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Antonio Gramsci
Obras de Antonio Gramsci

Editor: Carlos Nelson Coutinho


Co-editores: Luiz Sérgio Henriques e
Marco Aurélio Nogueira

Cadernos do cárcere (6 v.)

1. Introdução ao estudo da filosofia. A filosofia de


Benedetto Croce
2. Os intelectuais. O princípio educativo. Jornalismo
3. Maquiavel. Notas sobre o Estado e a política
Cartas
4. Temas de cultura. Ação católica. Americanismo e
fordismo do cárcere
5. O Risorgimento italiano. Notas sobre a história da Itália
6. Literatura. Folclore. Gramática. Apêndices: variantes e índices

Volume 1:
Escritos políticos (2 v.) 1926-1930

1. Escritos políticos 1910-1920 ORGANIZAÇÃO, INTRODUÇÃO E TRADUÇÃO DE


2. Escritos políticos 1921-1926 Luiz Sérgio Henriques

Cartas do cárcere (2 v.)

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º
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Rio de Janeiro
2005
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COPYRIGHT© Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio Henriques, 2005. Sumário


CAJ>A
Evelyn Grumnch
PROJETO GRÁFICO
Evelyn Grumnch e João de Souzn Leite
PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS
Carlos Nelson Coutinho e Luiz Sérgio Henriques

INTRODUÇÃO 7

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE


Luiz Sérgio Henriques
SINDICATONACIONALDOSEDITORESDELIVROS,RJ

Gramsci, Antonio, 1891-1937 CRONOLOGIA DA VIDA 47


G773c Cartas do cárcere, v.1: 1926-1930 /Antonio Gramsci; tra-
v.1 dução Luiz Sérgio Henriques; organizadores Carlos Nelson OS CORRESPONDENTES DE GRAMSCI E OS MEMBROS DAS
Coutinho e Luiz Sérgio Henriques. - Rio de janeiro: Civiliza-
ção Brasileira, 2005. FAMÍLIAS GRAMSCI E SCHUCHT 61

Apêndice
ISBN 85-200-0692-2 CARTAS DO CÁRCERE 71

1. Gramsci, Antonio, 1891-1937 - Correspondência. 2. Co- 1926 73


munistas - Itália - Correspondência. I. Coutinho, Carlos Nel-
son, 1943-. II. Henriques, Luiz Sérgio. UI. Título. 1927 99
CDD - 920.933543 1928 223
CDU - 929GRAMSCI
05-1757 1929 311
"'
1930 389

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou ÍNDICE ONOMÁSTICO 469


transmissão de partes deste livro, através de quaisquer meios, sem prévia
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Impresso no Brasil 5
2005


J/

Introdução
~

1.
Morto em 27 de abril de 1937, mais de dez anos depois de ilegalmente
preso, "julgado" em tribunal de exceção e posto sob direta vigilância
das mais altas autoridades do fascismo (de Mussolini em pessoa), An-
tonio Gramsci não era de modo algum um desconhecido nos círculos
envolvidos na luta política. Personagem de primeiro plano dos conse-
lhos de fábrica turinenses no "biênio vermelho" (1919-1920), secretá-
rio do Partido Comunista da Itália e deputado por uma circunscrição
do Vêneto a partir de 1924, além de dirigente da Internacional Comu-
nista (Komintern), Gramsci viveu intensamente os anos da crise do li-
beralismo italiano e da ascensão e consolidação do poder fascista, bem
como da ruptura representada pela Revolução de 1917 e das ilusões
que esta despertara sobre uma iminente "revolução mundial" antica-
"' pitalista, cujo ato inaugural teria sido, exatamente, a revolução dos
sovietes.
No plano intelectual, a atividade de Gramsci se desenvolveu no
jornalismo e foi especialmente intensa: milhares de artigos, escritos mais
ou menos ao sabor dos acontecimentos, ficaram registrados nos arqui-
vos da imprensa operária de Turim ou de Roma, em títulos que já eram
ou se tornariam históricos, como Avanti!, I.:Ordine Nuovo ou I.:Unità;
o problema é que tais arquivos eram praticamente inacessíveis durante
os anos do fascismo. Gramsci, com razão, supunha ter escrito "linhas
suficientes para encher quinze ou vinte volumes de quatrocentas pági-
nas'', mas fadadas "a morrer no fim do dia".

7
CARTAS DO CÃRCERE INTRODUÇÃO

Apesar desta atividade prolífica, por algum motivo ele próprio o dia-a-dia de um jornalis\a, mesmo quando é talentoso: trata-se, evi-
contribuíra para o relativo desconhecimento do seu nome, ao se opor dentemente, dos Cadernos e destas Cartas do cárcere. Os Cadernos,
pelo menos a três sugestões de coletâneas antes da prisão: em 1918, uma espécie de "não-livro", com sua curiosa disposição em parágrafos
Umberto Cosmo, seu velho professor universitário, estudioso de Dante de tamanhos variados, indicackires de uma considerável concentração
e personagem importante destas Cartas, lhe sugerira uma seleção de de esforço, ainda que o produto deste esforçQ __corresse o risco perma-
pequenos artigos aparecidos na imprensa turinense, "com um prefá- nente de desaparecer sem deixar vestígios, "como uma pedra no oce-
cio muito favorável e muito honroso"; em novembro de 1920, --~no" - e isto quer em algum axquivo do Estado fascista, quer em algum
Giuseppe Prezzolini, nome destacado da renovação intelectual italia- ---O~tr-o do -Kominterristalinizado.
. -·-· .
As Cartas, uma espécie de obra-pri-
na de início do século XX, chegara a providenciar os trabalhos de ma por acaso, um complicado mosaico cujo autor tinha, em geral,
composição de outra antologia, mas o próprio Gramsci, por motivo "invencível aversão à epistolografia'', mas no qual, certamente, pode-
ignorado, acabou por ressarcir as despesas já feitas e recolher os se acompanhar - além dos acontecimentos miúdos da rotina prisional
manuscritos; e, por último, Franco Ciarlantini, editor e deputado que lentamente mataram o indivíduo Antonio Gramsci e muito além
fascista, propusera, já em 1924, a redação de um livro sobre o movi- do que se pode esperar de uma.correspondência "convencionalmente
mento dos conselhos de fábrica, com o compromisso de não acres- carcerária" - a tragédia política e existencial dos "revolucionários sem
centar "nenhum prefácio ou comentário polêmico". Nova recusa, revolução" no Ocidente capitalista.
ainda que Gramsci tivesse considerado "muito atraente" publicar um Tais surpreendentes cadernos e cartas, de edição póstuma, é que
livro por uma editora fascista, antes, obviamente, do endurecimento garantiriam para seu autor o e>tatuto de clássico da política (e da li-
definitivo do regime em 1926 1 • teratura} do século passado, mas é evidente que não nasceram do nada,
Na verdade, o cárcere foi o lugar altamente improvável transfor- na circunstância desfavorável do cárcere. Ao contrário, cadernos e
mado em laboratório para a construção de dois documentos fundamen- cartas tinham conexões profundas - do ponto de vista da forma
tais do século XX, que, cada um à sua maneira, contribuíram para mental dialógica do autor· - com o modo de ser e de agir no período
"absorver e centralizar" a vida intelectual do prisioneiro e concretizar pré-carcerário: a saber, respectivamente, con1 a palavra escrita no
lt
sua pretensão de deixar "algo für ewig", a partir de um ponto de vista jornal e com a conversa infoI'llllal (meio de que comumente Gramsci
"desinteressado" em relação às exigências mais imediatas que assolam se servia, na falta de dons particulares de tribuno ou orador de comí-
cio). Pelo menos, esta é uma das muitas indicações dadas por Valentino
Gerratana, que ajudam a entender continuidade e ruptura entre os
1Cf., nesta edição das Cartas do cárcere, carta 250, v. 2, p. 83. Em tom divertido, períodos pré e pós-carcerário, entre o dirigente político revolucioná-
ainda no início da experiência prisional, Gramsci relata episódios em torno da rio e o pensador que, em condições extremamente adversas, ilumi-
sua equívoca "fama" nos meios populares: tem o sobrenome, de origem albanesa,
estropiado das mais variadas maneiras pelos interlocutores; um anarquista recu- naria a insuficiência fundamental da estratégia bolchevique em
sa-se, desoladamente, a reconhecer Gramsci como um homem pequeno e corcun- sociedades complexas 2 •
da, tendo-o imaginado "um gigante"; um sargento da escolta trata-o com bizarra
deferência, ao saber que se tratava do "famoso deputado". Gramsci admite, com
auto-ironia, que não é "conhecido fora de um círculo bastante restrito" no mun-
2 Valentino Gerratana. "Prefazioa". ln: A. Gramsci. Quaderni dei carcere. Edição
do "grande e terrível", como costumeiramente se expressava. Cf. carta 21, infra,
p. 116-20. . crítica organizada por V. GerrataDa. Turim: Einaudi, 1975, v. 1, p. XIX.

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INTRODUÇÃO
CARTAS DO CÁRCERE

Ao conceituar os problemas políticos enfrentados antes de novem- bólica particularmente fortf, vindo muitíssimo depois de Garibaldi e
bro de 1926 e ao analisar, ainda que de modo provisório, os processos até de uma outra vítima célebre do fascismo, o deputado socialista
em curso no mundo fora do cárcere, os cadernos e as cartas é que de- Giacomo Matteotti. A (re)descoberta de Gramsci seria o resultado
ram universalidade à figura de Gramsci e o colocaram como patrimônio afortunado de uma grande Qperação político-cultural lançada no se-
de todos, no domínio da alta cultura, superando amplamente aquilo gundo pós-guerra, dirigida pelo Partido Comunista e, em particular,
que figuras bastante próximas, mesmo conhecendo o caráter excepci- por seu secretário-geral, Palmiro Togliatti: não é descabido dizer que,
onal do homem, poderiam ter previsto. Angelo Tasca, por exemplo, sem esta operação, Gramsci não seria de modo algum o que hoje é 4 •
companheiro dos tempos de I.:Ordine Nuovo e expulso do PCI por Nas palavras de Enzo Santarelli, "para reencontrar Gramsci, para
"desvio de direita" em 1929, perguntava em importante artigo publi- compreendê-lo e torná-lo conhecido, será ainda necessário confiarmo-
cado logo após a morte do dirigente comunista: "Gramsci certamente nos, por um lado, à luta política e à simbologia de um partido [o PCI],
seguiu, nos anos do seu martírio, os desenvolvimentos da situação ita- e, por outro, à força da sua desconhecida, ou esquecida, herança
liana e internacional. O que ele pensou? A que ponto o conduziram política e literária" 5 •
suas meditações filosóficas e políticas? O que restou de onze anos de E, já aqui, não obstante o êxito daquela operação, anuncia-se um
um pensamento que a solidão e os sofrimentos não enfraqueceram e primeiro problema: a gestão dos textos carcerários por um partido
que deve ter conhecido as iluminações da descoberta, do aprofunda- político - ainda que por aquele que viria a ser o mais aberto e cultu-
mento, da profecia? Pensamos, com angústia, que talvez tudo isto tenha ralmente rico dos partidos comunistas ocidentais, abertura e riqueza
desaparecido ou caído nas mãos dos seus carrascos [grifamos). Aqueles que derivaram, em medida substancial, da obra fundadora do pró-
que possuírem seus escritos de 1919-1926 se apressem em publicá-los, prio Gramsci - não poderia estar isenta de contradições e até de
para que a classe operária e o mundo saibam o que a humanidade per-
deu, ao perder Gramsci, e que delito imperdoável o fascismo perpe- 4
Antonio A. Santucci. Senz;a comunismo. Roma: Ed. Riuniti, 2001, p. 83. O mes-
trou, suprimindo aquela que foi uma das luzes intelectuais e morais mo autor, contudo, acertadamente observa que, fora do contexto propriamente
mais vivas da nossa época" 3 • ,. italiano, as idéias de Gramsci caminharam por si mesmas desde o princípio: "E
precisamente a ausência e o reduzido peso da mediação daquela memorável 'ope-
O fato é que, mesmo durante os combates da Resistência, e ape- ração' é que pemitiram que, em outros países, onde as idéias de Gramsci concor-
sar dos primeiros projetos de publicação das Cartas e dos Cadernos reram em medida variada para renovar o clima cultural e político local, tenha
ainda no exílio russo, o nome de Gramsci não era uma referência sim- parecido natural atribuir as razões disto simplesmente aos estímulos derivados do
estudo dos seus textos" (Ib., p. 100). E, naturalmente, a continuada fortuna críti-
ca de Gramsci, depois do fim do PCI, é uma prova adicional de vigor e autonomia
diante de qualquer operação partidária, ainda que legítima.
5
3Angelo Tasca. "Una perdita irreparabile". II Nuovo Avanti, 8 de maio de 1937. Cf. Santarelli, cit., p. 14. Um grande intelectual, de extração liberal-socialista,
ln: Enzo Santarelli. Gramsci ritrovato 1937-1947. Catanzaro: Abramo, 1991, p. pôde dar um juízo objetivo sobre o impacto da "descoberta" de Gramsci e, atra-
91. O artigo de Tasc3, ferrenho anti-stalinista e representante do PCI em Moscou vés deste, do próprio marxismo como força cultural viva no segundo pós-guer-
até sua expulsão, é particularmente importante, pois reproduz, pela primeira vez, ra: "[... ] por mais que isso possa parecer espantoso para um jovem dos dias de
trechos da famosa carta de Gramsci ao birô político do Partido Comunista da URSS, hoje, nós - que ainda vivíamos dentro do fascismo - não sabíamos nada de
em outubro de 1926. Esta carta gerou um aceso debate entre Gramsci e Togliatti, Gramsci. Não conhecfamos sua vida nem tínhamos notkia de suas obras. De
sobre o qual mais adiante nos deteremos. Sobre esta questão, cf., também, A. resto, tanto as Cartas quanto os Cadernos foram uma descoberta para todos"
Gramsci. Escritos políticos. Org. por Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: (Norberto Bobbio. Ensaios sobre Gramsci e o conceito de sociedade civil. São
Civilização Brasileira, 2004, v. 2, p. 383-402. Paulo: Paz e Terra, 2002, p. 9).
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1
CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÃO

"zonas de sombra", mesmo porque acontecia precisamente no perío- combatido na guerra civil dfi. Espanha e na Resistência antifascista 6 • Os
do em que a aliança antifascista desmoronava e dava origem ao mun- volumes temáticos, como se sabe, foram, por ordem de publicação: O
do conflagrado da guerra fria, da rígida contraposição entre blocos e materialismo histórico e a filosofia de Benedetto Croce (1948), Os in-
da eScolha quase inevitável de um destes dois blocos como escolha telectuais e a organização da cultura (1949), Notas sobre Maquiavel, a
de vida. Um período propício, por definição, a esquematismos e política e o Estado moderno (1949), Literatura e vida nacional (1950)
instrumentalizações até grosseiras por parte de todos os atores da e Passado e presente (1951) 7 •
"batalha das idéias".
' .
E supérfluo dizer que a postulação de uma continuidade sem fissuras
Em linhas gerais, a operação de (re)lançamento de Gramsci, feita
significativamente através de uma editora de porte nacional, como a
entre Gramsci e Togliatti - um mau hábito cultural dos partidos co- Einaudi, e não pela editora do Partido Comunista, teve um êxito ime-
munistas, mas não só deles, nos tempos em que era comum a proposi- diato, que superou as melhores expectativas dos seus promotores.
ção de "linhas evolutivas" fora das quais só havia a possibilidade da Naquele mesmo ano de 1947, por exemplo, as Cartas receberiam o
heresia ou da "traição" aberta e da passagem, real ou suposta, ao cam- importante Prêmio Viareggio, consagrando um raro escritor até então
po inimigo - era algo que pertencia ao terreno da mitologia de um desconhecido, ou conhecido de poucos, capaz de entrelaçar sua trági-
determinado partido político, sob o peso de condicionamentos histó- ca experiência individual com alguns dos temas ético-políticos mais
ricos indisfarçáveis. Tal postulação, no entanto, não resistiria à desesta- relevantes do século XX. Esta consagração, de resto, não se limitaria
linização na segunda metade dos anos 1950, dando lugar ao progressivo aos meios intelectuais mas iria adquirir crescente reconhecimenro po-
reconhecimento não só do valor universal de Gramsci, acima de qual- pular, com a sucessão de edições naquele mesmo ano e nos seguintes.
quer fronteira partidária, mas também do peso específico da interpre- E os Cadernos, ainda que ordenados tematicamente e não reproduzi~
tação togliattiana de Gramsci, para não mencionar as inovações trazidas dos na sua materialidade, indicariam, sem lugar para equívoco, num
por este mesmo Togliatti ao funcionamento de um partido comunista tempo de ferro e fogo, a possibilidade de um marxismo alternativo,
nas condições de uma moderna democracia parlamentar, o que Gramsci que ia, ou podia ir, muito além dos esquemas interpretativos do "mar-
evidentemente não conheceu. ot
xismo-leninismo" de extração soviética.

2.
6Bobbio também atestaria, cm 1987, a sagacidade da estratégia editorial posta "m
Um fato particularmente interessante é que as Cartas do cárcere, ao prática: quando os volumes temáticos foram publicados pela Ed. Einaudi, "mui-
serem lançadas em 1947, constituíram o primeiro livro publicado com tos jovens que se haviam libertado intelectual e politicamente da cultura do regi-
me [fascista], teriam toda a razão em perguntar: 'Gramsci, quem era ele?', caso a
a assinatura de Antonio Gramsci, e isto exatamente no décimo aniver- publicação dos Cadernos não tivesse sido precedida das Cartas do cárcere,
sário da sua morte. Por uma escolha judiciosa, as Cartas antecederam aparecidas em 1947 e destinadas a provocar um enorme impacto pela riqueza das
a publicação da chamada edição temática dos Cadernos, que acontece- idéias, pela grandeza dos sentimentos, pelo vigor do estilo. Não é um exagero
dizer que a nossa história literária tinha descoberto um novo escritor". Cf. Bobbio,
ria entre os anos de 1948 e 1951 e compreenderia seis volumes, orc.le- cit., p. 119.
nados por Palmiro Togliatti e Pelice Platone, este último um jornalista 'Para uma avaliação equilibrada da edição temática ("togliattiana") dos Cadernos,
cf. Carlos Nelson Coutinho. "Introdução". ln: A. Gramsci. Cadernos do cárcere.
e intelectual que também vinha dos tempos de I.:Ordine Nuovo e havia
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999, v. 1, p. 18-28.

12 1 3
~

CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÃO

Mas a história editorial destas duas iniciativas não se encerraria blicação assim que a guerra da Espanha tivesse terminado e ele pu-
neste ponto. Há uma espécie de "romance" das Cartas e dos Cader- desse voltar a Paris" 8 •
nos, que se desenvolve em meio a episódios terríveis, como os proces- Desde o início o centro dirigente do PCI no exterior, sediado em
sos de Moscou, a guerra civil espanhola, a Segunda Guerra Mundial e Paris, possuía cópias da maioria das cartas enviadas da prisão, o que
a luta pela reconstrução da Itália, até que, em 1965, a edição das explica certas manifestações anteriores de Togliatti e até mesmo algu-
Cartas (feita por Elsa Fubini e Sergio Caprioglio) e, em 1975, a dos mas publicações isoladas. Em 12 de maio de 1937, por exemplo, ape-
Cadernos (feita por Valentino Gerratana, sempre sob o patrocínio do nas duas semanas após a morte de Gramsci, Togliatti escreveu àquele
Instituto Gramsci de Roma) colocassem em patamar crítico, definiti- centro revelando a intenção de publicar imediatamente "uma edição
vamente, as discussões que se seguiriam até nossos dias, com a abertu- das cartas do cárcere", e não só simples documentos avulsos; para tan-
ra de todos os arquivos relevantes, inclusive os da Internacional to, pedia uma cópia de todas aquelas que estivessem no arquivo
Comunista em Moscou. parisiense e insistia em que não se fizesse nenhuma publicação de cor-
Ambrogio Donini, "o primeiro a receber a tarefa de estudar e respondência ou outro material inédito sem um prévio acordo com ele
aprofundar a iniciativa" de publicação do legado literário gramsciano, próprio.
dá conta de alguns fatos acontecidos ainda em 1938, na URSS e na Em 20 de maio, Togliatti se dirigiu a Piero Sraffa - outra das figu-
Espanha. "Só em julho daquele ano, depois de longos e dramáticos ras-chave na transmissão da correspondência carcerária, ao lado da
meses de atenta expectativa, Tatiana Schucht [a cunhada de Gramsci, figura central, Tatiana Schucht - demonstrando desconhecer inteira-
que o havia assistido na prisão) tinha conseguido fazer com que ex- mente o conteúdo dos cadernos, mas sublinhando, a priori, a impor-
pedissem, de Roma para Moscou, tudo aquilo que havia podido sal- tância do legado literário, que não podia ser deixado "ao acaso dos
var dos livros e dos escritos carcerários de Gramsci; as preciosas caixas nossos encontros". Togliatti queria ainda uma descrição precisa dos
tinham sido confiadas pelo nosso companheiro [Vincenzo] Bianco à encontros pessoais mantidos por Sraffa com Tatiana e com o próprio
secretaria da Internacional Comunista, que tivera a preocupação de Antonio, das vontades e possíveis indicações deixadas por este último.
transmitir a Togliatti, na Espanha, a reproduçã~ fotográfica de um E, significativamente, pedia diretamente a Sraffa sua opinião sobre "uma
primeiro grupo de Cadernos." Em meados de novembro, o próprio eventual publicação de extratos das cartas do cárcere" 9 • Ainda neste
Donini seria chamado às pressas até Barcelona, numa Espanha repu- mesmo ano de 1937, no número de maio-junho da revista Lo Stato
blicana cujo território começava a encolher irreversivelmente e esta- operaio, em Paris, apareceram amplos extratos de cinco cartas de 1932
va submetido aos bombardeios constantes até mesmo dos próprios nas quais Gramsci avalia, com seu peculiar modo de crítica interna, e
fascistas italianos aliados de Franco. E, em Barcelona, "num modesto
apartamento do centro, à luz de velas, continuamente interrompidos
8
pelos alarmes aéreos, mas sem descer para os abrigos, examinamos 0 depoimento de Donini, registrado em textos de 1975 e de 1988, talvez conte-
nha uma imprecisão: o mais provável é que escritos e pertences de Gramsci che-
juntos, por algumas noites, as fotocópias recém-chegadas de Moscou
garam a Moscou, por via diplomática, em fins de 1938 ou no início de 1939, na
e traçamos um primeiro plano para a edição integral das Cartas· do mesma época em que Tatiana Schucht voltava ao seu país. No entanto, é certo que
cdrcere e para uma antologia dos Cadernos, cuja reprodução fotostática fotocópias dos cadernos já estavam disponíveis nas datas e circunstâncias por ele
indicadas. Cf. Santarelli, cit., p. 26-7.
ainda não tinha sido terminada. Togliatti pretendia dar início à pu- 9
Paolo Spriano. Gramsci in carcere e il partito. Roma: Riuniti, 1977, p. 161-2.

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CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÃO

não de abstrata contraposição frontal, o papel de Benedetto Croce, uma forma em que se encontraµi atualmente, podem ser danosas ao parti-
espécie de "papa laico", na constituição do chamado revisionismo do. Por isto, acredito que seja necessário que este material permaneça
marxista e, mais amplamente, da hegemonia liberal em escala euro- no nosso arquivo para ser aqui elaborado". Quanto às cartas, em par-
péia e mundial numa chave abertamente antimarxista. ticular, já no início de 1941 Togliatti havia compilado um caderno, no
É absolutamente decisivo entender que todos estes movimentos em qual "estão registradas 323 cartas do cárcere (de 20 de novembro de
torno do legado gramsciano - e que, às vezes conflituosos, envolviam 1926 para Giulia, a primeira; de 23 de janeiro de 1937 para Giulia, a
a família da mulher de Gramsci, Togliatti e os comunistas italianos no última) e 64 do período precedente". E, voltando à questão na mesma
exílio, bem como o Komintern liderado por Dimitrov, Manuilski e o comunicação de 25 de abril, Togliatti dizia a Dimitrov já haver uma
próprio Togliatti, mas obviamente posto sob a pesada sombra de Stalin edição das cartas "prontas para a publicação" nos Estados Unidos, para
- não aconteceram em condições ideais ou sequer "normais". Trata- onde a redação de Lo Stato operaio havia sido deslocada neste perío-
va-se, ao contrário, de um contexto histórico de contornos trágicos, do. Esta edição, obviamente, não foi levada a termo e não há mais
marcado por um regime de terror, como o stalinista, às vésperas de um notícias a seu respeito 11 •
embate de vida e morte com os invasores alemães e de uma aliança Como é natural, as vicissitudes da guerra interferiram gravemente
muito significativa - apesar de todos os seus crimes - com as demo- na preparação editorial. Num determinado momento, os arquivos do
c.racias ocidentais10• Komintern foram transferidos de Moscou para Ufa, na Basquíria, por
Neste quadro bem preciso, não é destituído de sentido supor que conta da invasão alemã. Em 4 de novembro de 1941, escrevendo no-
bem outro poderia ter sido o destino daquele legado - cadernos e cartas vamente para Dimitrov, 1ogliatti observou: "Em Moscou ficou o nia-
- , se a iniciativa togliattiana tivesse fracassado; neste caso, Gramsci nuscrito das cartas do companheiro Gramsci, que nós já tínhamos
teria sido apenas um "mártir do fascismo" e, quem sabe, cadernos e preparado para imprimir em Nova Iorque. Os dois companheiros ita-
cartas só agora estivessem emergindo dos arquivos russos. Togliatti lianos da editora, quando foram evacuados, não puderam levar este
parece ter perseguido, naqueles anos de chumbo, uma estratégia de manuscrito, porque, de acordo com as regras de trabalho da editora,
legitimação de Gramsci junto ao Komintern, registrando ambiguamente, todos os materiais no porão eram trancados num armário de ferro. Se
lt
ao mesmo tempo, os "cuidados" que sua obra requeria. Em 25 de abril não receberem este material, trata-se para nós de uma grande perda, já
de 1941, escrevendo a Dimitrov sobre os trabalhos em curso, afirma- que será necessário fazer de novo uma seleção muito ampla das cartas,
va: "Os cadernos de Gramsci, que já estudei cuidadosamente quase das cópias e assim por diante, com base nas cartas originais". Mas o
todos, contêm materiais que só podem ser utilizados depois de uma fato é que a "seleção muito ampla" a que Togliatti se referia - e que,
cuidadosa elaboração. Sem tal tratamento, o material não pode ser provavelmente, seria em linhas gerais a base da edição italiana de 1947
utilizado e, mais precisamente, algumas partes, se forem utilizadas na - só seria ultimada no decorrer de 1943 e no início de 1944, em Ufa
e depois novamente em Moscou 12 •
Em 1944, Togliatti voltou a Nápoles, mas a Itália ainda estava em
'ºUma excelente reconstituição dos acontecimentos da época, em torno do lega-
do gramsciano, está no ensaio de Giuseppe Vacca, "Togliatti editore dele Lettere
e dei Quaderni". ln: G. Vacca. Appuntamenti con Gramsci. Roma: Carocci, 1999,
p. 107-49. Nas linhas que se seguem, utilizaremos basicamente as informações 11Cf. Vacca, cit., p. 130-2.
contidas neste ensaio. tZCf. Vacca, cit., p. 133.

1 6 1 7

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CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÃO

boa parte dominada pelos nazistas, o que tornava inviável qualquer no tiveram as referências f~itas a Trotski e a alguns dos seus livros, que
iniciativa de fôlego. Mesmo assim, em 30 de abril, num importante Gramsci tivera interesse em ler; sem falar na omissão de delicados pon-
pronunciamento sobre "a herança literária de Gramsci", indica como tos de conflito, especialmente entre 1930 e 1933, entre Gramsci no cár-
tema principal dos Cadernos uma "história dos intelectuais italianos" cere, seu partido e o Komintern.
e anuncia: "As cartas do cárcere para a mulher, a cunhada e os filhos já Impossível - e desnecessário - ocultar as circunstâncias que
estão prontas para a publicação e serão publicadas assim que for pos- condicionaram a edição inicial das Cartas, talvez menos feliz, do pon-
sível mandar vir de Moscou os originais" 13 • Naturalmente, para dar to de vista político e filológico, do que a dos Cadernos, que se seguiria
seguimento adequado a esta anunciada edição inaugural, era preciso logo depois 14• No entanto, com todas as suas omissões e cortes que iam
contar não só com os originais tipográficos preparados a partir de có- além de questões "estritamente familiares", o livro teve, além do êxito
pias: tratava-se de trazer também as próprias cartas de Gramsci, depo- de vendas, um impacto profundo sobre os mais importantes intelectu-
sitadas no Instituto de Marxismo-Leninismo desde a extinção do ais italianos. Cabe mencionar, como exemplo, o caso famoso de
Komintern em 1943. E estas cartas, pedidas insistentemente por Benedetto Croce. Leitor arguto, nos Quaderni della "Critica", de ju-
Togliatti, só vieram a ser entregues pelos soviéticos em 1946 e em 1947, lho de 1947, Croce viu que o Gramsci das Cartas superava de longe "o
pouco antes do lançamento da edição italiana. catecismo filosófico escrito por Stalin". Reivindicou o livro até para
Na nota de abertura, não assinada, os organizadores assinalaram- quem pertencesse a um "partido político diferente e oposto", não só
com boa dose de verdade - alguns dos critérios que nortearam a pri- pela reverência e o afeto devidos a todos os que mantiveram a dignida-
meira edição das Cartas, composta de 218 textos: dizia-se, corretamen- de intacta diante de um regime feroz e odioso, como o fascismo, mas
te, que se tratava não de todas as cartas escritas nos anos de prisão, mas também, e principalmente, pelo fato de que Gramsci, como homem
de uma "escolha amplíssima", "mais do que suficiente para dar um qua- de pensamento, "foi um dos nossos".
dro dos dolorosos infortúnios do Autor, da sua têmpera de homem e de Ao dizer isto, Croce, que ainda não tinha conhecimento de toda a
militante revolucionário, dos seus interesses intelectuais e espirituais, da extensão da crítica a que fora submetido nos Cadernos, referia-se, em
sua ampla e profunda humanidade". Muitas cartas, dispersas nos anos particular, ao movimento de reação antipositivista e de retorno a Hegel
do fascismo e da guerra, não tinham sido ainda r'ecuperadas; sobre ou- nas primeiras décadas do século XX italiano, movimento que, de res-
tras, de caráter estritamente familiar, dizia-se que não era oportuno to, o vira como um dos seus líderes mais respeitados, ao lado de
publicá-las; e, pela mesma razão, alguns trechos de cartas publicadas Giovanni Gentile. Nessa edição de 1947, Croce pôde perceber "ore-
foram suprimidos, e é bem possível que, nestes casos, tivesse havido al- novado conceito de filosofia na sua tradição especulativa e dialética, e
gum entendimento entre Togliatti e a família de Gramsci, vale dizer, Giulia não positivista e classificatória, a ampla visão da história, a união da
(lulca), a mulher, e sua irmã Eugenia. Esta nota explicativa, no entanto, erudição com o filosofar, o sentido vivíssimo da poesia e da arte em
não trazia a verdade inteira: as referências a Amadeo Bordiga, primeiro seu caráter original, e, com isto, o caminho livre para reconhecer em
secretário-geral do PC!, dissidente "de esquerda" e então patrocinador positividade e autonomia todas as categorias ideais" 15 • Assim, de um
de um partido comunista alternativo, foram canceladas; o mesmo desti-
14
Este, pelo menos, é o sóbrio juízo de Enzo Santarelli, em seu Gramsci ritrovato,
cit., p. 14.
1 "Cf. Santarelli, cit., p. 147-8. 15Apud Enzo Santarelli, cit., p. 269 .

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CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÃO

modo ou de outro, e mesmo que a reivindicação crociana de Gramsci mesmo após o colapso do comunismo "realmente existente", o ameri-
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como "um dos nossos" ou sua celebração de um Gramsci anti-stalinista cano Frank Rosengarten editaria as Letters from Prison pela Columbia
fossem duramente contestadas pelos comunistas, o pensador sardo es- University Press, em 1994, com significativas ampliações: ele havia
tava inserido exitosamente na alta cultura - e também no afeto e na descoberto vinte novas cartas no início dos anos 1990 enquanto
estima popular, ainda que, aqui, com a costumeira idealização simpli- pesquisava o acervo do Instituto Gramsci de Roma, de modo que o
ficadora tão característica do tempo. Tratava-se, vale repetir, não de total de textos pessoais para a família e amigos subia para 476. Além
uma obra do acaso, mas de resultado buscado com obstinação e coe- disso, Rosengarten publicou um segundo grupo de cartas escritas para
rência ao longo de dez anos tempestuosos. Mussolini e várias autoridades carcerárias, o que tornava a edição
A partir de 1955, no contexto da desestalinização, e sempre com o americana, com 486 textos, a mais completa de todas até aquele mo-
empenho pessoal de Togliatti em recolher novos textos e superar os mento. Em 1996, Antonio A. Santucci realizaria, por fim, uma nova e
limites críticos e políticos da edição de 1947, começou o criterioso tra- exemplar edição italiana das Cartas, pela Ed. Sellerio, de Palermo, na
balho que desaguaria na mencionada edição de 1965, ainda pela mes- Sicília: são 478 textos pessoais, além de 16 petições e requerimentos
ma Ed. Einaudi, sem cortes de nenhuma espécie e com todos os 428 dirigidos a Mussolini, a autoridades judiciárias e do sistema carcerário 17 •
textos então conhecidos, alguns dos quais tinham sido publicados em E finalmente, depois de toda esta saga editorial, pode-se agora dizer
revistas e jornais nos anos anteriores16• Em 1988, Antonio A. Santucci com segurança que o corpus da correspondência gramsciana está com-
atualizaria esta valiosa obra de 1965, fazendo incorporar mais 28 tex- pleto ou, pelo menos, muito próximo disto.
tos totalmente inéditos ou inéditos apenas em livro, numa edição pa-
trocinada pelo jornal I.:Unità e prefaciada por dois notáveis estudiosos, 3.
Valentino Gerratana e Paolo Spriano. Logo após ser preso, Gramsci passou dezesseis dias em isolamento
E novas pesquisas em arquivo não deixariam de trazer surpresas. absoluto no cárcere romano de Regina Coeli, antes de ser enviado
Testemunhando a continuação do interesse internacional por Gramsci, para um breve confinamento na ilha de Ustica, entre 7 de dezembro
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de 1926 e 20 de janeiro de 1927. Confinado, mesmo tendo de se
submeter à censura, Gramsci ainda podia se comunicar livremente
16 Em 1966, a Ed. Civilização Brasileira publicou pioneiramente, entre nós, uma
com quem quisesse e, de fato, estas Cartas abrem com uma mensa-
primeira edição das Cartas do cárcere, selecionadas e traduzidas por Noênio Spínola
e com orelha de Roberto Pontual. Na "Nota sobre Antonio Gramscin, datada de f~ gem irônica à proprietária do apartamento em que morava, descul-
outubro de 1965, o tradutor brasileiro explica ter usado tanto a primeira edição
"togliattiana" quanto aquela recém-lançada em 1965, na Itália, como base para
os 233 textos em português, de resto não publicados em sua integralidade. O autor i pando-se pelos transtornos, não previstos em contrato, causados pela
intensa vigilância policial nas semanas anteriores à detenção e pela
da nota revela não ter omitido nada essencial - a enfermidade de Giulia, as crf-
ticas a Tatiana, aos irmãos, etc. - mas ter feito "as supressões, tanto de cartas
como de alguns trechos das mesmasn com base na edição de 1948 (na verdade,
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própria detenção.

1947), salvo raras exceções. Em apêndice, há dois textos muito importantes: uma
carta de Piero Sraffa ao editor do Manchester Guardian, denunciando em 24 de 170 mesmo alto padrão crftico está presente na recente edição mexicana das Cartas
outubro de 1927 as condições do prisioneiro, então à espera de julgamento num
cárcere de Milão; e uma significativa carta de Tatiana ao mesmo Sraffa, de 12 de de la cárcel, organizada por Dora Kanoussi e Cristina Ortega Kanoussi. Publicada
maio de 1937, narrando detalhadamente as circunstâncias da morte de Antonio em 2003, trata-se de uma iniciativa conjunta das Ediciones Era, da Benemérita
na clfnica romana Quisisana. Universidad Autónoma de Puebla e da Fondazione lstituto Gramsci, de Roma.

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INTRODUÇÃO
CARTAS DO CÁRCERE

Destaca-se também a imediata presença, na correspondência, de Piero fortuito entre Tatiana e Sraffa, que só se consolidaria como a rede de
Sraffa, que logo oferece ao amigo a possibilidade de obter livros, usando apoio possível ao prisionei;o em fins de 1928, quando ambos se viram
uma conta deixada em aberto na livraria milanesa Sperling & Kupfer. pela primeira vez em Milão, tornou-se uma relação, epistolar e pessoal,
Evidentemente, Sraffa não agia em termos puramente individuais, ou como digna de estudo em si mesma; tal relação estender-se-ia ininter-
um mecenas generoso interessado em evitar o embrutecimento intelectu- ruptamente por todo o período do cárcere e mesmo depois, indepen-
al do amigo, por mais que Gramsci guardasse a lembrança da sua "agradá- dentemente do isolamento político por que passou Gramsci por ocasião
vel companhia" nos anos em que vivera em Roma como deputado, da "virada" stalinista do Komintern a partir de 1928.
reforçando antigos laços nascidos ainda em Turim, na época de Z:Ordine Do ponto de vista prático, Tatiana passou a· centralizar a corres-
Nuovo. Sraffa significava, claramente, a presença da direção do PCI (e de pondência, escrita sob vários regimes de periodicidade e de censura,
Palmiro Togliatti, muito particularmente), que logo começou a tecer - a esta última mais ou menos acirrada mas invariavelmente presente, para
princípio de modo descoordenado, dada a violência da repressão - uma grande desconforto do prisioneiro. Em dias e horários rigidamente
pequena rede de sustentação material, e não só material, em torno do pri- determinados, muitas vezes ele usava uma mesma folha de papel para
sioneiro. Sraffa tinha familiares influentes e ricos, a começar pelo pai, ju- escrever a Tatiana e a outro parente, mas a carta, única, era necessa-
rista famoso, e podia transitar com certa desenvoltura entre Roma ou Milão, riamente destinada a Tatiana, que "redistribuía" a parte que cabia a
Paris e Cambridge. Nas duras condições do fascismo, era o homem ideal cada uma das duas famílias, na Sardenha e na URSS. Em Ustica, apesar
para a ligação entre o prisioneiro e a direção comunista e para a elabora-
da censura, Gramsci podia escolher qualquer destinatário. Em Milão,
ção de estratégias jurídicas, sem falar do delicado acompanhamento até
no cárcere de San Vittore, entre fevereiro de 1927 e maio de 1928,
mesmo de questões pessoais do prisioneiro.
encontrava-se ainda numa prisão judiciária, à espera de "julgamento",
No entanto, a figura decisiva desta rede, sem cuja inteligência, sen-
e podia escrever duas vezes por semana, só para parentes ou pessoas
sibilidade e espírito de solidariedade não se pode explicar toda a cor-
especialmente autorizadas. Na penitenciária especial de Turi de Bari,
respondência e a própria produtividade intelectual do prisioneiro, foi
destinada a condenados doentes, entre julho de 1928 e julho de 1931,
Tatiana (Tania) Schucht, a cunhada russa que, por motivo ignorado, • dias; depois disso e até novembro de
escrevia uma carta a cada quinze
vivia sozinha na Itália, uma vez que a família IJá muitos anos havia
deixado o exílio italiano, provocado pelo czarismo. Não sem razão, o 1933, por causa de mudanças no regulamento carcerário, pôde escre-
ver uma vez por semana.
primeiro livro que ressaltou a singular qualidade humana de Tatiana
Schucht associou-a à figura clássica de Antígona18 • E o encontro meio De fato, a maior parte da correspondência data destes primeiros
anos, até 1933, uma vez que, com a transferência do prisioneiro para
18Aldo Natoli. Antigane e il prigioniero. Tania Schucht lotta per la vita di Gramsci. t,. uma clínica privada, em Formia, entre dezembro de 1933 e agosto de
2. ed. Roma: Riuniti, 1991. Natoli, no entanto, defende a tese problemática- e f 1935, praticamente não havia mais necessidade de escrever. Aqui,
que só se sustenta especulativamente, sem apoio documental pelo menos até o t
r='. Tatiana visitava-o regularmente aos domingos, sem falar que o pró-
momento-, segundo a qual, depois da polêmica de 1926 com Togliatti (cf., su-
pra, nota 3), pesaria sobre Gramsci, no âmbito do Komintern, a suspeita de ~; prio Sraffa com ele esteve por três vezes em 1935, por ocasião das
"filotrotskismo", o que, absurdamente, faria de Gramsci menos um prisioneiro ~ suas rápidas visitas à Itália, sempre vigiado e inquirido pela polícia
do fascismo do que ... do comunismo stalinista! O stalinismo é um capítulo trági-
co da história política século XX, responsável pela desonra do conceito de socia- política. Assim, a única carta de 1934 está dirigida à mãe, cuja morte,

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lismo, mas, entre seus inúmeros crimes, salvo indicação documental em contrário, em dezembro de 1932, tinha sido ocultada de Gramsci. Na clínica
não está o de ter encarcerado e morto Antonio Gramsci.

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CARTAS 00 CÁRCERE INTRODUÇÃO

Quisisana, de Roma, entre agosto de 1935 e abril de 1937, Tatiana clara e firme. Esquecendo minha presença, lançou-se numa leitura
acompanhou-o até a morte e Sraffa visitou-o cinco vezes. Por isso, as apressada. Num certo ponto ' me olhou e disse, com voz trêmula: 'São
cartas finais são dirigidas em sua grande maioria à mulher e aos fi- cartas de Gramsci'. Depois, arrependido da revelação, obrigou-me a
lhos em Moscou. Durante todos estes anos, passados em diferentes manter o segredo mais absoluto. O episódio é importante. Demonstra
cárceres e clínicas, Tatiana copiava regularmente as cartas e enviava como a frieza e a proverbial calma de Togliatti fossem vulneráveis, uma
as cópias para Piero Sraffa, em Cambridge, o qual as repassava para fachada que podia apresentar rachaduras em certos momentos. Mas
o centro dirigente do PCI em Paris. Estas cartas - que, como vimos, demonstra, sobretudo, a natureza dos sentimentos que Togliatti nutria
chegavam a Togliatti e puderam ser contadas em número de 323 - , por Gramsci, de afeto e respeito, quase submissão" 19 •
somadas aos relatórios escritos por Tatiana depois das viagens feitas Além de portadores de ajuda material permanente - em nome
a Turi, documentam a ligação permanente entre Gramsci e seu parti- não só de sólidos vínculos pessoais mas também do patente vínculo
do, apesar de todas as divergências políticas e até mesmo sérias sus- político - , Tatiana e Sraffa desempenharam outros papéis impres-
peitas nutridas pelo prisioneiro. cindíveis na vida do prisioneiro. Tatiana não era só uma mulher que
A este respeito, aliás, deve-se mencionar o testemunho comovente adotava conscientemente a "ética do cuidado" ("sei viver apenas a
de um personagem histórico do comunismo italiano, Giorgio Amendola. vida dos outros, mas é preciso sempre que seja presa na engrenagem
Nas suas memórias, Amendola narra um encontro com Togliatti em desta e, então, sigo todas as fases dela como se fosse a minha pró-
Paris, em 1931. Este último encarrega-o de ir até Cambridge e trazer pria'', disse certa vez de si mesma), colocando-se num plano su-
um pacote em poder de Sraffa. Em Cambridge, Amendola logo se afei- bordinado e atendo-se à missão afetiva de amparo ao cunhado 20 •
çoa ao economista, com quem discute, entre outros temas, o desenro- Interlocutora principal do prisioneiro, Tatiana tentou suprir, do modo
lar da grande crise econômica em curso, a política keynesiana de como pôde e às vezes cometendo erros (omitindo por algum tempo
·incremento da demanda, o perigo de que este incremento se desse atra- notícias desagradáveis, nisto seguindo um velho costume familiar dos
vés da indústria bélica e daí, logicamente, levasse a uma guerra contra
Schuchts), a relativa escassez de correspondência de Giulia, a irmã
a URSS, "único país socialista". Esta era, inclusive, a opinião pessimis-
doente, cujo estilo "crepuscular'', além do mais, chocava-se com a
ta de Maurice Dobb, um jovem economista a quem Amendola foi apre-
necessidade sentida pelo prisioneiro de informações detalhadas, par-
sentado por Sraffa - e é interessante observa~ incidentalmente como, {
; ticulares, "concretas". Neste sentido, fazia-se conscientemente uma
nesta época, socialismo e stalinismo ainda pareciam realidades indis- ~..
espécie de "representante" da irmã e dos sobrinhos perante Gramsci,
tintas em círculos de evidente sofisticação intelectual e como, sem le- t<
0 evitando, na medida do possível, que essas figuras distantes se per-
var em conta tal indistinção, pouco se compreende da relação entre
dessem definitivamente por impossibilidade de um diálogo vivo, ain-
Gramsci no cárcere e a realidade do comunismo nos anos 1930.
da que mediado por cartas.
Ao voltar a Paris com o precioso pacote, cujo conteúdo desconhe- 1
cia, Amendola procurou imediatamente Togliatti: "Vejo-o ainda ficar
pálido e, com as mãos ainda trêmulas, tentar desfazer o nó do barban- !. 19
Giorgio Amendola. Un'isofa. 5. ed. Milão: Rizzoli, 1980, p. 31-4.
2 ºAafirmativa de Tatiana sobre sua disposição de espírito para "viver apenas a
te. Num certo ponto não resistiu mais e, sempre calmo e preciso, re-
vida dos outros" está em Antonio Gramsci-Tatiana Schucht. Lettere 1926-1935.
correu à tesoura. No pacote havia folhas de papel, escritas com caligrafia Org. por Aldo Natoli e Chiara Daniele. Turim: Einaudi, 1997, p. 573.

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CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÃO

Mas, repetimos, não há só esta dimensão em Tatiana. Um depoi- Gramsci mais do que a amizade política ou a afinidade que pode ser
mento de Giuliano Qulik) Gramsci ressalta as diferenças entre a tia ' intelectuais, ainda que com preocu-
estabelecida entre dois grandes
"italiana", a própria mãe e Eugenia, a outra tia que comandava a famí- pações teóricas e linhas de trabalho tão diferentes. Mesmo em Sraffa
lia, em Moscou, desde a morte do pai em 1933. Ao voltar à URSS em esteve presente, em boa medida, aquela "ética do cuidado" típica do
1938 ou 1939, Tatiana dava carne e osso a uma das duas abstrações temperamento da Antígona gramsciana, o que se mostra, por exem-
que haviam povoado até então a infância e a adolescência de Julik, que plo, quando em 1930 foi a ~oscou e visitou repetidas vezes a família
logo notaria nela uma subtancial diferença propriamente intelectual Schucht: deste modo, certificou-se das precárias condições de saúde
em relação às irmãs: antes de mais nada, diferença no modo de avaliar de Giulia e colheu inúmeras e detalhadas informações sobre as con-
as coisas, uma vez que parecia pensar em italiano e depois traduzir em dições de vida do núcleo familiar moscovita, buscando remediar as
russo, com "uma percepção original das questões", o que a tornava "obsessões" do prisioneiro. Como se sabe, estas nasciam, em boa
"impermeável às palavras de ordem da propaganda stalinista" 2 ' . De parte, do "silêncio de Iulca", das suas relativamente poucas e breves
~: cartas escritas de modo vago, alusivo, reticente, e eis que Sraffa se
resto, Tatiana era uma correspondente a quem se podiam comunicar ~.
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com naturalidade planos sofisticados de estudo, como, por exemplo, preocupava em trazer notícias precisas sobre o estado de saúde da
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aqueles que Gramsci lhe descreveu em 19 de março de 1927 e em 25 mulher, a amnésia, a epilepsia, os tratamentos à base de Luminal e de
de março de 1929 e são normalmente citados nos estudos sobre sua outro tipo.
vida intelectual no cárcere 22 • Não casualmente, Tatiana e Sraffa tiveram de entrar em acordo
Interlocutora altiva não só do prisioneiro, mas de um homem da quando se tratou de interferir sobre questões particularmente íntimas
estatura de Sraffa, nas vozes cruzadas destes três personagens perpas- e dolorosas. Entre muitos outros exemplos, foi o que aconteceu no fi-
sam dramas existenciais sutilíssimos de comunistas de uma época "sem nal de 1932. Então, Gramsci pretendeu sugerir a Giulia a hipótese do
comunismo", no Ocidente, ou de um comunismo como aquele sta- divórcio, libertando-a de um vínculo com alguém que via a si próprio
linista, na URSS, incapaz de superar a fase econômico-corporativa e a como um morto, ou quase isto. Havia na proposta de Gramsci - que
forma política do "cesarismo progressista", quando não da ditadura Tatiana, depois de se aconselhar com Sraffa, não levou adiante, criti-
aberta e repressiva que tantos danos traria à idêia do socialismo e do cando-a asperamente - não só o reflexo de um período particular-
J mente amargo e o pressentimento da piora das condições de saúde,
comunismo no século XX. Uma mulher, Tatiana, que, mesmo sem o
refinamento ou a erudição de Gramsci ou de Sraffa, tinha certamente 1 como o ano de 1933 viria confirmar de modo quase catastrófico. A
uma complexidade humana e intelectual à altura do rigor ético, que a
1 proposta era, também, uma expressão enviesada da "doença" ironic~­
fez desistir de voltar à URSS enquanto Gramsci vivia e tornar-se muito mente chamada por Gramsci de "carcerite", uma vez que baseada na
mais do que uma simples peça na engrenagem na vida do prisioneiro. idéia de que "muitas mulheres, que tinham o marido no cárcere, con-
denado a penas altas, se consideraram livres de todo e qualquer víncu-
Ao mesmo tempo, observa-se também na relação entre Sraffa e
1 lo moral e tentaram construir para si uma vida nova". Este argumento,
como Tatiana e Sraffa logo compreenderam, tinha algo de convencio-
21 Giuseppe Vacca e Chiara Daniele. Le donne di Gramsci: Eugenia, Giulia e Tatiana nal e muito de egoísta, ao não levar em conta as circunstâncias efetivas
Schucht. Roma, 2002, ms. Apud Dora Kanoussi. "Introdução". ln: Antonio
em que estava baseada a relação amorosa de Antonio e Giulia, intensa
Gramsci. Cartas de la cárcel, cir., p. 15.
22 Cf. cartas 25 e 147, infra, p. 127-30 e 328-31. mas breve, entrecortada e afinal esmagada por aspectos políticos e

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CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÃO

pessoais de dimensões trágicas, mas não passível de ser desfeita como método, para que Marx superasse a filosofia hegeliana no sentido de
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um mero "contrato". um historicismo absoluto, rigorosamente imanente e despido de qual-
Entre 1931 e 1933, em decorrência de graves divergências políti- quer traço especulativo, tal como Gramsci entendia ser sua "filosofia
cas com a expectativa do Kominte;n (e do PCI) sobre um rápido des- da práxis". Pouco importa que esta hipótese, vinda de uma cabeça que
fecho revolucionário da crise capitalista, agravou-se o isolamento de costumava pensar "analogicamente", não encontrasse resposta positi-
Gramsci, embora não haja o menor registro de medidas drásticas, como va por parte da cabeça "analítica" de Sraffa, para quem não se poderia
seria o caso de uma expulsão ou alguma outra medida disciplinar co- "traduzir" o esforço investigativo de Ricardo, um homem de limitada
mum nas disputas em todas as correntes de esquerda, inclusive no cultura filosófica, para outra esfera além da economia24 •
Komintern e no PCI. Com efeito, neste período são escassas as refe- O que interessa sublinhar, a partir destes dois episódios nítidos e
rências ao nome do dirigente comunista na imprensa partidária depois ricos de diálogo intelectual, episódios de modo algum isolados, é que
da publicação ainda em 1930, em Lo Stato operaio, da famosa "intro- não estamos diante de um homem abandonado ou ignorado pelos
dução" aos Cadernos que é o ensaio "Alguns temas da questão meri- ;t amigos e companheiros políticos. Ele, pelo contrário, depositava intei-
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dional"23. Pois foi exatamente entre o outono de 1931 e o verão de ra confiança - nas dificílimas condições em que vivia - , se não em
1932 que o diálogo especificamente intelectual entre Sraffa e Gramsci todos os seus companheiros, pelo menos, certamente, na pequena
- sempre com a mediação ativa e informada de Tatiana e o pleno co- "rede" de suporte e apoio que seu partido, pequeno e clandestino, há
nhecimento de Togliatti - se tornou mais denso e produtivo, contri- muitos anos conseguira estabelecer: uma rede que girava em torno de
buindo para estimular a atividade do prisioneiro apesar não só do Tatiana e Sraffa, e praticamente não podia ser outra, dada a personali-
desastre que se anunciava, com a nova e gravíssima crise de saúde em dade de Gramsci, esquivo a contatos diretamente políticos na prisão e
março de 1933, mas também apesar da conseqüência inesperada do contrário às eventuais atividades de agitação em torno da sua liberda-
acirramento da censura no cárcere. de promovidas pelo Komintern, que poderiam indispor a única pessoa
Os censores, como o ofício lhes impunha, perceberam a nova in- de quem dependia sua liberdade: Mussolini. (E esta pequena "estrutu-
tensidade da correspondência e viram nas seguidas intervenções de ra", diga-se de passagem, foi uma das condições de possibilidade do
Gramsci sobre a recém-publicada Storia d'Etl-ropa nel secolo XIX - enorme esforço intelectual que gerou estes extraordinários cadernos e
requeridas por Tatiana, em concordância com Sraffa, sob o pretexto cartas de que estamos nos ocupando.)
de que lhe serviriam como subsídio para uin suposto trabalho que es-
tava realizando sobre Croce - uma tentativa de contrabandear textos
i~
Assim, em 27 de fevereiro de 1933, com a saúde destroçada e con-
fiando cada vez menos na possibilidade de sair vivo do cárcere, Gramsci
' para serem publicados no exterior, certamente na URSS. E houve bem "
mais: aproximadamente na mesma época, em maio de 1932, Gramsci,
1
24
numa carta a Tatiana, se referiu explicitamente a Piero Sraffa, já então Cf. Piero Sraffa. Lettere a Tania per Gramsci. Introdução e organização de
Valentino Gerratana. Roma: Riuniti, 1991, p. XLL Este livro contém as 79 cartas
conhecido especialista em David Ricardo, pedindo algum esclarecimen- dirigidas por Sraffa a Tatiana entre 1929 e 1938, cartas que compõem o indispen-
to sobre a hipótese de Ricardo ter contribuído, do ponto de vista do sável pano de fundo para a compreensão da atividade intelectual do prisioneiro.
Mas não só isto: nelas se evidenciam os esforços para a obtenção da liberdade
condicional, para a transferência do prisioneiro para alguma clínica privada, bem
corno os cuidados a serem tomados para preservar o legado literário ainda na Roma
23 Cf. Antonio Gramsci. Escritos polfticos, cit., v. 2, p. 405-35. fascista, depois da morte de Grarnsci, etc.

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CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÂO

escreveu uma cana terrível a Tatiana, dizendo-se condenado por um na péssima clínica de Formia) e sua tragédia amorosa: ligando-se a
organismo muito mais amplo e poderoso do que o tribunal de exceção Iulca, também cada vez mai1 doente e encerrada num círculo familiar
que o "julgara" em 1928. Deste organismo, que envolveria o Komintern, problemático e com claros sinais psicopatológicos, dominado pela
os comunistas e, quem sabe, "Togliatti, até mesmo a mulher lulca teria figura imperiosa da irmã Eugenia na distante Moscou, Gramsci intuiu,
participado, embora de modo inconsciente. Letra e espírito desta carta desde que partiu da URSS, em fins de 1923, que a mulher "talvez
são comoventes, ao indicarem um espírito como o de Gramsci, doente e ficasse distante" para sempre. E a conturbada permanência de Giulia,
solitário (em termos amorosos e, às vezes, políticos), às voltas com o Eugenia e a própria Tatiana em Roma, entre 1925 e 1926, acrescenta
sentimento lancinante de que "a vida é traição" - tal como expresso elementos não diretamente políticos - ou melhor, nem remotamen-
num dos nossos maiores versos. "Algumas vezes - escrevia Gramsci à te políticos - para a compreensão do relativo silêncio de Iulca de-
cunhada - tenho pensado que toda a minha vida foi um grande (grande pois da prisão do marido em 1926.
para mim) equívoco, um desatino. O que ainda me convence de que isto Isto posto, deve-se assinalar que em várias das suas cartas Gramsci
não é inteiramente verdade é seu comportamento e, especialmente, o fez duríssimas alusões políticas, ainda que às vezes veladas ou enigmáti-
b
do advogado [Sraffa]" 25 • Verdadeiramente, são palavras à altura dopa-
~ ~as, como quando, em 19 de maio de 1930, se disse submetido a "vários
pel honrado que tiveram Tatiana e Sraffa na grande tragédia do prisio- (: regimes carcerários", entre os quais o fascismo era apenas o mais ime-
neiro, não obstante a séria divergência depois da morte deste último. diato, além de confessar não ter podido prever e avaliar os golpes ("me-·
tafóricos") que vieram não dos adversários, mas de onde menos podia
4. 26
esperar • (A viagem de Sraffa à URSS, acima mencionada, contribuiu
A idéia de um Gramsci abandonado no cárcere pelos seus companhei- para dissipar, pelo menos provisoriamente, esta e outras obsessões de
ros - e, como disse polemicamente o escritor siciliano Leonardo Gramsci, redimensionando-as à luz dos fatos reais que testemunhou in
Sciascia em 1989, pior do que abandonado, traído, tal como, em ou- loco e imediatamente informou a Tatiana.) De qualquer modo, este con-
tras circunstâncias, Aldo Moro teria sido abandonado e traído pelos junto de problemas requer frieza analítica e busca incessante de docu-
democratas-cristãos por ocasião do seu seqüestro e assassinato nos anos mentos, a qual, aparentemente, ainda não terminou. Estes dois fatores,
1970 - é uma sombra recorrente insinuada p~r alguns estudiosos. combinados, permitem relacionar as "obsessões" de Gramsci e o con-
Neste sentido, não raro dúvidas legítimas dão lugar a especula- texto no qual surgiram, avaliando, com a precisão possível, seu maior
ções grosseiras, mesmo na falta de uma base documental mais sólida ou menor fundamento. E este é, exatamente, o caminho para investigar
ou até na falta total de tal base. Muito se insistiu- a rigor, acertada- a real natureza da divergência entre Gramsci e o movimento comunista
mente - sobre o lugar central que a política teve na vida e na obra durante um determinado período dos anos de cárcere.
de Antonio Gramsci, mas a insistência pode implicar o risco de su- Fala-se, por exemplo, em "ruptura" por causa da correspondência
bestimar outros fatores inteira ou relativamente independentes da trocada entre Gramsci e Togliatti, então representante do partido no
política, como suas precárias condições de saúde (que só poderiam Komintern, no ano fatídico de 1926; um ano no qual, em Moscou,
piorar progressivamente na sombria penitenciária de Turi e, depois, Stalin e Bukharin conseguiram derrotar a oposição reunida em torno

[ 25 Cf. carta 376, v. 2, p. 313.


1 26
Cf. carta 186, infra, p. 418-20.

30
3 1
li'
\~

CARTAS DO CÁRCERE
INTRODUÇÃO

de Trotski, Zinoviev e Kamenev, enquanto logo em seguida, em Roma,


Gramsci seria preso, perdendo de uma vez por todas a possibilidade Grieco, envolvendo prova'11elmente Togliatti. Todo este enredo se com-
de intervir direta e abertamente nas questões candentes do comunis- plica ainda mais se tivermos em mente que, tanto para Gramsci quanto
mo. E o uso da palavra "ruptura'', neste caso, não é inocente: no uni- para Tatiana, Sraffa se identificava inequivocamente com o nível diri-
verso do bolchevismo, implica anátema, excomunhão, expulsão. Para gente mais alto do PCI, ou seja, com Togliatti e seus auxiliares mais pró-
alguns, a conclusão que se segue, quase automática, é que Gramsci ximos, e não faria sentido apelar àquele contra estes últimos. Mas o fato
esteve desde o início sob a suspeita de dissidência filotrotskista e, por é que, pela primeira e única vez, em 1937 Tatiana e Sraffa estiveram à
isso, foi covardemente abandonado à própria sorte pelo Komintf'.rn e beira de uma ruptura, inclusive pessoal, o que nos leva a apontar a ne-
até pelos seus companheiros mais próximos; e, se Giulia não escrevia, cessidade de investigar esta segunda zona de sombra entre "Gramsci no
não era por causa da doença ou do meio familiar conturbado, mas por cárcere e o partido", para mencionar o título famoso de Paolo Spriano.
estar sob estrita vigilância da censura soviética. Analisar, ainda que em Hoje, é absolutamente impossível considerar a troca de cartas entre
termos breves, a natureza da divergência entre Gramsci e Togliatti, em Togliatti e Gramsci, em outubro de 1926, fora do contexto da documen-
1926, é um exercício necessário para que se identifique, com a objeti- tação recentemente publicada por Vacca e Daniele, bem como da inter-
vidade possível, esta primeira "zona de sombra". pretação dada por Vacca no ensaio que abre o livro 28 • Antes de qualquer
Há um segundo ponto a ser examinado nesta mesma ordem de pre- outra coisa, simplesmente não é verdade ter Togliatti retido, deliberada
ocupações. Em fevereiro de 1928, antes ainda do "julgamento" em ju- e arbitrariamente, a carta gramsciana de 14 de outubro de 1926 ao co-
nho daquele mesmo ano, Ruggero Grieco, um dos mais próximos mitê central do partido russo. Ao contrário: em nome do birô político
colaboradores de Gramsci no imediato período pré-carcerário, enviou- do partido italiano - a mesma instância em nome da qual Gramsci es-
lhe, do exterior, uma carta de saudações, que o prisioneiro, descon- crevera no dia 14-, a dirigente Camilla Ravera autorizou explicitamente
fiadamente, logo considerou "estranha" e, ao longo dos anos, assumiria a não-transmissão da carta, até uma próxima reunião da direção que se
tons de um ato indicativo de sinistra conspiração27 • Sabe-se mesmo que, realizaria no início de novembro e contaria com a presença de Jules
fazendo-se intérprete fiel desta desconfiança, depois da morte do cunhado Humbert-Droz, representante do Komintern, e do próprio GramscF 9 •
Tatiana escreveu a Sraffa, pedindo-lhe ajuda p~a decifrar as intenções 28
Cf. Giuseppe Vacca e Chiara Daniele (orgs.). Gramsci a Roma, Togliatti a Mos-
funestas que estariam por trás da carta de Grieco e até iriam além de ca. Il carteggio dei 1926. Turim: Einaudi, 1999. Deve-se ver também a argumen-
tação de Michele Pistillo. Gramsci - Togliatti. Polemiche e dissensi 11el 1926.
Manduria-Bari-Roma: Piero Lacaita, 1996.
29
27 Cf. 0 suíço Jules Humbert-Droz, com Togliatti, "foi um dos expoentes de primeiro
carta 7, apêndice 2, v. 2, p. 463-5. A carta de Grieco foi descoberta no Ar-
plano da direção bukhariniana da Internacional". Afastou-se de Togliatti no VI
quivo Central do Estado italiano por Paolo Spriano e publicada imediatamente na Congresso da IC, cm 1928, que aprovou a política de "classe contra classe'', dada a
revista runascita, do PCI, em 9 de agosto de 1968, junto com outros textos rela- suposta iminência de uma nova fase revolucionária no Ocidente. Humbert-Droz
tivos à questão. Na forma de livro, toda a documentação está reunida em Paolo caiu em desgraça desde então, mas acolheria com entusiasmo a breve época das
Spriano. Gramsci in carcere e il partito, cit. Trata-se de um livro clássico, que tem frentes populares. Mesmo depois de rompido com o movimento comunista, cm
"resistido" galhardamente à recente abertura de arquivos soviéticos. Spriano dei- decorrência do horror dos processos de Moscou, Humbert-Droz manteve a ativi-
xou-nos um outro livro importante, no qual estava trabalhando quando morreu dade política socialista e desenvolveu uma análise da conjuntura pós-stalinista que,
prematuramente, reunindo documentos inéditos relativos às iniciativas da então significativamente, usava conhecidos conceitos togliattianos, como o "policentrismo"
URSS para negociar com o regime fascista: !.:ultima ricerca di Paolo· Spriano. Dagli e a "unidade na diversidade", fundamento para as diferentes vias nacionais ao soci-
archivi dell'Urss i documenti segreti sui tentativi per sal vare Antonio Gramsci. Con alismo. Sobre este intrigante personagem, cf. Claudio Natoli. "Jules Humbert-Droz
scritti di Alessandro Natta e Valentino Gerratana. Roma: L'Unità, 1988. e i comunisti italiani". ln: ld. Fascismo Democrazia Socialismo. Comunisti e socialisti
tra le due guerre. Milão: Franco Angeli, 2000, p. 163-84.

32
33
w
INTRODUÇÃO
CARTAS DO CÁRCERE

Este último não compareceria à reunião, convocada para as imedia- - e isto no exato moment61 em que o fascismo preparava sua transfor-
ções de Gênova, acossado como estava pela polícia política, e não é mação definitiva em regime totalitário, com a supressão e proscrição
mais possível saber se teria mantido os termos da carta de 14 de outu- de todas as demais correntes políticas, particularmente o pequeno e
bro ou se, de um modo ou de outro, se alinharia às teses majoritárias aguerrido partido comunista.
no partido russo, como parece ter feito a direção do PCPº. Desfeita, Togliatti, naturalmente, também era um adepto convicto da NEP,
mas, ao contrário de Gramsci, fazia uma diferente "análise de fase",
documentalmente, a falsa (e difundida) idéia de que Togliatti impediu
para usar o jargão da Internacional. Para ele, os anos de estabilização
a entrega da carta de Gramsci, agindo "maquiavelicarnente" por conta
relativa da crise do capitalismo não permitiam supor como viável o
de Stalin, cabe examinar os 5 6 documentos publicados no livro de Vacca
projeto revolucionário no Ocidente e a própria crise no partido rus-
e Daniele; cobrindo todo o ano de 1926, para conseguir uma visão pre-
so estava ligada a esta dramática imposição dos fatos. O instrumento
cisa das divergências que surgiram entre Togliatti, muito próximo das
analítico de que se valia Togliatti era, por certo, bastante precário -
teses de Bukharin (e não propriamente de Stalin), em Moscou, e o
"comunismo de esquerda", que marcava o grupo dirigente do PCI em ~
~(
especialmente se for comparado com a riqueza conceituai da "revo-
lução passiva" gramsciana dos anos do cárcere, que dava conta, exa-
torno de Grarnsci, mesmo depois de derrotadas as posições ultra-es- tamente, do esgotamento do impulso revolucionário da URSS no
querdistas de Bordiga. Ocidente e da vigência de processos do tipo "revolução sem revolu-
Grarnsci, na verdade, defendia a política majoritária da NEP - a ção", como o fascismo, o americanismo e, muito provavelmente, a
Nova Política Econômica leninista - segundo uma concepção tipica- própria revolução staliniana "pelo alto". No entanto, se prescindir-
mente sua, a saber, a de que cabia ao proletariado russo superar inte- mos da diferença de instrumentos conceituais, é digno de nota como
resses imediatos e candidatar-se à direção de todo o processo mediante Togliatti tenha antecipado, em 1926, o tema da "revolução passiva",
concessões econômicas aos camponeses, o que teria, certamente, ga- ainda que, por outro lado, não se desse conta (como os demais
rantido uma relação menos tensa entre a vanguarda operária e o imen- bukharinistas) da gravidade da involução em curso no regime inter-
so universo camponês. Ao mesmo tempo, criticava duramente os no do partido bolchevique.
métodos usados pela maioria de Stalin e Buk'harin para derrotar ou l't Seja como for, a existência desta divergência de 1926 pesou du-
tripudiar sobre o bloco das oposições no interior do partido russo: afi- ramente sobre os comunistas italianos, herdeiros e divulgadores do
nal, Zinoviev, Kamenev e Trotski tinham dado uma contribuição ines- legado de Gramsci, e, como vimos, ainda hoje alimenta especulações
timável ao andamento da Revolução Russa, mas não só disto se tratava:
J sobre abandono e traição no cárcere. Nos anos da infâmia stalinista,
a unidade do grupo dirigente russo representava, sobretudo, urna con- os comunistas italianos, de fato, não tiveram interesse na divulgação
dição indispensável para a atualidade da revolução no Ocidente, que da correspondência de 1926, que poderia ter representado a coloca-
Gramsci, então, considerava uma possibilidade concreta, um objetivo ção de Gramsci entre os heréticos do marxismo-leninismo, quando,
a ser perseguido por todos os partidos comunistas, inclusive o italiano ao contrário, a estratégia togliattiana era, claramente, a de legitirná-
lo junto ao Komintern e ao partido russo como o grande líder da classe
operária italiana de inquestionável orientação leninista (e stalinista).
3 ºCf.
a comunicação da secretaria do PCI, de 16 de novembro de 1926, em Giuseppe Além disso, a explicitação da divergência por certo corroeria a no-
Vacca e Chiara Daniele. Gramsci a Roma, Togliatti a Mosca, cit., p. 441-2. ção de continuidade sem ruptura entre Gramsci e Togliatti, entre o

34 35


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INTRODUÇÃO
CARTAS DO C.ÁRCERE f_:

mestre e seu melhor discípulo, típica da mitologia partidária numa sioneiro pesadas desconfiapças que só se agravariam com o passar do
certa época, de modo que por muito tempo, até os anos 1960, não ;-, ~ tempo. Logo depois de recebê-la, Gramsci admite, escrevendo à mu-
haveria uma boa contribuição dos comunistas italianos para o escla- lher, que "talvez a vida carcerária tenha me tornado mais desconfiado
recimento da questão. do que a prudência normal requer; mas o fato é que esta carta[ ... ) me
De fato, ao morrer Gramsci, foi um dissidente de "direita" - An- ~~ deixou irritado" 32 • Por explícita admissão de Gramsci, em 5 de dezem-
gelo Tasca - quem publicou trechos da carta de 14 de outubro de 1926 bro de 1932, a espessa teia de suspeitas tinha nascido em conversas
e, no ano seguinte, publicaria sua versão integral em Problemi della com Enrico Macis, o juiz encarregado da instrução do processo, sardo
rivoluzione italiana, uma revista por ele dirigida em Paris. No entanto, como ele: "Lembre - escreveu Gramsci à cunhada - que em 1928,
Tasca jamais indicou, direta ou indiretamente, que a correspondência quando estava na prisão judiciária de Milão, recebi uma carta de um
de 1926 tivesse tido a menor repercussão negativa sobre o destino de 'amigo' que estava no exterior. Lembre que lhe falei dessa carta muito
Gramsci. E Tasca era um observador privilegiado: viveu em Moscou K 'estranha' e relatei que o juiz encarregado da instrução, depois de me

como representante do PCI, participou intensamente dos debates so- t'
~
entregar a carta, acrescentou textualmente: 'Deputado Gramsci, o se-
~ nhor tem alguns amigos que certamente querem que passe uma boa
bre a "virada" do VI Congresso do Komintern, em 1928, como mem-
(,,. temporada na prisão"'.
bro da ala "direita" (ao lado de Humbert-Droz e Clara Zetkin), contrária
à liquidação da NEP, na URSS, e à nova política de choque frontal de E E mais: segundo Macis, a carta de Grieco teria interferido no an-
~
classes. Fundamentalmente, Tasca testemunhou fatos e recolheu docu- damento da instrução processual, a qual não excluiria a perspectiva de
mentos que tempestivamente trouxe à luz, como no caso da carta de f absolvição, e até mesmo impedido uma possível suspensão do próprio
1926, mas nada, em absoluto, que significasse a "condenação" de ~
~t
processo, o que, como é por si mesmo evidente, estava em estridente
Gramsci no âmbito do Komintern progressivamente stalinizado31 • contradição com a sanha contra os comunistas e, em particular, contra
Também não há, por parte de Gramsci, nenhuma menção a este seu dirigente máximo, publicamente reconhecido como tal. Além dis-
conjunto de problemas, quer nestas Cartas, quer nas conversas mantidas so, sempre segundo Macis (e com a tácita concordância de Gramsci),

~
com Tatiana, devidamente registradas em min~ciosos relatórios dirigi- não fosse uma certa boa vontade dos carcereiros, a "famigerada carta"
a
dos Sraffa (a Togliatti). E nenhum dos parentes russos - Eugenia
t
teria significado um endurecimento das condições prisionais, com a
morreria em 1972, Giulia em 1980, sem contar o filho Giuliano, que proscrição das visitas de Tatiana, e teria também prejudicado negocia-
ções em curso entre o governo soviético e o italiano para a libertação
ainda hoje pode trazer algum testemunho - jamais denunciou algum
tipo de cerceamento na comunicação com o prisioneiro por causa de
1
t do prisioneiro. Macis, naturalmente, quis destruir a carta, no que foi
suposto filotrotskismo, mesmo que esta denúncia fosse claramente pos- obstaculizado por um segundo juiz militar, que, este sim, buscava im-
sível pelo menos desde 1956. placavelmente a condenação ... Tatiana, depois da morte do cunhado,
Bem diferente é a questão relativa à carta de Ruggero Grieco, que pediria explicitamente ajuda a Sraffa para desvendar a "atividade qua-
é um elemento propriamente inte,no das Cartas, ao alimentar no pri-
32
Cf. carta 109, infra, p. 264. Para acompanhar a exasperaçi\o crescente do prisi-
oneiro em relação ao episódio, devem ser lidas, com atenção, as cartas 357 e 376,
Pistillo. Gramsci in carcere. Le difficili verità d'un lento assassinio.
31 Michele
v. 2, p. 269-72 e p. 311-4.
Manduria-Bari-Roma: Piero Lacaita, 2001, p. 41.

37
36
ff
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CARTAS DO CÁRCERE ~t INTRODUÇÃO
~:..

fe
se diabólica" por trás daquela carta de fevereiro de 1928, sem obter a busca de um proveito maio.[- Scoccimarro nada recebeu. Terracini, ao
concordância do até então amigo e confidente de longos anos, o qual contrário, não só recebeu sua carta como pôde responder a Grieco em
não via em toda a questão nada além da leviandade do remetente e a tom amistoso e irônico, ele que mal havia saído de quinze meses de
~·..
ação típica de um dos juízes para abalar a confiança do prisioneiro 33 .
Independentemente do juízo sobre a oportunidade ou o risco im-
r
r1·
isolamento e ficaria preso até 1943: "Seria um fanfarrão se dissesse
que nunca estive tão bem e que este regime é o mais desejável; mas
F:
plícito na tentativa de contato com o prisioneiro, a carta de fevereiro ?·." não minto afirmando que estou contente por poder, sem maiores da-
de 1928 não tinha sido a primeira destas tentativas. Em 2 de fevereiro t~ nos, superar os muitos anos de cárcere que me esperam. Creio que tal

de 1927, o mesmo Grieco escrevera a Gramsci dando notícias sobre a ~· perspectiva inspire mais tristeza a vocês do que a mim e aos outros que
estão comigo. Nós nos 'ambientamos' perfeitamente e avaliamos devi-
saúde dos seus familiares e fazendo referências políticas gerais, inclu-
sive sobre a continuidade do trabalho de partido ("Eu estou extraordi-
ti damente os fatos pelos quais fornos arrastados. Assim, a sentença que

nariamente bem, malgrado tudo, e bem sob qualquer aspecto. Trabalho nos espera já não conta mais nos seus efeitos morais; resta por saldar o
com muita alegria e uma razoável produtividade"). Em outubro de lado material. Mas isto é o de rnenos" 35 • É pertinente lembrar que
1927, houve um segundo documento para Mauro Scoccimarro - jun- Terracini, no "processão" contra os comunistas, recebeu a pena máxi-
to com Gramsci e Umberto Terracini, um dos três máximos dirigentes 1 ma (vinte e dois anos e nove meses), maior até do que a de Gramsci e

I
~
presos-, assinado pelos dirigentes do Komintern, inclusive os de cla- Scoccimarro (vinte anos e quatro meses). Assim, só em Gramsci a car-
ra orientação anti-stalinista, tendo em vista o julgamento que então se ta de Grieco teve efeitos devastadores, talvez por conta de motivos
considerava iminente: "[ ... ] atribuímos a direção do debate a você, menos políticos do que físicos e psicológicos, ligados à crescente dete-
U.(rnberto) e A.(ntonio). Oponham, com calma e serenidade, sua posi-
' rioração da saúde e à insuperável solidão amorosa.
ção ideológica e política às deturpações que dela fizerem alguns advo- '
\
Cabe também observar que a "famigerada carta" simplesmente não
gados"34. consta dos autos do processo e, datada de 10 de fevereiro de 1928,
~
E, voltando a fevereiro de 1928, Grieco, com efeito, enviou cartas f chegou muito tempo depois de ter sido encerrada a fase de instrução,
['.
de teor semelhante não só a Gramsci mas também aos mesmos Sco- de modo que as insinuações de Macis terão tido um intuito de pura
1t
ccirnarro e Terracini, que, de resto, seriam referências históricas do PCI ~ provocação - aparentemente, muito bem-sucedida. Além disso, nela
(e da república italiana) por muitas décadas, até a morte de ambos, sem não havia nada que as autoridades do regime ignorassem sobre o papel
carregar a menor sombra de suspeita. De posse das cartas, as autorida- de Gramsci, Terracini e Scoêcimarro na estrutura do Partido Comunis-
des parecem ter adotado procedimentos nitidamente diferentes em ta, para não falar do fato de que as sentenças do Tribunal Especial,
ditadas pessoalmente por Mussolini, não precisavam de provas para se
sustentarem36 •
JJTodas estas informações vêm do "Relatório de Tania sobre a segunda visita a Um último ponto resta por esclarecer: em 1927 houve, de fato, uma
Turi" [1929] e da cana de Tatiana a Sraffa em 11 de fevereiro de 1933, a primeira
de uma série em que descrevia minuciosamente seus vários encontros, naquele
ano, com o prisioneiro em Turi. Cf. Piero Sraffa. Lettere a Tania per Gramsci, cit., lSCf. P. Spriano. Gramsci in carcere e il partito, cit., p. 141.
p. 213-59. l
6
Cf., sobre estes pontos, M. Pistillo. Gramsci in carcere.•• , cit., p. 85-96, e, espe-
34
Cf. Michele Pistillo. Gramsci come Moro? Manduria-Bari-Roma: Piero Lacaita, cialmente, Giuseppe Fiori. Gramsci Togliatti Stalin. Roma-Bari: Laterza, 1991, p.
1989, p. 111-2 e 63-4. 10-25.

38 39
··-·--·-·~··-·-·· : .. ;.;; .:~:' ···-- ..

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CARTAS DO CÁRCERE INTRODUÇÃO
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tentativa de negociação entre a URSS e o Vaticano para uma possível liniana no VI Congresso d~ Komintern e os efeitos progressivos sobre
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troca de prisioneiros, mas, em 20 de outubro, quatro meses antes da carta suas "seções" nacionais, é preciso mencionar sumariamente alguns
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de Grieco, o jesuíta Pietro Tacchi Ventura, que tinha acesso ao círculo ~:. pontos da política comunista nos anos 20 e 30 do século passado. Esta
de autoridades próximas de Mussolini, "transmite ao secretário de Esta- "virada", como já dissemos, consistiu basicamente numa mudança da

~
do [do Vaticano], Cardeal Gasparri, a recusa de Mussolini de intervir "análise de fase" da crise do capitalismo: agora, segundo Stalin (contra
em favor de Gramsci e Terracini, antes do processo e da sentença de Bukharin e, inicialmente, contra Togliatti, mas este último, no fim de
f;~
condenação do Tribunal [Especial]"37 • Puro pretexto de Mussolini, na- rt~ 1929, aceitaria a linha majoritária, preferindo que seu pequeno e clan-
turalmente, cuja decisão de condenar Gramsci a uma morte lenta então é" destino partido não rompesse com o Komintern), passava-se a um pe-
~
já estava tomada e seria criteriosamente executada ao longo dos dez anos
~
~~
ríodo de agitações revolucionárias iminentes, deixando para trás a
que se seguiriam, sem abrir margem para nenhuma negociação com os g "estabilização relativa" dos anos anteriores.
soviéticos, intermediada ou não pelo Vaticano. ~ A política de classe contra classe impunha cortes rígidos: os so-
Por todos estes motivos, no estdgio atual da documentação, parece
que também neste caso Sraffa viu com precisão e racionalidade o que 1 cialdemocratas, por exemplo, eram mera linha auxiliar do capitalismo
e do fascismo, eram "socialfascistas"; se fossem de esquerda, seriam
tinha verdadeiramente se passado - uma mera imprudência ou levi-
andade do remetente, considerada a situação especial de Gramsci, que,
i "objetivamente" ainda mais perigosos do que os socialdemocratas
moderados ou de direita. Cabia apenas desmascará-los diante das massas
diferentemente de Terracini, não queria nenhum contato direto com
os outros dirigentes partidários, pretendia manter-se rigorosamente den-
1 que, em vias de rápida radicalização, ainda os tivessem equivocada-

tro das normas carcerárias e explorar apenas as limitadas possibilida-


des legais que estavam ao seu alcance. E o que Gramsci sempre
i• mente como líderes operários e não como traidores. Tal política impli-
cava outros aspectos práticos para os diferentes partidos: por exemplo,

considerou como a "grande tentativa" - a negociação de governo a


l na previsão do evento revolucionário, o PCI devia transferir seus qua-

governo, entre a URSS e a Itália, com exclusão de qualquer instância 1~


dros dirigentes e seus militantes no exílio para dentro do país, o que,
como se podia esperar, embora reafirmasse a corajosa ação comunista
partidária - nunca teve acolhida junto ao fascismo, o que é atestado ~ na Itália fascista, fatalmente acentuaria as medidas repressivas e daria
inclusive pelos papéis reunidos na "últimaitinvestigação" de Paolo
lugar a novas levas de presos e confinados.
Spriano nos arquivos da antiga URSS. Terracini, inteiramente contrário a esta política, mas consciente de
que os dirigentes presos pouco podiam fazer e nada contavam na for-
5.
mulação das diretrizes, pôde deixar um depoimento que também ilu-
As já distantes e dramáticas vicissitudes do Komintern - o partido da mina, indiretamente, a situação de Gramsci: "Minha divergência não
(frustrada) revolução mundial - ajudam a iluminar a dimensão pro- chegava aos companheiros, mas exclusivamente aos ouvidos do centro
priamente política da solidão de Gramsci, especialmente entre 1930 e exterior [em Paris], o qual não a tornava pública sequer para eventual-
1933. Para entender o sentimento de impotência que acometeu não só mente me contestar, para me criticar, para rechaçar minhas posições.
Gramsci como também Terracini e outros adversários da virada sta- Sentia-me impotente, quase um sepultado vivo. Sabia, através da 'rá-
dio cárcere', que Gramsci também tinha expressado uma nítida dis-
37Cf. P. Sraffa. Lettere a Tania per Gramsci, cit., p. XXVI. cordância sobre a 'virada'. E também em torno dele havia caído uma

40 4 1
CARTAS DO CÁRCERE
1~! INTRODUÇÃO

cortina de silêncio" 38 • É mais do que provável que Gramsci tenha vivi- V estruturada em torno da palavra de ordem da convocação de uma
do a mesma sensação de um "sepultado vivo" diante da nova orienta- Assembéia Constituinte, que ' lhe valia até a "acusação" de socialde-
ção do Komintern, que ele, certamente, julgava catastrófica e de mocrata, e a orientação extremista do VI Congresso. Mas, deve-se
qualquer modo contrária à idéia de "fases intermediárias" no processo repetir, para ter um quadro mais completo de uma situação que se
revolucionário; uma idéia, aliás, que ele havia progressiva e contra- desenvolve em muitos planos, é preciso sublinhar que o rumor (in-
ditoriamente desenvolvido antes de ser preso, inclusive em discussões f~: teiramente fundamentado) sobre a divergência de Gramsci, bem como
a "cortina de silêncio" que sobre ele se abateu não interromperam a
com o próprio Sraffa, e agora encontrava expressão teórica madura
nos Cadernos, a cuja redação se entregara desde 1929. Í" relação com a direção partidária no exterior através de Tatiana e
f

~
Podemos sempre nos valer de Terracini para ter uma noção viva e Sraffa. Pelo contrário, como vimos, registrar-se-ia nesta mesma épo-
poiêmica da natureza da divergência, uma vez que ele, nos longos anos ca o ponto mais alto da colaboração intelectual entre Sraffa e Gramsci,
de cárcere, ao contrário do prisioneiro de Turi, fez questão de manter sempre com pleno conhecimento (e até participação indireta) de
uma correspondência diretamente política através de simples e engenhoso Togliatti.
recurso de tinta invisível. No verão de 1930, Terracini se refere, em car- Para entender numa perspectiva mais ampla a solidão deste Gramsci
ta clandestina, às conversas mantidas entre os réus do "processão" de que, em Turi de Bari, escrevia a maioria das suas Cartas e dos seus
1928, todos então alojados numa prisão romana: "E, já que me referi às Cadernos, deve-se levar em conta uma utilíssima indicação de Francis-
idéias comuns dos hóspedes de Regina Coeli em 1928, queria escandalizá- co Fernández Buey sobre o impacto que, a longo prazo, o III e o IV
~
lo dizendo que não só se tomou como pressuposto a perspectiva demo- fi: Congressos do Komintern tiveram sobre o comunista sardo. Este últi-
crática - ou seja, a volta da burguesia ao método democrático de governo mo, inclusive, estava em Moscou por ocasião do IV Congresso, em
- , mas que também se discutiu sobre a tática que o partido adotaria no 1922, e pôde testemunhar os debates em torno da questão da frente
única com os socialistas e outras forças democráticas, diante das enor-
período entre o fim do 'gabinete' fascista e a formação do governo par-
lamentar; e não somente isto, mas também sobre a nossa tática eleitoral 1 mes dificuldades que a construção do socialismo na URSS e a realiza-
para o primeiro parlamento democrático [... ]" 39 • Nada mais distante, pois, ~ ção da revolução no Ocidente simultaneamente enfrentavam. Em
de uma previsão de colapso iminente do capital~mo e da atualidade da ~- Moscou, diz Buey, Gramsci "pôde escutar um Lenin muito pessimista
luta pela ditadura do proletariado nos países ocidentais, uma tática que sobre o futuro da revolução. [O discurso de Lenin] ficou gravado nele
ignorava completamente esta articulação democrática formulada por e está na origem da sua reflexão sociopolítica posterior, nos Cadernos,
Terracini e, também aplicada na Alemanha, isolava os comunistas no sobre a revolução no Ocidente. Muito provavelmente Gramsci foi o
momento crítico da ascensão do nazismo. dirigente comunista ocidental que rne~hor entendeu a mensagem do
Nesta mesma época, na penitenciária especial de Turi, Gramsci velho Lenin" 4 º. ·
teve de suspender suas conversas e discussões com a maioria dos com- Mesmo tendo apoiado a "bolchevização" dos Partidos Comunis-
panheiros lá detidos, por absoluta incompatibilidade entre sua linha tas, formulada no V Congresso em 1924 - um programa precursor
da "virada" que iria gradualmente se impor entre 1927 e 1929 - ,
"Umberto Terracini. Quando diventammo comunisti. Org. por Mario Pendinelli.
Milão: Rizzoli, 1981, p. 103.
39
Umberto Terracini. Sul/a svo/ta: Carteggio clandestino de/ carcere 1930, 1931, •°Francisco Fernández Buey. Leyendo a Gramsci. Barcelona: E! Viejo Topo, 2001,
1932. Org. por Alessandro Coletei. Milão: La Pietra, 1975, p. 35-6. p. 31.

42 43
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Gramsci se mostraria cada vez mais atento à necessidade de "traduzir" Já o segundo, o mundp comunista, enviava sinais altamente con-
para o Ocidente as diretrize~ organizativas russas, que o próprio Lenin, traditórios. Por um lado, progressivamente se afirmavam os pactos de
nos últimos anos de vida, considerava incompreensíveis para os estran- unidade de ação com socialistas e demais forças democráticas, na Fran-
geiros. Assim, ao recolher plenamente no cárcere o legado leninista da ça, na Itália e em outros lugares. Abria-se, portanto, a época das am-
frente única e.ª necessidade de investigar o terreno nacional em que r~. plas frentes antifascistas, que em mais de um sentido recuperavam o
,;~;
operava cada partido comunista, evitando a generalização indevida da espírito da frente única da década anterior, nas novas e difíceis cir-
~'
ação bolchevique, Gramsci superava largamente os esquemas inter- ~~
" cunstâncias que desaguariam na Segunda Guerra. Por outro lado, con-
pretativos do Komintern, especialmente quando, como era o caso em h
~; trariando o espírito e os propósitos da unidade antifascista, o stalinismo
1928, estes se afastavam da política de frente, da colocação de objeti-
t~ se enrijecia e iria patrocinar, a partir de 1936, uma era de suspeição
~
vos intermediários, do reconhecimento da complexidade da mudança ~ generalizada, cujo momento mais torpe seriam os processos de Moscou.
~.
social nos países ditos "ocidentais". Este, o fundamento essencial do É bastante provável que, nas conversas tidas com Tatiana e Sraffa em
isolamento de Gramsci nos anos em que o Komintern previa a catás- Roma, na última fase da sua vida, Gramsci não tenha se manifestado so-
trofe final do sistema capitalista, enquanto o pensador sardo, pratica- bre a ferocidade do sistema staliniano, até por falta de maiores informa-
mente único entre os grandes marxistas, via na crise econômica dos
anos 20 e 30 a ocasião para uma grande reestruturação sob o signo da
1t ções ou pelas intensas distorções a que estas eram submetidas de um lado

modernidade americana.
Não é possível dizer muito sobre a relação entre Gramsci e o
i~
e de outro. Abandonada a idéia de se recolher à "concha sarda" uma vez
libertado, concordou em ir para a URSS, para finalmente encontrar sua

~
amada Giulia e os dois filhos, tal como documentado por uma minuta
Komintern nos anos 1930. O primeiro, separado do mundo "real", rascunhada por Sraffa pouco mais de uma semana antes da morte do
busca sobreviver e fazer política (a grande política) em Turi e em Formia, t 41
amigo • Afinal, nem tudo era negativo nos sinais vindos do mundo comu-
a partir do final de 1933, redigindo os Cadernos, uma rigorosa em- ~ nista: a Gramsci, por certo, não teria escapado a grande vitória do
~
preitada intelectual cuja realização certamente teve impacto negativo
~ antifascismo em Guadalajara, em 1937, protagonizada pelo Battaglione
sobre suas declinantes condições de saúde. Seria também objeto per- E
Garibaldi; uma vitória que teve repercussão mundial e revelou amplamente
manente de campanhas do Kornintern, algudJ.as das quais envolveram
nomes prestigiosos corno Rornain Rolland e Henri Barbusse. Em ge- 1 a presença dos fascistas italianos ao lado de Franco, desrespeitando acin-

ral, no entanto, desconfiava destas tradicionais atividades de agitação


e propaganda, cujo resultado - pensava - só podia ser a sistemática
l tosamente o princípio de não-intervenção. Não lhe teria escapado, de modo
algum, a importância de uma política como aquela adotada pelo Komintern
em 1935, tanto que, na sua última mensagem, que nos chegou através do
piora do regime carcerário e o cancelamento de qualquer hipótese de 1 testemunho autorizado de Sraffa, voltou a mencionar a velha palavra de
liberdade, por irritarem Mussolini dando a idéia de que este pudesse
ordem da Assembléia Constituinte, considerando-a como a mais adequa-
agir sob pressão externa. Além disso, e fundamentalmente, definindo
de fato sua separação do mundo "real", os Cadernos restariam desco-
1 da "tradução" italiana da frente popular.
Assim, para tentar apreender todos os termos de uma questão tão
nhecidos por muitos anos e não teriam influência na superação da de-
delicada, se não parece ter havido "ruptura" imediata e direta de
sastrosa política de classe contra classe e no encaminhamento das frentes
populares, adotadas no VII Congresso do Komintern em 1935, com a
decisiva contribuição de Togliatti e Dimitrov.
1 41
Cf. doe. 17, apêndice 1, v. 2, p. 455.

44 45
1':.

!
~i·~ •
CARTAS 00 CÁRCERE
r
Gramsci com o mundo comunista do seu tempo - dilacerado por um Cronologia da vida
brutal despotismo de partido e de Estado, o qual, no entanto, teria papel
de Antonio Gramsci
decisivo na derrota militar do mal absoluto-, também seria equivo-
1~·

cado ver na decisão final de voltar à URSS ou na sua mais do que pro-' ; ~.

vável convergência com a frente popular os sinais de uma reconciliação


t
l
sem problemas. Hoje sabemos, dolorosamente, como aquele mundo
comunista permaneceria aprisionado numa concepção não-democrá-
r
w:
~.

tica do Estado e da sociedade, resistindo a todas as tentativas de refor-
ma, e como, num sentido mediato e reflexivo, o aparelho conceitual ~·
\,.'

dos Cadernos, entre outras possibilidades, constitui um recurso teóri-


co decisivo para sua crítica. E agora também podemos saber, ao ler estas 1891 22 de janeiro. Nasce em Ales (Sardenha), filho de Francesco
Cartas, como no nosso autor permaneceram intactas, com o vigor ex- Gramsci e Giuseppina Mareias.
pressivo que só um clássico moderno lhes poderia dar, algumas das mais 1894-96 Aos quatro anos, cai dos braços da babá, o que seria relacio-
belas promessas não realizadas do socialismo e do comunismo42 • nado com sua deficiência física (a corcunda); esta, na
LUIZ SÉRGIO HENRIQUES verdade, devia-se ao mal de Pott, tuberculose óssea só
diagnosticada na idade adulta.
42 Apresente edição das Cartas do cárcere simplesmente não poderia existir sem a 1898 O pai, afastado do emprego, é preso e depois condenado
presença e o apoio constante de Carlos Nelson Coutinho e Marco Aurélio No-
gueira. A estes dois amigos da vida inteira cabe uma menção especial por acompa- por irregularidades administrativas. A mãe, com os sete fi-
nharem passo a passo, no sentido mais literal do termo, toda a preparação destes lhos, volta a Ghilarza, sua cidadezinha natal, em condições
dois volumes da correspondência gramsciana. de extrema dificuldade.
Felizmente pudemos partir de três preciosas edições críticas, que também for,.
neceram boa parte do material para as anotações necessárias. O texto-base aqui 1903-05 Concluído o primário em 1902, trabalha no cartório de
usado foi a edição Antonio A. Samucci (Lettere dai carcere. Palermo: Sellerio, Ghilarza.
1996), mas também nos valemos das edições de Frank Rosengarten e de Dora 1905-08
Kanoussi e Cristina Ortega Kanoussi, já mencionadas~ Antonio A. Santucci (1949- Freqüenta o ginásio em Santu Lussurgiu, perto de Ghilarza.
2004) e Frank Rosengarten se interessaram, com a competência e a generosidade Lê o jornal socialista Avanti!, enviado pelo irmão Gennaro,
próprias dos grandes estudiosos, pela preparação destas Cartas, enviando-nos es-
clarecimentos e sugestões oportunas.
que prestava serviço militar em Turim.
Outros amigos contribuíram com observações valiosas sobre esta introdução 1908-11 Ingressa no curso colegial, em Cagliari. Vive com Gennaro,
e sobre problemas postos pelo oriBinal gramsciano. Entre eles, o filósofo italiano que trabalhava nesta cidade e seria secretário de seção do
Antonino lnfranca; Fabio Frosini e Giorgio Baratta da Universidade de Urbino,
na Itália; e Francisco Fernández Buey, da Universidade Pompeu Fabra, em Barce- Partido Socialista ltalianp. Participa de grupos juvenis que
lona, cuja lucidez nos socorreu, antes de mais nada, na questão das relações entre discutem os problemas sardos. Primeiras leituras de Marx,
Gramsci, o bolchevismo e a revolução no Ocidente.
A Civilização Brasileira - nas pessoas de Lu'ciana Villas-Boas, editora, Ana "por curiosidade intelectual".
Paula Costa e Andréia Amaral - , ao empreender o lançamento destas obras d!' 1911 Para matricular-se na Faculdade de Letras da Universidade
Antonio Gramsci, reafirma mais uma vez seu perfil de ousadia e coerência, já
marcante nos tempos de Enio Silveira com o lançamento de uma seleção das Car- de Turim, concorre a uma bolsa para alunos pobres. No
tas do cárcere, em 1966, e de vários livros da edição "temática" dos Cadernos, concurso também se inscreve Palmira Togliatti. Mora com
então a única disponível. Que estas Obras contribuam para manter vivo e produ- Angelo Tasca, companheiro de estudos e dirigente do mo-
tivo, entre nós, o interesse pela vida e pela obra de Antonio Gramsci.
vimento juvenil socialista.

46
47
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CARTAS DO CÁRCERE
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1.f,
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CRONOLOGIA DA VIDA

1912 Vive com dificuldades materiais e esgotamento nervoso. In- y~


Novembro. Pai;ticipa em Florença de reunião clandestina
~:
teressa-se pelo curso de Lingüística, ministrado por kfattco da "fração intransigente revolucionária" do PSI. Presentes,
f:.·
Bartoli, e realiza pesquisas sobre o dialeto sardo. Freqüen- entre outros, Giacinto Menotti Serrati (líder da corrente
ta o curso de Literatura Italiana, ministrado por Umberto f maximalista, majoritária, do PSI) e Amadeo Bordiga (líder
Cosmo. Torna-se amigo de Togliatti, com quem faz uma
pesquisa sobre a estrutura social da Sardenha. ~ da fração maximalista abstencionista e, depois, um dos
fundadores do Partido Comunista da Itália).
1913 Freqüenta vários cursos nas Faculdades de Letras e de Di- ~~i
Dezembro. Propõe a criação, em Turim, de uma associa-
reito, mas, por causa da saúde, não presta nenhum exame. ção proletária de cultura. Em 24 de dezembro, escreve
~
Outubro. Assiste, na Sardenha, à campanha para as pri- sobre a tomada do poder pelos bolcheviques no artigo "A
meiras eleições com sufrágib universal. Em· seguida, esta- revolução contra O Capital". Nos meses seguintes, trava
belece contato formal com o movimento sociaEsta de uma batalha pela renovação cultural do movimento socia-
Turim. lista e publica notícias e comentários sobre a revolução na
1914 Lê as revistas La Voce e I..:Unità, dirigidas, respectivamen-
te, por Giuseppe Pre:tzolini e Gaetano Salvem'ini, intelec- 1 1918
Rússia.
Abril-junho. Figura com freqüência nos relatórios da polí-
tuais "meridionalistas". Em Turim, junta-se aos grupos
radicais de operários e estudantes. 1 cia, com outros dirigentes da "fração intransigente revolu-
cionária". No centenário de Marx, publica o artigo "O
31 de outubro. Intervém no debate sobre a posição do PSI nosso Marx".
diante da guerra, com o artigo "Neutralidade ativa e Outubro. II Grido dei Popolo deixa de ser publicado, subs-

1915
operante" (Jl Grido dei Popa/o).
Abril. Presta exames de literatura italiana; em seguida,
1 E!
tituído pela edição turinense do Avanti!. Gramsci, Togliatti
e Alfonso Leonetti estão entre os redatores do novo jornal.
m
abandona a Universidade, embora - pelo menos até 1918 1919 1· de maio. Sai o primeiro número de I:Ordine Nuovo,
- pareça ter tido intenção de diplomar-se em Lingüística.
No outono, começa a colaborar Item II Grido dei Popolo,
i fundado por Gramsci, Tasca, Togliatti e Umberto Terracini.
junho. No artigo "Democracia operária", Gramsci fonnu-
semanário socialista. la o problema das comissões de fábrica como futuros "ór-
Dezembro. Passa a fazer parte da redação turinense do gãos de poder proletário".
Avanti!. Novembro. A seção turinense da Fiam (Federação Italiana
1916 Intensa atividade como cronista e crítico teatral doAvanti!. dos Operários Metalúrgicos) aprova a constituição dos
Combate o nacionalismo dos defensores da intervenção conselhos de fábrica. Esta proposta, também aprovada pelo
italiana na guerra mundial. diretório municipal do PSI e pela Câmara do Trabalho,
1917 Abril-julho. Em II Grido dei Popolo, exalta Lenin e o cará- torna-se tema de acesos debates entre as várias correntes
ter socialista da Revolução Russa. socialistas.
Setembro. Depois da rebelião operária de 23-26 de agosto 1920 Durante todo o ano, participa de ações grevistas e propa-
e da prisão de vários dirigentes socialistas, torna-se secre- ganda em favor dos conselhos de fábrica, bem como do
tário da executiva provisória do PSI turinense e assume a debate sobre a renovação do PSI e a fundação do Partido
direção de II Grido dei Popolo. Comunista.

48 49

~
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,.
CARTAS DO CÁRCERE rt CRONOLOGIA DA VIDA

~:·
Abril. A greve geral, à qual aderem mais de 200 mil traba- r~· do para represfntar o partido em Moscou, junto à comis-
lhadores de Turim, não se amplia em escala nacional e ter- G.
~:.
são executiva da IC.
mina com a vitória dos patrões.
julho-agosto. O II Congresso da Internacional Comunista
rf Maio. Em difíceis condições de saúde, parte para Moscou
com Bordiga e Antonio Graziadei.

(IC ou Komintern), fundada no ano anterior, fixa severas ~i Junho. Participa de conferência da comissão executiva
condições para a aceitação dos partidos nacionais (os "21
~
ampliada da IC, da qual passa a fazer parte. Interna-se numa

~
pontos"). Quanto às questões italianas, a IC convida o PSI clínica para doenças nervosas. Aí conhece sua futura mu-
a expulsar os reformistas. Lenin elogia a posição de Gramsci lher, Giulia Schucht, que visitava a irmã Eugenia, interna-
como adequada aos princípios da Internacional Comunista. da na mesma clínica.
Novembro. Participa do Congresso de Imola, onde se cons- Setembro. Escreve nota sobre o futurismo italiano, por
titui oficialmente a fração comunista do PSI. convite de Trotski e publicada por este último em Litera-
Dezembro. Sai o último número de VOrdine Nuovo sema- tura e revolução (1923).
nal. A edição turinense do Avanti! assume o nome VOrdine 28 de outubro. Com a Marcha sobre Roma, os fascistas
Nuovo e Gramsci dirige o novo jornal, que se torna órgão chegam ao governo.
dos comunistas de Turim. Novembro-dezembro. Realiza-se o IV Congresso da IC, que
1921 janeiro. Participa, em Livorno, do XVII Congresso do PSI. reafirma a política de frente única e, quanto às questões
A tese do grupo de Imola ("comunista pura"), defendida italianas, aprova a fusão do PCI com o PSI. Gramsci faz
por Terracini, Bordiga e os delegados da IC, obtém 58.783 parte da comissão encarregada de encaminhar a fusão, que
votos. A tese de Florença ("comunista unitária"), represen- termina por não se realizar.
tada por Serrati, obtém a maioria: 98.028 votos; a de 1923 Fevereiro. A polícia prende na Itália vários membros da
Reggio Emilia (reformista), 14.695 votos. Em 21 de janei- comissão executiva do PCI (entre os quais Bordiga).
ro, os delegados da fração comunista decidem constituir o Abril-maio. Da prisão, Bordiga manda um comunicado à
"Partido Comunista da Itália. Seçffi.o italiana da Internacio- direção do partido, criticando a ação da IC pela unidade
nal Comunista". Gramsci faz parte do comitê central. com o PSI. O comunicado, inicialmente aceito (com certa
junho. O III Congresso da IC, em Moscou, considerando perplexidade) por Togliatti, Terracini, Mauro Scoccimarro
o refluxo revolucionário e a situação minoritária dos par- e outros, tem a oposição de Gramsci. A direção do PCI é
tidos comunistas na Europa Ocidental, lança a tática da assumida por Togliatti.
"frente única" com os demais partidos operários. Setembro. Em carta ~ executiva do partido, Gramsci co-
1922 Março. Participa do II Congresso do PCI, que aprova as munica a decisão da IC de publicar um novo jornal com a
''Teses de Roma", contrárias à "frente única". Para Grarnsci, colaboração dos "terceiristas" ou "terceiro-internacio-
esta tática pode ser aplicada no terreno sindical, mas não nalistas" (membros do PSI que defendiam a adesão à IC).
no político. Surge uma minoria alinhada com a IC (da qi{al Propõe o título VUnità. Nessa carta, pela primeira vez,
participa Tasca), que seria conhecida como "fração de di- enuncia o tema da aliança entre os estratos mais pobres da
reita", em contraste com o "centrismo" de Gramsci e classe operária do Norte e as massas camponesas do Sul.
Togliatti e o "esquerdismo" de Bordiga. Gramsci é indica- Dezembro. Estabelece-se em Viena, com a tarefa de man-

50 5 1
·r.······
m
~\
CRONOLOGIA DA VIDA
CARTAS 00 CÁRCERE ~;

r:i:. .12 de novembro. Na reabertura da Câmara, o deputado
ter a ligação entre o PCI e os outros partidos comunistas E comunista Luigi Repossi apresenta-se sozinho no plenário
~=.
europeus. Intensa correspondência com Terracini, Togliatti, r: e lê urna declaração antifascista. Em 26 de novembro, o
Leonetti, Scoccimarro e Pietro Tresso. t' grupo parlamentar comunista volta ao plenário, abando-
1924 9 de fevereiro. Em carta a Togliatti e Terracini, expõe pela ~ nando o chamado ''Aventino".
primeira vez, de modo amplo, sua concepção de partido, ~· 1925 Janeiro. O Partido Comunista inicia intensas atividades

i
criticando a centralização e o sectarismo, e anuncia o pro- clandestinas.
pósito de trabalhar pela criação de um novo grupo di- Fevereiro. Em Roma, conhece Tatiana (Tania) Schucht.
rigente, alinhado com as posições .da IC. Tam\;Jém em Março-abri/. Participa em Moscou de reunião da executi-
fevereiro, sai em Milão I:Unità. Quotidiano d<Jgli operai e t va ampliada da IC.
dei contadini. A tiragem oscila.entre um um mínimo de 20- ~
~;
16 de maio. Pronuncia na Câmara dos Deputados seu úni-
30 mil exemplares e um máximo de 60-70 mil, no período ~·
da crise Matteotti. i co discurso, contra o projeto de lei sobre as associações
secretas, apresentado por Mussolini e Alfredo Rocco.

i
Março. Preparado por Gramsci, sai em Roma o quinzenário Agosto-setembro. Elabora, com Togliatti, as teses para o III
I:Ordine Nuovo. Rassegna di politica e di cultura operaia, Congresso do PCI, conhecidas como "Teses de Lyon".
3' série. O editorial é dedicado a Lenin, recér:i-falecido. Outubro. Giulia chega a Roma, com Delio. Mora com as
Abril. Mesmo estando em Viena, elege-se deputado por !l irmãs Tatiana e Eugenia (Genia).

i
uma circunscrição do Vêneto. 1926 23-26 de janeiro. Participa, em Lyon (cidade escolhida para
Maio. Regressa à Itália depois de dois anos de ausência. evitar a repressão fascista}, do III Congresso do PCI. O novo
Junho. Transfere-se para Roma. Em 10 de junho, o assassi- grupo dirigente liderado por Gramsci obtém 90,8% dos
nato de Giacomo Matteotti, deputado socialista, abre in- votos.
tensa crise política. Gramsci participa das reuniões das ~ Agosto. Desfruta de alguns dias de férias com o filho Delio
oposições parlamentares e propõe um chamado à greve ~ em Trafõi (Bolzano). Giulia, grávida, volta a Moscou, onde
~
geral. <t
Junho e julho. Em Moscou, o V Congresso da IC hmça 1 pouco depois nasceria Giuliano, que Gramsci jamais co-
nheceu.
campanha pela "bolchevização" dos partidos comunistas.
Agosto. A fração dos "terceiristas", liderada por Serrati,
1 14 de outubro. Em nome do birô político do PCI, envia
carta ao comitê central do PC russo, tratando das lutas in-
ingressa no PCI. Gramsci torna-se secretário-geral do par- ternas do partido bolchevique. Diante das críticas que
tido. Em Moscou, C!;iulia dá à luz Delio, o primeiro filho Togliatti, em Moscou, lhe dirige, reafirma seus argumen-
do casal. tos numa segunda carta. Redige ''Alguns temas da questão
20 de outubro. O grupo parlamentar comunista propõe meridional". A direção do PCI se preocupa com a segu-
às oposições "aventinianas" a constituição do parlamen- rança ae Gramsci e prevê sua transferência para a Suíça.
to das oposições (Antiparlamento). A proposta é recusa- Gramsci, ao que parece, não concordou com o plano.
da. Gramsci vai à Sardenha, entra em contato com o 1º-3 de novembro. Reunião clandestina do comitê central,
Partido Sardo de Ação e passa alguns dias com a família perto de Gênova, com a participação de J. Humbert-Droz,
em Ghilarza.
53
52
~!'

t·.

fi:
CRONOLOGIA DA VIDA
CARTAS DO CÁRCERE

do PCI). Macis insinua que Gramsci tem amigos que que-


encarregado pela IC de informar sobre a luta no partido
bolchevique entre a maioria (Stalin, Bukharin) e a oposi- rem prejudicá-lô. Este desenvolveria com o tempo um atroz
ção (Trotski, Zinoviev, Kamenev). Gramsci, ao dirigir-se sentimento de traição.
para a reunião, é abordado pela polícia e obrigado a voltar 11 de maio. Parte para Roma num vagão-celular, com ou-
tros companheiros.
para Roma.
28 de maio-4 de junho. O Tribunal Especial realiza o cha-
8 de novembro. Em conseqüência das "medidas excepcio-
nais" adotadas depois de um obscuro atentado contra
Mussolini, Gramsci - apesar da imunidade parlamentar
1~ mado "processão" contra Gramsci e o grupo dirigente do
PCI. Gramsci recebe uma pena de 20 anos, 4 meses e 5
dias de reclusão.
- é preso, com outros deputados comunistas, no cárcere
22 de junho. Passa por exame médico especial: por sofrer
romano de Regina Coeli.
18 de novembro. Com base na Lei de Segurança Pública, de uricemia crônica, deve cumprir a pena na Penitenciária
Gramsci é condenado ao confinamento por cinco anos. Especial de Turi, na província de Bari.
7 de dezembro. Chega à ilha de Ustica(*). Durante a breve 13 de julho. Carta de Togliatti a Bukharin, pedindo que a
permanência, mora em casa particular, com Bordiga e outros. tripulação do quebra-gelo soviético Krassin - que havia
Piero Sraffa - um dos mais importantes economistas do sé- salvo homens da expedição de Alfredo Nobile no Ártico
culo XX - logo estabelece correspondência com Gramsci. - fizesse um apelo pela liberdade de Gramsci. A iniciativa
14 de janeiro. O Tribunal Militar de Milão, por ordem do não vai adiante, possivelmente pelo início da derrocada de
1927
juiz Enrico Macis, emite mandado de prisão contra Gramsci. Bukharin.
7 de fevereiro. Chega à prisão de San Vittore, em Milão. 19 de julho. Chega a Turi, onde recebe o número de matrí-
Março. Comunica a Tatiana um plano inicial de estudos so- cula 7.047. O irmão Cario solicita a concessão de cela in-
bre a história dos intelectuais italianos, a lingüística com- dividual e permissão de escrever.
parada, o tean:o de Pirandello e os romances de folhetim. Julho. Em Moscou, o VI Congresso da Internacional Co-
Maio. Para assistir Gramsci, Tatiana se transfere de Roma munista liqüida a política de frente única e aponta os
para Milão. " socialdemocratas como "socialfascistas", a ala esquerda e
Agosto-setembro. Recebe a visita do irmão Maria e, algum mais perigosa do fascismo.
tempo depois, de Sraffa. De setembro de 1927 a janeiro Agosto. Obtém cela individual.
de 1928, tem freqüentes encontros com Tatiana. Dezembro. Sofre um ataque de uricemia. Durante cerca de
Setembro-outubro. Primeira tentativa de troca de prisio- três meses, passa o banho de sol sentado ou apoiado no
neiros, envolvendo o governo soviético e o Vaticano. Posi- braço de outro prisioneiro. Primeira viagem de Tatiana a
ção inflexível de Mussolini. Na mesma época, Gramsci Turi. •
toma conhecimento da doença nervosa de Giulia. 1929 8 de fevereiro. Começa a redigir os "cadernos".
1928 Março. Recebe carta de Moscou, com data de 10 de feve- Março. Especifica a Tatiana seu plano de estudos: a histó-
reiro, assinada por "Ruggero" (Ruggero Grieco, dirigente ria italiana do século XIX e, em particular, a formação e o
desenvolvimento dos grupos intelectuais; a teoria e a his-
itPronuncia-se: "Ústica"~ tória da historiografia; o americanismo e o fordismo.

54 55
.. ,_. ""·
CARTAS DO CÁRCERE
1 CRONOLOGIA DA VIDA

Março-abril. Segunda viagem de Tatiana a Ti.:.ri. ~~ a ler as revista~ que assina. Em dezembro, a petição é par-
Novembro. Recebe visita do irmão Carlo. Tracuz do ale- cialmente aceita.
mão e pretende estudar russo. i 1932 Agosto. A saúde continua a se deteriorar. Tatiana, em com-

1930
Dezembro. Tatiana transfere-se para Turi, onde permane-
ce até julho de 1930.
Junho. Recebe a visita do irmão Gennaro, enviado por
it binação com Sraffa, lhe sugere ser examinado por um
médico de confiança.
Setembro-outubro. Segunda tentativa de troca de prisionei-
![
Togliatti para pô-lo a par dos conflitos no grupo dirigente ~ ros - envolvendo três sacerdotes detidos na URSS - ,

~
do PCI, da questão do trotskismo e da nova lirJia de "clas- sugerida pelo governo soviético e aceita pelo Vaticano.
se contra classe". Nova recusa de Mussolini, que impede até a visita de um
Julho. Beneficia-se do indulto de 1 ano, 4 meses e 5 dias. enviado do Vaticano ao prisioneiro.
Sabe que Giulia foi internada. Tem um segundo encontro Novembro. Com a anistia pelos dez anos de regime, a con-
com Gennaro. denação de Gramsci é reduzida para 12 anos e 4 meses.
Novembro-dezembro. Com a chegada de alguns compa- Sraffa se empenharia nos meses seguintes pela concessão
nheiros (E. Tulli, E. Riboldi, A. Lisa, etc.), Gramsci- que, da liberdade condicional. As autoridades, no entanto, exi-
nos meses anteriores, travara debates durante o banho de
sol - começa um ciclo de discussões. De acordo com as 1 gem um pedido de clemência.
30 de dezembro. Morre Giuseppina Mareias, em Ghilarza.
novas orientações da IC, o PCI previa para a ltáiia a 1933 Janeiro. Tatiana se muda para Turi, onde permanece até o
radicalização da luta de classes e a crise iminente do regi- verão, salvo breves viagens a Roma.
me. Gramsci continua a prever uma fase dem·ocrática e a
sugerir a palavra de ordem da Assembléia Constituinte. 1 7 de março. Segunda grave crise. Por duas semanas, dois
companheiros o assistem dia e noite. Um deles, Gustavo

1931
Suspensas as discussões, passa por um período de isolamen-
to político.
Abril. Numa localidade entre Colônia e Düsseldorf, tem
lugar o IV Congresso do PCI, qusassinala a atualidade da
lt\
g
Trombetti, presta-lhe assistência até novembro.
20 de março. Umberto Arcangeli, o médico de confiança,
examina o prisioneiro e sugere a necessidade de um pedi-
do de clemência, mas encontra a firme oposição de Gra-
~

revolução proletária. msci. Arcangeli declara que o prisioneiro não sobreviveria,


Junho. Recebe obras de Marx, em francês, bem como um a não ser que fosse transferido para uma clínica ou hos-
suplemento da revista The Economist sobre o primeiro pital.
plano qüinqüenal soviético. Maio-junho. A declaração de Arcangeli aparece em I.:Hu-
3 de agosto. Sofre a primeira grave crise de saúde. Cario o manité e no Soccorso Rosso. Em Paris, é criado um comitê
visita. Sraffa vai a Turi, mas não consegue autorização para para a libertação de Gramsci e das vítimas do fascismo, do
vê-lo. qual fazem parte, entre outros, Rornain Rolland e Henri
Setembro. Transmite a Tatiana, para que o faça chegar a Barbusse.
Umberto Cosmo, seu antigo professor, o esquema do en- Julho. Pede a Tatiana que encaminhe com urgência um
saio sobre o Canto X do Inferno. pedido de transferência para a enfermaria de outra prisão.
Outubro. Envia petição a Mussolini para poder continuar Agosto. Cario e 1àtiana encontram-se várias vezes com

56 57


~~

~.
r.;

.
CARTAS DO CÁRCERE
iv

~~
.
-
CRONOLOGIA DA VIDA

Gramsci. Carlo toma as providências para obter a transfe- ~~ 1935 junho. Sofre nora crise. Renova o pedido para sair da Clí-
rência de Turi. t·· nica Cusumano.
Setembro-outubro. No âmbito diplomático, preferido pol[ a. 24 de agosto. Deixa a Clínica Cusumano, para ser interna-
Gramsci, Potemkin, embaixador soviético em Roma, escre- ...~· do na Clínica Quisisana, em Roma. Aqui, assistido por
ve a Piatniski, representante russo na IC, expondo o esta- l Tatiana e visitado freqüentemente por Carlo e por Sraffa,
do de saúde do prisioneiro. Piatniski sugere uma troca com t continua sob severa vigilância policial.
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sacerdotes poloneses detidos na URSS. A iniciativa não foi r1 julho-agosto. Realiza-se, em Moscou, o sétimo e último

~
adiante e ainda não há documentação disponível a respeito. congresso da IC. Adota-se a política de frente popular e
Outubro. Aceito o pedido de transferência, as autoridades valoriza-se a busca de alianças com as democracias burgue-
escolhem, meticulosamente, a clínica do dr. Giuseppe ~ sas, agora consideradas como distintas do nazismo e do
Cusumano, em Formia. fascismo.
19 de novembro. Passa provisoriamente pela enfermaria da 1936 Gramsci retoma a correspondência com a mulher e os fi-
prisão de Civitavecchia, perto de Roma. lhos.
7 de dezembro. Vai de Civitavecchia para a clínica de
Formia. Tatiana encontra-o todas as semanas; Carlo e Sraffa
1t 1937 Abril. Encerra-se o período de liberdade condicional. Em
acordo com Sraffa, decide apresentar um pedido de ex-
também fazem visitas. As condições de saúde o impedem patriação para a União Soviética. Na noite de 25, sofre
por algum tempo de escrever. derrame cerebral e, tendo ao lado Tatiana, morre na ma-
1934 janeiro. Por motivo ignorado, a diplomacia italiana se in- drugada de 27. Os funerais têm lugar no dia 28. As cinzas
teressa por uma certa Urusova, cidadã russa presa num de Gramsci são sepultadas no cemitério municipal de
gulag. Os soviéticos propõem, por cerca de um ano, a in- Verano e, em 1938, por iniciativa de Tatiana, são trans-
clusão de Gramsci na negociação. feridas para o Cemitério dos Ingleses, sempre em Roma.
12 de julho. É examinado pelo prof. Vittorio Puccinelli, um
conhecido de Tatiana, da Clínica Quisisana de Roma.
Setembro. A campanha pela libertaç~o reacende-se: Romain
Rolland publica um folheto, traduzido até no Brasil: Os que
morrem nas prisões de Mussolini (Antonio Gramsci). Trad.
Colbert Malheiros. São Paulo: Udar, 1935. 15p.
24 de setembro. Apresenta pedido de liberdade condi-
cional.
25 de outubro. Sai o decreto de liberdade condicional. Dois
dias depois, acompanhado por Tatiana, vai pela primeira
vez às ruas de Formia, sempre sob vigilância policial.
14 de dezembro. O embaixador Potemkin encontra-se com
Mussolini e propõe negociações em torno do prisioneiro.
Mussolini recusa.

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Os correspondentes de Gramsci
e os membros das famílias
Gramsci e Schucht

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Os nomes marcados com um asterisco são destinatários das cartas de
Gramsci. Salvo indicação em contrário, nomes e apelidos mencionados
nas Cartas do cárcere referem-se a estes destinatários e aos membros
das famílias Gramsci e Schucht.

A FAMÍLIA GRAMSCI

Francesco (Cicillo) Gramsci (1860-1937). Pai de Antonio. Descen-


dente de albaneses, nasceu em Gaeta, cidade portuária entre Roma
e Nápoles. Em 1881, estudante de Direito, passou em concurso
"' público e foi para Ghilarza, na Sardenha, dirigir o cartório local.
Em 1883, casou-se com Peppina Mareias, com quem teria sete fi-
lhos. Ao nascer Antonio, estava no cartório de Ales. Detido em agos-
to de 1898, quando exercia suas funções em Sõrgono, sob acusação
de peculato e concussão, foi condenado a quase seis anos de reclu-
são, em 1900. Morreu em 16 de maio de 1937, em Ghilarza, logo
após a morte de Antonio. Na correspondência carcerária de Anto-
nio, não há cartas para o pai.

Giuseppina (Peppina) Mareias Gramsci* (1861-1932). Mãe de Anto-


nio. Nasceu na Sardenha. Filha de empregado público, mais instruída

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CARTAS DO CÁRCERE
OS CORRESPONDENTES DE GRAMSCI
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do que a média das mulheres da pequena burguesia insular, criou os


sete filhos praticamente sozinha, após o desastre familiar representa-
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de serviço militar, foi levado pjra um campo na Austrália e só retornaria
muito doente para a Itália, pouco antes de morrer.
do pela prisão do marido. Nestas Cartas, destaca-se o forte vínculp
afetivo entre Giuseppina e o filho prisioneiro. t Teresina Gramsci Paulesu* (1895-1976). Nos anos de juventude, foi a
irmã predileta de Antonio. Casou-se com Paolo Paulesu em 1924 e,
Gennaro (Nannaro) Gramsci (1884-1965). O mais velho dos irmãos. com a morte do marido, em 1941, assumiu sua função de supervisor
Combateu nas trincheiras da Primeira Guerra, na frente austríaca; so- da agência dos Correios em Ghilarza. Teve quatro filhos: Franco, Maria
cialista, foi administrador da Câmara do Trabalho, em Cagliari, e ope- (Mimma ou Miml), Luisa (Diddl) e Marco. Mimma (Paulesu Quercioli)
rário em Turim. Foi também administrador do jornal I:Ordine Nuovo seria autora de importantes trabalhos sobre Gramsci e sua própria fa-
em 1921-1922. Emigrado, voltou à Itália em 1930, visitando o irmão mília.
Antonio duas vezes no cárcere de Turi em nome da direção comunista
no exílio. Participou também da guerra civil na Espanha, numa unida- Cario Gramsci* (1897-1968). Suboficial na Primeira Guerra, trabalhou
de de combate anarquista. A seguir, empregou-se na França em ati- numa cooperativa de leite até 1931, ainda na Sardenha. Daí se transfe-
vidades manuais e perdeu contato com a família. Só muitos anos depois riu para Milão, onde se empregou numa fábrica têxtil graças à influên-
se reconciliaria com os seus e superaria a intensa hostilidade ao PCI, cia de Piero Sraffa. Prestou ativa assistência ao irmão prisioneiro. No
legado de sua experiência espanhola. pós-guerra, manteve constante correspondência com Togliatti e, em
1964, doou ao PCI cópias das cartas do irmão que estavam em seu
Grazietta Gramsci* (1887-1962). Irmã. Dotada de habilidade musical poder.
e de grande capacidade nas atividades domésticas, educou Edmea, a
filha de Gennaro entregue aos parentes sardos, que se casaria com um
médico e seria professora primária.
A FAMÍLIA SCHUCHT
"
Emma Gramsci (1889-1920). Irmã. Contadora de uma firma de enge-
nharia industrial, na barragem do rio Tirso, na Sardenha. Morreu de ApollonA!eksandrovitch Schucht,(1860-1933) e]ulia (Lula) Grigorievna
malária. Schucht (1860-1942). Sogros de Gramsci. Apollon, um russo de ascen-
dência alemã e filho de general czarista, teve idéias "populistas" na
Antonio Grarnsci (1891-1937). juventude, sob a influência de Lav,rov e Herzen, idéias que lhe valeram
a deportação para a Sibéria, em 1884. Durante este primeiro período
Maria Gramsci (1893-1945). Entre os irmãos de Gramsci, o único fas- siberiano, conheceu Lenin, de quem se tornou amigo pessoal. Em 1893,
cista. Secretário da seção fascista em Ghilarza, na Sardenha, foi ofic:ial partiu para exílio voluntário na Suíça (Genebra), na França (Mont-
durante a Primeira Guerra. Mudou-se para Varese, onde se tornou se- pellier) e na Itália. Morou em Roma com a mulher e os seis filhos, entre
cretário da federação fascista, e, mais tarde, lutou na Guerra da Etiópia 1908 e 1915; por um breve período ensinou russo aos oficiais do Mi-
e no Norte da África. Feito prisioneiro em 1940, depois de seis anos nistério da Guerra, mas, durante o exílio, essencialmente, consumiu o

62 63

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CARTAS DO CÁRCERE
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OS CORRESPONDENTES DE GRAMSCI
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patrimônio familiar. Em 1915, voltou à pátria e participou da Revolu- ~· Eugenia (Genia) Schucht {1888-1972). Nasceu em Tomsk, durante
ção de 1917. Em 1926, passou breve período em Roma, onde então í o exílio siberiano da família, e teve como padrinho de batismo um
estavam as filhas, Tatiana, Giulia e Eugenia, e o neto, Delio. De volta a ~; jovem socialdemocrata, também exilado, Vladimir Ilitch. Antes da
Moscou, foi bibliotecário no Instituto Eletrotécnico. t Primeira Guerra, estudou na Academia de Belas-Artes, em Roma.
~1:: Saiu da Itália para a Polônia em 1914 e, de Varsóvia, foi para
Lula, filha de pai russo e mãe judia, mesmo sem o engajamento políti- [,'.
Ivanovo, centro industrial a cerca de 100 km de Moscou, em 1915.
~
co do marido, seguiu-o em todas as etapas de deportação e exílio, além f:: Militante bolchevique, participou diretamente da guerra civil rus-
de realizar tarefas administrativa~ para o Partido Comunista na década ~ sa. Em 1920, foi secretária de Nadejda Krupskaya, a mulher de
de 1920. Morreu durante a permanência em Frunze, no Quirguistão,
para onde havia fugido de Moscou. 1 Lenin, no Comissariado da Educação Pública. Em 1922, internada
no Sanatório Serebriani Bor por causa de uma paralisia de origem
nervosa, conheceu Gramsci, por quem, provavelmente, se apaixo-
Nadia (Nadine) Schucht (1885-1919). Nascida na Sibéria, é amais velha nou. Através de Genia, o italiano conheceu Giulia. Em 1925, vol-
das irmãs Schucht. Ao voltar à Rússia em 1913, casou-se com um ad- tou à Itália com Giulia e Delio, o primeiro sobrinho, pondo-se muitas
vogado de Tbilissi e mudou para a Geórgia, tendo perdido contato com vezes, doentiamente, como "mãe e pai" do menino: dominava Giulia
a família de origem, que ficou por algum tempo sem saber de sua morte. e rejeitava Gramsci. Em 1957, foi uma das duas tradutoras russas
Teve dois filhos, Oleg e Giuliano. das Cartas do cárcere. Nas décadas seguintes, viveu com Giulia em
Moscou.
Tatiana (Tania) Schucht* (1887-1943). Nasceu na Sibéria, durante o
primeiro exílio do pai. Em Roma, diplomou-se em Ciências Naturais,
1 '

deu aulas particulares e lecionou em escola privada. Sem que se saiba 1 Assia (Anna) Schucht (1893-?). Violinista formada no liceu musical da
Academia de Santa Cecília, em Roma; de volta à Rússia, casou-se com
o motivo, não acompanhou a família quando esta, em 1915, decidiu g Theodore Zabel, pianista profissional em Ivanovo.
voltar à Rússia. Em 1917, simpatizante dos s2cialistas revolucionários,
apoiou criticamente o governo bolchevique. Afastada dos familiares
1
• Giulia (Iulca) Schucht* (1896-1980). Nascida no exílio suíço, a partir
desde a guerra civil russa, só em 1925 seria encontrada por Gramsci de 1908 viveu em Roma com os pais e as irmãs. Diplomou-se em vio-
em Roma. Ai. também seria funcionária da embaixada soviética, mas, a lino no liceu musical da Academia de Santa Cecília. Em 1915, voltou à
partir de 1928, transferiu-se para a delegação comercial de seu país pátria. Tornou-se violinista profissional em Ivanovo e, em 1917, ins-
em Milão. Prestou dedicada assistência a Gramsci, servindo como elo creveu-se no partido bolchevique. Casou-se com Gramsci em 1923, a
entre o prisioneiro, sua família - em Moscou e na Sardenha - e a quem havia conhecido numa clínica nos arredores de Moscou, onde
direção do PCI. Tornou-se figura-chave na preservação dos cadernos, Eugenia estava internada. Desde o início dos anos 20, também sofreu
das cartas e da biblioteca carcerária de Gramsci. Deixou a Itália no fim problemas físicos e psíquicos, causados provavelmente por uma forma
de 1938 ou início de 1939. Na URSS, em 1941, depois da invasão ale- de epilepsia, e passou por longos períodos de repouso e várias formas
mã, fugiu com a mãe e as irmãs Giulia e Eugenia para Frunze, capital de terapia. Em 1924, nasceu em Moscou Delio, seu primeiro filho com
do Quirguistão, na Ásia Central. Morreu de pelagra. Gramsci. No outono de 1925, ao lado de Delio e Eugenia, veio encon-

64 65

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OS CORRESPONDENTES DE GRAMSCI
CARTAS DO CÁRCERE
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trar-se com o marido em Roma, ocasião em que trabalhou na embai- f OUTROS CORRESPONDENTES
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1
xada soviética. Novamente grávida, retornou a Moscou, onde, em ~
agosto de 1926, nasceu Giuliano, o segundo filho. No período de en- t Giuseppe Berti* (1901-1979). Napolitano, tornou-se em 1921 secre-
carceramento, suas relações com o marido foram exclusivamente l tário nacional da Federação da Juventude Comunista. Detido e confi-
epistolares e bastante limitadas. Depois da Segunda Guerra, dividiu um nado, fugiu para a França e tomou parte no movimento antifascista na
apartamento em Moscou com Eugenia, até a morte desta última, em própria França, na União Soviética e nos Estados Unidos. Em 1938, na
1972. Incapaz de se manter sozinha, passou os últimos anos de vida URSS, foi stalinista ferrenho, num tempo em que a Internacional Co-
numa casa de repouso reservada pelo Partido Comunista soviético aos munista interveio pesadamente no partido italiano. Depois da Segun-
da Guerra, seria sucessivamente deputado e senador, além de historiador
"velhos bolcheviques'', em Peredelkino.
do movimento operário.
Viktor (Vittorio) Schucht (1899-?). Também nasceu em Genebra, du-
rante o exílio do pai. As poucas notícias sobre ele aparecem na corres- Amadeo Bordiga (1889-1970). De origem napolitana, Bordiga desde jo-
pondência entre Tatiana e Gramsci. vem participou dos grupos revolucionários do PSI. Em 1921, em Livorno,
também participou ativamente da fundação do PCI, ao qual imprimiu
uma orientação "de esquerda". Em 1923, renunciou à direção do PCI,
por incompatibilidade com a nova orientação de "frente única" do III e
05 FILHOS DE ANTONIO E GIULIA IV Congressos da Internacional Comunista. Em 1926, foi confinado na
ilha de Ustica e, depois, na de Ponza, onde ficaria até 1929. Em Ustica,
Delio (Delka) Gramsci* (1924-1981). Filho mais velho de Antonio e organizou com Gramsci uma escola para os confinados, ocupando-se
Giulia. Entre 1925 e 1926 viveu em Roma, durante a breve permanên- de matérias científicas. Em 1930, foi expulso do PCI sob a acusação de
cia da mãe na Itália, junto com as tias Eugenia e Tatiana e o avô Apollon. "trotskismo". Depois da Segunda Guerra, Bordiga se tornaria ponto

.
Criado em Moscou, seria oficial da Marinha soviética e professor de
Matemática na Academia Naval da então Leningrado.
de referência para diversas pequenas correntes e grupos à esquerda do PCI.

Virginio Borioni* (1903-1961). Nascido em Macerata, na região das


Giuliano aulik) Gramsci* (1926). Violinista e clarinetista profissional Marcas. Em 1926, como jov'em estudante comunista, esteve na prisão
numa orquestra clássica, agora aposentado. Reside em Moscou com a romana de Regina Coeli, com Gramsci, e também terminou confinado
mulher, Zina, com quem tem dois filhos, Olga e Antonio. Giuliano, na ilha de Ustica. Tomou sob.sua guarda os livros de Gramsci, depois
que ainda se declara comunista, não conheceu o pai: em suas próprias da ida deste para a prisão judiciária de Milão, em 1927. No pós-guer-
palavras, seu vínculo com a Itália estabeleceu-se mais através da músi- ra, elegeu-se deputado comunista na primeira legislatura republicana.
ca - particularmente, o violino da mãe - do que da língua.
Clara Passarge*. A dona da casa na Via Morgagni, 45, em Roma, na
qual Gramsci vivia na época de sua prisão. Ela e o marido, Giorgio,
eram alemães residentes em Roma.

66 67
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CARTAS DO CARCERE .
OS CORRESPONDENTES DE GRAMSCI
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· Piero Sraffa* (1898-1983). Proveniente de rica e prestigiosa família i.$
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mento vital para a sobreviv~ência física e a produtividade intelectual do


1
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judia, foi colaborador de l.}Ordine Nuovo, nos anos "vermelhos" do . prisioneiro. Em 1974, doou ao Instituto Gramsci, em Roma., todos os
primeiro pós-guerra. Ainda em 1919-1920, preparou tese de conclu- ~ papéis e documentos relativos a sua participação nos acontecimentos
são de curso, em economia política, sob orientação do economista li- ~ dos anos 1920-1930. Politicamente, desde o primeiro momento Sraffa
beral Luigi Einaudi. Entre junho e agosto de 1921, foi general research ~ representou o canal de comunicação entre Gramsci e a direção do PCI,
student, na London School of Economics; já neste período, conheceu ~
em particular Palmira Togliatti. Seus trabalhos acadêmicos mais conhe-
John Maynard Keynes, que o encarregaria, no ano acadêmico seguin- cidos são a edição crítica das Obras de Ricardo e o livro Produção de
te, de estudar os problemas bancários italianos no pós-guerra e, de- mercadorias por meio de mercadorias (1960).
pois, interviria por diversas vezes em favor de Sraffa, tornando possível
sua longa atividade acadêmica e sua própria permanência na Inglater-
ra. Ainda no início dos anos 20, Sraffa voltou à Itália para organizar e
dirigir um departamento de estatísticas sobre o trabalho, em Milão,
mas renunciou em protesto contra a "marcha" fascista sobre Roma,
em outubro de 1922. Em 1926, imediatamente após o confinamento
de Gramsci na ilha de Ustica, Sraffa entrou em contato epistolar com o
dirigente comunista, tendo início, a partir daí, sua função de emissário
da direção do PCI. Em 1927, egresso das universidades de Cagliari e
Perugia, passou a ensinar em Cambridge e foi imediatamente acolhido
no Political Economy Club, que, sob a liderança de Keynes, reunia al-
guns dos mais brilhantes econ~mistas ingleses. Em 1928, encontrou
Tatiana Schucht em Milão, pela primeira vez, e passou a ter com ela
uma correspondência regular, participande ativamente de todos os
recursos e ações impetrados em favor do prisioneiro. Em 1930, reali-
zou com Maurice Dobb uma viagem de estudos à URSS, onde, especi-
ficamente, visitou a família Schucht, para buscar notícias precisas sobre
o estado de saúde de Giulia. Entre 1934 e 1935, esteve algumas vezes
com Gramsci, sucessivamente internado em clínicas de Formia e de
Roma. Após a morte de Gramsci, a correspondência com Tatiana co-
nheceu um momento difícil, quando esta o acusou de não dar o crédito
devido à hipótese de traição ao prisioneiro por parte dos companheiros
italianos - hipótese, de resto, não confirmada no estágio atual das
investigações. De todo modo, sua assistência material a Gramsci e a
correspondência indireta com ele, através de Tatiana, foram um ele-

68 69

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Prezada senhora 1,

Antes de mais nada, quero lhe pedir desculpas pelos transtornos e


incômodos que causei, os quais, na verdade, não faziam parte do con-
trato de alugueF. Estou bastante bem, muito calmo e tranqüilo.
Eu lhe agradeceria se pudesse preparar algumas peças de roupa e
entregá-las a uma mulher de confiança, de nome Marietta Bucciarelli,
se for pedi-las em meu nome: não posso lhe dar o endereço desta
mulher, porque o esqueci.
Gostaria de receber os seguintes livros:
1) a Gramática alemã, que estava na estante ao lado da entrada;
2) o Breviario di linguistica, de Bertoni e Bartoli, que estava no armá-
rio em frente à cama; 3) ficaria muito agradecido se me enviasse uma
Divina comédia barata, porque emprestei meu texto 3 •
Se os livros estiverem encadernados, será preciso arrancar a capa
"' 1 dura, tomando cuidado para as folhas não se soltarem.
Gostaria de ter notícias do menino, que estava doente de escarlati-
na4. Talvez Marietta saiba alguma coisa.
Se minha ausência perdurar por muito tempo, acho que a senhora
deve considerar vago o quarto e dele dispor.
Pode empacotar os livros e jogar fora os jornais.
Renovo-lhe meu pedido de desculpas, prezada senhora, e todo o
meu pesar, que se torna ainda maior por causa da gentileza de todos.
Lembranças ao Sr. Giorgio e à senhorita5 • Com a mais elevada
consideração,
Antonio Gramsci


73
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CARTAS DO CÁRCERE

1. Clara Passarge, em cuja casa romana Gramsci tinha alugado um quarto. Aqui, no t mos bastante jovens para poder esperar ver juntos que nossos filhos
número 25 da Via Giovan Battista Morgagni, foi detido em 8 de novembro de
, '
cresçam. E preciso agora que você se lembre vigorosamente disto,
1926 (cf. carta 8). Ao voltar de Viena, na primavera de 1924, ele se estabeleceu que você pense nisto vigorosamente sempre que pensar em mim e
no domicílio anterior dos Passarges, na Via Andrea Vesalio, 6. Escreveu a Giulia
em 21 de julho de 1924: "Moro numa pequena casa da Via Vesalio, transversal me associar aos meninos. Estou certo de que você será forte e cora-
à Via Nomentana, com uma família alemã que ainda não sabe meu nome com josa, como sempre foi. E deverá sê-lo ainda mais do que no passa-
exatidão e ignora que sou deputado comunista: ajo como um professor muito do, para que os meninos cresçam bem e sejam inteiramente dignos
sério, tido em grande consideração e a quem se deixa tranqüilo de modo
exasperante" (A. Gramsci. Lettere 1908-1926. Org. A. A. Samucci. Turim: de você. Pensei muito, muito, nestes dias. Tentei imaginar como vai
Einaudi, 1992, p. 370). De uma carta de Tatiana aos familiares em Moscou, sabe- se desenrolar toda a vida futura de vocês, porque vou ficar certa-
se que Gramsci teria escrito várias vezes à Sr'. Passarge: "Enviou do cárcere quatro
mente muito tempo sem notícias suas; e voltei a pensar no passado,
cartas à senhoria e, até o momento, chegaram só duas" (T. Schucht. Lettere ai
familiari. Org. M. Paulesu Quercioli. Roma: Riuniti, 1991, p. 22). A presente nele buscando razão de força e de confiança infinita. Sou e serei
carta, escrita em meados de novembro de 1926, apreendida pela polícia, não forte; amo você muito e quero rever e ver nossos pequenos filhos 1•
chegou ao destino. Preocupa-me um pouco a questão material: seu trabalho será sufi-
2. Referência a diversas buscas policiais no quarto de Gramsci em 1925 e 1926.
3. Matteo Giulio Bartoli (1873-1946), docente de Glorologia na Universidade de Tu- ciente? Penso que não seria menos digno de nós nem exagerado pedir
rim, foi professor de Gramsci, com quem manteve relações de amizade e colabo- um pouco de ajuda. Gostaria de convencê-la disto, para que você
ração (cf. carta 25). me escute e procure meus amigos. Estaria mais tranqüilo e mais
Giulio Bertoni (1878-1942) também foi professor de Lingüística em Turim, entre
forte, sabendo-a protegida contra qualquer acontecimento ruim.
1921e1928. Em sua obra, mistura premissas positivistas com concepções do ide-
alismo crociano e gentiliano. Junto com Bartoli, escreveu o Breviario di neo- Minhas responsabilidades de pai sério ainda me atormentam,
/inguistica (Modena: Tip. Ed. Modenese, 1925). Gramsci criticou as concepções como pode ver.
de Bertoni em vários parágrafos dos Cadernos do cárcere, como, por exemplo, v.
Minha querida, não gostaria de intranqüilizá-la, de modo algum:
6, p. 147, 159-60 e 181-3.
Todas as referências aos Cadernos do cárcere - daqui por diante mencionados estou um pouco cansado, porque durmo pouquíssimo e, por isso, não
como CC - devem ser buscadas na edição organizada por Carlos Nelson consigo escrever tudo o que l§OStaria e do modo como gostaria. Quero
Coutinho, em colaboração com Luiz Sérgio Henriques e Marco Aurélio No- fazer com que você sinta de modo bem forte todo o meu amor e toda
gueira, e publicada em seis volumes pela Ed. Civilização Brasileira, entre 1999
a minha confiança. Abraços para todos os seus familiares; e, com a maior
e 2002. tt
4. O filho Delio (cf. carta 3). ternura, abraços para você e os meninos.
S. O marido e a filha de Clara Passarge.
Antonio

1. "Rever" Delio, que permaneceu na Itália por quase um ano, a partir de outubro de
2. 1925, e "ver" Giuliano, nascido em Moscou, em 30 de agosto de 1926. Gramsci
não iria mais encontrar o primogênito nem conhecer Giuliano.
Roma, 20 de novembro de 1926

Minha querida Iulca,

Lembra-se de uma de suas últimas cartas? (Foi, pelo menos, a


última carta que recebi e li.) Você me dizia que nós dois ainda so-

74 75
. .·· . ~- . ~ .....

-1
CARTAS DO CÁRCERE
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ii
1 9 2 6

3. ~ apertado ao pensar que ne,m sempre fui carinhoso com vocês e bom
r.:
como deveria ter sido e como mereciam. Amem-me sempre, apesar
Roma, 20 de novembro de 1926 fl· disso, e se lembrem de mim.
f. Beijos para todos. E para você, querida mamãe, um abraço e uma
Querida mamãe, f infinidade de beijos.
f Nino

!
Pensei muito em você nestes dias. Pensei nas novas dores que acabei
por lhe trazer, em sua idade e depois de todos os sofrimentos pelos quais P.S.: Um abraço para o Paolo, e que ame sempre e seja sempre bom
passou. É preciso que você seja forte, apesar de tudo, assim como eu sou f com sua querida Teresina.
forte, e que me perdoe com toda a ternura de seu imenso amor e de sua
bondade. Sabê-la forte e paciente no sofrimento será um motivo de for- f E um beijo para a Edmea e o Franco 1 •

ça também para mim: pense nisto e, quando me escrever para o endere- f 1. Edmea, filha de Gennaro, irmão de Gramsci. Franco, filho da irmã Teresina e de
ço que lhe mandar, me tranqüilize. Paolo Paulesu.
Estou tranqüilo e sereno. Moralmente, estava preparado para tudo.
Tentarei superar até mesmo fisicamente as dificuldades que me espe- 1
ram e permanecer equilibrado. Você conhece meu temperamento e sabe 4.
que nele existe uma ponta de alegre humorismo bem no fundo: isto
me ajudará a viver.
1 Palermo, 30 de novembro de 1926
Ainda não lhe havia escrito que nasceu meu outro menino: chama- 1
se Giuliano, e me escrevem que é forte e se desenvolve bem. No en- Prezada senhora 1 ,
tanto, Delio, nestas últimas semanas, teve escarlatinà, se bem que na
forma branda, mas neste momento não sei de suas condições de saúde: Estou em Palermo (na cadeia) há três dias. Parti de Roma na ma-
sei que já tinha superado a fase crítica e que estava se recuperando. nhã do dia 25 direto para Nápoles, onde permaneci alguns dias e fui
Você não deve se preocupar com os netinhos: a mãe deles é muito for- devorado pelos insetos. Partirei para a ilha de Ustica, onde devo ficar
te e com seu trabalho os criará muito bem. confinado, dentro de alguns dias. Durante a viagem não consegui en-
Minha querida m~e: não tenho mais força para continuar. Escrevi viar as chaves de casa: assim que chegar a Ustica, vou enviar imediata-
oútras cartas, pensei em muitas coisas e o fato de não dormir me can- mente e lhe dizer o endereço preciso e as orientações para me enviar
sou um pouco. Tranqüilize a todos: diga a todos que não devem se ou fazer chegar as coi~as que poderei ter e me poderão ser úteis. Estou
envergonhar de mim e devem ser superiores à moralidade tacanha e bastante bem de saúde: um pouco cansado, somente. Avise Maria, se
mesquinha das cidadezinhas. Diga a Carlo que ele, especialmente, agora encontrá-la, e lhe diga para saudar todos os meus parentes e amigos,
que ainda se lembram de mim 2 • Lembranças afetuosas ao Sr. Giorgio e
tem o dever de pensar em vocês, de ser sério e trabalhador. Grazietta
à senhorita.
e Teresina devem ser fortes e serenas, especialmente Teresina, se vai
Cordialmente,
ter um outro filho, como você me escreveu. Papai também deve ser
forte. Meus queridos, neste momento, especialmente, o coração fica A. Gramsci

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CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 6

1. Clara Passarge. Minha impressão de Ustica é ótima sob qualquer ponto de vista. A
2. Provavelmente, Marictta Bucciarelli. Esta carta, assim como outras três destina-
ilha mede 8 km 2 e possui uma' população de cerca de 1.30.0 habitantes,
das a Tatiana em 1927 (19 e 20 de janeiro, 3 de março), só foram entregues à
Fundação Instituto Gramsci na década de 1970. É provável que um agente duplo, dos quais 600 presos comuns, isto é, criminosos muitas vezes reinci-
Guglielmo Janna, com acesso aos arquivos da polícia política, renha se apode~ado dentes. A população é extremamente gentil: somos tratados por todos
delas ainda nos anos 1920. com grande correção. Estamos absolutamente separados dos presos
comuns, cuja vida não saberia lhe descrever em breves traços: lembra
a novela de Kipling intitulada "Uma estranha cavalgada", no volume
5. francês O homem que quis t<Jrnar-se rei 2 ? Veio-me subitamente à me-
mória, a tal ponto me parecia vivê-la. Até o momento somos quinze
Ustica, 9 de dezembro de 1926 amigos, entre os quais o marido de Ortensia, que tive o prazer de en-
contrar3. Nossa vida é tranqüilíssima: ocupamo-nos em explorar a ilha,
Querida Tatiana, que permite fazer passeios bastante longos, de cerca de 9-10 quilôme-
tros, com paisagens muito amenas e visões do mar, de alvoradas e de
Cheguei a Ustica no dia 7 e, no dia 8, recebi sua carta do dia 3. Vou poentes maravilhosos: de dois em dois dias aparece o vapor, que nos
lhe descrever em outras cartas rodas as impressões de minha viagem, à traz notícias, jornais e amigos novos. Ainda não nos acomodamos to-
medida que as diferentes recordações e emoções se ordenarem no cé- dos: dormi duas noites num grande aposento comum com os outros
rebro e me recuperar do cansaço e da insônia. À parte as condições amigos; hoje me encontro num pequeno quarto de hotel e, talvez ama-
especiais em que aconteceu (como pode compreender, não é muito nhã ou depois de amanhã, irei morar numa pequena casa que estão
confortável, até mesmo para um homem robusto, percorrer horas e mobiliando para nós. Ustica é muito mais graciosa do que parece nos
horas de trem veloz e de vapor com algemas nos pulsos e ligado a uma cartões ilustrados que vou lhe enviar: é uma cidadezinha de tipo ára-
corrente que o prende aos pulsos dos vizinhos de viagem), a viagem be, pitoresca e plena de cores. Você não pode imaginar o quanto estou
foi interessantíssima e rica de motivos diversos, dos shakespearianos contente por girar de um canto a outro da cidadezinha e da ilha e por
aos farsescos: não sei se vou conseguir, por exemplo, reconstruir uma respirar o ar do mar depois deste mês de transferências de um cárcere
cena noturna durante a transferência em Nápoles, num salão imenso, para outro, mas, especialmente, depois dos dezesseis dias de Regina
riquíssimo de exemplares zoológicos fantasmagóricos; acho que só a Coeli, passados no mais co"mpleto isolamento. Acho que vou me tor-
cena do coveiro, em Hamlet, pode rivalizar com ela 1 • O trecho mais nar, em Ustica, o campeão de arremesso de pedra à distância, porque
difícil da viagem foi a travessia de Palermo para Ustica: tentamos por já ganhei de todos os amigos.
quatro vezes a passagem e por três vezes tivemos de voltar ao porto de Escrevo-lhe de modo um pouco desconexo, assim como me vem à
Palermo, porque o pequeno vapor não resistia à tempestade. Mas sabe cabeça, porque ainda estou um pouco cansado. Querida Tatiana, você
que engordei neste mês? Eu mesmo fiquei espantado por me sentir tão não pode imaginar minha emoção quando, em Regina Coeli, vi sua letra
bem e ter tanta fome: penso que em quinze dias, depois de repousar e sobre a primeira garrafa de café recebida e li o nome de Marietta; lite-
dormir suficientemente, estarei completamente livre de qualquer tra- ralmente, voltei a ser um menino4 • Veja, neste período, sabendo com
ço de enxaqueca e iniciarei um período inteiramente novo de minha certeza que minhas cartas seriam lidas, de acordo com as disposições
existência molecular. carcerárias, nasceu em mim uma espécie de pudor: não ouso escrever
sobre certos sentimentos e, se tento atenuá-los para me adequar à situa-

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CARTAS DO CÁRCERE
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ção, parece-me que faço o papel.de sacristão. Por isto, me limitarei a também uma carícia afetuOt;a. Gostaria de ter o endereço da Marietta;
lhe escrever algumas informações sobre minha estada em R.C., em e talvez escreva também à Nil<le: o que acha disto 5 ? Será que ela se
relação ao que me pergunta. Recebi o paletó de lã, que me foi extre- recorda de _mim e receberá com prazer lembranças minhas? Escrever e
mamente útil, assim como as meias, etc. Teria sentido muito frio sem receber cartas se tornou para mim um dos momentos mais intensos de
eles, porque parti com o paletó leve e muitas vezes, de manhã bem vida.
cedo, quando tentamos a travessia Palermo-Ustica, fazia um frio dana- Nestes dias iniciais, até que tudo se arrume, é preciso pass::i.r para
do. Recebi os pequenos pratos, que deixei em Roma a contragosto, você algumas tarefas. Gostaria de ter uma mochila de viagem, mas que
porque tive de colocar toda a minha bagagem na fronha (que me pres-
tou serviços inestimáveis) e tinha certeza de que quebrariam. Não re-
1 seja segura, com fechadura ou cadeado: é melhor do que qualquer mala
ou pequeno baú, na hipótese não descartada de novas transferências
cebi a geléia Cirio, o chocolate e o pão-de-ló, que eram proibidos: vi para as ilhas ou para terra firme. Do mesmo modo, precisaria de todas
que constavam da lista, mas com a advertência de que não podiam aquelas pequenas coisas, como uma navalha com lâminas sobressalen-
passar; do mesmo modo, não consegui uma pequena xícara, mas pro- tes, tesourinha para as unhas, lixa, etc., etc., que sempre são úteis e
videnciei um serviço para o café com meia dúzia de cascas de ovos aqui não estão à venda; gostaria de ter alguns envelopes de aspirina
soberbamente empilhadas em cima de um pedestal de miolo de pão. para o caso de os ventos fortíssimos me darem fluxão nos det1tes.
Notei que você ficou impressionada porque as refeições eram quase Quanto às roupas, sobretudo e demais peças que ficaram, acho que você
sempre frias: nenhum problema, porque sempre comi, depois dos pri- dará um jeito em tudo. Mande logo, se puder, a gramática alemã e uma
meiros dias, pelo menos o dobro do que comia em restaurante e nunca gramática russa; o dicionário alemão-italiano e italiano-alemão e al-
senti o menor mal-estar, embora soubesse que todos os meus amigos guns livros (Max und Moritz e a história da literatura italiana de Vossler,
sofreram incômodos e abusaram de purgantes. Estou me convencendo se conseguir encontrá-los entre os livros) 6 • Mande aquele volume grande
de que sou muito mais forte do que jamais suspeitei, porque, diferen- de artigos e estudos sobre o Risorgimento italiano, que se chama, pare-
temente de todos, passei pelas dificuldades sem nada além de um sim- ce, Storia politica dei seco/o XIX, e um livro intitulado: R. Ciasca, La
ples cansaço. Asseguro-lhe que, excetuadas pouquíssimas horas de trevas formazione dei programma dell'unità nazionale ou algo semelhante7 •
numa noite em que cortaram a luz de nossa!\tcelas, estive sempre mui- Quanto ao resto, você mesma vê e decide livremente. Desta vez, escre-
to alegre; o diabrete que me leva a apreender o lado cômico e caricatural va a Giulia: não consigo vencer aquele sentimento de pudor do qual
de todas as cenas estava:sempre vivo em mim e me manteve bem- lhe falei acima: fiq\tei muito feliz ao saber as boas novas sobre Delio e
humorado, apesar de tudo. Li sempre, ou quase, revistas ilustradas e Giuliano; espero as fotografias. O endereço que você usou é ótimo,
jornais esportivos e estava reconstruindo uma biblioteca. Aqui, estabe- como pôde ver: aqui, o correio funciona de modo simples, porque vou
leci este programa: 1) estar- bem, para ficar com a saúde cada vez me- até o guichê e pergm;i.to, como na posta-restante, e em Ustica só existe
a
lhor; 2) estudar língua alemã e a russa com método e continuidade; uma agência de correio. Quanto aos telegramas enviados, sabia com
3) estudar economia e história. Entre nós, faremos ginástica de modo quase certeza que o de Roma, que anunciava minha partida, chegaria
racional, etc. atrasadíssimo, mas queria dar a notícia e não descartava que pudesse
Querida Tatiana, se ainda não lhe havia escrito, não suponha que ser útil para uma visita, se o destinatário soubesse que era possível vir
me esqueci de você sequer por um minuto e deixei de pensar em você; até às 11 da noite. Dos cinco que partiram, só Molinelli, que viajou
sua expressão é exata, porque tudo que recebia e em que via, em rele- sempre comigo, recebeu a visita da mulher às 11 em ponto: os outros,
vo, o sinal de suas queridas mãos era mais do que uma lembrança, era nada 8 •

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.- Nilde Perilli, cf. M. Paulesu Quercioli (Org.). Gramsci vivo nelle testimonianze
Querida Tatiana, escrevi para você de modo um pouco confuso. dei suai contemporanei. Milão: Feltrinelli, 1977, p. 159-63. Outras memórias e
Acredito que hoje, 10, o vapor não conseguirá vir porque houve por trechos de cartas foram publicados por A. Carnbria. Amore come rivo/uzione. Milão:
Sugar, 1976.
toda a noite um vento violentíssimo, que não me deixou dormir ape- Raffaele Bastianelli (1863-1961) foi um dos mais importantes cirurgiões italia-
sar da maciez da cama e do travesseiro, da qual havia me desacostuma- nos, além de livre-docente de clínica cirúrgica da Universidade de Roma. Em 1929,
do; é um vento que entra por todas as frestas da sacada, da janela e das foi nomeado senador do Reino.
6. Max und Moritz, de 1865, é uma curta narrativa em versos do humorista e carica-
portas, com assovios e sons de trombeta muito pitorescos, mas bem turista alemão Wilhelm Busch (1832-1908). Em seguida, há urna referência a Karl
irritantes. Escreva para Giulia e lhe diga que estou bem de verdade, Vossler. Letteratura italiana contemporanea dai romanticismo ai futurismo. Ná-
sob todos os pontos de vista, e que minha permanência aqui, que, de poles: Ricciardi, 1922.
7. Raffaele Ciasca. [;origine dei "Programma per l'opinione nazionale italiana" dei 1847-
resto, acho que não será tão prolongada como prescrito pela decisão 48. Milão-Roma-Nápoles: Albrighi, Segati e Cia., 1916. Urna resenha de Ugo Guido
judiciária, irá me arrancar do corpo todos os velhos males: talvez um Mondolfo sobre este volume - "Per la storia dei Risorgirnento". Nuova Rivista
período de repouso absoluto fosse mesmo uma necessidade para mim. Storica, rv, out.-dez. 1917, p. 650-5 - fora resumida por Grarnsci em II Grido dei
Popolo, 6 abr. 1918 (cf. "Passato e presente". ln: A. Grarnsci. La città futura, 1917-
Mando-lhe abraços carinhosos, querida, porque, assim, abraço 1918. Org. S. Caprioglio. Turim: Einaudi, 1982, p. 799-803). A obra do historia-
todos os que me são caros. dor Raffaele Ciasca (1888-1974) seria utilizada nos Cadernos, no contexto de um
importante tema, o da "concepção do Estado segundo a função produtiva das clas-
Antonio ses sociais": cf., por exemplo, v. 1, p. 428, e v. 5, p. 27. Cf., também, carta 147-
8. Guido Molinelli (1894-1963), socialista da região das Marcas e colaborador do
Avanti!, aderiu em 1921 ao PCI. Deputado em 1924, também foi preso em no-
Se Nilde ficar contente com uma lembrança minha, mande-me o vembro de 1926. Confinado em Ustica e condenado a 14 anos de reclusão, foi
endereço dela. anistiado em 1932. Após 1945, seria constituinte e, depois, senador.

1. Hamlet, ato V, cena 1.


2. "L'étrange chevauchée de Marrowbie Jukes". ln: R. Kipling. L:homme qui voulut
être roi. Paris: Mercure de France, 1901. Na história de Kipling, passada na índia,
6.
homens supliciados na fogueira, mas ainda vivos, são lançados num fosso de areia.
Kipling fala deste lugar em que se consomem seres que ainda não estão mortos, Ustica, 11 de dezembro de 1926
mas que, a rigor, já não vivem mais. ~
3. Referência a Amadeo Bordiga e à mulher, Ortensia De Meo. Apesar das fortes di-
vergências entre Gramsci e Bordiga até o Congresso de Lyon, em janeiro de 1926, Querido amigo 1 ,
o reencontro dos principais adversârios na luta interna do PCI foi marcado por
amizade e respeito mútuo. A este respeito, devem-se ver as cinco cartas enviadas
entre janeiro e abril de 1927 por Bordiga, ainda em Ustica, a Gramsci, então de- Cheguei a Ustica em 7 de dezembro, depois de uma viagem bastante
tido no cárcere de San Vitto_re, em Milão, agora em apêndice a V. Gerratana. "Note desconfortável (como pode compreender), mas muito interessante. Es-
di filologia gramsciana". Studi storici, n. 1, jan.-rnar. 1975, p. 146-54. tou em ótimas condições de saúde. Ustica será, para mim, uma tempora-
4. Marietta Bucciarelli.
5. Leonilde (Nilde) Perilli, amiga da família Schucht desde 1910, foi colega de Eugenia, da bastante agradável do ponto de vista da existência animal, porque o
no Instituto de Belas-Artes de Roma. Também conheceu bastante Giulia, a quem clima é ótimo e posso fazer caminhadas saudabilíssimas: quanto às co-
deu aulas de italiano para os exames no Conservatório de Santa Cecília. Por vá,rias modidades em geral, você sabe que não faço muitas exigências e posso
vezes, hospedou Tatiana em Roma, inclusive durante a prisão de Gramsci. Nilde
trabalhava como secretária do dr. Raffaele Bastianelli, no Hospital Geral de R~ma, viver com pouquíssimo. Preocupa-me um pouco o problema do tédio,
e era também amiga do dr. Vittorio Puccinelli, que assistiria Gramsci em seus úl- que não poderá ser resolvido só com as caminhadas e o contato com os
timos anos na Clínica Quisisana. Estas relações facilitaram o esforço de Tatiana
para obter a necessâria assistência médica para Gramsci. Sobre as recordações de
amigos: até agora somos quatorze amigos, entre os quais Bordiga. Diri-

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CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 6

jo-me a você para que, por gentileza, me envie alguns livros. Gostaria de s.
ter um bom tratado de economia e de finanças para estudar: um livro
fundamental, que você escolherá a seu juízo2 • Quando for possível, mande Ustica, 19 de dezembro de 1926
alguns livros e algumas revistas de cultura geral que considerar interes-
santes para mim. Querido amigo, você conhece minhas condições fami- Querida Tania,
liares e sabe o quanto é difícil para mim receber livros a não ser através
de alguns amigos pessoais: acredite que não teria ousado lhe trazer este Escrevi-lhe um cartão no dia 18, para avisar que havia recebido
aborrecimento, senão levado pela necessidade de resolver este proble- sua carta registrada do dia 14: antes, havia escrito uma longa carta para
ma do embrutecimento intelectual que me preocupa particularmente. você, com o endereço da Srª. Passarge, que lhe deveria ter sido entre-
Abraços afetuosos, gue no dia 11ou12 1 • Resumo os acontecimentos principais de todo
A. Gramsci este período.
Meu endereço: A.G. - Ustica (Província de Palermo}. Detido na noite do dia 8, às dez e meia, e levado imediatamente
para o cárcere, saí de Roma de manhã bem cedo no dia 25 de novem-
1. Piero Sraffa. bro. A permanência em Regina Coeli foi o período mais duro da de-
2. Segundo a fatura da Livraria Sper~ing & Kupfer, de 24 de dezembro de 1926, é
provável que "o livro fundamental" enviado por Sraffa seja o de Alfred Marshall, tenção: dezesseis dias de isolamento absoluto na cela, disciplina
Principi·di economia politica {Turim: Utet, 1925). Sraffa criticou os fundamentos rigorosíssima. Pude ter um quarto pago só nos últimos dias. Passei os
da ortodoxia econômica de Marshall num ensaio de 1924, "Sulle relazioni fra costo
e quantità", por ocasião da morte do economista inglês. primeiros três dias numa cela bastante luminosa de dia e iluminada de
Na Fundação Instituto Gramsci, existem inúmeras faturas daquela livraria milanesa, ·
que possibilitam datar a montagem da biblioteca carcerária, a provável ordem de noite; mas a cama estava muito suja; os lençóis já tinham sido usados;
leitura e redação dos parágrafos dos Cadernos do cárcere. No entanto, não é pos- formigavam os insetos mais variados; não me foi possível ter nada para
s{vel fazer a relação completa dos livros e revistas enviados: a livraria foi destruída
durante a Segunda Guerra.
ler, nem mesmo a Gazzetta dello Sport, porque não previamente re-
quisitada: comi a comida do cárcere, que era bastante boa. Em segui-
da, passei a uma nova cela, mais escura de dia e sem iluminação de
7.
lt noite, mas que foi desinfetada com chama de gasolina e cuja cama ti-
nha lençóis lavados. Comecei a comprar alguma coisa na cantina do
17 de dezembro de 1926 cárcere: velas para a noite, leite para a manhã, uma sopa com caldo de
carne e um pedaço de carne cozida, queijo, vinho, maçãs, cigarros,
jornais e revistas ilustradas. Passei da cela comum para o quarto pago
Querido amigo1, '·
sem aviso prévio, de modo que fiquei um dia sem comer, uma vez que
Recebi sua carta do dia 13 e agradeço cordialmente sua gentileza. o cárcere só fornece alimentação para os ocupantes das celas comuns,
Minha saúde está ótima; e aqui ainda faz calor. Vou lhe escrever enquanto os dos quartos pagos devem "se abastecer" (termo carcerário)
longamente. Abraços, por si mesmos. O quarto pago consistiu, para mim, no fato de que acres-
centaram um colchão de lã e um travesseiro também de lã ao colchão
Antonio de crinas e de que a cela estava apetrechada com um lavabo, com bacia
e jarro, e uma cadeira. Deveria também ter uma mesinha, um cabideiro
1. Piero Sraffa.

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CARTAS DO CÁRCERE 1926

e um pequeno armário, mas a administração estava sem peças (outro explicação. Nos dias segui~tes escutei o boato de que partiria para a
3
termo carcerário): tive ainda luz elétrica, mas sem interruptor, de modo Somália • Só soube que seria confinado numa ilha italiana na noite do
que me virava durante a noite toda par~ proteger os olhos da luz. A dia 24, indiretamente: só me comunicaram oficialmente o destino exato
vida transcorria assim: às 7 da manhã, despertar e arrumar o quarto; em Palermo: podia ir para Ustica, mas também para Favignana, Pan-
às 9, o leite, que depois se tornou café com leite, quando comecei a telleria ou Lampedusa; estavam excluídas as ilhas Tremiti, porque se-
receber comida do restaurante. O café chegava normalmente ainda não teria viajado de Caserta até Foggia. De Roma parti na manhã de
morno e o leite, ao contrário, estava sempre frio, mas eu fazia então 25 pelo primeiro trem para Nápoles, onde cheguei mais ou menos às
uma abundante papa com pedaços de pão. Das nove ao meio-dia era a 13 horas; viajei na companhia de Molinelli, Ferrari, Volpi e Picelli, que
hora do banho de sol: uma hora, ou das nove às dez, ou das dez às também foram detidos no dia 8 4 • Mas Ferrari, em Caserta, foi separa-
onze, ou das onze ao meio-dia. Faziam-nos sair isolados, com a proibi- do para Tremiti: digo separado, porque também no vagão estávamos
ção de falar e de cumprimentar quem quer que fosse, e íamos para um atados a uma comprida corrente. Depois de Roma sempre tive compa-
pátio dividido em alas, com paredes divisórias altíssimas e uma grade nhia, o que produziu uma notável mudança no estado de ânimo: po-
diante do resto do pátio. Éramos vigiados por um guarda postado numa dia-se conversar e rir, apesar de estar acorrentados e com ambos os
guarita que dominava as alas e por um segundo guarda, que caminha- pulsos presos por algemas e de ter de comer e fumar com tais gracio-
va diante das grades; o pátio ficava entre paredes altíssimas e, num dos sos adornos. Mas conseguíamos acender os fósforos, comer, beber; os
lados, estava dominado pela chaminé baixa de um pequena oficina pulsos incharam um pouco, mas tivemos a sensação de como é perfeita
interna; às vezes, o ar virava fumaça e uma vez tivemos de ficar cerca a máquina humana e pode se adaptar a toda circunstância menos natu-
de meia hora debaixo de uma pancada de chuva. Ao meio-dia chegava ral. No limite das disposições regulamentares, os carabineiros da es-
o almoço; a sopa vinha muitas vezes ainda morna, o resto sempre frio. colta nos trataram com grande correção e cortesia. Permanecemos em
Às 3 havia a inspeção da cela, com a verificação das barras das grades; Nápoles por duas noites, no cárcere de Carmine, sempre juntos, e re-
a inspeção se repetia às dez da noite e às três da manhã. Eu dormia um tomamos a viagem pelo mar na noite do dia 27, com o mar calmíssimo.
pouco entre estas duas últimas inspeções: depois de acordado pela ins- Em Palermo, tivemos um pequeno dormitório muito limpo e ventila-
peção das três, não conseguia mais dormir; .mas era obrigatório ficar do, com belíssima vista do Monte Pellegrino; encontramos outros
na cama das sete e meia da noite até o amanhecer. A distração vinha amigos destinados para as ilhas, Conca, o deputado maximalista de
das diferentes vozes e trechos de conversa que, às vezes, conseguia Verona, e Angeloni, o advogado republicano de Perugia5 • Em seguida
apreender das celas vizinhas ou da frente. Jamais sofri qualquer puni- apareceram outros, entre os quais Maffi, destinado a Pantelleria, e
ção: Maffi, no entanto, passou três dias a pão e água numa solitária2 • Bordiga, destinado a Ustica. Deveria ter partido de Palermo no dia 2,
Na verdade, jamais senti mal-estar algum: mesmo sem comer a refei- mas só consegui partir no dia 7; três tentativas de travessia fracassa-
ção toda, comi sempre com mais apetite do que no restaurante. Tinha ram em razão do mar tempestuoso. Este foi o trecho mais penoso da
só uma colher de madeira; nem garfo nem copo. Um jarro e uma pe- viagem. Imagine: despertar às quatro da manhã, formalidades para a
quena caneca de barro para a água e para o vinho; uma grande tig,ela entrega de dinheiro e diversos pertences em depósito, algemas e cor-
de barro para a sopa e uma outra para me lavar, antes da concessão do rentes, camburão até o porto, ida ao barco para alcançar o vapor, subi-
quarto pago. Em 19 de novembro me foi comunicada a decisão judicial da da escada para chegar a bordo, subida de uma escada para chegar à
que me infligia cinco anos de confinamento numa colônia, sem mais ponte, descida de outra escada para chegar ao compartimento de ter-

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ceira classe; tudo isto com os pulsos algemados e preso a uma corrente çóes com a população. Os presos comuns estão submetidos a um regi-
com outros três. Às sete, o pequeno vapor parte, viaja por uma hora me muito restritivo; a grande maioria, dada a pouca extensão da ilha,
dançando e saracoteando como um golfinho e, depois, recua, porque não pode ter nenhum emprego e deve viver com as 4 liras diárias que
o capitão reconhece a impossibilidade de continuar a travessia. Repe- o governo dá. Você pode imaginar o que acontece: a mazzetta (é o ter-
te-se ao contrário a série de escadinhas, etc., retorna-se ao cárcere, mo que serve para designar o dinheiro dado pelo governo) é gasta es-
passa-se por nova revista e retorna-se à cela; mas já é meio-dia e não pecialmente em vinho; as refeições se reduzem a um pouco de massa
houve tempo de preparar o almoço; até às 5 não se come e, de manhã, com verduras e a um pouco de pão; a desnutrição leva ao alcoolismo
não se havia comido. Tudo isto quatro vezes, com intervalo de um dia. mais depravado em curtíssimo tempo. Estes presos comuns são tran-
Em Ustica já haviam chegado quatro amigos: Conca, Sbaraglini, ex- cafiados em dormitórios especiais às cinco da tarde e passam a noite
deputado de Perugia, e dois de Aquila 6 • Durante algumas noites dor- toda juntos (das cinco da tarde às sete da manhã), separados dos que
mimos num salão: agora, já nos acomodamos numa casa à nossa estão fora: jogam baralho, perdem algumas vezes a mazzetta de vários
disposição, e somos seis, eu, Bordiga, Conca, Sbaraglini e os dois de dias e, assim, se vêem presos num círculo infernal que dura até o infi-
Aquila. A casa se compõe de um aposento no térreo, onde dormem nito. Sob este ponto de vista, é mesmo uma pena que seja proibido ter
dois: no térreo também está a cozinha, a privada e um quartinho escu- contatos com seres forçados a uma vida de exceção: penso que se po-
ro, que transformamos em sala comum de toilette. No primeiro andar, deriam fazer observações de psicologia e de folclore de caráter excep-
em dois aposentos, dormimos quatro, três num aposento bastante gran- cional. Tudo aquilo que sobrevive de elementar no homem moderno
de e um no vestíbulo; um amplo terraço fica sobre o aposento maior e volta à tona irresistivelmente: estas moléculas pulverizadas se agrupam
dá para a pequena enseada. Pagamos 100 liras mensais pela casa e duas · segundo princípios que correspondem ao que ainda existe de essencial
liras diárias pela cama, a roupa de cama e os outros apetrechos domés- nos estratos populares mais recônditos. Existem quatro divisões fun-
ticos (duas liras cada um). Nos primeiros dias, gastamos muito com as damentais: os nortistas, os do Centro, os sulistas (com a Sicília), os
refeições; não menos de 20 liras por dia. Agora gastamos 10 liras por sardos. Os sardos vivem absolutamente separados do resto. Os nortis-
dia de pensão para o almoço e o jantar; estamos organizando uma re- tas têm uma certa solidariedade entre eles, mas nenhuma organização,
feição comum que talvez nos permita viver eom as 10 liras diárias que ao que parece; eles têm como ponto de honra o fato de que são la-
o governo nos dá; já somos 30 confinados políticos e talvez ainda che- drões, punguistas, estelionatários, mas nunca derramaram sangue. Entre
guem outros. os do Centro, os romanos são os mais bem organizados; aos das outras
Nossas obrigações são variadas e complexas; as mais visíveis são regiões não denunciam sequer os delatores e mantêm o segredo, por
as de não sair de casa antes do amanhecer e de voltar às oito da noite; desconfiança. Os sulistas são organizadíssimos, pelo que se diz, mas
não podemos ultrapassar determinados limites, que são aproximada- entre eles existem subdivisões: o Estado Napolitano, o Estado da Puglia,
mente representados pelo perímetro do povoado. Mas conseguimos a o Estado Siciliano. Quanto ao siciliano, o ponto de honra consiste em
permissão de passear por todo o território da ilha, com a obrigação de não ter roubado, mas apenas derramado sangue. Obtive todas estas
voltar aos limites às cinco da tarde. A população total é de aproxima- indicações de um preso comum que se encontrava no cárcere de
damente 1.600 habitantes, dos quais 600 presos, isto é, criminosos Palermo, para cumprir uma pena recebida durante o período de de-
comuns que sofreram várias condenações. A população local é com- tenção, e que se orgulhava de ter feito, segundo o plano preestabelecido,
posta de sicilianos, muito gentis e hospitaleiros; podemos manter rela- uma ferida com a profundidade (calculada, diz ele) de dez centímetros

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CARTAS DO CÁRCERE 1926

no patrão, que o tratava bastante mal: havia estabelecido dez centíme- tinto e instintivo, e por isso p-iais tormentoso. Lembra quando me dis-
tros, e foram dez centímetros, nem um milímetro a mais. Esta, a obra- se que a amiga comum mencionava minha superstição? Pensei nisto
prima, que o tornava extremamente orgulhoso. Veja que a referência à algumas vezes, não para me convencer mais de que tinha razão e que
novela de Kipling não era exagerada, mesmo que ditada pela impres; exagerei não por superstição, mas por falta de decisão e por outros
são do primeiro dia. Minha situação financeira neste período foi óti- escrúpulos que intelectualmente considero de caráter inferior, mas dos
ma. Fui preso com 680 liras no bolso e me deram em Roma mais 50 quais não consigo e não conseguirei me livrar. Na realidade, a análise
liras. As despesas só começaram de forma alarmante depois da partida que fazia era precisa, ainda que me fosse impossível uma demonstra-
de Roma. Em Palermo, especialmente, nos esfolaram: o dono da can- ção objetiva e circunstanciada.
tina cobrava 30 liras por um pacote que incluía uma porção de macar- Eis que lhe escrevi com aquela abundância que você desejava, es-
rão, 1/2 litro de vinho, 1/4 de frango, fruta, o que dava para duas crevendo até sobre coisinhas mínimas e sem importância. Está feliz?
refeições. Cheguei a Ustica com 250 liras, que foram suficientes para Sabe que lhe quero muito bem e sofro muito ao recordar alguns pe-
os primeiros dez dias, e depois ganhei: 100 liras de mazzette (10 liras quenos acontecimentos nos quais, por desatenção, magoei você de al-
por dia), suas 500 liras e 374 liras de subsídio parlamentar pelo perío- gum modo? Escreva a Giulia também em meu nome; não estou com
do de 1 ° a 9 de novembro. Assim, estou preparado para bastante tem- vontade de mandar para você os desenhos para Delio: teria de dar
po, isto é, posso tomar algum café, fumar cigarros e suprir a despesa ex:plicações sobre eles, o que me desagrada enormemente. Espero as
diária de alimentação e casa, que hoje é de 14 liras por dia, mas dimi- fotografias. Entre os livros para serem mandados, inclua os seguintes:
nuirá quando organizarmos a refeição coletiva. Por isto, não se preo- Hauser, Les Grandes puissances; Le prospettive economiche de 1926,
cupe comigo: não quero absolutamente que você pessoalmente se de Mortara; os dois Berlitz _.:_ alemão e russo7 • Entre os objetos, que-
sacrifique por mim: se puder, mande sua contribuição para Giulia, que ria um pouco de sabonete, um pouco de água de colônia para a barba,
certamente tem necessidades maiores do que as minhas. Não lhe es- uma escova de dentes com estojo de vidro, alguma pasta de dentes, um
crevi da última vez que, logo que cheguei a Ustica, encontrei uma car- pouco de aspirina, uma escova para as roupas.
ta em que me asseguravam que Giulia receberia ajuda e não devia me Abraços afetuosos, querida Tatiana.
preocupar a este propósito. Recorrerei a voC!ê para conseguir alguma
coisa que não puder ter de outra maneira: mas, em geral, estou decidi- Antonio
do a arranjar um modo de viver com a mazzetta do governo, porque
1. Cf. carta 5. Não se encontrou o cartão acima mencionado.
acho que é possível depois de algum tempo de aclimatação. Quero lhe 2. Fabrizio Maffi (1868-1955), médico e deputado, expoente da fração "terceirista"
dizer uma outra coisa importantíssima: o amigo Sraffa me escreveu que ou "terceiro-internacionalista". do PSI. Depois de aderir ao PCI, colaborou com
abriu para mim uma conta sem limite numa livraria de Milão, à qual Gramsci na comissão executiva do partido e no grupo parlamentar. Por motivos
de saúde, foi excluído do "processãon de 1928. Alguns meses mais tarde, foi ab-
poderei pedir jornais, revistas e livros; além disso, me ofereceu toda a solvido pelo Tribunal Especial, por insuficiência de provas, embora tenha sido
ajuda que eu quiser. Como vê, posso olhar o futuro com serenida,de confinado até 1930. Depois de 1945, seria deputado constituinte e senador hono-
rário.
suficiente. Se estiver seguro de que Giulia e os meninos não sofrer'ão 3. Cf. cartas 27 e 215.
nenhuma privação, ficarei realmente tranqüilo: querida Tatiana, esta é 4. Enrico Ferrari (1887-1969), tipógrafo, secretário da Câmara do Trabalho de
a única preocupação que me atormentou nestes últimos tempos, e não Modena e parlamentar comunista. Inicialmente confinado nas ilhas Tremiti, foi
condenado em 1928 a quinze anos de cárcere. Giulio Volpi (1877-1947), socialis-
só depois de minha prisão; sentia vir esta tempestade, de modo indis- ta maximalista e, depois, deputado comunista, foi condenado a cinco anos de

I.~
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.. .i.t.:

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CARTAS DO CÁRCERE

confinamento, cumpridos em Favignana, Lipari e Ponza. Guido Picelli (1889-1937), mos, assim, passar o tempo ~em nos embrutecermos e sendo úteis para
deputado comunista e organizador, em Parma, dos Arditi dei popolo, foi c:ondena- os outros amigos, que representam toda a gama de partidos e de pre-
do a cinco anos de confinamento, inicialmente em Larnpedusa e, depois, em Li pari.
Em 1932, emigrou clandestinamente para a França. Morreria na Espanha, como paração cultural. Estão comigo Schiavello e Fiorio, de Milão; dos
voluntário das Brigadas Internacionais. maximalistas, também está Conca, o ex-deputado de Milão 2 • Dos uni-
5. Paolo Conca (1888-?) pertenceu à ala "maximalista" do PSI, favorável ao progra- tários, está presente Sbaraglini, o advogado de Perugia, e um magnífi-
ma "máximo" de tomada do poder e instauração de uma república socialista, con-
tra os defensores do programa gradualista. Confinado em Ustica, foi libertado em co tipo de camponês da Molinella. Um republicano de Massa e seis
1928. anarquistas de composição moral complexa; o resto, comunistas, isto
Mario Angeloni (1882-1937), do Partido Republicano, representava a tradição
mazziniana de luta revolucionária antifascista. Com o socialista-liberal Cario
é, a grande maioria. Há três ou quatro analfabetos, ou quase; o restan-
Rosselli, seria comandante da "coluna italiana" na guerra civil da Espanha, onde te tem uma preparação variada, mas com média geral muito baixa. Mas
morreu em combate. todos estão contentes por ter a escola, que é freqüentada com grande
6. Giuseppe Sbaraglini (1870-1947), advogado e parlamentar socialista, ex-governa-
dor da província de Perugia, foi condenado a cinco anos de confinamento. Os assiduidade e aplicação.
"dois de Aquila" são Ugo Sansone e o comunista bordiguiano Piero Ventura (cf. A situação financeira ainda é boa: nos dão - a nós, confinados
carta 17). políticos - 10 liras por dia; a mazzetta dos presos comuns em Ustica
7. Giorgio Mortara (1885-1967), estatístico desde muito jovem e responsável pela
seção de estatística do Exército italiano na Primeira Guerra, foi forçado ao exílio é de 4 liras por dia e, nas oui:ras ilhas, às vezes é até menos, quando
em 1938. Chegou ao Brasil logo após a criação do IBGE e deu notável contribui- existem possibilidades de trabalho. Temos a possibilidade de morar em
ção à fase moderna dos censos brasileiros. Gramsci utilizou várias edições anuais casas particulares; nós seis (eu, Bordiga, Conca, Sbaraglini e outros dois)
das Prospettive economiche, de Mortara, nos Cadernos do cdrcere. Estas Prospettive
eram editadas pelo Instituto de Economia e Política da Universidade Bocconi, cm moramos numa pequena casa pela qual gastamos, cada um, 90 liras
Milão, fundado por Angelo Sraffa, pai de Piero. por mês, todos os serviços incluídos. Pensamos em organizar uma re-
feição comum, de modo a poder satisfazer as necessidades de alimen-
tação e moradia com as 1 O liras diárias da mazzetta. A comida,
9. naturalmente, é muito pouco variada: não se acham ovos, por exem-
plo, o que me aborrece muito porque não posso comer a farta comida
21 de dezembro de 1926 baseada em peixe e frutos do mar. O regime ao qual estamos sujeitos
~
consiste em: voltar para casa às 8 da noite e não sair de casa antes do
Querido amigo1, amanhecer; não ultrapassar os limites do vilarejo sem uma licença es-
pecial. A ilha é pequena (8 km 2 ), com uma população de 1.600 habi-
Recebi sua carta do dia 13; no entanto, ainda não recebi os livros tantes, dos quais cerca de 600 são presos comuns: só existe um conjunto
que você menciona. Agradeço muito cordialmente o oferecimento que de casas. O clima é ótimo, não fez frio até agora; apesar disso, o cor-
me fez; já escrevi à Livraria Sperling e fiz uma encomenda bastante reio chega irregularmente porque o pequeno vapor que faz l:i. travessia
volumosa com a certeza de não ter abusado, porque conheço toda a quatro vezes por semana nem sempre consegue superar o vento e as
sua gentileza. Em 'ustica, somos trinta confinados políticos: já inicia- ondas. Para chegar a Ustica, tive de fazer quatro tentativas de traves-
mos toda uma série de cursos, básicos e de cultura geral, para os di- sia, o que me cansou mais do que toda a transferência de Roma até
versos grupos de confinados; e também iniciaremos uma série de Palermo. Mas mantive sempre ótimas condições de saúde, para grande
conferências. Bordiga dirige a parte científica, eu a parte histórico-li- surpresa de meus amigos, que sofreram, todos, mais do que eu: imagi-
terária; eis a razão pela qual encomendei determinados livros. Espera- ne que cheguei a engordar um pouco. Mas, por estes dias, seja pelo

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Quanto a mim, nenhuma novidade essencial. Já recebi alguns li-


cansaço acumulado, seja pela comida, que não está de acordo com meus \
vros de Sraffa, mas ainda não posso me dedicar a um estudo determi-
hábitos e minha constituição, me sinto muito enfraquecido e prostra-
do. Mas espero me aclimatar rapidamente e liquidar definitivamente nado e sistemático. Espero, particularmente, as gramáticas que pedi a
você. Outros livros que queria que me mandasse são: um pacote de
todos os males passados.
Vou lhe escrever muitas vezes, se isto lhe der prazer, para ter a ilu- livros sobre a Ação Católica, que já havia juntado numa mesinha de
são de ainda me encontrar em sua agradável companhia. Lembranças meu quarto mas não sei se permaneceram juntos3 • A eles acrescente:
seis volumes dos Annali d'ltalia, de Pietro Vigo, o livro de Francesco
afetuosas.
Ercole sobre Maquiavel e três números da revista Politica de F. Coppola,
Antonio nos quais se encontram artigos do próprio Ercole. Um dos números de
1. Piero Sraffa.
2. Ernesto Schiavello, sindicalista comunista milanês, e Raffaele Fiaria. Politica é do ano de 1920. Os outros dois são de 1926 e trazem um
estudo sobre a "formação das cidades na Itália"; se tiverem se perdido,
ambos ou um dos dois, você deverá comprá-los de novo para rnirn 4 •
Em geral, você deve selecionar entre meus livros, que não são muitos,
10.
todos os volumes de história e mandá-los sistematicamente. Corno não
27 de dezembro de 1926 se pode excluir de modo abs<Jluto que me caiba, qualquer dia destes, o
mesmo destino de Molinelli, agradeceria se me mandasse uma colher
Querida Tania, e uma faca de madeira bem resistente e uma saboneteira de celulóide,
como é permitido ter na prisão.
Por meio de uma carta do Sr. Passarge soube a razão, verdadeira- A saúde vai muito bem. Comecei a achar ovos fresquíssimos para
mente dolorosa e desagradável, pela qual você recebeu com atraso tomar crus; daqui para a frente também teremos regularmente carne
minha primeira carta 1 • Acredito que, nesta altura, tenha recebido tam- de vaca, o que permitirá uma variedade maior na alimentação. A ques-
bém minha outra carta, com todas as informações mais detalhadas so- tão do sono ainda não está resolvida: tenho de dormir no mesmo quarto
bre meu modo de viver. com outros dois amigos, o que acarreta muitas ocasiões de acordar e
Como pode imaginar, aqui as novidades s~o mínimas. A vida trans- de insônia. Pode surgir uma grande oportunidade: ter um quarto sozi-
corre sempre igual; a espera do vapor, que traz notícias das famílias e nho numa pequena casa que seria alugada por um amigo, que espera a
os jornais, torna-se cada vez mais o problema central, dado o péssimo mulher: mas, como a casa está situada alguns metros além dos limites
tempo e a possibilidade sempre iminente de que a travessia fracasse. legais do povoado, há dificuldades ainda não superadas.
Para as festas de Natal devia chegar a mulher de Bordiga: a primeira Querida Tatiana, você tem de escrever longamente a Giulia e
travessia fracassou, depois de uma tentativa de viagem muito agitada e convencê-la de que ainda não posso escrever a ela diretamente: não
cheia de atribulações, e Ortensia voltou para Nápoles, sem tentar uma consigo superar o estado de espírito que já descrevi a você. Vou fazer
segunda vez. Isto causou muito mal-estar em todos. Outra novidade um novo esforço. Envie-me notícias suas e mande as fotografias.
desagradável foi a detenção e a transferência para o cárcere local,:à Giuliano já foi fotografado com Giulia e com Delio? Abraços afe-
espera de transferência, respectivamente, para Florença e Roma, dos tuosos,
dois ex-deputados Damen e Molinelli: Molinelli talvez parta hoje
Antonio
mesmo, se o vapor chegar 2 •

94 95
• -,h --~

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1. A razão "dolorosa e desagradável" era uma doença da Sr.• Clara Passarge.


2. Onorato Damen (1894-1979) foi um dos dezenove deputados comunistas e so- Rasguei um pequeno bilhete que já havia escrito à Srta. Nilde. Em
cialistas "terceiristas" eleitos em 1924, na lista "Unidade Proletária". Também prc>o todo caso, acredito que será útil se puder me comunicar o enJereço
em novembro de 1926 e confinado em Ustica, foi condenado a 12 anos de prisão:>.
Damcn pertenceu à esquerda bordiguiana e manteve coerentemente, até o fim da exato de Nilde e pedir autorização para que eu escreva a ela.
vida, uma posição à esquerda do PC! e fortemente crítica em relação ao próprio
Gramsci. O vapor não veio ontem nem é certo que chegue hoje. Ainda vou
3. Tatiana encarregou-se de retirar da casa de Via Morgagni livros e papéis de Gramsci.
Os livros foram guardado's em sua própria casa e os papéis entregues à embaixada lhe dar mais trabalho. Gostaria de ter alguns pequenos tubos de aspiri-
soviética. Também a direção do PC! empenhou-se em salvar vários documentos, na; a que recebi desapareceu misteriosamente. Gostaria também de ter
em particular o célebre ensaio sobre a questão meridional. alguns sabonetes e sabão desinfetante. Não consigo nunca fazer uma
4. Gramsci utilizou a obra, em sete volumes, do historiador toscano Pietro Vigo (1856-
1918)-Annali d'Italia: Storia degli ultimi trent'anni dei seco/o XIX. Milão: Treves, lista definitiva das pequenas coisas que é impossível achar aqui em
1908-1915 - , criticando a excessiva abrangência de seu conceito de liberalismo Ustica.
(CC, v. 1, p. 300 s.). .
Lembranças.
Francesco Ercole (1894-1945), historiador italiano, foi diretor, nos anos 30, do lm-
tituto de Cultura Nacional Fascista. Seu livro chama-se La politica di Machiavelli.
Roma: Are, 1926. Os artigos mencionados são, respectivamente: "La lotta delle classi A.
alia fine dei Medio Evo". Po/itica, VI, 1920, p. 193-233, e "Le origini dello stato-
città". Ib., XXIV, 1926, p. 5-24, e XXV, 1926, p. 5-30. Sobre Ercole, cf. carta 174. 1. Tatiana.
Francesco Coppola (1878-1953) foi um dos fundadores da Associação Naciona-
lista Italiana, que, em 1923, fundiu-se com o Partido Fascista. junto com Alfredo
Rocco, o conhecido "legislador" do fascismo, esteve à frente da revista Politica,
que editou entre 1919 e 1943.

11.

29 de dezembro de 1926
ot

Querida 1,

Recebi neste momento seu telegrama. São nove e quarenta e cin-


co. Não tenho certeza se o vapor irá chegar. Ontem houve uma tem-
pestade, choveu copiosamente durante toda a noite e a chuva continua:
provavelmente, a tempestade continua em alto-mar. Estava muito preo-
cupado por não ter..m~ais recebido nenhuma carta sua depois daquela
do.dia ..14: pensei que· lhe houvesse acontecido algo desagradável; an-
teontem, esta preocupação se tornou tão forte que resolvi telegrafar.
Sua resposta me tranqüilizou. Abraços,
Antonio

96 97
,.~

f(
tf-.· •..

:· 1

~ . 1927

12

2 de janeiro de 1927

Querido amigo 1 ,

Recebi os livros relacionados por você na penúltima carta e um


primeiro pacote daqueles encomendados por mim. Assim, tenho mui-
to o que ler por algum tempo. Agradeço sua grande gentileza, mas não
quero abusar. Asseguro, porém, que vou me dirigir a você sempre que
tiver necessidade de algo. Como pode imaginar, aqui não há muito em
que gastar, pelo contrário; às vezes, não existe nem possibilidade de
gastar, mesmo se o gasto é necessário.
A vida transcorre sem novidades e surpresas; a única preocupação
é a chegada do vapor, que nem sempre consegue fazer as quatro via-
gens semanais (segunda-feira, quarta-feira, sexta-feira, sábado), para
grande desgosto de cada um de nós, que espera sempre com ansiedade
lt
a correspondência. Já somos uns sessenta amigos, dos quais trinta e
seis de localidades diferentes: predominam relativamente os romanos.
Já iniciamos uma escola, dividida em vários cursos: 1° curso (l3 e 2ª
séries primárias), 2° curso (Y série primária), 3° curso (4ª e 5ª séries
primárias), curso complementar, dois cursos de francês (básico e avan-
çado), um curso de alemão. Os cursos são estabelecidos em função do
conhecimento nas matér~a~ que podem ser reduzidas a um certo con-
junto de noções exatamente determináveis (gramática e matemática);
por isso, os alu.nos dos cursos primários freqüentam as lições de histó-
ria e geografia do curso complementar, por exemplo. Em resumo, ten-
tamos combinar a necessidade de uma seriação escolar com o fato de
que os alunos, embora às vezes semi-analfabetos, são intelectualmente

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desenvolvidos. Os cursos são seguidos com grande esmero e atenção. seguinte a mesma história . .,Em Palermo, tínhamos um pequeno dormi-
Com a escola, que também é freqüentada por alguns funcionários e tório muito limpo, preparado especialmente para nós (deputados),
habitantes da ilha, evitamos os perigos do desânimo, que são imensos 2 • porque o cárcere está superlotado e queriam evitar nosso contato com
Você nem pode imaginar as condições de embrutecimento físico e moral os presos da máfia. Durante a viagem fomos sempre tratados com gran-
a que foram reduzidos os presos comuns. Para beber, venderiam até a de correção e até com gentileza.
roupa do corpo; muitos venderam os sapatos e o paletó. Um bom nú- Agradeço a preocupação que teve ao me mandar ovos. Agora que
mero não mais dispõe livremente da mazzetta governamental de 4 liras as festas passaram, encontrarei ovos frescos por aqui. Apreciaria o
diárias, porque comprometida com os usurários. A usura é reprimida, leite condensado suíço, se você pudesse mandar. Não saberia o que
mas não julgo possível evitá-la porque os próprios presos, que são suas pedir, mesmo se quisesse: aqui falta um pouco de tudo e é difícil obter
• em casos excepcionalíssimos. Pagam-
vítimas, só denunciam os usurários certas coisas; é preciso procurar muito. Não existe um serviço de cor-
se juros de 3 liras semanais por 10 1ifas de empréstimo. Os juros são reio até Palermo. Ficaria muito grato se me enviasse sabonetes para a
cobrados com extremo rigor, porque os usurários são cercados por toalete e para a barba e alguns remédios de uso comum que são sem-
pequenos grupos de sic·ofantas que, por uma caneca de vinho, estri- pre necessários, como aspirina Bayer (aqui, a aspirina leva todo mundo
pariam até os bisavós. Os presos comuns, salvo raras exceções, têm à loucura), tintura de iodo e alguns comprimidos para dor de cabeça.
muito respeito e deferência por nós. A população da ilha é extrema- Asseguro mais uma vez que, em caso de necessidade, vou lhe escre-
mente gentil. De resto, nossa chegada causou uma mudança radical no ver: viu como tirei amplo proveito na questão dos livros? Por outro
lugar e deixará marcas profundas. Estão providenciando a implanta- lado, confesso que ainda estou um pouco atordoado e não consegui
ção de luz elétrica, uma vez que, entre os confinados, existem técnicos· me orientar a respeito de muitas coisas. Escreva-me muitas vezes: a
capazes de levar a cabo a iniciativa. O relógio do campanário, parado correspondência é a coisa mais agradável em minha situação. E, quan-
há seis meses, foi reativado em dois dias: talvez se retome o projeto de do ler algum livro interessante como o do Lewinsohn, mande para
construir o cais na pequena enseada que acolhe o vapor. Nossas rela- mim 3 •
ções com as autoridades são corretíssimas. Abraços fraternais,
Gostaria de lhe descrever algumas impiessões recolhidas durante
a viagem, especialmente em Palermo e em Nápoles. Em Palermo, fiquei Antonio
durante oito dias: tentei quatro vezes a travessia e por três vezes, depois
de uma hora e tanta de navegação em mar tempestuoso, tive de voltar Mande-me um vidrinho de água de Colônia. É útil para me desin-
fetar após a barba.
atrás. Foi o pior trecho de toda a transferência, o que me cansou mais.
Era preciso levantar às 4 da manhã, ir ao porto com os pulsos algema- 1. Piero Sraffa.
dos; sempre presos e acorrentados a outros, descer até um pequeno 2. Sobre esta "escola", cf., particularmente, a carta seguinte e a 40. Os presos
barco, subir e descer várias escadas no vapor, onde permanecíamos comuns não podiam freqüentar os cursos nem ter qualquer outro contato com os
confinados políticos.
presos só por um pulso, sofrer enjôos, tanto pela posição incômoda 3. Richard Lewinsohn (1894-1968), judeu polonês, foi jornalista econômico na Ale-
(presos, ainda que só por um pulso, e amarrados por meio metro de manha nos anos 1920 e 30 e, depois de se refugiar na França, veio para o Brasil,
corrente aos outros, e, portanto, na impossibilidade de nos esticarmos onde criou e dirigiu, em 1947, a revista Conjuntura Econômica, da Fundação Ge-
túlio Vargas. Gramsci receberia o volume de Lewinsohn, Historie de /'inflation.
no chão), quanto porque o vapor, muito pequeno e leve, balança ainda Le dép/acement de la richesse en Europe (Paris: Payot, 1926).
quando o mar está calmo - para voltar atrás e recomeçar na manhã

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CARTAS DO CÁRCERE

Querida Tatiana, quero que me escreva o mais freqüentemente que


13.
puder. A correspondência é o que de mais agradável nós todos pode-
•1 mos receber. Recebi as duas fotografias: me mande as outras e me
'1
3 de janeiro de 192 7
! 1
mande também uma fotografia sua. Também me aborreci muito por
i não ter podido ver e abraçar você antes da partida. Vou lhe contar toda
'
i,
Tania querida,
,, a história, que, do ponto de vista do preso, é um pequeno romance. Às
~ ..

,. Recebi sua carta de 28-29 de dezembro. Não consegui compreender a 11 da manhã do dia 24 de novembro, recebi o aviso de que partiria no
l'
,.
1 razão pela qual você está preocupada e nervosa. As referências conti- dia 26 e estava autorizado a telegrafar: mas achei que havia um certo
~ embaraço na expressão do guarda que me fez a comunicação e não
V•' das na carta são enigmáticas para mim. A mim e a meu amigo não es-
"
:_;;
creveram nada que possa preocupar minimamente. Em suma, não escrevi imediatamente o telegrama. Como o cárcere é uma espécie de
! caixa de ressonância, na qual por fios invisíveis e múltiplos se comuni-
·,; compreendo, mas estou perturbado porque imagino que você está muito
agitada. É necessário que me informe do que se trata, de modo claro, cam a cada cela as notícias que interessam ou podem interessar aos
•!~) 1 partindo do pressuposto de que ignoro toda a questão 1 • vários detidos, me pus em contato com estes misteriosos fluidos e sou-
'·"\' !

il 'I· Querida Tania, você não deve absolutamente perder a calma e a be que devia partir na manhã do dia 25 e não de 26, ou seja, no dia
f:i tranqüilidade por minha causa. Asseguro que estou muito bem e que
minha vida transcorre otimamente. Recebi muitos livros de Milão e
seguinte. Se tivesse telegrafado imediatamente, teria dado uma indica-
ção falsa. Consegui sair da cela e chegar até um superior, o qual me
também deste ponto de vista estou bem servido. Posso ler e estudar. confirmou que devia partir no dia 25: o guarda, que estava presente,
ilij)'\1
Além disso, organizamos urna escola de cultura geral; eu ensino histó- se desculpou por ter me enganado, alegando uma confusão entre mim
~in
·:ll :; ~ . '.
\ ria e geografia e freqüento o curso de alemão. Assinei três jornais e uns e outros prisioneiros de partida. Assim, o telegrama foi expedido às
~ \!! :~·· quinze periódicos; o serviço já começou a funcionar. Devo receber duas da tarde. Tinha certeza de que você viria, se tivesse recebido a
~ .,, 1 \
agora, de Milão, um monte de livros, porque me vali amplamente da comunicação, mas não sabia se você tinha conhecimento de que as vi-
i ::
•,,j i· !
conta corrente que me abriu o amigo Sraffa, o qual ainda acrescentou sitas são permitidas até as 11 e não sabia se você teria a permissão.
novos livros e novas revistas à lista que envjei à livraria da qual ele é Depois das 7, hora regulamentar em que se deve recolher ao leito,
!:Jlr ·. cliente. Assim, ainda que demorem muito meus livros de Roma, não começou uma luta com o carcereiro, que queria me obrigar a deitar,
f . .ji'
há nenhum problema: apesar.de tudo, posso estudar e me ocupar de quando eu queria ficar pronto para descer à primeira chamada. Con-
i j;: ·:

modo útil. Em resumo, você deve se convencer de que não me falta segui não só vencer a batalha como também, às 1 O, obtive permissão
nada e deve evitar toda agitação e todo nervosismo. O amigo Sraffa para descer até a sala: queria me prevenir contra novos truques que
me escreve, insistindo que também me dirija a ele em caso de auxílio me impedissem a possível visita. Chovia sem parar. Às 11 fui para a
financeiro e para receber roupa de cama e alimentos: me mandará lei- cama, mas não consegui dormir: às 3 da manhã parti, usando como
te condensado suíço, para começar. Penso em recorrer a ele em caso mochila a fronha de travesseiro que você me mandou e me serviu oti-

ri
,J.1·

i
de necessidade, primeiro porque ele é rico e não terá problemas para
me ajudar, segundo porque sua oferta não é puramente de cortesia e
acadêmica: enviou-me espontaneamente livros no valor de cerca de mil
mamente até Ustica: mesmo com as algemas podia levá-la comodamen-
te, enquanto uma mala, batendo continuamente nas pernas, me traria
muito desconforto.
liras. Por isso, pode ficar tranqüila. Querida Tania, da próxima vez vou escrever uma longa carta para
j•li'

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....... -~·~-~-~"· -··-~·, ...·.. IJ'j:·,~

'l CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

Giulia; ainda estou sem coragem. Escreva-me logo e mande as foto- você tem razão: às vezes, involuntariamente sou mau e atinjo meus
grafias; quanto ao resto, não se preocupe. '
amigos sem saber. Isto decorre, acredito, do fato de que sempre vivi
Abraços afetuosos, isolado, sem família, e tive de recorrer a estranhos para minhas ne-
Antonio cessidades: por isso, sempre tive medo de causar aborrecimentos e
importunar. Mas não havia em mim nenhuma insensibilidade em
1. Provavelmente, as preocupações de Tatiana estavam ligadas à hipótese de Gramsci relação a seu afeto e a sua bondade. Vou recorrer a você sempre
ser transferido de Usrica, com um conseqüente endurecimento do regime carcerário que tiver necessidade, com o compromisso, de sua parte, de ser ex-
(cf. cartas 18 e 19).
tremamente franca sobre suas possibilidades e não criar para você
mesma complicações inúteis e perigosas. A tinta de escrever que me
mandou está ótima, assim como todas as outras coisas. Recebi as
14. fotografias: Delio fez um grande sucesso e foi muito admirado.
Descobri ter, acredite, uma dose de paciência e força que não acre-
7 de janeiro de 1927
ditava ter: só Bordiga pode competir comigo. Somos os únicos que,
em todo este período, não sentimos nenhum tipo de mal-estar, en-
Querida Tania,
quanto os outros, uns mais, outros menos, tiveram febres gripais e
distúrbios intestinais por causa da mudança radical da comida e da
Recebi sua carta de 4 de janeiro, um pacote com objetos de toa-
água, na qual nadam, de modo visível, exemplares da espécie dos
lete e a mochila de viagem, e um segundo pacote com os panetones,. tritões, magníficos pela agilidade. Ainda não comecei nenhum tra-
o qual, porém, deve ter chegado com muito atraso. Não posso acei- balho sério até agora, embora já tenha à disposição uma razoável
tar, de fato, o conselho de ..• arrumar alguns caprichos. Infelizmente, quantidade de livros; mas já comecei as aulas de história no curso
na condição em que devo viver, os caprichos nascem sozinhos: é in- de cultura geral que organizamos 2 • Por isso, não se preocupe com o
crível como os homens obrigados por forças externas a viver de modo envio rápido dos livros.
excepcional e artificial desenvolvem, com particular entusiasmo, to- Mas preciso mesmo é de um pouco de dinheiro. Achava que tinha
dos os lados negativos de caráter! Especialmente os intelectuais ou, o suficiente para pelo menos três meses: tive de gastar para ajudar um
melhor dizendo, aquela categoria de intelectuais que no italiano vul- certo número de confinados, que aqui chegaram sem recursos, e tive
gar são chamados de mezze calzette 1 • Os mais calmos, serenos e pon- de pagar antecipadamente as despesas gerais da refeição comum, que
derados são os camponeses; depois vêm os operários, depois os se iniciará depois de amanhã, dia 9. O período das despesas imprevis-
artesãos e, por fim, os intelectuais, entre os quais sopram rajadas tas já passou: a refeição comum nos permitirá evitar muitas despesas,
imprevistas de loucura absurda e infantil. Falo naturalmente dos con- pequenas e grandes, às quais até agora estivemos submetidos para co-
finados políticos, não dos presos comuns, cuja vida é primitiva e ele- mer. Veja, vou dizer com franqueza: precisaria de umas 200 liras e re-
mentar e nos quais as paixões atingem, com rapidez espantosa, o ápice almente não queria pedir ao Sraffa, que se encontra neste momento
da loucura: num mês se verificaram entre os presos comuns cinco ou longe de sua casa.
seis crimes de sangue. • Querida Tania, gostaria realmente de saber que você está tranqüila
Portanto, não vou seguir seu conselho de arrumar caprichos. Mas e sem nenhuma crise de melancolia. Mas, mesmo assim, deve me es-

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CARTAS DO CÁRCERE

crever e desabafar: suas cartas me dão uma grande alegria, porque me


15.
sinto, em cada uma delas, perto de você. Sabe que recebi um cartão de
8 de janeiro de 1927
Giulia, com a assinatura de Delio? Parece incrível: o mundo está cada
vez menor do que se pensa. Vou lhe escrever longamente para apro-
Minha querida Iulca,
veitar o correio de segunda-feira, embora haja a possibilidade de que o
pequeno vapor não chegue na segunda-feira. Entramos no inverno tam-
Recebi suas cartas do dia 20 e 27 de dezembro e o cartão-postal do
bém em Ustica. Inverno muito suave, porque se pode passear sem cha-
dia 28, com a assinatura autêntica de Delio. Tentei lhe escrever diver-
péu e sem sobretudo; mas com freqüência chove e com freqüência
sas vezes: não consegui nunca. Através de suas cartas, vejo que Tania
sopram ventos muito violentos, que agitam o mar e impedem a traves- explicou a razão disso, um pouco pueril, é verdade, mas até agora de-
sia. Mas, também, que dias magníficos! Você nem consegue imaginar cisiva. Eu pretendia escrever para você uma espécie de diário, uma série
as cores que o mar e o céu mostram nos dias serenos. de pequenos quadros sobre toda a minha vida neste período original e
Dê minhas lembranças a Giacorno e à esposa 3 • Conheci o amigo bastante interessante: é o que farei, sem dúvida. Vou tentar lhe dar todos
de Valentino, que é um rapaz de muito valor 4 • Abraços, os elementos para que possa imaginar minha vida em seu conjunto e
Antonio nos detalhes mais significativos. Você deve fazer o mesmo a seu respei-
to. Gostaria muito de saber quais relações estão se desenvolvendo en-
Envie para mim alguns números do Temps e do]ournal des Débats: tre Delio e Giuliano: como Delio concebe e expressa sua função de
você pode encontrá-los na banca do Palácio das Finanças. irmão mais velho e mais experiente.
Acho que os sapatos que me descreveu serão bons para a próxima Querida Giulia, pergunte ao Bracco de que fonte lhe chegou a
primavera. Os que usava no momento da partida, apesar de estarem notícia pela qual eu me encontrava em más condições de saúde 1 • Na
descosturando (lembra?), resistem admiravelmente. verdade, não supunha que tivesse urna reserva tão grande de força fí-
Mande notícias sobre o pequeno limoeiro: terá crescido? Que al- sica e energia. Eu e Bordiga nunca sofremos nada desde o momento da
tura tem agora? Está saudável? Queria lhe escrever sobre isto mas de- prisão; todos os outros, uns mais, outros menos, passaram por crises
nervosas, às vezes gravíssimas, e todas do mesmo tipo. No cárcere de
pois desisti, para não parecer muito ... infantif.
Palermo, Molinelli, numa mesma noite, desfaleceu três vezes durante
1. Intelectuais medíocres, de talento limitado. o sono, vítima de convulsões que duravam até vinte minutos, sem que
2. Sobre o primeiro esboço de "trabalho sério'', cf. carta 25. fosse possível chamar ninguém. Aqui em Ustica, um amigo abruzense,
3. Giacomo Bernolfo e a mulher, Margherita. Sobre Bernolfo, operário turinense que
fazia parte do corpo de segurança de I.:Ordine Nuovo e do próprio Gramsci, cf.
Ventura, que dorme no mesmo quarto que eu, por muitas noites acor-
cartas 235 e 297. · dava continuamente, vítima de pesadelos selvagens que o faziam gritar
4. Trata-se de um certo Mario, conhecido da família Schucht. O estudante comunis- e se agitar de modo impressionante. Eu não tive nenhum mal-estar,
ta Valentino Schreider, nascido em 1903, era filho de Isaac Schreider, socialista
revolucionário de origem russo-polonesa, a quem Gramsci havia conhecido em
exceto o de dormir pouco, o que não é novidade e, por outro lád'Õ,
Roma, entre 1924-1926, e em cuja casa Tatiana moraria em alguns períodos a partir não podia ter as conseqüências de antes, dada a inércia forçada a que
dos anos 20 (cf. cartas 196, 235 e 279). . estava reduzido: no entanto, minha viagem foi a mais desconfortável e
atormentada, porque o mar tempestuoso impediu por três vezes que
se realizasse a viagem até Ustica. Fiquei muito orgulhoso por causa desta

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1
! CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

virtude de resistência física que não imaginava ter; por isso é que lhe sobressaltos. Eu deveria, taJ.vez, descrever alguns pequenos quadros da
falo dela: é também um valor, em minha situação atual, e não dos mais vida camponesa, se tivesse suficiente bom humor. Por exemplo, pode-
desprezíveis. ria lhe descrever a detenção de um porco, que foi encontrado a fuçar
Vou lhe escrever longamente e descrever minuciosamente toda a comida ilegitimamente pelas ruas da vila e conduzido formalmente à
minha vida. Você também me escreverá, ou fará com que Genia ou sua prisão: o fato me divertiu enormemente, mas estou certo de que nem
mãe escreva, sobre a vida dos meninos e sobre suas vidas; você deve você nem Giulia acreditariam em mim: talvez quem me acredite seja
estar muito ocupada e cansada. Sinto que todos estão muito perto. Delka, quando for mais velho e ouvir esta pequena história e mais outras
Abraços carinhosos, do mesmo tipo (aquela dos óculos verdes, etc.), igualmente verdadei-
ras e merecedoras de crédito, sem ironias. Até o modo de prender o
Antonio
porco me divertiu: pegam-no pelas patas de trás e empurram-no para
frente como um carrinho de mão, enquanto ele grunhe feito um
1. Codinome de Ruggero Grieco (1893-1955). Natural de Foggia, uma cidade do
Mezzogiorno, foi por muito tempo o maior colaborador de Bordiga. Eleito depu- endemoninhado. Não pude ter informações precisas sobre como é
tado em 1924, aproximou-se de Gramsci e Togliatti e apoiou as chamadas "Teses possível identificar o caráter ilegal da busca de comida e do percurso:
de Lyon'', de 1926. Esteve sempre com Gramsci no período anterior à prisão, in- acho que os guardas sanitários conhecem todo o rebanho miúdo da
clusive quando este redigia o famoso ensaio sobre a questão meridional. A partir
de 1927, dirigiu em Paris, com Togliatti, a revista Lo Stato operaio. Em 1928, à vila. Uma outra particularidade que ainda não lhe mencionei é que ainda
revelia, foi condenado a 17 anos. Entre 1935 e 1937, com Togliatti ocupado no . não vi em toda a ilha nenhum meio de transporte a não ser o asno,
Komintern, tornou-se o dirigente máximo do PCI. Substituiu-o Giuseppe Berri, verdadeiramente um magnífico animal, de grande estatura e de admi-
muito mais afinado com a linha stalinista. No pós-guerra, seria senador da Repú-
blica e exerceria importantes funções na direção do PCI, relacionadas principal- rável domesticidade, o que indica a boa índole dos habitantes: em mi-
mente à questão agrária. nha aldeia, os asnos são meio selvagens e só permitem a aproximação
dos donos imediatos. Ainda no âmbito dos animais: ouvi ontem uma
magnífica história de cavalos, narrada por um árabe aqui confinado. O
16. árabe falava o italiano de modo bastante bizarro e com muitas obscu-
ridades: mas, no conjunto, sua narrativa era plena de cores e de força
11: 15 de janeiro de 1927 descritiva. Isto me faz lembrar, por uma associação muito estranha, que
soube ser muito possível encontrar na Itália o famoso trigo-sarraceno:
Querida Tania, alguns amigos vênetos me dizem que ele é muito comum no Vêneto,
para fazer a polenta.
A última carta enviada por você tem a data de 4 de janeiro. Você Assim, esgotei um certo estoque de assuntos dignos de tratamento.
me deixou onze dias sem·notícias. Nas condições em que me encon- Espero tê-la feito sorrir um pouco: me parece que seu longo silêncio deve
tro, isto me preocupa muito. Acho que é possível conciliar as exigências ser interpretado como uma conseqüência da melancolia e do cansaço e
recíprocas, com o compromisso de sua parte de me enviar pelo menos que é mesmo necessário fazê-la sorrir. Cara Tania, você deve me escre-
um cartão a cada· três dias. Já comecei a seguir este sistema. Quando ver, porque só de você recebo cartas: quando me faltam suas cartas por
não tiver assunto para uma carta, e para mim este é o caso mais co- muito tempo, parece que estou ainda mais isolado, parece que todas as
mum, vou lhe enviar pelo menos um cartão, para não perder nenhuma minhas relações com o mundo estão rompidas. Abraços afetuosos,
passagem do correio: a vida transcorre aqui monótona, uniforme, sem Antonio

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CAHTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

17. uma refeição comum e hoje"justamente, me cabe ser o garçom e o aju-


dante de cozinha: ainda não sei se devo descascar as batatas, preparar as
15 de janeiro de 1927 lentilhas ou a salada, antes de servir à mesa. Minha estréia é esperada
com muita curiosidade: vários amigos queriam me substituir na função,
Minha querida Iulca, mas fui inflexível em querer cumprir minha parte. De noite, devemos
nos recolher a nossas casas às 8. Às vezes, aparecem visitas de inspeção
Quero lhe descrever minha vida cotidiana em suas linhas mais es- para verificar se estamos mesmo em casa. À diferença dos presos comuns,
senciais, para que você possa acompanhá-la e apreender, de vez em quan- não somos trancados pelo lado de fora. Outra diferença consiste no fato
do, alguns aspectos. Como sabe, porque Tania já deve ter escrito a você, de que ternos liberdade para sair até às 8 e não somente até às 5; e pode-
moro com outros quatro amigos, entre os quais Bordiga, engenheiro de mos conseguir autorizações noturnas, se forem necessárias para qualquer
Nápoles, cujo nome talvez já conheça. Os outros três são: um ex-depu- coisa. Em casa, de noite jogamos cartas. Até agora, não tinha jogado
tado reformista de Perugia, o advogado Sbaraglini e dois amigos abru- nunca; Bordiga assegura que 'enho condições de me tornar um bom jo-
zenses. Agora durmo num quarto com um destes abruzenses, Piero gador de escopa. Já refiz urna pequena biblioteca e posso ler e estudar.
Ventura; antes, éramos três a dormir, porque estava conosco Paolo Conca, Os livros e os jornais que me chegam já provocaram uma certa luta en-
o ex-deputado rnaxirnalista de Verona, um simpático tipo operário, que, tre mim e Bordiga, o qual afirma, sem razão, que sou muito desorgani-
de noite, não nos deixava dormir, porque atormentado de preocupação zado; traiçoeiramente, ele desorganiza minhas coisas, sob pretexto de
pela mulher; suspirava, ofegava, depois acendia a luz e fumava charutos simetria e de arquitetura: mas, na realidade, não consigo achar mais nada
pestilentos. Finalmente, a mulher também veio a Ustica para ficar com o na bagunça simétrica que ele apronta para mim.
marido e Conca nos deixou. Agora, pois, somos cinco, divididos em três Querida Iulca: escreva-me longamente sobre sua vida e a dos me-
pequenos quartos (a casa inteira): temos à nossa disposição um belíssimo ninos. Assim que possível, mande-me a fotografia de Giuliano. Delka
terraço, do qual admiramos o mar infinito durante o dia e o céu magní- já fez muitos progressos? O cabelo dele já cresceu de novo? A doença
fico durante a noite. O céu, limpo de toda a fumaceira da cidade, permi- deixou alguma seqüela? Escreva-me muito sobre Giuliano. E Genia,
.
te desfrutar estas maravilhas com o máximo de intensidade. As cores da
água do mar e do céu são verdadeiramente extraordinárias em varieda-
sarou? Abraços muito, muito apertados,

de e em profundidade: vi arco-íris únicos em seu gênero. Antonio


De manhã, habitualmente, sou o primeiro a me levantar; o enge-
nheiro Bordiga afirma que, neste momento, meu andar tem característi-
18.
cas especiais, é o andar do homem que ainda não tomou o café e o espera
com uma certa impaciência. Eu mesmo faço o café, quando não consigo
convencer Bordiga a fazer, dadas as suas admiráveis aptidões para a co- 19 de janeiro de 1927
zinha. Em seguida, começa nossa vida: vamos à escola, como professo-
Querida Tania,
res ou corno estudantes. Se é dia de correio, vamos à praia para espe~ar
com ansiedade a chegada do vapor: se, por causa do mau tempo, o cor-
reio não chega, o dia fica arruinado, porque uma certa melancolia se Segunda-feira, 17, o pequeno vapor não veio. Mandei-lhe um te-
difunde em todos os rostos. Ao meio-dia almoçamos: eu participo de legrama, porque a leitura de sua carta do dia 11 me deu a impressão de

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CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

que você estava mais melancólica do que habitualmente e eu não queria J. Carta ditada por Gramsci a Bordiga, o qual também pode ter informado Sraffa,
então professor em Cagliari~ Camilla Ravera (1889-1988), dirigente comunista,
que faltasse comunicação entre nós. Não sei como explicar a razão pela escreveu a Togliatti e a Grieco sobre a transferência, lamencando o fim '"das nos-
qual você se agita e julga possível que eu seja levado embora de Ustica. sas míseras esperanças": calvez uma alusão a.algum plano de fuga por mar para a
França (Lettere 1926-1935, cit., p. 42).
O fato de que meu cartão tivesse o timbre de Palermo não podia ter
nenhum significado: se eu, por uma razão qualquer, tiver de partir,
aviso-a imediatamente por telegrama ou faço com que um amigo avise.
Agradeço as 500 liras enviadas; mas é dinheiro demais. Não quero 20.
de modo algum que se sacrifique tanto por mim. Agora, espero seguir
adiante por alguns meses e não precisar mais recorrer a ninguém. A Milão, 12 de fevereiro de 1927
fase mais dura do confinamento, do ponto de vista financeiro, já pas-
sou: entramos numa fase de estabilização, que irá se consolidar, à me- Queridas1,
di.da que funcionarem as refeições e os suprimentos.
Gostaria de lhe escrever longamente, mas já é tarde. Vou escrever Escrevo-lhes ao mesmo tempo, para utilizar melhor as poucas car-
mais da próxima vez. Mas, enquanto isso, gostaria de saber que você tas que me permitem escrever. Parti de Ustica na manhã do dia 20,
está tranqüila e serena. repentinamente: só tive tempo de ditar uma rápida carta e mandar
Abraços afetuosos, . expedir um telegrama para avisá-las 2• Pensava que passaria em trânsi-
to por Roma; no entanto, aparentemente por interpretação errada do
Antonio telegrama que ordenava minha detenção, fui levado a Milão por trans-
ferência ordinária e não extraordinária: deste modo, permaneci de-
zenove dias em viagem. Em lsernia, pude expedir um telegrama que as
19. avisava da mudança de itinerário. Esta viagem foi para mim um teste
triplo ou quádruplo, tanto do ponto de vista moral quanto, especial-
Ustica, 20 de janeiro de 1927 mente, físico. Não gostaria de descrevê-la minuciosamente agora, para
ot
não alarmá-las nem dar a impressão de que me encontro na condição
Cara Tatiana, de um farrapo. Nestes dezenove dias, "morei" nos seguintes cárceres:
Palermo, Nápoles~ Caianello, Isernia, Sulmona, Castellamare Adriatico,
Neste momento, recebo a ordem de transferência para Milão 1 • A Ancona, Bolonha; na noite do dia 7, cheguei a Milão. Em Caianello e
transferência é ordinária, ou seja, devo parar, em trânsito, nos cárceres em Castellamare não existem cadeias; "dormi" na cela de segurança
de Palermo, Nápoles, Roma, etc., se não conseguir que me concedam do quartel dos Carabineiros; foram as duas noites mais terríveis que
a transferência extraordinária, mais rápida e menos atribulada. Tenta- passei, talvez em toda a minha vida. Em Castellamare, peguei um forte
rei lhe dar esta informação por telegrama. Acredito que se trate de um resfriado, que agora está quase passando.
procedimento judicial acerca de uma destas acusações de sempre, que Nas travessias Ustica-Palermo e Palermo-Nápoles, o mar estava
levam a uma absolvição mais ou menos rápida. Lembranças afetuosas, péssimo; todavia, não enjoei. A travessia Palermo-Nápoles merece ser
Antonio descrita: é o que farei numa outra carta, quando reviver todos os deta-
lhes e refrescar a memória.

11 2 11 3

J;·
r CARTAS DO CARCERE

Em geral, a viagem foi para mim como uma longuíssima fita de


19 2 7

apenas seu nome, Arturo,,e estes detalhes: tem quarenta e seis anos, já
/
cumpriu vinte e dois anos de pena, dos quais dez em regime de segre-
cinema: conheci e vi uma infinidade de tipos, dos mais vulgares e re-
gação (isolamento), é sapateiro.
pugnantes aos mais curiosos e ricos de características interessantes.
Compreendi como é difícil compreender, a partir de sinais exterio- É um homem bem apessoado, esbelto, com traços finos e elegan-
tes; fala com uma precisão, uma clareza, uma segurança de espantar.
res, a verdadeira natureza dos homens; por exemplo, em Ancona, um
velhinho bonachão, com cara de honesto provinciano, me pediu que Não tem uma grande cultura, embora cite muitas vezes Nietzsche: di-
lhe cedesse a sopa que eu havia decidido não tomar; foi o que fiz de zia Dies irá-ê, separando o a-e. Eu o vi em Nápoles, sereno, sorridente,
boa vontade, tocado pela serenidade de seus olhos e pela modéstia tranqüilo; suas têmporas e orelhas tinham como que uma coloração
natural de seus modos; fui logo advertido de que era um patife repug- de pergaminho, a pele amarelada, como que curtida. Partiu de Nápo-
nante: havia violentado a filha. les dois dias antes de mim. Voltei a vê-lo em Ancona, ao chegar na es-
Quero lhes dar uma impressão de conjunto de minha transferên- tação, sob a chuva: tinham-no feito seguir o trajeto Campobasso-Foggia,
cia. Imaginem que de Palermo a Milão desliza um imenso verme, que acredito, e não Caianello-Castellamare, porque, ergastolano, teria ten-
se compõe e decompõe continuamente, deixando em cada cárcere uma tado a fuga nestes trânsitos, mesmo correndo o risco de levar um tiro
parte de seus anéis, reconstituindo-se com outros novos, arremessan- de mosquete dos carabineiros. Cumprimentou-me, tendo logo me re-
do seus membros à esquerda e à direita e incorporando de volta as partes conhecido. Voltei a vê-lo na seção de registro do cárcere de Ancona:
seccionadas. Este verme tem covis em cada cárcere, que se chamam tinham-no deixado sob correntes, porque devia ir para a cela, tendo
trânsitos, nos quais se fica entre dois e oito dias, e que acumulam, co- chegado ao destino, mas devia atravessar os pátios, ainda que inter-
agulando-as, a sujeira e a miséria das gerações. Chega-se, cansados,. nos. Havia mudado completamente desde Nápoles: ele, de fato, me
sujos, com os pulsos doídos pelas longas horas de algemas, com a bar- fez lembrar Farinata: a face dura, angulosa, os olhos cortantes e frios,
ba crescida, com os cabelos desarrumados, com os olhos cavados e o peito projetado, todo o corpo tenso como uma mola pronta para
faiscantes devido à excitação da vontade e à insônia; cai-se no chão disparar: apertou-me a mão duas ou três vezes e desapareceu, engoli-
sobre enxergas de idade indefinida, vestidos, para não ter contato com do pela penitenciária3 •
a sujeira, enrolando a cara e as mãos nas próprias toalhas, cobrindo-se Chega: vejam, tagarelei como uma comadre. Saibam que por ora
com cobertas insuficientes, só para não conge1ar. Torna-se a partir, ainda estou bem, não preciso de nada, estou tranqüilo e espero notícias de
mais sujos e cansados, até o novo trânsito, com os pulsos ainda mais vocês e dos meninos. Será que Delio se lembra de mim algumas vezes?
lívidos pelo frio das algemas e o peso das correntes e pelo trabalho de Vocês têm de me mandar a fotografia de Giuliano. Abraços carinhosos
transportar, assim ataviados, as próprias bagagens: mas, paciência, agora para todos,
tudo passou e já descansei.
Estou aqui, numa boa cela aquecida pelo sol, coberto por um aga- Antonio
salho que comprei logo, e finalmente expulsei o frio de meus velhos
1. Giulia e Tatiana. Esta carta, preswnivelmente a primeira escrita de Milão, foi apreen-
ossos. dida por Enrico Macis, o juiz instrutor, por causa da descrição "demasiado since-
Vou lhes descrever em outras cartas alguns de meus companheiros ra" da viagem de Palermo a Milão, e anexada aos autos do processo contra Grarnsci
de corrente e de viagem: tenho uma série deles, bastante interessante. (cf. carta 260). Gramsci atribuiria muitos de seus problemas de saúde a esta trans-
Surpreendeu-me especialmente um ergastolano (isto é, conden~do ferência de um extremo a outro da península, em que esteve exposto aos rigores
do inverno dentro de vagões de carga e de celas improvisadas.
à prisão perpétua), encontrado em Nápoles, no "banho de sol"; soube

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1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

A transferência para San Vittore também foi objeto de uma carta, "The Methods chegado a Ustica pelo menos duas de suas cartas, que seriam reex-
of Fascism. The Case of Antonio Gramsci", publicada no Manchester Guarditm, pedidas para mim, em Milão; no entanto, na correspondência que
24 out. 1927, e assinada por An ltalian in England. O texro, que apontava as pre-
cárias condições de saúde do prisioneiro, foi redigido por Angelo Tasca e traduzi- aqui recebi de volta da ilha, não achei nada seu. Querida, se isto se
do por Sraffa Q. P. Pottier. Piero Sraffa- Unorthodox Economist. Loncres e Nova deve a você e não (como é possível e provável) a algum obstáculo
Iorque: Routledge, 1991, p. 28-9). Em geral, Gramsci não acreditava nessas ten- administrativo, evite me deixar ansioso por tão longo tempo: isola-
tativas de denúncia pública: a seu ver, eram ineficazes e ;::ontri::míam para piora:- a
do como estou, toda novidade e toda interrupção da normalidade
situação perante as autoridades fascistas.
2. Cf. carta precedente. Enrico Macis, do Tribunal Militar de Milão, instado pelo ocasionam pensamentos obsessivos e penosos. Suas últimas cartas,
Tribunal Especial de Defesa do Esrado, reabriu o processe contra Gramsci depcis recebidas em Ustica, eram de fato um pouco preocupantes; o que sig-
do confinamento e, em 14 de janeiro de 1927, expediu o mandado de prisã::>. nificam estas preocupações sobre minha saúde, que chegam até a fa-
Gramsci seria interrogado por Macis em 9 de fevereiro, 20 de março e 2 de junho
desse mesmo ano. Macis, magistrado militar de origem sarda, era três anos mais zer você se sentir mal fisicamente? Eu lhe asseguro que sempre estive
novo do que Gramsci. Ambos freqüentaram o mesmo Liceu Dettori, e:n Cagliari. bastante bem e possuo em mim energias físicas que não se esgotam
Combatente na Primeira Guerra, tornou-se Cavalheiro da Coroa e juiz militar em facilmente, apesar das aparências de fragilidade. Acha mesmo que não
1925. Estabeleceu ambígua relação com os acusados e, em especial, com seu
conterrâneo ilustre, fazendo o papel de "protetor" e "conciliador". Em setembro adiantou nada o fato de ter sempre levado uma vida extremamente
de 1928, no entanto, recebeu um "elogio especial" da Procuradoria Geral, devido sóbria e rigorosa? Agora percebo a importância de jamais ter tido
"ao vigoroso trabalho de instrução no processo contra Umberto Terracini e outros doenças graves e não ter infligido ao organismo nenhum golpe deci-
54 acusados, instrução complexa, seja pelo número de acusados, seja pela mul-
tiplicidade das acusações, e que foi levada a termo com empenho e sagacidade". sivo; posso me cansar horrivelmente, é verdade; mas um pouco de
Trabalhou na África Oriental, em Liubliana e em Turim. Em julho de 1944, sur- repouso e de alimentação me fazem rapidamente voltar à normalida-
preendentemente, Macis teria se alistado como guerrilheiro antifascista (Giuseppe de. Enfim, não sei o que escrever para deixá-la calma e saudável: será
Fiori. Gramsci Togliatti Stalin, cit., p. 11·3). Esta informação, conr-.1do, não é.
confirmada pelo lstituto per la storia de/la Resistenza, de As ti (Piemonte), que pos-
que vou ter de recorrer a ameaças? Veja só, poderia não lhe escrever
sui, ainda hoje, banco de dados bastante confiável com mais de noventa mil guer- mais e fazer com que também sentisse o que significa ficar inteira-
rilheiros registrados na região. mente sem notícias.
3. Referência a Farinata degli Uberti, lfder dos gibelinos de Florença e personagem Fico imaginando você séria e sombria, sem sequer um sorriso fu-
do Canto X do Inferno de Dante. A análise gramsciana do Canto X se encomra
em CC, v. 6, p. 15-30. gaz. Gostaria de alegrá-la de algum modo. Vou lhe contar pequenas
a: histórias; o que acha disso? Por exemplo, como uma pausa na descri-
ção de minha viagem neste mundo tão grande e terrível, quero lhe di-
21. zer algo muito divertido sobre mim mesmo e sobre minha fama. Não
sou conhecido fora de um círculo bastante restrito; por isso, meu nome
19 de fevereiro de 1927 é estropiado de todos os modos mais inverossímeis: Gramasci, Granusci,
Grámisci, Granísci, Gramásci e até Garamáscon,. com todos os matizes
Querida Tania, mais bizarros. Em Palermo, durante a espera para o controle das baga-
gens, encontrei num depósito um grupo de operários turinenses man-
Faz um mês e dez dias que não recebo notícias suas e não encon- dados ao confinamento; no meio deles estava um formidável tipo de
tro explicação para isto. Como já lhe escrevi há uma semana, no mo- anarquista ultra-individualista, conhecido com a designação de "Úni-
mento de minha partida de Ustica, o vapor não chegava fazia quase co", que se recusa a declinar seus dados pessoais a quem quer que seja,
dez dias: com o vapor que me transportou até Palermo, deveriam ter mas especialmente à polícia e às autoridades em geral: "Sou o Único, e

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CARTAS DO CÁRCERE 19 2 7

basta", eis sua resposta1 • Na multidão que esperava, o Único reconhe- do de ler um livro de um certo Paul Gilles, de refutação do marxismo 3 •
ceu entre os criminosos comuns (mafiosos) um outro tipo, siciliano (o Evitei dizer a ele que Gilles'era um anarquista francês sem nenhuma
Único deve ser siciliano ou dali perto}, preso por motivos vários, polí- qualificação científica ou de outro tipo: gostava de ouvi-lo falar com
ticos e comuns, e passou às apresentações. E me apresentou: o outro grande entusiasmo sobre tantas idéias e noções díspares e desconexas,
me olhou por longo tempo, depois perguntou: - Gramsci, Antonio? como pode falar um autodidata inteligente mas sem disciplina e méto-
- Sim, Antonio, respondi. - Não pode ser, replicou, porque Antonio do. Num certo ponto começou a me chamar de "professor". Diverti-
deve ser um gigante e não um homem tão pequeno. Não disse mais me à beça, como pode imaginar. E deste modo tive a experiência de
nada, enfiou-se num canto, sentou-se em cima de um traste qualquer minha "fama". O que é que acha disso?
e, como Mário sobre as ruínas de Cartago, ficou a meditar sobre as Estou quase sem papel. Queria lhe descrever detalhadamente mi-
próprias ilusões perdidas. Evitou cuidadosamente falar de novo comi- nha vida aqui. É o que farei esquematicamente. Levanto-me de manhã
go durante o tempo em que ainda ficamos no mesmo recinto e não me às seis e meia, meia hora antes do toque de despertar. Faço um café
cumprimentou quando nos separaram. Um outro episódio semelhante quentíssimo (aqui, em Milão, se permite o combustível Meta, muito
me aconteceu mais tarde, mas, acredito, ainda mais interessante e com- prático e útil): limpo a cela, lavo o rosto e me barbeio. Às sete e meia,
plexo. Estávamos prontos para partir; os carabineiros da escolta já nos recebo meio litro de leite ainda quente, que bebo imediatamente. Às
tinham algemado e acorrentado; tinha sido preso de um modo novo e 8, vou tomar ar, isto é, vou ao banho de sol, que dura duas horas. Levo
bastante incômodo, porque as algemas me apertavam os pulsos rigi- um livro, passeio, leio, fumo alguns cigarros. Ao meio-dia recebo o
damente, estando o osso do pulso fora da algema e batendo contra a almoço de fora e, do mesmo modo, à tardinha recebo o jantar: não
própria algema de modo doloroso. Apareceu o chefe da escolta, um consigo comer tudo, embora me alimente mais do que em Roma. Às
sargento gigantesco, que, ao fazer a chamada, se deteve em meu nome sete da noite me recolho à cama e leio até às 11, aproximadamente.
e me perguntou se era parente do "famoso deputado Gramsci". Res- Recebo durante o dia cinco jornais: Corriere, Stampa, Popolo d'I.,
pondi que tal homem era eu mesmo, e me observou com um olhar cheio Giornale d'I., Secolo4 • Fiz uma inscrição dupla na biblioteca e tenho
de compaixão e murmurando algo incompreensível. Em todas as para- direito a oito livros por semana. Compro ainda algumas revistas e II
das percebi que falava de mim, sempre me qualificando como "o fa- Sole, jornal econômico-financeiro de Milão. Deste modo, leio sempre.
moso deputado'', nos grupos de pessoas que setformavam em torno do Já li as Viagens de Nansen e outros livros sobre os quais lhe falarei numa
vagão policial (devo acrescentar que mandou me colocarem as alge- 5
outra vez • Não senti nenhum mal-estar, fora o frio dos primeiros dias.
mas de modo mais suportável), a tal ponto que, dado o vento que so- Escreva-me, querida, e mande notícias de Giulia, Delio, Giuliano, Genia
pra, pensava que, ainda por cima, podia ganhar alguma paulada de e todos os outros: e notícias suas, notícias suas. Abraços,
alguns exaltados. Num certo momento, o sargento, que havia viajado
no segundo vagão, passou para aquele em que me encontrava e soltou Antonio
o verbo. Era um tipo extraordinariamente interessante e bizarro, cheio
de "necessidades metafísicas", como diria Schopenhauer, masque con- A última carta e esta não estão seladas, porque me esqueci de com-
seguia satisfazê-las do modo mais excêntrico e confuso que se possa prar os selos em tempo útil.
imaginar. Disse que sempre havia imaginado minha pessoa corrlo
1. Do título da obra do filósofo anarquista Max Stirner, Der Einzige und seine
"ciclópica" e que estava muito desiludido deste ponto de vista2 • Lia Eigenthum (Leipzig: Otto Wigand, 1845). Este livro, Vunico e la sua proprietà,
então um livro de M. Mariani, Equilibrio degli egoismi, e tinha acaba- conheceu uma edição italiana em 1902.

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1 CARTAS 00 CÁRCERE
1 9 2 7

2. Na retórica fascista, havia termos convencionais para designar MLJ.5solini, os ami-


gos e os inimigos do regime. Mussolini sempre aparecia como uma figura "tirânica"; é ainda muito forte e resi~tente, apesar da idade e dos grandes sofri-
os feitos do regime tinham a "solidez do granito"; e os principais oponentes eram mentos e das grandes atribulações pelas quais teve de passar.
dotados de personalidade deformada: daí, o uso da palavra "<.:icl5pico".
3. Referência aos anarquistas Mario Mariani (1884-1951) e Paul GJle (n:io Gilles).
Corrias, corriazzu, lembra 2 ? Tenho certeza de que nos veremos
A refutação do marxismo aparece na introdução de Gille a Esqu1sse d'une ainda todos juntos, filhos, netos e talvez, quem sabe, bisnetos, e fare-
philosophie de la dignité humaine, publicado na Itália, em 1926, como Aúbozzo di mos um esplêndido almoço, com kulu,-zones e pardulas, e zippulas e
una filosofia della dignità umana.
4. Sobre o pedido de autorização da leitura destes jornais, cf. doe. 1, a;:>êndice 1, v; 2,
pippias de zuccuru, e figu sigada (mas não aqueles figos secos daque-
p. 439. la famosa tia Maria, de Tadasuni). Acha que Delio vai gostar dos
5. Trata-se, provavelmente, de La spedizione polare norvegese. Fra ghiacc1 e tenebre pirichittos e das pippias de zuccuru 3 ? Acho que sim, e ele também vai
(Roma: Voghera, 1893-1896), do cientista e explorador norueguês FridtjofNansen
(1861-1930). Cf., também, carta 31. dizer que quer cem casas cheias; não imagina quanto Delio se parece
com Mario e Carlo quando crianças, ·tanto quanto me lembro, espe-
cialmente Cario, fora o nariz que em Carlo era pouco mais do que
22. rudimentar.
Algumas vezes penso nestas coisas todas e gosto de lembrar os fa-
26 de fevereiro de 1927 tos e as cenas da infância: neles, encontro muitas dores e sofrimentos,
é verdade, mas também algo alegre e bonito. E, além disso, sempre
Querida mamãe, aparece você, querida mamãe, e suas mãos sempre ocupadas em nosso
benefício, para nos aliviar os sofrimentos e buscar alguma utilidade em
Estou em Milão, no cárcere judiciário de San Vittore, desde 7 de · todas as coisas. Lembra meus truques para beber o café bom, sem a
fevereiro. Saí de Ustica em 20 de janeiro e aqui me chegou sua carta, cevada e outras porcarias desse tipo? Veja, quando penso em todas estas
coisas, também penso que Edmea não terá estas lembranças quando
sem data, mas que deve ser dos primeiros dias de fevereiro. Não se
crescer e isto influirá muito em seu caráter, provocando nela certa fra-
preocupe com a mudança de minhas condições; ela só agrava meu
queza e certo sentimentalismo, que não são muito recomendáveis nes-
estado até um certo ponto; ocorre apenas um aumento de chatea-
te tempo de ferro e fogo em que vivemos. Como Edmea também deve
ções e aborrecimentos, nada além disso. N~o quero sequer lhe dizer
seguir seu próprio caminho, é preciso pensar em fortalecê-la moral-
detalhadamente em que consiste a acusação que me fazem, porque
mente, impedir que ela vá crescendo cercada só pelos elementos da
nem eu mesmo consegui compreender direito até agora; trata-se, de
vida fossilizada do vilarejo. Penso que vocês devem lhe explicar, com
todo modo, das questões políticas de sempre, pelas quais já tinha sido muito tato, naturalmente, por que Nannaro não se ocupa muito dela e
punido com os cinco anos de confinamento em Ustica. Será preciso parece deixá-Ia de lado. Devem lhe explicar que seu pai hoje não pode
paciência, e eu tenho carradas, toneladas, casas cheias de p~ciência voltar do exterior e isto se deve ao fato de que Nannaro, tal como eu
(lembra-se do que dizia Cario, quando era pequeno e comia algum e muitos outros, pensamos que as muitas Edmeas que vivem neste
doce gostoso? "Quero cem casas cheias disso"; de paciência, eu te- mundo deveriam ter uma infância melhor do que a que tivemos e ela
~~ nho kentu domus e prus)1. mesma tem. E devem lhe dizer, sem nenhum subterfúgio, que estou na
Mas você deverá ter paciência e bondade. Sua carta, ao contrário, prisão, assim como o pai dela está no exterior. Certamente, devem le-
me parece mostrá-la com um estado de espírito inteiramente diferen- var em conta sua idade e seu temperamento, bem como evitar que a
te. Você escreve que se sente velha, etc. Pois bem, tenho certeza de que pobrezinha se aflija excessivamente, mas devem também dizer a ver-

120 121

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j~ 1,.;
1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

dade e, assim, acumular nela lembranças de força, de coragem, de re- 23.


sistência às dores e às adversidades da vida.
26 de fevereiro de 1927
Querida mamãe, não se preoc.:upe comigo nem pense que eu esteja
mal. Tanto quanto é possível, estou bem. Tenho uma cela paga, ou seja,"
Querida Tania,
uma cama bastante boa: tenho até um espelho para me ver. Recebo de
um restaurante duas refeições diárias; de manhã, tomo meio litro de
Há cerca de um mês e meio estou sem notícias suas, de Giulia e dos
leite.Tenho à minha disposição um pequeno fogareiro para esquentar
meninos. Tenho certeza de qut: você me escreveu. Não sei a que atribuir
a comida e fazer café. Leio seis jornais todo dia e oito livros por semana,
0 fato de que suas cartas não me chegam. Uma explicação poderia con-
::r.·
além das revistas ilustradas e humorísticas. Tenho cigarrosMacedonia. sistir nisto: algumas cartas foram endereçadas (não sei por quê) ao Cár-
Em resumo, não me falta nada importante do ponto de vista material. cere Militar e nos envelopes vi, escrito a lápis: "não encontrado"; é
Não posso escrever quantas vezes quero e o correio me chega muito possível que por esta razão algumas outras cartas tenham sido perdidas 1•
irregularmente; isto é verdade. Há cerca de um mês e meio não tenho Mas não me parece possível que "todas" as suas cartas foram perdidas;
notícias de Giulia e dos dois meninos; por isso, não posso lhe escrever penso, então, que existe algum misterioso procedimento pelo qual uma
nada sobre eles. Mas sei que, do ponto de vista material, estão protegi- parte de minha correspondência não me foi entregue. Portanto, nem
dos e que nada falta a Delio e Giuliano. sequer tenho certeza de que minhas cartas cheguem a você; em caso afir-
A propósito, recebeu uma linda fotografia de Delio, que lhe devia mativo, e para todos os efeitos, admitindo que em suas cartas tenha ocor-
~'
ser enviada? Se recebeu, escreva para mim suas impressões. li' rido alguma referência, ainda que distante, à medida que me atingiu,
Querida mamãe, prometo lhe escrever pelo menos a cada três se- "l por favor evite tais possíveis referências, até mesmo as mais vagas e indi-
manas e mantê-la alegre; escreva-me também e faça com que me es- retas, e se atenha unicamente às notícias familiares.
crevam Carla, Grazietta, Teresina, papai, Paolo e até Edmea, a qual, Querida Tania, se esta minha carta lhe chegar, me escreva logo e
acho, deve ter feito progressos e sabe escrever uma cartinha; cada car- me informe sobre sua situação, a de Giulia e dos meninos; ignore as
ta que recebo é um grande consolo e um belo divertimento para mim. cartas anteriores que você certamente me escreveu; repita todas as
Abraços carinhosos para todos; e para V'ocê, querida mamãe, o notícias. É esta minha única preocupação, e ela me aflige de um modo
abraço mais carinhoso. que não sei lhe explicar.
l,I
~ Abraços afetuosos, querida Tania .
Nino .

j, Antonio
-$1

Meu endereço agora é: Cárcere Judiciário - Milão ~'

Meu endereço: Cárcere Judiciário - Milão. Esta é a terceira carta


1. "Cem casas e mais", em sardo. que lhe mando de Milão.
2. Jogo de palavras entre o sobrenome Corrias (Potenziana Corrias era a avó materna
de Gramsci) e o adjetivo corriazu, que, em sardo, significa "resistente, duro comq
o couro", uma qualidade que Gramsci admirava na mãe. " 1. O mandado de prisão fora expedido pelo Tribunal Militar; assim, a correspon-
3. Termos da gastronomia sarda. Kulurzones são raviólis com recheio de amêndoas; dência devia ser vistoriada por um oficial daquele Tribunal e· podia sofrer extra-
pardu/as e zippulas, tipos de bolo; pippias de zucuru, bolos em forma de boneca; vios. Além disso, circulava a notícia de que Gramsci estava em prisão militar, não
numa prisão judiciária.
figu sigada, figos secos; e pirichittos, balas de açúcar.

122 123
•. :...... ~L .J::..- . 1.:...u.td:t., •.. ~~· ._::


CARTAS 00 CÁRCERE 1 9 2 7

24. -~:
ler as cartas de Giulia, ma~ me desagradaria muito se fossem extravia-
das: você poderia enviá-las registradas? O que me dói especialmente é
12 de março de 1927 a dificuldade ou a impossibilidade de saber com um certo grau de de-
talhe o desenvolvimento da vida dos meninos; e na vida dos meninos
Querida Tania,
t\I
--:-.
os detalhes é que importam. Talvez esta seja também uma fraqueza "de
aprendiz", da qual é preciso me libertar. Quem sabe? Veremos.
Recebi nesta semana seus dois cartões de 3 e de 5 de março. Fi- Querida Tania, esta longa espera de fato me perturbou; seus dois
·'}
nalmente! Estas foram as únicas linhas que recebi de você desde os :; cartões, tão curtos e secos, ainda agravaram este meu estado de espíri-
primeiros dias de janeiro até hoje; não recebi as cartas que menciona i1~.
to; mas não leve a mal se algumas vezes lhe escrevo coisas inconveni-
nem o sobretudo. Fiquei mesmo sem notícia nenhuma, direta e indi- entes e talvez até lhe fira a sensibilidade. Não repasse esta minha carta
... ~
reta, e de fato sabia que a gripe grassava. E você também não rece- ·-~~-- para Giulia, que me considera muito mais forte do que sou; não queria
beu todas as minhas cartas, como revelam os cartões. Eu lhe escrevi magoar Giulia excessivamente. Perdoe-me se algumas vezes faço com
nos dias 12, 19 e 26 de fevereiro, não escrevi em 5 de março, e tinha que sofra e lhe causo tantos problemas e tantos incômodos. Pobre Ta-
decidido não escrever mais no vazio; escrever assim me causava a nia, que acabou caindo neste círculo de neurastênicos! E eu, ainda por
mesma impressão que tenho no domingo de manhã, quando abrem o ~·
cima, faço-a sofrer e lhe trago problemas. Algumas vezes, penso em
postigo e ouço, no fundo do corredor, o rumor indistinto e incom- toda esta sucessão de acontecimentos e lembro nosso primeiro encon-
preensível da missa. tro, que me deixou tantas emoções 1 ! O mundo é mes1no grande e ter-
Esperava de sua parte urna carta bastante comprida; expectativa :~i rível.
de prisioneiro, que foi por tão longo tempo privado de notícias e ainda r· j~·
Não quero mais lhe escrever como hoje. Voltarei a narrar minhas
não se acostumou. Certamente, com o tempo vou me acostumar a isto aventuras de viagem e a descrever alguns tipos que encontrei. Ainda
também; talvez seja urna fraqueza de "aprendiz", urna infantilidade, lhe devo falar de meu amigo calabrês, o camponês Salvatore Chiodo,
quem sabe.
Eu lhe escrevi duas longas cartas, nas quais tentava dar a você e a
i~. que matou a mulher, e de meu protetor, cujo nome não sei e que ma-
tou o sogro e herdou suas propriedades ("Matei e herdei" - era seu
Giulia pelo menos urna impressão da vida qfie levei neste período mais refrão), e de meu segundo protetor, o padeiro napolitano Gaetano
recente. Por certo, não é algo extremamente interessante. A terceira Parise, que matou o sedutor da irmã, e do líder de gangue calabrês
carta era muito curta; escrevi pensando que, por urna razão qualquer Dornenico Vilella, de 16 anos, a quem dei os sapatos e uma camiseta
de ordem superior, as outras duas tivessem sido apreendidas. Também (tinha os pés sem meias enfiados em trapos, costurados a dois pape-
pensava que você estivesse mal ou tivesse se afastado de Roma por lões, e nenhuma roupa de baixo) e que prometeu solenemente jamais
motivo de emprego: em sua última carta recebida em Ustica, você me roubar as galinhas; e do soldado napolitano Scarpato, que me nar-
mencionava alguma coisa desse tipo. rou toda a história de Rolando e Scalabrino e dos Reali di Francia, e
Não sei o que lhe responder em relação à correspondência com discutia com um sapateiro de Messina se os feitos de Ganellone di
Giulia. Não sei nada sobre meu destino imediato ou remoto. Logo que Maganza e de Malagigi podiam ser obra de indivíduos sozinhos ou
cheguei a Milão, na seção de registro me disseram que iria para Roma; eram um panachage histórico; o rnessinense defendia o panachage,
o juiz instrutor me afirmou, se bem lembro, que nada ainda havia sido enquanto Scarpato estava convencido de que tanto Ganellone quan-
decidido a propósito. Em resumo, não sei nada ao certo. Gostaria de to Malagigi eram capazes até de mais façanhas; e deste sapateiro mes-

124 12 5
L •

CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

Em La Scoperta dell'America, o poeta dialetal Cesare Pascarella (1858-1940) des-


sinense, que me contou todas as aventuras de Sindibad, o marinhei-
·~ creve a saga de Colombo do'ponto de vista de um romano comum. Nos Cader-
ro, na versão siciliana, tal corno a ouvira de seus avós, e não quis acre- nos, há vários parágrafos dedicados aos Sonetti, de Pascarella, vistos corno
ditar (mas não insisti) que fosse uma história das Mil e uma noites; e documento da diluição folclórico-popular da ciência ou da ingênua admiração pela
"inteligência" (cf., por exemplo, v. 2, p. 180, e v. 6, p. 134 e 232).
o sarau de poesias que, em minha homenagem, realizaram alguns 3. A estada em Veneza ocorreu na volta das férias passadas em Trafüi, perto de Bolzano,
detentos romanos, com La Scoperta dell'America, de Pascarella, e -.'3' com a mulher, Delio e Eugenia, em agosto de 1926 (cf. carta 27).
outros poemas no dialeto de Roma 2 • Enfim, tentarei lhe trazer um "S'·
~"

mínimo de aborrecimento e alegrá-la um pouco. Queira-me sempre


·~~
bem. Abraços afetuosos, 25.
Antonio ;,
19 de março de 1927
Ontem, consegui uma audiência com o diretor para me informar
sobre a correspondência e o sobretudo. O responsável pelo almoxa- Querida Tania,
-~ rifado me assegurou que o sobretudo não chegou. Corno não saberia
ij mais o que fazer com este sobretudo, se o encontrar, fique com ele. Recebi nesta semana seus dois cartões; um de 9, outro de 11 de
li
1 Você não me escreveu mais sobre a roupa e os sapatos. A roupa que março: no entanto, não recebi a carta que menciona. Achava que re-
visto ainda resiste. Em Ustica, um amigo me deu os sapatos dele, que ceberia sua correspondência, transmitida de Ustica: de fato me che-
ainda estão bons; os que tinha trazido de Roma estavam completamente ·gou um pacote de livros da ilha, e o funcionário que fez a entrega me
arruinados e os dei de presente ao pequeno ladrão calabrês de salames disse que, no pacote, também havia cartas fechadas e cartões que ainda
e galinhas. Tenho bastante roupa de baixo: não preciso de nada por deviam passar pelo serviço de triagem; espero recebê-las em poucos
ora. Novos abraços, querida. dias 1 •
Trouxe para a cela a fotografia de Delio, de Giulia e as tiradas em Agradeço-lhe as notícias que me manda sobre Giulia e os meni-
Veneza 3 • Foram todas carimbadas. Assim me parece que os trouxe a nos; não consigo escrever diretamente a Giulia, na expectativa de re-
todos para o cárcere junto comigo, o que rt'le desagrada muito; mas ceber alguma carta dela, ainda que muito atrasada. Imagino suas
não havia outro modo de ficar com as fotografias. Você me perdoa? condições mentais, bem como as físicas, por toda uma série de razões;
Diga a Giulia e também a Delio: será que ele compreende o que signi- esta doença deve ter sido muito angustiante. Pobre Delio; da escarlati-
; fica "cárcere"? Sobre isso, vou escrever para você algumas reflexões na à gripe em tempo tão curto! Escreva à avó Lula e lhe peça que me
k t que fiz. escreva uma longa carta, em italiano ou em francês, como for possível
~
~· 1
1 (de resto, você poderia me enviar só a tradução), e me descreva, ponto
i 1 1. Grarnsci conheceu Tatiana em 1° de fevereiro de 1925, em Roma. Urna descrição por ponto, a vida dos meninos. Estou realmente convencido de que as
~ viva desse primeiro encontro aparece nas cartas a Giulia de 2 e 7 de fevereiro da- avós sabem, melhor do que as mães, descrever os meninos e seus mo-
&
.
~
~
quele ano (Antonio Gramsci. Lettere 1908-1926. Org. A. A. Santucci. Turim:
Einaudi, 1992, p. 412-6) .
2. Rolando, Scalabrino, Ganellone e Malagigi são personagens italianos de poemas
vimentos, de modo real e concreto; são mais objetivas e, afinal, têm a
experiência do desenvolvimento de toda uma vida; a ternura das avós
herói-cômicos e de cavalaria, adaptados de originais franceses medievais, especial-
.,.,
~
~ mente a Chanson de Rolland. Os Reali di Francia [Reis de França] são urna narra-
tiva épica escrita no século XIV por Andrea da Barberino.
parece mais substanciosa do que a das mães (mas Giulia não deve se
ofender e me considerar pior do que sou!) .

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CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

Não sei mesmo lhe sugerir nada em relação a Giuliano; neste ter- dos maiores "remorsos" iqtelectuais de minha vida é a profunda dor
reno, já fracassei uma vez com Delio. Talvez eu mesmo soubesse fazer que causei a meu bom professor Bartoli, da Universidade de Turim, o
para ele algo conveniente, se pudesse estar perto. Decida você segun- qual estava convencido de que eu era o arcanjo destinado a derrotar
do seu próprio gosto e escolha alguma coisa em meu nome. Fiz nestes i:-· definitivamente os "neogramáticos", uma vez que ele, da mesma gera-
dias uma bola de papelão, que está terminando de secar; suponho que ção e ligado por milhões de fios acadêmicos a esta choldra de homens
será impossível enviá-la para Delio por seu intermédio; por outro lado, j'.~ infames, não queria ir, em seus enunciados, além de um certo limite
·~·
não consegui pensar ainda no modo de envernizá-la e, sem verniz, ela estabelecido pelas conveniências e pela deferência aos velhos monumen-
·~--
se desfaria facilmente com a umidade. tos funerários da erudição. 3) Um estudo sobre o teatro de Pirandello
Minha vida transcorre com a mesma monotonia de sempre. Até e sobre a transformação do gosto teatral italiano que Pirandello repre-
mesmo estudar é muito mais difícil do que parece. Recebi alguns livros sentou e contribuiu para produzir. Sabia que eu, muito antes de Adriano
e, na verdade, leio muito (mais de um volume por dia, além dos jor- Tilgher, descobri e contribuí para popularizar o teatro de Pirandello?
nais), mas não é a isto que me refiro; quero dizer outra coisa. Estou Escrevi sobre Pirandello, entre 1915 e 1920, o suficiente para organi-
atormentado (e este, penso, é um fenômeno típico dos prisioneiros) ;~
~j zar um pequeno volume de 200 páginas e, então, minhas afirmações
por esta idéia: de que é preciso fazer algo für ewig, segundo uma com- eram originais e sem precedentes: Pirandello era suportado amavel-
plexa concepção de Goethe, que lembro ter atormentado muito nosso \ mente ou abertamente ridicularizado5 • 4) Um ensaio sobre os roman-
Pascoli2 • Em suma, segundo um plano preestabelecido, gostaria de me ces de folhetim e o gosto popular na literatura6 • A idéia me veio ao ler
ocupar intensa e sistematicamente de alguns temas que me absorves- a notícia da morte de Serafino Renzi, diretor de uma companhia de
sem e centralizassem minha vida interior. Pensei em quatro temas até teatro mambembe, reflexo teatral dos romances de folhetim, e ao lem-
agora, e já isto é um indicador de que não consigo me concentrar. São brar quanto me diverti nas vezes em que fui vê-lo, porque a represen-
eles: 1) uma pesquisa sobre a formação do espírito público na Itália no
:f1:
Q:
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tação era dupla: por certo, a ansiedade, as paixões desencadeadas, a
século passado; em outras palavras, uma pesquisa sobre os intelectuais intervenção do público popular não eram a representação menos inte-
italianos, suas origens, seus agrupamentos segundo as correntes cultu- ressante.
rais, seus diversos modos de pensar, etc., etc.<tTema bastante sugestivo, O que é que você acha disso? No fundo, para quem observar bem,
que eu, naturalmente, poderia apenas esboçar em suas grandes linhas, entre esses quatro temas existe homogeneidade: o espírito popular
dada a absoluta impossibilidade de ter à disposição a imensa quantida- criador, em suas diversas fases e graus de desenvolvimento, está na base
de de material que seria necessária. Você se recorda de meu texto, muito deles em igual medida. Escreva-me suas impressões; tenho muita con-
curto e superficial, sobre a Itália Meridional e sobre a importância de fiança em seu bom senso e na firmeza de suas opiniões. Será que a
B. Croce 3 ? Pois bem: gostaria de desenvolver amplamente a tese que ;t aborreci? Veja, para mim o ato de escrever substitui o de conversar:
tinha então esboçado, de um ponto de vista "desinteressado", {ür ewig. parece mesmo que estou lhe falando, quando lhe escrevo; só que tudo
2) Um estudo de lingüística comparada! Nada menos que isto. Mas o se reduz a um monólogo, porque suas cartas ou não me chegam ou
·,~·
que poderia ser mais "desinteressado" e für ewig do que esse tema? não correspondem à conversa iniciada. Por isso me escreva, e muito,
Tratar-se-ia, naturalmente, de examinar apenas a parte metodológica cartas e também cartões; vou lhe escrever uma carta todo sábado (pos-
e puramente teórica do assunto, que jamais foi tratado de modo com- so escrever duas por semana) e desabafar. Não retomo a narrativa de
pleto e sistemático do novo ponto de vista dos neolingüistas contra os minhas vicissitudes e impressões de viagem, porque não sei se lhe inte-
11
neogramáticos4 • (Querida Tania, esta minha carta vai horrorizá-la!} Um ressam; por certo, elas têm um valor pessoal para mim, por se ligarem

128 129
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1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

nidos em Voei dei tempo (Roma, 1921) e Studi sul teatro contemporaneo (Roma,
a determinados estados de espírito e também a determinados sofrimen- 1923~ '
tos; para torná-las interessantes para os outros, talvez fosse necessário 6. Cf. cana 148 e, especialmente, o Caderno 21, Problemas da cultura nacional ita-
liana. 1ª Literatura popular (CC, v. 6, p. 33-59).
expô-las em forma literária; mas eu tenho de escrevê-las de imediato,
no pouco tempo em que me permitem o uso do tinteiro e da caneta. A
propósito - o pezinho de limão continua a crescer? Você não me fa-
lou mais dele. E como está a dona da casa onde eu morava, ou será que 26.
morreu? Sempre me esqueço de perguntar sobre isto. No início de ja-
26 de março de 1927
neiro, recebi em Ustica uma carta do Sr. Passarge, que estava desespe-
rado e julgava que a mulher morreria em breve, mas depois não soube
de mais nada. Pobre senhora, tenho medo de que a cena de minha pri- Querida Tania,
são tenha contribuído para aceierar sua doença, porque gostava de mim
e estava muito pálida quando me levaram embora. Não recebi, nesta semana, nem cartões nem cartas suas; chegou,
Abraços, minha cara. Queira-me bem e me escreva. no entanto, sua carta do dia 17 de janeiro (junto com a carta de Giulia
do dia 10), reexpedida de Ustica. Assim, num certo sentido e até certo
Antonio ponto, fiquei bastante contente; revi a letra de Giulia (mas como es-
creve pouco esta moça e como procura se justificar com a algazarra
1. O pacote continha parte dos livros que Gramsci havia recebido, em Ustica, da Li-
vraria Sperling & Kupfer. Alguns volumes foram deixados na ilha para a "escola"
que as crianças aprontam em torno dela!) e memorizei conscienciosa-
dos confinados. mente a carta que você enviou. E nesta carta comecei por achar vários
2. Giovanni Pascoli (1855·1912), próximo dos ambientes socialistas e anarquistas erros (veja, estudo também estas pequenas coisas e tive a impressão de
na juventude, tornou-se poeta ora pastoril, ora místico, ora celebrador das glórias
nacionais. Este último aspecto lhe valeu o epíteto, dado por D'Annunzio, de "o que esta sua carta não foi pensada em italiano, mas traduzida apressa-
último filho de Virgílio"'. No livro Canti di Castelvecchio, cuja edição de 1914 da e erroneamente, e isto quer dizer que estava cansada, que estava
estava entre os livros de Gramsci, encontra-se o poema "Per sempre"'. mal, e só pensava em mim de modo complicado; talvez tivesse acaba-
3. Trata-se do ensaio publicado, em janeiro de 1930, com o título ''Alguns temas da
questão meridional"', em Lo Stato operaio. O manuscrito traz, na letra do autor, o do de receber a notícia da gripe de Giulia e dos meninos), entre os quais
título "Notas sobre o problema meridional e sollie a atitude diante dele dos co- uma confusão imperdoável entre Santo Antônio de Pádua, celebrado
munistas, dos socialistas e dos democratas"' (A. Gramsci. Escritos políticos, cit., v. no mês de junho, e o Santo Antônio comumente chamado de Santo
2, p. 405-35).
Um apanhado dos projetos de estudos gramscianos pode ser visto em CC, v. l; p. Antônio do Porco, que é justamente meu santo, porque nasci em 22 de
77-80. janeiro, e a quem me apego muitíssimo por várias razões de caráter
4. Cf., em particular, o Caderno 29, Notas para uma introdução ao estudo da gramá-
mágico. Sua carta me levou a pensar de novo na vida em Ustica, que
tica (CC, v. 6, p. 141-50).
5. Os parágrafos sobre Pirandello dos Cadernos, além das críticas publicadas noAvanti! certamente você imaginava muito diferente do que realmente era; no
entre 1916 e 1920, foram reunidos em A. Gramsci. Pirandello Ibsen e il teatro. futuro, talvez volte a narrar minha vida naquele período e então lhe
Roma: Riuniti, 1992. Uma coletânea das críticas do Avanti! está em A. Gramsci.
Literatura e vida nacional. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p. 191- darei um quadro dela; hoje não tenho vontade e me sinto um pouco
265; e em !d. Escritos políticos, cit., v. 1, p. 433-55. cansado. Pedi que me mandassem de Ustica as pequenas gramáticas e
Adriano Tilgher (1887-1941), ensaísta e filósofo, estudou as relações entre o Fausto; o método é bom, ~as requer o auxílio de um professor, pelo
pragmatismo e idealismo, além de escrever sobre teatro e estética em geral.
Opositor do fascismo, Tilgher também editou vários jornais, como II Mondo e li menos para quem inicia os estudos; para mim, no entanto, é ótimo,
Popolo di Roma. Os importantes estudos de Tilgher sobre Pirandello foram reu- uma vez que devo só rever as noções e especialmente fazer os exercí-

130 131
CARTAS DO CÁRCERE 19 2 7

cios. Pedi também que me mandassem A senhorita camponesa, de Vejo que falta menos, de um mês para a Páscoa. Ora, você deve
Puchkin, na edição Polledro: texto, tradução literária e gramatical, e saber que a Páscoa é um dos três dias do ano em que se permite aos
notas. Estudo o texto até decorar; considero que a prosa de Puchkin é detidos comer doces. E quero, de fato, comer alguns doces que me
muito boa e, por isso, não tenho medo de entulhar a memória com enviar. Ainda haverá tempo? Espero que sim.
disparates estilísticos. Considero ótimo, de qualquer ponto de vista, Diga quantas cartas minhas você recebeu até agora. A primeira,
este método de aprender prosa de memória. que lhe escrevi em 12 de fevereiro, já sei que não chegou.
Recebi, reexpedida de Ustica, uma carta de minha irmã Teresina com
a fotografia de seu filho Franco, nascido alguns meses depois de Delio. )'
Parece-me que não se assemelham absolutamente, mas Delio lembra 27.
muito Edmea. O cabelo de Franco não é crespo e deve ser castanho es- ~
f~

curo; além disso, Delio é certamente mais bonito: Franco já tem os tra- 26 de março de 1927
ços fundamentais muito marcados, o que faz prever um desenvolvimento
deles para a dureza e o exagero; em Delio, ao contrário, os traços são Querida Teresina,
muito infantis, enquanto é mais acentuada a seriedade da expressão ge-
ral e uma certa melancolia, que não é de modo algum infantil e dá muito Só há poucos dias me entregaram a carta que você enviou para
em que pensar. Você mandou a fotografia de Delio para minha mãe, como Ustica e que trazia a fotografia de Franco. Pude assim ver finalmente
tinha prometido? Faria um grande bem: a pobrezinha sofreu muito com seu menino e lhe dou todos os meus parabéns; também me mande -
minha prisão e acredito que sofra ainda mais porque, em nossa terra, é de verdade, está bem? - a fotografia de Miml e assim vou estar real-
difícil compreender que se pode acabar na cadeia sem ser ladrão, trapa- mente feliz 1• Fiquei muito surpreso com o fato de que Franco, pelo
,._,
i
ceiro nem assassino; ela vive numa condição de medo permanente des- menos na fotografia, lembre pouquíssimo nossa família: deve se pare-
de o início da guerra (meus três irmãos estavam na frente), e tinha, e cer com Paolo e sua gente campidanense e talvez até maurreddina: e
tem, uma frase toda sua: "Vão esquartejar meus filhos", que em sardo é Miml, com quem se parece 2 ? Escreva-me bastante sobre seus filhos, se
terrivelmente mais expressiva do que em italiano: faghere a pezza. Pezza tiver tempo, ou pelo menos faça com que Cario ou Grazietta me escre-
é a carne que se põe à venda, enquanto parlo ser humano se usa o ter- vam. Franco me parece muito esperto e inteligente: acho que já fala
mo carre. Não sei mesmo como consolá-la e fazê-la compreender que fluentemente. Em que língua ele fala? Espero que o deixem falar em
estou muito bem e não corro nenhum dos perigos que ela imagina: isto sardo e não lhe criem problemas a este respeito. Para mim, foi um erro
é muito difícil, porque desconfia sempre que lhe querem esconder a não terem deixado que Edmea, quando bem menina, falasse livremen-
verdade e porque tem uma visão limitada da vida atual; veja que ela nunca te em sardo. Isto prejudicou sua formação intelectual e colocou uma
viajou, jamais esteve sequer em Cagliari e desconfio que acha inteira- camisa-de-força em sua fantasia. Não cometa este erro com suas crian-
mente fantasiosas muitas descrições que nós lhe fizemos. Querida Tania, ças. De cara, o sardo não é um dialeto, mas uma língua em si mesma,
não consigo mesmo lhe escrever, hoje; ainda por cima me deram uma ainda que não tenha uma grande literatura, e é bom que as crianças
pena que arranha o papel e me obHga a uma verdadeira acrobacia digi- aprendam várias línguas, se possível. Além disso, o italiano que vocês
tal. Espero suas cartas. Abraços, lhe ensinarem será uma língua pobre, truncada, feita só com aquelas
poucas frases e palavras de suas conversas com ele, puramente infan-
Antonio til; ele não terá contato com o ambiente geral e terminará por apren-

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;:··

CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

der dois jargões e nenhuma língua: um jargão italiano para a conversa ca estive tão desanimado c~mo acredita. Na verdade, escrevi aquela
oficial com vocês e um jargão sardo, aprendido aqui e ali, para falar ",!'i
carta num momento ruim, relativamente; no dia anterior me haviam
com as outras crianças e com as pessoas que encontra na rua ou na :-~· comunicado a decisão dos cinco anos de confinamento e dito que,
.·:~'

praça. Aconselho você, de coração, a não cometer este erro e a deixar em poucos dias, partiria para a região do Djuba, na Somália. Por cer-
que suas crianças absorvam todo o sardismo que quiserem e se desen- -~~
··rtr1
to, naquela noite pensei bastante em minhas possibilidades físicas de
volvam espontaneamente no ambiente natural em que nasceram: isto 7! resistência, que até então não havia podido ainda avaliar e que julga-
não será um obstáculo para o futuro delas, longe disso. ., ..
va limitadas; é possível que, na carta, haja um reflexo daquele estado
Delio e Giuliano estiveram mal ultimamente: tiveram a febre es- ;~ de espírito. Em todo caso, acredite que, embora possa ter tido então,
panhola; me escrevem que agora se recuperaram e estão bem. Veja /!E como diz, um pouco de desânimo, ele passou rapidamente e não mais
Delio, por exemplo: começou falando a língua da mãe, como era na- se repetiu. Vejo tudo com muita frieza e tranqüilidade, e, mesmo sem
tural e necessário, mas rapidamente foi aprendendo também o itali- ~e;
ter ilusões pueris, estou firmamente convencido de que não estou
ano e ainda cantava algumas pequenas canções em francês, sem por destinado a apodrecer no cárcere. Você e os demais devem tentar
isso se confundir ou confundir as palavras de uma língua e de outra. alegrar nossa mãe (de quem recebi uma carta que não sei como res-
Eu queria também lhe ensinar a cantar: Lassa sa figu, puzone, mas as ponder} e assegurar-lhe que minha honrí\ e minha retidão não estão
tias, especialmente, se opuseram energicamente 3 • Diverti-me muito de modo algum em questão: eu estou no cárcere por motivos polí-
com Delio em agosto passado: passamos uma semana em Trafõi, no ticos, não motivos de honra. Acredito mesmo que acontece o con-
Alto Adige, numa pequena casa de camponeses alemães. Delio fazia "
·.~ trário: se eu não fizesse questão de minha honra, de minha retidão,
dois anos exatamente naquela época, mas já estava muito desenvol- de minha dignidade, ou seja, se tivesse sido capaz de ter a chamada
vido intelectualmente. Cantava com muito entusiasmo uma canção: crise de consciência e mudar de opinião, não teria sido preso nem
"Abaixo os padres, abaixo os frades", depois cantava em italiano: li tll. acabaria em Ustica, em primeiro lugar. Convençam nossa mãe disso;
sole mio sta in fronte a te e uma pequena canção francesa, na qual é muito importante para mim. Escreva-me e faça com que todos me
~;,
havia um moinho. Tinha se apaixonado pela busca de morangos nos escrevam: não vi mais nem a-assinatura de Grazietta; como é que ela
1
bosques e queria sempre andar atrás dos animais. Seu amor pelos está?
animais se explicitava de dois modos: atra~és da música, já que se Abraços afetuosos para o Paolo; e muitos beijos para você e suas
esforçava por reproduzir no piano a escala musical segundo as vozes crianças.
dos animais, do urso-barítono ao pintinho-soprano, e através do de-
~
senho. Todo dia, quando ia vê-lo em Roma, era preciso repetir toda Nino
a seqüência: primeiro, era preciso colocar o relógio de parede sobre
1. Maria ("Mimma") Paulesu, nascida em 1926, seria autora de importantes estudos
a mesa e deixar que Delio fizesse com o relógio todos os movimentos sobre Gramsci e sobre as famílias Gramsci e Schucht.
possíveis; depois, era preciso escrever uma carta à avó materna, com 2. De Campidano, situada na planície maurreddina entre Oristano e Cagliari, na
Sardenha.
o desenho dos animais que o haviam surpreendido durante o dia; 3. "Passarinho, não vá bicar os figos" - este, o primeiro verso de uma curta canção
depois, íamos ao piano e tocávamos sua música à maneira dos ani- popular sarda ligada às lembranças infantis de Gramsci (M. Paulesu Quercioli. Le
mais; depois, brincávamos de modos variados. donne di Casa Gramsci. Roma: Riuniti, 1991, p. 60).
Cara Teresina, você observou em sua carta que minha primeira
carta, enviada de Roma, estava tomada pelo desânimo. Acho que nun-t

134 135

CARTAS 00 CÁRCERE 1 9 2 7

28. vez seja melhor assim. Alé~ disso, a atual cela se situa em cima da ofi-
cina mecânica do cárcere e se ouve o rumor das máquinas; mas vou
4 de abril 1927 me acostumar. A cela é, ao mesmo tempo, muito simples e muito com-
plexa. Tenho uma cama embutida com dois colchões (um de lã): arou-
Cara, cara Tania, pa de cama é trocada a cada 15 dias, aproximadamente. Tenho uma
mesinha e uma espécie de pequena cômoda-armário, um espelho, uma
Recebi, na semana passada, seus dois cartões (de 19 e 22 de mar- bacia e uma moringa de ferro esmaltado. Possuo muitos objetos de alu-
ço) e a carta do dia 26. Estou muito aborrecido por tê-la magoado; mínio comprados na Rinascente, que organizou uma loja no cárcere.
também penso que você não compreendeu bem meu estado de espíri- Possuo alguns livros meus; toda semana, recebo para ler oito livros da
to, porque não me expressei bem, e lamento o fato de que entre nós biblioteca do cárcere (dupla inscrição). Para que faça uma idéia, eis a
possam surgir equívocos. Asseguro-lhe mesmo que sequer me passou a lista desta semana, que, no entanto, é excepcional por causa da quali-
dúvida de que você possa me esquecer ou me querer menos; certamente, dade relativamente boa dos livros que apareceram: 1) Pietro Colletta,
se tivesse pensado em tal coisa, mesmo remotamente, não lhe escreve- Storia dei Reame di Napoli (ótimo); 2) V. Alfieri, Autobiografia; 3)
ria mais; meu caráter sempre foi este e, por causa dele, interrompi no Moliêre, Commedie scelte [Comédias selecionadas], traduzidas pelo Sr.
passado velhas amizades 1• Só pessoalmente poderia lhe explicar ara- Moretti (tradução ridícula); 4) Carducci, dois volumes das obras com-
zão do nervosismo que havia tomado conta de mim depois dos dois pletas (muito medíocres, entre os piores de Carducci); 5) Artur Lévy,
meses em que estive sem notícias; não vou sequer tentar fazer isto por Napoleone intimo (curioso, apologia de Napoleão como "homem
carta, para não cair em outros equívocos igualmente dolorosos. Agora moral"); 6) Gina Lombroso, Nell'America meridiana/e (muito medío-
tudo passou e não quero nem mesmo voltar a pensar no assunto. cre); 7) Harnack, I.:essenza dei Cristianismo; Virgilio Brocchi, II desti-
Há alguns dias mudei de cela e de ala (o cárcere é dividido em alas), no in pugno, romance (de enlouquecer qualquer um); Salvator Gotta,
como pode ver até no cabeçalho da carta; antes, estava na 1 ª ala, 13ª La donna mia (ainda bem que a mulher é dele, porque é chatíssima).
cela; agora, estou na 2ª ala, 22ª cela. Minha situação, digamos, carcerária De manhã me levanto às seis e meia, às sete tocam o sinal de desper-
me parece melhor. Mas minha vida transc<?trre mais ou menos como tar: café, toalete, limpeza da cela; bebo meio litro de leite e como um
antes. Quero descrevê-la um pouco detalhadamente; assim, todo dia pãozinho; às oito, aproximadamente, banho de sol, que dura duas horas.
poderá imaginar o que é que eu faço. A cela tem o tamanho de um Caminho; estudo a gramática alemã, leio A senhorita camponesa, de
pequeno quarto de estudante: a olho nu, diria que mede três metros Puchkin, e decoro umas vinte linhas do texto. Compro II Sole, jornal
por quatro e meio, com três e meio de altura. A janela dá para o pátio da indústria e do comércio, e leio algumas notícias econômicas (li to-
onde tomamos banho de sol: não é uma janela comum, naturalmente; dos os relatórios anuais das sociedades anônimas); na terça-feira com-
é a chamada "boca-de-lobo", com barras no interior; pode-se verso- pro// Corriere dei Piccoli, que me diverte; na quarta-feira, La Domenica
mente um pedaço do céu, não se pode olhar para o pátio ou para os dei Corriere; na sexta-feira, Il Guerin Meschino, tido como humorísti-
lados. A posição desta cela é pior do que a anterior, que se voltava para co. Depois do banho de sol, café; recebo e leio três jornais, II Corriere,
o Sul-Sudoeste (via-se o sol pelas dez e, às duas, ele ocupava uma faixa II Popolo d'Italia, II Seco/o (agora, Il Secolo sai de tarde e não vou
de pelo menos 60 cm no centro da cela); na cela atual, que deve estar comprá-lo mais, porque não vale mais nada); o almoço chega em ho-
voltada para o Sudoeste-Oeste, o sol aparece pelas duas e permanece ras diferentes, do meio-dia às três; esquento a comida (sopa ou macar-
até tarde, mas numa faixa de 25 cm. Nesta estação, mais quente, tal- rão), como um pedacinho de carne (se não for de vaca, porque ainda

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D


1927
CARTAS DO CÁRCERE

não consigo comer carne de vaca), um pãozinho, um pedacinho de Ouça, querida, vamos cpmbinar assim quanto à correspondência:
queijo e um quarto de litro de vinho; não gosto da fruta. Leio um li- eu lhe escrevo uma carta toda segunda-feira (neste setor se escreve na
vro, ando, reflito sobre muitas coisas. Entre quatro e quatro e meia, segunda-feira); você me escreve uma carta toda semana, além de dois
recebo outros dois jornais, La Stampa e II Giornale d'ltalia. Às sete e cartões, nem que sejam cartões-postais, e me manda as cartas de Giulia.
meia janto (o jantar chega às seis), dois ovos crus, um quarto de vinho; Sabe, novamente a idéia da censura às cartas me tira a espontaneidade,
não consigo comer queijo. Às sete e meia, toque de recolher; vou para como nos primeiros tempos de Ustica. Espero "perder o pudor'', como
a cama e leio livros até às onze ou meia-noite. De dois dias para cá, por antes, mas ainda não consigo. Escreva a Giulia que penso muito nela e
volta das nove bebo uma xícara de chá de camomila. (Segue na próxi- nos meninos, mas não consigo escrever mesmo; acabaria escrevendo
ma edição, porque quero lhe escrever sobre outras coisas.) como um burocrata, o que me horroriza.
Não preciso de roupa-branca, etc. Tenho bastante e não saberia
1. Em 12 de abril, Tatiana respondeu: "Você escreve (não sei por quê, da minha par-
onde colocar outras peças. Meus sapatos estão muito bons; e tenho
te não dei motivo para isso) que, se tivesse pensado que eu lhe quero menos, não
também seus chinelos. A roupa por ora está bem, como roupa de cár- me escreveria mais. Muito bem, lamento por você, por vocês, por quase todos que
cere. Tenho o casaco curto, que me serviu nos meses frios e agora já se são dotados de tal psicologia. Vocês precisam sempre ser amados, cuidados, etc.,
tornou inútil. Tenho todas as suas colheres e colherzinhas, que me ser- etc. Mas eu, nas relações com quem amo, não me preocupo nem um pouco .com
os sentimentos a meu respeito. [... ] Os amigos que deixou de lado porque passa-
viram muito (mesmo sem cabo), e seis ou sete barras de sabão, esco- ram a não lhe querer como antes (é o que você diz), por que é que os deixou de
vas, escovas de dente, pentes, etc. Não preciso, realmente, de nada lado? Com que grau de justiça? Será que não precisavam mais de amor para si
essencial. Como pode imaginar, se você viesse aqui, se eu pudesse vê- próprios do que o que podiam dar aos outros? Mas lhe afirmo que, como você
está entre os que precisam mesmo de amor, não deixaria que lhe faltasse amor,
la, seria uma coisa extraordinária para mim! Mas, antes, é preciso sa- ·:;1
precisamente porque sinto sempre a necessidade, a exigência, de dar aquilo de
ber se ficarei aqui, em primeiro lugar; e é preciso ter certeza de que lhe que se precisa" (Lettere 1926-1935, cit., p. 87-8).
darão a autorização para a visita, em segundo. Lembre-se de que juri- ct.•• 2. "Esperamos que a viagem tenha sido mais fácil até por causa de um telegrama por
nós enviado ao advogado Arys, de Milão - Via Unione, 1 - , pedindo-lhe que se
dicamente não somos parentes, porque o matrimônio não foi registra-
empenhasse em obter para você a transferência extraordinária, telegrama cujo re-
do na Itália; juridicamente eu sou solteiro e você não pode demonstrar sultado, no entanto, ignoramos até hoje" (carta de Bordiga a Gramsci, Ustica, 27
que é minha cunhada. Escrevo isto porque seria terrível para mim se jan. 1927, agora em V. Gerratana. "Note di filologia gramsciana", cit., p. 146).
você viesse e não pudesse me ver. Mas lhe digo que não é impossível Terminada a instrução e decidida a realização do julgamento, Gramsci nomearia
Giovanni Ariis (não Arys) como um dos advogados de defesa (cf. carta 99).
acontecer a visita; sei que alguns amigos meus receberam a visita de
suas companheiras, que não são juridicamente suas mulheres: por que
seria impossível no caso das cunhadas? Deve-se falar com um advoga-
29.
do: em Milão, seria preciso que você se dirigisse ao advogado Arys (Via
Unione, 1), o qual (como me escreveu Bordiga, de Ustica) está cuidan-
do de minha situação 2 • Cara Tania, ficaria muito feliz em vê-la; mas 11 de abril de 1927
não me escreva sobre isto, a não ser que já tenha assegurada a possibi-
Querida Tania,
lidade da visita; caso contrário, sofreria demais com a frustração.
Abraços,
Recebi seus cartões de 31 de março e de 3 de abril. Agradeço as
Antonio notícias que me manda. Espero sua vinda a Milão; mas, confesso, não

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CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

quero contar muito com ela. Pensei que não seria muito agradável con- uma impressão indelével. .pepois de quatro dias, vou embora de Ná-
tinuar a descrição, iniciada na última carta, de minha vida atual. É poles; parada em Cajanello, no quartel dos carabineiros; conheço meus
melhor que, em cada vez, escreva o que me vier à cabeça, sem um pla- companheiros de algema, que irão comigo até Bolonha. Dois dias em
no preestabelecido. Escrever também se tornou um tormento físico, Jsernia, com esses tipos. Dois dias em Sulmona. Uma noite em Castella-
porque me dão penas horríveis, •que arranham o papel e exigem uma mare A., no quartel dos carabineiros. Mais ainda: dois dias com cerca
atenção obsessiva para a parte mecânica de escrever. Acreditava que de sessenta presos. São organizados entretenimentos ocasionais em
poderia obter o uso permanente de caneta e me havia proposto escre- minha homenagem; os romanos improvisam uma belíssima festa lite-
ver os trabalhos que lhe mencionei; mas não pude obter a autorização rária, Pascarella e pequenos quadros populares do submundo romano.
e não gosto de insistir 1 • Por isso, só escrevo nas duas horas e meia ou Apulienses, calabreses e sicilianos fazem uma apresentação de luta com
nas três horas em que cuidamos da correspondência semanal (duas facas segundo as regras dos quatro Estados do submundo meridional
cartas); naturalmente, não posso fazer anotações, isto é, na realidade (o Estado siciliano, o Estado calabrês, o Estado apuliense, o Estado
não posso estudar de modo ordenado e proveitoso. Mal leio. Mas o napolitano): sicilianos contra apulienses, apulienses contra calabreses.
tempo passa rapidamente, mais do que podia pensar. Sicilianos e calabreses não competem, porque entre os dois Estados o
Passaram cinco meses desde o dia de minha prisão (S de novem- ódio é muito forte e até mesmo uma apresentação se torna séria e cru-
bro) e dois meses desde o dia de minha chegada a Milão. Não parece enta. Os apulienses são os mestres de todos: esfaqueadores insuperá-
verdade que tanto tempo passou. Mas se deve ter em conta o fato de veis, com uma técnica cheia de segredos e absolutamente mortal,
que, nestes cinco meses, vi coisas de todo tipo e tive as impressões mais desenvolvida segundo todas as outras técnicas, a ponto de superá-las.
estranhas e mais excepcionais de minha vida2 • Roma, de 8 de novembro Um velho apuliense, de 65 anos, muito reverenciado mas sem dignida-
até 25 de novembro: isolamento absoluto e rigoroso. 25 de novem- de "estatal", derrota todos os campeões dos outros "Estados"; depois,
bro: Nápoles, na companhia de meus quatro companheiros deputados no ponto culminante, esgrima contra um outro apuliense, jovem, de
até o dia 29 (três, não quatro, porque um foi separado em Caserta para corpo muito bonito e de agilidade surpreendente, alto dignitário a que
Tremiti)3. Embarque para Palermo e chegada a Palermo no dia 30. Oito i1 todos obedecem, e por meia hora demonstram toda a técnica normal
dias em Palermo: três viagens frustradas pap Ustica, por causa do mar de todas as escolas conhecidas. Cena verdadeiramente grandiosa e ines-
tempestuoso. Primeiro contato com os presos sicilianos acusados de quecível, por todos os motivos, pelos atores e pelos espectadores: todo
mafiosos: um mundo novo, que só conhecia intelectualmente; verifico um mundo subterrâneo, complicadíssimo, com uma vida própria de
e com.provo minhas opiniões a propósito, que reconheço corno bas- sentimentos, de pontos de vista, de pontos de honra, com hierarquias
tante precisas. Em 7 de dezembro, chegada a Ustica. Conheço o mun- férreas e formidáveis, se revelava para mim. As armas eram simples: as
do dos presos comuns: coisas fantásticas e, incríveis. Conheço a colônia colheres, friccionadas na parede, de modo que a cal assinalava os gol-
dos beduínos da Cirenaica, confinados políticos: quadro oriental, muito pes na roupa. Depois Bolonha, dois dias, com outras cenas; depois
interessante 4 • Vida em Ustica. Em 20 de janeiro, torno a partir. Quatro Milão. Certamente, estes cinco meses foram movimentados e ricos de
dias em Palermo. Travessia para Nápoles com criminosos comuns. impressões para um ou dois anos de ruminação. Isto explica como passo
Nápoles: conheço toda uma série de tipos do mais alto interesse para o tempo, quando não leio; volto a pensar em todas estas coisas, anali-
mim, eu que, do Mezzogiorno, só conhecia a Sardenha. Em Nápoles, so-as minuciosamente, embriago-me com este trabalho bizantino. Além
entre outras coisas, assisto a uma cena de iniciação à camorra: conhe- disso, tudo o que ocorre a meu redor e que consigo compreender se
ço um condenado à prisão perpétua (um certo Arturo), que me deixa torna extremamente interessante. Certamente me controlo com fre-

140 141

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l"·.)
(

CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

qüencia, porque não quero c::iir nas monomanias que caracterizam a do cabo e o catecismo católico. Convenci-me de que se deve acrescentar,
psicologia dos detentos; me ajuda nisso, especialmente, um certo espí- se bem que num campo muito mais restrito e de caráter excepcional, o
rito irônico e cheio de humor que me acompanha sempre. E você, o regulamento carcerário, que contém verdadeiros tesouros de intros-
que é que faz e no que pensa? Quem é que lhe c'ompra os romances de pecção psicológica. Espero as cartas de Giulia: acredito que, depois de
}>l
aventura, agora que não estou presente? Estou certo de que releu as lê-las, conseguirei escrever a ela diretamente. Não pense que isto seja
-·~;
admiráveis histórias de Corcoran e de sua amável Lisotta5 • Tem ido, :, uma criancice. Uma notícia importante: de uns dias para cá tenho co-
''8
neste ano, às aulas na Policlínica6 ? E o professor Caronia, foi ele quem mido muito; no entanto, não consigo comer verduras; tenho me esfor-
encontrou o bacilo do sarampo? Acompanhei suas lamentáveis com- çado muito, mas desisti porque sinto terríveis engulhos. E, apesar de
plicações; e não compreendi, pelos jornais, se o professor Cirincione tudo, não consigo esquecer que você talvez venha e que talvez (ai de
também foi suspenso7 • Pelo menos em parte, tudo isto está ligado ao mim) nos possamos ver, ainda que por alguns minutos. Abraços,
problema da máfia siciliana. É incrível como os sicilianos, da camada
Antonio
mais baixa até os níveis mais altos, são solidários entre si e como até
mesmo cientistas de inegável valor andam perto do Código Penal em t. O primeiro requerimento para usar caneca, cinta e papel, apresentado ao juiz Macis
razão deste sentimento de solidariedade. Convenci-me de que, real- em março de 1927, é o doe. 3, apêndice 1, v. 2, p. 440.
mente, os sicilianos constituem um caso à parte; há mais semelhança 2. Esca descrição detalhada do período de prisão foi retida pelas autoridades. Tatiana
só receberia esta cana em 4 de julho de 1928 (cf., também, carta 34).
entre um calabrês e um piemontês do que entre um calabrês e um 3. Enrico Ferrari (cf. carca 8, n. 4).
siciliano. As acusações que os meridionais em geral dirigem contra os 4. A Cirenaica, especialmente a capital e o porto de Bengasi, estava sob o domínio
sicilianos são terríveis: acusam-nos até mesmo de canibalismo. Não teria italiano desde a guerra líbica, em 1912. Os beduínos mencionados provavelmente
escavam detidos por combater a administração colonial italiana.
acreditado nunca que existissem tais sentimentos populares. Penso que S. Referência a um célebre livro para jovens, Les merveilleuses aventures du capitaine
seria preciso ler muitos livros sobre a história dos últimos séculos, es- Corcoran, publicado em 1867 por Alfred Assolam (1827-1886). Lisotta é o tigre-
pecialmente o período da separação entre a Sicília e o Mezzogiorno fêmea, companheiro de aventuras de Corcorah.
6. Bióloga, Tatiana havia ensinado ciências naturais no Instituto Internacional
durante os reinos de José Bonaparte e Joachim Murat em Nápoles, para Crandon, em Roma, e se interessava pela medicina, o que explica a pergunta de
encontrar a origem destes sentimentos 8 • ~ Gramsci e as demais referências a seguir. "Amiga, e amiga entusiasmada, de médi-
Estou entusiasmado com o gorro; onde é que conseguiu encontrá- cos e enfermeiros" - assim ela é lembrada por Nilde Perilli (Gramsci vivo nelle
testimonianze dei suai contemporanei, cit., p. 159). Sobre as aulas na Policlínica,
lo? Acho que é o gorro de Orgosolo, vermelho e azul, que eu não con- $ há informação direta numa carta de Tatiana aos parentes de Moscou, em 1925:
seguia mais encontrar. A bola de papelão não pode ser enviada e, do "Peço-lhes que levem em conta meus conselhos, que têm algum fundamento, já
que estudei um pouco e sempre estive no campo da medicina. Bem sabem que até
mesmo modo, você não pode me mandar o verniz: acredito que é ab-
terminei os cursos, só não tive a possibilidade de prestar os exames" (Lettere ai
solutamente impossível, especialmente o verniz, que pode ser conside- familiari, cit., p. 16).
rado como um veneno, segundo o regulamento, e exigiria toda uma 7. Respectivamente, Giuseppe Caronia e Giuseppe Cirincione, ambos da Universi-
série de controles muito complicados. Veja só: um outro objeto de dade de Roma. Caronia havia sido suspenso das atividades docentes por causa de
problemas com pacientes internados na sua clínica. Seria reitor da Universidade
análise muito interessante: o regulamento carcerário e a psicologia que entre 1944 e 1947.
amadurece entre o pessoal de guarda a partir do regulamento, por um 8. Durante o período napoleônico, a Itália Meridional esteve sob os governos de José
Bonaparte (1806-1808) e de Joachim Murat (1808-1815). Em Nápoles, Murat
lado, e a partir do contato com os prisioneiros, por outro. Eu acreditava
promoveu algumas reformas segundo os princípios "franceses", enquanto a Sicília
que duas obras-primas (falo a sério mesmo) concentravam a experiên- tornou-se bastião da monarquia dos Bourbons e se afastou ainda mais do reformismo
cia milenar dos homens no campo da organização de massa: o manual europeu do tempo.

142 1 43
. ~.. . ~ :

CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

30. não consigo dormir mais. P.or isso me esforço para ficar desperto até a
inspeção das nove, para dormir depois; assim, durmo por volta das dez,
18 de abril de 1927 não percebo a inspeção da meia-noite, mas quando chega a inspeção
das três já estou desperto há pelo menos uma hora. Logo, não tenho
Cara Tania, dificuldade para dormir, o que me parece importante; mas só consigo
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dormir pouco, o que me deixa sempre um pouco cansado e exaurido.
Recebi seu bilhetinho de 4 de abril, junto com as duas cartas de ,,.
).J
Dormindo assim, das dez até uma e meia, me sinto mais descansado
Giulia; não recebi ainda as outras cartas que anuncia. Passei a Páscoa do que dormindo das oito e meia até meia-noite. Acredito que as inje-
esperando suas lembranças, mas não recebi nada. (Lembra? Você me ções podem me ajudar, estimulando o apetite; se comesse mais, talvez
escreveu que mandaria ao cárcere de Roma várias coisas suplementa- dormisse mais. Agora que começa o tempo bom, tomarei mais banhos:
res, porque cada uma delas era como uma lembrança sua._) Mas asse- só existem chuveiros, não há banheira, e, até quando tomo banho quen-
guro que isto não me aborreceu; tinha quase certeza de que não te, sinto depois muitíssimo frio, um frio anormal (ainda devo ter a tem-
conseguiria me enviar os doces, exatamente por causa do dia de Pás- peratura do sangue pelo menos cinco graus abaixo do normal, e isto
coa. Quando lhe escrevi, já era tarde demais, dada a sobrecarga postal explica tudo).
que se verifica em tais ocasiões, e suponho que, se chega alguma coisa Abraços afetuosos,
depois do dia regulamentar, não é entregue. Paciência. Um outro dia
Antonio
regulamentar é o do Estatuto (primeiro domingo de junho}: só lhe re-
velo isto depois de um longo deba;e comigo mesmo a favor e contra. r-· Estou recebendo neste momento seu cartão do dia 9, com a vista
O debate acabou assim: será um belíssimo epigrama se eu festejar o de Trafôi. Muito bem!
Dia do Estatuto 1 ! Por isso, conto com seus doces, nessa ocasião; tem "
~
todo o tempo para pensar, escolher, confeccionar, etc. Não se preocu- ·r
°1' 1. O Estatuto do Reino do Piemonte-Sardenha - promulgado em 1848 no reinado
pe muito com a escolha. Gosto de todas as qualidades, desde que não :]
,'1 ..,
de Carlos Alberto e, por isso, dito "alberrino" - viria a se tornar a lei fundamen-
sejam doces demais. Ontem (Páscoa), compr.fi duzentos gramas de tâ- tal da Itália, com modificações menores, até o fascismo. Seus dispositivos li-
maras de Páscoa e um bolo em forma de pomba; mas não pude comer beralizantes, se observados, teriam protegido Gramsci, o que explica a alusão irônica
íJI.·, à situação em que se encontrava, "festejando" no cárcere o Dia do Estatuto.
as tâmaras porque me provocaram uma grande dor na gengiva. Por isso, ~-

decidi ir ao médico para que me receitasse um tratamento paliativo; ~~-


t.~·
pensei também em tomar algumas injeções, tendo em vista o calor que
se aproxima. O que é que acha disso? O início da boa estação já come-
31.
çou a me trazer problemas. Não posso absolutamente comer carne; só
18 de abril de 1927
o cheiro me dá engulhos e náuseas. Do mesmo modo, durmo menos
do que antes; não mais de três horas e meia. Não é insônia nervosa,
Minha querida Iulca,
porque não estou agitado e não sonho: é insônia pura e simples. Vou
descrevê-la, para que possa analisar e me dar conselhos. Vou para a
cama às sete e meia e às oito e meia poderia dormir. Mas, se durmo às Volto a lhe escrever, depois de tanto tempo. Só recebi há poucos
oito e meia, acordo à meia-noite, quando acontece a inspeção, e então dias suas duas cartas: uma de 14 de fevereiro e a outra de 1° de março,

144 145

. ··'.·
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.t.

CARTAS DO CÁRCERE 1927

·:~..

e pensei em você muito, muito mesmo; até fiz um inventário de todas lembre sempre de você Cf>m carinho (estou brincando, claro!), me
as minhas lembranças e sabe qual imagem me ficou mais gravada? Uma escreva longamente e descreva sua vida e a dos meninos. Tudo me
1:
,f
das primeiras, de muito tempo atrás. Lembra quando foi embora do interessa, até mesmo os detalhes. E me mande fotografias de vez em
;if.
bosque de prata, depois de seu mês de férias? Eu a acompanhei até à ;:~ quando. Assim, também seguirei com os olhos o desenvolvimento dos
beira da estrada principal e ali fiquei por longo tempo, vendo-a afas- meninos. E também me escreva sobre você, muito. Algumas vezes en-
,'~

tar-se. Tínhamos acabado de nos conhecer, mas eu já implicara muito ~i.: contra o Sr. Bianco3 ? E tem visto aquele curioso tipo de africanista,
e até a fizera chorar; havia zombado de você a propósito da assembléia que uma vez me prometeu um prato de rins de rinoceronte fritos 4 ?
.,S:i.,
dos mochos e me comportado com a eletricidade dos gatos, quando Talvez ele ainda se lembre de mim; se o vir, fale deste prato e me
você tocava Beethoven. É assim que vejo você sempre, enquanto se escreva sua resposta; vou me divertir à beça. Sabe que não faço outra
;~1 coisa: pensar no passado e reviver todas as cenas e os episódios mais
afasta a passos curtos, com o violino numa mão e na outra sua valise
de viagem tão pitoresca 1 • engraçados; isto me ajuda a passar o tempo, algumas vezes rio inten-
Agora, qual é meu estado de espírito? Vou lhe escrever mais samente sem sequer perceber. Minha cara, Tania me anuncia outras
longamente nas próximas vezes (vou pedir autorização para escrever cartas suas; como as espero! Lembranças a todos os seus. Amo muito
uma dupla carta) e tentar descrever os aspectos positivos de minha você.
vida destes meses (os aspectos negativos já estão esquecidos); vida
Antonio
interessantíssima, como pode imaginar, pelos homens de quem me
aproximei e pelas cenas que vi. Meu estado de espírito geral caracte-
Tania é mesmo uma moça de muito valor. Por isso, eu a atormento
riza-se por uma grande tranqüilidade. Como poderia resumi-lo? Lem- muito.
bra a viagem de Nansen ao Pólo e como se desenrolou 2 ? Como não
tenho muita certeza de que lembra, eu mesmo vou lhe recordar. 1. O episódio de Giulia, que se distancia com sua "bagagem de viajante, pela grande
·.qm'
Nansen, tendo estudado as correntes marinhas e aéreas do Oceano estrada, até o mundo grande e terrível", também é evocado por Gramsci numa
. , carta para a mulher em 30 de junho de 1924 (Lettere 1908-1926, cit., p. 361) .
Ártico e tendo observado que, nas praias da Groenlândia, se encon- ··~, Após participar de uma conferência da executiva ampliada do Komintern (junho
travam árvores e detritos que deviam ser de"' origem asiática, imagi- 1•· de 1922), Gramsci se internou por alguns meses na casa de saúde Serebriani Bor
nou poder chegar ao Pólo, ou pelo menos perto do Pólo, deixando (Bosque de Prata), perto de Moscou, "em virtude de um esgotamento nervoso,
tratado com quinino, como fet>re malárica" (Ib., p. 172). Neste sanatório, conhe-
seu navio ser transportado pelo gelo. Foi assim que se deixou aprisi- ceu Giulia, que ia até lá para visitar a irmã Eugenia, também internada.
onar pelo gelo e, durante três anos e meio, seu navio só se moveu 2. Cf. carta 21, n. S.
3. Vincenzo Bianco (1898-1980), operário socialista, aproximou-se do grupo de
enquanto se deslocava o próprio gelo, de modo lentíssimo. Meu es- I:Ordine Nuovo e participou do movimento dos conselhos, ligando-se pessoal-
tado de espírito pode ser comparado ao dos marinheiros de Nansen mente a Gramsd. Em 1923, emigrou para a União Soviética, onde reencontrou o
amigo e se tornou íntimo da família Schucht. Manteve correspondência com
durante esta viagem fantástica, que sempre me espantou por sua ins-
Gramsci, que, de Viena e de Roma, lhe endereçou várias cartas, inclusive para ter
piração, verdadeiramente épica. notícias de Giulia (Lettere 1908-1926, cit., p. 219 s.).
Dei uma idéia? (Como diriam meus amigos sicilianos em Ustica.) 4. Personagem não identificado, mas evidentemente encontrado por Gramsci no pe-
ríodo moscovita, em 1922-1923.
Não poderia dá-la de modo mais curto e sintético. Portanto, não se
preocupe com este lado de minha existência. Mas, se quiser que me

146 147
~-:-

CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

(_ ...
32. as crianças que fazem pipi pa cama, não é verdade? Ameaça-se queimá-
las com a estopa em chamas na ponta de um forcado. Pois bem: imagine
25 de abril de 1927 } que, na Itália, haja um menino muito grande que ameaça continuamente
fazer pipi na cama desta grande mãe geradora de cereais e de heróis;
Querida mamãe, cu e alguns outros somos a estopa (ou o trapo) acesa que se mostra
para ameaçar o impertinente e para impedi-lo de manchar os lençóis
Recebi sua carta justamente hoje e lhe agradeço. Estou muito con- limpos. Já que as coisas são assim, não se deve nem ficar alarmado nem
tente com as boas notícias que mt: dá, especialmente sobre Carla. Não ter ilusões; deve-se apenas esperar com muita paciência e resignação.
sabia quais eram suas condições de trabalho e de vida. Acho que Cario Vamos lá, você é ainda muito forte e jovem, e nós vamos nos rever.
é um ótimo rapaz, apesar de algumas trapalhadas do passado, e acho Enquanto isso, me escreva e faça com que os outros me escrevam:
também que é mais seguro nos negócios do que eram (e talvez ainda mande-me muitas notícias de Ghilarza, de Abbasanta, de Boroneddu,
sejam) tanto Nannaro quanto Maria, que tinham uma tendência para deTadasuni, de Oristano. TiaAntioga Putzulu, ainda está viva? E quem
ver ganhos fabulosos e fazer castelos no ar por qualquer coisinha. Ai é o podestà? Felle Toriggia, imagino 4 • E Nessi, o que é que anda fazen-
de mim! Em nossa casa, todos (menos eu) imaginaram ter uma voca- do5? E os tios de Oristano, ainda estão vivos? Será que o tio Serafino
ção especial para os negócios, e não gostaria que passassem por uma sabe que dei o nome de Delio a meu menino 6 ? E o pequeno hospital,
experiência como aquela do "galinheiro"; lembra? E será que Cario acabaram com ele? Continuaram com as casas populares em Careddu?
também lembra? Seria preciso recordar a ele, para vergonha eterna dos Vejá só quantas coisas quero saber. E será que se fala, como suponho,
Gramscis que se metem a fazer negócios. Eu vou lembrar sempre, até em unir Ghilarza a Abbasanta? E os abbasantenses não vão pegar em
porque aquelas galinhas, que não botavam ovo nunca, me bicaram e armas? E estão utilizando, finalmente, a bacia do Tirso para alguma
estragaram três ou quatro romances de Carolina Invernizio (ainda coisa? Escreva, escreva e me mande as fotografias, especialmente das
bem!)1. crianças. Beijos para todos e muitos, muitos beijos para você.
Minha vida corre sempre igual. Leio, como, durmo e penso. Não Nino
posso fazer outra coisa. Mas não pense nisso tudo em que anda pen-
11:
sanda e, especialmente, não tenha ilusões. Não porque eu não esteja E Grazietta, por que não me escreve sequer uma linha?
mais do que certo de revê-la e de lhe mostrar meus meninos (vai rece-
ber a fotografia de Delio, como prometi; mas Carla não lhe havia en- 1. Carolina Invernizio (1851-1916), autora de populares romances de folhetim com
~ft·
tregue uma em 1925? Quando é que Cario veio a Roma? E quando é temas sentimentais e macabros, como II bacio dei/a ·morte (1889) e I:orfane//a di
Collegno (1893).
que Chicchinu Mameli deu a você uma moeda de prata, que eu man- 2. Chicchinu Mameli, velho companheiro de escola primária, em Ghilarza.
dei a Mea para transformarem numa colherzinha2 ? E uma tabaqueira 3. Em sua carta de 10 de março de 1927, Peppina Mareias escreveu: "Meu querido
especial, de madeira, para você? - sempre me esqueço de perguntar Nino: recebi a sua querida carta e você pode imaginar o meu estado de espírito,
embora você me tranqüilize sobre seu ânimo. Estou tão confusa que não me sin-
estas coisas), mas porque também estou mais do que certo de que serei to forte, mas quero dizer que eu também, com a ajuda de Deus, vou suportar o
condenado, sabe-se lá a quantos anos. Compreenda que nada disso tem que for ordenado para mim, acrescentando esta nova cruz ao meu Calvário. Co-
nhecendo bastante a sua honestidade, espero que tudo acabe como uma bolha
a menor relação com minha honestidade, minha consciência, minha
de sabão, demonstrando a sua retidão e inocência" (Le donne di Casa Gramsci,
inocência ou culpa3 • É um fato que se chama política, com a qual todas cit., p. 117).
estas belíssimas coisas não têm a menor relação. Sabe como se age com

149
148

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19 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

4. O amigo Raffaele Toriggia, médico e podestà de Ghilarza. No fascismo, o podestà, dizendo que poderia pagar depois de trocar a nota. O mesmo fato se repe-
indicado pelo Governo e nomeado pelo rei, substituiu o sindaco (prefeito), eleito tiu em outro lugar, e eis a e~plicação: em Ustica, só existe a economia do
pelo voto popular.
5. Vittore Nessi, veterinário, inquilino na casa de Gramsci na época da prisão do pai, soldo; vende-se a soldi; nunca se gasta mais do que 50 centavos 1 •
em 1898. O tipo econômico de Ustica é o preso comum, que recebe 4 liras
6. Serafino Delogu, primo de Peppina, farmacêutico em Oristano, se interessou pelo por dia, já deve duas ao usurário ou ao taberneiro e se alimenta com as
problema da má-formação física de Gramsci (cf. carta 388); este, por sua vez, n·~
tempo de estudante, deu aulas particulares ao filho de Serafino, também chamado outras duas, comprando 300 gramas de macarrão e usando como tem-
Delio (cf. carta 54). pero um soldo de pimenta em pó. Os cigarros são vendidos um a um;
um macedonia custa 16 centavos, isto é, três soldi e um centavo; o preso
comum que compra um macedonia por dia deixa um soldo de depósi-
\•·:
33. ,:}'
to, do qual desconta um centavo por dia, durante cinco dias. Para cal-
cular o preço de cem cigarros, era preciso, pois, fazer cem vezes o
25 de abril de 1927 cálculo dos 16 centavos (trê:f soldi mais um centavo) e ninguém pode
negar que este cálculo é bem difícil e complicado. E se tratava da
Querida Tania, vendedora de tabaco, isto é, um dos maiores comerciantes da ilha. Pois
bem: a psicologia dominante em toda a ilha é a psicologia que tem por
Recebi sua carta do dia 12 e me propus friamente, cinicamente, base a economia do soldo, a economia que só conhece a adição e a
enfurecê-la. Você sabia que é uma grande presunçosa? É o que quero de- subtração das unidades simples, a economia sem a tabela de Pitágoras.
monstrar objetivamente e já me divirto imaginando sua cólera (mas não Escute esta outra (e só falo de fatos acontecidos a mim, pessoalmente;
fique com raiva demais; não é o que gostaria que acontecesse). Por certo, e falo de fatos que, acredito, não são passíveis de censura): fui chama-
a carta enviada a Ustica estava inteiramente errada; mas você não pode do à administração pelo funcionário responsável pela revisão das car-
ser considerada a responsável. É impossível imaginar a vida em Ustica, o tas que chegavam; entregaram-me uma carta, dirigida a mim,, e pediram
.,,
ambiente de Ustica, porque é absolutamente excepcional, está fora de toda }.' que desse explicações sobre seu conteúdo. Um amigo escrevia de Mi-
experiência normal de convivência humana. Você pode imaginar coisas \
i:I lão, oferecendo um aparelho de rádio e pedindo os dados técnicos para
como estas? Veja só. Cheguei a Ustica no dia ;z de dezembro, depois de comprar um aparelho que, pelo menos, cobrisse de Roma a Ustica. Na
oito dias de interrupção na chegada do vapor e depois de quatro travessias .ifl verdade, não compreendia a pergunta que me faziam na administra-
malogradas. Eu era o quinto confinado político que chegava. Fui logo ção e disse do que se tratava; achavam que eu quisesse falar com Roma
avisado de que devia fazer uma provisão de cigarros, porque o estoque e me negaram a autorização para mandar vir o aparelho. Mais tarde, o
estava no fim; fui à tabacaria e pedi dez maços de Macedonia (16 liras), podestà me chamou por iniciativa sua e disse que o Município iria com-
pondo no balcão uma nota de 50 liras. A vendedora {uma jovem de apa- prar o aparelho por conta própria e que, por isso, eu não insistisse; o
rência absolutamente normal) se espantou com meu pedido, me fez repe- podestà era favorável a que me dessem a autorização, porque tinha
ti-lo, pegou os dez maços, abriu-os, começou a contar os cigarros um a estado em Palermo e visto que não se pode comunicar com o aparelho
um, perdeu a conta, recomeçou, pegou uma folha de papel, fez demora~ de rádio. Você poderia imaginar tudo isto? Não. Portanto, em minha
das contas com o lápis, interrompeu-as, pegou as 50 liras, olhou a nod observação não havia nem sombra de malícia a seu respeito. Não se
por todos os lados; finalmente me perguntou quem eu era. Ao saber que pode exigir de ninguém que imagine coisas novas; mas se pode exigir
•i:·
era um confinado político, me entregou os cigarros e devolveu as 50 liras, (por assim dizer) o exercício da fantasia para completar, com base nos
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CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

elementos conhecidos, toda a realidade viva. Eis onde quero atingi-la brincando. Você não coml?reendeu uma outra coisa. Você, você mes-
e enfurecê-la. Você, como todas as mulheres em geral, tem muita ima- ma (e como é que foi esquecer isto?) havia escrito que eu não devia
ginação e pouca fantasia; e mais, a imaginação em você (como nas pensar (pelo fato de que não recebia suas cartas) que me quisesse me-
mulheres em geral) age num só sentido, no sentido que chamaria (vejo- ·-~1·:.
··' .
{ ::.'. nos ou tivesse me esquecido. E eu respondi que, se houvesse pensado
ª dar um pulo) ... protetor dos anim~is, vegetariano, próprio das enfer-

~lt
assim, não lhe escreveria mais, como algumas vezes fiz no passado, mas
meiras: as mulheres são líricas (para usar um tom mais elevado), mas não porque "precise sempre ser amado, cuidado, etc., etc." (ou alguma
não são dramáticas. Imaginam a vida dos outros (até mesmo dos fi- psicologia própria da ... sociedade protetora dos animais!) e sim porque
lhos) unicamente do ponto de vista da dor animal, mas não sabem re-
·;1Jt,
;~ J_
odeio tudo que é convencional e parece trâmite burocrático. Eu não sou
criar com a fantasia toda a vida de uma outra pessoa, em seu conjunto, .1~
:4.'
·,
.. 1···
.J um desesperado que precisa de consolo; e não serei nunca. !v1esmo an-
:;;,_~; ·~·
em todos os ·seus aspectos. (Veja que faço uma constatação, não um ?· . tes de ser jogado na prisão, conhecia o isolamento e sabia encontrá-lo
julgamento, nem ouso deduzir conseqüências para o futuro; descrevo até mesmo no meio da multidão. Não é isto, não é o que você pensou. A
o que existe hoje.) Eis aonde queria chegar. Você sabe que estou aqui, verdade é exatamente o oposto. Uma carta sua preenche muitos dias. Se
na prisão, num espaço limitado, no qual devem me faltar muitas coi- pudesse me ver quando recebo uma carta, certamente me escreveria uma
sas; e pensa no banho, nos insetos, na roupa de baixo, etc. Se lhe escre- > por dia (o que, por sua vez, seria ruim). Mas basta com tudo isto. De
~'(-'
vesse que me falta uma pasta de dente especial, por exemplo, certamente todo modo, nesta semana não posso escrever a Giulia.
você seria capaz de revirar Roma de cima abaixo, de esquecer o almo- Veja, seu pacote chegou e vi as coisas maravilhosas que você enviou:
ço e o jantar, de ficar febril; tenho certeza disso. No entanto, você me mas só me deram o chocolate. Mas não se pode excluir que entreguem
escreve anunciando uma carta de Giulia; depois volta a me escrever também o resto: é preciso fazer um requerimento, que já está tramitan-
anunciando uma outra; depois recebo uma carta sua (e suas cartas me do. O chocolate é muito bom: como aos pedacinhos, por causa dos den-
são muito caras), mas não recebo as cartas de Giulia e ainda não as tes (eis uma coisa que lhe interessa: me deram o chocolate mas não o
recebi. Pois bem, você não sabe reproduzir minha vida, aqui na prisão. papel colorido do invólucro, exatamente porque pode servir para tin-
Não imagina como eu, recebendo a promessa, espere todo dia e tenha gir: mas a bola tem uma cor natural de papelão que está muito boa, ago-
todo dia uma desilusão, o que se repercute em todos os minutos de ra que secou completamente). O endereço de minha mãe é este: Peppina
todas as horas de todos os dias; como eu leiaoee a cada momento inter- Gramsci, Ghilarza (Cagliari); escrevo hoje mesmo para ela, prometen-
rompa a leitura, e me ponha a andar para Cima e para baixo, e pense, do a fotografia. Você vai receber (é o que me afirmam) um pacote de
volte a pensar, rumine e diga muitas vezes: Ah, aquela Tania, aquela uvas de Pantelleria para Delio e Giuliano, e vai ver que uvas maravilho-
Tania! Mas, olhe, não fique com raiva nem se aborreça demais (mas sas; nem pensar nas passas gregas! Permito que coma algumas, para ve-
um pouquinho, sim; assim me mandará logo as cartas, sem anunciá-las rificar por si mesma. Giulia vai ficar muito contente e Delio há de querer
antes e fazer com que eu sempre pen·se que terão sido extraviadas). comê-las imediatamente. Eu lhe asseguro que estas uvas me surpreen-
Reparou na longa volta que dei para lhe dizer esta coisa tão sL-nples? E deram pelo cheiro, sabor e carnosidade da polpa seca. Cara Tania, não
quantas histórias tirei da poeira? Sou mau, mau de verdade. l\:1as como fique com muita raiva; eu lhe quero muito, muito bem, e ficaria deses-
é que não compreende que eu muitas vezes quero brincar e me respon- perado se lhe trouxesse algum desgosto mais intenso. Abraços,
de tão séria? Sabe quanto ri quando me respondeu com toda a serieda- Antonio
de sobre as fotografias que trouxe comigo para a cela? Foi a mesma
coisa ·com.sua confusão d0s dois santos Antônios; eu também estava 1. O soldo era urna moeda de cobre, no valor de cinco centavos de lira.

152 153
L
1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

de osso, que continuam seIT\ cabos; uso habitualmente o garfo, mesmo


34.
sem cabo: mas não a colher, que me espanta com seu tamanho e me in-
2 de maio de 1927 timida. Mas uso as outras duas colheres de madeira, de modestas pro-
porções, uma para a sopa e outra para a compota de frutas (que não
Querida Tania, consigo obter regularmente); do mesmo modo, nunca uso as duas
colherzinhas de osso, mas só as duas de madeira, que ficaram bem pre-
Recebi ao mesmo tempo seu cartão do dia 15 de abril e uma carta tas por causa do café. A este respeito, ainda deveria mencionar a tragé-
de Giulia, expedida por você no dia 20; recebi, além disso, o cartão do dia cotidiana de lavar e enxugar os talheres, mas prefiro deixar de lado.
dia 26 de abril, no qual há referência a um escrito seu que não recebi. E eis que de fato lhe escrevi uma carta em perfeito estilo carcerário. Da
Será que estava dentro do envelope que continha a carta de Giulia? Ou próxima vez, ou das próximas vezes, vou escrever sobre coisas bem mais
:Ff
se trata de outro envelope que também continha, além de seu escrito, suaves: o canto dos passarinhos ao entardecer e ao amanhecer, a rápida
alguma coisa de Giulia? Ou era só um cartão? Creia que a correspon- germinação do feijão e do lírio no pátio onde tomo banho de sol toda
dência é muito importante para mim: é o único laço que me une ao mundo manhã, as mudanças de luminosidade em minha cela segundo as posi-
e é o que rompe, de vez em quando, minha segregação e meu isolamen- ções do sol no horizonte, etc., etc. Ainda não encontrei nenhuma aranha
to. Queria que numerasse sempre: 1) seus cartões; 2) suas cartas; 3) as para educar; não há ratos e a zoologia restante não é das mais simpáti-
cartas de Giulia, com numerações independentes, de modo que eu veja cas. De resto, nada interessante ou novo. Abraços,
.;~
~.,
imediatamente se houve interrupção e qual foi o caráter e o grau desta Antonio
interrupção 1 • Quanto às minhas cartas, você pode facilmente controlar
semana por semana; só pode haver alteração se me mudarem de lugar e, Parece-me que, na carta do dia 11, eu perguntava se você tem fre-
neste novo lugar, o dia da correspondência for diverso do atual, ou se eu -~
qüentado neste ano as aulas na Policlínica e se ainda lê alguns roman-
adoecer de tal modo que nem possa escrever (neste caso, acredito que ~ ces de aventura: conseguiu a seqüência do romance de Kipling sobre o
um telegrama será autorizado). Lamento que não tenha recebido minha mar que eu devia comprar para você justamente quando fui preso?
carta do dia 11 de abril, porque isto significa que todo um determinado
conjunto de recordações e de impressões deve<t ser suprimido; nem re- 1. Tania não atendeu, ou não considerou possfvel atender, este pedido. Todas as suas


cordo com exatidão o que mais aquela carta continha. Paciência. Olhe, cartas, e também as de Giulia, continuaram sem a numeração sugerida.
pude receber os doces (terça-feira, 26) e agradeço mais uma vez; esta-
vam no ponto, ótimos até mesmo do ponto de vista de meus pobres
dentes. Também gostaria de lhe enviar um presente, mas não sei como 35.
fazer. Com infinita paciência, fiz uma pequena espátula de madeira. A
madeira, com certeza, não é de primeira qualidade (longe disso), sequer 2 de maio de 1927
tem as fibras muito resistentes e compactas, mas o pequeno objeto me
pareceu bem-feito; e, afinal, limei por mais de quinze dias para lhe dar a Querida Giulia,
forma desejada e, no mínimo, nele acumulei algumas centenas de liras
de salário. Seja como for, já sabe que tenho à sua disposição uma peque- Acredito que é mais saudável para minha correspondência não
"i!
na espátula. Isto me lembra a história dos cabinhos da colher e do garfo manter a promessa que havia feito de descrever, pelo menos, a parte

154 155

~·?' ! ',

CAR'TAS DO CÁRCERE , 9 2 .,

positiva de minha aventura. Isto, creia, me frustra enormemente, por- para lhe garantir que houxe quem conhecesse geografia ainda menos
que tenho sempre o pesadelo de estar prestes a ser reduzido a uma do que você; não falemos de história, porque, neste caso, seria preciso
epistolografia convencional e, o que é pior do que o convencionalismo, citar o prof. Loria, acima elogiado, o qual, numa conversa, demonstra-
a uma epistolografia convencionalmente carcerária. Tinha tantas pe- va acreditar que no tempo de Júlio César existia Veneza e, em Veneza,
quenas histórias para lhe contar! Tania contou a história da prisão do se falava como agora ("o doce dialeto da Laguna", segundo sua imagi-
porco? Talvez não, porque Tania não acreditou; achou que era pura nosa desfaçatez). Minha cara, estou tentando lhe escrever o máximo
invenção minha para alegrá-la e fazê-la sorrir. De resto, você também que posso, sobre coisas que, acredito, não farão com que retenham a
não vai acreditar muito nestas histórias (óculos verdes, etc.), que, no carta: por isso, devo aborrecer você com tais bobagens. Abraços mui-
entanto, são belas exatamente porque são verdadeiras (realmente ver- to, muito fortes,
dadeiras): não quis acreditar nem na história dos aeroplanos quepe-
Antonio
gam pássaros com o visgo e na teoria de Loria a este respeito, embora
houvesse a revista com o artigo de Loria como prova 1 • Como lhe dar a 1. Cf. A. Loria. "Le influenze sociali dell'aviazione". La Rassegna contemporanea, 1º
conhecer meu modo de viver e de pensar? Uma grande parte de minha jan. 1910, p. 20-8. No Caderno 28 (intitulado, precisamente, Lorianismo), Gramsci
vida você mesma pode .imaginar; por exemplo, que penso muito em comentou: "Esse artigo é todo ele uma obra-prima de 'bizarrias': nele se encontra
a teoria da emancipação operária da coerção do salário fabril não mais obtida por
você e em todos os demais. Do mesmo modo, minha vida física é facil- meio da 'cerra livre', mas por meio dos aeroplanos que, oportunamente untados
mente imaginável. Leio muito: nestes três meses, li oitenta e dois li- de visgo, permitiriam a evasão da presente sociedade graças à nutrição assegurada
vros da biblioteca do cárcere, os mais bizarros e extravagantes (a pelos pássaros enviscados" (CC, v. 2, p. 258).
Achille Loria (1857-1943), prolífico economista italiano, foi freqüentemente to-
possibilidade de escolha é muito pequena); e tenho também uma certa mado por Gramsci como exemplo, simultaneamente, do cientificismo positivista
quantidade de livros meus, um pouco mais homogêneos, que leio com e da falta de rigor intelectual, para os quais cunhou o termo "!arianismo".
mais atenção e método. Além disso, leio cinco jornais por dia e algu- 2. Na carta de 15 de março de 1927, Giulia havia escrito: "Sabe, consegui as obras
de Dance que você quis me dar um dia [ ... ]. Tenho também Giusti, Pascarella (... ]
mas revistas. E mais: estudo alemão e russo e memorizo uma novela e o Adas famoso, e calvez saiba alguma coisa mais do que antes[ ... ]. Não acredita,
de Puchkin, A senhorita camponesa. Mas, na verdade, percebi que, professor?" (A. Gramsci. Forse rimarrai lontana ... l.ettere a julca 1922-193 7. Org.
M. Paulesu Quercioli. Roma: Riuniti, 1987, p. 20).
justamente ao contrário do que sempre pensei, no cárcere se estuda
mal, por muitas razões, técnicas e psicológfcas.
Recebi, na semana passada, sva carta do dia 15 de março. Espero
com muita ansiedade suas cartas e fico muito feliz quando as recebo. 36.
Gostaria que encontrasse algum tempo para me descrever sua vida e a
23 de maio de 1927
vida de Delio, especialmente. Mas imagino o quanto deve estar sem-
pre ocupada. Quantas coisas gostaria de saber.
Sabe, quando recebi esta sua carta, na qual fala do famoso Atlas, Querida mamãe,
fazia apenas alguns dias que havia devolvido à biblioteca o Guerrin
Faz algum tempo que não recebo suas cartas nem notícias de casa.
Meschino, ..um popularíssimo romance de cavalaria italiano, muito lido
Escrevi a Teresina, mas ela não me respondeu. Assim, durante este tem-
pelos camponeses, etc., principalmente meridionais2 ; gostaria de trans-
po todo vocês não me escreveram nada sobre Grazietta e suas condi-
crever algumas passagens geográficas contidas no romance, entre as
~ &~~ .
mais engraçadas (a Sicília é incluída nas regiões polares, por exemplo),

157
156

~~
l~
K.'

1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

executar movimentos que ~stimulem todos os membros e todos os


Estou bastante bem; minha vida segue sempre a mesma. Leio, como,
músculos, ordenadamente, buscando toda semana aumentar em algu-
durmo, e isto todo dia. Espero sempre a correspondência, mas recebo
mas unidades o número dos movimentos; em minha opinião, a utilida-
muito pouca coisa. Por que não manda pelo menos Cario me escrever?
de disso está demonstrada pelo fato de que, nos primeiros dias, me sentia
Será que seus negócios o absorvem tanto que o impedem de me escre-
todo dolorido e não podia fazer determinado movimento a não ser
ver de vez em quando? Além disso, gostaria de ter o endereço exato
pouquíssimas vezes, enquanto agora já consegui triplicar o número dos
do Mario; desde 1921 não tive mais contato com ele, mas agora soube
movimentos sem sofrer nenhum problema. Acredito que esta inova-
que se interessou por mim e, por isso, gostaria de escrever agradecen-
ção me beneficiou até psicologicamente, distraindo-me especialmente

.,
do1. Escreva-me sobre tudo aquilo que se refere a ele, de modo que
~~
das leituras muito desenxabidas e feitas só para matar o tempo. Mas
pelas minhas cartas não pareça que eu mesmo não tive interesse por .·~-·
não pense que eu estude demais. Acho que estudar de verdade me é
ele durante todos estes anos: quantos filhos tem e como se chamam,
impossível, por muitas razões, não só psicológicas mas também técni-
etc., etc.
Abraços para todos em casa e delicados puxões de orelha em Carlo cas; para mim, é muito difícil me entregar completamente a um tema
ou a uma matéria e me aprofundar só nela, exatamente como se faz
e em Teresina. Para você um abraço afetuoso,
quando se estuda a sério, de modo a apreender todas as relações pos-
Nino síveis e ligá-las harmoniosamente. Alguma coisa neste sentido talvez
comece a acontecer no estudo das línguas, que tento fazer sistematica-
1. Em 17 de maio de 1927, Mario enviou ao irmão preso uma carta que revelava
mente, isto é, não deixando de lado nenhum elemento gramatical, tal
preocupação por suas condições de saúde (Novas cartas de Gramsci e algumas cartas
de Piero Sraffa, cit., p. 88-9). como nunca havia feito até agora, porque me contentava em saber o
suficiente para falar e especialmente para ler. Por isso, até agora não
~1 lhe pedi que mandasse nenhum dicionário: o dicionário alemão de
37.
{' Kohler, que você mandou para Ustica, foi perdido por meus amigos de
lá; vou pedir que mande o outro dicionário, baseado no sistema
23 de maio de 1927 Langenscheidt, quando tiver estudado toda a gramática; então, vou pe-
.. A
dir que também mande as Gespriiche [Conversações] de Goethe com
Querida Tania, Eckermann, para fazer análiseJ> de sintaxe e de estilo e não só para ler;
l1 no momento, leio as histórias dos Irmãos Grimm, que são muito ele-
Recebi na semana passada um cartão e uma carta sua, junto com a -~~. mentares1. Estou mesmo decidido a fazer do estudo das línguas minha
carta de Giulia. ocupação predominante; quero retomar sistematicamente, depois do
Quero tranqüilizá-la quanto a minha saúde: falando sério, estou alemão e do russo, o inglês, o espanhol e o português, que estudei por
bastante bem. Nesta última semana, comi com um vigor surpreenden- alto nos últimos anos; além disso, o romeno, que havia estudado na
te para mim mesmo: consegui que me mandassem a comida quase toda universidade só em sua parte neolatina e agora acho que posso estudar
do jeito de que gosto e acho até que engordei. Além disso, há algum . completamente, isto é, inclusive a parte eslava de seu vocabulário (que,
tempo que me dedico um pouco à ginástica, tanto de manhã quanto de afinal, é mais de 50% do vocabulário romeno). Como vê, tudo isto
tarde; ginástica em ambiente fechado, que não considero muito racio- demonstra que estou completamente tranqüilo, até mesmo psicologi-
nal mas que me auxilia muito, em minha opinião. Faço assim: tento camente; com efeito, não sofro mais de irritabilidade nem tenho aces-

158 159

··: ...
CARTAS DO CÁRCERE
f.927

sos de cólera surda, como nos primeiros tempos; estou aclimatado e 0


observo as faces daqueles C!(Ue vão e vêm, ocupando os outros pátios.
tempo me trancorre com muita rapidez; calculo-o por semanas e não
Depois, vendem os jornais permitidos a todos os detentos. De volta à
por dias, e a segunda-feira é o ponto de referência, porque escrevo e
cela, trazem-me os jornais políticos, cuja leitura me permitem; depois,
faço a barba, operações de fundamental importância.
é a hora das compras e, então, trazem as coisas compradas no dia an-
Quero lhe fazer um catálogo de minha biblioteca permanente, isto
terior, depois trazem o almoço, etc., etc. Em resumo, vêem-se conti-
é, dos livros de minha propriedade, que folheio continuamente e tento
nuamente caras novas, cada uma das quais esconde uma personalidade
estudar. Vejamos. O Corso di Sâenze delle Finanze, de Einaudi, um
a ser decifrada. Por outro lado, renunciando à leitura dos jornais polí-
sólido livro a ser digerido sistematicamente. Sobre finanças, tenho ain-
ticos, poderia ficar na companhia dos outros detentos por quatro ou
da: Gli ordinamenti finanziari italiani, coletânea de palestras dadas na
cinco horas diárias. Pensei nisso um pouco, mas afinal decidi ficar só,
Universidade de Roma por técnicos da administração pública; ótimo
mantendo a leitura dos jornais; uma companhia ocasional me diverti-
livro e de grande interesse. Uma Storia dell'Inflazione, escrita por
ria por alguns dias, talvez algumas semanas, mas no fim, muito prova-
Lewinsohn, muito interessante, se bem que de tipo jornalístico. O li-
velmente, não conseguiria substituir a leitura dos jornais. O que é que
vro sobre a estabilização monetária na Bélgica, escrito pelo ministro
ambas pensam a respeito? Ou será que a companhia, em si e por si,
Frank2 • Sobre economia, não tenho nenhum texto: tinha em Ustica o
lhes parece um elemento psicológico a ser mais valorizado? Tania, você,
ótimo livro de Marshall, mas meus amigos ficaram com ele. Mas te-
como médica, me dê um conselho mais técnico, porque é possível que
nho as Prospettive economiche de Mortara, de 1.927; a Inchiesta Agraria,
eu não seja capaz de julgar com a objetividade que talvez fosse neces-
de Stefano Jacini; o livro de Ford, Hoje e amanhã, que me diverte bas-
- sária.
tante, porque Ford, embora seja um grande industrial, me parece bas-
Aí está, pois, a estrutura geral de minha vida e de meus pensamen-
tante engraçado como teorizador; o livro de Prato sobre a estrutura
tos. Não quero falar dos pensamentos que se dirigem a todos vocês e
econômica do Piemonte e de Turim, um número dosAnnali di Econo-
aos meninos: devem imaginar esta parte e acredito que a sintam.
mia, com uma pesquisa muito cuidadosa sobre a estrutura econômica
Querida Tania, em seu cartão você me fala também de sua vinda a
da região de Vercelli (a região do arroz italiano), e uma série de confe-
Milão e da possibilidade de nos vermos numa visita. Será mesmo para
rências sobre a situação econômica inglesa (há também uma conferên-
valer desta vez? Sabe que faz mais de seis meses não vejo nenhum fa-
cia de Loria) 3 • De história, tenho muito pouc~, assim como de literatura: miliar? Desta vez eu realmente espero vê-la. Abraços,
um livro de Gioacchino Volpe sobre os últimos cinqüenta anos de his-
tória italiana, que é atual mas tem um caráter bastante polêmico, a Storia Antonio
della let[teratura] ital[iana] e os Saggi critici de De Sanctis4 • Tive de
deixar os livros que tinha em Ustica para os amigos de lá, que também 1. Entre 1929 e 1931, Gramsci traduziu vários trechos de Goethes Gespriiche mit
Eckermann (Leipzig: Isnel, s.d. [1921)), bem como histórias de W. Grimm-J.
se encontravam numa situação ruim. Grimm, reunidas em Fünfzig Kinder und Hausmiirchen (Leipzig: Philip Reclam,
Fiz questão de escrever tudo isto porque me parece ser o meio s.d.). Uma coletânea das fábulas dos Irmãos Grimm, na tradução de Gramsci, foi
publicada com o título C'era una volta ... (Roma: Riuniti, 1987).
melhor para que tanto você quanto Giulia façam uma idéia pelo me-
2. Encontram-se ainda hoje no "Acervo Gramsci ", em Roma: II Corso di scienze dei/e
nos aproximada de minha vida e do fluxo comum de meus pensamen- finanze tenuto dai prof. Luigi Einaudi nella R Università di Torino e nel/a Università
tos. Por outro lado, não pensem que esteja completamente só e isolado; Commerciale Luigi Bocconi di Mi/ano (Turim: La Riforma Sociale, 1926); o livro
de A. De Stefani, Lezioni sugli ordinamenti finanziari italiani (Roma: Stab. Pol.
todo dia, de um modo ou de outro, há algum movimento. De manhã, per l'Amministrazione dello Stato, 1926), e o de L. Franck, La stabilisation
tem o banho de sol; quando consigo uma boa posição no pequeno pátio, monetaire en Bell!ique (Paris: Payot, 1927).

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1 61

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19 27
CARTAS DO CÁRCERE

3. S. Jacini. lnchiesta agraria. Proemio. Relazione fina/e. Conclusioni dell'inchiesta estabelecer um imposto mqiücipal único? Os impostos que pagarão os
sulla Lombardia. lnterpellanza ai Senato. Piacenza: Federazione Italiana dei ghilarzenses proprietários de terra em todos estes municípios serão
Consorzi Agrari, 1926 (CC, v. 5, p. 173-4).
O livro de Henry Ford, Au;ourd'hui et demain (Paris: Payot, 1926), será utilizado aplicados em cada um dos lugares ou serão gastos para embelezar
na redação do Caderno 22, Americanismo e fordismo (CC, v. 4, p. 241-82). Ghilarza?
Esta carta ainda menciona Giuseppe Prato, II Piemonte e gli effetti de/la guerra Esta é a questão principar; parece, porque no passado o orçamento
sul/a vita economica e sociale (Bari: Laterza e New Haven: Yale University Press,
1925); S. Pugliese, "Produzione, salari e redditi in una regione risicola italiana", e municipal de Ghilarza era muito pobre porque seus habitantes eram
A. Loria, "La crisi economica britannica'', estes dois últimos ensaios publicados proprietários no território dos povoados vizinhos e a estes pagavam a
nos Annali di Economia (Milão, v. III, jan. 1927). maior parte dos impostos locais. Eis sobre o que deve me escrever, em
4. Gioacchino Volpe (1876-1971) foi um dos expoentes da escola historiográfica eco- .. ~
nômico-jurídica, a qual, na virada entre os séculos XIX e XX, deixou importantes ,!!í vez de pensar sempre em minha situação crítica, triste, etc., etc. Gos-
estudos sobre a Idade Média. Depois de 1910, Volpe orientou-se para o nacio- taria de tranqüilizá-la deste ponto de vista. Claro: não que eu ache
nalismo e o fascismo. Entre 1929 e 1934, foi o secretário-geral da Academia da minha situação muito brilhante. Mas você sabe que cada coisa tam-
Itália. O livro de Volpe em questão chama-se J;Italia in cammino. J;ultimo cin-
quantennio (Milão: Treves, 1927). Sobre a corrente econômico-jurídica e o papel
bém tem valor de acordo com nosso modo de vê-la e senti-la. Ora, eu
nela desempenhado por Croce, cf. carta 303. estou muito tranqüilo e vejo tudo com uma grande calma e uma gràn-
Francesco De Sanctis (1817-1873), intelectual de inspiração hegeliana, exerceu de confiança, não em relação aos acontecimentos imediatos que me
forte influência sobre as concepções gramscianas de literatura e sua relação com o
afetam, mas c:m relação a meu futuro mais distante; estou convencido,
contexto político e social. Sua Storia dei/a letteratura italiana (1870-1871) é fun-
damental para o conhecimento da literatura e da sociedade de seu país entre os corno já escrevi a Teresina, de que não vou apodrecer para sempre na
séculos Xlll e XIX. prisão; e acredito, por intuição, que só fico aqui dentro por três anos,
não mais do que isto, ainda que me condenassem, digamos, a vinte anos.
Veja que escrevo com a máxima sinceridade, sem tentar criar nenhu-
38. ma ilusão: penso que só assim você será forte e terá paciência. E tam-
bém fique absolutamente tranqüila quanto às minhas condições de força
6 de junho de 1927 moral e também de saiide física. Quanto à força moral, você me co-
nhece um pouco. Lembre-se daquela vez (mas talvez não lhe tenhamos
u:
Querida mamãe, \' dito nada na época) em que fizemos uma aposta, entre os rapazes, so-
:,â'
~l bre quem suportava mais dando golpes de pedra sobre os dedos até
:il
Recebi sua carta do dia 23 de maio. E lhe agradeço, porque escre- que saísse uma gota de sangue da ponta dos dedos. Agora, não seria
veu longamente e mandou muitas notícias interessantes. Devia me es- mais capaz, talvez, de resistir a estas provas bárbaras, mas certamente
crever sempre assim e mandar sempre muitas notícias sobre a vida local, me tornei ainda mais capaz de resistir aos golpes de martelo sobre a
mesmo que não lhe pareçam de grande significado. Por exemplo: você cabeça que os acontecimentos me deram e ainda vão me dar. Pense
me escreve que vão anexar outros oito municípios a Ghilarza; mas quais que há mais ou menos dez anos me vejo num ambiente de luta e me
são? E mais: que significado tem esta anexação e quais conseqüências?, fortaleci suficientemente; poderia até ter sido morto uma dúzia de vezes
Haverá só um podestà e uma administração municipal, mas as escolas,' ~"9-
e, no entanto, ainda estou vivo: já é um ganho incalculável. Por outro
por exemplo, como serão organizadas? Vão deixar em cada município lado, também fui feliz por algum tempo; tenho dois meninos muito
atual as escolas primárias ou as crianças de Norbello ou de Dumusnovas bonitos, que certamente são criados e crescem como eu gostaria e que
terão de vir todo dia a Ghilarza até mesmo para a primeira série? Vão se tornarão dois homens enérgicos e fortes. Portanto, estou tranqüilo e

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.,,
. _.:


CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

calmo e realmente não preciso de compaixão ou conforto. E mesmo pre as mesmas; a saúde est~ bastante boa e sigo adiante. Nestas últimas
fisicamente estou bastante bem. Nestes seis meses vi de tudo e passei semanas tive uma grande contrariedade; minha cunhada Tania veio de
por tudo, e descobri que, mesmo fisicamente, sou muito, muito mais Roma até Milão para me visitar, mas adoeceu e desde 14 de maio se
forte do que eu próprio pensava. Tenho certeza de poder resistir tam- encontra num hospital, sem ainda ter podido me ver. Espero que ago-
bém no futuro e, por isso, tenho muita certeza de voltar a abraçar e ver ra ela esteja bem (pelo menos, é o que ela me escreve) e que em alguns
você feliz. dias me faça uma visita.
De vez em quando, sinto saudade de Giulia e de nossos :'.ilhos, mas Não gosto da fotografia de Mea. Sabe no que eu pensava? Que
sei que estão bem. Tenho certeza de que os meninos são criados até com você não usou a moeda de prata que mandei para ser transformada
conforto e cuidado-em excesso: a mãe, os avós, as tias se privariam de numa colherzinha e guardou a moeda no cofrinho ou na caderneta de
pão para que não lhes faltassem biscoitos e boas roupas. Sobre Nannaro, poupança dela. Parece que vejo no rosto desta menina os traços poten-
não consegui saber nada preciso, nunca: soube só que vivia em Paris, ciais de uma beata hipócrita, que empresta dinheiro a juros de 40%.
que trabalhava, e nada mais. Nannaro é muito maluco e estranho, e acre- Parece-me que todo mundo - você, Grazietta e Teresina - estragou
dito que ele mesmo não quis me dar notícias, talvez porque pensasse Edmea. Nunca vou esquecer que, na primeira vez em que Edmea pas-
que eu estava com raiva por ele ter recebido meu salário por cinco ou seou comigo, depois de perguntar se queria chocolate, ela me respon-
seis meses sem me dizer nada, mas eu estava doente num hospital. Pelo deu que eu desse o dinheiro para botar na caderneta. Você acha que
menos é o que eu acho; e por isso digo que ele é doido. Eu sabia em que este é um bom modo de educar as crianças? Eu me pergunto se uma
estado ele se encontrava, como tinha sido ferido por minha causa e nem menina educada assim pode sentir vergonha de se prostituir, pois lhe
teria pensado em censurá-lo ou em lhe pedir um tostão 1• ensinaram que o dinheiro vale por si mesmo e não pelo que pode com-
Querida mamãe, continue forte e tranqüila e não fique muito bra- prar. Quero que Mea tenha mesmo uma colherzinha e não uma moe-
va com o pessoal de Abbasanta. Abraços afetuosos, da, e me escreva se você fez isto.
Sabe o que gostaria que me mandasse? O sermão de Fra' Antiogu
Nino para sua gente de Masuddas 1• Em Oristano será possível comprar, por-
que recentemente Patrizio Carta o reeditou em sua famosa tipografia 2 •
1. A agressão a Gennaro, que trabalhava na adminis~ção de I.:Ordine Nuovo, acon-
teceu em 18 de dezembro de 1922, quando Gramsci já estava em Moscou há al-
Como tenho muito tempo para perder, quero compor no mesmo esti-
guns meses mas, sem saber.disso, os fascistas ainda o caçavam em Turim. lo um poema em que vou pôr todos os ilustres personagens que conhe-
ci quando era criança: tiu Remundu Gana, com Ganosu e Ganolla,
maistru Andriolu e tiu Millanu, tiu Micheli Bobboi, tiu Iscorza alluttu,
39. Pippetto, Corroncu, Santu Jacu zilighertari, etc., etc. 3 Vou me divertir
muito e, daqui a alguns anos, recitaF. o poema para os meninos. Acho
27 de junho de 1927 que agora o mundo se civilizou e já não se vêem mais as cenas que vi-
mos quando crianças. Lembra-se daquela mendiga de Mogoro, que
Querida mamãe, prometeu vir nos buscar com dois cavalos brancos e dois cavalos ne-
gros, para descobrir o tesouro defendido pela musca maghedda, e que
Recebi sua carta do dia 2, com a fotografia de Mea. E, afinal, rece- esperamos por meses a fio4 ? Agora os meninos não acreditam mais
bi sua carta anterior, que também respondi- Minhas notícias são sem- nestas histórias e, por isso, seria bom recitá-las; se nos reuníssemos com

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:{:.

CARTAS 00 CÁRCERE 1 9 2 7

Mario, poderíamos fazer de novo um concurso de poesia! Lembrei- acontecidas à média dos c.pnfinados. A meu ver, uma das atividades
me de tiu Iscorza alluttu, como dizia envergonhadamente tia Grazia: mais importantes a sérem desenvolvidas pelo corpo docente seria re-
será que ainda vive 5 ? Lembra o quanto nos fazia rir com seu cavalo gistrar, desenvolver e coordenar as experiências e as observações pe-
que só tinha rabo no domingo? Viu quantas coisas eu lembro? Aposto dagógicas e didáticas; só deste trabalho contínuo pode nascer o tipo
que consegui fazer você rir. Lembranças afetuosas para todos. Abraços de escola e o tipo de professor que o ambiente requer. Que belo livro
carinhosos, se poderia fazer sobre estas experiências, e como seria útil! Já que minha
j'
opinião é esta, é difícil lhe dar conselhos e mais ainda despejar, como
Nino ~·'
;~ você diz, uma série de idéias "geniais". Penso que a genialidade deve
--~~- ser "enterrada" e, ao contrário, deve ser aplicado o método das expe-
1. Trata-se de uma composição satírica do fim do século XIX, Scomuniga de predi
Antiogu a su populu de !v1.asuddas (cf. , também, carta 57). ~~ riências mais minuciosas e da autocrítica mais desapaixonada ou obje-
2. Patrizio Carta, amigo e parente distante da família, proprietário de uma tipografia tiva. Caro Berti, não pense que eu queira desanimá-lo ou aumentar a
que logo foi à falência. Daí o uso irônico do adjetivo "famosa". confusão que já existe em você, como me escreve.
3. nu e maistru, respectivamente "tio,, e umestre", são termos sardas para o tratamen-
to respeitoso de pessoas mais velhas. Alluttu ("alerta", "vivo") e ziligherta- Para que não pense isto, quero dizer que me convenci de que você,
·,~~.f
ri ("lagarto") contêm, provavelmente, alusão maliciosa ao pênis. depois de ter exagerado de modo juvenil a dose de autoconfiança, agora
4. No folclore sarda, a musca maghedda é uma mosca diabólica e gigante. A pala- exagera ao se subestimar. Posso lhe dizer uma coisa? Sua adolescência
·:;2:
vra maghedda deriva do verbo magheddare, que significa "açoitar ou maltratar o
rebanho".
-~ durou um pouco mais (até digamos, bem mais) do que dura comumente
5. Grazia Delogu (1854-1912), irmã de Peppina Mareias por parte de mãe. Ao mor- nos homens. Mas acho que os estímulos vigorosos aos quais foi sub-
rer, deixou em herança para a irmã e os sobrinhos a casa de Ghilarza em que vivia metido foram benéficos para você, fortaleceram seus ossos.
a família desde 1898.
_Vohand_o_ao assunto. Assim por alto, penso que a escola deveria
__terJ:i;-_~~-m:l.'-J:!~-~damentais, porque cada grau poderia ser dividido em
-~..
--Q!J,"SO~_!_Q_!_!:rceiro grau deve ser o dos .professp~~~-Q!U~q~
40. ~çionar mais como círculo do q'Ue como escola em sentido comum. __,
-.:.-,
Ou s~f:;. ..~~da componente deve dar sua coii'tribuição como conferen-S;' ·-·
" 4 de julho de 1927 %•-
- -cista ou relato~-de-êretermiiiãdos temas CieniíficoS,f:iistóricos ou filo-
~óficos~nrn-s--esp-etiahnente-d1dat1cos e pedagõg1cos. Sobre o curso de
Caro Berti,
filosofia, sempre assim por alto, penso que a exposição histórica deve
ser sintética e, ao contrário, deve-se insistir num sistema filosófico
Recebi sua carta de 20 de junho1 • Muito obrigado por ter escrito.
concreto, o hegeliano, dissecando-o e criticando-o em todos os seus
Não sei se Ventura recebeu minhas inúmeras cartas, porque não rece-
aspectos. E proporia um curso de lógica, incluindo, diria, os barbara,
bo correspondência de Ustica há um bom tempo.
baralipton, etc., e de dialética. Mas poderemos voltar a falar sobre tudo
Neste momento passo por um período de cansaço moral, em rela-
isto, se me escrever de novo.
ção a acontecimentos de caráter familiar. Estou muito nervoso e iras~
Realmente, não sinto vontade de escrever e pensar em tudo isto.
cível; não consigo me concentrar em nenhum tema, mesmo interessante,
Quem é este Parri, que você menciona? Conheci (na Universidade,
como aquele tratado em sua carta. De resto, perdi todo contato com o
estava três anos à minha frente) um certo Francesco Parri, que se tor-
ambiente de vocês e não imagino qual a natureza das transformações
nou professor de história moderna e, acredito, especialista na história.
< . ~,,__~-
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CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

do Risorgimento: era muito competente e, se for ele mesmo, acho que 3. Cario Rosselli (1899-1937), um dos líderes do antifascismo italiano. Exi1':ido na
seria muito útil um curso especial sobre·o Risorgirnento 2 • O Parri em França, seria um dos funda~ores, em 1929, do rnovirnenro Giustizia e libertà, de
inspiração liberal-socialista. Em 1936, Cario liderou um grnpo d<! voluntários na
questão seguia, se bem me lembro, a escola histórica turinense, a dos guerra civil da Espanha. Em junho de 1937, ele e o irmão, Nello, foram assassina-
historiadores economistas, que busca diretamente em Smith e Ricardo dos na Normandia pelos cagoulards, terroristas franceses de extrema-direita. Na
a tradição científica da pesquisa econômica sobre a história (Einaudi, carta, Gramsci menciona o livro de Nello Rosselli, Mazzini e Baiwzmine, 12 anni
di movimento operaio in ltalia - 1860-1872 (Turim: Bocca, 1927).
Prato, Porri, etc.), e poderia fazer uma exposição muito interessante 4. Cesare Marcucci (1906-1980), estudante de Medicina originário das Marcas, CC'-
sobre as origens do Estado unitário italiano. Já que conhece o Rosselli munisra, preso em 1926 e condenado a cinco anos de confinamento em Ustica.
(eu não conheço), por favor lhe diga que agradeceria se me conseguis- S. Corrado Barbagallo (1877-1952), historiador que enfatizou o fatnr econômico em
se o caderno n. 8 (da p. 113 até a p. 128) do livro de seu irmão sobre suas interpretações, deixou importantes trabalhos de história antiga, até se orien-
tar, depois da Primeira Guerra, para temas contemporâneos de história política e
o movimento cooperativo italiano durante o Risorgimento: em meu econômica. Gramsci mencionou criticamente Barbagallo várias vezes em CC: cf.,
exemplar falta este caderno e está repetido o n. 21, por erro de enca- por exemplo, v. 1, p. 92; v. 4, p. 25-6 e 106; e v. 6, p. 207-8.
dernação; não sei como conseguir de outro modo (o livro custa 26 li-
ras!) e aquele capítulo, exatamente, é muito interessante3 •
Caro Berti, cumprimente todos os amigos. Cordialmente, i.~>. 41.
Antonio
11 de julho de 1927
Estou recebendo neste momento a carta de Marcucci de 29 de ju- Querido Carlo,
nho4. Estou realmente satisfeito porque Marcucci resolveu me escre-
ver. Peça a ele que conte a história. Marcucci não me conhecia e levou
Recebi seu cartão de 2 de julho. Talvez a mamãe, neste momento,
a sério uma de minhas brincadeiras que você lhe contou. Tranqüilize
já tenha recebido minhas cartas. De todo modo, minhas duas últimas
Marcucci de minha parte e diga a ele que tenho na cela um passarinho,
cartas não tiveram resposta e, por isso, imagino que ainda estejam a
que vai brincar nos sapatos e os cobre graciosamente de respingos
caminho. Mas quer saber o que pensei? Você me escreveu que não mais
equívocos, para meu grande divertimento; eli: só vou limpar depois de
recebiam minhas notícias só como um pretexto para o cartão, já que
ver o trabalho no devido ponto artístico. (Artístico em relação ao cur-
há muito tempo não me escreve x;nais. Por que não me escreve algumas
so de história da arte de vocês, sobre o qual, exatamente, me escreve
vezes? Será que você está assim tão profundamente mergulhado e ab-
Marcucci.)
sorvido nos negócios? Ou Giulia e Lia é que lhes enchem os ouvidos o
Um livro auxiliar para o curso de história: recomendo o livro re-
dia inteiro com sua tagarelice e suas fofocas 1 ? Imagino que deve ser
cente de Corrado Barbagallo, I.:oro e il fuoco, Ed. Corbaccio, Milão,
um belo divertimento tê-las por perto. Já descobriram um jeito de fazer
Buenos Ayres, 69, 14 liras5 • · •
algum comércio novo e original, como o de pequenas coroas, imagens
1. Cf. carta 1, apêndice 2, v. 2, p. 457-9.
ou cartões-postais? É uma lástima que a famosa Zuanna Culemamigu
2. Na realidade, Berti se refere a Ferruccio Parri (1890-1981), detido·com Cario tenha morrido, agora que a empresa se estabeleceu; lembra-se disso?
Rosselli, em dezembro de 1926, por ter organizado a fuga do socialista reformista Mas talvez ainda exista a tia Tana 2 •
Filippo Turati para a França. Ferruccio Parri seria uma das maiores figuras do Par-
tido de Ação durante a Segunda Guerra e o primeiro presidente do conselho de
Continuo sempre do mesmo modo, isto é, razoavelmente bem.
ministros no pós-guerra. Estudo, leio e o tempo me passa muito rapidamente, mais do que pos-

168 169
·.j:.

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~:. ,.

1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

de ajudar Gramsci a fugir para a Suíça, mas não chegou a tempo (Paolo Spriano.
Storia dei Partito comunista )taliano. Turim: Einaudi, 1974, v. 2, p. 64-5). Emi-
so acreditar. Tento não pensar em nada além de minhas ocupações graria para a França, a Bélgica e, finalmente, a URSS. Em 1949, de volta a Bolo-
carcerárias, de modo a ficar tranqüilo. Não sei se vou conseguir sem- ;_·,1;
nha, foi vereadora e secretária provincial da União das Mulheres Italianas. As cartas
pre, mas até agora consegui. Deste ponto de vista pode tranqüilizar a de Gramsci a Ester foram perdidas.
mamãe. E, aliás, se me sentisse mal ou precisasse de alguma coisa, es- 2. Tatiana sofria de uma série de doenças crônicas, como distúrbios gastrointestinais,
:·:Lj flebite, dores de cabeça, deficiência na tireóide e problemas respiratórios, além de
creveria a você ou à Teresina. Abraços para todos. Afetuosamente, :;;1 comer mal e irregularmente.
Nino ... ~~

1. Giulia e Lia Delogu, irmãs de Serafino Delogu. 43.


2. Sobre estes personagens, "símbolos" do ambiente camponês, cf., também, carta ;,i,
198. .··~:i 25 de julho de 1927
9.

42.
18 de julho de 1927
1
L.
;;,~.
'
Querida Tania,

Recebi, nesta semana, só uma carta da Ester. Ontem, domingo,


estava realmente convencido de que você viria me visitar. Mas não
-~~: suponha, querida, que me irritei porque ainda não pôde me ver e de
Querida Tania, algum modo pensei que o atraso foi causado por negligência sua. Pare-
·~.1
ce que li algo do gênero na carta da Ester. Não. Fiquei nervoso porque
Recebi sua carta do dia 11. Não escrevi antes diretamente, porque ~,·;-;
não tinha notícias suas regularmente e porque as notícias eram vagas e
não sabia seu endereço exato. Mas pensava que a Ester lhe mostrasse
1
~-,
incertas. Compreendia que você me escrevesse como me escrevia, por-
sempre minhas cartas que eram escritas especialmente para você • Cara
I,'_ que vi, em outras vezes, como se importa pouco com sua saúde, mas
Tania, por certo você imagina quanta dor senti e sinto por todo este
não compreendo como a Ester, pelo menos, não tenha a noção de que
transtorno de doenças em que se meteu por minha causa. Não com-
devia me escrever de maneira mais concreta 1 • Mesmo agora compre-
preendo nada disso, mas, ao ouvir certas paHivras que zunem como
endo pouco. Ester me escrevera que você já tinha sido operada por
t 2
moscas, acho que se trata de coisas muito complicadas • Fiquei muito :t1
·:~·· causa de apendicite; mas, de acordo com sua última carta, parece que
"
~j consolado porque já pôde sair do hospital. E sabe o que é que, espe-
a operação ainda não se realizou. Além do mais, junte esta incerteza ao
1: ·{~
cialmente, provocava meu nervosismo? Era o fato de não saber nada
i fato de que, desde o fim de maio e por quase todo o mês de junho, eu
t de concreto e pensar que, enquanto você estava doente em Milão, eu
~ acreditava que devia parti~'para Roma de um dia para o outro. Imagi-
podia ser transferido para Roma de um dia para o outro, sem tê-la vis-
ti,: ne meu estado de espírito em tais condições. Em alguns momentos fi-
to. Tenho de devolver a caneta e devo parar. Abraços carinhosos, com
t~ quei furioso de verdade. Aque!es "estou bem", que vocês escreviam,

a esperança de vê-la em breve. doíam como um espinho. Veja, em meu vilarejo se conta esta história:
'
! Antonio o Governo, através dos governadores de província, enviou a todos os
?

municípios, muito tempo faz, uma circular em que se perguntava a qual


1. Ester Zamboni (1890-1963), professora de Bolonha, assistiu Tania durante o distância da área habitada se encontrava o cemitério. O prefeito res-
internamento hospitalar em Milão, no verão de 1927. Em 1926, fora encarregada
L,.
~:

}_: 1 71
t 170

}~
;~·

~'
·.·.:.·.

CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

pondeu da primeira vez: ''A um tiro de espingarda". O formulário foi sobre ele, pois nem eu mesmo jamais consegui tê-las; rcntava só lhe
devolvido, com um pedido de maior exatidão, e o prefeito foi mais
• do silêncio de Nannaro, pelo menos a meu
explicar as razões prováveis
preciso: "À distância de uma pedra, arremessada por um braço treina- respeito.
do"; o formulário foi devolvido mais uma vez e o prefeito foi ainda As crianças me parecem ter ficado muiro bem na fotografia, em-
mais preciso: "Um vôo de cotovia, de segunda ninhada". Não lhe pa- bora esta não seja muito boa. Pode-se ver que são duas ci-ianças boni-
rece que você e a Ester tiveram e têm contra o sistema métrico decima.1 tas. Na outra fotografia de Franco que me mandou, o menino parecia
das notícias a mesma aversão daquele prefeito? um velhote; estava muito magro e sem brilho. Há algum tempo não
Querida Tania, apesar de tudo, sinto-me muito culpado e lamento recebo mais notícias de Giulia; faz três meses que não sei nada dela
ter perdido deste modo o controle de mim mesmo. Por favor, não abra nem dos meninos. Minha cunhada continua doente no hospital; acho
mão de nada para readquirir a saúde e faça tudo que, na clínica, jul- que exatamente por estes dias ela deve ter sido operada, porque há
guem necessário. Posso esperar e vou esperar com muita paciência. Eu vinte dias não tenho notícias dela. Estou me acostumando a não pen-
lhe quero muito bem. sar em mais nada e a deixar as coisas seguir como são. Abraços para
todos,
Antonio
~; Nino
1. Das seis cartas conservadas de Ester Zamboni a Gramsci, numa delas, de 16 de
julho, pode-se ler: "Não sei o que posso fazer para tirá-lo desta irritação nervosa
'~i
bem justificada que o atormenta. [... ] Só lhe transmito por escrito o que a sua
Para que não enganem você, aviso, por precaução, que a moeda de
cunhada me afirma e pede que lhe comunique. Compreendo que a coisa já se pro- -i_'
prata não vale só 5 liras, mas hoje vale 20 liras. Quando mandei, valia
longa além dos limites de toda paciência humana ... Mas o que fazer?! Além disso, cerca de 30 liras e com ela se podia muito bem fazer uma colherzinha
veja que não tenho a possibilidade de ficar com Tatiana muito tempo ... nem posso para uma criança.
ir com muita freqüência à clínica. Imaginava que ela própria o mantivesse infor-
~
mado sobre aquilo que se refere a ela e também tivesse enviado o endereço. [...]
Peço-lhe também, caro Antonio, que leve a coisa do modo mais filosófico possí- 'º'!'
;r,
~;· -:

vel. Não se irrite com quem não tem culpa nenhuma ... e, sobretudo, não se irrite :.~ 45.
com quem se acha num estado de espírito que não é nada invejável" (Lettere 1926-
}~-
1935, cit., p. 123-4). lt
8 de agosto de 192 7

44. Querida Tania,


·J.\f'.
1° de agosto de 1927 Recebi sua carta de 28 de julho e a carta de Giulia. Não recebia
1;ci,•'
cartas desde 11 de julho e estava muito angustiado, a tal ponto que fiz
~~ algo que vai lhe parecer uma tolice: mas não quero dizer o que é, só
Querida mamãe,
direi quando vier me visitar. Lamento que você esteja moralmente es-
Recebi sua carta de 12 de julho e a fotografia dos dois filhos de gotada. E lamento ainda mais, porque tenho certeza de que contribuí
Teresina. Você recebeu minha outra carta, na qual llie escrevo algo sobre para deprimi-la. Cara Tania, sinto sempre um grande medo de que esteja
Nannaro? Se não recebeu, não imagine que mandei notícias precisas pior do que me escreve e se encontre em dificuldades. E por minha

173
172

~
CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

causa. Este é um estado de espírito que nada pode destruir. Está enrai- do e se arrastava penosame{lte para comer e beber. Então, subitamen-
zado em mim. Você sabe que, no passado, vivi como um urso na caver- te morreu. Ao co1trário, o pássaro atual é tão domesticado que enjoa;
na exatamente por causa deste estado de espírito: porque não queria <t•· quer a comida na boca, embora coma muito bem por si só; sobe no
que ninguém se envolvesse com minhas mazelas. Quis até mesmo que sapato_,.e s.e enfia .na bainha da calça: se não tivesse as asas apa:radas,
minha família me esquecesse, escrevendo para casa o menos possível. :.~-~1
voari~ atê meu joelho; vê-se que quer fazer isto, porque se estica, tre-
Mas chega! Gostaria de fazer algo que pelo menos fizesse você sorrir. me, depois sobe no sapato. Acho que vai morrer também, porque tem
Vou contar a história de meus filhotes de pardal. Deve saber que tenho ·3~ 0 costume de comer a ponta queimada dos fósforos, sem falar no fato
um pardalzinho e tive outro, que morreu, acredito que envenenado por ···-··· de que comer sempre miolo umedecido de pão deve causar distúrbios
-.~·

algum inseto (uma barata ou uma centopéia). O primeiro pardal era mortais nestes passarinhos. Por ora goza de boa saúde, mas não tem
muito mais simpático do que o atual. Era altivo e tinha grande vivaci-
dade. O atual é muito modesto, de ânimo servil e sem iniciativa. O il vivacidade; não corre, está sempre por perto e já levou involuntaria-
mente algumas pisadas. Eis, então, a história de meus passarinhos.
primeiro se tornou logo o dono da cela. Acredito que tivesse um espí- Você também vai escrever a Giulia por mim, não vai? Pensei em
rito eminentemente goethiano, como li numa biografia de Goethe. Über escrever a ela diretamente; o que acha? Daria no mesmo, mas como
allen Gipfeln 1 ! Conquistava todos os pontos mais altos existentes na escrever toda semana para você e para Giulia separadamente? Toda a
cela e então pousava por alguns minutos, saboreando a paz sublime. minha correspondência se resumiria a isto; e, por outro lado, quero
Empoleirar-se na rolha de uma garrafinha de tamarindo era sua obses- lhe escrever toda semana. Cara Tania, quero-lhe muito bem. Abraços,
são permanente: e, por isso, uma vez caiu num recipiente cheio de borra •
Antonio
de café e quase se afogou. O que me agradava neste passarinho é que
não queria ser tocado. Revoltava-se ferozmente, abrindo as asas e bi- '•j 1. "Sobre todos os cumes", início do poema "Wandrers Nachdied" [Canção noturna
cando a mão com grande energia. Havia sido domesticado, mas não .-~·
do caminhante], de Goethe, e título de uma biografia do poeta publicada por Paul
permitia muita intimidade. O curioso é que sua relativa familiaridade 't Heyscr em Berlim, em 1895. Uma antologia goethiana também se chamava Über
não foi gradual, mas repentina. Andava pela cela, mas sempre no can- allen Gipfeln. Goethes Gedichte im Rahmen seines Lebens [Sobre todos os cumes.
A poesia de Goethe no contexto de sua vida]. ·Gramsci havia deixado esta antolo-
to oposto ao meu. Para o atrair, eu lhe oferecia um mosquito numa gia em Ghilarza e depois a pediria em Turi (cf. carta 126). E traduziria uma parte
,_-,: dela, sob o titulo "Exercícios de língua alemã sobre as poesias de Goethe".
caixinha de fósforos; só o pegava quando etf ficava longe. Uma vez,
havia cinco ou seis mosquitos na caixinha em lugar de um; antes de ,~~-

comê-los, dançou freneticamente ao redor durante alguns segundos; a ~'t'


dança sempre se repetiu quando havia muitos mosquitos. Certa ma- ri 46.
·X
nhã, voltando do banho de sol, o passarinho veio para bem perto de _r,;...<1.:

mim; não se afastou mais, no sentido de que a partir de então estava l 8 de agosto de 1927
sempre por perto, olhando-me atentamente e vindo de vez em quando
bicar os sapatos para que eu lhe desse alguma coisa. Mas nunca permi- Querido Berti,
tiu que o pegasse em minha mão sem se revoltar e sem buscar fugir
imediatamente. Morreu lentamente, isto é, teve um ataque repentino, Recebi sua carta de 15 de julho. Asseguro-lhe que meu estado de
de noite, enquanto estava recolhido sob a mesinha, gritou como um 'i saúde não está pior do que nos anos passados: até acredito que tenha
menino, mas só morreu no dia seguinte: tinha o lado direito paralisa- ' melhorado um pouquinho. Por outro lado, não faço nenhum trabalho,

174 175

}.
-~..--

~ :

CARTAS DO CÁRCERE
1 9 2 7

porque não se pode chamar de trabalho a leitura pura e simples. Leio


muito, mas desordenadamente. Recebo alguns livros de fora e leio os
Alemanha é a ramificação ~xtrema do asiatismo ideológico, França a e
o início da África tenebrosa e o jazz-band é a primeira molécula de
Ilvros da biblioteca carcerária, mais ou menos ao acaso, uma semana
uma nova civilização euro-africana!
depois da outr:á. Tenho uma bendita capacidade de-·encp!lfrar aspectos
Muito obrigado por ter tentado conseguir para mim as páginas que
interessantes até mesmo na produção intelectual mais ba'.'fxa, fpmo os
faltam em meu exemplar do livro de Rosselli 4 • Você leu o livro? Não
romances de folhetim, por exemplo. Se tivesse possibilida·de, acumu-
conheço Rosselli, mas gostaria de dizer a ele que não compreendo num
laria centenas e milhares de fichas sobre vários temas de psicologia
livro de história a acrimônia que ele coloca no seu. Isto, de um modo
popular difusa. Por exemplo: como nasceu o mito do "rolo compres-
geral. Em particular: o ponto de partida de seu livro me parece dramá-
. sor russo" de 1914; nestes romances se encontram centenas de suges-
tico até o ponto do histrionismo (naturalmente, o resenhista do Giornale
tões a propósito, o que significa que existia todo um sistema de crenças
e temores enraizados nas grandes massas populares e que, em 1914, os d'ltalia se apropriou deste ponto e o desvirtuou com a maior vulgari-
governos [impunham o que se poderia chamar de suas próprias cam- dade)5. Além disso, Rosselli sequer menciona o fato de que a famosa
panhas nacionalistas de agitação]1. Do mesmo modo, encontram-se reunião de Londres, em 1864, para a independência da Polônia, era
centenas de sugestões sobre o ódio popular francês contra a Inglater- pedida há alguns anos pelas sociedades napolitanas e foi convocada
ra, ligado à tradição camponesa da Guerra dos Cem Anos, do suplício exatamente por conta de uma explícita carta de uma sociedade na-
de Joana D'Arc e, depois, às guerras e ao exi1io de Napoleão. Não é politana. O fato me parece decisivo. Em Rosselli, existe (para ele) uma
extremamente interessante que os camponeses franceses, sob a Res- estranha deformação intelectual. Os moderados do Risorgimento, os
tauração, considerassem Napoleão um descendente da Donzela? Eu quais, depois dos fatos de Milão, em fevereiro de 1853, e poucos dias
remexo até mesmo no lixo. Por outro lado, alguns livros interessantes arttes do enforcamento de Tito Speri, enviaram uma mensagem de re-
me caem nas mãos de vez em quando. Estou lendo agora VÉglise et la verência a FranciSco José, num certo momento, especialmente depois
Bourgeoisie, primeiro tomo (300 p. in-8°.) de Origines de /'esprit de 1860, mas ainda mais depois dos acontecimentos de Paris em 1871,
bourgeois en France, de um certo Groethuysen. O autor, que não co- se apoderaram de Mazzini e o transformaram num baluarte, até mes-
_\,t:
nheço, mas deve ser um seguidor da escola sociológica de Paulhan, teve mo contra Garibaldi (ver Tullio Martello, p. ex., em sua Storia) 6 • Esta
~-- tendência continuou até hoje e é representada por Luzio7 • Mas por que
a paciência de analisar molecularmente as cc5letâneas de sermões e de
livros de devoção saídos antes de 1789, para reconstruir os pontos de também por Rosselli? Eu pensava que a jovem geração de historiado-
vista, as crenças, os comportamentos· da nova classe dirigente em fót- res se tivesse livrado destas diatribes e da acrimônia que as acompanha
mação2. Ao contrário, tive um grande desapontamento intelectual com e tivesse posto a crítica histórica no lugar dos feitos glc'>riosos. De res-
o.livro tão trombeteado de Henri Massis, Défense de l'Occident; acre- to, o livro de Rosselli realmente "preenche uma lacuna". Recebi um
dito que Filippo Crispolti ou Egllberto Martire teriam escrito um livro cartão de Amadeo. Minhas saudações afetuosas a todos, inclusive ao
mais enxuto, se o tema lhes tivesse vindo à cabeça3 • O que me faz rir é Rosselli e ao Silvestri8 • Abraços,
o fato de que este ilustre Massis, o qual tem um medo sacrossanto de Antonio
que a ideologia asiática de Tagore e de Gandhi destrua o racionalismo
católico francês, não perceba que Paris se tornou uma semicolônia do 1. A frase entre colchetes, censurada, permaneceu legível.
intelectualismo senegalês e na França se multiplica o número o núme- O mito do "rolo compressor russo" relacionava-se ao medo, espalhado no início
da Primeira Guerra, de que a Rússia, com sua vasta população, iria lançar-se
ro de mestiços. Para rir um pouco, seria possível argumentar que, se a avassaladoramente sobre a Europa.

176 177

1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

2. O livro de Bernard Groethuysen - Origines de l'esprit bourgeois en France. 1: cancelados, não me lembr.o bem se no final de 1925 ou no início de
I;Église et la Bourgeoisie (Paris: Gallimard, 1927) - tem um prefácio em forma 1926. Pelo menos, acredito que se trata deste assunto, porque há dois
de "Carta a Jean Paulhan". É possível que Gram.sci queira se referir aqui, errone- dias me perguntaram o endereço de minha família, que havia sido re-
amente, a Frédéric Paulhan (1856-1931), psicólogo, filósofo e estudioso de pedjl-
gogia, pai de Jean Paulhan (1884-1968), também escritor mas não sociólogo. !A querido pela Rede Ferroviária por causa de uma "questão administra-
obra de Groerhuysen (1880-1946) aparece várias vezes nos Cadernos. ' tiva". Primeiro eu respondi que, sendo maior de idade, minha família
3. H. Massis. Défense de /'occident. Paris: Plon, 1927. Sobre o integrismo de Massis, era eu mesmo, mas, como o requerimento era muito incisivo, me per-
definido como "reacionarismo católico", cf. CC, v. 4, p. 219.
Filippo Crispolti (1857-1942) foi escritor e publicista católico e, a partir de 1922, guntaram o endereço dos pais. Explico o caso. Como deputado, tinha
senador filofascisra. Gramsci se ocupou de Crispolti muitas vezes nos Cadernos, direito todo ano a oito bilhetes de primeira classe e a quatro de segun-
mas em 1916 e 1917 já havia travado com ele várias polêmicas jornalísticas. da para as pessoas da família ou para quem viajava comigo como com-
Egilberto Martire (1887-1952), jornalista e deputado do Partido Popular, fundou
em 1924 o Centro Nacional Católico, favorável ao fascismo.
panhia por motivo de saúde. Usei estes bilhetes algumas vezes para ter
4. Cf. carta 40, n. 3. companhia, porque em todos estes anos passados estive sempre muito
5. Resenha de Ugo D'Andrea, Giornale d'ltalia, 15 mar. 1927. fraco e sofria algumas vezes de desmaios e tonturas. Uma vez fui de
6. As variadas referências ao movimento de unificação nacional estão explicadas, em
particular, no Caderno 19, Risorgimento italiano. Sobre as contradições dos mo- ,;];
Roma até Milão e meu acompanhante devia voltar logo - como fa-
derados por ocasião da rebelião mazziniana em 1853, cf., inter alia, CC, v. 5, p. zer? Fui até o funcionário dos bilhetes especiais e lhe pedi esclareci-
83 e 97.
j-
mento; respondeu-me que eu podia liberar o bilhete, especificando:
Tullio Martello (1841-1918) escreveu, em 1873, uma Storia de/la Internazionale
"retorno do acompanhante". Foi o que fiz e, em seguida, repeti ames-
dalle sue origini ai Congresso dell'A;a. Reeditada em 1921, foi definida por Gramsci,
em carta a Terracini de janeiro de 1924, como "um libelo reacionário contra a ma coisa outras duas vezes. Em maio de 1926, quando devia buscar os
Internacional" (Lettere 1908-1926, cit., p. 179). 1i bilhetes do novo ano legislativo, estes me foram recusados, e me co-
7. O historiador moderado-clerical Alessandro Luzio (1857-1946) escreveu vários :f'
municaram que deveria pagar, para obtê-los, alguns milhares de liras,
volumes sobre o Risorgimento. Gramsci criticou duramente sua "historiografia ten- ~ a quantia de três bilhetes mais a multa. Eu acho que não devo pagar
denciosa e facciosa" (cf., por exemplo, CC, v. 5, p. 121-6).
·~~~.
8. Nello Rosselli permaneceu confinado em Ustica de junho de 1927 até fevereiro de nada: 1 º) porque não houve má-fé de minha parte; apresentei no gui-
1928. Na ilha também se encontrava Cario Silvestri, jornalista liberal do Corriere chê bilhetes que foram aceitos, apesar de neles estar escrito claramen-
de/la Sera, que trocou cartas com Gramsci em 1927 e 1928. Nas fichas da polícia, ~:-.-,

Rosselli e Silvestri são apontados como "liberais waçônicos".


·.1' te: "retorno do acompanhante"; isto significa que o regulamento não
:~
é claro e que os funcionários não sabem interpretá-lo; 2°) porque fui
::t_1 prejudicado por não ter usado os bilhetes de 1926. Eu lhe expliquei
47.

22 de agosto de 1927
r· isto para que veja que não houve nada errado de minha parte. Em
qualquer caso, sou o único responsável e não sei o que pretendem de
meus pais. Portanto, se. receber um aviso deste tipo, responda que vocês
não têm nada com isto, que há vinte anos sou independente de minha
Querida mamãe, família, vivo e tenho família por minha própria conta. Espero notícias
suas. Abraços afetuosos,
Faz um mês que não recebo suas cartas. Como estão vocês? Escre- Nino
vo para lhe avisar que não se preocupe se receber (ou já tiver recebido)
alguma notificação da Rede Ferroviária, na qual se fala de três bilhete~
por mim liberados, como deputado, para três pessoas, e que foram

178 179
1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

48. dar, como papai. Antes de me ver, Mario foi visitar minha cunhada no
hospital, de modo que trouxe' notícias dela e me tranqüilizou um pou-·
22 de agosto de 1927 co. Ele prometeu que escreveria a você, imediatamente, para dizer que
me encontrou bastante bem de saúde. O que você me escreveu sobre
Querida Tania, ele parece exagerado. Neste caso, ninguém pode ser mais isc:nto e ob-
jetivo do que eu, pois Mario milita no campo oposto ao meu. Quando
Faz quase um mês que não recebo notícias suas; a última carta é de fui visitá-lo, há alguns anos, na casa dele, acredito que cheguei a uma
29 de julho. Tornei-me mais paciente, é verdade, mas este estado de opinião exata sobre todo o ambiente do qual ele era uma espécie de
coisas me aflige muito. No mês passado, antes de receber sua carta do herói. Mas são coisas que é melhor não escrever e, por outro lado, Maria
dia 29, não sabendo o que pensar, escrevi à Srta. Nilde. Ela me respon- é meu irmão e gosto dele, apesar de tudo. Espero que ele agora cuide
deu muito gentilmente e me afirmou que o prof. Bastianelli não consi- mais de seus negócios e tenha juízo. Se vier me ver de novo, como me
dera necessária a operação no caso de sua enfermidade· e que escreveu disse, vou tentar encontrar um jeito de lhe dizer alguma coisa, especi-
neste sentido para um médico do hospital. O prof. Bastianelli acredita almente sobre sua mulher, que, certamente, não é uma mulher como
que você precisa de tranqüilidade, ar puro e boa alimentação. Tudo você e se reduziria a um trapo se tivesse de lutar contra uma dificulda-
isto está correto, mas não basta para me tranqüilizar, porque acho que de um pouquinho mais séria. Nem pensar em renunciar a uma tempo-
você não está tranqüila nem goza de ar puro e, provavelmente, anda rada na praia, no campo ou a um vestido novo.
comendo pouquíssimo. Escreva-me quantas vezes for possível; pelo
.j.· Lamento que Grazietta ainda esteja mal; por que ela não me escre-
menos algumas cartas vão me chegar e dar um pouco mais de paciên- ve algumas vezes? Abraços afetuosos para todos; e muitos, muitos bei-
jos para você.
cia. E escreva a Giulia, tranqüilizando-a. A última carta dela estava um
pouco melancólica (chegou a ler?). Abraços, Nino
Antonio
(E o sermão do padre Poddighe, quando é que vai me mandar?)
"' -a!,
49.
50.
29 de agosto de 1927
29 de agosto de 1927
Querida mamãe,
Querida Tania,
Recebi hoje sua carta do dia 17 e respondo imediatamente, apesar
Na quinta-feira, recebi a visita de meu irmão Maria, que me tran-
de ter e"scrito a você também na semana passada.
qüilizou sobre suas condições1. Estava tão superagitado por causa da
Na quinta-feira Mario esteve aqui e nos falamos por cerca de quinze
falta de notícias suas que, depois da visita e da descarga nervosa por
minutos. Ele está muito bem. Mencionou seus negócios, que agora tam-
ela provocada, me senti mal: não dormi durante a noite e devo ter tido
bém caminham bastante bem. Parece ter uma leve tendência a engor-

1 81
180

~ ,,

~-
~:

1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

um pouco de febre. Mas não sei explicar a falta de suas cartas. Mario pequenas. Quando puder dizer·tudo o que pensei neste mês, certamente
me disse que convidou você a passar alguns dias em Varese,. na casa vou fazê-la rir: realmente,'acredito que imaginação em excesso é uma
dele. Por que não aceita? O calor já passou, mas o campo ainda deve grande desgraça. Abraços afetuosos,
estar agradável e a região dos lagos lombardos é digna de ser vista. Meu Antonio
irmão é um bom rapaz e tenho certeza de que você estará à ton aise na
casa dele. Conheço pouco sua mulher; só a vi uma vez, há muitos anos, 1. Em 25 de agosto de 1927, Tatiana escreveu aos pais: "[Antonio], coitado, não acre-
quando estava para dar à luz, e não acredito que este seja o momento ditava nas minhas cartas referentes à minha saúde, e a agitação pela qual estava
mais adequado para conhecer uma senhora. Você ainda poderia fazer passando o obrigou a escrever ao seu irmão, com o qual não se ~nc;ontrava e ao
qual não escrevia há sete anos, pedindo-lhe que viesse a Milão e desse um pulo no
alguns passeios bonitos; a própria Varese possui um lago, além de co- hospital. E hoje ele apareceu. [...] O irmão, hoje, deve visitar Antonio, já conse-
linas muito bonitas. Mas, por ora, como é que tem passado o tempo? guiu a autorização e, naturalmente, irá tranqüilizá-lo e lhe comunicar que eu irei
Tem livros? Poderia lhe mandar alguns livros, mas não sei como fazer. logo visitá-lo. O irmão não sabia nem da sua prisão, supunha que tivesse partido
para o exterior" (Lettere ai familiari, cit., p. 32-3).
Li um romance de uma escritora inglesa, Margaret Kennedy, que me 2. Em The Constant Nymph, título original do romance publicado em 1924 e tradu-
parece de muito valor. O título, La ninfa innamorata, é bastante tolo, zido na Itália três anos depois, Margaret Kennedy (1896-1967) descreve a saga
mas o livro é realmente interessante: não sei por quê, me lembra O dos Sangers: Albert, músico e compositor, é o pai e Tess é a filha adolescente,
educada de modo antiautoritário. Extremamente popular na época, o romance
idiota, de Dostoievski2. Mas não pense que tem a mesma intensidade; teve conhecidas adaptações para teatro e cinema.
é certamente admirável, seja porque escrito por uma mulher, seja pela
atmosfera psicológica na qual foi concebido, seja ainda pelo mundo
que descreve; além disso, está bem traduzido. Certamente você irá lê-
51.
lo, porque será preciso lhe mandar estes livros que tenho aqui, quando
partir de Milão, ou de Roma, assim que for encaminhado a algum ins- ·:~l
5 de setembro de 1927
tituto penal definitivo, após o processo. Queria que mandasse este ro- :~~·
mance para Giulia, depois de o ler. Então, vou escrever a ela e dizer -":
Querido Berti,
por que o livro deve lhe causar interesse. Veja, trata-se, no romance, ~.
;;
'-~'
de uma espécie de falanstério de músicos, f}ue vivem, desenvolvem -t
j Recebi seu cartão do dia 11 de agosto. Antes já havia recebido al-
modos de pensar e de julgar em torno deste fato fundamental: a cria- ·''
'.,..~!~
gumas de suas cartas, às quais respondi diretamente ou quando escrevi
ção e a sensibilidade musical. Giulia me disse uma vez que, quando
ao Lauriti. Mas nestas últimas semanas não recebi correspondência de
menina, pensava em transformar o mundo com a música. No roman-
~' parte nenhuma, excetuados: 1 º) um cartão do casal Tucci, a quem re-
ce, é o mundo que tritura os protagonistas: de qualquer modo, o livro ~L.

é interessante e bem traduzido. Já observou como são mal traduzidos tribuo as saudações mais cordiais; 2°) um cartão de Renzo Menotti,
os romances de Conrad? Não só não se tem em italiano um estilo e sobre quem você me havia escrito e que eu imaginava fosse um tu-
uma expressão que equivalha ao original inglês, mas se massacra a pró- rinense; agora me lembrei dele e retribuo as saudações 1 • Você se en-
pria língua italiana. carrega desta distribuição de saudações?
Continuo a esperar de você notícias diretas. O frio se aproximai Aqui já começou o outono, com seu cortejo de condições atmosfé-
imagino que tenha chegado a Milão com uma maleta, pensando en:l ricas bastante melancólicas. Já pude senti-lo em meus vdhos ossos.
ficar poucos dias, e que se encontre atrapalhada com muitas coisas Prevejo um inverno muito duro; jamais senti, como nestes dias, que

182 183
CARTAS DO CÁRCERE
1 9 2 7

havia fisicamente envelhecido mais do que a idade faz supor e que te- 1. Mario Lauriti, comunista romano, deixou um depoimento sobre Gramsci e outros
nho tão poucas reservas. A crise de exaustão pela qual passei nos anos em 'TUniversità di Ustica'' (Rinascita sarda, 1° nov. 1970). Alfredo Tucci (l 894-
1937), socialista maximalista de Viterbo, depois comunista, fez parre da direção
1922-1923 realmente me desgastou; tentei superá-la lentamente, con- do trabalho político entre os confinados. Como alguns outros, teve permissão para
duzindo uma vida medíocre, limitada, passivamente vegetativa, mas viver com a mulher em Ustica. Clarenzo Mcnotti (1900-1968), socialista de
hoje percebo de novo que se abate sobre mim, lentamente, a mesma Suzzarra, comunista a partir de 1921, seria senador após a Segunda Guerra.
capa de chumbo que então parecia me esmagar. Pode ser que tudo seja
uma conseqüência desta umidade milanesa e também do isolamento
em que me encontro faz sete meses; a tal ponto que, mais de uma vez, 52.
nestas últimas semanas, pensei em renunciar à leitura de jornais políti-
cos e buscar a companhia dos outros. Até agora hesitei em fazê-lo por
Cara Grazietta 1 ,
causa da dúvida de que o remédio possa ser pior do que o mal. A com-
panhia possível se divide em dois tipos: pessoas comuns ou delinqüen-
tes profissionais, com os quais a conversa pode ser interessante durante Espero que estas linhas ainda a encontrem em Oristano. Você me
duas ou três semanas até o esgotamento do que há de pitoresco e de diz que escreveu outras coisas. Dou minha palavra de que, quando
característico na posição deles; intelectuais ou quase, acusados de ban- lhe respondi, era a primeira vez que recebia diretamente alguma no-
carrota, de fraude, etc., nos quais não deve haver sequer um quid de tícia sua. Por favor, acredite que sou menos indiferente e menos pre-
pitoresco e de característico, como nos primeiros. Tive alguns deles guiçoso do que alguns podem pensar. Meu Deus, não sou um fenômeno
como vizinhos de cela e me surpreendeu o fato de como se desmorali- de expansão e muitas vezes tenho de me esforçar para escrever uma
zam sob formas infantis e primitivas; choram, exatamente como os palavra afetuosa, mas nem você nem o pessoal de casa deviam se es-
meninos, com grandes soluços espalhafatosos, invocando a mãe, mes- pantar com este fato. Dê um beijo na filhinha de tio Sera.fino e mui-
mo quando esta, coitada, deve estar morta há muito tempo; sempre tas lembranças a todos os tios e à legião das tias, e diga-lhes que me
.i~J
pedem alguma coisa, certamente para ver o guarda, trocar algumas escrevam algumas vezes, pois eu vou responder: escrever a todos é
palavras e se sentirem assim ligados à vida; acham que ainda têm direi- R• impossível; escolher entre muitos não é educado; por isso, se alguém
se importar mesmo com o fato de eu viver e vestir panos, espero co-
tos. Quando penso nisso tudo, a idéia de ren'bnciar aos jornais para ter
estes mortos como companhia me seduz menos. Um outro pesadelo nhecer este alguém 2 • Mas não acredito muito nisso. Beijos infinitos
começou a me assombrar desde que o tempo mudou: o pesadelo das para todos,
transferências no frio e tudo o que se segue. Querido Berti, lamento
afligi-lo com todas estas histórias; desabafo com você, porque não quero
""
':i~
Nino
escrever estas coisas a meus familiares. Escreva-me e insista com os 1. Carta sem data, publicada desde a edição de 1965 das Lettere dai carcere, organi-
outros amigos que escrevam, sobre qualquer assunto; assim me senti- zada por Sergio Caprioglio e Elsa Fubini. Segundo Antonio A. Santucci, é mais
rei menos isolado e terei como escapar ao curso obrigatório de meus provável que tenha sido escrita antes do cárcere, ainda em Turim. Por este motivo,
coloca-a em apêndice às Lettere 1908-1926, cit., p. 525, embora também a
pensamentos. Abraços fraternais, extensivos aos demais amigos. reproduza aqui em sua edição das Lettere dai carcere.
2. A expressão "vestir panos" tem origem em Dante. No Canto XXXIII do Inferno,
Antonio Frei Alberigo - um dos pecadores do penúltimo círculo, no qual se encontram os
que mataram seus hóspedes traiçoeiramente - explica a Dante ser possível ali
encontrar almas cujos corpos perambulam pelo mundo, ocupadas por um demô-

1•s4 185

t·:·
r
1927
CARTAS DO CÁRCERE

nio. Mas, ainda sem saber disso, Dante, ao ouvir que Branca Doria está neste cír- mãe. Mamãe me escreveu q,ue tinha recebido uma carta da mulher de
culo, diz para Alberigo: "Creio que estás a me pregar enganos,/ disse eu, pois ele Mario, com muitas queixas, etc. Escrevi a Mario que viesse me visitar;
não morreu ainda, / e come e bebe e dorme e veste panos". Aqui, como em outros
lugares, usaremos a tradução da Divina comédia feita por !talo Eugenio Mauro pareceu muito embaraçado. Depois da visita, escreveu para minha ci-
(São Paulo: Edicora 34, 2001). dadezinha, a meu irmão Carlo, de forma muito alarmada, pelo que
posso imaginar. Carlo me esFeve como se eu estivesse à beira do
túmulo; fala em vir até Milão e pensou até em trazer a mamãe, uma
53.
,2•. mulher de aproximadamente setenta anos, que jamais se afastou do
~~;
vilarejo e jamais fez uma viagem de trem por mais de 40 km. Coisas de
12 de setembro de 1927 !'
hospício, que me magoaram e até me indispuseram contra Mario, que
-;-~·
podia ser mais franco comigo e não aterrorizar nossa velha mãe. Che-
Querida Tania, f~ ga. Depois disso tudo, decidi pôr um fim a este estado de coisas, limi-
·~
tando-me, se necessário, à pura dieta carcerária. Mas existem algumas
Recebi suas duas cartas; e recebo todo dia a fruta que você man- pendências, e estas me preocupam bastante. Desculpe-me o desabafo,
da1. Fiquei muito contente por tê-la visto e ter podido trocar algumas cara Tania, e não fique magoada. Veja que lhe escrevo exatamente como
palavras com você. Foi mesmo um consolo vê-la, depois destes quatro x~~··:
a uma irmã e você, durante todo este tempo, foi para mim mais do que
meses de ansiedade e de pensamentos ruins. Por que é que me achou <'.l irmã. Por isso, eu também a atormentei um pouco, algumas vezes. Mas
mudado? Não percebi esta mudança. É verdade que as mudanças, nes- não será talvez verdade que atormentamos justamente os que nos são
te tipo de vida, ocorrem tão lentamente que o "paciente" pode não se ;~, mais caros? Eu quero que faça de tudo para se curar e continuar com
dar conta delas. Você me parece que não mudou nada; talvez estivesse }
saúde. Assim poderá me escrever, manter-me informado sobre Giulia
com medo demais de me ver, não é verdade? Eu, ao contrário, acho e os meninos e consolar-me com seu afeto.
que "me desenvolvi" no sentido da frieza e da indiferença exterior, perdi g Recebi as 300 liras que me mandou em junho; já devo ter escrito
muito de meu "meridionalismo". Não acredito que tenha me tornado sobre isto. Ainda não me entregaram o dicionário alemão; mas por que
insensível, longe disso; ao contrário, talvez tenha adquirido um pouco é que me mandou? Podia abrir mão dele por ora, na expectativa de
:··
de sensibilidade nervosa e mórbida, mas perdi o hábito exterior da :r··, poder ter o meu. Em geral, não me mande nada que eu não lhe peça
sensibilidade. É verdade que você me lembrou Giulia; notei que se
~W1 ou sobre cuja expedição eu não esteja de acordo. Acredite que esta li-
parecem muito, apesar de alguns traços marcantes de personalidade
··~
nha é a mais racional, deixando de lado o fato de que, como você diz,
própria e inconfundível. De resto, lembra que numa tarde, em Roma, eu nunca peço nada. Não é verdade; quando preciso, peço; mas tento
eu lhe dirigi a palavra acreditando que fosse Giulia? " :-.~

agir racionalmente, para não criar maus hábitos que depois seria mais
:1.·· Não sei quando poderá vir para uma segunda visita. Gostaria de doloroso largar. Para viver tranqüilo no cárcere, é preciso habituar-se
dizer de própria voz, mais claramente do que da última vez, que não se ao estritamente necessário; você há de compreender que qualquer
preocupe demais comigo. Sabe que já passaram dez meses desde o dia mínima comodidade, neste ambiente, se torna uma espécie de vício que
de minha prisão? O tempo passa muito depressa, é verdade, mas tam- depois é difícil extirpar, dada a ausência de distrações. Quem quiser
bém é muito vagaroso. Acho que já impus sacrifícios demais a meus permanecer forte e manter intacta a própria força de resistência deve
irmãos e também a você. Não posso mais contar com meu irmão Ma- se impor um regime e observá-lo ferreamente. Por exemplo: por que
rio2. Foi o que compreendi há um mês, depois de uma carta de minha sofri tanto com seu silêncio? Porque estava acostumado a uma certa

186 187

CARTAS DO CÁRCERE
19 2 7

regularidade na correspondência: por isso, toda irregularidade assu-


criadas unicamente pela fantasia. E, antes de tudo, quero dizer que você
mia uma significado sinistro. Mas você deve me criar este hábito da
e também os outros em casa conhecem muito pouco de mim e, por
correspondência regular, está bem? Não imagine que eu autorize você
isso, têm uma opinião completamente errada sobre minha capacidade
a não me escrever, com a teoria do não-hábito! Querida, espero a nova
de resistência. Parece-me que são quase vinte e dois anos desde que
visita, ainda que não possamos nem mesmo nos apertar as mãos. Aliás,
sabia que por muito tempo pensei em lhe dar algumas flores crescidas deixei a família; e, em quatorze anos, só fui em casa duas vezes, em
em minha cela (veja que romantismo carcerário!)? Mas as plantas se- 1920 e em 1924. Ora, em todo este tempo jamais levei uma vida de
caram e, assim, não pude conservar nenhuma das cinco ou seis peque- rico, muito pelo contrário; muitas vezes atravessei períodos terríveis e
ninas flores que brotaram, bem feinhas, para dizer a verdade. até passei fome no sentido mais literal da palavra. Num certo ponto, é
Abraços afetuosos, preciso dizer esse tipo de coisa, porque [... ] se consegue tranqüilizar'.
Provavelmente, você, algumas vezes, me invejou um pouco porque pude
Antonio estudar. Mas certamente não sabe como pude estudar. Só quero lhe
lembrar o que me aconteceu nos anos entre 1910 e 1912. Em 1910,
1. Cf. cartas 2 e 3, apêndice 2, v. 2, p. 459-60. como Nannaro estava empregado em Cagliari, fui morar com ele. Re-
i.. Além do "alarme" que Mario passou aos familiares na Sardenha, a questão polfti-
ca, sem dúvida, também contribuiu para a perda de confiança no irmão: em 1927, cebi a primeira mesada, depois não recebi mais nada: ficava tudo por
Mario era secretário da seção do Partido Nacional Fascista em Varese. conta de Nannaro, que não ganhava mais de 100 liras por mês. Muda-
mos de pensão. Passei a morar num quartinho que tinha perdido toda
a cal devido à umidade e só tinha uma pequena janela que dava para
54. uma espécie de poço, mais latrina do que área. Logo me dei conta de
que não dava para continuar daquele jeito devido ao mau humor de
12 de setembro de 1927 Nannaro, que sempre se irritava comigo. Comecei por não mais tomar
o mísero café da manhã, depois passei a almoçar cada vez mais tarde e
-~
Querido Carlo, assim economizava o jantar. Desse modo, durante cerca de oito meses
~
só comi uma vez por dia e cheguei ao fim do terceiro ano do liceu em
Recebi ao mesmo tempo sua carta de 30 de agosto e a carta regis- condições de desnutrição muito grave. Só no fim do ano letivo soube
trada de 2 de setembro. Agradeço a você de todo o coração. Não sei o que existia a bolsa de estudos do Col/egio Cario Alberto, mas no con-
i
que Mario lhe escreveu; tenho a impressão de que o deixou muito alar- curso se devia prestar o exame com base em todas as matérias dos três
i'
mado, quando eu pensava que a visita dele teria contribuído para tran- anos de liceu; por isso, devia fazer um esforço enorme nos três meses
~. :~ qüilizar a mamãe. Errei. Além disso, sua carta de 30 de agosto é mesmo de férias. Só tio Serafino percebeu as deploráveis condições de fraque-
dramática. De agora em diante, quero lhe escrever muitas vezes para za em que me encontrava e me convidou para ficar com ele em Oristano,
tentar ~onvencê-lo de que seu estado de espírito não é digno de um como professor particular de Delio. Lá fiquei um mês e meio e por
homem (e você já não é mais tão jovem). É o estado de espírito de quem pouco não enlouqueci. Não podia estudar para o concurso, já que Delio
está tomado pelo pânico, de quem vê perigos e ameaças de todos os õ, · me absorvia completamente, e a preocupação, somada à fraqueza, me
lados e, por isso, se torna impotente para agir seriamente e vencer as fulminavam. Fugi escondido. Tinha só um mês para estudar. Parti para
dificuldades reais, depois de defini-las e separá-las das imaginárias, Turim como se estivesse em estado de sonambulismo. Tinha 55 liras
no bolso; das 100 liras dadas em casa, havia gasto 45 liras para pagar a
"
188
189
1
ili..'
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º',.
;.;- ;1

CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

viagem em terceira classe. Era a época da Exposição e tinha de pagar 3 então, eu não mudava de Ia+io, tocando a testa com o dedo. Tinha le-
liras por dia só pelo quarto 2 • Fui reembolsado no valor de uma viagem vado a sério minha resposta e me considerava um doido varrido.
em segunda classe, umas 80 liras, mas não havia o que comemorar, Anime-se, pois, e não se deixe abater pelo ambiente de cidadezi-
porque os exames duravam cerca de quinze dias e só pelo quarto tinha nha sarda: é preciso sempre ser superior ao ambiente em que se vive,
de pagar quase 50 liras. Não sei como consegui prestar os exames, ·:~~11: sem por isso desprezá-lo ou se considerar superior. Compreender e
·\'
porque desmaiei duas ou três vezes. Consegui, mas os problemas co- .:• raciocinar, não choramingar feito uma mocinha! Compreendeu? Mas
'•(\f•
meçaram. Em casa, demoraram cerca de dois meses para me enviar os será que justamente eu, que estou na prisão, com perspectivas bastante
papéis para a matrícula na universidade e, como a matrícula estava em ;;)1 ruins, é quem deve encorajar um rapaz que pode se movimentar livre-
suspenso, também suspensas ficavam as 70 liras mensais da bolsa. Quem .:1:_, mente, pode aplicar sua inteligência no trabalho cotidiano e se tornar
,;,~~
me salvou foi um bedel, que encontrou uma pensão de 70 liras na qual útil? Abraços afetuosos para você, junto com todos em casa.
;.~,
me deram crédito; estava tão deprimido que pensei em voltar para casa
com um bilhete obtido na polícia. Assim, recebia 70 liras e gastava 70 Nino
liras numa pensão miserável. E passei o inverno sem casaco, com uma ::1
~ Mande, assim que puder, aquilo que prometeu, porque realmente
roupa de meia-estação própria para Cagliari. Ali por março de 1912 ·i{

eu estava tão mal que parei de falar por alguns meses: trocava as pala- -;~I estou precisando. Espero que no futuro não tenha mais de recorrer a
sua ajuda.
vras, quando falava. Ainda por cima, morava justamente nas margens
do Rio Dora e a névoa gelada me destruía.
$•i 1. Algumas palavras ilegíveis.
Por que lhe escrevo tudo isto? Para que saiba que algumas vezes ·:~;
2. Em 1911, três grandes exposições - em Roma, Florença e Turim - foram mon-
me vi em condições terríveis, sem por isso me desesperar. Toda esta tadas para comemorar os cinqüenta anos de proclamação do Reino da Itália.
vida me fortaleceu o caráter. Convenci-me de que, mesmo quando tudo .tJ:I'
está ou parece perdido, é preciso voltar tranqüilamente ao trabalho, ~~.
recomeçando do início. Convenci-me de que é preciso sempre contar ,1it.., 55.
apenas consigo mesmo e com as próprias forÍas; não esperar nada de
·'
·~~~
ninguém e, portanto, evitar desilusões. Que é necessário só se propor i)'• 19 de setembro de 1927
fazer o que se sabe e pode fazer, e buscar o próprio caminho. Minha ~
disposição moral é ótima: alguns me consideram um demônio, outros A Querida Tania,
quase um santo. Não quero ser mártir nem herói. Acredito ser sim- 'ini
plesmente um homem médio, que tem suas convicções profundas e não
i
Ficou mais alegre com a visita de quarta-feira? Foi muito pitores-
as troca por nada no mundo .. Poderia lhe contar alguns episódios di- co, não é verdade? Vi que até você ria, por causa daquela algazarra
vertidos. Nos primeiros meses em que estava aqui, em Milão, um guarda ensurdecedora; mas será que não chorou depois? Eu fiquei muito con-
me perguntou ingenuamente se era verdade que eu, se fosse um vira-,
casaca, seria ministro. Respondi sorrindo que ministro também era:
.. tente porque me pareceu que você estava um pouco melhor.
Obrigado pelo que tem mandado todo dia. Realmente, tento co-
demais, mas poderia ser subsecretário no ministério de Comunicações mer tudo o que manda: mas algumas vezes é mesmo impossível. Como
li
ou das Obras Públicas, dado que estes postos de governo eram atribuí- poderia comer tantas nozes, por exemplo? No entanto, comi com pra-
dos aos deputados sardos. Deu de ombros e me perguntou por que, zer o presunto e o queijo fresco, do qual gosto tanto, a uva, os figos,

190 191
CARTAS DO CÂRCERE 1 9 2 7

etc. Mas não me mande pão: aqui é preciso comprar pelo menos meio 1. Henri Béraud (1885-1958), além de romancista prolífico, foi também um polêmi-
co jornalista (Faut-il réduire"l'Angleterre en esclavage?, 1935). Condenado à mor-
quilo de cada vez e, por isso, tenho sempre pão sobrando; está sempre re por colaboração com o nazismo, seria indultado por De Gaulle. No Acervo
tão fresco e bom como o que se pode comprar fora. Além disso, desde Gramsci, conservam-se dois de seus livros: Le bois du templier pendu (Paris: Les
ontem voltei a receber o almoço do restaurante (pelo menos recebi Éditions de France, 1926) e Mon ami Robespierre (Paris: Plon, 1927).
2. De Gide, Gramsci tinha no cárcere Si /e grain ne meurt (Paris: Éditions de "La
·ontem; hoje, no momento em que escrevo, ainda não recebi, mas ain- Nouvelle Revue Française", 1924). É provável que Gramsci se refira aqui a Souvenirs
da é cedo). Faz alguns dias que renunciei à leitura dos jornais políticos d'enfance et de jeunesse, publicado em 1927.
diários e tenho companhia, ou seja, aparece em minha cela um outro 3. O poeta, romancista e dramaturgo R.iccardo Bacchelli (1891-1985) colaborou em
várias revistas importantes, entre as quais La Ronda, publicação romana que, en-
detento, aproximadamente de uma às cinco. Ele é de uma cidadezinha tre 1919 e 1923, defendia a retomada do estilo clássico, contra as vanguardas li-
perto de Monza e está à espera de julgamento, acusado de furto e que- terárias. A obra principal de Bacchelli seria escrita em 1938-1940: II mulino dei
bra-quebra numa casa suspeita: excesso de zelo na busca de cocaína Po, um painel da história italiana desde o período napoleônico até a Primeira
Guerra, no qual se insere a vida de várias gerações de uma famflia de moleiros.
por parte de uma espécie de brigada dos bons costumes. A companhia Sobre II diavolo ai Pontelungo, publicado em 1927, cf. carta 180, além de alguns
deste detento me distraiu enormemente nestes dias; é um rapaz bas- juízos em CC: por exemplo, v. 6, p. 102-3.
tante vivo e espirituoso e eu logo me familiarizo com qualquer um.
Pelo menos por ora, os temas de conversa não foram esgotados.
Leu o romance de Margaret Kennedy? Um outro romance bem ~;
56.
interessante é o de Henri Béraud; você não acha, se é que já o leu, que
reproduz bastante bem o estilo seco e nervoso de velhos cronistas fran- 26 de setembro de 1927
ceses1? Digno de ser lido é também o livro de memórias de André Gide,
cuja restante literatura poética e romanesca não sei se conhece 2 • O ·r Querida Tania,
romance de R. Bacchelli - II diavolo ai Pontelungo - teve muito su-
cesso, pelo que li na imprensa. Você sabe, Bacchelli pertence a uma Pensei em escrever esta carta a Giulia. Mas não consigo de modo
escola que no pós-guerra foi muito discutida, a dos chamados rondistas algum; não consigo nem começar. Ainda estou sob os efeitos da última
(porque sua revista se chamava La Ronda),; eles "descobriram" que carta dela, recebida por mim em 31 de maio, mas é uma impressão
Leopardi é o maior escritor italiano e que a prosa de Leopardi fornece certamente anacrônica. A vida de Giulia nestes meses me parece ter
o melhor modelo à literatura moderna. Publicaram uma belíssima an- passado por muitas mudanças, porque Giuliano terá começado a falar
tologia da prosa de Leopardi, mas me parece que todo o esforço deles e a andar e ela deve ter experimentado outra vez, mas com novas
se esgotou nesta antologia; a julgar pelo romance, não se compreende nuanças, as impressões dos primeiros movimentos de Delio, o qual,
bem em que Bacchelli renO\'.fl a literatura italiana e marca uma etapa. hoje, já deve ser um expectador judicioso das grandes façanhas do
Por certo, no romance não aparece a harmonia das partes e a completa irmãozinho; assim, todas as relações sentimentais se complicaram, com
fusão entre a forma expressiva e a concepção, que são típicas de novidades essenciais de grande alcance. Imagine só. Por isso, minha
Leopardi3. carta não seria oportuna, seria certamente dissonante: isto me preocu-
Tenho esperança de que você possa rapidamente recuperar a saúde. pa e me tolhe a iniciativa. Você acha, de verdade, que Giulia se entris-
E espero a ~mtra visita para vê-la ainda. mais alegre e forte. Abraços, tece muito por não receber diretamente minhas cartas? (Veja que não
quero pôr em dúvida a sensibilidade dela!) Eu penso nisso, mas mes-
Antonio mo assim não consigo. É necessário, de fato, ter em mãos algumas car-

192 193

:
I·.,
}~·

"
1927
CARTAS DO CÁRCERE

tas mais recentes de· Giulia. Mas se pode fazer assim: repassar a ela do. Ainda está se recuper~ndo e faz grandes sacrifícios por mim. Todo
esta carta, por exemplo. Lendo-a, ela compreenderá muito bem meu dia vem ao cárcere e me manda alguma coisa deliciosa de comer: fru-
estado de espírito e me perdoará. Talvez nem pense que haja necessi- ta, chocolate, laticínios frescos. Pobrezinha, não consigo convencê-la a
dade de um verdadeiro perdão. Deveria escrever agora um grande elo- não fazer tanto esforço e a pensar um pouco mais em sua saúde. Fico
gio da bondade de Giulia, mas se poderia pensar que ajo de propósito até um pouco humilhado com tanta abnegação, que algumas vezes não
se encontra nem nas próprias irmãs.
ad captandam benevolentiam!
Cara Tania, espero encontrá-la um pouco melhor do que da última Queria lhe dizer uma coisa. Não lembro mais quais livros meus
vez; você me pareceu um pouco atormentada. Espero-a na quarta-feira. ainda se encontram em Ghilarza. Lembro que em 1913 tinha compra-
Abraços, do em Turim um lote de livros sobre a Sardenha da biblioteca de um
certo Marquês de Boyl, cujos herdeiros se desfizeram dos livros de tema
Antonio sardo. Pelo que lembro, levei alguns a Ghilarza nas férias. Gostaria de
ter, se é que ainda existem, o livro do general Lamarmora sobre suas
viagens à Sardenha (está escrito em francês) e as histórias do Barão
57. Mannu3 • Estes dois parece que estão mesmo em Ghilarza. Tinha um
grande volume encadernado (muito grande, pesando pelo menos 10
3 de outubro de 1927 quilos), com a coleção de todos os papéis de Arborea, mas não lembro
se o levei 4 • Mas um pequeno volume que deve estar aí é o do enge-
Querida mamãe, nheiro Marchesi, Con Quintino Sella in Sardegna5 • Se encontrar alguns
destes livros em casa, mande para mim. Diga a Carlo que, se por acaso
Recebi a carta registrada de 26 de setembro; agradeça muito a ele comprar algum número da revista II Nuraghe, me mande depois de
Carlo. Também recebi o sermão do padre Poddighe, mas ele não é muito ler 6 • Quando puder, mande algumas das canções sardas que os descen-
engraçado; com certeza, não tem o humor vivo e provinciano do ser- dentes de Pirisi Pirione, de Bolotana, cantam pelas ruas e, se fazem
mão ao populu de Masuddas 1 • Com um esforço de memória, mesmo se disputas poéticas em algumas festas, escreva-me sobre os temas que
o ouvi poucas vezes, consegui lembrar trechos inteiros e por isso eu o são cantados. Ainda são feitas as festas de São Constantino, em Sedilo,
pedi a você. E ite cou no mais bogau /chi si noi boghint is ogus /e un ? e de São Palmério, e como é que acontecem7 ? A festa de São Isidoro
arrogue figau, etc., etc.; gosto muito disso2 • Tenho a impressão de que ainda é um grande acontecimento? Será que carregam em procissão a
lhe escrevi algumas cartas que não recebeu: do contrário, não consigo bandeira dos quatro mouros e ainda existem os capitães que se vestem
explicar a falta de notícias. Não estive doente e não me sinto mal. Ul- de antigos milicianos 8 ? Sabe que sempre tive muito interesse por estas
timamente, renunciei à leitura dos jornais diários para poder passar coisas; por isso, escreva-me e não pense que são tolices sem cabu né
algumas horas na companhia de outros detentos. A companhia, como coa9 •
pode imaginar, é do tipo que o cárcere pode oferecer, porque não per- Dos meninos, não recebo notícias faz algum tempo, mas espero
mitem ver outros detentos políticos: ou seja, trata-se de acusados ~e que estejam bem. Abraços afetuosos para você, junto com todos em
crimes comuns. Mas me distraio um pouco e o tempo passa mais rapi- casa. •
damente.
Minha cunhada saiu do hospital e vem me visitar de vez em quai;i- Nino
i:m-·

194 195

'•1.
''
·\. 1.

CARTAS 00 CÁRCERE 1 9 2 7

1. Cf. carta 39, n. 1. Bartoli, publicado em Modena em 1925 ou 1926 2 • Encomendei à Li-
"i. "Quanta calúnia despejam feito vômito, / Que se lhes arranquem os olhos / e um
naco do fígado." vraria Sperling e Kupfer (Via Larga, 23) um pequeno livro de Finck;
3. Alberto Lamarmora (1789-1863) viajou extensamente pela Sardenha entre 1819 e como não me lembrava do título, em vez do livro pretendido me envia-
1857, deixando obras fundamentais para o conhecimento da ilha. Entre elas, des-
ram um outro, muito interessante para quem quer estudar chinês, lapão,
taca-se Voyage en Sardaigne de 1819 à 1825 ou description statistique, phisyque et
politique de cette l/e (Paris, 1826). turco, georgiano, samoano e o dialeto dos negros de Zâmbia, mas sem
Giuseppe Manno (1786-1869), político e historiador sardo de orientação conser- interesse para mim, que ainda não me propus tarefas tão árduas. O
vadora, fez uma rigorosa descrição dos eventos da ilha no fim do século XVIII,
que quero se intitula precisamente assim: F. N. Finck, Die Sprachstamme
quando ela se encontrava sob o domínio absolutista da casa piemontesa dos Sav6ias.
Entre suas obras, estão Storia di Sardegna (Turim, 1825-1827, 4 v.) e Storia mo- des Erdkreises [As famílias lingüísticas do mundo], Ed. Teubner, de
derna dei/a Sardegna dal/'anno 1773 ai 1799 (Turim, 1842, 2 v.). Gramsci tam- Leipzig, na coleção Aus Natur und Geisteswelt 3 • É uma classificação
bém se refere a Manno em CC, v. 5, p. 24.
4. Estes papéis, depois considerados falsos, eram cerca de 50 documentos dos sécu-
de todas as línguas do mundo, mas o objeto do livro é só a classificação
los VI-XII (crônicas, cartas, poemas) e pareciam vir de arquivos dos juízes de e não o estudo das línguas separadamente. Ao contrário, o livro rece-
Arborea, uma das quatro zonas da Sardenha medieval. "Descobertos" pelo Frade bido está dedicado justamente aos primeiros elementos gramaticais das
Cosimo Manca, em 1845, num clima polftico-cultural marcado pelo novo "nacio-
nalismo sardo". e por tendências autonomistas, seriam a prova da existência de línguas citadas (além do árabe e do grego moderno), com antologia.
uma antiga e avançada civilização. Gostaria de lhe contar uma pequena história dos negros de Zâmbia,
5. E. Marchese. Quintino Sella in Sardegna. IDcordi. Turim, 1893 (cf., também, carta sobre algumas moças que brincam na floresta com serpentes, cujo títu-
67).
6. li Nuraghe, revista sarda de cultura, saiu em Cagliari entre 1923 e 1930, sob a lo é :za bakazana n in-zoca (literalmente: De alguns organismos-pesso-
direção de Raimondo Carta-Raspl. Significativos os seguintes versos, publicados as-moças com organismos-serpentes), mas seria complicado demais;
como subtítulo: "Se a aurora abrasar os teus granitos, / Isto se deverá, Sardenha, porém, você pode admirar a concisão dos negros em comparação com
aos novos filhos".
7. A festa de São Palmério acontece em Ghilarza, em 11 de julho. a prolixidade européia; e, afinal, não tenho certeza de que não se de-
8. Os quatro mouros vendados em fundo branco compõem o brasão da Sardenha. vam reproduzir alguns sons com o estalido da língua e não com uma
9. Em sardo, no original: "sem pé nem cabeça". articulação vocal. Quero guardar este livro: vou mandá-lo para Giulia,
com a sugestão de estudar o lapão, o samoano e o dialeto negro; quero
mesmo enfurecê-la. Será uma complementação de seus estudos de ge-
58. «:
ografia, que me custaram tanto trabalho de propaganda e agitação. O
que é que você acha? Não se esforce demais no caso destes livros. Pode
3 de outubro de 1927 ir até a Livraria Sperling em meu nome e pedir que me mandem. Gos-
taria de ter, se for possível, o número especial da Europe Nouvelle,
Querida Tania, dedicado ao Vaticano e à França, que saiu por volta de fevereiro ou
~; março passado. E me mande alguns números de Die literarische Welt,
Recebi seus dois cartões de 21 e de 23 de setembro. Não pense que talvez se encontrem à venda, como em Roma, na Livraria Moder-
sempre no que desejo e no que gostaria de ter. Asseguro que, se algo níssima.
necessário ou útil me falta, eu lhê peço sem cerimônia. Quanto aos li- Abraços,
vros, recente publicação de Daudet e de Maurras, I.:Action Française
et le Vaticain, que também pode ser comprada em Milão1 • E mais, quero Antonio
ter o Manualetto di linguistica, de Giulio Bertoni e Matteo Giulio

196 197
~y

,..
\;:

19 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

1. "L:Action Française" et /e Vaticain. Prefácio de Charles Maurras e Léon Daudet, seria inútil e talvez prejudicial, porque também poderia acarretar des-
Paris, 1927. A Ação Francesa, fundada em 1899 por Charles-Maurras (1868-1952),· confiança e um acréscimo Be severidade e de rl.gor. Você só ~onsegui­
forneceu à extrema-direita uma doutrina baseada no nacionalismo "orgânico", na
monarquia e na rejeição da democracia e do socialismo. Léon Daudet (1867-1942) ria viajar nas piores condições e chegar em Roma doente por mais quatro
foi o primeiro editor do jornal do movimento, também chamado de Action meses. Querida Tania, penso que é preciso ser prático e realista até
Française. Sobre a polêmica entre a Ação Francesa e o Vaticano, cf_ carta 87 e mesmo na bondade. Não que você desperdice sua bondade, mas des-
também, CC, v. 3, p. 101-4, e v. 4, P- 157-60, 164, 166-9, 181-2. '
2. Cf. carta 1, n. 3. perdiça suas energias e suas forças; e não posso mais concordar com
3. Franz Nikolaus Finck (1867-1910) escreveu numerosos trabalhos sobre a língua isto por mais tempo. Refleti longamente sobre esta questão e gostaria
dos celtas, dos armênios, dos ciganos e dos bantos. O livro erradamente enviado
chamava-se Haupttypen des Sprachbaus [Modelos básicos de sintaxe] (Leipzig:
de lhe ter dito pessoalmente; mas, de fato, me faltou coragem ao vê-la
Teubner, 1909). Já Die Sprachstamme des Erdkreises seria recebido no mês seguin- e ao pensar que talvez a teria angustiado mais ainda.
te (cf. carta 67). Gramsci o traduziu integralmente entre 1929 e 1931. Abraços carinhosos, minha cara.
Antonio
59. 1. Sobre este costume lingüístico, cf. CC, v. 4, p. 148.

10 de outubro de 1927

60.
Querida Tania, ;·..-.

17 de outubro de 1927
Depois da visita de quinta-feira, pensei durante muito tempo e •
decidi lhe escrever o que não tive coragem de dizer pessoalmente. Acho ~·

que não deve mais ficar por mais tempo em Milão por minha causa. O ~~-·
)_!
Querida Tania,
sacrifício que faz é exagerado. Você não vai poder recuperar a saúde _:,;
i'.(f•· Recebi anteontem sua carta de 27 de setembro. Fico alegre com o
com este clima úmido. Para mim, vê-la é certamente um grande con-
fato de que goste de Milão e a cidade lhe ofereça possibilidades de lazer.
forto, mas acredita mesmo que, afinal de CQntas, eu não pense conti-
Visitou os museus e as galerias? Porque, do ponto de vista de sua estru-
nuamente em seu aspecto doentio e não sinta remorsos, por ser a causa
tura urbana, acho que a curiosidade deve se esgotar muito rapidamen-
e o objeto deste seu sacrifício? Acredito que adivinhei o motivo princi-
te. A diferença fundamental entre Roma e Milão me parece consistir
pal de sua vontade de ficar: pensa que poderá partir no mesmo trem
exatamente no fato de que Roma é inesgotável como "panorama" ur-
em que serei transferido e poderá, de algum modo, conseguir um meio
bano, enquanto Milão é inesgotável chez soi, como vida íntima dos
de me proporcionar um certo conforto durante a viagem. Será que
milaneses, que são ligados às tradições mais do que se pensa. Por isso,
adivinhei? Pois bem: este objetivo não terá nenhuma possibilidade prá-
Milão é pouco conhecida pelos visitantes comuns, mas atraiu fortemente
tica de se efetivar. As disposições para a transferência serão certameri_;
'1= homens como Stendhal, que puderam penetrar em suas famílias e em
te muito severas e a escolta não permitirá de modo algum que os
seus salões e conhecê-la intimamente. Seu núcleo social mais consis-
"cristãos" se interessem pelos prisioneiros. (Abro um parêntese para
tente é a aristocracia, que soube conservar uma homogeneidade e uma
lhe explicar que os presos comuns e os detentos dividem o público em
coesão única na Itália, enquanto os outros grupos, inclusive os operá-
duas categorias: "cristãos" e presos comuns ou detentos)'. Seu plano

198 199

1
t, , .
... ,.-,..,..;. .;...· ..

CARTAS DO CÁRCERE
1 9 2 7

rios, são, mais ou menos, acampamentos ciganos sem estabilidaàe e


estrutura, marcados por todas as variedades regionais italianas. Esta é 61.
a força e a fraqueza nacional de Milão, empório gigantesco de indús-
tria e comércio, dominados efetivamente por uma elite de velhas famí- 24 de outubro de 1927
lias aristocráticas que têm a força da tradição de governo local (você
Querida mamãe,
deve saber que Milão tem até um culto católico especial, o culto
ambrosiano, do qual os velhos milaneses são muito ciumentos e que
Não recebi nenhuma de suas cartas, depois da registrada, mas
está ligado a esta situação). Desculpe a digressão. Mas sabe que sou
mesmo assim quero lhe escrever por diversas razões: 1 ª) porque tenho
um grande tagarela e me deixo ir ao sabor de qualquer assunto que me
interesse. a impressão de que há alguns meses minha correspondência se tornou
Sobre os livros. Naturalmente, você não deve carregar uma baga- muito irregular na chegada e na partida; uma carta enviada a mais é
gem tão pesada. Acho também que é melhor expedir os livros para meu uma probabilidade a mais de que uma delas chegue. 2ª) porque é pro-
endereço na Penitenciária de Roma, de modo que a inspeção do fisco vável que em breve seja transferido de Milão até Roma por causa do
e da polícia possa ser feita na prisão 1• processo e não possa escrever durante algumas semanas. Não fique
Tenho aqui no depósito uma mala de fibra e uma mochila de via- muito ansiosa com estas histórias; pense que estou absolutamente tran-
gem de bom tamanho; serão suficientes. Para meu uso pessoal bastará qüilo e tenho certeza de que tudo isto vai terminar bem, não imediata-
uma fronha de travesseiro, na qual enfiarei a roupa-branca e os obje- mente, mas pelo menos nuns dois anos. E aprendi a esperar sem perder
tos indispensáveis. Vou fazer o requerimento para que lhe sejam entre- a paciência. Lembranças afetuosas para todos. Abraço.s,
gues estas coisas na portaria. Na mala devo ter: uma garrafa térmica, Nino
que não me serve porque não posso usar, algumas latas de leite Nestlé,
barras de sabão, além do relógio e da caneta-tinteiro, que podem se
estragar se não forem usados. Você pode guardá-los e usar, embora o 62.
relógio esteja longe de ser elegante e moderno (aliás, Giulia tentou
muitas vezes ficar com a correntinha, que, n\ verdade, é pior do que o 31 de outubro de 1927
relógio e eu não lhe dei nunca justamente porque me parecia um ca-
pricho disparatado). Querido Berti,
Também me escreva sobre suas impressões de Milão. Abraços afe- In
tuosos, enquanto espero vê-la. Há cerca de um mês não recebo nenhuma de suas cartas. Do mes-
mo modo, não recebi a carta de Lauriti anunciada por voêê e nenhuma
Antonio
,·.....
linha se seguiu ao aviso de Amadeo que veio num cartão - "escreve-
remos". Suponho que vocês me escreveram e a correspondência ainda
l. Gramsci supunha que seria transferido em breve para Roma, o que, no entanto, só
aconteceria em maio de 1928 (cf. carta 61). esteja a caminho; é provável que minhas cartas também tenham enca-
lhado em algum Cabo da Boa Esperança. Escrevo tudo isto também
porque, aproximando-se o aniversário de minha detenção, calculei que
este ano foi o mais epistolífero de minha vida; talvez não tenha escrito

200
201
~r

~:;< -~·
:
• 19 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

tantas cartas em toda a minha vida (pregressa) como escrevi neste ano 1 • 64.
Que isto seja dito especialmente para você, que, muitas vezes e com
satisfação, insinuou boatos calamitosos sobre minha antiepistolografia 7 de novembro de 1927
congênita! Parece que ainda vamos permanecer em Milão durante todo
este ano. Saudações afetuosas para todos os amigos. Querida mamãe,

Antonio
Recebi a carta registrada de Cario, do dia 28 de outubro, e sua carta
l'~ do dia 25. Agradeça muito cordialmente a Cario o dinheiro que me
1. Nas Lettere 1908-1926, cit., há um total de 196 cartas, tanto de caráter privado -~ra·
·'..~ mandou; diga-lhe que, agora, vou ficar bem por algum tempo e, se ti-
quanto político. '•
-·~

ver necessidade, sem dúvida vou lhe escrever 1 • Na verdade, não quero
il-. ,,. que ele se sacrifique demais por minha causa; sabe-se lá quando vou

I~
63. poder saldar minhas dívidas!
Não sei da notícia sobre o processo que você escreve ter lido nos
31 de outubro de 1927 jornais, porque faz alguns meses não leio mais os jornais diários. Eu
também supunha que devia partir para Roma e assim, de fato, lhe
Querida Tania, escrevi em minha última carta; há poucos dias, no entanto, fui infor-
mado de que o processo só será realizado no final de janeiro ou no
Recebo neste momento sua carta do dia 21, junto com as duas car- princípio de fevereiro. Continuo, portanto, em Milão por mais al-
tas de Giulia 1 • Você não sabia mesmo nada da doença dela? Muitas
guns meses, o que não me desagrada em absoluto, porque viajar nes-
vezes, durante as visitas, tive a impressão de que não queria me falar
ta época não é agradável (viajar como preso, naturalmente!). Não fique
de alguma coisa e, há algumas semanas, estava realmente decidido a
ansiosa e pense sempre que estou tranqüilo. Estas mães, estas mães ...
lhe perguntar; mas no cárcere se adquire uma psicologia muito com-
Se Ó mundo sempre tivesse estado nas mãos delas, os homens ainda
..
plicada - infelizmente! - e no último momento desisti. Você me pro-
meteu dizer a verdade, sempre; e eu não quero sequer duvidar de sua viveriam nas cavernas, vestidos só com peles de cabral E também não
promessa. Fique tranqüila; não vou me sentir mal nem ruminar no vazio. se preocupe com minha saúde. Fui informado de que no exterior
Mas quero ser informado, sempre. Escreva também a Giulia, para que publicaram tolices a este respeito e não gostaria de que alguma alma
mande fotografias, dela e dos meninos, tiradas depois da doença dela. "piedosa" descobrisse um meio de encher seus ouvidos com elas (é
Demorei a escrever esta carta, para esperar a distribuição do correio. verdade, infelizmente, que as más notícias sempre chegam até o fim
É muito tarde e não tenho vontade de escrever apressadamente a Giulia. do mundo); acredite só no que lhe escrevo eu, que sou o mais bem
Abraços carinhosos, informado de todos e não tenho nenhuma razão para esconder a ver-
Antonio dade2. Minha cunhada ainda está em Milão e continua a me mimar
feito uma criança, mandando-me todo dia algo que dê a impressão
1. Trata-se, provavelmente, das cartas 4 e 5, apêndice 2, v. 2, p. 461-2. Nenhuma de ter a liberdade para comer tudo de que gosto. Não consigo
delas está datada. convencê-la a voltar para Roma, mesmo porque o clima de Milão não

202 203
..
·

CARTAS DO CÁRCERE 19 2 7

é dos melhores nesta época. Enfim, recebi notícias dos meninos, que 65.
estão bem e vão se desenvolvendo; Giulia, ao contrário, esteve doen-
te durante alguns meses. Lamento muito a morte da tia Maria Do- 7 de novembro de 1927
menica, que no fundo era boa, apesat de sua aspereza, e era certamente
a única parente simpática que tínhamos (depois do tio Serafino)3. Eu Querida Tania,
lembro muito bem os modos e as palavras de toda esta gente, quando
éramos criariças, e lembro que ia com mais prazer na casa da tia Maria Na quarta-feira, durante a visita, fui um tolo de verdade. Pensei
nisso durante vários dias. Pareço ter sido de uma frieza quase brutal.
Domenica; você compreende certas coisas sem precisar que eu escre-
Não lhe agradeci as 50 liras depositadas por você e nem mesmo avisei
va. Cara mamãe, abraços afetuosos para todos e, para você, muitos
que estavam depositadas em minha conta. Estou com vergonha de mim
beijos.
mesmo, de verdade.
Nino No sábado, recebi as duas toalhas, o pano de limpeza e outras pe-
ças que não consegui identificar exatamente: uma, que também pode-
1. Na verdade, por todo este período, Cario foi o meio pelo qual se fez chegar a ria ser um lenço, estou usando como guardanapo; em todo caso,
Gramsci cerca de 200-250 liras por mês, ainda que ele tivesse algum r.eceio de se suponho que não seja um rebaixamento muito grande. Pus de lado as
comprometer nesta tarefa. É o que está documentado numa carta de Sraffa a
Togliatti em 26 de dezembro do ano seguinte, na qual o primeiro aponta a preca· outras peças coloridas, presumivelmente lenços, até que você indique
··,:·:
riedade da assistência ao prisioneiro até então e a necessidade de "organizar ur- ~~l a finalidade. De qualquer modo, acho que fez uma idéia nobre demais
gentemente um fluxo regular de ajuda" (Paolo Spriano. Gramsci in carcere e il ·~ das toalhas-panos de limpeza e que, em vez disso, devia ter seguido
partito, cit., p. 148). ·Y
2. No artigo "Antonio Gramsci se meurt de faim! II faut le sauverl", Alfonso Leonetti, minha indicação realista do cânhamo, como matéria têxtil mais apro-
que, então, vivia clandestino e respondia pela propaganda comunista, declarava: priada. O linho do pano de limpeza é uma fibra tão nobre que não
"Antonio Gramsci está doente. Para viver, precisa de muito ar livre, de uma dieta deve cair tão baixo; em minha terra, com o linho só preparam os en-
especial, de muitos cuidados. Sob a influência de um regime carcerário insuportá- ·1~\
vel, a saúde de Gramsci piora. Eis que um grito de angústia nos chega da prisão de ~.:
··,._.;
xovais das jovens esposas.
Milão: Gramsci está morrendo de fome" (La Corrt?,l1Jondance internationale, 24 Abraços afetuosos, cara Tania.
set. 1927). Estas notfcias - reproduzidas em jornais de exilados mas também ex-
ploradas pela imprensa fascista - levaram Sraffa a se dirigir a Angelo Tasca, com Antonio
o objetivo de iniciar uma campanha na imprensa inglesa (cf. carta 20, n. 1). Na
carta de Sraffa, de 22 de setembro de 1927, lê-se: "Estou muito impressionado
com as notkias sobre Antonio, que também obtive através de um informe de Al-
fonso [Leonetti]" (Piero Sraffa. Lettere a Tania per Gramsci, cit., p. XXVI-XXVII).
66.
Alfonso Leonetti (1895-1984), jornalista e historiador, foi redator do Avanti! e,
mais tarde, de I:Ordine Nuovo. Um dos fundadores do PCI, fez parte do grupo . ~~:. 7 de novembro de 1927
dirigente gramsciano depois de 1924. Em 1930, expulso do partido por se opor à ·{·
:_:;
virada "esquerdista" do Komintern, aproximou-se do trotskismo: seria dirigente
da Oposição de Esquerda Internacional, embrião da IV Internacional. Reingressou Querida Iulca,
no PCI em 1945.
3. Maria Domenica Corrias, prima da mãe de Gramsci. Recebi suas duas cartas, escritas ali pela metade de setembro 1 • As-
sim, esqueci o longo período de tempo transcorrido sem notícias suas.

205
204

~~

1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

da Ed. Barbera, de Florenç_a, saiu todo o Maquiavel e quanto custa;


Mas é muito ruim ficar assim tanto tempo sem notícias. Não consigo
rnas receio que custe bem caro, uma centena de liras pelo menos. Por
mais me orientar, por exemplo; e ainda tenho de fazer um certo esforço
isso, o volume Le piu bel/e pagine, da Ed. Treves, será suficiente. Quan-
para deixar fluir mais livre o curso de meus pensamentos e de meus sen-
do aconteceu o centenário de Maquiavel, li todos os artigos publica-
timentos. Não se impressione com estas palavras. Certamente, estou um
dos pelos cinco jornais que então lia; mais tarde recebi o número
pouco entorpecido e quero lhe comunicar meu preciso estado de espíri-
to. Você deve me ajudar a me abrir pouco a pouco. Escreva longamente, especial do Marzocco sobre MaquiaveP. Fiquei surpreso com o fato
e sempre que for possível, sobre sua vida e a dos meninos, dos quais ig- de que nenhum dos escritores, por ocasião do centenário, relacionou
os livros de Maquiavel com o desenvolvimento dos Estados em toda
noro tudo, salvo a genérica informação sobre a saúde deles.
a Europa no mesmo período histórico. Confundidos pelo problema
Abraços carinhosos,
puramente moralista do chamado "maquiavelismo", não viram que
Antonio Maquiavel foi o teórico dos Estados nacionais regidos pela monar-
quia absoluta, ou seja, que ele, na Itália, teorizava o que na Inglaterra
1. Cf. cartas 4 e 5, apêndice 2, v. 2, p. 461-2. era energicamente realizado por Isabel, na Espanha por Fernando, o
Católico, na França por Luís XI e na Rússia por Ivan, o Terrível, ain-
da que ele não tenha conhecido e não pudesse conhecer nenhuma
67. destas experiências nacionais, que, na realidade, representavam o
. i --'-- problema histórico da época que Maquiavel teve a genialidade de
14 de novembro de 1927
·'ª 1 intuir e expor sistematicamente".
Abraços, cara Tania, depois desta digressão que irá lhe interessar
Querida Tania, de modo muito relativo.

Já recebi alguns livros. Tenho na cela o Quintino Sella in Sardegna Antonio


e o catálogo da Ed. Mondadori. O livro de Finck e o de Maurras che- ·~))·.·.
·'.
~. : 1. Cf. carta 57, n. 5.
garam, mas ainda não foram entregues. É cunoso o fato de que pedi a ~ 2. Publicado em 1924 e ambientado na Turim dos anos 1919-1920, este obscuro ro-
~-:

minha mãe o livro Quintino Sella; acredito que foi um dos primeiros mance de Mario Sobrero traz urna curiosidade: um dos personagens, Rairnondo
Rocchi, editor do jornal I:Età Nuova, é urna caricatura do Grarnsci de I:Ordine
livros que li, porque estava entre os livros de casa, mas não me trouxe
Nuovo: "Mal ultrapassava, com o peito e as costas agudas, a mesa diante de si; no
nenhuma recordação 1 • Gostaria de ter ainda estas publicações: seu rosto de monstruosa feiúra, estava estampado um riso sardõnico, que o brilho
1. Benedetto Croce, Teoria e Storia delta Storiografia (Ed. Laterza, dos óculos acentuava. [... ] Corno todos os seus companheiros, o diretor de I:Età
Nuova se mostrava ligado ao exemplo bolchevique e talvez não se preocupasse em
Bari). saber a verdade sobre aquela formidável experiência, ele que se dispunha a en-
2. Maquiavel, Le piu bel/e pagine, organizado por G. Prezzolini frentar a mesma crise. As suas palavras eram álgebra fria, assim corno os textos
(Ed. Treves). . dos autores comunistas, nos quais o mundo parecia reconstruído no papel, com
fórmulas áridas. Apesar de algumas afetações à Robespierre, o pequeno homem
3. Mario Sobrero, Pietro e Paolo (Ed. Treves) 2 • de braços curtos e cérebro enorme parecia a personificação da utopia". No Cader-
4. Calendário-Atlas De Agostini, ano 1927. no 23, sobre Critica literária, Grarnsci incluiu Sobrero no rol dos escritores
5. Catálogo da Ed. Vallecchi, de Florença, que você pode pedir à "brescianos", ou seja, literatos reacionários, populistas, ideologicamente confu-
sos, tratados corno a mais recente encarnação do Padre Bresciani, escritor e jesuíta
Livraria Sperling. Procure saber se, na coleção de "Obras completas" do século XIX (CC, v. 6, p. 78).

206 207
CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

3. Em 22 de junho de 1927, transcorreu o quarto centenário da morte de Maquiavel


(1469-1527). A carta também menciona a revista florentina II Marzocco, n. 25,
realmente bem, porque oçupo uma cela com um amigo; a companhia
19 jun. 1927. diminui o tédio, o que traz um pouco mais de apetite 1 • Espero receber
4_ Sobre a interpretação gramsciana de Maquiavel, cf., em particular, o Caderno 13, suas cartas nos próximos dias e, então, vou poder lhe escrever mais
Breves notas sobre a política de Maquiavel, e o Caderno 18, Nicolau Maquiavel. II
(CC, V. 3, p. 11-116).
longamente. Lembranças afetuosas para todos. Abraços,

Nino

68. 1. Enrico Tulli (1898-1942), jornalista bergamasco de origem católica, filiou-se ao


PSI, em 1921, e ao PCI, em 1924. Em novembro de 1927, preso em San Virrore,
dividiu uma cela com Gramsci até maio do ano seguinte. Em outubro de 1928, foi
14 de novembro de 1927 condenado a 13 anos de reclusão. Em 1930, também enviado para a Penitenciária
de Turi - onde, no coletivo comunista, discutia-se a linha de "classe contra clas-
se" e Gramsci se via progressivamente isolado - , Tulli reencontrou seu ex-com-
Cara Giulia,
panheiro de cela, com quem, no entanto, entrou em grave conflito por motivos
políticos e pessoais. Solto em 1934, exilou-se na França em 1937. Em Paris, seria
Quero pelo menos lhe enviar uma lembrança, sempre que me per- expulso do PCI por causa do conflito com Gramsci nos anos de Turi. Tornou-se
colaborador de Angelo lasca e tomou parte na Resistência francesa.
mitirem escrever. Passou um ano desde o dia de minha prisão e quase
um ano desde o dia em que lhe escrevi a primeira carta do cárcere.
Mudei muito neste período: acredito que fiquei mais forte e me orga-
nizei melhor. O estado de espírito que me dominava quando lhe escre-
70.
vi aquela primeira carta (não quero nem tentar descrevê-lo, porque iria
horrorizá-la) agora me faz rir um pouco. Penso que Delio deve ter tido 21 de novembro de 1927
neste ano a possibilidade de rece~r impressões que vão acompanhá-
Querida Tania,
lo por toda a vida; isto me traz alegria. Abraços carinhosos,
~l'
'ili
Antonio Recebi os seguintes livros: Francesco Crispi: I Mille; Broccardo,
;~·
"' Gentile, etc.: Goffredo Mameli e i suoi tempi; C. Maurras: "Z.:Action
·;:, Française" ele Vatican 1 •
69. Durante a última visita me esqueci de lhe agradecer o lencinho e
dar os devidos parabéns. Os gansinhos me pareceram perfeitos. Não
21 de novembro de 1927 lembro se contei alguma vez a história dos lencinhos bordados por
Genia; eu me divertia à beça, zombando dela, dizendo que as andori-
Querida mamãe, nhas ou os outros ornamentos do bordado eram sempre lagartixas. E,
na verdade, tanto os ornamentos quanto as iniciais daqueles lenços ti-
Há algumas semanas, não recebo notícias nem suas nem de Carlo. nham uma forte tendência a assumir aspectos sáurios: Genia se enfu-
Acredito que já lhe informei que ainda vou ficar em Milão durante al- recia de fato, ao ver ignorados os méritos dos trabalhos femininos dela.
gum tempo. Ainda não recebi os livros que me anunciaram. Minhas Ao contrário, devo reconhecer, com plena lealdade, que seus trabalhos
condições de saúde são bastante boas. Nestes últimos dias me sinto são muito bem-feitos e renovo os parabéns.

208 209

"....:
(:·
''".
192 7
CARTAS DO CÁRCERE

estou mais isolado, mas f~co numa cela comum com outro preso polí-
Gostaria de escrever mais detidamente sobre a questão do novo tico, que tem uma garotinha de três anos, cheia de graça e beleza, que
terno. Para mim, é uma questão completamente ociosa. É preciso le-
se chama Maria Luisa. Segundo um costume sardo, decidimos que Delio
var em conta que o processo acontecerá num prazo relativamente pró- se casará com Maria Luisa assim que os dois chegarem à idade de se
ximo e, depois da condenação e da transferência para uma instituição
:.~ casarem; o que é que acha da idéia? Naturalmente, esperamos o con-
penal, a administração carcerária fornece a roupa regulamentar do pre- ·-~%
·~;, sentimento das duas mamães para dar ao contrato um valor mais defi-
so. É verdade que o regulamento utiliza a este propósito uma fórmula ·~ nitivo, embora isto constitua um grave desvio dos costumes e princípios
bastante vaga; diz mais ou menos assim: "O detento terá o cabelo ras-
de minha terra. Imagino que esteja sorrindo, o que me faz feliz; só com
pado e receberá uniforme para vestir, se necessário". Parece que pode
grande esforço consigo imaginar você a sorrir.
haver exceções. Mas eu não tenho nenhuma prevenção específica con-
Abraços carinhosos, minha cara.
tra o uniforme e não vou fazer requerimentos especiais para ser uma
"exceção". Portanto, para que serve fazer roupas novas? Durante o Antonio
julgamento, uma vez que se poderia dizer que meu atual paletó é uma
exibição "demagógica", vou vestir a roupa que tenho no depósito e
que está com um aspecto bastante decente. Naturalmente, não quero 72.
discutir com você sobre esta questão nem quero contrariá-la; parto de
pressupostos absolutamente utilitários, que só podem ser corrigidos e 28 de novembro de 1927
modificados pela preocupação de não contrariá-la. Abraços carinhosos,
Antonio Querida Tania,

Recebi sua carta do dia 17 de novembro; parece que, já durante a


1. Francesco Crispi (1818-1901), primeiro-ministro entre 1887-1891e1893-1896,
participou da expedição garibaldina dos Mil, que tomou de assalto a Sidlia e o Sul
visita, lhe disse tudo que pode ter referência com o que me escreve. A
da península em 1860. Passou do radicalismo republicano da juventude para po- febre durou poucos dias; certamente, decorria de uma leve faringite, que
sições monarquistas, nacionalistas e imperialistas. Gramsci aqui se refere ao livro também desapareceu. Minhas condições gerais de saúde melhoraram
I Mille. Da documenti dell'archivio Crispi (Org. T. Pâ'lamenghi-Crispi. Milão, 1927). enormemente. Pela primeira vez depois de muito tempo, passo dias in-
teiros sem a menor dor de cabeça e, de manhã, me levanto da cama ver-
dadeiramente descansado, às vezes até com uma terrível vontade de
71. esmurrar alguém, o que, espero, não terá nenhuma conseqüência dele-
téria para a integridade física de meu companheiro de cela! Em síntese,
21 de novembro de 1927 a mudança me fez muito bem; a nova comida, preparada com bondade
cristã pela mulher de Tulli, teve a virtude de estimular rneu apetite, que
Querida Giulia, andava meio morto pelo gosto permanente da água de lavar prato que
caracterizava a comida do restaurante, como, de resto, caracteriza todas
No pátio, onde regularmente t.omo banho de sol com outros as comidas de restaurante do universo 1 • Durmo mais e parece que estou
detentos, foi montada uma exposição fotográfica dos respectivos fi- no bom caminho para me tornar um perfeito filisteu, o que me preocu-
lhos. Delio obteve muito sucesso e admiração. Faz alguns dias que não pa bastante, uma vez que leio pouquíssimo e com acentuada inclinação

2 11
210
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~,~.·

CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

pelos romances de Ponson du Terrail2. Espero a carta na qual prometeu escrever; sinto-me esgotaqo por causa de uma longa operação de corte
me narrar detalhadamente os admiráveis progressos do desenvolvimen- dos cabelos e da barba. Mas quero novamente, e a sério, tranqüilizá-la
to físico de Delio. Abraços afetuosos, sobre meu regime de cela; com certeza, a questão dos cafés e dos ci-
Antonio garros é só uma brincadeira. Na verdade, tenho hábitos morigerados e
eu mesmo devo deixar continuamente a modéstia de lado para me
1. Giuseppina (Pina) Bosa~tro (1897-1971) era a mulher de Enrico Tu!li. Tatiana se admirar; só bebo três cafés por dia e não fumo mais do que quinze
hospedou durante algum tempo na casa de Pina, antes de se internar novamente cigarros. Não me parece nenhum exagero nem nada demais. Poderia
num hospital milanês, entre fevereiro e abril de 1928.
2. Pierre-Alexis Ponson du Terrail (1829-1871) foi um autor "conservador-reacionário" me limitar a dois cafés e a dez cigarros, sem dificuldade, e é o que vou
'de popularíssimos romances folhetinescos, como As façanhas de Rocambole (1859). tentar fazer com os cigarros. Acredite que se tratou apenas de uma
Gramsci se ocupou várias vezes de Ponson du Terrail, em particular no Caderno 21, brincadeira.
Problemas da cultura nacional italiana. 1º Literatura popular (CC, v. 6, p. 37 s.).
Abraços carinhosos,

• Antonio
73.

28 de novembro de 1927 75.

Querida Giulia, 12 de dezembro de 1927

No sábado passado, Tania me transmitiu pessoalmente as informa- Querida mamãe,


ções que recebeu, especialmente sobre Delio. Espero suas cartas e as
fotografias; parece-me que tudo deve ter mesmo mudado, de modo Recebi sua carta de 30 de novembro, depois de quase um mês sem
que não posso, sem um estímulo visual, ter uma idéia da realidade da receber mais notícias. Seria bom se escrevesse ou fizesse alguém escre-
fase atual. Abraços, "' -l~: ver pelo menos a cada quinze dias; só um cartão seria suficiente. Na
Antonio vida que sou forçado a levar, a ausência de notícias se torna às vezes
z~
um verdadeiro tormento. Não sei mais o que escrever para consolá-la
~ '.ffe~
e tranqüilizar seu estado de espírito. Nunca duvide de minha paz de
:~;Ã~
espírito. Não sou um menino nem um simplório, não é verdade? Mi-

i
74.
nha vida sempre foi regrada e governada por minhas convicções, que
5 de dezembro de 1927 certamente não eram caprichos passageiros ou improvisações do mo-
mento. Por isso, até mesmo o cárcere era uma possibilidade a ser en-
Querida Tania, ,J?;. frentada, se não como um divertimento leve, como uma necessidade
..(?):.
'''· de fato, que não me metia medo como hipótese e não me deprime como
Recebo neste momento sua carta de 28 de novembro, com as no- ·~ estado de coisas real. Por outro lado, até minhas condições de saúde,
tícias que você mencionou na penúltima visita. Não tenho vontade de ;:;;; que no início me preocupavam um pouco, hoje me deixam mais segu-

212 213

~:i'.
~····.
Lf:.·

1927
CARTAS DO CÁRCERE

de Pascarella, e os volumes de novelas de Tchekhov e de Maupassant,


ro. A experiência provou que sou muito mais forte, inclusive fisica-
que mencionou durante a outra ' visita.
mente, do que eu próprio julgava; tudo isto contribui para que eu veja
O volume de Croce não é o que eu havia indicado e se chama: Teoria
o futuro próximo com frieza e serenidade. Gostaria que você também
e storia della storiografia; este é num só tomo e custa 20 liras, enquan-
tivesse esta convicção. to o que recebi é em dois tornos e custa 40 liras 1 • É verdade que as duas
Recebi notícias, bastante boas, dos meninos e de Giulia. Delio está obras se complementam, num certo sentido, e talvez convenha relê-las
se desenvolvendo muito bem. Com três anos e quatro meses, já tem juntas, mas do ponto de vista "carcerário" o que recebi não é o me-
um metro de altura e não lhe serve uma roupinha comprada em Roma lhor. O outro contém ainda, além de uma síntese de todo o sistema
para meninos de cinco anos; o desenvolvimento intelectual é paralelo filosófico crociano, uma verdadeira revisão do mesmo sistema, e pode
a este desenvolvimento físico tão promissor. levar a longas meditações (ets sua específica utilidade "carcerária"). Se
.. ~·
Se quiser mandar um pacote a Tatiana, acho melhor que o mande puder obtê-lo, ficarei agradecido. É preciso informar ao livreiro que
para a senhora em cuja casa ela se hospeda: Sr.ª Isabella Galli - Via nunca recebi um volume encomendado há bastante tempo: Giulio
Montebello, 7, Milão-, no caso de uma partida repentina para Roma, J· Bertoni e Matteo Giulio Bartoli, Manualetto di Linguistica, publicado

~'
que se torna cada dia mais provável. O pacote, na melhor das hipóte- em Modena, em 1925, por um editor que não recordo. Se for difícil
ses, dada a escassez de tempo e a grande quantidade de pacotes que conseguir, pode-se deixar de lado, porque já abandonei o projeto de
circulam por ocasião das próximas festas, poderá chegar no dia de ano escrever (por motivo de força maior, dada a impossibilidade de obter
novo ou no dia de Reis; por isso, será conveniente não mandar coisas o material necessário) uma dissertação sobre o tema, com o título: "Esta
que se deterioram rapidamente.
i)~ mesa redonda é quadrada", que, acredito, se tornaria um modelo para
Votos calorosos de bom Natal; espero que passe um Natal sem tris- trabalhos intelectuais carcerários presentes e futuros 2 • A questão, infe-
lizmente, permanecerá sem solução ainda por um bom tempo, o que
teza, pensando que, com certeza, ainda haveremos de festejar muitos
me causa urna certa insatisfação. Mas lhe asseguro que a questão exis-
Natais juntos, comendo muitas cabeças assadas de cabrito. Abraços
te e já foi discutida e tratada em algumas centenas de dissertações aca-
carinhosos para você, junto com os outros em casa.
dêmicas e folhetos polêmicos. E não é uma questão menor, se você
u: Nino pensar que ela significa: "O que é a gramática?" e que todo ano, em
todos os países do mundo, milhões e milhões de gramáticas são avida-
mente devoradas por milhões e milhões de exemplares da raça huma-
76. na, sem que os infelizes tenham uma consciência exata do objeto que
devoram. Não quero levar adiante, nem esquematicamente, meus ar-
12 de dezembro de 1927 gumentos, porque o espaço seria insuficiente; sem contar a preocupa-
ção de que estes argumentos, dado o caráter relativamente público de
Querida Tania, minha correspondência, cheguem até algum estudante em busca de
temas para teses doutorais de filologia e eu seja defraudado da justa
Recebi os seguintes volumes: 1) Calendário-Atlas De Agostini, ano .,, fama que me proponho adquirir com minhas elucubrações. Portanto,
de 1927; 2) Mario Sobrero, Pietro e Paolo; 3) Benedetto Croce, Storia' se for difícil encontrar o livro, não será preciso insistir. Se ele tiver sido
enviado e perdido, mas puder ser recuperado, eu aviso.
della Storiografia italiana nel secolo XIX. Ainda não recebi os Sonetti,

214 215
.,:~ _· ·.:: ...... ;,;

CARTAS DO CÁRCERE
1 9 2 7

Querida Tania, não se impressione se algumas vezes, durante a vi- Como irá passar as f~stas de Natal? Fico feliz porque terá com-
sita, me vir nervoso, inquieto e irrequieto. Suponho que seja uma con- panhia e poderá ter alguma distração. Vão fazer a árvore de Natal?
seqüência do fato de que, na cela, nos habituamos aos rumores abafados R~,
Fiz a última árvore de Natal em 1922 para alegrar Genia, que ainda
e o estrépito da multidão, com a nota dominante dos gritos metálicos não podia se levantar da cama ou, pelo menos, não podia ainda ca-
das mulheres, nos impinge uma desagradável inquietação nervosa. Não minhar sem se apoiar nas paredes e nos móveis. Não lembro bem se
pense que esteja febril ou preocupado por alguma outra razão. Abra- ela se levantou; lembro que a pequena árvore estava colocada na
ços carinhosos; gostaria de beijar suas mãos.
mesinha ao lado da cama e estava repleta de velinhas, que foram to-
Antonio das acesas simultaneamente logo que Giulia, que tinha dado um con-
• certo para os doentes, voltou ao quarto, onde eu tinha ficado fazendo
1. Cf. carta 67. Sobre a Teoria e storia dei/a storiografia (Bari: Laterza, 1927), cf., em companhia a Genia 1 •
particular, CC, v. 1, p. 286-7.
2. "Esta mesa redonda é quadrada" é um trabalho de Croce, recolhido em Problemi Cara Tania, gostaria de consolá-la, porque ainda guardo a im-
di Estetica e contributi alia storia dell'Estetica italiana, livro de 1923 (CC, v. 6, p. .Wf; pressão de seu estado de espírito dolorido e perturbado; abraços
141-2 e 160). carinhosos,
• ~r
Antonio
77.
~1 1. Ainda que jã tivesse saído da clínica moscovita onde, em.setembro, havia conheci-
do Giulia, Gramsci nela passou as festas de fim de ano em companhia das irmãs
19 de dezembro de 1927 Schucht. Em dezembro de 1922, escreveu a Giulia: "Cara companheira, soube on-
tem através de sua mãe que você vai chegar em Moscou no sãbado de manhã, de
passagem para Serebriani Bor. Assim que chegar, quer vir me encontrar? Vou ten-
Querida Tania, tar arrumar, para as três da tarde do sãbado, um automóvel que nos leve ao sana-
tório. De todo modo, quero passar com você o ano novo junto à companheira
Eugenia" (Lettere 1908-1926, cit., p. 104).
Tive a impressão, especialmente depois da última visita, de que se
criou entre nós um certo equívoco em torno de minha correspondên-
cia. Quando você toca neste assunto, parece otque se sente como que 78.
embaraçada, porque me considera tomado por pensamentos ruins ou
preocupações que não quero confessar. Gostaria de destruir radical-
mente este equívoco, tranqüilizando-a. Só um fato é verdadeiro: eu 19 de dezembro de 1927
hesito em falar e escrever sobre minhas coisas mais íntimas por conta
Querida mamãe,
de uma reserva que não consigo absolutamente superar. na presença de
terceiros. Por isso, às vezes, de modo involuntário e instintivo, inter-
Recebi sua carta registrada de 12 de dezembro; e tinha recebido
rompo suas alusões com uma certa brusquidão, que lhe peço não in-
alguns dias antes o volume de Boullier sobre a Sardenha, do qual já
terpretar em qualquer sentido negativo. Cara Tania, lamento ter-lhe
nem me lembrava mais 1• Agradeço o dinheiro que mandou. Comprei
causado, também nisso, momentos ruins de desconforto e melancolia.
de propósito uma fatia de panetone de Natal, para comer como se você
Pelo menos foi o que pareci ter compreendido, ao refletir na cela so-
é que tivesse me mandado diretamente. Com certeza, preferiria um bom
bre suas atitudes e as expressões de seu rosto.

216 217
:··

1 9 2 7
CARTAS DO CÁRCERE

·)~
de pão até mesmo o último resto de gordura que estivesse grudado no
prato de kulurzones, como os de tiu Franziscu Frore, com um par de
prato! Um preso chorou porque, num quartel de carabineiros onde
pequenas cabeças assadas de cabrito; que tal? Mas talvez o próprio
estávamos em trânsito, em vez da sopa regulamentar só distribuíram
Franziscu Frore esteja morto e tenha levado para o túmulo seu segredo
uma dupla ração de pão; há dois anos estava no cárcere e a sopa quen-
culinário. Espero que todos passem bem o período de festas, sem me-
te era, para ele, seu sangue, sua vida. Compreende-se por que no Pai
lancolia e sem amargura; é o que lhes desejo de todo o coração. Eu
também estou certo de ter muito boas festas, pois a saúde está bem e Nosso se enfatiza o pão cotidiano.
vou comer panetone com vinho branco, à saúde de vocês. Abraços Eu pensei em sua bondade e em sua abnegação, cara Tania. Mas o
dia transcorreu um pouco como todos os outros. Talvez tenhamos ta-
carinhosos para você, junto com todos em casa.
garelado menos e lido mais. Li um livrinho de Brunetiêre sobre Balzac,
Nino uma espécie de punição para meninos malcomportados 1 • Mas não quero
atormentá-la com este assunto. Em vez disso, quero lhe contar um
1. A. Boullier. L:ile de Sardaigne. Description, Histoire, Statistique, Moeurs, État social.
Paris, 1865. Sobre este livro, cf. CC, v. 5, p. 152-3.
episódio quase natalino de minha infância, que irá diverti-la e dar um
traço característico da vida lá pelos meus lados. Tinha quatorze anos e
,i.:-·
cursava a terceira série ginasial em Santu Lussurgiu, um vilarejo dis-
tante do meu cerca de dezoito quilômetros e no qual acredito que ain-
79.
da exista um ginásio municipal, na verdade muito arruinado. Com um
26 de dezembro de 1927 outro rapaz, para ganhar vinte e quatro horas em família, nos pusemos
a pé na estrada depois do almoço do dia 23 de dezembro, em vez de
Querida Tania, esperar a diligência da manhã seguinte. Andamos, andamos, e chega-
mos, na metade da viagem, a um lugar completamente deserto e soli-
E assim também passou o santo Natal, que imagino quanto tenha tário; à esquerda, a uns cem metros da estrada, alongava-se uma fileira
sido trabalhoso para você. Na verdade, só pensei no caráter extraordi- de álamos em meio à vegetação de arbustos. Dispararam contra nós
nário do Natal deste ponto de vista, o único que me interessava. De um primeiro tiro de espingarda por sobre a cabeça; a bala assoviou a
notável só houve o fato de uma tensão geral dos~espíritos vitais em todo uma dezena de metros de altura. Achamos que era um tiro casual e
o ambiente carcerário; o fenômeno já podia ser detectado em desen- continuamos tranqüilos. Um segundo e um terceiro tiro mais baixos
volvimento por toda uma semana. Cada qual esperava alguma coisa logo nos alertaram que éramos os alvos e, então, nos arremessamos
excepcional e a expectativa produzia toda uma série de pequenas numa valeta, permanecendo algum tempo encolhidos. Quando tenta-
manifestações típicas, que, no conjunto, davam esta impressão de um mos nos levantar, outro tiro, e foi assim por cerca de duas horas, com
impulso de vitalidade. Para muitos, a coisa excepcional era uma por- uma dúzia de disparos que nos perseguiam, enquanto nos afastávamos
ção de espaguete e um quarto de vinho que a administração distribui rastejando, sempre que tentávamos voltar à estrada. Certamente, era
três vezes por ano, em vez da sopa de sempre: mas, apesar de tudo, uma turma de brincalhões que queria se divertir metendo-nos medo,
como este acontecimento é importante! Não imagine que eu me divir- mas que brincadeira estranha, hem? Chegamos em casa já noite escu-
ta ou ria com isto. É o que teria feito, talvez, antes de ter experimenta- ra, bastante cansados e enlamlados, e não contamos a história a nin-
do o cárcere. Mas vi muitas cenas comoventes de presos que comiam guém para não amedrontar a família, mas não ficamos com muito medo,
seu prato de espaguete com religiosa contrição, recolhendo com o miolo tanto que, no feriado seguinte de carnaval, a viagem a pé foi repetida

218 ;~ 219
CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 7

sem qualquer incidente. Eis que enchi quase inteiramente as quatro em 1924-1925, escreviam,e publicavam que estávamos de acordo com
pequenas páginas! o Governo ou coisa desse tipo?) 2 •
Abraços carinhosos, Caro Berti, mantenha o bom humor; preocupe-se apenas com sua
Antonio saúde física, para poder suportar firmemente qualquer adversidade.
Abraços fraternais,
Mas a história é de verdade mesmo; não é uma destas que contam
Antonio
sobre salteadores!
Dê minhas lembranças cordiais a Maria e muitos parabéns pela
1. Ferdinand Brunetiere (1849-1906), crítico literário e editor, por muitos anos, da
Revue des Deux Mondes. Em 1905, publicou Honoré de Balzac (1799-1850). prole. Tulli, que está comigo na cela, lhe envia saudações afetuosas.

1. Giuseppe Berti e outros confinados em Ustica foram presos em outubro de 1927,


sob a acusação de desenvolver atividades antifascistas na "escola" organizada por
80. Gramsci e Bordiga cerca de um ano antes.
2. Gramsci brinca com a situação embaraçosa de certos advogados, cujos laços ante-
riores com a maçonaria - proscrita pelo regime - pudessem de algum modo vir
26 de dezembro de 1927 à tona durante o julgamento.

Querido Berti,

Recebi com um certo atraso sua carta do dia 25 de novembro. Sa-


bia que um grupo de confinados foi enviado para o cárcere em Palermo,
mas ignorava a acusação exata; pensava que se tratasse de um proces-
so disciplinar no âmbito do magistrado local, só transferido para
Palermo por causa da capacidade limitada do cárcere da ilha1 • Bem,
·1
-~t.
.~~ ~
·:

;.tf.1;
paciência, caro Bertil "'
Como você, conheço mais ou menos alguns advogados. Acho que
você vai ter tempo para pensar nisso, se a fase de instrução for até o
fim e o despacharem para Roma. Eu, pessoalmente, ainda não pensei
no grave problema, que me faz rir um pouco. Assim por alto, até dis-
pensaria um advogado, se não me divertisse antecipadamente imagi-
nando sua oratória, ou melhor, sua menga, e se não seguisse o princípio
geral de não deixar de lado nenhuma possibilidade legal. O diverti-
mento seria o maior possível se pudesse escolher algum advogado de-
mocrata maçom inativo, para deixá-lo em maus lençóis e constrangê-lo;
mas será preciso, infelizmente, racionar nossos próprios divertimentos
(pode imaginar, por exemplo, a posição de um destes advogados que,

220 221
~'.

rr

1928

81.

2 de janeiro de 1928

Querida mamãe,

Como é que vocês passaram todo este período de festas? Muito


··'· bem, espero; sem preocupações e sem queixas quanto à saúde. Eu pas-
. sei todas estas festas com muita simplicidade, como pode muito bem
imaginar; mas quando se tem saúde ...
No Natal, queria lhe mandar um telegrama de boas-festas que che-
.;~~: gasse estalando de novo para a ocasião; mas não me permitiram. Os
presos, ao que parece, não têm o direito de mandar votos de felicida-
des à família, que cheguem justamente no dia estabelecido pelo calen-
dário e pela tradição como fe~ta familiar. Lamentei por você, querida
mamãe, que teria sentido menos melancolia naquele dia, recebendo
minhas lembranças. O que é que se pode fazer?
" De qualquer modo, mais um ano passou, mais rápido do que teria
imaginado e não completamente inútil para mim. Aprendi uma por-
ção de coisas que, caso contrário, teria sempre ignorado, vi uma série
de espetáculos que, de outro modo, jamais teria oportunidade de ver.
Em resumo, não fiquei descontente com o ano de 1927. E isto não é
pouco para um preso, não é verdade? Isto significa que sou um preso
excepcional e espero continuar assim por todo o tempo que terei de
transcorrer nesta categoria.
Abraços afetuosos para você, junto com todos em casa.
Nino
; . ~-
\~·
~~.
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223
í.
~~
~:
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~:
CARTAS DO CÁRCERE
1 9 2 8

82.
lhe apresentar o requerim~nto protocolar, ouvi à queima-roupa esta
pergunta: "Mas você conhece os oitenta e quatro artigos do Estatu-
2 de janeiro de 1928
to?". Nem tinha pensado nestes artigos: me limitara a estudar as no-
ções de "direitos e deveres do cidadão", contidas no livro-texto. E foi
Querida Tania,
para mim uma terrível advertência, que me impressionou ainda mais
porque, no 20 de setembro anterior, havia participado pela primeira
E assim também começou o ano novo. Seria preciso fazer projetos
vez da passeata comemorativa, com um lampiãozinho veneziano, e havia
de vida nova, segundo o costume; mas, por mais que tenha pensado,
gritado com os outros: "Viva o Leão de Caprera! Viva o morto de
ainda não consegui estabelecer tal projeto. Esta sempre foi uma gran-
Staglieno!" (não me lembro se se gritava "o morto" ou "o profeta"
de dificuldade em minha vida, desde os primeiros anos de atividade
de Staglieno: talvez as duas coisas, em nome da variedade!), certo como
consciente. Na escola primária, nesta época do ano, davam como tema
estava de ser aprovado no exame e de conquistar a habilitação jurídica
de redação a questão: "O que fazer na vida". Questão árdua, que re-
para me tornar eleitor, tornando-me um cidadão ativo e perfeito 1 • No
solvi pela primeira vez, aos oito anos, escolhendo a profissão de
entanto, não conhecia os oitenta e quatro artigos do Estatuto. Que tipo
carroceiro. Considerava que o carroceiro unia todas as características
de cidadão eu era, então? E como podia, ambiciosamente, aspirar a
do útil e do agradável: estalava o chicote e guiava cavalos, mas ao mesmo
me tornar oficial de justiça e possuir um cachorro com lacinho e man-
tempo realizava um trabalho que enobrece o homem e lhe traz o pão
ta? O oficial de justiça é uma pequena peça do Estado (eu pensava que
cotidiano. Permaneci fiel a esta orientação também no ano seguinte,
fosse uma grande peça); é um depositário e um guardião da lei, até
mas por motivos que chamaria de extrínsecos. Se tivesse sido sincero,
mesmo contra os possíveis tiranos que quisessem pisoteá-la. E eu igno-
diria que minha mais viva aspiração era me tornar oficial de justiça.
rava os oitenta e quatro artigos! Assim limitei meus horizontes e mais
Por quê? Porque naquele ano tinha vindo à minha cidadezinha, como
uma vez celebrei as virtudes cívicas do carroceiro, que, apesar de tudo,
oficial de justiça, um velho senhor que possuía um simpaticíssimo ca-
também pode ter um cachorro, ainda que sem lacinhos e sem manta.
chorrinho negro sempre ataviado: lacinho vermelho no rabo, uma
Veja como os projetos preestabelecidos de modo muito rígido e es-
pequena manta no dorso, coleira envernizada, adornos na cabeça, como
quemático acabam por se chocar, quebrando-se, contra a dura realida-
os de um cavalo. É que eu não conseguia sep~rar a imagem do cachor-
de, quando se tem uma consciência vigilante do dever!
rinho da imagem do proprietário e de sua profissão. No entanto, re-
Cara Tania, será que você vai pensar que eu pus o cachorro a cor-
nunciei, com muita mágoa, a me embalar nesta perspectiva que me
rer atrás do próprio rabo? Sorria e me perdoe. Abraços,
seduzia tanto. Eu tinha uma lógica formidável e uma integridade mo-
ral de constranger os maiores heróis do dever. Sim, eu me considerava Antonio
indigno de me tornar oficial de justiça e, portanto, possuir cachorri-
nhos tão maravilhosos: não conhecia de cor os oitenta e quatro artigos 1. A data cívica de 20 de setembro teve origem em 1870, quando soldados do Reino
da Itália tomaram de assalto a Porta Pia, em Roma, derrotando os defensores de
do Estatuto do Reino! Era mesmo assim. Havia feito o segundo ano Pio IX. A ruptura entre o Estado italiano e o papado só seria sanada com os Pactos
primário (revelação inicial das virtudes cívicas do carroceiro!) e pensa- Lateranenses, em 1929.
va em fazer no mês de novembro o exame de dispensa, para passar à Giuseppe Garibaldi (1807-1882) foi chamado de "Leão de Caprera", ilha ao lon-
go da costa sarda, onde estabeleceu residência a partir de 1856, apesar das várias
quarta série pulando a terceira: tinha certeza de que seria capaz de fa-
ausências acarretadas pelo empenho na luta em prol da unidade italiana e por sua
zer tal coisa, mas, quando me apresentei ao orientador pedagógico para própria vida aventurosa. Garibaldi morreu e está enterrado em Caprera.

224
225
1 9 2 8
CARTAS DO CÁRCERE •
Giuseppc Mazzini (1805-1872), o outro líder da "esquerda" do Risorgimento, é o
Os três volumes foram. resenhados favoravelmente no último nú-
"morto de Staglieno", o cemitério genovês em que está enterrado. mero da Riforma sociale 3 • Tenho particular interesse no Corso di socio-
logia política, de Michels, porque deve ser a reprodução do primeiro
curso realizado na Universidade de Roma por parte da Cátedra de Ci-
83. ências Políticas recentemente fundada e inaugurada precisamente por
Michels: já li o outro curso sobre a ciência da administração, que, no
9 de janeiro de 1928
entanto, não era muito interessante; tratava-se de exposições "técni-
cas", feitas por altos funcionários do Estado, cada qual no âmbito de
Querida mamãe, seu próprio ministério. Cara Tania, o tempo está terrivelmente som-
brio, a pena requer um esforço excepcional de atenção para não espir-
Seu pacote chegou no sábado. Minha cunhada já me mandou [...]
rar tinta para todo lado e, neste momento, não sou capaz de fazer este
os pirichittos e a fresa 1 • Eu lhe agradeço muito e também transmito
esforço. Abraços afetuosos,
lembranças e agradecimentos de Tatiana.
Quanto a mim, ainda não há nada de novo. Suponho que vá partir Antonio
em breve para Roma, mas ainda não sei nada ao certo. Estou bastante
bem de saúde. Ontem recebi o terno pronto. Tulli me assegura que ficou muito
Lembranças e beijos para todos. Abraços carinhosos, bom. A despesa de feitio foi módica. Recebi os quatro volumes de
Nino Maupassant e os dois de Tchekhov. Muito obrigado.

1. Palavra ilegível entre colchetes. A fresa é um pão de fina textura e tipicamente 1. Roberto Michels (1876-1936), sociólogo italiano de origem alemã, recebeu a in-
fluência das teorias de Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca. Seus escritos tratam do
sarda, mas de origem árabe.
partido de massa na época moderna, da burocracia e dos problemas da democra-
cia. O pessimismo em relação à democracia o levaria mais tarde a aceitar a neces-
sidade do fascismo. Gramsci criticou duramente Michels e, em geral, os teóricos
lt elitistas, nos Cadernos (por exemplo, v. 3, p. 87-8 e 160-70); na carta 87, refere-
84. se, igualmente em termos duros, ao volume Francia contemporanea. Studi, ricerche,
prob/emi, aspetti, publicado em 1927.
9 de janeiro de 1928 2. Henri Sée (1864-1936), historiador econômico francês, estudioso de instituições
e entidades coletivas, mas mais atento do que seu mestre, Fustel de Coulanges, à
ação dos indivíduos e à importância do "acaso". Sobre a posição intelectual de
Querida Tania, Sée, cf. GG, v. 1, p. 446.
3. As resenhas são de Giuseppe Prato, sobre os dois primeiros volumes, e de Luigi
Repito, por escrito, os títulos dos três livros sobre os quais lhe falei Einaudi, sobre o terceiro (La IUforma Sacia/e, n. 11-12, dez. 1927, p. 585-7).
Em torno desta revista e de Einaudi (1874-1961), conhecido economista que
na última visita: se tornaria presidente da Itália entre 1948 e 1955, aglutinavam-se importantes
Roberto Michels, Francia contemporanea, Ed. Corbaccio, Milão. intelectuais adeptos do liberalismo econômico. Cf., inter alia, o artigo de
Roberto Michels, Corso di sociologia política, Milão, Istituto Gramsci, "Einaudi ou sobre a utopia liberal". ln: ld. Escritos políticos, cit., v.
1, p. 231-5.
Editoriale Scientifico1 •
Henry Sée, Matérialisme historique et interprétation économique
de l'histoire, Paris, M. Giard2 •
227
226
,_ '"'• ' -·,-· :··- -,· .··· ·.:..;,_.:_ .:.~-:.. ..

CARTAS DO CÁRCERE 19 2 8

85. Já tenho a impressão de fllUe minha carta de 15 dias atrás contribuiu


imediatamente para que se sentisse mal. E eu queria alegrá-la ou, pelo
23 de janeiro de 1928 menos, fazê-la sorrir. Mas não é fácil para mim, neste momento. Saber
• que você está indisposta força o curso de meus pensamentos por um
Querida mamãe, caminho pouco alegre e, por outro lado, não quero bancar o "jornalis-
ta" com você. Espero vê-la na visita, antes ainda que tenha recebido
Não recebo notícias suas há quase dois meses. O que é que aconte- esta carta.
ceu? Espero que se trate apenas de extravio do correio, mas não posso Abraços carinhosos,
deixar de sentir uma certa ansiedade. Por que não pede que Carlo,
Antonio
Teresina e Grazietta escrevam pelo menos alguns cartões-postais?
Minha vida segue sempre igual. Abraços afetuosos,
87.
Nino

Estou recebendo sua carta do dia 2 de janeiro neste momento. A 30 de janeiro de 1928
carta registrada, que recebi, chegou em 17 de dezembro, mas tinha sido
Querido Berti,
expedida sete ou oito dias antes. Já lhe escrevi sobre o pacote: e Tania
também lhe escreveu. Beijos.
Recebi sua carta do dia 13 há uma semana, quando, porém, já ti-
nha esgotado as duas cartas regulamentares. Nenhuma novidade de
86. minha parte. A mesma desolação e a mesma monotonia. Até a leitura
se torna cada vez mais indiferente. Naturalmente, ainda leio muito,
30 de janeiro de 1928 mas sem interesse, mecanicamente. Apesar de estar acompanhado, leio
lt
um livro por dia e até mais. Livros díspares, como pode imaginar (reli
Querida Tania, até O último dos moicanos, de Fenimore Cooper), tal como os distri-
bui a biblioteca de aluguel do cárcere. Nestas últimas semanas, li al-
Espero que já esteja recuperada, quando estiver lendo esta. Penso guns livros mandados pela família, mas nenhum de grande interesse.
que fui, em parte, a causa de seu mal-estar. Deveria ter insistido com Vou enumerá-los, só para ajudá-lo a passar o tempo.
mais energia para que voltasse e não permitido que passasse este tempo · 1- Le Vatican et l'Action Française. Trata-se do chamado "livro
ruim em Milão. Esta neblina e esta umidade são nocivas a um tempe- branco" daAction Française; uma coletânea de artigos, discursos e cir-
ramento como o seu. Estou realmente cheio de remorsos. Além disso, culares que conhecia em grande parte, porque saídos naAct. Franç. de
você, que me prega toda semana que devo me cuidar, me alimentar, 1926. No livro, a substância política do conflito é mascarada por véus
etc., etc., provavelmente não cuida nada de si mesma e desperdiça suas e mais véus. Só aparece a discussão "canônica" sobre a chamada "ma-
energias num monte de movimentos inúteis ou, pelo menos, desneces- téria mista" e sobre a "justa (segundo os cânones) liberdade" dos fiéis.
sários. Mas chega. Não quero continuar a lhe escrever recriminações. Você sabe do que se trata: existe na França uma organização católica

229
228

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1 9 2 8
CARTAS DO CÁRCERE

raça germânica e se vangloÇa de ter dado o nome de Mario a um filho


de massa, do tipo da nossa "Ação Católica", presidida pelo general de
para recordar a derrota dos cimbros e dos teutões, me dá a impressão
Castelnau 1 • Até a crise política de 1926, os nacionalistas, de fato, eram
da mais refinada hipocrisia para fins de carreira acadêmica.
o único partido político que organicamente se inseria nesta organiza-
Coletânea de escritos por ocasião do centenário de Goffredo
ção e tirava proveito de suas possibilidades (entre quatro e cinco mi-
Mameli (Gentile, etc.) - A segunda edição de I Mille, de Francesco
lhões de inscrições anuais, por exemplo). Isto é, todas as forças católicas
Crispi, o mais interessante de todos. E é tudo, porque não quero falar
estavam expostas às conseqüências das aventuras de Maurras e Daudet,
de alguns outros menos significativos, de caráter romântico. Escreva-
que, em 1926, já tinham pronto o governo provisório para instalar no
me quando puder; mas acredito que suas possibilidades são ainda me-
poder em caso de colapso. O Vat., que, ao contrário, previa uma nova
nores do que as minhas. Cordialmente,
onda de leis anticlericais como as de Combes, quis romper ostensiva-
-~~
.r,
mente com a Act. Franç. e trabalhar pela organização de um partido Antonio
};
católico democrático de massa, que tivesse a função de um Centro ,';~-

parlamentar, segundo a política Briand-Poincaré2 • NaAct. Franç., por Tulli lhe envia saudações. Devo corrigir um erro, contido em carta
motivos óbvios, só saíam artigos semi-respeitosos e moderados: os ata- minha do tempo em que você estava em Ustica. Indicava um livro so-
ques violentos e pessoais ficavam reservados para o Charivari, publi- bre o método histórico, atribuindo-o a um certo Bernstein, quando, ao
cação semanal que não tem equivalente entre nós e que não era contrário, se tratava de Bernheim: a memória anda mesmo falhando,
oficialmente de partido; mas esta parte da polêmica não é reproduzida ;~ porque este volume me serviu por dois anos como livro-texto: vê-se
no livro 3 • Vi que os ortodoxos publicaram uma resposta ao "livro bran- que envelheci mais do que supunha5 • O nome exato veio à tona ines-
co", organizada por Jacques Maritain, professor da Universidade Ca- ''!. peradamente e sem nexo razoável. Quero avisá-lo disso por uma ques-
tólica de Paris e líder ·reconhecido dos intelectuais ortodoxos: isto :~~
·~,~ tão de precisão. Lembranças afetuosas.
significa que o Vaticano obteve um sucesso notável, porque, em 1926, "if
Maritain escrevera um livro para defender Maurras e antes assinara 1. Édouard de Cu~iêres de Castelnau (1851-1944), comandante do II Exército fran-
uma declaração no mesmo sentido: hoje, pois, estes intelectuais se di- cês na Primeira Guerra e, posteriormente, deputado e fundador da Federação Na-
4 cional Católica.
vidiram e o isolamento dos monarquistas deve a: ter se acentuado • 2. Émile Combes (1835-1921), primeiro-ministro entre 1902 e 1905, promoveu uma
Um livro de Alexandre Zévaes, Storia del/a terza repubblica: La série de leis que levaram à separação entre Estado e Igreja e ao rompimento de
Francia dal settembre 1870 al 1926, superficialíssimo, mas divertido. relações entre a França e o Vaticano.
1·i, 3. Le Charivari aparece entre os "tipos de revista" em CC, v. 2, p. 208.
Episódios, citações abundantes, etc. Útil para recordar os acontecimen- 4. Jacques Maritain (1882-1973) escreveu em 1926 o livro aqui considerado como
tos mais importantes da vida parlamentar e jornalística francesa. favorável à Ação Francesa, Une opinion sur Charles Maurras et le devoir des
R. Michels, La Francia contemporanea. É uma fraude editorial. catholiques, mas já em 1927 mudaria esta posição em Primauté du spirituel, livro
cuja edição italiana Gramsci possuía no cárcere (cf. carta 180 e, também, CC, v. 3,
Trata-se de uma coletânea, sem nexo, de artigos sobre alguns aspectos p. 92-107).
muito parciais da vida francesa. Já que nasceu na Prússia renana, zona 5. Ernst Bernheim (1850-1942), estudioso de formação positivista, tratou dos pro-
de convergência entre romanismo e germanismo, Michels se conside- blemas da didática e da investigação histórica. Em 1889, publicou o Lehrbuch der
ra destinado a consolidar a amizade entre alemães e neolatinos, unin~
historischen Methode und der Geschichtsphilosophie [Manual do método histórico
e da história da filosofia], que teve várias edições e por muito tempo constituiu
do em si as piores características de uma e outra cultura: a insolênci~ um guia para o tratamento "científico" da história. Gramsci se refere, provavel-
do filisteu teutônico e a fatuidade malfadada do meridionalismo. E, mente, a uma tradução parcial de 1907, La storiografia e la filosofia della storia,
que usou em sua época universitária (CC, v. 1, p. 238-9, e v. 4, p. 22-3).
ainda por cima, este homem, que exibe como um troféu seu repúdio à

230 231
1 9 2 8
CARTAS DO CÁRCERE

89.
88.
6 de fevereiro de 1928 6 de fevereiro de 1928

Querida Tania,
Querida mamãe,

Recebi na semana passada duas de suas cartas: uma de 25 de janei- Tive notícias de sua saúde e também de sua impaciência para
ro e a carta registrada de 1° de fevereiro, com as 200 liras. Desta vez, sair da clínica. Esta sua impaciência me parece pouco razoável. La-
sua correspondência chegou num tempo razoável. mento, realmente, não ter a possibilidade de usar meios mais con-
Asseguro que minhas condições de saúde estão muito boas; se es- vincentes do que as palavras para obrigá-la a se tratar racionalmente;
crevi bilhetes curtos, na última vez, foi só porque não recebia notícias o que me deixa uma fera é o fato de que você é quem prega, tenaz-
suas. Há quinze dias tomo injeções de bioplastina, o que vai contri- mente, que tenho de me tratar, me tratar, me tratar. Isto lhe parece
buir, pelo menos, para me manter com vigor. De resto, passei a pri- correto? Neste caso, me sinto kantiano até a raiz dos cabelos: "Não
meira metade do inverno sem muitos sobressaltos. Um pouco de frio, exija que os outros façam aquilo que você mesmo não estaria dis-
o que me trouxe friagens, que nunca tive antes: vê-se que estou enve- posto a fazer". Isso porque nossas condições são as mesmas. E, ain-
lhecendo e que o sangue esfriou alguma coisa. Suas duas cartas me ir- da por cima, você está indiscutivelmente mais convencida do que
ritaram um pouco. Espero que não mande rezar missa pelo bom fJ:S
eu sobre a moralidade das máximas absolutas de Kant e deveria, além
resultado de meu processo! Não se preocupe com estas coisas. Eu es- disso, lembrar o princípio profissional: Medice, cura te ipsum. Em
tou muito tranqüilo e estarei ainda mais se tiver certeza de que você ~- resumo, não me obrigue a lhe dar ultimatos. Porque sou capaz não
..;:-·
está tranqüila e serena. E por que não deveria estar? A sorte que me só de interromper as injeções mas também de cancelar as visitas, se
· espera, como diz, não é tão terrível assim: é uma simples questão de ..? me convencer de sua falta de sabedoria, e de encarregar a Sr.ª Pina
.:g
tempo e de paciência. de puxar suas orelhas 1 •
Agradeço muito a carta registrada de Caflo. Abraços afetuosos para Cara Tania, espero de verdade que não faça nada contrário às
todos e, para você, muitos, muitos abraços. orientações do médico. O fato de saber que não está bem aumenta
Nino as muitas preocupações que me atormentam; quando soube que
estava mal, fiquei quatro ou cinco dias tão furioso comigo mesmo
Tatiana adoeceu e foi hospitalizada outra vez; o clima ruim de que nem dirigia a palavra a Tulli. Se quer que eu esteja tranqüilo,
Milão e o esforço que faz para me trazer comida todo dia são certa- ~ tem de me demonstrar que está bem, e para valer, porque não pos-
mente a causa de sua doença. Assim, apesar da prisão, pareço estar so deixar de pensar que estou na raiz de cada um de seus males. E
melhor do que todos. Agora Tatiana está melhor, superou a fase crí- me prometa uma coisa de modo absoluto. É possível que eu parta
tica de uma broncopneumonia. f\.s últimas notícias dos meninos são até antes de nos revermos: o que, afinal, não é uma coisa muito gra-
ve, porque vamos nos rever em Roma. Você tem de fazer a viagem
muito boas.
nas melhores condições possíveis. Tem de viajar no trem expresso,

233
232

..
f{:

1 9 2 8
CARTAS DO CÁRCERE

91.
com beliche para dormir. Com bilhete de segunda classe, o beliche '
custava 60 liras e acho que o preço não aumentou: deve-se fazer a 20 de fevereiro de 1928
reserva alguns dias antes. Vai fazer isto? Promete? Gostaria de aca-
riciá-la: abraços afetuosos, Querida Tania,
Antonio
Recebi sua carta do dia 9; e respondo para o endereço de casa, como
1. A mulher de Enrico Tulli, nessa ocasião, visitava Tatiana no hospital e servia de um voto de que, em alguns dias, possa sair do hospital e retomar a vida
intermediária entre esta e o prisioneiro. normal (sempre sob a condição de que esteja realmente curada e tenha
recuperado suas forças).
O tratamento à base de injeções vai de vento em popa: precisa-
90. mente nesta manhã, tive um testemunho autêntico e irrefutável de uma
. marcha incipiente para a obesidade, o do barbeiro. Ele me afirmou que
13 de fevereiro de 1928
a navalha desliza melhor, porque as faces se encheram um pouco neste
período mais recente. Como se diz, no tocante à saúde, isto é que é
Querida Tania, cortar o mal pela raiz.
Comecei a despachar os livros: até agora despachei quarenta volu-
Soube ontem que está melhor e que talvez possa deixar em breve a
mes. Recebi da livraria o livro de Sée que você havia encomendado.
clínica. Estou muito contente com a boa notícia, mas insisto em que
Logo que você puder retomar a vida normal, vou lhe indicar algumas
você se trate, sem pressa. Não se iluda pensando que a boa estação e o
outras publicaçó!!S para pedir que me mandem. Na verdade, tinha de-
bom tempo já começaram: acredito, pelo contrário, que este é o pior
cidido não pedir mais nada por algum tempo, mas sem pensar que
período do ano em Milão, por causa das repentinas mudanças de tem-
estamos no início de um novo ano e devem sair as Prospettive Econo-
peratura; no ano passado, caiu neve miúda durante todo o mês de
miche per il 1928, do prof. Giorgio Mortara, e oAlmanacco Letterario
março. Como é que tem passado o tempo? 'Tem livros para ler? Eu
Mondadori. Apesar de tudo, não consigo reprimir a necessidade de
continuo a tomar injeções: hoje vou tomar a vigésima; veja como sou
seguir, mesmo que de modo '11.Uito aproximado, o que acontece no
disciplinado! mundo grande e terrível. Querida Tania, espero revê-la em breve. Desta
Anunciaram-me uma carta sua, que, porém, ainda não recebi. Na
vez, poderiam lhe dar autorização até para uma visita privada, de modo
próxima vez que vier me visitar, você deve estar completamente recu-
que me seja possível abraçá-la. Se quiserem se precaver contra minhas
perada; quero vê-la com saúde, senão vou ficar terrivelmente furioso e
terríveis iniciativas, podem ordenar que me façam uma revista pessoal
pedir autorização para puxar suas orelhas por cima das grades.
específica, antes e depois da visita.
Abraços carinhosos, Abraços carinhosos,
Antonio
Antonio

235
234

.,.
.:.,. ~-~)..1_;. .:· ,.!:.-..:.,-;:~-.:. :.._ ...~

CARTAS DO CÁRCERE 1928

92. você pense como mamãe ~estas explicações lhe pareçam uma charada
expressa numa língua ainda desconhecida.
20 de fevereiro de 1928 Observei longamente a fotografia, comparando-a com as que me
havia mandado antes. (Tive de interromper a carta, para que me fizes-
Querida Teresina, sem a barba; não lembro mais o que queria escrever e não tenho von-
tade de voltar a pensar no assunto. Fica para uma próxima vez.)
Recebi sua carta do dia 30 de janeiro e a fotografia de seus filhos. Lembranças afetuosas para todos. Abraços,
Eu lhe agradeço muito e vou ficar muito contente se receber outras
cartas suas. Nino
A pior dificuldade de minha vida atual é o tédio. Estes dias sempre
1. O capo é, evidentemente, Benito Mussolini.
iguais, estas horas e estes minutos que se sucedem com a monotonia
de uma goteira terminaram por me corroer os nervos. Pelo menos os
primeiros três meses depois da prisão foram muito movimentados: 93.
empurrado de um extremo a outro da península, apesar de muitos so-
frimentos físicos, não tinha tempo de me ·entediar. Sempre novos es-
27 de fevereiro de 1928
petáculos para observar, novos tipos excepcionais para catalogar: na
verdade, parecia viver uma novela fantástica. Mas, agora, há mais de Querida Tania,
um ano estou parado em Milão, em ócio forçado. Posso ler, mas não
posso estudar, porque não me permitiram ter papel e caneta à disposi-
Por uma conjunção muito feliz de astros favoráveis, sua carta do
ção, nem com toda a vigilância exigida pelo capo, dado que me tomam
dia 20 me foi entregue no dia 24, junto com a carta de Giulia. Admirei
por um indivíduo terrível, capaz de atear fogo aos quatro cantos do
muito seu talento para o diagnóstico, mas não caí nos laços sutis de sua
país ou qualquer coisa desse tipo 1 • A correspondência é minha maior
esperteza literária. Não acha que seria preferível aplicar o próprio ta-
distração. Mas pouquíssima gente me escreve. Além disso, há um mês
lento a outros indivíduos e não à própria pessoa? (Não por desejar mal
minha cunhada está doente e não recebo seqtfer a visita semanal dela.
ao próximo, naturalmente, se é que se pode falar de próximo neste
Preocupo-me muito com o estado de espírito de mamãe, mas não
caso. Você leu e estudou bem as idéias de Tolstoi? Gostaria que confir-
sei o que fazer para reconfortá-la e consolá-la. Gostaria de passar a ela
masse para mim o significado preciso que Tolstoi dá à noção evangéli-
a convicção de que estou muito tranqüilo, como realmente estou, mas
ca de "próximo". Ele parece se ater ao significado literal, etimológico,
vejo que não consigo. Existe toda uma área de sentimentos e modos de

f
pensar que constitui uma espécie de abismo entre nós. Para ela, minha da palavra: "quem está mais perto de ti, ou seja, os de tua família e, no
prisão é uma terrível desgraça, um tanto misteriosa em seus nexos de máximo, os de tua aldeia".) Em resumo, você não conseguiu embaralhar
causa e efeito; para mim, é um episódio da luta política que era trava- as cartas na mesa, exibindo-me ostensivamente seu talento de médico
da e vai continuar a ser travada não só na Itália, mas em todo o mun- ~E;~:
para fazer com que eu refletisse menos em sua condição de paciente.
do, sabe-se lá por quanto tempo ainda. Eu acabei preso, assim como Além do mais, adquiri um conhecimento especial sobre flebite, por-
durante a guerra se podia cair prisioneiro, sabendo que isto podia acon- que, nos últimos quinze dias de residência em Ustica, fui forçado a
tecer e podia acontecer até mesmo coisa pior. Mas receio que também escutar as longas digressões de um velho advogado perugino que so-

23.6 237

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CARTAS DO CÁRCERE
1 9 2 8

fria deste mal e havia encomendado quatro ou cinco publicações sobre 1. A influência do budi!y11o sobre a civilização ocidental tem raízes
a questão. Sei que se trata de uma doença bastante grave e muito dolo- muito mais profundas do que parece, porque, durante toda a Idade
rosa; será que você vai ter, realmente, a paciência necessária para se Média, desde a invasão dos árabes até cerca de 1200, a vida de Buda
tratar adequadamente, sem pressa? Espero que sim. Posso contribuir circulou na Europa como a vida de um mártir cristão, santificado pela
para que tenha paciência, escrevendo-lhe cartas mais extensas do que Igreja, a qual, só depois de vários séculos, se deu conta do erro come-
de costume. É um pequeno esforço que não me custará nada, se você tido e desconsagrou o pseudo-santo. A influência que tal episódio pode
ter exercido naquela época, quando a ideologia religiosa era muito viva
se alegrar com minha tagarelice. E, além disso, estou muito melhor do
e constituía o único modo de pensar das multidões, é incalculável.
que antes.
2. O budismo não é uma idolatria. Deste ponto de vista, se há um
A carta de Giulia me trouxe mais tranqüilidade de espírito. Vou
perigo, é constituído mais pela música e pela dança trazida para a Europa
escrever para ela em separado, um pouco mais extensamente, se me
pelos negros. Esta música, de fato, conquistou toda uma camada da popu-
for possível, porque não quero recriminá-la e não vejo ainda como posso
lação européia culta e até criou tJm verdadeiro fanatismo. Ora, é impossí-
lhe escrever extensamente, sem fazer recriminações. Você acha justo,
de fato, que ela não me escreva quando está mal ou angustiada? Eu vel imaginar que repetir continuamente os gestos físicos, que, dançando,
penso que, justamente nestas circunstâncias, deveria me escrever mais os negros fazem em torno de seus fetiches, e ter sempre no ouvido o ritmo
e mais extensamente. Mas não quero transformar esta carta numa co- sincopado das jazz-bands fiquem sem resultados ideológicos: a) trata-se
luna de queixas. de um fenômeno amplamente difundido, que atinge milhões e milhões de
Para fazer seu tempo passar, vou contar uma pequena discussão pessoas, especialmente jovens; b) trata-se de sensações muito enérgicas e
"carcerária" que se desenrolou sem muita regularidade. Um certo fu- violentas, isto é, que deixam traços profundos e duradouros; c) trata-se de
lano, que acredito seja evangelista, metodista ou prebisteriano (melem- fenômenos musicais, isto é, de manifestações que se expressan:.i na lingua-
brei dele a propósito do "próximo" acima mencionado), estava muito gem mais universal hoje existente, na linguagem que mais rapidamente
indignado porque se deixavam ainda circular em nossas cidades aque- comunica imagens e sensações totais de uma civilização não só estranha à
les pobres chineses que vendem quinquilharias certamente fabricadas nossa, mas certamente menos complexa do que a asiática, primitiva e ele-
na Alemanha, mas dão a impressão a nossos <i,Ompatriotas de trazerem mentar, isto é, facilmente assimilável e generalizável através da música e
consigo pelo menos um pequeno fragmento do folclore de Catai. Se- da dança para todo o mundo psíquico.
gundo nosso evangelista, era grande o perigo para a homogeneidade Em resumo, o pobre evangelista foi convencido de que, embora tives-
das crenças e dos modos de pensar da civilização ocidental: trata-se, se medo de se tornar um asiático, ele, na verdade, sem se dar conta, estava
segundo ele, de um enxerto da idolatria asiática no tronco do cristia- se tornando um negro, e este processo estava terrivelmente avançado, pelo
nismo europeu. As pequenas imagens de Buda terminariam por exer- menos até a fase de mestiçagem. Não sei quais resultados foram obtidos:
cer um fascínio especial, que poderia ter o papel de reagente sobre a mas acho que ele não é mais capaz de renunciar ao café com acompanha-
psicologia européia e produzir um movimento no sentido de novas mento de jazz e, daqui por diante, vai se olhar mais cuidadosamente no
formações ideológicas totalmente diferentes das tradicionais. Que um espelho para surpreender os pigmentos de cor em seu sangue.
indivíduo, como o evangelista em questão, tivesse tais preocupações Cara Tania, desejo que você se recupere bem e rapidamente.
era certamente muito interessante, ainda que tais preocupações tives- , Abraços,
sem origem muito distante. Mas não foi difícil colocá-lo num labirinto l
de idéias, sem saída para ele, fazendo estas observações: Antonio

238 239
·-·-·• L•o.1.o,: ':.·:.....~.;:":

CARTAS DO CÁRCERE 19 2 8

94. neste inverno, quase três meses sem ver o sol, a não ser em alguns re-
flexos longínquos. A cela recebe uma luz que fica entre a luz de uma
27 de fevereiro de 1928 adega e a luz de um aquário.
Por outro lado, não pense que minha vida transcorra tão monóto-
Querida Giulia, na e igual como à primeira vista poderia parecer. Uma vez adquirido o
hábito da vida de aquário e adaptada a sensibilidade para captar as
Recebi sua carta de 26 de dezembro de 1927, com a nota de 24 de sensações abafadas e crepusculares que ali fluem (sempre a partir de
janeiro e o curto bilhete mais recente 1• Fiquei realmente feliz ao rece- uma posição um pouco irônica), todo um mundo começa a formigar
ber estas suas cartas. Mas já tinha me tranqüilizado há algum tempo. ao redor, com sua vivacidade particular, com suas leis particulares, com
Mudei muito, em todo este período. Houve dias em que julguei ter me seu desenvolvimento essencial. Acontece como quando se lança um
tornado apático e inerte. Hoje, penso que errei na análise de mim olhar sobre um velho tronco meio corroído pelo tempo e pelas intem-
mesmo. Assim, nem acredito mais que estive desorientado. Tratava-se péries e, em seguida, pouco a pouco, concentra-se a atenção cada vez
de crise de resistência ao novo modo de viver que implacavelmente se mais fixamente. Primeiro, vê-se apenas uma fungosidade um tanto
impunha sob a pressão de todo o ambiente carcerário, com suas nor- úmida, com algumas lesmas a destilar baba e a se arrastarem lentamente.
mas, com sua rotina, com suas privações, com suas necessidades, um Depois, vê-se, um pouco de cada vez, todo um conjunto de colônias de
conjunto enorme de coisas mínimas que se sucedem mecanicamente pequenos insetos que se movimentam e esfalfam, fazendo e tornando
durante dias, durante meses, durante anos, sempre iguais, sempre com a fazer os mesmos esforços, o mesmo caminho. Se conservarmos a
o mesmo ritmo, como os grãozinhos de areia de uma ampulheta gi- própria posição externa, se não nos tornarmos uma lesma ou uma for-
gantesca. Todo o meu organismo físico e psíquico se opunha tenazmen- miguinha, tudo isto termina por interessar e fazer com que o tempo
te, com todas as suas moléculas, a ser absorvido por este ambiente passe.
exterior, mas, de quando em quando, era preciso reconhecer que algu- Todo detalhe que consigo apreender de sua vida e da vida dos
ma pressão havia conseguido vencer a resistência e modificar certa área meninos me oferece a possibilidade de tentar elaborar algum quadro
em mim mesmo, e então se verificava um movimento rápido e total mais amplo. Mas estes elementos são muito limitados e minha
para rechaçar imediatamente o invasor. Hole, todo um ciclo de mu- experiência foi muito limitada. Mais ainda: os meninos devem mu-
danças já se desenrolou, porque cheguei à serena decisão de não me dar tão rapidamente na idade deles que não consigo segui-los em to-
opor àquilo que é necessário e inelutável com os m,eios e as formás de dos os movimentos e representá-los para mim mesmo. Certamente,
antes, que eram ineficazes e tolas, mas de dominar e controlar, com nisso devo andar bastante desorientado. Mas é inevitável que seja
certo espírito irônico, o processo em curso. Por outro lado, me con- assim. Abraços carinhosos,
h'· venci de que jamais me tornarei um perfeito filisteu. Em cada momen-
to, serei capaz de me desvencilhar, com um movimento brusco, da pele Antonio
meio de asno e meio de ovelha que o ambiente faz crescer sobre a pró-
1. Cf. carta 6, apêndice 2, v. 2, p. 462-3.
pria pele natural. Talvez não consiga nunca mais uma coisa: dar de novo 2. Volia é Valerio, filho de Teodoro Zabel e Anna Schucht, irmã de Giulia.
à minha pele natural e física a cor enfumada. v'olia não vai poder mais
me chamar de companheiro enfumada2. Receio que Delio, apesar de
sua contribuição, já seja mais enfumado do que eu! (Protestos?) Fiquei,

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CARTAS DO CÁRCERE

la a se manter também tranqüila e serena? Será preciso zangar um pouco


95.
para conseguir isto?
5 de março de 1928 Lamento que tia Nina Corrias tenha morrido 1 • Pobre mulher. Acre-
dito que teve muito valor, apesar de sua inocente pose de superiorida-
Querida mamãe, de continental. E, afinal de contas, ela com certeza contribuiu para
renovar um pouco o ambiente de Ghilarza, sem medo de se chocar
Lamento infinitamente que não tenha recebido as cartas que lhe contra preconceitos, instituições e pessoas. Lembra-se do primeiro cír-
escrevi nos meses de janeiro e fevereiro e, por isso, tenha podido acre- culo feminino promovido por ela? E quando mandou enterrar o irmão,
ditar que eu tivesse alguma indisposição, como escreve em sua carta um recenseador, sem o rito religioso? Quanto escândalo, quanto me-
de 27 de fevereiro, que chegou muito rapidamente. Certamente, eu xerico! Lembro-me realmente de tudo e, se bem que risse um pouco
lhe escrevi neste período pelo menos seis cartas, que talvez, neste de muitas de suas iniciativas "progressistas", penso que no fundo se
momento, tenham chegado todas. Eu lhe escrevo a cada quinze dias, tratava de coisas sérias e ela punha em tudo um fervor de qualquer
pelo menos, às vezes escrevi até toda semana. Recebi a carta registrada modo elogiável. Será que se confessou e comungou antes de morrer? E
em 6 de janeiro e, no dia 9 seguinte, anunciava o recebimento. Recebi, tio Francesco, ainda está vivo? (Lembro, parece, que Giovanna mor-
há algumas semanas, urna carta de Teresina, junto com uma fotografia reu, mas não tenho certeza.) Tenho muito interesse por estas notícias
dos meninos; respondi imediatamente. da cidade. Não pense que sejam coisas sem valor e me aborreçam ou
Esta confusão me amargura muito por causa das repercussões que se trate de fofocas. Continuo curioso feito um furão e valorizo até as
tem em seu espírito. Mas não suponha sempre as piores hipóteses nem pequenas coisas. E, aliás, o que é você quer, que em Ghilarza inventem
se atormente continuamente. Você compreende que, se estivesse mal, a pólvora toda semana? Também achava interessantes Corroncu e Brisi
se me sentisse indisposto de qualquer maneira ou em qualquer grau, Illichidiu e t{a Juanna Culamontigu. Eram tipos originais, em seu gê-
eu lhe avisaria logo, porque penso que, não avisando, seria ainda pior, nero, muito ~ais do que outros que faziam grande sucesso e, realmente,
e a notícia inesperada de alguma doença minha se tornaria ainda mais eram muito aborrecidos e com os quais só se podiam trocar cumpri-
alarmante para você. Assim, não tem razão-em pensar que eu esteja mentos e salamaleques.
sempre sombrio e tomado por não sei qual desespero. Não, mas não Então, para encerrar: estou muito bem de saúde; não estou som-
mesmo. Naturalmente, não estou sempre dançando de alegria ou rin- brio, em absoluto, e lhe envio muitos, muitos votos de felicidade pela
do sem parar, mas também não estou sempre sombrio e desesperado passagem próxima de seu onomastico 2 • Mande-me uma fotografia
corno um corvo empoleirado num cipreste de cemitério. Estou real- bonita, mas que seja exatamente como você é em casa, sem enfeites e
mente tranqüilo e sereno, como deve estar quem tem a conscl.ência - veja lá - sem coquetismos! Abraços muito, muito fortes;·
tranqüila e vê a vida sem ilusões. Lamento mesmo que esteja obcecada Nino
pela preocupação de que eu me desespero; se se tratasse de outra pes-
soa, em vez de você, me sentiria ofendido e gravemente insultado. Puxa 1. Nina Corrias, uma parente distante. Professora aposentada, em 1915 voltou de
vida, não sou nenhuma criança (não é verdade?) que se envolveu em Roma para Ghilarza, onde fundou um cfrcu.lo feminino, de 'cujas atividades· parti-
cipava Peppina Mareias.
confusões sem pensar e por leviandade. Veja só, quase me exaltava e 2. O dia em que se festeja o santo que dá nome à pessoa: no caso de Giuseppina, 19
começava a gritar com você! Mas, afinal, como é que posso convencê- de março, dedicado a São José.

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CARTAS 00 CÁRCERE 1928

96. vro bem recente de Michels se repete que a média dos camponeses
calabreses, ainda que analtabetos, é mais inteligente do que a média
5 de março de 1928 dos professores universitários alemães; assim, muita gente se conside-
ra livre da obrigação de fazer desaparecer o analfabetismo na Calábria2 •
Querida Tania, Acredito que os costumes familiares das cidades, dada a recente for-
mação dos centros urbanos na Itália, não podem ser julgados fazendo
Também sua carta de 28 de fevereiro me chegou com rapidez sur- abstração da situação média geral de todo o país, que é ainda muito
preendente; nada menos que em 3 de março, depois de apenas quatro baixa e, deste ponto de vista, pode ser resumida neste traço caracterís-
dias. Faço votos de que continue assim e tal rapidez se estenda a toda tico: um extremo egoísmo das gerações entre os vinte e os cinqüenta
a correspondência. Minha pobre mãe, no entanto, está desesperada, anos, que se verifica em prejuízo das crianças e dos velhos. Natural-
porque há dois meses não recebe minhas cartas; em 27 de fevereiro mente, não se trata de um estigma de inferioridade cívica permanente:
não tinha ainda recebido minha carta de 9 de janeiro, que me lembro seria absurdo e tolo pensar assim. Trata-se de um fato historicamente
com certeza absoluta de ter escrito, e assim pensa que eu esteja grave- comprovável e explicável e que será indiscutivelmente superado com
~~;
mente enfermo e materialmente impossibilitado de escrever. a elevação do nível de vida material. A explicação, a meu ver, reside na
Dou-lhe todos os meus parabéns pelas forças recuperadas, que lhe estrutura demográfica do país, que, antes da guerra, implicava um peso
permitiram levantar-se e caminhar. Mas você é muito otimista por prin- de oitenta e três pessoas passivas para cada cem trabalhadores, enquanto
cípio e acredita demais numa espécie de justiça cósmica! Será melhor na França, com uma riqueza enormemente superior, o peso era de
que tenha paciência e espere até se restabelecer completamente, fora apenas cinqüenta e duas para cada cem. Velhos e crianças demais, em
de qualquer perigo de recaídas e de complicações. Você tem mesmo de comparação com as gerações médias, empobrecidas numericamente
se comportar com juízo! Se não se comportar, vou tornar providências pela emigração. Eis a base deste egoísmo de gerações, que às vezes as-
draconianas contra suas orelhas, sem me preocupar ou me comover sume aspectos de crueldade espantosa. Sete ou oito meses atrás, os
com suas acusações de barbárie! jornais noticiavam este episódio feroz: um pai que massacrou toda a
Li com muito interesse sua carta, devido às observações feitas e às família (a mulher e os três filhos) porque, ao voltar do trabalho no
novas experiências1 • Não considero necessá~io lhe recomendar indul- campo, havia encontrado o mísero jantar devorado pela prole famin-
gência, e· não só indulgência prática mas também, por assim dizer, es- ta. Do mesmo modo, mais ou menos na mesma época, aconteceu em
piritual. Sempre tive a convicção de que existe uma Itália desconhecida, Milão um processo contra marido e mulher que tinham causado a morte
que não se vê, muito diferente daquela aparente e visível. Quero dizer do filhinho de quatro anos, prendendo-o com arame durante meses ao
• t· - já que este f~nôrneno se verifica em todos os países - que a distân- pé da mesa. Ficava claro, a partir dos debates em juízo, que o homem
.,j. duvidava da fidelidade da mulher e que esta, em lugar de perder o
cia entre o que se vê e o que não se vê é, entre nós, mais profunda' do
que nas outras nações ditas civilizadas. Entre nós, a praça, com seus marido defendendo a criança dos maus-tratos, concordou com sua eli-
gritos, seus entusiasmos verbais, sua vaidade, obscurece o chez soi muito minação. Foram condenados a oito anos de reclusão. Este é um tipo de
mais do que em outras partes, relativamente. Assim se formou toda crime que antigamente era considerado nas estatísticas sob um título
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uma série de preconceitos e de afirmações gratuitas, tanto sobre a so- específico; o senador Garofalo considerava a média de cinqüenta con-
lidez da estrutura familiar quanto sobre a dose de genialidade que a denações anuais por tais crimes apenas como um indicador da tendên-
Providência teria se dignado a dar a nosso povo, etc., etc. Até num li- cia criminal, porque os pais culpados, na maioria das vezes, conseguem

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~.


F~

1928
CARTAS DO CÁRCERE

Recebi recentemente notícias das crianças e de Giulia. Delio tem


evitar qualquer punição, dado o costume geral de não se preocupar
muito com a higiene e a saúde das crianças e o difuso fatalismo religio- estado sempre bem, mas o menor esteve gravemente doente, em peri-
so, que leva a considerar quase como uma benevolência especial dos go por alguns meses, e por isso não me mandavam notícias. A doença
atrasou seu desenvolvimento, na dentição e na fala, mas há algum tem-
céus a admissão de novos anjinhos na corte divina 3 • Esta, infelizmente,
po, depois da cura, está se reabilitando bem e recuperando o tempo
é a ideologia mais difundida, e não surpreende que, embora em for-
perdido. Escrevem-me mil detalhes, que não lhe repito, porque são,
mas atenuadas e suaves, ainda se reflita até mesmo nas cidades mais
no fundo, os detalhes habituais da vida das crianças, mas que as ma-
avançadas e modernas. Veja que a indulgência não é fora de propósito,
mães sempre consideram extraordinários e maravilhosos, próprios
pelo menos para quem não crê no caráter absoluto dos princípios nem
apenas de seus filhinhos.
mesmo nesse tipo de relação, mas só em seu desenvolvimento progres-
Parece certo, desta vez, que está próxima a partida para Roma e o
sivo, junto com o desenvolvimento da vida geral. Muitos, muitos para-
processo. Talvez seja mesmo provável que partamos em breve; tentarei
béns. Abraços, informá-la da partida com um telegrama, de modo que possa logo me
Antonio escrever ao novo endereço do cárcere judiciário de Roma. Repito, mais
uma vez, que não se alarme, seja qual for a enxurrada de notícias que os
1. Na carra de 28 de fevereiro, Tatiana se espantava com a desordem na casa de Pina jornais achem por bem publicar. As mesmas acusações, baseadas nos
Tulli: o hábito de acordar muito tarde, a ausência de horários, inclusive para as
mesmos artigos do Código Penal, me foram dirigidas em 1923, quando
crianças, a alimentação irregular. Chamava a atenção, ainda, para"[... ] as relações
entre os filhos autoritários e os seus velhos pais; este aspecto também me pareceu, estava no exterior. Fomos absolvidos já em primeira instância, apesar de
além de novo, inteiramente incompatível com o sentido da civilização e com qual- haver um documento com assinaturas reconhecidas como autênticas pelos
quer pitada de ideologia nova" (Lettere 1926-1935, cit., p. 190). Tatiana parece acusados'. Agora serei certamente condenado a muitos anos, embora a
sugerir, assim, um contraste com o ambiente em que eram presumivelmente cria-
dos Delio e Giuliano. acusação contra mim se baseie num simples relatório da polícia e em
2. R. Michels. Francia contemporanea, cit., p. 3. impressões genéricas sem provas; mas a comparação entre 1923 e 1928
3. Raffaele Garofalo (1851-1934), senador e estudioso de Direito Penal, discípulo do é suficiente para dar uma noção da "gravidade" em si do processo atual
positivismo lombrosiano, foi presidente da Corte de Cassação de Turim. Garofalo
aparece várias vezes nos Cadernos: por exemplo, v. 2, p. 133-4, e v. 5, p. 184.
e para caracterizá-lo. Eis por que estou bastante tranqüilo. Você acha
.. que o que deve contar não são estas circunstâncias acessórias, mas o fato
real da condenação e do cárcere que vou enfrentar? Mas você também
deve levar em conta a posição moral, não é mesmo? Aliás, é só isto que
97.
dá força e dignidade. O cárcere é uma coisa horrível; mas, para mim,
12 de março de 1928 seria até pior a desonra por causa de fraqueza moral e covardia. Por isso,
não se alarme nem se aflija muito e não pense que esteja abatido e deses-
perado. Tenha paciência e, de qualquer forma, não acredite nas menti-
Querida mamãe,
ras que podem publicar a meu respeito.
Na última carta (de 5 de março), cometi um erro, mas que você: Espero que já tenha recebido todas as minhas cartas anteriores.
Renovo as felicitações mais calorosas e afetuosas por seu onomastico.
pôde corrigir por si mesma: a carta registrada me chegou em 4 de fe-
Abraços carinhosos,
vereiro e eu lhe escrevi para avisar em 6 de fevereiro; não janeiro, como
escrevi, mas fevereiro, portanto. Nino
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CARTAS DO CÁRCERE 1 9 2 8

1. No processo de Roma (outubro de 1923), Gramsci, Bordiga, Terracini, Grieco,


Berti e outros dirigentes foram acusados de formação de quadrilha, incitação à dar e alguns livros para os primeiros tempos de Roma, possa ser
revolta e à deserção dos militares e conspiração contra o Estado. Gramsci, para expedida por via expressa; ' o resto dos livros pode seguir por via co-
quem se pediu a condenação a dezoito meses de reclusão, estava na época em mum; você só voltará a enviá-los para mim depois de receber minhas
Moscou.
instruções, já que só preciso de uma parte deles, que servirão para es-
tudo ou consulta. Entre os livros, coloque na mala o Corso di Scienza
delle Finanze, de Luigi Einaudi, e o dicionário alemão (levo comigo as
98.
gramáticas). Também lhe mando os números atrasados do Marzocco,
dos quais gostaria de recortar alguns artigos de caráter histórico e bi-
12 de março de 1928 bliográfico.
Quanto às visitas, para não ser obrigada a fazer novos esforços em
Querida Tania,
Roma, talvez seja conveniente pedir alguma orientação ao juiz instru-
tor; talvez, por cortesia, você consiga até uma carta de apresentação
Recebi só há alguns dias sua carta datada de 21 de fevereiro. Agra-
para o responsável em Roma.
deço as informações transmitidas sobre as condições de saúde dos
meninos: Giulia só tocava nisso de passagem. Fique com o cacho de Querida Tania, siga realmente meus conselhos no tocante à saída
cabelo de Giuliano e não tente enviá-lo, pedindo uma autorização es- da clínica. Para recompensar (!) sua obediência, vou lhe explicar tintim
pecial: não sei explicar exatamente por que, mas esse tipo de procedi- por tintim como é que eu, quando criança, era louríssimo e depois me
mento burocrático me desperta um certo sentimento de repugnância tornei castanho (lembra como conseguia enfurecer Giulia com esta
invencível. Fico contente com suas descrições, tenha certeza, sem pas- história e com aquela dos olhos de minha irmãzinha, que, primeiro,
sar, por causa desta solução, pelo desgosto que sentiria se soubesse que eram azuis, depois se tornaram, cada um deles, meio azuis e meio ne-
você se pôs a pedir autorização e a dar explicações, etc., etc.: sinto uma gros, em seguida um completamente negro e o outro voltou a ser azul,