociedade civil e com o se- (mar). Numa reavaliação intermediária
líticas públicas de combate à fome e à tor privado, que visam a contribuir com os (mar Update) que fizeram no ano passa-
miséria dos países em desenvolvimento trabalhos da Organização no campo e refor- do, eles apontam uma série de melhorias
e as restrições orçamentárias comuns çar sua capacidade de mobilizar recursos. na fao, o que, segundo eles, mostra que
a governos e organizações internacio- Há, ainda, em curso processo para ampliar “change can happen”.
nais, como eleger prioridades em seara e aprofundar a parceria da fao com institui- Foram implementadas várias reformas
de temas tão sensíveis e fundamentais? ções acadêmicas e de pesquisas científica. internas, mas cuja transposição para ou-
Como já indiquei, demos uma definição mais — tras agências internacionais caberia ser
clara e mais concentrada ao foco da fao, es- O Senhor atuou de forma decisiva na re- analisada com cautela, em função das pró-
tabelecendo cinco objetivos estratégicos: forma interna da fao. Quais foram os prias especificidades de cada uma. Talvez
1. Contribuir para a erradicação da fome, maiores obstáculos na concretização o maior aprendizado que se possa ter da
da insegurança alimentar e da má desse processo? Já é possível detectar experiência da fao se resuma à conclusão
nutrição; melhorias no trabalho da organização? que o dfid chegou no ano passado: “chan-
2. Aumentar e melhorar o fornecimento O Senhor vislumbra algo nesse proces- ge can happen”.
de bens e serviços da agricultura, flores- so que poderia ser transposto para ou-
tas e pescas de uma forma sustentável; tros órgãos do Sistema onu?
entrevistas


Grande parte de sua carreira foi dedica-
da a assuntos econômicos e financeiros.
Antes de servir em Genebra, por exem-
plo, o Senhor foi Coordenador-Geral
de Contenciosos, Diretor do Depar­
tamento Econômico e Subsecretário-
Geral de Temas Econômicos e Fi­­nan­-
­ceiros. O que levou o Senhor a especia-
lizar-se em temas econômicos ao longo
de sua carreira? A partir de sua trajetó-
ria, como o Sr. enxerga a discussão so-
bre generalistas e especialistas na car-
reira diplomática?
A aproximação com a área econômica
aconteceu para mim de forma natural.
Minha formação em ciências exatas talvez
explique uma inclinação para esta área, na

Embaixador
qual, com o tempo, fui adquirindo maior
desenvoltura. O trabalho realizado em te-

Roberto Azevêdo mas econômicos fez com que eu fosse sen-


do chamado a assumir novas responsabili-
Diretor-Geral da Organização Mundial do Comércio, dades nessa área. A construção da minha
OMC carreira na área econômica foi portanto
um processo natural, e não algo planeja-
do. As oportunidades e os desafios é que
foram surgindo nesse campo, a partir das
experiências anteriores.
A respeito da discussão sobre genera-
listas e especialistas, entendo que seja na-
tural haver diplomatas com perfis distin-
juca Como a experiência no Instituto econômica e a base jurídica que marcaram tos, e entendo também que isso fortalece
Rio Branco contribuiu para a sua for- a minha carreira. Ali tive minha primeira o corpo diplomático. Especialistas e ge-
mação diplomática? aula de direito e, ao longo da minha trajetó- neralistas se complementam. Até porque
azevêdo O Instituto Rio Branco (irbr) con- ria como diplomata, vim a me tornar defen- o especialista não é apenas um técnico, e
tribuiu de maneira extraordinária para a sor dos grandes casos do Brasil no sistema o generalista não é necessariamente su-
minha formação como diplomata. Tendo de solução de controvérsias da omc. Não perficial. Ambos têm os instrumentos de
estudado engenharia elétrica, foi no Rio tenho a menor dúvida de que minha for- formação necessários para atuar em áre-
Branco que estive exposto pela primeira mação no irbr está intimamente ligada ao as novas e para aprofundar seus conheci-
vez a elementos que estão na base da for- que sou hoje. Entendo que isso possa soar mentos em um tema específico quando
mação dos diplomatas. Diferentemente de exagerado às pessoas que estudaram áreas isso for demandado.
outros colegas, antes do Rio Branco eu ha- afins ou foram mais expostas à carreira an- Em várias áreas, caso o Itamaraty quei-
via me dedicado basicamente a projetos tes de ingressar no Rio Branco. Engenheiro ra seguir sendo relevante, a especializa-
de geração e distribuição de energia elé- por formação, o Rio Branco foi para mim – ção é absolutamente necessária. Pela mi-
trica. Foi no Rio Branco que adquiri a base repito – extraordinariamente importante. nha própria experiência, posso afirmar que
foto wto/Studio Casagrande 48

solução de disputas comerciais é uma des- resultado positivo em Bali, em dezem- Em primeiro lugar, a liberalização comer-
sas áreas. Ou o Itamaraty tem diplomatas bro de 2013, mudou este cenário, com a cial em caráter não-discriminatório é sem-
especializados nisso, ou, com o tempo, cor- conclusão de um novo acordo (Acordo de pre preferível em termos econômicos. Além
re o risco de deixar de fazer este trabalho. Facilitação de Comércio) e a adoção de disso, há alguns temas que, pela sua própria
O sistema certamente se beneficia dos novas disciplinas em outras áreas. Ainda natureza, apenas podem ser disciplinados
dois perfis. A carreira permite que as pes- assim, é necessário que as negociações num ambiente multilateral (refiro-me aqui,
soas busquem seus interesses e constru- multilaterais avancem mais rapidamen- por exemplo, a subsídios agrícolas).
am suas próprias trajetórias – isso é bom te e o sistema possa contar com regras Todos os Membros, independentemen-
para os diplomatas e bom para o Itamaraty. atualizadas, que respondam de maneira te do tamanho ou dos interesses, reconhe-
O  corpo diplomático se fortalece com per- mais adequada às necessidades do mun- cem que o sistema multilateral é o único que
fis distintos e complementares. do de hoje. Novamente, o que preocupa permite ganhos globalizáveis e que a omc é
— é o risco de haver uma defasagem exces- chave para a governança econômica global.
Como o Senhor avalia a proliferação siva entre as regras multilaterais e os ar- —
de acordos regionais preferenciais de ranjos preferenciais. Durante a Ministerial de Bali, concluiu-
comércio? Em que medida eles facili- Com uma boa dose de realismo, é pre- -se o primeiro acordo comercial na omc
tam ou prejudicam a liberalização do ciso reconhecer, ainda, que o sistema mul- em quase vinte anos. Da perspectiva da
comércio em escala global? tilateral de comércio raramente esteve na Direção-Geral, quais foram os maiores
Esse é um tema importante e perguntas nes- vanguarda da definição de novas disciplinas obstáculos para a conclusão do Pacote
sa linha são recorrentes. Tenho lembrado comerciais. Novas fronteiras são mais facil- de Bali? Quais elementos o Senhor elen-
aos meus interlocutores que o sistema mul- mente exploradas em configurações meno- caria como fundamentais para o êxito
tilateral sempre coexistiu com acordos pre- res, onde muitas vezes a convergência de das negociações?
ferenciais de comércio. Na origem do gatt, interesses entre participantes é maior. Em A dificuldade inicial para a conclusão do
em 1947, já se reconhecia a existência de acordos preferenciais aprofundam-se re- pacote de Bali foi a descrença, que reina-
acordos preferenciais de comércio, regio- gras sobre temas já cobertos pelo sistema va em Genebra, sobre a possibilidade de
nais ou não. Os britânicos tinham então uma multilateral e adotam-se regras para novos conseguirmos um resultado positivo para
ampla rede de preferências comerciais e a temas. É natural que isso ocorra. as negociações. Várias tentativas anterio-
união aduaneira entre Bélgica, Holanda e Essa dinâmica muitas vezes até facili- res haviam fracassado e a omc nunca ha-
Luxemburgo, que está na origem do proces- ta as negociações que ocorrem no plano via concluído um acordo desde sua criação.
so de integração europeu, havia sido consti- multilateral. Várias disciplinas existen- Assumi a Direção-Geral da omc a três
tuída em 1944. Esta realidade não foi igno- tes nos acordos da omc encontraram ins- meses da Conferência Ministerial de Bali.
rada pelos negociadores do gatt 1947, que piração em experiências de acordos regio- O rascunho de facilitação de comércio, por
estabeleceram, no entanto, os parâmetros nais. A omc, no entanto, oferece uma base exemplo, tinha naquele momento cerca
para a compatibilidade dos acordos regio- normativa comum, compartilhada por 160 de 700 colchetes. Para outros temas, não
nais com as regras multilaterais. países, o que é um ativo inestimável para havia nem mesmo um primeiro rascunho
Nesse contexto, tenho observado que, estimular o comércio mundial. A composi- (como algodão, por exemplo).
em si, os acordos preferenciais não são ção quase universal da omc permite que os Eu diria que, talvez mais que as dificulda-
uma ameaça ao sistema multilateral de dividendos das negociações multilaterais des técnicas da negociação, o primeiro obstá-
comércio. O que preocupa não é o avan- sejam sempre expressivos, mesmo que o culo foi mudar o ambiente em Genebra e fa-
ço dos acordos preferenciais, mas sim a avanço ocorra de forma progressiva. zer os negociadores realmente acreditarem
paralisia das negociações multilaterais. Gostaria ainda de chamar atenção para que desta vez seria possível. Naturalmente,
Desde criação da omc, em 1995, o sis- o fato de que mesmo os países mais envol- vencida essa barreira, várias outras surgi-
tema multilateral de comércio pratica- vidos em acordos preferenciais reconhe- ram – e foram superadas – até poucas ho-
mente não havia sido capaz de viabilizar cem a importância de um sistema mul- ras antes da Cerimônia de En­cerramento da
a adoção de novas regras comerciais. O tilateral forte. Há boas razões para isso. Conferência Ministerial em Bali.
entrevistas

Vários elementos respondem pelo su- a importância do multilateralismo para Flexibilidade e


cesso de Bali. O caráter transparente e in- o comércio?
clusivo das negociações é certamente um Bali inaugura uma nova etapa para a
criatividade costumam
deles. Todos tiveram voz. O processo foi omc. Com os resultados positivos da ser atribuídas aos
mais lento e penoso, mas isso certamen- 9ª Conferência Ministerial, as negocia-
te contribuiu para viabilizar o consenso. ções comerciais na omc são revitaliza-
brasileiros. [...] Essas são
Além disso, todos os países tiveram ga- das e, com isso, abrem-se novas perspec- habilidades preciosas
nhos, inclusive os menos desenvolvidos. tivas para a atualização de disciplinas
Flexibilidade e criatividade também pres- comerciais.
para a OMC ou para
taram sua contribuição para o sucesso de Ao longo desses meses de negociação, qualquer organização
Bali. O envolvimento das Capitais duran- não hesitei em expressar aos Membros
te o processo negociador em Genebra e a minha visão sobre as consequências de-
multilateral. —
participação direta dos Ministros em Bali sastrosas do eventual fracasso em Bali. A
foram da mesma maneira essenciais para omc, sim, continuaria existindo, mas as
o resultado obtido. Em suma, o engaja- negociações comerciais passariam por um
mento político mostrou-se indispensável. longo período de hibernação, o que faria
Finalmente, eu destacaria a importân- com que as regras se tornassem cada vez
cia central do realismo para o sucesso de mais desatualizadas. Um acervo norma-
Bali. Expectativas realistas permitiram um tivo excessivamente desatualizado natu-
resultado com o qual todos os Membros ralmente coloca em risco a relevância das
puderam conviver. Ninguém obteve tudo próprias regras.
o que gostaria, mas tampouco de ninguém Ainda assim, qualquer que fosse o re-
se exigiu o impossível – e, ainda assim, ob- sultado de Bali, o sistema de solução de
tivemos resultados bastante significativos controvérsias seguiria sendo muitíssimo
para o comércio mundial. importante. A propósito, o mecanismo de
Todos esses elementos fazem parte de resolução de disputas da omc – de cará-
um acervo importante de lições que trou- ter obrigatório, de acionamento automáti-
xemos de Bali para as negociações que co e com “dentes” – é o principal ganho da
agora ocorrem em Genebra, e que certa- Rodada Uruguai e conferiu enorme visibi-
mente adquiriram fôlego novo. lidade à Organização. O número elevado
— e crescente de disputas levadas ao meca-
Ao longo dos anos, tornou-se forte a nismo é sinal de sua credibilidade diante
percepção de que o sistema de solução dos Membros e da importância que eles
de controvérsias da omc havia passa- lhe atribuem.
do por uma hipertrofia em relação ao Naturalmente, com as novas perspecti-
papel da organização na criação de no- vas de negociação a partir de Bali, também
vas regras de comércio ou na mudança este braço da omc ganha à medida que, no
das existentes. Nesse sentido, uma das futuro, estaremos julgando disputas à luz
grandes ameaças à omc seria o de que de regras mais modernas, e não daquelas
a organização fosse reduzida a pouco concebidas nos anos 1980 e 1990.
mais do que seu sistema de solução de Além desta contribuição objetiva das
controvérsias. Em sua opinião, qual o negociações para as disputas, o resulta-
papel de Bali na revitalização da omc do positivo em Bali contribui, de forma
como instância negociadora? Qual seria geral, para fortalecer o multilateralismo
50

comercial e, por consequência, todas as habilidades são ativos importantes na con- Talvez de forma mais evidente que ou-
funções da omc saem revigoradas dessa dução de negociações multilaterais, co- tros candidatos, eu era visto como al-
Conferência Ministerial. merciais ou não. guém que poderia contribuir para o pro-
— Finalmente e em especial em relação cesso negociador, paralisado então há
O que significa para o multilateralis- à omc, eu diria que o fato de ser brasilei- vários anos.
mo ter um brasileiro na liderança de ro contribuiu para inspirar confiança no Ao final, o tipo de vínculo que eu tinha
uma importante organização inter- mundo em desenvolvimento de que novas com o Brasil me permitiu ser percebido
nacional? Que contribuições específi- práticas seriam adotadas na Organização, pelos Membros como alguém que conhe-
cas pode um(a) brasileiro(a) dar para sobretudo em termos de transparência e cia profundamente os temas em nego-
o multilateralismo? abertura, e de que a agenda do desenvol- ciação, que ajudava na formação de con-
O Brasil tem grande tradição no multila- vimento não seria abandonada. sensos e que reconhecia o valor da omc e
teralismo. A participação brasileira costu- — do multilateralismo.
ma ser sempre muito respeitada em fóruns À época de sua eleição para a Direção-
multilaterais, por vários motivos. Em pri- Geral da omc, a imprensa veiculou crí-
meiro lugar, há a competência técnica dos ticas à sua capacidade de atuação in-
negociadores brasileiros, aliada à capaci- dependente como Diretor-Geral da
dade de aproximar visões e construir con- Organização, tendo em vista sua fun-
senso. Ademais, o Brasil é conhecido por ção anterior como Chefe da Delegação
posições políticas razoáveis e construtivas. Brasileira junto à omc. Como o Senhor
Isso permitiu que o País tivesse no- enxerga o surgimento dessas crí-
mes de destaque na história do multila- ticas? Como optou lidar com esses
teralismo – e prefiro não fazer referência questionamentos?
a nenhum em particular para não cor- Considerando minhas responsabilidades
rer o risco de cometer injustiças. Parece- profissionais à época da campanha, não
me natural que mais brasileiros venham surpreende que este tenha sido um ponto
a ocupar posições de liderança em orga- levantado pela imprensa. Honestamente,
nizações multilaterais e, como consequ- essa crítica não me pareceu muito re-
ência, possam contribuir para o fortale- levante. No processo de seleção para a
cimento do multilateralismo a partir de Direção-Geral da omc, praticamente to-
outra perspectiva, que não a de delega- dos os candidatos tinham naquele momen-
do do seu país. to ou haviam tido anteriormente vínculos
Talvez os Membros da omc estejam com seus governos.
em melhor condição que eu para falar o O fato de ser Chefe da Delegação Bra­
que significa ter um brasileiro à frente da sileira veio a mostrar-se antes um ativo
Organização. Flexibilidade e criatividade que um passivo da candidatura. Em pri-
costumam ser atribuídas aos brasileiros. meiro lugar, minhas atribuições profis-
Não sei o quanto disso trago comigo, mas sionais me faziam conhecido em Genebra.
é certo que essas são habilidades precio- Negociadores de todos os países esta-
sas para a omc ou para qualquer organi- vam habituados a conviver e a traba-
zação multilateral. lhar comigo. Minha trajetória de atua-
Como brasileiro, mas especialmen- ção como diplomata brasileiro junto à
te como diplomata, aprendi ao longo da omc não apenas me fez conhecido neste
minha carreira a lidar com as diferen- meio, mas também reforçou minhas cre-
ças e a construir pontes de diálogo. Essas denciais para a posição de Diretor-Geral.
entrevistas

Há alguma personalidade, brasileira ou


estrangeira, na qual a Senhora tenha se
inspirado para buscar a realização de
seus projetos profissionais?
Muitas pessoas tiveram uma importân-
cia muito grande nas minhas escolhas, na
eleição de meus projetos de vida. Para
mencionar apenas alguns – e me perdo-
em os que não forem mencionados – cita-
ria o Prof. Cançado Trindade, hoje Juiz da
Corte Internacional de Justiça, que tive o
prazer de conhecer em Costa Rica, quando
fui convidada para fazer o curso interdisci-
plinar de Direitos Humanos. Meus compa-
nheiros de Comissão Justiça e Paz de São
Paulo o ex-Secretário Nacional de Direitos
Humanos José Gregori, o advogado e ex-

Juíza Sylvia Steiner


-Ministro da Justiça José Carlos Dias, e o
advogado e ex-Secretário de Justiça de São
Paulo, Belisário dos Santos Junior. Gostaria
Membro do Tribunal Penal Internacional, TPI
também de mencionar Dona Helena Pereira
dos Santos, já falecida, uma costureira hu-
milde e cheia de energia que fundou e di-
rigiu o Grupo Tortura Nunca Mais de São
Paulo. A advogada miltante Alice Soares
Ferreira, que me iniciou na prática da de-
fesa intransigente dos presos pobres, caren-
tes de justiça. Há muitas outras pessoas, a
quem devo o fato de ser o que hoje sou...

juca A Senhora formou-se em Direito soma de experiências teve uma papel fun- A eleição para o Tribunal Penal Inter­
e antes de assumir o cargo de  de- damental na minha formação e, também, nacional foi o reconhecimento de uma
sembargadora no Tribunal Regional na escolha de meu nome como candida- longa carreira dedicada ao estudo
Federal da 3ª Região, exerceu a advo- ta brasileira à função de juiz do Tribunal do direito penal e dos direitos huma-
cacia e atuou no Ministério Público Penal Internacional. Ao lado da experiên- nos.  Após mais de uma década na Haia,
Federal.  Como surgiu seu interesse cia profissional, também a contínua mili- quais aspectos do trabalho no TPI a
pelo Direito Internacional Público?  tância na área de proteção a direitos fun- Sra. consideraria mais gratificantes?
Em que medida sua carreira no Brasil damentais pesou, com certeza, na minha Houve frustrações em relação ao que a
contribuiu para o exercício de suas eleição. Minha experiência profissional, Senhora esperava desempenhar? Após
funções no TPI? aliada à minha vivência e militância em esse período, quais as lições a Sra. leva
steiner Como dito na própria pergun- direitos humanos, por certo contribuem dessa experiência?
ta, exerci, na minha trajetória profissio- para o exercício diário de minhas funções O aspecto mais gratificante foi, sem dú-
nal, funções de advogada, de Ministério judiciais no TPI. Afinal, foram trinta anos vida, o de participar da construção des-
Público e de Juíza. Com certeza, essa de preparação… te tribunal. De atuar como juíza nos seus

foto icc-cpi/Hans Hordijk 52

primeiros casos. De criar a primeira juris- confiáveis, sérios, extremamente dedica- violência contra mulheres e crianças. Em
prudência, fazendo prevalecer o modelo dos, capazes, flexíveis e ao mesmo tempo situações de conflito armado, na atuali-
híbrido pretendido pelo legislador, ao in- firmes. Enfim, creio que em todas as áre- dade, não há dúvidas em que mulheres e
vés de deixar que os procedimentos sim- as a presença de profissionais brasileiros é crianças sofrem duplamente, são dupla-
plesmente seguissem o molde de prefe- bem-vinda, e o resultado de suas atuações mente vitimizadas; pelo conflito, e pela
rência de um ou outro juiz vindo de um é notado. Especificamente em relação ao violência específica que se traduz, entre
ou outro sistema legal. Também o primei- meu tribunal, o multilateralismo é uma das outros, pelo recrutamento e utilização de
ro contato com um sistema único e inova- bases de sua legitimidade. Um tribunal que crianças como soldados e seu envolvimen-
dor de participação de vítimas no proce- se pretende internacional, e que pretende to em combate, e a vitimização da mulher
dimento, algo extremamente importante representar os interesses da comunidade através do estupro e outros atos de violên-
principalmente por tratarmos de crimes internacional – melhor dizendo, da huma- cia sexual, como forma de dominar e hu-
perpetrados contra um número enorme de nidade- tem que ser multilateral, tem que milhar o inimigo. Num cenário mais am-
vítimas. Frustrações? Algumas, com certe- assegurar a diversidade, tem que respeitar o plo, ainda que em tempo de paz, podemos
za. Assistir, por vezes, à falta de uniformi- equilíbrio de gênero, de distribuição geográ- lembrar que mulheres são vitimizadas dia-
dade de entendimentos, à desconstrução fica, de sistemas legais. Não consigo imagi- riamente, pelas mais diversas formas, e
de modelos cuidadosamente elaborados, nar uma instituição que determine, em sua em todos os cantos do mundo. Na família,
a exemplo, o de participação de vítimas. composição, a presença latinoamericana, no trabalho, não importa. É por isso que,
Sucessivos cortes orçamentários também sem que se assegure a presença brasileira. a meu ver, devemos estimular a presença
tiveram um impacto negativo na celeri- Somos, geograficamente, latinoamericanos, cada vez maior de mulheres nas diversas
dade dos procedimentos. Aliás, o maior mas distintos da América Latina de língua instituições, nacionais ou internacionais,
motivo de frustração é, sem dúvida, a di- espanhola. Nosso país tem dimensões conti- mas de mulheres que estejam engajadas
ficuldade em acelerar ainda mais o pro- nentais, uma cultura própria, uma tradição em contribuir na luta contra a violência e
cedimento. Das alegrias e das frustrações jurídica própria, enfim, a presença brasilei- a discriminação contra outras mulheres.
resultam as lições aprendidas. O primeiro ra deveria somar-se à presença de outros re- —
caso que conduzi na fase preliminar teve presentantes da América Latina. Em que medida as discussões em
uma demora muito maior que o segundo, e — Kampala e a inclusão do crime de agres-
o terceiro bem menor. Aprendemos a con- A Senhora acredita que a presença de são na competência do TPI contribuem
tornar as dificuldades logísiticas, a falta mulheres na composição do TPI dota o para o desenvolvimento e promoção do
de pessoal, e a assegurar um juízo justo Tribunal de uma perspectiva diferen- Direito Internacional?
apesar das dificuldades. Você passa a se ciada, por exemplo em casos de cri- Não podemos ignorar que vivemos num
ver como um juiz melhor, mais prepara- mes de guerra relacionados à violência momento de profundas mudanças no direi-
do para enfrentar o que vier pela frente... contra mulheres? Nesse sentido, qual to internacional. O modelo clássico de sécu-
— deve ser o papel da mulher no mundo lo passado já não atende às necessidades da
O que significa para o multilateralismo contemporâneo? comunidade internacional. Mesmo o mo-
ter uma brasileira na composição de um Desde sua primeira composição, o TPI delo do pós Segunda Guerra já dá sinais de
Tribunal Internacional de tamanha re- tem uma representação de gênero bas- cansaço. O indivíduo, a pessoa, passou a ser
levância? Que contribuições específi- tante significativa. Entre os juízes, hoje detentor de um direito próprio, individual,
cas pode um(a) brasileiro(a) dar para a maioria são mulheres. Como norma de em face do direito internacional, o que an-
o multilateralismo? recrutamento de funcionários, também se tes seria impensável. A afirmação de direi-
O Brasil tem um papel significante no cená- exige preservar o equilíbrio de gênero. O tos individuais oponíveis aos Estados, e da
rio internacional. E temos profissionais, em Estatuto de Roma exige o equilíbrio de gê- comunidade internacional – a humanida-
todas as áreas, de um gabarito excepcional. nero, mas também exige que todos os can- de – como sujeito de direito internacional,
Pelos exemplos que tenho visto ou ouvido didatos ao cargo de juiz demonstrem ex- provocam uma revisão radical nos institu-
comentar, os brasileiros são considerados pertise em temas relativos, entre outros, à tos clássicos do direito internacional. Hoje,
entrevistas

eu não perderia tempo discutindo monis- jurisdição primária em caso da acorrên- Contribuir para que as regras de procedi-
mo ou dualismo. Os desafios do novo direi- cia de crimes internacionais em seus ter- mento, elaboradas e aprovadas há mais de
to internacional são outros. A inclusão do ritórios ou perpetrados por seus nacionais. dez anos, se adaptem à jurisprudência já fir-
crime de agressão no Estatuto de Roma é só — mada, ainda que sejam necessárias emen-
mais um exemplo desse novo direito inter- A Senhora acredita que o instituto do das às regras existentes, mas evitando as
nacional, esse que legitima a comunidade amicus curiae poderia contribuir para o emendas casuísticas que possam trazer a
internacional e reafirma a responsabilida- fortalecimento do TPI e aproximá-lo da quebra, o desequilíbrio do sistema pensado
de individual perante o direito internacio- sociedade civil? Como o Tribunal vê a pelo legislador. Selecionar novos juízes que
nal. Nenhum Estado pode ter o monopólio possibilidade dessas manifestações ex- comprovem ter experiência profissional em
de decidir sobre a existência de um crime ternas nos crimes de sua competência? lidar com o direito penal e processual penal.
internacional, ou sobre a punibilidade dos Eu, pessoalmente, vejo a contribuição de Incentivar cada vez mais os programas de
responsáveis. entidades da sociedade civil, entidades divulgação das atividades do Tribunal, por
— públicas, e mesmo de pessoas tais como exemplo, ampliando o número de comuni-
Quais seriam os maiores obstáculos à professores, profissionais de áreas espe- dades aptas a seguir as audiências por meio
universalização do TPI? Como seria pos- cializadas, como altamente positiva em de transmissão audiovisual. Incrementar
sível obter maior aceitação do Tribunal termos de contribuição para um melhor cada vez mais a participação efetiva de ví-
por países que ainda não assinaram nem tratamento dos casos que estão sob apre- timas nos procedimentos. Ampliar o núme-
ratificaram o Estatuto de Roma? ciação dos juízes. Creio que, de maneira ro de Estados envolvidos no programa de
Apesar de ter sido criado há dez anos, o TPI geral, a maioria dos juízes vê a participa- proteção de testemunhas. Fortalecer um
começou a funcionar judicialmente, de fato, ção de amicus curiae como algo positivo. sistema de comunicação mais direta e efi-
há pouco mais de seis anos. É ainda um re- Por outro lado, o instituto do amicus curiae, ciente com representantes da Assembléia
cém nascido. Enfrenta ainda a desconfina- como o próprio nome indica, destina-se dos Estados Partes. Bem, são tantos os desa-
ça de certos Estados, que temem por sua a trazer informação especializada aos ju- fios que creio já ter dado exemplos suficien-
politização. Acho compreensível essa des- ízes, àqueles que vão julgar. Temos, por- tes. Espero, sinceramente, que todos e cada
confiança, mas tenho a certeza de que será tanto, que ter muito cuidado para que esse um façam a sua parte no esforço de forta-
superada na medida em que o TPI conti- instituto não se desvie de seu objetivo, e lecimento do Tribunal Penal Internacional.
nue a desempenhar suas funções da for- seja usado como instrumento de pressão,
ma independente e imparcial com que tem de autopromoção, ou com objetivos polí- —————
atuado. Estou entre aqueles que acreditam ticos. Há que se examinar sempre, caso a
que o exemplo é muito mais eficaz e con- caso, a oportunidade e a conveniência de A seguir, trechos da decisão tomada por
vincente que o discurso. A legitimidade do autorizar-se a participação de terceiros Steiner, atuando como Juíza Singular,
TPI já está reconhecida pelas mais de 120 nos procedimentos. em 13 de maio de 2008, no caso Germain
ratificações do Estatuto. Pouco a pouco, e — Katanga and Mathieu Ngudjolo Chui,
na medida em que seu trabalho, sua inde- Quais são os maiores desafios do Tribunal o qual se insere no contexto de ata-
pendência e sua imparcialidade se tornem Penal Internacional na atualidade? ques ocorridos no distrito de Ituri, na
fatos cada vez mais incontroversos, mais e São muitos, mas principalmente o de es- República Democrática do Congo (RDC).
mais Estados ratificarão o Estatuto e, mais tabelecer-se como uma instância judicial No caso, é levantada a questão dos di-
importante do que isso, implementarão as de caráter universal. Ampliar o número de reitos processuais das vítimas perante o
normas do Estatuto em suas legislações Estados Partes, incentivar e colaborar com Tribunal Penal Internacional. Observa-
internas. O maior objetivo do Estatuto, a a implementação do Estatuto na legislação se, na decisão, a preocupação em confe-
meu ver, é fazer com que os Estados pas- interna dos Estados. Internamente, agilizar rir um papel significativo às vítimas nos
sem a prever, em suas legislações internas, os procedimentos, aumentar o número de processos perante o tpi, tendo em vista
os crimes previstos no Estatuto, e se capa- juízes e de funcionários para que mais ca- seus direitos à justiça e à verdade, assim
citem para exercerem, eles mesmos, sua sos possam ser julgados simultaneamente. como a importância de atingir objetivos
54

importantes do Tribunal, como o de dis- grau de punição para aqueles que são res- Os brasileiros são
seminar uma cultura de responsabiliza- ponsáveis pela
​​ perpetração dos crimes em
ção por violações de direitos humanos. função dos quais eles sofreram danos.
considerados confiáveis,
— Esses interesses – quais sejam, a iden- sérios, extremamente
“O Juiz Singular observa que o Procurador, tificação, o julgamento e a punição daque-
bem como as defesas de Germain Katanga les que as vitimaram, impedindo sua im-
dedicados, capazes,
e de Mathieu Ngudjolo Chui, afirmou que punidade - estão na raiz do consolidado flexíveis e ao mesmo
não deve ser permitido àqueles aos quais foi direito à justiça para as vítimas de graves
concedida situação processual de vítima na violações dos direitos humanos, que os or-
tempo firmes. —
fase de instrução do caso em apreço discutir ganismos internacionais de direitos hu-
as evidências ou questionar uma testemu- manos se diferenciaram do direito das ví-
nha em relação a questões que dizem respei- timas à reparação. (…)
to à culpa ou inocência dos suspeitos, por-
que, de acordo com o Procurador e as duas Além disso, o Juiz Singular considera
defesas, essas questões não são diretamen- que a participação daqueles aos quais foi
te relevantes para os interesses das vítimas. concedida a situação processual de vítima
Primeiramente, o Juiz Singular obser- no debate probatório realizado na audiên-
va que a proposição do Procurador e das cia de confirmação também será significa-
defesas é contrária aos mais recentes es- tiva para alcançar outros objetivos impor-
tudos empíricos realizados acerca das ví- tantes do Tribunal. (…)
timas de graves violações dos direitos hu-
manos, os quais mostram que a principal Em primeiro lugar, na opinião do Juiz
razão pela qual as vítimas decidem re- Singular, tal participação será uma ferra-
correr aos mecanismos judiciais que es- menta importante para garantir que certos
tão disponíveis para elas contra aqueles traços culturais e percepções que são especí-
que as vitimaram é ter uma declaração da ficas para a RDC, em geral, e para a região de
verdade pelo órgão competente. Ituri, em particular, sejam levados em con-
A esse respeito, o Juiz Singular subli- sideração pela Câmara ao avaliar as provas.
nha que o interesse principal das vítimas Em segundo lugar, o Juiz Singular tam-
na determinação dos fatos, na identifica- bém considera que essa participação - jun-
ção dos responsáveis ​​e na declaração de tamente com os esforços envidados pelo
sua responsabilidade está na raiz da esta- Tribunal para divulgar o processo através
belecido direito à verdade para as vítimas de vários meios técnicos – aproximará os
de grave violações dos direitos humanos. processos conduzidos na sede da Corte,
O Juiz Singular também observa que em Haia, dos habitantes da região de Ituri.
os estudos empíricos acima mencionados Isso fortalecerá a legitimidade dos proces-
mostram que a grande maioria das vítimas sos judiciais em tal área e aumentará a efi-
deseja ter aqueles que os vitimaram pro- cácia da função do Tribunal de disseminar
cessados, julgados e condenados, e sub- uma cultura de responsabilização por vio-
metidos a alguma punição. lações de direitos humanos.”
Em outras palavras, os interesses das
vítimas vão além da determinação do que
aconteceu e da identificação dos respon-
sáveis, e se estendem até garantir um certo
entrevistas

porque queria ir para uma escola compatí-


vel com algo que já era uma aptidão, apren-
der regras.
A ciência política veio em um momento
em que eu queria revisar toda a formação
política. Havia acontecido a queda do Muro
de Berlim e eu tinha enormes indagações e
angústias acerca do que restaria do socialis-
mo. Dessa forma, eu fiz um mestrado longo,
de seis anos, para rever todo o estudo ante-
rior da época dos 18 anos. Essa formação foi
muito importante para uma reciclagem em
minha vida, no sentido de promover com
mais facilidade a adequação daqueles valo-
res de 1968: por um lado, o mundo em re-
volução, Che Guevara morrendo na Bolívia
em outubro de 1967 e chamando a juven-

Paulo Vannucchi
tude a participar, o Vietnã expulsando os
norte-americanos, a Primavera de Praga;
por outro, a resistência armada no Brasil,
Membro da Comissão Interamericana de Direitos
eu com 17 ou 18 anos, parte da organização
Humanos , CIDH
de [Carlos] Marighella, muito consciente
das dificuldades da conjuntura, dos equí-
vocos da ação clandestina, da resistência
armada, e como Franklin Martins gosta de
dizer, não cometemos o maior dos erros
que teria sido não lutar. E livres desse erro,
erramos, mas acertamos também, porque
ajudamos a construir esse Brasil novo que
nasce agora. Então se tratava de ter capa-
juca O Senhor tem formação em jor- A minha história é uma história de militân- cidade – que muita gente não teve – de se
nalismo, ciência política, e, antes de as- cia política, que começa ainda muito jovem distanciar de esquemas analíticos daquele
sumir as funções no Instituto Lula, o na resistência à ditadura. Quando saí da pri- passado, o mundo da Guerra Fria, e supor-
Senhor foi Ministro da Secretaria de são, já estava pensando na formação uni- tar bem o desfecho de 1989, com a pulve-
Direitos Humanos da Presidência da versitária como busca de emprego, sobre- rização do bloco soviético e o fim de uma
República. Como o Senhor acha que sua vivência. Estava começando o terceiro ano experiência socialista.
trajetória pode contribuir para suas de medicina quando fui preso e, posterior- Quanto aos direitos humanos, no pro-
funções na Comissão Interamericana mente, ao voltar à faculdade de medicina, cesso de candidatura à Comissão, meu
de Direitos Humanos? não senti que aquilo se encaixava com meu histórico em relação ao tema foi resu-
vannucchi Começo respondendo que mi- momento de vida. Queria fazer algo mais mido como o de uma pessoa que reú-
nha trajetória pessoal, profissional e política rápido e com mais chance de retorno, pois ne três perfis: vítima, militante e agente
é um pouco peculiar, no sentido de que eu estava casando e queria ter filhos. Foi assim do Estado (por ter sido Ministro duran-
nunca exerci, como é a regra ampla, na pro- que optei pelo jornalismo. Escrevi o tempo te cinco anos). Também fui presidente do
fissão, uma trajetória que leva a algum lugar. todo, desde pequeno, e escolhi jornalismo Instituto Cidadania, que é o atual Instituto
foto Brizza Cavalcante (Câmara) 56

Lula, onde desenvolvemos importantes No nosso contexto regional, o Brasil da democracia e, por extensão, dos direi-
trabalhos de políticas públicas, como o é um país que ostenta o ideal de reconci- tos humanos.
Fome Zero e o Projeto Juventude. Nesse liação mais do que países vizinhos. Quem —
currículo profissional, também tenho que luta pelos direitos humanos, também luta Como o Senhor acha que o Sistema
registrar a experiência do Brasil Nunca pela paz, e tem que tentar promover essa Interamericano contribuiu para con-
Mais, um trabalho profissional muito pe- reconciliação – com justiça, claro. A recon- solidar a democracia e a expansão dos
culiar – era um trabalho clandestino, nem ciliação enfrenta dificuldades até de mi- direitos humanos nas Américas?
em casa eu dizia o que era. litantes de direitos humanos que dizem: Em 1979, a Comissão Interamericana fez
Considero que é sim uma vida que “não quero reconciliação, quero justiça”, uma visita à Argentina, em plena ditadu-
ajuda a estar agora na Comissão Inter­ sem perceber que, caso se pense apenas ra, e o Governo, à época, autorizou a vi-
americana de Direitos Humanos, com em justiça, sem nada de reconciliação, há sita querendo manejá-la, manipulá-la.
essa percepção de multilateralidade da o risco de seguir na linha da pena de talião: A Comissão, que foi fundada em 1959, foi
verdade e com a percepção de que, na olho por olho, dente por dente. Ressalto refundada em 1979 justamente com a visi-
afirmação dos direitos humanos, tem que que essa reconciliação deve ser feita com ta ao país, pois ela não aceitou a armadilha
ser exercido não só um papel de atenção responsabilidade, com os processos, jul- da ditadura argentina. Pelo contrário, de-
e de cobrança. Nos direitos humanos, o gamentos e condenações devidas. nunciou o regime autoritário e a ditadura
instrumento de luta nunca é o arpão ou Quanto ao que no Brasil nós tratamos argentina começou a perder força, a ponto
o tridente; tem que levar em conta o ou- como vício e doença brasileira, o brasilei- de fazer a aventura das Malvinas em 1982
tro lado, precisamos também ouvir. Minha ro cordial do Sérgio Buarque, eu sempre e, posteriormente, a transição. A Comissão
formação profissional foi essa, e na campa- chamo a atenção para o fato de que não é que existia de 59 até 79 era quase que uma
nha, acho que o que contribuiu muito foi só problema. Na vida as coisas são assim: “pré-Comissão”; ela ainda não tinha encon-
dizer que o Brasil é o único país da oea que aquilo que compõe a virtude de uma pes- trado seu verdadeiro papel. Cabe recordar
tem ampla condição de diálogo com todos. soa também compõe o vício, e vice-versa. que, quando ela nasce em 1959, ela não ti-
Eu sinto que estou entrando em um tra- Os dois andam juntos. Esse jeitinho bra- nha constitucionalidade, o que só veio a
balho que é um recomeço, um aprendiza- sileiro também propende nosso país a ter ter dez anos depois, quando, em 1969, foi
do de línguas, um mergulho na América – mais chance na busca da paz e da reconci- aprovada a Convenção Interamericana de
que é uma velha paixão. A experiência que liação. Existem características no proces- Direitos Humanos na oea.
eu agora inicio é como aquela da música so histórico brasileiro que fazem com que Em 1979, ela descobre esse seu papel,
de Violeta Parra, “Volver a los 17”. valha a pena colocar um brasileiro na mesa passando a ter importante roteiro no en-
— em Washington, ao lado, por exemplo, de frentamento às ditaduras. Esse ciclo termi-
O que significa para o multilateralis- um chileno e de um argentino, que têm nou vitorioso e ela agora viveu a crise que
mo ter um brasileiro em um dos prin- outras histórias, considerando, particu- é a adaptação ao novo momento, que não
cipais órgãos de direitos humanos da larmente, a multilateralidade da verdade. corresponde mais à ação de litígio perma-
atualidade? No entanto, o Brasil precisa ser um nente em relação aos Estados. A cobran-
O fato de três brasileiros terem sido eleitos pouco mais afirmativo: “Aconteceu, não ça e o monitoramento têm que prosseguir,
para postos importantes, em disputas difi- vou esquecer”. Notamos que inimigos da de forma que esse lado litigante não pode
cílimas, é um sucesso da diplomacia brasi- véspera tiram fotos juntos e estão de mãos cessar; no entanto isso tem que se somar a
leira, do Itamaraty inequívoco. A minha ida, dadas, mas ninguém discute o que se pas- parcerias, cooperação e seminários – que
evidentemente, não tem essa importância. sou. Posso tirar foto junto, desde que fale- ela não promove, pois é asfixiada finan-
Primeiramente, porque se trata de um cargo mos claramente: “Nós fomos inimigos na ceiramente e tem tensões internas, tendo
regional, enquanto os outros dois são mun- véspera, tivemos posições colidentes, mas ficado confinada ao processo de receber
diais. Em segundo lugar, porque direitos hu- mudamos nossa posição.” Apenas assim petições. As petições atingiram o núme-
manos ainda constitui uma espécie de peri- as novas gerações avançarão no sentido ro de dois mil processos que demoram 20,
feria das principais políticas públicas. de valorização e qualificação da política, 30 anos. A justiça que tarda tanto assim
entrevistas

não se realiza, pois o processo histórico de quem seja a doação, é ruim não se ter na ditadura agora. A reparação também tem
já morreu. Há consciência dessas fragili- Comissão uma equidade de recursos, pois que ter suporte psicológico. A minha mu-
dades, e vamos trabalhar nisso. o resultado é a hierarquização dos direitos lher, psicanalista, trabalha com um pro-
Houve vários dos avanços de direitos humanos, como se um deles fosse mais im- grama do Paulo Abraão chamado Clínica
humanos tanto no Brasil quanto em outros portante que outros. Criança, adolescente, do Testemunho. Passamos a acompanhar
países. Temos os exemplos da Lei Maria da racial, igualdade de gênero, direitos lgbt: casos com os quais estou me espantando,
Penha no Brasil, resultado de caso peran- todos eles têm a mesma importância da li- como pessoas que foram presas por um dia,
te a Comissão; do caso Damião Ximenes e berdade de expressão. não foram torturadas fisicamente, mas en-
seus reflexos na luta antimanicomial; do — capuzadas, ameaçadas e não sabiam onde
caso Ovelario Tamis e as repercussões na O Senhor foi preso político e teve papel estavam. Isso também é tortura, é uma bru-
defesa dos direitos indígenas. Resumindo, fundamental na criação da Comissão tal tortura estigmatizante. A Dilma já dis-
a Comissão trabalha, continuamente, nes- Nacional da Verdade. Na sua opinião, se: a tortura não sai de dentro da gente. Ela
sa linha de promover mudanças nas políti- qual a importância da cnv para apurar fica em algum lugar. E o que fizeram essas
cas internas. Em alguns momentos, como graves violações de Direitos Humanos pessoas? Elas decidiram nunca contar nada
aconteceu recentemente, como qualquer ocorridas durante a ditadura e para es- para ninguém: nem para o marido, nem
organismo público, a oea também erra. timular o reconhecimento ao direito à para a mulher, nem para os filhos. Quarenta
Tomou uma decisão que gerou um confli- à Memória e à Verdade? anos depois, foram bater no divã. Em al-
to para o Brasil em torno da usina de Belo Eu acho que a importância da Comissão guns casos, são os filhos que trazem e for-
Monte no Xingu, o que levou a Presidenta [Nacional da Verdade] é muito maior do çam os pais, tendo em vista o reflexo disso
Dilma a um gesto muito duro de respos- que a consciência que se tem a esse res- na vida deles. Esse assunto tem uma asso-
ta. O processo agora está em plena supe- peito. Tem-se, agora, algo mais de nation ciação com o tema universal do Holocausto,
ração, faltando, para completar o ciclo de building. É a primeira vez, em 500 anos, no qual há uma discussão psicanalítica da
reconciliação, a designação de embaixa- que o Estado brasileiro promove um exer- chamada transferência geracional do trau-
dor. De toda forma, os pagamentos e con- cício de si mesmo. Se o Brasil tivesse pro- ma. Nessa clínica, está aparecendo muito
tribuições para a oea foram retomados já movido um exercício de reflexão, como claramente a impossibilidade de dar solu-
há muito tempo. Ademais, o Estado brasi- uma comissão da verdade sobre a escra- ção básica sem responsabilização.
leiro apresentou a candidatura de Roberto vidão, o racismo e a própria a discussão No Brasil, a visão das pessoas de que
Caldas para a Corte e o elegeu. sobre quotas no Brasil seriam outros. O ninguém foi responsabilizado por nada é in-
Nós também trabalhamos muito a im- país teve uma escravidão única no plane- tolerável, o que nos leva ao tema da punição
portância da isonomia entre as diferentes ta. Diferentemente dos Estados Unidos, e da responsabilização judicial. A minha vi-
relatorias. A relatoria de liberdade de im- por exemplo, no Brasil, o escravismo gira- são da necessária punição não é a mesma
prensa, que é um tema fundamental, tor- va a roda da economia e havia apenas uma de muitas vitimas da ditadura e da tortura
nou-se quase a única questão, como se os pequena área não escravista de produção no Brasil. Eu me inspiro em Mandela. Acho
demais direitos humanos fossem secun- econômica. Também se pode recordar que que, depois de Mandela, tornou-se compli-
dários. O direito à alimentação, o direito à o país promoveu um genocídio indígena. cado querer submeter seus torturadores e
terra indígena, o direito à terra dos traba- Se o Brasil tivesse promovido uma discus- algozes um processo punitivo, o que acaba
lhadores rurais, o sistema prisional: tudo são, uma comissão da verdade, não haveria acontecendo. Não tenho nenhuma crítica
isso não pode ter um ativismo; na prática, tanto bandeirante dando nome a rodovia. a isso. Há chefes da ditadura condenados
a Comissão viu e aceitou que a relatoria de Ao promover a discussão, extrapola- na Argentina, no Chile e até no Uruguai, e
liberdades tenha recursos, enquanto as ou- -se o tema da área de direitos humanos e eu não tenho nenhuma crítica a isso. Mas
tras não tem. Isso não é bom, pois o fato de justiça, chegando à psicanálise e à antro- eu pergunto: no Brasil tem que ser assim?
ter recursos significa que alguém contri- pologia. Constrói-se a nação. Eu, que sou No que o Brasil é diferente?
buiu levando em consideração os interes- um estudioso do tema, há mais de 40 anos, A primeira resposta é: em que a África
ses especiais naquele tema. Não importa estou descobrindo coisas novas sobre a do Sul é diferente? Houve a percepção do
58

Mandela de notar que aquele país pode- que o Judiciário cometeu o gravíssimo e hoje é completamente diferente da forma
ria se encaminhar para um interminável indesculpável erro de julgar, em abril de como a discutimos há vinte anos. Esse pro-
banho de sangue. Pessoas que militam nos 2012, que a Lei de Anistia brasileira pro- cesso histórico existe. Eles ganharam mi-
direitos humanos como eu, ex-ministro, tegia os torturadores. Não protege; a re- litarmente, mas foram acuados politica-
formador político, analista político, mem- ferência aos chamados crimes conexos mente. O Brasil achou a democracia, e é
bro da Comissão da OEA a partir de janei- não implica dizer que os dois lados serão preciso colocar um ponto final, sim, nes-
ro, pode ter o passado na referência, mas protegidos, como se convencionou falar. se processo. Não se pode discutir isso pelo
é do futuro que se trata. E quando a gen- A técnica legislativa não protege aquilo resto da vida, e a minha proposta é esta:
te brinca muito com a frase “não esque- que foi um acordo de boca à época da ela- que haja sentença condenatória; não pre-
cer o passado”, a gente pode acrescentar boração da lei. cisa ser uma sentença com prisão. Que se
“não esquecer o futuro”. Então é do futu- No caso Araguaia, a Comissão diz faça essa responsabilização moral; que as
ro que se trata. Para mim não é indispen- que a Lei de Anistia não deve represen- pessoas saibam.
sável que o Ulstra vá para a cadeia. Eles já tar obstáculo. Ela poderia ter dito: “que —
estão derrotados no mais importante, que seja revogada a Lei de Anistia”. Mas não E o Brasil do futuro?
é a construção da verdade. o fez, dizendo: não me compete invadir a O Brasil do futuro é o Brasil onde os di-
O Estado tem que assumir e completar constitucionalidade de um Estado nacio- reitos humanos serão respeitados plena-
esse processo, e o Brasil está a meio cami- nal e dizer que, à luz da adesão do Brasil mente – o que não é tecnicamente corre-
nho. Quando foi criada a Comissão, era o à Convenção Americana, é fundamental to; talvez fosse melhor dizer no mais alto
Estado brasileiro falando. As sete pesso- que a Lei de Anistia não siga. Não acre- grau possível. A violação dos direitos hu-
as que a integram são da mais alta quali- dito que o caminho seja fazer uma lei manos tem que ser enfrentada no Brasil
dade. As divergências entre elas são natu- no Parlamento anulando a anistia de 79. com ações e com a educação em direitos
rais; existem na vida. Essas pessoas sabem Acredito que o caminho seja o Judiciário. humanos. Tem-se o exemplo da questão
muito bem que a missão que elas desempe- Caso nos voltemos à questão de nego- gay: não foi o Brasil que mudou sua visão
nham é mais importante do que qualquer ciar o tipo de punição, posso me empe- nos últimos trinta anos, fui eu que mudei a
desacordo interno. Não tenho a menor nhar para dizer: a punição deve ser uma minha. Um militante de direitos humanos,
dúvida de que a Comissão da Verdade vai sentença declaratória, civil, em que o há trinta anos, fazia piadas racistas, mas
produzir um relatório que marcará uma Supremo transcreve páginas e páginas da isso está mudando. As percepções são no-
mudança. E há uma novidade brasileira: Comissão Nacional da Verdade e afirma vas. Essa educação deve entrar na rede es-
a Comissão virou 100. Temos quase 100 que, a respeito de determinadas pessoas, colar. A professora deve passar a tratar a
comissões da verdade, o que nenhum ou- foram apresentadas contundentes provas briga das crianças – questões de bullying,
tro país teve. Foi uma expressão da vonta- de que praticaram tortura, declarando-as racismo e sexismo – com a mesma impor-
de da sociedade: as universidades têm, as- todas indignas dos direitos de um militar, tância do 1+1.
sim como a OAB, os psicólogos, a CUT etc. um funcionário público etc. A punição já Quero um Brasil do futuro em que se
Então, esse trabalho vai ser concluído, existe, a exemplo dos torturados sendo respeite, no mais alto grau possível, os su-
e o Brasil vai se perguntar: e agora? Qual acareados com bate-boca nas ruas. Nesse premos ideais de liberdade, igualdade e so-
o próximo passo? Eu vou defender que o sentido, acabou a certeza de impunidade, lidariedade, que são a chave sintética dos
próximo passo envolva a responsabiliza- mas não acabou a impunidade. É preciso direitos humanos. E o que eu quero do fu-
ção individual, com a ideia de que o esta- completar esse ciclo, e eu acho que o Brasil turo é que o futuro chegue o mais rápido
do ditatorial já foi julgado, no processo po- o completará com a mais absoluta certeza. possível.  — J
lítico, nas Diretas Já, na Constituinte. Eu Não há a menor hipótese de que o
não acho que o caminho seja a revisão da Brasil não o faça. Resta apenas a dúvida
Lei de Anistia de 1979, pois rever uma lei se isso vai acontecer em dois anos, em dez
é sempre um perigo no tema da retroati- ou vinte. Pode ser em vinte, pois realmen-
vidade e da insegurança jurídica. Acredito te a forma como nós discutimos a ditadura
memória diplomática foto UN Photo

Uma fórmula, várias ideias

Os 50 anos dos 3Ds


de Araújo Castro
texto Leandro Pignatari e Matheus Hardt*
60

“As ideias são importantes,


mas nenhuma ideia sobrevive
ao espírito que a anima.”
(Araújo Castro, discurso de abertura da 18ª Assembleia Geral da ONU, 1963)

Cinquenta anos após seu célebre discurso dos 3Ds à Pensamento diplomático
Assembleia Geral da ONU, Araújo Castro continua presen-
O uso da fórmula dos 3Ds na diplomacia brasileira ao longo das
te na formulação e na prática da diplomacia brasileira. A sobre-
décadas leva, primeiramente, a uma reflexão acerca da formação
vivência dos temas Desenvolvimento, Desarmamento e Direitos
do pensamento diplomático nacional. De acordo com João Vargas
Humanos - inicialmente por meio da defesa da descolonização e,
(2009), as duas principais tentativas teóricas de estabelecer uma
em seguida, pela promoção da democracia -, revela que a opção
conexão entre a formulação da PEB e as ideias que circulam o
pelo universal-desenvolvimentismo permanece uma preferên-
MRE foram feitas por Celso Lafer – que ressalta a existência de
cia no Itamaraty. Esses conceitos são mais do que reivindicações
uma identidade internacional brasileira –, e por Amado Cervo
pontuais; são, em verdade, composições que se relacionam mu-
– o qual se centra nos padrões comportamentais da diplomacia
tuamente e que evoluem ao longo do tempo, em compasso com
brasileira e sua oscilação entre diferentes paradigmas.
as mudanças sofridas pelo ambiente internacional:
A partir da constatação de que faltam bases metodológicas
"A luta pelo Desarmamento é a própria luta pela Paz e pela
para examinar a relação entre ideias e formulação da PEB, Vargas
igualdade jurídica de Estados que desejam colocar-se a sal-
(2009) observa que a realização de estudos na área pode ser feita,
vo do medo e da intimidação. A luta pelo Desenvolvimento é
entre outros, mediante observação do conteúdo substantivo dos
a própria luta pela emancipação econômica e pela justiça so-
debates no seio do pensamento diplomático brasileiro e empre-
cial. A luta pela Descolonização, em seu conceito mais amplo, é
go do pensamento diplomático como ponte entre cultura institu-
a própria luta pela emancipação política, pela liberdade e pe-
cional e política externa. No presente trabalho, utilizam-se esses
los direitos humanos."
meios teóricos como recursos explicativos na reflexão acerca da
(Araújo Castro, discurso de abertura da 18ª Assembleia Geral da ONU, 1963) evolução dos 3Ds na PEB, buscando-se entender como os con-
ceitos de desarmamento, desenvolvimento e descolonização se
Neste artigo, analisaremos a evolução histórica dos 3Ds como transformaram, para os formuladores da política externa, naqui-
eixo central da Política Externa Brasileira (PEB) nos últimos lo que Villa (2006) define como “as coordenadas regulatórias do
cinquenta anos. Conquanto avanços e retrocessos tenham sido mapa para a inserção do Brasil no mundo das polaridades inde-
experimentados nesse período, a formulação de Araújo Castro finidas que se abria com o fim da Guerra Fria”.
manteve-se pertinente na orientação das diversas gerações Ressalta-se, primeiramente, que contribuíram para tanto os
de diplomatas brasileiros no tocante à inserção internacio- canais de transmissão do pensamento diplomático no interior do
nal do país. Itamaraty e o conteúdo substantivo presente no conceito, flexí-
Na década de 1990, o ex-Chanceler Celso Amorim reto- vel o bastante para manter sua pertinência ao longo de décadas
mou a fórmula dos 3Ds atualizando-a para Desarmamento, (Vargas, 2008). Destarte, reforçando a transmissão, encontra-se
Desenvolvimento e Democracia, marcando a evolução do concei- o fato de Araújo Castro ter sido diplomata de carreira, o que não
to de Descolonização no âmbito dos Direitos Humanos. No pre- era a norma para os Chanceleres à época, auxiliando no insula-
sente, uma possível releitura desses conceitos e da fórmula pode- mento do Itamaraty, na medida em que a mais alta chefia da Casa
ria conter os seguintes pilares: Desarmamento, Desenvolvimento era oriunda da própria instituição. Ademais, a proximidade que
Sustentável e Direitos Humanos. A partir destas observações, de- o Chanceler nutria com os jovens diplomatas facilitou deveras
monstraremos que os conceitos colocados por Araújo Castro não a perpetuação das ideias de Castro no órgão.
apenas guiam, ainda hoje, a formulação da PEB, mas envolvem o Ressalva-se, no entanto, que o insulamento nunca foi absoluto
imaginário dos diplomatas brasileiros. Serão exploradas, igual- ou a exclusiva razão da ação diplomática brasileira. Como asseve-
mente, abordagens contemporâneas à formula original. ra Vargas (2008), a Política Externa Independente, por exemplo,
memória diplomática

deveu muito a ideias e influências de fora do Itamaraty, que as êxito, à questão da exequibilidade da redução continuada de ar-
absorveu e modelou. O que há, portanto, é uma cadeia de intera- mamentos soma-se o problema, presente, da difusão e multipli-
ção academia-Chancelaria-imprensa-meios políticos, cujos ele- cação dos temas de segurança. A crescente vinculação do tema
mentos mostram-se, por vezes, mais ou menos influentes. com o direito ao desenvolvimento tecnológico, sobretudo dian-
A continuidade da influência do discurso dos 3Ds no pensa- te da sofisticação do conflito, coloca novo desafio nos anos vin-
mento diplomático brasileiro também se deve à capacidade do douros: conciliar paz e desenvolvimento com tecnologias pro-
Itamaraty em formar um corpo diplomático ideologicamente gressivamente mais duais.
coeso e com forte esprit de corps, conforme ressaltado pelo ex- No tocante ao uso da força, o Brasil, reconhecido por seu en-
-Chanceler Antonio Patriota em discurso para a turma Oscar gajamento na solução pacífica de controvérsias e no privilégio
Niemeyer do Instituto Rio Branco, em junho de 2013 – momento dos meios diplomáticos, vê com preocupação o crescente recurso
em que também deixa clara a importância do legado de Araújo ao Capítulo VII da Carta da ONU em Resoluções do Conselho de
Castro. Esse traço promove uma continuidade nas ideias que Segurança. Vinculando o uso da força à promoção dos Direitos
permeiam o Itamaraty e consequentemente nas práticas adota- Humanos, por exemplo, a propalada Responsabilidade de
das pelo Ministério, nas quais pode ser analisada a evolução do Proteger, no entanto, tem o nefasto potencial de causar mais da-
conceito tema deste trabalho. nos do que os que propõe combater, sendo facilmente manipu-
lada com fins políticos. A Responsabilidade ao Proteger, con-
trariamente, está de acordo com o posicionamento histórico do
A evolução dos 3Ds
Brasil em defesa da não intervenção em assuntos internos e da
A fórmula dos 3Ds evolui conjunta e separadamente. Aplicado, não indiferença.
em 1963, como crítica ao congelamento de poder mundial, o con-
ceito não se referia a uma dimensão específica desse fenômeno,
Desenvolvimento
pelo contrário. Concebido de forma estratégica, os 3Ds abrangem
a multiplicidade de meios pelos quais se reforçam os laços he- "É óbvio (...) que a segurança econômica e social atingida por al-
gemônicos na esfera internacional, permitindo a emergência de guns está em risco se essa segurança econômica e social não
nuances conforme essa realidade se desdobra. Nas seções que se for atingida por todos."
seguem, será apresentado, sucintamente, o desenrolar dos con- (Araújo Castro, discurso de abertura da 18ª Assembleia Geral da ONU, 1963)
ceitos individuais.
O pleito pelo desenvolvimento conjunto da sociedade internacio-
nal está vinculado ao conceito de segurança coletiva por meio de
Desarmamento
uma abordagem multifacetada que considera não só a dimensão
"O Desarmamento é um problema de poder e, tradicionalmente, militar, mas também a econômica. Trata-se de reconhecimento
os problemas de poder se têm resolvido pela operação do pró- da indivisibilidade do desenvolvimento e da paz, já advogado na
prio mecanismo do poder." Operação Pan-Americana do Presidente Juscelino Kubitschek.
(Araújo Castro, discurso de abertura da 18ª Assembleia Geral da ONU, 1963) O discurso de Araújo Castro deu a essa iniciativa continental
um escopo universal, colocando claramente a dicotomia Norte-
Na década de 1960, o Desarmamento foi adotado pela PEB como Sul como igualmente importante à dicotomia Leste-Oeste. Mais,
um instrumento de combate ao congelamento do poder na or- evidenciou como a primeira pode dirimir ou alimentar a segun-
dem internacional. Refratário a iniciativas desta ordem, com o da. Neste sentido, em sua busca pela paz, a comunidade inter-
tempo o país passou a aderir aos regimes internacionais como o nacional tem o dever de promover o desenvolvimento das na-
Tratado de Não Proliferação (TNP), defendendo, sempre, a ver- ções mais pobres.
tente do desarmamento paralelamente à questão da não prolife- Recentemente, essa visão é demonstrada, pela PEB, em sua
ração. No tocante à redução de arsenais, por exemplo, importa concepção acerca das missões de paz, em que se assinala, com
a sua obtenção por meio de construções soberanas e conjun- veemência, a conexão de paz e desenvolvimento.
tas, como a formação, na América Latina e no Atlântico Sul, de Se há meio século o privilégio era dado à dimensão econômi-
zonas livres de armas nucleares. A despeito de experiências de ca, associada ao poder, atualmente, também se associam àquela
62

os componentes social e ambiental. Se a paz não se constrói sem a interpretação da Lei de Anistia mostram que a temática dos
desenvolvimento, este não se atinge sem integração social e sus- Direitos Humanos se tornou um dos eixos centrais da PEB.
tentabilidade. Tal enfoque ressalta a necessidade de uma aborda- Menciona-se, igualmente, o discurso da Presidente Dilma
gem tridimensional para a questão do desenvolvimento; não visa, Rousseff na abertura da 68a Assembleia Geral da ONU, no qual
porém, à imposição de obstáculos ao crescimento dos países de classificou os programas de inteligência dos Estados Unidos como
menor desenvolvimento relativo. De fato, essa visão abrangen- um caso “grave de violação dos direitos humanos e das liberda-
te orientou a argumentação brasileira em favor do estabeleci- des civis”. Para além da maior relevância dos Direitos Humanos
mento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no con- na PEB, essa categoria geral permite uma análise dinâmica da
texto da Rio+20. diplomacia, já que, até o final da década de 1980, o Brasil tinha
uma Política Externa bastante defensiva em relação à soberania
nacional, e passou para uma posição mais comprometida e coo-
Descolonização, Democracia e Direitos Humanos
perativa em relação ao tema.
"Para o Brasil, a luta pela descolonização abrange todos os as- —
pectos da luta secular pela liberdade e pelos direitos humanos." Nos últimos cinquenta anos, o universal-desenvolvimentismo não
(Araújo Castro, discurso de abertura da 18ª Assembleia Geral da ONU, 1963) esteve sempre presente, mas esteve sempre disponível, evoluin-
do (Vargas, 2008). Também o foi o pensamento de Araújo Castro,
A terceira linha de força da PEB nos últimos 50 anos é a luta pe- sobretudo da forma como esteve estruturado em torno dos 3Ds.
los Direitos Humanos. Como tantos outros objetivos e aborda- Articulado de forma estratégica e flexível, o conceito manteve sua
gens de Política Externa, também essa dimensão teve momentos atualidade à medida que o sistema internacional sofreu altera-
de maior ou menor presença na agenda brasileira, destacando- ções. Tendo sido adaptado por múltiplas gerações de diplomatas,
-se, evidentemente, a maior importância conferida ao tema após a fórmula de Castro reinventou-se, mantendo sua identidade, para
a redemocratização. Nesse âmbito, passou-se da descoloniza- o que colaborou a tradição diplomática do Itamaraty e seu prota-
ção, já compreendida por Araújo Castro como um elemento dos gonismo na elaboração e execução da PEB, mas também a perti-
Direitos Humanos, à democracia conforme o próprio país se nência da análise do Chanceler de João Goulart.
democratizava. "O pensamento de Castro (...) foi uma verdadeira lente pela
Para Villa (2006), a incorporação da democracia no discur- qual os formuladores da política exterior passaram a enxergar o
so da PEB gerou ganhos de capital social positivos para o Brasil, mundo e interpretar os fatos internacionais." (João Vargas: Uma
mesmo em situações em que havia um histórico de capital social Esplêndida Tradição).  — J
negativo, como era o caso da relação do país com a Venezuela e
a Argentina. Para ele, o discurso democrático na PEB foi funda- leia mais
mental para que se criasse confiança entre os países sul-ameri-
vargas, João Augusto Costa. Uma Esplêndida Tradição:
canos. O Itamaraty soube contornar o receio dos países da região
João Augusto de Araújo Castro e a Política Exterior do
com um possível expansionismo brasileiro e construir uma base
Brasil. Dissertação. Ministério das Relações Exteriores,
de promoção para a estabilidade democrática, sem ser percebido
Instituto Rio Branco. Brasília, 2008.
como um país exportador de valores democráticos.
A bonança e crise da primeira década dos anos 2000 mostra- vargas, João Augusto Costa. Individuals and Ideas in
ram que a democracia formal não significa garantia de Direitos Itamaraty: The role of diplomatic thought in Brazilian
Humanos, sendo necessária a inclusão social e a efetiva partici- Foreign Policy. Artigo apresentado na ABRI/ISA Joint
pação da população nos processos decisórios do Estado. Nesse Conference, Rio de Janeiro, 2009.
sentido, a abordagem holística proporcionada pela categoria ge-
villa, Rafael Duarte. Política Externa Brasileira: capital so-
ral “Direitos Humanos” pode revelar-se mais apropriada do que a
cial e discurso democrático na América do Sul. Rev. bras.
especificação de uma ou outra vertente. Casos como a Lei Maria
Ci. Soc., São Paulo, v.21, n.61, June 2006.
da Penha, criada a partir de uma recomendação da Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, e a determinação da Corte
Interamericana de Direitos Humanos para que o Brasil altere * Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo.
memória diplomática

O Instituto Rio Branco:

retratos de diplomatas
ao longo de 60 anos
texto Bruno Quadros e Quadros e Felipe Pinchemel

Em 2015, o Instituto Rio Branco (IRBr) a outra, esperamos poder mostrar como o ethos da diplomacia brasileira, por meio
completará 70 anos de criação. Sua primei- Instituto Rio Branco é um fator fundamen- do qual é posto em evidência o caráter res-
ra turma iniciou o curso de dois anos de for- tal para a formação dos novos diplomatas socializador do IRBr como integração em
mação no ano de 1946. Assim, decidimos brasileiros e como seu papel se transfor- uma carreira considerada totalizadora.
tentar recuperar a memória dos diploma- mou em 60 anos. Desse modo, nosso objeti-
tas de turmas separadas por períodos de 20 vo é investigar a preparação para o concur-
anos – o tempo de uma geração e de mudan- so, as expectativas que os jovens diplomatas História do Instituto Rio Branco
ças profundas no Ministério, na sociedade tinham quando foram aceitos no Instituto O Instituto Rio Branco foi criado pelo
e na política brasileiras e também nas rela- e como o IRBr os preparou para a inserção Decreto-Lei nº 7.473, de 18 de abril de 1945.
ções internacionais. Entrevistamos diplo- no Ministério. Tentamos estabelecer o re- Seu estabelecimento inseriu-se nas come-
matas das turmas de 1946-1947, 1966-1967, trato parcial (momentos fixos no tempo e morações do centenário do nascimento do
1986-1987 e 2006-2008, levando em con- na memória) de quatro turmas, em quatro Barão do Rio Branco, patrono da diploma-
sideração o ano em que o curso foi inicia- contextos diferentes. cia brasileira. O Instituto acolheu a primei-
do, não necessariamente o ano de seleção. O que significa o Instituto Rio Branco ra turma do Curso de Preparação à Carreira
Em 1946, pouco após o fim do Estado para o diplomata brasileiro? Essa questão de Diplomata (CPCD) em maio de 1946.
Novo, o Instituto dava início a seus traba- nos guiou na construção deste artigo. As di- Até então, o recrutamento dos diplomatas
lhos. Em 1966, começara, havia dois anos, ficuldades de um dos concursos públicos brasileiros era feito pelo Departamento de
um período de 21 anos dominado pelos mais concorridos do Brasil fazem os candi- Administração do Serviço Público (DASP),
militares na política nacional. Em 1986, o datos encararem a aprovação no Instituto por meio dos chamados “Concursos
Governo Sarney enfrentava o desafio da Rio Branco como o final de uma longa ca- Diretos”. Como afirma o Embaixador Oscar
transição do regime militar para a demo- minhada. Contudo, o IRBr é – primordial- Soto Lorenzo Fernandez, da turma de 1946-
cracia. Em 2006, iniciava-se o ciclo das cha- mente – o ponto de partida de uma longeva 1947, os diplomatas antigos provocavam os
madas “turmas de 100” no Instituto. Com carreira. O período do curso de formação aprovados da primeira turma do Instituto
a escolha de diplomatas cuja formação se dos novos diplomatas corresponde a um Rio Branco, afirmando que “difícil mes-
distancia em 20 anos de uma geração para processo de iniciação e internalização do mo era o Concurso Direto”. Provocações
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1a turma do Instituto Rio Branco (1946-


1947). Primeira fila: João Desiderati
Moneti, Paulo Padilha Vidal, Raimundo
Nonato Loyola de Castro, Luiz Garrido
Cavadas, Angelo João Regattieri Ferrari,
Paulo Amélio Nascimento Silva, Osvaldo
Barreto e Silva.
Segunda fila: Alcindo Carlos
Guanabara, Gilberto Chateaubriand
Bandeira de Melo, Édipo Santos
Maia, Eberaldo Abílio Teles Machado,
Embaixador Hildebrando Accioly,
Hélio da Fonseca e Silva Bittencourt,
Paulus da Silva Castro, Oscar Soto
Lorenzo Fernandes, Anibal Alberto de
Albuquerque Maranhão.
Terceira fila: Hélio Antônio
Scarabôtolo, Otávio do Nascimento
Brito Filho, Paulo Cabral de Mello,
Sérgio Maurício Corrêa do Lago, Marcos
Magalhães de Souza Dantas Romero,
Otávio Luiz de Berenguer César,
Alfredo Rainho da Silva Neves, Antônio
Fantinato Neto, João Luiz Arêas Neto,
Rodolfo Godói de Souza Dantas, Oton do
Amaral Henriques Filho, Celso Antonio
de Souza e Silva (foto: livro “institu-
to rio branco 50 anos”).

semelhantes parecem estender-se no tem- exceção feita aos poucos concursos di- Brasileiro, como Terceiros-Secretários, re-
po, pois turmas mais recentes são irreve- retos (menos de dez desde 1946!). “Fazer cebendo o salário correspondente a essa
rentemente perturbadas por diplomatas Rio Branco” passou a ser parte da carreira classe, diferentemente do que acontecia
mais antigos, que afirmam que “difíceis do diplomata brasileiro. A recorrência do anteriormente, quando os alunos apenas
mesmo eram as provas orais”. vestibular de ingresso construiu sua tra- recebiam uma bolsa durante o curso de for-
A primeira turma do Rio Branco teve dição, pois se trata da única carreira ci- mação. Vale observar que, para a primei-
suas provas “vestibulares” no final de 1945. vil de Estado no Brasil que mantém con- ra turma e por muito tempo, nem mesmo
Foram aprovados 30 alunos, mais cinco cursos públicos anuais, sem interrupções, a bolsa era concedida, pois, como lembra
complementares. Ao final de dois anos de há 68 anos. o Embaixador Oscar, o então Diretor-
curso, no qual todas as provas eram eli- Em 1946, os requisitos para acesso ao Geral do IRBr, Embaixador Hildebrando
minatórias, foram nomeados somente 27 Instituto incluíam nacionalidade brasileira Accioly, considerava que “a carreira [era]
Cônsules de Terceira Classe, como se cha- nata, escolaridade de nível médio e idade muito cara. Os alunos [deveriam] demons-
mavam então os Terceiros-Secretários de mínima de 21 anos. A partir de 1967, pas- trar que [tinham] recursos próprios para
hoje. Corriam boatos de que ninguém seria sou-se a exigir dos candidatos primeiro se manter”. Essa mentalidade reprodu-
nomeado ao fim do curso, de que os alunos ano de curso superior, exigência aumen- ziu-se ao longo do tempo. Como relata o
do Instituto apenas receberiam um certifi- tada para o segundo ano em 1968, e para Embaixador Sérgio Tutikian, na década de
cado e de que os Concursos Diretos volta- o terceiro ano em 1985. Desde 1994, tor- 1960, um diplomata mais velho afirmou:
riam a acontecer. Felizmente, eram só ru- nou-se pré-requisito obrigatório a gradu- “infelizmente, o Itamaraty abriu as portas
mores, pois a partir do ano de 1946, com a ação plena em qualquer curso superior re- para a classe média”.
consolidação do Instituto Rio Branco, for- conhecido pelo MEC. Em 1995, criou-se o
mou-se uma tradição de excelência na bu- Programa de Formação e Aperfeiçoamento
rocracia civil brasileira. O acesso à carreira – Primeira Fase (Profa-I). A partir do ano A Preparação
diplomática, desde então, ocorre obriga- seguinte, os candidatos aprovados no con- A decisão de tornar-se diplomata varia
tória e exclusivamente pelo concurso pú- curso passaram a entrar automaticamen- bastante, assim como o percurso pessoal,
blico de acesso ao Instituto Rio Branco, te para os quadros do Serviço Exterior acadêmico e profissional percorrido até
memória diplomática

ela. Para muitos, a experiência como alu- com línguas e sua disciplina para os estu- na Universidade de Brasília, formação
no no Instituto Rio Branco é profunda- dos permitiram, no entanto, que fosse apro- escolhida “já pensando no concurso do
mente marcada pelo concurso. O período vado na sua primeira tentativa. Instituto Rio Branco”. Fez curso prepara-
de preparação é importante para a traje- O Embaixador Osmar Vladimir Chohfi, tório em Brasília, inclusive com professo-
tória pessoal e profissional do diplomata e da turma de 1966-1967, ex-Secretário- res que também eram diplomatas, como o
pode ser um período extenso, com inúme- -Geral, proveniente de São Paulo, lem- falecido Embaixador Nuno de Oliveira e o
ras histórias de diplomatas que tentaram bra: “Mudei-me para o Rio de Janeiro hoje Embaixador Igor Kipman. Foi apro-
múltiplas vezes o exame vestibular. As ex- e inscrevi-me nos cursos preparatórios. vado em 2º lugar, em sua primeira tenta-
periências de preparação também variam Os do Rio de Janeiro eram praticamente tiva, em 1985, feita apenas para “testar”.
no tempo. Para as turmas de 1946-1947 e os únicos existentes para os candidatos”. Caso parecido aconteceu com o Primeiro-
1966-1967, o Rio de Janeiro era a cidade Foi aprovado em sua segunda tentativa, Secretário André Tenório Mourão, da tur-
onde se concentravam os poucos cursos no final de 1965. Já o Embaixador Sérgio ma de 2006-2008, que pensava em ser
preparatórios ou professores especializa- Tutikian, colega de turma do Embaixador diplomata antes mesmo de entrar na fa-
dos no CACD; por sua vez, para a turma Chohfi, fez uma viagem ainda mais longa. culdade, e escolheu o mesmo curso de
de 1986-1987, Brasília também apresentava Saiu de Porto Alegre e viajou ao Rio de Relações Internacionais do Embaixador
alternativas para a preparação; finalmente, Janeiro, com mais dois outros candidatos, Benedicto. Fez curso preparatório em pa-
para a turma de 2006-2008, grandes cen- em fevereiro de 1964. Lá, procurou os me- ralelo ao último ano de faculdade e tam-
tros nacionais ofereciam cursos prepara- lhores professores que preparavam para o bém foi aprovado na primeira tentativa
tórios adequados. Rio Branco e conseguiu um emprego na após sua formatura. A Segunda-Secretária
As histórias de aprovação são muito di- Comissão do Plano do Carvão Nacional no Valeria Mendes Costa Paranhos, também
versas entre si. O caso da primeira turma turno da manhã, para “juntamente com a da turma de 2006-2008, preparou-se em
de 1946-1947 é atípico, pois não havia pro- mesada que recebia de minha casa, custe- São Paulo. Alternava os estudos com o tra-
vas anteriores nas quais se basear para o ar meus estudos”. Também foi aprovado balho. Durante seis meses trabalhava na
estudo. O Embaixador Oscar Soto Lorenzo em sua segunda tentativa. organização do Grande Prêmio do Brasil
Fernandez não tinha interesse prévio pela Para o Embaixador Benedicto Fonseca de Fórmula 1, e nos seis meses seguintes
carreira, e foi sua mãe quem o inscreveu no Filho, da turma de 1986-1987, a preparação estudava para o concurso. Fez isso duran-
concurso. Sua formação em Direito, suas aconteceu especialmente durante o cur- te dois anos, até ser aprovada em sua se-
leituras durante a faculdade, sua facilidade so superior, em Relações Internacionais gunda tentativa.

Cerimônia de posse
como Terceiro Secretário,
dezembro de 1987.
Manuel Montenegro,
Benedicto Fonseca
Filho, Márcia Donner
Abreu, Embaixadora
Thereza Quintella, en-
tão Diretora do IRBr, e o
Embaixador Marco César
Meira Naslausky, Chefe
da Administração (foto:
acervo pessoal do em-
baixador benedicto
fonseca filho).
66

O Curso de Formação são ‘alunos do Rio Branco’. Não podem, no permanentemente seu papel de diplomata.
O curso de formação do Instituto Rio entanto, exercer suas funções dentro do Às vezes, pode-se instalar uma situação de
Branco deve preparar o diplomata para Ministério até serem lotados em uma di- menor comprometimento com o curso, des-
as profundas transformações do sistema visão da SERE (...). Isso se reflete em um crita por Cristina de Patriota Moura (2007):
internacional e proporcionar atualização sentimento bastante generalizado de que “muitos começam o curso acreditando que
constante da capacidade de análise da in- estão perdendo tempo no Rio Branco e que as aulas exigirão um nível de esforço mui-
tensa dinâmica das relações internacionais. deveriam trabalhar logo”. to elevado, mas chegam à conclusão de que
Entretanto, mais do que um curso de for- Essa indefinição é refletida na fala as matérias são muitas vezes repetições da-
mação teórica, o período no IRBr deve ser do Primeiro-Secretário André Tenório quilo que estudaram com afinco para se
visto como um longo rito de passagem que Mourão: “quando comecei a trabalhar no preparar para o concurso”. O Embaixador
compreende várias etapas. Trata-se exata- Itamaraty, todos nós nos sentíamos pares. Benedicto Fonseca Filho admite que suas
mente da inserção no ethos da Casa de Rio No Rio Branco, ainda me sentia ‘aluno’. Já lembranças do Rio Branco podem ser uma
Branco, quando os Terceiros-Secretários nas divisões, todos esperavam que eu fosse exceção: “ao contrário de alguns colegas que
passam a ser reconhecidos pelos diploma- diplomata, nada mais, nada menos”. reclamam do tempo do Rio Branco, para
tas mais antigos como “jovens colegas”. Como não podia deixar de ser, a es- mim, tratou-se de um período de aprendi-
Para as turmas mais antigas, a divisão truturação do curso de formação passou zado, de observação do Ministério a partir
entre o período no curso de formação e o por muitas mudanças entre 1946 e 2006. de um posto privilegiado”.
período posterior, já lotado na Secretaria Em 1946, as aulas aconteciam no perío-
de Estado, era clara: o IRBr era “um am- do da manhã, deixando o turno opos-
biente eminentemente de estudos e esco- to para o estudo dos alunos, ou também Expectativas e Aprendizagens
lar”, afirma o Embaixador Chohfi. Para o para o trabalho que os sustentaria, a exem- O Rio Branco é um tempo de formação, de
Embaixador Oscar Lorenzo Fernandez, sua plo do Embaixador Oscar, que se tornou inserção em um meio profissional e de res-
turma “estava inaugurando a nova insti- Inspetor do Ensino Superior do Ministério socialização em uma carreira totalizante,
tuição, foi-se fazendo junto”. Atualmente, da Educação, para poder manter-se. Já na com seu ethos próprio, mas é também um
ainda existem diferenças claras entre o década de 1960, as aulas aconteciam no tempo de encontros, de estabelecimento
Terceiro-Secretário no Rio Branco e o di- período da tarde, das 13h às 17h30. Vinte de relacionamentos, senão no nível pessoal,
plomata lotado no Ministério. Apesar de, anos depois, as aulas aconteciam nos dois ao menos no nível profissional. A Segunda-
desde 1996, um candidato aprovado ser au- turnos e o tempo era quase integralmente Secretária Valeria Mendes reconhece: “o
tomaticamente um funcionário da carreira consagrado aos estudos. relacionamento com os demais colegas foi
de diplomata do Serviço Exterior, sua po- “A preocupação era acabar o Rio Branco”, ótimo e ter um network com pelo menos
sição no Ministério durante seu período confidencia o Embaixador Oscar. Esse sen- 100 pessoas no Ministério ajudou e ajuda
no Instituto resta, de certa forma, indefi- timento é partilhado por diferentes gera- muito”. Para a turma de 1986, há certa difi-
nida, até a conclusão do curso de formação. ções que passaram pelo Instituto. Para o culdade de manter o contato, em razão dos
Ao entrar, é identificado como diplomata, Embaixador Marcus Camacho de Vincenzi, deslocamentos inerentes à carreira, mas,
Terceiro-Secretário, mas também como da turma de 1966, “o período do Rio Branco eventualmente, são realizados encontros
“aluno do Rio Branco”, em um verdadeiro representou, de modo geral, uma grade per- com os colegas que estão em Brasília. Para
limbo de identidade. Diplomatas mais an- da de tempo. A preparação para o concurso a turma de 1966, “como o início da carrei-
tigos veem o concurso e o curso de forma- tinha me deixado intelectualmente muito ra praticamente coincidiu com a mudan-
ção como uma forma de selecionar pessoas estimulado com demandas que o Instituto ça do Ministério para Brasília em 1970, a
que se tornarão diplomatas brasileiros no não atendia”. Como momento, como rito turma não se manteve unida no período
seu devido tempo. Encontram-se em uma de passagem, como processo transitório, os pré-remoção para o exterior, uma vez que
situação extremamente ambígua, confor- alunos do Rio Branco sempre desejaram e muitos colegas anteciparam sua saída para
me descreve Cristina Patriota: “para ‘fora’ continuam desejando terminá-lo o quanto o exterior para evitar Brasília”, afirma o
eles são diplomatas, mas para ‘dentro’ eles antes para que possam assumir completa e Embaixador Vincenzi.
memória diplomática

idiomas, limitando-se ao estudo de inglês segundo ano. É comum a sensação da falta


e do francês. As cadeiras de história foram do que não se teve, da expectativa não reali-
objeto de restrições ideológicas, como, por zada de uma preparação mais voltada tam-
exemplo, no caso do ensino da história do bém para aspectos práticos e rotineiros da
Brasil e sua limitação ao período colonial”. carreira, a exemplo das posições brasileiras
O período do regime militar teve gran- nos foros internacionais e as razões por trás
de influência sobre o ambiente no Instituto delas. Contudo, para todos, o curso de for-
Rio Branco. O Embaixador Alexandre mação não deixa de ser um tempo de tran-
Addor Neto foi aprovado em quarto lu- sição para a inserção no Ministério, como
gar, mas teve sua matrícula indeferida afirma o Embaixador Benedicto, para quem
pelo então Diretor-Geral do IRBr, sob o período no Rio Branco preparou-o para
alegação de “antecedentes ideológicos”. uma “aterrissagem suave na carreira”.
O Ministro de Segunda Classe Mario da Independentemente dos elogios ou
Graça Roiter, também da turma de 1966, das críticas, das memórias boas ou ruins,
foi aposentado em 1970, com base no Ato da nostalgia do tempo riobranquino ou
Placa comemorativa do Institucional nº 5. Na década de 1980, do desejo de terminar logo o curso de for-
Decreto-Lei de criação do ambos foram reintegrados à carreira. mação, o período no Instituto Rio Branco
Instituto Rio Branco (foto: Os atos arbitrários e autoritários não atin- revela-se, retrospectivamente, como um
felipe pinchemel).
giram somente os alunos, pois, como re- tempo de esperanças, de construção e de
As expectativas em relação ao curso de lembra o Embaixador Vincenzi, dois ex- introdução à vida profissional (e pessoal)
formação e à carreira posterior, com todos celentes professores, Manoel Mauricio no Itamaraty, onde a tradição se renova a
os seus eventos – lotações, promoções, re- de Albuquerque, de História do Brasil, e cada turma.   — J
moções, funções –, são legítimas e impor- Antonio Barros Castro, de Economia, fo-
tantes no caminho profissional, como as- ram afastados do Instituto e substituídos.
severa o Embaixador Chohfi. Se, por um O mesmo Embaixador afirma que “o perío-
lado, pode ser motivo de ansiedade, por do passado no Instituto Rio Branco (1966-
outro, a expectativa também pode se reve- 67) não [coincidiu] com a fase mais radi-
lar distante da realidade. Ilustrativamente, cal do governo militar; já trabalhávamos
a turma de 1986-1987 acreditava que a clas- quando o AI-5 foi assinado. O regime
leia mais
se mais alta que os alunos atingiriam seria militar influenciou em grande medida toda
a de Conselheiro. Contraditoriamente, um nossa vida profissional e pessoal”. brasil. Instituto Rio Branco 50 anos:
grande número dos alunos é hoje Ministro Para o Embaixador Oscar Soto Lorenzo, edição comemorativa 1946-1996.
de Segunda Classe, e dois colegas já fo- o aprendizado mais importante no Instituto Brasília: Ministério das Relações
ram promovidos a Ministros de Primeira “foram os corredores”, o convívio com os di- Exteriores, 1996. 81 p.
Classe (Embaixadores). plomatas mais velhos, que valeram para a
moura, Cristina Patriota de.
As expectativas também podem se carreira mais que todos os anos posteriores.
O Instituto Rio Branco e a diplomacia
tornar desilusão. O Embaixador Marcus Para alguns, a formação do Rio Branco con-
brasileira: um estudo de carreira e so-
de Vincenzi afirma: “Não tenho dúvi- tribuiu adequadamente com conhecimen-
cialização. Rio de Janeiro: Fundação
das de que após passar por exame ex- tos gerais ou mais especializados de utilida-
Getúlio Vargas, 2007.
tremamente rigoroso, estivéssemos pre- de para o início do exercício no Ministério.
parados e intelectualmente estimulados Para outros, restam experiências curiosas, ribeiro, Guilherme Luiz Leite.
para o aprofundamento de nossa forma- como para o Embaixador Tutikian, que Os bastidores da diplomacia: o bife
ção acadêmica. Infelizmente, tal fato não ajudou a separar uma luta corporal entre de zinco e outras histórias. Rio de
ocorreu. O currículo não incluiu outros um aluno do primeiro ano e um aluno do Janeiro: Nova Fronteira, 2007. 414 p.
68

RESENHA
O fim do poder
de Moisés Naím

texto Luiz de Andrade Filho

O fim do poder, de Moisés Naím (Editora Leya padrões de expectativa e nas tradições dos indivídu-
Brasil, 392 páginas, R$ 49,90) trata do fenômeno so- os, o que exacerba o questionamento da autoridade e
bre o qual internacionalistas, sociólogos e cientistas a insatisfação com os establishments e sistemas polí-
políticos têm-se debruçado, com especial ênfase, em ticos vigentes, especialmente entre jovens.
anos recentes: a desconcentração do poder. Naím ino- Dessa tripla revolução surge a possibilidade de
va ao analisar o fenômeno não apenas do ponto de atuação de micropoderes: autoridades locais, novas
vista político, mas econômico-financeiro, militar-es- igrejas, micro e pequenas empresas e ONGs, mas tam-
tratégico e social, como indica o subtítulo: “nas sa- bém redes globais de terrorismo, guerrilhas e hackers
las da diretoria ou nos campos de batalha, em Igrejas ocupam espaços deixados pelas tradicionais formas
ou Estados, por que estar no poder não é mais o que de exercício do poder, em âmbito nacional e interna-
costumava ser?”. cional. Naím chama atenção para a incapacidade de
O título alarmante da obra não implica crença do partidos políticos de intermediarem novas demandas
autor no fim absoluto do poder. Os principais objeti- das sociedades, o que abre espaço, por exemplo, para
vos de Naím – economista que já exerceu as funções facções intrapartidárias e formas alternativas de or-
de Ministro do Comércio e da Indústria da Venezuela ganização política.
e de editor-chefe da Foreign Policy – são explicar por Naím é consciente da dificuldade, própria e alheia,
que, na atualidade, a capacidade de adquirir, reter e de apresentar respostas concretas sobre as implica-
exercer poder está em declínio e alertar para a neces- ções do declínio do poder. O mais importante seria,
sidade de que governos, empresas e organizações se contudo, refletir sobre o que deve ser feito para recu-
adaptem a essas mudanças. perar a confiança dos indivíduos, sobretudo em re-
As transformações que impactam o poder são clas- lação aos governos. Os movimentos sociais e ONGs,
sificadas segundo arcabouço criado pelo autor: a tripla que, nas últimas décadas, ampliaram sua projeção e
revolução do mais, da mobilidade e da mentalidade. A capacidade de influência, teriam muito a informar,
primeira indica que, com a população crescente, de- especialmente no que se refere à capacidade de mo-
tentora de maior renda e acesso a informação, surge bilização de jovens ativistas e ao estabelecimento de
certa impaciência generalizada e, consequentemen- agendas claras e focadas.
te, incapacidade dos governos de arregimentar indi- A obra de Naím, ilustrada com exemplos simples
víduos para seu domínio. A revolução da mobilida- e acessíveis mesmo ao leitor leigo, traz argumentação
de, por sua vez, vincula-se à ideia de ampliação das inovadora e certamente estimula reflexão duradou-
possibilidades de deslocamento de indivíduos, recur- ra entre aqueles interessados em fenômenos políti-
sos financeiros e informações, do que decorre a per- cos, diplomáticos e na lógica de atuação em redes.  — J
da de audiência cativa, essencial ao exercício do po-
der. A terceira revolução, a da mentalidade, em parte
resultante das duas primeiras, trata da mudança nos
ensaios e resenhas

Eh, tróica! Pássaro tróica, quem foi que A Rússia faz parte do seleto grupo
te inventou? Só podias ter nascido de um de países que têm lugar garantido no
povo atrevido, naquela terra que não está imaginário coletivo das pessoas. Carac­
para brincadeiras, mas espraiou-se, imensa terísticas como o frio, a neve, o gosto por
e alastrada, pela metade do mundo. [...] bebidas pesadas e o militarismo são fre-
quentemente associadas ao país. Muitos
E não é assim que tu mesma voas, Rússia, desses estereótipos e imagens têm sido
qual uma tróica impetuosa que ninguém incessantemente reforçados por intermé-
consegue alcançar? Debaixo de ti fumega a dio de veículos anglo-saxões e europeus
estrada, tremem as pontes, tudo recua (filmes, relatos de viagens, livros, notí-
e fica para trás. [...] cias), não se tratando necessariamente
de visões construídas por meio de um
Rússia, para onde voas? Responde! contato direto entre brasileiros e russos.
Ela não responde. Vibram os sininhos no Tendo isso em mente, abordam-se, aqui,
seu tilintar mavioso, zune e transforma-se alguns dos fundamentos históricos da
em vento o ar dilacerado em farrapos; pas- identidade russa, a fim de fornecer sub-
sa voando ao largo tudo o que existe sobre sídios para uma perspectiva pós-ociden-
a terra, e, de olhar enviesado, afastam-se tal sobre a Rússia que supere as visões
e abrem-lhe caminho os outros povos e os ocidentais reproduzidas acriticamente
outros países. no Brasil.
(Nikolai Gógol, Almas Mortas, p.294-295) Antes disso, contudo, é necessário res-
saltar que o Ocidente desenvolveu uma

Para além do
espécie de “orientalismo” para a Rússia.
Com efeito, uma das definições que
Edward Said confere ao termo, na intro-
dução de O orientalismo, é “um modo de

“orientalismo”
resolver o Oriente que está baseado no lu-
gar especial ocupado pelo Oriente na ex-
periência ocidental europeia”. É possível
adotar termos semelhantes para a aborda-

Tirando as lentes ocidentais para ver a Rússia gem ocidental em relação à Rússia, a qual
ressalta o suposto exotismo do país e mes-
— cla elementos de admiração - como a exal-
tação de manifestações culturais russas na
texto Bruno Quadros e Quadros literatura, na dança e na música clássica
– e de temor – de que é exemplo a inter-
Para superar a absorção acrítica das imagens sobre a Rússia produzidas no Ocidente, é ne- pretação das iniciativas internacionais do
cessário promover uma perspectiva pós-ocidental sobre o país, que leve em conta a aná- país como “expansionistas” e “imperialis-
lise sem mediações dos fundamentos históricos da identidade e da nacionalidade russas. tas” nos últimos séculos.
70

A águia bicéfala é o brasão de armas da


Rússia, e sua origem remonta à herál-
dica bizantina. Uma das interpretações
do símbolo, ilustrativa do caráter híbri-
do da identidade russa, é que uma ca-
beça da águia olha para o Ocidente, e a
outra, para o Oriente.

Durante a maior parte dos séculos xix tornou a cidade a capital do país. Já São
e xx, a Rússia foi o “outro” a ser comba- Petersburgo seria, nas palavras de seu fun-
tido pelo Ocidente, em episódios como a dador - o Tsar Pedro, o Grande -, a “janela
Guerra da Crimeia (1853-1856), o “Grande para a Europa”, assemelhando-se urbanis-
Jogo” na Ásia Central e o conflito bipolar ticamente a Veneza.
da Guerra Fria. A representação da Rússia Há correntes artísticas, políticas e so-
como um Urso, grande, ameaçador e im- ciais no Ocidente cuja reação ao caráter
piedoso, data das caricaturas britânicas híbrido da identidade russa (meio euro-
do século xix. A associação do suposto peia, meio asiática) tem sido, historica-
autoritarismo dos governos russos a um mente, a de associar todos os elementos
“despotismo asiático”, por sua vez, tem considerados “negativos” do país a seu le-
sido frequente no Ocidente desde os ilu- gado asiático (tido como “bárbaro”): o au-
ministas. Como veremos a seguir, o fator toritarismo político, a servidão e o atraso
geográfico (a condição eurasiana do país) social e econômico em relação à Europa
provocou um debate identitário cuja com- Ocidental. Em conjunturas políticas espe-
plexidade é frequentemente negligencia- cíficas, esse discurso “orientalista” de res-
da por analistas ocidentais. saltar as características asiáticas da Rússia
é utilizado para alienar o país da “famí- Herzen. Na diplomacia, os ocidentalis-
lia europeia”. tas estão associados ao grupo dos “atlan-
Entre a Europa e a Ásia A condição eurasiana da Rússia tradu- tistas”, que dominaram a formulação da
A dimensão gigantesca da Rússia e a sua lo- ziu-se na cisão entre ocidentalistas (za- política externa russa na primeira meta-
calização em dois continentes trouxeram padniki) e eslavófilos (slavyanofily), a qual de da década de 1990, com o chanceler
desdobramentos indeléveis para a forma- permeou o debate cultural, social e políti- Andrey Kozyrev.
ção da nacionalidade russa. Encruzilhada co sobre os destinos do país após o reinado Os eslavófilos, por sua vez, destaca-
entre a Ásia e a Europa, a Rússia foi alvo de de Pedro, o Grande (1682-1725), com des- vam o excepcionalismo da Rússia frente
invasões e de influências oriundas dos dois dobramentos verificados até hoje. ao Ocidente. Para eles, o desenvolvimento
lados, e isso fez com que a identidade russa Os ocidentalistas defendiam refor- econômico, social e político do país deve-
fosse um amálgama de todas essas tendên- mas socioeconômicas ao estilo ocidental ria estar de acordo com os valores russos,
cias. Da Europa, a Rússia recebeu a religião (reforma agrária, por exemplo) como ca- como a noção de comunidade (sobornost’)
cristã e o alfabeto cirílico, derivado do gre- minho para a modernização e a inserção e de ortodoxia (pravoslavie). Os slavya-
go. Da Ásia, herdou um modelo de centra- internacional da Rússia. O grupo privile- nofily rejeitavam ideias ocidentais como
lização política que passaria a ser adotado, giava os aspectos históricos e culturais em o liberalismo, o materialismo e o indivi-
sob diversas formas, ao longo da história do comum entre a Rússia e o Ocidente, em dualismo, pois as consideravam nocivas
país, após as invasões mongóis do século xiii. vez dos pontos de discordância. Os zapad- à essência da “alma russa”. Os reinados
Interessante observar que essa duali- niki valorizavam as medidas implementa- dos Tsares Alexandre III (1881-1894) e
dade é expressa também nas característi- das por Pedro, o Grande, como modelo da Nicolau II (1894-1917), assim como figuras
cas das “duas capitais” da Rússia. Moscou modernização que pretendiam implantar proeminentes da literatura como Fyodor
representaria a dimensão asiática, devido na Rússia. Nas artes, expoentes dessa cor- Dostoyevsky, são associados à ideologia
à herança do jugo tártaro-mongol, o qual rente foram Ivan Turgueniev e Aleksander defendida pelos eslavófilos.
ensaios e resenhas

unívoco. Conforme salientou Konstantin


A Rússia como Urso: a partir do sé-
culo xix, passaram a ser comuns no Khudoley, membro da Universidade das
imaginário coletivo ocidental repre- Nações Unidas, em palestra proferida no
sentações da Rússia como Urso, como Brasil, em 2009, a maioria dos russos adul-
a caricatura de 1911 que retrata a dis-
puta entre Grã-Bretanha e Rússia so- tos tende a comparar o nível de liberdade
bre a Pérsia. da Rússia atual com o da União Soviética, e
imagem “Craven Hill” (leonard não com o dos governos ocidentais. Nessa
raven-hill) / Revista Punch, or The
London Charivari comparação, os russos gozam de liberda-
des individuais sem precedentes em pers-
pectiva histórica.

—————

O Brasil precisa construir uma compre-


ensão própria e sem mediações da Rússia.
Para isso, é fundamental afastar-se da ab-
sorção acrítica do discurso ocidental (leia-
-se, norte-americano e europeu), que é
sustentado por um amplo complexo mi-
diático e epistêmico e que responde a im-
perativos políticos específicos desses paí-
ses. Para escapar das lentes “orientalistas”
pelas quais o Ocidente muitas vezes vê a
Rússia, é necessário recorrer aos funda-
Um dos pontos de maior discordância Rússia o Estado é tido como o organiza- mentos históricos da identidade e da na-
entre ocidentalistas e eslavófilos tem sido dor da vida social e o garantidor da esta- cionalidade russas, entre os quais estão a
a respeito do caráter do sistema político e, bilidade. Na memória histórica russa, os dualidade asiático-europeia do país e a
principalmente, do papel desempenhado períodos de caos são associados à exis- particularidade da cultura política russa.
pelo governante nesse sistema. Enquanto tência de um Estado fraco, como aconte- Outro passo na construção de uma
os ocidentalistas tendem a privilegiar, his- ceu, recentemente, na década de 1990. Por perspectiva pós-ocidental sobre a Rússia
toricamente, a adoção de sistemas mais re- contraste, os períodos com a presença de é evitar abordagens normativas a respei-
presentativos, os eslavófilos, baseados no um poder político forte são considerados to do país, as quais podem provocar di-
princípio da autocracia (samoderzhaviye), os mais estáveis. ficuldades de entendimento. A prescri-
defendem uma maior concentração do po- A estabilidade, aliás, é outro conceito ção de receitas e a elaboração de críticas,
der nas mãos de um indivíduo. caro à cultura política russa. Está associa- longe de promoverem a compreensão do
da à ausência de padrões de concorrência país, redundam na alienação e na irrita-
entre líderes políticos; na verdade, a con- ção do “outro”.
A Rússia precisa de um Tsar? corrência tem conduzido, historicamente, Por fim, a promoção de contatos dire-
A concentração do poder dos governos à instabilidade e, na maioria das vezes, ao tos com agentes da sociedade russa (go-
da Rússia ao longo dos séculos está as- aniquilamento de um dos adversários. O verno, sociedade civil e empresas) tende a
sociado à importância do conceito de go- caso mais célebre nesse sentido foi a dispu- ajudar na criação de uma perspectiva pós-
sudarstvennost’ na cultura política rus- ta pela sucessão de Lenin, a qual culminou -ocidental sobre a Rússia. Iniciativas como
sa. O termo não possui tradução direta no assassinato de Leon Trotsky, a mando de a publicação de obras de especialistas bra-
para o português, mas transmite a ideia Joseph Stalin, na década de 1940. sileiros sobre o país eslavo, assim como a
da centralidade do Estado (gosudarstvo) A crítica ocidental acerca da alegada colocação de correspondentes jornalísti-
na vida russa. Ao contrário do Ocidente, falta de liberdade na Rússia é ideologi- cos brasileiros na Rússia e a promoção de
em que a teoria política liberal contrapõe camente enviesada, uma vez que o con- uma agenda comum de pesquisa científi-
o Estado à sociedade e ao indivíduo, na ceito de liberdade carece de um sentido ca, respondem a esse objetivo.  — J
72

A celeuma causada pelos


vazamentos de Manning e
Snowden não se deve, apenas, à
necessidade de condenar práticas
inaceitáveis e cínicas do outro,
mas à de admitir que elas se
beneficiam de nossa conivência

texto Rui Camargo

Não é mais tempo de homens partidos. a ideia de Futuro, como já ressaltou o his- é pressupor que tenhamos de esconder
As revelações levadas a cabo por Assange toriador alemão Reinhardt Koselleck, em algo do inimigo, apenas. O desconforto
e Snowden, nos episódios ligados ao Futuro Passado. Não o futuro de Hesíodo, causado pelos documentos publicados no
Wikileaks e à espionagem, apenas ilustram que é mera repetição cíclica do passado, Wikileaks não se deve à entrega de infor-
essa constatação. A descrença na institui- mas o futuro das Revoluções Americana mações cruciais para o sucesso das opera-
ção do partido é sintoma do cinismo que e Francesa, que o afirmam como genui- ções de grupos radicais, mas à revelação
perpassa a prática política contemporânea. namente novo. Na Modernidade, o futuro de algo que já sabíamos. Essa constata-
É esse cinismo que dá a justa medida dos é domínio da liberdade humana. Os cida- ção foi feita pelo antigo deputy chief do
recentes vazamentos. A contradição entre dãos decidem juntos quais serão os crité- mi6, Nigel Inkster, em entrevista ao jornal
o discurso oficial sobre liberdades indivi- rios de sua construção. O embate entre de- britânico The Guardian. Segundo Inkster,
duais de antigas democracias e o “verda- mocracias liberais e socialismo disputava nada do que foi publicado era desconhe-
deiro” discurso, contido em documentos qual era a forma mais eficiente de imple- cido ou não podia ser facilmente inferi-
classificados e, há pouco, desconhecidos mentar esse conceito de liberdade, mas do, seja por nós, seja por membros da Al
pelo público, indica sua desconsideração não punha em xeque o conceito em si. O Qaeda ou do Taliban.
de valores como direito à privacidade e li- cinismo, em contraste, afirma que os cida- Se esse é o caso, então por que o mesmo
berdade de expressão, que estão na base dãos precisam apenas acreditar – ou fingir jornal britânico recebeu ordem do gabine-
do liberalismo político desde, pelo menos, que acreditam – no exercício da própria te de David Cameron para destruir os do-
a Revolução Americana, em 1776. liberdade, visto que a política real conti- cumentos vazados por Snowden? Ordem
O cinismo não corrói apenas o libera- nua a ser um ofício de um pequeno e seleto análoga às que receberia o periódico The
lismo. Uma vez que todo o espectro po- grupo. Em certo sentido, a preocupação do New York Times, dias depois. Em vista dos
lítico moderno é herdeiro do liberalis- cínico é, apenas, a de manter as aparências. danos que essas tentativas de impedir a
mo iluminista, o cinismo corrói o próprio Nesse sentido, é correto afirmar que a circulação dos documentos vazados im-
conceito moderno de Política. Este últi- classificação da informação é uma ques- põem à imagem de ambos os governos, for-
mo tem como pressuposto fundamental tão de segurança nacional. O problema çados a agredir em público a liberdade da
ensaios e resenhas imagem Google Art Project

imprensa, neles deve haver algo que não presente, não será um futuro de verdade, para mentir pelo bem de seu país”. A figu-
pode ser revelado. mas um mero presente contínuo. Uma vez ra arquetípica dessa concepção é o quadro
O argumento oficial é o de que Snowden que seria doloroso demais viver em mun- “Os Embaixadores” de Holbein, no qual o
teria vazado documentos contendo infor- do que não pode ser transformado, conti- elemento mais importante – uma caveira
mações vitais para a segurança nacional. nuamos a agir como se acreditássemos nos pintada bem no centro da cena – só pode
No entanto, como os serviços de inteligên- valores fundamentais de liberdade, priva- ser visto de um determinado ângulo, por-
cia são os únicos que conhecem os docu- cidade e representação política. Ao agir que foi codificado com uma técnica de dis-
mentos, a opinião pública não tem como em dissonância com o que acreditamos, torção da perspectiva, conhecida como
verificar a veracidade do argumento. No tornamo-nos uma sociedade cínica. anamorfose. O quadro reforça a ideia de
caso do The Guardian o caso é mais curio- É curioso que o mal-estar causado pela que a verdade da diplomacia está escon-
so, porque a destruição dos arquivos tem indiscrição de Snowden e de Assange seja dida do olhar vulgar.
valor meramente simbólico. Há cópias dos sentido particularmente na condução da O único detalhe é que tanto Holbein
arquivos vazados em diversas partes quanto Wotton são anteriores ao
do mundo, inclusive, supõe-se, com Ilumi­nismo. Sua concepção de di-
Glenn Greenwald, correspondente plomacia é incompatível com o
do jornal que vive no Rio de Janeiro. Estado de Direito. Um pressupos-
A descrição de como foi destru- to fundamental deste último é o de
ído o hd contendo os documentos, que as leis são de conhecimento pú-
publicado pelo periódico em 20 de blico. Leis secretas são um resquí-
agosto de 2013, dá todos os sinais de cio do Antigo Regime, vergonhosa-
que a questão é manter as aparên- mente preservado em regimes de
cias. É constrangedor admitir que a exceção, mas não – ao menos em
crença no projeto político moder- teoria – em governos verdadeira-
no foi abandonada há muito e que o mente democráticos. Se a condução
que interessa é a simples manuten- da política externa implica a elabo-
ção do poder. É como uma criança ração e a aplicação de leis, ela é tão
que, após ter quebrado o vaso, es- “política” como a interna, que ela-
conde os cacos. Embora ela julgue bora leis e, portanto, não pode ser
esconder o desastre da mãe, o que secreta. A diplomacia deveria ser
realmente interessa é escondê-lo de conduzida sob o escrutínio público,
si mesma. Nesse exemplo simplório, ao alcance do olhar comum. Em um
mas recorrente, a criança não são go­vernos diplomacia, associada, no imaginário co- Estado Democrático, mentir por seu país
maquiavélicos e sedentos por poder, mas a mum, ao domínio da mentira e da falsi- e para seu país são a mesma coisa.
sociedade como um todo. dade. Se a política internacional é, supos- Em certo sentido, todos sabem que as
Não foi apenas a classe política que tamente, o domínio da inverdade, porque coisas não funcionam assim. Mesmo antes
perdeu a crença nos valores que deve- os vazamentos provocaram reações par- do Wikileaks, como frisou o Sr. Inkster. Os
riam justificar a existência de seus cargos, ticularmente energéticas nesse domínio? exemplos abundam. Pensemos nas supos-
mas também aqueles que os elegeram de Se é esperado que os Estados tentem ta- tas armas de destruição em massa do regime
maneira ativa ou omissa. Isso é grave por- pear uns aos outros, qual a surpresa nos de Saddam Hussein – evidências forjadas
que significa que não se espera mais que a recentes vazamentos? que justificaram uma longa guerra – ou no
Política seja um meio de transformação do É conhecida a definição de Henry regime fora da lei de Guantánamo. Aquilo
futuro e, se o futuro não for transforma- Wotton, para quem “o diplomata é um ho- que deveria ser do público, as informações
do, ele repetirá o presente. Se ele repetir o mem honesto que é enviado ao estrangeiro nas quais se baseava a condução da política

Hans Holbein, o Jovem


Os Embaixadores, 1533
Óleo sobre madeira
209,5 x 207 cm
ilustrações Clara Meliande e Rafael Alves 74

externa, lhe foi negado. Em ambos os casos representantes do poder foram confron- A celeuma diplomática não se deve, ape-
era sabido que a Política era conduzida por tados com a vergonha, tornada, assim, ins- nas, à necessidade política e moral de con-
serviços de inteligência que empregavam trumento de luta política. Ela é o efeito de denar práticas inaceitáveis e cínicas do
meios escusos para atingir seus objetivos. uma denúncia, que expõe a indecência da outro, mas às dificuldades de admitir que
Saber como funcionam as coisas não contradição. É essencial, nesse caso, que elas se beneficiam de nossa conivência. Em
explica o imbróglio diplomático produ- se possa dizer não, não é admissível que meio aos nossos justos gritos de protesto,
zido com os vazamentos. Se já nos sabía- um Estado de Direito se porte de tal e tal não devemos esquecer que nós já sabía-
mos vigiados antes, por que só reclama- forma. Mais do que isso, a vergonha é uma mos, ou, ao menos, suspeitávamos do que
mos agora? É claro que, num primeiro forma de forçar o outro – e nós mesmos, se passava. Afinal, como as tropas de cho-
momento, as dimensões exatas dos pro- como veremos – a confrontar a inadmis- que ao redor do mundo têm demonstrado
gramas de controle não eram conhecidas. sibilidade da situação. recentemente, não são apenas os serviços
Além disso, os vazamentos fornecem pro- As ordens de destruição dos discos rígi- de inteligência que violam a liberdade de
vas que fazem com que as reclamações dos que continham os documentos vazados expressão. Não são apenas eles os cínicos
não possam ser desqualificadas como por Assange são uma reação defensiva a esse em relação ao Estado de Direto.
fruto de mera especulação. No entanto, retorno do recalcado social, como se seu de- Há, portanto, um sentido recôndito na
isso é insuficiente para explicar todo o saparecimento pudesse apaziguar a vergo- classificação dos vazamentos como indis-
desconforto com a si- cretos. Eles não nos ensi-
tuação. Como bem lem- nam nada, mas criam uma
brou o filósofo esloveno
Slavoj Žižek, em artigo
Os vazamentos não são estrutura na qual “eu sei
que o outro sabe que eu sei”.
de 3/9/13, para o jornal
britânico The Guardian,
uma questão de saber, mas de Por isso, há um movimen-
to reflexivo. Agora, todos
o episódio envergo-
nhou os responsáveis
confronto, de reconhecimento. — sabem que tenho perfei-
ta noção da hipocrisia dos
por práticas de espio- outros e da minha. Esse sa-
nagem. É esse senti- ber reflexivo mina o cinis-
mento de vergonha que se tenta esconder nha. Nesse sentido, elas não diferem mui- mo por meio da vergonha e revela a insus-
a todo custo, porque ele indica a confron- to da criança que esconde o vaso quebrado. tentabilidade de sua posição. Ele nos força
tação com um saber que foi recalcado. Seria, contudo, interessante alargar o a olhar-nos através do olhar alheio. É atra-
Se alguém sabe que as coisas não são escopo da análise de Žižek. Os vazamen- vés do outro que revemos o nosso segredo.
como deveriam, mas age como se fossem, tos não são uma questão de saber, mas de Descobrimos que nosso cinismo não é
esse alguém é cínico. É esse cinismo o confronto, de reconhecimento. Por meio um estado natural, que não temos de acei-
substrato de programas de coleta de me- deles, governos de Grandes Potências são tar que a vigilância perpétua seja nature-
tadados que violam uma quantidade nada forçados a admitir que violam seus pró- za de nossa sociedade. Descobrimos que
desprezível de direitos fundamentais e de prios valores fundamentais, mas nós tam- podemos lutar contra o cinismo e que a
normas internacionais. O cinismo busca bém somos forçados a reconhecer o que política é, sim, uma prática que constrói
anular a contradição entre saber e prática. sabemos. Logo, nós não seríamos cínicos a realidade. A vergonha nos lembra, enfim,
Quando essa contradição é revelada, o também? É plausível supor que o compor- de que somos livres e de que o futuro não
cínico fica envergonhado. Ele é obrigado tamento cínico é mero desvio patológico precisa ser o mesmo presente vigiado.  — J
a reconhecer a própria hipocrisia. Žižek de uns poucos funcionários de agências de
ponderou que, ao ser factualmente expos- inteligência ao redor do mundo? Não, sa-
ta a contradição entre o discurso democrá- bemos que não é; especialmente, após as
tico e a condução da política externa, os denúncias de Assange, Snowden e outros.
ensaios e resenhas

Amor paterno.
(Cais de Wonsan)

ensaio fotográfico

Coreia
do Norte —
fotos Thomaz Napoleão
comentários Rui Camargo
76
ensaios e resenhas

ao lado O espetáculo do Festival


de Arirang de Jogos de Massa, em
Pyongyang, constitui-se no diálogo
entre um gigantesco painel de mosai-
co e uma dinâmica performance de
dançarinos, cantores, ginastas e mú-
sicos.
abaixo Com fones de ouvido de iPod.
(Cidade de Panmunjeom, na fronteira
entre as Coreias)

É rara a oportunidade de olhar a Coreia do Norte por den- Todas as fotos de Thomaz Napoleão parecem retratar um
tro. O país está fora do circuito turístico internacional e sofre com olhar pela fechadura. Há algo de indiscreto no modo como olha
os estereótipos de uma cobertura enviesada. Para o bem ou para por debaixo de uma cobertura jornalística no mais das vezes pou-
o mal, o preconceito produziu um véu de medo e mistério sobre co criativa. Não se trata, é claro, de idealizar a sociedade norte-
país. Raros são os momentos de exposição da vida cotidiana de -coreana, que está certamente longe do Paraíso; mas também o
um país notoriamente fechado ao exterior. resto do mundo está a anos luz do Éden. Trata-se de aplicar o
mesmo peso e a mesma medida.
78

Os ensaios para o Festival de Arirang


são um processo sem fim. Assim
como no Carnaval do Rio, a prepara-
ção para o ano seguinte começa tão
logo as comemorações do ano corren-
te terminam.

Ao abandonar os clichês, o obturador registra particularida- É, no mínimo, cruel que essa constatação, provocada pelas
des únicas da cultura local. Não se deve esquecer, contudo, que, fotografias, nos cause espanto. Como pudemos esquecer que eles
ao reconhecer as particularidades, reconhecemos também o uni- também são homens? Quem nos convenceu de que eram outra
versal. As imagens revelam que os habitantes deste longínquo coisa? Essas as perguntas que surgem, passado o encanto com
pedaço de terra são tão humanos quanto nós. Despidos da fan- cenas tão raras.  — J
tasia demoníaca que lhes é maldosamente vestida, são homens
que brincam com crianças na praia.
ensaios e resenhas

acima Hora da escola. (Creche Kim


Jong Suk, em Pyongyang)
ao lado Monumento do Partido dos
Trabalhadores. (Pyongyang)
80

RESENHA
Cidades Rebeldes
de David Harvey, Ermínia Maricato,
Slavoj Žižek, Mike Davis et. al.

texto Rui Camargo

O breve e acessível livro “Cidades Rebeldes” clara para a maior parte dos manifestantes, que não se
(Boitempo e Carta Maior, R$ 10, 110 páginas) reúne mostraram, até o momento, capazes de propor uma
curtos ensaios sobre as recentes manifestações ur- forma de vida alternativa. O episódio de rejeição ge-
banas; de Ancara à Atenas, passando por São Paulo, neralizada e violenta dos partidos ilustra, de maneira
Nova Iorque e Barcelona. Ainda que a maior parte dos exemplar, tal indeterminação; é por isso que ele rece-
ensaios privilegie as manifestações brasileiras de ju- be a atenção de diferentes ensaístas. A mobilização
nho de 2013, a linha editorial busca salientar a cone- nega a estrutura social do cotidiano, mas não indica
xão entre o fenômeno brasileiro e o vivido por outras caminhos concretos de transformação.
cidades do mundo. Nesse diagnóstico, é possível identificar a orien-
Em seu conjunto, o livro contrapõe o que há de es- tação marxista adotada pela maior parte dos ensa-
pecífico nos protestos urbanos brasileiros ao que ne- ístas. A inexistência de alternativas deve-se, exata-
les há de universal. Sob a ótica dos autores – muitos mente, ao fato de os manifestantes não realizarem
dos quais amplamente conhecidos, como Slavoj Žižek, uma mediação entre as circunstâncias particulares
David Harvey, Mike Davis e o Movimento Passe Livre de seu entorno imediato e a crise generalizada do
– a luta contra a elevação das tarifas do transporte pú- capitalismo, que eclodiu sob diferentes roupagens:
blico é expressão particular de um problema mais am- na Europa, com a luta contra a austeridade fiscal; no
plo. Em última instância, subjaz aos protestos a inca- norte da África e no Oriente Médio, com a Primavera
pacidade crônica do Estado de bem-estar social de Árabe; nos Estados Unidos, com o movimento Occupy
cumprir suas promessas. Os sintomas de semelhante Wall Street. Os ensaios procuram explicitar uma rela-
incapacidade variam no tempo e no espaço, mas são ção dialética entre universal e particular – traduzida
manifestações de uma doença comum. pelo vínculo entre os problemas locais e a lógica ine-
É claro que os autores abordam os aspectos obje- rente ao sistema capitalista – que escaparia aos ma-
tivos da realidade social brasileira que contextuali- nifestantes no Brasil e no mundo. Essa incapacidade,
zam os protestos. Um breve retrospecto do aumento por sua vez, resulta na incapacidade dos protestos de
no tempo gasto em deslocamento na cidade de São propor um cotidiano alternativo e superar as contra-
Paulo nas últimas três décadas, ou do aumento expo- dições e insuficiências do Estado.
nencial na taxa de homicídios – que vitimam jovens A leitura exige que o leitor tome partido. Esse sim-
negros de forma brutalmente desproporcional– já po- ples detalhe já a justifica, na medida em que escapa
deria indicar os motivos iniciais. Entretanto, o empe- a uma apresentação meramente descritiva do debate
nho analítico intenta transcender a simples realidade público no Brasil contemporâneo. Em certo sentido,
cotidiana e indicar as relações sociais que a produzem. o livro impõe um engajamento propositivo que não
Os protestos de junho rejeitam radicalmente a re- se formou durante os protestos em junho, ao indicar
alidade cotidiana em grandes metrópoles como São um programa político e uma concepção de transfor-
Paulo ou Rio de Janeiro, mas não é ela, por si só, que mação social para a insatisfação indeterminada e ge-
produz o mal-estar generalizado entre os que saíram neralizada. Ao forçar uma tomada de posição, a leitura
às ruas. Os autores concordam, em maior ou menor expõe os conflitos que, há pouco, passavam desper-
grau, com o fato de que essa afirmação ainda não está cebidos nas metrópoles brasileiras.  — J
cultura e arte foto Amena Yassine

Palácio Itamaraty:
a curva livre e sensual
de Oscar Niemeyer.

texto Carlota de Azevedo Bezerra Vitor Ramos


e Pedro Tiê Candido Souza

ARQUITETURA,
Em 20 de abril de 1970, Brasília assistia à inaugura-
ção oficial do Palácio dos Arcos. Por força da tradição,
a nova sede da diplomacia brasileira ficaria conhecida

JARDINS E
apenas como Palácio Itamaraty, em referência ao an-
tigo sobrado oitocentista de paredes rosadas, locali-
zado no centro do Rio de Janeiro. Imbuído do espírito

MOSAICOS
que permeou a construção da nova capital e o traça-
do de seus edifícios públicos, o Palácio Itamaraty sin-
tetiza os princípios e a singularidade da arte moder-

A influência da “Tríade nista brasileira.


Pouco mais de 42 anos depois, em setembro de 2012,
Modernista” no Itamaraty 30 jovens recém-aprovados no Concurso de Admissão
à Carreira de Diplomata caminhavam pelos corredo-
res do Palácio Itamaraty e de seus Anexos à procura da
82

em sentido horário,
a partir da imagem ao
lado Escada helicoidal
no vão livre do Palácio
Itamaraty; encontro de
Athos e Niemeyer em
vista inferior da escada
helicoidal; passarela: luz
e sombra.

sala do Serviço de Assistência Médica e Social (SAMS). leveza sobre o espelho d’água que circunda o Palácio.
Ao adentrarem o SAMS, deparar-se-iam com um an- A preferência de Niemeyer por formas abstratas e por
guloso painel de laminado azul e verde. Naquele mo- curvas está presente em diversos aspectos do projeto
mento, ávidos por entregar seus exames admissio- arquitetônico do Palácio Itamaraty. Caminhando por
nais, os futuros Terceiros-Secretários não se deram seus espaços abertos, tem-se uma sensação de ampli-
conta de que aquele painel, aparentemente inconspí- dão e de infinitude, paradigmas da estética modernista.
cuo, era, em realidade, obra escondida do artista e ar- No vão livre de mais de 2.000 m2, emerge uma sinuosa
quiteto Athos Bulcão. Juntamente com Burle Marx e escada helicoidal, que conecta o auditório, o térreo, e
Oscar Niemeyer, Athos compõe o que aqui designamos o mezanino do Palácio. A simplicidade do traço, marca
“A Tríade Modernista”. de Niemeyer, transmite elegância e graça àqueles que
— visitam ou trabalham no Itamaraty.
Oscar Niemeyer, inspirado pela “curva livre e sensual”, Le Corbusier, uma das influências de Niemeyer, con-
usou seu lápis para projetar uma fachada de arcos a substanciou diretrizes conhecidas como “Os Cinco
um só tempo imponentes e etéreos, que pairam com Pontos da Nova Arquitetura”, a saber: planta livre (as
cultura e arte

A cultura institucional do
Itamaraty está imbuída
dos preceitos presentes nas
manifestações estéticas da
Tríade Modernista —

paredes não exercem função estrutural), no projeto arquitetônico de Niemeyer. O lã. Denominada “Vegetação do Planalto
fachada livre (independência entre estru- expoente do paisagismo brasileiro mo- Central”, a peça representa as plantas na-
tura e vedação), fênetre en longueur (janela derno projetou, ainda, jardins vanguar- tivas do Cerrado brasileiro.
em fita por toda a extensão dos edifícios), distas no térreo e no espelho d’água do —
pilotis (permitindo a livre circulação) e ter- Palácio, combinando a diversidade de es- O último integrante da Tríade Moder­nista,
raço-jardim (transferência de jardins para a pécies nativas brasileiras com a justaposi- Athos Bulcão, é considerado o “artista de
parte superior dos prédios, transformando ção de formas, texturas e volumes. A com- Brasília”. Seu trabalho é dedicado para o
as coberturas em espaços de convívio). Em posição inovadora dos jardins concebidos convívio diário com a população, que en-
seus projetos, Niemeyer aplicava, parcial ou por Burle Marx completa a estética moder- tra em contato com suas obras quase que
integralmente, esses cincos princípios. A nista que caracteriza o Palácio Itamaraty, acidentalmente. Foi o caso dos Terceiros-
planta e a fachada livres, assim como a ja- revelando uma harmonia inusitada entre Secretários da Turma de 2012, que, sem dar-
nela em fita, são componentes fundamen- concreto e natureza. A fascinação do artis- -se conta, estavam rodeados por um pai-
tais do Palácio. ta pela vegetação nativa manifesta-se, ain- nel do artista no momento da entrega de
— da, em uma tapeçaria de sua autoria ex- seus exames admissionais. Esse contato
Roberto Burle Marx seria o responsável posta na Sala Brasília, que se abre para o fortuito com a arte, inclusive no decorrer
por dar vida ao terraço-jardim que, com terraço-jardim do Palácio. Executada pelo de atividades protocolares, é algo rotineiro
vista panorâmica para a Esplanada dos Atelier Douchez-Nicola, a tapeçaria foi con- para os funcionários do Itamaraty. Há obras
Ministérios, é componente de destaque feccionada em cinco partes e tecida em de Athos Bulcão no vão livre do Palácio, no
84

Instituto Rio Branco, no SAMS e na passa- reúne diversos preceitos modernistas, que
rela entre os Anexos I e II, assim como nas lhe conferem uma identidade visual úni-
Embaixadas brasileiras em Lagos, em Nova ca e inovadora, que, por sua vez, influen-
Délhi, em Buenos Aires e em Praia. Por meio cia a identidade do diplomata brasilei-
de composições de cores e de formas geo- ro. O Palácio Itamaraty não é apenas uma
métricas, Athos Bulcão cria mosaicos e pai- estrutura física, mas também um espaço
néis inusitados e sem padrão necessaria- de ressocialização. A cultura institucional
mente pré-determinado. do Itamaraty está imbuída dos preceitos
Os trabalhos de Oscar Niemeyer, Burle presentes nas manifestações estéticas da
Marx e Athos Bulcão no Palácio Itamaraty Tríade Modernista, que fazem do Palácio
dialogam de forma orgânica, resultando uma segunda “Casa” para seus funcioná-
na página ao lado Terraço-jardim
idealizado por Burle Marx; jardins térre- em um todo naturalmente harmonioso. rios. Quando forem lotados no exterior,
os do Palácio Itamaraty: composição de Essa harmonia deriva da convergência es- os Terceiros-Secretários da Turma de 2012
espécies nativas brasileiras. tética entre as visões dos três artistas, que certamente levarão consigo a curva livre e
nesta página, acima Painel de Athos
Bulcão no SAMS: joia escondida (foto: imprimiram sua marca em um momento sensual de Oscar Niemeyer, os jardins con-
autores). Abaixo Passarela: Athos, de renovação da arte e da arquitetura no templativos de Burle Marx e as instigantes
Niemeyer e natureza. Brasil. Nesse sentido, o Palácio Itamaraty composições de Athos Bulcão.  — J
cultura e arte
86

RESENHA – Exposição

“Resistir é preciso”
texto Rui Camargo
O título da exposição concebida pelo – da memória e do evento - jazem insepul-
Instituto Vladimir Herzog abre uma plu- tos, sendo necessário protegê-los.
ralidade semântica que vai dos versos de É importante lembrar que os mortos
Fernando Pessoa aos de Caetano Veloso. Se da ditadura não estão a salvo. Talvez essa
resistir – e navegar - é preciso, viver não o é. seja a mensagem implícita no quadro de
A curadoria, portanto, se dá sob o signo da Ivan Serpa que integra a exposição. Parte
morte, é um rito fúnebre. A obra de Hélio do que ficou conhecido como sua fase “ne-
Oiticica que confronta o visitante já na en- gra”, quando abandona o rigor abstrato e
trada, ainda que não seja dos seus traba- geométrico da arte concreta em favor de
lhos mais estimulantes, é suficiente para uma releitura do expressionismo, a obra
no alto Ivan Serpa, Figura, 1964. Óleo
dar o recado: um corpo estendido no chão. apresenta a deformação do traço branco
sobre tela, Acervo da Pinacoteca do
Estado de São Paulo. Compra do Governo Resistir exibe um leque de significados como elemento básico de composição. As
do Estado de São Paulo, 2001. Licenciado que qualificam a memória. Não capitular, pinceladas grossas e carregadas de tin-
por Yves Henrique Cardoso Serpa, Leila
opor-se, durar. Não se trata de não sucum- tas criam um campo de força circular, ao
Cardoso Serpa e Heraldo Cardoso Serpa
(foto: isabella matheus); bir, de fazer face, de sobreviver apenas ao centro da tela. A figura evoca os elemen-
ao lado Cildo Meireles, Inserções em regime de exceção, mas, também, ao tem- tos constitutivos do corpo humano, sobre-
Circuitos Ideológicos 2 – Projeto Cédula, po. A exposição procura lembrar o visitante tudo ossos, cuja forma é retorcida nesse
1970. Registro Fotográfico de ação.
Coleção Cildo Meireles. Licenciado por de um evento que resiste no tempo e que, campo. Expõem-se, desse modo, as oposi-
Cildo Meireles (foto: pat kilgore). por isso, constitui a memória. Seus mortos ções fundamentais da arte pictórica: luz/
cultura e arte

acima Cildo Meireles, Inserções em


Circuitos Ideológicos 1 – Projeto Coca-
Cola, 1970. Serigrafia sobre vidro.
Coleção Cildo Meireles. Licenciado por
Cildo Meireles (foto: pat kilgore).
ao lado Alex Flemming, Natureza-
Morta, 1978. Fotogravura sobre pa-
pel. Acervo da Pinacoteca do Estado
de São Paulo, doação do artista, 1980.
Licenciado por Alex Flemming (foto:
isabella matheus).

sombra, linha/plano, figura/fundo. A crue- a vida após a morte de seus donos. Corpos trabalho de luto incompleto. A peça é repro-
za do procedimento, ao abandonar sécu- e objetos permanecem insepultos. duzida em uma instalação simplória, que
los de sofisticação – destinada justamen- Convém lembrar, no entanto, que, ao projeta sobre a parede os nomes das víti-
te a esconder o contraste em uma ilusão contrário das imagens pictóricas presen- mas da Ditadura. A melancolia provocada
naturalista –, apresenta uma imagem fan- tes na exposição, os objetos, bem como os pela progressão melódica circular e incer-
tasmagórica de um ser que não está vivo. cartazes, trazem mensagens verbais inscri- ta não deixa de evocar uma história blo-
O horror da imagem é o de um passado tas em seus corpos. Os ready-made e carta- queada, que, à semelhança do tema desse
sem descanso. zes propõem perguntas que permanecem adágio, não resolve suas tensões ou avan-
A morbidez é reforçada pelos ready-ma- sem resposta, acerca do paradeiro de mili- ça para um novo estágio. A trilha sono-
de produzidos por Cildo Meireles, numa re- tantes políticos e familiares desaparecidos, ra – por pouco inovadora que seja – é um
leitura engajada da prática inicialmente da ausência de soluções para uma socieda- parâmetro adequado para avaliar a expo-
proposta por Marcel Duchamp e reprodu- de profundamente desigual. Semelhantes sição: simples, mas extremamente didáti-
zida à exaustão pela arte pop estaduniden- indagações históricas permanecem, em sua ca. Individualmente, as obras apresentadas
se e europeia. As cédulas e garrafas grava- maioria, sem resposta satisfatória, como não são as mais bem acabadas de seus au-
das com mensagens políticas, que integram as recentes manifestações bem o demons- tores; mas, somadas aos depoimentos e car-
o trabalho “Inserções Ideológicas”, não fo- tram. Na ausência de respostas, os mortos tazes, cumprem sua função de luto. O as-
ram descartadas após o uso, mas conserva- não podem descansar em paz. pecto didático é fundamental para lembrar
das, como que parodiando o hábito egípcio O “Adágio para cordas”, de Samuel os visitantes de que as feridas da história
de sepultar objetos junto aos corpos, para Barber, é uma boa trilha sonora para esse brasileira ainda estão abertas.  — J
88

Caleidoscópio:

a América Latina
sob nossas lentes
organizadora Carlota de Azevedo Bezerra Vitor Ramos

Orejeras, representações artísticas


do sistema hidráulico do povo Zenú.
Museo del Oro del Banco de la
República – Colômbia (foto: pedro
tiê cândido souza).
cultura e arte

“La riqueza de América Latina está en ser muchas cosas a la vez,


tantas que hacen de ella un microcosmos en el que cohabitan casi
todas las razas y culturas del mundo. (...) No es exagerado decir
que no hay tradición, cultura, lengua y raza que no haya aporta-
do algo a ese fosforescente vórtice de mezclas y alianzas que se
dan en todos los órdenes de la vida en América Latina. Esta amal-
gama es nuestro mejor patrimonio. Ser un continente que carece
de una identidad porque las tiene todas. Y porque, gracias a sus
creadores, se sigue transformando cada día.”

“América Latina: unidad y dispersión”, Mario Vargas Llosa


no alto Carnaval no Lago Titicaca:
festival de Santiago – Bolívia (foto:

mariana yokoya simoni).
acima Cabeça de Quetzalcóatl, di-
vindade mesoamericana. Museu A América Latina é diversidade. No presente ensaio fotográfico, os
Nacional de Antropologia, Cidade
diplomatas da Turma 2012-2014 do Instituto Rio Branco apresen-
do México – México (foto: mariana
marton). tam suas visões do caleidoscópio latino-americano de tradições,
culturas e paisagens – o fascinante microcosmos de identidades
de que fala Mario Vargas Llosa.
90

ao lado Lago de Atitlán e o vulcão


de São Pedro compõem paisagem
exuberante – Guatemala (foto:
thiago oliveira).
abaixo Avenida 9 de Julio, Buenos
Aires, o coração pulsante da capital
porteña – Argentina (foto: leandro
pignatari).
cultura e arte

acima Uma lenda, um povo, uma cidade:


Ollantaytambo – Peru (foto: mariana
yokoya simoni); “La primera maravilla tu-
rística de Colombia”, a Catedral de Sal de
Zipaquirá – Colômbia (foto: pedro tiê
candido souza).
ao lado Salar de Atacama, uma das faces
do deserto de desertos – Chile (foto: lu-
cianara andrade fonseca).
92

ao lado Esforço e devoção caracteri-


zam procissão católica em Antigua –
Guatemala (foto: thiago oliveira).
abaixo Intervenção: poder urbano nas
ruas de San Telmo – Argentina
(foto: césar yip).

leia mais
Citação retirada de : http://www.
fundacionvidanta.org/fundacion/
doc/pdf/keynote/02-America-Lati-
na-unidad-y-dispersion-v-llosa.pdf
cultura e arte

CONTO

EXPOSIÇÃO
UNIVERSAL
José Carlos Silvestre

“You know, in Afghanistan, when you smoke from depois, e resolvo mostrar-lhes a cidade como eu a co-
the corner of the mouth, we say it means you are nhecia, os lugares que eu frequentava. Como a cidade
missing someone.” se transforma, tantos dos meus lugares favoritos já fe-
charam, e faz, o quê, um punhadinho de anos. Passamos
“I suppose I must be a romantic, then”, sorrio. “I em frente de dois prédios em que morei, conto ane-
always smoke sideways.” dotas de vizinhos excêntricos, de boates e bares que
tinham um charme inusitado. Passando pelos teatros
— da Praça Roosevelt, deparo-me com fotografias de ami-
gos, de figurino e maquiagem, em montagens de pe-
Somos muito poucos, os fumantes no hotel, e acaba- ças que eu talvez tenha assistido. Pergunto-me por
mos nos conhecendo rapidamente, reunidos sozinhos onde andarão agora. Agora que não temos mais vinte
ao redor dos cinzeiros nas entradas do saguão, com- e poucos anos, será que eles ainda estão por aí, noctí-
partilhando minutos sem outra finalidade. Eu deveria vagos e boêmios, vivendo de teatro?
estar apresentando São Paulo, para ele e para vários
outros diplomatas, como um bom lugar para hospe- —
dar um grande evento; mas o voto do Afeganistão já
está decidido, e o assunto acaba sendo somente en- O diplomata afegão me conta que seu ministério dis-
fadonho. Há uma cumplicidade pequena, ou uma cor- põe de cinco mil coletes à prova de bala. O relato apa-
dialidade sincera, entre os fumantes do nosso sécu- rece quase sem contexto, como algo que ele sentis-
lo. Nossas conversas são lentas, amenas, pontuadas se uma pressão para falar. Ele me conta muito pouco
com silêncios longos. Não há uma vista, o olhar per- sobre o Afeganistão, apesar de minha curiosidade
dido acaba procurando algo em que se fixar num es- evidente; a conversa, ao invés disso, encaminha-se
tacionamento. Todas as vezes, ele me oferece cigarros sempre para seus anos felizes em Dubai, a cidade das
que trouxe do Afeganistão, muito mais fortes que os torres luminosas no meio do deserto, dos imigrantes
nossos, que trago com dificuldade. de toda a Ásia, de cifras assombrosas. Ele me pare-
ce um pouco ocidentalizado, com sua barba por fa-
— zer, sua camisa com dois botões desabotoados, uma
careca crescente à mostra. Quando pergunto quan-
Saio com alguns colegas para jantar perto do cen- to tempo ele viveu em Dubai, confirmo que passou
tro. Estamos muito cansados, estou cansado demais a maior parte da vida fora de seu país, refugiando-se
para não querer beber. Saímos caminhando pelas ruas dos conflitos e do Talibã. Tampouco me fala sobre a
imagens Mapa souvenir da Exposição de Chicago, Biblioteca do Congresso Americano 94

guerra e a ocupação, exceto por elipses assim, desa- a qualquer momento, sabia-se –, mas o dirigível da
jeitadas, em que nunca nos retemos. Goodyear, montado às vistas dos visitantes, vogava
lentamente entre as nuvens, visível de toda a cidade.
— A luz e o céu eram as novas fronteiras que cediam, um
novo e etéreo continente a ser colonizado.
O taxista, descubro por acaso, mora no bairro em que Qual é o nosso futurismo, o que esperamos de novo
se planeja construir o parque da exposição. Conto para e maravilhoso ainda no tempo de nossas vidas? A or-
ele do projeto, cito números aproximados. Menciono dem do dia é a sustentabilidade, tudo que é moder-
a perspectiva de construção de hotéis, para acomodar no é ecológico, durável, renovável. Um pensamento
os visitantes (“hotéis!”, ele não consegue deixar de ex- me desconcerta: a humanidade, me ocorre, descobriu
clamar), de grandes centros de convenções. Quando que já passou da juventude, agora sabe que vai mor-
chegamos, ele saca o celular e me mostra fotos que ti- rer um dia – não mais em abstrato, como sempre sou-
rou do alto do pico onde, contei-lhe, pretende-se cons- be, mas concretamente, calculando os anos para re-
truir uma torre, de onde se veja todas as instalações cursos se exaurirem, prevendo catástrofes em metros
do parque, com grandes painéis solares. Ele se descul- e graus centígrados, percebendo que as irresponsabi-
pa que as fotos são dele mesmo, selfies para usar no lidades do passado deixaram suas marcas e sequelas.
Facebook, mas aponta que dá para ver um pouco da Descobre que a fantasia de morrer jovem não é mais
paisagem por trás. A essa altura, ele fala com algum reconfortante, porque já é tarde demais para morrer
comedimento, talvez precocemente agradecido, tal- jovem. Também não está velha, é claro; mas, a essa al-
vez sentindo que conversa com alguém importante. tura da vida, percebe, precisa começar a se cuidar.
Lembro a ele que ainda é uma disputa, que nada está
definido. Tenho dúvidas sobre as chances reais da ci- —
dade, na verdade, mas prefiro não estragar seu otimis-
mo, mesmo falando de um jeito ressalvado e cautelo- Meu amigo do Afeganistão se despede. Diz-me que vou
so. Depois de sair do carro, olho para trás e noto que o descobrir em breve que o mundo é pequeno, muito pe-
deixei sorridente e pensativo. queno, cita um ditado afegão envolvendo amizade e pi-
Entrando no hotel, olho para o relógio e conto as cos de montanhas. Não entendo exatamente o que ele
horas que ainda terei para dormir. O café da manhã é diz, ele está falando baixo e um pouco enrolado, mas
cedo, e o dia será corrido. é um momento bonito e não quero interrompê-lo pe-
dindo para que repita. As caipirinhas do almoço esta-
— vam mais fortes do que é usual. Ele pede para que eu
tire fotos dele ao lado de uma das garçonetes, que, ele
A Exposição de Chicago de 1893 rendeu-lhe o epíte- me diz, é idêntica a uma amiga dele, e quer mostrar a
to de Cidade Branca. Pela arquitetura marmórea das coincidência quando retornar ao Afeganistão. Saímos
instalações, mas também pelo prodígio da luz elétri- para fumar e ele me oferece um último cigarro. Noto
ca – 10.000 lâmpadas incandescentes que iluminavam que ele fuma pelo canto da boca.  — J
o parque de exposições o tempo inteiro, mantendo-
-o sempre em funcionamento, resplandecente quan-
do a noite caía. Um marco da engenharia, o embate
decisivo entre corrente contínua e corrente alterna-
da. A aviação ainda estava por ser conquistada – seria Este é um texto de ficção.
cultura e arte

CONTO

O viajante
tremeluz
Rafael Santos Gorla
foto Kyle Post 96

No interior de um casebre, um homem deita em vida em derredor, consumindo as horas do dia como se
um colchão recheado com maços de palha seca e pe- fossem feitas de substância perecível. Vivia, contudo,
nas negras. Ele tem a aparência de quem dormita, mas na expectativa de grandes acontecimentos – sua filo-
está desperto – se bem que por um fio. Ele sente os sofia lho impingia. Quando Barnabás chegou, transpa-
olhos umedecendo debaixo das pálpebras e massageia receu um espírito invulgar. Finalmente, alguém digno
com as pontas dos dedos o cerne sensível das têmpo- do amor represado de Ariela, alguém com quem coa-
ras. Deitado sobre o ervaçal seco do colchão, silvos de bitar em modesta choupana situada além das ermas
vento penetram pelas frestas do casebre e lhe gelam bordas da vila, ao final de picada aberta há muito tem-
os ouvidos expostos. Velho recesso este onde ele se ins- po e recoberta por ramagens viçosas e crespos mata-
talou: uma simples choça de madeira e teto de palha, gais do bosque de D. Assim se fez, e Barnabás a amou
um único cômodo retangular iluminado por bruxule- de tal maneira que pouco importou a Ariela que o ho-
ante lampião de mesa, rústicos apetrechos de cozinha mem já tivesse filhos e mulher abandonados em outro
num dos cantos e – o resto são sombras cujas formas sítio. Pouco importava que ele passasse o dia de olhos
não discernimos inteiramente. Aqui está o homem, co- fechados, esparramado no colchão preguiçosamente, e
berto por mantas retalhadas, massageando suas têm- só mesmo quando estivesse abrasado conjurá-la para
poras, respirando pesadamente. Olhando mais aten- junto de si e possuí-la sem muitas cerimônias.
tamente, percebe-se que o repouso do homem não é Mas isso foi antes. Ultimamente, a situação compli-
sadio. Toda sorte de tremores se alastram. São cami- cava-se. O estado de Barnabás se agravara desde o início
nhos dolorosos que se vêm abrindo dentro de si: o ho- do inverno. A enfermidade começava a rastejar para fora
mem está gravemente enfermo. de seu corpo, tornando-se quase uma presença física no
Barnabás de Silentio é seu nome, natural de Chipre, casebre. O ar de alívio do viajante que encontra pouso
homem bom e piedoso, cheio de temor e fé, mas trans- foi aos poucos sendo substituído por frequentes insinu-
bordante de ternuras ao longo de suas margens e tudo ações mórbidas vindas de sua parte. A princípio, Ariela
o mais que disso decorre. No auge da maturidade e só- quis ignorá-las, refugiando-se nos voos de colibri de sua
bria bonomia, teve rompantes de sensualidade e deixou mente distraída, e assim tentaria viver dentro dos limi-
esposa e filhos e errou pelas franjas do mundo há longos tes do tolerável, mas foi inútil – e o convívio dos aman-
anos já, empenhando-se em trajetórias exóticas como tes acabou mesmo se entrevando. Ao contrário do que
um fio d´água, entornando libações feitas em sua home- ela esperava, contudo, as trevas não foram opressivas:
nagem pelas jovens que encontrava nas estradas, cada alimentaram-na, e ela nelas se fortaleceu. Afundando
vez mais ao longínquo retiro, às vezes na companhia na disciplina da dor para só então emergir do outro lado,
de outros viajantes, no mais das vezes solitário, como serena, pôde refletir com calma sobre as cravelhas de
que guiado por constelações interiores lhe alumiando seu amor por Barnabás, mesmo que as cordas se arre-
os horizontes do pensamento. Trilhou caminhos de ter- bentassem uma a uma e que viesse a ser tarde.
ra batida, roçou o corpo em arbustos e abrolhos, roçou “São muitas as transformações que sei me pegarão
campos férteis e inférteis e veio descansar numa chou- de surpresa assim que eu acordar, por acaso, uma ma-
pana isolada, no interior da qual uma menina de seus nhã após a outra ao teu lado. É natural que eu me sinta
19 anos lhe prepara um caldo de raízes negras. um pouco intoxicada diante de ti, mas meus sentimen-
Ariela nunca se aventurou mais do que algumas lé- tos também são irradiantes, voltados tanto para fora
guas para além dos limites da vila onde nasceu – terra quanto para dentro, e podem acabar se alastrando em
de velhas senhoras e de homens que morriam precoce- torno de ti quando menos esperas. Sim, irradiantes! pois
mente devido a afecções desconhecidas. Sendo ainda não vou recolher as mãos diante de qualquer coisa que
jovem, ela não era soturna como os demais, mas tam- eu possa tocar e trazer para junto de meu peito; sinto
bém não era propriamente jovial – difícil sê-lo quando como se nada pudesse me machucar que não deves-
se sente o calor de nauseante fermentação agindo na se ser suportado, nada pudesse satisfazer-me que não
cultura e arte

devesse ser saboreado até os ossos. Tu o sentes? Quero primeiros dias contigo: se eu partisse, teu estado seria
que fique claro para ti que não vejo diante de mim um sim muito triste, mas não duraria tanto quanto pensas.
homem velho que, no auge da respeitabilidade, de re- É verdade que tu te aproximaste de mim com desenvol-
pente se revelou incorrigível libertino; tampouco vejo tura, o que me encheu de felicidade por um tempo, mas
um homem que relutantemente se rendeu à concupis- te apaixonares por mim foi algo absurdo em face das
cência, ao se concluir incapaz de resistir-lhe. Esse não é atuais circunstâncias. Talvez tu não te dês conta, mas
o Barnabás ao qual me afeiçoei. Tu és as revoluções do te aproximares do absurdo foi como te achegar à bor-
torvelinho, as muitas voltas em torno de um eixo mó- da de um penhasco, e tu flertaste com o salto corajosa-
vel; o homem ajuizado e o bárbaro concupiscente têm mente, mas foste precoce quanto às decisões tomadas.
a mesma face irresistível, o mesmo sorriso inexplicá- O medo voltou a tomar conta de ti sem que percebes-
vel; tu és o velho leito de rio por onde passam muitas ses. Na tua cabeça, ainda estás aguentando firme no
águas de diferentes tributários, barrentos ou cristalinos. limite, de braços abertos e olhos fechados, sentindo ra-
“Tu eras ajuizado e temente a Deus, mas te tornaste jadas de vento te agitarem os cabelos loiros, mas a ver-
blasfemador. Uma vez carnal, podes voltar a ser santo, dade é que retrocedeste em tua coragem e agora estás
e assim consecutivamente. A contradição está no teu muito aquém da borda do abismo de onde te despenha-
cerne e, se queres saber, isso me inspira, me faz encarar rias quando chegasse a hora. As vertigens que suportas
a vida mais tranquilamente; é como se nevoeiros de es- com orgulho são as da criança se arriscando no balanço,
perança de repente me tivessem encoberto quando te não as do suicida em queda livre. Ariela, tu retrocedes-
vi chegando à nossa vila; talvez não se dispersem nun- te abrindo-me caminho. À tua deixa, eu é que me pre-
ca mais, mas, sinceramente, não me preocupo com isso; cipito, de olhos abertos mordidos pelo vento, sem vol-
eles não me confundirão – e sinto que chegam até a fa- ta.” De pé, Barnabás suspendia os braços e gesticulava
cilitar meus movimentos, suavizando-os, refrigerando estranhamente, como se a doença lhe tivesse despro-
minha fronte e filtrando os poderosos raios do sol, que, vido do senso de ritmo. “Saiba também que despachei
a esta hora, já me teriam queimado, estivesse eu nua mensageiro levando carta à minha velha esposa. É pos-
em campo aberto. Falo-te a verdade, sinto-me pronta sível que ela reaja enviando-me o Dr. L., o que, todavia,
para resignar-me infinitamente, caso nos sobrevenha não era minha intenção.”
o pior dos cenários. Tu estiveste são, agora jazes enfer- Ariela foi pega de surpresa. Sentiu vontade de co-
mo; pode ser que te recuperes, o que muito me agrada- brar-lhe pedido de desculpas. Ela, mais do que qualquer
ria; mas, se pereceres, então será como se congelassem outra, não retrocederia. Ficaria do lado dele até o fim! A
até as mais internas sinuosidades de meus músculos desconfiança de Barnabás a magoou. Sentou-se à mesa,
e nervos. Não seria, contudo, o meu fim; a força de mi- calada, respirando fundo, o olhar fixo em seus pés des-
nha resignação me conduziria pelo resto de meus dias.” calços. Recompôs-se e voltou ao caldeirão onde ferviam
Barnabás estivera ouvindo em silencio até agora, suas raízes negras. Pensando bem, a vinda de um mé-
deitado no colchão de olhos fechados, como de costu- dico até que não seria mau negócio, mesmo que isso
me, mas algo nas palavras de Ariela acendeu nele o de- pudesse servir de desculpa para a Senhora de Silentio
sejo de contradizê-la. Talvez as efusões indulgentes da vir junto. E se o Senhor de Silentio resolvesse bancar o
amante o exasperassem. Pode ser que ele se sentisse contrito e implorar o perdão de sua esposa, Ariela não
vulnerável e de mau-humor, ou que sua paciência esti- se ofenderia. Assim ditava o desespero íntimo que a li-
vesse desguarnecida, e aí penetrou uma chispa de irri- gava ao amante. Era preciso que o mais impulsivo en-
tação. Deslizando por debaixo de cercas vazadas, nada tre os devassos, o mais desavergonhado entre os sa-
a conteve. Ariela ainda falava quando ele se levantou lafrários fosse também capaz, com toda a sinceridade
e tomou-lhe a palavra abruptamente. de seu coração tormentoso, dos gestos mais sublimes
“Pelo contrário, tu estás enganada – revelar-te-ei ago- e puros! Era preciso ainda que, após honesta demons-
ra um segredo, algo que senti em tua presença desde os tração de arrependimento, Barnabás voltasse atrás e
98

se lançasse nos sorvedouros da volúpia cujas corren- pudesses sentar-te à mesa com a Senhora de Silentio,
tes o arrastariam pela segunda vez ao colo ardente de por alguns minutos que fosse, para um dedo de pro-
Ariela, e que nunca cessassem as graças pendulares sa. E se isso mexe com teu brio, nada se pode fazer, é
desse motif, uma vez que nem ele nem ela existiam a verdade. No fulgor das safiras, ametistas e esmeral-
autonomamente, porque não passavam de dois feixes das da verdade, não há sentindo em embaçar os ares
de fibras extremamente sensíveis ao toque raspando- com tuas declarações de amor. Queres mesmo ir? Vai,
-se um contra o outro no frêmito e escuridão das ce- mas cuides para que não tropeces, fazes figura ridícu-
gueiras incuráveis, meras ondas timbradas ao alvitre la saindo assim, esbaforida como uma louca.”
inconsciente de uma clave desconhecida, impessoal Ariela se foi – mas é certo que voltaria. Isso não im-
e noturna na qual ressoa em ignorância toda a gente, portava mais, contudo. O pensamento de Barnabás es-
ninguém podendo dizer francamente Eu sou – ou outra tava a léguas de distância do casebre, indo esquadri-
arrogância do tipo – mas todos tão somente como em- nhar a imagem de Joana de Silentio, que dentre pouco
barcações desguarnecidas, à deriva nos abismos azuis teria nas mãos a carta enviada por ele. “Está doente...
do mundo. Nesse caso, entretanto, o que explicaria a está doente...”, ela suspiraria. Ouviria falar dele depois
firmeza de sua resignação? Mesmo estando confusa de tantos anos... sua súbita materialização nos garran-
pelos inesperados transbordos de ideias, ela se voltou chos rabiscados no bege do papel, o meio polegar de
para o amante e exclamou: “Meu amor, és tu que tens tinta premido num canto da página, o vago tom hu-
medo! O homem que se plantou à beira do penhasco milhado da carta redigida em falso monólogo (falta-
e depois voltou atrás, coberto de vergonha, não é ou- -lhe equilíbrio para falar a ela diretamente), as chara-
tro senão tu! Eu, de minha parte, estou infinitamente das bizantinas forçosamente extraídas dos trançados
resignada no meu amor por ti.” de seu cérebro... Ela lê um trecho da carta em voz alta,
Essas últimas palavras acerbaram Barnabás ainda para que os filhos ouçam: “A nostalgia pelos dias que
mais. Sua irritação saltou como um tigre negro por so- nunca existiram– mas como então nos lembramos de-
bre Ariela. Suas ofensas se arvoraram aleatórias e im- les? – ou ainda as coisas que te ocupavam quando tu
previsíveis, tornando impossível a esquiva. “Se insistes eras menino e que, depois, tu deixaste para trás. Importa
nesse ponto, te revelo outro segredo. Tua resignação recuperá-las enquanto ainda tens ânimo. Assim sabe-
ficou a meio caminho, ou melhor, tu te resignaste pe- rás que tuas dores são o oposto do que pensas. Não são
los motivos errados. Agora vejo claramente: tu sabes uma muralha intransponível contra a qual golpeias vio-
pouco ou quase nada sobre tua própria existência, a lentamente a testa até caíres inconsciente e desprotegi-
qual tu, muito estupidamente, desconfias nem mesmo do, à vista de todos. Tuas dores são o oposto dessa soli-
existir de maneira independente. Feixes de fibras?! Tu dez, elas são as lacunas do abandono, o te sentires sem
estás equivocada dos pés à cabeça e chegas a insultar- nenhum respaldo, o achares que não há mais ninguém
-me com as palermices que cogitas à beira do caldei- por perto enquanto perambulas pelas arenosas vasti-
rão. Levas uma vida imaginária e inautêntica e talvez, dões do cosmo, até que um dia tu encontras um ata-
no teu caso, seja até razoável supor que grande parte lho para a enfermidade, e nesta, um atalho para a ver-
do que fazes não venha de ti, não tenha qualquer vín- dadeira doença mortal – que é o desespero. Caso logres
culo com o frouxo elástico da tua alma negligenciada. vencê-lo, então terás avistado, à distância, as portas de
Pode ser que tu nem sejas mesmo uma filha de Deus tua casa abertas, para que tu entres em paz e repouses
– tu o dizes –, mas apenas uma vulga aglomeração de no conforto de teu quarto uma última vez. Mas não te
algumas dúzias de qualidades mundanas comparti- digas que não tens mais força para percorrer todas as
lhadas por milhares de outras mulheres, ao sabor de etapas dessa dedução severa. Tu não és um imbecil com-
arranjos genéticos quaisquer– como, aliás, insistes em pleto que te devesses concentrar tanto para compreen-
alardear, sem o menor pudor ou amor próprio. Sei que der algo tão simples. Não precisas investir de uma só
te será penoso ouvir isto, mas muito te instruirias se vez toda a energia do teu intelecto. Só um pouco, e por
cultura e arte

curtos períodos de tempo, e a conclusão a que chegarás isso acaso por saber que o marido obedecia a leis que
terá um nome familiar...” vigiam em seu coração, e não a injunções estranhas à
Joana de Silentio interrompeu a leitura nesse ponto. sua existência, e que continuava sendo o mesmo de
Dobrou a carta de Barnabás e a guardou na gaveta da sempre – e não um arremedo contraditório e dispara-
cômoda. É triste, mas o homem está louco. Sua men- tado, como queria a pérfida Ariela – merecendo, por-
te dá rasteiras em si mesma, fustigada que está pela tanto, ainda um mínimo de atenção da família? Lera a
enfermidade, e o resultado é esse melodrama sofrível, carta em voz alta e com o coração apertado acaso por
inacreditável. Arrependeu-se de ler a carta aos filhos, saber que o marido sempre fora guiado pelas conste-
que agora, silenciosos, olhavam-na com ar assustado. lações interiores de seus pensamentos, estrelas que
Ao menos ele não discorreu sobre o vinho novo. Teria nunca iriam se consumir, que nunca o esmagariam
sido demais para ela. Ela sabe que é impossível uma debaixo do peso negro de mil sóis moribundos, estre-
reconciliação. Um absurdo, impossível! Reviver os anos las que – conquanto se movessem no céu, de maneira
nunca vividos, mas dos quais nos lembramos com nos- desorientadora – continuariam ardendo eternamen-
talgia?! Acaso estivera ele zombando dela nessa carta te, assim como ele permaneceria para sempre em sua
infame? Estivera ele rindo gostosamente, com a cabe- desesperada e errante existência, tremeluzindo em
ça recostada no colo oleado da garota Ariela, enquan- meio a assombros distantes, não importando quão
to redigia esses raptos verborrágicos que, depois, com destrutiva fosse a enfermidade, quão iminente a mor-
muito atrevimento, endereçaria a Joana? Ou estaria te? Arrumara as malas e convocara o médico acaso por
mesmo louco, seriamente, e o pretenso desaforo não saber que o marido era homem bom e piedoso e que
era senão o sintoma de uma situação realmente mi- venceria – como ela venceu – o desespero, e que, como
serável? Poderia ser ainda que, diante dela, ele só pu- ela, teria certeza de que, precisamente porque é impos-
desse ficar em silêncio, fazendo jus a seu nome, e que sível e absurdo, reconciliar-se-iam?  — J
esse silêncio fosse tanto mais marcante quanto mais
calibrado pelos devaneios rabiscados na pauta da carta.
Foi embalada por essa inquietação que Joana man-
daria aprontar as malas. O doutor L., médico da família,
seria avisado dos preparativos para a viagem. Pela ma-
nhã eles partiriam em direção a um povoado afastado,
vila humilde que margeia o bosque de D., no interior do
qual um casebre se acha imerso em pesada cerração. O
marido convalescente acenara enfim. Mas quanta pre-
sunção o crer-se digno de receber perdão! Ela sabia o
que devia fazer com ele: conduzir o Dr. L à sua presença,
administrar unguentos, apaziguar um pouco sua cons-
ciência deteriorada e preparar-lhe para o fim – e nada
mais. Não haveria perdão sincero, não haveria restitui-
ções, nem vinho novo servido extemporaneamente...
Ainda assim, ela lera a carta aos filhos, em voz alta.
Estranho impulso. Há muito o pai já havia evaporado
da memória dos filhos, sobrando apenas um rastro de
flor de gesso, sedimento imperceptível no panorama
desértico que os dois meninos haveriam de cruzar ao
longo de suas vidas. Por que reavivar, com a leitura da-
quela carta atordoante, sentimentos soterrados? Fizera
100

poemas
Bruno Quadros e Quadros

Calvinice pós-moderna

Tinhas razão, ó Calvino!


O inferno dos vivos é agora
Quadrúpedes emborrachados
E bípedes autômatos

Ó Calvino, como abrir espaço no inferno?


Se a autoimportância ensurdece a alma?
Se o não sofrer repele o novo?
Se o dogma empederne a experiência?

Ó Calvino, como ser Marco Polo hoje?


Se na cidade o invisível sou eu?
Se na vida o inferno são os outros?
Se nas coisas não se é si mesmo?

Perdas desrimadas e desmetrificadas

Nascemos para ser espoliados


O tempo a Morte nos rouba
A esperança a Frustração nos toma
A fé o Cinismo nos surrupia

Nascemos para tudo perder


A singeleza o Progresso tomar
A amizade a Intriga surrupiar
O sucesso a Cobiça roubar

Nascemos para nada ter


A Arrogância a crítica surrupiar
A Indiferença a sensibilidade roubar
A Rotina o encantamento tomar
artigos

texto Pedro Ivo Ferraz da Silva

No inverno de 2013, ao vagar pelas rue-


las do bairro de Pinheiros, na capital pau-
“Em Nome de Deus Todo Poderoso e
lista, deparei-me com um pequeno casebre
geminado, que, acima da porta de entrada,
Misericordioso, copio, nestas páginas,
trazia a seguinte inscrição: “Alfarrábios
Sírios”. De fora, avistavam-se estantes re-
o texto que encontrei nas ruínas da
pletas de livros empoeirados, cujas capas,
devido à escassez de luz no interior, não
Casa Al-Hikma, logo após a invasão
eram facilmente identificáveis. Entrei sem
muita cerimônia e fui recebido por um ve-
de Bagdá pelo exército do Imperador
lhinho sorridente, que, tomado pela sur-
presa de receber um visitante, talvez o
mongol Hulagu Khan. Parece-me
primeiro daquele dia, pôs-se logo a fazer
publicidade de sua “singela, porém signi-
tratar de um escrito do sábio Platão
ficativa” coleção livresca. Dizia que era
imigrante de Damasco e que havia herda-
de Atenas, discípulo de Sócrates, que
do de seu pai o ofício de antiquário. Entre
as preciosidades de seu estabelecimento,
os tradutores da dinastia Abássida,
estavam edições oitocentistas e novecen-
tistas do Corão, além de relatos de viajan-
revelando extrema erudição,
tes mouros dos séculos XII e XIII.
Sem dar muita confiança ao idoso alfarra-
buscaram relegar para a eternidade.
bista, percorri com os olhos uma das pra-
teleiras e notei uma vistosa caixa colori-
Abençoado seja o Profeta Mohamed
da, com inscrições artísticas em árabe na
parte superior. Indaguei-o sobre o conte-
por guiar-me até este tesouro e por
údo, ao que me respondeu com indiferen-
ça: “Apenas alguns papéis amarelados, sem
facultar que tão ilustradas palavras
muito valor. Segundo meu pai, um masca-
te de Bagdá havia oferecido esses papéis a
fiquem imunes às agruras do tempo.”
meu bisavô em troca de uma cópia persa
do Hazar Afsana. Até hoje, não compreen-
do o que o levou a se desfazer daquela relí-
Fadih Ibn-Rihla, Maragheh
quia”. Minha habitual curiosidade por ob-
jetos desprezados levou-me a abrir a caixa
de madeira. Nela, encontrei cinco folhas
dobradas, todas, de fato, muito danificadas
pelo tempo. Meus parcos conhecimentos
no idioma árabe, porém, permitiram-me
suspeitar que aqueles papéis guardavam
uma inestimável joia literária...
102

Equécrates ou
sobre a representação
estrangeira
sócrates Vejo-te cansado, caro e É o dever de meu pai, caro Sócrates. Sócrates, que meu pai está em idade avan-
Equécrates. Tuas sandálias estão por se Acolhe todos aqueles que em Atenas ve- çada e seu corpo já não suporta mais o far-
desfazer e a túnica que te veste está re- nham representar a cidade de Cálcis. Sede- do do ofício. O velho Trasímaco me con-
pleta de suor. lhes dos melhores aposentos de nossa casa, fessou não poder mais exercer a contento
equécrates Tens razão, ó Sócrates. oferece-lhes do que há de mais saboroso o papel de anfitrião, que requer muita or-
Venho caminhando de Pireus; sessenta para comer e beber, facilita-lhes os encon- ganização, astúcia e agilidade.
estádios separam o porto desta ágora. Mas tros na cidade. E, como fez em Pireus, as- s É certo que um próxenos não necessita
a corrupção de minha aparência contrasta segura que regressem a Cálcis pelo melhor da destreza de um atleta para lançar longe
com a disposição de minha alma. e mais calmo caminho. um disco ou da esperteza de um homem
s Deixaste-me pensativo, estimado ami- s Se Zeus ainda me permite preservar boa para bem conduzir uma biga, mas não es-
go. O que anima teu espírito, que nem memória sobre os cargos e as funções que tou em desacordo quando dizes que se
mes­mo tamanha distância é capaz de podem exercer os homens no Estado, eu requer grande virtude para bem receber
desencorajá-lo? afirmaria que esse estrangeiro veio como seus visitantes.
e Exaustão e euforia não andam juntas e embaixador de Cálcis e que teu pai, ao au- e Justamente, caro amigo. Mas meu glo-
não serias, ó Sócrates, o único ateniense xiliá-lo nos negócios calcisienses em Atenas, rioso pai, como sabes, é homem de grande
a sentir-se perplexo diante de inusitada cumpre o papel de próxenos daquela cidade. responsabilidade e não tem por costume
combinação. Exporei os motivos de meus e Por Mnemósine, Sócrates! Que teu co- abandonar seus deveres; preocupa-lhe em
sentimentos para que possas avaliar se há nhecimento causaria inveja ao mais douto demasia não ser capaz de receber os cida-
coerência em meu espírito. dos “Sete Sábios” e que se comete grande dãos de Cálcis, que têm visitado nossa ci-
s Ouvirei com atenção tuas palavras. injustiça ao não te incluir nesse distinto dade com crescente assiduidade. Receoso
e Estava em Pireus com meu pai, Trasímaco. grupo. O Oráculo ainda há de revelar que dessa situação, Trasímaco propôs a mim
Despedimo-nos de um visitante de Cálcis, és o mais sábio entre os gregos. assumir a função de próxenos de Cálcis.
que permaneceu em Atenas por dois dias s Não guardo em mim sabedoria, s Confesso não estar surpreso com a pro-
para realizar alguns negócios em nome Equécrates; tampouco creio que aque- posta do velho Trasímaco. Um pai que tem
de sua cidade. les tidos como os mais sábios entre os sá- confiança em seu primogênito e conhece o
s Lembro-me de ter visto Trasímaco bios tenham a sabedoria que pensam ter. vigor de sua juventude dificilmente poderá
acompanhado de um estrangeiro na ma- Mas ainda não explicaste a razão de teu apontar outro homem para dar continui-
nhã de ontem, próximo ao templo de Ares. entusiasmo. dade a seus negócios e a seus deveres. Mas
Abrigastes esse cidadão de Cálcis em vos- e Por certo não manterei em segredo o que estás seguro, Equécrates, que o destino
sa residência? tanto me concita os sentimentos. Sabes, ó que teu pai agora te oferece corresponde
artigos

a teus próprios anseios? Não foste acome- gravidade de uma condenação ao ostracis- e De forma alguma, caro Sócrates. Tanto
tido por uma súbita euforia e deixaste as- mo! Não entendo porque fazes acusações eu como meu pai somos cientes de nossas
sim de refletir sobre a real implicação des- tão graves a uma atribuição tão honrosa. obrigações e de nossos direitos. Como ci-
sa nova responsabilidade? s Não pode haver honra onde a verdade não dadãos de Atenas, somos potenciais ora-
e Não compreendo teu discurso, sábio é absoluta, Equécrates. Ao assumir certos dores nas reuniões no Pnyx, podemos par-
Sócrates, e as perguntas que me fazes pa- deveres em relação a Cálcis, teu pai abdicou ticipar das votações na Ekklesia e, desse
recem desaprovar o valor de tão nobre fun- de ser um pleno cidadão de Atenas; e não modo, somos capazes de decidir o futuro
ção. Um próxenos goza de grande prestí- há nada que Trasímaco possa fazer para desta cidade. Atenas também permite que
gio na cidade em que vive, pois frequenta alterar essa situação; nem mesmo a mais tenhamos terras, como é o caso de nosso
as residências dos mais abastados senho- bela declaração de fidelidade a esta cidade pequeno campo de oliveiras, do outro lado
res e mercadores, além de possuir fácil in- seria bastante para restituir-lhe a integri- da margem do Erídano.
terlocução com os administradores públi- dade da cidadania, a não ser que abdicasse s Falastes de direitos e deveres, mas des-
cos locais. Acompanho meu pai desde os de suas obrigações perante os calcisienses. tes exemplos apenas dos privilégios de que
primeiros anos de minha puerícia e, em e Vejo que defendes com firmeza tua po- gozais como cidadão. Não tendes também
diversas ocasiões, pude constatar que é sição, Sócrates, e eu não ousaria afirmar obrigações perante esta cidade?
um homem de grande honra em Atenas. que teu discurso está destituído de senti- e Tens razão. Como cidadãos, devemos
Considero que Moros regalou-me com um do. Contudo, não acompanho teu pensa- obedecer as leis de Atenas, mesmo se es-
dos mais gloriosos desígnios que um ho- mento e muito me interessa saber a razão tas estão em desacordo com nossa vontade.
mem pode experimentar. por detrás de teus argumentos. s E também deveis, no caso de guerra, lutar
s Não me refiro à notoriedade que asso- s Se estás disposto a avaliar a coerência de em favor de Atenas, independentemente
cias à função de próxenos. Porém, mesmo minhas palavras, Equécrates, peço, antes, do inimigo que está do lado oposto?
se essa fosse a única implicação desse car- que deixe tua exaltação de lado, pois tal e É verdadeiro o que afirmas.
go, penso que não justificaria tua exaltação. estado de espírito não permitirá que jul- s Concordas, assim, Equécrates, que a ci-
Sobre o assunto, outro dia mantive longo di- gues adequadamente a correção de meu dadania de Atenas, embora seja uma única
álogo com Alcebíades, que não foi capaz de discurso. Se, afinal, concluíres que não es- investidura, é constituída de muitas atri-
me responder o que considerava ser “pres- tou com a razão, poderás defender teu de- buições? E que basta uma singela discor-
tígio”. Por certo, se me perguntares, tam- sígnio com a verdade das palavras e não dância a um desses atributos para que a le-
pouco o saberei, e por essa razão conside- mais com a euforia da alma. gitimidade da cidadania seja colocada em
ro não ser um propósito a ser perseguido. e Farei isso, Sócrates. questão? Que mesmo que defendas heroi-
e Se não te referes ao prestígio, a qual as- s Teu pai é considerado um cidadão ate- camente o território desta cidade contra
pecto aludes para desaprovar esse cargo? niense, não é certo, Equécrates? Tu tam- invasores estrangeiros, uma mera ação in-
s A função de próxenos, meu caro bém carregas, com orgulho, essa atribui- fratora de uma das leis desta cidade cor-
Equécrates, não é compatível com a cida- ção, não é mesmo? romperá seu direito à cidadania de Atenas?
dania. Muito embora Trasímaco seja um e O que dizes é verdade. e Não posso discordar do que dizes, caro
cidadão ateniense, sua responsabilidade s E como cidadãos de Atenas, vós tendes Sócrates.
perante a cidade de Cálcis corrompe seu certos direitos e deveres, não é assim? Ou, s Alternativamente, se és um cidadão ate-
vínculo com Atenas. por acaso, pensais que a cidadania se re- niense exemplar, se segues fielmente a le-
e Por Zeus, Sócrates! Tuas palavras so­am sume a uma mera denominação, destitu- gislação desta cidade e se chegas a ser acla-
como uma sentença e tua afirmação tem a ída de consequências para seu portador? mado “o mais correto” entre os homens;
104

não seria suficiente a denúncia de que be- de Atenas se anteporia à função de próxe- e semear terra, ao colher os grãos e ao co-
neficiaste uma cidade rival para que tua nos de Cálcis, e não me furtaria a defender locá-los à venda, tem como único propó-
fama se esvaísse? a polis de que sou pleno cidadão. sito gerar benefícios para si próprio. Com
e Com efeito, caro Sócrates, seria consi- s Disso não duvido, meu estimado amigo. as drácmas que recebe pelas colheitas pe-
derado um traidor e não seria mais digno Mas os acontecimentos e nossas inclina- riódicas, pode adquirir bens e terras. Seu
da cidadania ateniense. ções em relação a eles nem sempre são tão labor termina quando transfere os grãos
s Viemos bem até aqui, Equécrates, e, con- evidentes e diretos. Suponha que, em tem- para o comprador. Já tu, Equécrates, te-
forme constatei, há concordância entre teu pos de paz, recebas em Atenas um embai- rás por objetivo gerar benefícios para
pensamento e minhas proposições. Porém, xador calcisiense que queira adquirir gran- a polis que te engajou como próxenos.
prossigamos. Ao desempenhar a função de de volume de cereais plantados em nossos Tua atividade não se limitará a interme-
próxenos, agirás em consonância com os campos. Não hesitarias em oferecer teus diar este ou aquele negócio, a fazer pros-
interesses da cidade que lhe conferiu este préstimos a esse visitante, proporcionan- perar esta ou aquela proposta de coopera-
título, não é mesmo? do encontro com agricultores locais e re- ção. Estarás a serviço, acima de tudo, do
e Certamente não me oporei às intenções movendo eventuais entraves para que o ganho de Cálcis e terás como incumbên-
de Cálcis em relação a Atenas, que visam negócio seja concluído. Não seria assim? cia garantir que o interesse daquela cidade
sempre ao aprofundamento dos laços de e Por certo, Sócrates, mas meu esforço be- por Atenas seja sempre satisfeito. Quando
amizade. neficiaria tanto Atenas, que lucraria com a esse interesse coincide com os anseios de
s Quero acreditar, Equécrates, que o produção excedente de grãos, como Cálcis, Atenas, os filhos desta cidade de nada po-
Governo de Cálcis sempre busque pre- que supriria sua escassez de alimentos. derão te acusar. Mas quando as intenções
servar a boa relação com Atenas. Mas re- s Imagine, contudo, que não houvesse fal- de Cálcis, ainda que encobertas pelo lu-
cordemos que se trata de poleis distintas e ta de cereais em Cálcis e que a compra re- díbrio ou pela mentira casual, se opuse-
que o propósito cardeal de cada Governo alizada pela cidade teria como propósito rem às de Atenas, os atenienses não hesi-
é o de garantir a integridade de seu povo alimentar seu exército durante um esfor- tarão em levantar o dedo em tua direção
e de seu território, não é mesmo? ço bélico que estaria sendo planejado con- e te acusarão de não honrar a cidadania
e Sim, é esta a finalidade de todo e qual- tra Atenas. Não teria sido teu empenho que carregas contigo. E de nada te servi-
quer Governo. em facilitar o negócio oposto ao interes- rão as palavras perante os juízes, em nada
s Hás, portanto, de admitir, Equécrates, se de Atenas? te será útil a oratória rebuscada de um so-
que, em caso de guerra entre as duas ci- e Estás com a razão, Sócrates. Porém, nes- fista diante da verdade que pairará sobre
dades, o objetivo de uma se oporá ao da se caso, assim como o agricultor que culti- qualquer tentativa de defesa: servistes aos
outra. Ou pensas que, nessa situação, os vou e forneceu os grãos, eu teria sido en- interesses de Cálcis, pois este é o propósi-
propósitos coincidem? ganado pelo discurso do embaixador de to de tua função. Convence-te agora que o
e Embora pouco provável, uma guerra sig- Cálcis. Se soubesse, de antemão, das in- ser próxenos de Cálcis não pode coexis-
nificaria que Atenas e Cálcis teriam objeti- tenções calcisienses, jamais teria acorda- tir com o ser cidadão de Atenas? Se ainda
vos opostos. Atenas buscaria a destruição do em mediar a venda dos cereais. desejas declarar alguma coisa, escutarei
de Cálcis, ao passo que Cálcis procuraria s Haveria, contudo, meu caro Equécrates, com atenção.
manter sua inteireza. Cálcis tentaria ani- uma distinção fundamental entre ti e o e Nada tenho a declarar, Sócrates.
quilar Atenas e nós, atenienses, lutaría- agricultor, que diz respeito à relação en- s Que siga, então, cada qual seu próprio ca-
mos para preservá-la. Devo observar, caro tre a essência e o resultado do trabalho minho, estimado Equécrates; e que Zeus
Sócrates, que, nesse contexto, a cidadania que cada um exerce. O agricultor, ao arar guie nossos passos.  — J
artigos

texto Geórgenes Marçal, Leandro Pignatari e Thiago Oliveira

Diplomatas
quebram
agitação urbana e em busca de paisagens
exóticas, Pedro envereda-se por trilhas
que já duraram até sete dias, tempo em
que permanece em contato com a nature-

paradigmas
za e alheio aos ruídos da civilização. “Não
tenho fetiche por atingir topos, cumes ou
lugares inóspitos”, declara, “sou, acima de
tudo, um ‘caçador de paisagens’”.
Outro que pode não ser facilmente

e recordes
encontrado em seu tempo livre é Felipe
Krause, que não perde oportunidades de
praticar a escalada – o principal, mas não
o único esporte radical que ele pratica.
Desde os dezesseis anos, Felipe escala ro-
chas verticais na América, na Europa, na
Poetas. Romancistas. Músicos. Escul­ África e na Ásia. Uma escalada moderada
tores, pintores, colecionadores de arte. significa ficar preso a uma rocha a 50 me-
Especialistas em cinema. Em todas essas tros de altura. Em seus projetos mais ou-
áreas, diplomatas brasileiros tornaram-se sados, Felipe chega a ficar a 300 metros
conhecidos e ajudaram a associar a diplo- de distância do chão – o equivalente a três
nesta página Dependurado por uma macia à cultura e à intelectualidade. Ao vezes a altura do Cristo Redentor. “Só os
corda enquanto escala, Felipe Krause lado deles, ganha espaço um grupo igual- pássaros têm aquela vista”, afirma o diplo-
ressalta que o esporte requer confian-
mente arrojado: diplomatas que se dedi- mata, que questiona a classificação da sua
ça no companheiro de escalada, que
tem o controle da corda. “O elemen- cam a esportes radicais. Mergulho, mon- especialidade como radical: “é um esporte
to de depositar profunda confiança tanhismo, voo livre, snowboard, esportes que exige concentração e técnica. Apesar
em outra pessoa, de colocar a vida em
náuticos e escalada são algumas das espe- de momentos de tensão, é extremamen-
suas mãos, diferencia a escalada dos
esportes puramente competitivos”. cialidades daqueles que aliam a perícia tí- te relaxante”.
página ao lado Olympio Faissol voou pica da carreira com audácia que só pos- Mais que um praticante ocasional,
por 11h entre Quixadá (Ceará) e Caxias suem os “diplomatas radicais”. Olympio Faissol é o detentor do recorde
(Maranhão), o que lhe valeu o recorde
mundial de voo livre partindo de mon- É o caso de Pedro Cunha e Menezes, mundial de voo livre em parapente partindo
tanha sem propulsão mecânica. que pratica o montanhismo. Fugindo da de uma montanha sem a ajuda de reboque
fotos Acervos pessoais 106

mecânico. O diplomata decolou de Quixadá, do voo livre, que teve início antes do in- na socialização da vida diplomática, por
no Ceará, cruzou todo o Piauí e aterrissou, gresso na carreira. A topografia do Planalto exemplo, o voo livre é considerado “malu-
11 horas depois, em Caxias, no Maranhão. Central e suas condições climáticas ofere- quice” por quem não o conhece, ainda que
Olympio voou 463 km em seu parapente cem um ambiente propício ao voo livre, seja “menos perigoso que andar de moto
não motorizado, com base unicamente nas contando com uma rampa natural no Vale ou dirigir um carro sem airbag.”
correntes de ar verticais (chamadas térmi- do Paranã e com térmicas fortes e abun- Já para Pedro, a carreira contribui para
cas) e no vento. “O movimento circular que dantes no período de seca. A necessidade o esporte, uma vez que permite ao diplo-
os urubus costumam fazer em voo é o mes- de voos frequentes para garantir uma posi- mata-montanhista conhecer lugares no-
mo que utilizamos no voo livre para escalar ção nos rankings fez com que Olympio dei- vos e paisagens diferentes com alguma pe-
as térmicas”, explica. “Encontrar as térmi- xasse de competir em 2009. “O trabalho é riodicidade em razão das trocas de Posto.
cas é um exercício de análise das nuvens, do incompatível com a competição, porque Nessa modalidade, a oferta de locais para
vento e do terreno em que elas se originam. os períodos de férias dependem dos com- prática é abundante. Em Nairóbi, recorda
Como o xadrez ou a diplomacia, o parapen- promissos funcionais”, afirma. É nos finais Pedro, o Clube de Montanhismo do Quênia
te é muito mais mental que físico”, afirma de semana que Olympio, literalmente, voa. conta com muitos diplomatas estrangeiros
Olympio, que ressalta que a prática do es- Nessa modalidade, o diplomata encontrou como sócios. A prática do esporte cons-
porte requer conhecimentos meteorológi- satisfação diferente daquela proporciona- titui, nesse caso, elemento de facilitação
cos, além de concentração para seguir uma da por esportes como futebol, surfe ou vela, da socialização diplomática. “A vida so-
estratégia eficaz. Por fim, o diplomata con- que praticou. “Infelizmente a prática de es- cial com colegas de outros países, além de
fessa: “em alguns momentos, é preciso au- portes radicais ainda é vista com algum pre- funcionários da ONU, era muito facilitada
dácia e coragem”. conceito”, ressalva. Sem um grande papel pela paixão comum pelo montanhismo”,
Esses são alguns dos “diplomatas ra-
dicais”, que dividem o título com outros
menos experientes nessas e em outras
especialidades. Todos eles aproveitam
os benefícios reconhecidos dos esportes
de aventura, tais como o reforço da auto-
confiança a cada superação de desafio, o
contato frequente com ambientes sem in-
tervenção humana e os benefícios das ati-
vidades físicas, como o bom funcionamen-
to da mente – em especial da memória – e
a redução do risco de doenças associadas
ao sedentarismo.

Carreira e esporte
A questão “para onde vou?” não tem per-
sonagem mais adequado do que um diplo-
mata. O cosmopolitismo e o nomadismo
da carreira fazem com que planejamen-
tos muito rígidos sejam frequentemente
quebrados e adicionam um elemento de
incerteza na vida pessoal e profissional.
Conciliar rotinas normais à vida diplomá-
tica pode revelar-se um desafio. O que di-
zer então, daqueles que resolvem adotar
estilos de vida com aspectos inusitados?
Olympio conta que a mudança para
Brasília foi um ponto positivo para a prática
artigos

experiências
Pedro Cunha e Menezes Olympio Faissol Felipe Krause
– montanhismo – parapente – escalada
Em 2009, Pedro foi enviado pelo Itamaraty Olympio voa há vinte anos e afirma ter Para Felipe, a Tailândia é um local incrí-
ao Malaui, para auxiliar nas operações de passado por apenas um incidente poten- vel para escaladas, devido às característi-
busca por um jovem brasileiro que havia cialmente grave: em 2011, enfrentou uma cas das montanhas do país, com presença
se perdido no Monte Mulanje. Bombeiros turbulência que impossibilitou o equi- de grandes estalactites e inclinação ne-
brasileiros e uma equipe de resgate cana- pamento de continuar voando. Com isso, gativa das vias de escalada, geralmente
dense vasculharam a montanha, mas o jo- Olympio teve de lançar mão do paraquedas bem próximas às praias. Enquanto esca-
vem foi encontrado por locais após ter su- de emergência. Mas o paraquedas embo- lava uma das montanhas tailandesas, sua
cumbido à hipotermia. Ao seu lado estava a lou-se no parapente e o diplomata despen- corda ficou presa. Tentou resolver a situ-
câmera com as fotos que tirara da sua che- cou por centenas de metros em sucessivos ação, mas escurecia rapidamente. Exausto,
gada ao topo do monte, registrando sua úl- giros, a mais de 50km/h! A sorte foi que decidiu, por fim, que teria que esperar até
tima viagem. “Ele pagou muito caro por um havia levado dois paraquedas naquela vez. o amanhecer do dia seguinte para voltar
erro que muitos montanhistas experientes Depois de alguns minutos de desespero, o a tentar desprender a corda ou começar a
já cometeram. Poderia ter sido eu, ou mui- diplomata conseguiu acionar o segundo procurar ajuda. Como resultado, passou a
tos de meus amigos... [Ao final da missão,] e aterrissar com segurança. A experiên- noite em uma caverna, sem água e comida.
abateu-me uma tristeza muito grande e a cia, no entanto, não abalou sua confiança: Ao amanhecer, conseguiu, enfim, soltar a
certeza de que nunca devemos subestimar Olympio continuou voando e, como men- corda e terminar sua decida.
as regras básicas de segurança”. cionado, marcou o recorde de voo de pa-
rapente feito de uma montanha sem aju-
da de reboque mecânico.
108

página ao lado Felipe Krause escala o


Desfiladero de los Gaitanes na região de
El Chorro, na Andaluzia, Espanha. Do
cockpit de seu parapente, Olympio re-
gistra: “Só os pássaros têm essa vista”.
nesta página Pedro Cunha e Menezes
(direita), ao lado de seu filho Lucas (cen-
tro) e do amigo Paulo Faria, iniciam tra-
vessia de 41 km rumo ao “The Hell”, uma
lagoa entre rochas na África do Sul.

afirma Pedro, que também pratica polo Uma nova imagem para Faissol. Mas acrescenta que “sempre ha-
aquático há três décadas. Atualmente, o es- os sucessores do Barão? verá graus distintos de comprometimen-
porte o ajuda a “relaxar e colocar os pen- A imagem do diplomata brasileiro está bas- to com esse objetivo”. Por isso, os aven-
samentos em dia”, além de permitir uma tante relacionada, por um lado, à figura tureiros – sem abrir mão do interesse por
reconexão com a natureza. do Barão do Rio Branco, e, por outro lado, atividades intelectuais – concentram-se
Para Felipe, a carreira pode dificul- aos artistas e intelectuais que passaram em outro nicho e contribuem para com-
tar a prática da escalada, mas no sentido pelo Itamaraty. Nesse contexto, surgem por uma instituição heterogênea, em que
inverso do que o senso comum imagina- os “diplomatas radicais” com caracterís- cada um agrega características e habili-
ria. Não são as viagens constantes, mas ticas dissonantes em relação àquela repu- dades próprias.
a eventualidade de residir em um local tação estabelecida. Os entrevistados lembraram que, atu-
plano que pode ser o ponto negativo. Um Os entrevistados concordam que, em al- almente, não é possível que um diplomata
exemplo é a capital federal, onde o relevo guma medida, estão contribuindo para for- domine todo o espectro de assuntos pelos
não é propício para a escalada. “Brasília é mar uma nova imagem dos diplomatas. No quais transita a diplomacia. Ao concentra-
o momento de pausa neste esporte”, afir- entanto, não percebem dicotomia entre os rem-se nas áreas de seu especial interesse,
ma Felipe. O que esse diplomata busca dois estilos de vida. Afinal, atividades inte- os diplomatas radicais distanciam-se da
em suas escaladas é um sentido de ple- lectuais e atividades físicas não são exclu- imagem tradicional da carreira. Em todo
nitude e realização pessoal que um es- dentes, ainda que a ênfase em uma tenha caso, não é possível reduzir o diplomata –
porte mais tradicional, como o futebol custo de oportunidade para a prática da ou- ou o brasileiro – a um perfil único.
e o tênis não são capazes de proporcio- tra. “É natural, para o diplomata, gostar de Para a prática bem sucedida dos espor-
nar. “Além disso, os esportes radicais te estudar”, declara Felipe Krause, “todo di- tes radicais, conhecimento, concentração
dão experiência de vida, te dão história plomata é intelectual”. Para Felipe, a verda- e arrojo são ingredientes fundamentais.
para contar”, ressalta. Em alguns Postos, deira dicotomia está entre o sedentário e o Trata-se de características que os artistas
como Nairóbi, onde Felipe viveu quan- esportista. É o estereótipo do funcionário e intelectuais que ganharam notoriedade
do criança e onde visita quando possível, que passa toda a vida sentado em seu escri- na carreira também empregavam em suas
a prática da escalada permite inserir-se tório que se desconstrói: o agente público atividades extraprofissionais. No fundo,
em círculos sociais além daqueles comu- se dedica com afinco ao trabalho, mas, ter- são habilidades semelhantes que encon-
mente frequentados por expatriados. “No minado o expediente, busca atividades de- tram novos fins. E geram tantas experiên-
Quênia, o interesse por um esporte radi- safiadoras, como os esportes radicais. cias inspiradoras ou inusitadas que podem
cal pode ser uma excelente oportunidade “Cabe ao diplomata cultivar o intelec- acabar virando poemas, livros, músicas,
para sair do âmbito dos clubes e manter to, estar bem informado, analisar, debater, quadros e filmes.  — J
maior contato com o país, sua geografia redigir. É parte fundamental do nosso tra-
e seu povo”, relembra Felipe. balho e da nossa vida”, analisa Olympio
artigos

texto Bruno Quadros e Quadros

A lín·gua por·tu·gue·sa
no [sé·cu·lo do sul]
110

página ao lado No Museu da Língua


Portuguesa, linha do tempo mostra
a evolução do idioma no Brasil (foto:
jefferson pancieri/mlp).

No contexto de deslocamento do po- ofertados cursos de língua portugue- nesses países de ter o domínio do portu-
der mundial em favor do Sul (o “Século do sa, bem como de outras atividades re- guês (especialmente do português jurídi-
Sul”), a multipolaridade política vem de- presentativas da cultura do país (músi- co) como um diferencial competitivo em
sencadeando uma multipolaridade linguís- ca, dança, gastronomia e artes plásticas). seus currículos.
tica. Sexta maior língua do mundo, com Recentemente, os Centros Culturais foram Os nebs, por sua vez, contam com es-
mais de 250 milhões de falantes nativos modernizados, o que envolveu a aquisição trutura mais modesta, geralmente ocu-
(de acordo com o renomado portal linguís- de projetores e de computadores integra- pando uma sala da Embaixada hospe-
tico Ethnologue), o português vem-se be- dos à Internet, propiciando uma vivência deira. Por ter concepção mais enxuta e
neficiando desse processo. Fatores como o pedagógica mais rica aos alunos. manutenção mais barata, são apropriados
fortalecimento dos vínculos diplomáticos No âmbito dos ccbs, a Divisão de para locais em que a demanda pelo por-
entre os países lusófonos, a ascensão eco- Promoção da Língua Portuguesa do tuguês e pela cultura brasileira é menor.
nômica do Brasil e dos países africanos de Itamaraty (dplp) promove a realização Se a demanda se ampliar, um neb pode,
língua portuguesa, a participação mais ati- de cursos de formação de professores em eventualmente, transformar-se em Centro
va do Brasil em organismos internacionais português como língua estrangeira – além Cultural (CCB). Atualmente, os nebs es-
e a penetração da indústria cultural bra- de gratuitos, esses cursos são abertos para tão na Guiné Equatorial, na Guatemala, no
sileira têm aumentado o interesse global professores de fora dos ccbs –, a moderni- Paquistão e no Uruguai, onde há um nú-
no aprendizado do português. Este artigo zação do acervo das bibliotecas, por meio cleo em Artigas e outro em Río Branco.
discute as políticas brasileiras de promo- de parceria com a Biblioteca Nacional, e Já os Leitorados envolvem professo-
ção da língua portuguesa e compara ele- a produção de material didático para o res universitários (leitores) que atuam
mentos das políticas implementadas por portal da Rede Brasil Cultural na Internet em universidades estrangeiras, nas quais
China e Rússia para o mandarim e o rus- (http://redebrasilcultural.itamaraty.gov.br). promovem a língua portuguesa e a cul-
so, respectivamente. tura brasileira. Os professores são recru-
tados por meio de edital publicado pelo
A Rede Brasil Cultural Itamaraty e pela capes. Uma pré-seleção
A criação da Rede Brasil Cultural respon- dos candidatos, feita pela capes, é subme-
deu ao objetivo de promover sinergia entre tida às universidades estrangeiras, que es-
as iniciativas de promoção da língua portu- colhem o leitor. Os professores são pagos
guesa desenvolvidas pelo Itamaraty. Fazem pelo Itamaraty e costumam receber uma
parte da Rede vinte e quatro Centros contrapartida da universidade na qual le-
Culturais Brasileiros (ccbs), cinco Núcleos Há treze unidades dos ccbs nas cionam. A prioridade é a criação de lei-
de Estudos Brasileiros (nebs) e cerca de Américas, seis na África, três na Europa torados em universidades de renome in-
quarenta Leitorados em universidades es- e uma no Oriente Médio. Nos países sul- ternacional (como Harvard e Sorbonne)
trangeiras. Mas no que consiste cada uma -americanos, a demanda é tão grande e naquelas localizadas em países africa-
dessas iniciativas? que não há vagas suficientes. Há relatos nos de língua oficial portuguesa (palops),
Os ccbs, cuja origem remonta às de que, no ccb de Lima, as vagas se es- no brics e em países que recebem gran-
missões culturais do Itamaraty envia- gotam em apenas um dia. De acordo com de contingente de bolsistas brasileiros do
das aos Postos no exterior, entre as dé- Jorge Tavares, chefe da dplp, isso ocorre programa Ciência sem Fronteiras (csf).
cadas de 1940 e de 1960, são extensões devido ao interesse de funcionários locais Complementa as atividades da Rede
das Embaixadas brasileiras, em que são que trabalham em empresas brasileiras Brasil Cultural o trabalho desenvolvido
artigos

junto às Comunidades Brasileiras no A promoção do português em parceria Outra iniciativa importante é a inclu-
Exterior. Em 2013, foram promovidos cer- com os demais países lusófonos são do português como língua de traba-
ca de vinte cursos de português como lín- Tão importante quanto a difusão do por- lho em organizações internacionais. Além
gua de herança para pessoas de ascendên- tuguês para um universo maior de falan- das organizações em que países lusófonos
cia brasileira que, pelas contingências da tes é a projeção diplomática do idioma têm papel de destaque, como o Mercosul
vida no exterior, perderam contato com o de Camões e de Machado de Assis. Parte e a Unasul, o português tem sido paulati-
idioma de seus antepassados. fundamental desse processo é a articula- namente promovido como língua de tra-
Nessa miríade de iniciativas de promo- ção multilateral entre os países lusófonos balho em instituições como a unesco
ção do português ganha destaque a ques- realizada no âmbito da Comunidade dos e a oit, além de comissões da oea. Como
tão da escolha do material didático. A pa- Países de Língua Portuguesa (cplp). A pro- exemplo, no âmbito da unesco, são pro-
dronização do material é evitada, devido moção do idioma comum é um dos pila- movidos eventos da série “Vamos Falar
às peculiaridades linguísticas de cada lo- res da organização, juntamente com a co- Português”, em que as delegações lusófo-
cal: as dificuldades de um falante de espa- ordenação política e a cooperação. Nesse nas se encontram com outros diplomatas e
nhol ao aprender português são diferentes sentido, foram realizadas duas edições da funcionários da organização, em momentos
dos desafios enfrentados por um árabe, por Conferência Internacional sobre o Futuro que celebram a língua portuguesa e a cul-
exemplo. Dessa forma, cada Posto escolhe da Língua Portuguesa no Sistema Mundial tura dos países de fala portuguesa. Esses
o material que está mais de acordo com as – a primeira em Brasília (2010) e a segun- eventos ajudam a construir uma identida-
características locais. Ainda que a padro- da em Lisboa (2013). Após dias de debate de política orientada pelo fator linguístico.
nização do conteúdo seja evitada, tem-se sobre os rumos da promoção internacio- No entanto, promover o idioma nas
buscado a adaptação do material didático nal da língua portuguesa, a II Conferência organizações internacionais requer, de
à nomenclatura utilizada pelo Celpe-Bras aprovou o Plano de Ação de Lisboa, que se acordo com Tavares, vultoso volume de
(Intermediário, Intermediário Superior, juntou ao Plano de Ação de Brasília (apro- recursos na manutenção de uma equipe
Avançado e Avançado Superior). vado na I Conferência, em 2010) como permanente de tradutores em cada or-
Desenvolvido e outorgado pelo base da estratégia de difusão global da lín- ganização, seja para a tradução de docu-
Ministério da Educação e aplicado inter- gua portuguesa da cplp. O Plano de Ação mentos impressos, seja para as ativida-
nacionalmente pelo Itamaraty, o Celpe- aprovado na capital lusitana trata, entre des de intérprete.
Bras é o único certificado de proficiência outras coisas, do português como língua Também é necessário mencionar
em português como língua estrangeira de ciência e inovação e a sua utilização que, paralelamente aos esforços da Rede
reconhecido oficialmente pelo Governo nas comunidades de diáspora. Brasil Cultural, atuam na promoção do
brasileiro. No exterior, o exame é aplicado
em diversos ccbs e universidades es-
trangeiras, no que o apoio logístico do
Itamaraty é fundamental: o transporte
dos exames é feito por meio de mala di-
plomática, por questões de segurança, e
a prova oral é realizada e corrigida nas
Embaixadas e Consulados brasileiros.
Para os exames de outubro de 2013, mais
de 5.700 candidatos se inscreveram.

Nina Gomes, reitora da Universidade da


Integração Internacional da Lusofonia
Afro-Brasileira (UNILAB) participa
dos debates na II Conferência sobre
o Futuro da Língua Portuguesa (foto:
bruno portela e luísa ferreira).
112

português organizações como o Instituto O exemplo chinês inspirou a Rússia a de professores em português como língua
Camões, vinculado ao Governo portu- adotar medidas semelhantes para promo- estrangeira é escasso e a oferta de mate-
guês, e o Instituto Internacional da Língua ver internacionalmente a língua russa. Em rial didático, insuficiente, o que represen-
Portuguesa (iilp), da cplp. O Instituto 2007, foi criada a Fundação Russkiy Mir ta obstáculo formidável à expansão global
Camões, que existe desde 1929, promo- (Mundo ou Comunidade Russa, em rus- do português. Por isso, são de fundamental
ve importantes iniciativas para a capaci- so), um projeto conjunto do Ministério dos importância a promoção de cursos para
tação de professores de português como Negócios Estrangeiros e do Ministério da professores em português dentro dos ccbs
língua estrangeira e para a elaboração de Educação da Rússia que conta com fundos e a elaboração de material didático online
material didático. O Instituto beneficia- públicos e privados para o seu funciona- no Portal da Rede Brasil Cultural.
-se da presença portuguesa ao redor do mento. O objetivo da Fundação é promo- O aprofundamento da sinergia dentro
mundo, como no caso de Macau, onde foi ver a língua russa e apoiar programas de da Lusofonia é outro ponto crucial, que en-
um dos fundadores do Instituto Português ensino da língua russa no exterior. volve maior sintonia entre as políticas indi-
do Oriente, que promove o idioma naque- Ao contrário do alcance global do viduais de promoção do português (como
la região. Já o iilp desenvolve atividades Instituto Confúcio, os “Centros Russos”, a cooperação entre os ccbs e o Instituto
desde 1999 e tem especial relevo na reali- como são chamadas as cerca de setenta Camões) e a aceleração da convergência
zação de projetos conjuntos dos países da unidades da Russkiy Mir no exterior, es- ortográfica, na qual a elaboração, pelo iilp,
cplp para a promoção do idioma. tão basicamente concentrados em países de manuais de vocabulário técnico na nova
que pertenceram à antiga União Soviética ortografia representa importante iniciativa.
As políticas de promoção linguística e ao bloco soviético. Apesar de o início do “Século do Sul”
em outros países do Sul As estratégias chinesa e russa de pro- favorecer a multipolaridade linguística, os
A promoção da língua portuguesa realiza- moção linguística recebem mais recursos países que pretendem alçar seus idiomas
da pelo Brasil difere em diversos aspectos financeiros do que a brasileira e são favo-a um lugar de maior destaque devem ati-
das políticas implementadas pela China e recidas por idiomas de maior reconheci- vamente buscar esse espaço de proemi-
Rússia, outros países do brics que não têm mento internacional. O Brasil, contudo, é nência. O contexto de ascensão dos paí-
o inglês como idioma oficial. o único dos brics não falantes de inglês ses emergentes oferece oportunidades e
Na China, a política de promoção do que se beneficia de uma rede de países em- desafios para a promoção internacional do
mandarim está centrada na atuação do penhados em promover o idioma comum. português. De um lado, a maior projeção
Instituto Confúcio, fundado em 2004 e A maior coordenação entre os países da econômica, política e cultural do Brasil e
que tem como objetivos oficiais a pro- Lusofonia tende a dinamizar a promoção dos demais países lusófonos tem desper-
moção e o ensino da cultura e da língua do português, apesar do menor orçamen- tado o interesse no aprendizado do portu-
chinesa no exterior e o incentivo à coo- to em relação à China e à Rússia. guês como língua estrangeira. De outro, a
peração educacional e ao aumento da com- A projeção de um idioma e o poder coordenação dentro da Lusofonia e o or-
preensão internacional sobre a China. O mundial estão intimamente relacionados: çamento para a promoção do português
Ministério da Educação chinês estima que o mandarim é favorecido pela presença da precisam ser incrementados para apro-
100 milhões de pessoas estejam aprenden- diáspora chinesa no Leste Asiático; o rus- veitar esse momento positivo.
do chinês atualmente. so é tributário da influência histórica da O que realmente determinará a força
Ao contrário de instituições como a Rússia no Leste Europeu, Ásia Central e do por­­tuguês é a capacidade de os países
Aliança Francesa e o Conselho Britânico, o Cáucaso; o português, por fim, é herdei- lusófonos – com destaque para o Brasil –
Instituto Confúcio é vinculado ao Governo ro do alcance do império colonial luso na compro­varem aos estrangeiros que o co­­
chinês e opera dentro de estabelecimentos África, Ásia e América. nhe­cimento de sua língua será a chave
educacionais de países estrangeiros, pro- para aproveitar as oportunidades do
movendo cursos de língua chinesa, treina- ————— “Século do Sul”: acesso a benefícios eco-
mento de professores e aplicação de exa- nômicos, a uma cultura rica e dinâmica e
mes de certificação de proficiência (hsk). Os desafios à expansão do português são a uma produção científica relevante. Os
Há mais de 300 unidades do Instituto em muitos e envolvem desde a estrutura da próximos movimentos no tabuleiro lin-
cerca de noventa países e há planos de ex- Rede Brasil Cultural até as característi- guístico da geopolítica do “Século do Sul”
pansão para mil unidades por volta de 2020. cas políticas da Lusofonia. O contingente estão sendo aguardados.  — J
artigos

O Itamaraty e o papel
de outros atores
governamentais
nas relações internacionais do Brasil

texto Igor Carneiro e Thiago Oliveira

Nos últimos anos, o progresso tecno- os fatos internacionais. A capacidade de incumbidos de atuar em um cenário local,
lógico tornou a comunicação entre gover- influência dos polos depende dos graus de desenvolvem a percepção da importância
nos e sociedades menos custosa e, portanto, relevância e de conexão dentro do sistema e dos potenciais da construção de relações
mais frequente. A nova era da instantanei- político-econômico global. Há lugares com com contrapartes externas.
dade trouxe a realidade internacional e maior capacidade de influenciar a dinâmi- Quando analisados os efeitos desse
suas consequências para o cotidiano dos ca internacional, enquanto outros tendem fenômeno no âmbito governamental, no-
povos. Tal realidade corrobora uma dinâ- a assimilar passivamente seus desdobra- ta-se que as formas tradicionais de organi-
mica bidirecional, ainda que de intensida- mentos. Nesse contexto, os entes políticos, zação e condução das relações internacio-
des variáveis, entre os interesses locais e sociais e econômicos, tradicionalmente nais, baseadas em uma lógica centralizada,
ilustrações Clara Meliande e Rafael Alves baseada em obra de Athos Bulcão 114

encontram limites diante de novos pa- órgãos governamentais tradicionalmente ser objeto de atenta análise internacional
drões de execução da política externa, que voltados a temas da realidade interna do país. e que as preocupações internacionais ti-
são mais difusos na estrutura do Estado. Comprovam a existência do processo de des- vessem desdobramentos em políticas pú-
Essa nova realidade possibilita o contato centralização horizontal da política externa blicas domésticas. Como exemplo, a cria-
direto e frequente entre instâncias buro- o incremento da atividade das assessorias ção da Organização Mundial do Comércio
cráticas brasileiras e suas contrapartes es- internacionais dos ministérios, o aumento (omc) e de seu mecanismo de solução de
trangeiras sem a tradicional intermedia- do número de missões dos diversos órgãos controvérsias tornou as políticas comer-
ção e depuração pelos canais diplomáticos. ao exterior e o grande número de acordos ciais e industriais dos países passíveis de
Colocam-se, portanto, grandes desafios à internacionais negociados com a participa- questionamento em foros multilaterais. As
atuação das chancelarias em seu papel de ção de outros ministérios. Algumas assesso- prioridades da agenda internacional tam-
representantes e porta-vozes de interesses rias internacionais, como a do Ministério da bém foram rediscutidas, tendo em vista a
e posições nacionais, sobretudo em áreas Saúde (ms), contam com dezenas de funcio- percepção coletiva de que se poderia ga-
que requerem aprofundado conhecimento nários, que acompanham diversos foros na nhar muito com a ampliação do escopo
técnico ou em que haja vívido interesse de área e participam de numerosos projetos de das relações interestatais para novas áreas.
governos locais em benefícios decorren- cooperação técnica (116 projetos, de acordo Foram criados agrupamentos internacio-
tes da construção de vínculos com inter- com o ms). Destaque-se, também, o papel nais, que, além de serem mecanismos de
locutores internacionais. dos próprios titulares das pastas, já que os coordenação política, mantêm iniciativas
Na estrutura estatal, nota-se o cres- Ministros do Meio Ambiente, da Fazenda, da de diálogo em áreas diversas. Um exemplo
cente número de atores que transpõem Educação e da Saúde, por exemplo, realiza- é Fórum de Cooperação América Latina-
as realidades local e nacional. Neste arti- ram um total de 30 missões ao exterior em Ásia do Leste (Focalal), em cujo âmbito
go, propõe-se classificar a atuação dessas 2012, segundo as Assessorias Internacionais há, em paralelo ao mecanismo de diálogo
instâncias segundo dois eixos: o horizontal desses Ministérios. diplomático, grupos de trabalho em de-
e o vertical. No primeiro, faz-se referên- A descentralização horizontal (bu- senvolvimento sustentável, turismo, cul-
cia à atuação ampliada de diversas entida- rocrática) decorre do aumento da co- tura, juventude, gênero, esportes, ciência
des, no âmbito da esfera federal (ministé- nectividade global e das transformações e tecnologia e educação. O Fórum ibas, o
rios, agências e empresas públicas), nas ocorridas nas relações internacionais do Mercosul e a Unasul possuem, cada um, 10
relações exteriores do país. No segundo, pós-Guerra Fria. Destaca-se a amplia- ou mais grupos sob responsabilidade com-
recordamos a crescente participação dos ção da agenda internacional, o que trou- partilhada com outros ministérios.
entes subnacionais (estados e municípios) xe, para a pauta de discussões interesta- São significativos os ganhos que o pro-
na busca de inserção privilegiada no con- tais, temas que demandam conhecimento cesso de descentralização horizontal pode
texto econômico-comercial mundial. altamente especializado. Nas discussões trazer para as relações internacionais do
sobre meio ambiente, por exemplo, par- Brasil. Uma imagem da Química é ilustrati-
O processo de descentralização ticipam órgãos ambientais que dominam va: quando uma substância maciça é imer-
horizontal – a participação de outros aspectos técnicos das negociações e que sa em um reagente, as reações ocorrem
órgãos federais na política externa possuem capacidade de implementação gradualmente nas camadas da superfície.
Dentro do poder constitucionalmente in- das decisões no Brasil. Outro ponto rele- Quando a mesma substância é triturada
cumbido de manter relações com entes es- vante é o aumento da interface entre polí- e imersa no reagente, mais reações ocor-
trangeiros – o Executivo – constata-se o ticas internas e política externa, o que im- rem simultaneamente. Analogamente, o
aumento das atividades internacionais dos plica que políticas domésticas passassem a processo de descentralização burocrática
artigos

aumenta a interface dos agentes estatais de baixa prioridade na agenda do órgão, acadêmicas sob o conceito de “paradiplo-
brasileiros com suas contrapartes estran- o que costuma refletir-se em acordos e macia”. Esse conceito, que traz a ideia de
geiras. Esse processo possibilita ao Brasil reuniões com parcos resultados concre- uma diplomacia paralela, causa arrepios
exercer influência em maior número de tos. Em outros casos, países nutrem a ex- aos constitucionalistas e estranheza à bu-
áreas junto aos demais Estados – não ape- pectativa de que o Brasil aporte recursos rocracia tradicionalmente incumbida da
nas no âmbito do diálogo político, mas em financeiros a projetos no exterior, o que execução da política externa –os diplo-
todas as outras áreas em que existe com- nem sempre é possível por restrições le- matas. Atualmente, com vistas a um me-
partilhamento de experiências e coope- gais e orçamentárias ou por não ser de lhor enquadramento conceitual, atores
ração. O processo representa, ainda, um interesse dos órgãos brasileiros. governamentais referem-se a esse fenôme-
aumento dos recursos humanos e finan- À medida que se intensifica a descen- no como “diplomacia federativa” ou “co-
ceiros empregados nas relações interna- tralização horizontal, forma-se uma rede operação internacional descentralizada”.
cionais, uma vez que ao pessoal diplomá- de atores das relações internacionais cujo Independentemente do conceito pelo qual
tico somam-se os profissionais dos outros se opte, a atuação internacional cada vez
órgãos, que aportam recursos na realiza- mais intensa desses entes é algo já bastan-
ção de encontros bilaterais e multilaterais
e na execução de projetos com alcance in-
O MRE manterá te relevante, o que estimulou o Ministério
das Relações Exteriores a aprimorar os
ternacional. Do mesmo modo, ganham es- atribuição de imprimir meios para lidar com essa nova realidade
paço, na política externa, áreas cujas inte-
rações têm natureza mutuamente benéfica
linha de ação internacional com a criação, em 2003, pelo Decreto 7.759,
de sua Assessoria de Assuntos Federativos
para as partes envolvidas, em oposição a coerente com os interesses e Parlamentares (afepa) e com o fortale-
áreas em que ganhos de um lado implicam
perdas do outro. Ao lado de barganhas po-
do Brasil, agora como cimento do papel de seus oito Escritórios
de Representação nos Estados.
líticas e comerciais, convivem iniciativas nódulo central em Os entes federados beneficiam-se da
de aproximação cultural, educacional e
científica, o que propicia a uma relação bi-
uma lógica de atuação possibilidade de estabelecer contatos no
exterior, por meio de seus próprios re-
lateral um tom amistoso mesmo em mo- reticular. — cursos, e, assim, promover seus interes-
mentos de divergências pontuais. ses comerciais, de investimentos e de
Apesar dos ganhos listados, não se cooperação. O marco inicial da atuação
podem ignorar os potenciais efeitos ne- potencial pode ser estrategicamente de- estruturada dos governos subnacionais na
gativos da descentralização horizontal. senvolvido pelo Ministério das Relações área internacional ocorreu em 1983, du-
Atuam na política externa dezenas de Exteriores em benefício dos interesses rante o governo Leonel Brizola, no Rio de
órgãos, os quais interpretam de maneira brasileiros. Esse processo implica uma re- Janeiro, quando se criou a Coordenadoria
particular as linhas-mestras do relaciona- flexão do Itamaraty sobre seu papel nas de Assuntos Internacionais do Estado.
mento brasileiro com outros países e im- áreas em que compartilha responsabilida- Em 1987, durante o governo Pedro Simon,
primem caraterísticas próprias às ações des com outros órgãos e um renovado es- no Rio Grande do Sul, foi criada a pri-
internacionais que executam. Essa plura- forço de coordenação da mencionada rede. meira Secretaria Estadual de Assuntos
lidade de atores pode gerar ações desco- As dificuldades são significativas, mas de Internacionais. Atualmente, metade das
ordenadas e até dissonantes. Outro aspec- igual relevo são as oportunidades que se unidades federativas possuem órgãos vol-
to negativo relaciona-se ao fato de que a abrem para a política externa brasileira. tados especificamente para a promoção de
maioria dos órgãos públicos federais foi suas relações internacionais.
criada para atender demandas internas e, A intensificação da atuação Como evidência da participação desta-
consequentemente, têm como prioridade externa dos entes subnacionais cada dos estados brasileiros no âmbito in-
sua agenda doméstica. Nesse sentido, os A atuação internacional dos entes subna- ternacional, convém ressaltar que, a cada
esforços internacionais podem padecer cionais tem sido referida em discussões ano, o Estado de São Paulo assina mais
116

de cinquenta acordos com governos e or- Em se tratando da atuação internacional existência de uma chancelaria competen-
ganizações internacionais e recebe mais simultânea dos entes federados, esta pode te e eficiente. Pelo contrário, cria-se for-
de quatrocentas delegações estrangeiras. ganhar contorno negativo se houver uma te demanda por uma harmonização das
Atualmente, há 25 representações de entes competição acirrada por oportunidades. É ações externas e pelo estabelecimento de
subnacionais estrangeiros funcionando na provável que governos com mais recursos diretrizes claras e condizentes com a po-
capital paulista (tavares, 2013). humanos e financeiros tendam a desenvol- lítica externa do país. O que se deve evitar
A atuação internacional dos muni- ver unidades internacionais mais ativas e, a todo custo é o surgimento de uma dinâ-
cípios é outro fenômeno de crescen- assim, obtenham vantagens na sua atuação. mica de competição burocrática no seio
te relevo. Desde 2007, a Confederação Desse modo, a atividade concomitante e li- do Estado brasileiro, o que resultaria em
Nacional dos Municípios (cnm), por meio vre de vários entes tenderia a privilegiar os grandes prejuízos à posição internacio-
do projeto Observatório da Cooperação mais fortes e acentuar as disparidades exis- nal do Brasil e severa erosão de seu pres-
Descentralizada no Brasil (ocdb), elabo- tentes, em vez de utilizarem-se as iniciati- tígio ante as demais nações. Ao Itamaraty
ra estratégias para diagnosticar e avaliar a vas internacionais como ferramenta para a caberá repensar seu modelo de atuação e
atuação internacional desses entes. Estudo consecução do objetivo constitucional de preparar-se para as novas demandas de-
da cnm verificou que somente trinta, en- mitigação das desigualdades regionais. correntes do processo de descentralização
tre os mais de 5.500 municípios brasilei- das relações internacionais.  — J
ros, são dotados de uma unidade especia- —————
lizada na área internacional. No entanto,
a tendência de intensificação dessa atua- Em que pese a coparticipação de diversos
ção é evidente, uma vez que mais da meta- órgãos federais e dos vários entes federa-
de das unidades foram criadas no período dos nas relações internacionais, é razoável
recente de 2005 a 2008. Os eixos de atua- supor que as competências do Itamaraty
ção dos municípios costumam estruturar- continuarão, em essência, inalteradas pe-
-se em quatro macrodimensões: política las próximas décadas. O que não se pode
(fóruns, vinculação a cidades-irmãs e par- ignorar, no entanto, é que o contexto de
ticipação em redes de políticas públicas); descentralização horizontal e vertical de-
cooperação (técnica e captação de recur- mande um ajuste do foco de atuação da
sos); promoção econômica (comércio ex- Chancelaria. Sua função de supervisão e
terior, investimentos estrangeiros e turis- coordenação da posição internacional do
mo); e ações de mar­keting urbano. Brasil deverá fortalecer-se frente ao maior
Cabe salientar, contudo, que há limita- envolvimento dos quadros técnicos espe-
ções a esse potencial de atuação nas rela- cializados dos outros órgãos do Governo no leia mais
ções internacionais e, por vezes, aspectos desenvolvimento de ações com impacto na
As Áreas Internacionais
negativos relacionados à atuação simultâ- política externa. Desse modo, o Itamaraty
dos Municípios Brasileiros:
nea dos entes federados brasileiros. Entre deverá compor o centro articulador de uma
Observatório da Cooperação
as limitações, deve-se ressaltar que acordos rede burocrática com múltiplas e intensas
Descentralizada – Etapa 1 /
internacionais somente possuem valida- conexões internacionais. O Ministério das
Confederação Nacional dos
de jurídica se firmados ou avalizados pela Relações Exteriores manterá sua atribui-
Municípios – Brasília: CNM, 2011.
República Federativa do Brasil, a entidade ção de imprimir uma linha de ação interna-
à qual se atribui a personalidade jurídica de cional coerente com os interesses do Brasil, tavares, Rodrigo. Foreign Policy
direito internacional. No que diz respeito porém agora como nódulo central em uma Goes Local: How Globalization
às operações financeiras internacionais, há lógica de atuação reticular. Made São Paulo into a Diplomatic
ainda a exigência constitucional de aprova- A atuação mais intensa de outras Power. In: Foreign Affairs Online,
ção pelo Poder Legislativo Federal. instâncias burocráticas não ameaça a 9 de outubro de 2013.
artigos

texto Bruno Quadros e Quadros


1

lado da moeda
O outro
a diplomacia e
a numismática

4
118

A dimensão mais conhecida da nu- A diplomacia em moedas


mismática ¬ o colecionismo de moedas e e em cédulas brasileiras
de cédulas ¬ representa, para alguns, uma A representação de diplomatas e de even-
excentricidade aristocrática, enquanto, tos diplomáticos é farta na numismática
para outros, é uma atividade educacional brasileira, a começar pelo Barão do Rio
e recreativa. No entanto, a numismática Branco. O Patrono da diplomacia brasilei-
envolve diversos outros aspectos: serve ra é presença garantida em moedas e cé-
como ciência auxiliar da História e reú- dulas do país há cem anos e acompanha
ne o conhecimento das tecnologias de fa- as diversas mudanças de moeda sofridas
bricação de dinheiro e de prevenção de pelo Brasil durante o século XX.
falsificações. Independentemente des- A primeira aparição de José Maria
sas diferentes perspectivas, o estudo das Paranhos da Silva Júnior no anverso das
cédulas e das moedas permite perceber cédulas brasileiras ocorreu em 1913, um ano
como a história de um país é tratada e após sua morte. Foi na 14a. estampa da nota
que personagens e eventos são privilegia- de 5 mil réis, produzida pela American Bank
dos em detrimento de outros. Por isso, é Note Company, empresa sediada em Nova
o campo singular para se observar a hie- Iorque. O reverso da cédula faz referência
rarquização da história e da iconografia à indústria e ao comércio do país.
nacionais pelo poder político em deter- Quando se percebeu que o “mito” do
1. Moeda comemorativa por ocasião da minada época. Barão seria duradouro, o diplomata pas-
Conferência das Nações Unidas para o
Que relação têm a diplomacia e uma sou a figurar na 19a. estampa das notas de
Meio Ambiente e o Desenvolvimento
(Rio-92), sediada no Rio de Janeiro, singela moeda de cinquenta centavos? 5 mil réis que foram impressas em 1924,
em 1992. Como a numismática serve ao trabalho 1936 e 1942, também pela American Bank
2. A nota de 20 gourdes haitianos im-
do diplomata? Quantas considerações di- Note Company. Exemplares dessa cédula
pressa pela Casa da Moeda é exemplo da
cooperação prestada pelo Brasil na plomáticas estão envolvidas em um con- em perfeito estado de conservação (deno-
fabricação de dinheiro. trato de exportação de cédulas da Casa da minado “flor de estampa” pelos numisma-
3. Rui Barbosa na nota de 10 mil cru-
Moeda? Nesse contexto, o artigo aborda a tas) chegam a valer quase quinhentos re-
zeiros, de 1984.
4. A nota de 5 mil réis, de 1913, foi a pri- relação entre diplomacia e numismática ais no mercado.
meira a retratar o Barão do Rio Branco. na vertente iconográfica (os diplomatas Com a reforma monetária que intro-
5. O Barão na nota de 5 cruzeiros, de
e eventos diplomáticos no dinheiro bra- duziu o Cruzeiro, em 1942, a nota de 5
1950.
6. A famosa nota de 1 mil cruzeiros, de sileiro), profissional (a funcionalidade da mil réis com o Barão foi carimbada para
1978, consagrou na linguagem popu- numismática no trabalho diplomático) e 5 cruzeiros, eliminando-se os três zeros.
lar o termo “barão” como sinônimo de comercial e de cooperação (a exportação Também impressa nos Estados Unidos,
“mil” e é conhecida no meio numismá-
tico como “cabeção”. de dinheiro pela Casa da Moeda). a primeira estampa da cédula própria
artigos

Muito mais que um passatempo, a numismática é uma


ciência com múltiplas implicações para a diplomacia.
O conhecimento de cédulas e moedas pode auxiliar o
diplomata no seu cotidiano e, frequentemente,
servir como instrumento de política externa. —

de  5 cruzeiros circulou entre 1944 e 1967. do dinheiro brasileiro na segunda famí- figura na moeda de 20 centavos de cruzei-
Enquanto Rio Branco permanecia no an- lia de moedas do Plano Real, introduzida ro, que foi cunhada entre 1948 e 1956. Rui
verso, a nota trouxe como inovação o re- em 1998. Uma vez que as cédulas passa- e a II Conferência de Paz de Haia (1907)
verso, que passou a retratar o quadro “A ram a tematizar a fauna, as moedas tra- estão presentes nas cédulas brasileiras de
Conquista do Amazonas”, de Antônio da zem próceres brasileiros. Os homenage- 10 mil cruzeiros, que circularam entre 1984
Silva Parreiras. A cédula circularia com ados incluem Álvares Cabral, Tiradentes, e 1990, e nas de dez cruzados, que circula-
a segunda estampa a partir de 1950, des- D. Pedro I, Deodoro da Fonseca e o Barão, ram entre 1986-1990, ambas impressas pela
sa vez impressa pela empresa britânica que figura no anverso da moeda de 50 cen- CMB. No anverso, percebe-se Rui Barbosa
Thomas de La Rue & Company, com as tavos, ladeado pelo mapa do Brasil, em alu- à direita de sua mesa de trabalho; no rever-
mesmas ilustrações, mas com novo es- são à sua contribuição para a consolidação so, o “Águia de Haia” aparece discursando
quema de cores, mais próximo do marrom. das fronteiras. De 1998 a 2001, foi cunhada no plenário da  Conferência.
Na segunda família de cédulas do em cuproníquel. De 2002 até hoje, passou Em 1992, foi lançada, no valor de 2 mil
Cruzeiro, reintroduzido como moeda nacio- a ser de aço inoxidável. Foram produzidos cruzeiros, a moeda comemorativa referen-
nal em 1970, o Barão foi transferido para a mais de dois bilhões dessas moedas. te à Conferência das Nações Unidas para
nota de mil cruzeiros, que foi impressa pela Além do Barão, Rui Barbosa é outro o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
Casa da Moeda do Brasil (CMB) e circulou brasileiro homenageado em moedas por (CNUMAD ou Rio-1992), realizada no
entre 1978 e 1989. Tendo no reverso o tema sua atuação diplomática. O jurista baiano Rio de Janeiro, naquele ano. Cunhada em
da delimitação das fronteiras, com a repro-
dução do taqueômetro usado na Questão
A Questão de Palmas, também conheci-
de Palmas, essa nota foi inspirada nas car-
da como Questão das Missões, foi um con-
tas de baralho, possibilitando a mesma lei-
tencioso entre a Argentina e o Brasil, entre
tura para onde se virar a nota. Foi a partir
1890 e 1895. Os países disputaram uma fai-
dela que entrou na linguagem popular a ex-
xa territorial que compreendia o oeste de
pressão “barão” para designar o número mil
Santa Catarina e o sudoeste do Paraná. O
em valores monetários. No meio numismá-
Barão do Rio Branco, o representante bra-
tico, é conhecida como “cabeção”, devido à
sileiro, logrou que o laudo arbitral do pre-
protuberância da fronte do Barão.
sidente norte-americano Grover Cleveland
Após quase uma década “fora de cir-
fosse favorável ao Brasil.
culação”, o Barão tornou a fazer parte
120

O Embaixador Paulo Cordeiro e seu


toman, moeda de ouro cunhada duran-
te o reinado de Fath-Ali Shah, Xá da
Dinastia Qajar que governou a Pérsia
entre o final do século xviii e mea-
dos do século xix. (fotos: leandro
pignatari)

prata, tem um beija-flor retratado no re- referirem ao dólar norte-americano como moeda de ouro cunhada durante o reina-
verso. Esse é mais um exemplo em que a “peso” e à moeda de 25 centavos de dólar do de Fath-Ali Shah, Xá da Dinastia Qajar
Numismática acompanhou as transforma- (“quarter”) como “peseta”. No que se refere que governou a Pérsia entre o final do sé-
ções da política externa brasileira, justa- à estética artística, as dobras e os dobrões culo XVIII e meados do século XIX. O ato
mente na Conferência que marcou a aber- cunhados durante o reinado de D. João V, contribuiu para dissipar as eventuais des-
tura e o fortalecimento do engajamento do na primeira metade do século XVIII, são confianças, e a autoridade iraniana embar-
Brasil no multilateralismo e na proteção exemplares formidáveis do estilo barroco cou em frutuoso diálogo.
do meio ambiente. que predominava em Portugal àquela época. A diplomacia também tem o papel
Segundo o Embaixador Paulo Cordeiro, de recuperar os tesouros numismáticos
Diplomatas numismatas o olhar numismático atento permite a com- nacionais. Em 1986, quando trabalha-
Além de retratar diplomatas, a numismá- preensão dos códigos de cada sociedade, va na Delegação do Brasil em Genebra,
tica relaciona-se com o cotidiano desses os quais frequentemente não são eviden- o Embaixador Cordeiro foi testemunha
profissionais. Mas em que medida a ati- tes em fontes tradicionais de informação do trabalho do então Embaixador Paulo
vidade numismática auxilia o trabalho do (discursos e imprensa). A política para as Nogueira Batista, que, instruído pela
diplomata? De acordo com o Embaixador minorias da China, por exemplo, pode ser Secretaria de Estado, atuou em leilão de
Paulo Cordeiro de Andrade Pinto, numis- percebida pela presença das traduções em moedas coloniais portuguesas organi-
mata com especial interesse em moedas mongol, tibetano, uigur e zhuang em todas zado pela Sotheby’s. As instruções espe-
coloniais portuguesas, ela proporciona o as notas de renminbi. Por meio dessas cé- cíficas do Itamaraty, a pedido do Banco
conhecimento, por um lado, da realida- dulas, o Governo chinês transmite a polí- Central do Brasil, referiam-se à aquisição
de e da história dos países e, por outro, da tica oficial de respeito à diversidade étni- de cinco moedas cunhadas na Bahia entre
estética artística de determinada época. A ca, linguística e religiosa existente no país. 1715 e 1816, as quais faltavam no acervo
compreensão da história de Porto Rico, por Além disso, a numismática serve como numismático do Banco Central do Brasil.
exemplo, pode ser percebida na relação dos mecanismo facilitador do diálogo. O O Banco de Portugal também estava na
locais com a moeda. O oficial de chancela- Embaixador Cordeiro relata ocasião em disputa, interessado nas mesmas moedas.
ria Luís Augusto Galante, que é doutor em que uma autoridade iraniana supunha que No fim, foi possível arrematar duas peças:
História e consultor numismático, obser- seu homólogo brasileiro pouco conhecia uma moeda de 6.400 réis, cunhada em
vou a preservação da memória monetá- sobre o país persa e sua sociedade. Ao ouro, em 1734, pelo valor de 130 mil fran-
ria espanhola em sua estada em San Juan, perceber o clima de suspeição, Cordeiro cos suíços (mais de R$ 300 mil em valores
devido ao fato de os portorriquenhos se apresentou ao seu interlocutor um toman, atuais), a qual era a prioridade do Banco
artigos

Reverso da nota de 5 cruzeiros, de


1950: retrato do quadro “A Conquista
do Amazonas”, de Antônio da Silva
Parreiras. Reverso da nota de 10
mil cruzeiros, de 1984: o “Águia de
Haia” discursando no plenário da II
Conferência de Paz da Haia, em 1907.

Central; e outra de 4 mil réis, cunhada em retornou, recentemente, ao mercado in- Pensar a numismática como mero passa-
ouro, em 1816, pelo valor de 1.400 fran- ternacional. Nos últimos anos, a CMB tempo desvinculado da realidade é igno-
cos suíços. fechou contratos de fornecimento com rar a riqueza das relações entre ela e a di-
autoridades monetárias de países como plomacia. Os detalhes que constam nas
Exportação de dinheiro pela Paraguai, Venezuela, Argentina e Haiti. moedas e nas cédulas são fruto de deci-
Casa da Moeda Para o Paraguai, a Casa da Moeda impri- sões políticas, pensadas com o objetivo
A exportação de dinheiro é outra dimen- miu mais de 40 milhões de cédulas de 5 de transmitir à população a narrativa his-
são do vínculo entre diplomacia e numis- mil e de 10 mil guaranis. tórica e/ou a percepção da realidade pre-
mática. Quando realizada em base comer- Firmado em 2010, o contrato com a feridas pelo poder político. Nesse senti-
cial, essa exportação revela um forte laço Argentina envolveu a impressão de 140 mi- do, a permanência quase ininterrupta do
de confiança dos países compradores com lhões de cédulas de 100 pesos, a fim de au- Barão no dinheiro brasileiro nos últimos
o país exportador. Já quando o dinheiro é xiliar no suprimento de papel-moeda para cem anos demonstra o prestígio que ele e
fabricado sem ônus para países que têm o mercado argentino. Aeronaves da Força seu legado possuem na sociedade brasilei-
dificuldades momentâneas em produzi- Aérea Argentina foram enviadas ao Rio de ra, principalmente devido à consolidação
-lo, torna-se importante instrumento de Janeiro, em janeiro de 2011, para fazer o das fronteiras nacionais.
cooperação bilateral. transporte das cédulas até o país vizinho. A numismática também é um valioso
Criada em 1694, a Casa da Moeda do No caso do Haiti, não se trata de con- instrumento que auxilia o diplomata na
Brasil (CMB) tem um longo histórico de ex- trato de venda, mas sim de doação, inseri- compreensão de outras realidades e na fa-
portação de moedas e cédulas, que remonta da na ajuda humanitária brasileira presta- cilitação do diálogo. Permite-lhe analisar a
ao período colonial, quando cunhou macu- da ao país caribenho após o terremoto de relação das sociedades estrangeiras com o
tas para as colônias portuguesas na África, 2010. A Lei 12.409 autorizou a CMB a doar seu passado, bem como as mensagens do
a partir de 1813. No século XX, a Casa da 100 milhões de cédulas ao Haiti, o que re- poder político local em temas como de-
Moeda exportou notas para diversos países, presenta um auxílio de quase R$ 5 milhões senvolvimento, meio ambiente e cultura.
como Bolívia, Venezuela, Peru, Costa Rica àquele país. O transporte do dinheiro tam- Por fim, a fabricação de dinheiro pode
e Equador, e transformou-se em referên- bém coube à CMB: em novembro de 2013, servir como mecanismo de política exter-
cia internacional na fabricação de dinhei- um navio fretado chegou a Porto Príncipe, na e de cooperação, cujo maior exemplo é
ro. Esse processo foi interrompido, contu- com 47,4 milhões de cédulas de 20 gourdes, a impressão gratuita da moeda haitiana, a
do, no final da década de 1980, devido ao acondicionadas em um esquema especial fim de abastecer o mercado do país caribe-
excesso de demanda por meio circulante de segurança. Essas notas já contam com nho. Nesse sentido, a expertise numismá-
no Brasil e à obsolescência tecnológica do os elementos de segurança presentes nas tica da Casa da Moeda é um dos recursos
equipamento da CMB àquela época. cédulas da segunda família do Real, como à disposição da diplomacia brasileira para
Após receber importantes investimen- a banda holográfica. aprofundar as relações com os demais
tos na modernização do maquinário e na países emergentes.  — J
ampliação da produção, a Casa da Moeda —————
letter from the editors brief 121

english texts
for External Relations, Ambassador Luiz Alberto followed by democracy and diplomacy in Brazil in
letter from the editors Figueiredo Machado, and to Brazilian leaders of recent years, in order to make sense of the country’s
multilateral organizations, but also to other gov- current reality and to take part in its historic con-
ernment officials, ngos, businesses and academ- struction. With this purpose, this brief addresses
ics. juca 7 proposes to discuss democracy and to different aspects of the Brazilian democratization
Letter from be itself a democratic space. With that we affirm process, emphasizing the international perspective:
the magazine’s role of being a place for diplomats, the role of the National Commission of Truth and of
the editors researchers and citizens to contribute together to Itamaraty to achieve transitional justice in the coun-
the development of foreign policy, arts, culture try; the establishment of a Brazilian concept of pub-
Portuguese version page 01 and humanities in our country. lic diplomacy; international cooperation for the ex-
— We could not conclude without thanking change of files on the dictatorships of the Southern
The 50th anniversary of the military coup. Protests the Director-General of the Rio Branco Institute, Cone; and the interesting case of democratic tran-
of June 2013. Itamaraty’s increasing openness to Ambassador Gonçalo Mourão, as well as his entire sition in Argentina. News and history, politics and
the dialogue with civil society. The exposure of team, for kindly welcoming our ideas and support- diplomacy are detailed, investigated and carefully
limits of traditional diplomacy. The consolida- ing our ambitions. Special thanks to Professors discussed on the following pages.  — J
tion of the Brazilian leadership in important mul- Sara Walker and Susan Casement for the pa-
tilateral organizations. Certainly, the period of the tience of revising the texts in English and for the
training course of the Rio Branco Institute’s 2012- confidence in the potential of our ideas. Finally,
2014 Class coincided with remarkable episodes for we wish good luck to the forthcoming juca
Brazil’s diplomacy, politics and society. team. May we, Third Secretaries of Rio Branco
The development of another issue of juca Institute, continue to take advantage of the op-
could not overlook this time of change. The fact portunities offered by the career to present our
that we were numerically less than colleagues opinions and talents and to seek constructive de-
of the “Classes of 100” did not minimize the en- bates – as we tried to do in juca 7. Although this
thusiasm to introduce innovations. Firstly, we may sound like a commonplace, it may have been
renewed the graphic design of the magazine, in a far-reaching dream for the 1964 Class.
order to enhance the link between texts and vi- Enjoy the reading!  — J
sual identity. Moreover, we fostered partner-
ships with young scholars, co-authors of two im-
portant articles in this issue. Last but not least, brief
juca has, for the first time, its content translated Transitional
into English. With the bilingual edition and the
newly launched Facebook page (facebook.com/ Justice in Brazil:
revistajuca), we hope to conquer new audiences, Diplomacy
in further places. Memory and Truth
While we made changes, we also took care and democratic
of the essence of juca. The contents of this issue in Itamaraty
reiterate the commitment of young diplomats to transition 50 years
take part in debates about the profession to which Portuguese version page 05
they are still getting used, as well as to dissemi- after the Coup —
nate their talents and opinions on arts, politics, Mariana Yokoya Simoni
literature and philosophy. In juca 7, we present Portuguese version page 04
details of Itamaraty’s work and Brazil’s foreign — @MREBRASIL: “Itamaraty cooperates with the
policy. We deal with objects as diverse as books, Remembering dates, events, people allows us to cast Brazilian Truth Commission to open archives and
pieces of news, art works, coins and cables to shed a glance at the developments without the attenuat- affirm the right to memory and truth.”
light on links between foreign policy and transi- ing circumstance of their fugacity. 2014 is marked
tional justice; arts and dictatorship; diplomacy by events of exceptional significance for Brazil: the The three main axes of transitional justice mea-
and numismatics. We look inside “our House” as 50th anniversary of the 1964 Coup and the launch sures developed in Brazil are: the recognition
well as at the cultural diversity of the region and of the National Truth Commission’s final report. of state responsibility for political persecution;
elsewhere. We give voice to the Minister of State Therefore, it is appropriate to reflect about the path the policy of economic and symbolic reparation;
brief

and, recently, the pursuit of truth and according demonstrates its commitment to the pursuit of his- The creation of the project “Memories Revealed”
value to memory. The discussion and implemen- torical justice and the right to memory and truth. in 2009 was essential for facilitating access to files
tation of these public policies have been able to Changes in the way human rights violations are on the political repression by digitally interlinking
convey new concepts, such as the duty of responsi- treated and in the meaning given to the work of the collection of the National Archives to federal
bility and accountability to present and future gen- CEMDP, CA-MJ and CNV influence the construc- archives and to 15 other Brazilian states, bringing
erations, to many public institutions in the country. tion of political memory about the military dic- together more than five million documents.
The positive influence of many of the advances in tatorship of 1964-1985 and the current Brazilian The importance of the debate on memory and
the Brazilian transition agenda over the Ministry democracy, tracing limits of continuity and of dis- truth lies, as noted by Paulo Sérgio Pinheiro (see
of External Relations (MRE) is noticeable, both continuity between the two political systems. interview in this Brief ), a member of the CNV, in
in terms of its foreign policy orientation and the the central importance of building a solid system
institutional culture of the Ministry. The Right to Memory and Truth of responsibility with accountability for govern-
Seeking truth in a period of transition encompasses mental actions in the present and in the past for
the complex field of intersection between politics, the consolidation of democracy in the country.
Mechanisms of Transitional Justice law and collective memory. In this debate, the truth Therefore, several federal and state public agen-
They have the task of remedying the legacy of is related to the right of victims of serious human cies have an important role in gathering infor-
mass violation of human rights, through concrete rights violations and the right of their families to mation and in investigating the whereabouts of
actions aiming, for example, to require the im- know the actual circumstances of past abuses, in- the politically disappeared. In this context, the
plementation of the right to memory and truth cluding the causes and the people responsible for Ministry of External Relations is no different.
and accountability for the violence committed these violations. The investigation and the knowl- Itamaraty has participated in discussions on the
in the past. The prime objectives of “transition- edge of the truth about the events of the past are subject of memory and truth at universal and re-
al justice” refer to the recognition of victims, the essential to curb impunity, promote human rights gional levels, as well as developing important con-
strengthening of civic trust and commitment of and contribute to the strengthening of democracy. tributions for the CNV’s work, and in the imple-
the Democratic Rule of Law with the effective- The preservation of memory is clearly under- mentation of the Information Access Law.
ness of fundamental rights. stood as a political act and the right to memory, a
prerogative of individuals and generations to know At the United Nations and Mercosur:
the past that gives coherence and meaning to the cooperation and prospective view
Over the past 50 years, one can identify significant current moment. The reconstruction of the mem- Brazil has progressively undertaken internation-
change in the way the Brazilian state addresses hu- ory about the military dictatorship, based on the al and regional standards of transitional justice,
man rights abuses caused by the discretionary use of truth, allows us to create a historical representation having acceded to the major international con-
power. If the political amnesty of 1979 had, initial- of the authoritarian past, with the official record ventions on human rights in this field, such as
ly, a pragmatic character aimed at conciliation and of the arbitrary actions of the State, so that these the International Covenant on Civil and Political
peace attainment, this classic conception was mod- atrocities are not relegated to oblivion. In the same Rights (1966), the UN Convention against Torture
ified, with the enactment of Law Nº 9.140, in 1995, way, it tries to enhance the memory and testimonies (1984) and the International Convention for the
to include establishing the Special Commission on of victims, which are converted, afterwards, into Protection from Enforced Disappearance (2006).
Political Deaths and Disappearances (CEMDP), the additional documentation to write the history of It has signed the Inter-American Convention on
recognition of State responsibility for serious viola- the period. The right to memory and truth is fun- Forced Disappearance of Persons (1994), still in
tions of human rights. With the Reparation Act in damental to prevent misinterpretations about past process of ratification. In 2011, Brazil also sup-
2002, Brazil started a reparation policy for losses events and for these not to happen again. ported the creation of a Special UN Rapporteur on
caused by political persecution, to which were add- The development of the concept and scope of the Promotion of Truth, Justice, Reparations and
ed activities focused on the memory and the honor the right to memory and truth has been gradual and Guarantees of Non-Repetition, a position current-
of those who were granted amnesty, implement- consistent in Brazil. A first step was the launch of ly held by Colombian human rights activist, Pablo
ed by the Amnesty Commission of the Ministry of the book “Brazil: Never Again” in 1985, about the de Greiff. The establishment of a special rapporteur
Justice (CA-MJ). modus operandi of the repressive apparatus, pub- promotes constant monitoring of countries and the
With the creation of the National Truth lished on the initiative of the Archdiocese of São development of a prospective view on the subject.
Commission (CNV) on November 18, 2011, by Paulo and the World Council of Churches. Only The right to memory and truth permeates
Law No. 12.528, the Brazilian government estab- after the publication of the book-report “Right to the agenda of Mercosur and its members, since
lished the goal of clarifying past events and in- Memory and Truth,” in 2007, did an official docu- democracy and the Rule of Law are fundamen-
vestigating cases of enforced disappearance and ment of the Brazilian State give notice and pub- tal pillars of South American integration. The
death between September 18, 1946, and October lic recognition to the crimes committed and at- Permanent Commission on the Right to Memory,
5, 1988. Therewith, the Brazilian government tribute them to members of state security forces. Truth and Justice is one of the most active groups
brief 123

within the Mercosur Meeting of High Authorities In the National Truth Commission: expansion, with the emergence of committees for
on Human Rights (RAADH), established in 2004. the daughter of time local or specific organizations (such as those of the
This Commission tries to develop mechanisms for Truth Commissions are temporary official struc- Brazilian Bar Association-OAB, National Union of
international cooperation in the area of transition-
​​ tures without judicial character that are created to Students-UNE and several universities), estab-
al justice. As a result, in 2012, the Commission ap- establish the circumstances of human rights viola- lishing a national network of truth commissions.
proved the construction of a Mercosur Memorial tions in a period of exception. These Commissions Part of the documentary research has been
on Memory and Truth, in Porto Alegre, with the are founded on the principles of documentation, held in the National Archives, particularly in the
aim of gathering documents and stimulating dis- representation and construction of legitimacy of archives of the Ministry of External Relations,
cussions on the dictatorships of Latin American the successor regime. Firstly, according to the prin- and foreign archives. In 2006, President Dilma
countries. ciple of documentation, these Commissions should Rousseff, then Minister-Chief of Staff, ordered
Within the RAADH, South American coun- attempt to register facts with all possible details. the transfer of all documentation of federal insti-
tries have established best practices for the Secondly, these Commissions have to pay close tutions about the 1964-1985 military dictatorship
theme and advances in the process of exchange attention to the representation and the language to the National Archives. In 2007, the Ministry of
of archives (see article on the subject in this dos- used to characterize the political violence of the External Relations was the first public body to
sier). Sharing different national experiences al- predecessor regime. Finally, the successor regime answer the request and send the documents of
lows everyone concerned to take advantage of seeks to draw a line of discontinuity with the pre- the Documentation Centre of the MRE and the
knowledge accumulated in other contexts, such vious government and lay the foundation for a fu- extinguished Information Center of the Exterior
as the specialization of Argentina in the area of ture of greater political liberalization. (CIEX) and Division of Security and Intelligence
forensic genetics. In order to share information The Brazilian Truth Commission is a pioneer, (DSI), amounting to over 120 boxes of documents.
about the authoritarian periods, we highlight because the “right to truth” is clearly incorporat- The Ministry of External Relations has not
the signing by Brazil, Argentina and Uruguay ed in Article 1 of the law creating it. According to only provided unrestricted access to documents
of the Memorandum of Understanding for the the ICTJ, few truth commissions have explicit- of its cables to researchers from CNV, but also
Exchange of Documentation to Investigate Serious ly mentioned the right to truth as its legal basis organized its files located in Embassies in South
Violations of Human Rights, on January 29, 2014. and those that did, such as in Guatemala and Peru, America. MRE sent personnel exclusively to work
Such cooperation is essential for the development were limited only to preliminary considerations. with these archives in order to facilitate consul-
of a complete list of victims of the military regimes The explicit statement of this right is a strong ori- tation by the missions of CNV. In the Embassy of
in the region and to provide data and evidence for entation to CNV in order to work towards the de- Brazil in Buenos Aires, for example, the CNV col-
legal investigations. tailed clarification of facts related to serious hu- lected nine remaining folders, full of documents.
Mercosur countries articulate regional political man rights violations. Article 1 also states “national Recently, CNV examined the entire collection of
consultation about proposed agreements and resolu- reconciliation” as a purpose of CNV, understood classified documents from the Ministry, having
tions on the subject of memory and truth. Argentina as a process of rebuilding the bonds of civic trust selected about 300 top secret documents, 600 se-
led several initiatives which were taken to the in- that are the foundation of social coexistence. One cret documents, and scanned, transcribed and an-
ternational level – for example Resolution 2005/66 interpretation of the relation between these two alyzed 34 tapes with classified audios concerning
(2005) of the former UN Commission on Human concepts appears in the speech of inauguration of the General Investigation Commission (CGI), cre-
Rights, which established the right to the truth in CNV in May 16, 2012, President Rousseff, says that ated in April 1964, according to data from the re-
the context of International Law – and Brazil and truth is not revenge, nor forgiveness, but only the port Balanço de Atividades: um ano de Comissão
other South American countries co-sponsored the opposite of forgetting. Nacional da Verdade.
vast majority of these projects. In the future, the The CNV represents a great opportunity to ad- The National Truth Commission has been de-
idea is that all proposals on the matter have the sup- vance transitional justice measures in the country. veloping international actions in three main di-
port and the brand of Mercosur. It is an important Its investigations have prioritized the clarification rections. Firstly, the CNV has conducted inter-
step towards a region that shares the historical leg- of circumstances of deaths, torture, enforced dis- national missions to identify archives of interest
acy of the military regimes of the 1970’s and 1980’s, appearances and concealment of corpses that oc- and initiate exploratory research. It is worth high-
but in recent decades, has emerged as a continent curred between 1946 and 1988. It also seeks to in- lighting the survey conducted in the Archives of
of reference for best practices and cooperation in vestigate human rights violations against specific the Ministry of Foreign Affairs of Argentina and
transitional justice. According to the International groups, the chains of command of State terrorism the “Archive of Terror” of Paraguay, where CNV
Center for Transitional Justice (ICTJ), the first and international connections (such as “Operation managed to obtain information about Brazilians
Truth Commissions have emerged in the Southern Condor”) and the establishment of an “authori- imprisoned or exiled in these countries. A sec-
Cone, as well as several of the most successful com- tarian legality” in Brazil. Besides the significant ond line of action of CNV has been the establish-
missions and the most creative initiatives to search expansion of the thematic scope, the creation ment of cooperation mechanisms – with coun-
for the truth. of the CNV represents a stimulus for horizontal tries like Argentina, Bolivia, Chile and Paraguay
brief

– to investigate cases of enforced disappearance them to the new objectives of the Brazilian demo- Minister João Pedro Corrêa Costa, one can ob-
and death of Brazilians abroad and foreigners cratic state and a state policy of truthseeking and serve a visible change in the administrative and
in Brazil. Finally, the CNV and the Ministry of enhancing memory. political culture of Itamaraty, aligned with the
External Relations sent official messages to ap- guidelines of the Law No. 12.527. As reported in
proximately 15 countries in America, Europe, In Itamaraty: opening and turning a survey of DCD, in the first two months after the
Africa, and also to international organizations, the pages of history implementation of the law, there was a percepti-
with the aim of establishing the basis of coopera- In Brazil, the Information Access Law (IAL), Law ble decrease in the number of classified telegrams.
tion in archives exchange. No. 12.527, was established along with the CNV Between March and May 2012, before the IAL, the
The CNV is the culmination of a process that (Law No. 12.528), in November 2011, representing Ministry produced 3,259 reserved and 591 secret
started with struggles for democratic freedoms an outcome of a long process of democratic con- documents. In the following months, in June and
and the writing of the 1988 Constitution; but it struction and institutional improvement in the July 2012, these figures dropped to 2,333 and 421,
is also a new starting point. It represents a qual- country. IAL regulates the right to information equivalent to a fall of 28% and 29%, respectively.
itative step compared to previous initiatives, be- guaranteed by the Federal Constitution, determin- According to Minister Costa this change can be
cause it has greater access to information and has ing that public institutions shall regard publicity explained “by a higher selectivity over classify-
built a map of archives and channels of investiga- as a rule and secrecy as the exception. The dis- ing information, in contrast to the behavior char-
tion. This contributes to mobilize Brazilian soci- closure of information of public interest has pro- acterized by a propensity to assign confidential-
ety – represented by more than 100 committees of cedures that facilitate access by any person, also ity to issues that do not necessarily deserve such
memory, truth and justice throughout the country through the Internet, to develop a culture of trans- categorization.”
– even after the end of the CNV mandate, when its parency and social control within the Brazilian
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final report is launched in December 2014. CNV public administration. Together with retrospec-
was created not only to mobilize the Brazilian pub- tive measures of transitional justice, the construc- Brazil sees a moment of vivid and conscious his-
lic sphere for two years, but also to leave a legacy tion of patterns and mechanisms of free access to torical production. There is a challenge involving
to be strengthened through a long-term commit- information is a significant step for the establish- two different models: on the one hand, a design
ment from the Brazilian society and State. ment of an open and participative society. of the Brazilian transition that turns “its back on
The meaning of the CNV for the Brazilian The implementation of the IAL has required the past”, as urged by Ulysses Guimarães, in the
transition is still an open quest. According to considerable effort on several fronts in various 1988 Constituent Assembly; and, on the other, the
Secretary Sylvia Whitaker, researcher in the CNV, public institutions, including the MRE. According guideline assumed by the Brazilian government in
the Commission’s main step forward is the fact to Minister João Pedro Corrêa Costa, direc- recent years, with the search for detailed expla-
that “the Brazilian state symbolically wants to tor of the Department of Communication and nation of gross violations of human rights and to
know what happened to [missing] persons» ac- Documentation (DCD), even before the establish- build the country’s political memory as a break
knowledging the importance of knowing and giv- ment of IAL, the Ministry of External Relations with the authoritarian legacy. The CNV is a great
ing satisfaction to victims, their families and the already guided its information production proce- opportunity to reflect on these dissimilarities and
Brazilian society on cases of torture, disappear- dures, its classification and archiving by the prin- start a solid process of clarification and account-
ance and death. The final report of the CNV may ciple of publicity. From 2007 to 2011, for example, ability for serious human rights violations of the
be composed of such information, of the testi- from a total of 1.41 million diplomatic cables ex- dictatorship period.
mony from about 500 people and some recom- changed between the Ministry and its network To delimit the Brazilian “never again” and cre-
mendations. Counsellor André Sabóia Martins, abroad, only 0.7 % were classified as “secret”, and ate a transitional narrative, which is unambigu-
Executive Secretary of the CNV, said that what less than 0.06 %, as “top secret”. Added to expedi- ously directed towards democratization, holds
defines whether something is «new» is extreme- ents classified as “reserved”, the average of confi- a high transformative potential. It is a necessity
ly subtle and depends on the place from which dential documents produced annually by the MRE for the implementation of a series of rights such
certain information is disseminated. An official was only 7.5 %, which confirms that the restric- as the right to memory and truth, interconnected
report giving testimonies about the period and tion of access to information is an exception. This to the right of access to justice, the right to obtain
stating that certain information is to be found exceptionality is based on the fact that the disclo- effective remedy and reparation and the right to
in an official document has a different impact sure of certain information could harm or jeop- mourning. It is an incentive for the development
in terms of social legitimacy for the writing of ardize the conduct of negotiations or the inter- of a national policy on archives, adapted to cases of
Brazilian history. national relations of the country, as expressed in human rights violations, so that the country’s doc-
The CNV’s final report and recommendations Article 23 (II) of IAL. umentary heritage is preserved and made avail-
have great potential to be worked on by Brazilian Inside Itamaraty, these efforts include chang- able, in particular those related to human rights
public institutions, modifying longstanding be- es in routine and procedures for treating diplo- violations. It is the basis for the formulation of
havior and institutional cultures, in order to align matic and consular information. According to a national project that face its past and thereby
brief 125

build a democracy based on the new foundations Paulo Sérgio Pinheiro is member of the Brazilian final version was approved in a solemn ceremony
of freedom of expression, transparency and social National Truth Commission and was Minister of by President Dilma Rousseff, in the presence of all
participation.  — J State Secretariat for Human Rights in Fernando her living presidential predecessors.
Henrique Cardoso’s presidential mandate. Since I have no doubt that the most important lega-
Further reading 2011, Mr. Pinheiro presides the UN International cy of our Commission is to have started a process
BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Balanço Independent Investigation Commission on the of great vitality and national proportions, in order
de Atividade: 1 ano de Comissão Nacional da Republic of Syria. He was the UN Special Rapporteur to rescue the memory of serious human rights vio-
Verdade. Disponível em: http://www.cnv.gov.br/ on Burundi and Myanmar, and Independent Expert lations that occurred during the period 1946-1988,
images/pdf/balanco_1ano.pdf. of the Secretary-General to the World Report on especially after the Coup of 1964. Today, truth com-
COSTA, João Pedro Corrêa. A Lei de Acesso à Violence against Children. Mr. Pinheiro is Adjunct missions operate in almost all Brazilian states and
Informação e a Diplomacia Brasileira; In: Revista Professor of International Relations at the Watson numerous municipalities; one can note the prolif-
Interesse Nacional, Ano 5, Número 19, Outubro- Institute of International Studies, Brown University, eration of truth commissions of an institutional
Dezembro 2012. and Associate Researcher at the Center for the Study nature, in universities, trade unions, and profes-
PINTO, Simone Rodrigues. Direito à memó­ria of Violence (NEV), University of São Paulo, having sional bodies (for example, OAB). Over a hundred
e à verdade: Comissões de Verdade na Amé­rica taught at Columbia University (USA), Notre Dame committees for truth, memory and justice, are ac-
Latina. Revista Debates, Porto Alegre, v.4, n.1, (USA), Oxford (England) and at the Ecole des Hautes tive and are representative of Brazilian citizenship.
p. 128-143, jan.-jun. 2010. Etudes en Sciences Sociales (Paris). —
REIS, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Truth Commissions are set up to seek clarifi-
Rodrigo. O golpe e a ditadura militar: 40 anos de- JUCA: What do you believe will be the mean- cation about facts of a period of exception and
pois (1964-2004). Bauru, SP: Edusc, 2004. ing and contribution of the National Truth to accord value to the perspective of the vic-
SIKKINK, Kathryn; WALLING, Carrie Booth. The Commission (CNV) for the Brazilian society? tims. What are the particular characteristics
Impact of Human Rights Trials in Latin America. Will CNV leave important legacies? of the Brazilian Truth Commission in compar-
Journal of Peace Research, 2007, Vol. 44, No. 4, Paulo Sérgio Pinheiro: The institution of the National ison to other experiences around the world?
427-445. Truth Commission, by Law No. 12,528, approved al- I would like to highlight the paramount importance
SOARES, I. & KISHI, S. Memória e Verdade: most unanimously by the National Congress in 2011, given to documentary research as a peculiarity of the
a justiça de transição no Estado democrático came to meet a long-standing demand of Brazilian Brazilian Truth Commission, without leaving aside
brasileiro. Belo Horizonte, Fórum, 2009. society – promoting accountability acts committed the testimony of victims, witnesses and human rights
TEITEL, Ruti. Transitional Justice. New York: by public servants that were patent violations of hu- violators. By extinguishing the former National
Oxford University Press, 2000. man rights –, as well welcoming democratic free- Intelligence Service (SNI), through an interim mea-
doms. I must point out that, since the Constituent sure, in 1990, without indicating a successor agency,
Assembly of 1946, General Euclydes de Figueiredo, President Fernando Collor de Mello paved the way
then Deputy of the former Federal District, had striv- for sending the whole SNI collection of documents
Brazilian National en in vain for the installation of a truth commission to the Brazilian National Archive, which indeed took
avant la lettre, in order to investigate criminal of- place during Luiz Inácio Lula da Silva administra-
Truth Commission: fenses committed by the police during the “Estado tion. The National Archive made available to the
Novo” period and the two years following the com- CNV over 16 million pages of documents from the
accountability to munist uprising of 1935. “bureaucratic octopus” self-entitled SISNI (National
After Brazil’s return to democracy, with civil- Information System), which brought together the
the past and to the ian rule in 1985, important steps were taken: the SNI and the other branches of the repressive appara-
Law of Political Deaths and Disappearances in 1995, tus of the dictatorship. In comparison, I would like to
future and the regulations of the institute of political am- remind you that the report of Argentina’s CONADEP
nesty in 2002, both during Fernando Henrique (the so called “Sabato Commission”), established by
Portuguese version page 12 Cardoso’s government. The recognition that the President Raúl Alfonsín, was based solely on the tes-
— Brazilian State was responsible for the crimes com- timony of the victims.
Interview with Paulo Sérgio Pinheiro1 mitted by the military dictatorship was the corner- —
Mariana Yokoya Simoni stone on which the construction process of that What kind of activities has CNV been devel-
accountability could be based in the democratic pe- oping at the international level? What do you
1 Professor Pinheiro is grateful to the diplomat Minister Antonio riod. President Luiz Inácio Lula da Silva, in his turn, think will be the outcome of these efforts?
de Moraes, his colleague at CNV, for the contributions made to this
interview, particularly with respect to historical data. Naturally,
continued along the democratic path by sending In addition to carrying out information missions
the responsibility for the text that follows is Professor Pinheiro’s. to the Congress the bill to establish the CNV. The to neighboring countries which have had similar
brief

experiences of dictatorship and redemocratiza- as Minister João Pedro Costa, Director of the Do you believe that there are meaningful corre-
tion – such as Argentina, Uruguay and Paraguay –, Communication and Documentation Department lations between these measures and democrat-
CNV has established direct contact with authori- (DCD); and the staff of the General-Coordination of ic consolidation, a decrease in violence and im-
ties in more than two dozen States and internation- Diplomatic Documentation, headed by Counsellor provement in human rights practices?
al organizations, aiming to gain access to important Pedro Garcia. This is a question which must be analyzed on a
documentary collections in order to understand In addition, Itamaraty has seconded four dip- case by case basis, otherwise we may come to sim-
the political processes that enabled systematic vi- lomats of different ages and professional ranks plistic and unhelpful generalizations.
olation of human rights in Brazil, in the period af- in the career to the CNV. Three of those officers In the specific case of Brazil, I have been argu-
ter 1964. These contacts have always had the sup- work directly with me in the “Foreigners Working ing for over two decades, as researcher and associ-
port and guidance of the Brazilian Ministry of Group” (human rights violations of Brazilian citi- ate professor of the Center for the Study of Violence
External Relations, producing in some cases ex- zens abroad and foreigners in Brazil). I can testify (NEV) of the University of Sao Paulo (USP), and also
tremely fruitful results, such as the decision of the as to their dedication and the quality of their work. as member of the Teotônio Vilela Commission on
Czech Republic to open its archives to research- — Human Rights – founded by Severo Gomes and by
ers accredited by the CNV. Another country that How can the findings of the CNV be worked Teotônio himself – for the imperative necessity of a
has agreed to meet the demands of the CNV was on in public institutions and educational deep reform of the police apparatus, with the demil-
Germany, thanks to a personal request of President institutions? itarization of state police forces. Only then will we
Dilma Rousseff to President Joachim Gauck when This is a side of the CNV that few people mention bring to an end the culture of violence that still pre-
he visited Brazil in May 2013. – its capacity to introduce new concepts into the vails among a large number of public agents, as an
It is essential that these efforts to have ac- Brazilian public administration, such as the sup- inheritance of the dictatorship’s practices.
cess to documents that are dispersed in foreign port for the concept of accountability and of an- Without wishing to pre-empt the conclusions
archives are not interrupted, even after the clo- swering to future generations. of the CNV as a collegiate body – which will come
sure of the CNV’s activities in 2014. There are ex- It is clear to me that, by producing a report before the recommendations in the final report –
ceedingly important negotiation processes going that consolidates information about an endless I am sure that this issue, the correlation between
on, such as the one underway in the United States, number of grave human rights violations over a the authoritarian legacy of the dictatorial order
which is unlikely to be succeed without the nego- period of more than 40 years, the CNV will con- and the persistence of human rights violations
tiating talent of Brazilian diplomats. tribute to a deeper reflexion about the reasons for for significant shares of the Brazilian population,
— those violations and how far they could have been will certainly have a distinctive place in the doc-
How have the relations between Itamaraty and avoided. After all, the time lapse of the CNV’s legal ument that will be presented to Her Excellency,
the CNV evolved? What have been the main mandate practically overlaps with the Cold War, a the President, in December 2014.
contributions of Itamaraty to the CNV’s work? conflict that was, in its roots, extraneous to Brazil. —
From the beginning of its work, the CNV has had Its internalization, starting with the Dutra admin- What are the relations between the right to in-
exemplary relations with the Ministry of External istration, led to the rupture of the democratic or- formation and the right to truth, guaranteed,
Relations. By decision of the then Minister of der in 1964, with the prevalence inside the State respectively, by the Information Access Law
External Relations, Antonio Patriota, research- apparatus, especially after the AI-5 (Institutional (Law No. 12.527) and the act that created the
ers of the CNV have had not only wide access to Act No. 5), of a dualistic and authoritarian world Truth Commission (Law No. 12.528)?
the documents collected at the central archives of view, that disregarded human rights as an value These were, undoubtedly, converging movements,
the Secretariat of State, in Brasilia, but also free- essential to a rapidly changing society. which placed Brazil in the mainstream of contem-
dom to research the archives of Embassies and By elaborating an official narrative – and an ab- porary international society.
Consulates. This practically unrestricted support solutely unique one – about this long historical pe- A famous Brazilian, an exponential figure from
of Itamaraty to the National Truth Commission’s riod, the CNV will certainly help to crystallize a new the recent past, Alceu Amoroso Lima – one of the
work was reaffirmed by Chancellor Luiz Alberto official discourse, common to the different segments great masters of my generation, and who was the
Figueiredo, soon after he took office as Minister of the Brazilian State, and fully in line with the 1998 first to denounce “State terrorism” in the act of tor-
of External Relations. Federal Constitution’s letter and spirit. It will be up ture after the coup d’état in 1964 in his column in
I would stress the valuable support that the to the educational institutions to transmit this dis- Jornal do Brasil – once wrote that there is a ten-
CNV has been receiving from Ambassador Eduardo course to new generations, who often know little dency in Brazil for “late repercussion” to the great
dos Santos, currently Secretary-General of External about the scale of the grave human rights violations lines of thought and to the processes of universal
Relations, not forgetting the sincere and friendly during the period over which the CNV is working. dimension that bring about big changes. That hap-
collaboration of his predecessor, Ambassador Ruy — pened, for instance, with slavery, as Brazil was the
Nogueira. As a matter of justice, I could not fail to What is the impact of the implementation of last country on the American continent to abolish
mention other diplomats and lower rank officers, mechanisms of transitional justice in a country? this archaic and abject social practice.
brief 127

In present-day society, 9/11 and its consequenc- which in addition to repression in their national most recent military coup in March 1976. It was or-
es led, in some of the world’s most advanced soci- territory, pursued those considered “enemies” of ganized and systematized to formalize the repressive
eties – the United States, the United Kingdom or the State throughout the Southern Cone. While in collaboration that had already been promoted occa-
Japan – to the adoption of legal instruments wide- the 1970s the States of the region got together to sionally among the countries of the Southern Cone.
ly restrictive of public freedom. Instead of promot- repress through the military regimes imposed in Operation Condor was structured in three
ing transparency, a fundamental value in any dem- each country, based on the ideology of the National phases: the first phase was information exchange
ocratic society, the notion of State secret and the Security Doctrine (DSN), adapted according to the and involved the distribution of lists of “subver-
intrusion of the public power in citizens’ private particularities of each country, today there exists sive” people, who were wanted in the participat-
lives were have been extended without restraint. a progressive collaboration aiming at reconstruct- ing countries; the second stage consisted of oper-
By simultaneously sanctioningthese two no- ing the history of that period, in which the Foreign ations and actions in Latin America; and the third
table legal acts that are the Information Access Ministry has a prominent role. The performance of one would focus on interventions outside Latin
Law and the act that created the National Truth the diplomatic corps in actions for promoting mem- American territory. The term “operations”, in the
Commission in 2011, President Rousseff positioned ory, truth and justice in Brazil and the region is sal- scope of this repressive system, meant kidnapping,
Brazil against the current that was restricting the utary. One example is the participation of diplomats torture and disappearances. These phases were
Rule of Law in some of the great industrial democ- at the Special Commission on Political Deaths and interspersed; practices did not change, but the
racies. This placed Brazil in the forefront in the af- Disappearances – under the Secretariat of Human logistics were expanded. There was no standard
firmation of human rights. I am sure that my late Rights of the Presidency of the Republic –, as well model for the conduct of actions, since each case
master, Doctor Alceu Amoroso Lima, if he were here, as at the National Truth Commission. Another ex- contained a unique way of operating.
would be very pleased with this moment, a complete ample is the work performed in the archives of the The international exchange of files is essen-
exception to the historical tendency that he identi- Foreign Ministry, which has extensive documen- tial for us to understand how violations of hu-
fied in Brazilian society.  — J tation about these years open for consultation, in- man rights occurred in the emergency regimes
cluding documents classified as secret. and who participated in them. The specific ex-
The Foreign Ministry has worked to deepen changes that have been occurring in relation to
the archival cooperation on the bilateral and mul- cases of Operation Condor are the first initiatives
Brazil and the tilateral levels, examples of which are the efforts of the Brazilian State in this regard. This demon-
for exchanging files about the repressive events strates an effective institutional effort to establish
exchange of archives under the auspices of Operation Condor. The con- a consistent policy of memory and represents a
dor is the largest flying bird of prey in the world, salutary advance for transitional justice in Brazil.
about the military able to search for its prey from miles away; it feeds The international scope of repression under
on carrion or weak and sick animals. In Andean Operation Condor was only considered in a seri-
dictatorships of the folklore, this bird represents the struggles be- ous and effective way by the Brazilian state as of
tween the oppressed and oppressors. The peo- the establishment of the Working Group Operation
Southern Cone: the ples of Quechua language convey through this bird Condor (GT-Condor) of the National Truth
what they consider “emptiness” of their traditions. Commission (CNV) on September, 2012. The group,
case of Operation It was certainly not because of the prominent role coordinated by Dr. Cardoso, researcher and diplo-
of the bird as a sign of the oppressed that Manuel mat André Sabóia Martins and researcher Vivien
Condor Contreras, then head of the Chilean secret police, Ishad, has produced significant projects, taking
named the repressive coordination between the advantage of all the work inherited by the Special
Portuguese version page 16 States of the Southern Cone Operation Condor, Commission on Political Deaths and Disappearances
— formalized on November 28, 1975 in Santiago, and the Amnesty Commission of the Ministry of
Bruno Quadros e Quadros Chile. At the time, Brazil sent two representatives Justice. All those projects were undertaken with
and Sabrina Steinke2 as observers, so the minutes of the meeting did not the support from the Foreign Ministry.
include the signature of any Brazilians.
One of the challenges to democracy in Brazil and Operation Condor was a collaborative network The exchange of archives
the other countries of the Southern Cone is to re- between agencies of information and/or prosecution In the documentary aspect, Operation Condor is
construct the traumatic events of political repres- of six countries (Chile, Brazil, Paraguay, Uruguay, an extremely complex puzzle, as well as all the
sion in the 1960s and 1970s. This region was the Argentina and Bolivia). These agencies were linked traumatic events of the 1964-1985 Dictatorship.
scene of military dictatorships of national security, to their respective States which at that period were Besides having a plural logistical action – which
under the management of dictatorial regimes – with complicates the characterization of the violations
2 PhD candidate in History, Universidade de Brasília the exception of Argentina, which was to have its as part of this operation – depends on substrates in
brief

different countries. Help in this field comes from of the Southern Cone serves memory policies Viñas. An Argentinean, who disappeared in June
the initiatives of civil society such as the website whose trajectories are quite different. Argentina 1980 on the border between Brazil and Argentina,
Documentos Revelados (Documents Revealed), has a leading role: immediately after the transi- he was traveling from Buenos Aires bound for
which reflects the research of Aluízio Palmar and tion to democracy was established the National Rio de Janeiro and from there he planned to go
contains a great quantity of documents about the Commission on the Disappearance of Persons to Italy. Lorenzo was a Montonero activist and
repression in South America. Aluízio is a survivor (CONADEP), which produced the report Nunca spent his last years on the run from agents of
of the Brazilian military regime. As a young man, he Más (Never More) and has already tried a hun- Argentinean repression.
studied Social Sciences at the Universidade Federal dred people implicated in repression. It is in ef- Through a process at the Amnesty Commis-
Fluminense and acted in political militancy, later on fecta process of crimes against humanity focused sion, the Brazilian government recognized that
he was arrested and exiled from Brazil – in the fa- on Operation Condor. The collections of Argentina Lorenzo was kidnapped in Brazil with the aid of
mous exchange of political prisoners for the Swiss are dispersed in numerous files in all provinces, and Argentinean agents. The process includes exten-
Ambassador in Brazil. He returned to the country CONADEP represents is what is systematized so sive documentation from different collections and
after the political amnesty and, among other activi- far. Paraguay is home to one of the largest docu- was concluded in August 2005. The family has
ties, he has maintained the online document collec- ment collections specifically on Operation Condor, been indemnified and Lorenzo identified as a po-
tion that includes research in numerous public ar- which reveals the international repressive structure litical disappearance in Brazil.
chives and donations of private collections, since he of that time. Both Argentina and Paraguay have al-
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was in exile. The activities of the website began in ready offered their collections to the work of the
2011. It has a monthly average of eight thousand hits. GT-Condor of CNV. Brazilian research teams have The establishment of institutional linkages be-
Public institutions of human rights have also already been in these countries compiling docu- tween States for cooperation on the exchange of
taken action in order to provide documentation ments, with the support of the Foreign Ministry. archives has been gradually adjusted and is being
about collaborative repressive operations between These teams are working together in a non-formal- adapted to the particular contexts of democratic
the States of the Southern Cone. The Documentary ized way – if we understand as “formal” an agree- transition and implementation of policies of mem-
Collection Condor (Acervo Documental Condor), a ment between States that allows free access and ory in each country. The opening of the archives
project of the Institute of Public Policy on Human even the building of a single archive on these events. is a sensitive issue in many respects. Not only do
Rights of Mercosur (IPPDH), provides a web-guide With Brazilian Law No. 12,527 of 2011, the widely the agents of repression fear public exposure of
for researchers and other interested parties. It is known bill on access to information, a plural and their practices, but also some victims and/or rel-
about the revelations of files and documentary col- unprecedented document collection on the 21 years atives do not feel comfortable. There are wounds
lections from Brazil, Argentina, Paraguay, Uruguay of military dictatorship is being systematized in the that are still open.
and Chile. The data available are: contents of each National Archives. Access is free to any citizen of When looking at the trajectories in facing se-
file or collection, how files can be accessed, rules and any nationality, which is a giant step towards an rious human rights violations, creating a network
restrictions and, in some cases, summaries of docu- even wider exchange of information among the of archival collaboration is beneficial for the dem-
ments. This initiative aims at promoting the analy- countries of the Southern Cone. ocratic consolidation of each of the countries in-
sis, organization and provision of information about The exchange of files was carried out first- volved in the repressive activities of Operation
the archival heritage related to Operation Condor. ly by researchers who seek substrates for their Condor. The aforementioned initiatives make it
Within the Permanent Committee of Me­ investigation in various collections around the clear that this path is being trodden consistently
mory, Truth and Justice of the Meeting of High Southern Cone. In a gradual and cumulative pro- and with a view to the ongoing process of expand-
Authorities on Human Rights and Foreign Minis­ cess, this exchange has been added to the work ing institutional linkages in this area.
tries of Mercosur and Associated States (RAADH), of the Amnesty Commission and the CNV. These The deepening of democracy in the Southern
a technical group engaged in data collection and re- initiatives have focused on repair in the case of Cone countries has created favorable conditions
search in the files of Operation Condor was estab- the Amnesty Commission, and on the building of a and the political will to develop a more consis-
lished. One of the main functions of this technical more comprehensive memory and the unveiling of tent system of archival cooperation. The Brazilian
group is to promote the exchange of data between what happened to Brazilian citizens in the case of government has shown great interest in advanc-
Member and Associate States of Mercosur, in order the Truth Commission. Hence the reason for the ing this agenda, with the aim of making it possible
to establish a regional system of data on the sub- lack of a policy for building a common archive, or in a few years for researchers, relatives and oth-
ject. In 2012 a call was launched by the IPPDH for even access to archives through a joint platform. er interested parties to have access to documents
information for the research project on public ar- Exchanges in place demonstrate the impor- from several countries, which may contribute to
chives related to the serious violations committed tance of the issue for the deepening of democ- the elucidation of cases still being researched. It
in the context of Operation Condor. racy. One of the cases which resulted in an in- is an arduous task that requires engagement of all
The institutional agenda of “exchange” of col- demnization to the family and had the help of sectors and involves interests that are political in
lections that is being implemented in the countries archival collaboration, is that of Lorenzo Ismael the broadest sense of the term.  — J
brief 129

Lorenzo Ismael Viñas Since the restoration of democracy in 1983, the State, contradicting the Government’s discourse
A student of Social Sciences in Buenos Aires, he was Argentine Republic has developed a State poli- and making the violations perpetrated by the
a member of Montoneros. Married to Claudia Olga cy in the domain of human rights, articulated in agents of the dictatorship visible to the interna-
Romana Allegrini, after living in exile in Mexico he three pillars: truth, justice and memory. This triad tional community.
returned to Argentina, from where he was trying to is guided by the ultimate goal of full compensation,
travel to Italy when he disappeared on June 26, 1980. not only for the victims, but also for the whole so- TRUTH
cial collectivity, wounded by the illegal repression During the dictatorship, the main demand of the
during the last military dictatorship in the coun- families, people in exile and human rights organi-
Further reading try. In the three pillars of truth, justice and mem- zations – both domestic and international – was to
BRASIL. Direito à memória e à verdade. Comissão Es- ory, the reparatory policies have led to concrete obtain information on the whereabouts of those
pecial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasí- measures by the Argentinean State. desaparecidos (citizens illegally arrested by the re-
lia: Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2007. — gime and presumed alive). There emerged the de-
CALLONI, Stella. Operación Condor: los años del lobo. The debate on human rights violations during mand for truth. There was not yet the demand to
Buenos Aires: Peña Lillo Ediciones Continente, 1999. the last military dictatorship has passed through bring those responsible for the violations to jus-
CUNHA, Luiz Cláudio. Operação Condor. O se- several stages in the heart of Argentinean society: tice, as there were no conditions for that. Only in
questro dos Uruguaios. Uma reportagem dos tem- schematically speaking, we can say that, from an 1982, in the face of the weakening of the dictator-
pos da ditadura. Porto Alegre: L&PM, 2008. initial stage of demands for the establishment of ship, did different agents start to demand, with
MARIANO, Nilson. As garras do Condor. Petrópolis, truth, we have moved to another one, focused on growing strength, the trial of the perpetrators of
RJ: Vozes, 2003. the demand for justice and, finally, in the pres- human rights violations.
ent moment an emphasis on memory. Eventually, Knowledge of the truth about the fate of the
the State has adopted these objectives and has disappeared people would eventually be recog-
sought to give them an answer, adding the con- nized as a fundamental right, which must be guar-
cern for reparation. anteed by the State. In this sense, it is considered
The previous schematization, useful to under- that the right to truth is the right “held by soci-
stand and to explain the evolution of this process, ety, especially the relatives of victims of violations
must be nuanced: evidently, this was a complex dy- of human rights, to know what happened follow-
namic with positive synergies, in which steps for- ing those violations, individualizing the facts and
ward in one area helped to foster progress in the those responsible.”4 This rights belongs not only to
others, and, many times, developed side by side. the relatives of the victims, but to the whole soci-
ety, who must know national history and its causes.
The last military government in the Argentine Close to the end of the military government,
Republic (March 24th 1976 – December 10th 1983) the driving force for the demands became the de-
The coup d’état of March 1976 marked the begin- mands for justice. Already in 1982, the March for
ning of a period of unprecedented political vio- Life took place, demanding the trial and punish-
lence, which constitutes one of the darkest peri- ment of those responsible.
The case of ods of Argentine’s history. During the so-called
National Reorganization Process, the Armed JUSTICE
Argentina: Truth, Forces established State terrorism as a gener- Trying to avoid any investigation from future ci-
alized and systematic mechanism for social re- vilian governments, the military dictatorship pub-
Justice and pression. The military group that came to power lished the Final Document of the Military Junta
considered society and its institutions to be sick, on the War against Subversion and Terrorism. In
Memory justifying the use of extreme methods in the “war this document, the regime took responsibility for
against subversion”. the war on subversion, dismissed the charges of
Portuguese version page 22 The first narrative of the human rights vi- forced disappearance and referred the evaluation
— olations of that period was made in the Inter- of its acts to “divine judgment”. Moreover, in or-
Lucila Caviglia3 American Commission on Human Rights of the der to preserve the acts committed under superior
Organization of American States (IACHR), in a
3 Argentine diplomat, student of the 2012-2014 Class of Rio report published after its visit to Argentina, in 4 Rosales, Sebastián. 2005. “El derecho a la verdad: desar-
Branco Institute. All opinions in this article are expressed in rollo en el ámbito internacional y en la República Argentina”.
a personal capacity and do not represent, in any way, posi-
September 1979. In this report, the IACHR not- Documento de Trabajo Nº 38. Buenos Aires, Instituto del
tions of the Argentine government on the matter. ed the magnitude of the crimes committed by the Servicio Exterior de la Nación. P. 5 (free translation).
brief

orders, the dictatorship sanctioned The National However, due to pressure by military and civil- aim of seeking the punishment of those responsible,
Pacification Act (Law 22.924), also known as Self- ian groups, in 1986, Law No. 23.492, called Ley de but also that of building the memory, a pillar that
Amnesty Law, tainted with unconstitutionality be- Punto Final (Full Stop Law), was enacted, putting gained strength in the following period.
cause of its source and content. an end to criminal cases against those accused of
Once the constitutional government was rein- illegal detentions, torture and homicide that were MEMORY
stated, the National Congress passed Law No. 23.040, not called in to testify in sixty days (the Law was Since the middle 1990’s, human rights organiza-
which annulled the Self-Amnesty Law, and President enacted in December 24th 1986, and therefore, the tions have been able to bring the demand for mem-
Raúl Alfonsín published Decrees No. 157/83 and deadline was due on February 22nd 1987). ory into the public agenda. The process of elabo-
158/83, ordering the trial of guerrilla leaders and In addition, in June 1987, the so-called Ley de ration and social construction of memory has led
the members of the first three Military Juntas. Obediencia Debida (Law of Due Obedience) was to the production and reutilization of legal argu-
At the same time, besides ordering the Trial of approved, establishing an absolute presumption ments and socio-political concepts which, in gen-
the Juntas, the President decreed the creation of (iuris et de jure, meaning, without admitting proof eral, were not present in the first years after the
the National Commission on the Disappearance of to the contrary) that the acts committed by mem- restoration of democracy. Among these concepts,
Persons (CONADEP), in composed by distinguished bers of the Armed Forces between 1976 and 1983 one can mention the characterization of systemat-
people from various domains, with the objective were not punishable, as they were committed in ic repression during the National Reorganization
of investigating the accusations of human rights due obedience – a military concept according to Process as genocide, paving the way for its inclu-
violations during the dictatorship and clarifying which officers must obey orders from their supe- sion in the category of crimes against humanity (to
the facts related to State terrorism. In September riors, regardless of their contents. which statuary limitations do not apply).
1984, CONADEP published its “Never Again” re- Additionally, between 1989 and 1990, the The struggle, initially centered on criticism of
port, which presented the first steps towards the Executive, run by Carlos Saúl Menem, established the past, gained a focus on the present and the fu-
judicial procedures against perpetrators of crimes. a sequence of decrees giving pardon to military ture. The exercise of memory does not stop on the
After Decree No. 158/83 was sanctioned, the and civilian staff prosecuted and condemned for denunciation of what was suffered; it acquires the
members of the three Military Juntas began to crimes during the dictatorship, with the aim of preventive meaning of guaranteeing that Never
be tried by the Supreme Council of the Armed achieving national pacification. Again (Nunca Más) may these tragedies take place
Forces, since the Law guaranteed that military of- With the Due Obedience Law, the Full Stop in our country.
ficers should be judged by that kind of court. But, Law and the presidential pardon, the direct and Finally, the State itself has taken responsibility
as the proceedings were taking a very long time, in indirect victims of State terrorism were deprived for the violations and, in consequence, has com-
February 1984, Congress passed Law No. 23.049 re- of justice. But the claims by human rights orga- mitted itself to the preservation of memory. The
forming the Code of Military Justice, so that this nizations did not stop. Given the impunity in the inclusion of human rights in educative material
forum should only take military crimes (desertion, domestic domain, these acts and pardons were and the proliferation of artistic manifestations
insubordination, etc.) and that the military courts’ denounced to the Inter-American Commission on and public acts referring to the preservation of
sentences could be appealed against civil courts, Human Rights. The IACHR accepted the claims memory are evidence of the importance of the
which, in the case of negligence or unjustified delay, and demanded that the Government of Argentina question on the public agenda in Argentina. The
could even become the competent courts for mil- repaired the damage suffered by the victims. Argentine Republic became, therefore, one of the
itary cases. In that scenario, as the Council of the Responding to the recommendations of the few countries in the world that admits it has com-
Armed Forces considered the trial of the military IACHR that the State should answer the claims mitted genocide against its own people.
leaders to be impossible due to lack of evidence to for truth, the Juicios de la Verdad (“Truth Trials”)
show the illegality of their orders, a civil court as- began. These were judicial proceedings with mere- The “Statization” of the
sumed responsibility for the case. ly declarative sentences, that gained force since the human rights demands
The sentence, published in 9 December 1985, 1990’s by relatives of disappeared people and hu- Especially after Néstor Kirchner became President,
condemned the heads of the first Military Junta man rights groups, with the objective of finding out in 2003, the Government assumed the narrative
to life imprisonment; the members of the second what happened to their loved ones and the reasons built by the human rights organizations regard-
Junta got different periods in prison, and the mem- and circumstances that led to their disappearance. ing the demands for truth, justice and memory, to
bers of the third Junta were not condemned, as The importance of those trials lies in the fact that, which we have been referring, as its own.
the crimes of which they were accused could not even if they did not lead to condemnations, they al- In this sense, President Kirchner sponsored the
be proved. The sentence recognized that the acts lowed for the production of written and oral docu- Congressional declaration of the Due Obedience
committed in the period were planned and sys- ments that were used afterwards, when the judge- and Full Stop laws as void, in August 2013. This
tematic acts of extermination. At the same time, ments began. Besides, the Truth Trials contributed fundamental fact allowed for the reopening of the
crimes committed by lower ranking officers start- enormously to the creation of social awareness about criminal trials against the military officers accused
ed to be investigated. the facts. It was all about the truth not only with the of participation in the unlawful repression. In 2005,
brief 131

the Supreme Court declared these acts unconstitu- community. This places upon us the responsibil- The Ministry of External Relations, however,
tional, ratifying the Congress’ declaration. ity to promote and protect human rights in our understands the idea of public diplomacy in a dif-
The “statization” of the human rights groups’ country and in the world.  — J ferent way. Brazil’s concept of public diplomacy is
narrative also became evident in measures like the related not only to the promotion of Brazil’s image
conversion of old clandestine detention centers abroad, but mainly to the goal of a greater opening
into places for the preservation of memory, and of Itamaraty to civil society, in the context of the
the declaration of March 24th as a national holi- democratization of national institutions.
day called “National Memory Day for Truth and In spite of of that, the first national reference
Justice” – incorporating in its name the three fun- to the idea of public diplomacy reproduced the re-
damental flags of those organizations. strictive American definition. In 1969, Ambassador
Finally, as a corollary of its appropriation of Geraldo Eulálio do Nascimento e Silva described the
the objectives of memory, truth and justice since action of public diplomacy as that of “keeping for-
2003, the National State has assumed reparation eign public opinion informed of the guidelines of for-
as a goal. Therefore, new reparatory acts5 were en- eign policy, to be presented in such a way as to attain
acted, seeking to financially compensate the vic- its sympathy”. The Ambassador’s definition is a sign
tims of the unlawful repression. of his time: the interest of the largest share of the
Brazilian population was small, leading to a small-
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er social involvement in foreign policy making and,
In this article, we have shown how the demands therefore, smaller necessity to inform the domestic
for truth, justice and memory emerged, and how Public Diplomacy audience. Likewise, in opposition to foreign public
they were incorporated into the Argentinean po- opinion, domestic public opinion was not seen as
litical agenda. Evidently, the advances in each of in Brazil an asset that deserved the same kind of attention.
these areas are interrelated and did not take place This situation has changed. In recent years,
in a chronological order. Portuguese version page 26 transparency and participation became funda-
Justice has been conceived as the main pillar — mental principles of Brazilian public policies, in-
of the long process of reparation. Even when the César Yip, Luiz de Andrade Filho cluding foreign policy. Society has been showing
answer of the tribunals was, in a first moment, lim- and Pedro Tiê Cândido Souza greater interest in international affairs and has
ited, the truth progressively gained public knowl- been demanding from Itamaraty more informa-
edge thanks to human rights organizations and Increasingly in demand, Itamaraty has the tion and participation. By including the domes-
several individuals, social groups and even the opportunity to improve Brazil`s internation- tic audience as an interlocutor to public diplo-
State, which continued to fight until the laws that al projection strategy and to strengthen macy actions, however, the Ministry is changing
blocked further advances were declared void and the national interest through the actions not only its target audience, but the very goal of
the criminals were punished. At present, memory of its public diplomacy. the communication. We are moving from a goal
has the social function of not allowing the repeti- of propaganda and advertising to that of democ-
tion of similar situations and of spurring a greater Brazil’s concept of Public Diplomacy ratization and transparency.
collective appreciation of democracy. The idea of Public Diplomacy was first studied Curiously this conceptual adaptation has oc-
The protection of human rights, which our in 1965, when the American diplomat Edmund curred in a natural way. Indeed, there has been no
country understands as indivisible, interrelated, A. Gullion established the Edward R. Murrow questioning about a possible misuse of the concept
interdependent and without hierarchy, became a Center of Public Diplomacy, in the traditional of public diplomacy. The necessity and the goal
State policy. As such, it influences other national Fletcher School of Law and Diplomacy. The con- of democratization are so evident in Brazil that
public policies, including foreign policy. cept was used to legitimize the activities of the the idea of public diplomacy is easily translated
In this dimension, the national experience United States Information Agency, and aimed at by Brazilian diplomats into transparency and in-
has led to a strong participation of the Argentine improving the US image abroad, in the context of clusion initiatives, and not only the promotion of
Republic in many international human rights fora the global struggle for hearts and minds during the country’s image abroad.
and to the inclusion in our legislation – with con- the Cold War. Since then, the concept of public This conceptual reframing shows how the
stitutional hierarchy – of a binding body of treaties diplomacy has been subject to many interpreta- change in the institutional mindset to a greater
and declarations on the matter. Today, Argentina tions. Still it remains, in the diplomatic practice of opening to civil society is still an ongoing process.
plays a recognized role in the international most countries, as the reference to a set of activi- In other countries, be it because transparency is
ties with the aim of cultivating the external image a standard practice, be it because there is still no
5 Law No. 25.914 in 2004 and Law No. 25.564 in 2009. of a country and influencing foreign audiences. demand, public diplomacy has no such meaning.
brief

It is in the context of transition and democratiza- of direct communication and inclusion in the pol- press releases, statements by high-ranking dip-
tion of Brazilian institutions that the attribution icy making. This leap comes from a necessity and lomats, videos of Itamaraty’s YouTube channel
of meaning makes sense. a perception that the press priorities and agenda and other updates related to the Ministry’s activ-
are not necessarily the same as those of Itamaraty. ities. In 2010, Itamaraty created an official pro-
Public Diplomacy in three times For Itamaraty’s Spokesman, this approach to file on Facebook. Nowadays, the Ministry also
In his CAE (Itamaraty’s Advanced Studies Course) civil society seeks, at the same time to increase the runs a blog called “Diplomacia Pública” (“Public
thesis, Counsellor Marco Antonio Nakata iden- Ministry’s transparency and to work on its image. Diplomacy”) and a RSS feed, a system that allows
tifies three target audiences for Brazil’s Public According to him, it is necessary to show society the the user to get updates from different sites with-
Diplomacy: foreign public opinion, the press, and daily routine of Brazil’s diplomats, in Brasilia and out having to visit them one by one. The balance
Brazilian civil society. in posts abroad, in such a way as to demystify ste- of this use of social media has been positive: ac-
Foreign public opinion as a target for public reotypes of an elitist diplomatic service strange to cording to the Twiplomacy study, in 2013, the ac-
diplomacy has been the object of a great deal of the national reality. As a form of strengthening this count @MREBRASIL ranked among the 20 most
research in Itamaraty. In 1983, is his CAE thesis, bond, the Minister and the Ministry’s Spokesman followed foreign affairs accounts in the world.
Ambassador Samuel Pinheiro Guimarães made sug- have engaged in regular meetings with journalists Besides Itamaraty’s institutional profiles, sev-
gestions about “the performance of the Ministry of and opinion leaders from various communication eral posts abroad have created their own profiles.
External Relations in the formation of the appara- media, both domestic and international. Not only does the interaction provided by social me-
tus and the international mindsets, as well as in dia increase the contact between the Ministry and
the flow of information”, with a view to creating Social media Brazilian civil society, but it also enhances the di-
an autonomous external vision, rid of stereotypes Using social media is one way of establishing di- alogue between local communities and Brazilian
about Brazil. More recently, Minister Nilo Barroso rect contact with civil society. Social media are Embassies, Consulates and Missions. After realiz-
also wrote about Brazil’s image abroad and about a distinctive phenomenon in the 21st century. By ing the efficiency of social media and their ability
the “effort to try to convince and to influence for- promoting contacts between its users without the to provide immediate responses, several Brazilian
eign audiences.” need of any intermediary, social media become posts abroad spontaneously created accounts in so-
In the present context, however, it is not only a comprehensive and democratic tool. With the cial media. Taking that into consideration and with
foreign public opinion that is of interest to public feature of self-management and the possibility of the purpose of helping the Ministry come up with
diplomacy. As a political institution, the Ministry real-time updates, these systems lead to social ex- a social media strategy for Posts abroad as a tool of
takes part in domestic and international struggles, change and the sharing of information, apart from Public Diplomacy, Itamaraty consulted all of its Posts
and, for that reason, needs to publicize its activi- facilitating mass communication. With a profile in abroad in a sort of survey regarding these accounts.
ties and defend its points of view. To that end, it a social media site, it is possible to spread infor- As this edition goes to press, 214 out of 227
has, for a long time, had a strong connection to mation, pictures and videos to other users, who posts had answered the survey that requested in-
the media and journalists. This side of public di- can find people or institutions and instantly in- formation on the use of social media. Among these
plomacy was analyzed by Minister Rodrigo Baena, teract with them. 214 posts that answered the survey, 103 use so-
who, in his CAE thesis, “Foreign policy and media That being said, social media represent an im- cial media to disseminate their activities. Some
in a democratic State”, wrote about the incorpo- portant tool for the interaction between society and of them even have profiles on two or more social
ration of the media into the foreign policy agenda. the government. The use of social media by gov- networks. Facebook is the most used tool (100
Currently, as a way of strengthening bonds with ernment agencies (and, naturally, Foreign Affairs Posts), followed by Twitter (15 Posts). In terms
the press, the Minister of State, Ambassador Luiz Ministries) is increasing considerably. Aware of of language, 31 posts use Portuguese only, 8 posts
Alberto Figueiredo Machado, and the Ministry’s the need of being accountable to the population use only the local language, and 64 use both.
Spokesman, Ambassador Nelson Antonio Tabajara and keeping an open dialogue with civil society, Approximately 70% of the posts that use social
have engaged in regular meetings with journalists Itamaraty is present on several social networks. media have a specific employee for that activity.
and opinion leaders from various communication Itamaraty’s first institutional profile was cre- Around 90% of the posts evaluated the use of so-
media, both domestic and international. ated in 2009 on YouTube (currently the largest cial networks as positive, highlighting how easy it
What is new about the present democratic pro- audiovisual collection in the world), with the is to establish a structured contact with the local
cess, however, is that it is no longer enough to com- aim of publishing press conferences, interviews population, the Brazilian community and journal-
municate with society through the press. Currently, of the Foreign Minister and other diplomats, offi- ists; the quick dissemination of messages by the
public diplomacy also demands direct relations cial statements and government programs. In the “share” option; the possibility of monitoring the re-
with civil society, and its participation in the for- same year, an album was created on Flickr in or- percussion of an update by reading the comments
mulation and execution of public policies. It is a der to upload high-resolution official pictures. Still and checking the number of “likes”; the establish-
big change: from an indirect and vertical relation in 2009, Itamaraty decided to create an account ment of an open and quick channel for answering
of the Ministry with civil society, to today’s effort on Twitter, for automatically publishing links to questions and doubts.
brief 133

The target audience of Embassies and Missions expansion of communication technology tools, (82.42%), requests were too generic (6.88%), in-
is mainly the local community, aiming to promote including social media, have the potential of in- formation was protected (4.51%), demands were
Brazil’s image abroad by spreading news and ad- creasing society`s interest in foreign policy issues. disproportionate or unreasonable (3.56%) or dealt
vertising cultural events, national dates, traditions Lastly, public diplomacy can contribute to with civil servants’ private information (1.42%).
and celebrations. In their turn, Consulates use so- building a larger support basis for Brazil`s actions Regarding the promotion of closer and more
cial networks as a vehicle for assisting Brazilian abroad, since Itamaraty’s initiatives will be under- regular contacts with Brazilian and foreign civil
communities abroad. No matter the type of work, pinned by a larger number of individuals that un- society, there is room for expansion and improve-
the target-public or the language of the updates, derstand, contribute to and question foreign policy ment. We thought it would be appropriate to ask,
Facebook has become the main tool for publiciz- means and outcomes. In other words, it is an op- through an anonymous online survey, represen-
ing the activities of several Posts. portunity to expand the support basis for actions tatives of Brazil’s NGOs, social movements, pri-
Besides creating their own profiles, some posts and ideas in foreign policy while multiplying op- vate sector and academia – some of whom with
abroad have adopted other initiatives regarding so- portunities for engaging with and connecting to previous experience in engaging with Itamaraty
cial media. For instance, on 23 January 2014, the a society that increasingly acts through networks. – about which steps could be taken to improve the
Embassy of Brazil in London co-organized a dis- There is no doubt that the issue is a priority in dialogue on foreign policy. Although we recognize
cussion on the theme of social media with DPAAL Itamaraty. The challenge is less about the “if” and that the small group of ten people that were con-
(Diplomatic Press Attachés’ Association, London) more about the “how” we can establish a useful sulted is far from representing a consensus, it is
and the London Press Club. The event, which gath- and mutually beneficial dialogue with civil society. possible to see some common ground on the ques-
ered over 100 people, looked at how social media In one of his latest books, entitled “The idea of tions and requests that were made.
tools such as Twitter have been incorporated into Justice”, Nobel Prize-winning economist Amartya Among the most recurrent demands is the
the diplomatic arena and suggested how embassies Sen argues that it is possible to deepen democ- one for a more structured and regular dialogue,
could use them effectively. racy by improving information availability and especially during the initial phases of formulation
promoting interactive discussions. According to of foreign policy positions, as well as the request
Advancing public diplomacy in Brazil Sen, democracy is shifting towards being judged for a standard approach by the various units that
The above illustrates the great potential of public not only by the institutions that support it, but are part of Itamaraty. Some suggest weekly brief-
diplomacy actions to increase social participation also by the different voices that benefit from it, ings to the press and online newsletters as a pro-
and to strengthen the use of foreign policy as an as long as they can be heard. The two conditions active information tool, while stressing that it is
effective tool to promote peoples’ prosperity in suggested by Sen seem relevant to point out paths important to move from purely publishing activ-
line with the national interest. for Brazilian public diplomacy. ities to the actual collection of inputs. They add
There are at least three reasons why public An open foreign policy requires not only the that sometimes the dialogue is hindered by mu-
diplomacy strategies should be strengthened in proactive and reactive dissemination of positions, tual unawareness of roles. Mapping opportuni-
Itamaraty. Firstly, the Brazilian citizen should be proceedings and results of diplomatic action, but ties for including civil society in the formulation
able to better understand the role of foreign pol- also the effective consideration of citizens’ con- and execution of foreign policy – along the lines
icy in the context of the State`s ability to respond tributions. As a result, the traditional idea of a for- of what has been tried through the Dialogues on
to collective and individual demands. That is why eign policy underpinned by the diplomatic corps’ Foreign Policy initiative – could be a good starting
public diplomacy tools, such as social media, aca- excellence is replaced by the one in which due at- point, as well as the analysis of the experience of
demic debates and consultations with civil soci- tention is paid to society’s contributions. other foreign services under democratic regimes.
ety must take account of the challenge of trans- The access by Brazilian citizens to informa- Modern diplomacy, in order to achieve ambitious
lating complex strategies and formulations into tion produced and circulated in Itamaraty was results, must be able to go beyond purely-govern-
clear and simple objectives. made easier by the Information Access Law (IAL). mental boundaries, thereby creating long-stand-
In addition to that, through public diplomacy Effective from 2011, the Law consolidates society’s ing bonds with society and making effective use
actions, society will be able to realize the impor- aspirations for the right to information and makes of national and global networks.
tance of Brazil achieving a bigger role in global other civil and political rights in the Constitution
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decisions, through an active participation in mul- a reality. Between the Law’s starting date and the
tilateral forums and organizations and the expan- closing of this article, more than 1253 requests The adoption of public diplomacy in Brazil must be
sion of bilateral ties. Although, nowadays, issues had been made to Itamaraty through the Citizens’ understood in the context of the broader process
such as the reform of global governance institu- Information Service e-system (e-SIC), of which of the country’s democratic learning. This process
tions and trade expansion are interests of eco- 1210 had been responded to within the deadline, cannot be restricted to the creation of an institu-
nomic and intellectual elites, the greater levels within an average of 20.59 days. Of those requests, tional structure, as it depends, mostly, on a mindset
of education that should be achieved by Brazilian 56.85% had positive responses. Negative respons- change. For over a century, Itamaraty has been used
citizens over the coming years, as well as the es were given when more information was needed to dealing with a small number of people interested
brief interviews

in foreign affairs. Now, it is learning to deal with security and harmony among neighbors. It must
the crowds that march to its doors. interviews have light and means of communication. Thus, ei-
In this context, direct civil society participation ther we work together as a district or our home,
must be seen not as a burden, but as a power re- alone, will not work. Therefore, this aggregative
source for Brazil. The debate on the Governance of activity that we have, this stimulus to integration
the Internet is an example. Because of its multistake- Interview with is fundamentally a stimulus to the collective de-
holder model of digital governance, with broad social velopment of the region. It is the idea that we all
participation, Brazil has achieved the status of leader the Minister have to go forward together, for the benefit of us
in global debates about the subject. In other words: all. So this is the first area of Brazil’s positioning.
social participation means leadership for the country. of State for But Brazil, without doubt, on all counts, is also
To sum up, we can say that the greater interest very close to Africa. We have a profile that also leads
in foreign affairs and the understanding of foreign External Relations, us inexorably to a projection in relations with the
policy as a public policy lead to more transparency African continent, which are increasingly intense.
and civil society participation in the foreign poli- Ambassador Luiz In recent years, we have set up a large number of
cy making. In today’s world, information is pow- embassies in Africa: when I entered the career they
er. Receiving, emanating and following the flow of Alberto Figueiredo were very few; nowadays, the number already meets
information are powerful resources for Brazil and the needs of our foreign policy on the continent.
for Itamaraty. Public diplomacy, therefore, is a valu- Machado Undoubtedly – and here I am working with a
able asset for the promotion of national interests. mental picture of neighborhoods – I do not mean
Portuguese version page 32 by this that our relations with developed coun-
Multistakeholder Governance Model — tries – with the United States on the one hand;
In 1995, with the creation of the Comitê Gestor and European countries, on the other – will be
da Internet (CGI.br – Brazilian Internet Steering JUCA: In your opinion, what is the interna- any less important. No, quite the contrary: they
Committee), Brazil adopted a multistakeholder gov- tional profile of Brazil today and what profile are intense and traditional relations, a fundamen-
ernance model for the internet, with a unique struc- should we look for in the future? tal part of our work.
ture until today. CGI.br is responsible for coordinat- LAFM: It is very interesting to talk about the And we have a fourth pole, which is Asia. We
ing the assignment of national IPs addresses and ‹.br› profile of Brazil, because it is always something have very close relations with Japan, China, and
domains and for the definition of strategic guide- very dynamic. You have profiles that evolve over India; in all the countries of the region, our pres-
lines to the development of the internet in Brazil. time, so the profile we have today always aims at ence is strong. And one cannot think of a foreign
It is composed by members of the Government, the a future profile. Especially in our case: Brazil, an policy that is projected as a global policy without
business sector, the third sector and the academic emerging country – as we say -, which had very a strong presence in Asia, which responds to im-
society, with equal power of decision.  — J important economic development in the past de- portant economic, commercial and financial in-
cade, a fantastic degree of social inclusion and terests, but also to cultural and political ones, in
(here you may hear something of the voice of the all aspects of international relations.
Further reading diplomat who has also taken care of environmen- In the context of this profile you asked me
BAENA SOARES, Rodrigo de Lima. Política ex- tal issues), some very robust environmental pro- about, I cannot help referring to our participa-
terna e mídia em um Estado democrático: O caso tection, i.e., we are now on a different path. It is tion in groups such as the G -20, the group of the
brasileiro. LI CAE. 2007. a different profile than it was a few decades ago, world’s major economies, which has overcome
BARROSO NETO, Nilo. Diplomacia pública: con- and this is a profile that projects into the future. the logic of the G- 5, G-7 and G-8. It is the log-
ceitos e sugestões para a promoção da imagem do What we should consider is the international ic according to which there are important actors
Brasil no exterior. LI CAE. 2007. position that we want Brazil to have. First, with- in the world, on which the functioning of the
GUIMARÃES NETO, Samuel Pinheiro. O impac- out doubt, our regional position. Brazil is part of world economy depends. This is a recognition of
to das imagens dos países nas relações internacio- South America, in a very cohesive way, and part the increasingly multipolar aspect of the world.
nais. VII CAE. 1983. of Latin America and the Caribbean, also very co- Our membership of the G-20 and BRICS , a group
NASCIMENTO E SILVA, Geraldo Eulálio do. hesive, in which there are always diversities. But of great countries that stand out on their conti-
Diplomacia e Protocolo. Rio de Janeiro: Record. 1969. there is union within that diversity, and we are ac- nents by the weight of their economies or even
NAKATA, Marco Antonio. A Mídia Digital como in- tive promoters of this. I usually say that we live in by their geographic size, and countries that have
strumento de Diplomacia Pública. LVIII CAE. 2013. a district, and it is important that the entire neigh- similar challenges to face and countries we must
SEN, Amartya. A ideia de Justiça. São Paulo: borhood works, otherwise your house, in isolation, talk to and seek joint action whenever possible.
Companhia das Letras, 2011. will not work. The whole district must have peace, They are, nowadays, the true engines of the world
interviews 135

economy, or at least engines of the world econ- And these credentials make us more influential. always said and I will repeat: it is a fundamen-
omy that cannot be overlooked, without which Brazil is sought out and respected because of this tal part of my job, of my role as Minister of State,
it would not work. There are also other groups coherent action of Brazilian foreign policy over the to pursue increasingly seamless integration with
such as BASIC (Brazil, South Africa, India and decades. This also gives us a very important diplo- other public bodies, without which our work is
China) in the case of climate change negotiations, matic asset, enabling us to achieve foreign policy impossible.
a group with a more specific character. When I goals through a concept that I would not call pow- —
talked about South American integration, natural- er, but the ability to influence in a good way. And it JUCA: As regards the profile of a diplomat,
ly I implied the existence MERCOSUR, UNASUR is as it is recognized that it is in good way that we both as an individual and as a public servant,
and CELAC as organizations that bring us togeth- have the ability to exert an influence. in this context of new themes and of a new in-
er, but it is always worth reaffirming their impor- Of course I would never minimize the size of ternational agenda, which skills do you believe
tance. Mercosur is an important and fundamen- Brazil’s territory, its economy and its democratic have become necessary and essential to the
tal meeting point. traditions. Everything is part of this big picture, practice of diplomacy in the 21st century?
I think this is our profile today. It is surely an which I see as a positive influence, not as a frame- LAFM: That’s a great question. Firstly, we are all
evolving profile, which always seeks the best possi- work of power. individuals, we are born so; but as we become a
ble position for Brazil in this world that is increasing- — public servant and a diplomat, we also become
ly changing and becomes multipolar. And, no doubt, JUCA: In the next question, we would like to a legal person. And we must behave in ways ap-
we have something important to say in this context. address the fact that the international agen- propriate to that fact. We have a whole body of
— da has become more complex in recent de- legislation that says very clearly how that should
JUCA: Within this discussion about the profile cades. We can observe, for example, the mul- be, the kind of behavior expected, the caution one
and the positioning of Brazil, there are many tiplication of trade rules, the proliferation should have, even in one’s personal life, so that it
concepts in international relations – hard pow- and the specialization of international orga- does not reflect negatively on the image of Brazil.
er, soft power and smart power – to explain the nizations, creating the need for the Ministry At any point in this career, our personal life may
geopolitical projection of states. In this discus- of Foreign Relations to work together with reflect negatively on the image of the country it-
sion, which concepts do you consider useful other Ministries. In this sense, in what terms self, because we are public servants, diplomats.
in defining the international action of Brazil? should this cooperation be developed? And this is a caution we should all have in an age
What kind of power should Brazil pursue? LAFM: Great, this allows me to complete the pre- of communications and news media. These are
LAFM: I have great respect for the classical classi- vious question. When I mention our positive in- new challenges. The exposure a person has to-
fication of hard power, soft power and smart pow- fluence and the fact that we are recognized as day is much greater than the exposure someone
er, but I think we have to look at the question in such, you must have heard me saying that I think might have had thirty years ago. There was no
another way. What is the greatest, most funda- that a new international agenda exists, which has Facebook, no Twitter, no emails. That requires
mental purpose, in terms of international rela- much to do with the social achievements Brazil us to take certain precautions that perhaps were
tions, of obtaining power? It is the international has had in recent years that attract partners from not so necessary before – given this exposure that
influence you get in relation to other countries. other countries. In our country, they seek exam- all people, individuals, face today.
This can be achieved in several ways. The tradi- ples of how we have managed to have economic Furthermore, a diplomat today should increas-
tional form of power is related to armed force, the growth with social inclusion, because until some ingly have a good level of technical knowledge of
economy and territory, which are the classic bas- time ago there was a dichotomy: either you grow all the issues under his/her responsibility. For ex-
es of power that have existed in theory for a long or you distribute. We are showing that it is possi- ample, if he or she works in the area of interna-
time. Once again, respecting all definitions, I see ble to grow distributing income. And this distri- tional trade, it is very important, essential really,
that we must always seek influence – and there bution helps you grow. It is a virtuous circle. It is that s/he has a through grasp of the rules of inter-
are several means to obtain it. something that projects us internationally. Well, national trade. I will not go into that old debate of
In our case, the main issue is what we call this is not something done in or by the Ministry “specialization” versus “generalization”, because
Brazil’s credentials, which vary from being a of External Relations. That is done by the whole I think this should be overcome by merging the
peace-loving country, at peace with its neighbors Government; therefore, by the Esplanada as well. two. We must have a general view, we have to read
for over 140 years, to being a country that does Now addressing the question directly, that is why foreign policy, understand foreign policy, discuss
not seek to interfere in the internal affairs of oth- our relationship with the Esplanada absolutely has foreign policy, the broad lines, we must constant-
er countries. In addition, Brazil is extremely re- to be a close one: we are representatives of a gov- ly keep abreast of foreign policy. It is very com-
spectful and democratic; it is a country oriented ernment and a country. As such, we have to work mon to see doctors always reading new articles
by the rule of law and the primacy of international in absolute harmony and coordination with other in their area, because that is very important for
law in international relations. In a nutshell, Brazil public bodies. Without this, the job of promoting their job. Lawyers do the same as regards new le-
has a very clear ethical stance. the country abroad is virtually impossible. I have gal theories. We have an obligation to do that as
interviews

well: we should always be studying and perfect- graduating, in the early years, that there is legisla- trade and human rights. The natural independence
ing ourselves, both in general terms as well as in tion that states that if you do not behave with pro- of leadership positions in international organiza-
terms of the specialty we are dealing with at that priety with a colleague, a subordinate, a boss, you tions means that “Brazilians in multilateralism” are
moment. So this profile, which someone might say will be punished because this is what the law says. no longer representing their country while perform-
“is a more technical profile”; yes, it is the technical But rather than a culture of threat by law, we must ing their duties. However, we asked: what specific
profile of a diplomat. A diplomat is this: someone have a culture of spreading respectful, urbane and contributions can a Brazilian give to multilateral-
who understands foreign policy, who is able to ar- republican ways of relating to one another.. This ism? Through this and other questions, we showed
ticulate a coherent line of thought on foreign poli- is also part of the debates that we must have about the interviewees’ performance in the mechanisms
cy issues and make a foreign policy analysis – this the respect for diversity, the respect for minori- of global governance. Eventually, we revealed a bit
is fundamental, we are political analysts – and at ties and deep respect as characteristics that must of Brazil’s profile in the world too.
the same time, we must know the facts, because prevail at the Foreign Ministry.
we live on facts, information. And information, in- —
deed, means the more technical issues. JUCA: Our last question is about the protests Ambassador José Maurício Bustani,
— of June 2013. Can you tell us in general terms Diretor-General of Organization
JUCA: The next question is exactly on this is- what lessons could be learned from these epi- for the Prohibition of Chemical
sue of the constant updating of the diplomat. sodes by the Foreign Ministry? Weapons, OPCW (1997-2002)
Today we see a number of new topics being dis- LAFM: In terms of foreign policy, the reaction of
cussed: cybernetics, the role of women in peace the Government to the demonstrations last year
and security issues, the issue of sexual and reflected remarkably: the serenity, the disposal Portuguese version page 37
reproductive rights. We would like to know of the President of the Republic to listen to the
how do you see the approach of the Foreign streets, the deep and democratic understanding JUCA: How did the experience at the Rio
Ministry on these new themes and how diplo- that the act of demonstrating is a democratic right Branco Institute contribute to your diplo-
mats, with the profile you have just described, that was being exercised. Obviously, everybody re- matic training?
can contribute so that Brazil has a prominent pudiates violence, and there was infiltration of vi- JMB: I entered Instituto Rio Branco (Rio Branco
role in these debates? olence, which has to be channeled via the police. Institute) in the 1960s, still in Rio de Janeiro. I
LAFM: As I said before, I understand that there is But I received extremely positive reactions from had great teachers, among them some diplomats,
a new international agenda, which includes those my fellow Ministers of Foreign Affairs, saying that which, beyond teaching a specific subject, con-
topics you mentioned and for which we must be Brazil was able to deal with the demands in an veyed us knowledge about the functioning of the
prepared as professionals and as an institution. extraordinarily democratic and republican way. Ministry and the diplomatic work itself, both in
This means that we have to constantly update our- That always makes me, as a Brazilian citizen and at home and abroad, aiming at familiarizing our-
selves; we must have the flexibility to respond to a member of the Government, very happy.  — J selves with the routine and the challenges of the
these new issues and challenges. For that, little craft. I cannot forget, among others, the classes of
by little, in coordination with the Direction of the Ambassador Alberto da Costa e Silva, in which he
Rio Branco Institute, I am seeking to introduce transmitted notions that I still make use of today.
changes in the curriculum that may lead to an im- Brazilians in Besides giving me greater confidence in carrying
provement in these new areas. Of course abrupt out my duties, this interaction with experienced
changes cannot be made, there must be an evolu- multilateralism colleagues who introduced me to the “exercise of
tion; these are important trends that should be in- the career” opened up the range of substantive is-
stituted and I am working on this subject. For in- Portuguese version page 36 sues that the Foreign Ministry was dealing with on
stance, there is, beyond the areas you mentioned — a daily basis, and this allowed me, for instance, to
as important, another area that I consider of ut- better direct my readings.
most importance, which is management, not only What do people with different backgrounds such The contact with the most experienced profes-
administrative, but also of people. There is an un- as agronomy, diplomacy, law, engineering and jour- sionals is an important element in my profession-
derstanding that we are in a body, in an institution nalism have in common? While seeking to draw the al development. While I was still a student at the
with human relationships. What does leadership profile of “Brazilians in multilateralism”, we found Rio Branco Institute, I had the opportunity to do
mean? How to have a proper relationship with a out more about the path of each of the interviewees, an internship at the Division of the United Nations,
colleague, a subordinate and the bosses? This is who share the fact that they independently exer- an experience that I consider one of the most im-
also something that you learn in school, because cised, or are exercising, important roles in interna- portant in my training and one that determined, to
there are techniques in this field. I want there to tional organizations in a wide range of areas: social large extent, the course of my career. It was a priv-
be a perfect understanding of the diplomat who is development, peace and security, international law, ilege to live with most of the heads of the Ministry
interviews 137

from such an early stage and I learned from them on, when I returned after my first two postings have been guaranteed, if I had allowed the abusive
enormously. Hierarchy, which has always been abroad, Guerreiro was Secretary-General and U.S. interference in the functioning of the OPCW.
fundamental, conjugated authority and responsi- then he was made Minister. Then I had other im- The best way to ensure the independence and
bility, in a system of collegiate democracy. In this mensely rewarding experiences, while working neutrality of the Directorate-General is to strict-
context, my dialogue as a young diplomat with the with Ambassadors Carlos Calero Rodrigues and, ly comply with the mandate, with the operation-
heads of the Ministry was not only possible but later, João Clemente Baena Soares. al requirements of the organization and not to be
also encouraged. Later, when I came to work at While Ambassador Guerreiro was Secretary- swayed by political pressures. It is about thinking
the Department of International Organizations, I General, we also had a great Foreign Minister, less of the maintenance of the post and more of the
benefited from the professional contact with the Azeredo da Silveira. Someone with a spirit of future of the organization and multilateralism. I
heads of other relevant departments such as the statesmanship, an articulator who exercised tried, I was not successful in my attempt, but maybe
Ambassadors Italo Zappa and Pereira de Araújo. great influence. From his position as Chancellor, my case and the verdict of the Tribunal of the ILO
Another dimension of my training as a diplomat Silveira managed to establish a dialogue, some- have served as a warning to the current Directors-
that I consider of great importance was the learning times very direct, with young diplomats. Being General, giving them at the same time a sense of
of foreign languages​​. In particular, our training had a Second Secretary, I had the feeling that the security that they will not be as easily subject to a
a high standard, with broad exposure to sophisti- Foreign Minister was monitoring my work from charge as the one I suffered. It was an experience
cated vocabulary of official use. The knowledge of the Cabinet. This feeling that a Secretary could that not even the United States wishes to repeat.
languages allowed
​​ me to interact and communicate have of the relevance of their work was certain- —
with resourcefulness, confidence and maximum ly very exciting. JUCA: Do you believe that multilateralism has
accuracy at the negotiating table, where the mis- — been strengthened since your removal from
use of a term can determine the failure of an exer- JUCA: The episode that culminated in your the post of Director-General of the OPCW
cise. For my own interest, I studied Russian, which departure from the OPCW demonstrat- in 2002? Do you believe that a similar action
was useful in the then Soviet Union and also at the ed the political pressure exerted by major would be possible today?
United Nations. In my time in New York, the fact funders of international organizations. The JMB: The multilateralism we promote goes
that I speak English, French, Spanish and Russian Administrative Tribunal of the International through crises, but I believe that a similar action
enabled me to coordinate tasks, and I was therefore Labour Organization (ILO) considered your would be more difficult today. I went to the ILO
often called on to preside over meetings. Recent de- removal illegal, reaffirming the principle of for a definition on the legality of what had hap-
velopments in international relations and the in- the independence of the heads of internation- pened. I had, indeed, great difficulty in finding a
creasing interaction between Brazil and other ma- al organizations. With this in mind, how can lawyer, in light of the novelty of the case, because
jor actors in the developing world should serve as the principles of independence and neutrali- no Director-General had hitherto been removed. I
inspiration and encouragement for Brazilian diplo- ty of the Directors-General of these bodies be want to believe that the precedent of my victory at
mats to learn languages ​​such as Arabic, Mandarin ensured, as well as the legal equality between the ILO will have served as a barrier or disincen-
and Russian, apart from Spanish, which is now their Member States? tive to potential attempts. Of course, this also de-
taught in the regular course. JMB: This episode illustrates the difficulties that pends on the capacity of mobilization of countries.
— international organizations face regarding the po- My removal was more due to abstentions than to
JUCA: Is there any Brazilian or foreign person- litical and financial weight of the great powers. negative votes. If Brazil had decided to formally
ality who inspired you in the process of achiev- The fact that the United States and Japan, usual- mobilize support (spontaneously already existing)
ing your professional objectives? ly aligned with each other, contribute with almost of the Latin American, African and Asian groups, I
JMB: Right after joining the Foreign Ministry, I 50% of the budget of international organizations would not have been released from duty, and above
had the opportunity to work with Ambassador gives them great influence, besides the “power all, multilateralism would have won a major battle.
Ramiro Saraiva Guerreiro, the then Assistant of blackmail” over the Director-General. In my If Brazil had acted according to the historical ori-
Secretary-General for International Organizations case, the first threat was to suspend the payment entation of its foreign policy, we would not have
Affairs. As a boss, Ambassador Guerreiro was a of contributions, if I refused to abandon my posi- lost that chance to mobilize forces in the defense
great teacher, who gave me a deep understand- tion favorable to the entry of Iraq into the OPCW. of multilateralism.
ing of what it meant to be a diplomat. He was one The implication of the American threat to the fi- The independence of organizations and the ef-
of the greatest professionals the Foreign Ministry nancial health of the OPCW would be devastat- fectiveness of the multilateral system also depend
has ever had and, at that first moment, it was my ing. I decided to fight until the end. I knew I would on other more chronic factors, such as represen-
great source of inspiration, due not only to his eventually have to leave office, but I was not will- tation on the Security Council. Until the UNSC is
intellectual capacity, but also to his vision of the ing to sacrifice the future and credibility of the reformed to include other important players, there
career, his commitment to the issue of the State, organization only because of the vanity of want- will be difficulty in solving the major problems on
his professionalism and his vast culture. Later ing to continue as Director-General, which would grounds that reflect the spirit of the UN Charter.
interviews

The figure of the UN Secretary-General should their loyalty should be towards the OPCW and not not have been wasted if the United States and oth-
also be reinforced. He cannot be seen solely as to their countries of origin. I have the impression er countries had accepted, at that time, the inter-
an administrative officer, but as a leader, he needs that the bases left were taken up by my successors, mediation of Brazil. The international community
to have some power of political action. The few although there have been subsequent developments. would have been spared of a lot of unpleasantness.
Secretaries-General who tried it paid the price, Since then there has been a significant reduction Current conditions, however, differ from those
as was the case of Boutros-Ghali and Kofi Annan, in the number of inspectors, a great proportion of of 2010: there was an evolution in the Democrat
to some extent. Likewise, in any organization the them being outsourced, on the pretext of reducing administration in the U.S.; the Iranian government
Directors-General have a political role to play, but costs; but actually what it seeks is to serve the inter- does not seem to inspire so little trust and the coun-
their ability to work politically depends on the ests of the great powers to interfere in the substan- try is in a more vulnerable situation, therefore more
support of member countries. tive work of the Organization. Such interference inclined to sit down at the negotiating table. It is
— notwithstanding, I believe that the OPCW still can also clearer for the U.S. the multifaceted and com-
JUCA: In your opinion, what is the importance – fortunately – act independently. The Nobel Prize plex character of the conflicts and tensions in the
of the awarding of the Nobel Peace Prize in was a recognition of their work and, more impor- Middle East, where the intensification of the Sunni-
2013 to the OPCW? Do you believe that your tantly, that such an organization may be a relevant Shia divide is central in the quest for regional power.
actions contributed in some way to the grant- instrument in the process of seeking dialogue. The Of course, the problem is not solved, even because
ing of the award? case of the Syrian crisis is exemplary and confirms other historical liabilities have been accumulat-
JMB: The award of the Nobel Peace Prize gave great that, if in 2010 Iraq had been admitted to the or- ed. I see there the beginning of a process in which
prominence to the OPCW, taking it out of the shad- ganization, the inspections could have clarified all Brazil will be able to play an important role, if not
ows. It was an organization that struggled, during its doubts, legitimate or otherwise, that served as the a vital one, be it in the context of Iran or Syria, be
first 15 years, to forge its reputation of seriousness pretext for the invasion of the country. Facts later it in the Israeli-Palestinian conflict and the other
and independence, despite enormous difficulties. Its confirmed that the claims were greatly exaggerat- sources of tension in the region.
very location in The Hague indicated that the great ed, if not untrue, and some of those responsible for —
powers, particularly the U.S., viewed it with a cer- the military operations in Iraq were politically con- JUCA: Do you believe that nuclear disarma-
tain trepidation. Geneva would have been the ide- demned, both in their countries and internationally. ment, as one of the three pillars of the Non-
al place for its headquarters because that is where From this point of view, I am convinced that there Proliferation Treaty (NTP), will be fully im-
the great experts on disarmament are based. In The has been progress in multilateralism. Ten years ago, plemented some day? Would there not be vital
Hague, the embassies usually have no specific ele- the resort to an international organization to solve a interests of the nuclear-armed countries to en-
ments or sufficient specialized personnel to follow crisis was not admitted. Today, apparently this hap- sure their own security that undermine com-
up the meetings and the work of the organization. pened, which I consider very positive. plete disarmament in the world?
Not even the American delegation itself had an am- — JMB: I do not believe that nuclear disarmament
bassador to the OPCW, but kept only a technical rep- JUCA: What role do you believe Brazil can will be implemented in the near future, certain-
resentative, equivalent to the level of Counsellor; play in the major contemporary interna- ly not in my lifetime. The interests crystallized in
the American ambassador came from Washington tional discussions on peace and security? Article 6 of the NPT are so strong that it would be
for the meetings, which made if difficult to have a Notwithstanding the engagement of P5+1 on dishonest to claim that nuclear powers will relin-
good knowledge or to deepen the work of an orga- the current negotiations with Iran, would a quish that power in the foreseeable future. Reality
nization that was beginning to operate. Placing it in new agreement in Tehran brokered by Brazil unfortunately points to the contrary. Some powers
The Hague was just a way to restrict its projection be possible? To what extent do current condi- outside the NPT keep seeking nuclear breakout.
and the implementation of the Chemical Weapons tions differ from the scenario that led to the More seriously, the treatment is different for each
Convention. The Nobel Prize has drawn attention signing of the Tehran Declaration (2010)? country that acquires that capability. There is an
to the fact that the OPCW exists, is doing its job and, JMB: The quest for peace through dialogue is one of ideological problem, there is no coherent stance
since its inception, has increased its membership the pillars of Brazilian foreign policy, provided for from the nuclear powers, and this does not cre-
and has made progress in terms of destruction of even in the Constitution. This entitles us in the in- ate good prospects. It is possible to achieve agree-
chemical stockpiles and industrial inspections. ternational community to act as consensus-builders, ments on the reduction of arsenals or the inter-
Without false modesty, I am satisfied to have navigating the wide spectrum of existing political ruption of the development of new weapons. On
contributed in any way to this award. I participat- and ideological positions. It is therefore not surpris- the other hand, technology has spread in such a
ed in the creation of a culture for the organization, ing that in 2010 Iran had accepted the mediation of manner that the control of the development of
in the institution of its working methods, not only Brazil, together with Turkey, in order to deal with these weapons has become a more difficult task.
in the administrative realm but also in the politi- the complex nuclear dossier. The current roadmap The lethal capacity of these weapons can now be
cal one. I created a code of conduct for the then 211 is fundamentally the same as the solution provided tested through projections on supercomputers
inspectors, in order to make them understand that for in the previous agreement. Three years would and the control that can be exerted is very relative.
interviews 139

Nuclear powers find themselves in a comfort zone equipment to seek solutions to the barriers that delegations. The Secretariat must be available and
and there is not enough pressure to make them re- currently obstruct multilateral trade negotiations. open to dialogue. I also knew the importance of cre-
view their positions. On the other hand, there is a Notwithstanding the salutary interest in lead- ating a culture for the administrative secretariat,
growing awareness in nuclear powers themselves ing prestigious international institutions, the coun- of being transparent in accountability. One of the
that nuclear weapons represent a drain on human/ try still lacks the understanding that it is also nec- main problems in an international organization is
financial resources with environmental costs and essary to fill the staff of these organizations with the suspicion of some countries that their contri-
risks, besides the low relevance to their main se- Brazilian diplomats and nationals in various posi- butions are not being used satisfactorily.
curity challenges. The recent cases of prolifera- tions. I remember not being able to count on any Ultimately, it also contributed to my political
tion are not great powers, but unstable and trou- Brazilian diplomat when I worked as Director- work, which I had learned with the heads I men-
blesome countries, while influential states such General of the OPCW. I had to build a core only tioned earlier, in terms of ethics, commitment to
as Brazil, Germany and Japan have chosen not to with foreigners and we needed some time to devel- multilateralism and the legal path that guided me
develop the bomb, even though they have the in- op a relationship of trust between us. Brazilian law at that moment. I sought to make the OPCW an ex-
dustrial and technological capability to do so. If punished the diplomat who went to work in inter- emplary organization. It has a feature that differen-
Iran’s case is settled, for the first time in history national organizations. I do not know if there has tiates it from the NPT, which attracted me the most.
there will be no country “next in line” to get the been a change in the rules, but I remember that the The 1993 Convention does not constitute a discrimi-
bomb. Who knows if nuclear disarmament will diplomat had to go on leave of absence, left the se- natory regime. On the contrary, it establishes that all
then occur, if not totally, at least a movement to- niority list, had to pay his own social security con- countries should be treated equally, with the same
wards reduced and more discreet nuclear arsenals, tributions as an independent professional and there respectful rigor: to disarm is as important a goal as
less through the weight of treaties than through was no possibility of promotion during the assign- not to proliferate. The challenge of implementing
the perception of the high costs, risks and doubt- ment. I tried hard to get legislation altered. The ab- an agreement with these characteristics attracted
ful benefits of the possession of large nuclear ar- sence of stimuli reveals a lack of awareness that the me greatly. Unfortunately, there was an accident
senals. What undermines the bomb is its cost and diplomat who is appointed to an international or- of course, but I cherish as a good memories of the
ridiculousness, not the law, unfortunately. ganization is also working for Brazil. In The Hague certainty that I tried my best and that many of the
— I was repeatedly visited by ambassadors who de- fruits only came to appear a few years later, legiti-
JUCA: What does it mean for multilateralism manded nomination of their country nationals. I mizing a position that is not only mine, but that of
to have a Brazilian at the head of a major inter- never received a single request from my govern- Brazilian diplomacy: the equality of states under in-
national organization? What specific contribu- ment for the entry of a Brazilian into the organiza- ternational law, the obligation to respect the rules
tions can a Brazilian give to multilateralism? tion during my five years as the Director-General of and the preferential use of dialogue.
JMB: It is undeniably a matter of prestige and the OPCW, which has always dismayed me.
an asset for the country to have a Brazilian as —
Director-General of an international organiza- JUCA: Considering your experience at the Professor José Graziano da Silva –
tion, but it took too long for Brazil to get inter- Department of International Organizations, at Director-General of the Food
ested in it. The first step forward was the elec- the Brazilian Mission to the United Nations, as and Agriculture Organization
tion of Ambassador Baena Soares for the OAS. well as postings in Moscow and Vienna, to what of the United Nations (FAO)
The following one was me in the OPCW. More re- extent did your career at the Foreign Ministry
cently, we went to the FAO and the WTO. Brazil contribute to the exercise of your functions as
deserves to have the leadership of these organiza- Director-General of the OPCW? Portuguese version page 42
tions. Brazilian Directors-General can embody all JMB: My previous experience was of great impor-
the characteristics of our vision of the world and it tance. Particularly in New York, I gained an in- JUCA: To what extent has your academic ex-
only contributes to the proper treatment of issues, depth understanding of the functioning of an in- perience in agrarian issues contributed to
because these institutions are primary actors in the ternational organization. I was able to see how the the formulation of FAO policies, as well as
resolution of international conflicts and disputes. Secretariat and the delegations work, how negotia- to the achievement of the objectives of the
Likewise, the personal trajectories and the expe- tions are carried out and how important the work Organization? How different is the reality of
rience accumulated throughout their careers al- behind the scenes is. When I became Director- an international body in relation to the aca-
lows Directors-General to contribute according to General of the OPCW, I knew what was happen- demic environment?
their field of expertise. Professor Graziano had an ing, I had a notion of how organizations work, how JGS: The academic experience helps a lot! After
important history in the realm of the fight against delegations would perceive the work of the secre- all, FAO is a knowledge organization: the knowl-
hunger before reaching the FAO. Ambassador tariat and what their expectations would be. This edge it possesses (its own knowledge but, most of-
Roberto Azevêdo has extensive knowledge of trade knowledge made me ​​ prioritize the raising of aware- ten, that of its Members) and can share with oth-
negotiations, which certainly gives him weighty ness of the Secretariat as to its attitude towards the ers is its most valuable asset. We also work a lot
interviews

with partners from the academic world, especially The proposals for changes in FAO that I pre- objective, which now provide with a clear focus the
with research institutions in the areas of agricul- sented keep an important relationship with my activities of the institution, targets going even be-
tural sciences, forestry and fisheries. But there is own experience in Brazil as Special Minister of yond the first millennium development goal: at the
one big difference: our knowledge is oriented to Food Security and the Fight against Hunger, and 37th FAO Conference held in June 2013, Member
support proposals for action on the ground, which after this, as Regional Representative of FAO for States raised the first global goal from reducing
does not always happen in the academic area. Latin America and the Caribbean. And they have to eradicating hunger in the world, as it was envi-
— been receiving the support of Member States, as sioned by the founders of FAO in 1945.
JUCA: What does it mean for multilateralism seen in the adoption of the work program and bud- I believe it is always important to remind peo-
to have a Brazilian in the composition of one of get for the biennium 2014-2015 which I submit- ple that FAO, while dealing with food and agricul-
the oldest and most important international or- ted to the Conference last June. ture, also has expertise in topics such as fisheries
ganizations such as FAO? What specific contri- — and aquaculture, forestry, and natural resources
butions can a Brazilian give to multilateralism? JUCA: Is there any Brazilian or foreign person- management in general. Sustainable development
JGS: Brazil has a recognized tradition of being a ality who inspired you in this process of achiev- is an element that constantly guides the work of
country which promotes and defends multilateral- ing your professional objectives? FAO on issues of agricultural development, food
ism. A founding member of the UN, FAO, OAS, WTO JGS: : My father, José Gomes da Silva, is my great- production, food security policies and nutrition.
and many other international and regional organi- est inspiration. He was a man who knew, like few —
zations and mechanisms, Brazil has always had a others, how to combine his technical and scien- JUCA: It is known that, nowadays, food produc-
prominent role for its coherent and consistent po- tific knowledge with day-to-day practice, with tion is sufficient to meet the needs of the world
sitions, for its relentless search for consensus and action. But many other people have inspired me. population and that the eradication of hunger
promotion of political, ethical and legal principles It is a long list that starts, of course, with Josué faces other obstacles, such as price volatility and
which are important to the international system. de Castro, who was independent president of the the granting of agricultural subsidies. Taking
My election as Director-General of FAO in FAO Council and put in evidence that hunger was into account this multiplicity of factors, how
2011 (it’s the first time a Brazilian, and actually a not a natural but a political problem. I also want is the coordination of FAO with other forums
Latin-American, occupies this position) and that to remember the sociologist Betinho and, in par- such as the WTO and G-20 to solve the problem?
of Ambassador Roberto Azevêdo at the WTO must ticular, a statement of his: the one who is hungry JGS: FAO, as a knowledge institution par excellence,
be understood as a natural consequence of the role cannot wait. This phrase translates with simplic- has a key role as a provider of statistics, data and
that Brazil has played in that context, the rise of ity the urgency that our action must have. analysis, which to a great extent guide the discus-
the country on the world stage and the results it — sions and decisions both of countries and of other
has achieved in terms of development. JUCA: The first Millennium Development Goal international institutions such as the WTO, and
In the case of FAO – and also in the case of the is the reduction of hunger and extreme poverty the mechanisms of political coordination, such
WTO – we should remember that Brazil has been in the world. What initiatives have you sought as the G-20.
successfully applying domestic policies in agricul- to implement, since 2012, to allow FAO to con- We know that food production is sufficient to
ture and in the field of social protection, which seek tribute to achieving this goal? meet the needs of the entire population, but pro-
to combine the agribusiness sphere which has high JGS: During my campaign for the post of Director- duction itself is not a sufficient condition for this.
economic value and is geared primarily to foreign General, I presented to Member States my view of Millions of families cannot afford an adequate ac-
trade, with family farming, which aims to meet the how I would like to change FAO. This view was cess to food: we have complex distribution prob-
domestic market needs and has a very important based on strengthening the focus of the work of the lems – both income (capacity to purchase food)
aspect in terms of social protection and food and organization, whose activities were under the pro- and physical (to make the product reach the con-
nutritional security. These successful Brazilian ex- cess of a deep fragmentation; and listening more to sumer) – and there are family farmers with ac-
periences helped, no doubt, in my election and de- the concrete demands from Members, answering cess only to degraded natural resources. There are
note the expectation of the majority of the mem- them in a faster and more concentrated way. For this, also serious problems of waste and malnutrition.
bers of FAO about the new direction that they wish the fundamental point was to strengthen the work Moreover, considering the conflict reality in
to give to the work of the Organization. of FAO with its key partners (the other sister agen- several countries, it is necessary to take into ac-
But as I said in my speech in June 2011, when cies such as WFP ​​and IFAD, civil society and the count the intrinsic relationship between peace and
I was elected, I ran for the position as a Brazilian private sector, among others), seeking to increase stability, on the one hand, and food security, on the
candidate, but I took office as Director-General of efficiency and to give Member States a clear no- other hand; between hunger and conflict. Without
all Member States of FAO. As the Head of the ad- tion of the “value for money” they provide to FAO. peace and stability, the potential of the food and ag-
ministration of the organization, we should take To carry this out, during 2012-2013 we devel- ricultural sectors will not be reached, and with fam-
into due consideration the common interest of the oped a process of strategic thinking, by which we ine and with inadequate access to natural resources,
whole set of member countries. defined five strategic goals and a sixth technical there will be obstacles to peace and stability.
interviews 141

On international prices of agricultural com- In this context, initiatives such as the National developing countries and the common budget
modities, to avoid repeated episodes of high School Feeding Programme, the Food Acquisition constraints to governments and internation-
volatility of prices that can have serious conse- Program and Bolsa Família are among the pro- al organizations, how can priorities be select-
quences for food security, especially in poor and grammes that most call the attention of other de- ed in such sensitive and fundamental issues?
food-importing countries, the Group of 20 (G20) veloping countries. JGS: As I have already pointed out, we have given
established the Agricultural Market Information The Brazilian model which links school feed- a clearer and more concentrated definition for the
System (AMIS). FAO leads the secretariat of this ing and family farming is being taken to about 10 focus of FAO, establishing five strategic objectives:
system, which also has the presence of other agen- countries in Latin America and the Caribbean 1. Contribute to the eradication of hunger, food
cies such as the OECD, WTO, World Bank, WFP and is coming soon to Africa thanks to the col- insecurity and malnutrition;
and IFAD. The AMIS is a political tool that aims laboration with Brazil’s National Fund for the 2. Increase and improve the supply of goods and
to examine, discuss and take action, if and when Development of Education (FNDE). services for agriculture, forestry and fisher-
necessary, to avoid the repetition of price crises With Itamaraty’s General-Coordination for ies in a sustainable manner;
like those of 2007-2008 and 2011. International Actions against Hunger (CGFOME), 3. Reduce rural poverty;
Moreover, we decided to create a space in FAO, PAA is already present in five African countries 4. Provide more inclusive and efficient agricul-
taking advantage of the arrival of ministers for the through the PAA Africa and inspired the Let tural and food systems, on the local, national
organization Meetings, to promote an exchange Agogo program in Haiti. FAO is also helping Brazil and international levels;
of ideas and a more open discussion (since not all to share the experience of Bolsa Família in coun- 5. Increase the resilience of livelihoods against
Member States of FAO participate in AMIS) on the tries like Senegal. threats and crises.
issue of prices and supply of food commodities. When I held the position of Regional
— Representative of FAO for Latin America and This has given new impetus to the work of
JUCA: What is the feasibility of replication, the Caribbean, in Chile, we also supported the organization.
worldwide, of Brazilian policies for combat- the “Latin America and the Caribbean without Decentralization – the final step of FAO re-
ing poverty, such as the Fome Zero and Bolsa Hunger 2025” initiative, which contains prin- form – which seeks to give greater autonomy to
Família Programs? To what extent can the ciples and ideas based on the experience of the regional, sub-regional and national offices of FAO,
policies and social technologies developed by Brazilian Fome Zero and, since the first CALC was concluded and is beginning to bear fruits in
Brazil be transposed to other countries? (Latin American and Caribbean Summit) held in terms of greater efficiency and faster responses
JGS: One of the five core items of my campaign in Brazil in 2008, has the firm support of the Heads to the needs of Member States.
2011 was the proposal to encourage South-South of State and Government of the countries of the At the administrative level, new mechanisms
Cooperation on the FAO agenda. This item has al- region. Subsequently, several countries in Africa and procedures have been implemented, for ex-
ways been well received by my interlocutors. When and Asia became interested in this experience and ample, the global resource management system
I took charge of the FAO Secretariat, I tried to pro- have sought Brazilian cooperation, both bilater- (GRMS), to streamline procedures and reduce the
mote work in the area of ​​technical cooperation, ally and through the FAO. costs of financial administration of FAO. Recently
especially South-South cooperation. In this field, The Community of Portuguese-Speaking a staff reform was concluded and a rotation of staff
most of countries have something to contribute Countries (CPLP), for example, adopted the Maputo members between headquarters and its overseas
in terms of knowledge of agricultural techniques Declaration in 2012, in which the challenges of food posts was included as a natural characteristic of
that can be replicated or adapted in other countries. security were addressed and a strategy to face them the staff of the organization.
The success of the Brazilian experience in was defined. In part, the management model cho- Strategic partnerships with civil society and
reducing poverty and food insecurity in the past sen is similar to the Brazilian one, and FAO has con- the private sector, which aim to contribute to the
decade have generated a global interest in the cretely supported the work of CPLP and of African work of the Organization and strengthen its ability
Brazilian model, particularly the social and in- countries, individually, to carry out this strategy. to mobilize resources, were also approved. There
clusive development policies such as those un- This is not a mere replica, each country will make is also an ongoing process to expand and deepen
der the scope of Fome Zero, and its legal, insti- the necessary adjustments to its conditions. the partnership of FAO with academic and scien-
tutional (CONSEAs) and financial mechanisms. And, in the African Union Summit held in tific research institutions.
And Brazil got interested in sharing its experi- January 2014, African leaders adopted the goal of —
ence with other countries, particularly in the de- eradicating hunger in the region by 2025, which JUCA: You acted decisively in the internal re-
sign and implementation of school feeding pro- also reflects the success that countries like Brazil form of FAO. What were the major obstacles in
grams and their linkage with the local production have had in combating hunger. this process? It is already possible to detect im-
and the local market. This has been done suc- — provements in the organization’s work? Do you
cessfully through linkages with ABC (Brazilian JUCA: Considering the high demand for public envisage anything in this process that could be
Cooperation Agency) and different ministries. policies to fight hunger and extreme poverty in transposed to other organs of the UN system?
interviews

JGS: In a period of 36 years, FAO has only had two that I became familiar, for the first time, with el- my own experience, I can say that solving trade
Directors-General, who held the position for 18 ements that constitute the basis of a diplomat’s disputes is one such area. Either the Ministry of
years each. Accordingly, there is a strong and ap- education. Unlike other colleagues, before Rio External Relations has specialized diplomats in
parently inescapable tendency of the bureaucra- Branco, I had dedicated myself basically to proj- this field, or, over time, it will be running the risk
cy to accommodate their routines and avoid up- ects of generation and distribution of electricity. of failing to do this task.
dates and changes. There was a need for reform It was in Rio Branco that I acquired the econom- The system certainly benefits from both pro-
and renewal of the organization. The Member ic and legal basis that marked my career. There I files. The career allows people to pursue their in-
States promoted this reform, including reducing had my first law class and, throughout my career terests and build their own paths – this is good for
the term of office of its Directors-General from 6 as a diplomat, I have worked on Brazil’s big cases diplomats as well as for Itamaraty. The diplomat-
to 4 years and limiting the possibility of reelec- before the WTO’s Dispute Settlement System. I ic corps is strengthened by different and comple-
tion to only once. have no doubt that my training in IRBr is closely mentary profiles.
I believe it is already possible to see improve- linked to what I am today. I understand that his —
ments in several aspects of the functioning of FAO, can sound exaggerated to people who studied re- JUCA: How do you evaluate the proliferation
from the search for more efficiency to the clear lated areas or that had more contact with the ca- of preferential regional trade agreements? To
focus on a limited number of strategic objectives reer before entering Rio Branco. Having had my what extent do they facilitate or hinder trade
(nowadays, there are 5, but before there were more education in engineering, Rio Branco was, I re- liberalization on a global scale?
than ten) and including a much greater commit- peat, extremely important. RA: This is an important issue and these kinds of
ment to listening to and meeting the needs of its — questions are recurrent. I have been reminding my
member countries. JUCA: A great part of your career was dedi- interlocutors that the multilateral system always
These changes are seen and appreciated by cated to economic and financial issues. Before coexisted with preferential trade agreements. At
many partners and members of FAO. In 2011, for working in Geneva, for instance, you were the the origin of the GATT in 1947, the existence of
example, the international cooperation agency of General Coordinator of Disputes before the preferential trade agreements, regional or other-
the United Kingdom (DFID) had described FAO WTO, Head of the Economic Department and wise, was already acknowledged. Back then, the
as one of the worst performing organizations in its Undersecretary for Economic and Financial British had a wide network of trade preferences
Multilateral Aid Review (MAR). In an intermediate Issues. What led you to specialize in economic is- and there was the customs union between Belgium,
revaluation (MAR Update), that was done, DFID sues throughout your career? Given your trajec- Holland and Luxembourg, which at the origin of
pointed to a series of improvements in FAO which, tory, how do you see the discussion about gen- the European integration process, when it was
according to them, shows that “change can happen.” eralists and specialists in the diplomatic career? formed in 1944. This reality, however, was not ig-
Various internal reforms have been imple- RA: Working in the economic area happened to nored by the negotiators of the GATT 1947, who,
mented, but their implementation in other inter- me naturally. My background in hard sciences may established the parameters for the compatibility
national agencies should be analyzed with caution, explain my inclination towards this area, in which, of regional agreements with multilateral norms.
due to the specificities of each. Perhaps the great- with time, I acquired greater ease. The work on eco- In this context, I have observed that preferen-
est learning experience that one can have from nomic issues led me to take on new responsibilities. tial agreements in themselves are not a threat to
FAO is summarized in the conclusion that DFID The building of my career in this area was there- the multilateral trading system. It is not the ad-
reached last year: “change can happen.” fore a natural process, not something planned. It vancement of preferential agreements that is wor-
was the opportunities and challenges that arose in risome, but rather the paralysis of multilateral ne-
this field due to previous experiences. gotiations. Since the creation of the WTO in 1995,
Ambassador Roberto Azevêdo – Regarding the discussion of generalists and spe- the multilateral trading system had hardly been
Director-General of the cialists, I believe that it is natural to have diplomats able to enable the adoption of new trade rules.
World Trade Organization with distinct profiles and that this strengthens the The positive outcome in Bali in December 2013
diplomatic corps. Specialists and generalists com- changed this scenario, with the conclusion of a
plement each other. Especially because the expert new agreement (Agreement on Trade Facilitation)
Portuguese version page 46 is not only a technical, and the generalist does not and the adoption of new disciplines in other ar-
necessarily have only superficial knowledge. Both eas. But it is still necessary for multilateral negoti-
JUCA: How did your experience in the Rio have the training tools necessary to work in new ations to advance faster and for the system to rely
Branco Institute contribute to your diplomat- areas and to deepen their knowledge of a specific on rules that are current and that respond more
ic training? subject when this is called for. adequately to the needs of today’s world. Again,
RA: The Instituto Rio Branco contributed im- In several areas where the Ministry of it is the risk of having an excessive gap between
mensely to my training as a diplomat. Having a de- External Relations wants to continue being rele- multilateral rules and preferential arrangements
gree in electrical engineering, it was in Rio Branco vant, specialization is absolutely necessary. From that is of concern.
interviews 143

With a good dose of realism, we must also rec- for example, had at that time about 700 brackets. Conference, the WTO trade negotiations are re-
ognize that the multilateral trading system has As for other issues, there was not even a first draft vitalized and new prospects for the upgrade of
rarely been at the forefront of establishing new (like cotton, for instance). commercial disciplines are opened.
trade disciplines. New frontiers are more easily I would say that, perhaps more than the tech- Throughout the months of negotiation, I did
explored in smaller settings, where the conver- nical difficulties of the negotiations, the first hur- not hesitate to express my opinion to Members
gence of interests between participants is often dle was to change the environment in Geneva on the disastrous consequences of a possible fail-
greater. In preferential agreements, rules on top- and make the negotiators really believe that this ure in Bali. Yes, the WTO would continue to exist,
ics already covered by the multilateral system are time it would be possible to reach an agreement. but trade negotiations would go through a long pe-
deepened and rules and new topics are adopted – Naturally, once this barrier was overcome, sever- riod of hibernation, which would make the rules
and this is only natural. al others appeared – and were surpassed – until become increasingly outdated. An excessively
This dynamic often even facilitates negotia- a few hours before the Closing Ceremony of the outdated regulatory framework would naturally
tions that occur at the multilateral level. Several Ministerial Conference in Bali. jeopardize the importance of the rules themselves.
disciplines that exist in the WTO agreements were Several factors account for Bali’s success. The Still, whatever the outcome of Bali, the dispute
inspired by experiences of regional agreements. transparent and inclusive character of the negotia- settlement system would remain extremely impor-
The WTO, however, provides a common norma- tions is certainly one of them. All delegations had tant. Incidentally, the dispute resolution mechanism
tive basis, shared by 160 countries, which is an in- a voice. The process was slow and burdensome, of the WTO – which, besides having “teeth”, is com-
valuable asset to stimulate world trade. The almost but it certainly helped to make consensus possible. pulsory and can be automatically activated – is the
universal membership of the WTO makes the divi- Moreover, all countries had gains, including the main gain from the Uruguay Round and gave enor-
dends of multilateral negotiations always relevant, least developed. Flexibility and creativity also con- mous visibility to the Organization. The large and
even if progress occurs gradually. tributed to the success of Bali. The involvement growing number of disputes brought to the mech-
I also would like to draw attention to the fact of the Capitals during the negotiating process in anism is a sign of its credibility before Members as
that even the countries most involved in prefer- Geneva and the direct involvement of Ministers in well as of the importance they attribute to him.
ential agreements recognize the importance of a Bali were also essential to the result. In short, po- Of course, with the new prospects for trading
strong multilateral system. There are good reasons litical engagement proved indispensable. since Bali, this arm of the WTO also has gains, for
for this. First, non-discriminatory trade liberaliza- Finally, I would like to highlight the cen- in the future we will be judging disputes in light
tion is always preferable in economic terms. In ad- tral importance of realism for the success of of more modern rules, and not those that were de-
dition, there are some issues which, by their very Bali. Realistic expectations allowed an outcome signed in the 1980s and 1990s.
nature, can only be disciplined in a multilateral en- which all Members could live with. Nobody got Besides this objective contribution of the ne-
vironment (as is the case of agricultural subsidies). everything they would have liked to, but neither gotiations to the disputes, the positive outcome
All Members, regardless of their sizes or inter- did anyone demand the impossible – and yet, we in Bali contributes, in general, to strengthen trade
ests, recognize that the multilateral system is the achieved significant results for world trade. multilateralism and, consequently, all the func-
only one that makes global gains
​​ possible and that All these elements are now part of an impor- tions of the WTO are reinvigorated by the results
the WTO is key to global economic governance. tant set of lessons that we brought from Bali to the of the Ministerial Conference.
— negotiations now taking place in Geneva, which —
JUCA: The first trade agreement in the WTO in have certainly gained new impetus. JUCA: What does it mean to multilateralism to
nearly twenty years was concluded during the — have a Brazilian leading a major international
ninth WTO Ministerial Conference. From the JUCA: Over the years, the perception that the organization? What specific contributions may
perspective of the Directorate-General, what dispute settlement system of the WTO had un- a Brazilian give to multilateralism?
were the major obstacles to concluding the Bali dergone a process of hypertrophy in relation RA: Brazil has a great tradition in multilateral-
package? Which elements were essential to the to the organization’s role in the creation of ism. Brazilian participation is usually highly re-
success of the negotiations? new trade rules – or changing existing ones – spected in multilateral forums, for several reasons.
RA: The initial difficulty in completing the Bali has become strong. In this regard, it has been Firstly, there is the technical competence of the
package was the disbelief – that reigned in Geneva affirmed that one of the major threats to the Brazilian negotiators, coupled with the ability to
– about the possibility of getting a positive outcome WTO would be the risk of being reduced to lit- bring different visions together and build consen-
from the negotiations. Several previous attempts tle more than its dispute settlement system. In sus. Moreover, Brazil is known for its reasonable
had failed and the WTO had never been able to your opinion, which was the role of Bali in revi- and constructive policy positions.
conclude an agreement since its inception. talizing the WTO as a negotiating body? What This has allowed the country to have promi-
I took up the position of Director-General of is the importance of multilateralism in trade? nent names in the history of multilateralism – and
the WTO three months before the Ministerial RA: Bali inaugurates a new stage in the WTO. I prefer not to mention any in particular in or-
Conference in Bali. The trade facilitation draft, With the positive results of the 9th Ministerial der not to run the risk of committing injustices. It
interviews

seems natural that more Brazilians will come to credentials for the position of Director-General. meeting in Costa Rica when I was invited to do
occupy positions of leadership in multilateral or- Perhaps more clearly than other candidates, I was the interdisciplinary course on Human Rights.
ganizations and, as a consequence, may contrib- seen as someone who could contribute to the ne- My colleagues at São Paulo’s Peace and Justice
ute to the strengthening of multilateralism from gotiating process, which at the time had been Commission: the former National Secretary of
another perspective other than that of a the del- stalled for several years. Human Rights, José Gregori; the lawyer and for-
egate of a single country. In the end, the kind of bond I had with Brazil mer Minister of Justice, José Carlos Dias; and the
Maybe WTO Members are in a better po- allowed me to be perceived by members as some- lawyer and São Paulo’s former Secretary of Justice,
sition that I am to speak of what it means to one who was intimately familiar with the issues Belisário Junior dos Santos. I also would like to
have a Brazilian at the head of the Organization. under negotiation, who helped to form consensus mention Mrs. Helena Pereira dos Santos, now de-
Flexibility and creativity are often attributed to and who recognized the value of the WTO as well ceased, a humble but energetic seamstress who
Brazilians. I do not know how much of this I have as of multilateralism. founded and directed São Paulo’s Torture Never
in me, but it is certain that these are valuable skills Again Group. The activist lawyer Alice Soares
to the WTO or any other multilateral organization. Ferreira, who introduced me to the practice of
As a Brazilian, but especially as a diplomat, Judge Sylvia Steiner – Member of the uncompromising defense of poor prisoners, de-
I have learned throughout my career to deal with International Criminal Court (ICC) prived of justice. There are many other people, to
differences and to build bridges of dialogue. These whom I owe being the person I am today...
skills are important assets in the conduct of mul- —
tilateral negotiations, be they trade negotiations Portuguese version page 50 JUCA: The election to the International
or any others. Criminal Court was the recognition of a long
Finally, and in particular in relation to the JUCA: You graduated in law and, before taking career dedicated to the study of criminal law
WTO, I would say that the fact of being Brazilian up the post of chief judge at the Federal Regional and human rights. After more than a decade at
has contributed to inspire confidence in the de- Court of the 3rd Region, you worked as an attor- The Hague, which aspects of the work at the
veloping world that new practices would be ad- ney and as a prosecutor. How did you become in- ICC do you consider most rewarding? Were
opted in the Organization, especially in terms of terested in Public International Law? To what there frustrations about what you expected to
transparency and openness, and that the develop- extent did your career in Brazil contribute to the do there? After this period, what lessons have
ment agenda would not abandoned. performance of your duties at the ICC? you learnt from this experience?
— SS: As stated in the question itself, in my profes- SS: The most rewarding aspect was, without a
JUCA: At the time of your election to the post sional career, I held functions as a lawyer, as a doubt, being able to participate in the construc-
of Director-General of the WTO, the press ran prosecutor and as a judge. This sum of experiences tion of this Court. Being able to act as a judge in its
criticisms of your ability to act independently certainly had a major role in my training and also first cases. Being able to create the first precedent,
as Director-General of the Organization, giv- in the choice of my name as the Brazilian candi- giving primacy to the hybrid model intended by
en your previous role as Head of the Brazilian date to be a judge at the International Criminal the creators, instead of letting the procedures sim-
Delegation to the WTO. How do you view the Court. In addition to my professional experience, ply follow the mood of one judge or another or of
emergence of these criticisms? How did you my persistent activism in the area of protection
​​ of a particular legal system. The first contact with a
choose to deal with these issues? fundamental rights was certainly important for my unique and innovative system of participation of
RA: Considering my professional commitments election. My professional experience, combined victims in the proceedings – something extreme-
at the time of the campaign, it is not surprising with my practice and activism in human rights, un- ly important given the fact that we are dealing
that this was a point raised by the press. Honestly, doubtedly play an important role in the daily ex- with crimes perpetrated against a huge number of
this criticism did not seem very relevant to me. In ercise of my judicial duties in the ICC. After all, I victims – was also very rewarding. Frustrations?
the selection process for the position of Director- had thirty years of preparation... Some, certainly. Such as sometimes observing the
General of the WTO, virtually all candidates had, — lack of uniformity of understandings, the decon-
either previously or at that time, had links with JUCA: Is there any Brazilian or foreign person- struction of carefully crafted models, such as the
their governments. ality who inspired you in this process of achiev- participation of victims. Successive budget cuts
The fact of being Head of the Brazilian ing your professional objectives? have also had a negative impact on the fast-track
Delegation became more an asset than a liability SS: Many people have had great importance in procedures. Indeed, the biggest source of frustra-
to the candidacy. Firstly, my professional duties my decisions and in the choice of my life projects. tion is undoubtedly the difficulty in further accel-
made ​​me known in Geneva. Negotiators from all To mention just a few – and those not mentioned erating the procedure. The joys and frustrations
countries were used to work with me. My career please forgive me -, I would cite Professor Cançado resulted in lessons learned. The first case that I
as a Brazilian diplomat to the WTO not only made ​​ Trindade, currently Judge of the International conducted in the preliminary round took much
me known in this field, but also strengthened my Court of Justice, whom I had the pleasure of longer than the second, and the third was even
interviews 145

shorter. We learned to circumvent the logistical children. In situations of armed conflict, nowadays, SS: Even though it was created ten years ago, the
difficulties and lack of personnel, and to ensure a there is no doubt that women and children suffer ICC only began operating legally, in fact, a little
fair trial despite the difficulties. You begin to see doubly and are doubly victimized: by the conflict as more than six years ago. It is still a newborn. It still
yourself as a better judge, more prepared to face well as by the specific violence which results, among faces distrust from certain states, who fear its po-
whatever comes your way... other causes from the recruitment and use of child liticization. Such mistrust is understandable, but I
— soldiers and their involvement in combat, and the am sure it will be overcome if the ICC continues to
JUCA: What does it mean to multilateralism to victimization of women through rape and other acts perform its functions with the independence and
have a Brazilian leading a major international of sexual violence as a way to dominate and humil- impartiality it has worked with so far. I am among
organization? What specific contributions may iate the enemy. In a broader context, even in times those who believe that the example is much more
a Brazilian make to multilateralism? of peace, we must recall that women are victimized effective and convincing than discourse. The legiti-
SS: Brazil plays a significant role on the interna- daily in many different ways and in every corner of macy of the ICC is now demonstrated by the more
tional scene. And, in all areas, we have profes- the world. Both in the family and at work. That is than 120 ratifications of the Statute. Gradually, and
sionals of exceptionally high standard. Based on why, in my view, we should encourage the growing in so far as its work, its independence and impar-
the examples I have seen and on the comments I presence of women in the various institutions, na- tiality become increasingly uncontroversial facts,
have heard, Brazilians are considered reliable, se- tional or international, but of women who are will- more and more States will ratify the Statute and,
rious, extremely dedicated, capable, flexible and ing to contribute to the fight against violence and more importantly, implement the rules of the
yet firm professionals. I believe that the presence discrimination against other women. Statute in their domestic law. The major purpose
of Brazilian professionals is welcome in all areas, — of the Statute, in my opinion, is to make States in-
and that the result of their actions is noticed. As JUCA: To what extent do the discussions in corporate, in their domestic law, the provisions re-
regards my Court specifically, multilateralism is Kampala and the inclusion of the crime of ag- garding the crimes under the Statute, and enable
one of the bases of its legitimacy. A Court that is gression in the jurisdiction of the ICC contrib- themselves to carry out their primary jurisdiction
intended to be international, and that claims to ute to the development and promotion of in- in the case of international crimes perpetrated in
represent the interests of the international com- ternational law? their territories or by their nationals.
munity – rather, of humanity – has to be multi- SS: We cannot forget that we live in a time of pro- —
lateral, must ensure diversity and must respect a found changes in International Law. The classi- JUCA: Do you believe that the institution of
balance of gender, geographical distribution and cal model of the last century no longer meets the amicus curiae could contribute to strengthen-
legal systems. I cannot imagine an institution that needs of the international community. Even the ing the ICC and to making it closer to civil soci-
determines, in its composition, a Latin American Post-Second World War model is already show- ety? How does the Court perceive the possibil-
presence, without ensuring a Brazilian presence. ing signs of fatigue. The individual, the person be- ity of such external manifestations as regards
We are, geographically, Latin American, but dis- came the holder of his or her own individual rights the crimes under its jurisdiction?
tinct from Spanish Latin America. Our country before international law, which was unthinkable SS: I personally see the contribution of civil so-
has continental dimensions, its own culture and before. The assertion of individual rights as well ciety organizations, public entities, and even in-
its own legal tradition. The Brazilian presence as of the international community – humanity – as dividuals, such as teachers and experts, as highly
should add to the presence of other representa- a subject of International Law, causes a radical re- positive in terms of contributing to a better han-
tives of Latin America. vision in the classical institutions of internation- dling of cases under judges’ consideration. I be-
— al law. Today, I would not waste time discussing lieve that most judges see the participation of an
JUCA: Do you believe that the presence of wom- monism or dualism. The challenges of the new amicus curiae as something positive. On the oth-
en in the composition of the ICC endows the International Law are others. The inclusion of er hand, the institution of amicus curiae, as the
Court with a different perspective, for exam- the crime of aggression in the Rome Statute is just name implies, is designed to bring specialized in-
ple in cases of war crimes related to violence another example of this new International Law, formation to judges, that is, those who will judge.
against women? In this regard, what should be one that legitimizes the international communi- Therefore, we must be careful that this institution
the role of women in the contemporary world? ty and reaffirms individual responsibility under does not deviate from its goal and is not used as
SS: Since his first composition, the ICC has had a International Law. No State can have the monopo- an instrument of pressure and self-promotion or
very significant gender representation. Women are ly of decisions on the existence of an international for political purposes. We must always examine,
the majority among the judges nowadays. The norms crime or on the punishment of those responsible. on a case-by-case basis, the adequacy and conve-
regarding staff recruitment require the preservation — nience of authorizing the participation of third
of gender balance. The Rome Statute requires gen- JUCA: What are the major obstacles to the uni- parties in the proceedings.
der balance, but also establishes that all candidates versalization of the ICC? How could it gain —
for the role of judge prove knowledge in issues re- greater acceptance by countries that have not JUCA: What are the main challenges faced by
lating, among others, to violence against women and yet signed or ratified the Rome Statute? the International Criminal Court today?
interviews

SS: There are many, but mainly establishing itself granted the procedural status of victim at the pre-tri- region in particular, be taken into consideration by
as a Court of universal character. There is also al stage of the present case should not be permitted the Chamber when assessing the evidence.
the challenge of expanding the number of States to discuss evidence or to question a witness in rela- Secondly, the Single Judge also considers that
Parties, and encouraging them and cooperating tion to matters that pertain to the guilt or innocence such participation – coupled with the efforts taken
with them in the implementation of the Statute in of the suspects because, according to the Prosecution by the Court to publicise the proceedings through
their domestic law. Internally, streamlining proce- and both Defences, these matters are not directly rel- a variety of technical means – will bring the pro-
dures, increasing the number of judges and staff evant to the interests of the victims. ceedings conducted at the Seat of the Court, in The
so that more cases can be tried simultaneously. At the outset, the Single Judge notes that the Hague, closer to the inhabitants of the Ituri region.
Making efforts so that the rules of procedure, de- Prosecution and Defences’ proposition is contrary This will strengthen the legitimacy of the court pro-
veloped and approved over ten years ago, can be to the latest empirical studies conducted amongst ceedings in such area and increase the effectiveness
adapted to the already established case law – even victims of serious violations of human rights, which of the Court’s function to disseminate a culture of
though amendments are required to the existing show that the main reason why victims decide to re- accountability for human rights violations.”
rules, casuistic amendments that might break bal- sort to those judicial mechanisms which are avail-
ance of the system designed by the creators should able to them against those who victimised them is
be avoided. Selecting new judges that demonstrate to have a declaration of the truth by the compe- Paulo Vannucchi, Member of the Inter-
professional experience in dealing with criminal tent body. American Commission on Human Rights
law and criminal procedure. Promoting programs In this regard, the Single Judge underlines that
to disseminate the activities of the Court, such as the victims’ core interest in the determination of the
increasing the number of communities able to facts, the identification of those responsible and the Portuguese version page 54
follow the hearings by audio-visual broadcasts. declaration of their responsibility is at the root of the
Increasing more and more the effective partici- well-established right to the truth for the victims of You have a background in journalism and po-
pation of victims in the proceedings. Expanding serious violations of human rights. litical science and, before working as head
the number of States involved in the witness pro- The Single Judge also notes that the above-men- of Instituto Lula, you were Minister of the
tection program. Strengthening a more direct and tioned empirical studies show that a large majority Presidency’s Human Rights Secretariat. How
efficient communication system with representa- of victims wish to have those who victimised them do you believe your career can contribute to
tives of the Assembly of States Parties. Well, there prosecuted, tried and convicted, and subjected to a your duties in the Inter-American Commission
are so many challenges that I believe I have al- certain punishment. on Human Rights?
ready given enough examples. I sincerely hope that In other words, the interests of victims go be- PV: At the outset, I must say that my personal, pro-
each and everyone will do their part in the effort yond the determination of what happened and the fessional and political career is somewhat pecu-
of strengthening the International Criminal Court. identification of those responsible, and extend to liar in the sense that I never exercised, as is the
— securing a certain degree of punishment for those broad rule in the profession, a path that leads to
Below are excerpts from a decision of who are responsible for perpetrating the crimes for some particular place. My story is a story of po-
13/05/2008 taken by Steiner acting as Single which they suffered harm. litical activism, which starts very young in the re-
Judge in the case of Germain Katanga and These interests – namely the identification, pros- sistance to the dictatorship. When I left prison, I
Mathieu Ngudjolo Chui, referent to the at- ecution and punishment of those who have victim- was already thinking of university education as a
tacks that occurred in the Ituri district, in the ised them by preventing their impunity – are at the kind of job search, for survival. It was at the be-
Democratic Republic of Congo (DRC). In the root of the well established right to justice for victims ginning of my third year of medical school that
case, an issue is raised concerning the proce- of serious violations of human rights, which interna- I was arrested and, later on, when I returned to
dural rights of victims before the International tional human rights bodies have differentiated from college, I felt that it did not fit in that moment of
Criminal Court. In the decision, one can notice the victims’ right to reparations. (…) my life. I had a sense of urgency and wanted to do
the effort of giving the victims a significant something with more chance of an immediate re-
role in the proceedings before the ICC, given Moreover, the Single Judge considers that the turn, because I was getting married and wanted
their rights to justice and to the truth, as well participation of those granted the procedural status to have children. And so I opted for journalism. I
as the importance of achieving other impor- of victim at the evidentiary debate held at the con- had been used to writing all the time, since child-
tant goals for the Court, such as dissemina- firmation hearing will also be material in achieving hood, and I chose journalism because I wanted to
tion of a culture of accountability for human other important goals of the Court. (…) attend a course that was compatible with what
rights violations. Firstly, in the view of the Single Judge, such was already a natural inclination and learn the
“The Single Judge notes that the Prosecution, participation will be an important tool to ensure method related to it.
as well as the Defences for Germain Katanga and that certain cultural features and perceptions that Political science came at a time when I want-
Mathieu Ngudjolo Chui, have pointed out that those are specific to the DRC in general, and to the Ituri ed to review all my background in the field. The
interviews 147

fall of the Berlin Wall had taken place and I had to listen. This is my background, and in the cam- Nevertheless, Brazil needs to be a little more
huge questions and anxieties about what would paign, I believe that what was really helpful was assertive: “It happened, I will not forget.” We note
be left of socialism. Thus, I did a long Masters – saying that Brazil is the only country of the OAS enemies of yesterday taking pictures together and
six years to review all of the previous study of the that is able to dialogue with all its Member States. holding hands, but no one discusses what hap-
time when I was 18. These new studies were very I feel I am starting a job that is a new begin- pened. I can have a picture taken together with
important to bring about a renewal in my life and ning, one of language learning, of diving into others, as long as we speak plainly. “We were en-
stimulate an easier adaptation of the 1968 values​​ America – which is an old passion. The experience emies yesterday, we had conflicting positions, but
: on the one hand, at that time, the world was go- that I am starting now is like that of Violeta Parra’s we’ve changed our position,” Only in this way will
ing through a revolution, Che Guevara had died song, “Volver a los 17” (Being Seventeen Again). new generations move towards recognition and
in Bolivia in October 1967 calling on young peo- — improvement of politics, of democracy and, by ex-
ple to play their part, Vietnam was expelling the JUCA: What does it mean to multilateralism tension, of human rights.
Americans, and there was the Prague Spring; on to have a Brazilian in one of the most impor- —
the other, armed resistance was taking place in tant human rights bodies today? JUCA: How do you think the Inter-American
Brazil, I was 17 or 18 years old, I was part of [Carlos] PV: The fact that three Brazilians have been elect- System has contributed to consolidate democ-
Marighella’s organization and very aware of the ed to important posts after extremely difficult racy and the expansion of human rights in the
difficulties of the time, of the mistakes of the un- campaigns is a success for Brazilian diplomacy, Americas?
derground action, of the armed resistance, and as of an unequivocal Ministry of External Relations. PV: In 1979, the Inter-American Commission
Franklin Martins likes to say, we did not make the My election, of course, doesn’t have the same im- paid a visit to Argentina, during the dictator-
biggest mistake of all, which would have been not portance as the other two. Firstly, because it is a ship, and the Government at the time allowed
to fight. And free from this error, we made mis- regional office, whilst the other two are global. the visit with a view to managing it, manipulat-
takes, but we also got some things right, because Secondly, because human rights is still a kind of ing it. The Commission, which was founded in
we helped build this new Brazil that is being re- periphery of major public policies. 1959, was re-founded in 1979 with this visit to the
born. So it all came to being able to distance myself In our regional context, Brazil is a country country, because it did not accept the trap laid
– and many people were unable to do this – from that boasts the ideal of reconciliation more than by the Argentine dictatorship. On the contrary,
the analytical frameworks of that past, of the Cold neighboring countries. Those who fight for human it denounced the authoritarian regime and the
War world, and come to terms with the outcome rights are also fighting for peace, and have to try Argentine dictatorship began to lose strength,
of 1989 with the disintegration of the Soviet bloc to promote this reconciliation – with justice, of up to the point of the adventure of the Malvinas
and the end of a socialist experiment. course. Reconciliation faces resistance even from Islands in 1982, and subsequently the transition.
As for human rights, in the process of candi- human rights activists, who say: “I do not want The Commission, which existed from 59 to 79, was
dacy to the Commission, my history in the area reconciliation, I want justice”, without realizing almost a “pre-Commission”; it had not yet found
was summarized as a person who brings to- that if they think only of justice, without recon- its true role. It should be recalled that when it was
gether three profiles: of victim, of activist and of ciliation, there is the risk of following the line of born in 1959, it had no constitutionality, which
Government agent (having been Minister for five the Law of Retaliation: an eye for an eye, a tooth only came ten years later, when, in 1969, the
years). I was also president of Instituto Cidadania, for a tooth. I emphasize that this reconciliation American Convention on Human Rights was ad-
which is now Instituto Lula, where we developed must be brought about responsibly, with the cor- opted by the OAS.
important public policies, such as Fome Zero and responding proceedings, trials and convictions. In 1979 it discovered its role, and began to play
Projeto Juventude (Youth Project). In this profes- And as regards what in Brazil we treat as the an important role in confronting dictatorships.
sional curriculum, I also have to recall the experi- Brazilian disease and vice, the cordial Brazilian man This cycle ended victoriously and it experienced
ence of Brasil Nunca Mais (Brazil: Never Again), a (“Brasileiro cordial”) of Sérgio Buarque, I always the crisis of adapting to the new era that no longer
very peculiar job – it was a secret work, not even call attention to the fact that it is not only a prob- corresponds to ongoing disputes with States. The
at home could I say what it was. lem. In life things are like this: what constitutes actions of supervising and demanding account-
I believe that it is indeed a background that a person’s virtue also constitutes their vice, and ability must continue; therefore, this litigant side
helps me now at the Inter-American Commission vice versa. The two go together. This Brazilian way cannot cease. Nevertheless, this has to be comple-
on Human Rights – with this perception of the also makes our country more inclined to have more mented with partnerships, cooperation and sem-
multiple sides of truth and the realization that, chance of success in the quest for peace and recon- inars – which it does not promote because it is in
in the assertion of human rights, a role of super- ciliation. There are features in the Brazilian histor- a financial stranglehold and has internal tensions,
vision and accountability is not enough. When it ical process that makes it worth putting a Brazilian having been confined to the process of receiving
comes to human rights, the instrument of fight is at the table in Washington, next, for example, to a petitions. Petitions reached the number of two
never the harpoon or the trident; one must take Chilean and an Argentine, who have other stories, thousand cases that take 20, 30 years. The jus-
into account the other side: we also need to learn considering particularly the multiple sides of truth. tice that takes so long is not fulfilled, because the
interviews

historical process has died. There is an awareness to investigate serious human rights violations In Brazil, people’s feeling that no one has
of these weaknesses, and we will work on that. that occurred during the dictatorship period been held accountable for anything is intolera-
There have been several improvements in hu- and to encourage the recognition of the right ble, which leads us to the issue of punishment and
man rights both in Brazil and in other countries. to memory and truth? judicial accountability. My opinion on the neces-
There are the examples of the Maria da Penha PV: I think the importance of the [National Truth] sary punishment is not the same as that of many
Law in Brazil, which resulted from a case before Commission is much higher than the awareness victims of the dictatorship and torture in Brazil.
the Commission; the Ximenes Case and its effects that people have about it. We now have a little bit Mandela inspires me. I think that, after Mandela,
on the anti-asylum struggle; the Ovelario Tamis more “nation building”. It is the first time in 500 it has become complicated to submit torturers and
Case and its repercussions on the protection of years that the Brazilian State has promoted an ex- tormentors to a punitive lawsuit, which ends up
indigenous rights. In short, the Commission is ercise about itself. If Brazil had promoted an ex- happening. I do not criticize that. There are con-
working continuously to promote this change ercise of reflection, a truth commission on slavery, demned dictatorship leaders in Argentina, Chile
in internal policies. Sometimes, as has happened the situation of racism and the very discussion of and even Uruguay and I have no criticism of this.
recently, just like any public body, the OAS also quotas in Brazil would be different. The country But I wonder: in Brazil does it have to be like this?
makes mistakes. It made a decision that gener- had a type of slavery different from any other in In what way is Brazil different?
ated a conflict for Brazil concerning the Belo the world. Unlike the United States, for example, The first answer is: in what way is South Africa
Monte Dam on the Xingu, which led to President in Brazil, slavery spun the wheel of the econo- different? Mandela had the perception to note that
Dilma’s very stringent response. The process is my and there was only one small non-slavehold- the country could move towards an endless blood-
now being entirely resolved, only lacking the ap- ing area of economic production. One can also bath. People who campaign for human rights as I
pointment of an Ambassador to complete the cy- remember that the country promoted an indige- do, a former minister, a political formulator, a po-
cle of reconciliation,. In any case, payments and nous genocide. If Brazil had promoted a discus- litical analyst, a Member of the OAS Commission
contributions to the OAS were resumed long ago. sion, a truth commission, there would not be so from January on, may have a reference in the past,
In addition, the Brazilian government present- many highways named after “bandeirantes” [co- but it is the future that matters. And when we play
ed the candidacy of Roberto Caldas and he was lonial expeditionary men]. a lot with the phrase “do not forget the past”, we
elected to the Court. This discussion goes beyond the fields of hu- can add “do not forget the future.” So it is the fu-
We have also worked a lot on the importance man rights and justice and enters the areas of ture that matters. For me it is not essential that
of equality between the various rapporteurships. psychoanalysis and anthropology. The nation is Ulstra should go to jail. They are already defeat-
The rapporteurship for freedom of expression, built. Having been a scholar of the subject for ed in the most important issue which is the con-
which is a key theme, has become almost the only over 40 years, I am discovering new things about struction of truth.
theme, as if other human rights were secondary. the dictatorship now. Reparation must also have The State has to take over and complete
The right to food, the right to indigenous land, the a psychological support. My wife, a psychoana- this process, and Brazil is halfway. When the
land rights of rural workers, the prison system: lyst, works with a Paulo Abraão’s program called Commission was created, it was the Brazilian
all this cannot have any activism; in practice, the “Witness Clinic”. We started to monitor the cas- State talking. Its seven members are people of
Commission saw and agreed to the fact that the es I felt alarmed about, like people who were ar- the highest quality. The differences among them
rapporteurship of freedoms has financial resourc- rested for a day, were not physically tortured, but are natural, they exist in life. These people know
es, whilst the others do not. This is not good, be- hooded, threatened and did not know where they very well that the mission they have is more im-
cause of the fact that having resources means that were. This is also torture, it is a brutal stigmatiz- portant than any internal disagreement. I have no
someone contributed to them, taking into consid- ing torture. Dilma has already said: we do not get doubt that the Truth Commission will produce
eration special interests in that theme. It doesn’t over torture, it stays somewhere inside us. And a report that will mark a change. And there is a
matter who made the donation, it is bad not hav- what did these people do? They decided not to Brazilian novelty: the Commission has become 100.
ing equality of resources in the Commission, be- tell anyone anything: neither their husband, nor We have almost 100 truth commissions, which no
cause the result is the creation of a hierarchy in their wife, nor their children. Forty years later, other country have ever had. It was an expression
human rights, as if one of them were more impor- they ended up on the divan. In some cases, chil- of the will of society: universities have theirs, as
tant than the others. Children, adolescents, racial, dren are the ones who bring their parents and well as OAB (National Lawyers Union), psycholo-
gender equality, LGBT rights: they all have the force them, due to the consequences of this in gists, CUT (Unified Workers’ Union), etc.
same importance as freedom of expression has. their lives. This subject has an association with So, this work will be completed and Brazil
— the universal theme of the Holocaust, in which will ask: and now? What is the next step? I will
JUCA: You were a political prisoner and there is a psychoanalytic discussion called gen- argue that the next step involves individual ac-
played a fundamental role in the creation of erational transfer of trauma. In this clinic, it has countability, with the idea that the dictatori-
the National Truth Commission (CNV). In been clearly shown that it is impossible to give a al state has already been judged, in the politi-
your opinion, what is the importance of CNV basic solution without accountability. cal process, in the Diretas Já, in the Constituent
interviews diplomatic memory 149

Assembly. I do not think the path is the revision a sentence with prison punishment. Let us have
of the Amnesty Act of 1979, for reviewing a law moral accountability; let people know. diplomatic memory
is always a danger on the issue of retroactivity —
and legal uncertainty. I believe that the judiciary JUCA: And what about the future Brazil?
committed the most serious and inexcusable mis- PV: The future of Brazil is the Brazil where hu-
take of judging, in April 2012, that the Brazilian man rights are fully respected – which is not tech-
amnesty law protected torturers. It does not: the nically correct, perhaps I should say respected to
reference to the so called “related crimes” does the highest degree possible. The violation of hu-
not mean that both sides will be protected, as is man rights has to be tackled in Brazil with ac-
was conventionally said. The legislative technique tions and with education in human rights. We
does not protect what was an oral agreement at have the example of the gay issue: Brazil has not
the time of drafting the law. changed its view in the last thirty years, it was I
In the Araguaia case, the Commission says that who changed mine. A human rights activist, thirty
the Amnesty Law should not represent an obsta- years ago, made ​​racist jokes, but that is changing.
cle. It could have said “may the amnesty law be Perceptions are new. This education should en-
repealed.” But it did not, stating that “it is not for ter the school system. Teachers should now treat
me to invade the constitutionality of a national fights between children – issues of bullying, rac-
State and say that, in the light of Brazil’s acces- ism and sexism – with the same importance as
sion to the American Convention, it is essential learning how to count. One formula,
that the Amnesty Act does not remain”. I do not I want a future Brazil where the highest ideals
believe that the right way is to pass a law in the of freedom, equality and solidarity, which are the several ideas:
Parliament annulling the amnesty of 79. I believe key synthesis of human rights, are respected to the
that the way is the Judiciary. highest possible degree. And what I want from the 50 years of Araújo
If we turn to the question of negotiating the future is that it arrives as quickly as possible.  — J
kind of punishment, I can commit myself to say- Castro’s 3Ds
ing: punishment should be a civilian declaratory
sentence, in which the Supreme Court transcribes Portuguese version page 58
pages and pages of the National Commission of —
Truth and states that, with respect to certain peo- Leandro Pignatari e Matheus Hardt6
ple, clear evidence that they practiced torture was
presented, declaring them unworthy of all rights “Ideas are important, but no idea survives with-
of a military officer, a public employee, etc. The out its inspiring spirit”, Araújo Castro, open-
punishment already exists, like the example of ing speech of the XVIII United Nations General
torturers being put face-to-face with noisy alter- Assembly, 1963
cations on the streets. In this sense, the certain-
ty of impunity is over, but not impunity itself. We Fifty years after his famous 3Ds speech to the
must complete this cycle, and I think Brazil will United Nations General Assembly (UNGA),
complete it with absolute certainty. Araújo Castro remains present in the formula-
There isn’t the slightest chance that Brazil tion and in the practice of Brazilian diplomacy.
will not complete it. The only question that re- The permanence of such themes as Development,
mains is whether it will happen in two years, in Disarmament and Human Rights (Direitos
ten or twenty. It can be in twenty, because, indeed, Humanos) – this latter firstly through the de-
the way how we discuss the dictatorship today is fense of decolonization and then by the promo-
completely different from the way we discussed tion of democracy -, reveals that the option for
it twenty years ago. This historical process ex- universal-developmentalism is still a preference
ists. They won militarily, but they were political- in Itamaraty. These concepts are more than timely
ly cornered. Brazil found democracy, and we do claims; they are, actually, compositions that relate
need to put an end to this process. One cannot
discuss it for a lifetime, and my proposal is: let us
6 Matheus Hardt is a candidate in International Relations,
have a convicting sentence; it does not need to be
Universidade de São Paulo
diplomatic memory

to each other and that evolve with time as well as behavioral patterns in Brazilian diplomacy and Minister of State for External Relations Antonio
with the changes undergone by the internation- their oscillation throughout different paradigms.  Patriota in his speech at the graduation ceremo-
al ambience: Besides the conclusion that we lack a meth- ny of the Oscar Niemeyer Class, in June 2013 –
odological basis to examine the relation between a moment when he also highlights the impor-
“The struggle for Disarmament is in fact a strug- ideas and the formulation of Brazilian Foreign tance of Araújo Castro’s legacy. This capacity
gle for Peace and for the juridical equality of States Policy, Vargas (2009) notes that studies in the area allows for a continuity in the ideas permeating
that want to be safe from fear and intimidation. The could be performed through the observation of Itamaraty and, consequently, in the practices ad-
struggle for Development is in fact the struggle for the substantive content of the debates within opted by the Ministry, in which we can analyze
economic emancipation and for social justice. The Brazilian diplomatic thought and the use of this the evolution of the concept central to this paper. 
struggle for Decolonization, in its widest concept, is diplomatic thought as a bridge between institu-
in fact the struggle for political emancipation, for tional culture and foreign policy. In this paper, we The evolution of the 3Ds
freedom and for human rights.” (Araújo Castro, use this theoretical methodology as explanative The 3Ds formula evolves as a unit and through the
opening speech of the XVIII UNGA, 1963). tool in the reflection about the evolution of the separate movements of its components. Applied
3Ds in the PEB, as we try to understand how the as a criticism to the freezing of world power, in
In this article, we will analyze the historical concepts of disarmament, development and decol- 1963, the concept did not refer to one specific di-
evolution of the 3Ds as a central axis of Brazilian onization were transformed, for the policy-makers, mension of this phenomenon, but quite the oppo-
Foreign Policy (Política Externa Brasileira - PEB) into what Villa (2006) defines as “the regulatory site. Conceived strategically, the 3Ds include the
in the past fifty years. Despite the existence of coordinates in the map for Brazilian position in a multiplicity of means through which hegemonic
movements backward and forward in the period, world of undefined polarities which began in the bonds in the international arena are reinforced,
Araújo Castro’s formulation has remained perti- end of the Cold War” (free translation).  allowing the emergence of shades as this reality
nent in the orientation of several generations of We must underline, initially, that in order to unveils. In the following sections, we will briefly
Brazilian diplomats regarding the international role achieve these results, the transmission channels present the evolution of the individual concepts.
of the country.  for diplomatic thought inside Itamaraty and the  
In the 1990s, former Minister of State for substantive content present in the 3D concept, Disarmament
External Relations Celso Amorim re-used flexible enough to remain pertinent with the de- “Disarmament is a matter of power and, tradition-
the 3Ds formula, updating it to Disarmament, cades, were integral (Vargas, 2009). Reinforcing ally, matters of power have been solved by the op-
Development and Democracy, marking the evolu- this transmission, we must highlight the fact that erations of power politics itself.” (Araújo Castro,
tion of the Decolonization concept within the idea Araújo Castro was a career diplomat, an unusual opening speech of the XVIII UNGA, 1963)
of Human Rights. Nowadays, a possible reading of characteristic for the Foreign Ministers at the time,  
these concepts and of the formula could include helping, thus, in the insulation of Itamaraty, as In the 1960s, the theme of Disarmament was
the following pillars: Disarmament, Sustainable the highest command posts in the Ministry were adopted by Brazilian foreign policy as a tool to
Development and Human Rights. From these from the institution itself. Additionally, the close fight against the freezing of power in the inter-
observations, we will demonstrate that the con- relations with the younger generations of diplo- national order. Refractory to initiatives of this
cepts brought about by Araújo Castro not only mats cultivated by the Foreign Minister facilitated kind, Brazil progressively adhered to interna-
still guide, today, the formulation of the PEB, but the perpetuation of Castro’s ideas in the Ministry. tional regimes such as the NPT, always defend-
they also involve the minds of Brazilian diplomats. This insulation, however, was neither abso- ing the facet of disarmament in parallel with the
With this in mind, we will explore contemporary lute nor the sole reason for the observed Brazilian question of non-proliferation. As for arms reduc-
approaches to the original formula as well.  diplomatic action. As Vargas (2009) asserts, the tions, Brazil argued for the joint and sovereign
Independent Foreign Policy, for instance, got many construction of such regimes as the creation of
Diplomatic Thought of its ideas and influences from outside Itamaraty, nuclear-free zones, in Latin America and in the
The use of the 3Ds formula in Brazilian diplomacy which, in its turn, absorbed and modeled them. South Atlantic. In spite of some successful expe-
during all these decades takes us, firstly, to a re- There exists, thus, is an interaction chain, formed riences, and beyond the matter of how feasible
flection on how the national diplomatic thought by academia, the Chancery, the press and the po- the continued reduction of armaments is, we are
is formed. According to João Vargas (2009), the litical sector, the individual elements being more currently faced by the diffusion and multiplica-
two main theoretical attempts to establish a con- or less influential at different moments in time. tion of the security agenda. The growing links of
nection between foreign policy formulation and The continued influence of the discourse of the theme with technological development, espe-
the ideas that circulate in the Brazilian Foreign the 3Ds in Brazilian diplomatic thought is also cially given the sophistication of conflicts, brings
Ministry were made by Celso Lafer – who under- indebted to the capacity of Itamaraty to form a new challenge for the coming years, namely, to
scores the existence of a Brazilian international an ideologically coherent diplomatic body with reconcile peace and development in a context of
identity –, and by Amado Cervo – who focuses on a strong esprit de corps, as underlined by former growingly dual technologies.
diplomatic memory 151

As for the use of force, Brazil, known for its countries. In fact, this comprehensive vision guid- of Human Rights has become one of the central
engagement in the peaceful solution of contro- ed the Brazilian arguments for the establishment axis of the PEB.
versies and for privileging diplomacy, views with of the Sustainable Development Goals at Rio+20. It is also worth mentioning the speech by
concern the growing tendency to resort to Chapter President Dilma Rousseff at the opening of the
VII of the UN Charter in Security Council reso- Decolonization, Democracy LXVIII UNGA, in which she classified the United
lutions. Linking the use of force to the promo- and Human Rights States intelligence programs as a “grave case of hu-
tion of human rights, for instance, in the so-called “For Brazil, the struggle for decolonization compre- man rights and civil liberties violation”. Beyond the
Responsibility to Protect, has the nefarious poten- hends all aspects of the secular fight for freedom greater relevance of human rights in Brazilian for-
tial of causing more harm than that it intends to and for human rights.” (Araújo Castro, opening eign policy, this general category allows for a dy-
fight, being easily manipulated for political ends. speech of the XVIII UNGA, 1963) namic analysis of the diplomacy, since, up to the
Responsibility while Protecting, on the other hand, The third strong line in Brazilian foreign pol- end of the 1980s, Brazil had a Foreign Policy that
is in accordance with the historical Brazilian po- icy in the last 50 years is the fight for Human was very defensive regarding national sovereignty
sition, defending the principles of non-interven- Rights. Like many other objectives and approach- but has moved to a more committed and coopera-
tion in internal affairs and of non-indifference. es of Foreign Policy, this dimension as well has had tive stance regarding the subject.
its moments of greater or lesser presence on the
----------
Development Brazilian agenda, clearly outlining the greater im-
“It is obvious (…) that the social and economic security portance the subject has taken on with the democ- In these past fifty years, the concept of universal-
attained by some is in risk if this social and econom- ratization process. In this regard, we moved from developmentalism has not been always present,
ic security is not attained by all.” (Araújo Castro, decolonization, already understood by Araújo but it has always been available, evolving (Vargas,
opening speech of the XVIII UNGA, 1963) Castro as an element of human rights, to democ- 2008). This is the case, as well, of the reflections
racy, as the country was democratizing. of Araújo Castro, especially in the way they were
The plea for development of the whole international According to Villa (2006), the incorporation structured around the 3Ds. Articulated in a stra-
community is linked to the concept of collective eco- of democracy in the discourse of Brazilian for- tegic and flexible way, the concept has kept its
nomic security through a multifaceted approach that eign policy generated several gains in positive topicality as the international system has gone
considers not only the military dimension, but also social capital for the country, even in situations through changes. Having been adapted by mul-
the economic one. It is a way of recognizing the in- where there was a history of negative social cap- tiple generations of diplomats, Araújo Castro’s
divisibility of peace and development, which had al- ital, as was the case of the relationship of Brazil formula has been reinvented while keeping its
ready been advanced in the Pan-American Operation with Venezuela and Argentina. For Villa, the dis- identity, in which a major part was played by the
of President Juscelino Kubitschek. course of democracy in Brazilian Foreign Policy diplomatic tradition of Itamaraty and its role as
Araújo Castro’s speech gave a universal reach was fundamental to the creation of trust among protagonist in the elaboration and execution of
to this continental initiative, clearly regarding the the South American countries. Itamaraty has man- Brazilian foreign policy, but also the pertinence
North-South dichotomy as equally important as aged to bypass the fear of the region’s countries of the analysis of João Goulart’s Foreign Minister.
the East-West one. More than  that, it showed up regarding a possible Brazilian expansionism and “Castro’s thought (…) was a true lens through
how the former may hinder or further the latter. to build a base for the promotion of democratic which the policy-makers of Brazilian foreign policy
In this regard, in its search for peace, the interna- stability, without being perceived as a country that started to see the world and interpret international
tional community has the duty to promote the de- exports its democratic values. facts.” (João Vargas: Uma Esplêndida Tradição).  — J
velopment of the poorer nations. The crises of the first decades of the 2000s
Recently, this vision is demonstrated, in the have shown that formal democracy is not a guar- Further reading
PEB, in its conception of peacekeeping missions, antee of human rights, since it is necessary to add VARGAS, João Augusto Costa. Uma Esplêndida
where the connection between peace and devel- social inclusion and effective popular participa- Tradição: João Augusto de Araújo Castro e a Política
opment is emphasized. tion in the State decision-making process. In this Exterior do Brasil. Dissertação. Ministério das Rela-
If half a century ago the stress was on the eco- sense, the holistic approach allowed by the gen- ções Exteriores, Instituto Rio Branco. Brasília, 2008.
nomic dimension, associated to power, nowadays eral category “human rights” can be more appro- VARGAS, João Augusto Costa. Individuals and
the social and environmental dimensions are also priate than the specification of one or dimension Ideas in Itamaraty: the role of diplomatic thought
present. If we cannot build peace without develop- or another. Cases such as the Maria da Penha in Brazilian Foreign Policy. Artigo apresentado na
ment, the latter cannot be achieved without social Law, created from a recommendation of the Inter- ABRI/ISA Joint Conference, Rio de Janeiro, 2009.
integration and sustainability. Such an approach American Commission of Human Rights, and the VILLA, Rafael Duarte. Política Externa Brasileira:
underscores the need for a tripartite approach to determination, by the Inter-American Court of capital social e discurso democrático na América
the question of development; it does not intend, Human Rights, for Brazil to change its interpre- do Sul. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São
however, to hinder the growth of less developed tation of the Amnesty Law, show how the theme Paulo, v.21, n.61, June 2006.
diplomatic memory

What does the Rio Branco Institute mean for a Branco Institute, apart from a few direct public ser-
Brazilian diplomat? That is the question that guid- vice examinations (only five since 1946!). “Studying
ed us through our paper. The candidates for one of at Rio Branco Institute” is now part of the career of a
The Rio Branco the most competitive public service examinations Brazilian diplomat. The recurrence of the entrance
in Brazil grasp their success in the examination as examination has built a tradition that is unique in
Institute: portraits the end of a long path; however, the IRBr is, chiefly, the Brazilian civil service, because it is the only en-
the beginning of a long haul career. The period of trance examination that has been held, with no in-
of diplomats along the training course is the beginning of a process terruption, for over 68 years.
of initiation in and internalization of the ethos of In 1946, the requirements for the Rio Branco
60 years Brazilian diplomacy, which emphasizes the reso- Institute included Brazilian nationality by birth, a
cialization feature of the Institute as the first step high school degree and minimum age of 21. From
Bruno Quadros e Quadros to a “totalizing” career. 1967, it was mandatory to have completed a first year
and Felipe Pinchemel in college; that was upgraded to a second year in col-
History of the Rio Branco Institute lege from 1968 onwards. In 1985, the requirement
Portuguese version page 62 The Rio Branco Institute was established by the was to have, at least, completed the third year of a
— Decree-Law 7473, of April 18, 1945. Its creation university course. From 1994 onwards, it has been
was one of the events in the celebration of the mandatory to have a university degree in a course
In 2015, it will be 70 years since the Rio Branco centennial of the birth of the Baron of Rio Branco, recognized by the Ministry of Education (MEC). In
Institute (IRBr) was created. Its first class be- the “father of Brazilian diplomacy”. The Institute 1995, the “Program of Training and Improvement –
gan the two-year training course in 1946. Thus, received its first class of the “Preparation Course First Phase” (Profa-I) was established. Beginning in
we have decided to try to recover the memory of for the Diplomatic Career” (CPCD) in May, 1946. 1996, all the candidates who passed the examinations
classes of diplomats that were 20 years apart one Until then, the recruitment of Brazilian diplomats would be immediately hired as Third Secretaries of
from each other – the time of a generation, of deep was made by the Department of Administration the Brazilian Diplomatic Service, and would receive
changes in the Ministry of External Relations, in of the Public Service (DASP), through the so- the corresponding salary. Before, it was very dif-
Brazilian society and politics, as well as in inter- called “Direct Public Service Examinations”. ferent, because candidates who passed the exams
national relations. We have interviewed diplomats Ambassador Oscar Soto Lorenzo Fernandes, of the would only become students in the IRBr and receive
from the classes of 1946-1947, 1966-1967, 1986-1987 1946-47 class, states that older diplomats would a meager scholarship during the training course.
and 2006-2008. We have considered the year in kindly joke with the students who had recent- For the first class, and for a long time, not even the
which the training course began, not necessarily ly passed that “It was the Direct Public Service scholarship was granted, for, as Ambassador Oscar
the year of the entrance exam. Examinations that were harsh”. Similar provoca- remembers, the then Director-General of the IRBr,
In 1946, a little after the end of the Estado Novo tions can be found today, when older diplomats Ambassador Hildebrando Accioly “considered that
(the Vargas’ dictatorship), the Institute opened its annoy younger classes, stressing that “it was the the career was too expensive. The students should
doors. In 1966, after two years, the military rule oral tests that were harsh”. demonstrate that they had enough resources to
over national politics continued. In 1986, the Sarney The first class of the Rio Branco Institute had maintain themselves”. This mentality was perpet-
Administration faced the challenge of the transition its entrance examinations in late 1945. Thirty can- uated over the years, as Ambassador Sérgio Tutikian
of a dictatorship to democracy. In 2006, a cycle of didates were accepted, and five more were called recalls: in the 1960, an older diplomat declared that
classes with 100 students started. We have hoped as supplementary candidates. After two years of “unfortunately, Itamaraty has opened up for the mid-
that by choosing four classes of diplomats which are eliminatory tests, only 27 Consuls of Third Class dle class”.
separated by 20 years one from the other we will – as today’s Third Secretaries were called – were
show how the Rio Branco Institute plays a pivotal hired. There were rumors that no one would be Preparation
role in the training of new Brazilian diplomats and hired at the end of the training course, that all the The decision to become a diplomat is unique and
how it has changed over 60 years. We aim at inves- students of the Institute would be awarded only a varies from person to person. Everything can
tigating the way diplomats prepared themselves for diploma and that the direct public service examina- count in this important decision, ranging from
the entrance exams, how their expectations were tions would be resumed. Happily, these were only personal background to previous careers. The ex-
shaped before and during the training course at rumors, and, since 1946, as the Institute has become perience as a student of the Rio Branco Institute is
the IRBr, and how the time at the Institute led to a solid institution of the Brazilian diplomatic service, profoundly marked by the entrance examination.
their positioning within the Ministry of External a tradition of excellence has been brought about in The preparation period is important for the dip-
Relations (MRE). We try to establish a partial por- the Brazilian civil service bureaucracy. Since then, lomat, professionally and personally. This period
trait (fixed moments in time and memory) of four the access to the diplomatic career has mandato- can be a long one, with countless stories of dip-
classes, in four different contexts. rily been via the entrance examination of the Rio lomats who have tried the entrance exam more
diplomatic memory 153

than once. Stories of preparation also vary in time. preparatory school. By this means, he passed at his Ministry, until they receive a post there (…). This
For the classes of 1946-47 and of 1966-67, Rio de first attempt, right after graduating from university. reflects a generalized feeling that they are wast-
Janeiro was the main city, where the few prepara- Second Secretary Valeria Mendes Costa Paranhos, ing time at the Rio Branco Institute and that they
tory schools and specialized teachers were avail- also from the 2006-08 class, did her preparatory should get to work as soon as possible”.
able. For the class of 1986-87, Brasília was already studies in the city of São Paulo. She alternated her That state of incertitude is expressed in the
another viable option for preparation. Finally, in courses with a full-time job, in order to save mon- words of First Secretary André Tenório Mourão:
the 2000s, many big capitals had adequate pre- ey to pay for her studies. Thus, for six months she “when I was assigned an office at Itamaraty all
paratory schools. would work in the organization of the Formula 1 of us felt as if we were peers. At the Rio Branco
Stories of passing are manifold. The case of Brazil Grand Prix, and the following six months Institute, I still saw myself as a ‘student’. At the di-
the first class is unusual, because there were no she would study really hard. She did that for two visions [of the Ministry], everyone expected that I
previous entrance exams. Ambassador Oscar Soto years, and she finally passed at her second attempt. would be a diplomat, nothing more, nothing less”.
Lorenzo Fernandes states that he had no previous The training course inevitably went through
interest in the career, but his mother filled in the Training Course many changes from 1946 to 2006. In 1946, there
application for him. He graduated in Law, had a The training course at the Rio Branco Institute were classes in the morning, while the after-
lively interest in different subjects, could easily prepares Brazilian diplomats to confront the deep noon was left for study, or also for part-time jobs.
speak many languages, and had enough tenacious changes the international system is undergoing Ambassador Oscar, for instance, became Inspector
discipline to study hard, so he passed the exam at and gives them the necessary tools to analyze of Higher Education at the Ministry of Education,
his first attempt. the complex dynamics of international relations. so he could pay his bills. In the 1960s, the classes
Ambassador Osmar Vladimir Chohfi, from Nevertheless, more than a theoretical training, the were in the afternoon, from 13h to 17h30. Twenty
the class of 1966, is a former Secretary-General Rio Branco Institute course must be seen as a long years later, the whole day was filled with class-
of the Ministry and originally from São Paulo. He rite of passage that encompasses many stages. It es at the IRBr.
remembers: “I moved to Rio de Janeiro and en- is the insertion in the ethos of the “House of Rio “Our main concern was to finish the Rio
rolled in a couple of preparatory courses. Those Branco”, when Third Secretaries are recognized Branco”, reveals Ambassador Oscar. This feeling
in Rio were almost the only ones for the candi- by higher ranked diplomats as “young colleagues”. is shared by many generations who studied at the
dates”. He passed at his second attempt, in late For the first classes, the divide between the Institute. For Ambassador Marcus Camacho de
1965. Ambassador Sérgio Tutikian, also from the training period and the working period, when Vincenzi, from the class of 1966-67, “the time at
Class of 1966, made a longer trip: he came all the already at the Ministry, was very clear: the IRBr the Rio Branco Institute represented, in a general
way from Porto Alegre (Rio Grande do Sul) to Rio “had mostly an educational environment”, remem- way, a big waste of time. The preparation for the
de Janeiro, with two other candidates, in February, bers Ambassador Chohfi. To Ambassador Oscar entrance examination had intellectually stimu-
1964. There, he chose the best teachers and got a Lorenzo Fernandes, his colleagues and he were lated me with demands that the Institute was not
job at the National Coal Plan Commission in the “inaugurating a new institution, everything was prepared to address”. As a moment, as a rite of
morning shift, “so, with the monthly allowance my done together”. Currently, there are still clear passage, as a transitional process, students at the
family would send me, I could pay for my studies”. differences between a Third Secretary who is a Rio Branco have always wished and continue to
He also passed at his second attempt. student at the Rio Branco Institute and a Third wish to finish it as soon as possible, so duties can
Ambassador Benedicto Fonseca Filho, of Secretary who is working at the Ministry. Despite be assigned to them, in order to completely take
the Class of 1986-87 recalls that his prepara- the fact that, since 1996, any candidate who passed on their role as Brazilian diplomats. Sometimes,
tion was carried out especially during his stud- the CACD is already hired as a public servant of the students may relinquish their commitment
ies, at Universidade de Brasília (UnB). He chose the Brazilian Diplomatic Service, his/her situa- to the training course, as described by Cristina
the course of International Relations “thinking of tion at the Ministry still is, as long as the training de Patriota Moura (2007): “Many of the students
the Rio Branco Institute entrance examination”. course lasts, undefined. When they are accepted, begin the training course believing that the class-
He went to a preparatory school in Brasília, and the Third Secretaries are already diplomats, but es will demand a huge effort from them, but they
had teachers who were also diplomats, such as they are still “students of the Rio Branco Institute”, come to realize that most of the subjects are a
the late Ambassador Nuno de Oliveira and now in a truly undefined identity. Older diplomats see mere repetition of what they have studied hard
Ambassador Igor Kipman. He got in at the first at- the entrance examinations and the training course for the entrance examinations”. Ambassador
tempt, in 1985, an exam he did “only for experi- as means to select people who will, in due time, Benedicto Fonseca Filho admits that his remem-
ence”. A similar case occurred with First Secretary become Brazilian diplomats. They find themselves brances of the Rio Branco Institute may be an ex-
André Tenório Mourão, Class of 2006-08, who had in an extremely dubious situation: “for ‘outsid- ception: “Unlike some of my colleagues that com-
always thought about becoming a diplomat. He ers’, they are diplomats, but for the ‘insiders’, they plained about the time at the Rio Branco, to me,
chose the same International Relations course at are just ‘students of the Rio Branco Institute’. it was a time of learning, of observation of the
the UnB. In his last year at college he enrolled in a They cannot, however, be assigned duties at the Ministry from a superior observation post”.
diplomatic memory

Expectations and Learning Director-General, under the allegation of “ideolog- Further reading
The time at the Rio Branco Institute is a time of ical background”. Minister of Second Class Mario BRASIL. Instituto Rio Branco 50 anos: edição
training, of initiation into a professional environ- da Graça Roiter, also from the class of 1966, was comemorativa 1946-1996. Brasília: Ministério das
ment and of resocialization in a totalizing career, retired in 1970, under Institutional Act Number Relações Exteriores, 1996. 81 p.
with its own ethos. Notwithstanding, it is also a Five (AI-5). In the 1980s, both of them were re- MOURA, Cristina Patriota de. O Instituto Rio
time of meeting new people, of establishing per- integrated into the diplomatic service. Arbitrary, Branco e a diplomacia brasileira: um estudo de
sonal relationships, or, at least, professional rela- authoritarian acts did not target only students, for, carreira e socialização. Rio de Janeiro: Fundação
tionships. Second Secretary Valeria Mendes ac- as Ambassador Vincenzi remembers, two excel- Getúlio Vargas, 2007.
knowledges: “My relationship with my colleagues lent teachers, Manoel Mauricio de Albuquerque, RIBEIRO, Guilherme Luiz Leite. Os bastidores da
was great, and to have a network of at least 100 who taught Brazilian History, and Antonio Barros diplomacia: o bife de zinco e outras histórias. Rio
people at the Ministry has helped and still helps Castro, who taught Economics, were fired and re- de Janeiro: Nova Fronteira, 2007. 414 p
a lot”. For the class of 1986, it is difficult to main- placed. Ambassador Vincenzi also states that “the
tain contact with each other, because of the in- time at the Rio Branco Institute (1966-67) did not
evitable career post assignments. However, class coincide with the most radical phase of the mili-
reunions are set up from time to time with the dip- tary government; we were already working when
lomats who are in Brasília. For the class of 1966, the AI-5 was signed into law. The military regime
“as the beginning of our career coincided with the influenced a great deal of our professional and
transfer of the Ministry to Brasília in 1970, the col- personal lives”.
leagues were not very united in the period before The most important lesson at the Institute,
our first post assignment, because many of them to Ambassador Oscar Soto Lorenzo, were “the
chose to bring it forward to avoid Brasília”, says hallways”, the social interaction with older dip-
Ambassador Vincenzi. lomats, which was of inestimable value for his
Expectations regarding the training course whole career. For some people, the training at
and the career, with its events – duties assign- the Rio Branco Institute adequately contributed
ments, promotions, post assignments, functions with general and specialized knowledge, useful
–, are legitimate and important in one’s career, for the first steps at the Ministry. For other people,
asserts Ambassador Chohfi. It can bring anxi- there are curious memories left, such as the fight
ety, but reality can turn out to be very different Ambassador Tutikian helped to stop between a
from projections of the future. For instance, the first-year and a second-year students. The feeling
class of 1986-87 believed that the highest rank of missing what one did not have is shared by some
they would reach would be that of Counsellor. of the students of the Rio Branco. They have un-
Conversely, today, a considerable number of fulfilled expectations towards more practical les-
them are Minister of Second Class, and two sons, for instance, classes explaining the Brazilian
classmates are already Ministers of First Class stance in international fora. Nevertheless, for ev-
(Ambassadors). eryone, the training course is a time of transi-
Expectations can also become disillusion- tion, of induction into the Ministry. Ambassador
ment. Ambassador Marcus de Vincenzi says: “I Benedicto says that the Rio Branco prepared him
have no doubt that after we passed an extreme- for a “soft landing in the career”.
ly rigorous entrance examination, we were pre- Whether there is praise or criticism, whether
pared and intellectually stimulated to deepen our there are good or bad memories, if diplomats miss
academic knowledge. Unfortunately, it did not their time at the IRBr or not, if everyone just want-
happen. We could only study English and French, ed to finish the training course; with the benefit of
no other languages. The teaching of History was hindsight, the period at the Rio Branco Institute
restricted to Colonial History, due to ideological reveals itself as a time of hope, a time of intro-
small-mindedness”. duction to the professional (and personal) life at
The military regime had a great influence Itamaraty, where tradition renews itself with each
on the environment of the Rio Branco Institute. class.  — J
Ambassador Alexandre Addor Neto passed in
fourth place in the entrance exam, but he had his
enrollment at the Institute denied by the then
essays and reviews 155

political systems and establishments, especially


essays and reviews among young people.
This triple revolution generates greater pos-
sibilities for the action of micropowers: local
Book review authorities, new churches, micro and small en-
terprises and NGOs, but also global terrorist net-
The end of power, works, guerrillas and hackers occupy spaces left
by traditional forms of power, both nationally and
by Moisés Naím internationally. Naím highlights political parties’
inability to intermediate complex demands of so-
Portuguese version page 67 ciety nowadays, making room, for example, for the
— emergence of intraparty factions and alternative
Luiz de Andrade Filho forms of political organization.
Naím is aware of the problem – his own and
The End of Power, by Moisés Naím, deals with a others’ – to provide full answers to the implica- Beyond
phenomenon on which internationalists, sociolo- tions of the power decline process. For the author,
gists and political scientists have put greater em- it is more important, however, to reflect on how orientalism: taking
phasis in recent years: power dispersion. Naím to recover individuals’ trust, especially in rela-
innovates by analyzing it not only from the stand- tion to governments. Social movements and NGOs, the Western lenses
point of politics, but also of the business world, which in recent decades have increased their pro-
military-strategic affairs and society, as indicated jection and ability to influence, would have much off to see Russia
in the subtitle: “from boardrooms to battlefields to tell, especially on the ability to mobilize youth
and churches to states, why being in power isn’t activists and the establishment of clear and fo- Portuguese version page 68
what it used to be. cused agendas. —
The alarming title of the book does not imply Naím’s work brings simple examples that are Bruno Quadros e Quadros
the author’s belief in the absolute end of power. accessible even to non-experts. It provides an in-
Naím – an economist formerly Minister for Trade novative reasoning and certainly stimulates a last- To overcome the uncritical absorption of
and Industry of Venezuela and Editor-in-chief of ing reflection among those individuals interested the images about Russia produced in the
Foreign Policy magazine – sets two objectives: ex- in political and diplomatic events and in social ac- West, it is necessary to promote a post-West-
plaining why, nowadays, the ability to acquire, re- tion through networks.  — J ern perspective on the country, which takes
tain and exercise power is declining and alerting into account the analysis without the me-
to the need for governments, businesses and or- diation of the historical background of
ganizations to adapt to those changes. Russian identity and nationality.
The transformations that impact power are
framed under what the author calls the more, mo- Ah, troika, troika, swift as a bird, who was it first
bility and mentality revolutions. The first states invented you? Only among a hardy race of folk can
that along with a growing population, with higher you have come to birth—only in a land which, though
incomes and more access to information, comes poor and rough, lies spread over half the world. [...]
widespread impatience and hence the inability of And you, Russia of mine—are not you also speeding
governments to effectively recruit individuals for like a troika which nought can overtake? Is not the
the effective use of power. The mobility revolution, road smoking beneath your wheels, and the bridges
in its turn, is associated with the expansion of the thundering as you cross them, and everything be-
possibility of displacement by individuals, finan- ing left in the rear. [...]
cial resources and information, and consequent- Whither, then, are you speeding, O Russia of mine?
ly a loss of captive audience, which is essential to Whither? Answer me! But no answer comes—only
the exercise of power. Finally, the mentality revo- the weird sound of your collar-bells. Rent into a thou-
lution –partly an outcome of the first two – is the sand shreds, the air roars past you, for you are over-
change in patterns of individual expectations and taking the whole world, and shall one day force all
traditions, which exacerbates the questioning of nations, all empires to stand aside, to give you way!
authority and dissatisfaction with the prevailing (Nikolai Gogol, Dead Souls)
essays and reviews

An “orientalism” for Russia crossroads between Asia and Europe, Russia was Russian foreign policy in the first half of the 1990s,
Russia is part of the select group of countries that the target of invasions and influences coming with Foreign Minister Andrey Kozyrev.
have a guaranteed place in the collective imagina- from both sides, and this meant that the Russian The Slavophiles, in turn, highlighted the ex-
tion. Features like the cold, the snow, the taste for identity was an amalgam of all these trends. From ceptionalism of Russia in relation to the West. For
heavy drinking and militarism are frequently as- Europe, Russia received the Christian religion and them, the economic, social and political develop-
sociated with the country. Many of these stereo- the Cyrillic alphabet, derived from the Greek. ment of the country should be in accordance with
types and images have been unceasingly strength- From Asia, it inherited a model of political cen- Russian values​, such as the notion of communi-
ened through Anglo-Saxon and European vehicles tralization that would be adopted in various forms, ty (sobornost’) and orthodoxy (pravoslavie). The
(movies, travelogues, books, news), not necessarily throughout the country’s history, after the Mongol slavyanofily rejected Western ideas such as lib-
consisting in visions constructed by a direct con- invasions of the 13th century. eralism, materialism and individualism, for they
tact between Brazilians and Russians. Keeping It is interesting to note that this duality is ex- considered them harmful to the essence of the
this in mind, we approach some of the historical pressed also in the characteristics of the “two “Russian soul”. The reigns of Tsars Alexander III
foundations of Russian identity in order to pro- capitals” of Russia. Moscow would represent the (1881-1894) and Nicholas II (1894-1917), as well as
vide support for a post-Western perspective on Asian dimension, due to the legacy of the Tatar- prominent figures from literature such as Fyodor
Russia that overcomes the Western views uncrit- Mongol yoke, which made ​​the city the capital of Dostoyevsky, are associated with the ideology ad-
ically reproduced in Brazil. the country. Saint Petersburg, in turn, would be, vocated by the Slavophiles.
First, however, it should be emphasized that in the words of its founder – Tsar Peter the Great One of the major points of disagreement be-
the West developed a kind of “orientalism” for –, the “window to Europe”, resembling Venice in tween the Westerners and the Slavophiles has
Russia. Indeed, one of the definitions that Edward its urban design. been about the character of the political system,
Said gives to the concept in the introduction to There are artistic, political and social currents and especially the role of the ruler in this system.
Orientalism is “a way of coming to terms with the in the West whose reaction to the hybrid nature of While the Westerners tend to historically focus
Orient that is based on the Orient’s special place Russian identity (half European, half Asian) has on the adoption of more representative systems,
in European Western experience”. It is possible historically been to associate all elements of the the Slavophiles, based on the principle of autoc-
to adopt similar terms in the Western approach country considered “negative” to its Asian her- racy (samoderzhaviye), argue for a greater con-
towards Russia, which emphasizes the alleged ex- itage (deemed as “barbaric”): political authori- centration of power in the hands of an individual.
oticism of the country and merges elements of ad- tarianism, servitude and social and economic
miration – such as the exaltation of Russian cultur- backwardness compared to Western Europe. In Does Russia need a Tsar?
al manifestations in literature, dance and classical specific political circumstances, this “orientalist” The concentration of power of Russian govern-
music – and fear – such as the interpretation of the discourse that highlights the Asian characteris- ments over the centuries is associated with the
international initiatives of the country as “expan- tics of Russia is used to alienate the country from importance of the concept of gosudarstvennost’
sionist” and “imperialist” in the last few centuries. the “European family”. in Russian political culture. The term has no di-
During most of the 19th and 20th centuries, The Eurasian condition of Russia resulted in rect translation, but it conveys the idea of the cen-
Russia was the “other” to be fought by the West, in the split between the Westerners (zapadniki) and trality of the State (gosudarstvo) in Russian life.
episodes such as the Crimean War (1853-1856), the the Slavophiles (slavyanofily), which permeated the Unlike the West, where the liberal political theo-
“Great Game” in Central Asia and the bipolar con- cultural, social and political debate over the fate of ry opposes the State to society and the individual,
flict of the Cold War. The representation of Russia the country after the reign of Peter the Great (1682- in Russia the State is seen as the organizer of so-
as a huge, threatening and merciless bear dates 1725), with consequences observed to date. cial life and the guarantor of stability. In Russian
back to the British caricatures of the nineteenth The Westerners defended socioeconomic re- historical memory, periods of chaos are linked
century. The association of the alleged authoritari- forms in Western style (land reform, for instance) to the existence of a weak State, as happened re-
anism of Russian rulers to an “oriental despotism”, as a path to the modernization and international cently in the 1990s. By contrast, periods with the
in turn, has been frequent in the West since the positioning of Russia. This group favored the his- presence of a strong political power are consid-
Enlightenment. As outlined below, the geograph- torical and cultural features in common between ered the most stable.
ical factor (the Eurasian condition of the country) Russia and the West, instead of the points of dis- Stability, by the way, is another concept dear
caused an identity debate whose complexity is of- agreement. The zapadniki valued the measures to Russian political culture. It is associated with
ten overlooked by Western analysts. implemented by Peter the Great as the model of the absence of patterns of competition between
modernization that they intended to implement political leaders; in fact, competition has histori-
Between Europe and Asia in Russia. In the arts, exponents of this group were cally led to instability and, most often, to the an-
The gigantic size of Russia and its location on Ivan Turgenev and Aleksander Herzen. In diplo- nihilation of one of the opponents. The most no-
two continents brought indelible consequences macy, the Westerners are associated with the group torious case in this regard was the dispute over
for the formation of Russian nationality. Being a of “atlanticists”, who dominated the formulation of the succession of Lenin, which culminated in the
essays and reviews 157

assassination of Leon Trotsky, on the orders of Revolutions. The Future that claims something gen-
Joseph Stalin in the 1940s. uinely new. In Modernity, the Future is the field of
Western criticism over the alleged lack of free- human Freedom. Citizens decide together what
dom in Russia is ideologically biased, since the con- the future will be like. The clash between liber-
cept of freedom lacks an unambiguous meaning. As al democracy and socialism disputed which was
noted by Konstantin Khudoley, a member of the the most efficient way to implement this concept
United Nations University, in a lecture given in Brazil of Freedom, but did not call into question the con-
in 2009, most adult Russians tend to compare the cept itself. Cynicism, in contrast, asserts that citi-
level of freedom of current Russia with that of the zens need only believe – or pretend to believe – in
Soviet Union and not with that of Western govern- their own freedom, because real politics continues
ments. In this comparison, Russians enjoy individual to be job for a small and exclusive group. In a way,
freedoms unprecedented in historical perspective. cynics just want to keep up appearances.
In this sense, it is ok to say that the classifica-
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Politics of tion of information is a matter of national securi-
Brazil needs to build its own understanding of ty. The problem is to assume that we have some-
Russia without mediation. For this to happen it is Indiscretion thing to hide from the enemy only. The discomfort
essential to move away from the uncritical absorp- caused by the documents published on Wikileaks
tion of Western discourse (that is, American and Portuguese version page 71 is not caused by the surrender of crucial informa-
European), which is supported by a broad media — tion to Islamic radical groups, but by the revela-
and epistemic apparatus and answers the specific Rui Camargo tion of something we already knew. The expres-
political imperatives of these countries. To escape sion of this finding can be credited to the former
the “orientalist” lens through which the West of- The uproar caused by Manning and Snowden is deputy chief of MI6, Nigel Inkster, in an inter-
ten sees Russia, it is necessary to resort to the his- not caused solely by the need to condemn the un- view with the British newspaper “The Guardian”.
torical foundations of Russian identity and nation- acceptable and cynical actions of somebody else. It According to Inkster, nothing that was published
ality, among which are the Asian-European duality is also caused by the revelation that such actions was unknown or could not be easily inferred, either
and the particularities of Russian political culture. benefit from our complicity. by us or by members of Al Qaeda or the Taliban.
Another step in the building of a post-Western We too believe the Party is the madness If this is the case, then why was the same
perspective on Russia is to avoid normative ap- of many, for the gain of a few. The revelations British newspaper ordered by the cabinet of David
proaches about the country, which might engen- brought about by Assange and Snowden illustrate Cameron to destroy the documents leaked by
der difficulties in understanding. The prescription this. Disbelief in the institution of the Party is a Snowden? In the US, “The New York Times” would
of solutions and the elaboration of criticisms, far symptom of cynicism that is pervasive in contem- receive a similar command a few days later. Given
from promoting an understanding of the country, porary political practice. It is this cynicism that al- the damage these attempts to prevent the circula-
redound on alienation and irritation of the “other”. lows us to evaluate the recent leaks of classified tion of the leaked documents impose on the image
Finally, the promotion of direct contacts with information. The contradiction between the of- of both governments, who are forced to attack free-
agents of Russian society (government, civil soci- ficial discourse of old democracies on individual dom of the press, there must be something in these
ety and business) tends to help in the creation of freedoms and their “true” discourse – contained documents that cannot be revealed to the public.
a post-Western perspective on Russia. Initiatives in classified documents and unknown to the pub- The official argument is that Snowden is al-
such as the publication of works by Brazilian ex- lic until recently – testifies to the disregard of val- leged to have have leaked documents containing
perts on the Slavic country, as well as the place- ues ​​such as the right to privacy and to freedom of information vital to national security. However,
ment of Brazilian newspaper correspondents in expression, which have been the basis of political since intelligence services are the only ones who
Russia and the promotion of a common agenda liberalism since the American Revolution in 1776. know the documents, the public has no way to
for scientific research, respond to this goal.  — J Cynicism not only destroys liberalism; since verify the veracity of the argument. In the case
the whole of the modern political spectrum is of The Guardian it is far more bizarre, because
heir to the Liberalism of the Enlightenment, cyn- the destruction of files is a purely symbolic ges-
icism erodes the modern concept of Politics it- ture. There are copies of the files leaked in vari-
self. The latter has as its fundamental premise the ous parts of the world, including, probably, with
idea of ​Future. As the German historian Reinhardt Glenn Greenwald, correspondent of the British
Koselleck pointed out (Futures Past), not the future newspaper who lives in Rio de Janeiro.
of Hesiod, which is the mere cyclical repetition of The description of how the HD containing
the past, but the future of the American and French the documents published in August 20, 2013, was
essays and reviews

destroyed, gives every sign that the problem was preserved in dictatorships, but not suited – at least a complaint that reveals the indecency of the con-
to keeping up appearances. It is deeply embarrass- in theory – to truly democratic States. If the con- tradiction. It is fundamental, in this case, that peo-
ing to admit that the belief in modern Politics was duct of foreign policy involves the development ple say no, it is not permissible for the State to do
abandoned long ago and that what matters now is and application of laws, it is as “political” as the this or that. More than that, shame is a way to force
the simple maintenance of power. It is like a little conduct of domestic affairs, which leads to the the other – and ourselves, as we shall see – to con-
boy who, having broken the vase, seeks to hide the publication of law, and cannot be secret. front the inadmissibility of the situation.
shards. Although he thinks he is hiding the disas- Diplomacy should be conducted under public Orders to destruct hard drives containing doc-
ter from his mother, what really matters is to hide scrutiny, within the reach of the ordinary look. In uments leaked by Assange are a defensive reaction
it from himself. In this simple – but very common – a democratic State, to lie on behalf of your coun- to the return of the repressed in society as a whole,
example, the boy does not stand for Machiavellian try and to lie to your country are the same thing. as if their disappearance could make the shame
power-hungry politicians, but society as a whole. In a sense, everyone knows that things do not go away. They are not that different from the boy
It was not just the politicians who lost the belief work this way, even before Wikileaks, as under- who hides the shards of a broken vase.
in the values that
​​ should justify their very existence, lined by Mr. Inkster. Examples abound. Think of It would be interesting however to extend
but also those who elected them in an active or si- the alleged weapons of mass destruction from the scope of Žižek›s analysis. The leaks are not
lent way. This is serious because it means they no Saddam Hussein – forged evidence that justi- a matter of knowledge pure and simple, but of
longer expect Politics to be a means of transform- fied a long running war – or the outlaw regime in confrontation and recognition. Through leakage
ing the future. If the Future is not changed, it will Guantanamo. What should belong to the public, Governments of Great Powers are forced to admit
repeat the present. If it repeats the present it is not the information on which the conduct of foreign that they violate their own fundamental values​​, in-
real Future, but merely a continuous present. Since policy was based, was denied. In both cases it was deed, but we are also forced to acknowledge what
it would be too painful to live in the world that can- known that policy was designed by intelligence we know that. Are we not cynical as well? Is it rea-
not be changed, we continue to act as if we believed services employing under-the-counter methods. sonable to suppose that cynicism is a pathological
in the fundamental values of ​​ Freedom, Privacy, and Knowing how things work does not explain deviation of a few intelligence agents around the
Political Representation. By acting at odds with the diplomatic imbroglio produced by the leakage. world? No, we know it is not, especially after peo-
what we believe in, we become a cynical society. If we knew we were being watched before, why ple like Assange, Snowden and others.
It is curious that the malaise caused by the indis- only complain now? Of course, at first, the exact The diplomatic uproar is not merely caused by
cretion of Snowden and Assange is to be particularly dimensions of metadata harvesting programs were the political and moral necessity of condemning cyn-
felt in diplomacy, associated by common sense with not known. Besides, the leaks provide evidence ical and unacceptable practices from somebody else,
the realm of lies and falsehood. If international pol- to prevent the claims from being discredited as but also by the inability to admit that they benefit
itics is supposedly the domain of untruth, why have mere speculation. However, this is not enough to from our connivance. Among our cries of protest,
the leaks caused particularly energetic reactions in explain the discomfort with the situation. As the we must not forget that we already knew, or at least
it? It is expected that states will try to fool each other, Slovenian philosopher Slavoj Žižek highlighted, suspected what was going on. This does not com-
hence, what is the surprise in recent news? in a column for for «The Guardian» (September promise the righteousness of our cause. After all, as
The definition of a “diplomat” forwarded by 9th, 2013), the episode embarrassed those respon- shock troops around the world have demonstrated,
Henry Wotton is widely known: “the diplomat sible for spying practices. It is this feeling of shame intelligence services are not the only ones that vio-
is an honest man who is sent to lie abroad for that we try to hide at all costs, for it makes the con- late freedom of expression. They are not the only
the good of his country.” The archetypal figure frontation with repressed awareness inevitable. ones cynical towards the classic values of Liberalism.
of this definition is the work “The Ambassadors” If someone knows that things are not as they There is a hidden meaning in the defining of
by Holbein, the Younger, in which the most im- should be, but acts as if they were, that someone is leaks as indiscreet. They do not teach us anything.
portant element – a skull painted right in the mid- a cynic. This cynicism is the substrate of metadata They create a structure in which “I know he knows
dle of the scene – may only be seen from a certain harvesting programs that violate a considerable ar- I know”. Hence, there is a reflexive movement. Now,
angle, because it was encoded with a technique ray of fundamental rights and of international reg- everyone knows that I’m well aware of the hypocri-
of distorted perspective, known as anamorphosis. ulations. Cynicism seeks to neutralize the contra- sy of others and of myself. This reflexive knowledge
The painting reinforces the idea that, in diplomacy, diction between knowledge and action. undermines cynicism through shame, revealing the
the truth is hidden from the ordinary eye. When the contradiction is revealed, the cynic unsustainability of the cynical stance. It forces me
The only detail is that both Holbein and becomes ashamed. He is forced to acknowledge to look at myself through the eyes of others. It is
Wotton predate the Enlightenment. Their con- his own hypocrisy. Žižek argued that as the con- through this foreign gaze that I revisit my secret.
ception of diplomacy is incompatible with the tradiction between democratic discourse and the We find out that our cynicism is not a State of
Rule of Law. A fundamental assumption of the lat- conduct of foreign policy became exposed, the rep- Nature,that we do not have to accept surveillance
ter is that laws are public knowledge. Secret laws resentatives of power were ashamed. Thus, shame as the perpetual modus operandi of our society. We
are a remnant of the Ancient Regime, shamefully becomes a tool in political struggle. It is the effect of find out that we can fight cynicism and that Politics
essays and reviews 159

is indeed able to change reality. Shame reminds us, fi- is universal about them. The images reveal that apparent reasons. However, the analytical effort
nally, that we are free and that the future need not be the inhabitants of this remote piece of land are as endeavors to go beyond everyday life and indi-
the repetition of our heavily guarded present.  — J human as we are. Freed from the demonic fantasy cate the social relations that produce it.
in which they have been wickedly dressed, they The Demonstrations of June denounce the vi-
are just men playing with children on the beach. olence of everyday life in big cities like Sao Paulo
It is, to say the least, cruel that this in- or Rio de Janeiro, but it is not everyday life by itself
sight, brought about by the photos, astonishes that produces the general malaise among those
us. How could we forget that they too are hu- who took to the streets. The authors agree, to a
man? Who convinced us that they were some- greater or lesser extent, that this is not clear for
thing else? These are the questions that arise, most of the demonstrators, who have been unable
once the charm of such rare images is over.  — J so far to propose an alternative way of life. The
widespread and violent rejection of parties illus-
trates well the aversion to well defined political
agendas and goals. That is why it caught the at-
Book review tention of many essayists. The masses oppose the
social structure of everyday life, but cannot come
Cidades rebeldes up with ways of concrete social transformation.
In this diagnosis it is quite easy to identify the
Portuguese version page 79 Marxist perspective adopted by most of the essay-
Photographic Essay — ists. The lack of alternatives ensues from the fact
Rui Camargo that protesters have not been able to carry out a
North Korea mediation between the particular circumstances
The book “Cidades Rebeldes” (Boitempo and of their immediate surroundings and the general
Portuguese version page 74 Carta Maior, R$ 10,00, 110 pages ) brings togeth- crisis of capitalism. This crisis has broken out un-
— er short essays about the recent urban riots, from der different guises: in Europe, there is the fight
Photography: Thomaz Napoleão Ankara to Athens, not to mention São Paulo, New against fiscal austerity; in North Africa and the
Comments: Rui Camargo York and Barcelona. Although most essays are Middle East, the Arab Spring; in the United States,
clearly focused on the Brazilian demonstrations of the Occupy Wall Street movement.
There are not many opportunities to look at North June 2013, the editorial line aims to stress the con- The essays seek to unveil the dialectical con-
Korea from the inside. The country is an outsid- nection between the Brazilian phenomenon and nection between universal and particular. The link
er in international tourism and suffers from the what has been witnessed throughout the world between local problems and the inherent logic of
stereotypes of biased media coverage. Prejudice over the past few years. the capitalist system, according to most texts, re-
–justified or not – has produced a veil of fear and On the whole, the book confronts what is spe- mains unnoticed by the protesters. This failure, in
mystery surrounding the country. Few are the mo- cific about the Brazilian urban protests with what is turn, prevents the riots from establishing an alter-
ments in which the everyday life of a notoriously universal about all the recent urban riots. From the native everyday life and from overcoming the con-
inaccessible country can be exposed. perspective of the authors – many of whom wide- tradictions and inadequacies of the Welfare State.
In all photos by Thomaz Napoleão we feel as ly known, such as Slavoj Zizek, David Harvey, Mike The book requires the reader to take a stand:
if we were peeking through the keyhole. There is Davis and Free Pass Movement (MPL) – the fight be it against capitalism or against the authors
something indiscreet in the way he looks under- against rising rates of public transport is a particular themselves. This is enough reason to read it, since
neath both common journalistic coverage and offi- expression of a wider problem. In the end, the chron- it is not a purely descriptive presentation of pub-
cial censorship. Of course, it has nothing to do with ic inability of the Welfare State to fulfill its promises lic debate in contemporary Brazil. In a sense, the
idealizing North Korean society, which is certainly underlies the protests. Symptoms may vary in time book forces the reader to engage in a defined po-
far away from Paradise. However, one should also and space, but they originate in the same disease. litical orientation, to commit him/herself, some-
notice that the rest of the world has not succeeded The authors do address the objective aspects thing most protesters have been unable to do. It
in recreating the Garden of Eden-style landscape. of Brazilian social reality that contextualize the displays a political program and a conception of
It is about applying the same standards. protests. A brief retrospect of the increase in social transformation as an answer to the gener-
Having abandoned the clichés, the shutter time spent commuting in São Paulo over the past al social unrest. As readers position themselves
records the particularities of local culture. One three decades, and the exponential increase in either for or against this political program, con-
should not forget, nevertheless, that by recog- the homicide rate – that victimizes black youths flicts that were long ignored in Brazilian society
nizing the specificities, we also recognize what disproportionately – could already indicate the have now become conspicuous.  — J
culture and art

moment the future Third Secretaries did not re- Room) which opens onto the Palace’s rooftop gar-
culture and art alize that the panel, at first glance inconspicuous, den. Created by the Douchez-Nicola Atelier, the
was, in reality, a hidden piece of art by artist and wool tapestry is composed of five different parts.
architect Athos Bulcão. Together, Burle Marx, Named “Vegetation of the Central Plateau”, the
Oscar Niemeyer and Athos form what we classi- work represents the native plants of Brazilian sa-
fy here as the “Modernist Triad”. vannah (cerrado).
Inspired by the image of the “free and sensual The last member of the Modernist Triad,
curve”, Oscar Niemeyer used his pencil to project Athos Bulcão, is considered “the artist of Brasilia”.
a façade of arches that is at the same time imposing His work is dedicated to promoting society’s dai-
and ethereal, floating with lightness over the body ly interaction with art; more often than not, the
of water that surrounds the Palace. Niemeyer’s population ends up bumping into his works almost
preference for abstract shapes and curves is pres- by accident. That was the case with the Third-
ent in various aspects of Itamaraty Palace’s archi- Secretaries of 2012, who, without realizing, were
tectural project. As one walks through the build- surrounded by a panel of the artist’s when turn-
ing’s open spaces, there is a feeling of spaciousness ing in their pre-admission exams. This fortu-
and infinite vastness. In the middle of a free span of itous contact with art, even in the course of bu-
over 2.000 m2, a sinuous spiral staircase emerges, reaucratic activities, is somewhat of a routine to
connecting the auditorium, the ground floor and those who work at Itamaraty. There are works of
Architecture, the Palace’s mezzanine. The trademark simplicity Athos Bulcão throughout the Palace’s free span, at
of Niemeyer’s lines conveys elegance and grace to the Brazilian diplomatic academy (Instituto Rio
gardens and mosaics: those who visit or work at Itamaraty. Branco), the Medical and Social Assistance Service
Le Corbusier, one of Niemeyer’s influences, (SAMS) and the footbridge between Annexes I
The Modernist Triad conceived guidelines known as “The Five Points and II, not to mention the Brazilian Embassies
of a New Architecture”, namely: free design of the in Lagos, New Delhi, Buenos Aires and Praia. By
and Itamaraty ground plan (the walls do not have a structural role), mixing colors and geometric forms, Athos Bulcão
free façade (non-supporting walls), ribbon win- creates unusual mosaics and panels without pre-
Portuguese version page 80 dows or fênetre en longueur (strips of elongated established patterns.
— windows surrounding the building), pilotis (rein- The works of Oscar Niemeyer, Burle Marx
Carlota de Azevedo Bezerra Vitor Ramos forced concrete stilts) and rooftop gardens (place- and Athos Bulcão at Itamaraty Palace are com-
and Pedro Tiê Candido Souza ment of green areas on the roof, transforming the plementary in an organic way, resulting in a nat-
top floor into a space for social interaction). In his urally harmonious whole. This harmony derives
On April 20th 1970, the Palace of the Arches was projects, Niemeyer partially or fully applied these from the aesthetic converge