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CAPÍTULO 2: PLANIFICAÇÃO DE ÁREAS PROTEGIDAS

O papel fundamental das áreas protegidas é separar elementos de biodiversidade das suas
ameaças. As áreas protegidas devem jogar este papel dentro de constrangimentos
impostos pelo grande e rapidamente crescente número de pessoas que requerem mais
recursos naturais e espaço para viver e dentro de ameaças impostas pelas actividades de
desenvolvimento que contribuem negativamente no habitat e na sobrevivência de
espécies.
O nível ao qual a rede de áreas protegidas cumpre o seu papel depende da forma como a
rede satisfaz dois objectivos/características fundamentais:

1. Representatividade, i.e. as áreas protegidas devem corresponder uma amostra


representativa de toda a biodiversidade da região ou país que está sendo planificado, a
todos os níveis de organização (genes, espécies e ecossistemas); e
2. Persistência, i.e. uma vez estabelecidas as áreas protegidas devem promover a
sobrevivência de espécies e outros elementos de biodiversidade através da manutenção de
processos ecológicos naturais por longo período.
A planificação e a gestão de áreas protegidas devem ser encaradas dentro de um contexto
geral e não de uma forma isolada. Quando geridas como um sistema, a probabilidade de
alcançar os objectivos é maior. A efectividade da planificação da conservação provem da
eficiência em usar recursos limitados para alcançar metas específicas de conservação, da
sua capacidade de defesa e flexibilidade perante outras formas de uso da terra
competindo por recursos e espaço e da transparência no uso dos fundos e na tomada de
decisões.
As áreas protegidas são importantes para a conservação da biodiversidade e para
satisfazer uma gama das necessidades da sociedade e das comunidades locais em
particular. Elas só poderão sobreviver se tiverem um apoio público e endereçarem as
principais necessidades das populações. Portanto, para que a representatividade e a
persistência sejam simultaneamente alcançados, a planificação da conservação deve
considerar não só a localização das áreas protegidas em relação aos padrões físicos e
biológicos naturais mas também as aspirações, ideias e necessidades das comunidades
que vivem na vizinhança.
O estabelecimento de áreas de conservação é o passo mais importante para a conservação
da diversidade biológica in situ. Contudo, perante as altas taxas de crescimento da
população humana, elas devem ter apoio público e ser complementadas por maneio fora
das áreas protegidas. A criação de postos de emprego dentro da área protegida para os
membros das comunidades, divisão de receitas obtidas do ecoturismo, comercialização de
artesanato, turismo cultural, extracção controlada de recursos e construção de infra-
estruturas sociais são algumas estratégias para conseguir apoio comunitário.
O principal problema da planificação é que ela não tem sido sistemática e muitas das
áreas foram estabelecidas em locais que não contribuem para a representação da
biodiversidade. Em adição, o nível de ameaça é muito elevado e não garante persistência.
A razão da falta de representatividade em muitas redes de áreas protegidas é que o
estabelecimento de áreas de conservação reduz a extracção dos recursos naturais e as
oportunidades de desenvolvimento. Em muitas zonas, as necessidades de espaço para
habitação, agricultura, pecuária, extracção dos recursos minerais, desenvolvimento

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comercial competem com as áreas protegidas pela terra. Deste modo, áreas com elevado
potencial para contribuir para o desenvolvimento do país são muitas vezes alocadas a
essas actividades económicas para minimizar o impacto negativo da designação de áreas
protegidas no desenvolvimento. Como resultado, as áreas protegidas tendem a estar
concentradas em zonas que, pelo menos no tempo de estabelecimento, eram muito
remotas ou pouco productivas para ser economicamente importantes. Esta localização
inadequada das áreas protegidas constitui uma limitante para alcançar certas metas
específicas da conservação.
A planificação deve basear-se em metas explícitas, identificação de prioridades e uma
escolha clara entre áreas de conservação potenciais e alternativas formas de maneio da
terra.

Razões para um sistema de planificação


Algumas razões da necessidade de um sistema nacional de planificação:
Ø Relacionar as áreas protegidas as prioridades nacionais e para priorizar aspectos
diferentes do desenvolvimento das áreas protegidas
Ø Facilitar o acesso aos fundo internacionais e nacionais através da definição de
prioridades de investimento nas áreas protegidas e aumento do nível de confiança
na eficiência do uso dos fundos e recursos
Ø Sair da abordagem ad hoc para a gestão dos recursos naturais e no processo de
tomada de decisão
Ø Facilitar a integração com outros planos estratégicos relevantes tais como,
turismo, conservação da biodiversidade e desenvolvimento sustentável.
Ø Facilitar a eficiência e efectividade da forma como os orçamentos são
planificados e despendidos
Ø Apoiar na implementação das obrigações dos tratados internacionais
Ø Apoiar as agências de protecção a obterem um apoio político para as áreas
protegidas
Ø Definir um processo apropriado de descentralização e regionalização das
actividades das áreas protegidas, recursos e responsabilidades, incluindo o
envolvimento das ONG’s e sector privado
Ø Fortalecer a colaboração transfronteiriça

Fases da planificação

1. Avaliação e mapeamento da biodiversidade


Devido a complexidade da biodiversidade, a identificação de todas as espécies presentes
numa área não é possível, portanto uma forma efectiva e eficiente é avaliar substituintes,
“surrogates” ou indicadores tais como certos grupos de espécies e tipos de habitat que
possam ser usados como medidas de biodiversidade. Estes substituintes ou medidas
parciais de biodiversidade são usados para estimar similaridades ou diferenças entre áreas
dentro da região em planificação. A grande limitação do uso de substituinte é que a sua
escolha não é clara. Frequentemente são escolhidos grupos de espécies de plantas
vasculares, vertebrados ou borboletas como indicadores da biodiversidade de uma área.
A pergunta que prevalesce é se a presença de uma borboleta ou de uma planta vascular
indica a presença de outros grupos taxonómicos a um nível que o substituinte possa ser

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considerado conveniente para a biodiversidade da área no geral. Não existe melhor
substituinte!!
Trabalhos de campo sistemáticos para preencher lacunas sobre a ocorrência e distribuição
das espécies e elaboração dos respectivos atlas/mapas de distribuição são a melhor
solução mas eles são onerosos, requerem muito tempo e uma equipa técnica
multidisciplinar e bastante especializada. Atenção continua a ser dada ao uso de
substituintes/indicadores quer sejam espécies ou ecossistemas para realizar inventários
rápidos e baratos que produzam informação básica sobre a biodiversidade da área
(riqueza em espécies) para estabelecer prioridades de conservação. Durante este
exercício, espécies conhecidas como sendo raras, endémicas e ameaçadas devem ser
mapeadas.

2. Identificação de metas de conservação para a região em planificação


Conservar é assegurar a persistência de valor. As metas de conservação da biodiversidade
são definidas a diversos níveis hierárquicos, a saber:
Paisagem: uma área de terra heterogénea composta por uma diversidade de ecossistemas.
Ecossistema: sistema composto por processos biológicos, físicos e químicos em
interacção, exemplos: florestas, rios, lagos, savanas, etc.
Espécies/População: Grupo de organismos capaz de cruzar entre sí e produzir uma
descendência fértil. População é um grupo de indivíduos da mesma espécie que ocorre
numa dada região.
Diversidade genética: variação de genes dentro da espécie

Os objectivos gerais da planificação sistemática, i.e. representatividade e persistência tem


que ser traduzidas em metas específicas e quantitativas (por exemplo, 100 rinocerontes
pretos, 100 ha de floresta de miombo, etc). Estas metas permitem uma clara identificação
da contribuição das áreas existentes para as metas da região e providenciam meios para
medir o valor da conservação de diferentes áreas durante o processo de selecção de áreas.
Por exemplo, se a meta é conservar 100 rinocerontes uma área com 60 rinocerontes é
mais importante que uma área com 10 rinocerontes e portanto deve ser seleccionada (ou
pelo menos negociada).
A necessidade de distinguir alta de baixa prioridade de áreas pela urgência para o maneio
e conservação é inevitável devido a escassez de recursos e a competição com formas de
uso da terra que limitam a área disponível para a conservação.
A meta para populações de animais é manter populações viáveis de espécies nativas. As
espécies mais importantes são aquelas definidas internacional ou nacionalmente como
ameaçadas ou endémicas da região a ser planificada. Portanto é necessário definir a
População Mínima Viável (MVP) de cada espécie de interesse. MVP é a população
isolada mais pequena capaz de persistir por períodos de tempo especificados perante
variações demográficas, genéticas e ambientais bruscas. Para espécies de mamíferos a
definição da meta de conservação resulta da combinação entre a determinação da MVP e
a determinação da mínima área de um habitat compatível que deve ser conservada. Para
aves as metas dependem da MVP, enquanto que para grupos taxonómicos pouco
estudados (sem informação sobre número e estado de populações) tais como anfíbios,
répteis e certos invertebrados as metas são determinadas com base na área mínima para
manter uma MVP.

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A meta para a conservação de habitats e ecossistemas é determinada pela mínima área
necessária para manter uma MVP das espécies de interesse. A recomendação da IUCN é
de 10-15% de cada ecossistema.

3. Avaliação das áreas de conservação existentes


O nível ao qual os alvos para representatividade e persistência já estão alcançados pela
rede de áreas existente tem que ser determinado. A avaliação permite identificar os
pontos fortes e fracos, oportunidades/potencialidades e ameaças/constrangimentos. A
revisão sistemática é a base conceptual da análise de lacunas, permite identificar lacunas
na cobertura pela rede actual de áreas protegidas e a identificação de áreas candidatas. A
análise de lacunas em redes de áreas protegidas concentra-se em quais são os elementos
de biodiversidade (espécies, ecossistemas, etc.) que estão representadas (e qual é o nível
de representação) e quais são os que não estão.
Um aspecto bastante negligenciado na análise de lacunas é a relativa eminência ou
probabilidade de espécie ou habitats extinguirem se não há acção de conservação. Dado
que aspectos de biodiversidade que estão pouco representados em áreas protegidas
variam na sua exposição e vulnerabilidade a processos ameaçantes, algumas lacunas são
mais importantes que outras. É necessário avaliar as ameaças às quais cada área protegida
está exposta bem como as ameaças aos elementos de biodiversidade não representados na
rede de áreas.

4. Selecção de áreas adicionais


Depois da revisão das áreas existentes, a necessidade de áreas adicionais para alcançar
metas torna-se clara. Durante o processo de selecção, as áreas que contribuem mais para
alcançar a meta, áreas vulneráveis e áreas insubstituíveis são dadas prioridade.

4.1. Critérios de selecção


O desenvolvimento de planos estratégicos requerer que escolhas sejam feitas sobre a
alocação de recursos por forma a maximizar os benefícios que a biodiversidade pode
providenciar a longo prazo. Todas as abordagens para definir prioridades estão baseadas
no pressuposto de que a necessidade de recursos para conservar a biodiversidade é de
longe elevada que os recursos disponíveis. Decidir que espécies e habitats merecem
alocação dos escassos recursos financeiros, humanos e institucionais continua a ser difícil
mas, inevitável. Dada a complexidade da diversidade biológica e a complexidade nas
perspectivas e metas que influenciam como a biodiversidade é vista, não é surpreendente
que não haja um esquema universalmente aceite para estabelecer prioridades de
conservação. Qualquer conjunto de prioridades de conservação reflecte a valorização de
genes, espécies e ecossistemas pelas pessoas envolvidas na planificação. Esses valores
podem representar benefícios económicos, científicos, culturais ou sociais obtidos da
biodiversidade que as pessoas e instituições envolvidas consideram mais importantes para
conservação. Em comunidades rurais, métodos participativos são aplicados para
identificar a mais efectiva e mais urgente acção enquanto que ao nível nacional e
internacional, os requerimentos da convenção sobre diversidade biológica tem sido
aplicados para analizar prioridades em termos daquilo que pode ser feito através do
desenvolvimento de estratégias nacionais para a biodiversidade.

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A definição de prioridades é feita aplicando dois métodos, nomeadamente o biológico e o
integrativo. A abordagem biológica assenta-se na informação biológica, a qual inclui a
análise genética para seleccionar populações ou áreas, uso da informação sobre a
distribuição de espécies particulares, comunidades de espécies ou taxas de endemismo
em espécies, e análise da distribuição de ecossistemas e processos ecológicos.

Alêm de métodos baseados na informação biológica, existe o método integrativo, o qual


considera que para alêm dos aspectos biológicos, factores económicos, sociais e culturais
devem ser analisados durante o processo de selecção. A selecção de áreas no passado
considerava apenas o critério biológico mas actualmente o aumento da população e de
outras formas de uso da terra que competem com a conservação impõem que aspectos
socio-económicos e políticos sejam cada vez mais cruciais para a conservação da
biodiversidade. Não existe nenhum método que satisfaz todos os objectivos de
conservação!! a selecção depende da categoria e dos objectivos de maneio da área
protegida que se pretende designar.

4.1.1. Métodos biológicos


Todos os métodos biológicos de selecção (genes, espécies e ecossistemas) usam a
complementaridade, i.e. a medida na qual uma área contribui em elementos de
biodiversidade não representados na rede existente (nº de espécies, tipos de
habitat/ecossistema ou outra medida de biodiversidade que a nova área adiciona à rede).
Também tem sido chamada de Índice de similaridade baseada no número de espécies
compartilhados e não compartilhados entre duas áreas. Uma área com alta
complementaridade não é necessariamente a mais rica, por exemplo, se uma área
contribui com espécies ou tipos de habitat que não ocorrem em outras áreas, essa área
tem alta complementaridade. A vantagem da complementaridade é que procura áreas que
em combinação tem a mais alta representação da biodiversidade, e identifica
precisamente a espécie/ecossistema que justifica a inclusão de uma área na rede. As áreas
protegidas devem ser complementares.

4.1.1.1. Métodos baseados em genes


Dada a importância da genética para a conservação a diversidade genética tem sido uma
área de muita investigação. O objectivo é manter a variação genética dentro e entre as
populações. De facto nos últimos 20 anos programas de recuperação de espécies
ameaçadas tem realizado investigações na variabilidade genética dos indivíduos
remanescentes e populações para encontrar caminhos de evitar que populações se
extingam devido a consanguinidade.
A diversidade genética é avaliada através de métodos que variam desde o uso de simples
medidas de substituintes indicando variação genética como por exemplo a variação na
morfologia em plantas e animais, para técnicas de genética molecular altamente
sofisticadas tais como electroforese de proteínas, sequenciamento de DNA e reacção de
cadeias de polimerases para determinar a variação do cariótipo, divergência do DNA
mitocondrial e o polimorfismo de proteínas.
Apesar dos factores genéticos serem o maior determinante da viabilidade das populações
a longo prazo, esta abordagem não tem sido usada para seleccionar áreas para protecção.
Esta abordagem é usada apenas para “afinar” prioridades definidas pela abordagem de

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ecossistemas (e/ou espécies) pois o maneio do ecossistema é a forma mais barrata e mais
efectiva de conservar a diversidade genética e a biodiversidade no seu todo. A genética é
mais importante na definição de prioridades para conservar populações pequenas e
isoladas e para espécies de elevado valor económico geneticamente vulneráveis.

4.1.1.2. Métodos baseados na espécie (abordagem de espécie)


A espécie é a unidade da diversidade. Alêm disso, espécies são a expressão de
diversidade taxonómica mais reconhecível e são componentes de ecossistemas. Como
resultado, a designação de muitas áreas protegidas baseou-se na ocorrência de espécies.
Neste método as áreas com as seguintes características são consideradas prioritárias:

Centros (hotspots) de diversidade: este método baseia-se na diferença do número de


espécies entre as áreas em comparação. As áreas com o mais alto número de espécies
(diversidade mais alta) são seleccionadas pois elas contribuem mais para
representatividade. Este é um método muito comum e lida com dados sobre a ocorrência
de espécies e tem a vantagem de que não é necessário o conhecimento da identificação de
cada espécie.
Centros de endemismo: o grau ao qual as espécies de um local estão geograficamente
limitadas a esse local específico, áreas com o mais elevado número de espécies
endémicas são seleccionadas, por exemplo fynbos (RSA), centro de endemismo de
Maputaland.
Centros de raridade: o método é similar aos hotspots de diversidade mas dá maior peso a
espécies com uma distribuição restrita, espécies não encontradas comumente. Assim,
áreas com maior número de espécies raras são priorizadas.
Centros de ameaça: espécies ameaçadas são aquelas cujas populações estão em declínio e
que podem ser extintas em áreas específicas como resultado de acções directas ou
indirectas do homem. O grau ao qual a biodiversidade está ameaçada difere entre as
áreas. Áreas de elevada vulnerabilidade a diversas ameaças são seleccionadas.
Acima dos 10-15% de cada ecossistema recomendados, 5% adicionais são necessários
para cada um dos centros/hotspots mencionados.
Os aspectos mencionados acima são os mais importantes sob o ponto de vista da
protecção da biodiversidade. Porêm, as áreas seleccionadas dependerão do objectivo de
maneio. Se a meta for manter o valor opcional de espécies (potencial uso) será necessário
conservar áreas com maior diversidade e/ou as áreas com maior número de espécies úteis
(centros de utilidade) para obter espécies para fins medicinais, alimento, controlo
biológico, melhoramento genético, etc. no futuro. Se o alvo forem as espécies endémicas,
os hotspots de endemismo merecerão atenção independentemente da diversidade em
espécies, e assim sucessivamente. Dadas as limitações monetárias com que a conservação
enfrenta, é necessário definir claramente os objectivos em termos de áreas e espécies
prioritárias para permitir o uso efectivo dos recursos disponíveis.

Algumas espécies são mais importantes para o ecossistema que outras e a sua ocorrência
pode fazer com que uma dada área seja prioridade:

Espécies chaves (Keystone species): espécies que alteram as condições do ecossistema


causando impactos quer negativos quer positivos nas populações de outras espécies. Por

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exemplo, os elefantes são importantes na dinâmica da biodiversidade em savanas devido
ao impacto directo na vegetação. Os elefantes destroem o estrato arbóreo/arbustivo e
estimulam o graminal e com isso, a ocorrência de diversas espécies de mamíferos, aves,
insectos que preferem um habitat dominado por gramíneas. Por outro lado, a remoção de
elefantes leva a invasão arbórea/arbustiva que favorece a ocorrência de espécies mais
adaptadas a um habitat mais fechado. Além disso, elefantes influenciam o funcionamento
de ecossistemas através da deposição de urina, fezes e através do pisoteo e compactação
ao solo. Leões tem impacto na diversidade e relativa abundância das suas presas, a sua
remoção causa alterações nas interacções inter-específicas entre herbívoros e
indirectamente resulta em impactos sobre a vegetação.

“Umbrella espécie”: espécie com ampla área de ocupação, p.ex. elefantes

“Flagship” ou espécies carismáticas: espécies populares com carácter simbólico que


estimula a conservação, por exemplo, elefantes, leões, rinocerontes, etc.

A abordagem de espécies chaves, umbrella, carismáticas, com grandes requerimentos em


território e diversidade de requerimentos de habitats tais como os elefantes e outros
grandes mamíferos pode ajudar a atingir a conservação de uma alta biodiversidade, pois a
área necessária para manter uma população mínima viável dessas espécies pode ser
suficientemente grande para a occorência das ligações funcionais necessárias para a
manutenção de alta biodiversidade. Por exemplo, muitas áreas protegidas em África
foram designadas para conservar grandes mamíferos mas também estão protegendo uma
enorme diversidade de espécies com menores áreas de ocupação, particularmente
invertebrados. Alguns tipos de habitat podem também actuar como “umbrella”, por
exemplo a protecção do bioma fynbos endémico a África do Sul, garante a conservação
de invertebrados especialistas a espécies vegetais que ocorrem naquele bioma. Planos
para conservar algumas espécies ameaçadas, raras e/ou espécies com menor área de
ocupação podem não permitir as interacções ecológicas que garantem o funcionamento
dos ecossistemas e consequentemente conservar uma biodiversidade muito reduzida.

As perguntas que prevalescem são as seguintes: quanto grande a área é (ou deve ser) para
ser suficientemente grande para manter a integridade ecológica? Será que a perda de
certas espécies afecta os processos ecológicos como produção primária bruta e líquida,
ciclo de nutrientes, estabilidade intrínsica das comunidades ou a resiliência =capacidade
do ecossistema de recuperar das perturbações? Existem espécies redundantes (sem função
no ecossistema)? Não existem respostas universais a estas perguntas!!!

4.1.1.3. Métodos baseados em ecossistemas (Abordagem do ecossistema)


Dado que biodiversidade é mais que diversidade de espécies a selecção de áreas tem que
assegurar que se proteja a representatividade de comunidades e ecossistemas tanto quanto
possível. Existem dois princípios chaves que são a complementaridade e a insubstituição.
Insubstituição é a medida do valor de conservar uma área, é um índice da potencial
contribuição que uma área faz para alcançar a meta de conservação definida e o grau ao
qual as opções para conservação são perdidas se esta área for perdida.

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Nesta abordagem são aplicados critérios múltiplos tais como riqueza em espécies,
endemismo, abundância, e representatividade e é considerado o ambiente físico (clima,
topografia e geologia), processos ecológicos e regimes de perturbação (ex: herbivoria e
queimadas) que ajudam a definir ecossistemas. A vantagem desta abordagem é que se
ecossistemas representativos estão conservadas em áreas grandes, uma vasta maioria de
espécies e muita da sua diversidade genética será também protegida. Adicionalmente,
processos ecológicos (ciclo de nutrientes, regulação hidrológica, manutenção de regimes
de perturbação do qual muitas espécies depende tais como herbivoria e queimada em
savanas) são essencias para a sobrevivência de muitas espécies e somente a abordagem
do ecossistema é capaz de garantir a protecção desses elementos vitais de biodiversidade.
Outra vantagem desta perspectiva é que se pouca informação existe sobre distribuição de
espécies e ameaça (como é comum), esta perspectiva é a única opção mais realística na
medida em que incorpora a diversidade biológica a diversos níveis.
A abordagem do ecossistema é limitada pelo facto de ecossistemas variarem grandemente
e serem pouco entendidos, enquanto que existe conhecimento profundo da ecologia de
espécies individuais. Ecossistemas são, por um lado, difíceis de definir uma vez que o seu
tamanho/área, composição, complexidade e distribuição mudam com a escala tanto em
tempo e espaço. Por outro lado, ecologistas diferem na sua descrição e definição de
ecossistemas e não existe uma classificação padrão. Alêm disso, esta abordagem pode
não incluir nas prioridades espécies raras e potencialmente ameaçadas. Não considera o
endemismo e muitas espécies são provavelmente deixadas fora especialmente nos
trópicos onde ocorrem muitas espécies endémicas. Portanto sempre existe necessidade de
programas de protecção de espécies particulares, mesmo que um programa abrangente de
conservação de ecossistemas seja implementado. De facto muitas áreas protegidas têm
planos de maneio específicos para certas espécies tais como as espécies chaves,
“umbrella”, carismáticas, raras, ameaçadas e endémicas.

4.1.2. Método integrativo


A tradicional definição de prioridades de conservação considerou apenas aspectos
biológicos. Os aspectos sócio-económicos e políticos não eram considerados relevantes e
no processo de estabelecimento de muitas áreas de conservação existentes os residentes
locais foram retirados das suas terras sem o seu consentimento. Actualmente é necessário
incorporar factores não biológicos no estabelecimento de prioridades de conservação e
envolver as comunidades locais em todas as fases do processo de planificação e maneio
de áreas de conservação.
Esta abordagem usa critérios biológicos e não biológicos e procura aumentar a
contribuição que a biodiversidade pode fazer para o bem-estar humano mas garantindo
que tal uso da biodiversidade para o desenvolvimento prossiga de uma forma sustentável
(procura garantir a sustentabilidade ecologica, social e politica dos projectos de
conservação). Uma vantagem é que por incluir factores não biológicos, os planos de
conservação ganham mais apoio político.
A desvantagem desta abordagem é que pode reduzir os valores da conservação da
biodiversidade em relação ao valor social, económico e político, isto pode incentivar a
sobre-exploração de alguns recursos.