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O impacto da educação e do trabalho como

programas de reinserção social na política de


execução penal do Rio de Janeiro*∗

Elionaldo Fernandes Julião


Universidade Federal Fluminense - Instituto de Educação de Angra dos Reis

Introdução percebida não apenas como punição, mas como fator


de reeducação do transgressor.
Diversos países da América Latina, dentre eles A partir do século XIX, além dos objetivos de
o Brasil, vêm apresentando, nos últimos anos, altas punir o delinquente e defender a sociedade dele,
taxas de encarceramento. O número cada vez maior isolando-o para evitar o contágio do mal e inspirando
de indivíduos reclusos tem sido acompanhado de um o temor ao seu destino, a meta de reabilitar passou a
crescente sucateamento do sistema prisional, o que merecer ênfase especial. Ora sendo vista como seme-
prejudica sensivelmente as condições mínimas ade- lhante à finalidade do hospital, ora como a da escola, a
quadas para atender aos requisitos da tutela de presos função da prisão passa a ser designada por terapêutica,
ou de cumprimento de penas nos termos das exigências cura, recuperação, ato regenerativo, readaptação, res-
legais e estabelecidas em convenções internacionais. socialização, reeducação (Foucault, 2000, p. 16).
O sistema penitenciário assenta-se sobre a pu- As Regras Mínimas para Tratamento dos Re-
nição como forma real e simbólica de solução do clusos, aprovadas pelo Conselho de Defesa Social
problema, propondo, em tese, a ressocialização dos e Econômica da Organização das Nações Unidas
detentos, porque supõe que o “desrespeito” às normas (ONU) em 1955, pelo menos no terreno programá-
esteja relacionado a uma falta de disciplina moral tico, propõem a finalidade precípua da penitenciária:
para o convívio em sociedade. Como se vê, a pena é utilizar a assistência educacional, moral e espiritual
no tratamento necessitado pelo interno, de modo que
*
Extraído da tese de doutoramento A ressocialização atra- lhe assegure que, no retorno à comunidade livre, esteja
vés do estudo e do trabalho no sistema penitenciário brasileiro, apto a obedecer às leis.
defendida em agosto de 2010 no Programa de Pós-Graduação em Analisando a Lei de Execução Penal (LEP) e o
Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Código Penal dos Países do Ocidente, bem como o
(UERJ), sob a orientação de Ignácio Cano. discurso prisional predominante, podemos supor que

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o objetivo de recuperação é primordial, ainda que não ênfase a abordagens interdisciplinares nas universida-
se abandone a meta punitiva. Examinando, entretanto, des e nos institutos de pesquisas, a fim de possibilitar
os procedimentos disciplinares e pedagógicos dos subsídios concretos que contribuam para a constituição
presídios, evidencia-se a incompatibilidade entre os de um corpo teórico que subsidie propostas de inter-
dois tipos de atribuições penitenciárias. Para Foucault venção nas unidades prisionais para formuladores de
(idem, p. 20), “as prisões não se destinam a sancionar políticas públicas.
a infração, mas a controlar o indivíduo, a neutralizar Foi a isso que se dedicou esta pesquisa, fruto
a sua periculosidade, a modificar as suas disposições de quatro anos de efetivo trabalho no sistema peni-
criminosas”. tenciário do Rio de Janeiro. Partindo das premissas
Thompson (1980, p. 13), em seu estudo sobre a de educação e profissionalização do apenado como
questão penitenciária, acredita que “se a adaptação à possíveis condições para o seu (re)ingresso no mun-
prisão não significa adaptação à vida livre, há fortes do do trabalho e, consequentemente, no convívio
indícios de que a adaptação à prisão implica desadap- social, identifiquei a necessidade de serem envidados
tação à vida livre”. esforços em estudos específicos que ofereçam novos
Sensíveis a uma análise científica profunda, tais encaminhamentos à questão, articulando subsídios
objetivos, punição e ressocialização, explicitados intelectuais e técnicos que viessem alicerçar o trabalho
como finalidades do sistema penitenciário nas so- prático em andamento nas unidades prisionais, bem
ciedades contemporâneas, são passíveis de críticas como possibilitassem subsidiar políticas públicas para
e caracterizam-se por ações e metas completamente a área. Para isso, foram investigados programas edu-
antagônicas, devido à impossibilidade de recuperar- cacionais e laborativos desenvolvidos como política
se punindo. de execução penal no Brasil, principalmente do Rio
Seja no Rio de Janeiro, em Nova York, Paris, de Janeiro, buscando verificar qual o real impacto
Buenos Aires ou Cingapura, deve-se convir que o in- da educação e do trabalho na reinserção social do
terno penitenciário é, em sua grande maioria, excluído
apenado.
de direitos sociais relevantes. Neste sentido, segundo
O presente artigo apresenta parte dos resultados
a corrente teórica fundamentada na Criminologia
de minha tese de doutoramento, cujo objetivo foi des-
Crítica,1 parece correto supor que o sistema penal foi
crever e analisar as relações entre educação escolar,
instituído socialmente com o objetivo de aprisionar
trabalho e ressocialização em um sistema penal e a
as mazelas sociais, escamoteando as chagas abertas
efetividade dessas ações.
pela exclusão e pela ganância por poder geradas pelas
lutas de classes. Conforme afirma Wacquant (2001),
Reflexões sobre o papel das políticas de
em detrimento de uma política social investe-se dema-
execução penal nas sociedades ocidentais
siadamente em uma política de execução penal.
Nos últimos tempos, o Sistema Penitenciário
Na história da penalogia moderna e dos estudos
tem sido percebido como uma caixa-preta: muito se
criminológicos no mundo ocidental em fins do século
discute, porém pouco se sabe sobre a sua verdadeira
XVIII e começo do XIX, como resultado das ideias
realidade. Cada vez mais se constata a necessidade de
iluministas que ao mesmo tempo em que elegem a
ampliar a discussão e a pesquisa sobre o tema, dando
liberdade como um bem maior, criticam os proce-
dimentos punitivos medievais, segundo Foucault
1
 A criminologia crítica tem por propósito o estudo do crime (2000), caminhamos em uma perspectiva de nova era
e seu controle, assentados na estrutura das classes sociais. Usando na justiça penal.
do método dialético, aponta as desigualdades econômicas e outras Entre tantas modificações, a principal foi o desa-
mazelas sociais na origem e persecução da conduta criminosa. parecimento dos suplícios. A punição deixa o campo da

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percepção e entra no da consciência abstrata, tornando- a figura do carrasco, figura que simboliza a autoridade
se a parte mais velada do processo penal. A certeza de de execução nas sentenças de morte.
ser punido é que deve passar a desviar o homem do A finalidade da pena privativa de liberdade passa
crime e não mais o seu abominável espetáculo. En- a ter a obtenção de vários objetivos conjuntos; a meta
tramos em uma perspectiva da penalidade incorpórea. de reabilitar, porém, passou a obter ênfase especial a
Deixa-se de ferir o corpo e passa-se a atingir a alma. A partir do século XIX:4
privação de liberdade, desta forma, passaria a ser uma
punição reconhecida como produtora de dor moral. Convertida no centro irradiador do sistema penitenciário,
Sob o discurso de humanização da pena, são cria- na própria medida em que a pena privativa de liberdade
das instituições de controle social, com o objetivo de constitui o essencial, a prisão assume uma tripla função:
aprisionar aqueles que cometeram alguma infração. O punir, defender a sociedade isolando o malfeitor para evitar o
espetáculo público da expiação, gerado pela cerimônia contágio do mal e inspirando o temor ao seu destino, corrigir
penal, sai de cena e entra o do encarceramento. A so- o culpado para reintegrá-lo à sociedade no nível social que
ciedade não mais presencia tal espetáculo; o infrator, lhe é próprio. (Perrot, 1988 apud Breitman, 1989, p. 194)
separado em locais de prisão, torna-se inacessível ao
público.2 Com a crescente onda de violência que vem
Com a reforma, agregam-se à ideia de punição os assolando o espaço urbano, constantes movimentos
conceitos de reinserção, reabilitação social, ressocia- de reflexão discutem o real papel do sistema peniten-
lização. Assim, a punição passa não só a se destinar ciário em pleno século XXI. Uns, acreditando que a
a sancionar a infração, mas a controlar o indivíduo, a severidade da pena imposta é preventiva, investem
neutralizar a sua periculosidade, a modificar suas dis- na reformulação da atual legislação, acreditando na
posições criminosas, cessando somente após obtenção instituição de leis mais severas. Outros, descrentes
de tais modificações (Foucault, 2000, p. 20). de que a severidade da pena imposta tenha eficácia
Com a nova ordem social instaurada, com a regu- preventiva ou reabilitadora, discutem a necessida-
larização de um Direito Judiciário pautado não mais no de de criação de meios e métodos alternativos ao
suplício do corpo do infrator, mas sim em uma pers- simples encarceramento, fundamentados nas ideias
pectiva de reincorporação do delinquente à sociedade, do jurista italiano do século XVIII Cesare Becaria5
toda legislação penal foi reformulada: são criadas as (2000), defensor da tese de que o que inibe o crime
chamadas Casas de Correção.3 A administração da não é o tamanho da pena, mas a certeza da punição,
execução penal, por efeito dessa nova retenção, agora e de Jeremy Bentham6 (2000), que defende que essas
é composta por um exército de técnicos que substituem instituições devam ser simplesmente seguras e capazes
de isolar os delinquentes tanto da sociedade quanto

2
 A pena de morte, ainda hoje executada em algumas regiões,
demonstra que a perspectiva de punição não avançou em todo o 4
  Thompson (2007) chama nossa atenção para o fato de
mundo. que oficialmente tem prevalência o alvo recuperação, mas não se
3
  Segundo Lúcia Guimarães, no Brasil, por exemplo, na autoriza que seja obtido à custa do sacrifício dos objetivos punição
década de 1830,iniciou-se um levante popular dirigido pela Socie- e intimidação.
dade Defensora da Liberdade e da Independência Nacional, que, 5
  Influenciado pelas ideias iluministas, principalmente as
em resposta ao clima de violência que estaria envolvendo a cidade, propostas por Rousseau, Montesquieu e Diderot, no pensamento
lançou uma campanha para a construção do primeiro presídio do criminológico e penalista de então.
Rio de Janeiro, a Casa de Correção que deu origem ao antigo e 6
  Importante teórico da prisão moderna e que estabelece os
desativado Complexo Penitenciário Frei Caneca, situado no centro princípios da racionalização da instituição prisional a começar
do Rio de Janeiro (Julião, 2003). por sua arquitetura.

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uns dos outros. Para eles, a criminalidade nunca foi baseada nos pressupostos da Criminologia Crítica.9
resolvida com a repressão dura. A pena de reclusão Assim, enquanto a tradicional se fundamenta no dile-
está superada como forma de reeducação. ma da prioridade da segurança, paradigma estritamente
As referidas discussões fundamentam-se em coercitivo, a crítica fundamenta-se na prioridade da
orientações internacionais de duas correntes filosófi- individualização da execução da pena, no paradigma
cas. A primeira pautada nas ideias norte-americanas, da segurança humanista. Nessa perspectiva, a primeira
principalmente nas instituídas pelo estado de Nova orienta-se pelo interesse e bem-estar da sociedade e do
York, a da tolerância zero,7 que sustenta o conceito de sistema, ao passo que a outra, pelo interesse e bem-
que é lutando contra os pequenos distúrbios cotidianos estar da população carcerária. Em síntese, estamos
que se faz recuar as grandes patologias criminais. A diante de dois grandes parâmetros filosóficos para uma
segunda, preocupada com as questões sociais que política legislativa e de execução penal, um centrado
envolvem a delinquência, prega uma justiça social, na valorização da responsabilidade individual sobre
não valorizando a pena privativa de liberdade, mas o fato social e outro, oposto, priorizando o indivíduo
sim meios e métodos alternativos ao encarceramento. nas suas relações histórico-sociais.
Privilegia a ideia de que tal pena é a última instância Partindo do pressuposto de que não há crime
para o delinquente, sendo, portanto, só cabível aos sem lei anterior que o defina, pode-se perceber que
casos em que o infrator signifique risco concreto à as leis são construções sociais e como tais devem ser
vida da comunidade. consideradas, e que as diferenças na capacidade de
Uma terceira corrente vem crescendo, nas últimas fazer regras e aplicá-las a outras pessoas representam
décadas, com muita força, à margem dessas duas, prin- essencialmente diferenças de poder. Aqueles grupos
cipalmente em alguns países da América Latina, como cuja posição social lhes confere poder são mais capa-
Argentina, Chile, Colômbia e México, defendendo um zes na imposição de suas regras.
Direito Alternativo e repudiando a visão tradicional Seguindo um movimento real de criminaliza-
positivista acrítica do Direito, cuja racionalidade se ção dos pobres,10 pelo menos no âmbito teórico ou
centra em começar e findar na lei. discursivo o poder público proclama a instituição ou
A criminologia do século XXI está efetivamente valorização de uma política de execução penal pautada
pautada em duas concepções opostas de cárcere, sob a égide dos Direitos Humanos, em que se prima
gerando políticas públicas de segurança carcerária pelo direito à condição humana sobre todas as coisas.
também contrastantes: uma, fundamentada na crimi- Por sua vez, conforme a visão do poder, a política
nologia clínica tradicional,8 de cunho positivista; outra penitenciária implementada pelo Poder Executivo tem
como objetivo central proteger a sociedade.
Diante de uma análise mais apurada dos fatos,
  Centrada na teoria dita da vidraça quebrada formulada por
7
percebe-se que todo o investimento para a política
James Q. Wilson e George Kelling: adaptação do ditado popular
de execução penal, contrariamente ao discurso pre-
quem rouba um ovo, rouba um boi. Loïc Wacquant (2001a, p. 25),
dominante, está calcado na valorização de propostas
um dos maiores críticos dessa corrente, denuncia que buscam apoio
nas instituições policial e penitenciária a fim de conter as desor-
dens geradas pelo desemprego em massa, a imposição do trabalho 9
  Compreende haver na pessoa encarcerada, decorrente
assalariado precário e a retração da proteção social, restabelecendo da condição de exclusão e segregação sociais, uma condição de
uma verdadeira ditadura sobre os pobres. vulnerabilidade. Defendem a promoção da cidadania, independen-
8
  Compreende haver no indivíduo criminoso uma condição temente da necessidade da flexibilização das regras de contenção
de periculosidade. O cárcere será ideal quanto mais ele for capaz do cárcere.
de conter essa periculosidade. Tem como meta prioritária conter o 10
  Tese veementemente defendida pelo sociólogo Löic
delinquente, mantendo-o segregado da sociedade. Wacquant.

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políticas que viabilizem uma possível proteção da [...] a preocupação política dos dias de hoje não é puramente
sociedade sobre todas as coisas, ficando em segundo punitiva (tal que pudesse ser satisfeita por medidas como
plano a implementação de ações concretas que pro- castigo corporal) nem puramente orientada para a proteção
piciem melhor condição ao delinquente no espaço pública (o que, antigamente, levava a medidas de detenção
carcerário. Investe-se na construção de novos presí- preventiva que minimizavam seu conteúdo punitivo). Tem-
dios cada vez mais bem aparelhados, dispostos para se a preocupação de produzir sanções que combinem os
impedir o contato do apenado com a sociedade. Ao dois modos de ver sob a forma de uma segregação e de uma
se analisarem as unidades visitadas em vários estados incapacitação punitivas. O novo ideal penal é que o público
brasileiros, em países da América Latina e Europa seja protegido e que seus sentimentos sejam expressos. A
são dispensados espaços adequados de atendimento segregação punitiva – penas de longa duração em prisões
biopsicossocial, bem como educativos, esportivos e “sem frescuras” e uma existência estigmatizada, controlada
culturais em prol da segurança. de perto, para aqueles que são, finalmente, libertados – é
Com uma demanda crescente de unidades prisio- cada vez mais a escolha que se impõe. (Garland, 1999, p. 61,
nais que atendam os objetivos da sociedade, pesados aspas do original)
investimentos vêm sendo feitos na construção de
novos presídios em todo o país, bem como da de- Analisando este momento histórico mundial
sinstalação dos que se localizam nos grandes centros conflituoso que se instaura, percebe-se que o Estado
urbanos, transferindo-os para o interior dos estados.11 vem optando claramente pela criminalização da mi-
Como se pode observar, tal fato tende diretamente a séria e o encarceramento maciço como complemento
confirmar a hipótese de que a execução penal não tem da generalização da insegurança salarial e social.
mais como objetivo ressocializar o delinquente, mas Conforme Wacquant (2001c), socializa-se entre os
sim proteger a sociedade desse indivíduo e puni-lo diversos países em diferentes continentes, interna-
pelo ato cometido. cionalizando-se paralelamente à ideologia econômica
Diferentemente de toda uma atual proposta polí- neoliberal da qual é a tradução em matéria de justiça,
tica e ideológica que envolve os indivíduos conside- uma globalização de políticas e técnicas agressivas de
rados portadores de patologias e distúrbios mentais, segurança made in USA, importando-se como soluções
primando-se por um movimento antimanicomial,12 mágicas para o crucial problema da violência criminal.
em que se acredita que, pelo contato direto com a Para ele, na América Latina13 o tratamento policial
sociedade, os indivíduos chamados “loucos” serão e judiciário da miséria é essencialmente antitético à
ressocializados, investe-se demasiadamente no afas- consolidação de uma sociedade democrática, uma vez
tamento do delinquente de suas possíveis relações que significaria (r)estabelecer uma verdadeira ditadura
sociais, criando-se cadeias públicas e privadas em sobre os pobres.
espaços distantes dos centros urbanos. Desse modo, percebe-se um movimento real de
criminalização dos pobres em que, embora pelo me-
nos no âmbito teórico ou discursivo, o poder público
proclama a instituição ou a valorização de uma política
11
  Como exemplo, recordamos a desativação de parte do
Carandiru, em São Paulo, bem como da desativação do Complexo
Penitenciário Frei Caneca, no Rio de Janeiro, transferindo suas 13
  A criminalização da pobreza, em linhas gerais, também é
unidades para o interior desses estados. vista como uma tese muito centrada nos Estados Unidos da Amé-
12
  Movimento instituído nas últimas décadas que investe rica e na Europa Ocidental e vincula o encolhimento do Estado
na desinstalação dos manicômios e criação de ambulatórios em de bem-estar social ao endurecimento penal. Na América Latina,
hospitais para atendimento dos indivíduos portadores de doenças ao contrário, onde o Estado de bem-estar social nunca existiu, a
mentais. vinculação de ambos os processos é questionável.

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de segurança pública pautada nos Direitos Humanos, sobre a ideia das novas criminologias da vida coti-
valorizando, acima de tudo, o direito à condição hu- diana, afirma que, não se dando mais ao trabalho de
mana; em contrapartida, com medidas de exceção, se empenhar na reabilitação dos delinquentes, “as
a política implementada tem como objetivo central autoridades carcerárias insistem cada vez mais na sua
proteger uma camada da sociedade, deixando de lado capacidade de ministrar castigos e proteger o público
os direitos individuais fundamentais. pelo simples fato de trancafiar os delinquentes na
Em recente pesquisa realizada pela socióloga prisão” (idem, p 66). E que os programas terapêuticos
Laura Frade (2007), sobre um levantamento que e de reinserção já não são sustentados pela ideologia
mostra as proposições parlamentares relacionadas ao geral do sistema. Segundo esse autor, para este novo
crime apresentadas entre 2003 e o começo de 2008 modelo que se instaura, o crime é um acontecimento
no Congresso Brasileiro, vê-se que, das 646 proposi- que não requer nenhuma motivação ou disposição
ções parlamentares, a quase totalidade se destinava especial, nenhuma patologia ou anormalidade, e que
a agravar penas e somente duas se relacionavam a se inscreve nas rotinas da vida econômica e social
crimes de corrupção perpetrados por não pobres, contemporâneas.
popularmente conhecidos como “crimes de colarinho Podemos concluir, com Wacquant (2001, p. 86),
branco”. No estudo, a autora ressalta que apenas 7% que:
das matérias do Legislativo tratam do tema crimina-
lidade, demonstrando não ser o combate ao crime um Essa mudança de objetivo e de resultado traduz o abandono
tema prioritário no Congresso Brasileiro. do ideal de reabilitação [...] cujo objetivo não é mais nem
No Brasil, toda a discussão em voga no momento prevenir o crime, nem tratar os delinquentes visando o seu
sobre a constitucionalidade do crime denominado eventual retorno à sociedade uma vez a pena cumprida,
hediondo, bem como sua ampliação em relação aos mas isolar grupos considerados perigosos e neutralizar seus
crimes que vêm crescendo no país, em parte se justifica membros mais disruptivos mediante uma série padronizada
com base em uma racionalidade econômica. Muitos de comportamentos e uma gestão aleatória dos riscos, que
alegam que é por conta da atual estrutura legislativa se parecem mais com uma investigação operacional ou
sobre a caracterização dos crimes hediondos que se reciclagem de detritos sociais que com trabalho social.
vêm superlotando as prisões. O aspecto econômico e
financeiro, na maioria dos casos, tem sido constante- Nesse sentido, o ambiente prisional será, por defi-
mente enaltecido na discussão, deixando-se de lado nição, refratário a quaisquer práticas pedagógicas que
todo o aspecto ideológico e social que caracteriza o intentem a condução dos internos à vida em liberdade.
tema. Temos apenas uma espécie de silo de exclusão.
Conforme já denunciara Foucault (2000), a re-
forma do Direito Judiciário nunca teve o objetivo de A pesquisa
fundar um novo direito de punir, mas de estabelecer
uma nova economia do poder de castigar. A reforma Seguindo Thompson (1980, p. 21-22), com-
do Direito Criminal, segundo ele, é uma estratégia preendo que “o significado da vida carcerária não se
para o remanejamento do poder de punir, seguindo resume a mera questão de muros e grades, de celas e
modalidades que aumentem os efeitos, diminuindo o trancas; ele deve ser buscado através da consideração
custo econômico. de que a penitenciária é uma sociedade dentro de
Segundo Garland (1999, p. 70), “o investimento uma sociedade, uma vez que nela foram alteradas,
da criminalidade e os dispositivos de segurança são, drasticamente, numerosas feições da comunidade
portanto, cada vez mais impostos antes pelas forças livre” e que, como um sistema social, a penitenciária
econômicas do que pela política pública”. Pautado representa uma “tentativa de criação e manutenção

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de um grupamento humano submetido a um regime das técnicas de investigação adotadas na pesquisa, as


de controle total”. Em consequência, tomando como entrevistas seguiram um roteiro de questões previa-
referência o microcosmo social objeto de análise, a mente definidas. Também foram aplicados questioná-
pesquisa realizada pretendeu apreender a realidade rios com perguntas fechadas e abertas. Procurou-se
sobre o sistema penitenciário em sua multiplicidade de ainda identificar a relação da percepção dos diversos
facetas, em diversos planos e dimensões, possibilitan- agentes operadores da execução penal com os dados
do uma reconstrução sociológica do problema. objetivos coletados no banco de dados da Vara de
Em virtude das dimensões territoriais do Brasil e Execuções Penais.
da sua proposta política de execução penal, tomou-se Todas as etapas deste estudo foram registradas
como recorte de trabalho o estado do Rio de Janei- em um caderno de observações de campo, inclusive
ro – terceiro estado que mais encarcera em número conteúdos e impressões obtidas em cada reunião ou
absoluto no país.14 Foram utilizadas na pesquisa infor- encontro, utilizando-se esses apontamentos objeto de
mações gerais sobre o sistema penitenciário estadual, análise, na medida em que conferiram significado às
além de informações do banco de dados da Vara de discussões do estudo.
Execuções Penais (VEP),15 e entrevistados profissio-
nais de diversas unidades penais do estado e internos Estratégia de análise do material empírico
penitenciários do Complexo de Gericinó, localizado
em Bangu, Zona Oeste da capital.16 As entrevistas semiestruturadas privilegiaram a
Para responder às indagações propostas, procu- discussão sobre os diversos aspectos que envolvem os
rou-se identificar, entre outras questões: o perfil do programas de ressocialização tanto no campo teórico
interno no estado do Rio de Janeiro; os principais quanto prático da execução penal. Foram realizadas
programas de ressocialização desenvolvidos; a parti- sete entrevistas com os principais agentes operadores
cipação dos internos nesses programas, principalmente da execução penal no estado e com coordenadores dos
nas atividades laborativas e educacionais; a taxa de programas de ressocialização da Secretaria de Estado
reincidência; a taxa, a probabilidade e as chances de de Administração Penitenciária.
reincidência entre apenados e egressos que participa- Optei por não realizar entrevistas com o secretá-
ram ou não dessas atividades.
rio de Administração Penitenciária, acreditando que,
Além do trabalho de coleta e interpretação de da-
em virtude do perfil político do cargo, as respostas
dos quantitativos, buscou-se, por meio de entrevistas,
não contribuiriam diretamente para o objetivo da
captar o discurso dos diversos agentes envolvidos na
pesquisa.
política pública de execução penal, com o objetivo
Seguindo o roteiro de entrevistas, produziu-se
de compreender, a partir da perspectiva destes atores,
um questionário com perguntas abertas e fechadas que
como vêm sendo desenvolvidos programas de resso-
foi aplicado a outro grupo de agentes operadores da
cialização na política de execução penal. Como parte
execução penal no estado do Rio de Janeiro (agentes
penitenciários, chefes de segurança e profissionais da
14
  O Rio de Janeiro, segundo dados da Secretaria de Estado de equipe técnica). Nessa etapa, foram aplicados cerca
Administração Penitenciária do Rio de Janeiro – SEAP, em 2009, de 310 questionários, porém somente oitenta, isto é,
encarcera mais de 28 mil pessoas, cerca de 7% da população prisio- 25% do total, foram respondidos.
nal do país, estando somente atrás de São Paulo e Minas Gerais. Procurando verificar a percepção dos internos
15
  Sistema de Informação Penitenciária da Vara de Execuções quanto ao papel do trabalho e da educação como
Penais do Rio de Janeiro (SIPEN/VEP). programas de reinserção social, foram realizadas tam-
16
  Região que concentra o maior número de unidades penais bém 65 entrevistas com internos do sexo masculino
no estado. da Penitenciária Esmeraldino Bandeira, da Casa de

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Elionaldo Fernandes Julião

Custódia Elizabeth Sá Rêgo (Bangu V) e do Instituto vidos na execução penal no estado do Rio de Janeiro.
Penal Plácido de Sá Carvalho. Todas foram gravadas em fita cassete. Para a análise
A escolha das unidades prisionais levou em do questionário aplicado, foi produzido um banco de
consideração os regimes fechado, semiaberto, aberto dados; no cruzamento das informações geradas foram
e provisório; a existência de escolas regulares e es- utilizados os mesmos “eixos temáticos” ou categorias
paços com oficinas de trabalho; bem como a filiação, das entrevistas semiestruturadas.
em tese, dos internos a determinadas facções.17 Em Já com relação à análise do banco de dados da
cada unidade, procurei realizar o mesmo número de VEP, foi criado um novo banco de dados, a partir das
entrevistas com internos que estudavam e trabalhavam informações do banco primário cedido pelo Tribunal
e que não estudavam nem trabalhavam. Poucos foram de Justiça. O objetivo da análise e do cruzamento de
os casos de entrevistados que diziam realizar as duas diversos dados sobre os apenados foi o de verificar,
atividades. Em nenhuma unidade entrevistei um único principalmente, possíveis relações existentes entre es-
segmento (estudantes, não estudantes; trabalhadores tudo, trabalho e reincidência (criminal e penitenciária)
e não trabalhadores). no sistema penal.
Embora estivesse prevista inicialmente a reali- Em virtude da complexidade do tema abordado,
zação do mesmo número de entrevistas com egressos defini como principal instrumental teórico para a fun-
do sistema, em virtude das dificuldades encontradas, damentação e análise do material coletado algumas
principalmente de ex-internos dispostos a falar sobre o questões da literatura especializada sobre o tema polí-
tema, só foi possível entrevistar três pessoas, número ticas de execução penal e sobre categorias usadas neste
que não pode ser considerado representativo. Para estudo, a saber: ressocialização, reincidência, estigma,
minimamente se alcançar tal objetivo, foram realiza- prisonização, punição, sociedade punitiva, privação de
das entrevistas com internos da Unidade Plácido de liberdade, educação de jovens e adultos e outros.
Sá Carvalho, que, em tese, abriga grande número de Também foram utilizados os pressupostos teórico-
internos em regime semiaberto, ou seja, que somente metodológicos das ciências sociais, principalmente os
são obrigados a dormir na unidade, caso desenvolvam desenvolvidos por Howard Becker sobre o interacio-
oficialmente atividades laborativas e educacionais
nismo simbólico e sobre as questões que envolvem
extramuros.
o comportamento desviante e a percepção do desvio
A dinâmica de escolha dos internos que dariam a
como decorrência de um processo de acusação e por
entrevista observou as especificidades de cada unida-
Erving Goffman (1961 e 1988) sobre instituições
de. A participação foi voluntária, respeitando sempre
totais e estigma. Além desses teóricos, foram usados
o interesse em ser entrevistado.
modernos estudos sobre crime e punição dos autores
As entrevistas foram realizadas obedecendo a um
Loïc Wacquant (2001a, b e c), que defende a tese da
padrão técnico, seguindo o roteiro básico, a fim de
“criminalização da miséria e punição dos pobres”;
oferecer mecanismos e subsídios para análise temática
David Garland (1990), sobre “punição e sociedade
do conteúdo das falas dos principais sujeitos envol-
moderna” e “contradições da sociedade punitiva”;
Nils Christie (1993), sobre “a cultura do controle
  É sabido que a criminalidade do Rio de Janeiro se articula,
17 do delito”, e Eugenio Raúl Zaffaroni (2001), sobre
basicamente, nas facções Terceiro Comando e Amigo dos Ami- “a perda da legitimidade do sistema penal”. Já no
gos, facções cujos membros apenados são internos na Unidade campo da educação, foi privilegiado o diálogo como
Plácido de Sá Carvalho. Os do Comando Vermelho são alocados alguns estudos sobre políticas públicas e educação
em Bangu V. Já a Unidade Esmeraldino Bandeira é considerada para jovens e adultos, principalmente dialogando com
“neutra”, apesar de possuir alguns integrantes também do Comando alguns escritos de Jane Paiva (2009), Leôncio Soares
Vermelho. (2002) e outros.

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O impacto da educação e do trabalho como programas de reinserção social na política de execução penal do Rio de Janeiro

Algumas descobertas da pesquisa gica de execução penal que compreende o cárcere


como “instituição total”/“instituição completa”, em
Em virtude da impossibilidade de serem resga- que o indivíduo é capturado da sociedade, segregado
tadas todas as questões debatidas na tese de doutora- totalmente da comunidade livre) estão ultrapassados,
mento, serão destacadas algumas neste artigo, consi- devendo ser substituídos por “socialização”. Com essa
deradas especiais em todo o processo de construção nova concepção, compreende-se o sistema peniten-
e descobertas. ciário com uma instituição social como tantas outras,
Amparado nas hipóteses que orientaram a pesqui- reconhecendo a sua incompletude (tanto institucional,
sa, dentro de um elenco de questões suscitadas pelos quanto profissional), cria-se uma nova dinâmica polí-
entrevistados, bem como dos dados analisados do tica e ideológica que prima pela não segregação total
Banco de Dados da Vara de Execuções Penais, foi pos- do indivíduo, pela concepção de que o ser humano
sível evidenciar, dentre outras questões, por exemplo, vive em um constante processo de socialização e
que da discussão que assegura ao infrator a condição reconhece-se que o papel do sistema de privação de
de sujeito perante o aparato judicial, considerando-o liberdade, em suma, é de “socioeducar”: do compro-
sujeito de direitos e de responsabilidades e como misso com a segurança da sociedade e de promover a
pessoa em condição de desenvolvimento (Doutrina da educação do delinquente para o convívio social.
Proteção Integral), negando a postura que considera Quanto às principais questões evidenciadas pelos
o delito manifestação patológica (Doutrina da Situa- agentes operadores da execução penal no debate sobre
ção Irregular), emerge uma concepção de política de o trabalho e a educação em espaços de privação de
execução penal pautada em uma ideia moderna de liberdade, todos reconhecem a importância do traba-
“tratamento penitenciário”. lho e da educação no cárcere; porém, uns valorizam
Essa concepção implica e requer um conjunto a educação em detrimento do trabalho e vice-versa;
articulado de ações por parte do Estado e da sociedade, outros não acreditam na existência de grau de prio-
para a garantia de direitos fundamentais básicos (como ridade, mas sim na necessidade de se organizar uma
o direito à sobrevivência, o direito ao desenvolvimento proposta política em que todos devam estudar e,
pessoal e social, além do direito à integridade física, consequentemente, serem preparados para o trabalho,
psicológica e moral) por meio de políticas sociais articulando-se o estudo ao trabalho.
básicas (saúde, trabalho e educação), políticas de Também entre os internos entrevistados não foi
assistência social, políticas de proteção especial e po- possível encontrar uma unanimidade quanto ao tema
líticas de garantia de direitos. Diante dessas questões, trabalho no sistema penitenciário; alguns concordam
é necessário colocar em prática o princípio de que o que é importante trabalhar no cárcere, outros discor-
indivíduo privado de liberdade está, de fato, privado dam por motivos diversos, alegando, inclusive, que a
de direito de ir e vir, detendo ainda liberdade de cons- legislação penal brasileira determina que o trabalho
ciência, de expressão, de religião e de criação. deve ter um cunho educativo. Outros chegam a alegar
Quanto à compreensão dos diferentes agentes que o trabalho intramuros é exploração. Segundo estes,
operadores da execução penal sobre o conceito res- todas as empresas que se utilizam da mão de obra do
socialização para a pesquisa, pode-se dizer que para apenado, mascaradas muitas vezes por uma imagem
eles, em síntese, isso significa o indivíduo “voltar à de ideal filantrópico, têm como objetivo explorar o
sociedade adaptado, respeitando as leis”. Ou seja, “o apenado, ampliando as suas margens de lucro à sua
preso deve voltar para a sociedade sem delinquir”. No custa.
entanto, diante das questões explicitadas, defendo a Com relação ao papel da escola no cárcere, em
ideia de que os conceitos ressocialização e reinserção linhas gerais, também não existe uma unanimidade.
social (impregnados da concepção político pedagó- A grande maioria a reconhece como um espaço im-

Revista Brasileira de Educação  v. 15  n. 45  set./dez. 2010 537


Elionaldo Fernandes Julião

portante para “passar o tempo”, “ocupar a mente” dos contrário do que comumente é divulgado pela mídia,
internos e possibilitar alguns benefícios, principal- é de apenas 30%, pois, à medida que o intervalo de
mente a remição. Poucos entrevistados, ao contrário, tempo da liberdade vai aumentando, cresce linearmen-
evidenciaram algo positivo, principalmente quanto à te a probabilidade de reincidência. Por volta de cinco
possibilidade de auxiliar em sua reinserção social. As- anos, essa taxa pode alcançar 30% dos réus; após cinco
sim, percebe-se que muitos internos não têm interesse anos de liberdade, a taxa de reincidência mantém-se
de estudar porque não conseguem enxergar no estudo aproximadamente constante.
algo positivo; não conseguem visualizar as potencia- Diante dos dados levantados na pesquisa, levando-
lidades da educação para a sua vida, principalmente se em consideração as diversas ressalvas explicitadas
extramuros. no decorrer da análise, pode-se constatar que real-
Quanto à escolha do interno entre estudar e mente é diferente o perfil social dos reincidentes em
trabalhar, embora a margem de diferença seja muito comparação aos não reincidentes: os reincidentes são,
pequena, a maioria prefere e opta pelo estudo; em se- na grande maioria, do sexo masculino, solteiros, jo-
gundo lugar o trabalho e, por último, se pudessem con- vens, pretos e com uma escolaridade deficiente. Além
ciliar, realizariam os dois. Analisando suas respostas, disso, os dados permitem afirmar que os internos que
percebe-se que a opção pelo estudo está relacionada participam dos projetos educacionais e laborativos
a uma perspectiva de futuro, principalmente quanto à apresentam predisposição à ressocialização, assim
reinserção social. Com relação à escolha do trabalho, como também apresentam características distintivas
as justificativas estão relacionadas a interesses ime- daqueles que não estudam nem trabalham.
diatos, principalmente no que diz respeito à aquisição O estudo da regressão evidenciou que os fatores
de benefícios no presente: remição de pena, sustento que aumentam a reincidência penitenciária são: ser
da família, ocupação do tempo etc. homem; ser jovem; ter cometido os crimes de roubo,
Várias foram as explicações sobre os motivos furto e estelionato/fraude (em comparação com o
que levam os internos a não estudar no cárcere. Den- tráfico). Além disso, mostrou que para cada ano de
tre elas destacam-se: porque se consideram velhos liberdade o réu tem mais chances de reincidir e que
demais para estudar; porque não conseguem conciliar quem trabalha têm menor chance de reincidir, assim
o estudo com outras atividades desenvolvidas na uni-
como quem estuda.
dade (principalmente o artesanato e as atividades da
Quando comparamos o trabalho ao estudo,
igreja); porque não têm disposição para se dedicar aos
evidencia-se que ambos são significativos, porém,
estudos; porque não têm oportunidades, já que a escola
enquanto o estudo no cárcere diminui a probabilidade
é oferecida para alguns, excluindo principalmente os
de reincidência em 39%, o trabalho na prisão diminui
internos que estão no “seguro”;18 e por inadequação da
essas chances em 48%. Ou seja, os referidos dados não
proposta pedagógica e metodológica da escola. Vale
ratificam uma das hipóteses iniciais desta pesquisa de
lembrar que, por não existir uma proposta pedagógica
que o efeito do estudo é superior ao do trabalho na
para a execução penal nas unidades, muitas são as
reinserção social do apenado.
dificuldades para conciliar a realização de mais de
Na análise dos dados referentes aos indivíduos
uma atividade no cárcere.
que estudaram e trabalharam no sistema penitenciário
A taxa de reincidência penitenciária no Sistema
fluminense, foi possível verificar que a elevação de
Penal do Rio de Janeiro estimada na pesquisa, ao
escolaridade é inversamente proporcional ao tempo
dedicado ao estudo. Ao contrário, o interesse pelo
 Ambientes reservados no interior das unidades para apena-
18 trabalho aumenta com a elevação do nível de esco-
dos que, geralmente por questões de segurança, devem permanecer laridade. Ou seja, quanto mais elevada a formação
isolados do coletivo. educacional, menos tempo, por exemplo, foi dedicado

538 Revista Brasileira de Educação  v. 15  n. 45  set./dez. 2010


O impacto da educação e do trabalho como programas de reinserção social na política de execução penal do Rio de Janeiro

ao estudo. Em contrapartida, quanto mais elevada a sua desta falta de definição das suas atribuições,
formação mais tempo foi dedicado ao trabalho. todos geralmente desenvolvem as mesmas
Em linhas gerais, como resultado da pesquisa, atividades, pulverizando os poucos recursos
pode-se afirmar, por um lado, que o trabalho e o estudo que lhes são disponíveis;
representam papel significativo na reinserção social 3) a maior parte das ações educacionais e pro-
dos apenados, diminuindo consideravelmente sua fissionalizantes são desenvolvidas de forma
reincidência; quem tem disposição para se reinserir precária, sem recursos materiais e em espaços
tem mais predisposição a estudar e trabalhar. Por improvisados, muitas vezes sem qualquer
outro lado, ao contrário do que se imaginava, o efeito planejamento prévio, sem uma proposta pe-
da educação é inferior ao do trabalho como programa dagógica, curricular e metodológica definida
de reinserção social para a política de execução penal, para esse trabalho;
apresentando dados menos significativos. 4) ausência de informações detalhadas sobre
Embora os projetos laborativos e educacionais o perfil biopsicossocial dos internos e dos
para jovens e adultos privados de liberdade acumu- profissionais que atuam no sistema peniten-
lem uma longa história no país, pode-se tacitamente ciário, impossibilitando melhor orientação
afirmar que ainda não existe uma política pública de para a implementação de políticas públicas
educação e de trabalho para o sistema penitenciário na área;
e que ainda são ações isoladas (realizadas como 5) os profissionais que atuam nestas áreas no
projetos) sem a institucionalização de uma proposta cárcere não são capacitados para o trabalho;
político-pedagógica que abarque as características e visto a sua especificidade, sequer vivenciam
finalidades de tal realidade, bem como de investimen- um processo de ambientação e, posteriormen-
tos e repasses de recursos financeiros. te, de formação continuada (não existe uma
Dentre os principais problemas identificados em política de recursos humanos instituída para
uma avaliação genérica sobre as atividades laborati-
o sistema penitenciário);
vas e educacionais para jovens e adultos privados de
6) e, por fim, ausência de mecanismos de acom-
liberdade, destacam-se, por exemplo:
panhamento e avaliação de programas e pro-
jetos financiados com recursos públicos.
1) ausência de uma diretriz nacional para a po-
lítica de tratamento penitenciário que oriente
Considerações finais
minimamente as ações estaduais, assim como
o discurso que caracterize o papel da educação
É senso comum afirmar que avaliar políticas e
e do trabalho como proposta política para o
programas sociais nos últimos tempos se tornou um
sistema penitenciário;19
desafio tanto para os centros de pesquisa quanto para
2) ausência de unidade nas ações educacionais
os governos. Tarefa mais complexa ainda é avaliar
desenvolvidas – porque ainda não se definiram
políticas e programas sociais desenvolvidos para o
as atribuições dos diversos órgãos envolvidos
sistema penitenciário.
na política (ministérios, secretarias, superin-
De um modo geral, a sociedade vem reivindi-
tendências, departamentos etc.). Em virtude
cando cada vez mais uma relação de transparência e
de participação nas decisões referentes a alternativas
19
  O Ministério da Justiça e o Ministério da Educação vêm políticas e programáticas. Reivindica-se conhecer
realizando nos últimos anos um importante ensaio de implemen- e acompanhar a equação entre gastos públicos e
tação de uma proposta interministerial para educação no sistema custo-efetividade de políticas e programas desti-
penitenciário. nados a produzir maior equidade social. Espera-se

Revista Brasileira de Educação  v. 15  n. 45  set./dez. 2010 539


Elionaldo Fernandes Julião

das organizações eficiência, eficácia e equidade na inerentes ao ambiente social, político, econômico e
prestação de serviços de interesse do cidadão. Neste cultural em que o apenado vive.
sentido, a avaliação, além de permitir aprimorar as Além disso, a reincidência não é o único indicador
ações institucionais, possibilita manter uma relação do sucesso ou fracasso da educação ou do trabalho no
de transparência com a sociedade no que tange a seus cárcere. No caso da educação, particularmente vai além
propósitos, processos e resultados, realimentando da simples aquisição de conhecimentos e de garantia de
decisões e opções políticas e programáticas. direitos constitucionais. É perspectiva de mudança de
Quando pensada para a realidade dos sistemas de vida, autoestima e outras competências e habilidades
privação de liberdade, cujo cotidiano é comumente para a vida tanto individual quanto social.
invisível, percebe-se que, ao contrário do explicitado, Conforme identificado nos resultados da pesqui-
a sociedade nunca demonstrou real interesse sobre sa, embora veja como positivo o papel da educação e
o que efetivamente ocorre dentro do cárcere ou em do trabalho na política de reinserção social, defendo
uma unidade socioeducativa, sobre a qualidade dos que não se pode simplesmente implementá-los para
serviços prestados e tampouco sobre investimentos este fim, mas, principalmente, que sejam garantidos
realizados na área etc. Culturalmente, esses siste- como direitos elementares dos privados de liberdade
mas nunca passaram por um processo de avaliação como pessoas humanas. É importante que se com-
(principalmente de qualidade) que possibilitasse preenda que a educação e o trabalho são fundamentais
apresentar resultados sobre a sua eficiência, eficácia para o desenvolvimento humano, inclusive para a sua
e efetividade. Os únicos indicadores de qualidade que socialização.
sempre chamaram atenção da sociedade com relação Assim, além da reincidência, também considero
ao tema são as rebeliões, motins ou fugas. São essas importantes indicadores para avaliar os sistemas de
informações, principalmente as negativas, que fazem privação de liberdade: o número de fugas e evasões, re-
que a tranquilidade da sociedade venha a ficar abalada. beliões, motins; de mortes intramuros, principalmente
Ao contrário, com poucas exceções, não se evidencia pelas ocasionadas por fatores vinculados à violência e
qualquer outro interesse. por negligência institucional; a quantidade de atendi-
No campo das políticas de execução penal, diante mentos biopsicossociais realizados pelos técnicos do
da diversidade de fatores que envolvem o tema, é ne- sistema; a quantidade de atividades ou a carga horária
cessário propostas e estratégias específicas de acompa- destinadas para realização de atividades educacionais,
nhamento e avaliação, que valorizem concepções mais culturais, esportivas, profissionalizantes e de lazer
abrangentes e totalizantes, que busquem apreender pelos internos e as efetivamente cumpridas.
a ação, sua formulação, implementação, execução, Diante de estudos desenvolvidos na área de polí-
processos, resultados e impactos. Ou seja, que não só ticas públicas e gestão da segurança pública, acredita-
se invista em uma avaliação apenas de resultados, que se que não é por falta de recursos financeiros que o
mensure quantitativamente os benefícios e malefícios sistema penitenciário se encontra neste estágio de de-
de uma política ou programa; mas também de proces- gradação, mas sim pela falta de institucionalização de
sos, que qualifique decisões, resultados e impactos. procedimentos e concepções políticas que otimizem a
Os dados sobre o sistema penitenciário são utilização desses recursos, valorizem a atuação técnica
indicadores complexos que merecem atenção, tanto desburocratizada e humana e, principalmente, privile-
no aspecto conceitual, quanto na metodologia a ser giem a condição humana sobre todas as coisas.
empregada para obtê-los. Ao mesmo tempo, também No campo da educação, por exemplo, é funda-
se reconhece hoje que a reincidência não é ocasionada mental que se perceba que não é só com a criação de
simplesmente por questões internas inerentes ao sis- novas escolas, principalmente associadas ao ensino
tema penitenciário, mas também por fatores externos profissional, que resolveremos o problema da educação

540 Revista Brasileira de Educação  v. 15  n. 45  set./dez. 2010


O impacto da educação e do trabalho como programas de reinserção social na política de execução penal do Rio de Janeiro

para jovens e adultos privados de liberdade. É neces- política de execução penal que atenda os seus reais an-
sária uma concepção educacional que valorize e ajude seios, principalmente que vislumbre a reinserção social
a desenvolver potencialidades e competências; que do infrator, com a participação da sociedade civil orga-
favoreça a mobilidade social dos internos; que não os nizada. Assim, torna-se fundamental que se estimule a
deixem sentir-se paralisados diante dos obstáculos que criação de conselhos da comunidade em todas as Varas
serão encontrados na relação social. de Execuções Penais, como já previsto na Lei de Execu-
Em suma, deve-se investir na criação de uma esco- ções Penais, com o objetivo de acompanhar a execução
la para os sistemas de privação de liberdade com uma das políticas em cada estado; que, conforme sugerido
política de educação que privilegie, a qualquer custo, a por Alvino A. de Sá (2007, p. 117-120), as Comissões
busca pela formação de um cidadão consciente da sua Técnicas de Classificação também se empenhem na
realidade social. O Ministério da Justiça deve assumir promoção de uma integração cárcere-sociedade; que se
a educação como uma das políticas de reinserção social invista na implementação de Programas de Informações
e, em articulação com os Ministérios da Educação, da e Debates, em Programas de Reencontro e Reconcilia-
Saúde, da Cultura etc., definir as diretrizes nacionais ção preso-vítima-sociedade e na efetiva participação do
para o “tratamento penitenciário”, visando à construção preso na prestação de serviços à comunidade.
coletiva de uma política pública voltada à alfabetização Em síntese, diante das questões explicitadas na pes-
e à elevação de escolaridade20 da população privada ou quisa, acredito que efetivamente conseguiremos avanços
restrita de liberdade e egressa no contexto das políticas consistentes na política de execução penal se:
de educação de jovens e adultos.
Já no campo das atividades laborativas, que elas 1) o Governo Federal, por intermédio do Minis-
estejam fundamentadas no que determina a Lei de tério da Justiça (Departamento Penitenciário
Execução Penal: que tenham a finalidade educativa Nacional), investir na criação e implementação
e não simplesmente de produção de bens e serviços. de um Plano Nacional de Execução Penal que
E principalmente que respeitem as características dos se desdobre em Planos Estaduais de Execução
apenados e dos seus regimes de sentença (aberto, se- Penal;
miaberto e fechado) na implementação de uma proposta
2) diante dos seus Planos Estaduais, cada estado
político-pedagógica de execução penal, fortalecendo os
da federação criar e implementar uma Projeto
seus reais objetivos.
Político Institucional para a Execução Penal,
Neste sentido, a política de execução penal precisa
justificando as suas ações para o seu sistema
levar em consideração, por exemplo, o seu público-alvo
penitenciário dentro de uma Proposta Política
e as características do ambiente prisional de acordo
de Tratamento Penitenciário, desdobrando-se
com o regime do sentenciado, adequando-se o tipo de
em Projetos Político-pedagógicos para cada
punição e a instituição correcional aos objetivos da
unidade penal, levando-se em consideração
sentença.
sua realidade concreta (regime, clientela, lo-
Ciente de que sem a participação efetiva da socie-
calização geográfica etc.);
dade as políticas públicas muitas vezes estão fadadas
3) ciente de todas as implicações políticas, admi-
ao fracasso, acredito que somente se avançará em uma
nistrativas e financeiras que envolvem o tema,
e percebendo que este será um dos principais
20
  A perspectiva aqui defendida está centrada na garantia de avanços no reordenamento da política de exe-
ampliação do “capital cultural” e não simplesmente da certificação cução penal, realizar-se a implementação de
obtida por meio de exames supletivos e, consequentemente, da uma proposta de um Plano Individual de Aten-
obtenção de dados estatísticos que apresentem uma relativa melhora dimento (PIA) para o interno penitenciário que
nos índices educacionais brasileiros. o oriente na execução da sua pena, conforme

Revista Brasileira de Educação  v. 15  n. 45  set./dez. 2010 541


Elionaldo Fernandes Julião

hoje previsto na política socioeducativa brasi- é necessário que se cobre do poder público uma total
leira e também na Lei de Execuções Penais; reforma na legislação penal e, consequentemente, na
4) compreendendo que os vínculos familiares, política de execução penal, promovendo um verdadei-
afetivos e sociais são sólidas bases para afastar ro “reordenamento institucional”. É preciso investir
os condenados da delinquência, ou seja, evitar radicalmente em uma política de capacitação dos servi-
a reincidência criminal, conforme já previsto dores que atuam em espaços de privação de liberdade,
na área socioeducativa, o sistema carcerário envolvendo o poder público, universidades, centros de
deverá investir na implementação de um pesquisas e organizações da sociedade civil.
Plano Nacional de Convivência Familiar e Sem ter a pretensão de colocar um ponto final no
Comunitário para a política de execução pe- debate, espero que este artigo venha a contribuir com
nal, primando-se por diretrizes e políticas que a referida discussão, possibilitando a ampliação da re-
estreitem os laços familiares e comunitários flexão, bem como fornecendo subsídio para posteriores
com os apenados, principalmente ampliando desdobramentos. Enquanto não houver uma definição
as perspectivas de efetivamente se “mediar os política do papel a ser desempenhado pela política de
possíveis conflitos” existentes. O Plano para o execução penal e pelas medidas socioeducativas na
sistema penitenciário, em linhas gerais, deve sociedade contemporânea, temo que se acredite ser
representar um importante instrumento para inútil investir qualquer recurso nessa direção, pois
mobilização nacional e suas diretrizes devem sem um projeto político para o setor é possível que
transformar-se em ações concretas e articuladas se assuma a ideia de estarmos literalmente “jogando
de responsabilidade do Estado e dos diversos dinheiro fora”.
atores sociais, assumindo o compromisso pela
promoção, proteção e defesa dos direitos dos Referências bibliográficas
apenados à convivência familiar e comunitária.
Neste sentido, com certeza se vislumbrará um ALFABETIZAÇÃO e Cidadania: revista de educação de jovens e
maior sucesso quanto à reinserção social dos adultos. Brasília: RAAAB, UNESCO, Governo Japonês, 2006.
apenados à sociedade. BARATA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito
Penal: Introdução à Sociologia do Direito Penal. Rio de Janeiro:
Concluindo, diante do exposto, defendo que ne-
Revan;ICC, 2003.
cessitamos imediatamente de uma reavaliação da legis-
BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. São Paulo: Martin
lação penal vigente que atenda a realidade do sistema
Claret, 2000.
penitenciário contemporâneo, que retira do seio social
BECKER, Howard. Uma teoria da ação coletiva. Rio de Janeiro:
uma grande massa de jovens economicamente ativos,21
Jorge Zahar, 1977.
excluindo-os socialmente e segregando-os política e
BENTHAM, Jeremy. O panóptico. Belo Horizonte: Autêntica,
economicamente dos benefícios sociais. Possibilitar
2000.
que o interno penitenciário possa remir pela educação
BRASIL, Ministério da Justiça, Departamento Penitenciário Nacio-
é muito pouco para uma proposta de integração social;
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2007 e metas para 2008. Brasília: DEPEN, 2008.
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542 Revista Brasileira de Educação  v. 15  n. 45  set./dez. 2010


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Revista Brasileira de Educação  v. 15  n. 45  set./dez. 2010 543


Resumos/Abstracts/Resumens

of education for employability, ambos contribuyen para aumentar


productivity, competitiveness and la subordinación funcional de las
social cohesion. The governments of políticas de educación a los intereses
both countries have adhered to the económicos y para reforzar la
proposition that their position in the conformidad ideológica de la clase
international division of work is the trabajadora en los dos países.
result of the low level of qualification Palabras clave: educación de jóvenes
of the working class. The analysis y adultos; políticas públicas; trabajo
covers the New Opportunities y educación; estudios comparados de
Programme (Programa Novas Brasil y Portugal
Oportunidades) in Portugal and the
ProJovem Programme in Brazil, Elionaldo Fernandes Julião
and indicates that both contribute to
O impacto da educação e do
increase the functional subordination
trabalho como programas de
of educational policies to economic
reinserção social na política de
interests and to reinforce the
execução penal do Rio de Janeiro
ideological conformity of the working
Considerando-se que hoje, no Brasil,
class in both countries.
não há informações consistentes
Key words: youth and adult
sobre a reincidência entre egressos
education; public policy; work and
penitenciários que, sem qualquer
education; comparative studies in
fundamentação empírica, é
Brazil and Portugal.
identificada como alta no país,
Jóvenes y adultos trabajadores este artigo tem como objetivos:
poco escolarizados en Brasil y en compreender como vêm funcionando
Portugal: albos de la misma lógica os programas educativos e laborativos
de conformidad no sistema penitenciário brasileiro,
El artículo analiza medidas que qual a percepção dos diversos agentes
hacen referencia a las políticas de la operadores da execução penal quanto
educación que son dirigidas a jóvenes aos programas de ressocialização, e
y adultos poco escolarizados, en qual o impacto efetivo da educação
Brasil y en Portugal, que, a pesar de e do trabalho na ressocialização
sus diferencias, presentan analogías dos detentos. Pretendeu-se verificar
debidas a su posición en el escenario se realmente os programas de
internacional, así como se muestran ressocialização de cunho educacional
receptivas a las determinaciones e laborativo interferem diretamente
emanadas por organizaciones na reinserção social do apenado, bem
supranacionales. Común a esas como qual seu efetivo impacto na
organizaciones es la defensa de una execução penal.
concepción instrumental de educación Palavras-chave: privação de
para la labor, productividad, liberdade; sistema penitenciário;
competitividad y cohesión social. Los ressocialização; programas de
gobiernos de los dos países adhirieron reinserção social; educação e trabalho;
a las tesis de que su posición en la educação de jovens e adultos
división internacional del trabajo es The impact of education and
resultado del bajo nivel de calificación work as programmes for social
de la clase trabajadora. El análisis reinsertion on the policy of penal
comprende a los Programas Nuevas execution in Rio de Janeiro
Oportunidades, en Portugal, y Pro Considering that today, in Brazil,
Joven, en Brasil, y destaca que there is no consistent information

Revista Brasileira de Educação  v. 15  n. 45  set./dez. 2010 595


Resumos/Abstracts/Resumens

on recidivism among ex-prisoners, resocialización; programas de of Postgraduate Studies and


which, without any empirical basis, reintregración social; educación Research in Education (ANPEd). The
is considered high, the aims of this y trabajo; educación de jóvenes y philosophical dimensions of teacher
article are: to understand how the adultos formation are highlighted, in an effort
education and work programmes to understand in which direction this
function in the Brazilian penitentiary Maiane Liana Hatschbach Ourique research is going. The identification
system, how the diverse agents of penal of diverse forms of delineating the
Performances da docência:
execution perceive the re-socialization use of rationality in teaching gives
compreensão das dimensões
programmes and how effective is rise to expectations being placed on
filosóficas da formação
the impact of education and work the shoulders of the teacher and his/
O artigo mapeia a produção sobre
on the re-socialization of prisoners. her performance. The challenge is
a temática da formação, difundida,
The intention was to verify if the re- to establish communicative links, in
nos anos de 2007 a 2009, no grupo
socialization programmes based on the imageable sense, between the
de trabalho Filosofia da Educação
work and education really interfere different forms of understanding
da Associação Nacional de Pós-
directly in the social reinsertion of the the training and the rationality that
Graduação e Pesquisas em Educação
convict, as well as what its effective guides teaching in these studies. The
(ANPEd). Ressaltam-se as dimensões
impact is on penal execution. reflections on pedagogic acts nourish,
filosóficas da formação docente,
Key words: privation of liberty; in some way, the construction of
procurando entender em que direção
penitentiary system; re-socialization; agglutinating images of the ethical
essas pesquisas estão caminhando.
programmes for social reinsertion; and aesthetic dimensions of training,
A identificação de formas distintas
education and work; youth and adult and this concern with the performance
de delinear o uso da racionalidade
education of teachers constitutes a promising
docente implica, decisivamente,
field for the debate on the confluences
El impacto de la educación y expectativas colocadas sobre
between philosophy and education.
del trabajo como programas de os ombros do professor e suas
Key words: training; teaching;
reintegración social en la política de performances. O desafio é estabelecer
rationality; performance
ejecución penal en Rio de Janeiro vínculos comunicativos, no sentido
Considerándose que hoy, en imagético, entre as diferentes formas Desempeños de la enseñanza:
Brasil, no se posee informaciones de compreender a formação e a comprensión de las dimensiones
consistentes sobre la reincidencia racionalidade que guiam a docência filosóficas de la formación
entre egresos penitenciarios que, sin nesses estudos. As reflexões sobre El artículo enfoca la producción de la
cualquier fundamentación empírica, o fazer pedagógico alimentam, temática de la formación, divulgada,
es identificada como alta en el país, de alguma forma, a construção de entre los años de 2007 a 2009, en
este artículo tiene como objetivos: imagens aglutinadoras das dimensões el grupo de trabajo de Filosofía
comprender como vienen funcionando éticas e estéticas da formação, de la Educación de la Asociación
los programas educativos y laborables constituindo-se essa preocupação Nacional de Postgrado y Pesquisas
en el sistema penitenciario brasileño, com a performance da docência en la Educación (ANPEd). Se
cual la percepción de los diversos num campo promissor para o debate destacan las dimensiones filosóficas
agentes operadores de la ejecución sobre as confluências entre filosofia e de la formación docente, tratando
penal cuanto a los programas de educação. de comprender en qué dirección se
resocialización de los presos. Se Palavras-chave: formação; docência; dirigen estas investigaciones. La
pretendió verificar si realmente los racionalidade; performance identificación de formas diferentes de
programas de resocialización de Teaching performance: de delimitar el uso de la racionalidad
carácter educacional y laboratorio, understanding the philosophical docente implica, de manera decisiva,
interfieren directamente en la dimensions of training en las expectativas puestas sobre los
reintegración social del preso, bien The article maps the production on hombros del profesor y su desempeño.
como cual es su efectivo impacto en la the theme of training divulged, in the El reto es establecer vínculos de
ejecución penal. period between 2007 and 2009, by the comunicación, en la perspectiva de
Palabras clave: privación de la working group on the Philosophy of las imágenes, entre las diferentes
libertad; sistema penitenciario; Education of the National Association formas de entender la formación y la

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