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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALFENAS

Instituto de Ciências da Natureza


Curso de Geografia – Bacharelado

TAYA CRISTO

ANÁLISE DA EXPANSÃO DO MERCADO


IMOBILIÁRIO BRASILEIRO ENTRE 2007-2015 E
SUAS RELAÇÕES COM A CRISE ECONÔMICA,
SOB A ÓTICA DA GLOBALIZAÇÃO

Alfenas
2018
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TAYA CRISTO

ANÁLISE DA EXPANSÃO DO MERCADO IMOBILIÁRIO


BRASILEIRO ENTRE 2007-2015 E SUAS RELAÇÕES COM A
CRISE ECONÔMICA, SOB A ÓTICA DA GLOBALIZAÇÃO

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado como parte dos requisitos para
obtenção do título de Bacharel em
Geografia pelo Instituto de Ciências da
Natureza da Universidade Federal de
Alfenas-MG, sob orientação do Prof. Dr.
Flamarion Dutra Alves.

Alfenas - MG
2018
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TAYA CRISTO

ANÁLISE DA EXPANSÃO DO MERCADO IMOBILIÁRIO


BRASILEIRO ENTRE 2007-2015 E SUAS RELAÇÕES COM A
CRISE ECONÔMICA, SOB A ÓTICA DA GLOBALIZAÇÃO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


como parte dos requisitos para obtenção do
título de Bacharel em Geografia pelo Instituto
de Ciências da Natureza da Universidade
Federal de Alfenas-MG, sob orientação do
Prof. Dr. Flamarion Dutra Alves.

BANCA EXAMINADORA
Prof. Dr. Flamarion Dutra Alves – Orientador
Universidade Federal de Alfenas –MG
Assinatura: ________________

Prof. Dr. Evânio dos Santos Branquinho


Universidade Federal de Alfenas – MG
Assinatura: ________________

Me. Anézio Eugênio de Faria Júnior


Universidade Federal de Alfenas – MG
Assinatura: ________________

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AGRADECIMENTOS

Assim como na vida, em primeiro lugar preciso agradecer à Sheila, cujo estímulo aos
estudos foi fundamental para a minha completa transformação como cidadã, profissional e
principalmente como ser humano. O que você me mostrou é que o amor verdadeiro é honesto,
humano, e é aquele que te lança para frente, te desafia, te prepara para o melhor e para o pior,
mas que também segura a sua mão como quem está sempre dizendo: “tamo junto!”. Se não
fosse por você, certamente nada disso teria sido.
Agradeço também a todos os meus professores, porque cada aula, cada texto, cada
prova, cada conversa foram um tijolo desse edifício enorme que luto todos os dias para
construir: ser uma geógrafa digna de todos os grandes geógrafos temos em nosso país, e dos
quais vocês fazem parte.
Agradecimento especial ao Flamarion, meu orientador, e ao Prof. Evânio, orientador
não-oficial, pela paciência com todos os muitos defeitos que tenho, pelos ensinamentos que
foram determinantes para a construção do que sou hoje como geógrafa, e cujas personalidades
e inteligências são realmente marcantes.
Agradeço a todos os profissionais da UNIFAL-MG, que trabalharam direta ou
indiretamente para que hoje eu possa estar entrando para um rol de indivíduos extremamente
privilegiados em um país tão desigual: concluir um ensino superior de muita qualidade.
Por fim, ainda que talvez este nunca leia uma linha deste trabalho, agradeço ao
presidente Lula, porque os universitários pobres deste país são, de certa forma, crias de seu
desejo de transformação da nossa classe social e da nossa geração, que nasceu e cresceu sem
nenhuma perspectiva de estudar em uma instituição de ensino superior pública e da mais alta
qualidade, e hoje podem sonhar sim com um futuro menos árduo do que o passado de nossos
pais.

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Resumo

O Brasil vivenciou no início do século XXI mais um período de relevante crescimento


econômico e melhorias nos indicadores sociais. O bom desempenho do mercado interno para
promoção desse desenvolvimento passou também pelo acesso ampliado aos financiamentos
habitacionais que começaram a combater o histórico déficit habitacional, e as empresas do setor
imobiliário obtiveram destaque no que diz respeito à crescimento. Mas o cenário atual do país,
até 2017, é de crise econômica e política, e como é entendido por muitos autores, especialmente
geógrafos, os mesmos fatores de crescimento são aqueles que produzem suas próprias barreiras,
suas crises, como é característico do próprio sistema capitalista que foi intensificado com a
globalização. O objetivo deste trabalho é analisar o processo de desenvolvimento da economia
nacional, com foco no setor habitacional, avaliar as conquistas, mas também os resultados
negativos, principalmente a segregação espacial e a inflação, pois a supervalorização dos
imóveis é um dos fatores que afasta cada vez mais as populações mais carentes do pleno acesso
à cidade e, mesmo após todo o período positivo, dificulta a superação da crise pelo mercado
interno e volta a manter o déficit habitacional brasileiro em alta. Trata-se de um estudo cujo
método dialético foi usado para analisar os dados e as informações obtidas, através de autores
consagrados da geografia e economia, de artigos de importantes revistas ligadas aos temas, e
principalmente dados fornecidos por instituições oficiais.
Palavras-Chave: Geografia crítica; globalização; urbanização; especulação imobiliária;
Programa Minha Casa Minha Vida.

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Abstract
At the beginning of the 21st century, Brazil experienced another period of significant economic
growth and improvements in social indicators. The good performance of the domestic market
to promote development also went through expanded access to real estate financing that started
the fight against the historic housing deficit, and real estate companies gained prominence in
terms of growth. But the current scenario of the country until 2017 is economic and political
crisis, and as is understood by many authors, especially geographers, the same growth factors
are those that produce their own barriers, their crises, as is characteristic of the capitalism that
has been intensified by globalization. The target of this study is to analyze the development
process of the national economy, focusing on the real state market, assess the achievements,
but also the negative results, mainly spatial segregation and inflation, since the overvaluation
of the properties and rents is one of the factors that once again separates the poorest populations
of full access to the city, and even after all the positive period, makes it difficult to overcome
the crisis by the domestic market and again keep the Brazilian housing deficit on the rise. It is
a study whose dialectical method was used to analyze the data and information obtained,
through well-known authors of geography, articles of important magazines related to the
subjects, and mainly data provided by official institutions

Keywords: Critical geography; globalization; urbanization; real state speculation; Programa


Minha Casa Minha Vida

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Lista de Tabelas

Tabela 1 – Participação na riqueza mundial, entre 1950 e 1969................................................20

Tabela 2 – Participação, em %, dos principais setores da economia em relação aos


financiamentos do BNDES, em 2008, 2012 e 2016 ..................................................................45

Tabela 3 – Distribuição do déficit habitacional brasileiro, por regiões, por renda (em salários
mínimos), em 2007....................................................................................................................59

Tabela 4 – As 10 principais construtoras do país em faturamento em 2015, e suas receitas, em


2008 e 2015...............................................................................................................................67

Tabela 5 – Déficit habitacional, urbano e rural, total e relativo, por região, em 2010................73

Tabela 6 – Evolução das principais dívidas do brasileiro entre 2010 e 2014.............................76

Tabela 7 – Proporção de domicílios adequados nas 5 regiões brasileiras de acordo com o Censo
de 2010......................................................................................................................................79

Tabela 8 – Condição de atendimento de serviços básicos (em %) em domicílios particulares


permanentes, por região, em 2015.............................................................................................80

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Lista de Gráficos

Gráfico 1 - Síntese da balança comercial brasileira (exportações, importações e saldo) entre


2005 e 2016...............................................................................................................................41

Gráfico 2 - Evolução do desembolso anual do BNDES com financiamentos em milhões R$,


entre 1995 e 2016.......................................................................................................................43

Gráfico 3 – Taxa de desemprego no Brasil entre 2012 e 2017...................................................47

Gráfico 4 - Variações (em %) do PIB nacional e do PIB per capita entre 2012 e 2015..............47

Gráfico 5 - Variações dos preços do minério de ferro e do petróleo para exportação, nos meses
de janeiro dos anos de 2008 até 2015.........................................................................................48

Gráfico 6 - Variações da Taxa Selic e do IPCA, entre 2009-2015.............................................49

Gráfico 7 - Spread bancário em alguns países “periféricos” em comparação com o Brasil, um


dos 5 maiores spreads do mundo...............................................................................................52

Gráfico 8 - Situação das unidades (contratadas e entregues) pelo Minha Casa Minha Vida até
o 5º balanço do PAC (2015-2018) .............................................................................................63

Gráfico 9 - Financiamentos habitacionais do Sistema Financeiro de Habitação por ano (em


R$bi) entre 2007-2014...............................................................................................................65

Gráfico 10 - Crescimento do setor da construção civil (em relação ao ano anterior), em


comparação com a variação do PIB nacional, entre 2005-2015.................................................66

Gráfico 11 - Crescimento das atividades imobiliárias e aluguel, no setor de serviços, em relação


ao ano anterior, em comparação com a variação do PIB nacional entre 2005-
2014...........................................................................................................................................66

Gráfico 12 - Inflação (em %) de preço de venda de imóveis em algumas metrópoles brasileiras,


entre 2010-2015.........................................................................................................................69

Gráfico 13 - Variação (em%) dos preços dos imóveis à venda nas capitais sulistas, entre 2012-
2015...........................................................................................................................................69

8
Gráfico 14 – Variação anual (em %) da valorização de imóveis à venda em algumas das capitais
do país, entre 2010-2015............................................................................................................70

Gráfico 15 – Variação do custo médio do m² (em %), nacional e por regiões, entre 2007 e
2015...........................................................................................................................................71

Gráfico 16 – Variação (em %) do PIB nacional, per capita e do salário mínimo em 2 períodos:
2007-2010 e 2011-2014.............................................................................................................71

Gráfico 17 – Déficit habitacional (total), por região, em 2007 e 2014.......................................74

Gráfico 18 – Déficit habitacional relativo, por região, em 2007, 2010 e 2014...........................74

Gráfico 19 – Participação média (em %) ao PIB nacional, por regiões, em comparação com a
proporção de financiamento do SFH, entre 2007 e 2014............................................................76

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Lista de Figuras

Figura 1 – Variação anual das taxas de juros da Federal Reserve dos EUA, do final da década
de 1970 até 2016........................................................................................................................27

Figura 2 – Distribuição dos financiamentos do BNDES, por região e por porte da empresa,
entre 1995 e 2016.......................................................................................................................44

Figura 3 – Expectativa da demanda por habitação para o Brasil, por faixa de renda e por região,
entre 2007 e 2023.......................................................................................................................60

Figura 4 – Distribuição dos financiamentos do SFH entre 2007 e 2014....................................75

Lista de Quadros

Quadro 1 – Faixa de renda e subsídios do PMCMV em 2017...................................................60

Quadro 2 – Balanço geral do PMCMV em 2014......................................................................61

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................12
1.1 Justificativa, objetivos e metodologia da pesquisa..................................................16
2 A GLOBALIZAÇÃO E AS TRANSFORMAÇÕES SOCIOESPACIAIS NA AMÉRICA
LATINA...................................................................................................................................19
2.1 Contextualização da ascensão do neoliberalismo....................................................20
2.2 A geografia da reestruturação produtiva e a importância das técnicas......................23
2.3 A das consequências socioespaciais do fenômeno da globalização.........................25
2.4 A globalização como motor de urbanização e reprodução ampliada de capital.......32
3 DO ÊXITO À CRISE: A TRAJETÓRIA DA ECONOMIA BRASILEIRA NO INÍCIO
DO SÉCULO XXI...................................................................................................................40
3.1 Trajetória ascendente: os “nutrientes” do crescimento brasileiro.............................40
3.2Trajetória descendente: os limites do modelo de crescimento e suas
consequências............................................................................................................................46
4 A RECENTE EXPANSÃO DO MERCADO IMOBILIÁRIO/HABITACIONAL
BRASILEIRO E AS CONSEQUÊNCIAS SOCIOESPACIAIS..........................................57
4.1 O contexto habitacional brasileiro: do BNH ao Minha Casa Minha Vida.................57
4.2 O processo recente de expansão do mercado imobiliário brasileiro.........................63
4.3 Déficit habitacional brasileiro: discussões e estratégias para enfrentamento...........72
4.4 Estudos de experiências do MCMV: conquistas e desafios......................................76
4.5 Estudos de experiências do MCMV: conquistas e desafios.....................................81
5 CONSIDERAÇÕES DO PROCESSO................................................................................87
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................................91

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1. INTRODUÇÃO

Após a crise mundial do petróleo na década de 1970, o modelo de desenvolvimento


econômico baseado na intervenção e no controle estatal do comércio e dos serviços foi
largamente abandonado pelo Estados nacionais, sendo substituído por um modelo de
desenvolvimento que prima pela liberdade dos mercados e pelo “Estado mínimo”, o
neoliberalismo.

Ainda que o embrião neoliberal tenha sido os EUA e Grã-Bretanha, o modelo nasceu
no Chile, entretanto quando foi colocado em prática nas economias desenvolvidas, foi
expandido para todo o planeta, acompanhando diversas transformações dentro do próprio
sistema capitalista: espetacular desenvolvimento das tecnologias de informação e transporte de
bens e pessoas, que por sua vez propiciou a desconcentração produtiva internacional para países
subdesenvolvidos, principalmente da Ásia, a inserção da tecnologia dentro das unidades
produtivas, que reduziu a necessidade do trabalho humano, além da infinita mobilidade de
capitais que favoreceu o fortalecimento de um sistema financeiro mundial que hoje se coloca
acima da produção.

As consequências socioespaciais e econômicas desse fenômeno, chamado globalização,


foram as mais diversas para os mais diversos países, e quase sempre, contraditórias. O capital
financeiro chega a ser, anualmente, 10 vezes maior que o capital produtivo; a produtividade das
indústrias é maior do que nunca; a urbanização atinge níveis altíssimos nas principais
economias desenvolvidas e subdesenvolvidas; o valor de troca das mercadorias superou quase
que completamente o valor de troca das mesmas; os modelos de gestão dos Estados têm sofrido
com a pouca variabilidade, especialmente no “Terceiro Mundo”, que precisou aderir às práticas
impostas pelos países do Primeiro Mundo para honrar com seus compromissos internacionais;
as cidades estão completamente transformadas e a geografia da produção industrial do mundo
está completamente alterada.

Os diferentes autores abordados neste estudo, argumentam que a globalização não agiu,
para os países subdesenvolvidos de forma a inseri-los dignamente no processo, mas transforma-
los em membros precários. Mesmo dentro dos países desenvolvidos, as desigualdades
socioespaciais foram intensificadas, visto que o controle do capital financeiro controla o capital
produtivo, e as exigências para ter acesso a esse capital e ao desenvolvimento são cada vez
maiores, gerando muita competição entre as cidades, as regiões e os Estados.

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A alta competitividade global, objetivo atingido da globalização, facilitou uma
desvalorização continuada do valor do trabalho, dos recursos naturais, e elevou como nunca o
valor de um dos bens mais indispensáveis para a própria reprodução humana (força de trabalho):
a terra. Se os bens materiais, os recursos naturais e o trabalho estão custando cada vez menos
(o que é visto como uma grande vitória para muitos), a terra perdeu seu valor de uso, e ganhou
um valor especulativo imenso, e a especulação imobiliária é hoje um dos maiores problemas
sociais, pois impede o acesso à propriedade, dificulta a sobrevivência das pessoas nas cidades,
e intensifica a ocupação de áreas de risco, ilegais, gastos elevados com alugueis cada vez mais
caros, e também fica cada vez mais caro adquirir um imóvel.

Somado a isso, o excedente de capital que é extraído das operações financeiras em


valores cada vez mais elevados, são alocados na construção civil e na urbanização do planeta
como modo a manter esse capital em giro e em processo de multiplicação. O “despejo
desenfreado de cimento ao redor do planeta”, para usar a expressão de David Harvey tem
também sido fator de especulação imobiliária, de supervalorização de valores de lotes, imóveis,
e mesmo materiais de construção e custos com construtoras.

A questão habitacional no Brasil é um problema secular e que, em diferentes momentos,


diferentes governos tentaram combater através de diferentes estratégias: intervenção e controle
governamental, fim de subsídios e liberalização geral do mercado, programas habitacionais e
fundos para arrecadação de valores para crédito. Em 2007, o déficit habitacional brasileiro era
superior a 6 milhões de unidades, e então o governo federal, livre das pressões do Fundo
Monetário Internacional (pois havia quitado sua dívida) que impunha medidas de austeridade
nos gastos estatais, retoma o papel de promotor de investimentos e desenvolvimento nos mais
diversos setores da economia, incluindo aí o setor habitacional.

O governo do então presidente Lula ampliou a captação dos recursos para construção e
financiamentos habitacionais, e em 2009 lançou o Programa Minha Casa Minha Vida
(PMCMV). O setor habitacional brasileiro cresceu como nunca: recorde em unidades entregues,
em volume de financiamentos, em crescimento das empresas, enfim, a estratégia de ampliação
da aquisição do imóvel, via subsídio governamental ou via crédito no mercado estava
funcionando.

Entretanto, um dos efeitos colaterais deixado pelo processo, não só de expansão do setor
habitacional e imobiliário, mas também da melhora econômica do país como um todo, foi a

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supervalorização dos imóveis, dos lotes, enfim, do custo de habitar. A inflação dos imóveis nas
principais metrópoles brasileiras superou os 100% em menos de 10 anos, assim como os valores
dos alugueis e, apesar de todos os esforços do governo, o déficit habitacional brasileiro em
2015, segundo a Fundação João Pinheiro, ainda era de mais de 6 milhões de unidades, sendo o
ônus excessivo com aluguel a principal razão para o déficit.

Após a análise dos diferentes autores que estudaram o tema, bem como dos dados
oficiais disponibilizados pelas diferentes instituições oficiais, conclui-se que, mesmo a
expansão do setor não ter sido realizada através dos moldes neoliberais, mas o contrário, com
investimentos governamentais pesados, o mesmo Estado não tomou atitudes de modo a prevenir
a especulação imobiliária, a supervalorização de imóveis e dos custos da construção civil, da
segregação das populações atendidas pelo PMCMV, e a lógica dos agentes imobiliários
prevaleceu sobre as necessidades dos brasileiros por moradia.

Mesmo que muitas famílias de baixa renda tenham acessado à moradia própria,
especialmente nas faixas de renda 1, 1.5 e 2 do PMCMV, as favelas e as ocupações ilegais ainda
são uma paisagem comum do país, especialmente nas grandes metrópoles, além de que
pesquisas mostraram que populações de rendas mais altas são as que mais tiveram acesso aos
financiamentos.

Os conjuntos habitacionais do PMCMV eram construídos com os menores custos,


estando então localizados em áreas afastadas dos centros urbanos, desvalorizadas, e de certa
forma desconectados dos equipamentos urbanos em nível adequado: segurança, transporte,
escolas, hospitais, comércio, etc., e frequentemente se tornavam espaços estigmatizados de
pobreza, violência e segregação socioespacial.

Por fim, apesar dos resultados positivos em unidades construídas, contratadas e


entregues, seja pelo programa de subsídios governamentais, seja pelos sistemas de
financiamento de mercado, como o Sistema Financeiro de Habitação, no contexto atual do
Brasil de crise econômica, crise política causada principalmente por escândalos de corrupção
protagonizados por políticos e construtoras das grandes obras de infraestrutura nacional que
atuaram durante o período de crescimento, desemprego, perda do poder de consumo, altas taxas
de juros, entre tantos outros efeitos dessa crise generalizada, à população trabalhadora, não
rentista e que vive de seus salários, de nada ajuda a superar a crise os alugueis caros, os imóveis
que foram adquiridos com valores acima do normal e que ainda estão com altos valores de

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financiamentos, e a crise política que também é uma barreira à retomada do desenvolvimento
nacional.

A crise brasileira não possui explicação macroeconômica na questão habitacional, pois


a atividade não é expressiva para o PIB como são a exportação de commodities (cuja
desvalorização no mercado internacional é uma das principais causas da crise econômica
nacional) e a agropecuária, por exemplo, mas trata-se de uma questão importantíssima no dia-
a-dia de um fator de extrema relevância para a economia nacional: o mercado interno.

O aquecimento da demanda agregada foi fundamental para o expressivo crescimento da


economia brasileira no início do século XXI, além de que uma melhor localização e condição
de vida, com maior acesos à serviços e oportunidades educacionais só favorece a sociedade e a
economia, mas os gastos com moradia e os próprios custos da vida urbana são determinantes
para o poder de consumo das famílias, para o acesso ao consumo e às oportunidades, e muitas
delas acabam por comprometer grande parte de suas rendas com alugueis (o que colabora e
muito para elevar o déficit habitacional), parcelas de financiamentos habitacionais e juros que
pagam para adquirir os empréstimos, etc.

Assim como o desaquecimento do mesmo mercado (apesar de ter sido considerado até
certo ponto necessário para combate à inflação) tem dificultado recuperação da economia, com
o passar do tempo, se a lógica rentista e mercadológica prevalecer sobre as necessidades sociais,
não há como não acreditar que a pressão dos gastos para possuir um lugar irá atingir um limite
que pode ser perigoso para a população, para os empresários, para a economia como um todo,
mesmo em um cenário economicamente positivo, vide o exemplo recente do mercado
americano.

Na presente pesquisa, estão abordados a globalização e suas consequências


socioespaciais principalmente nos países subdesenvolvidos, a lógica produção da urbanização
no sistema capitalista contemporâneo, os fatores de produção da crise brasileira, que estão
inevitavelmente atrelados à globalização, e também as características do desenvolvimento do
setor habitacional e imobiliário brasileiro no início do século XXI. Essas diferentes abordagens
são interdependentes e possuem conexões entre si, colaborando para observar um dos múltiplos
aspectos da internacionalização das práticas espaciais e econômicas sobre o espaço em todo o
planeta.

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1.1. Justificativa, objetivo e metodologia da pesquisa

O século XXI, ainda tão curto, tem sido para o Brasil numa perspectiva geral, um
período de transformações positivas no que diz respeito à economia e à sociedade. A década
crescimento econômico, 2004-2013, foi acompanhada de uma significativa melhoria na
qualidade de vida das classes média e baixa que, com mais oportunidades de emprego, melhores
rendas e mais acesso ao crédito, puderam acessar o consumo de eletrodomésticos, eletrônicos,
automóveis, lazer, acesso também ao ensino superior que foi ampliado, aos mais diversos
programas governamentais na área da saúde, da educação e também da habitação.

No que diz respeito ao setor habitacional e imobiliário, o governo lançou o Programa


Minha Casa Minha Vida, ampliou o crédito via Sistema Financeiro de Habitação, melhorou as
taxas de juros, e conseguiu iniciar o combate ao déficit habitacional que ultrapassava as 6
milhões de unidades em 2007.

Entretanto, mesmo com algum foco das políticas públicas para o acesso de moradias às
classes mais baixas, o déficit habitacional continua muito alto, e com a crise econômica que
prevalece até 2017, pode até mesmo superar àquele de 10-11 anos atrás, além de que muitos
são os estudos que mostram que as unidades habitacionais destinadas às populações de mais
baixa renda estão localizadas muito afastada dos centros urbanos, o que no geral dificulta o
pleno acesso à estrutura urbana, como transporte, educação, saúde, e também às oportunidades
no mercado de trabalho, já que os custos do deslocamento podem comprometer no momento
de conseguir uma vaga de emprego, por exemplo.

Essa peculiaridade do próprio sistema capitalista de, ao mesmo tempo em que produz
suas riquezas e o crescimento, vai paralelamente produzindo suas próprias barreiras, as crises
localizadas e mundializadas, se intensificam de forma expressiva com a nova ordem mundial
que se inicia na década de 1970, a globalização, e esse é o objetivo principal do estudo:
compreender quais as implicações na sociedade brasileira do recente processo de expansão
imobiliária diante do atual cenário de crise econômica e política, buscando manter como pano
de fundo o fenômeno da globalização.

É praticamente unânime entre os autores estudados que a globalização e as ferramentas


neoliberais, que estão presentes em menor ou maior grau em todas as economias capitalistas do
planeta, independentemente de suas orientações políticas, elevaram o grau de subordinação dos

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países subdesenvolvidos, as desigualdades sociais, elevaram também a fragilidade desses países
em se sustentarem mediante crises de países desenvolvidos, ou seja, criou uma instabilidade
econômica mundial que se reflete, não nos números, nos gráficos, mas nas cidades, nos bairros,
nas regiões, através do modo de vida, de acesso aos serviços básicos e às oportunidades, ao
consumo da maioria da população brasileira que se encontra entre as faixas de renda média e
baixa.

Essa pesquisa se justifica a partir do momento que, apesar do acesso à habitação ter sido
promovido de uma maneira muito positiva e com um papel importante do Estado, e os esforços
governamentais que foram na contramão da década anterior ter de ser reconhecido, ainda há
muito a ser melhorado, a começar por fazer cumprir o papel social da terra, da moradia,
combater a especulação imobiliária que suga os ganhos sociais do processo expansivo, melhorar
a alocação dos recursos para poder ampliar sempre mais os esforços, já que 70% da população
brasileira depende de subsídios para adquirir sua casa própria, e encontrar um meio de inserir
as moradias subsidiadas para populações mais carentes em melhores localidades, enfrentando
a especulação.

Foram utilizados autores importantes da geografia, do planejamento urbano, das


ciências humanas para pensar qual o papel da globalização, das grandes corporações, do Estado
e também da sociedade nesse processo contraditório, e todos esses autores dão uma importante
contribuição para pensar os erros a serem corrigidos, as estratégias a serem pensadas. Não se
trata, este estudo, de invalidar ou descreditar os esforços recentes do Estado brasileiro, ao
contrário, reconhecer as conquistas e uni-las a crítica construtiva para enriquecer o pensamento
sobre as possíveis soluções sobre a questão da habitação no Brasil, pois é uma luta que não
poderia ser vencida em uma década, mas os primeiros passos estão sendo dados, os próximos
precisam ser aprimorados e pensados muito mais sob a lógica das necessidades sociais, e não
fundamentalmente do mercado.

Sobre o processo metodológico, para a pesquisa foram utilizados inicialmente dados e


informações acerca da economia brasileira entre, principalmente, 2007-2015, através de artigos
publicados em periódicos, textos retirados de livros de autores relevantes e dados de instituições
oficiais. O mesmo procedimento foi utilizado para construir um perfil do desenvolvimento do
setor habitacional/imobiliário do brasil a partir de 2007, utilizando principalmente de dados de
instituições como o Banco Central e a Fundação João Pinheiro, entre outras, e artigos de autores

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que estudaram a alocação e os perfis dos empreendimentos do PMCMV em algumas cidades
do país.

Devido à dificuldade na obtenção de dados oficiais acerca da valorização, de venda ou


de alugueis, de imóveis em cidades de menor porte, estes foram obtidos apenas para as mais
importantes regiões metropolitanas do país, e outras cidades importantes, mas os dados foram
coerentes e de muita validade para a construção da argumentação. Além disso, boletins e
relatórios oficiais de instituições como o IBGE e da própria Fundação João Pinheiro, notícias
publicadas por jornalistas, entre outras fontes, ficou também clara a preocupação com a
sobrevalorização dos imóveis no país como um todo, mas especialmente em cidades médias e
grandes.

Foram utilizados textos, livros e artigos publicados por importantes autores para tratar
do fenômeno da globalização, sob uma perspectiva geográfica, principalmente, para buscar na
abordagem do fenômeno a origem e a intensificação das contradições do sistema capitalista,
que ajudam a compreender as ligações entre tudo o que foi abordado: o desenvolvimento, a
crise e a expansão urbana, principalmente através do setor habitacional. E por fim, todos esses
dados e informações foram “colocados em diálogo” através do método dialético.

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2. A GLOBALIZAÇÃO E AS TRANSFORMAÇÕES SOCIOESPACIAIS NA
BRASIL

A crise mundial da década de 1970 abalou os países industrializadas e desenvolvidos, e


uma das consequências mais importantes foi a completa transformação dos modelos de
desenvolvimento econômicos nessas nações, a chamada reestruturação produtiva do capital,
que deixaram de lado as grandes intervenções estatais na promoção de crescimento e reduziram
também barreiras às operações financeiras e à inciativa privada, agora tidas como os grandes (e
únicos, para alguns) motores do desenvolvimento mundial.
O capitalismo, que após os acordos de Bretton Woods progrediu de modo a melhorar a
renda do trabalho nos países desenvolvidos, sob o pano de fundo de um modelo fordista de
produção e concentração das indústrias nesses países, entra em colapso com os dois choques
do petróleo da década de 1970 e vê a insatisfação, popular e intelectual, levar ao resgate, por
parte das autoridades, dos ideais do liberalismo econômico (fracassado no início do século XX
nos Estados Unidos) através de uma nova doutrina: o neoliberalismo, que seria bem-sucedida
caso a economia mundial intensificasse seu processo globalizatório.
As economias periféricas, especialmente as latino-americanas, que já não haviam muito
se beneficiado do expressivo crescimento da economia mundial após o fim da Segunda Guerra,
com as mudanças de direcionamento dos países desenvolvidos a partir da segunda metade da
década de 1970, passam então a viver um período ainda mais difícil: crises generalizadas,
explosão das dívidas externas, urbanização precária, hiperinflação, aumento da miséria,
desemprego estrutural e intensificação de seus papéis inferiores na divisão internacional do
trabalho.
O objetivo deste capítulo inicial é brevemente discutir a gênese e as características
importantes do neoliberalismo econômico na visão de importantes geógrafos como David
Harvey, François Chesnais, Roberto Lobato Corrêa e Milton Santos, de modo a discutir
também, as consequências socioespaciais (urbanas) da chamada “virada neoliberal” para a
América Latina, especialmente para o Brasil, já que os modelos de desenvolvimento pensados
por agentes de países desenvolvidos foram, de certa forma, impostos aos países latinos e ao
Brasil, inserindo-os no processo da intensificação da globalização da economia mundial a partir
daquele momento.

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2.1 Contextualização da ascensão do neoliberalismo

Ao final da década de 1960, estava em processo de esgotamento o modelo chamado


“keynesiano” de desenvolvimento econômico (“liberalismo embutido”) e social na Europa e
nos EUA. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, em esforços para tentar prolongar a paz
e promover desenvolvimento econômico, os Estados industrializados intervinham diretamente
nas economias via investimentos, e mantinham o que Harvey (2008) chamou de “compromisso
entre o capital e o trabalho”, já que não somente as empresas cresciam, mas a renda do trabalho
também.

Era preciso uma nova ordem mundial, com novos papéis para os Estados, para superar
o fracasso do capitalismo com a crise de 1929 que se arrastou pela década de 1930, bem como
pacificar a geopolítica, evitando novas guerras. Instituições como ONU e FMI foram criadas,
além do acordo de Bretton Woods, com esse fim. O dólar passou a ser a moeda de reserva
mundial, com câmbio fixo baseado na convertibilidade dele ao ouro (HARVEY, 2011).

Os Estados tomaram posse de setores-chave da economia, internalizam as relações de


classe, e através de intervenções e restrições ao capital, promovem uma economia “moral e
social”, com grande sentido nacionalista (MARICATO, 2009; HARVEY, 2008). O autor
comenta que nos países capitalistas desenvolvidos havia:

[...] política redistributiva (incluindo algum grau de integração política do poder


sindical da classe trabalhadora e apoio à negociação coletiva), os controles sobre a
livre mobilidade do capital (algum grau de repressão financeira particularmente por
meio de controle do capital), a ampliação dos gastos públicos e a criação do Estado
de bem-estar social, as intervenções ativas do Estado na economia, e algum grau de
planejamento do desenvolvimento caminharam lado a lado com taxas de crescimento
relativamente elevadas. (HARVEY, 2008, p.11)

O chamado “Estado de bem-estar social”, muito mais levado à cabo na Europa do que
nos Estados Unidos, e extremamente restrito nos países capitalistas periféricos, ao distribuir a
renda ao trabalho e aumentar os gastos com serviços sociais por parte dos governos
(MARICATO, 2009), reduziu a concentração dessa mesma renda que antes permanecia entre
os chamados “1% mais rico” e reduziu as taxas de lucro (HARVEY, 2008; MURTEIRA, 1986).

Tabela 1 – Participação na riqueza mundial entre 1950 e 1969.

Países 1950 1969


Capitalistas Industriais 68% 58%
Socialistas 20% 31%

20
Terceiro Mundo 12% 11%
Fonte: MURTEIRA, 1986. Elaboração própria.

Esse “compromisso” não foi questionado, pelo menos enquanto o crescimento


permanecia alto, mas quando a desaceleração natural do sistema começou e acabou se
“encontrando” com a crise mundial do petróleo, o modelo que já mostrava “sinais de desgaste”,
acaba levando o que Murteira (1986) chama de “golpe de misericórdia” em 1972/1973 com os
choques do petróleo que quadruplicavam de uma só vez o preço dos combustíveis.

Os países industrializados, capitalistas e socialistas, cresciam entre 1960 e 1973 a uma


taxa média de 4,9% ao ano, taxa essa que cai para 2,5% entre 1973 e 1985. Os países em
desenvolvimento por sua vez, que como o Brasil viviam períodos de migração das populações
do campo para as cidades, e investiam em industrialização, cresciam cerca de 6,1% ao ano entre
1960 e 1973, mas a partir da crise do petróleo e do reordenamento do capitalismo mundial, essa
taxa cai primeiramente para 5,5% ao ano até 1980 e declina a 3% até 1985 (MURTEIRA. 1986).

Segundo Murteira (1986), não é correto associar a crise do crescimento apenas à crise
do petróleo de 1973-74, visto que existiram outros fatores muito “enraizados” dentro do
capitalismo global que facilitaram o aprofundamento da crise mundial da década de 1970. Em
primeiro lugar, o autor argumenta que como os custos da mão-de-obra estavam mais altos
(melhores relações salariais), então as taxas de lucro do capital estavam mais baixas, e isso
desestimulava os investimentos dentro dos países capitalistas desenvolvidos.

Em segundo lugar, Murteira (1986) afirma que as necessidades de consumo intensivo


de serviços, tais como higiene, transportes, educação, tempo livre, etc., fizeram com que as
economias passassem por uma “terciarização”, pressionando os gastos públicos e endividando
os Estados. Outro fator que ajudou a piorar o cenário da crise dos anos 1970 foi o crescente
papel das multinacionais no comércio e nas relações econômicas internacionais que dificultou
a regulação com interesses nacionais das economias.

A insatisfação com o modelo que vinha funcionando após Bretton Woods (BW) se
materializa em uma cadeia de reações políticas e econômicas que sucedem grandes
acontecimentos que transformaram os destinos dos países, centrais ou não, inclusive com a
queda do sistema BW. Em 1973, Augusto Pinochet derruba o governo de esquerda de Salvador
Allende e promove a primeira experiência neoliberal do planeta através da ditadura militar no
Chile. Em 1978, a China abre seus mercados em direção a assumir o posto de segunda maior
economia capitalista do mundo (HARVEY, 2008).
21
Paul Volcker assume em 1979 a Federal Reserve, uma espécie de Banco Central
americano, e atua com políticas de desregulamentação da indústria, agricultura e do
extrativismo, restringindo o poder dos sindicatos no país e derrubando as barreiras da livre
movimentação das finanças. Ainda em 1979, Margareth Thatcher, talvez o maior expoente do
neoliberalismo mundial foi eleita e também atuou de forma a reduzir o poder dos sindicatos
britânicos (MARICATO, 2009; HARVEY, 2008).

Por fim, em 1980 Ronald Reagan vence as eleições presidenciais pelo Partido
Republicano nos Estados Unidos e, junto de Thatcher e Volcker, formam uma frente de combate
às políticas keynesianas, passam a difundir uma nova configuração econômica através de
políticas e ideais neoliberais por todo o globo, dando início a uma nova fase do capitalismo
mundial, chamada era da “globalização” (HARVEY, 2008).

O neoliberalismo é em primeiro lugar uma teoria das práticas político-econômicas que


propõe que o bem-estar humano pode ser melhor promovido liberando-se as
liberdades e capacidades empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura
institucional caracterizada por sólidos direitos a propriedade privada, livres mercados
e livre comércio. (HARVEY, 2008, p. 2).

Ao Estado nessa nova configuração, cabe o papel de “criar e preservar uma estrutura
institucional adequada à essas práticas” (HARVEY, 2008, p. 2). No Brasil, desde o governo de
Getúlio Vargas, passando por Kubistchek, Jânio Quadros, João Goulart e também durante o
regime militar, o Estado detinha as “rédeas” do desenvolvimento, regulando a economia mesmo
com algum certo grau de abertura e não adotando nem de modo incisivo os ideais liberais, vide
a Constituição Federal de 1988 (CF/88) que prevê um Estado forte e ativo (DEGENZSAJN,
2006).

Durante década de 1990 entretanto, mesmo pouco tempo depois da redemocratização e


da promulgação da Constituição Federal de 1988, a situação se transforma radicalmente, e o
então presidente Fernando Henrique Cardoso (talvez por interesse, mas principalmente por falta
de alternativas) passa a adotar as medidas de ajuste fiscal impostas pelo Fundo Monetário
Internacional (FMI), afastando o governo das políticas sociais e dos direitos que nem sequer
ainda haviam sido colocados em prática, visto que o Brasil (também México, Argentina e
outros) havia adquirido elevados empréstimos junto à instituição e precisava então garantir as
condições de pagamento (MARICATO; 2009; DEGENZSAJN, 2006).

Para se tornar pensamento dominante, o neoliberalismo se fez valer do aparato


conceitual que pregava a “liberdade individual” e a “dignidade humana” como valores centrais
(HARVEY, 2008; CHESNAIS, 1996). Para Harvey (2008), o neoliberalismo tratava-se de mais
22
do que a busca por quebra de barreiras nos mercados internacionais para ampliar o comércio e
aumentar os lucros, mas também uma tentativa deliberada de restauração do poder da classe
banqueira, financista e oligopolista de mercado, poder esse que havia sido (ainda que pouco)
distribuído também na mão de sindicatos e Estados nacionais (inclusive socialistas).

A curto e a longo prazo, as experiências do Chile, Estados Unidos e Grã-Bretanha, que


foram posteriormente expandidas para outros países, foram eficazes na restauração desse
“poder de classe”, pois reconcentrou a renda, fez surgir poderosas oligarquias, multiplicou a
miséria, “defasou a taxação de grandes fortunas”, manteve o imposto sobre salários e ampliou
de forma “cruel” as desigualdades sociais (HARVEY, 2008).

2.2 A geografia da reestruturação produtiva e a importância das técnicas

Segundo Chesnais (1996) e Harvey (2008), o capital encontrava, a partir dessa nova
realidade, diante também de uma revolução tecnológica, principalmente na eletrônica que fez
se desenvolver radicalmente as tecnologias de comunicação e transporte, que favoreceu a
redução dos custos e do tempo de transporte e na velocidade de circulação das informações
(condição básica para o sucesso das operações financeiras).

Essas condições foram extremamente importantes para que os agentes financeiros


pudessem obter as melhores vantagens comparativas no que diz respeito a valores de terra e
recursos naturais, trabalho e capital, ou seja, dos principais fatores de produção, aonde quer que
estes se apresentassem mais rentáveis às empresas, colocando o mundo em um estado infinito
de competição por investimentos internacionais, no que Milton Santos chamou de “guerra dos
lugares”.

A mundialização ocorre no campo produtivo através da “deslocalização” das unidades,


da fragmentação produtiva, agora possibilitada pelas inovações técnicas, que desterritorializou
as antigas cidades industriais dos países desenvolvidos e se reterritorializou nos países em
desenvolvimento, principalmente no sudeste asiático (HARVEY, 2008; CHESNAIS, 1996), e
a geografia do capitalismo passa então a ser cada vez mais “autoproduzida” (HARVEY, 2011).

Segundo Santos (2001, p. 13), “na história da humanidade é a primeira vez que tal
conjunto de técnicas envolve o planeta como um todo e faz sentir, instantaneamente, sua
presença”. O autor reflete que o desenvolvimento das técnicas fez com que seja possível uma
comunicação quase total dos lugares de um país, por exemplo, já que mesmo as técnicas não-
hegemônicas são inseridas na lógica das técnicas hegemônicas, imersas então na hierarquia

23
desses sistemas técnicos que são executados de acordo com a política, seja empresarial, seja
estatal.

Mas Santos (2001) afirma que “a globalização não é apenas a existência desse novo
sistema de técnicas. Ela é também resultado das ações que asseguram a emergência de um
mercado dito global”, mercado esse, que é a essência da eficiência política contemporânea, e
que ao usar dessas técnicas, globaliza perversamente o mundo. Para o geógrafo, quatro são
fatores os que podem colaborar para a compreensão do que ele chama de “arquitetura” dessa
globalização: a unicidade da técnica, a convergência dos momentos, a cognoscibilidade do
planeta e, por fim, a globalização da mais-valia.

Para Santos (2001), o desenvolvimento das técnicas marca as passagens dos diferentes
momentos históricos do homem, pois essas funcionam como uma espécie de referência à
própria história da humanidade. Entretanto, o surgimento de novas tecnologias não resulta no
desaparecimento das “antigas”, mas apenas na diferenciação entre os atores, já que os
hegemônicos são aqueles que podem usufruir das novas possibilidades de suas novas técnicas.

A possibilidade de que as diferentes de técnicas possam comunicar-se entre si, das


hegemônicas que também podem “invadir” as não hegemônicas, é o que marca a unicidade das
técnicas, a interação e a influência de umas sobre as outras, a hierarquia, já que as técnicas
hegemônicas, mais “modernas”, passam a funcionar como uma espécie de “fita métrica” da
qualidade dos lugares dentro do sistema (SANTOS, 2001).

Essa unicidade, é o que permite a fragmentação produtiva que também é hierarquizada


(por exemplo: um carro cuja roda de produz em um lugar a, o motor em b, a lataria em c, e
assim por diante), mas que faz o autor questionar a existência de um mercado de fato
globalizado, já que a unidade política também é fragmentada entre empresas e Estados, sem
uma “ordem global” (SANTOS, 2001).

A unicidade do tempo ou a convergência dos momentos permite que a informação de


diversos lugares seja compartilhada em outros lugares, permitindo por sua vez a interligação,
por exemplo, das diversas instituições financeiras do planeta em tempo real. Santos (2001, p.
14) comenta: “nunca houve antes essa possibilidade oferecida pela técnica à nossa geração, de
ter em mãos o conhecimento instantâneo do acontecer do outro”. O autor alerta, entretanto, que
a nem todos são “atores do tempo real”, nem todos tem acesso a fluidez das técnicas que
unificaram.

24
Aqueles atores que, segundo Santos (2001) de fato são os atores fluidos, até pelo
imperativo da fluidez de seus bens, informações e capitais, têm na mais-valia universalizada o
que o autor denomina “motor único” das ações do capitalismo globalizado. Essa mais-valia é
globalizada pela própria internacionalização das cadeias produtivas e, apesar de não ser
mensurável, de se transformar conforme o próprio progresso técnico se transforma, ela é um
fato empírico, imposto, e é cada vez mais cruel conforme mais competitividade há na esfera
produtiva.

Por fim, a cognoscibilidade do planeta é um dos mais importantes elementos da


arquitetura da globalização. A unicidade das técnicas e do tempo permitem a mais intensa
fluidez de bens, mercadorias, informações e pessoas, que por sua vez intensificam a disputa por
investimentos, e a busca pelas vantagens locacionais, o que resulta na mais-valia universal e
numa intensificada divisão internacional do trabalho.

Todo esse movimento, essa dinâmica, só pode ser como tal graças ao conhecimento
generalizado do planeta, via imagens de satélites cada vez mais modernos, via cartografia,
informações variadas, que dão um panorama dos lugares que é, segundo Santos (2001), “dado
essencial à operação das empresas e à produção do sistema histórico atual”.

Uma das mais importantes características da globalização, que é requisito para e também
a requisita, é a competitividade entre os lugares, pessoas, empresas, Estados. Em meio a
competição pela redução dos custos, pela superação do espaço pelo tempo, pela atração dos
investimentos, pelos melhores salários, enfim, há uma violência estrutural que distorce a
percepção do outro, seja pessoal, seja institucional (SANTOS, 2001).

Se as fronteiras estão, como apontou o autor, mais “porosas”, elas estão permeáveis
então não somente aos ganhos das técnicas, da ciência, da informática, da comunicação, mas
também das perdas decorrentes da premissa básica da competitividade (que é por sua vez uma
premissa do capitalismo): quando alguém está vencendo, alguém necessariamente está
perdendo.

2.3 A geografia das consequências do fenômeno da globalização

François Chesnais (1996) também enxerga na globalização (ou “mundialização”) um


processo mais complexo e multifacetado do que apenas a expansão as trocas comerciais
internacionais. Segundo o geógrafo francês, os mercados puderam se internacionalizar e
usufruir das vantagens locacionais para multiplicar os capitais, principalmente a partir da

25
década de 1980, graças a desregulamentação financeira que culminou com a própria
globalização financeira, assim como também graças as novas tecnologias que são, ao mesmo
tempo que condição para intensificar o processo globalizatório, uma premissa para tal.

Globalizar as finanças através da internacionalização principalmente das redes de


instituições bancárias, ao mesmo tempo que expõe as economias aos ataques especulativos
daqueles agentes que se “alimentam” das altas fatias dos lucros financeiros, expõe também as
economias do “Terceiro Mundo” à marginalização, tal como ocorreu nos anos de 1980, em que
houve uma explosão das dívidas dos países latinos, paralelamente a um aumento nas taxas de
juros, e consequentemente a subordinação desses à “tutela” principalmente do FMI, para
reescalonar os débitos colocando como garantia o exercício das práticas liberais (HARVEY,
2011; CHESNAIS, 1996).

Após os dois “choques” do petróleo em 1973-74 e em 1979-80 que fizeram eclodir uma
das mais graves crises do capitalismo e renascer os ideais liberais nas economias desenvolvidas,
a América Latina sofreu com a intensificação de suas relações, que já eram desiguais, com os
países industriais capitalistas, a chamada relação Norte/Sul, e os saldos obtidos nas exportações
latinas tinham de ser direcionados para pagamentos de juros de dívidas externas (HARVEY,
2008; MURTEIRA, 1986).

O expressivo aumento do preço do petróleo durante a crise do combustível permitiu que


os países produtores (especialmente árabes) acumulassem excedentes que estavam aplicados
em bancos de países industrializados, como norte-americanos, eram então direcionados em
forma de investimentos e empréstimos a juros elevados e instáveis (FIGURA 1) aos países em
desenvolvimento, fazendo explodir suas dívidas externas, colapsar o balanço de pagamentos
desses países e então eclodir as graves crises dos países latinos na década de 1980, entre eles o
Brasil (HARVEY, 2008; MURTEIRA, 1986).

26
Figura 1 – Variação anual das taxas de juro da Federal Reserve dos EUA, do final da década
de 1970 até 2016.
Fonte: tradingeconomics.com/unitedstates/interest-rate.

Adaptar-se as “regras do jogo” das grandes corporações multinacionais, abrindo mão de


qualquer controle ou orientação do processo, provendo total liberdade e condições de expansão
às empresas, e objetivando englobar todo e qualquer aspecto da vida na lógica da valorização
capitalista, eram esses os “requisitos” para que os países, especialmente subdesenvolvidos,
precisavam garantir para que a sua inserção na globalização (que era praticamente um
imperativo) fosse “bem-sucedida”, bem como o pagamento de suas dívidas (CHESNAIS, 1996;
PORTELLA FILHO, 1994).

Maricato (2009) afirma que o impacto da globalização nos países capitalistas


desenvolvidos foi muito forte, mas nos países da periferia do sistema, foi ainda mais cruel:
novas maneiras de serem explorados e dominados, num “bem engendrado modelo de
construção de hegemonia” que “foi colocado em prática por meio do Consenso de Washington”.

O Consenso de Washington tratava-se do resultado formalizado de indicações de


reformas políticas e econômicas para os países latino-americanos, que vinham sendo
implantadas desde o início das “crises da dívida externa” em 1982 (PORTELLA FILHO, 1994).
O que estava contido nesse consenso era justamente a implantação do “receituário neoliberal”
dentro das economias latinas, entretanto, os resultados não foram nem de longe satisfatórios, e
os países latinos amargaram quase duas décadas de crise.

27
Segundo Chesnais (1996), o investimento direto (IED) e as transferências de tecnologias
que eram feitos dos países desenvolvidos para os subdesenvolvidos recuaram diante desse novo
cenário econômico mundial, pós década de 1970. O autor afirma que os empréstimos e os
investimentos eram para os países em desenvolvimento fontes de capital, mas que na década de
1980 não foram eficientes para promover bom desenvolvimento. Já para os países capitalistas
desenvolvidos e para seus bancos credores, entretanto, eles eram multiplicadores de capital e
também de poder.

O colapso da economia e do sistema financeiro do México em 1982 reflete essa


realidade, visto que, para “adaptar-se as regras do jogo”, o país optou por adotar políticas de
desregulamentação e desvalorização cambial, mas os resultados foram os mais duros para a
população mexicana: desemprego, inflação anula superior a 50%, queda de 5% do PIB em
apenas um ano (HARVEY, 2008; CHESNAIS, 1996).

Com o discurso de que o problema foi a falta de efetividade que levou o país àquela
situação, os famosos “comitês de credores” (formados por credores das dívidas e que estiveram
presentes diversos países que se endividaram) passam a planejar as ações para garantir a melhor
“adaptação” do México ao “modelo” de desenvolvimento (CHESNAIS, 1996).

Então, se em 1980 o fluxo de dólares dos países desenvolvidos para os países em


desenvolvimento era de cerca de US$26bi, passa para US$1,6bi em 1983, em 1984 o fluxo na
direção contrária era de US$25bi para os bancos credores das dívidas desses países
(CHESNAIS, 1996).

A tendência do capitalismo globalizado contemporâneo de buscar cada vez mais a


superação do espaço pelo tempo, através das mais sofisticadas tecnologias de telecomunicações
que fazem com que as informações e o capital circulem de forma quase instantânea, não
propiciou a mesma superação no que diz respeito aos transportes de pessoas e bens materiais,
e essa “contradição” pode justificar a crise imobiliária dos EUA de 2008, assim como outras
crises ao redor do planeta: a lógica dos investimentos e da multiplicação do capital saiu
completamente do controle, se desprendeu da lógica da aquisição material, e as crises
econômicas passaram a ocorrer com maior frequência e intensidade (HARVEY, 2011).

Segundo Harvey (2011) as crises agora não são mais localizadas, mas podem exercer
um efeito dominó nas mais diferentes economias, causando crises globalizadas de impactos
significativos, especialmente para os países dependentes de exportação de matérias primas, por

28
exemplo, como é o caso do Brasil. Vale ressaltar que uma das causas da atual crise econômica
brasileira reside na desaceleração da economia chinesa, que demandava uma alta quantidade de
commodities a preços elevados, mas que passa a atuar menos intensamente a partir de 2010,
impactando diretamente as receitas brasileiras.

Antunes (1999) lembra que a reestruturação produtiva desfigurou antigos polos


produtivos de países desenvolvidos, ampliou a produção ao mesmo tempo que reduziu a
necessidade do trabalho “produtivo” (trabalho de fábrica, que cria “valor de troca”), e ampliou
o setor de serviços que atinge hoje o elevado nível de importância graças à desindustrialização
causada pela globalização.

Há, segundo o autor, um declínio do emprego industrial, estável e assalariado, e há um


crescimento exponencial do trabalho precarizado, que cresce junto ao setor de serviços
(ANTUNES, 1999). O que o autor denomina “desemprego estrutural”, é uma grande
contradição do sistema capitalista contemporâneo que produz como nunca, mas que reduz
também como nunca os custos do trabalho, e as consequências nas cidades, são populações
enormes de pessoas que, apenas com a renda do trabalho, não conseguem morar, transitar,
consumir, enfim, viver com qualidade; pessoas que vivem em cidades que se desenvolvem
economicamente, mas que tem uma população cada vez mais empobrecida e desprotegida das
variações naturais do próprio sistema (DEGENSZAJN, 2006)

Outra grande contradição do ideário neoliberal da globalização reside na necessidade do


“Estado mínimo” para a promoção das liberdades individuais e do comércio, e também para
redução dos riscos da “má gestão”, uma vez que os Estados são vistos como inaptos. Mas
Maricato (2009) argumenta que o Estado se adapta a intervir a favor das granes empresas e do
capital financeiro, eximindo-se no que diz respeito à questão social, e os programas de
privatizações ocorridos no Brasil na década de 1990 podem ilustrar essa realidade.

Os Estados não foram diminuídos como fez crer o ideário neoliberal, mas adaptaram-
se às exigências das grandes corporações e do capital financeiro. Enfraqueceram-se
apenas em relação às políticas sociais. Naquilo que interessa às grandes corporações
e ao capital financeiro os Estados foram fortalecidos. (MARICATO, 2009, s/p.)

Para Costa (2009), a globalização como “fenômeno típico do capitalismo


contemporâneo” é percebido de forma diferentes pelos diversos autores que as estudam:
existem aqueles que defendem os postulados neoliberais da liberdade individual, a competição
e a garantia pelo Estado apenas do direito à propriedade privada.

29
Há também, segundo Costa (2009), quem perceba a globalização como um mito, ou
uma fábula (para usar a expressão de Milton Santos), pois estes acreditam que o discurso não
condiz com a prática. Argumentam os pensadores dessa corrente, que a economia mundial era
mais “aberta” em 1914 do que é hoje, já que os investimentos, o comércio, o capital e as
empresas transnacionais estão concentradas nos poucos países centrais hegemônicos,
principalmente nos EUA.

Há uma terceira corrente de pensamento, segundo Costa (2009), que defende que a
globalização é um “fenômeno antigo”, iniciada com as expedições de Marco Polo à China, que
se intensifica com a conquista da América pelas grandes navegações, e evolui consecutivamente
desde então

Mas para Costa (2009), uma coisa é o desenvolvimento de um comércio


internacionalizado, outra coisa é a produção financeira atual. Para o autor, que se insere entre
aqueles que enxergam na globalização uma realidade empírica, um dado, um balanço do
fenômeno desde a década de 1970 revelaria um resultado trágico para o planeta.

Costa (2009) argumenta que o capitalismo padece de contradições estruturais, não


encontra mais espaços a “ocupar” para sanar seus problemas, e que o neoliberalismo colaborou
apenas para intensificar as questões mal resolvidas do sistema: concentração de renda, pobreza,
especulação imobiliária, instabilidade econômica, redução de direitos trabalhistas e dos
salários, e também a precarização do trabalho.

O que Costa (2009) argumenta vai de encontro ao que trata também Maricato (2009),
Harvey (2008), Degenszajn (2006), Santos (2001), Antunes (1999), Chesnais (1996), e tantos
outros pensadores do fenômeno. Ao reestruturar suas bases, o capitalismo que se neoliberaliza
na segunda metade do século XX, intensifica a divisão internacional do trabalho, que por sua
vez também se manifesta regional e localmente, fragmentando não somente a produção, mas
também a própria sociedade global em unidades produtivas de valorização diferenciada.

A elevadíssima produtividade que os fatores de produção adquiriram com o declínio do


fordismo e do keynesianismo, com a possibilidade de realocação das cadeias de produção aonde
quer que essas fossem mais lucrativas, com a explosão do crédito para consumo em massa, e
também com a inserção de maquinário cada vez mais sofisticado que substitui o trabalho
humano, favorece o capital tecnológico e o desemprego estrutural, estimula a competitividade

30
entre os lugares que tentam “dar um passo atrás para dar dois à frente”, ou seja, se desvalorizar
para atrair investimentos e futuramente se valorizar (HARVEY, 2008).

Além das sociedades, o meio ambiente também tem sofrido com o intenso
desenvolvimento do capitalismo contemporâneo. Segundo Harvey (2011, p. 152) a paisagem
geográfica do capitalismo está em “perpétua evolução, em grande parte sob o impulso das
necessidades especulativas de acumulação adicional” e não das necessidades humanas, e essa
evolução parte do que o próprio autor denomina “destruição criativa da terra”, ou seja, a
exploração indiscriminada dos recursos naturais para a produção da “segunda natureza”, a
natureza completamente transformada pelo homem (HARVEY, 2011).

Assim como o taylorismo e o fordismo moldaram um novo homem e uma nova


sociedade, a globalização também está produzindo um novo homem e uma nova
sociedade por meio de transformações nos Estados, nos mercados, nos processos de
trabalho, na estética, nos produtos, nos hábitos, nos valores, na cultura, na
subjetividade individual e social, na ocupação do território, na produção do ambiente
construído e na relação com a natureza. (MARICATO, 2009, s/p).

A geografia das consequências ambientais do capitalismo também é dinâmica, assim


como as sociais, e as crises ambientais também são globalizadas, seja por lançamento de
poluentes na atmosfera ou nas águas, pela destruição da vegetação nativa e pela monocultura,
seja onde for, as consequências não são estáticas ou locais, mas seguem o fluxo dos
componentes da natureza, que circulam no planeta distribuindo água e calor, que por sua vez
propiciam o desenvolvimento das espécies vegetais e animais, ou seja, a própria destruição
local atravessa as fronteiras para socializar os prejuízos (HARVEY, 2011).

Santos (2001) estabelece três formas distintas para se enxergar o “fenômeno da


globalização”: vê-la como fábula, como perversidade ou como possibilidade. Em primeiro
lugar, a globalização se mostra como um conjunto de “ilusões”, contos, que são parte do
discurso hegemônico do capitalismo contemporâneo, “hipócrita” e desprendido da realidade.

A perversidade da globalização, que Santos (2001) diz que é apenas o mundo “como ele
é”, é o adjetivo que cabe a superconcentração dos diferentes recursos, naturais, financeiros e
informacionais, que já não mais se distribuem, e que favorecem a concentração do poder na
mão dos poucos atores hegemônicos do sistema.

A globalização “como possibilidade”, traduz o anseio de Santos (2001) por “uma outra
globalização”, em que as tecnologias, as ferramentas e as conquistas do capitalismo sejam
usadas para uma transformação radical da sociedade global, para uma globalização de cunho
mais social, menos financeirizado e mais justo.
31
2.4 A globalização como motor de urbanização e reprodução ampliada de capital

Os mais diversos usos da terra no território das cidades constituem o que Corrêa (1995)
denomina “espaço urbano”, assim como o espaço em si é, como disse Santos (1993), “um
conjunto inseparável da materialidade e das ações do homem”. Essas diferentes formas de
apropriação da terra urbana fragmentam o espaço, mas esses fragmentos não são independentes,
estão em constante interação pelas próprias dinâmicas sociais que segundo Santos (1993) são
políticas, territoriais, demográficas, culturais e econômicas, e interação essa, articulada pelas
redes de contatos pessoais, de transporte, de comunicações e de produção (SANTOS, 2006;
CORRÊA, 1995).

A integração desses movimentos se manifesta, segundo Corrêa (1995), através das


relações espaciais, que são naturalmente sociais, na “circulação de decisões e investimentos de
capital, mais-valia, salários, juros, rendas [...]”, com maior intensidade nos centros urbanos, sob
o pano de fundo de uma “sociedade de classes”, unindo então esses “pedaços” em um espaço
que é fragmentado, mas como já mencionado, articulado.

O espaço urbano é o campo de lutas pelas condições de cidadania, condições essas que
são o próprio reflexo dessa sociedade e que, ao passo que a cidadania é condicionada pelo
espaço, também o condiciona. O espaço urbano transforma e também é transformado pelos
chamados “agentes”, que são os proprietários dos meios de produção e fundiários, promotores
imobiliários, os grupos sociais “excluídos” e o próprio Estado, e essas transformações são
simbolizadas nas relações produtivas, na luta de classes e na própria acumulação capitalista
(CORRÊA, 1995).

O Estado é o agente que faz a intermediação entre os demais atores do espaço urbano,
gerenciando interesses ao utilizar-se dos instrumentos que detém, de modo a controlar e regular
o uso do solo urbano através dos impostos, do crédito, de desapropriações, entre outros
(CORRÊA, 1995). O problema é que o Estado não tem sido capaz, ao menos no Brasil, de
interromper um processo muito desfavorável àqueles grupos que o autor denomina “excluídos”,
que é a valorização urbana como promotora de gentrificação e mais segregação/exclusão
espacial.

Durante o processo de comercialização e financiamento de fragmentos urbanos por


promotores imobiliários, acompanhada de ações estatais no fornecimento de equipamentos
urbanos, tais como saneamento, vias de circulação e eletricidade, o processo de valorização

32
desse espaço é acelerado, e geralmente não acompanhado pela melhoria na renda de grupos que
vivem em áreas periféricas (DEGENSZAJN, 2006; CORREA, 1995).

O resultado é a “expulsão” de grupos de indivíduos que não possuem mais condições


de pagar os novos custos, seja em serviços ou aluguéis, iniciando a gentrificação, que se reflete
na expansão das cidades para áreas cada vez mais longínquas, dificultando ainda mais o acesso
dessa população gentrificada à sua própria cidade (DEGENSZAJN, 2006; CORREA, 1995).

Os espaços produzidos nas cidades capitalistas têm como “tônica” a contradição: a


centralização que descentraliza, a territorialização que desterritorializa, o desenvolvimento que
gera crises (DEGENSZAJN, 2006; CORRÊA, 1995). Segundo Degenszajn (2006), nas grandes
metrópoles os reflexos desse transcurso contraditório do próprio sistema se manifestam de
forma ainda mais “cruel”, pois são lugares onde o desenvolvimento, a segregação e as carências
sociais são intensificados, ampliando a distância entre os atores que se beneficiam e os que são
penalizados pelo modo capitalista de ocupação da terra.

Harvey (2011) afirma que a diversidade geográfica é condição primordial para a


acumulação de capital, não um obstáculo. O capitalismo se desenvolve mais quão mais diversas
forem as condições físicas, sociais e culturais, ou seja, os recursos naturais e humanos
(condições trabalhistas e mercado consumidor), e o autor salienta que os capitalistas são muito
atentos quanto as diferenças geográficas, em oportunidades de maiores rendas. Resta ao capital,
então, prover e inovar os fixos (transportes e meios de comunicação, principalmente) para que
os custos da livre circulação dos fluxos sejam cada vez menores, e os lucros cada vez maiores.

Segundo Corrêa (1995) a segregação que se manifesta na diferenciação espacial, ao


mesmo tempo que é um fenômeno do modo capitalista de produção das coisas e também do
espaço, é também uma condicionante para que ele possa alcançar o objetivo de se reproduzir
amplamente, mas isso não significa que a segregação espacial seja social e econômica ao
mesmo tempo.

Degenszajn (2006) e Corrêa (1995) cometam também sobre as novas formas de


segregação no Brasil e também em outros países, a “autosegregação”, ou seja, a decisão por
parte de conjuntos de indivíduos de classes mais privilegiadas em isolar-se dos centros urbanos,
“colonizados” por atividades produtivas e comerciais, com grande fluxo popular, migrando para
áreas periféricas, em condomínios fechados ou “enclaves fortificados” (já que o medo da

33
violência transformou as arquiteturas), mas cuja ocupação produz maior valor especulativo às
novas áreas, isolando os contatos sociais entre as diferentes classes.

A partir do ano de 2013, o Brasil começou a deixar para trás os “bons ventos” dos 10
anos de crescimento econômico, distribuição de renda e melhorias sociais, entrando num
processo de transformação cuja “ponta do iceberg” foram as chamadas “manifestações de
julho”, mas cujos desdobramentos a partir dali já resultaram no impeachment da ex-presidente
Dilma Rousseff em agosto de 2016, e na enorme crise política derivada da ação Polícia Federal
na chamada “Operação Lava-Jato”.

Para Harvey (2014), ainda que as manifestações ocorridas no Brasil, principalmente em


2013, tratassem de classes em “ascensão”, e que não faziam parte, naquele momento, de
movimentos “anti-austeridade” como no Egito, Síria ou França, por exemplo, o que carregavam
em comum os protestos que ocorriam nesses e em outros países era o fato de que todas
relacionavam-se com os malefícios que a explosão de urbanização em escala global tem
causado: crescente desigualdade social, elevados custos de vida (como os custos do transporte,
como começou o caso brasileiro), violência policial, etc.

A economia brasileira cresceu em praticamente todos os setores entre 2003 e 2013, da


agricultura à indústria, mas com um destaque que é importante para o presente estudo: o setor
habitacional/imobiliário, especialmente as construtoras nacionais. Apenas dentro do âmbito do
Sistema Financeiro Habitacional (SFH), entre 2008 e 2016 foram mais de 3 milhões unidades
financiadas, sendo cerca de 40% em novas unidades. No Programa Minha Casa Minha Vida,
onde o governo federal fornece subsídios para financiamento habitacional a famílias de menor
renda, entre contratos já firmados e obras entregues, foram mais de 5 milhões de novas
residências.

Segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC)


disponibilizados através do ranking anual das “Maiores Empresas de Construção”, as seguintes
empresas multiplicaram seus faturamentos numa média, apenas entre elas, de 363% entre 2008
e 2014: MRV (673%), Odebrecht (206%), Queiroz Galvão (205%), Camargo Corrêa (74%) e
Construcap (661%). Dessas empresas, que sempre apareciam entre as 10 maiores no período,
apenas a MRV não faz parte das investigações da “Operação Lava-Jato”.

De acordo com o mesmo relatório da CBIC, os ramos de atuação dessas empresas não
eram principalmente a habitação, mas incluíam obras de urbanização e infraestrutura em geral:

34
rodovias, hidrelétricas, túneis, portos, ferrovias, plataformas offshore, instalações petrolíferas,
pontes e viadutos, aeroportos, dutos para combustíveis, telecomunicações, linhas de
transmissão, saneamento, e também edifícios comerciais e residenciais (embora nem todas
atuassem nesse ramo), entre outras atuações. Apenas em 2014, essas mesmas empresas
faturaram juntas quase R$32bi, cerca de 0,52% do PIB nacional e quantia maior que o PIB do
Acre, Amapá, Roraima e Tocantins, no mesmo ano (CBIC, 2017c).

O crescimento das empresas se justifica pelos altos investimentos feitos pelo governo
federal para melhorar a infraestrutura do país, expandir a atividade econômica nacional e
superar a crise mundial de 2008, principalmente através das ações previstas no Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC), criado em 2007 e que, até 2017 já havia investido cerca de
R$1,9tri em projetos de infraestrutura urbana, habitação, logística e energia, mas diante da
imensa crise política que envolve denúncias das mais variadas, coloca sob descrédito perante a
população essas parcerias público-privadas.

Segundo Maricato (2009), os países latino-americanos não sofrem apenas com as


práticas do capitalismo contemporâneo, mas também com uma herança secular de
patrimonialismo, clientelismo, oligarquias e corrupção. A autora reconhece que esses são traços
do atraso do sistema político e judiciário dessas nações, fazendo com que mesmo leis
progressistas resultem em “decisões conservadoras”, ilustrando a convergência de diferentes
“tempos” em uma mesma sociedade, uma modernização atrasada e incompleta.

Apesar dos países subdesenvolvidos estarem investindo em grandes obras e programas


de habitação para promoção de desenvolvimento, Harvey (2014) é um pouco mais cético, e
acredita que o boom de urbanização na atual fase do capitalismo é uma importante estratégia
de absorção de capital excedente, que mantém elevadas as taxas de lucro, propicia maximização
do “retorno sobre os valores de troca, independentemente de quais forem os valores de uso”,
enquanto o atendimento das necessidades sociais não é a prioridade do processo .

A China por exemplo, que tem sido o “grande motor” da urbanização no mundo, cerca
de 20% do PIB do país estava ligado apenas a negócios imobiliários, e num período de 2 anos
(2011-2012), o país do sudeste asiático produziu uma quantidade maior de cimento do que os
Estados Unidos durante todo o século XX (HARVEY, 2014). Esse expressivo crescimento
chinês foi também importante para o crescimento brasileiro, já que o país foi um dos principais
fornecedores da matéria prima necessária às ações da China.

35
De acordo com Harvey (2011, p.143) “a organização do consumo pela urbanização
tornou-se absolutamente central à dinâmica do capitalismo”. Nos EUA, a dependência da
economia pelo consumo chega à 70%, e essa dependência eleva a subordinação também de uma
“economia espetáculo”, de uma infraestrutura e de uma estética urbana específica. Para
sustentar esse processo, novas formas de organização do crédito e do financiamento facilitaram
o acesso à habitação e às grandes obras, distribuiu os riscos pelo mundo através da venda de
títulos de dívida (financiadora desse estilo de vida), distribuindo também, a grave crise que
eclodiu em 2008.

Antes da crise de 2008, que nasceu no mercado imobiliário americano através do modelo
de massiva distribuição de crédito para financiamentos hipotecários que sucumbe pela
inadimplência que também havia crescido (já que os altos preços dos imóveis formaram uma
bolha especulativa), os EUA já tinham visto sua economia atingir o auge durante a década de
1950, justamente com a popularização do “american way of life”, dos subúrbios norte-
americanos, e também do boom dos automóveis que forçaram pesados investimentos em
menores vias e highways, garantindo o fluxo dinâmico do capital, mas que também terminou
em crise (HARVEY, 2011).

Uma vez que o capitalismo se caracteriza pela produção ininterrupta de excedentes, a


urbanização como condição para a absorção desse excedente, se torna outro grande negócio.
As cidades historicamente absorvem a produção sobressalente, mas além disso, ela também
absorve o excedente populacional, ou seja, o exército produtivo, “daí surge uma conexão interna
entre a produção de excedente, o crescimento populacional e a urbanização” (HARVEY, 2011,
p.137).

Esse novo modo de investir para multiplicar o capital, através de obras ligadas à
empreendimentos urbanos, não é necessariamente uma novidade para o capitalismo, visto que
Napoleão III já havia se utilizado da mesma estratégia para modernizar Paris no fim do século
XIX, mas foi intensificado após a reestruturação produtiva pós-década de 1970, basta olharmos
aos exemplos da China e do Oriente Médio por exemplo (HARVEY, 2011).

O processo de reconstrução que transformou Paris na “cidade das luzes” e que funcionou
como “importante veículo de estabilização social”, foi possível graças às novas tecnologias,
bem como o surgimento de novas instituições financeiras. Todavia, terminou com uma forte
crise financeira em 1868, em guerra de Napoleão III contra Otto von Bismarck na Alemanha, e

36
com o surgimento da Comuna de Paris, “um dos maiores episódios revolucionários da história
urbana capitalista” (HARVEY, 2011, p.138).

Harvey (2011) comenta também que grande parte da mão de obra global está empregada
na construção e na manutenção de edifícios, na produção direta de espaço urbano, e um grande
volume de capital é mobilizado no desenvolvimento urbano via empréstimos de longo prazo,
gerando endividamento e tornando-se, então, epicentro de crises.

A construção de espaços, bem como a criação de uma morada segura chamada casa e
lar, tem um impacto tanto na terra quanto na acumulação do capital, e a produção de
tais lugares se torna um grande veículo para a produção e absorção do excedente
(HARVEY, 2011, p. 122).

O aumento exponencial da população mundial, como já foi mencionado, segue em


paralelo com a acumulação capitalista. Pessoas vivem, por isso habitam, ocupam um lugar,
criam espaços, e buscam condições (que são bastante variáveis de lugar para lugar) para garantir
sua reprodução. O capitalismo entende e “suporta” essas buscas através de créditos à juros altos
para todos, desde microempreendedores (antigo setor informal) e até mesmo para populações
miseráveis, que no geral, herdam “os grilhões da dívida” (HARVEY, 2011).

Para Harvey (2011) o simbolismo, as relações que os indivíduos têm com sua casa, com
seu lugar, estão em completa contradição com os “comercialismos crassos dos mercados de
terras propriedades”, e deixa em aberto então a seguinte questão: “nossas cidades são projetadas
para as pessoas ou para os lucros? ”.

No caso da América Latina pós-década de 1980, os investimentos em habitação


relacionaram-se às exigências tanto sociais, quanto das agências multilaterais internacionais,
ligadas ou não ao Banco Mundial, para combater nos países subdesenvolvidos as carências
relativas à infraestrutura de urbanização, meio ambiente e habitação, como forma de combate
à pobreza (MARICATO, 2009; DEGENSZAJN, 2006).

Algumas décadas antes, os elevados gastos com grandes obras para, por exemplo, a
integração dos mercados internos brasileiros promovida durante a Ditadura Militar, deixaram
para o Brasil e outros países latinos, as famosas “crises da dívida externa” que os sufocaram
durante a década de 1980 (HARVEY, 2011).

Durante os anos de 1990, alguns países latino-americanos como México, Argentina e o


próprio Brasil, passaram a conviver com a inserção do chamado “receituário neoliberal”, que
eram medidas austeras do ajuste fiscal para transformar estruturalmente esses países em novos

37
“membros” da rede neoliberal, adequá-los as novas “exigências” e garantir que os fluxos de
capitais para pagamento dos juros da dívida acontecessem (DEGENSZAJN, 2006).

Essas medidas, exigidas pelas organizações internacionais multilaterais através do


“Consenso de Washington”, esvaziaram o espaço público no Brasil, desacelerou o atendimento
das demandas sociais, e culminou com o agravamento do que Degenszajn (2006) chama de
“questão social” no país (MARICATO, 2009).

Segundo Degenszajn (2006), a questão social, que é a “expressão das desigualdades


sociais produzidas e reproduzidas na dinâmica contraditória das relações sociais [...] a partir
das configurações assumidas pelo trabalho e pelo Estado” nessa fase atual do capitalismo que
é globalizado e hegemônico, está agravada uma vez que os governos atuam conjuntamente com
o capital especulativo, garantindo a ele total liberdade de ação.

O que Degenszajn (2006) pensa como questão social não se confunde com problema
social, pauperização, nem com o conceito de “exclusão social”, mas uma questão multifacetada,
que envolve aspectos econômicos, de gênero, raças e etnias, e cuja análise leva a entender que
não se pode dizer que existem “excluídos” do sistema, mas que há a inclusão de modo precário,
quase que como uma segunda sociedade, muito relevante para aquela incluída de modo não
precário, já que a desigualdade é parte crucial do capitalismo contemporâneo.

Maricato (2009) pensa, de certa forma, diferente de Degenszajn (2006) no que diz
respeito à exclusão. Para a autora, durante o domínio do fordismo e do keynesianismo no
“terceiro mundo”, havia uma precária integração das periferias e havia também a desigualdade
social, mas muitas periferias, bairros ou até mesmo países, ficaram esquecidos e sem “utilidade”
sob à nova ordem.

A ação dos movimentos sociais possui em suas bases as expressões da questão social, e
é através dessas ações que essas são inseridas nas pautas políticas dos agentes governistas, é
assim que se tornam demandas. Mas a neoliberalização que tem se tornado cada vez mais
hegemônica, coloca os Estados em processo de retração de gastos sociais, sempre com o pano
de fundo da “crise fiscal”, tal como o ajuste fiscal imposto pelo FMI às economias latinas na
década de 1990, principalmente (MARICATO, 2009; DEGENSZAJN, 2006).

As novas formas de segregação e estigmatização espaciais e sociais, a escalada da


violência, a crescente presença do narcotráfico e do tráfico de armas nas favelas e nos
bairros populares das grandes cidades brasileiras, o isolamento social das elites, a
disseminação da “cultura do medo” apontam para a necessidade de aprofundamento
de estudos e pesquisas sobre os rebatimentos da presença (ou ausência) do Estado

38
nacional e das instâncias subnacionais na implementação das políticas públicas que
tenham como centralidade a (re)significação e a (re)construção do tecido social no
território urbano das grandes metrópole. (DEGENSZAJN, 2006, p. 39)

O Banco Mundial agiu através do fornecimento de empréstimos na América Latina


através do Banco Internacional para Reconstrução de Desenvolvimento (BIRD), juntamente
com outras agências multilaterais internacionais, tais como a PNUD (Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento), e a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e
o Caribe), para promover desenvolvimento econômico e social para enfrentar a pobreza no
continente (DEGENSZAJN, 2006).

Essas agências, afirma Degenszajn (2006), tiveram o papel de disseminar uma ideia
comum de que a política social é subordinada à política econômica, defendendo políticas de
ajustes estruturais, orientando para o mercado e para a própria sociedade civil (como
organizações do terceiro setor) a solução dessas questões, deixando ao Estado a exigência de
agir apenas entre os mais pobres dos mais pobres.

A transferências de bens e serviços públicos para o setor privado “apresenta-se, na visão


das agências internacionais, como saída para aliviar a crise fiscal, buscar maior racionalidade
de recursos e benefícios”, e a complementaridade entre o Estado e a iniciativa privada passa a
ser vista como “imprescindível” para a redução da pobreza (DEGENSZAJN, 2006).

A participação das agências internacionais nos países latino-americanos teve papel


determinante na questão da habitação no continente, pois integrar a população que estava à
margem do sistema, ampliar a legalização dos assentamentos humanos, paralelamente ao
incentivo do desenvolvimento sustentável, tinham de ser metas para a virada para o século XXI
nesses países (DEGENSZAJN, 2006).

Entretanto, de acordo com as exigências internacionais, esse desenvolvimento precisaria


passar pelo fortalecimento das estruturas de mercado, e a atuação do Estado seria com foco
apenas nas populações mais carentes, mais “mal inseridas”, pois seria o crescimento econômico
que faria com que essas metas se tornassem realidade (DEGENSZAJN, 2006). As ações
governamentais no Brasil que atuaram na questão habitacional e de infraestrutura contaram com
parcerias público-privadas, e os subsídios mais relevantes destinaram-se a uma pequena parcela
(como será abordado no item 4).

39
3. DO ÊXITO À CRISE: A TRAJETÓRIA DA ECONOMIA BRASILEIRA NO INÍCIO
DO SÉCULO XXI

A economia brasileira desempenhou papel de destaque entre os anos de 1950 e 1980,


figurando, no mundo, entre as que mais cresceram no período. Entretanto, o chamado “Choque
de Volker”, promovido pela Federal Reserve dos EUA em 1980, elevou drasticamente as taxas
de juros internacionais, gerando no país a crise da dívida externa que culminou com a
estagnação econômica e com um colapso inflacionário que só viria a se estabilizar com o Plano
Real em 1994 (COUTINHO, 2014).

O início de uma nova era de crescimento e de consolidação se iniciou a partir de 2004


com a redução da dívida pública, aumento do nível de reservas e, com a estabilidade da inflação,
a forte expansão do crédito e dos investimentos promoveram a dinamização do consumo e
crescimento da produção, aliados à importante redistribuição de renda e significativa redução
da pobreza (COUTINHO, 2014; TEIXEIRA; PINTO, 2012).

Entretanto, cerca de 10 anos depois no início dessa “nova era”, o país começou a
vivenciar sinais de crise econômica, social e política: queda do PIB, aumento do desemprego,
redução dos gastos governamentais, “escândalos” de corrupção envolvendo políticos e grandes
empresas nacionais, etc. A discussão a seguir vai abordar o processo de produção do
desenvolvimento, mas os autores irão mostrar que esse mesmo processo vai produzindo
também as suas próprias “barreiras”, para usar a expressão de Harvey (2008), ilustrando as
contradições do desenvolvimento capitalista na era da globalização.

3.1 Trajetória ascendente: os “nutrientes” do crescimento brasileiro

Mendonça (2013) divide o crescimento da economia nacional no século XXI em dois


ciclos expansivos: no primeiro ciclo, que compreende os anos de 2005-2009, o crescimento
decorreu de fatores "pró-mercado", aumento da renda real e mudanças legislativas, e as
intervenções governamentais foram menos intensas.

Teixeira e Pinto (2012) afirmam que o primeiro mandato do governo Lula (2003-2006)
foi pautado na estabilidade monetária, com metas para a inflação, busca de superávit primário
(saldo positivo entre receitas e despesas do governo, já descontados o pagamento com juros da
dívida) e câmbio flexível (liberdade de negociação do preço da moeda no mercado), além da

40
sustentabilidade da dívida pública, ilustrando as iniciativas “pró-mercado” citadas por
Mendonça (2013).

Para alcançar os objetivos do governo no primeiro ciclo de Mendonça (2013), a curto e


longo prazo, e também contornar a tendência inflacionária, o Banco Central passou a operar de
modo mais independente, sem uma maior subordinação estatal (TEIXEIRA; PINTO, 2012, p.
923). Dessa forma, comentam os autores, “a política fiscal com elevado superávit primário
assume o papel de redutora do risco-país, funcionando como peça chave para conquistar a
credibilidade”.

Durante esse período, a conjuntura externa era muito favorável e o país pôde acumular
resultados positivos na balança comercial: os preços das commodities obtiveram significativos
aumentos, enquanto que os preços das manufaturas e dos “bens de capital” que o país
importava, comportaram-se de forma contrária, favorecendo esse desempenho positivo
(TEIXEIRA; PINTO, 2012). O Gráfico 1 contém a síntese da balança comercial nacional em
um período de 12 anos e, através dele, observa-se um salto expressivo de exportações e
importações a partir de 2010, mas o saldo final, que determina os recursos que são “lucrados”
com o comércio exterior, usado pelo governo em investimentos, sofre uma brusca queda a partir
de 2012, ficando negativo em 2014, voltando a retomada apenas em 2015.

300.000

250.000

200.000

150.000

100.000

50.000

0
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
-50.000

Saldo Exportações Importações

Gráfico 1 – Síntese da balança comercial brasileira (exportações, importações e saldo) entre


2005 e 2016.
Fonte: https://br.advfn.com/indicadores/balanca-comercial.

No segundo ciclo expansivo citado Mendonça (2013), entre 2009 e 2012, o crescimento
esteve ligado a políticas anticíclicas adotadas pelo governo para mitigar os efeitos da crise

41
mundial de 2008, sendo mais fortes as intervenções governamentais na concessão do crédito
por parte do BNDES (TORRES FILHO; COSTA, 2012). Segundo Mendonça (2013), a
variação do crédito entre 2008 e 2012 foi de + 328% em termos reais; já entre 2010 e 2012,
86%.

Após uma atuação mais cuidadosa com a política fiscal, o segundo mandato de Lula
aumentou os investimentos públicos e, diante da crise internacional que teve início em 2008, o
governo passou a agir de forma mais flexível e expansionista em relação à política econômica,
entre 2007-2010, com intuito de fazer com que o país fosse capaz de resistir à crise e crescer
(MENDONÇA, 2013), e as exportações de commodities tiveram um papel fundamental para
viabilizar o acúmulo de reservas e reduzir a restrição macroeconômica (HITAKURA; SARTI,
2016).

Vasconcellos (2001) explica que, para promover um melhor desempenho da economia


em relação a emprego, inflação e distribuição de renda, os governos contam com alguns
“instrumentos”: a política fiscal, monetária, cambial e comercial, e a de rendas. A política fiscal,
citada anteriormente, trata-se de mecanismos para controlar arrecadação (tributos/impostos) e
despesas (controle de gastos). Caso o governo deseje expandir o crescimento e o emprego,
esclarece, então ele poderá aumentar seus gastos e reduzir a carga tributária, o que irá estimular
o consumo, elevando a demanda agregada, e assim favorecendo a economia.

Essas medidas foram adotadas, e os incentivo ao incremento da demanda agregada


(consumo das famílias em escala nacional) se deram através de investimentos públicos e
privados (da criação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) lançado em 2007, do
Programa Minha Casa Minha Vida em 2009), da ampliação do crédito e também do Programa
Bolsa Família, aliando o bom momento externo para expandir o mercado interno
(MENDONÇA, 2013; TEIXEIRA; PINTO, 2012).

Entre 2003 e 2010 o governo conseguiu um superávit primário (relação entre despesas
e receitas do governo) acumulado de mais de R$230 bilhões e assim pôde quitar a dívida com
o Fundo Monetário Internacional – FMI (TEIXEIRA; PINTO, 2012). Esse cenário, apontam os
autores, somou-se a liquidez no mercado internacional (saldo positivo na balança comercial,
devido aos elevados preços das commodities, esses por sua vez impulsionados pela franca
expansão do mercado chinês) e favoreceu o rápido desenvolvimento da economia brasileira,
que cresceu, em média, de 4% ao ano.

42
As políticas anticíclicas são aquelas derivadas da Teoria Geral de John M. Keynes,
chamadas keynesianas, em que os agentes acreditam que as expansões dos investimentos
públicos por parte do governo podem ser mais efetivas para combater os efeitos de um ciclo-
econômico (crescimento seguido de crise), ou seja, o Estado assume para si o papel de principal
promotor de desenvolvimento econômico (MOLLO, 2011).

Segundo Anderson (2016) e Cano (2012), o sucesso recente da economia brasileira foi
resultado de alguns “nutrientes”, que sintetizam o que já havia sido abordado:

1. O superciclo das commodities (elevação dos preços das matérias primas e da demanda),
protagonizado pela China, que expandiu o setor exportador brasileiro;

2. O “boom” de demanda no consumo interno, especialmente entre as camadas populares,


que foi promovido pelo aumento do salário mínimo e do poder de compra, por
programas de transferência direta de renda (Bolsa Família), além da forte injeção de
crédito que foi acompanhada de constantes reduções das taxas de juros;

3. A decisão, por parte do governo, de expandir o financiamento público ao investimento;

O Banco Nacional do Desenvolvimento Social (BNDES) desempenhou papel


fundamental na manutenção do ciclo positivo de desenvolvimento (GRÁFICO 2), através da
preservação do investimento público e privado, atuando com o governo na adoção de políticas
anticíclicas de ampliação de crédito ao consumo de bens e serviços (COUTINHO, 2014).

Gráfico 2 – Evolução do desembolso anual do BNDES com financiamentos, em milhões R$,


entre 1995 e 2016.
Fonte: BNDES. Estatísticas operacionais do sistema BNDES.
43
De acordo com a instituição, o pico dos investimentos ocorre após 2009, período de
combate à crise mundial, e enquanto durou esse pico (até 2014), as grandes empresas recebiam
cerca de 69% do que era investido, cerca de R$120bi/ano. As microempresas obtinham, no
pico, R$30bi anuais, e as pequenas e médias empresas, R$15bi. Vale ressaltar que, de acordo
com o Sebrae (2017), os pequenos negócios (micro e pequenas empresas) foram responsáveis
em 2011, por exemplo, por cerca de 27% do PIB nacional.

No que diz respeito a distribuição dos financiamentos nas unidades da federação, os


estados das regiões Sudeste (com exceção ao Espírito Santo) e Sul foram os que mais obtiveram
no período, acesso aos fundos do BNDES. Outros estados fora do eixo Centro-Sul que
conseguiram mais investimentos foram o Mato Grosso, Bahia, Ceará, Alagoas e Pará, estando
a região Norte como um todo, na posição de menor destino de financiamentos (FIGURA 2).

Figura 2 – Distribuição dos financiamentos do BNDES, por região e porte de empresa, entre
1995 e 2016.
Fonte: BNDES. Estatísticas por região, estado e porte de empresa.

Ainda sobre o papel do BNDES no financiamento do desenvolvimento econômico


brasileiro, que simboliza a atuação direta do Estado, Torres Filho e Costa (2012) destacam sua
atuação em algumas fases, caracterizando suas ações ao longo de diferentes períodos históricos:

44
 De 1952-1979, o modelo econômico era de forte intervenção estatal na
promoção do desenvolvimento industrial, e banco atuava promovendo crédito
de longo prazo à inciativa privada, participando ativamente do crescimento
macroeconômico da época;
 Nos anos de 1980, a chamada “década perdida” por conta do “choque do
petróleo” e das altas taxas de juros internacionais, a atuação do BNDES ficou
marcada por tentativas de ajustes econômicos internos e externos;
 A década de 1990 marcou a implementação do ajuste fiscal através das políticas
neoliberais, e o banco atuou na finalização de projetos em andamento, na
desestatização (Programa Nacional de Desestatização) bem como no “socorro
financeiro às empresas em crise”. E mais recentemente o autor comenta:

Como se verificou durante a crise de 2008/2009, o banco atuou tanto para sustentar o
investimento como para compensar a retração de crédito por parte do sistema
financeiro privado. Em consequência, em pouco mais de dois anos, a participação do
BNDES no crédito bancário total passou de 16% para 21% ao mesmo tempo em que
o estoque de suas operações frente ao PIB saltou de 6% para quase 10% (TORRES
FILHO; COSTA, 2012, p. 996).

Os setores da economia que mais se beneficiaram com recursos de investimentos do


BNDES entre 2008 e 2015 foram o de comércio e serviços, seguido da indústria de
transformação, da agropecuária e da indústria extrativista. A evolução de suas participações ao
longo desses anos pode ser verificada na Tabela X.

Tabela 2 – Participação, em %, dos principais setores da economia nos financiamentos


do BNDES, em 2008, 2012 e 2016.

Setor 2008 2012 2016


Comércio e 50,9 62,1 50,1
Serviços
Ind. 39,3 29,4 32,4
Transformação
Agropecuária 6,2 7,3 15,7
Ind. Extrativista 3,6 1,2 1,7
Fonte: BNDES. Estatísticas por setor e porte de empresa.

A Tabela 2 mostra, em %, que o setor da economia que mais conseguiu expandir sua
carga de investimentos do BNDES foi a Agropecuária, já que essa recebia em 2008 R$5,5bi, e
em 2016 recebeu R$13,8bi, ou seja, passando de 6,2% para 15,7% sua participação. De acordo
com o Sebrae (2017) esse setor representava, no primeiro trimestre (período de maior

45
participação do setor na economia anual) de 2008, 7,1% do PIB nacional, mas nos primeiros
trimestres dos anos de 2016 e 2017 representou, respectivamente, 6,4% e 6,8% do total da
produção nacional.

A indústria, em geral, participava com cerca de 27% do PIB em 2008, mas em 2016 e
2017 sua participação na economia caiu para 21%. O setor de serviços, entretanto, que durante
toda a primeira década do século XXI representava em torno de 62-67% da produção interna,
passa a partir de 2014 a ser responsável por mais de 70% do PIB, no segundo trimestre de 2017,
72,2% (SEBRAE, 2017).

Esses dados indicam que a economia brasileira tem se tornado, nos últimos anos, mais
dependente do setor de serviços, cada vez menos industrializada e, apesar da agropecuária ter
quase triplicado seus investimentos via BNDES entre 2008-2016, sua participação na economia
também sofreu redução. A consequência mais direta para a sociedade da ampliação do setor de
serviços na economia, que já era muito expressiva, é a relativa piora nas condições de emprego,
visto que é nesse setor onde encontram-se a maior parte dos trabalhadores part-time,
terceirizados e temporários, além dos salários e da estabilidade serem menores do que na
indústria (Antunes, 1999).

Teixeira e Pinto (2012) reiteram que a política monetária, ortodoxa e contracionista,


mantida pelo governo Lula, mesmo durante o período de expansão do mercado interno, é uma
“herança” deixada pelo governo anterior, e que essa política limitou a capacidade do Estado
manter as conquistas sociais, uma vez que robusteceu a hegemonia do setor bancário-financeiro
no país e não foi suficiente para combater o “abismo social” existente no Brasil.

Só o pagamento de juros da capitalização da dívida pública do Brasil, que depende


diretamente do nível da taxa Selic, consumiu o dobro de recursos entre 2003-2010 do que o
governo conseguiu com superávit primário (TEIXEIRA; PINTO, 2012).

3.2 Trajetória descendente: os limites do modelo de crescimento e suas consequências

A partir de 2013, o crescimento da economia brasileira começa a encolher, finalmente


alcançando a recessão em 2015. A concessão de crédito se desacelerou fortemente, assim como
os gastos do governo (MENDONÇA, 2013). A principal consequência que afetou diretamente
as famílias foi a taxa de desemprego, que cresce muito rapidamente a partir daquele ano,
chegando a quase dobrar até 2017 (GRÁFICO 2).

46
Anderson (2016) afirma que desde 2011 as matérias primas, que significavam cerca de
metade dos valores obtidos em exportações no país, com suas receitas eram usadas diretamente
em programas de desenvolvimento social do governo, sofreram bruscas quedas de preço, a citar
o petróleo cru que despencou cerca de 65%, e o minério de ferro, cerca de 70%.

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12
10
8
6
4
2
0
2012 2013 2014 2015 2016 2017

Desemprego

Gráfico 3 – Taxa de desemprego no Brasil, entre 2012 e 2017.


Fonte: IBGE. Pnad. 2017.

Esse cenário que o autor chama de “fim da bonança do comércio exterior” culminou
com declínio do consumo doméstico, com políticas de austeridade fiscal e redução de gastos
por parte do governo, estagnando novamente o crescimento econômico e o desenvolvimento
social (ANDERSON, 2016).

12
10
8
6
4
2
0
-2 2012 2013 2014 2015
-4
-6

PIB PIB per capita

Gráfico 4 – Variações (em %) do PIB nacional e do PIB per capita entre 2012 e 2015.
47
Fonte: IBGE, 2017.

O Gráfico 4 ilustra a queda do preço do minério de ferro e do petróleo, dois dos


principais produtos de exportação nacionais, que despencaram a partir de 2014, o que gerou
prejuízos às receitas nacionais. De acordo com Torres (2017), o minério de ferro é o segundo
principal produto de exportação nacional, atrás apenas da soja.

250

200

150

100

50

0
2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015

Minério (U$/t) Petróleo

Gráfico 5 – Variações dos preços do minério de ferro e do petróleo para exportação, nos
meses de janeiro dos anos de 2008 até 2015.
Fonte: INDEX MUNDI, 2017.

A expansão do crédito e do consumo, que foi anteriormente discutida, gerou um


processo inflacionário que preocupou o governo, já que no primeiro trimestre de 2013 o Índice
de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) alcançava 6%, percentual esperado para todo o ano.
O governo combate esse processo com a adoção de medidas anticonsumo (como a própria
redução de crédito citado por Mendonça), com o objetivo de controlar os preços (ANDERSON,
2016).

Uma das principais medidas foi aumentar progressivamente a taxa básica de juros
(Selic), que sofria redução contínua desde 2011, o que impactou fortemente a economia
nacional, que já viva seus primeiros momentos de crise: queda no consumo, que gera queda na
produção, que impacta nos gastos do governo, etc. (ANDERSON, 2016; MENDONÇA, 2013).

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16

14

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2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017

Selic IPCA

Gráfico 6 – Variações da Taxa Selic e do IPCA, entre 2009-2015.


Fonte: BCB, 2017.

O Gráfico 5 mostra a relação entre o aumento do Índice de Preços ao Consumidor


Amplo (IPCA), que é a medida oficial da inflação no Brasil, com o histórico da Taxa Selic. A
taxa básica de juros aumenta para controlar o consumo, e consequentemente controlar os
preços, ou seja, o ideal é haver uma correlação inversa entre eles. Em 2016 a taxa de juros
atinge seu auge no período e consegue reduzir a inflação.

Vasconcellos e Garcia (2001) definem inflação como um generalizado aumento dos


preços, de modo persistente, cujas “fontes” variam de país para país, englobando a estrutura
geral dos mercados (concorrência, oligopólio, etc.), o grau de abertura da economia ao comércio
exterior, assim como a estruturação das organizações trabalhistas (pressão sindical, por
exemplo, pode demandar maiores salários, o que, segundo os autores, pressionam também os
preços).

A estratégia de frear o consumo devida a inflação, afetou diretamente a indústria


nacional, que segundo Cunha et al. (2013) já vinha passado por um processo progressivo de
desindustrialização, ou seja, deterioração da produção e do emprego industrial, corroborando
com a informação do Sebrae (2017) de que a participação da indústria no PIB passou de 27%
para 21% entre 2008 e 2016.

Cano (2012) comenta que o desenvolvimento econômico de um país passa


necessariamente pelo aumento da produtividade industrial, para que o país seja capaz de
diversificar a produção, o emprego, e assim, as diversas estruturas sociais então podem se

49
modernizar. Segundo o autor, não se pode pensar em desenvolver-se plenamente no
capitalismo, abdicando da industrialização.

A industrialização pressiona a urbanização e consequentemente exige que os serviços,


tais como o próprio comércio, transporte, saúde, educação, etc., se diversifiquem e se
modernizem (inclusive gerando efeitos na agricultura), numa espécie de ciclo de
desenvolvimento (CANO, 2012).

Somente Brasil, México e Argentina conseguiram, com seus parques industriais,


transcender o modelo de produção de bens não duráveis ou apenas beneficiamento de matérias
primas, atingindo nos anos da década de 1980 uma participação da indústria de transformação
no PIB de 33% (CANO, 2012).

Entretanto, após a “década perdida” de 1980, os países da América Latina vivenciaram


o “ajuste fiscal” nos anos de 1990, que nada mais era que uma exigência das instituições
financeiras internacionais credoras dos latino-americanos para expandir as intervenções
neoliberais (CANO, 2012; HARVEY, 2008; DE, 2006), reduzindo drasticamente a participação
da indústria de transformação nesses países, mais grave ainda no Brasil que, em 2011, atingia
apenas 14,6% (CANO, 2012).

Antunes (1999) explica que após a reestruturação produtiva do capital que começa a
partir da crise do petróleo na década de 1970, há um processo de expansão das atividades
“improdutivas” (serviços em geral) e uma retração das atividades produtivas e industriais, em
países capitalistas desenvolvidos ou periféricos. De acordo com o autor, essa reestruturação
envolveu principalmente a desconcentração ou desterritorialização econômica do espaço físico
da produção em todo o mundo que, somada a inserção das novas tecnologias produtivas, tem
colaborado para reduzir o emprego fabril, e para expandir o desemprego estrutural e
consequentemente o trabalho precarizado.

Cano (2012, p.834) lista o que seriam os quatro principais fatores para a
“desindustrialização precoce e nociva, dando-lhe um sentido regressivo do progresso
econômico”, que a América Latina e o Brasil têm vivenciado nas duas últimas décadas,
principalmente:

1. Política de valorização do câmbio, apoiada nos altos juros, tirando a competitividade


internacional da indústria brasileira;

50
2. Abertura e desregulação comercial que se inicia no ano de 1989, com baixa nas tarifas
e outros “mecanismos protecionistas”, o que desprotegeu o país da concorrência
internacional;
3. As altas taxas de juros afastam os investimentos, uma vez que confrontadas com o lucro
da economia industrial contemporânea que é relativamente “contido”, o empresário
nacional não investe, não se moderniza, reduzindo a produtividade e obstruindo o
desenvolvimento nacional;
4. Investimento estrangeiro que, segundo o autor, aumentou em números brutos e foi
celebrado por muitos economistas, mas o que predomina são investimentos de caráter
especulativos (em títulos privados ou dívida pública) que devem ser deduzidos;
5. China e, EUA adotam medidas “agressivas” no mercado de produtos manufaturados,
fazendo crescer suas exportações, e dificultando a concorrência dos produtos nacionais.

Cano (2012, p.835) complementa:

Quanto ao investimento interno, também se observam fatos semelhantes,


predominando a alocação nos serviços, especialmente no setor financeiro, construção,
negócios imobiliários, agropecuária e mineração, sendo hoje mais reduzida a
participação na indústria de transformação.

Os investimentos em produção também foram reduzidos no país devido ao


deslocamento destes para a China, onde a mão de obra barata e o câmbio desvalorizado atraem
a produção, e como resultado, as exportações brasileiras perdem em competitividade, a
indústria nacional também, uma vez que a importação de produtos chineses de baixo custo (de
plásticos a eletrônicos) aumenta em território nacional (HITAKURA; SARTI, 2016; CANO,
2012).

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria – CNI (2015), o Índice de


Confiança do Empresário Industrial, que atingiu 68,5 numa escala de 0-100 em 2010, passou
desde então a cair, chegando a 38,5 em janeiro de 2015, menor índice desde 2007. A medida
da variação da produção industrial também indica queda no setor, especialmente para a
indústria de transformação, que em informática e eletrônicos recuou 8,1% apenas entre 2014-
2015, além de vestuário, bebidas, plásticos, veículos automotores, etc.

Segundo Hiratuka e Sarti (2016), a demanda doméstica foi capaz de absorver a produção
a ela destinada durante o período de crescimento da economia, gerando mais aumento da
produção e do emprego industrial, entretanto, após o aparecimento dos sinais da crise

51
econômica, a produção nacional perdeu competitividade e não é capaz de resistir a pressões de
produtos importados, como os chineses.

Apesar dos esforços do governo com concessões tributárias e redução de juros,


especialmente ao agronegócio e às construtoras, os investimentos não produtivos se mostraram
ser mais atrativos para os investidores, sendo o alvo principal dos investimentos privados, vide
os investimentos em bancos privados brasileiros serem muito maiores do que de empresas
extrativistas, como a Petrobras e a Vale (ANDERSON, 2016).

Este fato torna mais premente a adoção de políticas que reforcem a competitividade
estrutural da indústria brasileira, e que a tornem capaz de resistir à pressão competitiva.
Hiratuka e Sarti (2016) comentam que não somente políticas voltadas ao setor industrial devem
ser tomadas, mas que a taxa de câmbio no país é muito desfavorável à indústria, de modo que
precisa ser alterada.

Um dado que ajuda a justificar a preferência de investidores pelas aplicações financeiras


está contido no Relatório de Economia Bancária e Crédito do Banco Central (2014), revela que
o spread bancário das operações de crédito (diferença entre o que a instituição financeira paga
para adquirir o capital, e o que ela recebe com juros do cliente final) dentro do sistema
financeiro brasileiro chegaram a 21,5% para a pessoa física e 8,0% para a pessoa jurídica em
dezembro de 2014. Esse “lucro” sobre o crédito que os bancos adquirem, varia de acordo com
os riscos que envolvem as transações financeiras em diferentes países, entretanto o Brasil, uma
das 10 maiores economias do mundo, está entre os maiores spreads do mundo de acordo com
o Banco Mundial (GRÁFICO 6).

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5
0

52
Gráfico 7 – Spread bancário em alguns países “periféricos” em comparação com o Brasil, um
dos 5 maiores spreads do mundo.
Fonte: WORLD BANK, 2017.

O alto lucro das instituições financeiras sobre o crédito dificulta o acesso e o pagamento
de dívidas por parte do consumidor pessoa física, que paga mais caro, já que se entende ser uma
operação mais arriscada, e pode elevar o atraso nos pagamentos (que geram mais juros) e
também a inadimplência. Em janeiro de 2015, 57,5% das famílias brasileiras possuíam dívidas
com cheque pré-datado, cheque especial, cartão de crédito, carnês de lojas, empréstimos
pessoais, prestação de carro ou seguros (CNC, 2015). No mesmo ano, a pesquisa que avalia o
perfil do endividamento do consumidor brasileiro, revelou que 17,8% das famílias estavam com
contas atrasadas, e que 6,4% não possuíam condições de quitar essas dívidas.

Fortalecer o mercado interno foi uma das estratégias mais bem-sucedidas para que o
sucesso recente da economia brasileira fosse alcançado, a expansão do crédito expandiu o
consumo, que melhorou a atividade industrial, os salários, a renda das famílias, os
investimentos públicos e privados, enfim, o desenvolvimento econômico e social começou a
ser alcançado no país.

Entretanto, quando os primeiros sinais de crise econômica começaram a aparecer, o


mercado interno teve de ser afetado, pois a demanda estava pressionando a oferta que não foi
capaz de responder, e então o consumo das famílias precisou ser reduzido para controlar a
inflação, o que gera menos receitas para as empresas e também para o Estado, e logo em
seguida, os gastos do governo passaram a ser reduzidos, gerando um “efeito-dominó” que levou
o país a se tornar economicamente irreconhecível a partir de 2015: recessão, desemprego,
endividamento, perda do poder de compra, e todos os demais efeitos colaterais de uma crise
econômica.

Entretanto a crise econômica brasileira não veio sozinha, mas aliada a um velho
problema nacional: uma crise política. Em 2014 a Polícia Federal iniciou a chamada “Operação
Lava-Jato” para investigar esquemas de corrupção envolvendo políticos e grandes empresários
brasileiros, principalmente construtoras, e muitas delas que multiplicaram suas receitas durante
o processo de expansão da economia nacional, com grandes obras principalmente de
infraestrutura, deixando o país em situação de caos político que se arrasta até 2017.

No que diz respeito, entretanto, as crises econômicas, Amado e Caruso (2011)


argumentam que elas são reflexos naturais e inevitáveis da economia contemporânea, uma vez

53
que a globalização financeirizou a economia mundial e o sistema financeiro em si, se fragiliza
durante o ciclo ascendente, ou seja, é “endogenamente” instável. A própria natureza dos bancos
é especulativa e instável, visto que contraem recursos à vista e à longo prazo, e realizam
investimentos e empréstimos de longo prazo, debilitando o suporte econômico.

Mollo (2011), ao analisar a inerência das crises junto ao capitalismo através das óticas
Marxista e Keynesiana, encontrou na especulação e na financeirização dos mercados um fator
de risco elevado para a instabilidade econômica. A autora lembra que a liberalização cambial
(negociação livre dos preços das moedas no mercado mundial) significou uma aceleração com
os ganhos especulativos, e assim, altas taxas de juros somadas a baixos índices inflacionários,
e fez com que os investimentos em produção crescessem pouco frente às aplicações financeiras,
dando um caráter altamente especulativo e instável à economia mundial.

Segundo Chesnais (1996), apesar de hegemônico, o sistema financeiro (onde a


rentabilidade é maior) ainda depende da circulação de investimentos no sistema produtivo, e os
investimentos externos, que em teoria seriam importantes para globalizar a economia mundial
e melhorar a interdependência entro os Estados, na realidade apenas têm reforçado o poder
econômico e político dos Estados Unidos, da Europa e do Japão.

Isso ocorre porque as condições de lucro do capital dentro dos países desenvolvidos são
muito significativas, e a produção de tecnologia também é alta, assim, os países
subdesenvolvidos, exportadores de matéria prima e de produção de baixa tecnologia, estão
sempre atrás na “corrida” pelos investimentos, e as chances que possuem de garantir grandes
lucros atraírem capitais estrangeiros, passam por sacrificar principalmente a classe
trabalhadora, por exemplo (CHESNAIS, 1996).

Mollo (2011) comenta que, “atribuída à incerteza e ao neoliberalismo, é possível evitar


as crises, segundo os pós-keynesianos, com o retorno à ação reguladora do Estado o qual,
embora não possa eliminar a incerteza, irá melhor administrá-la por meio da centralização de
informações”. Mas a autora concorda com a visão marxista de que as soluções encontradas pela
intervenção estatal na melhoria das condições dos trabalhadores frente ao capital são
transitórias, e por isso ensejam possibilidades de ações mais “transformadoras”.

Harvey (2011), Costa (2009) e Antunes (1999) atribuem a atual tendência de


neoliberalização econômica, amplamente disseminada pelo mundo a partir da década de 1970,
como geradora de concentração de renda, maiores níveis de pobreza, instabilidade econômica,

54
redução progressiva dos direitos trabalhistas e dos salários, precarização do trabalho, entre
muitas outras consequências negativas para as populações, especialmente de países
subdesenvolvidos.

A neoliberalização tem sido implantada nas sociedades de todo o planeta de modo que
aprisiona o setor produtivo e o submete ao rentismo, que para Costa (2009) é como o capital se
“auto acrescenta”, expondo os Estados à lógica da “especulação financeira” e aos ciclos das
crises, pois como o mesmo autor argumentou, “se o capitalismo desenvolvesse plenamente seu
potencial produtivo, haveria uma crise global de superprodução” (COSTA, 2009, p.21).

Segundo Harvey (2011), “todo o padrão geográfico de produção, emprego e consumo


está em movimento perpétuo”, e caçada por menores custos de produção e maiores lucros do
rentismo deixam mais intensas as desigualdades sociais, a divisão internacional do trabalho, e
geram crises localizadas, uma vez que, esgotada a capacidade de lucro máximo, ou mesmo dos
recursos naturais, a produção e os investimentos podem simplesmente mudar-se, deixando para
trás o desemprego e outros efeitos negativos.

Essas crises localizadas, por sua vez, diante do atual cenário de globalização e conexão
ilimitada entre lugares podem, segundo Harvey (2011, p.136) “desencadear uma espiral fora de
controle e criar crises globais da ordem geográfica e econômica”, como ocorreu com as crises
imobiliárias da Flórida e do sudoeste dos EUA, que se tornaram globais em 2009, e que
repercutem até os dias atuais.

A globalização via neoliberalização, além do forte impacto que desempenhou no


chamado “desemprego tecnológico”, forneceu as condições para que o capitalismo
transformasse a relação espaço/tempo, intensificando a velocidade da informação,
flexibilizando e desregulamentando aquilo que no Brasil, segundo Maricato (2003) e
Degenszajn (2006), ainda não era realidade plena: o trabalho e as políticas sociais de bem-estar
humano.

Amado e Caruso (2011) estudaram a fragilidade da economia brasileira pós Plano Real
(de 1994 até 2009), e concluíram que, mesmo nos anos mais recentes, em que a economia
acumulou superávits, a movimentação dos capitais “voláteis” foi ainda mais significativa,
situação que não foi transformada após esse período. Os saldos positivos na balança comercial
se deram devido à maior participação brasileira no mercado de commodities, ou seja, de

55
matérias-primas, ilustrando a conjuntura nacional frente a divisão internacional do trabalho, ou
seja, seu papel de economia periférica.

Num contexto atual em que a palavra "crise" se remete inevitavelmente a questões


econômicas, a interação simultânea entre a inflação, a recessão e a estagnação, causadas por
estratégias econômicas internacionais, são combatidas com medidas cujos efeitos resultam em
"mal-estar social", deixando a percepção de que a "cura" é pior que a "doença" (BAUMANN;
BARDONI, 2016), assim como já foi comentado por Anderson (2016), e que faz pleno sentido
na recente realidade brasileira.

Conforme o que foi discutido pelos autores anteriormente, o Brasil resistiu à crise
internacional de 2008 graças aos mecanismos de intervenções estatais que não permitiram a
completa abertura financeira, especialmente através da ação dos bancos públicos na
manutenção da atividade econômica, criando um “colchão de proteção” frente à instabilidade
da lógica internacional de mercado, mas ainda esteve inserido na lógica da globalização, e
esteve assim suscetível, ainda que menos do que outros modelos de economia.

Para Amado e Caruso (2011), Harvey (2011), Costa (2009) e outros autores, essa
abertura “liberal” pode ser perigosa para as economias dependentes, pois estas estarão mais
suscetíveis às variações das economias internacionais, assim como ocorreu com o Brasil, que
se beneficiou da expansão da economia chinesa através da exportação de commodities, mas
quando esta também passou a desacelerar, foi afetado negativamente, perdendo capacidade de
resistir a crise do mercado interno nacional.

56
4. A RECENTE EXPANSÃO DO MERCADO IMOBILIÁRIO/HABITACIONAL
BRASILEIRO E AS CONSEQUÊNCIAS SOCIOESPACIAIS

A estratégia do governo brasileiro em expandir os investimentos e fortalecer o mercado


interno para melhorar o desempenho econômico brasileiro e superar a crise mundial de 2008
foi bem-sucedida, e o país obteve ganhos no PIB, na renda, no emprego, no próprio poder de
consumo interno da população, enfim, o país cresceu e se desenvolveu praticamente todos os
setores econômicos e sociais.
Um dos pilares do desenvolvimento econômico nacional passou pelo setor habitacional
que, com atuação determinante do Estado através de investimentos recordes para crédito na
construção civil, cresceu expressivamente, e as famílias de diferentes faixas de renda puderam
ter acesso ao financiamento habitacional, especialmente após a criação do Programa Minha
Casa Minha Vida (PMCMV), cujo foco eram famílias de baixa e média renda.
Entretanto, apesar do inegável sucesso do PMCMV e também do acesso ampliado aos
financiamentos de mercado, já que o crédito estava facilitado, esse processo não trouxe apenas
consequências positivas, mas negativas também. Os efeitos negativos foram: imóveis muito
valorizados, alugueis caros, segregação espacial e elevados custos para viver nas cidades
brasileiras, especialmente as metrópoles; o déficit habitacional que começava a ser combatido
no fim da primeira década do século XXI voltou a crescer com a crise, e o próprio setor vivencia
seus sinais de crise.
Somadas ao cenário recente de crise econômica no país, previamente abordado, essas
consequências negativas agravam ainda mais a situação da maioria das famílias brasileiras, que
está entre aquelas de baixa e média renda, e pode estar colocando em risco os ganhos obtidos,
demonstrando que as melhorias econômicas e sociais podem não ter sido conquistadas em bases
sólidas, que seriam capazes de garantir estabilidade às famílias brasileiras a longo prazo.

4.1 O contexto habitacional brasileiro: do BNH ao Minha Casa Minha Vida

Em 21 de agosto de 1964, o governo federal sancionou a Lei 4.380, e através dela


instituiu o Sistema Financeiro de Habitação (SFH), criou o Banco Nacional da Habitação
(BNH), além das Sociedades de Crédito Imobiliário e as Letras Imobiliárias (LI). A partir de
então, o crédito imobiliário passaria a estar lastreado pela captação de poupança, deixando de
estar ligada ao dispêndio de recursos fiscais (ROYER, 2011). Os bancos privados que oferecem

57
financiamento pelo SFH, contam com a captação de recursos da caderneta de poupança, e
também do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).

O SFH constituiu uma estratégia de oferta de crédito à habitação de caráter


intervencionista, com foco especialmente nas populações de renda mais baixa (as unidades não
podem exceder os 100 m² ou o valor de 200 vezes o salário mínimo vigente), e atualmente está
ligado a Caixa Econômica Federal, instituição financeira estatal (anteriormente estava ligado
ao Banco Nacional da Habitação, extinto e incorporado à Caixa em 1986).

Há também no país uma vertente de captação de recursos para crédito, de livre


negociação de mercado, que é o Sistema Financeiro Imobiliário (SFI), de foco principalmente
em empreendimentos imobiliários não-residenciais (ROYER, 2011).

Enquanto estiveram em vigor as atividades do BNH, entre 1964-1986, nos primeiros


momentos do SFH, obtiveram expressivos resultados, uma vez que foram cerca de 4 milhões
de novas casas em um período de cerca de 20 anos (BONDUKI, 2008). Entretanto, a segunda
metade do século XX marcou a transição da população rural brasileira para as cidades, e entre
1950 e 2000, a população urbana brasileira aumentou em cerca de 10 vezes.

Apesar dessas unidades e da importância do SFH na expansão da rede de saneamento


básico, que conseguiu abastecer com água cerca de 90% da população brasileira até 2000,
Bonduki (2008) afirma que isso não foi suficiente para enfrentar o problema da precária e
desordenada urbanização brasileira.

O autor reitera ainda que, a estratégia do governo para a aquisição da propriedade


privada foi via mercado, completamente desarticulada das capacidades coletivas das
comunidades, o que originou no país um processo intenso de urbanização informal, onde as
pessoas, sem apoio governamental, construíam seus assentamentos em áreas de risco, encostas,
gerando favelas, loteamentos informais, sem infraestrutura e sem acesso aos equipamentos
urbanos fornecidos pelo governo.

Segundo Bonduki (2008), com a extinção em 1986 do BNH, durante o processo de


redemocratização, o governo não se preocupou em fazer a substituição do programa do regime
militar, deixando “um vazio” de política habitacional até 2003, ano em que foi criado o
Ministério das Cidades. O autor comenta:

Entre a extinção do BNH (1986) e a criação do Ministério das Cidades (2003), o setor
do governo federal responsável pela gestão da política habitacional esteve
subordinado a sete ministérios ou estruturas administrativas diferentes, caracterizando
58
descontinuidade e ausência de estratégia para enfrentar o problema (BONDUKI,
2008, p. 76).

Durante esse “vazio” de política nacional voltada a habitação no país, explica Bonduki
(2008), especialmente naqueles municípios que estavam sob a administração petista, formas
alternativas de captação de recursos e também de construção de novas unidades habitacionais
foram colocadas em prática através de modelos de habitação social, tipo mutirões de
autoconstrução, urbanização de favelas, tudo em práticas de autogestão. Essa maior
participação das populações locais através principalmente dos movimentos de moradias, foi o
que pressionou o governo a descentralizar posteriormente para estados e municípios os
programas habitacionais, explica o autor.

Nesta fase, surgem, ao lado de intervenções tradicionais, programas que adotam


pressupostos inovadores como desenvolvimento sustentável, diversidade de
tipologias, estímulo a processos participativos e autogestionários, parceria com a
sociedade organizada, reconhecimento da cidade real, projetos integrados e a
articulação com a política urbana (BONDUKI, 2008, 78).

Segundo Bonduki (2008, p. 82), o fato de o déficit habitacional ter permanecido alto,
mesmo após algumas décadas de diferentes políticas habitacionais “evidencia o fracasso dos
programas públicos e a incapacidade dos mecanismos de mercado para o enfrentamento do
problema” e deixava ainda mais clara a urgência em estratégias de democratização do acesso à
moraria focada nas populações de mais baixa renda, parcela da população onde em que
prevalecia o déficit até 2007 (TABELA 3).

Tabela 3 – Distribuição do déficit habitacional brasileiro, por região, por renda (em
salários mínimos), em 2007.
Região Até 3 Entre 3-5 Entre 5-10 Mais de 10
Norte 89,7 6,1 3,2 1,0
Nordeste 95,9 2,7 1,0 0,4
Sudeste 86,7 7,9 4,3 1,1
Sul 84,8 10,0 4,1 1,1
Centro-Oeste 88,4 7,0 2,7 1,9
Fonte: FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2007. Elaboração Própria.

Diante desse “fracasso”, no mês de dezembro de 2009 o governo federal retoma para si
a política habitacional, através da criação do Ministério das Cidades, da Secretaria Nacional de
Habitação, no âmbito da nova Política Nacional de Habitação, e lança o Plano Nacional da
Habitação, ou PlanHab, com intuito de propor metas e ações para começar a sanar o déficit

59
habitacional, enfrentar a “grande dívida social com a questão da moradia digna em nosso país”
e também contribuir com a demanda futura por moradias (BRASIL, 2010).

No PlanHab o governo demonstra sua consciência de que o déficit habitacional no país


se consolidou por conta de um intenso processo desorganizado de urbanização, que veio
acompanhado de especulação, políticas públicas inadequadas e baixa renda familiar, e visa
estratégias não somente de acesso a moradia, mas também de melhorias em assentamentos
precários (BRASIL, 2010; BONDUKI, 2008).

A expectativa era de que, com os cenários de melhorias econômicas e sociais que o país
observava até aquele momento, os investimentos que seriam feitos através do Programa Minha
Casa Minha Vida (PMCMV) para aquisição de moradia por parte especialmente das populações
de baixa renda, e também através das demais ações do Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC), com investimentos em infraestrutura, esse déficit de habitação e condições de
urbanização poderiam começar a serem enfrentadas.

Quando lançou o PlanHab em 2009, o governo trabalhava com uma expectativa de


demanda habitacional entre os anos de 2007 e 2023 de cerca de 26 milhões de unidades,
divididos por estratos de renda, tanto no meio urbano, quanto no meio rural, conforme a figura
abaixo. Para elaborar essa projeção, o governo considerou o próprio déficit, a inadequação
urbana e também a expectativa demográfica de novas famílias.

Figura 3 – Expectativa de demanda por habitação para o Brasil, por faixa de renda e por
região, entre 2007-2023.
Fonte: BRASIL, 2010.

Através de dados fornecidos pelo PlanHab (FIGURA 4), em valores brutos, percebe-se
que o governo já previa uma demanda maior para as regiões nordeste (27,5% do total) e sudeste
(38,7% do total). Essa previsão de demanda presente no PlanHab está coerente com o déficit

60
habitacional (que será representado adiante), que na região nordeste era de cerca de 30,4% em
2010, enquanto a região sudeste possuía um déficit bruto de 38% (FUNDAÇÃO JOÃO
PINHEIRO, 2013).

No que diz respeito aos estratos de renda, percebe-se que, em famílias de renda
domiciliar de até R$1000,00 (ressaltando que a renda foi projetada em 2009, logo esses valores
de referência possivelmente seriam mais altos ao final do período projetado), ou seja, o mais
baixo estrato social, a demanda seria de 53% do total, revelando que o governo previa o foco
de suas ações em famílias de mais baixa renda, indo de encontro ao combate do déficit aonde
este era mais expressivo. Famílias com renda superior a R$4000,00 representavam para o
governo até então, apenas 6% da demanda total de habitação no país.

Um dos maiores programas habitacionais da história do Brasil, se não o maior, o


Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) foi lançado em 7 de julho de 2009 através da
Lei Federal nº 11.977, com a finalidade de “criar mecanismos de incentivo à produção e
aquisição de novas unidades habitacionais ou requalificação de imóveis urbanos e produção ou
reforma de habitações rurais” para famílias com renda mensal de até, inicialmente, R$4.650,00
(BRASIL, 2009). Entretanto, em fevereiro de 2017 o então presidente Michel Temer anunciou
a ampliação da renda limite para participação no programa para R$9.000,00 (BRASIL, 2017a).

Com a estratégia de fornecer subsídios aos beneficiários (pessoas físicas) no ato da


compra de imóveis residenciais, e com prioridade para famílias residentes em áreas de risco ou
insalubres, famílias cuja mulher é a responsável, e também famílias com membro(s)
portador(es) de deficiência física, o governo federal pretendia combater o déficit habitacional
com um programa a nível nacional, com fortes investimentos por parte do Banco Nacional do
Desenvolvimento Social (BNDES), e completamente focado em moradias para famílias de
baixa renda (BRASIL, 2009).

Para determinar os valores dos subsídios, o governo dividiu o programa em quatro faixas
de renda, sendo a III equivalente a maior renda, então com um subsídio menor. O teto limite
dos imóveis é variável de acordo com a localidade, sendo o maior em torno de R$240.000,00
para os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal (BRASIL, 2017a).

Quadro 1 – Faixas de renda e subsídios do PMCMV, em 2017.

Faixa Renda Valor subsídio (máximo)


I Até R$1.800,00 Até 90% do valor do imóvel

61
1,5 De 1.801,00 - R$2.600,00 Até R$45.000,00 (imóveis até
R$135.00,00)
II De R$2.601,00 – R$4.000,00 Até R$27.500,00
III De R$4.001,00 – R$9.000,00 Condições especiais em taxa de juros
Fonte: BRASIL, 2017b. Elaboração própria.

Ao lançar o programa, foi estabelecida uma meta de 400 mil unidades para a Faixa I,
contratadas com recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), administrado pela
Caixa Econômica Federal, em que os beneficiários pagariam prestações correspondentes a, no
máximo, 5% da renda familiar, em um período de 10 anos (JUNQUEIRA, 2015).

A Caixa analisa as propostas das construtoras, faz as contratações para executarem as


obras e fica responsável pela entrega dos imóveis, que são propriedade do FAR até que sejam
quitados (JUNQUEIRA, 2015). Até 2014, o Relatório fornecido pelo governo federal acerca
das ações do PAC, revela que a meta de contratações prevista até 2014 era de R$176bi em
investimentos, mas ela foi alcançada praticamente em dobro, com um valor final de R$341bi
(QUADRO 1).

Quadro 2 – Balanço geral do PMCMV 2014.

Moradias contratadas 3,7 milhões


Moradias entregues 1,87 milhões
Empregos diretos e indiretos 1,7 milhões
Subsídios para móveis e R$ 3,3bi para 667 mil famílias
eletrodomésticos
Urbanização de assentamentos 3.113 empreendimentos, com R$20,8bi
precários em investimentos
Investimentos R$341bi
Fonte: BRASIL, 2014. Elaboração própria.

O PMCMV, além de investir recursos para a aquisição de moradias, também investiu


em obras de infraestrutura para adequação de assentamentos precários, como em favelas,
revitalização das margens de rios, etc. Até 2014, diversas obras estavam em processo de
conclusão em todas as regiões do país (BRASIL, 2014). O 5º balanço do PAC (2015-2018)
revela que o país alcançou o número de 4,7 milhões de moradias contratadas, distribuídas entre
as regiões nacionais conforme ilustra o Gráfico 7 (BRASIL, 2017c).

62
1800000
1600000
1400000
1200000
1000000
800000
600000
400000
200000
0
Sudeste Nordeste Sul Centro-oeste Norte

Entregues Contratadas

Gráfico 8 – Situação das unidades (contratadas e entregues) pelo Minha Casa Minha Vida até
o 5º balanço do PAC (2015-2018).
Fonte: BRASIL, 2017.

Não somente os novos moradores dos conjuntos habitacionais se beneficiaram das ações
do programa, mas também as empresas envolvidas nas construções das unidades habitacionais.
Segundo o ranking da ITC (Inteligência Empresarial da Construção) elaborado em 2016, 3 das
10 maiores construtoras do país no quesito m² se desenvolveram principalmente através das
construções que executaram dentro do programa. São elas: Casa Alta (4º), Grupo Pacaembu
(5º) e a HF Engenharia (7º).

4.2 O processo recente de expansão do mercado imobiliário brasileiro

A instituição do SFI em 1997 que passou a regular o financiamento imobiliário e as


operações financeiras no mercado de capitais, além de inserir o setor imobiliário dentro deste
mercado, resultou num “clima favorável” à expansão e ao crescimento das atividades
imobiliárias no país. O SFI capta recursos no mercado de títulos para direcioná-los para o setor
habitacional, possibilitando que qualquer um possa se tornar um investidor, sem a prévia
definição de limites de investimentos, taxas, ou outras “travas” de negociações (HOYLER,
2015; ROYER, 2011).

A sanção da Lei Federal nº 10.931/2004, chamada “Lei da Afetação” também colaborou


com a melhoria da confiança dos investimentos, aumentando suas garantias, uma vez que
definiu requisitos para demanda de contratos e também comercialização de imóveis, criou
novos títulos de crédito para fomento do mercado, instituiu a alienação fiduciária para bens
imóveis, entre outros instrumentos (HOYLER, 2015; MENDONÇA, 2013).
63
Mendonça (2013) identificou alguns fatores que foram fundamentais para a expansão
do mercado imobiliário no Brasil no início do século XXI: a inflação estava controlada; a
redução da taxa de juros elevou o investimento no setor; o mercado de trabalho observou
mudanças positivas, com consequente aumento de renda da população e o acesso ao crédito foi
facilitado pelos juros mais baixos.

Hoyler (2015) corrobora com a afirmação de Mendonça (2013), afirmando que a


estabilização da economia nacional teria sido fundamental para o crescimento na captação dos
recursos para financiamentos habitacionais, bem como para o aumento da renda, do poder de
compra e do acesso ao crédito por parte dos cidadãos.

Algumas mudanças também foram essenciais institucionais para tornar mais seguros os
investimentos imobiliários para o crescimento do setor, tais como a medida provisória (MP)
2.221/2001, que reduziu o risco de compra de imóveis na planta ou do financiamento de obra.
Além dela, a MP 2.223/2004 criou as Letras de Crédito Imobiliários (LCI) e as Cédulas de
Crédito Imobiliário (CCI), ou seja, novas formas (títulos) para ampliar a captação de recursos
pelos agentes envolvidos na concessão de crédito imobiliário, evidenciando o papel do Estado
na promoção de um ambiente favorável a financeirização (MENDONÇA, 2013).

As alterações institucionais e legislativas tornaram mais seguras as operações para


emprestadores e mutuários, e os programas governamentais de obras públicas e aquisição de
imóveis para a população de baixa renda geraram a expectativa de valorização dos preços dos
imóveis (MENDONÇA, 2013).

A Lei 10.931/2004 que instituiu a alienação fiduciária ao bem imóvel (anteriormente, o


procedimento era válido apenas para bens móveis, como carros e computadores), que é a
garantia de propriedade do imóvel à instituição financeira até o pagamento final da dívida, além
de garantir que o valor incontroverso (valor devido em que não há discordância entre credor e
devedor) deverá ser quitado dentro do período do contrato, estando os valores controversos,
sujeitos a suspensão em caso de quitação do montante correspondente ao período
(MENDONÇA, 2013).

Entre 2003-2010, o crédito direcionado para a habitação obteve taxas de crescimento


anuais em torno de 19% (no caso dos bancos públicos), ou seja, acima da média geral (indústria,
crédito rural, etc.) que cresceu cerca de 12% a.a. (MENDONÇA, 2013), e a massa de

64
financiamentos habitacionais no país passou de R$29bi em 2005 para R$103bi em 2010
(BEZERRA et al, 2013).

As estatísticas do Banco Central do Brasil (BCB) revelam uma enorme expansão nos
valores dos financiamentos dentro do âmbito do Sistema Financeiro de Habitação (SFH). Em
2007, os investimentos anuais eram de cerca de R$20 bilhões, alcançando a marca de mais de
R$100 bilhões anuais em 2014, representando um aumento de cerca de 500% (GRÁFICO 8).
Esse expressivo aumento refletiu diretamente no crescimento do setor imobiliário como um
todo, no faturamento e também na geração de empregos, direta e indiretamente.

Segundo Botelho (2005), o setor imobiliário é constituído por três subsetores, sendo: a
indústria da construção civil (obras de engenharia civil); a indústria dos materiais de construção;
e por fim, as atividades imobiliárias “terciárias”, envolvendo compra, aluguel, venda,
manutenção e loteamento.

120

100

80

60

40

20

0
2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014

Financiamentos Habitacionais (em R$bi)

Gráfico 9 - Financiamentos habitacionais do Sistema Financeiro de Habitação por ano (em


R$bi) entre 2007-2014.
Fonte: BCB. Estatísticas do SFH. Elaboração própria.

De 2007 a 2011, o setor de construção civil brasileiro alcançou crescimentos anuais


superiores a 5%, com um pico de quase 15% em 2010 (GRÁFICO 9). As atividades
imobiliárias, no setor de serviços também cresceram expressivamente no período, quase sempre
acima do PIB nacional, como é possível observar através do Gráfico 4.

65
15

10

0
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015

-5

-10
Const. Civil PIB Brasil

Gráfico 10 - Crescimento do setor da construção civil (em relação ao ano anterior), em


comparação com a variação do PIB nacional, entre 2005-2015.
Fonte: CBIC. PIB Brasil e construção civil. Elaboração própria.

O Gráfico 9 ilustra o crescimento acumulado da construção civil e mostra que, durante


o período de ascensão do PIB nacional, especialmente entre 2007-2014, o setor quase sempre
alcançava índices de crescimento maiores. Nos dois momentos de recessão presentes no gráfico,
2014 e 2015, no entanto, a queda foi maior para o setor do que para o PIB.

10

0
2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
-2

-4

-6

Crescimento acumulado PIB Brasil

Gráfico 11 - Crescimento das atividades imobiliárias e aluguel, no setor de serviços, em


relação ao ano anterior, em comparação com a variação do PIB nacional entre 2005-2014.
Fonte: CBIC – PIB Brasil e construção civil.

66
No que diz respeito à empregabilidade da construção civil, a CBIC divulgou que, em
2007, 6.514.359 pessoas estavam formalmente ocupadas nessas atividades, e em 2014,
9.149.114, ou seja, um aumento de 40%. A construção civil, entretanto, frente ao setor
industrial, tem uma representatividade significativa no que diz respeito à ocupação de pessoal,
uma importância de 6,89% em 2007, e 8,67% em 2014.

O Gráfico 10 engloba atividades referentes aos serviços ligados ao setor imobiliário, tais
como as próprias imobiliárias e seus agentes, por exemplo. O crescimento do ramo, apesar de
manter-se, via de regra, em crescimento coerente em relação ao PIB nacional, durante a
recessão econômica que inicia-se a partir de 2014, mantém o rendimento geral em alta em
relação ao PIB.

Sobre a empregabilidade no setor de serviços, a CBIC mostrou que essas atividades


empregavam, em 2007, 327.586 pessoas, e em 2014, 404.926 pessoas estavam formalmente
ocupadas com atividades imobiliárias, representando um aumento de cerca de 23%. Já a
representatividade de pessoal ocupado com essas atividades frente às demais do mesmo setor,
não representou variação significativa: 0,37% em 2007 e 0,38% em 2014.x

Entretanto, as atividades imobiliárias envolvem os rendimentos com aluguéis e custos


em geral que são repassados aos consumidores e, mantendo-se em alta, podem levar um
problema: a manutenção dos preços altos pode pressionar a renda do cidadão, que têm caído
devido à recessão que afeta a economia do país desde 2015. Schreiber (2014) publicou, na
página eletrônica da BBC Brasil, uma matéria em que informa que, nas metrópoles nacionais,
os preços dos aluguéis estavam tão altos à época, que elevou o déficit habitacional em cerca de
10%.

Com relação ao faturamento, conforme havia sido abordado anteriormente, as grandes


empresas ligadas à construção civil cresceram significativamente no período, algumas
atingindo um crescimento superior a 400%, como mostra a Tabela 4.

Tabela 4 - As 10 principais construtoras do país em faturamento em 2015, e suas receitas em


2008, e 2015.
Construtora Receita 2008 (R$x1.000) Receita 2015 (R$x1.000)
Queiroz Galvão (RJ) 1.643.134 5.019.351
MRV (MG) 323.536 2.503.630
Andrade Gutierrez (MG) 2.049.455 6.272.587

67
Camargo Corrêa (SP) 1.643.134 3.210.628
Direcional (MG) - 1.658.304
Rossi (SP) 264.266 1.250.023
Racional (SP) 515.447 812.678
Gafisa (SP) 706.002 1.219.969
Construcap (SP) 348.218 1.369.103
Carioca C. Nielsen (RJ) 602.206 1.458.489
Fonte: CBIC. Maiores empresas de construção.

Segundo Mendonça (2013), o governo brasileiro participou ativamente do crescimento


do setor imobiliário, uma vez que foi o principal fomentador via direcionamento de crédito.
Entretanto, os aprofundamentos de suas medidas levaram os agentes (vendedores e
compradores) a orientarem suas decisões menos em função dos fundamentos do próprio
mercado (oferta x demanda) e mais em outros fatores, como o movimento de especulação
imobiliária que se intensificou com a expansão do crédito, o que pode ter justificado, por
exemplo, que um imóvel do Rio de Janeiro passasse a custar em 2012, em média, 73% a mais
que em 2010. O autor comenta:

A possibilidade de que a demanda por crédito imobiliário para o período mais recente
esteja menos relacionada aos fundamentos leva a preocupação de que cedo ou tarde o
equilíbrio deverá se estabelecer com consequências possivelmente adversas tais como
o aumento na inadimplência, queda no preço dos imóveis, perda de capital,
etc. (MENDONÇA, 2013, p. 459).

De fato as metrópoles brasileiras vêm sofrendo com um forte processo inflacionário,


que pode ser relacionado, tanto a expansão do próprio mercado, quanto à melhora econômica e
de infraestrutura do país, assim como também pode estar ligado à Copa do Mundo de 2014 que
foi sediada nas principais capitais do país. O Gráfico 11 mostra essa valorização de imóveis à
venda nas principais cidades brasileiras, o Índice FIPEZAP.

Conforme revela o índice, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife são as cidades que mais
sofreram com o aumento expressivo dos preços dos imóveis. Num período de apenas 6 anos,
entre 2010 e 2015, os imóveis valorizaram em mais de 100% na capital pernambucana, mais de
200% na cidade do Rio de Janeiro e quase 200% em São Paulo. As demais capitais também
tiveram aumento de preços relativamente expressivos, entretanto mais “modestos”.

68
250

200

150

100

50

0
BH RJ SP BRASÍLIA FORTALEZA RECIFE SALVADOR

TOTAL

Gráfico 12 - Inflação (em %) de preço de venda de imóveis em algumas metrópoles brasileiras,


entre 2010-2015.
Fonte: Fipe. Índice FIPEZAP. Elaboração própria.

Nas capitais sulistas não foi diferente: apenas entre 2012 e 2016, Curitiba, Florianópolis
e Porto Alegre viram seus imóveis valorizarem-se acima dos 30%, conforme o Gráfico 12. Um
ponto a ser destacado sobre o Índice FIPEZAP, é que ele passa a coletar dados a partir de 2008
em São Paulo, e em algumas cidades importantes a partir de 2012, o que dificulta a ilustração
de dados acerca de todo o período estudado, entre 2007 e 2014/2015. Porém, ainda assim são
considerados válidos, uma vez que fornecem informações relevantes acerca de um período
relativamente significativo, e a valorização dos preços também é relevante.

40

38

36

34

32

30
CURITIBA FLORIANÓPOLIS PORTO ALEGRE

Variação

Gráfico 13 - Variação (em%) dos preços dos imóveis à venda nas capitais sulistas, entre 2012-
2015.
Fonte: Fipe. Índice Fipezap.

O Gráfico 13 ilustra a variação anual dos imóveis à venda nas principais capitais
brasileiras, o que permite identificar os anos em que houve maior valorização em cada uma das

69
metrópoles, e assim, permite também a correlação com os fatos e fatores de cada uma delas,
bem como o contexto nacional.

70

60

50

40

30

20

10

0
BH RJ SP BRASÍLIA FORTALEZA RECIFE SALVADOR
-10

-20
2010 2011 2012 2013 2014 2015

Gráfico 14 - Variação anual (em%) da valorização de imóveis à venda em algumas capitais do


país, entre 2010-2015.
Fonte: FIPE. Índice Fipezap.

Se retomado o Gráfico 8, que ilustrava a evolução dos financiamentos no âmbito do


SFH e estabelecermos uma relação com o número de unidades financiadas, informação
fornecida pelo Banco Central em suas estatísticas do SFH, obteremos um custo médio por
unidade que em 2007-2008 era de cerca de R$91 mil, e em 2014-2015, alcançava mais de
R$200 mil a unidade. Isso representa uma valorização superior a 100% do custo médio da
unidade financiada pelo SFH entre 2007 e 2014, ou seja, um retrato da sobrevalorização.

A Confederação Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) também revela dados que


vão de encontro aos aumentos nos valores dos imóveis, só que desta vez no custo médio para
construção de um metro quadrado. No Gráfico 14, observa-se a variação em porcentagem do
custo do metro quadrado em cada uma das regiões brasileiras entre 2007 e 2015, com uma taxa
de valorização nacional média de 69%. Percebe-se a variação foi superior a 50% em todas as
regiões, com destaque para a região Sul, em que quase dobraram os custos da construção.

70
90 82
80
69 67 66
70 63
60 52
50
40
30
20
10
0
Brasil Sul Nordeste Sudeste Centro Oeste Norte

Gráfico 15 - Variação do custo médio do m² (em %), nacional e por região, entre 2007-2015.
Fonte: CBIC – PIB Brasil e construção civil.

Diante desse cenário de sobrevalorização, ou inflação, dos preços dos imóveis, os


financiamentos, pelo menos no âmbito do SFH não perderam “o fôlego” (GRÁFICO 8), e a
expansão não cessou. A pergunta que precisa ser feita é: por que as demandas por imóveis não
caem mesmo com expressivo aumento de preços? Claro que o aumento da renda nacional, da
renda per capita e a economia favorável justificam um incremento de demanda, já que o
processo inflacionário de quase todos os setores faz parte do próprio processo de crescimento,
mas o que se questiona é um aumento fora do comum, em especial nas metrópoles, que
extrapola por exemplo, o crescimento econômico do país, a valorização da renda per capita, ou
a valorização do salário mínimo (GRÁFICO 15).

40

30

20

10

0
PIB per capita
PIB nacional
Salário mínimo

2007-2010 2011-2014

Gráfico 16 – Variação (em %) do PIB nacional, per capita e do salário mínimo em dois
períodos: 2007-2010 e 2011-2014.
Fonte: VALOR, 2016; GUIA TRA BALHISTA, 2017.

O gráfico acima revela que quem mais se valorizou entre os elementos presentes foi o
salário mínimo, que em 2007 era de R$380,00, passando para R$724,00, o que representa uma
71
valorização nominal de cerca 68% em 8 anos. O PIB per capita e o PIB nacional da economia,
apesar de ser necessário considerar uma série de fatores para medir sua valorização real,
somadas as suas variações entre os respectivos períodos, não ultrapassam os 25%.

Por outro lado, ao somar as variações médias anuais dos preços dos imóveis à venda nas
cidades do Gráfico 13, que abrange apenas os anos entre 2010 e 2015, ou seja, apenas 6 anos,
e consequentemente dividir esse valor pelas 7 metrópoles, será obtida uma média anual de
valorização de imóveis de 106%.

Partindo do princípio de que a demanda por financiamento ou empréstimos hipotecários


existe quando não há disponibilidade suficiente de recursos para a compra à vista, Mendonça
(2013), que já havia comentado a interferência na especulação imobiliária no processo de
crescimento, muitas vezes maior que o movimento natural de oferta e demanda, abordou a
relação positiva entre preço dos imóveis e demanda por hipoteca, ou seja, quanto mais
aumentam os valores, maior seria a demanda.

Se por um lado pode-se imaginar que a valorização dos imóveis levará a uma redução
óbvia de demanda, por outro, argumenta Mendonça (2013), motiva um mutuário (recebedor do
empréstimo para a aquisição do imóvel) a revender seu bem por um valor mais alto, quitando
assim seu débito e obtendo lucro com o procedimento, por exemplo. Esse
movimento, assegura o autor, torna o investimento muito atrativo, pois traz a sensação de que
os valores se elevarão indefinidamente.

4.3 Déficit habitacional brasileiro: discussões e estratégias para enfrentamento

O déficit habitacional, citado por Schreiber (2014) como passível de aumento pela
valorização dos aluguéis, é medido pela Fundação João Pinheiro, ligada ao Ministério das
Cidades e à Secretaria Nacional de Habitação, e leva em conta quatro componentes para
caracterizar o déficit de moradia:

1. Residências precárias (improvisados e/ou rústicos);


2. Coabitação familiar (soma de cômodos e de famílias secundárias que possuem
desejo de mudar-se para sua própria residência);
3. Alto custo com aluguel na área urbana (quando o valor mensal da locação excede
30% da renda familiar);
4. Adensamento excessivo de domicílios alugados (quando o número de pessoas
convivendo, por dormitório, em residências alugadas é maior que três).

72
Os componentes são calculados de forma sequencial, na qual a verificação de um
critério está condicionada à não ocorrência dos critérios anteriores. A forma de cálculo
garante que não há dupla contagem de domicílios, exceto pela coexistência de algum
dos critérios e uma ou mais famílias conviventes secundárias (FUNDAÇÃO, 2013).

O estudo da Fundação João Pinheiro calcula o déficit total e o déficit relativo, uma vez
que leva em conta as particularidades demográficas de cada região do país. De acordo com o
relatório do déficit total ao ano de 2010, o mesmo encontrava-se em 6.490 milhões de unidades
habitacionais. No que diz respeito aos valores totais, o maior déficit concentrava-se na região
Sudeste (38%), sendo que mais da metade desse percentual, cerca de 1,495 milhões de unidade,
está presente apenas no estado de São Paulo.

Tabela 5 – Déficit habitacional, urbano e rural, total e relativo, por região, em 2010.

Região Déficit Total Déficit Relativo


Norte 823.442 20,6
Nordeste 2.111.517 14,1
Sudeste 2.674.428 10,6
Sul 770.749 8,7
Centro-Oeste 560.555 12,9
BRASIL 6.940.691 -
Fonte: FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2013.

Os gráficos 16 e 17 ilustram a evolução do déficit habitacional, total e relativo


respectivamente, nas cinco regiões brasileiras entre 2007 e 2014. As disparidades regionais são
percebidas com mais fidelidade no Gráfico 10, visto que nele, a metodologia foi ponderar o
déficit habitacional total pelo número de domicílios pesquisados, deixando os dados mais
fidedignos, ajustados as diferenças demográficas (o Sudeste, com maior déficit total, possui
também a maior população).

73
7000000

6000000

5000000

4000000

3000000

2000000

1000000

0
Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Brasil

2007 2010 2014

Gráfico 17 - Déficit habitacional (total), por região, em 2007 e 2014.


Fonte: CBIC – Déficit habitacional no Brasil.

25

20

15

10

0
Norte Nordeste Sudeste Centro-Oeste Sul

2007 2010 2014

Gráfico 18 – Déficit habitacional relativo, por região, em 2007, 2010 e 2014.


Fonte: FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO.

Apesar do déficit habitacional relativo, aquele ponderado pelo número de domicílios e


que mais reflete a realidade, ser maior nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a
distribuição dos financiamentos do Sistema Financeiro de Habitação é desigual ao contrário: a
maior parte desse capital investido, entre 2007 e 2014, foi para a região Sudeste, em seguida, a
Sul (FIGURA 4).

Esse fato pode se justificar em números absolutos de compras de imóveis, uma vez que
a população da região é a maior do país, assim como pode ser relacionada a própria participação

74
da região na economia, ou também no valor dos imóveis financiados, mais altos. Entretanto, a
disparidade da aquisição de imóveis entre as regiões é muito significativa, o que pode ser
justificada também pela diferença no poder aquisitivo das populações entre as diferentes
regiões. Maricato (2009) afirma que apenas 30% da população brasileira consegue adquirir
imóveis via mercado, sem subsídios, pode-se crer que as regiões mais desenvolvidas
concentrem esse poder, e por isso atraiam mais investimentos, mais crédito.

Em números absolutos, o déficit habitacional total da região Sudeste é cerca 50% maior
do que o da região Nordeste, enquanto os valores de financiamentos obtidos para habitação
possuem uma diferença entre elas superior a 250% (FIGURA 5). Em relação a região Norte, a
disparidade de déficit habitacional total é pouco mais de duas vezes maior no Sudeste, enquanto
o déficit habitacional relativo na região Norte é duas vezes maior, porém, a região Sudeste
adquiriu seis vezes mais financiamentos. A região Sul, que possui o menor déficit habitacional
relativo, e um valor absoluto cerca de duas vezes menor que o Nordeste, obteve 14% dos
financiamentos, enquanto os nordestinos, 12%.

Figura 4 – Distribuição dos financiamentos do SFH entre 2007-2014.


Fonte: SFH. Dados estatísticos. Banco Central do Brasil. Elaboração própria.

Sob a lógica da participação proporcional das regiões na economia nacional, foi


elaborado o Gráfico 11, que relaciona justamente essa participação em relação ao PIB, entre
2007 e 2014, com a participação na obtenção de financiamentos através do SFH no mesmo
período. Todas as regiões mostraram obter uma taxa menor de financiamentos do que a de
75
participação na economia nacional, exceto pelo Sudeste, que adquiriu mais financiamentos em
relação a sua participação no PIB.

70
60
50
40
30
20
10
0
Norte Nordeste Centro-Oeste Sul Sudeste

Participação do PIB (%) % Financiamentos 2007-2014

Gráfico 19 - Participação média (em %) no PIB nacional, por região, em comparação com a
proporção dos financiamentos do SFH, entre 2007-2014.
Fonte: IBGE. Contas regionais do Brasil.

Conforme mostram as Séries Estatísticas do IBGE, a região sudeste, que concentra as


principais metrópoles brasileiras, é a mais urbanizada do país (92% em 10), e as regiões Norte
e Nordeste, as menos urbanizadas (73% em ambas). Isso também pode justificar a maior
participação dos investimentos em relação a participação dessas regiões no PIB, bem como a
maior valorização imobiliária nessas metrópoles, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro.

4.4 Endividamento, Déficit Habitacional e estratégias

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), entre


2010 e 2014 o tipo de dívidas que mais cresceu foi o financiamento de imóveis, que passou de
3,2% para 7,8%, ou seja, um aumento de 143% (em 2016 esse percentual já atingia 8%).

Tabela 6 – Evolução das principais dívidas dos brasileiros entre 2010-2014.

Tipo 2010 2011 2012 2013 2014


C. Crédito 70,9 72,7 73,6 75,2 75,3

Carnês 25 22 19,8 18,7 17


Fin. Carro 10,3 10 11,5 12,2 13,8
Fin. Casa 3,2 3,5 4,5 6,1 7,8

76
Crédito 11,3 10,8 11,3 10,5 9,5
Pessoal

Fonte: CNC, 2016. Elaboração própria.

Apesar do financiamento com imóveis ser o tipo de dívida que mais cresceu entre os
brasileiros, o que também ilustra que a estratégia de expansão do mercado estava acontecendo,
é interessante notar que a mesma pesquisa revela que, no período atual, entre 2014-2016, quem
mais possui dívidas com financiamentos são indivíduos que possuem renda familiar mensal
superior a 10 salários mínimos.

Em pesquisas mensais realizadas entre janeiro de 2014 e dezembro de 2015, a média


anual de entrevistados que disseram possuir dívida com financiamento habitacional e que
possuíam renda mensal de até 10 salários mínimos era de 5,31% em 2014 e 6,19% em 2015.
Em contrapartida, entre aqueles entrevistados com renda superior a 10 salários, foram 16,68%
em 2014 e 19,37% em 2015.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2015, cerca
de 18% das residências brasileiras são alugadas, sendo as regiões Centro-Oeste (23,7%) e
Sudeste (19,5%) aquelas com maior proporção de domicílios locados. A mesma pesquisa
mostra que 74,8% dos domicílios em 2015 eram próprios, sendo 69,9% destes quitados, e
apenas 4,9% ainda estavam sendo adquiridos Além de que cerca de 7,1% tratavam-se de
domicílios cedidos.

Além das condições precárias dos domicílios que permanecem em altos níveis mesmo
após alguns anos dos programas governamentais para sanar o déficit habitacional, outra questão
que traz preocupação são os alugueis. Como tratado anteriormente, são quase 20% das famílias
vivendo em imóveis alugados, assim, a inflação dos imóveis acima do “normal” pode ter
afetado diretamente essas famílias, já que a pressão nos preços não incide apenas sobre o preço
de venda, mas também sobre os aluguéis.

Segundo a Fundação João Pinheiro (2016), o ônus excessivo com aluguel, um dos
componentes do déficit habitacional que é relativo a famílias que dispendem mais de 30% de
seus rendimentos mensais com as parcelas da locação, representava em 2014 cerca de 48% do
déficit total. Ou seja, quase metade de uma das questões sociais mais importantes do país existe
por conta de comprometimento acima do adequado com aluguel.

77
De acordo com o IBGE (2016), a ocorrência de ônus excessivo com aluguel apresentava
queda entre 2005 e 2008, mas passa a uma tendência de elevação a partir de 2009. O
comprometimento excessivo com aluguel faz com que as pessoas deixem de atendar outras
necessidades, pois sua condição econômica é prejudicada. Em um trecho do documento, há a
síntese:

Os indicadores analisados ao longo deste capítulo indicam que, nos 10 anos entre 2005
e 2015, o Brasil logrou avançar nas condições de moradia, serviços domiciliares e
posse domiciliar de bens permanentes, em ritmo mais veloz no caso de alguns
indicadores, mais lento no caso de outros. O contrário ocorreu com a acessibilidade
econômica da moradia, como indica o crescimento das situações de ônus excessivo
com aluguel. Destaca-se também que permanecem, nesses indicadores, importantes
desigualdades: entre as Grandes Regiões, entre as áreas urbanas e rurais, entre brancos
e pretos ou pardos e entre homens e mulheres (IBGE, 2016, p. 109).

De acordo com dados fornecidos pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas


(FIPE) através do Índice FipeZap, os alugueis nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, entre
2008 e 2017 se valorizaram respectivamente 91,24% e 90,78%. Para as demais capitais
nacionais, o instituto passa a calcular as variações dos preços dos alugueis a partir apenas de
2014, último ano da grande fase de expansão do mercado imobiliário.

Entre janeiro de 2017 e outubro de 2017, as variações dos preços dos alugueis foram as
seguintes em algumas capitais e importantes cidades: Brasília (8,55%), Curitiba (1,54%), Porto
Alegre (-0,45%), Salvador (-2,07), Santos (5,72%), Campinas (-2,09%) e São Bernardo do
Campo (5,78%). Apenas entre janeiro de 2016 e outubro 2017: Belo Horizonte (-0,24%),
Florianópolis (2,63%), Fortaleza (-1,36%), Goiânia (-2,37%), Niterói (-5,26%), Recife
(2,25%).

O que estes dados informam é que, nas principais metrópoles do país, os alugueis quase
dobraram num período de 10 anos e, apesar do índice tratar-se apenas de São Paulo e Rio de
Janeiro, é possível imaginar que essa valorização tenha atingido as demais capitais, talvez de
forma mais “modesta”, mas assim como os preços de venda, acima da valorização do salário
mínimo, por exemplo.

Há uma tendência de queda nos alugueis em todas essas cidades, especialmente entre
2015 e 2016, mas apenas em Niterói a queda dos valores é acentuada, e em algumas cidades
como Florianópolis, Brasília e Santos os alugueis já voltaram a se valorizar, o que pode ser
resultado das expectativas de recuperação da economia nacional, e que pode refletir nas demais
capitais num futuro próximo.

78
Em 2016, a chamada “inflação do aluguel” que é medida através do Índice Geral de
Preços do Mercado (IGP-M) obteve uma alta acumulada de 7%, sendo que em 2015, havia
acumulado 10,54% (PORTAL BRASIL, 2017). Assim, considerando que a renda e o poder de
compra dos brasileiros estão em franco declínio desde 2015, a preocupação com o ônus
excessivo com aluguel é válida, já que ele pode, como está abordado na síntese do IBGE (2016),
prejudicar o atendimento de outras necessidades das famílias, assim como abordado por
Schreiber (2016), por Lopes (2017) e também por Máximo (2017), elevar novamente o déficit
habitacional.

Máximo (2017), através de dados da própria Fundação João Pinheiro, revela que esse
déficit já se elevou com a recessão, que pressionou os gastos com alugueis (3,8 milhões de
moradias com ônus excessivo), reduziu as ações do PMCMV, e como resultado, mostra Lopes
(2017), agora são 7,7 milhões de unidades que compõem o déficit habitacional brasileiro, que
havia ficado em torno dos 5-6 milhões na década anterior.

Outro dado importante, obtido agora através do Censo de 2010, realizado pelo IBGE, e
que deve ser abordado com preocupação, refere-se a qualidade e adequação das moradias no
período, que afeta diretamente no déficit habitacional. Essa adequação, medida através da
presença de abastecimento de água por rede geral, esgotamento sanitário por rede geral ou fossa
séptica, coletas de lixo direta ou indireta, e também a condição de até dois moradores por
dormitório, não foi percebida de modo satisfatório em nenhuma das regiões nacionais,
conforme a tabela abaixo.

Tabela 7 – Proporção de domicílios adequados nas cinco regiões brasileiras de acordo


com o Censo de 2010
REGIÃO DOMICÍLIOS ADEQUADOS
NORTE 16,3
NORDESTE 35,9
SUDESTE 68,9
SUL 59,35
CENTRO-OESTE 37,7
Fonte: IBGE. Censo 2010.

A completa inadequação dos domicílios é dada quando o mesmo não satisfaz nenhuma
das três condições expostas anteriormente. A precariedade das residências, que prevalece

79
expressivamente nas residências de famílias de baixa renda, é uma das condições para a
caracterização de déficit habitacional.

Apesar do alto índice de moradias não-adequadas nas regiões, o déficit habitacional não
reflete em números equivalentes essa realidade, o que leva a hipótese de que muitos dos
domicílios estão em condição de subadequação, ou seja, atende pelo menos uma das condições,
e assim não entram nas estatísticas do déficit. A Tabela 8 traz as condições de atendimentos dos
serviços básicos nas grandes regiões do país, e revela que ainda existem muitos desafios a serem
enfrentados pelo país no que diz respeito à melhorias nas condições de habitação da população,
não somente a construção de novas unidades, mas a implantação universal de saneamento
básico adequado, para assim voltar a combater o déficit habitacional.

Tabela 8 – Condição de atendimento de serviços básicos (em %) em domicílios


particulares permanentes, por região, em 2015.
Região Rede água Rede esgoto Coleta lixo Iluminação pub.

Norte 64,0 18,3 81,5 97


Nordeste 79,9 31,7 79,23 99
Sudeste 89,9 81,8 94,75 100
Sul 87,8 47,8 94,2 100
C. Oeste 86,4 47,5 91,65 99
Fonte: IBGE. PNAD 2015. Elaboração própria.

Ribeiro et al. (2015) utilizaram-se de um estudo elaborado pela Fundação João Pinheiro
em parceria com o Ministério das Cidades para caracterizar o déficit habitacional municipal em
Minas Gerais. Segundo os autores, o estado possui o segundo maior déficit absoluto da região
Sudeste, sendo a coabitação e o ônus excessivo com aluguel são, de longe, as principais causas
do déficit no estado, assim como no país em geral.

O déficit habitacional total é geralmente maior em áreas mais populosas grandes cidades
e regiões metropolitanas (assim como o ônus excessivo com aluguéis), como Belo Horizonte e
Uberlândia, por exemplo. Entretanto, assim como no quadro nacional, o déficit relativo, que
revela a proporção do déficit pela população, as maiores taxas deslocam-se principalmente para
as regiões mais carentes do estado, como a norte (RIBEIRO et al, 2015).

As grandes cidades, entretanto, permanecem com altos níveis em déficit relativo, o que
pode ser justificado pelo modelo de ocupação dessas cidades no país, em que a ocupação ilegal
e precária, a grande valorização dos preços de venda dos imóveis e também os altos aluguéis,
80
fazem com que as classes mais populares vivenciem grandes dificuldades de habitar em
metrópoles e grandes cidades.

Por todas as informações e dados que foram abordados, é importante frisar que os
esforços para combater o déficit habitacional no país são muito grandes, e os resultados não são
satisfatórios mesmo assim. Em contrapartida, em apenas 2 anos de recessão, em números
absolutos, os ganhos com expansão de moradias e de urbanização são perdidos por altos valores
de aluguéis, ou seja, parece ser muito mais fácil perder do que vencer a batalha contra a histórica
questão habitacional no país.

Os ganhos tanto com os programas governamentais para habitação de interesse social


(como os subsídios para principalmente a Faixa 1 do PMCMV), quanto pelos próprios
incentivos governamentais para uma expansão do mercado de imóveis (habitação de mercado),
durante o momento de recessão, revelam também muitos prejuízos, isso porque grande parte
dessa democratização da habitação no país se deu via mercado, que deixou para trás uma alta
inflação que atinge vendas e alugueis, e que beneficia apenas uma pequena parte da população,
a proprietária e rentista.

No que diz respeito aos ganhos sociais, ainda há muito a se pensar e repensar, corrigir
os erros dos modelos adotados e ressaltar os sucessos, para que as camadas populares possam
sim compartilhar dos ganhos dos períodos de expansão, mas que ela não pague o maior preço
em períodos de recessão.

4.5 Estudos de experiências do MCMV: conquistas e desafios

Neste tópico, serão apresentados estudos de diferentes autores, em diferentes


localidades do país, que estudaram empreendimentos do PMCMV e procuraram trazer
conclusões acerca das conquistas sociais do programa, mas também desafios, nos âmbitos dos
padrões de localização dos empreendimentos, da segregação socioespacial, entre outras
questões, além de considerações feitas por Ermínia Maricato, uma das principais pesquisadoras
da questão no país, acerca da política de expansão habitacional da última década.

Almeida e Melchiors (2017) afirmam através de seus estudos no município de Porto


Alegre, que se evidenciou o processo de “concentração fundiária e especulativa” no âmbito do
PMCMV e de seus empreendimentos. As autoras revelam que as moradias estavam localizadas
em áreas periféricas, e que as empresas privadas participantes do processo eram poucas,
notabilizando a concentração também do capital envolvido.

81
As autoras acreditam que o modelo de democratização da habitação seguido pelo Brasil,
principalmente a partir do lançamento do Programa Minha Casa Minha Vida em 2009, segue a
tendência latino-americana de produção em massa e “subsídios diretos à demanda”, com uma
ação que é orientada pelo próprio mercado, papel limitado do poder público municipal, o que
para elas não favorece a produção de cidades mais equitativas (função cabível ao Estado),
apenas maior oportunidade para acumulação capitalista (ALMEIDA; MELCHIORS, 2017).

No que diz respeito à periferização, argumentam Almeida e Melchiors (2017), ela


resulta na segregação dos moradores, que passam a estar mais longe dos equipamentos urbanos,
lazer, consumo e trabalho, elevando a necessidade de longos deslocamentos diários, mas
também é impactante no que diz respeito à necessidade de criação, por parte do governo
municipal, de infraestrutura em lugares cada vez mais afastados das áreas centrais ou mesmo
da contiguidade urbana, implicando custos e também deixando os chamados “vazios” dentro
das cidades: terrenos, lotes, casas desocupadas, etc.

Soares et al. (2013) estudaram empreendimentos do PMCMV em Uberaba (MG), e


encontraram questões semelhantes à de Almeida e Melchiors (2017). Os empreendimentos
estavam localizados em áreas muito afastadas das áreas centrais, fora (apesar de próximos) das
ZEIS (Zonas Especiais de Interesse Social) que são determinadas pelo Plano Diretor. Os autores
comentam:

Diante da decisão do governo federal em priorizar o mercado privado de habitação, o


poder público municipal passou a ter um papel praticamente nulo no que diz respeito
à decisão sobre localização da habitação de interesse social, mesmo quando na
legislação urbanística há instrumentos com potencial a orientar a localização
adequada da moradia, como é o caso das ZEIS (SOARES et al., 2013, p. 130).

O governo deixou a cargo das construtoras a localização dos empreendimentos, devendo


estes apenas estarem contíguos à malha urbana, e isso gerou no município mineiro, uma
concentração de conjuntos habitacionais próximos entre si, em áreas periféricas, impactando
num adensamento que excede a capacidade da região em atender a demanda por serviços e
equipamentos urbanos básicos, além de gerar um espaço estigmatizado de pobreza e violência
(SOARES et al., 2013).

Klintowitz e Rufino (2014), também estudaram a inserção dos empreendimentos do


PMCMV, agora na Região Metropolitana da Baixada Santista (RMBS). Segundo as autoras, a
faixa de renda 1 foi a que mais teve unidades construídas, cerca de 80% do total. Essa diferença
é construída na primeira fase do programa, até 2011, em que são construídos também 80% por

82
empreendimentos totais até 2014, e visto que na segunda fase, entre 2012 e 2014, as construções
por faixa de renda se equipararam.

No que diz respeito a localização das moradias, nas áreas mais periféricas a sul (Peruíbe,
Itanhém, etc.), de “terrenos mais baratos e de grandes dimensões” é onde concentram os
maiores empreendimentos, principalmente os da Faixa 1, enquanto os das Faixas 2 e 3
localizavam-se em áreas mais próximas de Santos, São Vicente e Bertioga (KLINTOWITZ;
RUFINO, 2014). As autoras comentam:

A disponibilidade e preço da terra urbana bem como as facilidades oferecidas aos


empreendedores, como incentivos tributários e flexibilidade nos instrumentos de
planejamento são fatores que ajudam a explicar a concentração da produção de faixa
1 nos municípios periféricos (KLINTOWITZ; RUFINO, 2014, p. 126).

A lógica especulativa que orienta as construções do programa foi cirúrgica na RMBS,


deixando de lado as demandas do déficit habitacional. Klintowitz e Rufino (2014) revelam que
os municípios com maior déficit foram os menos atendidos com unidades habitacionais do
PMCMV, enquanto o contrário também foi verdadeiro. As autoras explicam que é
compreensível que as áreas mais populosas possuem maior disputa por acesso à terra e à
moradia, mas o processo de distribuição das unidades não é adequado, pois a lógica é apenas a
do mercado, e não a das pessoas que precisam residir nas regiões de maiores oportunidades
econômicas.

A consequência trazida pelas autoras é a percepção de 88% dos moradores desses


conjuntos habitacionais mais periferizados, de que no que diz respeito a serviços básicos como
transporte e acesso à cidade, as condições nesses conjuntos são inferiores aquelas que eles
tinham no domicílio anterior, ficando a grande melhoria apenas a saída das áreas de risco
((KLINTOWITZ; RUFINO, 2014).

Em estudos sobre do padrão de inserção dos empreendimentos do PMCMV nas cidades


de São Paulo e Campinas, Rolnik et al. (2015) entenderam que, mesmo ainda reforçando a
periferização das moradias populares, as áreas de localização dessas unidades ainda estão
contíguas à malha urbana, e as condições de isolamento, desigualdade socioespacial e falta de
infraestrutura não são as mesmas que se observava nas periferias da segunda metade do século
XX.

Entretanto, Rolnik e seus colaboradores não deixaram de abordar que a lógica


especulativa está presente no funcionamento do programa, de modo a garantir rentabilidade ao
capital:
83
[...] verificou-se que a sistemática do programa, atribuindo um protagonismo na
concepção das operações às construtoras privadas, que geralmente se incumbem da
elaboração de projetos e da escolha de terrenos, incentivou a proliferação de grandes
conjuntos em lugares onde o custo da terra é o mais baixo possível – uma condição
fundamental para a rentabilidade das operações –, reiterando um padrão histórico de
ocupação do território onde o assentamento da população pobre é feito
prioritariamente em periferias precárias e mal equipadas (ROLNIK et al., 2015, p.128)

Silva e Andrade (2014) estudaram uma unidade do PMCMV no município de Viçosa-


MG, e as condições de alocação do empreendimento não são diferentes. Segundo os autores, a
unidade está localizada fora das ZEIS demarcadas pelo Plano Diretor municipal, e também em
sentido oposto ao “vetor de crescimento” do município.

O conjunto habitacional “Coelha” é destinado à famílias com renda entre 0 e 3 salários


mínimos, e sua localização é desprivilegiada não somente pela distância entre o conjunto e as
áreas próximas ao centro urbano, mas também porque encontra-se em região muito mais baixa
(em altitude), o que dificulta o acesso à pé, além de possuir também características rurais
(SILVA; ANDRADE, 2014).

Os vazios urbanos característicos do modo de ocupação das cidades brasileiras


(MARICATO, 2009) também está presente em Viçosa-MG, e são os retratos da especulação
imobiliária em terrenos de áreas mais valorizadas, fator que é determinante para a localização
afastada dos empreendimentos do PMCMV. As consequências para quem habita esses
conjuntos são, principalmente, as dificuldades de acessar os serviços e a infraestrutura presente
nas cidades, como escolas, creches, oportunidades de trabalho e lazer, praças, sedes de
instituições, bancos, enfim, essas populações estarão com acesso limitado a sua própria cidade,
até que ela cresça até essas áreas (SILVA; ANDRADE, 2014).

Pequeno e Rosa (2015), estudaram o PMCMV na região metropolitana de Fortaleza –


CE e encontraram os mesmos problemas quanto à localização dos conjuntos, em áreas afastadas
e desprovidas de adequada infraestrutura urbana. Além disso, os autores afirmam que os lotes
eram menores do que aqueles preestabelecidos em projeto, havia nos empreendimentos, tantos
das Faixas 1, quando das Faixas 2 e 3, alta densidade de moradias, o que para os autores é fator
que prejudica as relações sociais.

Apesar dos problemas, o programa conseguiu fornecer moradias para pessoas que
haviam ficado desabrigadas por conta de habitações ilegais próximas aos trilhos férreos dos
trens, o que é extremamente positivo para essas famílias (PEQUENO; ROSA, 2015).
Entretanto, ainda assim mantém-se a necessidade de repensar a localização muito periférica e
os tamanhos dos lotes e apartamentos, dessas moradias, pois isso gera gastos extras para os
84
governos, e ganhos extras para as empresas, que conseguem reduzir ao máximo os custos,
ampliando os lucros.

Para Maricato (2003), somente investimentos não irão colaborar positivamente para a
superação dos problemas de habitação no país, especialmente nas metrópoles, e afirma:

A democratização da produção de novas moradias e do acesso à moradia


legal e à cidade com todos seus serviços e infraestrutura exige a superação de
dois grandes obstáculos – terra urbanizada e financiamento – que, durante toda a
história da urbanização brasileira, foram insumos proibidos para a maior parte da
população (MARICATO, 2003, p. 163).

O que Maricato (2003) se refere como “terra urbanizada” está diretamente ligado com
o “direito à cidade”. A autora argumenta, não somente nesse, mas em outros trabalhos, que a
qualidade das ocupações populares no Brasil, quando não legalizadas e sem investimentos
estatais, são localizadas em áreas de não interesse imobiliário, longínquas e sem infraestrutura,
dificultando o acesso das populações aos serviços e equipamentos oferecidos pelo poder público
e privado nas áreas de interesse do capital imobiliário.

Em 2013, a TV Carta, através do seu canal do Youtube, o “CartaPlay”, publicou uma


entrevista gravada com a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade
de São Paulo (FAUUSP), Ermínia Maricato, que possui há décadas, participação ativa na
formulação, na proposição e na crítica de políticas urbanas, da “reforma urbana”, especialmente
no contexto da metrópole paulistana.

O conteúdo da entrevista traz à tona uma preocupação da autora que, segundo ela, se
materializa com as manifestações de junho de 2013 que tomou as ruas, inicialmente da cidade
de São Paulo, e em seguida, das demais capitais nacionais: as “melhorias econômicas” que
foram alcançadas especialmente após 2003, não resultaram em melhora na qualidade urbana
das cidades brasileiras, mas o contrário, trouxe piora em questões, principalmente, de
especulação imobiliária e de mobilidade urbana.

Em um trecho da entrevista, Maricato comenta que:

Quando o investimento retorna a partir de PAC, principalmente, a partir de Minha


Casa Minha Vida, com essa visão neodesenvolvementista, desonerando os
automóveis, isso veio contra a cidade, não veio a favor. Porque as cidades não estavam
suficientemente dominadas e controladas, especialmente no que se refere à
especulação sobre a terra e sobre os imóveis [...]

Maricato aponta para um tripé de poder dentro das cidades: a política baseada nos
automóveis, as grandes empreiteiras da construção “pesada” e o capital imobiliário. Segundo a
professora, essas são as três forças que dirigem as cidades, deixando de lado os interesses
85
públicos. No que diz respeito aos automóveis, por exemplo, a professora argumenta que o
acesso facilitado aos veículos não veio em um momento em que as cidades suportassem o fluxo,
prejudicando a mobilidade, e ainda, paralelamente, ocorria o colapso do transporte público nas
grandes cidades brasileiras, que foi a gênese das manifestações de junho de 2013.

Ainda na entrevista, Maricato comenta que o avanço do capital imobiliário, por


exemplo, na cidade do Rio de Janeiro (especialmente por conta dos megaeventos Copa de 2014
e Olimpíadas de 2016), causou remoções em massa, como as 10 mil famílias que foram levadas
para mais de 70 km de distância de suas localizações originais, através do Minha Casa Minha
Vida, ou seja, “ampliando” a fronteira da periferia, atingindo áreas de proteção de mananciais,
tudo devido à supervalorização da terra urbana no que ela chama de “clusters importantes”.

A forma que os países capitalistas têm encontrado de promover o acesso à propriedade


(moradia) a seus cidadãos, tem sido a oferta de crédito imobiliário, geralmente a juros altos,
mas longos prazos. Leite (2015) alerta, entretanto, que a liberação desregulada de crédito à
população de baixa renda, pode sair do âmbito da inclusão social e gerar um problema grave: o
endividamento.

Neste contexto, a política habitacional deve, longe de se limitar ao papel regulatório


do mercado de crédito, reincorporar o conflito na estruturação do sistema de crédito,
reconhecer os conflitos distributivos e socorrer de maneira desigual os grupos de
menor renda. Certamente a alocação eficiente de recursos tem parcela de
importância na implementação e operação cotidiana dos programas, mas é estéril
enquanto centro (core) de uma formulação de política que pretenda universalizar
direitos. Todo o processo urbano, a questão locacional da moradia, a questão
fundiária, a urbanização de áreas degradadas, a diversidade do atendimento
habitacional e do acesso à moradia digna devem ser tratados de forma integrada,
reconhecendo os interesses em disputa e arbitrando os ‘ganhadores’ da política nos
termos da Constituição (ROYER, 2011, p. 13).

Dessa forma, fica claro que, os mecanismos governamentais de expansão do acesso à


compra da casa própria são de extrema importância, visto que a questão habitacional no Brasil
é secular, grave em grandes cidades, mas cujas soluções precisam ser pensadas um tanto quanto
longe do mercado, que envolvam mais iniciativas comunitárias, maior regulação estatal frente
é especulação que é deliberada e que consome os ganhos sociais, assim como deve ser vista
pelo governo como um percurso necessário para elevar o país de patamar no que tange o
desenvolvimento humano.

86
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS DO PROCESSO

Ermínia Maricato, importante figura no que diz respeito à luta pelo direito à cidade e à
urbanização socialmente justa, acredita que as melhorias econômicas do país e a expansão dos
setores habitacional e de infraestrutura em geral, agiu em certo ponto, “contra a cidade”. Era
preciso que os esforços governamentais, que foram obviamente extremamente válidos,
estivessem acompanhados de parcerias entre o Estado e a sociedade civil, e menos entre o
Estado e a iniciativa privada.

Essa preocupação se refletiu nos diversos percalços e problemas que limitaram a


capacidade de sustentação das conquistas da economia nacional, assim como das conquistas
dentro do setor habitacional brasileiro. Por maior e mais bem-sucedidas que tenham sido as
ações do governo em ampliar o crédito às classes mais populares para aquisição da casa própria,
e também a destinação de casas populares com valores de financiamentos de certa forma
“simbólicos” para famílias de rendas extremamente baixas, ainda assim as distorções e
problemas inerentes a um mercado tão especulativo quanto é o imobiliário, ficaram evidentes.

A supervalorização dos imóveis, para venda ou aluguel, e a segregação espacial das


famílias que conseguiram adquirir uma moradia, foram as duas principais sequelas do processo,
e não são problemas menores que não interferem nos resultados positivos, ao contrário. A
localização muito periférica dos conjuntos habitacionais do PMCMV, que foi encontrada em
todas as pesquisas empíricas neste trabalho abordadas, representa um grande obstáculo ao
progresso do desenvolvimento social das famílias habitantes desses conjuntos, visto que há
mais dificuldade em acessar zonas com maiores oportunidades de trabalho, serviços, lazer, etc.,
e nessas mesmas pesquisas, a maioria dos moradores sentiram que sua inserção na cidade piorou
com a ida para os conjuntos.

O transporte coletivo, que precisaria ser muito eficiente e com custo acessível para a
melhor locomoção desses moradores está cada dia mais caro no país, e tende a aumentar ainda
mais se considerado que os combustíveis em 2017 sofreram aumentos recordes. Isso certamente
irá deixar ainda mais difícil à população dos conjuntos habitacionais, principalmente das
grandes cidades, se locomover e exercer seu direito à cidade.

A supervalorização dos imóveis, para venda ou para aluguel, que foram percebidas em
todas as grandes cidades em que os índices foram medidos e é realidade também nas cidades

87
médias, principalmente entre 2010 e 2015, se reflete no aumento do déficit habitacional (que
havia reduzido entre 2010 e 2014) em 2016 e 2017, resultado da crise econômica que reduz a
renda das famílias, mas que mantém altos os preços acumulados ao longo dos períodos de
crescimento.

O poder de compra e o nível de renda dos brasileiros caiu, mas os preços dos alugueis e
dos imóveis, dos terrenos, não caiu da mesma forma, e faz com que as pessoas dispendam
grande parte de suas rendas com habitação, reduzindo seus gastos com outros bens,
prejudicando a recuperação econômica que está ligada ao poder de consumo, e também levando
as coabitações para economizar com alugueis, habitação em imóveis precários de valores
acessíveis, o que eleva o déficit habitacional.

É óbvio que a valorização do país é reflexo da melhora nas condições de vida, mas a
inserção cada vez mais enraizada na lógica do capital tem feito com que os períodos de
desenvolvimento e as conquistas sociais tenham prazo de validade encurtados, transformando-
se em problemas ou crises, seja nos países desenvolvidos ou subdesenvolvidos.

Essa lógica só pode começar a ser combatida com o fortalecimento dos poderes locais,
dos esforços comunitários, para que sejam combatidos os usos não sociais da terra, dos recursos
naturais e humanos, e as ferramentas que a globalização fornecem, precisam começar a serem
usadas em favor das pessoas.

Segundo Maricato (2009), enquanto em países capitalistas centrais o mercado privado


de aquisição de imóveis consegue atingir até 80% da população, em países periféricos como o
Brasil, estimava-se que esse percentual atingia no máximo 30%, fazendo com que 70% da
população precise ser subsidiada para conseguir adquirir um imóvel. Além disso, a
infraestrutura é um problema crônico desses países, um atraso que se torna obstáculo ao pleno
desenvolvimento.

O governo subsidiou grande parte das aquisições de imóveis durante a expansão, mas o
resultado não foi suficiente para combater significativamente o déficit habitacional, mas
enriqueceu de modo muito expressivo as empresas ligadas, tanto ao setor habitacional, quanto
ao setor de infraestrutura (principalmente). Além disso, na aquisição de imóveis via mercado,
como o SFH, por exemplo, as famílias com rendas mais altas se mostraram as que mais
adquiriram imóveis, enquanto o déficit habitacional é em mais de 80%, para famílias de mais
baixa renda.
88
O que se pode concluir desse balanço, é que o combate a questões tão importantes e
históricas para o país, a da habitação e infraestrutura urbanas, não podem continuar sendo
majoritariamente promovidas via parcerias público-privadas (principalmente a habitação), pois
os interesses e as necessidades sociais não serão o objetivo principal do processo, mas a
maximização dos lucros e os desempenhos econômicos positivos.

A construção civil pode ser um ramo importante para o crescimento do país, e a falta de
infraestrutura e o alto déficit habitacional do país resguardam um importante espaço de atuação
do setor para a promoção de mais desenvolvimento social, entretanto, os governos precisam
repensar a forma como essa expansão será executada, como controlar os lucros empresariais
para que eles sejam investidos em melhores localizações dos empreendimentos, melhor
qualidade das moradias, e uma valorização da terra que seja compatível com a valorização da
renda nacional, ou seja, o combate à especulação tem que estar no centro da questão urbana e
habitacional do país.

É o que pensa também Ermínia Maricato (2009), quando lembra que a especulação
imobiliária, resultado da “retenção de terras improdutivas é uma das características do
patrimonialismo e um dos maiores problemas do campo e das cidades latino-americanas, pois
dificulta a ocupação sustentável e justa do território”.

O Brasil, apesar de 2017 ter revelado ações governamentais em sentido a intensificação


da globalização, não foi durante o início do século XXI um país de política neoliberal, e isso
foi fundamental para superar a crise mundial de 2008 e fazer dela uma oportunidade de
crescimento e desenvolvimento. A globalização traz para as economias periféricas uma baixa
variedade de ações políticas e estratégias macroeconômicas, já que essas adotam modelos de
países desenvolvidos, deixando suas economias mais suscetíveis ás flutuações internacionais.

Mesmo que tenha sido o Estado o grande promotor de desenvolvimento social


recentemente no Brasil, ainda ficaram muitas questões a serem melhoradas para fugir das
instabilidades da globalização: maior variabilidade em estratégias para combate à pobreza e
promoção de desenvolvimento social, pensadas nos países periféricos e para países periféricos.

Menor dependência de exportações de commodities para não ficar sob risco de crise
cada vez que o mercado internacional mostrar sinais de queda, como foi o caso com a atual
crise econômica, e isso só pode ser conquistado através da continuidade dos investimentos em
ciência, tecnologia aliada à expansão industrialização nacional, para conseguir atingir um nível

89
cada vez maior de independência. Ou seja, como a globalização se mostra um fenômeno que
tende a produzir balanço negativo aos países subdesenvolvidos, o Brasil precisa se dirigir para
a contramão disso.

Expansão do acesso à moradia para sanar a questão habitacional no país, aliadas às


melhorias em infraestrutura, mas que isso seja feito em parceria com a sociedade civil e seja
feito para a sociedade civil, para que a melhoria das condições de vida das pessoas seja vista
como um investimento que irá gerar frutos no futuro: uma sociedade mais forte, estável e
economicamente independentes, e não que a especulação e o rentismo, o lucro do capital para
retorno a curto prazo do processo seja o objetivo principal.

De acordo com Maricato (2009), o governo possui três linhas de interesses distintas para
investir em urbanização: atender interesses especulativos do mercado imobiliário, atender as
necessidades de visibilidade através do “marketing urbano” (pode-se pensar em reformas de
praças, por exemplo), e também para a autopromoção de interesses eleitorais (investimentos
em áreas periféricas geralmente sem planejamento urbano). Esses “interesses” precisam ser
repensados, e a construção de uma sociedade desenvolvida precisa ser a principal razão quando
as questões são habitação, infraestrutura, educação, saúde e alimentação.

O fortalecimento do poder local, das comunidades, a ampliação da participação social


na política e no planejamento das ações urbanas precisa começar a ser pensado e estratégias
precisam começar a serem desenvolvidas no âmbito dos governos, principalmente estadual e
municipal. A globalização tende a tirar o interesse da sociedade pela política, já que se o grande
poder de transformação não está nos Estados, ele parece estar inalcançável, mas no Brasil o
esse mesmo Estado ainda tem um espaço importante e determinante de ação (talvez por isso a
“urgência” do atual governo de tendências neoliberais em reduzir drasticamente esse espaço),
que precisa ser explorado e aprimorado pela sociedade.

90
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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