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Macro e microestruturas textuais – Van Dijk

Hand out da aula


• Postulado inicial: uma oração é mais do que uma série de palavras.
• Decorrência do postulado anterior: os textos podem ser analisados num nível que supera a estrutura das sequências.
• A noção de sequência para este autor difere um pouco da ideia de sequência em Adam(2011): compostas por orações que por
sua vez satisfazem as condições de coesão e coerência.
• O nível de descrição proposto ultrapassa o das conexões entre as orações isoladas e suas proposições, focam-se, sobretudo, nas
conexões que fazem do texto um todo, ou pelo menos em unidades textuais maiores.
• O autor dá o nome de “Macroestruturas” à essas estruturas textuais mais globais. Em decorrência disso, denomina as estruturas
oracionais e sequenciais de texto como “microestruturas”, de modo a diferenciar essas duas dimensões textuais.
• Hipótese para embasamento inicial: apenas as sequências de orações que possuem uma macroestrutura serão denominadas
(teoricamente) textos.
• Novo estatuto para o termo “texto”: “um termo teórico que corresponde apenas indiretamente ao emprego do mesmo termo
na vida cotidiana, em que assim são designadas, sobretudo, as realizações linguísticas escritas e impressas.”
• Propõe uma descrição estrutural mais ampla da estrutura de enunciados. Além disso, se propõe à reconstrução de estruturas e
orações abstratas (bem como as proposições) e sequências na gramática.
• “texto”: uma unidade abstrata.
• Além disso, supõe-se a existência de estruturas especiais do tipo global, ou seja, macroestruturas, e que tais macroestruturas são
de NATUREZA SEMÂNTICA.
• Por isso, podemos dizer que as macroestruturas são de natureza semântica e que a macroestrutura de um texto é uma
REPRESENTAÇÃO ABSTRATA DA ESTRUTURA GLOBAL DE SIGNIFICADO DE UM TEXTO.
• Enquanto as sequências devem obedecer às condições lineares de coerência, os textos não apenas devem obedecer estas
condições (porque se apresentam como sequências de orações), mas também às de coerência global.
• É importante lembrarmos sempre que se trata de ESTRUTURAS ABSTRATAS E TEÓRICAS, ainda que se fundamentem sobre
categorias e regras do tipo geral/convencional que os falantes conhecem intuitivamente, ou seja: que dominam e empregam.
• “Da mesma forma que os falantes, as vezes, se desviam das regras semânticas e sintáticas ao produzir orações, especialmente
em contextos orais de uso da língua, também os textos (manifestos) podem desviar-se das regras de coerência linear e global. Este
fato pode se dar de forma consciente (por ex. Literatura contemporânea) ou menos conscientemente na conversação cotidiana.”
(Van Dijk)
• Postulado: AS MACROESTRUTURAS DOS TEXTOS SÃO SEMÂNTICAS
• Ideia de coerência global e de significado do texto assentados num nível superior ao das proposições isoladamente.
• Ou seja: uma sequência parcial ou inteira de um grande número de proposições pode formar uma unidade de significado num
nível mais global.
• Se aceitamos o postulado acima, podemos e devemos descrever tais macroestruturas em termos de semântica. Por isso falamos
de proposições, com o que uma macroestrutura não se diferencia formalmente de uma microestrutura, ou seja: A
MACROESTRUTURA TAMBÉM É COMPOSTA POR UMA SÉRIE DE PROPOSIÇÕES
• Relatividade do termo MACROESTRUTURA: designa uma estrutura de tipo global, mas que diz respeito a estruturas mais
específicas num outro nível “mais baixo” (hierarquicamente falando).
• Dedução lógica: aquilo que num texto se pode considerar uma microestrutura, num outro poderia ser uma macroestrutura.
• Além disso, há vários níveis diferentes possíveis de serem considerados macroestrutura de um texto, por isso cada nível “superior”
(mais global) das proposições pode representar uma macroestrutura frente a um nível inferior.
• Diremos simplesmente que a MACROESTRUTURA DO TEXTO CORRESPONDE A MACROESTRUTURA MAIS GERAL E GLOBAL DE
UM TEXTO COMPLETO, enquanto determinadas partes do texto que podem representar uma macroestrutura frente a um nível
inferior chamaremos de ZONAS MACROESTRUTURAIS.
• Como resultado dessa proposta teórica o autor elabora um esquema da possível estrutura hierárquica das macroestruturas em
diferentes níveis na figura (35):

• As macroestruturas, tanto quanto os níveis microestruturais, DEVEM CUMPRIR AS MESMAS CONDIÇOES PARA COERÊNCIA E
COESÃO SEMANTICAS, CONESÕES DE CONDIÇÕES ENTRE PROPOSIÇÕES, IDENTIDADE DE REFENTES, ETC. Não fosse assim, UM
MACRONÍVEL NÃO PODERIA FUNCIONAR COMO UM MICRONÍVEL EM OUTRO TEXTO, tal como acontece com as orações do texto.
• Além disso, importa muito para uma teoria das macroestruturas textuais saber que condição nos possibilita indicar explicitamente
como “chegamos” à macroestrutura de um determinado texto. Afinal, toda Gramática e Semântica rigorosas requerem que sempre se
descreva a estrutura de unidade e níveis em termos de sua construção ou sua derivação de outras unidades e níveis.
• Desta forma necessitamos regras para a realização da união de micro e macroestruturas, que se evidenciam como séries de
proposições ligadas a outras séries de proposições, posto que em ambos casos se trata de estruturas proposicionais significativas.
Este tipo de normas, formalmente denominadas reproduções, tem a forma de transformações semânticas: transformam uma série de
proposições em uma série de outras proposições (distintas ou iguais).
• Para simplificar, chamaremos estas regras de MACRORREGRAS. Se há uma série de proposições, também aportará uma série de
proposições, tanto na própria microestrutura quanto (e primeiro nível da macroestrutura) como entre as macroestruturas de
diferentes níveis entre si. Cada linha de união que se junta um M' de um nível superior, representa uma macrorregra.
• Na sequência apresentam-se as macrorregras e exemplos.
• Termos associados à macroestrutura: conceitos de TEMA de um texto ou TÓPICO DISCURSIVO (topic of discourse ou topic of
conversation). Simplificando muito, trata-se daquela capacidade inata de um falante que lhe permite responder a perguntas do
tipo: “do que se trata….”? Ou “sobre o que falavam…”? Mesmo em textos longos e complexos, o falante é capaz de responder
quanto ao tema do texto em si ainda que não se mencione total ou explicitamente no texto.
• Ainda que diferentes falantes produzam diferentes resumos de um mesmo texto, sempre o farão com base nas mesmas regras
gerais e convencionais, as macrorregas.
• Esta capacidade de deduzir temas, descrever objetos de um texto ou produzir resumos, bem como outras tarefas que remetem ao
conteudo do texto em sua totalidade (responder a perguntas, parafrasear, deducir, etc) tem implicações gramaticais.
• Na interpretação de um texto, o falante pode diferenciar entre uma informação que pertence a microestrutura autentica e
manifesta do texto, e a que unicamente é usada para organizar a microestrutura e sua interpretação.
• No texto se manifestam não apenas as palavras chave, mas também as orações chave, que representam diretamente uma parte
das macroestruturas. Tais orações chave tem características gramaticais especiais: de modo geral não se conectam às outras orações
do texto nem mesmo mediante o uso de conectores.
• Posteriormente discutiremos outras funções das macroestruturas, especialmente no que diz respeito aos processos cognitivos de
elaboração dos textos.

AS MACRORREGRAS:
• As macroestruturas de um texto são obtidas ao se aplicar as macrorregras a uma série de proposições. Vejamos a quatro principais
macrorregras:
• I. OMITIR
• II . SELECIONAR
• III . GENERALIZAR
• IV . CONSTRUIR ou INTEGRAR
• Estas 4 macrorregras devem cumprir o principio denominado implicação semântica (entailment).
• Ou seja, cada macroestrutura, obtida mediante as macrorregras, deve estar implicada semanticamente em seu conjunto pela
série de proposições às que se aplicam a regra. Desta forma uma macroestrutura deve resultar, quanto ao conteúdo, da
microestrutura (ou de outra macroestrutura inferior).
• Além disso, como já vimos, cada macroestrutura deve obedecer às condições de coesão/coerência normais para series de
proposições. Disto resulta, dentre outras coisas, que nunca podemos omitir uma proposição por uma pressuposição para uma outra
proposição de mesmo macronível, pois por isso o nível já não seria completamente interpretável, haveria uma lacuna irrecuperável.
• 1ª MACRORREGRA: OMITIR
• É a mais simples de todas e significa que toda informação de pouca importância e não essencial pode ser omitida.

• Segundo o esquema (37) (i) significa que quando temos uma série de proposições [α, β, γ ] podemos simplesmente eliminar γ e se
as outras duas proposições não têm uma função anterior no texto, por exemplo ser pressuposto para as proposições seguinte.
Vejamos um exemplo: Passou uma moça de vestido amarelo, esta oração contém as seguintes proposições:
• (38) exemplo
• (i) Passou uma moça.
• (ii) Vestia um vestido.
• (iii) O vestido era amarelo.
• Segundo a regra I (OMITIR) esta oração pode reduzir-se a:
• (39) (i) Passou uma moça./ (ii) Vestia um vestido.
• E, finalmente a:
• (40) Passou uma moça.
• Para a interpretação do texto restante não é necessário saber que a moça usava um vestido e tampouco a cor do vestido. Este é o
tipo de informação considerada não importante em relação ao texto inteiro. Isto não significa que a informação em si não seja
importante, mas que ao final se revela secundária para o significado ou para a interpretação em um nível mais global. Mais tarde
veremos que estas proposições secundárias realmente são esquecidas tão logo se inicia a elaboração cognitiva.
• As proposições omitidas são não essenciais no sentido de que as características que elas assinalam nas proposições são casuais e
não inerentes. O fato de que vestia um vestido não é parte do conceito esencial de ver uma moça, tampouco pode se considerar
característica essencial de um vestido o fato de ser amarelo. Assim que aplicamos a regra I perdemos por completo uma parte da
informação; a regra não pode ser aplicada de forma inversa para se obter de volta os mesmos detalhes.

2ª MACRORREGRA: SELECIONAR
• Não obstante, na 2ª regra, SELECIONAR , poderemos reconstruir inversamente a informação omitida (quando aplicada a
macrorregra I).Também neste caso se omite certa quantidade de informação segundo (37), mas neste caso, a relação entre as séries
de proposições se dá muito mais claramente.
• (41)
• (i) Pedro foi até seu carro.
• (ii) Entrou.
• (iii) Chegou a Frankfurt
• De acordo com a regra II, podemos omitir as proposições 41 (i) e 41(ii), pois são condições, parte integrante ou consequências de
outra proposição não omitida em 41(iii).
• Devido ao nosso conhecimento geral sobre transporte e automobilismo sabemos que para ir de carro a algum lugar temos de ir
até onde o carro está e entrar nele.
• Da mesma forma podemos omitir também a proposição “Chegou a Frankfurt”, pois é evidente que se alguém viaja, chega a algum
lugar. Se este não fosse o caso, não poderíamos omitir essa informação, e a proposição (mas nunca chegou) teria, obviamente, uma
importância semântica para todo o texto, por exemplo, em uma parte sobre um acidente de automóvel que aconteceu com Pedro em
seu camino a Frankfurt.
• Portanto, a regra II exige que a proposição β implique a série anterior (α e γ), a raiz de conhecimentos gerais sobre situações,
atuações e sucessos (marcos), ou devido a postulados semânticos para conceitos.
• Contrariamente à regra I, a informação omitida pode recuperar-se reduzida (recoverable): se possuímos a informação de que
alguém viajou de carro a Frankfurt, podemos deduzir que esta pessoa caminhou até onde o carro está estacionado, entrou nele e
partiu. Uma parte desta informação é constitutiva para o conceito ou marco aludido, outras informações, no entanto, não são
essenciais em circunstancias normais, por ex. Que antes de partir tenha feito uma faxina ou tenha feito uma reserva de bilhetes (se
tivesse viajado de trem.)

3ª MACRORREGRA: GENERALIZAR
• Também omite informações essenciais, mas não o faz de modo que se percam (como na regra I). Se omitem componentes
essenciais de um conceito ao substituir uma proposição por outra nova, segundo o esquema 37 (ii):
• (42)
• (i) Havia uma boneca no chão.
• (ii) Havia um trenzinho de madeira no chão.
• (iii) Havia legos no chão.
• Estas proposições podem ser substituídas por: (43) Havia brinquedos no chão.
• Como todas as proposições de (42) implicam conceitualmente (43), uma série de conceitos são substituídos por um superconceito
(hiperônimo) que define o conjunto abarcado. As palavras “canario, gato, cachorro, etc” podem ser substituídas segundo esta regra
pelo conceito de “animal doméstico” – “pet”.
• A diferença da 3ª regra em relação à 1ª consiste em que na 3ª se omitem características constitutivas (essenciais) típicas dos
referentes, e não características casuais. Nas generalizações deste tipo se produz também aquilo que normalmente chamamos de
ABSTRAÇÃO. O sentido desta operação se assenta no fato de que os traços típicos mais peculiares de uma série de objetos se
tornam relativamente pouco importantes no MACRONÍVEL.
• A regra não se limita apenas às predicações que em uma língua se expressam por meio de substantivos (canários, gatos,
cachorros, etc.), mas, sobretudo, se refere às que se expressam mediante verbos e adjetivos. As predicações como “prometer,
recomendar, tranquilizar” podem abstrair-se por exemplo, com “dizer”.

4ª MACRORREGRA: CONSTRUIR ou INTEGRAR


• Tem um papel muito importante. Sua função se assemelha a da regra II, mas opera, segundo o esquema (37) (ii), de modo que a
informação seja substituída por uma nova informação que não é omitida nem selecionada.
• Neste caso também há uma relação inerente entre os conceitos expressos pela série de proposições que formam o input da regra:
condições habituais, circunstancias, componente, consequências, etc., de uma situação, acontecimento, processo, atuação, etc. O
texto em si pode mencionar uma série destes aspectos, de modo que juntos podem formar um conceito mais geral ou global como
em:
• (44) (i) Fui à estação,
• (ii) Comprei uma passagem,
• (¡ii) Cheguei à plataforma.
• (iv) Subi no trem.
• (v) O trem partiu.
• Esta série, que poderia ser ainda mais subdividida, define em sua totalidade a seguinte proposição: (45) Peguei o trem.
• As proposições em (44) são elementos – constitutivos ou opcionais, mas não obrigatórios – do nosso conhecimento convencional,
ou seja, o marco, de viajar de trem. A regra é interessante pelo fato de que o conceito viajar de trem não tem necessariamente que
estar presente no texto: só faz falta mencionar uma série de componentes necessários do “viajar de trem” para poder deduzir tal
conexão a partir do texto.
• Neste caso se observa que o princípio geral da implicação semântica (entailment), no qual se devem embasar todas as regras, não
tem porquê aplicar-se de uma maneira lógica estrita (dedutiva), embora com frequência se aplique de modo indutivo habitual. Se
recebemos a informação “Fui à estação e viajei a Paris”, deduziremos obviamente que alguém tomou o trem que vai para Paris, ainda
que esta não seja a sequência lógica obtida a partir da informação dada.
• Como já vimos na diferenciação entre informações implícitas e explícitas nos textos, esta regra também supõe usarmos a
informação não mencionada, mas racionalmente deduzível, para construir os conceitos mais globais, ou seja, as macroproposições.
• Ainda que não possuamos um quadro teórico completo das macrorregras existentes, no momento devemos nos fixar nas 4
operações básicas.
• Por fim, há que se adicionar uma limitação geral: a questão que se coloca é o quão “fortes” essas regras são realmente e o
quão frequentemente podem ser aplicadas. Por isso é importante que se leve a cabo uma certa abstração e generalização, mas não
de modo que se perca o conteúdo mais “genuíno” do texto. Isto requer que se opere, em todos os casos e com todas as regras, do
modo mais limitado possível: ao generalizar e construir há que se eescolher um superconcerto (hiperônimo) diretamente superior.
Por isso não passaremos de “animal doméstico” à “animal” e tampouco de “ser vivente” à “coisa”.
• Para esclarecer, diremos que a macroproposição resultante sempre deve ser obtida a partir da IMPLICAÇÃO IMEDIATA das
proposições existentes no texto. Assim também se garante que a informação, em todos os níveis, inclusive em longos fragmentos
textuais, siga sendo bastante específica, pois não produzimos um resumo do tipo: “alguém fazia algo com alguém”.
• Após estas considerações sobre as macrorregras, chegamos à conclusão de que uma determinada MACROESTRUTURA pode, a
princípio, embasar-se em um número infinitamente grande de textos, a saber, todos os textos que têm o mesmo significado global.
• Em um dos textos, a moça vestia um vestido amarelo, em outro, um azul, em outro, um negroo, etc. Ou foi ver sua tia, ou foi à
estação, ou ao cinema, etc. E em todos os casos o globalmente importante seria apenas o fato de que a vi, a achei bonita e me
encantei por ela, por exemplo. O restante é de fato uma questão secundária. As regras nos permitem decidir de maneira mais ou
menos exata o que é principal e o que é secundário, segundo o contexto de cada texto. Se, ao aplicar a regra, podem produzir-se
duas macroestruturas de mesmo nível, estaremos diante de um texto macro ambíguo, com o que queremos expressar que sob um
ponto de vista formal postula no mínimo duas interpretações válidas possíveis.
• Levando-se em conta que diferentes falantes podem efetuar diferentes aplicações das regras, é provável que, na realidade, a
estrutura macro-ambígua se manifeste com muita frequência.
• Para um texto “significar” globalmente Mi1, enquanto para outro pode significar M’ 1 é algo que depende de vários fatores como
interesses de leitura, conhecimentos prévios, desejos, objetivos de leitura, etc., questão que será abordada posteriormente. Aqui,
nos limitaremos ao significado ou ao conteúdo geral, convencional e global dos textos. De fato, todas as interpretações individuais
devem ser, por natureza, uma função deste significado.
• Já constatamos que o conceito intuitivo de tema ou objeto (tópico) de um texto deveria poder ser explicado pelo conceito de
MACROESTRUTURA.
• De fato, parece que o tema é nada mais, nada menos, que uma MACROPROPOSIÇÃO de um determinado nível de abstração. O
tema de uma série de proposições como (44) realmente é algo como VIAJAR DE TREM, ou por acaso, por uma proposição ainda
melhor: FAZER (EU, UMA VIAGEM DE TREM) .
• Se concebemos o tema como uma proposição que equivale a uma macroestrutura ou parte dela, o texto também implica o tema.
Segundo as regras III e IV, há que se observar que este tema não tem porque ser explicitamente nomeado no texto. Não obstante,
pode-se falar de uma palavra temática ou oração temática; ambas possuem a importante função cognitiva de colocar o leitor ou
ouvinte em condições de reconstruir a MACROINTERPRETAÇÃO correta ou esperada do texto: trata-se de uma ajudinha para supor
de que se trata o texto. Nestes casos, são típicos os títulos de texto, por exemplo, que por definição são uma parte da macroestrutura,
de modo que já sabemos de que se tratará, globalmente, nestes textos. (Lembre-se do texto do braile)
• Por fim, devemos prestar atenção a uma limitação ainda mais importante na aplicação das macrorregras. Em que pese o caráter
generalizante como principio de organização e redução global da informação, as macrorregras podem ser aplicadas de forma
diferente para vários tipos de textos e em diferentes contextos pragmáticos.
• Por exemplo, as regras convencionais para uma narração requerem que num determinado momento se faça necessária uma ação
(global), com a qual, neste caso, a ação de torne mais essencial que o aspecto exterior das personagens que atuam ou das condições
contextuais e/ou extratextuais. Por isso podemos dizer que o resultado da aplicação das macrorregras é uma proposição de ação e
não uma descrição das circunstâncias. Posteriormente veremos como funcionam estas limitações.
• Enfim, agora vamos usar alguns exemplos concretos para a aplicação das macrorregras e a construção de uma macroestrutura que
ilustre a hipótese reformulada.
• Para a formação sistemática da teoria, teríamos que, evidentemente, usar todo tipo de texto e aplicar as regras de forma
puramente automática, ou seja: algoritmicamente, por exemplo, com ajuda de um computador, devendo observar-se as limitações e
hipótese dadas. No entanto, resultaria ainda em algo prematuro, pelo que a aplicação seria, por assim dizer, semi-explícita.
• Como primeiro exemplo, elaboraremos algo mais breve na história empregada em (27) para a análise da coerência linear do texto:
• (46)
• S1 Este ano Pedro decidiu ir praticar esportes de inverno.
• S2 Até então, sabia apenas que tinha ido de férias à Itália no verão, mas agora queria aprender a esquiar, além disso, o ar da
montanha lhe parecia muito saudável.
• S3 Foi a uma agencia de viagens para buscar uns folhetos, para então decidir aonde gostaria de ir.
• S4 Áustria era o que, de fato, mais lhe atraía.
• S5 Uma vez feita a escolha voltou à agencia de viagens para agendar sua viagem e reservar um hotel que havia visto no folheto da
agencia.
• S6 Naturalmente deveria também ter comprado um equipamento de esquí, mas como não tinha dinheiro suficiente, resolveu
alugá-lo ali mesmo.
• S7 Para evitar o grande fluxo de turistas decidiu ir somente depois do Ano Novo.
• S8 Uma vez chegado o grande dia, o seu pai o levou, a noite, à estação para que não tivesse que carregar toda a bagagem. (...)
[veja (27)]
• Este texto é bem simplesinho, mais ou menos no estilo de uma redação, mas já é o suficiente por apresentar ao menos as
complicações típicas das sequências narrativas.
• Suponhamos que este texto (nada natural) comece com S1. Com esta oração se introduzem os referentes Pedro e esportes de
inverno. (ou melhor: a intensão de desfrutar férias de inverno). Segundo nossas regras não podemos eliminar todas as proposições e,
que S1 se embasa pela simples razão de que por exemplo: “Pedro” é uma pressuposição para orações posteriores. Ou seja, ao fim e
ao cabo, Pedro é o referente central do texto, ou seja, aquele referente a respeito do qual se introduzem todos os demais referentes.
• Certamente poderíamos omitirar a proposição “decisão (a,P)” porque é uma condição habitual para a execução de uma ação.
Portanto, se tirarmos a proposição “ir a (Pedro, esporte de inverno), poderemos eliminar ou integrar, seundo a regra II ou IV, grande
parte de S1.
• S2: Remete às razões pelas quais Pedro quer praticar esportes de inverno. Estas razões são tão típicas que são parte integrante do
marco “esporte de inverno”, segundo a regra II se pode omitir a motivação de uma ação posteriormente mencionada.
• S3: Anuncia ações preparatorias para a ação principal; esta ação preparatória tem um objetivo em si mesma (buscar uns folhetos)
e uma consequência (escolher o lugar). Esta ação preparatória é típica do marco TURISMO, mas não é, por si só, uma condição
necessária para a ação principal pois também se podem praticar esportes de inverno sem a ajuda de uma agencia de viagens; por
conseguinte, esta informação só tem importância local para o texto no conjunto, e não influi no resto da interpretação do
acontecimento.
• S4: Pode ser omitido da mesma forma que S3, posto que as preparações mentais (preferências) e os motivos, sob um ponto de
vista global, são de pouca importância ou estão implícitas na ação principal. No entanto, neste caso persiste a informação sobre o
objetivo da ação VIAGEM, AUSTRIA, como parte da categoria LUGAR de uma proposição principal como PEDRO VIAJA À AUSTRIA
PARA PRATICAR ESPORTES DE INVERNO, que o leitor pode formular agora como uma hipótese que faz referencia ao “objeto” do
texto.
• S5: Registra outras ações preparatórias como condições previas habituais para o referente VIAGEM e FÉRIAS (agendar a viagem,
reservar o hotel), mas também introduz o referente hotel, ao que mais tarde se remeterá com um artigo determinado/ nome. Além
desta informação, o resto do mencionado e, S5 pode integrar-se ao conceito “VIAJAR”.
• De uma forma ainda mais específica, S6 enquadra bem o referente ESPORTE DE INVERNO, ao menos na última parte. Posto que
aqui torna a se tratar de intenções ou projetos, estes podem ser omitidos de acordo com a regra II ou integrar-se, segundo a regra IV.
• S 7: Confere a referência temporal à ação (principal) projetada, introduzindo assim o espaço de tempo do texto, este é um
elemento que evidentemente pertence ao significado global do texto completo, pois as demais ações ocorrerão neste tempo. Já a
motivação para a ação neste período, é, mais uma vez, uma informação relativamente pouco importante (do mesmo modo poderia
ser antes do Ano Novo, sem que isto influísse no restante do texto).
• Em resumo, as orações S1-S7 nos dão a conhecer uma série de ações preparatórias (e alguns de seus componentes) para a ação
principal que se anuncia em S1, de modo que podemos dizer que S1 é uma oração temática, além de nos inteirarmos das condições
mentais (decisão, planejamento) para a execução da ação principal que começa, de fato, em S8.
• S8: Implica uma condição previa habitual e necessária para qualquer viagem de trem, a saber, ter que ir à estação de trem, tomar
o trem. Novamente uma informação bastante irrelevante. Segundo a regra II odem ser omitidas tanto a constituinte normal (ir a
estação) como a ação auxiliar anterior.
• Uma vez que a viagem represente um componente principal das férias, não omitiremos S1 em (27), mas, por outro lado,
omitiremos a informação sobre o trem noturno (regra I). Segundo a regra II, também se omite a razão da decisão, ou seja (27) S2.S3
de (27) é uma consequência normal da ação principal, pelo que também podem ser eliminadas segundo a regra II. S4 contém um
elemento habitual de inverno que já vem implicado no esporte de inverno. A informação seria um detalhe importante para o texto
inteiro apenas se não nevasse e por isso os planos de suas férias de inverno fracassassem.
• S5 introduz a verdadeira instancia (e localização) do hotel em questão, sendo de importancia como “lugar de permanencia” para
todo o texto.
• Las frases S6 y S7 fazem menção ao estado mental do referente central (o herói) Pedro, e que de momento não se podem omitir,
dado que a “diversão” representa um dos objetivos mais importantes das férias (de inverno), não sendo, no entanto, de consequência
necessária. Estas proposições, e outras que poderiam serguir-se, provavelmente formarão a proposição global: “Pedro gostou
muito!”.
• Reconstruiremos este trecho num primeiro nível de abstração como segue: ( 47 )
• ( i) NESTE ANO, PEDRO QUERIA IR PRATICAR ESPORTES DE INVERNO NA AUSTRIA.
• (ii) FEZ OS PREPARATIVOS NECESSÁRIOS.
• ( iii) TOMOU O TREM.
• (iv) ELE GOSTOU MUITO DO HOTEL SITUADO NAS MONTANHAS

• Esta informação pode se generalizar mais ainda: ( 48 )
• ( i ) PEDRO FOI DE TREM À AUSTRIA PARA PRATICAR ESPORTES DE INVERNO.
• (ii ) ELE GOSTOU MUITO.
• Uma vez que normalmente sabemos que se costuma ir de trem às estações de inverno, também podemos omitir esta informação,
e eventualmente a circunstancia de que se encontrava na Áustria, dado que a indicação de lugar não é a mais importante para a
interpretação e isto resultará em:
• ( 49 )
• ( i ) PEDRO VIAJOU PARA PRATICAR ESPORTES DE INVERNO.
• ( ii) ELE GOSTOU MUITO.
• Uma vez que empregamos orações normais para expressar as macroproposições, pode-se demonstrar diretamente que
embasados nas macrorregras podemos também resumir o texto tratado. Segundo a regra geral, as proposições 49 (i) e (ii) realmente
estão implícitas no texto.
• Praticando
• Usando as macrorregras estudadas, sumarize os fragmentos abaixo:
• A) No supermercado, Paulo encontrou Margarida, que estava usando um lindo vestido azul de bolinhas amarelas.
• Sumarização: Paulo encontrou Margarida.
• Informações Excluídas: circunstâncias que envolvem o fato (no supermercado)
• Qualificação/descrição personagens: (que estava usando um lindo vestido de bolinhas amarelas.
• B) Você deve fazer as atividades, pois, do contrário, não vai aprender e vai tirar nota baixa.
• C) Maria era uma pessoa boa. Gostava de ajudar as pessoas.
• D) Discutiremos a construção de textos argumentativos, isto é, aqueles textos nos quais o autor defende determinado ponto de
vista por meio do uso de argumentos, procurando convencer o leitor de sua posição.
• E) Não corra tanto com seu carro, pois, quando se corre muito, não é possível ver a paisagem, além disso, o número de acidentes
fatais aumenta com a velocidade.
• F) O principal suspeito do assassinato era o marido: era ciumento e não tinha um álibi, dado que afirma ter ficado rondando a casa
para ver se a mulher se encontrava com o amante.
• G) De manhã, lavou a louça, varreu a casa, tirou o pó e passou a roupa. A tarde, foi ao banco pagar contas, retirar talão de cheques
e extrato e, à noite, preparou aula, corrigiu os trabalhos e elaborou a prova.