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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE MÚSICA

DANIEL SILVA SANTOS

O ENSINO DE INSTRUMENTOS DE SOPRO NA BANDA


MARCIALDOM PEDRO I DO POVOADO AGUADA, EM
CARMÓPOLIS-SE

São Cristóvão
2016
 

DANIEL SILVA SANTOS

O ENSINO DE INSTRUMENTOS DE SOPRO NA BANDA


MARCIALDOM PEDRO I DO POVOADO AGUADA, EM
CARMÓPOLIS-SE

Monografia apresentada como requisito parcial para


obtenção de grau de Licenciado em Música no
Departamento de Música da Universidade Federal
de Sergipe.

Orientadora:Profa. Dra. Mackely Ribeiro Borges

São Cristóvão
2016
Dedico este Trabalho de Conclusão de Curso à minha
família que tanto me incentivou e me apoiou em todos os
momentos. Agradeço a Deus por isso, que Deus nos
abençoe sempre.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente ao Deus Pai todo poderoso que em sua infinita bondade
nos concede o dom da vida e em todos os momentos nos guia e nos dá a livre escolha de
ir e vir e ser feliz.
Agradeço a todos da minha família que sempre acreditaram em mim, dando cada
qual a sua contribuição nos aspectos morais. Aos meus pais José Israel e minha mãe
Dayse Santos por me colocarem nesse mundo e poder chamá-los de pai e mãe.
À minha esposa Miriam e aos meus filhos Carlos Eduardo e Danielly Silva por
terem compreensão, pois estive muitas vezes ausente como pai e esposo por conta dos
trabalhos acadêmicos.
Aos meus colegas de curso com os quais trabalhei junto.
Aos colegas, dirigentes, alunos e a todos que fazem parte da família Banda
Marcial Dom Pedro I do povoado Aguada em Carmópolis-SE.
Aos professores de instrumentos de metal com bocal da Banda Dom Pedro I.
A todos os professores do Departamento de Música da UFS com os quais me
identifiquei e em especial a Profa. Dra. Rejane Harder a qual foi minha orientadora em
todos os estágios obrigatórios e também do PIBID.
A Profa. Dra. Mackely Ribeiro Borges que dedicou muito do seu tempo para que
este trabalho acontecesse da melhor forma possível.
RESUMO

Este trabalho objetivou descrever os procedimentos da metodologia do ensino de


instrumentos de sopro na Banda Marcial Dom Pedro Ido povoado Aguada em
Carmópolis SE. A metodologia utilizada foi baseada em coleta de material bibliográfico
e observações das atividades da banda. Como resultado, a pesquisa traz um breve
histórico das bandas de música no Brasile a caracterização de quatro variações de
bandas que são mais evidentes devido à presença simultânea das mesmas em muitas
cidades brasileiras: banda de música militar, civil, sinfônica e estudantil ou marcial.
Quanto à Banda Marcial Dom Pedro I, a pesquisa apresenta a sua história, o seu
contexto onde ela acontece (a cidade de Carmópolis-SE), a sua atuação e importância
para a comunidade e a sua metodologia focada no ensino de instrumentos de sopro com
bocais: os professores, as aulas, os ensaios, as apresentações, desfiles e os campeonatos
como elemento facilitador da aprendizagem. Por fim, diante dos aspectos apontados,
pretendemos que este trabalho sirva de incentivo para futuros estudos referentes ao
ensino de música em bandas escolares, mais especificamente em Sergipe.

Palavras-chave:Banda Marcial Dom Pedro I. Ensino. Instrumentos de sopro da família


dos bocais.
SUMÁRIO
 
AGRADECIMENTOS ................................................................................................... 4
RESUMO ......................................................................................................................... 5
1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 7
2. AS BANDAS DE MÚSICA NO BRASIL ................................................................. 9
2.1. BANDAS DE MÚSICA: SIGNIFICADOS E VARIAÇÕES ............................. 9
2.2. HISTÓRICO DAS BANDAS DE MÚSICA NO BRASIL ............................... 10
2.3. AS BANDAS MILITARES ............................................................................... 13
2.4. AS BANDAS CIVIS .......................................................................................... 16
2.5. AS BANDAS SINFÔNICAS ............................................................................. 21
2.6. AS BANDAS MARCIAIS ................................................................................. 22
3. A BANDA MARCIAL DOM PEDRO I .................................................................... 37
3.1. CARMÓPOLIS: FRAGMENTOS HISTÓRICOS ............................................ 37
3.2. A ORIGEM DA BANDA MARCIAL D. PEDRO I .............................................. 39
3.3. A IMPORTÂNCIA DA BANDA PARA A COMUNIDADE .......................... 43
3.4. A BANDA COMO MEIO DE INSERÇÃO SOCIAL ....................................... 45
3.5. COMPOSIÇÃO DA BANDA NOS ASPECTOS FÍSICOS E QUANTITATIVO
INSTRUMENTAL. ................................................................................................... 46
3.6. A EDUCAÇÃO MUSICAL NAS BANDAS: METODOLOGIA DE ENSINO47
3.7. A METODOLOGIA DE ENSINO DE INSTRUMENTOS DE SOPRO DA
FAMÍLIA DOS METAIS COM BOCAL DA BANDA MARCIAL DOM PEDRO I.51
3.7.1. Finalidade ................................................................................................. 51
3.7.2. Os professores........................................................................................... 51
3.7.3. As aulas ..................................................................................................... 53
3.7.4. Os ensaios .................................................................................................. 55
3.7.5. As apresentações e os desfiles.................................................................. 56
3.7.6. Os campeonatos: motivação como elemento facilitador da
aprendizagem ..................................................................................................... 57
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................... 60
REFERÊNCIAS............................................................................................................ 62
  7  

1. INTRODUÇÃO

As bandas de música têm contribuído de forma significativa para a formação de


profissionais instrumentistas de sopro no Brasil inteiro. É notório que as bandas têm
ampliado seus espaços de atuação no sentido significativo de cooperação para a
interação social e cultural das comunidades onde estão inseridas.
As primeiras instruções musicais com instrumentos de sopro que tivemos foi em
uma banda escolar que se denominava banda marcial. Porém, hoje podemos dizer que,
na verdade, era uma banda escolar de fanfarra com cornetas lisas. Após a participação
em algumas entidades denominadas bandas de música ou filarmônicas, iniciamos uma
trajetória na regência da Banda Marcial Dom Pedro I no ano de 2010. Ao se deparar
com uma realidade que geralmente acontece com as bandas de música nas cidades do
interior, que é o fato de o próprio regente ser o professor de quase todos os instrumentos
da banda, e depois em um momento posterior o fato de conquistar o espaço e condições
de ter dois professores de instrumentos de metais com bocal, surgiu o interesse de
analisar e descrever a metodologia que usamos na banda.
Durante os primeiros meses como regente, podemos perceber uma dificuldade
de manter a tradição, ou seja, de dar continuidade ao trabalho que já vinha sendo
realizado pelos que anteriormente passaram pela direção da banda. Aspectos como a
escolha de repertório que pudesse despertar nos componentes da banda um interesse e
entusiasmo de participar. De modo que, com essa realidade, podemos questionar se as
dificuldades citadas acima poderiam influenciar, direta ou indiretamente, a forma de
ensinar música neste contexto educacional, pois existe uma literatura que discute as
questões metodológicas na banda de música. Nosso embasamento teórico contou com
autores como Barbosa(1996), Binder (2006), Cajazeira (2004), Campos (2008), Cislaghi
(2009), Higino (2006), Lima (2006), Nascimento (2006), Vargas (2006), Vecchia
(2008), entre outros, que investigam os diversos métodos utilizados pelos regentes ou
professores no ensino musical em bandas. Alguns autores como Cislaghi (2009), Pereira
(apud VECCHIA, 2008) e Vecchia (2008) afirmam que, mesmo com o aumento das
pesquisas sobre bandas de música, poucos são os dados sistematizados sobre o processo
de ensino e aprendizagem de música nessa área.
Deste modo, este trabalho pretende discutir a seguinte questão: como é a
metodologia de ensino de instrumentos de sopro da família dos bocais na Banda
  8  

Marcial Dom Pedro I do povoado Aguada em Carmópolis SE? Para responder essa
indagação, foi adotada uma análise descritiva da metodologia que os professores
utilizam na banda. Os dados foram coletados através de observação indireta e descrição
dos fatos.
Com o propósito de esclarecer a questão levantada, este trabalho foi elaborado
respeitando a seguinte estrutura: seguindo à Introdução, o capítulo II faz uma curta
abordagem dos diferentes significados atribuídos ao termo banda de música, além de
um breve histórico das bandas de música no Brasil e a caracterização de quatro
variações de bandas que são mais evidentes devido à presença simultânea das mesmas
em muitas cidades brasileiras: banda de música militar, civil, sinfônica e estudantil ou
marcial.
O Capítulo III tem como foco a Banda Marcial Dom Pedro I, iniciando com
uma breve exposição sobre cidade de Carmópolis e seguindo com a história da banda, a
sua importância para a comunidade e a metodologia aplicada no ensino de instrumentos
de sopro da família dos metais com bocal: sua finalidade, os professores, as aulas, os
ensaios, as apresentações, os desfiles e os campeonatos como elemento facilitador da
aprendizagem.
Nas considerações finais há uma breve abordagem a respeito do conteúdo e
informações obtidas, os quais possibilitaram uma discussão concisa acerca dos
questionamentos levantados no decorrer deste estudo.
Além das motivações pessoais para a realização desta pesquisa, pois o autor
deste trabalho é o próprio regente, este trabalho justifica-se pela necessidade de
ampliação e discussão sobre as metodologias utilizadas no ensino de música nas bandas
que realizam trabalhos como a Banda Marcial Dom Pedro I em foco neste trabalho.
  9  

2. AS BANDAS DE MÚSICA NO BRASIL

2.1. BANDAS DE MÚSICA: SIGNIFICADOS E VARIAÇÕES

Os significados que se referem à banda de música são tratados de diferentes


formas por diversos autores e trazem conseqüentemente várias conceituações na
literatura sobre bandas. As significações ou conceitos de banda não têm um caráter
absoluto, provavelmente devido aos diversos tipos de bandas existentes e a função de
cada uma em épocas distintas, desde sua criação até os dias de hoje.
Há autores que definem banda de forma generalizada e abrangente, outros
especificam suas características instrumentais, descrevendo suas respectivas
denominações e finalidades. Tais definições se alinham e contribuem para uma melhor
compreensão do termo “banda”. Existe uma grande variedade de tipos de bandas, das
quais podemos citar as mais conhecidas: Banda de música militar, Banda de música
civil, Banda sinfônica, Fanfarra e Banda marcial. Porém, sabendo da existência de
outras categorias e que novas surgem a cada época, como, por exemplo, as bandas
escolares ou estudantis que provavelmente deram origem as bandas marciais em
Sergipe, podendo haver controvérsias quanto aos seus significados. Neste capítulo
trataremos da caracterização de quatro variações que são mais evidentes devido à
presença simultânea das mesmas em muitas cidades brasileiras: banda de música
militar, civil, sinfônica e estudantil ou marcial.
Sobre este assunto, Sadie (1994, p. 71) no Dicionário Grove de Música define
banda como:
Conjunto instrumental. Em sua forma mais livre, “banda” é usada para
qualquer conjunto maior que um grupo de câmara. A palavra pode ter origem
no latim medieval bandum (“estandart”), a bandeira sob a qual marchavam os
soldados. Essa origem parece se refletir em seu uso para um grupo de
músicos militares tocando metais, madeiras e percussão, que vão de alguns
pífaros e tambores até uma banda militar de grande escala. Na Inglaterra do
sec. XVIII, a palavra era usada coloquialmente para designar uma orquestra.
Hoje em dia costuma ser usada como referência a grupos de instrumentos
relacionados, como em “banda de metais”, “banda de sopros”, “bandas de
trompas”. Vários tipos recebiam seus nomes mais pela função do que pela
constituição (banda de dança, banda de jazz, banda de ensaio, banda de
palco). A banda destinada para desfiles (marching band), que se originou nos
EUA, consiste de instrumentos de sopro de madeiras e metais, uma grande
seção de percussão, balizas, porta-bandeiras etc. Um outro desenvolvimento
moderno é a banda sinfônica de sopros, norte-americana, que se origina de
grupos como Gilmore’s Band (1859) a US Marine Band, dirigida por John
Philip Sousa.
  10  

Segundo Reis (1962, p. 10), “Denomina-se Banda de Música um conjunto musical


constituído de instrumentos de sopro (de madeiras e de metais) e de percussão”. As
funções que as primeiras bandas desempenhavam não diferiam muito das atuais. O
autor Dalmo da Trindade Reis (1962) faz um relato que a partir do século XIV surgiram
as primeiras bandas formadas por grupos (bandos) de músicos executantes, cuja
finalidade era garantir a alegria e o brilhantismo das festas dos palácios ao ar livre. A
partir do século XVII as bandas começam a se organizar de uma melhor forma, do
ponto de vista artístico, tendo início a sua difusão pelos países da Europa, especialmente
na França, Alemanha e Itália, países nos quais ocorreu um maior florescimento desse
gênero de música.

Nos dias atuais podemos especificar as bandas de música em quatro categorias


principais com suas respectivas funcionalidades: as bandas militaresidentificadas como
instituições voltadas às necessidades militares;as bandas civis voltadas para o
atendimento às necessidades da comunidade; a banda sinfônica direcionada a um
público específico com prioridade no aprimoramento da performance musical; e as
bandas estudantis ou marciais responsáveis pela contribuição na formação musical e que
compõem o cenário cultural em muitos municípios dos estados brasileiros.

2.2. HISTÓRICO DAS BANDAS DE MÚSICA NO BRASIL

A história das bandas de música no Brasil tem seu marco inicial no período
colonial. Pelo menos é o que nos aponta a literatura. Mariz (1983, p. 37), quando
menciona que, nos primeiros séculos de colonização portuguesa, as músicas que eram
ensinadas no Brasil estavam diretamente ligadas à igreja e à catequese. “Os
Franciscanos e, sobretudo os Jesuítas desempenharam um papel muito importante a
partir do século XVI”.
Com o interesse eminentemente catequético, segundo Kiefer (1977), os jesuítas,
vindos de Portugal para a Bahia em 1549, agrupavam e musicalizavam os índios.
Iniciava a primeira espécie de agrupamento instrumental no Brasil. Entretanto,
conforme Mariz (1983), com o precoce interioramento dos indígenas e a crescente mão
de obra escrava africana, os negros e seus descendentes passaram a constituir os
intérpretes e “criadores de músicas que se fazia no Brasil” (MARIZ, 1983, p.39). Ainda,
  11  

segundo Mariz (1983), “O Francês Laval, que visitou a Bahia em 1610, relata sobre um
ricaço que possuía uma banda com trinta figuras, todos negros escravos, cujo regente
era um francês provençal”.Paralelamente, os padres e os ricos importavam músicas
escritas e instrumentos musicais de Portugal e de outros países da Europa.
Na trajetória da história brasileira, os grupos musicais foram crescendo em
quantidades e formas e, a partir da inserção de instrumentos de sopro e percussão,
atingiram as atuais formações de bandas de música. O grande marco para esse
desenvolvimento foi a chegada da família Real no Brasil, em 1808. Havia uma
preocupação de D. João VI de residir em terra culturalmente desenvolvida e, por esse
motivo, investiu especialmente na cidade do Rio de Janeiro na formação e
aperfeiçoamento das bandas de música (MARIZ, 1983, p. 54).
A banda de música de um modo geral, e independente de sua categoria, faz parte
de um mundo de tradição artístico-cultural de grande importância para a comunidade,
tanto no aspecto de entreter quanto no aspecto educacional. Essa ação de entretenimento
e de educação através da música caracteriza um movimento cultural que se manifesta
em diversas regiões do Brasil e no mundo. No Brasil essas bandas, que também são
chamadas de corporações, lira, Euterpe, filarmônica, entre outros, têm sua origem nos
primórdios da colonização portuguesa, se configurando como forte identidade musical
do país (SILVA, 2012).
Tacuchian (1982) menciona registros que indicam que a primeira banda civil
brasileira que se tem notícia data de 1554, após ser apreciada pelo Padre Manoel Nunes,
que fazia uma viagem de São Paulo a Santos para visitar o colega de ordem religiosa, o
jesuíta Manuel de Paiva. Nessa ocasião, o Padre Manuel constata que a banda é formada
também por músicos brasileiros, porém com a maioria dos integrantes lusitanos. Padre
Manoel que, ao ouvir a execução musical do conjunto instrumental, permaneceu em
estado de encantamento. “Se os índios brasileiros eram musicais, os negros não lhes
ficavam atrás” (TACUCHIAN, 1982, p. 66).

Há informação de que as bandas de música, formadas por escravos africanos e


seus descendentes, se mantiveram no período da colonização em várias fazendas do
interior do Brasil (TACUCHIAN, 1982). Assim, tais conjuntos se estabeleciam pela
miscigenação de etnias indígenas, de negros africanos e de portugueses. Porém, outros
povos imigrantes também participaram desse processo de consolidação das bandas, a
exemplo dos italianos, alemães e holandeses (VERÍSSIMO, 2005).
  12  

No início do período colonial no Brasil, as bandas não tinham o mesmo formato


de hoje. As bandas antecessoras eram denominadas de “Charameleiros”, e eram
formadas por escravos instrumentistas de sopro e percussão. O termo “Charameleiro”
abrangia não só os tocadores da charamela (instrumento de palheta dupla, de som
estridente, ancestral do oboé e do fagote), mas também outros instrumentos de sopro
como a trombeta, a sacabuxa, além de outros instrumentos de percussão como os
atabales e a marimba (KIEFER, 1977).

Regis Duprat(apud KIEFER, 1977, p. 15), faz um breve comentário em seu


trabalho sobre a música na Bahia durante o período colonial: “não falamos do solfista
negro ou mulato mantidos nas bandas ou empregados nas serenatas pelos aristocratas”.
Sobre esse mesmo assunto, Francisco Curt Lange(apud KIEFER, 1977, p. 15), em um
de seus trabalhos sobre a música mineira do século XVIII diz:

Era coisa normal, coisa de bom tom e sinal de distinção, ter negros
choromelleyros no inventário duma casa de gente abastada. Os choromeleiros
aparecem abundantemente citados nas procissões e actos públicos gerais de
Villa Rica e Mariana.

Costumavam vestir bem os negros músicos. Além disso:

Devem ter possuído um repertório especial, de alto nível artístico, o que


implica conhecimento solfejo e teoria da música. Não estamos longe, indo
por este caminho, de explicar com claridade que o conhecimento da
literatura musical erudita chegava facilmente aos ouvidos do povo por uma
classe que representava a ponte... (LANGE, apud KIEFER, 1977, p. 15).

Também Vicente Salles(apud KIEFER, 1977, p. 15), estudioso da vida musical no


Pará, durante o período colonial, traz o seguinte testemunho: “Alguns senhores de
engenho acumularam vastas riquezas e possuíam grande escravaria. Havia escravos
charameleiros que, com seus instrumentos musicais, alegravam as festas”. E ainda, o
mesmo autor (1977, p. 15):

No governo de João Pereira Caldas (1722-1780), é citado uma orquestra com


12 músicos, negros escravos, composta de timbales, 6 trompas, 2 rebecas, 2
flautas e 2 clarins, e os negros se apresentavam vestidos todos com vestidos
azuis e escarlates, agaloados de galões de seda, com seus barretes nas
cabeças.

Em meados do século XVIII, surge no Rio de Janeiro e na Bahia as denominadas


“bandas de barbeiros” que, segundo Tinhorão (1998), barbeiro era a função
desempenhada por negros libertos ou a serviço de seus senhores que, além de fazer
barba ou cortar cabelos, tinham habilidades de arrancar dentes e aplicar bichas
  13  

(sanguessugas), e que nos momentos de lazer aproveitavam o tempo para se dedicar à


atividade musical. Essas bandas de barbeiros substituíram as bandas de charameleiros
que posteriormente foram substituídas também pelos grupos de choro compostos por
operários e funcionários de indústrias no caso do Rio de Janeiro. Em Salvador, as
bandas militares substituíram as bandas de barbeiros, porém isso aconteceu com o fim
da escravidão que desestabilizou o quadro econômico e social da colônia.

Diferentemente dos charameleiros, que atuavam no meio rural (nas fazendas e nos
engenhos), as bandas de barbeiros historicamente foram os primeiros responsáveis pela
animação cultural do público nos centros urbanos (BENEDITO, 2005). Os barbeiros
músicos não possuíam ajuda financeira ou qualquer incentivo cultural para que
desenvolvessem essas atividades. Pelo contrário, eram muito discriminados por serem
filhos de escravos ou escravos libertos (ALMEIDA, 2010; COSTA, 2011 e
FAGUNDES, 2010).

As bandas de barbeiros contribuíram para a consolidação das bandas militares que


ganharam força após a chegada da família real ao Brasil em 1808, além de também
impulsionarem a consolidação das bandas civis, que até hoje são conhecidas como
“Lira”, “Filarmônica”, “Associação”, “Corporação” etc. As bandas civis foram
influenciadas pelas bandas militares que até hoje se apresentam uniformizadas com
peças que lembram as fardas militares. As bandas de barbeiros e suas variantes também
contribuíram para a formação de muitos gêneros da música popular brasileira, como o
samba, o choro e até o frevo (Recife). Há registros da participação das bandas militares
no carnaval do Rio de Janeiro em 1855 (GOMES, 2008).

2.3. AS BANDAS MILITARES

Segundo Sadie (1994), a expressão banda militar surgiu no final do século XVIII
se referindo a uma banda de regimento. Os instrumentos que constituem o grupo são as
madeiras, os metais e a percussão. A nomenclatura é empregada também a qualquer
grupo que execute música militar, abrangendo sinais e chamadas militares. A banda de
música militar participa de solenidades militares como: posse de comandantes, visitas
de generais, ministros e outras autoridades, executando música, especificamente
  14  

“dobrado”, correspondente a cada patente de oficial superior ou governador


(HOLANDA FILHO, 2010).
Reis (1962) relata que a princípio a banda militar foi idealizada a fim de – com o
seu ritmo marcial que imprime as marchas – causar excitação e ânimo nos soldados,
dando-lhes coragem e despertando sentimento de guerra ao enfrentar o inimigo. Porém,
nos tempos atuais, as bandas militares têm como finalidade acompanhar e adestrar as
tropas em marcha dando ritmo aos movimentos. Um dos momentos marcantes das
bandas militares atualmente são os desfiles cívicos alusivo ao sete de setembro
(Independência do Brasil).
A literatura aponta que as bandas militares surgiram no Brasil no período colonial.
Segundo Kiefer (1977, p. 17), escassas são as informações a respeito das “músicas”
militares no período colonial. Kiefer(apud ALMEIDA, 1977, p. 17), por exemplo, diz
que em Pernambuco estabeleceu-se, em 1645, “uma banda do exército com clarins,
charamelas e outros instrumentos belicosos”.

No Brasil, durante o período colonial, as bandas militares receberam pouca


atenção dos colonizadores. Em geral, o desenvolvimento cultural e musical era lento.
No entanto, segundo Kiefer (1977), as bandas militares advindas da Europa tornaram-se
importantes no desenvolvimento da música instrumental no solo brasileiro.

O estudo da música militar no período colonial é importante do ponto de


vista de formações profissionais, da difusão (e conseqüente comércio) de
determinados instrumentos, da participação de músicos militares em outras
atividades musicais, do ensino, da difusão de repertório e instrumentos na
população, etc (KIEFER, 1977, p 17)

Somente com a vinda da família Real portuguesa é que se evidencia uma


renovação nas bandas musicais militares no Brasil.

Em 1802, determinou-se a organização de uma banda de música em cada


regimento de infantaria, custeado pelo erário régio1, com a chegada da

                                                                                 
1
De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, disponível em <http://www.infopedia.pt/$erario-
regio>. Acesso em: 25 abr. 2016. Erário régio significa:
Órgão de controle dos dinheiros públicos, criado pelo marquês de Pombal em
1761, altura em que foi extinta a Casa dos Contos. Centralizava todas as
funções da tesouraria do Estado. Era presidido pelo inspetor-geral do
Tesouro, cargo que foi exercido pelo próprio marquês de Pombal enquanto
esteve no poder, e estava organizado em quatro repartições ou contadorias-
gerais, com atribuições diferenciadas. Referia-se ao cofre público sob o
poderdo rei. O Erário Régio foi extinto em 1833, passando as suas funções
para o Tribunal do Tesouro Público.
 
  15  

família Real, em 1808, estão registradas as solenidades a que se incorporaram


a tropa e sua música. Com D. João, que era um apreciador da música, vinha a
bordo a Banda da Brigada Real, com dezesseis figuras, que contava com
flauta, clarinete, fagote trompa, trompete, trombone, percussão, regida, talvez
por Bento das Mercês (MEIRA; SCHIRMER, 2000, p. 85-86).

O investimento português a partir de 1808 tornou-se um marco fundamental para


o crescimento das bandas militares no Brasil. A renovação instrumental e a importação
de mestres europeus criaram condições favoráveis para a difusão das bandas musicais
pelo território brasileiro. Nesta mesma linha de pensamento, Tinhorão (1998) cita que
“Apesar das dificuldades, em 1814 começaram a espalhar-se nos quartéis o ensino e a
prática de instrumentos mais atualizados em substituição as antigas bandas, ou ternos e
quartetos, de tocadores de charamelas, pífanos, trombetas, caixas e timbales”
(TINHORÃO, 1998, p. 177).

A continuação da tradição de música instrumental é “garantida a partir da segunda


metade do século XIX pelas bandas militares nos grandes centros urbanos, e pelas
bandas municipais formadas por mestres interioranos, nas cidades menores”
(TINHORÃO, 1998, p. 177).

Alguns estudos têm demonstrado que a banda militar surgiu no Brasil em 1802.
No entanto, a origem da banda militar no Brasil está ligada à vinda da família real em
1808. A sua atuação está ligada às solenidades reais e também se fazia presente nas
visitas e viagens do imperador e nos marcos históricos importantes como a guerra do
Paraguai. O século XIX foi um dos mais significativos períodos para a banda de música
no Brasil, devido à regulamentação da banda militar e, posteriormente, a criação de
corporações musicais militares introduzidas por D. João VI, incluindo a banda dos
Fuzileiros Navais (PEREIRA, 1999).  

A Guarda Nacional foi criada em 18 de agosto de 1831 e resultou numa fase de


crescimento, sendo que era obrigatória a formação de bandas em cada seguimento
militar. Essa obrigatoriedade era determinada por meio de decretos que preconizavam a
criação de bandas em consonância com os modelos europeus. A obrigatoriedade de
bandas de música nos segmentos militares é finalizada no período republicano, a partir
de 1889. Essa prática é incorporada novamente na era Vargas (1930 – 1945), voltada
para o ensino de música através da criação de bandas e fanfarras nas escolas do país
(VERONESI, 2006).
  16  

A partir do século XIX, paralelo às bandas militares, foram surgindo também as


bandas como uma organização civil, chamadas “sociedades musicais”, as quais se
inspiravam nas bandas militares no que diz respeito ao fardamento, às marchas, aos
desfiles e à hierarquia (SILVA, 2012).

2.4. AS BANDAS CIVIS

 
 
De modo geral, Fagundes (2010) define banda civil a partir de sua constituição
instrumental de sopro e percussão. Essa conceituação torna-se insuficiente, uma vez que
toda banda de música seja ela militar, civil, sinfônica, estudantil, marcial, dentre outras
variações, possuem sopros e percussão em sua formação instrumental, impossibilitando
a diferenciação (apesar desta não poder ser adensada por não haver um consenso
conceitual entre autores e conhecedores do tema) das diversas modalidades de bandas
existentes.
Benedito (2005,apud FAGUNDES, 2010), sobre a estruturação instrumental das
bandas civis menciona que elas seguem o modelo europeu, especialmente de Portugal,
em que a constituição instrumental se da basicamente por trompetes, trombones,
saxhorns, clarinetas, saxofones e percussão. Além dos instrumentos citados acima,
atualmente no contexto brasileiro as bandas utilizam também as flautas, flautins,
requintas, trompas, bombardinos e variados instrumentos de percussão como: caixa,
bumbo, pratos, afoxé, ganzá e outros.
As bandas civis com essa formação se identificam com as classes sociais
populares e com as cidades do interior, em contrapartida as grandes orquestras que
realizavam concertos nos teatros das capitais acompanhando pianistas, violinistas,
flautistas, cantores líricos, e outros, eram destinadas a classe alta e intelectual.
A respeito do surgimento das bandas civis no Brasil, Carvalho (2006) afirma que
é no século XIX que, em meio à decadência do ciclo do ouro que, por sua vez, acaba
por comprometer a ostentação e esplendor das cerimônias religiosas, as bandas civis são
criadas, a princípio formadas por músicos militares, e passam a assumir os serviços
eclesiásticos antes realizados pelas orquestras. Essa mudança ocorreu certamente pela
dificuldade no pagamento aos serviços musicais das orquestras. Essa nova categoria de
  17  

banda começa a se proliferar no Brasil em fins do século XIX, sendo estabelecida, na


maioria das vezes, mais de uma corporação em cada povoado.
Entre o final do século XIX e início do século XX, as bandas de música se
tornaram parte integrante de muitas cidades brasileiras. Holanda Filho (2010) relata que
as bandas prestavam serviço, na maioria das vezes, aos partidos políticos no Império e
também na República. Convocava-se a banda para tocar nas festas de igrejas,
funcionando como orquestras sacras, participando em missas solenes e novenas, bem
como ao ar livre, em procissões, na recepção de figuras ilustres, inaugurações, desfiles
cíveis, festas folclóricas, posse de prefeitos, vigários, juízes, bispos, no futebol, no circo
e nos enterros. Havia em algumas cidades mais de uma banda que geralmente detinha a
função de servir aos partidos políticos, sinalizando a imagem do poderio econômico do
lugar. Holanda Filho (2010) faz um relato curioso do que acontecia no período
republicano: a maioria das bandas, como uma organização civil, eram ligadas aos
partidos políticos e esses eram rivais entre si, e as bandas conseqüentemente
correspondentes a esses partidos também eram rivais. Essa rivalidade se evidenciava nas
apresentações, onde os conflitos que existiam se transformavam em violência com
agressões físicas que, algumas vezes, chegavam a óbito. Mesmo com o fim dos dois
partidos no regime republicano (situação e oposição), as bandas tiveram como herança o
instinto competitivo constatado até os dias atuais, especialmente nas cidades que
possuem mais de duas bandas, porém as competições, nesse novo momento, giram em
torno de agressões verbais e intrigas (HOLANDA FILHO, 2010).

Sobre esse mesmo assunto, Liberato (2007, p. 18), em sua dissertação de


mestrado, relata que essa mesma rivalidade aconteceu entre duas bandas da cidade de
Itabaiana – SE, entre o final do século XIX e início do século XX:

A parte cultural mais ativa era ainda a presença de duas filarmônicas, a Nossa
Senhora da Conceição, a cujos componentes Sebrão, sobrinho chamaria de
conceiçoanistas, e a Santo Antônio. Infelizmente, as duas, independente do
brilho, se perdiam na rivalidade política local, vestindo como era de praxe,
camisas partidárias. A Filarmônica N. S. da Conceição reverenciava o
Coronel José Sebrão de Carvalho. A filarmônica Santo Antonio batia
continência para o Dr. Manoel Baptista Itajahy. A música era a única atração
cultural para os homens, independentemente da profissão. Alfaiates, carpinas,
sapateiros, pedreiros, comerciantes, ricos, pobres e remediados, todos
aprendiam música para encher o tempo, visto que, além da profissão, não
havia mais o que fazer. Daí as bandas serem numerosas, principalmente a
Nossa Senhora da Conceição.
  18  

As bandas civis de amadores se multiplicaram por todo o país, principalmente no


interior do Brasil e foram aos poucos assumindo as atividades das bandas militares.
Geralmente essas bandas civis tinham no quadro de músicos, assim como também os
regentes, músicos militares reformados (VERÍSSIMO, 2005).

Com o exposto, fica evidente que as bandas civis desenvolveram-se a partir das
influências das bandas militares. Essas influências se deram a partir da atuação dessas
bandas fora dos quartéis, com apresentações públicas em coretos, praças, desfiles, festas
de igrejas, procissões etc. Nesta mesma linha de pensamento, Tinhorão (1998, p. 180)
afirma que:

centenas de músicos de origem popular encontravam a oportunidade de viver


de suas habilidades e do seu talento, contribuindo para identificar com o
povo, através da música de coreto e de festas cívicas, um tipo de formação
instrumental muito próximo das orquestras de elite. E a prova de que a ação
das bandas militares extrapolava realmente suas funções restritas é que os
próprios civis imitavam sua formação, criando bandas semelhantes para tocar
música de baile ou de coreto, de praça [...]

A banda musical civil tem em sua formação pessoas de várias classes sociais da
comunidade local. Conforme cita Dal Ré (apud SANTOS, 2004, p. 20), são
agrupamentos formados “essencialmente de operários, artesãos” que não mantêm
“muita relação com a escola tradicional”. Segundo Santos (2014, p. 20), os músicos “se
reúnem pelo prazer de tocar e pelos aspectos sócios musicais do fazer música”. Nessa
mesma linha de pensamento, Cançado (2003, não paginado) diz:

As filarmônicas das cidades interioranas são o centro de atividade musical


mais importante de uma região. A elas muito se deve de estímulo e de
aperfeiçoamento dos modestos artistas que residem longe das cidades
grandes. Há localidades que possuem mais de uma banda, abrigando homens
de várias categorias sociais como médicos, barbeiros, advogados, padeiros,
etc. Todos reunidos em torno de um Ideal comum – a música2.

As bandas civis muitas vezes são apelidadas, recebendo nomes como Furiosa,
Esquenta Mulher, Quebra Resguarde, Carne Seca, Rabuja, Pirão D’água, Espanta Gato,
Pelada dentre outros mais. Estes apelidos se davam quanto a questões de afinação,
garbo, fardamento e número de integrantes (HOLANDA FILHO, 2010).

A partir de 1930, surge uma nova categoria de banda de música nas igrejas
evangélicas do país, formadas por membros das igrejas, que executavam músicas

                                                                                 
2
Disponível em: < http://anovademocracia.com.br/no-6/1251-a-banda-de-musica-e-a-alma-do-povo>.
Acesso em: 30 abr. 2016.
  19  

religiosas, cívicas e clássicas realizando apresentações apenas de caráter religioso ou


cívico (HOLANDA FILHO, 2010). No entanto, a maioria das bandas dessas diferentes
categorias não recebem respaldo financeiro suficiente para desenvolver com maior
eficiência esse papel. Enfrentam, em geral, sérias dificuldades para aquisição de
instrumentos e acessórios, partituras, manutenção, transportes, custeio de regentes e
professores. Sobre esse assunto, Santos (2004, p.15) afirma que essas bandas fazem uso
de “estratégias de sobrevivência”, táticas que visam atrair o apoio da comunidade, de
empresas, sociedades privadas e benfeitores. É notório que, apesar do que foi exposto,
as bandas civis ainda existem e estão espalhadas por todo o Brasil.

No início do século XX, as bandas eram formadas exclusivamente por homens, as


mulheres ainda eram excluídas das bandas e a elas só caberiam estudar o piano, ou
raramente a flauta, pois nas casas das pessoas que tinham uma melhor condição social
haviam um piano nas salas de visitas, onde eram realizados saraus, noites de música
com cantorias de árias de óperas e modinhas. As mulheres só começaram a participar
das bandas de música como instrumentistas a partir da década de 1970, porém somente
nas bandas civis, devido ao veto de ingresso das mulheres nos quadros das bandas
militares (HOLANDA FILHO, 2010). Nos dias atuais, somente o exército exclui as
mulheres em suas bandas, enquanto a marinha, a aeronáutica e a policia militar já
contam com a presença feminina nos quadros de suas bandas.

Quando se fala de banda de música, não há como não associá-las com a história
da música popular brasileira, devido a essa corporação representar e ser a grande
difusora e mantedora de vários gêneros musicais populares do século XIX. De acordo
com Holanda Filho (2010), essas entidades são grandes divulgadoras das músicas e
danças oriundas da Europa e trazidas para o Brasil como, por exemplo, a valsa, surgida
na França em finais do século XVI, chegando ao Brasil por volta de 1837. A polca, uma
dança que teve origem na Bohemia, foi dançada no Brasil pela primeira vez em 1845,
vindo depois o scotish de origem inglesa, em 1851. Posteriormente surge o maxixe, o
primeiro gênero de música urbana criada no Brasil, aproximadamente em 1870. O
maxixe mesclava a habanera, a polca e o lundu, esse último de origem africana. Pode-se
ainda acrescentar as danças mazurca, gavota e quadrilha. Assim, as bandas de música
executavam em seu repertório as danças européias e ritmos africanos trazidos pelos
escravos que se abrasileiravam ao chegarem ao Brasil pelo porto do Rio de Janeiro.
Além disso, Granja (1986) observa que as bandas se constituíram como núcleos
  20  

formadores dos músicos que faziam parte dos primeiros grupos de chorões do final do
século XIX.

Ao falar de tradição, é necessário ressaltar que o repertório das bandas de música


do final do século XIX que era bastante eclético: marchas e dobrados militares, polcas,
mazurcas, schottisches, gavotas e até mesmo trechos de óperas adaptadas para bandas
de música. Porém, o gênero preferido e mais profundamente identificado com os sons
da banda é, sem dúvida, o dobrado.

Nos arquivos das bandas de músicas mais tradicionais, o dobrado é quem


predomina. Regis Duprat (2008 apud GRANJA, 1984, p. 19), afirma e justifica esse
gênero como sendo criado especificamente para ser tocado por esse tipo de grupo
instrumental.

A origem do dobrado vem dos primórdios da música militar, principalmente nas


cadências utilizadas pela infantaria, que eram marcadas por tambores e instrumentos de
sopro. O dobrado propriamente dito se originou da necessidade sentida, com o passar do
tempo, pelas bandas militares de aumentar o tamanho das composições existentes para
atender um maior percurso no deslocamento das tropas sem que houvesse a necessidade
de repetir a mesma marcha a cada pequeno espaço de tempo. Desse modo, a marcha
militar, ou seja, o dobrado (música) “foi alterada com uma dobra no número de
compassos, de 16 para 32, dentro de cada parte que compõem a forma tradicional desse
tipo de composição”3.

Em alguns trabalhos acadêmicos voltados para bandas de música verificaram-se


alguns gêneros musicais presentes na mídia atual como o frevo, samba, pagode e axé.
Estes estilos citados foram incorporados ao repertório com o objetivo de animar os
ouvintes das bandas de música, sem deixar de lado o repertório tradicional como os
hinos, marchas e dobrados. Assim, as bandas de música passam a ter uma grande
variedade de gêneros musicais em seu repertório. Segundo Vargas (2006), a razão da
escolha dos gêneros musicais varia dependendo do regente e do grupo executante,
observando as características da peça que será executada e também a finalidade do

                                                                                 
3
ROCHA. José Roberto Franco da. O Dobrado:Breve Estudo de um Gênero Musical Brasileiro. Artigo. Disponível
em:<WWW.liraserranegra.org.br/dobrado.pdf.> Acesso em: 04 de mai. de 2016.
 
  21  

evento onde esse grupo estará se apresentando, podendo apresentar desde música de
concerto e ópera a grandes sucessos de música popular.

A banda de música é uma grande divulgadora da música popular brasileira não só


pela inserção em seu repertório, mas também pela realização das primeiras gravações de
discos. Tacuchiam (1982) relata que, em 1902, a Casa Edson faz o lançamento de seus
primeiros discos com música popular brasileira, gravados pela banda do Corpo de
Bombeiros ou pela banda da Casa Edson. Várias outras bandas se evidenciaram em
sucessivas gravações que até os dias atuais se constituem como verdadeiras
preciosidades para quem coleciona obras musicais. Outras bandas, a exemplo da banda
da Casa Faulhaber, da Escudeiro, do 10º Regimento de Infantaria do Exército e a Banda
Odeon foram contempladas com selo Favorite Record.

No entanto, a história da banda de música, com relação à formação musical de


seus músicos, não se encontra ligada apenas à música popular. Grandes e competentes
personagens da música obtiveram sua formação musical nas bandas militares, civis ou
até mesmo em bandas escolares. O músico Carlos Gomes, considerado o maior operista
das Américas, deu inicio a sua formação na banda fundada por seu pai em Campinas -
SP. Francisco Braga, conhecido como “Chico dos Hinos”, fez sua musicalização de
base na banda da Escola XV de Novembro, criada para atender as crianças órfãs em
Quintino Bocaiuva, no Rio de Janeiro. As origens musicais do compositor José Siqueira
são de uma banda civil criada no interior da Paraíba. O maestro Eleazar de Carvalho deu
início a sua carreira internacional na Banda dos Fuzileiros Navais. A formação e
experiência de nossas orquestras sinfônicas são oriundas das bandas de música
(TACUCHIAN, 1982).

2.5. AS BANDAS SINFÔNICAS

Com base em investigação realizada por intermédio de entrevista e a partir do


dicionário Harward de música (2001), Fagundes (2010) conclui que a banda sinfônica,
também conhecida como banda de concerto, caracteriza-se por possuir uma maior
diversidade de instrumentos, com alguns típicos de orquestra sinfônica como: oboé,
fagote, tímpano, contrabaixo acústico e violoncelos, sendo esse o fator diferencial das
bandas civis. Para comportar todo o material utilizado em um grupo deste porte, é
  22  

necessário lugares apropriados que irá influenciar em uma boa acústica importante para
um bom desempenho na performance e no repertório.
A banda sinfônica tem uma formação profissional e possui a estética sonora-
musical fundada na música erudita bem como a orquestra sinfônica. Por conseguinte, a
banda sinfônicaé construída a partir de uma instrumentação mais variada, em
comparação de uma banda civil, e é voltada para uma ideologia estético-musical erudita
calcada nos moldes europeus e norte-americanos.
De acordo com Fagundes (2010), a função que a banda sinfônica exerce está mais
relacionada ao papel do ouvinte que é prestigiar e apreciar o concerto, cabendo a banda
o papel de entreter o público, buscando a melhor performance (caracterizada pelos
princípios eruditos) através de sua riqueza timbrística. A banda sinfônica toca em
ambientes fechados com música destinada apenas a uma pequena parcela de pessoas
que freqüentam os lugares onde se apresentam a exemplo das salas de concertos e
teatros, diferentemente da banda civil, que se apresenta geralmente em ambientes
abertos.

2.6. AS BANDAS MARCIAIS

Na busca de um consenso sobre a definição do que seja banda marcial,


encontramos a seguinte afirmação:
Banda marcial é um grupo formado majoritariamente por instrumentos de
sopro da família dos metais e percussão. Por não ter a família das palhetas, a
execução de grandes peças fica restrita. Seu emprego é próprio para o
deslocamento e evoluções (NASCIMENTO, 2007, apud. SILVA;
FERNANDES, 2009, p. 4).

O significado de banda marcial já havia sido consenso entre romanos. De acordo


com os historiadores, a banda marcial provavelmente foi influenciada pelos gregos os
quais tinham como preceitos a imponência na formação militar, como também a
sensibilidade artístico-musical (LORENZET; TOZZO, 2009). Com base nessas
informações, trataremos de algumas características como os instrumentos, a
denominação, a formação estética das bandas marciais em sua origem.
Os instrumentos empregados na banda marcial são tambores e cornetas. Esta
também pode ser denominada banda de Tambores ou Corneteiros. Reis (1962), afirma
  23  

que o tambor é o mais antigo instrumento de música que teve acentuada penetração na
Grécia, chegando a ser muito conhecido nos países da Europa por meio das Cruzadas.
De acordo com Carvalho (2006), as cruzadas foram o maior movimento militar
ocorrido na Idade Média. Tudo indica que, nessa época, a música não era empregada no
campo de batalha, apesar de estar presente nas cortes e igrejas da Europa. A música só
foi inserida no campo de batalha pelos Cruzados, assim que estes estabeleceram
contatos com seus inimigos, os Sarracenos4. Entre as funções que a música detinha na
comunidade Sarracena, era a de transmitir ordens e designar formações de combate,
causar pavor e medo nos inimigos e ânimo nos soldados. O povo Sarraceno dispunha
dos instrumentos anfil, espécie de corneta possante; o tabor, tambor pequeno, e os
naker, tipo de percussão usada em pares.
Os cruzados, inspirados nos Sarracenos, ao retornarem para a Europa levam
consigo os instrumentos citados acima e a idéia de seus inspiradores de implementá-los
nos combates. Devido à absorção de muitos homens pelos exércitos feudais, a prática de
música marcial foi rapidamente difundida. Por esse motivo, os músicos assumem o
papel de conduzir as tropas tocando em campanhas e durante as marchas vitoriosas
(CARVALHO, 2006).
Existe uma diversidade de instrumentos de percussão a exemplo da caixa de rufo,
caixa de guerra, caixa surda, a qual compreende vários tipos entre os quais: surdo-mor,
surdão, surdo-gigante e outros, bem como o bombo. Dentre esses instrumentos, o surdo-
mor, o surdão e o surdo gigante costumeiramente são utilizados nas bandas marciais.
Com o passar do tempo o bombo começou a ser utilizado principalmente para dar
reforço ao ritmo.
Tomando como base o regulamento da Confederação Nacional de Bandas e
Fanfarras (CNBF) de 2015, as bandas marciais são caracterizadas pela composição das
seguintes categorias instrumentais: família dos trompetes, família dos trombones,
família das tubas e família dos saxhorns; instrumentos de percussão: bombos, tambores,
prato a dois, prato suspenso, caixa clara. Instrumentos facultativos: marimba, trompa,
tímpano, glockenspiel, campanas tubulares e outros de percutir.

                                                                                 
4
“Sarracenos é a denominação de um indivíduo que pertencia a um povo nômade, pré-islâmico, que
habitavam os desertos entre a Síria e a Arábia. [...] Depois, particularmente na época das Cruzadas, o seu
uso estendeu-se a todos os mulçumanos". Disponível em:
<http://www.dicionarioinformal.com.br/sarraceno/>.  Acesso em: 21 mar. 2016.
  24  

Segundo Reis (1962), a organização estética da banda marcial, comumente os


tambores são posicionados à frente das cornetas e geralmente são apresentados em
número igual. Alguns instrumentos como o pífaro – caracterizado como flauta de
madeira, desprovida de chaves – a gaita escocesa, os pratos e a lira (marcial), podem ser
incluídas na banda, proporcionando o aumento do interesse não apenas pela
originalidade de seu aspecto, mas também, pela variedade de seus timbres (REIS,
1962).
Essas características que estão descritas nos parágrafos acima se constatam nas
imagens que vão auxiliar na representação de algumas variações de bandas marciais a
seguir. Porém, algumas bandas marciais possuem outro tipo de formação em relação ao
agrupamento dos instrumentos como, por exemplo, a Banda Marcial Dom Pedro I que
veremos no decorrer deste trabalho.
O quadro abaixo com nomes dos instrumentos e numeração correspondente
servirá para a identificação dos instrumentos nas figuras 1 a 5.

Instrumentos Numeração Instrumentos Numeração


Pífaro 1 Bombo 7
Gaita escocesa 2 Pratos 8
Corneta 3 Chefe 9
Tarol 4 Mor 10

Caixa de guerra 5 Lira 11


Caixa surda 6

A seguir, as cinco figuras que vão auxiliar na representação de algumas


variações de organização de bandas marciais. Na figura 1, a banda marcial está
agrupada na sua forma mais tradicional. O mor fica à frente do grupo que, além de
conduzir a banda, exerce também o papel de corneteiro. Os instrumentos de percussão
estão na primeira fileira e são constituídos por uma caixa surda, duas caixas de guerra e
um tarol. As cornetas são em número de quatro e ficam ordenadas na segunda fila.
  25  

10  

6         5               5                 4  

3           3     3                     3
 

Figura 1: formação mais tradicional da banda marcial baseada em Reis (1962).

Nas figuras 2 e 3 a instrumentação é organizada igualmente ao primeiro quadro,


porém, com uma quantidade maior de instrumentos de percussão e cornetas além do
acréscimo de um bombo na figura 3.

10  

   5                  5                          5                      4  

 5                        5         6                             6  

 3   3       3                                  3  

3                                  3                    3                   3  

Figura 2 : formação tradicional com mais instrumentos baseada em Reis(1962)


  26  

10  

5                   5           5             5           4 4  

5                   5                 7             6                   6                 6    

3                   3                     3                   3                   3               3  

3                   3                     3                   3                   3               3

Figura 3: formação com mais instrumentos e um bumbo baseada em Reis (1962)

A figura 4 a seguir representa um modelo de banda com instrumental mais


abrangente, além de todos os instrumentos dos quadros anteriores entram os pífaros à
frente da percussão e a lira na última fileira das cornetas.
  27  

10  

1   1         1             1       1       1           1                    

1   1         1               1           1   1           1  

5     5     5             4 5           5       5  

6     6   7   7   7       6     6  

3     3     3                 3                 3           3       3                                                                                                              

3 3       3 11         3         3     3

Figura 4: formação mais abrangente baseada em Reis (1962)

Como podemos notar através de suas origens históricas, a banda marcial se


identifica ao que conhecemos hoje como banda militar, porém, a banda militar não
exerce a função de comando de guerra e a variedade e quantidade de instrumentos é
bem maior. No contexto brasileiro, a terminologia banda marcial existe em algumas
corporações militares a exemplo da Banda Marcial do Corpo de Fuzileiros Navais
pertencente à Marinha do Brasil, formada aproximadamente por 120 músicos militares
que, tradicionalmente, realizam apresentações e desfiles em público com grande
desenvoltura performática em suas evoluções.
A Banda Marcial do corpo de Fuzileiros Navais é considerada uma das maiores
bandas marciais do mundo, detém uma forte tradição e tem divulgado a Marinha do
  28  

Brasil e o corpo de Fuzileiros Navais. Está estabelecida na Fortaleza de São José da Ilha
das Cobras, situada no interior da baía da Guanabara, pertencente ao estado do Rio de
Janeiro. Ela tem um diferencial que é a utilização de Gaitas escocesas. A banda é
bastante solicitada para apresentar-se em todo território brasileiro, devido a sua
aprimorada técnica nas evoluções executadas pelos seus componentes, causando grande
entusiasmo ao público apreciador. Essa prática tem influenciado a criação de fanfarras
nas escolas brasileiras, considerando a banda marcial um modelo e exemplo para as
bandas escolares. Além disso, essa prática tem contribuído para a manutenção da
tradição de bandas na cidade e principalmente no interior.5

9  

10  

7 7 7   7   7   7   7   7  

4 4 4 4 4 4 4 4  

4 4 4 4 4 4 4 4

5       5     5         5       5     5       5 5  

6     6   6 6   6   6       6   6  

                                                                                 
5
Informação extraída no seguinte endereço eletrônico:
<https://www.mar.mil.br/cgcfn/cfn/marcial.htm>Acesso  em:  02  mar.  2016>.  Acesso  em:  15  abr.  2016.
  29  

8 8 8   8 8     8   8   8  

2     2     2     2     2     2     2     2  

2     2     2     2     2     2     2     2    

1       1     1 1         1   1 1   1  

1     1       1       1     1       1           1 1  

3 3 3     3         3     3     3 3  

3         3     3   3 3       3     3   3  

3         3         3         3       3       3   3   3  

3       3         3         3       3         3       3         3  

3     3         3         3         3       3         3         3  

3         3         3         3     3         3         3         3  

3         3         3         3       3         3         3         3  

3         3         3         3         3         3         3         3  

Figura 5: Formação da Banda do Corpo dos Fuzileiros Navais com toda instrumentação que a
compõe. Fonte: Reis (1962).
  30  

Além da instrumentação, as bandas marciais caracterizam-se por uma série de


elementos que complementam sua significação e que veremos a seguir:

Pelotão cívico: grupo de alunos portando a bandeira nacional, estadual, municipal


e a da escola. Esse grupo não faz evoluções e é ladeado por Guardas de Honra.

Estandarte: aluno que leva a identificação da corporação musical que se


apresenta, juntamente com sua Guarda de Honra. Assim como o Pelotão cívico, esse
grupo não faz evoluções e nem coreografias.

Porta cartel: alunos que levam a identificação da categoria da corporação


musical e que podem fazer evoluções ou coreografias por ser destaque da banda.

Pelotão ou Corpo Coreográfico: formado geralmente por alunas que fazem


coreografias durante a execução das peças musicais executadas pela banda.

Baliza: alunos ou alunas que fazem evoluções, malabarismo e coreografias livres


ou coordenadas à frente da banda.

Mor: condutor do grupo musical no desfile que desempenha as vezes as funções


de diretor musical, ensaiador e regente. O mor tem sob sua responsabilidade a
manutenção da ordem única e a coordenação das coreografias.

Comissão de Frente: grupo de função e número de componentes variável,


encarregado de encorpar e sofisticar as evoluções e coreografias no desfile
(LORENZET; TOZZO, 2009, p. 4897-4898).

A linha de frente também integra o conjunto de características concernentes à


conceituação de banda marcial, se constituindo como um atributo indissociável da parte
musical do grupo, pois é ela que vem colaborando com o abrilhantamento da
performance dessa corporação nas diversas eventualidades, como: desfiles,
campeonatos e apresentações em geral.

Segundo Veronesi (2006), era inexistente a figura da linha de frente nas bandas
em datas anteriores à década de 1950. Só a partir de 1959 a presença da linha de frente
pôde ser percebida em uma das edições do Concurso Nacional da Rádio Record6 e,

                                                                                 
6
Segundo Silva (2012, p.46), a Rádio Record foi pioneira na organização de concursos de bandas
marciais. Atualmente as competições promovidas pela rádio seguem sendo referência, mobilizando
músicos, regentes, balizas, coreógrafos e outros, na busca por premiações e reconhecimentos perante a
comunidade. Nas palavras de Brandani (1985, p. 35):
  31  

mesmo assim, de forma tímida. Porém, essa situação tem mudado com o passar dos
anos, nos dia de hoje, é rara uma banda que não possua a linha de frente em sua
comitiva.

Lima (2007) cita que a linha de frente reúne todo pessoal que desfila à frente dos
músicos instrumentistas, carregando cada qual o seu aparato. Essa servindo como
identificação da corporação: portadores de brasões, porta-bandeiras (estandartes e/ou
bandeirolas), guarda de honra, mor, balizas e corpo coreográfico. O mor se encarrega de
coordenar a movimentação do grupo, em especial a linha de frente por intermédio do
manejo de um bastão. As balizas executam movimentos que podem incorporar passos
de ballet clássico, dança moderna, deslocamento referente à ginástica olímpica e
acrobacias. Faz-se necessário ressaltar o manuseio de objetos como bolas, bastão e
outros. Normalmente, o corpo coreográfico é constituído por jovens do sexo feminino,
que transmitem ao mesmo tempo marcialidade e graciosidade através de sua dança e
gestos.

A linha de frente apresenta similaridades com relação às vestimentas e aos


aparelhos manuais, a exemplo de brasões, escudos, flâmulas, bandeiras, bandeirolas,
espadas e estandartes, característicos das tropas de guerra militares, guardas reais e mais
recentemente, da comissão de frente das escolas de sambas de carnaval (VERONESI,
2006).

A baliza é o componente que mais se destaca entre os que compõem a linha de


frente. Chama a atenção do público por se utilizar do diferencial da dança inspirada em
passos de ballet, ginástica olímpica, jazz, dentre outras danças, enquanto que o corpo
coreográfico e os demais elementos da linha de frente realizam movimentos
coreográficos voltados mais para a marcialidade e efeitos visuais.

Segundo Lima (2007), as balizas desenvolveram sua arte apoiada nos objetivos
das escolas públicas de disciplinar seus alunos (e de suas bandas escolares) através da
formação cívica de uma juventude. Além disso, como mencionado anteriormente,
basearam sua arte em algumas modalidades de ginástica e dança, como também fizeram
                                                                                                                                                                                                                                             
Com o Campeonato de Fanfarras e Bandas da Rádio Record, as bandas
marciais tiveram seu real significado, pois o único a existir realmente a nível
nacional, durante um quarto de século, com apoio de um veículo de
comunicação de massa. Mobilizando milhares de pessoas – público,
estudantes, músicos, profissionais de comunicação -, o Campeonato faz parte
de nossa história musical, por ter mantido viva essa tradição popular.
 
  32  

uma releitura de alguns movimentos proveniente de circo. Porém, essas sob a vigilância
das escolas, para que não fossem admitidos movimentos que remetessem ao burlesco e
à palhaçada, pois o que se predominou principalmente nos campeonatos foram os
elementos da disciplina, do cálculo e do autocontrole do corpo e das emoções.

Como foi dito no início deste subtópico, a banda marcial é uma categoria que tem
em sua origem influências do militarismo grego e que vem sofrendo novas influências
das bandas escolares dos Estados Unidos em muitos aspectos concernentes à sua
conceituação, origem, composição instrumental, repertório, performance, educação
musical, fardamento dos instrumentistas, adereços e indumentária das balizas e que, por
isso, acabam adquirindo novas características que veremos a seguir.

Apresentaremos a definição sobre a banda marcial e seus aspectos levando em


consideração as influências das bandas marciais dos Estados Unidos. O Dicionário
Grove de Música (SADIE, 1994, p. 71) define a banda marcial como sendo “destinada
para desfile (marching band), que se originou nos Estados Unidos, compõem-se de
instrumentos de sopro de madeiras e metais, uma grande seção de percussão, balizas,
porta-bandeiras e etc”. Porém, no que diz respeito ao instrumental, as bandas marciais
brasileiras não seguem o mesmo padrão, pois não utilizam instrumentos de sopro da
família das palhetas.

Como podemos ver anteriormente, a banda marcial consistia originalmente em sua


formação de instrumentos de metais e percussão. Porém, em relação ao instrumental no
ambiente da banda marcial americana, atualmente existe a presença dos instrumentos de
madeiras em sua organização, diferentemente da banda marcial brasileira, que ainda
mantém a tradição de compor suas bandas apenas com instrumentos de percussão e
metais. Neste caso, houve uma mudança na configuração nos metais com a substituição
das cornetas pelos trompetes, dos cornetões pelos trombones e o acréscimo das tubas,
bombardinos e trompas.

Desde o ano de 1998 vem ocorrendo uma mudança com relação ao material de
bandas e fanfarras devido à “americanização” das corporações, que vem introduzindo
técnicas norte-americanas de percussão e evoluções rítmicas, as quais são chamadas
popularmente de coreografias. Além da introdução de evoluções coreográficas na
organização das bandas, novos investimentos estão sendo realizados pelas corporações
com o objetivo de renovar e modernizar o instrumental rítmico, mais uma vez
referenciado na cultura norte-americana. Os instrumentos de percussão inseridos foram
  33  

os denominados snare drum que, traduzido para o português significa caixas tenores
para marcha, bass drum, representando um conjunto de bombos de afinações diferentes
e o tenor drum, correspondendo aos quadritons e quintotons. Esses instrumentos se
tornaram uma novidade no cenário da banda marcial brasileira e contribuíram com o
desenvolvimento da mesma, tornando-a mais enriquecida (VERONESI, 2006).

De acordo com Souza (2010), as bandas marciais brasileiras influenciadas pelas


Marching Band dos EUA, em suas apresentações, principalmente ao ar livre nos
desfiles tradicionais cíveis e campeonatos, estão inserindo evoluções em sua
performance e movimentos corporais remodelados, como a marcha, passando do passo
tradicional “passo alto” pata o “fluid roll step”, um passo de menor altura, com
inclinação pouco acentuada dos joelhos, o que possibilita um impacto menos intenso no
dorso do músico, que se mantém livre para mover-se com facilidade e de forma mais
rápida. Essas mudanças ocasionaram grande impacto nas corporações, fazendo com que
essas adquirissem, em suas apresentações, um caráter de espetáculo e aguçando a
criatividade dos regentes e coreógrafos na produção dos arranjos e coreografias.

Como foi dito nos parágrafos anteriores, as bandas marciais brasileiras sofreram
influências das bandas marciais norte-americanas e essas implicaram em modificações
ou criações de evoluções rítmicas e coreográficas, além de também influenciarem na
escolha do repertório, assunto que veremos a seguir.

O repertório executado pelas bandas de música geralmente é diferente do


repertório das bandas marciais. As bandas de música geralmente incluem em seu
repertório música erudita, música popular brasileira como o samba, o choro, o maxixe, o
frevo, música que faz sucesso através da mídia e o genuíno dobrado brasileiro. Já as
bandas marciais estudantis pouco enfatizam rítmos ou gêneros como esses em suas
apresentações. Normalmente dão preferências as músicas norte-americanas, seja da
mídia ou tema de filmes, talvez motivada pela maior facilidade em obter tais músicas e
arranjos norte-americanos do que os arranjos do repertório brasileiro voltado para
bandas marciais. Talvez essa tendência acontece também pelo simples fato de copiar o
modelo estadunidense pelas influências que as bandas marciais americanas têm sobre as
bandas marciais brasileiras ou, ainda pela dificuldade técnica encontrada nos arranjos
para bandas de música que contém em sua formação instrumental instrumentos de sopro
da família dos bocais (trompetes, trombones, tubas, trompas e bombardinos) e da
família das madeiras (clarinetes, saxofones e flautas), sendo assim restrito para as
  34  

bandas marciais que contém em sua formação instrumental apenas instrumentos de


sopro da família dos bocais (SILVA, 2012, p. 52).

Outro fato que leva as bandas marciais do Brasil a executarem muito pouco o
repertório tipicamente brasileiro é o fato de terem que adaptar ou fazer um novo arranjo
das músicas de bandas de música para banda marcial. Neste caso, na tentativa de
produzir ou pelo menos chegar próximo da sonoridade do naipe de instrumentos de
palhetas de uma banda de música em uma banda marcial, requer uma análise rigorosa
detalhada da comparação de timbres e da tessitura dos instrumentos para que se tenha
um resultado satisfatório.

Essa prática de adaptar ou rearranjar música do repertório de bandas de música


para bandas marciais não é muito comum no Brasil. Isso se dá pelo fato de que a
maioria das bandas marciais serem oriundas de bandas de escolas públicas e o tempo
para se trabalhar com os alunos a prática instrumental é muito curto. Sendo assim, os
regentes de bandas marciais oriundas de escolas públicas acabam optando por arranjos
já prontos e na maioria das vezes arranjos norte-americanos por não poderem
desprender tempo para produzir seus próprios arranjos.

O repertório executado nos campeonatos pelas bandas é predominantemente


composto de obras norte-americanas, como já foi dito anteriormente, havendo
particularmente uma preferência por temas de filmes hollywoodianos. Essa prática se
tornou tão intensa nos campeonatos estaduais, que no ano de 1999uma música brasileira
passou a ser obrigatória na execução das bandas. A escolha pelo repertório
estadunidense é justificada pelo duplo viés de pensamento. Há regentes que contestam a
música do compositor brasileiro, por considerar que não soa bem na banda – embora
exista contradição na afirmação de alguns deles, e pela ausência de arranjos específicos
para banda marcial no Brasil, pois consideram mais fácil conseguir arranjos de
repertórios de bandas americanas como: temas de filme, marchas, clássicos, músicas
populares, jazz e outros gêneros (LIMA, 2007).  

Segundo Lima (2007), existe nos Estados Unidos uma quantidade mais elevada de
cursos destinados à formação de arranjadores e professores para banda. Tais cursos
garantem o aprendizado dos segredos da instrumentação, que determinam quais notas
são mais indicadas para cada instrumento, em conformidade com o efeito sonoro
desejado. Nesse sentido, existe uma significativa produção bibliográfica alusiva às
bandas de música no país, razão pela qual o pesquisador Joel Barbosa (1994), quando
  35  

apresentou proposta e concretizou e seu “Método Elementar para o Ensino Coletivo e


individual de Instrumentos de Banda no Brasil”, teve como fonte de inspiração e
embasamento uma metodologia trabalhada pelos pesquisadores norte-americanos. Esse
fato acaba constatando mais ainda as influências que as bandas americanas têm sobre as
bandas brasileiras.

Falando ainda sobre repertório e arranjos, identificamos o samba – um ritmo


tipicamente brasileiro – que normalmente não é inserido no repertório de campeonatos
de bandas, pois o ethos deste está ligado intrinsecamente ao sentimento nacional
patriótico transmitido nas marchas, um padrão que é tido ainda hoje como referência
para compositores e arranjadores americanos. Esse padrão, de acordo com Lima (2007),
é muito distinto do ethos de samba, pela sua própria raiz histórica. Certamente esse é o
motivo pelo qual as bandas não incluam melodias retiradas do samba em sua execução,
principalmente em campeonatos. “O samba Aquarela do Brasil pode ser visto como
uma execução, uma vez que este representa, pela lembrança de seu texto, um hino de
exaltação ao país. Mas a obra é sempre interpretada em um ritmo que está mais para
marcha do que para samba” (LIMA, 2007, p. 142).

Levando em conta a origem da banda marcial que vem das bandas militares, o que
é priorizado na banda marcial são os ritmos marciais. Contudo, o nome marcial não
restringe a execução de um repertório mais diversificado em outras eventualidades que
não sejam em competições e que permaneçam parados, como apresentações em praças,
parques e outros locais. Isso mostra que não existe uma rejeição do samba, porém

em campeonatos de bandas, prevalece uma identidade estética (visual e


sonora) já estabelecida, delimitada, que dá preferências a determinados
ritmos, favorecendo um repertório cujo ethos reforça a própria identidade
firmada em rituais de competições calcada quase que exclusivamente no
contexto de bandas norte-americanas (SILVA, p. 53,apud LIMA, 2007,
p.142).

Segundo Lima (2007), outro motivo pelo qual as bandas estudantis se referenciam
nas bandas norte-americanas está no almejo e na tentativa de alcançar o mesmo
prestigio usufruído por elas. De tal modo que as bandas que reproduzem o mesmo
padrão estético e sonoro das bandas estudantis estadunidenses têm um objetivo em
promover boas impressões aos jurados de campeonatos, um poder de diferenciação que
também tende a impressionar por vencer dificuldades técnicas. Vale ainda ressaltar que
essa busca da similitude nas bandas dos EUA, significa obter um status mais
aproximado possível das bandas de concerto e orquestras.
  36  

Como foi dito nos parágrafos anteriores que as bandas marciais brasileiras
sofreram influências das bandas marciais americanas, é possível perceber que nos
desfiles cíveis em comemoração ao dia 7 de setembro, nos campeonatos e demais
eventos, que o fardamento utilizado pelas bandas marciais brasileiras é inspirado nos
fardamentos das bandas marciais americanas. Porém, a tradição dos fardamentos pode
estar ligada às bandas de charameleiros conforme apontamos anteriormente deste
trabalho.

Em Sergipe existem várias bandas marciais oriundas das escolas municipais e


estaduais, porém somente duas se enquadram no artigo 17 no tópico 3.1 do regulamento
de bandas e fanfarras da Confederação Nacional de Bandas e Fanfarras (CNBF)7. As
duas bandas são: Banda Marcial Dom Pedro I em foco neste trabalho e a Banda Marcial
do Colégio Olga Benário.

A Educação Musical promovida pelas bandas marciais é outro ponto que não
deixa de ter influência dos Estados Unidos no processo de ensino. Temos como
exemplo dessa interação cultural educacional o Método Da Capo, que foi criado e
publicado no ano de 2000 pelo professor Joel Barbosa, da Universidade Federal da
Bahia. A criação do método teve como embasamento os métodos modernos de ensino
coletivo instrumental dos Estados Unidos. O título original desse método é Adaptation
of American Instruction Methods to Brazilian Music Education Using Brazilian
Melodies e foi traduzido pelo próprio autor quando regressava do seu doutorado nos
Estados Unidos, para Da Capo: Método elementar para ensino Coletivo ou Individual
de instrumentos de banda. No seu trabalho, Joel Barbosa abordou músicas folclóricas
brasileiras, o que motivou de forma muito rápida sua requisição por parte de diversos
mestres de banda e adeptos do ensino coletivo de grupos musicais.

Todas essas influências que vimos anteriormente das bandas marciais norte-
americanas sobre as bandas marciais brasileiras também influenciaram de algum modo
a Banda Marcial Dom Pedro I do povoado Aguada em Carmópolis SE, assunto que
abordaremos no capítulo seguinte.

                                                                                 
7
Art. 17. Tópico 3.1. Banda Marcial:a) Instrumentos melódicos característicos: família dos trompetes,
família dos trombones, família das tubas e saxhorn;b) Instrumentos de percussão: bombos, tambores,
prato a dois, prato suspenso, caixa clara;c) Instrumentos facultativos: marimba, trompa, tímpano,
glockenspiel, campanas tubulares e outros de percutir.
Disponível em: < http://abafavi.webnode.com.br/regulamentos/regulamento-nacional-cnbf/>.
Acesso em: 03 mai. 2016.
  37  

3. A BANDA MARCIAL DOM PEDRO I

Este capítulo aborda a trajetória da Banda Marcial Dom Pedro I. No primeiro


momento a narrativa focará em alguns aspectos da cidade de Carmópolis, a fim de
entendermos o contexto de atuação da banda. O segundo momento apresenta o histórico
da banda e a sua atuação na comunidade e o terceiro momento aborda a metodologia de
ensino de instrumentos de sopro da família dos metais com bocal da Banda Marcial
Dom Pedro I.

3.1. CARMÓPOLIS: FRAGMENTOS HISTÓRICOS

Figura 6: Vista panorâmica da cidade Carmopolis Figura 7: Monte Carmelo8


Fonte:<www.jornaldodiase.com.br>. Acesso em: 14 abr. 2016.

A cidade de Carmopolis está localizada na região leste do Estado de Sergipe a


47 km da capital Aracaju e tem 45,91 km² de extensão territorial. Carmópolis limita-se
com os municípios de Japaratuba ao norte, Rosário do Catete ao oeste, General
Maynard ao sul e ao leste com Santo Amaro das Brotas e Pirambú. Além do centro, o
município possui um povoado chamado Aguada que fica a sete km do centro. O
comércio é bem diversificado e a indústria conta com fábricas de beneficiamento de
coco-da-índia e sabão9.

                                                                                 
8
Monte Carmelo é o principal ponto turístico da cidade de Carmópolis e conta com um restaurante, lojas
de artesanato, altar, parque infantil, velário, projeto paisagístico, iluminação temática, estações da Via
Sacra e também uma grande imagem de Nossa Senhora do Carmo, a padroeira do município, em uma
estrutura com mais de 30 metros de altura, tudo isso em uma extensa área com 7.700m².Fonte disponível
em:<http://www.aquidaba.se.gov.br/noticias/turismo/novo-monte-carmelo-desenvolve-turismo-religioso-
em-carmopolis>. Acesso em: 14 abr. 2016.
9
Informações disponíveils no Blog Sou+Carmópolis. Disponível em:
  38  

Segundo dados do IBGE, através do censo demográfico de 2010, o município


possui uma população de 13.503 habitantes. As principais atividades econômicas do
município são o petróleo, mineração, agricultura, pecuária e avicultura.

Segundo Góes (2002, p. 57), “as referências mais antigas sobre o território que
forma hoje as terras de Carmópolis [...] são de 1575, quando as colunas do conquistador
Cristovão de Barros começaram a invadir Sergipe”. No período entre o fim do período
colonial e início do império surgiu um povoado chamado Rancho. Segundo Góes
(2002, p. 57), o local foi “um ponto de parada de feirantes que ali se aglomeravam e
passavam em comboio para a antiga Mata do Bom Sucesso. Nela existia um quilombo
formado por escravos que fugiam dos engenhos do Cotinguiba e atacavam os viajantes”.

Não se sabe ao certo quando foi mudado o nome de Rancho para Carmo, mas na
Lei Estadual nº 27, de 27 de fevereiro de 189010 já está escrito com os dois nomes,
Rancho e Carmo. A origem do nome “Carmo” pode ter sido pela influência dos freis
Carmelitas da Missão de Japaratuba entre os anos de 1880 e 1890. De acordo com
Góes:

Depois da chegada dos padres Carmelitas, o povoado Rancho passou a se


chamar Carmo. Num ponto mais alto daquelas terras foi instalada a Missão
de Japaratuba e erguida a Igreja de Santana do Massacará. Mas logo depois
os religiosos transferiram a missão para o Monte do Carmo de Japaratuba,
algumas léguas mais adiante. Não se sabe ao certo, mais acredita-se que a
transferência se deu por conta de uma epidemia de varíola. Em 1808 a
população indígena nas terras que formaram Carmópolis chegou a 300
pessoas (GÓES, 2002, p. 57).

O Carmo começa a crescer e é elevada a Vila11, depois, em 1921, a Distrito da


Paz do Carmo12 e depois a emancipação política em 192213 durante o governo de José
Joaquim Pereira Lobo, (24/10/1918 a 24/10/1922). Em 28 de março de 1938, o
município é elevado à categoria de cidade e teve seu nome alterado para Carmópolis em
31 de dezembro de 1943 (GÓES, 2002, p. 57).

Em 15 de agosto de 1963 a Petrobrás descobriu petróleo em Carmópolis, um


marco para a economia e para a história da cidade. De acordo com Góes (2002, p. 58):

                                                                                                                                                                                                                                             
<http://fontesdahistoriadesergipe.blogspot.com.br/2011/01/historia-de-carmopolis-para-o-
concurso_04.html>. Acesso em: 14 abr. 2016.
10
Compilação das Leis e Decretos do Estado de Sergipe, Vol. II – 1892-1893.
11
Lei Estadual nº 83, de 26 de Outubro de 1894.
12
Lei Estadual nº 819, de 07 de Novembro de 1921.
13
Lei Estadual nº 831, de 16 de Outubro de 1922.
  39  

Esse campo abrange os municípios de Japaratuba, Rosário do Catete, Santo


Amaro das Brotas, General Maynard e Maruim, o que o torna um dos
maiores do Brasil. A perfuração inicial do poço de Carmópolis começou no
dia 1º de agosto de 1963 e o teste de produção foi realizado quinze dias
depois. A produção de petróleo naquele poço começou no dia 4 de outubro
daquele mesmo ano, onde eram extraídos cem barris por dia.

Até então, desde o surgimento da pequena povoação denominada Rancho, a


economia baseava-se na agricultura e pecuária. O município chegou a ter uma grande
produção de cana-de-açucar, apesar de não possuir usinas. Na pecuária, o rebanho de
bovinos chegou a ter 4 mil cabeças. Mas a partir da década de 1950, a agricultura e
pecuária tiveram queda significativa até a extinção da cana-de-açucar (GÓES, 2002, p.
58).

3.2. A ORIGEM DA BANDA MARCIAL D. PEDRO I

Figura 8: Símbolo da Banda Marcial D. Pedro I


Fonte: Acervo da Banda.

Em 2002, a pedido do regente atual da banda de música da cidade de Carmópolis,


Otávio Edno Muniz Vieira, o prefeito da época, Volney Leite Alves, autorizou a criação
de uma banda de percussão no Colégio Dom Pedro I, localizado no Povoado Aguada no
município de Carmópolis. Pouco mais de dois anos após a criação da banda de
percussão, que até então continha na sua formação apenas instrumentos de percussão,
  40  

houve a necessidade de introduzir instrumentos de sopro da família dos metais com


bocais, dando origem a atual Banda Marcial Dom Pedro I.
Segundo o regente Otávio Edno Muniz Vieira, da Banda de Música de
Carmópolis, a idéia de criar a banda de percussão do Colégio Dom Pedro I foi com a
intenção de dar uma oportunidade de trabalho na área musical para os instrutores que
assumiram a banda no momento de sua criação até sua transformação em banda marcial,
os quais denominam-se Lúcio Fábio Vieira Santos, Manoel Mendes da Silva Junior,
Marcos Augusto Oliveira Manezes e Raimundo Bernardo, dos quais o primeiro
trabalhava como vigilante noturno pela prefeitura de Carmópolis. Desta forma,
entendemos que a criação da banda foi uma forma de inserção social ou oportunidade de
trabalho e o início da criação de um espaço de educação musical através do ensino de
instrumentos de sopro.
Desde sua criação, como banda de percussão escolar, até a atual formação como
banda marcial, o grupo teve um regente e três regentes auxiliares na fase da banda de
percussão, os quais foram citados no parágrafo acima, e era sediado no Colégio Dom
Pedro I, e quatro regentes a partir do momento que se tornou banda marcial, dos quais o
atual chama-se Daniel Silva Santos, autor deste trabalho.
A Banda Marcial Dom Pedro I enfrentou muitas dificuldades para poder se
manter ativa. Passou por duas gestões de administração, porém na primeira
administração na qual foi criada, a partir do terceiro ano de sua existência em 2005, teve
o apoio da prefeitura na compra do instrumental de sopro (trompetes, trombones, tubas,
trompa, bombardino e fluguels), além dos instrumentos de percussão que já havia
adquirido no momento de sua criação. Desta forma passou de banda de percussão para
banda marcial, porém somente o regente e o professor de percussão eram remunerados.
A partir do ano 2005, quando já era banda marcial, sob a regência do primeiro regente
José Edno Gomes da Silva, a banda passou a participar de campeonatos regionais a
nível norte-nordeste, através de uma confederação que regia esses campeonatos
denominada Associação Norte/Nordeste de Bandas e Fanfarras (ANNEBAF), da qual o
próprio regente era o representante em Sergipe.
Esses campeonatos tinham custos como taxas de participação, taxas de inscrição e
taxa anual de filiação, onde quase sempre os próprios componentes integrantes da banda
custeavam essas taxas. Esse sistema durou até o final do ano de 2008, quando houve
novas eleições para a prefeitura de Carmópolis e, com o resultado das eleições, entra
  41  

uma nova gestora na administração mudando parte do quadro de funcionários, inclusive


o regente da Banda Marcial Dom Pedro I.
Em 2009, com a nova administração de Carmópolis, assume a Banda Marcial
Dom Pedro I o segundo regente, Jean Wagner Alves Souza Muniz, tendo o mesmo
permanecido alguns meses e em seguida o terceiro regente, Beethoven Sales de Assis,
que permanece no comando por apenas um ano, ficando a banda por quase dois meses
sem regente.
No mês de abril de 2010, a convite da diretora da Banda Marcial Dom Pedro I,
Islaneide de Jesus, assumiu a banda o quarto e atual regente Daniel Silva, juntando-se
ao quadro de dirigentes da banda formado pela Presidente Eliana Barbosa, a Diretora
Islaneide de Jesus, o Professor de Percussão Raimundo Bernardo e o professor de
coreografia Eder Araujo, com um grande desafio de dar continuidade ao trabalho,
porém com propostas inovadoras.
Em meio às dificuldades como, por exemplo, a aceitação dos componentes que já
haviam adquirido certo afeto com o primeiro regente, fator que no início do trabalho
dificultou o relacionamento entre o regente e banda em aspectos variados como: a
escolha do repertório, a forma de como ensaiar e como ensinar. Porém, foi sobre a
administração do quadro de dirigentes e o atual regente que a banda conquistou junto à
prefeitura de Carmópolis um sistema de bolsas de estudo, denominada Bolsa Música,
destinado aos alunos como forma de incentivo ao aprendizado musical e também
destinado ao pagamento dos professores, regente e dirigentes da banda.
A seguir imagens da Banda Marcial Dom Pedro I em variados momentos.
  42  

 
Figura 9:Banda Marcial Dom Pedro I em frente à sede. Na parte inferior da foto, à
esquerda, o Coreografo Edinho Soutré, no meio a Diretora Islaneide de Jesus e à direita
o Regente Daniel Silva. Na primeira fileira acima o corpo coreográfico e da segunda
fileira em diante o corpo musical.
Fonte: Arquivo da Banda.

 
Figura 10: Banda Marcial Dom Pedro I em desfile cívico no Povoado Aguada em 2014.
Fonte: Arquivo da Banda.
  43  

 
Figura 11: Banda Marcial Dom Pedro I em uma apresentação Natalina em 2014.
Fonte: Arquivo da Banda.

 
3.3. A IMPORTÂNCIA DA BANDA PARA A COMUNIDADE

Segundo Higino (2006), há nas bandas de música a necessidade de manter suas


tradições. A autora destaca, ainda, que para conservar seus valores, sua identidade
cultural e sua qualidade de vida musical, as bandas têm em suas tradições uma forma de
lutar contra a perda de suas identidades e, assim, garantir a existência do grupo. O
sistema de tradição dentro das bandas de música é algo que transcende gerações e que
através delas se passam laços afetivos. Existem outros aspectos que a autora estabelece
como a hierarquia existente nas bandas de música, que é retratada como sendo algo de
muito respeito.
A tradição em relação ao respeito à hierarquia é passada da seguinte forma: os
veteranos são vistos como pessoas de aura sagrada, pois são os principais componentes
responsáveis por manter a tradição através da transmissão, geração após geração, do
patrimônio cultural do grupo, cultuado pela memória individual e coletiva (HIGINO,
2006).
  44  

Em relação ao contexto social em que as bandas de música são associadas, Higino


(2006) expressa a opinião de que essas bandas exercem pelo menos três funções no seu
contexto de atuação: função comunitária, pedagógica, e de manutenção e preservação
do patrimônio cultural. A autora acrescenta também que esses grupos musicais fazem-se
presentes em momentos importantes e significativos da comunidade. Assim, eles
traduzem sua emoção e valorizam seus rituais. Cajazeiras (2004),quando cita Merriam
(1964), apresenta funções sociais importantes das bandas, como:
Reforço às normas sociais (em rituais religiosos, militares e políticos),
resposta física (em procissão, desfile e bailes de carnaval), continuidade e
estabilidade da cultura, integração social, entretenimento, comunicação,
funções presentes no calendário sob a forma de festejos religiosos, militares,
políticos e culturais. (CAJAZEIRAS, 2004, p.102)

Desta forma, as bandas exercem funções importantíssimas nas comunidades onde


atuam. É notório que há uma diversidade em relação às funções dessas entidades em
vários aspectos da comunidade.
A Banda Marcial Dom Pedro Item um papel importantíssimo na comunidade em
vários aspectos, como a presença em eventos políticos (recepção de autoridades
políticas em solenidades, inaugurações de praças ou prédios públicos, desfiles cívicos
alusivos ao dia 7 de setembro tanto na própria cidade como em outros municípios e
outros estados), cortejos em procissões durante todo o ano, apresentações em
campeonatos de futebol, apresentações natalinas na praça central do município para toda
a comunidade, além de representar a cidade de Carmópolis e o Estado de Sergipe em
campeonatos de bandas e fanfarras promovidos pela Confederação Nacional de Bandas
e Fanfarras (CNBF). Através desses campeonatos de bandas e fanfarras promovidos
pela CNBF, a Banda Marcial Dom Pedro I conquistou um espaço de destaque tanto a
nível estadual como a nível nacional, pois a banda é cinco vezes campeã estadual
consecutiva e duas vezes vice-campeã nacional.
Essas funções que a Banda Marcial Dom Pedro I tem para com a comunidade são
semelhantes com as funções que as bandas tinham no século XIX conforme
mencionamos anteriormente neste trabalho.
  45  

3.4. A BANDA COMO MEIO DE INSERÇÃO SOCIAL

As bandas escolares, de um modo geral, assim como outros grupos culturais que
oferecem para seus integrantes um aprendizado significativo de seus valores contidos
em seus respectivos conteúdos educacionais, fazem um papel importante na inserção
social de crianças, jovens e adultos. São as bandas ou grupos musicais, que dão a
oportunidade para as comunidades, muitas vezes carentes, de aprenderem algo tão
significativo a ponto de mudar as perspectivas de vida dos participantes, e isso se
constata através de muitos desses componentes que aprendem tudo que lhes é ensinando
e tomam essa educação de maneira a se tornarem profissionais e conquistarem espaços
de trabalho com o que aprenderam.
Nesta mesma linha de pensamento, Cislaghi (2009) afirma que a banda “permite
afastar crianças e jovens da marginalidade social, possibilitando uma melhora na
qualidade de vida das crianças e jovens atendidos, além de possibilitar uma possível
profissionalização” (CISLAGHI, 2009, p. 19). Esses fatores destacados por Cislaghi
(2009) proporcionam uma confiança por parte dos pais ou responsáveis pelas crianças e
jovens, contribuindo, assim, com o incentivo para que eles participem dessas bandas de
música.
A Banda Marcial Dom Pedro I também tem esse papel de dar oportunidades aos
seus integrantes de aprenderem música e se tornarem profissionais. Desde sua criação
em 2002 até o ano de 2009, a banda teve o papel de oferecer uma educação musical para
seus componentes e em troca dessa educação os alunos tocavam em eventos da
comunidade e mostravam tudo que haviam aprendido ou estavam aprendendo. Porém, a
partir de 2010, além de manter a educação musical, a banda conseguiu junto com a
prefeitura um sistema de Bolsa Música, que é uma verba repassada através da Prefeitura
de Carmópolis para a banda, que é utilizada no pagamento dos professores, regente e
dirigentes, além de ser destinada também aos alunos em suas respectivas categorias A,
B e C, como forma de incentivo ao aprendizado musical. Com tudo, o quadro de
professores aumentou de dois para quatro, possibilitando assim um maior número de
alunos.
A seguir, quadro descritivo dos dirigentes da banda com suas respectivas funções
e quantidades de componentes a partir de 2010:
  46  

FUNÇÃO QUANTIDADE
Regente 1
Professor de metais 2
Professor de percussão 1
Professor de coreografia 1
Diretor/Presidente 2

3.5. COMPOSIÇÃO DA BANDA NOS ASPECTOS FÍSICOS E


QUANTITATIVO INSTRUMENTAL.

A Banda Marcial Dom Pedro I possui sede própria que se constitui de uma sala
ampla com ar condicionado para os ensaios geral do corpo musical e do corpo
coreográfico, duas salas menores onde são guardados os instrumentos e outros materiais
de linha de frente, uma diretoria onde se encontram o arquivo de partituras e um
computador, que é usado para inscrições dos componentes como também na elaboração
de arranjos, adaptações das músicas e pesquisas sobre o repertório.
A Banda Marcial Dom Pedro I é constituída por um instrumental nos moldes da
categoria de Banda Marcial, do regulamento da Confederação Nacional de Bandas e
Fanfarras (CNBF).
Abaixo segue os quadros de instrumentos e quantidades de instrumentistas que
compõem a Banda.

INSTRUMENTOS DE METAIS NÚMERO DE INSTRUMENTISTAS


Bombardino 3
Flugelhorn 3
Trombone 7
Trompete Cornet 1
Trompete Poket 1
Trompete Triunfal 1
Trompete 8
Trompa 3
  47  

Tuba 3

INSTRUMENTOS DE PERCUSSÃO NÚMERO DE INSTRUMENTISTAS


Bombo 5

Caixa 4

Quinton 2

Pratos/pares 3

Os instrumentos de sopro e percussão listados acima são os característicos e


essenciais de uma banda marcial (com exceção da trompa, por ser um instrumento
considerado facultativo). A Banda Marcial Dom Pedro I também utiliza outros
instrumentos de percussão em sua performance musical, porém em apresentações como
retretas e não em desfiles. São eles: pandeirola, triângulo, bongô, cobel, clave, zabumba,
bateria, ganzá, carrilhão, tímpanos, xilofone e bombo sinfônico.
Além dos instrumentos e instrumentistas listados acima, a banda possui uma linha
de frente listada no quadro a seguir.

LINHA DE FRENTE QUANTIDADE


Mor 1
Corpo Coreográfico 12
Baliza 2
Outros Elementos da Linha de Frente 6

 
3.6. A EDUCAÇÃO MUSICAL NAS BANDAS: METODOLOGIA DE ENSINO

No Brasil, muitas instituições de ensino musicais seguem ainda o modelo


conservatorial, modelo este que teve origem na França do século XVIII e que
compreende a cultura musical da Europa. Esse modelo de ensino de música dá ênfase,
sobretudo, à performance, distinguindo-a do ensino teórico, mantendo, assim, a divisão
da teoria e prática na formação do músico (NASCIMENTO, 2006).
  48  

É utilizado também no Brasil, como metodologia do ensino de música, o ensino


coletivo de instrumentos musicais que, ao contrário do modelo conservatorial, utiliza a
interação social entre os indivíduos participantes. Apesar de ser algo ainda novo no país,
esta metodologia de ensino musical já tem a contribuição de educadores e
pesquisadores, obtendo, assim, resultados bastante positivos com sua utilização
(NASCIMENTO, 2006).
A metodologia do ensino coletivo de instrumentos musicais pode ser caracterizada
pelas aulas simultâneas para vários alunos. Essas aulas podem ser de forma homogênea,
que ocorre quando o mesmo instrumento é lecionado em grupo, ou seja, vários alunos
ao mesmo tempo com instrumentos iguais, e heterogênea, que ocorre quando vários
instrumentos diferentes são trabalhados em um mesmo grupo. Essa prática de ensino
pode ser efetuada de maneira multidisciplinar, ou seja, além da prática instrumental,
podem ser ministrados outros saberes musicais, como: teoria musical, percepção
musical, história da música, improvisação e composição.
Todavia, o ensino de música no país ainda se encontra muito deficiente quanto à
acessibilidade ao público. As instituições de ensino musicais gratuitos existentes não
conseguem atender à demanda por seus cursos, tendo que, na maioria das vezes, fazer
seleções, tirando a oportunidade de estudo de muitas pessoas que poderiam ser
aproveitadas.
Em relação ao ensino coletivo de instrumentos, Cruvinel (2005) observa que o
mesmo iniciou na Europa e depois foi exportado para os Estados Unidos. Este modelo
tem como principais características as três fases no ensino coletivo de cordas: a das
academias, com aulas para um grande número de alunos por turma; dos conservatórios,
com turmas de quatro alunos que se revezavam; e nas escolas públicas, com um grande
número de alunos se exercitando em conjunto.Já no Brasil, Cruvinel (2005) considera
que o ensino coletivo aparece com as primeiras bandas de escravos no período colonial
e, posteriormente, com as bandas oficiais, as fanfarras, os grupos de choro e samba,
porém sem uma preocupação de sistematização pedagógica:
Com o movimento do Canto Orfeônico, há a primeira iniciativa de
sistematização do ensino coletivo no país. De acordo com a autora, ao final
da década de 50, o professor José Coelho de Almeida no cargo de diretor do
Conservatório Estadual Dr. Carlos de Campos, em Tatuí, implantou um
programa de iniciação e aprendizado musical coletivo com instrumentos de
corda. Nos anos 70, Alberto e Daisy Jaffé iniciaram seus experimentos de
ensino coletivo de cordas, vindo após anos de trabalho, a culminar na
publicação de seu método The Jaffé String Program (CRUVINEL, 2005,
p.37).
  49  

De acordo com Barbosa (1996), a metodologia de ensino coletivo é dividida em


três fases e o contato com o instrumento ocorre desde o início do aprendizado. Na
primeira fase são trabalhados exercícios básicos de produção de som, notas do registro
médio do instrumento e repertório fácil, com divisões musicais simples. Na segunda
fase são aprendidas notas de outros registros, é trabalhado um repertório mais difícil,
ritmos e elementos teóricos mais complexos. Por fim, na terceira fase, o trabalho
concentra-se na complementação das fases anteriores e no trabalho com um repertório
de formas, estilos e gêneros mais variados (BARBOSA, 1996).
Em relação ao ensino tradicional, Barbosa (1996) afirma que a metodologia
tradicional de ensino de instrumentos é dividida em quatro fases consecutivas: aula
coletiva de teoria e divisão musical, aula individual de divisão musical, aula individual
de instrumento e prática em conjunto. O autor salienta que as duas fases iniciais duram
cerca de um ano para depois os alunos terem contato com o instrumento
musical.Historicamente, o modelo de ensino tradicional de música enfatiza o domínio
da leitura e escrita musical, assim como a aquisição de informações históricas, teóricas e
a técnica para a execução de um instrumento, privilegiando quase sempre o repertório
dos grandes compositores clássicos.De acordo com Feichas e Machado (2009, p.20):
Esse tipo de aprendizagem favorece o individualismo e geralmente o
conhecimento musical é transmitido de maneira compartimentada e mais
abstrata, de forma que muitas vezes o aluno não faz relação entre o que
aprende e sua vida cotidiana. Trabalhar dessa forma com a música popular
seria uma atitude “irrefletida”, pois “pode levar a pensar que é possível tratar
as músicas populares como conteúdos a serem incorporados aos currículos de
música, mas ensinados segundo métodos alheios aos seus contextos originais.

Segundo as pesquisas realizadas, na metodologia de ensino tradicional por Lima


(2005), Barbosa (2006), Costa (2008), Feichas; Machado (2009) e Cislaghi (2009), há
maior índice de desistência dos alunos em comparação ao ensino coletivo,
principalmente nas fases iniciais do aprendizado, devido ao fato de o aprendizado
musical iniciar com o estudo da teoria musical, sem contato com o instrumento. De
acordo com Arroyo (2002, p. 18):
O termo educação musical abrange muito mais do que a iniciação musical
formal, isto é, é educação musical aquela introdução ao estudo formal da
música e todo o processo acadêmico que o segue, incluindo a graduação e
pós-graduação; é educação musical o ensino e aprendizagem instrumental e
outros focos; é educação musical o ensino e aprendizagem informal de
música.
  50  

Neste sentido, a educação musical está presente de forma abrangente em toda


situação onde ocorre o desenvolvimento da aprendizagem em música, independente do
local onde é proporcionada, “seja no âmbito dos sistemas escolares e acadêmicos, seja
fora deles” (ARROYO, 2002, p. 19).
A banda de música é um espaço onde está presente a educação musical, sendo
assim, apresenta atividades em que são desenvolvidos o ensino e a aprendizagem em
música (CISLAGHI, 2009). São diversas as formas de se educar musicalmente, uma
delas é no ensino dos instrumentos de sopro. Nesse sentido, a banda de música tem um
papel de extrema importância, por ser um local onde se proporciona o ensino de música
instrumental, formando músicos, principalmente instrumentistas de sopro. Barbosa
(1996) coloca que essas entidades têm sido um dos meios mais importantes para
formação musical de instrumentistas de sopro no país: “a maioria dos instrumentistas
brasileiros de sopro que trabalham profissionalmente em bandas militares, civis, ou
orquestras recebeu sua formação elementar em bandas” (BARBOSA, 1996, p. 41).
A educação musical é algo importante nas bandas de música para que haja o
ingresso de novos músicos para compor o elenco da banda. Conforme a constatação de
Higino (2006), em sua investigação com a banda do Colégio Salesiano de Niterói – Rio
de Janeiro, a banda de música, para se manter em cena, deve se renovar continuamente,
ou seja, precisa preparar novos instrumentistas, contando com pessoas que saibam
transmitir seus conhecimentos musicais e manter uma ala jovem que aprenda com os
veteranos as tradições, os costumes e a história da corporação. A presença da juventude
nas bandas de música se deve também pela oportunidade que estas entidades
proporcionam aos jovens de tocar um instrumento, assim como orientando para que
futuramente o aluno possa ter uma profissão na área musical ou até mesmo em uma
carreira em bandas militares (MORITZ apud VIANA, 2008). Além disso, Higino (2006,
p. 60), em sua pesquisa com a Banda do Colégio Salesiano Santa Rosa, relata que “a
maioria dos alunos que integram a banda têm um bom rendimento escolar, o que pode
estar ligado à alta concentração que educação musical exige.”

 
 
  51  

3.7. A METODOLOGIA DE ENSINO DE INSTRUMENTOS DE SOPRO DA


FAMÍLIA DOS METAIS COM BOCAL DA BANDA MARCIAL DOM PEDRO I.

3.7.1. Finalidade
 
 
De acordo com a necessidade da banda que é formar e manter um grupo de alunos
que possam, num curto espaço de tempo (no máximo quatro ou cinco meses), integrar o
quadro de componentes da banda, os professores se empenham o bastante nas aulas
individuais até um ponto em que os alunos tenham a mínima condição de fazer parte do
ensaio em grupo com o respectivo conhecimento: saber identificar a tonalidade, o tipo
de compasso, as células rítmicas, como também a própria execução no instrumento que
se dispõe a tocar. É necessário citar que esses aspectos são os mais básicos para que o
aluno possa se inserir no contexto de ensaio geral, porém, após essa fase entra outra
etapa mais aprofundada da educação musical como, por exemplo: aspectos de
interpretação através de audições de outras bandas ou do próprio professor ao executar
determinados trechos das músicas trabalhadas no repertorio da banda. Além desses
aspectos teóricos e práticos, outra finalidade da banda é o uso da música como
ferramenta educacional na formação do aluno enquanto cidadão, bem como dar
oportunidade ao estudante de se profissionalizar no campo musical.

3.7.2. Os professores

Existe um fator comum nas bandas civis interioranas, especificamente nas bandas
de origens escolares, que é o de possuírem um único professor, geralmente o próprio
regente, que tem a função de ensinar todos os instrumentos da banda. Na Banda
Marcial Dom Pedro I não foi diferente, pelo menos nos anos compreendidos entre 2010
e metade de 2012. Vale citar que nessa mesma época a banda teve dois professores na
área de trombone, Israel Santos Silva e Thiago de Sá Oliveira, porém não
permaneceram por muito tempo por motivo de força maior. Em meados de 2012 foram
inseridos na banda dois professores de instrumentos de metais com bocal, Elton Hudson
e Raimundo Feitosa, para ministrar aulas de trompete, flugelhorn, trombone, tuba,
bombardino e trompa, os quais ainda permanecem na banda. Esses professores já
  52  

traziam consigo uma experiência de ensino-aprendizagem. Os mesmos tiveram sua


aprendizagem oriunda de bandas musicais onde adquiriram uma experiência no sentido
de aprendizagem e ensino nos respectivos instrumentos de sopro citados acima.
Atualmente ambos são alunos do curso de Licenciatura em Música da Universidade
Federal de Sergipe e estão em fase de conclusão de curso. Apesar do curso de
licenciatura não ser voltado para o ensino específico de instrumentos, eles absorveram
conhecimentos pedagógicos de ensino musical que servem para o ensino-aprendizagem
de instrumentos de forma individual e coletiva.
A seguir fotos dos professores ministrando aula de instrumentos de sopro.

 
Figura 12: O professor Raimundo ministrando aula de trompete.
Fonte: Arquivo da Banda.
 
  53  

 
Figura 13: O professor Elton ministrando aula de trombone, tuba e bombardino.
Fonte: Arquivo da Banda.
 
 
3.7.3. As aulas

O objetivo inicial das aulas na banda é passar o conhecimento básico necessário


para a iniciação à aquisição da habilidade instrumental, com o propósito de capacitar o
aluno para tocar o repertório da banda. As primeiras aulas teóricas e práticas
representam o ponto inicial na descoberta dos conhecimentos musicais e ditam, através
da resposta dos alunos, se eles terão condições de continuar ou não, pois nessas mesmas
aulas iniciais os professores avaliam aspectos como a atenção nas aulas por parte dos
alunos, porcentagem de absorção do conteúdo e desenvolvimento da prática
instrumental.
O regente, juntamente com os professores, delimita algumas etapas de aulas a
serem seguidas. A primeira etapa é realizada nas aulas iniciais e consiste em teoria
básica, além do aprendizado da emissão do som e a posição das notas nos instrumentos.
A segunda etapa acontece nas aulas seguintes, porém só para os alunos que conseguiram
êxitos na primeira etapa e consiste em leitura de partituras, exercícios de escalas
ascendentes e descentes nos instrumentos, exercícios variados de intervalos, que vão de
segundas a oitavas, e a atividade de tocar em grupo com ênfase no repertório. Após
essas etapas finalmente chega o momento de fazer parte dos ensaios gerais onde são
praticadas as músicas do repertório. Em todos os anos a primeira etapa ocorreu entre os
  54  

meses de fevereiro e março, a segunda entre abril e maio e a terceira etapa entre junho e
agosto, pois no mês de setembro aqueles alunos que tiveram êxitos em todas as etapas
passam a participar dos desfiles cívicos e demais eventos como campeonatos, retretas
etc.
As aulas acontecem duas vezes por semana e de forma sistematizada com duração
de duas horas e meia nos períodos da manhã e tarde. Nos primeiros 50 minutos das
aulas, os professores aplicam conteúdos de teoria musical básica, em seguida aplicam
atividades de prática instrumental. O conteúdo de teoria musical é baseado no método
de Belmira Cardoso e Mário Mascarenhas volume 114. As aulas de prática instrumental
são baseadas a princípio no método Da Capo15, pois o mesmo trabalha com melodias
em uníssono, facilitando a princípio o aprendizado instrumental em conjunto. Após as
primeiras aulas, são feitas algumas adaptações de exercícios de escalas em terças,
quintas e com articulações e células rítmicas variadas. Dessa forma, os alunos se sentem
habituados a tocar em conjunto, cada qual na sua voz em quanto dentro do mesmo naipe
e cada qual na sua célula rítmica, independente de ser dentro do mesmo naipe ou não.
É importante ressaltar que a transmissão dos conhecimentos musicais caminha até
certo ponto, isso se dá por conta da desistência de alguns alunos. Deste modo, as aulas
sempre estão voltando ao início devido ao ingresso de novos alunos no início de cada
ano. Contudo, aqueles que continuam e querem prosseguir com os estudos musicais,
acabam disputando o espaço e horário com os novos alunos, de modo que os
professores tendem a separar, dentro do horário normal de aula, um tempo para poder
dar uma atenção voltada para a continuidade do ensino-aprendizagem desses alunos
mais interessados, proporcionando um aprendizado que caminha para o lado
profissional.
Quando os alunos têm os primeiros contatos com os instrumentos de sopro, são
transmitidas pelos professores questões como respiração, emissão do som com a técnica
denominada “besourinho” – que “consiste em executar os ataques usados pelos
instrumentistas que tocam instrumentos de bocal” (COSTA, 2008, p.102), e a posição
da nota no instrumento.

                                                                                 
14
Curso Completo de Teoria Musical e Solfejo, elabora por Belmira Cardoso e Mário Mascarenhas
volume 1. Editora IRMÃOS VITALE.
15
Da Capo – Método para o ensino coletivo e/ou individual para instrumentos de sopro e percussão,
elaborado por Joel Barbosa com base em sua tese de doutorado sobre metodologia de ensino coletivo de
instrumentos de banda.
  55  

A metodologia do ensino de instrumentos de sopro com bocais, que é analisada


neste trabalho da Banda Marcial Dom Pedro I, trata dos seguintes instrumentos: tuba,
bombardino, trompa, trombone e trompete.

3.7.4. Os ensaios

Segundo Cislagui (2007) existem diferentes tipos de ensaios no ambiente da


banda de música direcionados por diferentes agentes. Há, por exemplo, ensaios de
naipe, ensaios com um número reduzido de pessoas e ensaios com a banda completa,
que podem ser caracterizados como sendo repetitivos e cansativos ou criativos e
estimulantes. Em quaisquer destas ocasiões, regente e chefes de naipes detêm a
responsabilidade de realizar o trabalho musical com os instrumentistas de modo que
alcancem uma execução musical satisfatória. A banda Dom Pedro I segue essa mesma
regra. A banda realiza duas aulas semanais com os instrumentos de sopro, porém com
uma divisão de naipes compostos da seguinte forma: as segundas e quartas feiras são as
aulas de trombone, tuba e bombardino, nos horários da manhã e tarde. Às terças e
sextas são as aulas de trompete, flugelhorn e trompa também nos horários da manhã e
tarde. Além dessas aulas é realizado rotineiramente um ensaio geral aos sábados no
período da tarde e as vezes tarde/noite. Essas aulas muitas vezes se tornam ensaios de
naipes, a depender do nível da turma e da necessidade de apresentações corriqueiras
como campeonatos, desfiles cívicos ou outras apresentações de naturezas diversas.
De acordo com Cislagui (2007), esse tipo de ensaio tem a finalidade de trabalhar,
especificamente, o repertório da banda em cada naipe. Segundo o autor, o benefício
proporcionado pelo ensaio de naipe é que ele possibilita uma atividade específica com
uma pequena quantidade de pessoas, auxiliando no trabalho musical de forma detalhada
com cada instrumentista, assim, os alunos que vivenciam essa experiência podem fazer
dessa prática uma aliada no desenvolvimento musical. “No entanto, esse ensaio é muitas
vezes compreendido como um momento onde se treinam passagens difíceis sem a
preocupação com a qualidade musical, necessariamente” (CISLAGUI, 2007, p. 3).
Tomando como base em uma tentativa de fazer diferente no que foi dito no
parágrafo anterior, o procedimento que os dois professores de metais da Banda Marcial
Dom Pedro I, juntamente com o regente, utilizam nos ensaios de naipes não se limita
apenas em exaustivas passagens práticas das partes mais difíceis das músicas ou peças
  56  

estudadas nos ensaios, eles transmitem aspectos de interpretação, expressividade em


relação ao gênero musical das mesmas.
Transportando esse discurso para outro tipo de grupo, ao discutir sobre a função
do ensaio coral, bem como a importância de não transformar o ensaio em uma
sequência de repetições exaustivas subordinado sempre a vontade do regente,
Figueiredo (1989, p. 74) expõe que:
É preciso colocar a parcela ou a contribuição individual sobre o que se está
cantando, de forma a favorecer um resultado cada vez melhor e ao mesmo
tempo satisfazer a expectativa que pode gerar o crescimento musical de cada
indivíduo. Para que isso ocorra, é preciso mais do que um treinamento. É
necessária a compreensão do porquê e para que serve o treinamento.

Para o autor, o treinamento significa dar ao naipe as condições mínimas


necessárias para a realização musical. Contudo, obter a qualidade da realização
musical é algo imprescindível, para isso é necessário o mínimo de compreensão, e
esta, por sua vez, dependerá do treinamento somado ao conteúdo, ou seja, da
aprendizagem.
Figueiredo (1989, p.77) diz que “o ensaio coral deve ser um momento que
promova aprendizagem e não simplesmente treinamento”. Sendo assim, reduzir o
ensaio à apenas um treinamento pode não ser a conduta mais eficaz, quando os
eventos externos e/ou internos forem diferentes, pois é com a aprendizagem que os
conhecimentos obtidos podem ser transferidos para outras situações. Assim, “para que
ocorra a aprendizagem, é fundamental que haja consciência de sua existência, bem
como técnicas específicas para promovê-la”.

3.7.5. As apresentações e os desfiles

As apresentações e os desfiles são um fator que ajudam na frequência dos alunos,


pois a banda possui uma agenda de atividades durante os 12 meses do ano. Essas
atividades iniciam no dia 1º de janeiro com a procissão denominada Bom Jesus dos
Navegantes, na qual a banda se faz presente há quase uma década. No mês de fevereiro
um grupo menor de 12 a 15 músicos participam dos festejos carnavalescos durante os
quatro dias de carnaval. Nos meses seguintes, até a última semana de agosto, que
antecedem o início das comemorações alusivas ao dia sete de setembro, a banda é
solicitada para algumas apresentações como solenidades de inaugurações da prefeitura,
recepção de autoridades, aberturas e encerramentos de eventos esportivos, missas e
  57  

outros eventos que se faz necessária a presença da banda. A partir do mês de julho até o
final de agosto, a banda aumenta a rotina de ensaios externos, os quais se tornam mais
rigorosos nos aspectos disciplinar e musical. O regente e professores buscam, cada vez
mais, extrair dos alunos uma postura disciplinar nos aspectos de marcha, garbo e
postura, como também nos aspectos de performance musical com os instrumentistas e
performance corporal com o corpo coreográfico, de forma que todos que compõem a
banda, tanto no corpo musical como na linha de frente, consigam uma boa performance
nos desfiles cívicos e campeonatos.
A partir do mês de setembro inicia uma série de apresentações em desfiles
alusivos ao dia sete de setembro. Essas apresentações acontecem no povoado Aguada,
onde fica a sede da banda, na cidade de Carmopolis, como também em outras cidades
do interior de Sergipe. Essas apresentações geralmente vão até o mês de novembro. Por
fim, no início de dezembro começam os ensaios para as apresentações natalinas.
Em relação aos desfiles, a banda possui alguns códigos específicos, tanto verbais
como gestuais, destinados à execução performática da banda inspirados no militarismo
e também outros que são adaptados pela própria direção da banda. Os códigos
inspirados no militarismo são indicações de ordem unidas que englobam, por exemplo,
direcionamentos de “sentido”, “descansar”, “direita”, “esquerda”, “ombro arma”
“preparar para tocar”, “ordinário” e esses comandos são executados geralmente por um
trompetista que funciona como corneteiro. Em outras ocasiões especiais como
campeonatos, esses comandos são feitos verbalmente pelo mor da banda. O mor
funciona como uma espécie de comandante e assume em alguns momentos a posição de
regente. Ele indica o início das músicas executadas pela banda nos desfiles e em
campeonatos conduz a banda a partir do rompimento de marcha até a entrega da banda
para o regente enfrente ao palanque onde ficam os jurados.

3.7.6. Os campeonatos: motivação como elemento facilitador da


aprendizagem

Os campeonatos são vistos como o maior fator motivador para os componentes da


banda a buscarem a aquisição das habilidades musicais, bem como a conquista das
premiações, tornando-se um importante aliado no desenvolvimento da aprendizagem
musical. Existem fatores que proporcionam e estimulam a manutenção dessa prática que
  58  

vão além das participações em campeonatos como, por exemplo, uma somatória de
fatores que são identificados como: a interação social, a troca de experiências com
outras bandas, as amizades e as viagens para participarem desses campeonatos em
outros estados. Segundo Lima (2007), os concursos de bandas fazem com que as aulas e
os ensaios sejam intensificados em função das competições e premiações. Nesse
contexto, “os alunos costumam relacionar o sentido de sua prática, em aulas e ensaios, a
uma ansiedade por troféus” (LIMA, 2007, p. 84). Porém, o mesmo autor faz uma
observação de que “não se trata do troféu apenas (visto no seu aspecto imediato) ou da
euforia que ele proporciona, mas da legitimação da conquista de um lugar social que
tem o troféu como aval.” (LIMA, 2007, p. 84).
Essas competições em campeonatos se configuram como um evento onde afloram
as mais variadas emoções dos componentes da banda, externando sentimentos de
ansiedade, nervosismo, união, tristeza e alegria. Com relação a esses fatores, Lima
(2007) menciona que:
Trata-se de um jogo (o das competições de bandas) que, uma vez em
andamento, provoca movimentos, os quais impulsionam aspectos musicais
em torno da idéia de competir. Essa idéia é resultado de uma realidade mais
ampla, na qual regentes e jovens adolescentes têm suas vidas transpassadas
por disputas e desafios que se dão mesmo fora dos campeonatos. Eles
encontram, nesses eventos, as formas de representações de suas lutas diárias
por melhores lugares na sociedade (Lima, 2007, p. 86).

Podemos perceber que os campeonatos, além de serem vistos como motivadores


na busca das habilidades musicais, provocam muitas mudanças nas bandas. Em busca
de melhores posições, elas passam a executar arranjos mais ousados e, para isso,
buscam cada vez mais o aprimoramento dos conhecimentos musicais de seus
integrantes.
Com todos esses fatores de motivação, a banda obtém uma melhor técnica e
performance através de um trabalho mais consistente na prática instrumental constante,
sem medir esforços para aumentar a carga horária dos ensaios, com peças musicais
consideradas de alto nível técnico e interpretativo. Mostrar um bom trabalho perante aos
jurados e ao público, e, conseqüentemente, obter melhores colocações com troféus,
significa ganhar o respeito da banda, da comunidade e das outras bandas.
Os campeonatos são julgados por uma banca de avaliadores composta por
especialistas na área musical. Os aspectos avaliados são os técnicos (afinação,
ritmo/precisão rítmica, dinâmica, articulação e equilíbrio); os interpretativos (fraseado,
expressão, regência e escolha do repertório); os aspectos específicos da percussão
  59  

(afinação, ritmo/precisão rítmica, dinâmica, técnica instrumental) e equilíbrio entre


percussão e instrumentos melódicos. No aspecto apresentação, são avaliados itens como
uniformidades em que é avaliada a conservação da indumentária.
Outros aspectos que também são avaliados são a conservação e disposição
instrumental, o sincronismo e a marcialidade, o alinhamento correto e o garbo. Além
dos instrumentistas, todos que fazem parte da linha de frente e o regente também são
avaliados.
A Banda Marcial Dom Pedro I, em tempos de campeonatos, realiza um trabalho
diário na busca de conquistar e superar todas as dificuldades, buscando êxito em todos
os aspectos de avaliação. É através dessas buscas que vem conquistando bons
resultados. A banda é penta campeã estadual e duas vezes vice campeã nacional nos
campeonatos promovidos pela Confederação Nacional de Bandas e Fanfarras (CNBF)
que aconteceram entre os anos de 2010 e 2014.
  60  

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com a apresentação do histórico das bandas no Brasil desde o período colonial,


com seus significados e variações, conceitos e características das bandas, podemos tirar
conclusões de como se deu, no decorrer da história, a trajetória dessas entidades que
vêm, desde o século XIX, transformando as pessoas em cidadãos de bem através da
música. Essas entidades, que são difusoras e mantedoras do ensino musical e que muitas
vezes são a principal fonte da educação musical nas cidades interioranas do Brasil afora,
contribuem na formação de uma grande parcela de profissionais que atuam em variados
seguimentos da música como em grandes orquestras, bandas militares e bandas
particulares de vários estilos.
Com este trabalho constatamos que os momentos que englobam as principais e
significativas aprendizagens musicais na banda são as aulas práticas e teóricas,
especialmente os ensaios de naipes e gerais, as apresentações, os desfiles cívicos e os
campeonatos. Porém, para que todas essas atividades fossem possíveis, contamos com o
apoio direto da prefeitura de Carmópolis, que é a mantedora da manutenção anual da
mesma.
É notório que o ensino musical na Banda Marcial Dom Pedro I é desenvolvido
com muita seriedade, proporcionando diversos benefícios como a disciplina na
formação do ser humano, a busca e o caminho para a profissionalização e a
musicalização através do aprendizado de um instrumento.
Não há duvidas com relação à competência e o compromisso dos professores que
atuam efetivamente na Banda Marcial Dom Pedro I. Contudo, como foi mencionado no
terceiro capítulo desse trabalho, os professores são concludentes do curso de
Licenciatura em Música na Universidade Federal de Sergipe e não possuem formação
específica a nível acadêmico nas áreas instrumentais em que atuam na banda. Mesmo
assim, é perfeitamente reconhecível o valor e o trabalho que desempenham. Este
trabalho também revelou que o ensino da música na Banda Marcial Dom Pedro I
contribuiu para a semiprofissionalização de alguns alunos, dos quais dois atuam como
músicos do naipe de uma banda de forró e outros em bandas carnavalescas.
Esperamos que este trabalho com a descrição do histórico da Banda Marcial Dom
Pedro I com suas características do corpo musical, como também da linha de frente que
a compõe, da finalidade, dos professores, das aulas, dos ensaios, das apresentações e
  61  

campeonatos, contribua para a discussão a respeito do ensino musical em bandas


marciais. Neste sentido, as realidades constatadas neste trabalho podem nortear futuras
ações que contribuam em termos qualitativos com a prática de ensino musical de
instrumentos de sopro da família dos bocais, tendo em vista que os resultados desse
ensino musical proporcionaram à Banda Marcial Dom Pedro I um lugar de destaque a
nível estadual de cinco vezes campeã consecutivos e a nível nacional duas vezes vice-
campeã.
Este trabalho buscou valorizar esse tipo de entidade de ensino musical que são as
bandas de música e especificamente as bandas marciais como espaço ativo e
significativo de ensino musical, com vistas à construção de elementos para a otimização
da prática didático-musical. Vale mencionar que, apesar das bandas escolares se
denominarem bandas marciais, há uma carência de literatura no que diz respeito às
características de suas diferentes formações instrumentais para como banda marcial, tal
como há também uma carência de estudos referentes ao ensino de música nas bandas
escolares de Sergipe. Desse modo, pretendemos que este trabalho descritivo sirva de
incentivo e cumpra um papel importante como fonte para futuras pesquisas nessa área
musical.
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