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Felipe Matus Eu não sei que Don Juan você conheceu, tampouco o quanto você se aprofundou nos

ensinamentos contido nas obras de Castaneda e se realmente extraiu a essência do que ele quis transmitir.
Contudo, indiscutivelmente, é mais do que importante ressaltar algo ao se falar de Castaneda e seu
legado: o que esta por trás dos livros de Castaneda é a tradição Tolteca de conhecimento e as linhagens
Nagualistas do antigo México! Esta é a espinha-dorsal de toda obra de Castaneda e não pode ser deixada
de lado.

Deste modo, ora, falar de Castaneda é penetrar na essência e significado do nagualismo (nauallotl).

De uma maneira geral, podemos dizer que nagualismo constitui uma tradição pré-colombiana nascida no
México central entre os séculos X e XII (na verdade, é muito mais antiga do que o registro histórico
convencional formalizou). Esse mar desconhecido é a toltequidade, o Nagualismo, o toltecáyotl, o
nauallotl, a força dos toltecas, expresso no seu conhecimento e nas suas práticas. A palavra “Nagualismo”
já aparece no primeiro dicionário da língua náhuatl, o vocabulário Nahuatl-Castellano, feito em 1571,
pelo Padre Molina; que define toltecáyotl como “a arte de viver”.

Etimologicamente o termo “tolteca” pode ser traduzido como “artista”, um mestre na arte da vida. Mas
como se conquista esse poder? O que significa ser mestre na arte de se viver?

O nagualismo é uma prática real, efetiva e original, criada por colaboração de várias culturas americanas;
visa à qualidade de vida, à criação e uma vida superior, à libertação de elementos baixos do ethos
humano, e à evolução do indivíduo e da espécie. O nagualismo constitui um dos primeiros e mais fortes
fenômenos pan-americanos, era praticado ao longo de todo o continente que um dia viria a se chamar
América. De uma maneira geral, Castaneda penetra no cerne de uma tradição de conhecimento que
perpassa milênios! Isso não pode ser deixado de lado ao se tratar de sua obra!

Trata-se de uma tradição de conhecimento tão sofisticado quanto nossa civilização, tanto em termos de
conhecimento cosmológico quanto em matéria de compreensão da essência da natureza humana. As
ruinas da cidade de Tula, ao sul do México, com suas pirâmides e resquício arquitetônico dos assim
chamados “atlantes” constitui apenas uma herança visível dessa cultura e “parque de diversão”
interpretativo dos arqueólogos. Aliás, a essência da Toltequidade é percepção, não interpretação.

Como estudioso e praticante dos ensinamentos da tradição Tolteca, é importante destacar que Casteneda
foi o ultimo nagual de uma linhagem de bruxos de 25 gerações de “brujos” que se iniciou no século XVI
no México. Ele fechou uma linhagem centenária, pois não era capaz de perpetua-la devido a razões
próprias. De todo modo, entre erros e acertos, fez seu trabalho como pode.

Seu estilo literário claro aliado a uma linguagem acessível ao publico esconde um conhecimento
assombroso. Não se enganem! A efervescência em torno de sua primeira obra, na qual destaca o uso de
psicotrópico, é apenas secundário, pois a essência esconde-se nas entrelinhas da sequencia de suas
publicações! Porque? Simples! Devemos colocar a prova o que nos é dito e descobrir a validade do que se
fala por nós mesmos. Do que adiante racionalizar repetitivamente o que nos é dito, sem que uma palha
seja mexida? Os feiticeiros do antigo México eram essencialmente práticos! Tudo deveria ser colocado a
prova no campo prático, do contrario, não tinha valor!

Portanto, aqui, não estamos meramente racionalizando, mas dando um passo além da sintaxe. Este mesmo
arcabouço sintático que da valor ao nosso mundo e o constrói de cima a baixo. O mundo da feitiçaria,
como frisava Castaneda, começava quando se dá um passo além da sintaxe! A descrição do mundo deve
ser deixada para trás! Algo que, talvez, 98% de seus leitores sequer imaginam fazer.

O produto final de seus livros descamba em técnicas baseadas sobre três pilares de exercício: espreita,
ensonho e intento (algo além da vontade). Apagar a história pessoal, tornar-se inacessível, “parar o
mundo”, economia de energia, destruir a auto-importância pessoal, entre outros ensinamentos também
fazem parte da tradição, mas são técnicas secundarias que acabam amparando as principais.

Não podemos incidir no erro romantizar suas obras como se elas fossem a palavra final em termos de
xamanismo, até porque, ele evitava ao máximo, tal como Don Juan, classificar-se como xamã. O que se
buscava era o “caminho do guerreiro”, figura de linguagem elaborada pela geração dos “novos videntes”
baseado na “impecabilidade” do agir e do pensar.

Castaneda teve um papel muito importante em seu ciclo de vida, não perfeito, mas suficientemente claro
para contribuir para aqueles que estão dispostos a colocar em prática um legado de conhecimento que
foge a compreensão humana, mas que esta cessível a todos. A partir do momento em que tentamos
intelectualizar, racionalizar, classificar e converter o desconhecido, no qual se inclui o xamanismo, dentro
de nosso arcabouço teórico e descrição d de mundo, algo precioso é deixado de lado. Parece um
paradoxo, visto que, para grande parte de nós, a única forma de se conhecer o mundo parte apenas de
nosso aparelho sensitivo e da razão, e assim, aquilo que foge de nossa “descrição’ do mundo” é sempre
um mistério. O verdadeiro conhecimento é sempre um assombro!