Você está na página 1de 136

PATOLOGIAS E RECUPERAÇÃO DE ESTRUTURAS DE

CONCRETO ARMADO

Notas de aula

Prof. Dr. José Bento Ferreira


DEC/FEG/UNESP
Guaratinguetá

2005
Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 2

1. INTRODUÇÃO

Quando no referimos a Patologias das Edificações, devemos ter sempre


em mente que as estruturas, como todos os elementos deste planeta, sofrem
transformações ao longo do tempo, e que quando projetamos e executamos uma
estrutura, deve-se considerar desde o início que ela terá uma vida útil limitada, ao longo
da qual ela sofrerá um processo de deterioração devido a diversos fatores, internos e
externos a ela. Por apresentarem esses fatores um grau significativo de variáveis, torna-
se necessário o monitoramento do comportamento da estrutura e dos materiais que a
compõem, para que, com um grau razoável de certeza, possamos estimar a vida útil
restante das estruturas e, quando for o caso, propormos ações que possam a estender.
Procedendo dessa forma, poderemos garantir, com considerável precisão, por quanto
tempo ela poderá ser utilizada, com ou sem restrições, durante a sua vida útil.
De um modo genérico, a Área de Patologia, na Engenharia Civil, trata da
perda de desempenho das estruturas, devido a processos de deterioração, tanto dos
materiais como da própria estrutura, permitindo, através desses estudos, uma tomada de
decisão a respeito das linhas de ação a serem estabelecidas. Assim, neste curso,
consideraremos sempre que existem patologias de estruturas e patologias de materiais,
sendo imprescindível a correta definição à qual delas se deve a perda de capacidade da
estrutura.
O mecanismo habitualmente utilizado para a verificação
do estado de uma estrutura é a vistoria. Como será exposto adiante, é através da sua
periodicidade que podemos determinar qual o seu estado atual de conservação e a sua
velocidade de deterioração, projetando-se, com uma precisão razoável, como esse
estado evoluirá em um determinado espaço de tempo. Esse procedimento preventivo se
torna ainda mais importante quando consideramos que diversos estudos demonstram
que a demora na detecção de problemas estruturais e na conseqüente ação recuperadora
aumenta os custos financeiros de forma exponencial. Ele também permite que se
estabeleça um sistema de gerenciamento de estruturas, onde se determinam as
prioridades de manutenção e recuperação, permitindo uma melhor utilização dos
recursos financeiros disponíveis, que são sempre escassos para esses tipos de obras.
Quanto às obras de recuperação, que devem ser encaradas como uma
situação atípica mesmo com as modernas tecnologias existentes, elas só apresentam
efetividade quando a solução se baseia no estudo do problema específico a ser
solucionado, pois não existem soluções padronizadas, já que cada estrutura, por ter sido
executada com uma combinação específica de materiais, e tendo uma relação única com
o ambiente, nunca terá patologias exatamente iguais a outras edificações, sendo que em
alguns casos as semelhanças são enganosas. No entanto, isso não quer dizer que os
materiais a serem utilizados na sua recuperação sejam sempre diferentes, mas sim que
eles serão empregados de forma a resolver o problema específico encontrado.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 3

2. DESEMPENHO DE ESTRUTURAS

O conceito de desempenho de uma estrutura é necessário para que haja


objetividade nas ações a serem tomadas, pois ele permite considerar que toda estrutura
pode apresentar manifestações patológicas, mas nem todas comprometem o uso da
edificação. Esse conceito é muito importante na análise das vistoria e nas decisões sobre
as possíveis intervenções que se fizerem necessárias, porque passamos a admitimos que
toda estrutura sofre deterioração, mas a forma e velocidade com que ela se dá é que
deve estabelecer a prioridade das intervenções necessárias para garantir o seu
desempenho, sendo que no Brasil se toma como base de análise do comportamento
estrutural a NBR 6118/80.
Assim, a vistoria não deve apenas informar sobre a existência da
deterioração, mas deve também informar qual a sua velocidade provável de evolução,
de forma a se estabelecer quando o desempenho da estrutura ficará abaixo dos limites
mínimos especificados para sua utilização segura, exigindo intervenções específicas
para garantir ou prolongar a sua vida útil.
Temos a considerar que o desempenho real espelha o conjunto de ações
que resultam no projeto, execução e conservação da obra e a sua vida útil corresponde
ao período durante o qual esse desempenho está acima dos limites mínimos
especificados, sendo ela prolongável pelas chamadas “intervenções técnicas”.
A representação gráfica desses conceitos pode se visto na figura 1, onde
vemos que a tendência natural de uma estrutura é apresentar uma curva de deterioração
exponencial, sendo que os índices que determinam esse comportamento são definidos
pela concepção, projeto, execução e conservação da obra. Se fosse possível determinar
esses índices de forma numérica, poderíamos considerar as vistorias como
desnecessárias. No entanto, como isso não é possível na prática, são essas inspeções que
determinam a tendência da curva.

Figura 1: Curva de degradação estrutural genérica, com a vida útil aumentada por uma intervenção
técnica (recuperação estrutural).

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 4

Devemos ainda considerar as figuras 2 e 3, onde o comportamento da


estrutura é atípico, seja devido a um acidente estrutural, como abalos, incêndios, etc.
(figura 2), como pode ser devido a problemas de projeto ou execução, que podem fazer
com que a estrutura, já no início da sua vida útil, apresente desempenho degradado
(figura 3).

Figura 2: Curva de degradação estrutural genérica, onde temos um acidente diminuindo a vida útil
projetada e uma intervenção técnica (recuperação estrutural) para restabelecer a condição de uso.

Figura 3: Curva de degradação estrutural genérica, onde temos uma vida útil muito reduzida, devido
provavelmente a fatores congênitos, e a recuperação da capacidade de uso por uma intervenção
técnica (recuperação estrutural).

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 5

3. PATOLOGIA DAS CONSTRUÇÕES

Para que se proceda a uma vistoria, é necessário que sejam consideradas


as diversas patologias das construções e as suas manifestações detectáveis, seja por
observação direta ou através de técnicas laboratoriais. Por ser matéria extensa, será feita
uma apresentação sucinta tanto das suas origens como da degradação que provocam.

3.1. ORIGENS

Consideramos que uma estrutura tem quatro fases:

a. Concepção: fase na qual definimos a função da estrutura, as cargas atuantes,


fazemos o lançamento da estrutura e escolhemos os materiais que a
comporão.
b. Projeto: fase na qual executamos os cálculos definitivos, o dimensionamento
das peças, especificamos os materiais a serem utilizados e executamos os
planos que nortearão a sua construção.
c. Execução: fase na qual executamos a obra, seguindo os projetos previamente
elaborados, que eventualmente podem sofrer modificações de maior ou
menor monta nesta fase.
d. Utilização: nesta fase temos o uso da estrutura e os procedimentos de
conservação.

Temos como axioma, nesta área, que quanto mais cedo a falha é
cometida, dentro do processo de criação da estrutura, mais difícil é a sua solução, pois
um projeto que foi concebido de forma errônea é muito mais difícil de ser recuperado
do que aquele que teve uma execução incorreta ou apenas foi mal conservado, pois o
erro de concepção normalmente se encontra em toda a estrutura, enquanto que os outros
geram patologias mais localizadas.
Assim, é importante que na vistoria se procure detectar em que fase da
obra as falhas foram cometidas, pois esse fator será determinante nas providências a
serem tomadas.
Consideramos, portanto, que na fase de concepção são mais comuns os
erros de avaliação da cargas, as formas de transmissão de esforços dentro da estrutura e
o lançamento da estrutura de forma incompatível com a arquitetura da obra, bem como
a escolha inadequada do material com o qual será executada a estrutura.
Na fase de projeto, são mais comuns os erros no dimensionamento, no
plano de concretagem, juntas e recobrimento da armadura, especificações incorretas ou
insuficientes dos materiais e detalhes construtivos inexistentes ou inexeqüíveis.
Na fase de execução, são comuns os erros de execução das fundações, de
posicionamento da armadura, preparo das formas (alinhamento, escoramento e
limpeza), preparo do concreto e uso incorreto de aditivos, seu lançamento e cura,
retirada de escoramento, desforma e carregamento excessivo por pisos ou contrapisos.
Temos a salientar que segundo diversos estudos feitos, apesar de discrepantes em
números, apontam esta fase como aquela em que a maior parte das falhas é cometida,
aqui no Brasil. No entanto, esses estudos, ao se concentrarem na construção civil, não
necessariamente refletem a situação quando nos referimos a estruturas de maior porte.
Na fase de uso, são comuns o carregamento incompatível com o previsto,
devido a mudanças na forma de utilização da construção e a falta de manutenção da
estrutura.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 6

3.2. PATOLOGIA DOS MATERIAIS

3.2.1. CONCRETO

A durabilidade do concreto está diretamente ligada à escolha dos


materiais e ao estabelecimento de parâmetros de dosagem, assim, temos a considerar:

3.2.1.1. Materiais constituintes

CIMENTOS PORTLAND

Por ser um material que, dentro de parâmetros estabelecidos por norma,


pode apresentar variações de comportamento químico, deve ser analisada a sua
composição e o ambiente em que ele se insere
A composição básica dos cimentos portland nacionais simples, em
termos de componentes anidros, é a seguinte:

- CaO – 61 a 67 % (1)
- SiO2 – 20 a 23 % (2)
- Fe2O3 – 2 a 3,5 % (3)*
- Al2O3 – 4,5 a 7 % (4)
- MgO – 0,8 a 6 %
- SO3 – 1 a 2,3 %
- Álcalis – 0,3 a 1,5 %

(1) – na química simplificada adotada para o cimento portland, este composto é


representado pela letra C
(2) – na química simplificada adotada para o cimento portland, este composto é
representado pela letra S
(3) – na química simplificada adotada para o cimento portland, este composto é
representado pela letra F
(4) – na química simplificada adotada para o cimento portland, este composto é
representado pela letra A

* - Nos cimentos brancos, este teor é próximo de 0 %

Durante o cozimento, as reações de combinação química provocam o


surgimento os seguintes compostos anidros, com as proporções consideradas para
cimentos normais:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 7

- C2S – Silicato dicálcico – 14 a 35 %


- C3S – Silicato tricálcico – 42 a 60 %
- C3A – Aluminato tricálcico – 6 a 13 %
- C4AF – Ferro aluminato tetracálcico – 5 a 10 %

Durante o processo de hidratação, esses compostos apresentam o


seguinte desempenho e composto hidratado final:

Composto Resistência Velocidade Calor de Composto formado


final de reação hidratação
C2S Boa Média Baixo C3S23H2O + Ca (OH)2
C3S Boa Baixa Médio C3S23H2O + Ca (OH)2
C3A Fraca Alta Alto Aluminato de cálcio
hidratado
Sulfoaluminato de cálcio
hidratado (estrignita ou Sal
de Candlot)
C4AF Fraca Alta Baixo Aluminato de cálcio
hidratado
Ferrato de cálcio

Observações:
- O hidróxido de cálcio formado é denominado Cal Livre, podendo corresponder a
valores entre 13 e 17 % da massa do material, e é um dos principais fatores que
confere aos concretos novos ph = 13. No interior do concreto, permanece sob a
forma de hidróxido, mas sofrendo dissolução e aflorando à superfície, se
transforma em CaCO3, gerando eflorescências brancas. Em grande quantidade,
permite o ataque ambiental ao concreto, devido a sua pequena resistência a
ácidos. Deve-se notar, pelo balanceamento da fórmula, que o C 3S gera 3 vezes
mais Cal Livre que o C2S, o que significa que cimentos com teor mais alto de
C3S ficam mais sujeitos a ataques químicos que aqueles com teor significativo
de C2S
- O sulfoaluminato de cálcio hidratado, normalmente conhecido como estrignita
ou Sal de Candlot, é um material altamente expansivo, devido à grande
quantidade de água que incorpora no seu processo de cristalização. Surge à
partir da associação do aluminato de cálcio hidratado com o sulfato proveniente
do gesso ou em obras em contacto com solos ou águas selenitosas, ou a água do
mar, que possui sulfatos em dissolução. Quando ocorre em quantidades
significativas, leva à ruína da peça.
- Considera-se que a velocidade de reação do cimento está associada a sua
composição química (balanço entre C3S e C2S) e grau de moagem. Variando-se
a quantidade de rocha calcárea na mistura, é possível se obter um maior teor de
C3S, o que gera um processo químico mais rápido. Esse fator, associado a um
maior grau de moagem gera o Cimento Portland de Alta Resistência Inicial,
definido na nova classificação como CP V - ARI

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 8

Cimentos portland com adições

Cimentos portland com adições são aqueles que apresentam, na sua


composição, parcelas significativas de materiais diferentes do clínquer e do sulfato.
Essas adições sempre apresentam compatibilidade química com a formulação básica do
cimento portland, e são classificadas como ativas, quando elas próprias desenvolvem
resistência mecânica através de reações de hidratação, ou adições inertes, quando não
desenvolvem reações químicas de nenhuma espécie. No Brasil, são admitidos 3 tipos de
materiais como adições:

Material carbonático: constituído de pó calcáreo, ou seja, rocha calcárea


finamente moída, cujo teor de calcita (CaCO3) deve ultrapassar sempre 85 %.
Essa adição é admitida, conforme pode ser visto na tabela de composições
apresentada a seguir, em porcentuais que variam de 0 a 10 %. Valores maiores
não são admitidos, pois provocam modificações indesejáveis na velocidade de
reação e emissão de calor de hidratação da mistura cimento-água. Nas
proporções estabelecidas pela norma, esta é considerada uma adição inerte.

Escória granulada de alto-forno: tem estrutura vítrea constituída pelos


mesmos óxidos constituintes do clínquer, embora apresentem proporções
diferentes. Devido á sua forma de obtenção, quando finamente moída e
associada á água, apresenta reação de hidratação pouco significativa, o que é
mudado pela alcalinização do meio, quando então esse material apresenta
velocidade de reação apenas um pouco mais lenta que a do cimento portland
comum, com menor emissão de calor de hidratação. Normalmente essa
alcalinização é conseguida pela associação da escória a uma determinada
quantidade de clínquer e sulfato, como pode ser visto na tabela de composição
de cimentos.

Pozolanas: são materiais naturais ou artificiais, constituídos na sua grande parte


por sílica na sua forma ativa, que em contacto com o hidróxido de cálcio, forma
compostos cristalinos hidratados de estrutura semelhante à aquela formada pelo
clínquer do cimento portland. Na sua associação com o cimento portland, a sua
reação se dá com a cal livre formada a partir da reação de hidratação do C 2S e
C3S. O seu comportamento é análogo a da escória quanto à velocidade de reação
e calor de hidratação. As pozolanas naturais costumeiramente são terras
vulcânicas, de ocorrência rara no Brasil, enquanto as pozolanas artificiais são as
cinzas volantes resultantes da queima de carvão mineral, as argilas calcinadas a
temperaturas superiores a 700 ºC e outros materiais que, através de um processo
de calcinação ou catalisação, apresentem alto teor de sílica na sua forma ativa,
sendo enquadradas neste caso as cinzas da casca de arroz e a microssílica.

Essas adições feitas à forma básica do cimento portland geram os


diversos tipos de cimentos utilizados no Brasil. Eles têm a seguinte especificação:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 9

Especificações Brasileiras para Cimentos Portland (1991)

1. Composição química

. Cimento portland comum


CP I Cimento portland comum
CP I-S Cimento portland comum com adição

. Cimento portland composto


CP II-E Cimento portland composto com escória
CP II-Z Cimento portland composto com pozolana
CP II-F Cimento portland composto com filler

. Cimento portland de alto-forno


CP III

. Cimento portland pozolânico


CP IV

. Cimento portland de alta resistência inicial


CP V-ARI

2. Classes de resistência

Cimento Classe Resistência à compressão aos 28 dias de idade (MPa)


Limite inferior Limite superior
CP I 25 25,0 42,0
CP I-S 32 32,0 49,0
40 40,0 -
CP II-E 25 25,0 42,0
CP II-Z 32 32,0 49,0
CP II-F 40 40,0 -
25 25,0 42,0
CP III 32 32,0 49,0
40 40,0 -
CP IV 25 25,0 42,0
32 32,0 49,0
Aos 7 dias Aos 7 dias
CP V-ARI 34,0 -

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10

3. Teores dos componentes em massa (%)

3.1. Cimento portland comum (EB-1/NBR 5732)

Sigla Classe Clínquer + Escória granulada Material Material


Sulfato de cálcio pozolânico carbonático (1)
CP I 25, 32 e 40 100 0 0 0
CP I-S 25, 32 e 40 99-95 1-5 1-5 1-5
(1) Com no mínimo 85% de CaCO3

3.2. Cimento portland composto (EB-2138/NBR 11578)

Sigla Classe Clínquer + Escória granulada Material Material


Sulfato de cálcio pozolânico (2) carbonático (3)
CP II-E 25, 32 e 40 94-56 6-34 - 0-10
CP II-Z 25, 32 e 40 94-76 - 6-14 0-10
CP II-F 25, 32 e 40 94-90 - - 0-10
(2) A determinação do teor é facultativa
(3) Com no mínimo 85% de CaCO3. A determinação do teor é facultativa

3.3. Cimento portland de alto-forno (EB-208/NBR 5735)

Sigla Classe Clínquer + Escória granulada Material Material


Sulfato de cálcio pozolânico carbonático (1)
CP III 25, 32 e 40 65-25 35-70 - 0-5
(1) Com no mínimo 85% de CaCO3

3.4. Cimento portland pozolânico (EB-758/NBR 5736)

Sigla Classe Clínquer + Escória granulada Material Material


Sulfato de cálcio pozolânico carbonático (1)
CP IV 25 e 32 85-45 - 15-50 0-5
(1) Com no mínimo 85% de CaCO3

3.5. Cimento portland de alta resistência inicial (EB-2/NBR 5733)

Sigla Classe Clínquer + Escória granulada Material Material


Sulfato de cálcio pozolânico carbonático (1)
CP V-ARI - 100-95 - - 0-5
(1) Com no mínimo 85% de CaCO3

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11

Aplicabilidade dos diferentes tipos de cimentos portland

Devido às diferentes formulações existentes para o cimento portland,


considera-se que é possível otimizar o seu uso, conforme as condições de trabalho e o
ambiente em que a estrutura se insere.
Os cimentos classe I e II apresentam o que é definido como
comportamento padrão, apresentando curvas de resistência normal e aplicabilidade em
todas as obras normais de concreto, em ambientes considerados não agressivos. Em
ambientes agressivos, sendo essa agressividade devida a soluções ácidas ou a presença
de sulfatos, deve-se utilizar esses cimentos quando a sua formulação apresentar baixa
formação de cal livre. No entanto, se o fator de deterioração estiver ligado a agregados
potencialmente reativos, esses cimentos só podem ser utilizados se apresentarem teores
de álcalis (Na2O e K2O) abaixo de 0,6%.
Os cimentos classe III e IV, apesar da sua formulação diferente,
apresentam semelhança de comportamento, com menor desenvolvimento de resistência
nas primeiras idades e menor emissão de calor de hidratação. Esses fatores
desaconselham a utilização desses cimentos em obras normais de alvenaria, devido ao
atraso que isso provoca nas operações de acabamento, principalmente em locais frios,
pois temperaturas inferiores a 8 ºC tendem a paralisar as reações de hidratação. Em
contrapartida, essas mesmas características tornam esses cimentos mais adequados para
uso em concretos-massa, por permitir um maior controle de temperatura da estrutura.
Eles têm ainda como vantagem a menor formação de cal livre e a maior formação de
estruturas cristalinas hidratadas insolúveis em água potável, o que gera resistências
maiores em idades avançadas ( + 20 % aos 90 dias) e os torna mais resistentes a ataques
de ácidos, sulfatos e reações com agregados potencialmente reativos. Em casos
acentuados de ataques químicos, recomendam-se teores superiores a 60 % de escória, ou
a 20 % de pozolana, para garantir a sua resistência química. Em concretos armados,
considera-se que a capacidade de proteção da armadura é pelo menos igual à dos
cimentos classe I e II, sendo restrito o uso dos cimentos de escória em obras de concreto
protendido, por existir a possibilidade de quebra cristalina da estrutura desse aço, na
presença de elementos químicos que ocorrem nas escórias.
Os cimentos classe V, de alta resistência inicial, são utilizados sempre
que se pretenda a solicitação precoce da estrutura, sem que se recorra a aditivos
aceleradores. Devido à sua formulação, rica em C 3S, é desaconselhável o seu uso em
ambientes agressivos. Do mesmo modo, como ele apresenta alta emissão de calor
inicial, cuidados especiais devem ser tomados na operação de cura do concreto, para
evitar a sua fissuração. Pelo mesmo motivo, o seu uso é desaconselhável em concretos
massa.
De uma forma genérica, a curva de resistência dos cimentos simples e
compostos é apresentada a seguir, na figura 1, elaborada por Vaidergorin, apresentada
na publicação Tecnologia de Edificações, da Editora Pini:

CIMENTOS ALUMINOSOS

Em 1908, na França, foi desenvolvido por Bied, um químico da Ciments


Lafarge, com base nas teorias de Le Chatelier, um cimento composto somente de
aluminatos de cálcio, que, por não conter silicatos de cálcio nem gesso como o cimento

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12

Portland, suportava de forma muito mais ampla as agressões geradas pelos


sulfatos.Assim, o cimento aluminoso não é composto da mistura de calcário e argila
como o cimento Portland, e sim de calcário e bauxita. O processo de fabricação se
diferencia do cimento Portland porque os materiais usados na fabricação do cimento
aluminoso são completamente fundidos no forno, motivo pelo qual o produto é
conhecido na França com o nome de “ciment fondu”. Os aluminatos de cálcio (CA)
gerados desta mistura, além de apresentarem uma reatividade muito mais rápida, que os
compostos do cimento Portland, não liberam hidróxido de cálcio em sua hidratação e
sim hidróxido de alumínio. Este composto, que na química é conhecido como um
elemento anfótero, tem a propriedade de resistir aos ácidos diluído em geral, de pH >
3,5, enquanto que o hidróxido de cálcio, gerado na hidratação do cimento Portland,
inicia um processo de decomposição, quando o pH do meio é inferior a 6,5.
Além dessa característica, ele apresenta altas resistências iniciais,
resistências às altas temperaturas, aos choques térmicos, à corrosão química e à abrasão.
O fato de apresentar resistências iniciais tão elevadas foi de início
animador, pois produtos pré-formulados, com base em cimento aluminoso, apresentam
resistências à compressão superior à 20 MPa duas horas depois de aplicados. No entanto
o fenômeno denominado conversão, que ocorre na presença de calor e umidade, no qual
o composto CA se transforma em C3A, provocando a rápida perda de resistência, fez
com que o seu uso estrutural fosse proibido no Brasil. No entanto, segundo o fabricante,
a conversão é um fenômeno químico natural deste cimento, porém dosando-se
adequadamente, respeitando o fator água/cimento máximo de 0,4 e um consumo
mínimo de cimento de 450 Kg/m3, como é recomendado pelo fabricante, obtem-se
concretos duráveis com resistências à compressão superiores à 40 MPa, e no caso do
uso de agregados sintéticos, esta resistência é superior à 90 MPa. No entanto, o seu uso
continua restrito a peças não estruturais.
O seu uso no Brasil, devido a essas restrições, procura tirar partido das
suas outras vantagens, descritas acima, que realmente são muito superiores ao dos
cimentos portland. Assim, temos como principais aplicações os seguintes casos:
Concretos de alta durabilidade em pisos, canais e estruturas em
cervejarias, laticínios, frigoríficos, usinas de açúcar e industrias de alimentos em geral,
obras de píeres, construção de tanques de enxofre, revestimento de tubulações de ferro
fundido para saneamento, fabricação de argamassas e concretos, utilizados nos
revestimentos de superfícies aquecidas, sob solicitações de temperaturas de trabalho de
até 1.100ºC, pisos de câmaras frigorificas e o seu reparo em funcionamento,
revestimento de canais de carepas e rampas de coque em siderúrgicas, revestimento de
vertedouros de barragens, revestimento de ore pass em minas de cobre e pisos
industriais para tráfegos incluso de tratores de esteira.

AGREGADOS.

Por definição, agregados são elementos granulares, de forma e volume


indefinidos não coesivos, com comportamento químico inerte no meio em que se
inserem, com características que permitem o seu emprego em diversos usos na
engenharia civil. No caso deste trabalho, consideramos a sua aplicação na composição
de concretos de cimento portland.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 13

Para o seu uso correto, e na identificação de patologias, é necessária a sua


classificação, que pode ser feita considerando os seguintes parâmetros:

a. Classificação por dimensão do grão

Utiliza-se dos ensaios de granulometria para a classificação. Basicamente


temos 3 tipos de agregados:

Filler: são materiais impalpáveis (pó), que passam na peneira nº 200 (0,075
mm). O filler é mais utilizado em misturas betuminosas, sendo o material de emprego
mais comum o pó calcáreo.
Agregado miúdo: são os materiais granulares que apresentam mais de 85 %
contido entre as peneiras nº 200 (0,075 mm) e nº 4 (4,8 mm). Temos como material
mais utilizado a areia natural, seja de rio ou cava. Esses materiais são subdivididos* em:

Finos: 2,2 < Módulo de finura < 2,6


Médios: 2,6 < Módulo de finura < 2,9
Grossos: 2,9 < Módulo de finura < 3,2
Muito grossos: Módulo de finura > 3,2

* Versão simplificada da norma

Agregado graúdo: são os materiais granulares que apresentam mais de 85 %


retido acima da peneira nº 4 (4,8 mm) inclusive. O material mais utilizado na região é a
pedra britada, conhecida simplesmente como brita. A sua classificação é dada por
números, que correspondem a faixas de materiais retidos nas peneiras de classificação:

pedra nº 1: material contido entre as peneira 4,8 mm e 12,5 mm


pedra nº 2: material contido entre as peneira 12,5 mm e 25 mm
pedra nº 3: material contido entre as peneira 25 mm e 50 mm
pedra nº 4: material contido entre as peneira 50 mm e 76 mm
pedra nº 5: material contido entre as peneira 76 mm e 100 mm

Obs.: é comum encontrar as brita nº 1 com material contido entre as peneiras 4,8 mm e
19 mm e nº 2 com material contido entre as peneiras 19 mm e 32 mm.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 14

b. Classificação por massa específica

Considera-se que podem classificar os agregados de acordo com a sua


massa específica, sendo essa classificação muito útil em serviços específicos, seja para o
aligeiramento de peso, seja para proporcionar blindagem contra partículas ionizantes.
Assim, temos 3 classes:
Agregados leves: são aqueles que apresentam massa específica inferior a 2.000
Kg/m³. Utilizados para tornar estruturas mais leves, se ressentem da sua baixa
resistência mecânica, o que os torna mais sujeitos a esforços de esmagamento.
Temos como exemplo a argila expandida e o poliestireno expandido.
Agregados normais: são aqueles que apresentam massa específica entre 2.000 e
3.000 Kg/m³. São considerados aqueles que apresentam as condições normais de
peso e resistência mecânica. Temos como exemplo o granito e o gnaisse.
Agregados pesados: são aqueles que apresentam massa específica superior a
3.000 Kg/m³, sendo utilizados normalmente como elementos de blindagem
contra radiação ou como blocos para contrapeso ou ancoragem. Temos como
exemplo o minério de ferro.

c. Classificação por origem

Considera-se, nesta classificação, a origem e forma de obtenção do


material. Assim, temos a seguinte classificação:

Agregados naturais: são aqueles obtidos através da simples extração, sem


modificação da sua forma, dimensão ou composição química. Temos como
exemplos as areias de rio, areias de cava, seixos rolados ou pedregulhos. Podem
apresentar níveis significativos de contaminação por materiais naturais, como
argilas ou ácido tânico.
Agregados artificiais: são aqueles obtidos através de meios quer transformem a
forma, a dimensão ou a composição dos materiais. Podem ser origem natural,
como as pedras britadas, como podem ser origem artificial, como a escória de
alto-forno.

Caracterização e sanidade dos agregados

Para definir a condição de uso dos agregados, são necessários dois tipos
de ensaios. São eles:
Ensaios de caracterização: destinam-se a fornecer parâmetros físicos necessários
para o uso correto do material. Os mais comuns são os ensaios granulométricos,
de determinação de massas específicas, massas unitárias, curvas de inchamento e
absorção de água.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 15

Ensaios de qualidade: destinam-se a estabelecer a possibilidade de uso de um


material, conforme parâmetros de qualidade estabelecidos na NBR 7211/1983,
conforme tabela abaixo:

Índices máximos de substância nocivas ao concreto, em agregados (NBR 7211/83)

Material contaminante Em massa do


agregado

Torrões de argila 1,5 %

Materiais carbonosos, em concretos em que a aparência é importante 0,5 %

Materiais carbonosos, nos demais concretos 1,0 %

Material pulverulento, em concretos submetidos a desgaste superficial 3,0 %

Material pulverulento, nos demais concretos 5,0 %

Além desses valores estabelecidos por norma, devemos considerar ainda


outros elementos responsáveis por patologias no concreto. São eles:

Índices máximos de substância nocivas ao concreto, em agregados (Petrucci)

Material contaminante Em massa do


agregado

Material orgânico 300 ppm

Cloretos 0,1 %

Sulfatos 1,0 %

Índice de forma, em concretos normais >15%

Índice de forma, em concretos impermeáveis >20%

Em alguns casos, é verificada a reatividade dos agregados ao ambiente


em que eles serão utilizados ou ao aglomerante que será utilizado. Esse ensaio é
particularmente recomendado para basaltos.

ÁGUA

Considera-se que a água que apresenta potabilidade pode ser utilizada


no concreto, mas deve-se sempre considerar o uso a que o concreto se destina, e
verificar se ela se encaixa no padrão necessário. Os índices abaixo relacionados se

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 16

destinam a garantir a sanidade do concreto e evitar a despassivação da armadura, no


caso do concreto armado ou protendido.

Índices máximos de substância nocivas ao concreto, na água (Cánovas)


Material contaminante Em massa de
água

PH >5

Íons cloro (Cl-) em concretos massa <20 g/l

Íons cloro (Cl-) em concretos armados <6 g/l

Íons cloro (Cl-) em concretos protendidos <0,25 g/l

Sulfatos <15 g/l

Substâncias orgânicas solúveis em éter <15 g/l

Índice de forma, em concretos impermeáveis >20%


.

ADITIVOS

Os de uso mais comum no Brasil são:

Plastificantes, para reduzir o consumo de cimento e água, ou aumentar a


trabalhabilidade.
Retardadores, utilizados quando o tempo de transporte e/ou lançamento for
prolongado, e/ou quando a temperatura ambiente for elevada.
Aceleradores, para diminuir o prazo de solicitação da peça.
Superfluidificantes, quando se pretende um comportamento do concreto igual ao
da água, ou com características de autoadensamento.

Esses compostos químicos sempre exigem um estudo de dosagem prévia,


quando foram empregados, por apresentarem uma grande faixa de variação de
desempenho, conforme sua origem, o tipo e marca de cimento utilizado e seus
agregados. Podem apresentar desde eflorescências até perda ou bloqueio no
desenvolvimento da resistência do concreto, sendo que em alguns casos mais graves, se
constatou corrosão acelerada da armadura ou desagregação do concreto.

3.2.1.2. Parâmetros de dosagem

Resistência característica do concreto a compressão (Fck): é definido pelo


projetista, não podendo ser alterado sem a sua anuência prévia. O não
cumprimento desse parâmetro pode significar a não aceitação da estrutura

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 17

Determinação do o espaçamento entre barras de aço da armadura: Deve-se


consultar o projeto para definir as regiões críticas ( menores espaçamentos) e as
regiões predominantes, para que se escolha a dimensão máxima característica do
agregado graúdo, que se baseia nas seguintes proporções:

ØMáx < 1/3 da espessura da laje


Ø Máx < 1/4 da distância entre faces da forma
Ø Máx < 0,8 do espaçamento entre armaduras horizontais
Ø Máx < 1,2 do espaçamento entre armaduras verticais
Ø Máx < 1/4 do diâmetro da tubulação de bombeamento de concreto

A escolha do diâmetro inadequado pode gerar segregação da massa, ninhos,


vazios, se ele for superior ao aceitável, e por outro lado, pode-se causar a
fissuração

Escolha da consistência do concreto – SLUMP: é importante por definir a


capacidade de preenchimento da forma pelo concreto, evitando vazios ou
segregações. A NB-1/78 recomenda os seguintes valores de SLUMP:

Elemento estrutural Abatimento SLUMP (mm)


Peça pouco armada Peça muito armada
Laje 60 ± 10 70 ± 10
Viga e parede armada 60 ± 10 80 ± 10
Pilar de edifício 60 ± 10 80 ± 10
Paredes de fundação, 60 ± 10 70 ± 10
sapatas, tubulões

Obs.: Para concreto bombeado, considerar o SLUMP entre 70 e 100, no


máximo, considerando que para alturas de bombeamento superiores a 30 m,
determinar o SLUMP na saída da linha de recalque.

Durabilidade: Pela norma, são definidas 3 condições ambientais, a partir das


quais é feita uma definição da compacidade do concreto, a partir do seu fator
A/C. As condições ambientais e os fatores A./C são os seguintes:

a/c < 0,65, para peças protegidas e sem risco de condensação de


umidade.
a/c < 0,55, para peças expostas a intempéries, em atmosfera urbana ou
rural.
a/c < 0,48, para peças expostas a intempéries, em atmosfera industrial ou
marinha.

A não consideração dos fatores ambientais no projeto estrutural e na dosagem de


concreto é um dos principais fatores de deterioração generalizada das estruturas,
no Brasil. Um exemplo típico está demonstrado na figura 4, uma ponte em arco,
em ambiente marítimo. Atualmente se encontra interditada para veículos com
peso acima de 1.500 Kg, sendo originalmente uma ponte classe 1. Na época da
sua construção, houve apenas a preocupação com a resistência mecânica do

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 18

concreto, não se tomando os devidos cuidados com compacidade da massa e


recobrimento do aço.

Figura 4: ponte em arco, interditada para veículos médios e pesados devido ao adiantado
estado de degradação da estrutura. (autor)

3.2.2. AÇO

Utilizado para compor estruturas de concreto armado, entre outros


elementos estruturais, deve ter o seu comportamento sempre analisado sob o ponto
estrutural e de estabilidade química em relação ao meio em que se insere.

CARACTERÍSTICAS GERAIS

São denominados aços as ligas ferro-carbono com teor de carbono entre


0,008 % e 2,0 %, sendo denominados ferros fundidos os que apresentam teor de
carbono entre 2,0 % e 4,5 %. O aço pode ser ainda classificado da seguinte forma, na
qual o teor de carbono está associado à dureza do material resultante:

Aço extra-doce: teor de carbono abaixo de 0,15 %


Aço doce: teor de carbono entre 0,15 % e 0,30 %
Aço meio doce: teor de carbono entre 0,30 % e 0,40 %
Aço meio duro: teor de carbono entre 0,40 % e 0,60 %
Aço duro: teor de carbono entre 0,60 % e 0,70 %
Aço extra duro: teor de carbono acima de 0,70 %

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 19

Deve-se notar que quanto maior o teor de carbono, maior a dureza do


material.

Suas outras características básicas são:

Massa específica média de 7,85 g / cm³


Módulo de elasticidade de 210.000 Mpa
Temperatura de fusão variando entre 1.500 °C e 1.700 °C

COMPORTAMENTO SOB CARGA

Os aços laminados a quente, denominados aços classe “A”, apresentam o


seguinte diagrama tensão/deformação:

Nesse diagrama, podemos ver que a primeira fase, definida como


elástica, é aquela em que a deformação é totalmente recuperada, conforme cessa a carga
atuante. No seu limite superior, temos o patamar de escoamento, no qual, sem aumento
de carregamento, temos uma deformação que corresponde a um encruamento do aço,
devido à mudança na estrutura cristalina do aço. Finda essa etapa, o aço volta a
apresentar resistência crescente, mas com deformação plástica, ou seja, a partir do início
do patamar de escoamento, se a carga for retirada, o aço não volta à sua dimensão
original. Essa condição permanece até a sua ruptura.
Os aços laminados a frio, denominados aços classe “B”, tem a sua
estrutura cristalina modificada já no processo de laminação, o que corresponderia à
ocorrência, no processo, do patamar de escoamento, devido à aplicação prévias de
tensões. Desse modo, o seu diagrama de tensão deformação passa a ser:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 20

O processo de laminação a frio se destina a aumentar a resistência


mecânica do aço. No entanto, aquecimentos superiores a 600 °C provocam a chamada
relaxação do aço, que vem a ser a volta da resistência à sua condição original.

AÇOS PARA CONCRETO ARMADO

Identificados pela sigla CA (concreto armado), são barras, fios ou malhas


de aço, destinadas especificamente a serem empregadas na execução de peças de
concreto armado. São aços doces, laminados a quente (classe A) ou a frio (classe B). Os
aços classe “A” são fornecidos em barras, com diâmetro nominal igual a 5 mm ou
superior, e os aços classe “B” são fornecidos em fios, com diâmetro nominal igual ou
inferior a 10 mm.
Todas as barras nervuradas, obrigatoriamente, devem trazer marcas de
laminação em relevo, identificando o fabricante, tipo de aço e diâmetro nominal. Além
disso, considera-se que as barras e fios, quando fornecidos retos, devem apresentar um
comprimento de 11,00 m, com tolerância de 9 %, sendo que outros comprimentos e
tolerâncias devem ser acordados entre fornecidos e consumidor.
Os aços para concreto armado, obrigatoriamente, devem apresentar as
propriedades mecânicas estabelecidas na seguinte tabela:

Ensaio de tração (valores mínimos) Ensaio de Aderência


dobramento
a 180 °
Categoria Resistência Limite de Alongamento Diâmetro do Coeficiente de
característica resistência em 10 Φ pino conformação
de escoamento superficial
fy fst mínimo para 
(MPa) (MPa) (%) (mm) Φ ≥ 10 mm
η
Φ< Φ>
20 20
CA-25 250 1,20 fy 18 2Φ 4Φ 1,0
CA-50 500 1,10 fy 8 4Φ 6Φ 1,5
CA-60 600 1,05 fy 5 5Φ - 1,5

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 21

Extraído da NBR 7480/1996


Considera-se que o diâmetro do pino descrito é aplicável ao ensaio,
enquanto que nas condições de execução, a NB-1/78 considera os seguintes diâmetros
internos mínimos para ganchos e estribos:

CA - 25 CA - 50 CA - 60
Φ < 20 4Φ 5Φ 6Φ
Φ ≥ 20 5Φ 8Φ -
Extraído da NB 1 /1978

Deve-se considerar que para estribos de bitola não superior a 10 mm, o


diâmetro interno poderá ser no mínimo de 3 Φ.

TELAS DE AÇO

As telas de aço são especificadas de acordo com o seu material e secção


de aço no sentido predominante.
Os tipos previstos na NBR 7481/1990 são:

Tipo `Q´ Secção por metro da armadura longitudinal igual á da secção por metro da
armadura transversal, usualmente com malha quadrada; aço CA-60.
Tipo `L´ Secção por metro da armadura longitudinal maior que a secção por metro
da armadura transversal, usualmente com malha retangular; aço CA-60.
Tipo `T´ Secção por metro da armadura longitudinal menor que a secção por metro
da armadura transversal, usualmente com malha retangular; aço CA-60.
Tipo `QA´ Secção por metro da armadura longitudinal igual á da secção por metro da
armadura transversal, usualmente com malha quadrada; aço CA-50 B.
Tipo `LA´ Secção por metro da armadura longitudinal maior que a secção por metro
da armadura transversal, usualmente com malha retangular; aço CA-50 B.
Tipo `TA´ Secção por metro da armadura longitudinal menor que a secção por metro
da armadura transversal, usualmente com malha retangular; aço CA-50 B.

Existem ainda os tipos destinados á fabricação de tubos de concreto, que


são:

Tipo `PB´ Para tubos com encaixe tipo `ponta e bolsa´; aço
CA-60
Tipo `MF´ Para tubos com encaixe tipo `macho e fêmea´;
aço CA-60
Tipo `PBA´ Para tubos com encaixe tipo `ponta e bolsa´; aço
CA-50 B
Tipo `MFA´ Para tubos com encaixe tipo `macho e fêmea´;
aço CA-50 B

As telas soldadas sempre devem ser executadas por eletrosoldagem, em


um processo que gere a soldagem por caldeamento, não afetando a resistência do núcleo
do aço classe `B´.
As telas soldadas são fornecidas em painéis ou rolos, com largura usual
de 2,45 m, ficando o comprimento dos painéis entre 4,20 m e 6,00m e dos rolos entre 60
m e 120 m.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 22

EMENDAS DE BARRAS E TELAS

As emendas sempre devem garantir uma continuidade estrutural, sendo


executadas quando as barras ou telas não possuírem dimensões suficientes.
Em barras, podem ser:

Traspasse: é quando uma barra se justapõe a outra, com um


comprimento tal que a aderência do concreto garante uma continuidade
no comportamento estrutural. Os seus comprimentos de justaposição são
calculados de acordo com a NB 1/78, e deve-se considerar que várias
emendas não devem ser coincidentes na mesma peça, para não gerar
bloqueios na concretagem.
Luvas rosqueadas ou prensadas: são luvas de aço com resistência
equivalente à das barras que deve unir, dotadas de roscas internas, o que
exige o rosqueamento das extremidades das barras a serem unidas, ou
ranhuras transversais aos esforços, quando forem prensadas, com um
sistema hidráulico. São usadas somente em aços classe `A´, sendo
adotadas quando o espaço entre barras é pequeno, o que inviabiliza o uso
de emenda por traspasse. É permitido o engrossamento das barras nos
segmentos rosqueados, contanto que a geratriz do cone de transi1ão não
apresenta inclina1ão superior a 1:3.
Solda: pode ser de topo, por caldeamento, para bitolas não inferiores a 10
mm, ou com eletrodo, para bitolas não inferiores a 20 mm. Pode ser por
traspasse, com dois cordões de solda com comprimento não inferior a 5
Φ, ou com barras cobrejuntas, para provocar a coincidência do eixo
baricêntrico das barras, com cordões com comprimento não inferior a 5
Φ.

Em telas soldadas, adota-se sempre a sobreposição ou a justaposição


como elemento de emenda, e se usa como referência um número de malhas a serem
sobrepostas ou justapostas. Assim, para efeito prático, se considera que para tensões
baixas, a sobreposição necessária é de 1 malha, e para tensões médias e altas, ela é de 2
malhas.
Por ser um elemento que deve prover a continuidade estrutural, as
emendas devem ter a sua posição e forma estudadas, a fim de evitar o acúmulo de
tensões. Isso é mais notável com as emendas em gancho, que, se mal posicionadas,
podem levar á fissuração concentrada da peça de concreto.

PROTEÇÃO DO AÇO PARA CONCRETO ARMADO

Considera-se, no concreto armado, que a proteção da armadura é


dada pelo cobrimento do concreto que, por ser um meio alcalino, garante a integridade
do aço ao longo do tempo. Assim, a NBR 6118 estabelece que os valores mínimos de
cobrimento são:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 23

Para concreto revestido com argamassa de espessura mínima de 1 cm:

Em lajes no interior de edifícios - 0,5 cm


Em paredes no interior de edifícios - 1,0 cm
Em lajes e paredes ao ar livre - 1,5 cm
Em vigas, pilares e arcos no interior de edifícios - 1,5 cm
Em vigas, pilares e arcos ao ar livre - 2,0 cm

Para concreto aparente

No interior de edifícios - 2,0 cm


Ao ar livre - 2,5 cm
Para concreto em contacto com o solo - 3,0 cm
Para concreto em meio fortemente agressivo - 4,0 cm

Para concreto em contacto com o solo, quando este não for rochoso,
deve-se aplicar uma camada de concreto simples de pelo menos 5 cm, antes do concreto
estrutural. No caso de recobrimentos superiores a 6 cm, deve-se adotar uma armadura
de pele em tela, com recobrimento não inferior ao preconizado na norma.
O recobrimento de aço é de grande importância, pois, como a
carbonatação se manifesta de fora para dentro, modificando o pH do meio, quanto mais
inserido o aço estiver no concreto, menor a sua possibilidade de despassivação. Deve-se
notar que os processos corrosivos se manifestam em um meio com pH inferior a 10,5, e
o concreto são apresenta pH de 13, o que provoca a formação de uma película protetora
do aço de ferrato de cálcio. A profundidade de carbonatação pode ser verificada através
da coloração, no ensaio de fenolftaleína, sendo este um ensaio destrutivo.
Considera-se ainda que os materiais constituintes do concreto,
principalmente a areia e a água, devem ser isentos de elementos agressivos ao aço,
principalmente cloretos. Da mesma forma, os aditivos aceleradores a base de cloretos
devem ter a sua utilização controlada, sendo vetado o seu uso em circunstâncias
adversas, como obras enterradas ou nas quais a presença de água seja constante.
Quanto á oxidação normal decorrente de armazenamento, considera-se
que ela não impede o uso do aço se a superfície da barra, sendo limpa vigorosamente
com um pano ou escova, não apresentar sinais de penetração pelo óxido, ou perda se
secção.
O não atendimento à norma pode gerar problemas como os vistos nas
figuras 5 e 6, onde nitidamente o recobrimento é insuficiente para gerar a proteção
química necessária ao aço, ao longo da vida útil da estrutura. Pode-se notar, na figura 5
um processo de corrosão acentuado no canto, o qual já sofreu uma recuperação
cosmética, sem nenhuma efetividade, e na figura 6 encontramos um processo de
corrosão na sua fase final, pois a barra longitudinal e os estribos se encontram rompidos.
Note-se que o processo se instalou no pé do pilar, a ocorrência mais comum, e portanto
o primeiro ponto a ser verificado em uma vistoria.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 24

Figura 5: pilar de um viaduto com reparo cosmético e processo de corrosão no canto e


meio do pilar, no seu pé

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 25

Figura 6: fase final do processo de corrosão, com perda da armadura longuitudinal e


estribos. (autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 26

3.3. Patologia das Estruturas

Consideramos que as estruturas apresentam patologias devido a fatores


externos, sendo os internos relativos aos materiais empregados. Assim, as chamadas
causas extrínsecas são as constantes no quadro 1:

Quadro 1: Causas extrínsecas de patologias em estruturas


Falhas humanas no projeto Lançamento incorreto da estrutura
Avaliação incorreta das cargas
Detalhamento incorreto ou insuficiente
Avaliação errônea do ambiente
Avaliação incorreta do modelo funcional da
fundação
Avaliação incorreta da movimentação do
edifício
Falhas humanas no uso da estrutura Alterações estruturais
Sobrecargas não previstas
Alterações na capacidade de carga do terreno
Alterações nos sistemas de drenagem
Ações mecânicas Recalque de fundações
Choque de veículos
Ações físicas Variação de temperatura
Insolação
Atuação da água
Acidentes Incêndios
Descargas atmosféricas
Choque de veículos e/ou equipamentos
Ações químicas
Ações biológicas
Quadro 1 – Baseado em Souza, Ripper.

As falhas humanas de projeto levam a soluções inadequadas aos


problemas de engenharia que propomos resolver, quando da elaboração de um projeto.
Assim, podemos chegar a ponto da estrutura atingir o seu ponto de ruína antes da sua
utilização. No caso mostrado nas figuras 7, 8, 9 e 10, de uma casa de alto padrão, o
enchimento da piscina foi suficiente para levar à ruína toda a edificação, por não se
prever corretamente a interação de toda a obra com o solo de apoio, e afetando os
terrenos lindeiros. Outro aspecto importante, que será tratado adiante nas manifestações
patológicas, é o dos vínculos e juntas, que podem gerar grandes tensões imprevistas,
levando à ruptura das peças estruturais.
As falhas decorrentes de uso também são freqüentes, sendo comum em
prédios ou estruturas particulares ou públicos a mudança de uso, a retirada e colocação
de paredes, e modificações ou obstrução dos sistemas de drenagem, como pode ser visto
na figura 11, onde vemos um aparelho de apoio móvel completamente travado e na
figura 12, onde temos a obstrução parcial do sistema de drenagem de um viaduto.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 27

Figura 7: ruptura do terreno, causado provavelmente pelo carregamento da piscina. (autor)

Figura 8: detalhe do cizalhamento das cabeças dos pilares na parte de trás da casa. (autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 28

Figura 9: detalhe da ruptura do encontro do pilar com a viga frontal da casa. (autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 29

Figura 10: Vista lateral da casa, onde se pode ver a extensão da ruptura da viga frontal e a movimentação
geral da estrutura. (autor)

Figura 11: aparelho de apoio articulado travado pela corrosão. (autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 30

Figura 12: obstrução parcial do sistema de drenagem por vegetação, provocando a deterioração da
longarina do viaduto. (autor)

Quanto a ações, é muito comum a ocorrência, em pontes, de


solapamentos que instabilizam os encontros ou os próprios pilares da estrutura, como
pode ser visto na figura 13.

Figura 13: nota-se junto à parede do encontro o seu solapamento, sendo visível a sua viga inferior. (autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 31

Os incêndios também podem representar um grave risco para as


estruturas, tanto de concreto como de aço, devido a grande perda de resistência
mecânica provocada. Nas figuras 14, 15 e 16 temos uma noção da perda provocada nos
dois materiais.

Figura 14: Perda de resistência do concreto e mudança de coloração em concretos compostos por
agregados silicosos, após o incêndio. Cánovas, 1988.

Figura 15: Perda de resistência do aço durante e após o incêndio. Cánovas, 1988.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 32

Figura 16: Modificação das propriedades mecânicas do aço. Cánovas, 1988

Temos ainda os ataques químicos e biológicos, estes muito comuns,


como pode ser visto nas figuras 12 e 17.

Figura 17: acúmulo de material orgânico e água sobre a superfície do apoio da ponte, propiciando o
desenvolvimento de vegetação. (autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 33

4. MANIFESTAÇÕES PATOLÓGICAS

Consideramos que em uma estrutura, o que se nota são os defeitos e não


os seus agentes causadores, sendo estes determinados posteriormente, através de um
processo de análise no qual se estudam todas as informações pertinentes para se chegar
a uma conclusão. Assim, no Quadro 2 descrevemos as diversas manifestações e as suas
causas prováveis.

Manifestação Patológica Causas

Fissuração Deficiência de projeto


Contração plástica
Assentamento do concreto/Perda de aderência
Movimentação do cimbramento e/ou formas
Retração
Falhas de execução
Reações expansivas
Corrosão das armaduras
Recalques diferenciais
Variações de temperatura
Cargas não previstas

Desagregação do concreto Fissuração


Movimentação das formas
Corrosão do concreto
Calcinação
Ataque biológico

Carbonatação
Perda de aderência
Desgaste do concreto
Quadro 2 – Baseado em Souza, Ripper.

A seguir, apresentamos as manifestações mais comuns, com


considerações a respeito do que leva a elas e o seu grau de gravidade.

4.1 Fissuração

Um dos elementos mais notáveis em uma vistoria, o estado de fissuração


de uma estrutura deve sempre ser descrito com toda a minúcia, através de um
mapeamento e uma descrição das fissuras ou trincas. Esse procedimento é básico, pois
como vários tipos podem ser encontrados, a sua análise criteriosa, cotejada com o
projeto, descreve o comportamento real da estrutura. Deve-se considerar que a NBR
6118/80 estabelece os seguintes valores de fissuração aceitável:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 34

Estado de fissuração aceitável (NBR 6118/80):

a) 0,1 mm para peças não protegidas, em meio agressivo;


b) 0,2 mm para peças não protegidas, em meio não agressivo;
c) 0,3 mm para peças protegidas.

Essas medidas podem ser verificadas facilmente com um fissurômetro,


uma régua transparente com traços de diversas espessuras, que sobrepostos sobre uma
fissura, permite a avaliação da sua abertura com o grau de precisão necessário para uma
avaliação de desempenho estrutural.
Quando avaliamos a fissuração, devemos ter ainda em mente que cada
tipo de esforço atuante sobre uma estrutura gera uma direção e posição específica da
abertura, o que permite que, através do seu mapeamento, se determine quais tipos de
esforços não estão sendo corretamente suportados pela estrutura. Isso pode ser visto de
forma resumida na figura 18, abaixo:

Figura 18: Esforços atuantes


sobre estruturas de concreto e
modelos genéricos de fissuração
correspondente

Abaixo são descritos vários casos de fissuração, onde associamos a


patologia com as suas causas mais freqüentes:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 35

VIGAS

a. Fissuração por flexão: temos a considerar que a fissuração por flexão é prevista na
norma brasileira. No entanto, quando essa fissuração apresenta comportamento
anômalo, como aberturas excessivas, deve ser considerado como uma manifestação
patológica a ser analisada. São diversos casos, descritos abaixo:

Figura 19: Neste caso, temos uma fissuração localizada na zona central da viga, devido
à insuficiência de secção de aço para suportar as tensões localizadas. Deve ser
verificada a deformação na secção central da viga, além da sua fissuração, para que se
verifique o estado real da estrutura.

Figura 20: Aqui, temos uma fissuração espaçada e com abertura acentuada, em toda a
face inferior da viga, como ilustrado na figura. Normalmente isso se deve a uma baixa
adesão entre a argamassa e o agregado graúdo, o que causa a concentração das fissuras
por áreas. Deve ser também verificado no projeto se a área de contacto do aço com o
concreto não é deficiente face às tensões na viga, o que pode ser um indicativo de
escorregamento iminente das barras de aço.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 36

Figura 21: Essa fissuração ocorre devido à insuficiência de secção de aço da armadura
negativa face ao momento negativo.

b. Fissuração por esmagamento: não é um caso de ocorrência comum em vigas sobre as


quais se apóiam lajes, pois a espessura destas contribui com o comportamento estrutural
da viga. No entanto, quando ocorre, é uma manifestação de elevada gravidade.

Figura 22: O esmagamento do concreto se manifesta como uma fissuração com


desenvolvimento coaxial à tensão de compressão. Nota-se, nos casos mais avançados,
lascamento da superfície contígua às fissuras.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 37

c. Fissuração por cisalhamento é uma ocorrência relativamente comum em vigas,


devendo ser devidamente avaliada a sua abertura para se avaliar o seu grau de
gravidade.

Figura 23: Esse tipo de fissuração ocorre por deficiência de secção de aço na armadura
transversal ou por lançamento incorreto da estrutura, gerando tensões cisalhantes
elevadas.

Figura 24: Detalhe de uma estrutura, onde vemos uma viga se apoiando em outra, na
região de cisalhamento, onde o forro rebaixado pode mascarar o início da patologia.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 38

LAJES

a. A fissuração por flexão pode ser extremamente acentuada em lajes, devido a sua
menor altura se comparada com vigas. O surgimento dessas fissuras pode ser
potencializado por uma cura inadequada, que gera fissuração na superfície superior da
peça, que submetida a esforços de flexão, se propagam até a face inferior.

Figura 25: Vista superior de uma laje que apresenta deficiência


de armadura negativa, resultando em fissuração na face superior.

Figura 26: Vista inferior de uma laje que apresenta insuficiência de


armadura positiva, resultando em fissuração na face inferior.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 39

b. A fissuração por esmagamento é uma possibilidade real em lajes, devido a sua


pequena espessura. Com a continuidade das solicitações, principalmente em peças
sujeitas a carregamentos cíclicos, ocorre o esborcinamento nas bordas das fissuras.

Figura 27: Neste caso a fissuração ocorre por esmagamento na


face superior, sendo facilmente detectável quando o
acabamento é executado com pisos rígidos. Quando é aplicado
um piso flexível, deve-se procurar indícios de ruptura na região
central superior.

Figura 28: Neste caso a fissuração ocorre por esmagamento na face


inferior, sendo encontrada junto às vigas nas quais a laje está
engastada.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 40

c. Momentos volventes provocam a fissuração nos cantos das lajes por insuficiência de
armaduras nessas regiões. Estruturas com vigas e pilares mais esbeltos tendem a
apresentar esse tipo de problema.

Figura 29: Vista superior de uma laje que apresenta ruptura


de canto devido à insuficiência de armadura destinada a
absorver as tensões geradas pelos momentos volventes.

Figura 30: Vista inferior de uma laje que apresenta ruptura de


canto, devido à insuficiência de armadura destinada a absorver
tensões geradas por momentos volventes.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 41

d. Esforços de punção tendem a ocorrer quando lajes se apóiam diretamente sobre


pilares, gerando tensões localizadas que levam a ruptura da estrutura da laje quando esta
apresenta espessura ou armadura insuficiente.

Figura 31: Este tipo de fissuração ocorre em toda a espessura da laje, apresentando
desenvolvimento das fissuras concêntrico e radial, sendo notável a sua irradiação a
partir dos cantos dos pilares, quando estes apresentam secção quadrada ou retangular.

e. Fissuração por retração hidráulica ou movimentação térmica ocorrem


principalmente devido à cura ineficiente, o que é agravado por misturas muito ricas em
cimento portland e/ou quantidade excessiva de água de amassamento, podendo ocorrer
também quando a proteção térmica da laje é ineficiente. Neste caso, em lajes expostas, é
muito comum a sua propagação da face superior até a face inferior, gerando infiltrações
e despassivando a armadura metálica.

Figura 32: Manifestação muito comum, na face superior da laje, de juntas de


movimentação térmica. Em armaduras expostas com uma secção de aço elevada, existe
a tendência a ocorrer à correspondência da disposição das fissuras com a disposição da
armadura.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 42

Figura 33: Típica manifestação de fissuração na face superior


causada por cura ineficiente, agravada por misturas ricas em
cimento portland e/ou excesso de água de amassamento. Apesar
de superficiais, existe uma tendência, principalmente com
carregamentos cíclicos, a ela se propagar até a face inferior da
laje.

Figura 34: Fissuração excessiva de laje


inferior de um viaduto rodoviário
executado em caixão perdido, devido á
inadequação do projeto à intensidade
do carregamento cíclico

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 43

PILARES

a. Fissuras horizontais, em pilares, podem ser indicativos de diversas patologias, o que


exige a análise de uma série de fatores. No caso de pilares em que elas ocorrem
espalhadas por toda a altura do pilar, sem uma posição preferencial, e o estudo do
projeto mostrar uma secção de aço dos estribos elevada, isso pode ser atribuível a
assentamento plástico. Quando elas se localizam no encontro do pilar com a viga,
notando-se excesso de nata de cimento ou sujeira, essa fissura é atribuível a uma junta
de concretagem. Quando ela se localiza no meio do pilar, pode ser causada por flexão
ou torção, sendo que neste caso ela tende a adotar um desenvolvimento helicoidal.
Note-se que esta última é uma ocorrência muito rara.

Figura 34: Fissuração causada por flexão. Deve ser


verificada a relação entre o comprimento das vigas
em relação ao comprimento dos pilares, pois essa
fissuração pode ser causada pela falta de juntas de
movimentação no prédio. Quando existirem paredes
junto aos pilares, pode ocorrer a ruptura na cabeça
dos pilares ao invés da fissura de flexão, devido ao
enrijecimento lateral da peça.

b. Fissuras verticais, em pilares, quando não originados por processos corrosivos


internos, causadores de expansão, são associadas a esforços de compressão aos quais a
secção de concreto e aço não apresenta condições de resistir. Essa incapacidade pode
estar associada à baixa resistência do concreto, adensamento inadequado, flambagem da
armadura devido à insuficiência de estribos, baixa adesividade dos agregados graúdos
ou cargas acima das previstas.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 44

Figura 35: Fissuras verticais provocadas


por compressão. Podem apresentar
desenvolvimento a partir da superfície
lateral, caracterizando superfície de
descolamento, ou se desenvolver apenas na
vertical. Esses casos devem ser
considerados de alta gravidade, pois
podem significar risco iminente de colapso
da peça.

4.2. Falhas de concretagem

A ocorrência desta patologia sempre está ligada à execução. No entanto,


o projeto pode ser um fator coadjuvante, pois a armadura muito concentrada exige
maiores cuidados na determinação do Diâmetro Máximo do agregado graúdo e nos
procedimentos de concretagem. A adoção de reparos cosméticos é uma das grandes
causas de desempenho inadequado da peça e ponto de partida de processos corrosivos.

Figura 36: esta figura mostra as duas ocorrências mais comuns de falhas de
concretagem, que são os vazios gerados pelo bloqueio da passagem do
concreto até a parede da forma, devido à armadura.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 45

Figura 37: Nota-se falha no canto inferior da viga, gerada por bloqueio de armadura.
Nota-se ainda perda de argamassa por ineficiência de vedação da forma, causando
abatimento plástico do concreto, visível na porção superior da face lateral.

Além desse evento comum, temos outros três a serem considerados que
podem apresentar elevada gravidade. O primeiro é a deformação das formas e/ou
escoramento, prejudicando a geometria das peças. O segundo é a falta de estanqueidade
das formas (figura 38), que gera a perda de grande parcela da argamassa, levando a uma
secção inferior a necessária estruturalmente. O terceiro é a colocação da armadura de
forma incorreta ou a sua deformação durante a concretagem.

Figura 37: Falha de concretagem originada pela falta de estanqueidade da forma, devido
a uma montagem incorreta. Nota-se ainda um agrupamento excessivo da ferragem, o
que permitiu apenas a passagem da argamassa, segregando o concreto.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 46

O primeiro caso, que deve ser sempre verificado na vistoria cadastral,


pode levar a fissurações extremas, seja pelo aumento do peso próprio da peça, seja pelo
posicionamento inadequado para resistir às tensões atuantes na estrutura.
O segundo caso é mais difícil de se detectado em uma vistoria superficial
por normalmente ser disfarçada por reparos cosméticos. No entanto ele se torna patente
com o passar do tempo, pois não oferece proteção adequada à armadura, permitindo a
sua despassivação. Pode ainda levar a ruptura por falta de secção resistente ou então a
combinação das duas características pode levar ao colapso estrutural.
O terceiro caso é muito difícil de ser determinado em qualquer tipo de
vistoria, podendo, no entanto ser inferida pelo quadro de fissuração da estrutura,
podendo ainda ser confirmado por provas de carga.

4.3. Carbonatação

Esse fenômeno é decorrente do efeito do gás carbônico contido na


atmosfera, atuando, na presença de umidade, sobre a superfície de concreto. A
associação desses elementos gera um ambiente ácido que abaixa o pH do concreto, que
inicialmente varia entre 12,5 e 13. Esse fenômeno favorece o início da corrosão do aço,
que só permanece passivo quimicamente em valores acima de 10,5.
Em concretos porosos, como os concretos jateados ou com alto fator
A/C, essa ocorrência se manifesta em tempos relativamente curtos, podendo ser
agravados, como no caso de túneis, pela percolação de água no interior do concreto,
como pode ser visto na figura 38, onde o escurecimento da superfície, devido à sua
carbonatação, é acompanhado de eflorescências de carbonato da cálcio, geradas pela
lixiviação da camada de concreto.

Figura 38: processo de carbonatação na cambota de um túnel executado com concreto projetado. (autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 47

4.3. Corrosão

Um dos grandes motivos de perda de desempenho das estruturas de


concreto de cimento portland, ela tem manifestações bem claras no exterior das peças de
concreto armado, pois imprime na superfície das peças uma cópia da armadura existente
no seu interior. No caso de concreto protendido, infelizmente a sua detecção costuma
ocorrer com a ruptura dos cabos de protensão, o que exige medidas imediatas de
intervenção para evitar o colapso estrutural. É necessário que se verifiquem as
condições ambientais, materiais empregados, recobrimento da armadura, o estado
superficial do concreto, sua permeabilidade e estado de tensão para que se determine
com exatidão qual o elemento causador do processo corrosivo.
A experiência tem demonstrado que a associação de um ambiente
medianamente agressivo a um estado acentuado de fissuração ou a um concreto com
elevado fator A/C levam ao surgimento de potenciais elétricos nas estruturas, gerando a
corrosão eletro-química, a ocorrência mais comum de todas. O seu esquema geral é o
constante na figura 39.

Figura 39: Célula de corrosão em concreto armado (Porrero, 1975)

Para que ela ocorra, deve existir um eletrólito, que no caso do concreto,
será sempre a água, associada à cal livre: deve existir uma diferença de potencial, que
pode ser propiciada por diferença de alcalinidade, umidade, aeração, etc.; deve ainda
existir oxigênio, o que explica o porquê de obras sempre imersas não apresentarem
problemas acentuados de corrosão, e podem existir ainda elementos agressivos, que
potencializam a reação, impedindo a formação ou rompendo a película de ferrato de
cálcio que se forma durante a reação concreto/aço e que garante a passivação da
armadura. Do mesmo modo, estruturas sujeitas a cargas induzidas podem ter processos
de corrosão da estrutura metálica bem acentuados.
Nas figuras abaixo, temos as manifestações mais comuns em estruturas
de concreto armado.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 48

Figura 40: Representação da vista inferior de uma laje, com típica manifestação de
corrosão da sua armadura. Inicialmente nota-se a reprodução superficial da armadura e
posteriormente, se o processo não for combatido, ocorrerá o lascamento superficial e
uma aceleração do processo. É uma ocorrência muito comum em lajes expostas ou que
sofrem infiltrações.

Figura 41: Vista da face inferior da laje de um viaduto, na qual foi aberto um orifício
para escoamento de água, o que gerou a presença permanente de água e um
desequilíbrio no potencial elétrico, levando á despassivação da armadura. Esse
fenômeno, por sua vez, levou ao lascamento da superfície, expondo mais aço e
agravando o desequilíbrio eletro-químico. Pode-se notar portanto que enquanto não
houver uma intervenção externa, esse processo é progressivo, não atingindo ponto de
equilíbrio.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 49

Figura 42: Manifestação de corrosão da armadura em vigas devido a ambientes


agressivos, recobrimento insuficiente ou concreto de elevada porosidade. Normalmente
o processo se instala a partir dos estribos, que são os elementos mais externos da
armadura, e com o lascamento devido à expansão da armadura, temos a exposição da
ferragem longitudinal. É um processo altamente progressivo.

Figura 43: Estrutura recém-construída próxima à orla marítima, onde vemos a falta de
cuidado no dimensionamento estrutural e posicionamento de armadura, permitindo o
seu afloramento e início de corrosão. Nota-se ainda a marca de um remendo
“cosmético”, sugerindo uma falha de concretagem na região de cisalhamento da viga o
que pode gerar fissuração excessiva com o carregamento da estrutura.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 50

Figura 44: Manifestação normal de pé de


pilar, devido ao acúmulo de umidade,
somada aos fatores já descritos acima.

Figura 45: Pé de pilar de viaduto, em


adiantado estado de deterioração, com
ruptura de estribos e condição
progressiva nas regiões acima, onde já
existem descamações e exposição de
mais armadura. A ocorrência normal
dessa patologia é nessa região e em
pontos onde haja a ação direta da água
ou seja zona de respingo.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 51

4.4. Escorregamento

Essa patologia está ligada a altas tensões de tração na armadura,


concentração da secção de aço em barras de grande bitola ou baixa adesividade na
superfície do agregado graúdo. Esse tipo de defeito prejudica o desempenho estrutural
da peça, por romper a ligação entre concreto e aço, e dá partida a processos corrosivos
acelerados.

Figura 46: Desplacamento gerado por escorregamento. Esse tipo de defeito é mais
comum em vigas, devido aos esforços de flexo-tração.

Figura 47: Desplacamento em laje-


grelha, onde foram empregados
aços lisos (CA-24), e concreto com
seixo rolado. Aliado a isso, houve
uma mudança na utilização da laje,
ocasionando um aumento da carga
suportada. Esses fatores somados
causaram o escorregamento da
armadura de aço Nota-se ainda a
não remoção das formas internas
das grelhas, que prejudicam o
desempenho estrutural e aumentam
o risco de incêndio.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 52

4.5. Falhas em túneis

Neste tipo de obra, devem ser consideradas as falhas de alinhamento e de


geometria da secção, Quando ocorrem na execução, podem levar a pontos de tensão na
estrutura, sendo ponto de partida para mais deformações. Quando ocorrem durante a
vida útil da obra, devem ser feitas intervenções para corrigir essas patologias, A
movimentação durante a vida útil tende a romper a “casca” estrutural, ocasionando
defeitos visíveis a olho nu. A verificação dessas deformações deve ser feita através de
métodos topográficos precisos, a cada vistoria programada.
Outros defeitos que têm se tornado comuns, em túneis executados em
concreto projetado são a excessiva percolação de água, a carbonatação e o
desplacamento do revestimento, que podem levar a configuração de pontos de ruptura e
despassivação de armadura.

Figura 48: Nesta foto, nota-


se, no canto de encontro
entre uma galeria de acesso
e o túnel do metrô, o
descolamento do
revestimento, nitidamente
aplicado sobre uma
superfície pouco aderente,
ainda é visível o excesso de
percolação de água,
empoçada do chão, e o
afloramento de hidróxido
de cálcio, primeiro estágio
para a carbonatação do
concreto. Note-se que as
manchas de carbonato de
cálcio já definem possíveis
superfícies de fratura da
estrutura, que devem ter a
sua abertura verificada
periodicamente.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 53

Figura 49: Emboque de túnel. Apesar de ser uma estrutura independente, a posição
relativa entre ele e o corpo do túnel deve ser sempre verificada, pois movimentações
diferenciadas podem levar à ruptura de um dos elementos. Deve ainda se verificar
sempre o estado do seu sistema de drenagem.

4.5. Falhas em galerias

Além dos defeitos descritos para túneis, neste tipo específico de obra as
falhas se concentram ora na parte exposta, ora na parte submersa da galeria. No corpo
principal da galeria, devem ser verificados defeitos de alinhamento e recalque notáveis
na superfície, indicativos de movimentação do corpo da galeria. Deve-se ainda verificar
os emboques, normalmente denominados cabeças, para s verificar a ocorr0234ncia de
erosões ou infintrações.

Figura 50: Perda de concreto por


desplacamento e corrosão da armadura
de aço na parte superior da galeria.
Essa manifestação ocorre
principalmente quando o concreto não
apresenta compacidade adequada ou a
armadura não tem recobrimento
suficiente, pois o ambiente,
principalmente em áreas urbanas, é
extremamente agressivo, com a água
emitindo vapores ácidos de forma
permanente. Em galerias de grandes
dimensões, com recobrimento
insuficiente, pode-se também
manifestar a fadiga da laje superior,
com a conseqüente fissuração.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 54

Figura 51: Perda de concreto e


corrosão da armadura de aço na parte
submersa da galeria. Isso pode ocorrer
pelos motivos expostos acima, sendo
que neste caso temos uma água muito
ácida em contacto direto com a
superfície de concreto. Isso pode
causar inclusive corrosão do próprio
concreto, apesar de que esse processo
é muito mais lento que o processo de
corrosão da armadura. Além disso, a
velocidade excessiva do líquido pode
causar perda por abrasão de partículas
suspensas ou erosão, quando o
concreto apresentar baixa resistência
ou excesso de finos nos agregados.

Figura 52: Saída de uma galeria, na qual vemos a sua cabeça totalmente solapada e sem
estabilidade lateral, devido a um forte processo erosivo. Isso se deve à alta declividade
do terreno a jusante, e à ausência inicial de elementos de suavização do fluxo, que
foram colocados posteriormente.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 55

5. TIPOS DE VISTORIAS E SUAS FUNÇÕES

Em se tratando de estruturas de concreto de cimento portland, podemos


adotar para todas elas a nomenclatura e finalidades apresentadas na NBR 9452, pois
apesar dela tratar especificamente de OAEs, a conceituação da norma é adequada para
os outros tipos de obras. Segundo ela, podem ser feitos três tipos de vistorias:

a. Cadastral
b. Rotineira
c. Especial

A vistoria cadastral é a ação inicial, de extrema importância, que


estabelece a condição de referência da obra, estabelecendo o ponto de partida para a
análise evolutiva das patologias que ela venha a apresentar. A partir dela adota-se uma
programação de vistorias, com prazo não superior a um ano, que é considerado o espaço
de tempo limite dentro do qual novas patologias que venham a surgir não terão tempo
para evoluir e comprometer seriamente a estrutura. Como pode ser notado, essa vistoria
deve ser a mais completa possível, devendo ser feita por uma equipe de engenheiros
treinados. Considera-se necessário pelo menos dois engenheiros para a compor, por se
tratar se serviço extenso e cuja avaliação em grupo tem se mostrado mais confiável.
Idealmente, ela seria realizada logo após a entrega da obra, quando
seriam verificadas as suas condições no início da utilização e reunidos todos os dados
pertinentes à sua concepção estrutural, projeto e execução.
Fora das condições ideais, o que infelizmente é a ocorrência mais normal,
a vistoria cadastral deve analisar toda a estrutura e complementarmente deve recolher
todos os dados possíveis sobre a obra, seja quanto a sua concepção, projeto e execução,
como devem ser coletadas informações quanto a ocorrências que colaborem na
explicitação de patologias que sejam constatadas na estrutura. No caso específico de
OAEs mais antigas, na falta de informações quanto à capacidade de carga, devem ser
feitas provas de cargas, estáticas ou dinâmicas, para que se tenha uma referência quanto
ao seu desempenho.
Um elemento que não pode ser esquecido é o registro fotográfico, que
quando bem executado, é um elemento de grande valia na avaliação de progresso de
patologias e deterioração geral da estrutura. As fotos desse registro devem ser nítidas, de
preferência coloridas, datadas e devem mostrar vistas gerais da obra e detalhes da
estrutura e eventuais defeitos.
A vistoria rotineira é sempre uma inspeção pré-programada, com o
objetivo de se manter atualizado o cadastro gerado na inspeção cadastral, não sendo
normal o uso de aparelhagem especial de precisão, sendo muito mais uma análise visual
criteriosa, realizada por um engenheiro treinado. Nela, procura-se também verificar
pontos ou comportamentos específicos da obra, que são previamente definidos na
inspeção inicial ou vistorias anteriores. As fotos de vistorias anteriores devem ser
estudadas previamente ou no local, para que o vistor possa ter uma idéia do que ocorreu
no período de tempo entre inspeções. Novas fotos devem ser tiradas, seguindo os
critérios já descritos, para as análises de escritório e para explicitar as descrições
contidas no relatório. Quanto a este, deve ser feito como uma atualização do relatório
gerado pela vistoria cadastral, seguindo o mesmo modelo e seqüência de informações.
A vistoria especial tem por objetivo analisar ocorrências específicas da
estrutura, podendo tanto ser uma inspeção visual como instrumental, para que se

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 56

proceda a uma análise precisa de comportamento. Necessariamente é realizada por um


engenheiro especialista e solicitada sempre que as vistorias cadastrais ou rotineiras
fornecerem um indicativo dessa necessidade. Ao contrário dos outros tipos, a vistoria
especial gera um relatório específico, que deve apresentar ao final, conclusões e
recomendações técnicas devidamente embasadas. Para que essa vistoria seja
consistente, é necessário o estudo de todos os relatórios anteriores, gerados pelas
vistorias, ou, como pode acontecer, deve-se no mínimo coletar todos os dados possíveis
e disponíveis sobre a obra, evitando-se na medida do possível a necessidade de ensaios
que de destinam primariamente a fornecer informações de projeto, como, por exemplo,
provas de carga para se determinar a capacidade de carga para a qual a obra foi
projetada.
Uma condição específica na qual também deve ser solicitada uma
vistoria especial é quando a estrutura em questão terá a sua função modificada. Nesse
caso, antes de uma decisão final quanto a essa mudança, deve ser feita uma vistoria
completa, pois muitas vezes as vistorias rotineiras não detectam em profundidade
mudanças oriundas de processos de deterioração que podem se tornar patentes quando
de mudanças de carregamento direto ou ciclos de carga. Normalmente essa é uma
vistoria instrumentada, podendo ser complementada por ensaios específicos, como
simulações de carga, esclerometria, etc., para que o comportamento estrutural fique
muito bem caracterizado.
Uma condição notável é quando se realiza uma vistoria especial, gerada
pela necessidade de se analisar um comportamento indevido de estrutura, sem que
exista uma referência anterior. Nesse caso, essa vistoria deve ser estendida, gerando um
relatório específico para o problema e ao mesmo tempo um cadastro, que passa a ser o
ponto de partida para o acompanhamento do comportamento estrutural da obra. Neste
caso específico, deve-se considerar em profundidade a freqüência necessária para as
vistorias rotineiras, e se elas devem ser ou não executadas por especialistas, até que o
fator gerador da vistoria especial seja bem caracterizado ou corrigido.
Como última consideração, devemos avaliar sempre o ambiente em que a
estrutura se insere, pois atualmente sabemos que todas as obras em concreto,
principalmente armadas e/ou protendidas, tem a sua durabilidade grandemente afetada
por fatores ambientais. Assim, deve-se avaliar o ph da água, quando esta está em
contacto com a estrutura, sendo esse fator altamente significativo no caso de galerias de
águas pluviais, como também deve ser considerada a poluição do ar, principalmente nos
horários de “rush” ou em locais com baixa capacidade de dispersão de poluentes. Um
elemento ainda pouco considerado, mas que deve ser avaliado, é a agressividade do
solo, principalmente se é previsto um pequeno recobrimento de concreto sobre a
armadura, nas fundações. Como condição mínima de avaliação ambiental, devem ser
seguidos os parâmetros preconizados pela NB-1/78, quanto à agressividade do meio.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 57

6. PROCEDIMENTO EM VISTORIAS

Toda vistoria exige procedimentos metodológicos para que se atinja o


objetivo essencial, que é ter um registro fiel do estado da estrutura, para que se possa
inferir a sua velocidade de deterioração e o momento em que possa ser necessária uma
intervenção técnica para se manter o seu desempenho mínimo, que nada tem a ver com
os serviços de manutenção normais.
Esses procedimentos têm maior significado quando consideramos como
ocorrência normal na engenharia que uma estrutura ultrapasse em muito o seu tempo de
vida útil prevista em projeto e que possam ser mudados alguns parâmetros da sua
função ao longo dela. Assim, o registro de desempenho torna administração e uso da
estrutura atividades confiáveis, prevenindo-se os desastres estruturais.
Considerando a vistoria um documento valioso, toda ela deve implicar no
preenchimento de planilhas próprias e em um registro fotográfico referenciado, com
data e localização do ponto fotografado. Apesar do registro eletrônico, deve ser mantido
um registro físico.
Outro ponto a ser considerado é que como muitas dessas estruturas
ultrapassam o tempo de trabalho de uma determinada pessoa, os registro devem
apresentar toda a clareza, para que técnicos que nunca tenham inspecionado uma obra
sejam capazes, através desses registros, de dar continuidade aos serviços técnicos.
A seguir apresentamos roteiros de vistoria para três tipos de estruturas
que são consideradas mais comuns tanto na área pública como na área privada, e cuja
deterioração não monitorada tende a causar grandes prejuízos.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 58

6. 1 Obras de Arte Especiais

a. Tipificação da obra

b. Infraestrutura:
.Verificação de recalques, através de observações diretas e indiretas.
.Análise do estado de exposição das fundações.
.Análise detalhada das áreas de tensão.

c. Mesoestrutura:
.Verificação de alinhamento e geometria das peças.
.Verificação de manifestações patológicas.
.Análise detalhada das áreas de tensão.

d. Superestrutura:
.Verificação de alinhamento e geometria das peças.
.Verificação de manifestações patológicas.
.Análise detalhada das áreas de tensão, com especial atenção para pontos
com vínculos onde ocorra a transferência de tensões concentradas, como
dentes gerber.

e. Aparelhos de apoio e consoles:


.Verificação do seu estado geral e grau de liberdade
.Verificação do seu berço

f. Juntas:
.Verificação da sua limpeza e grau de deterioração das superfícies
verticais.
.Verificação do esborcinamento das bordas.
.Verificação do estado de funcionamento dos elementos de proteção e do
seu posicionamento e/ou adesão às superfícies.

g. Pavimento e/ou contrapiso:


.Verificação do estado geral de superfície.
.Verificação do carregamento causado sobre a estrutura.

h. Carregamento:
.Verificação da compatibilidade do carregamento real com o
carregamento de projeto.

i. Interferências:
.Verificação quanto á introdução de elementos estranhos à estrutura,
como tubulações, estruturas acessórias, etc.

j. Análise geral:
.Análise do estado geral da obra

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 59

6. 2 Estruturas prediais

a. Tipificação da obra

b. Fundação:
.Verificação de recalques, através de observações diretas e
indiretas.Análise do estado de exposição das fundações.
.Análise detalhada das áreas de tensão.

c. Pilares:
.Verificação de alinhamento e geometria das peças.
.Verificação de manifestações patológicas.
.Análise detalhada das áreas de tensão.

d. Vigas e lajes:
.Verificação de alinhamento e geometria das peças.
.Verificação de manifestações patológicas.
.Análise detalhada das áreas de tensão, com especial atenção para pontos
com vínculos onde ocorra a transferência de tensões concentradas, como
dentes gerber, peças engastadas.

e. Cobertura:
.Verificação do posicionamento, integridade e limpeza dos elementos de
cobertura (telhas ou impermeabilizações), rufos e calhas.
.Verificação da estrutura de suporte da cobertura, com atenção especial
nas conexões ou emendas.

f. Aparelhos de apoio e consoles:


.Verificação do seu estado geral e grau de liberdade
.Verificação do seu berço

g. Juntas:
.Verificação da sua limpeza e grau de deterioração das superfícies
verticais.
.Verificação do esborcinamento das bordas.
.Verificação do estado de funcionamento dos elementos de proteção e do
seu posicionamento e/ou adesão às superfícies.

h. Piso e/ou contrapiso:


.Verificação do estado geral de superfície.
.Verificação do carregamento causado sobre a estrutura.

j. Carregamento:
.Verificação da compatibilidade do carregamento real com o
carregamento de projeto. Dar especial atenção a áreas de armazenagem,
mesmo arquivos e bibliotecas.

k. Interferências:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 60

.Verificação quanto á introdução de elementos estranhos à estrutura,


como tubulações, estruturas acessórias, etc.

l. Infiltrações:
.Verificar de forma específica infiltrações na estrutura e no solo adjacente
às fundações. Verificar o estado geral de tubulações de água, esgoto e
águas pluviais, bem como de caixas d’água.

m. Análise geral:
.Análise do estado geral da obra

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 61

6. 3. Galerias

a. Tipificação da obra

b. Solo:
.Verificação do reaterro.Verificação de recalques, através de observações
diretas e indiretas.

c. Célula
.Verificação de alinhamento e geometria da estrutura
.Verificação de manifestações patológicas.
.Análise detalhada das áreas de tensão.

d. Juntas:
.Verificação da sua limpeza e grau de deterioração das superfícies
horizontais e verticais.
.Verificação do esborcinamento das bordas.
.Verificação do estado de funcionamento dos elementos de vedação e do
seu posicionamento e/ou adesão às superfícies.

e. Cabeças:
.Verificação de alinhamento do conjunto e conexão com o corpo da
galeria.
.Verificação de erosão na soleira.
.Verificação do alinhamento das alas e seus elementos de ancoragem
.Verificação do comportamento da testa
.Verificação de erosão ao redor do conjunto.

f. Vazão:
.Verificação da compatibilidade da vazão real com a vazão de projeto.

g. Interferências:
.Verificação quanto à introdução de elementos estranhos à estrutura,
como tubulações, estruturas acessórias, etc.

h. Água:
.Análise da água quanto ao seu nível de contaminação e agentes
contaminantes.

i. Análise geral:
.Análise do estado geral da obra

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 62

7. SISTEMA DE GERENCIAMENTO DE ESTRUTURAS

O gerenciamento de um conjunto de estruturas tem como objetivo


garantir a sua condição de utilização, considerando que existem recursos limitados para
a sua manutenção e principalmente a sua recuperação. Para atingir esse objetivo, além
das vistorias executadas periodicamente, deve-se estabelecer um sistema, cujo
gerenciamento permita a tomada de decisão quanto aos serviços prioritários a serem
executados. Nesse sistema, devemos inicialmente todos os seus componentes e o que se
espera de cada um deles. Assim, quando definimos um sistema como um conjunto de
partes que interagem, de modo a atingir um determinado fim, de acordo com um plano
ou princípio, vemos que um sistema deve ter, segundo BENI (1998):

Meio ambiente – Conjunto de todos os objetos que não fazem parte do sistema
em questão, mas que exercem influências sobre a operação do mesmo;
Elementos ou unidades – as partes componentes do sistema;
Relações – os elementos integrantes do sistema encontram-se inter-relacionados,
uns dependendo dos outros, através de reações que denunciam os fluxos;
Atributos – são as qualidades que se atribuem aos elementos ou ao sistema, a
fim de caracterizá-los.
Entrada (input) – constituída por aquilo que o sistema recebe. Cada sistema é
alimentado por determinados tipos de entrada;
Saída (output)– produto final dos processos de transformação a que se submete
o conteúdo da entrada;
Realimentação (feedback)– processo de controle para manter o sistema em
equilíbrio;
Modelo – é a representação do sistema. Constitui uma abstração para facilitar o
projeto e/ou análise do sistema. É utilizado por dois motivos básicos: porque
simplifica o estudo do sistema, permitindo a análise de causa e efeito entre os
seus elementos para conclusões de maior precisão; e pela impossibilidade de
abranger a complexa totalidade das características e aspectos da realidade objeto
de estudo.

Considerando um conjunto de estruturas que objetivam ao mesmo fim,


vemos que o ambiente a ser considerado não é o meio ambiente dessa área, que por
definição deve ser considerado, mas o seu entorno, físico e virtual, com o qual essa
unidade administrativa se relaciona. Sob este ponto de vista, ela já não pode ser
considerada como um elemento separado, mas passamos a admitir que regiões vizinhas
interagem com essas áreas, e que necessidades mútuas existem, assim como conflitos a
serem resolvidos ou administrados da melhor forma para todos, sob risco de se
desequilibrar as relações regionais.
Os seus elementos ou unidades são as estruturas e outros elementos,
como vias de acesso, rodovias, serviços, etc. destinados a atingir os objetivos definidos
(relações) no seu plano de uso (plano viário, projeto de drenagem, etc), que pela lógica
deve se basear em um modelo.
Em ambientes naturais, as entradas e saídas do sistema apresentam
extrema complexidade, por termos que considerar elementos bióticos, abióticos,
humanos e naturais, daí a necessidade de um modelo adaptável, que possa ser ajustado a
partir da detecção de desvios nos objetivos preconizados. Isso pode ser feito a partir da
avaliação do grau de satisfação dos usuários e de avaliações de comportamentos
estruturais, decorrentes do uso ou de condições naturais, gerando uma realimentação

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 63

do sistema. Essa avaliação pode ser mais efetiva se for conjugada com os serviços de
manutenção, por esses serem feitos permanentemente, o que pode proporcionar um
fluxo constante de informações, e ao mesmo tempo os seus procedimentos operacionais
podem ser ajustados exatamente pela análise dessas informações.
Assim, vemos que as vistorias são uma realimentação do sistema, mas
para que possa se estabelecer possíveis desvios do modelo pretendido, é necessário que
essa avaliação seja dotada de pesos, positivos ou negativos, que denunciem o grau de
desvio e apontem as prioridades. O caso específico de colapso iminente detectado
extrapola este modelo, por exigir ações emergenciais.
Dentro desta proposta, podemos elencar elementos que devem ser
utilizados na determinação desses valores:

.Estimativa de vida útil de cada estrutura: definido através da análise, para cada
estrutura, do conjunto de vistorias executadas ao longo do tempo. É um forte
condicionante de prioridades.
.Nível de serviço do sistema: Avaliação da importância (econômica, social, etc.)
do conjunto de obras que compõe o sistema e análise do quadro com a sua
possível deterioração. Como o anterior, é um forte condicionante de prioridades.
.Estimativa de custo: Avaliação do custo de intervenções ao longo do tempo,
considerando-se ações imediatas ou proteladas. Não apresenta a mesma força
para definir prioridades, em um sistema bem gerido.
.Manutenção: Avaliação de como essa atividade interfere com o
desenvolvimento do quadro de deterioração e os custos envolvidos. É um
elemento interessante no gerenciamento do sistema, pois a sua conjugação com
outros fatores permite a mudança de prioridades.

Feita uma análise com a adequada profundidade desses elementos dentro


do sistema, é feita a atribuição de pesos para os diversos fatores que os compõem, para
se obter valores indicativos de qual seqüência de ações deve ser adotada.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 64

1. INTRODUÇÃO

A recuperação de estruturas ocorre quando estamos intervindo em um


processo dinâmico existente, para corrigir capacidade de carga insuficiente, aspectos
estéticos inadequados ou propiciar um novo uso para uma estrutura.de concreto motivo
pelo qual essas ações devem ser definidas como intervenções técnicas.
Este trabalho procura definir o que são essas ações, quando devem ser
projetadas e executadas, e quais sãos os resultados que podemos esperar. Veremos
também que os materiais empregados, muitas vezes diferentes daqueles utilizados
rotineiramente na construção civil, são aplicados sob uma ótica própria, específica para
cada projeto de intervenção, o que exige o pleno conhecimento do seu comportamento e
idiossincrasias.
Por fim, serão apresentados estudos de caso em que se utilizam os
conjuntos de técnicas mais correntes na área.

2. INTERVENÇÕES TÉCNICAS

Uma intervenção técnica pode ser definida como um conjunto de ações


que visam interromper ou reverter um processo de degradação estrutural, ou ainda
modificar o desempenho de uma estrutura.
Como cada intervenção têm objetivos específicos, é necessário que se
defina o seu objetivo antes de se estabelecer o conjunto de ações. Assim, elas são
classificadas em:

Intervenções de 1a ordem: destinam-se a estabilizar o comportamento de


estruturas que apresentam processos iniciais de deterioração. Nesse tipo
de intervenção se enquadram também aquelas classificadas como
cosméticas.
Intervenções de 2a ordem: destinam-se a recuperar o desempenho estrutural de
estruturas já comprometidas.
Intervenções de 3a ordem: destinam-se a modificar o desempenho estrutural de
uma estrutura, que não deve apresentar quadro significativo de
deterioração.

Essa classificação é necessária pois cada uma delas significa uma


abordagem diferente do problema, e deve considerar sempre a comparação entre
comportamento previsto e comportamento atual, vida útil prevista e ambiente em que a
obra está inserida.
Como exemplo, podemos considerar que uma intervenção de 1a ordem
será normalmente baseada em um conjunto de ações mais de fundo químico, que
objetivem paralisar processos de despassivação de armadura ou degradação superficial
do concreto que estejam em estado inicial (Figura 1).

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 65

Figura 1: obra que necessita de uma intervenção de 1 a ordem, pois sem apresentar danos á estrutura, é
possível notar a necessidade de limpeza do seu sistema de drenagem e lateral da estrutura. Pode-se prever,
nesse tipo de obra, pequenas adequações, como o prolongamento dos ductos de drenagem, para que a
água não escorra pela sua lateral. (Fonte: autor)

Uma intervenção de 2a ordem contemplará ações de reconstrução de


secções lesionadas de concreto e aço, em consonância com ações químicas de
estabilização, em estruturas que já apresentem estado avançado de deterioração (Figura
2).
Já uma intervenção de 3a ordem será um conjunto de ações que
contemplem normalmente um aumento da capacidade de carga de uma estrutura, ou
então uma mudança no seu comportamento face ao mesmo carregamento, visando
corrigir patologias geradas por comportamento estrutural inadequado. Essa modoficação
pode ser pontual ou distribuída (Figura 3).
Essa classificação não pode ser excessivamente rígida, pois podem
existir ações com objetivos compostos, como pode ser visto na figura 3, pois neste caso
é necessário recuperar e aumentar a capacidade de carga, problemas que se fossem
tratados de forma separada encareceriam a obra sem nenhum ganho adicional de
desempenho. Em outros casos, o objetivo final sendo cosmético, necessita-se de uma
intervenção de 3a ordem para que o alcancemos.
Assim, definidos os objetivos da intervenção e a sua ordem, forma-se um
quadro mais claro dos estudos preliminares e da seqüência de ações, cujo conjunto
define um projeto.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 66

Figura 2: estrutura que apresenta considerável


dano á sua integridade, devido á ação do tempo
somada a características de projeto, como o
recobrimento insuficiente da armadura, o que
permitiu a sua despassivação. A sua
recuperação exige a reposição da secção de aço
perdida, a passivação da armadura e a reposição
estrutural da secção de concreto. (Fonte: autor)

Figura 3: ponte que apresenta, além de uma profunda degradação da sua estrutura, capacidade de carga
inadequada para a sua localização na cidade. Dessa forma, seria necessária uma intervenção que além de
recuperar, aumentasse a sua capacidade de carga. (Fonte: autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 67

3. MOMENTO DA INTERVENÇÃO

Em se tratando de intervenções técnicas de 1a e 2a ordem, e considerando


que toda estrutura tem uma vida útil, prevista no momento da sua concepção mas
realmente definida por suas características de projeto, execução e agressividade do
ambiente em que se insere , a intervenção técnica não necessariamente é uma ocorrência
extemporânea, podendo ser programada com antecedência, evitando a perda de
desempenho abaixo do mínimo aceitável. Essa é a condição ideal, quando os custos da
obra são mantidos baixos através do gerenciamento de um conjunto estrutural. Para isso,
podemos inicialmente considerar o gráfico da figura 4.

Figura 4: gráfico onde vemos assinalado o momento ideal da intervenção técnica. (Fonte; autor)

Esse gráfico assinala a condição desejável, onde definimos o melhor


momento da intervenção técnica. Para melhor compreende-lo, devemos definir alguns
parâmetros que ele nos apresenta.
Os níveis representam os quatro estágios pelos quais uma estrutura passa
durante a sua existência. São eles:

 Nível 0: estrutura sem nenhuma patologia diagnosticável


 Nível 1: estrutura apresentando patologias primárias
 Nível 2: estrutura apresentando patologias profundas, mas sem
perda significativa de secção resistente.
 Nível 3: estrutura apresentando patologias profundas, com perda
significativa de secção resistente, comprometendo em todo ou em
parte o desempenho estrutural.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 68

A montagem da curva de degradação é estabelecida, com boa


aproximação, com base em vistorias rotineiras e analogia com outros casos de
comportamento conhecido, que nos indicam a velocidade de deterioração da estrutura
com boa aproximação.
Com base nesses estudos, é possível determinar o momento adequado de
intervenção, no fim do nível 1, pois não coloca em risco os usuários e a obra de
recuperação é executada em um conjunto estrutural com resistência adequada, com um
conseqüente menor custo da intervenção. Por outro lado, nunca deve ser feita de forma
precoce, no nível 0 ou início do nível 1 de desempenho, pois a tendência da intervenção
será prolongar a vida útil na mesma proporção, diminuindo a vida útil final ou exigindo
maior número de intervenções.
Por outro lado, quando esse princípio de gerenciamento não é aplicado, o
custo da obra de recuperação habitualmente é muito mais elevado, podendo ser até igual
ao valor da estrutura. Ao mesmo tempo, surge um fator de risco para os seus usuários e
existe a necessidade de uma atuação mais profunda em um conjunto estrutural com
desempenho degradado. Essa é portanto uma prática desaconselhável, apesar de ser
quase sempre a situação encontrada. Essa ocorrência pode ser representada pelo gráfico
da figura 5:

Figura 5: gráfico onde se mostra procedimento inadequado para a escolha do momento de intervenção.
(Fonte: autor)

A decisão do momento de intervenção, neste caso, sempre é tomada com


base em uma vistoria especial, que determina o estado da estrutura, e quase sempre
indica a necessidade de intervenção imediata, pois sem um histórico que permita a
determinação de velocidade de degradação, não é possível estabelecer tempo durante o
qual tal ação possa ser postergada.
Deve-se compreender que, como referência para estabelecer o limite de
desempenho, salvo casos especialíssimos, sempre são utilizados os parâmetros
preconizados pelas normas brasileiras. A NBR 6118/78 estabelece os seguintes
parâmetros:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 69

Fissuração:
0,1 mm para peças não protegidas, em meio agressivo
0,2 mm para peças não protegidas, em meio não agressivo
0,3 mm para peças protegidas

Flexão:
1/300 do vão teórico, para vãos entre apoios
1/150 do comprimento teórico, no caso de balanços
1/500 do vão teórico, em deslocamentos entre apoios
1/250 do comprimento teórico, em balanços

A nova NBR 6118, com validade a partir de março de 2004, com o texto
preliminar em anexo a este trabalho, é muito mais restritiva quanto aos parâmetros de
desempenho, principalmente quanto á durabilidade de uma estrutura.
No caso de uma intervenção de 3o grau, o momento de atuação é definido
pela necessidade, pois o que pretendemos é elevar o seu desempenho, e isso não é
determinado por curvas de deterioração, apesar de ser ideal que elas existam para que se
possa projetar as modificação que se vão introduzir tendo um conhecimento prévio do
se desempenho e estado atual.

4. DESENVOLVIMENTO DE PROJETO DE INTERVENÇÃO TÉCNICA

Preliminarmente, todo projeto de intervenção em uma estrutura deve considerar:

 Estado atual de desempenho da estrutura


 Fatores de deterioração: elementos químicos e/ou mecânicos
 Velocidade e grau de deterioração
 Materiais a serem utilizados na estabilização da estrutura
 Técnicas a serem empregadas na estabilização
 Seqüência de ações
 Tensões anômalas, transitórias e permanentes, sobre o conjunto
estrutural.

Nas intervenções de terceira ordem, além disso, deve-se considerar as novas


cargas propostas para a estrutura e a sua ação sobre todo o conjunto estrutural,
pois nunca se considera o reforço de elementos isolados, mas o efeito sobre todo
o conjunto, até a sua descarga sobre o solo. Além disso, deve ser estabelecido
um procedimento de verificação de desempenho, a ser aplicado quando da
conclusão da obra.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 70

Normalmente, as causas de deterioração são definidas a partir das manifestações


patológicas, classificadas da seguinte forma conforme Quadro 1, abaixo:

Quadro 1 – Manifestações patológicas e suas causa prováveis. (Baseado em


Souza, Ripper)
Manifestação Patológica Causas

Fissuração Deficiência de projeto


Contração plástica
Assentamento do concreto/Perda de aderência
Movimentação do cimbramento e/ou formas
Retração
Falhas de execução
Reações expansivas
Corrosão das armaduras
Recalques diferenciais
Variações de temperatura
Cargas não previstas
Desagregação do concreto Fissuração
Movimentação das formas
Corrosão do concreto
Calcinação
Ataque biológico
Carbonatação Porosidade do concreto
Ataque biológico
Atmosfera agressiva
Perda de aderência Agregado inadequado
Contaminação por material pulverulento
Armadura com superfície de contato inadequada
Desgaste do concreto Agregado inadequado
Contaminação por material pulverulento
Contaminação por grão friáveis
Reatividade dos agregados
Fator A/C com altos valores

Todo projeto de recuperação de desempenho deve ter como elemento norteador


a causa, e não apenas a manifestação, mesmo que ela seja impossível de
combater.
Como dito anteriormente, a velocidade de deterioração é definida pelo histórico
da estrutura, sendo muito facilitada a sua determinação quando foram feitas
vistorias ao longo da vida útil da estrutura.
Quando não se pretende outro objetivo que não a recuperação do
desempenho estrutural, os materiais a serem utilizados se destinam
apenas a combater os fatores de deterioração e a recuperar o desempenho
original da peça, e a sua aplicação tem esses objetivos limitados, não se
justificando ações que visem a aumentar capacidade de carga original.
Em toda intervenção técnica, a seqüência de serviços a ser executada é de
extrema importância, e deve ser sempre muito bem analisada e executada, para garantir
o resultado final esperado. Por serem utilizados materiais de tecnologia mais avançada,

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 71

onde os limites de segurança de aplicação são mais justos, o acompanhamento


especializado é necessário.
Também se deve considerar que em estruturas pré-existentes é muito fácil
em uma intervenção, principalmente quando se utilizam reforços metálicos, introduzir
novos pontos de tensão no conjunto, motivo pelo qual todo o projeto estrutural é
verificado até a descarga da fundação sobre o solo.
Da mesma forma, quando se pretende uma modificação no
comportamento estrutural, seja para aumentar a sua capacidade de carga, suportar
localmente um acúmulo de tensões ou provocar um alívio de carga em algum ponto, é
essencial a verificação dessa ação em todo o conjunto. Também é ideal que se preveja,
após a execução de uma intervenção de terceira ordem, um teste que simule as
condições mais desfavoráveis de trabalho, para que se analise a real efetividade da ação.
Nunca é demais lembrar que em alguns casos, pode ser preferível a
demolição e reconstrução parcial da estrutura, seja para garantir um espaço livre de
trabalho, seja porque a peça a ser demolida colaboraria muito pouco, na sua atual
condição, para o resultado final que se pretende atingir.

4.1. Verificações preliminares

Essenciais para a boa execução de um projeto de intervenção


técnica, pode ser dividido em duas categorias, que são
- Vistorias
- Ensaios de desempenho

4.1.1. Vistorias

Em se tratando de estruturas de concreto de cimento


portland, podemos adotar para todas elas a nomenclatura e
finalidades apresentadas na NBR 9452, pois apesar dela tratar
especificamente de OAEs, a conceituação da norma é adequada
para os outros tipos de obras. Segundo ela, podem ser feitos três
tipos de vistorias:

 Cadastral
 Rotineira
 Especial
A vistoria cadastral é a ação inicial, de extrema importância, que
estabelece a condição de referência da obra, estabelecendo o ponto de partida para a
análise evolutiva das patologias que ela venha a apresentar. A partir dela adota-se uma
programação de vistorias, com prazo não superior a um ano, que é considerado o espaço
de tempo limite dentro do qual novas patologias que venham a surgir não terão tempo
para evoluir e comprometer seriamente a estrutura. Como pode ser notado, essa vistoria

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 72

deve ser a mais completa possível, devendo ser feita por uma equipe de engenheiros
treinados. Considera-se necessário pelo menos dois engenheiros para a compor, por se
tratar se serviço extenso e cuja avaliação em grupo tem se mostrado mais confiável.
Idealmente, ela seria realizada logo após a entrega da obra, quando
seriam verificadas as suas condições no início da utilização e reunidos todos os dados
pertinentes à sua concepção estrutural, projeto e execução.
Fora das condições ideais, o que infelizmente é a ocorrência mais normal,
a vistoria cadastral deve analisar toda a estrutura e complementarmente deve recolher
todos os dados possíveis sobre a obra, seja quanto a sua concepção, projeto e execução,
como devem ser coletadas informações quanto a ocorrências que colaborem na
explicitação de patologias que sejam constatadas na estrutura. No caso específico de
OAEs mais antigas, na falta de informações quanto à capacidade de carga, devem ser
feitas provas de cargas, estáticas ou dinâmicas, para que se tenha uma referência quanto
ao seu desempenho.
Um elemento que não pode ser esquecido é o registro fotográfico, que
quando bem executado, é um elemento de grande valia na avaliação de progresso de
patologias e deterioração geral da estrutura. As fotos desse registro devem ser nítidas, de
preferência coloridas, datadas e devem mostrar vistas gerais da obra e detalhes da
estrutura e eventuais defeitos.
A vistoria rotineira é sempre uma inspeção pré-programada, com o
objetivo de se manter atualizado o cadastro gerado na inspeção cadastral, não sendo
normal o uso de aparelhagem especial de precisão, sendo muito mais uma análise visual
criteriosa, realizada por um engenheiro treinado. Nela, procura-se também verificar
pontos ou comportamentos específicos da obra, que são previamente definidos na
inspeção inicial ou vistorias anteriores. As fotos de vistorias anteriores devem ser
estudadas previamente ou no local, para que o vistor possa ter uma idéia do que ocorreu
no período de tempo entre inspeções. Novas fotos devem ser tiradas, seguindo os
critérios já descritos, para as análises de escritório e para explicitar as descrições
contidas no relatório. Quanto a este, deve ser feito como uma atualização do relatório
gerado pela vistoria cadastral, seguindo o mesmo modelo e seqüência de informações.
A vistoria especial tem por objetivo analisar ocorrências específicas da
estrutura, podendo tanto ser uma inspeção visual como instrumental, para que se
proceda a uma análise precisa de comportamento. Necessariamente é realizada por um
engenheiro especialista e solicitada sempre que as vistorias cadastrais ou rotineiras
fornecerem um indicativo dessa necessidade. Ao contrário dos outros tipos, a vistoria
especial gera um relatório específico, que deve apresentar ao final, conclusões e
recomendações técnicas devidamente embasadas. Para que essa vistoria seja
consistente, é necessário o estudo de todos os relatórios anteriores, gerados pelas
vistorias, ou, como pode acontecer, deve-se no mínimo coletar todos os dados possíveis
e disponíveis sobre a obra, evitando-se na medida do possível a necessidade de ensaios
que de destinam primariamente a fornecer informações de projeto, como, por exemplo,
provas de carga para se determinar a capacidade de carga para a qual a obra foi
projetada.
Uma condição específica na qual também deve ser
solicitada uma vistoria especial é quando a estrutura em questão
terá a sua função modificada. Nesse caso, antes de uma decisão
final quanto a essa mudança, deve ser feita uma vistoria completa,
pois muitas vezes as vistorias rotineiras não detectam em

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 73

profundidade mudanças oriundas de processos de deterioração que


podem se tornar patentes quando de mudanças de carregamento
direto ou ciclos de carga. Normalmente essa é uma vistoria
instrumentada, podendo ser complementada por ensaios
específicos, como simulações de carga, esclerometria, etc., para que
o comportamento estrutural fique muito bem caracterizado.
Uma condição notável é quando se realiza uma vistoria especial, gerada
pela necessidade de se analisar um comportamento indevido de estrutura, sem que
exista uma referência anterior. Nesse caso, essa vistoria deve ser estendida, gerando um
relatório específico para o problema e ao mesmo tempo um cadastro, que passa a ser o
ponto de partida para o acompanhamento do comportamento estrutural da obra. Neste
caso específico, deve-se considerar em profundidade a freqüência necessária para as
vistorias rotineiras, e se elas devem ser ou não executadas por especialistas, até que o
fator gerador da vistoria especial seja bem caracterizado ou corrigido.
Como última consideração, devemos avaliar sempre o ambiente em que a
estrutura se insere, pois atualmente sabemos que todas as obras em concreto,
principalmente armadas e/ou protendidas, tem a sua durabilidade grandemente afetada
por fatores ambientais. Assim, deve-se avaliar o ph da água, quando há contacto desta
com a estrutura, sendo esse fator altamente significativo no caso de galerias de águas
pluviais, Também deve ser considerada a poluição do ar, principalmente nos horários de
“rush” ou em locais com baixa capacidade de dispersão de poluentes. Um elemento
ainda pouco considerado, mas que deve ser avaliado, é a agressividade do solo,
principalmente se é previsto um pequeno recobrimento de concreto sobre a armadura,
nas fundações. Como condição mínima de avaliação ambiental, devem ser seguidos os
parâmetros preconizados pela NBR6118 quanto à agressividade do meio.

4.1.1.1. Procedimentos de vistorias

Toda vistoria exige procedimentos metodológicos para que se atinja o


objetivo essencial, que é ter um registro fiel do estado da estrutura, para que se possa
inferir a sua velocidade de deterioração e o momento em que possa ser necessária uma
intervenção técnica para se manter o seu desempenho mínimo, que nada tem a ver com
os serviços de manutenção normais. Esses procedimentos têm maior significado quando
consideramos como ocorrência normal na engenharia que uma estrutura ultrapasse em
muito o seu tempo de vida útil prevista em projeto e que possam ser mudados alguns
parâmetros da sua função ao longo dela. Assim, o registro de desempenho torna
administração e uso da estrutura atividades confiáveis, prevenindo-se os acidentes
estruturais.
Considerando a vistoria um documento valioso, deve ser feito o
preenchimento de planilhas próprias e em um registro fotográfico referenciado, com
data e localização do ponto fotografado. Apesar do registro eletrônico, deve ser mantido
um registro físico, porque muitas dessas estruturas ultrapassam o tempo de trabalho de
uma determinada pessoa. Pelo mesmo motivo, os registro devem apresentar toda a
clareza, para que técnicos que nunca tenham inspecionado uma obra sejam capazes,
através desses registros, de dar continuidade aos serviços técnicos.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 74

No anexo, ao final deste volume, temos roteiros de vistoria para três tipos
de estruturas, Prediais, Obras de Arte Especiais e Galerias, as mais comuns tanto na área
pública como na área privada.

4.1.2. Ensaios de Desempenho

Os ensaios de desempenho se dividem em dois grandes grupos:

- Ensaios que avaliam o comportamento do conjunto estrutural


- Ensaios que avaliam o comportamento dos materiais.

Essa divisão é necessária pois quando não se avalia corretamente


qual ensaio deve ser feito, o resultado pode ser absolutamente inconclusivo,
apesar do seu alto custo. Assim, quando existe uma desconfiança direta na
qualidade dos materiais que foram empregados na execução de uma estrutura,
são feitos ensaios que verifiquem essa qualidade. Os mais comuns deles são
relacionados abaixo:

Qualidade dos constituintes do concreto

 Granulometria de agregados (NBR 7217)


 Contaminação por torrões friáveis (NBR 7218)
 Contaminação por material pulverulento (NBR 7219)
 Contaminação por matéria orgânica (NBR 7220)
 Qualidade do agregado miúdo (NBR 7221)
 Contaminação por cloretos (NBR 9917)
 Índice de forma do agregado graúdo (NBR 7809)
 Esmagamento do agregado graúdo (NBR 9938)
 Ensaio Los Angeles (NBR 6465)
 Esclerometria do concreto (NBR 7584)
 Carbonatação do concreto
 Extração e ensaios de corpos de prova (NBR 7680)
 Resistência do concreto (NBR 5739)
 Resistência do aço (NBR 7480)

Observação: Pode-se notar que muitos desses ensaios só podem ser feitos
quando a origem dos materiais é conhecida e a obra é recente, pois as jazidas
podem mudar de característica ao longo dos anos. Eles também devem ser
executados para caracterizar materiais novos, a serem utilizados nos reparos
estruturais.

Comportamento estrutural

 Prova de carga (NBR 9607)


 Fissuração (NBR 6118)
 Ultra-som (NBR 8802)
 Medida de velocidade de recalque (bench mark)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 75

Observação: As medidas de velocidade de recalque, feitas através de


equipamentos de precisão, podem ser feitas por períodos curtos, quando
queremos verificar possibilidade de colapso estrutural iminente, como podem
servir como elemento básico de controle, quando já se prevê o recalque de uma
estrutura, e existe um protocolo de medidas corretivas, destinado a evitar
carregamentos muito diferenciados.

4.1.3. Verificação de carregamento

Apesar de sempre se imaginar que a estrutura está trabalhando


com as cargas previstas em projeto, é sempre necessário que se verifique a
realidade desse fato. Essa verificação pode ser feita através da medida de
deformação de peças estruturais, quando a outros atores não se pode atribuir
uma deformação excessiva, como pelas medidas de recalque, feitas através do
bench mark. Por análises feitas por diversos pesquisadores, encontramos dois
fatores preponderantes para esses carregamentos imprevistos:

 Recalques diferenciais
 Contra-pisos com espessura excessiva

Esses dois fatores já foram responsáveis por diversos acidentes


estruturais, como pode ser visto nas figuras 6 e 7.

Figura 6: contra-piso com espessura excessiva, eliminando parte da capacidade de carga da laje e
causando sobre carga geral na fundação. O elemento causador dessa superespessura foi a
incorreção nas cotas de nivelamento das lajes, ou seja, projeto deficiente. (Fonte: autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 76

Figura 7: reparo de pilar, cujo colapso foi causado por sobre carga causada por mudança de
pressão do solo, devido á obra de terraplenagem em terreno lindeiro. (Fonte: Francisco Rocha)

4.2. Definição de procedimentos

Definidos os objetivos da intervenção, são definidas as ações que nos


levarão a esses objetivos. As técnicas básicas utilizadas são apresentadas no quadro 2:

Quadro 2: Técnicas básicas utilizadas em reparo ou reforço de estruturas


Ação Objetivo
Limpeza e preparo do substrato Feita das mais diversas formas, sempre se destina a
garantir uma superfície adequada a ser tratada
Injeção ou infiltração de resinas Selagem de trincas com restituição da integridade
epoxídicas estrutural. Aplicável em trincas mortas
Silicatação Oclusão de trincas ou endurecer a superfície do
concreto
Reconstrução de secção em Devolver á estrutura sua secção original, com
concreto, com ponte de adesão comportamento estrutural. Aplicável em reparos de
grandes dimensões e fácil acesso.
Recontrução de secção em Devolver á estrutura sua secção original, com
concreto projetado comportamento estrutural. Aplicável em reparos em
grandes áreas e fácil acesso.
Reconstrução de secção em Devolver á estrutura sua secção original, com
graute, com ponte de adesão comportamento estrutural. Aplicável em reparos de
grandes e médias dimensões e quando o acesso é
difícil.
Reconstrução de secção com Devolver á estrutura sua secção original, com
argamassa úmida (farofa) comportamento estrutural, em peças com tensões de
compressão pouco acentuadas. Aplicável em
reparos de pequenas dimensões e fácil acesso.
Reconstrução de secção com Devolver á estrutura sua secção original, com
argamassa polimérica comportamento estrutural. Aplicável em reparos de

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 77

pequenas dimensões e fácil acesso.


Selagem de fissuras Oclusão de fissuras sem restituição de integridade
estrutural. Aplicável em trincas vivas.
Reforço metálico – armadura Restituir á estrutura secção de aço perdida ou criar
frouxa um complemento estrutural.
Reforço metálico – armadura Restituir á estrutura desempenho estrutural ou criar
protendida um complemento estrutural.
Reforço com mantas de fibras Destinado a criar um complemento estrutural.
carbônicas
Tratamento de superfície Destinado a corrigir problemas de ataques químicos
falhas ou desgaste superficial

4.3. Materiais

Definindo-se as técnicas a serem empregadas, são determinados os


materiais que nos permitirão atingir o objetivo desejado. Os mais utilizados são:

 Concretos de cimento portland: utilizados em grande parte dos reparos


estruturais que envolvam camadas com espessuras significativas. Exigem
uma escolha adequada do tipo de cimento, diâmetro dos agregados,
trabalhabilidade, consumo de água e aditivos, conforme o serviço a ser
executado. Quando aplicados de forma tradicional, exigem uma ponte de
adesão que garanta a solidarização estrutural com os concretos antigos,
quando a estrutura apresenta flexão ou elevado esforço local. Ao serem
aplicados sob a forma de concreto projetado, dispensam essa ponte de
adesão. Podem ser reforçados por fibras metálicas ou poliméricas,
principalmente para reduzir efeitos de retração e resistir a tensões
localizadas.
 Concretos de Alto Desempenho: recentemente, esse material tem sido
adotado pelas suas características de resistência, durabilidade e
características de adesão em juntas frias. Trata-se do concreto de cimento
portland com formulação específica, sendo a mais comum a que utiliza o
cimento CP V –ARI, agregados selecionados, adição de microsílica e um
superplastificante, o que permite a utilização de fatores A/C muito
baixos. Esse material é adequado para reconstruções ou execução de
peças que sofram elevadas solicitações estruturais ou se localizem em
meios medianamente agressivos.
 Argamassas de cimento portland: utilizadas para compor camadas
pouco espessas de revestimento, tem normalmente função de proteção
estrutural, devido à sua pouca espessura, exigindo uma ponte de adesão
ou um melhorador de adesividade, que pode ser cal hidratado ou
produtos químicos específicos, quando a estrutura apresenta flexão ou
elevado esforço no ponto de recuperação. Um tipo específico de
argamassa é a denominada “farofa”, uma argamassa com pouquíssima
água, quase que apenas a suficiente para a reação de hidratação do
cimento, o que garante uma retração quase nula. O seu uso permite a
adoção de um método específico de aplicação, o de argamassa socada,
adequada para pequenos reparos estruturais.
 Pastas de cimento portland: utilizadas em injeções em bainhas de
protensão, destinando-se a garantir a aderência dos cabos á estrutura de

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 78

concreto. Utilizados também em chumbamentos pouco solicitados


estruturalmente. Atualmente utiliza-se água gelada para compensar a
retração.
 Argamassas de base mineral: argamassas baseadas nas reações de
endurecimento do cimento portland/água, tem o seu comportamento
modificado com a adição de polímeros, normalmente para garantir
adesão à superfícies de concreto endurecido, comportamento tixotrópico
e retração controlada. São utilizadas para compor camadas pouco
espessas de revestimento, tendo normalmente função de proteção
estrutural, e não exigem uma ponte de adesão ou um melhorador de
adesividade.
 Graute: definidos como argamassas auto-adensáveis, constituídas por
cimento portland comum ou ARI, agregado miúdo, aditivos expansores e
superfluidificantes, requerem um baixo fator A/C para se tornarem
fluidos, mas apresentam um curto tempo de trabalho. São muito úteis no
preenchimento de cavidades difíceis, áreas densamente armadas ou de
pequena espessura, que necessitem de uma camada com comportamento
estrutural precoce, por terem boa aderência e não possuírem retração
significativa. São materiais também muito utilizados em chumbamentos,
quando queremos inserir um novo elemento na estrutura, como suportes
para dutos.
 Aditivos: são produtos químicos empregados quando pretendemos
melhorar, modificar ou corrigir uma ou mais características do concreto
ou argamassa. São classificados de acordo com o seu maior efeito sobre
os outros materiais, sendo os mais utilizados os aceleradores de pega, os
retardadores, os plastificantes, os superfluidificantes e os expansores.
Quase todos eles apresentam efeitos colaterais e variações de
comportamento, conforme a formulação dos outros materiais, o que
exige dosagens prévias para confirmar comportamento, dosagem do
aditivo e efeitos colaterais, que podem incluir perda de resistência e
expansão excessiva.
 Cimento aluminoso: cimento obtido a partir da bauxita, apresenta em
sua formulação uma grande quantidade de CA, que lhe confere alta
resistência mecânica inicial, resistência a ácidos (pH  3,0), dureza
superficial e estabilidade dimensional, mesmo sob temperaturas
elevadas. Apresenta o fenômeno de conversão, que lhe diminui a
resistência mecânica, mas não afeta as outras qualidades. Sob a forma de
concretos ou argamassas, permite a execução de revestimentos
resistentes a ácidos ou à ação intensa de elementos abrasivos ou a
temperaturas elevadas. Devido à sua capacidade de aderir a concretos
endurecidos, dispensa as pontes de adesão. Exige mão de obra
especializada para o seu uso, devido às características de reação de
hidratação diferenciadas.
 Resinas orgânicas: adesivos cuja resistência se baseia em reações de
polimerização, podem ser utilizados puros, como sob a forma fillerizada,
ou de argamassa. Sob a forma pura, apresenta baixa viscosidade,
apresentando grande capacidade de penetração e mínima retração,
motivo pelo qual são utilizadas no preenchimento de fissuras,
recuperando o comportamento monolítico da estrutura. São também
chamados de grautes para injeção de fissuras e a escolha da sua

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 79

viscosidade é essencial em serviços de injeção ou infiltração de fissuras.


Sob a forma fillerizada, são muito utilizados como adesivos de superfície
ou pontes de adesão, apresentando a capacidade de aderir concreto
fresco, concreto endurecido, argamassa, aço e polímeros e de acordo com
a sua formulação, podem ter comportamento tixotrópico. Podem ainda
ser utilizados como revestimentos anticorrosivos. Associando-se a pasta
a agregados miúdos selecionados, formando argamassas, são utilizados
no preenchimento de falhas estruturais de pequena espessura e na
solidarização de armaduras complementares. Também podem apresentar
comportamento tixotrópico. As resinas de uso mais comum, nas obras de
recuperação são:
Resina epóxi: apresenta ótimo comportamento estrutural e adesão a
diversas superfícies, resistem a ambientes com pH variando de 2,0 a
14,0. Perde a sua resistência a partir dos 70ºC, e apresenta deterioração
superficial sob a ação da radiação ultravioleta. Por ser um adesivo
utilizado em reparos de média e elevada solicitação, deve-se considerar a
sua resistência em relação ao esforço sofrido pela peça.
Resina acrílica: é utilizada como ponte de adesão entre camadas de
argamassa ou concreto, quando a solicitação estrutural não é acentuada.
Fornecida normalmente sob a forma de emulsão de base aquosa, a sua
utilização é indicada pelo fabricante, sendo de simples utilização. Após a
cura, pode ser mantido contacto com a água.
Resina PVA: é utilizada como ponte de adesão entre camadas de
argamassa ou concreto, quando a solicitação estrutural não é acentuada.
Fornecida normalmente sob a forma de emulsão de base aquosa, a sua
utilização é indicada pelo fabricante, sendo de simples utilização. Após a
cura, não pode ser mantido o seu contacto com água, sob o risco de
reemulsificação.
Resina fenólica: Apresenta resistência química limitada e o seu tempo
de uso é muito curto, exigindo refrigeração até o momento de uso.
Apresenta como vantagem a resistência térmica, que atinge 175ºC.
Resina poliéster e estervinílica: apresenta como vantagem sob a resina
epóxi a maior resistência química e térmica (115ºC).
Resina furânica: apresenta como vantagem sob a resina epóxi a maior
resistência química e térmica (200ºC).
 Aços: utilizados nas suas diversas formas, para compor armaduras
complementares ou redirecionar os esforços atuantes sobre a estrutura.
Sob a forma de perfis, podem ser utilizados aços comuns ou inoxidáveis,
não sendo recomendável o uso de aços patináveis em reforços que
exijam adesão, devido à sua superfície apresentar baixa capacidade
aderente.
 Fibras carbônicas: fibras de carbono aderidas com resina, atualmente se
apresentam como substitutas do aço em reforços executados com placas.
Apresentam maior leveza, orientação de fibras no sentido do maior
esforço e ausência de fadiga. Tanto se apresentam como placas rígidas
como em mantas moldáveis a superfícies não retilíneas. A sua utilização
é muito semelhante ao aço, mas exigem um grande cuidado na orientação
das fibras para que tenham o efeito desejado.
 Vernizes, hidrofugantes, tintas: com diversas formulações, se destinam
a proporcionar uma proteção de superfície, em ambientes que apresentem

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 80

na sua atmosfera elementos potencialmente agressivos. São normalmente


adotados como coadjuvantes em processos de recuperação ou reforço
estrutural, mas apresentam grande importância nos serviços de proteção
estrutural. A escolha da base química do material é de grande
importância, e deve considerar a compatibilidade com a superfície onde
será aplicado, e qual ou quais os elementos agressivos dos quais o
material deve ser protegido.
 Revestimentos anticorrosivos: compostos por ladrilhos anticorrosivos,
suportam ataques severos de produtos químicos, mas não são
impermeáveis, o que exige a adoção de membranas de bloqueio
(poliméricas, asfalto, amianto, chumbo, etc.) ou argamassas de enxofre
no seu rejuntamento. Têm sido gradualmente substituídos por paredes ou
pisos de concreto revestidos por resinas epóxi resistentes a ataques
químicos ou então com camadas executadas com cimentos aluminosos.

5. DESCRIÇÃO DE TÉCNICAS DE REPARO ESTRUTURAL

5.1. Limpeza e preparo do substrato

Considerando-se que se destina a preparar a interface para os tratamentos


posteriores, é impossível se considerar que uma intervenção será bem sucedida sem o
adequado preparo da superfície. Essa operação pode ser de simples limpeza superficial
como, dependendo do objetivo, exigir uma intervenção mais profunda. As operações de
limpeza mais comuns são as seguintes:

Lavagem com água: destina-se a limpar a superfície e a remover impurezas


solúveis em água à pequena profundidade da superfície da estrutura. Quando se
utiliza equipamento de jato de alta pressão, a frio, obtemos a remoção de
materiais desagregados no concreto, com a característica de não encharcar o
substrato. Quando são utilizados equipamentos de jato da água quente, obtemos
a remoção superficial de gorduras. Nenhum desses procedimentos devem ser
utilizados quando é necessário substrato seco, pois o tempo de espera de
secagem pode significar nova contaminação.
Lavagem à vapor: é adequado para o preparo de grandes áreas, onde houve
contaminação por graxas, óleos ou sais. Não é adequado para operações
posteriores que necessitem de substrato seco.
Lavagem com água e soluções: podem ser utilizadas soluções ácidas ou
alcalinas.
Soluções ácidas: não são recomendadas para uso em concreto armado e
devem ser evitadas a todo custo em concreto protendido. Se for
absolutamente necessário o seu uso, o substrato deve estar saturado de
água e a lavagem posterior é feita com água pura em abundância.
Soluções alcalinas: tendem a não prejudicar os componentes do
concreto, sendo muito utilizados desengraxantes industriais com pH
elevado na limpeza de estruturas afetadas pela penetração de graxas ou
óleos. Na sua utilização, ainda assim, deve ser evitada a sua penetração
na área não afetada, pois alguns agregados podem desenvolver reações
expansivas em meio fortemente alcalinos, como também resíduos desses
produtos afetam o desempenho de adesivos estruturais como o epóxi.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 81

Assim, como procedimento padrão, a superfície a ser lavada deve estar


encharcada e após a aplicação do produto deve ser feita a lavagem com
abundância de água pura, visando remover todos os resíduos. A de se
considerar também que esses produtos não removem resíduos de
oxidação da armadura.
Jato de ar: com pressão e vazão adequados, colaboram na remoção de pós e
material desagregado de maior dimensão, sem encharcar a superfície da peça. É
utilizado também para secar superficialmente uma área, quando então podemos
utilizar uma pistola de ar quente, sendo que esta também serve para a remoção
de tintas e vernizes. Quando se utilizam compressores, deve-se verificar a
contaminação do jato de ar por óleo, o que por sua vez contaminaria a superfície
a ser tratada.
Solventes voláteis: a acetona industrial é muito utilizada para limpar áreas
momentos antes da aplicação de adesivos, principalmente sobre superfícies
metálicas, pois ela dissolve e portanto remove graxas, óleos, tintas, etc. Não
deixa resíduos, desde que a remoção seja bem executada, e por sua volatilidade,
não contamina a superfície e colabora na eliminação de umidade superficial.
Exige ambiente ventilado para o seu uso ou EPI específico, quando grandes
superfícies são tratadas. Apresenta um consumo relativo elevado.
Aspiração à vácuo: utilizado na remoção de pó, não causa os transtornos que a
lavagem ou o jato de ar provocam. Apesar de existirem equipamentos industriais
mais potentes, mesmo estes não removem partículas maiores ou umidade, com
eficiência.

As operações de preparo do substrato mais comuns são:

Corte do concreto: destina-se a definir a área a ser recuperada ou tratada, dando


forma geométrica adequada ás suas superfícies. Pode ser feita manualmente,
com ponteiro, como podem ser utilizada uma combinação de meios mecânicos,
como disco de corte para definir a área, e marteletes rompedores leves para a
remoção do material interno ao reparo. Todo corte deve ter inicialmente a sua
área definida e ser executado com a mínima aplicação de choques mecânicos à
superfície. Normalmente utilizado em pequenas áreas, devido ao rendimento
desse tipo de serviço, de características artesanais.
Apicoamento: destina-se a conferir à superfície uma rugosidade adequada,
proporcionando ancoragem mecânica e desconfigurando um plano de ruptura.
Pode ser feito com marreta e ponteiro, como por marteletes rompedores leves.
Saturação: consiste de impregnar o substrato com água até o ponto que, cessado
o molhamento, a superfície apresente um aspecto brilhante. É utilizado em
reparos em que se utilizam massa com base de cimento portland, sem ponte de
adesão.
Desbaste: utilizados em áreas horizontais, onde é necessária a remoção da
camada superficial, em uma espessura entre 0,5 mm e 3,0 mm. Podem ser
utilizadas escarificadoras mecânicas leves, que já deixam a superfície rugosa,
como se houvesse sido apicoada, com rendimento adequado para grandes áreas,
como podem ser utilizadas lixadeiras manuais com disco de corte, que geram
superfície irregular mas pouco rugosa. Esta última opção é aplicável apenas em
pequenas áreas. Esse tipo de serviço habitualmente é executado sobre a
superfície umedecida, gerando quantidade significativa de resíduos.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 82

Demolição parcial: é aplicável em muitos casos, mas exige controle absoluto da


operação para que o restante da estrutura a ser mantido não seja afetado,
principalmente quando ela é composta por peças esbeltas. Podem ser utilizados
equipamentos de percussão, como marteletes, como elementos de corte de
concreto, como serras, discos e fios diamantados, ou ainda lanças de oxigênio,
quando não é aceitável nenhum nível de vibração.
Lixamento: destina-se à remover da superfície do concreto incrustações,
eflorescências e impurezas. No aço, remove crostas de corrosão, e em chapas ou
outros perfis não específicos para concreto armado, remove a carepa de
laminação, bem como pontos de corrosão, uma necessidade em estruturas que
utilizam pontes de adesão. Pode sr manual, aplicável em pequenas áreas, como
mecânico, quando se dá preferência a lixadeiras rotativas industriais. É uma
operação com alta emissão de pó.
Escovamento: uma ação mais enérgica que o lixamento, se destina a remover
incrustações fortemente aderidas ou espessas. Pode ser manual, executada com
escovas de cerdas metálicas, como por equipamentos elétricos dotados de
escovas de aço rotativas, que apresentam rendimento muito mais elevado. Tem
também melhor desempenho que o lixamento, em superfícies irregulares.
Jato de areia: podendo ser a seco ou úmido, tem-se dado preferência a este
último pela ausência de emissão de pó. Ë utilizado em substituição ao lixamento
ou escovamento quando é necessária uma ação mais profunda, ou a área é
grande ou de superfície angulosa, sendo muito eficiente na limpeza de
armaduras ou perfis metálicos com incrustações.
Corte de pequena profundidade: executado com lixadeira dotada de disco de
corte ou então serra circular específica, é adotado para delimitar áreas a serem
reparadas, executar embutimentos rasos de armaduras ou abertura de bordas de
fissuras a serem tratadas. Exige controle para que a armadura próxima não sofra
ação de corte.
Queima controlada: utilizado na remoção de camada superficial de concreto
através da desagregação desse material devido à desidratação da matriz
cristalina. É utilizado principalmente quando essa camada a ser removida está
impregnada por graxas, óleos ou pinturas. Não pode ser utilizado em peças
esbeltas ou que possuam a armadura próxima á superfície (< 30 mm). A
utilização do maçarico exige pessoal treinado e não apresenta grande
rendimento, sendo mais aplicável em pontos localizados.

5.2. Injeção ou infiltração de resinas epoxídicas

O tratamento de fissuras só é possível após a identificação da sua causa, e


após esta estar definida, são adotados dois caminhos diferentes para sua solução. São
eles:

 Resolidarização da estrutura, aplicável em fissuras passivas


 Selagem da fissura, aplicável em fissuras ativas, a ser tratado em
outro item

Quando a resolidarização é necessária em uma fissuração ativa, é


necessário primeiro torná-la passiva, através de técnicas de reforço estrutural.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 83

A técnica básica utilizada é a injeção de resinas orgânicas, sendo que a


mais comum é a resina epóxi bi-componente, dado o seu comportamento estrutural e
facilidade de uso. O procedimento é o seguinte:

1o. Escolha da resina: feita com base na sua viscosidade, resistência e “pot-life”. Para
aberturas inferiores a 0,2 mm, recomendam-se resinas com viscosidade de até 100 cps,
sem solventes. Para aberturas entre 0,2 mm a 0,6 mm, recomenda-se uma viscosidade
máxima de 500 cps. Entre 0,6 e 3 mm, recomenda-se resinas epóxi com viscosidade até
1500 cps, e acima disso, resinas epóxi de alta viscosidade ou com cargas. Note-se que a
viscosidade é considerada á uma temperatura de 20 ºC. A resistência deve considerar
qual o esforço identificado no local, sendo os mais comuns compressão, tração e
cisalhamento, O “pot-life” é na realidade o tempo de trabalho do material,
considerando-se a temperatura do local de manuseio e aplicação.
2o. Furação para injeção: ao longo da trinca, abrem-se furos com diâmetro de 10 mm,
com 30 mm de profundidade, onde serão inseridos tubinhos de plástico de diâmetro
ligeiramente inferior ao furo. O seu espaçamento mínimo entre furos é de 50 mm e pode
variar até 300 mm, considerando-se a abertura da fissura e a sua profundidade,
considerando-se a relação de afastamento de até 1,5 vezes a profundidade da fissura.
3o. Limpeza: utilizando-se um dos métodos acima descritos, dando-se preferência ao
jato de ar ou aspiração mecânica, para não umedecer a superfície interna da fissura,
onde a resina irá aderir. Essa operação é executada até que não se constate a presença de
partículas soltas, inclusive aquelas geradas pela furação.
4o. Fixação dos tubinhos plásticos: são fixados com resina epóxi, deixando-se
externamente um comprimento adequado à fixação do bico de injeção, normalmente um
valor próximo de 100 mm. Os tubos mais adequados são os vinílicos flexíveis
transparentes, que permitem uma colagem firme e a visualização perfeita do processo de
injeção.
5o. Selagem da trinca: após a fixação dos tubos, com a garantia de uma superfície
interna seca, selamos a superfície da trinca com adesivo epoxídico, aplicando-se a
espátula sempre que possível para evitar a visualização posterior de uma cicatriz. Após
essa operação, com a cura do adesivo de selagem, testa-se o sistema injetando-se ar
comprimido e verificando se todos os tubos apresentam-se conectados. Caso se note
alguma dificuldade de passagem de ar, pode-se aumentar o número de tubos de injeção,
diminuindo-se o espaço entre eles.
6o. Injeção de resina: injetamos resina a baixa pressão, próxima de 0,1 MPa, sempre do
tubo localizado no ponto mais baixo para o mais alto, fechando os tubos
sucessivamente, através de dobramento e amarra com arame, conforme o tubo
imediatamente superior, que funciona como purgador, começa a verter resina. A partir
deste recomeçamos a injeção. Durante esse processo, deve se verificar a velocidade e
volume de escoamento, para verificar possíveis obstruções ou, ao contrário, fuga de
material, o que pode determinar a interrupção da operação para se determinar outra
forma de ataque ao problema. Deve-se sempre observar o tempo de injeção, para que o
endurecimento precoce da resina não seja o próprio elemento provocador de obstrução
do sistema.
7o. Verificação: consideramos que uma operação bem sucedida se dá quando 95 % da
trinca é preenchida. Isso pode ser verificado com a extração de corpos de prova que
atinjam toda a profundidade da fissura

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 84

Na figura 8 podemos ver detalhes do posicionamento, profundidade e


diâmetro dos furos de injeção, seqüência de injeção da resina e um detalhe da selagem
da superfície da trina com massa epóxi.

Figura 8: detalhes da operação de injeção de resina em fissuras. (Fonte: autor)

5.3. Silicatação

O endurecimento superficial do concreto pode ser obtido pela aplicação


de produtos químicos á base de silicatos de sódio, fluorsilicatos de magnésio ou ainda
com produtos á base de lítio. Esses produtos reagem com os componentes do concreto,
em alguns casos a cal livre e em outros com os silicatos e aluminatos hidratados,
tamponando os poros e aumentando a dureza superficial da estrutura assim tratada. A
sua aplicação é sob a forma de soluções, espalhadas com trinchas, vassouras ou rodos,
em várias demãos, conforme recomendação do fornecedor do produto. É um tratamento
superficial mais aplicável em pavimentos novos, sem processo de lixiviação instalado. A
sua aplicação prejudica a aderência posterior de tintas e vernizes, e não protege contra
ataques químicos intensos. Os compostos à base de lítio são os que apresentam maior
capacidade de penetração na estrutura do concreto
Em trincas estruturais mortas e de baixa abertura, instaladas em obras
recentes, pode-se aplicar esse produto por penetração, para provocar a cicatrização
dessa fissura. Essa operação não é considerada segura quando se pretende um
desempenho estrutural integral da peça, sendo mais utilizada em pontos de menor
solicitação, onde se pretende principalmente estaqueidade.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 85

5.4. Reconstrução de secção em concreto, com ponte de adesão

É aplicável em reparos extensos, onde é necessário comportamento


estrutural sem solução de continuidade. Pode ser acompanhado de reconstituição de
armadura. O concreto a ser utilizado deve ter características de resistência,
trabalhabilidade e durabilidade compatíveis com a estrutura pré-existente, podendo ser
utilizado o CAD em circunstâncias especiais. Esse serviço consiste nas seguintes
operações:

1o. Abertura do local de reparo, com remoção de todo material alterado ou desagregado,
dando forma geométrica definida, sendo os limites definidos por técnico habilitado e
demarcado com cortes de pequena profundidade. A superfície resultante deve ser
ligeiramente rugosa, em estruturas medianamente solicitadas, sendo que nas altamente
solicitadas ou flexionadas deve ser feito o apicoamento para tornar a superfície rugosa,
descaracterizando planos de ruptura.
2o. Limpeza total da superfície, devendo-se remover todo o pó e/ou materiais
contaminantes. A interface deve estar completamente seca no momento de aplicação da
ponte de adesão.
3o. Se for necessário, este é o momento de recompor a armadura
4o. Ajuste de forma, de forma a garantir a estanqueidade e a fácil montagem, pois ela é
removida para a aplicação da ponte de adesão, e imediatamente montada para a
aplicação do concreto. Deve-se prever um sistema de fixação adequado para essas
necessidades e também para a aplicação do concreto.
5o. Com a remoção da forma, aplica-se a ponte de adesão, que pode ter como base uma
resina orgânica, sendo a mais comum a resina epóxi, devido ás suas características
próprias. Em superfícies verticais, deve-se utilizar sempre adesivos tixotrópicos, para
evitar descontinuidades ou espessuras inadequadas de adesivo. Muito cuidado deve ser
tomado nessa operação, devido ao tempo curto para execução das operações seguintes, a
partir desse momento.
6o. Montagem da forma e adequada fixação estanque
7o. Lançamento do concreto e adensamento. Essa operação tende a ser a mais simples,
se escolhidos adequadamente o diâmetro máximo do agregado e a trabalhabilidade. O
adensamento deve ser feito por camadas de lançamento pouco espessas, para que a
forma não seja forçada durante essa operação.
8o. Remoção da forma e remoção do volume do cachimbo. A remoção da forma pode ser
executada 24 horas após a concretagem, com a conseqüente operação de cura, mas a
remoção do volume do cachimbo e outras protuberâncias incompatíveis com o
acabamento pretendido só deve ser feito pelo menos 7 dias após, quando o concreto não
é mais sensível á pequenos impactos ou vibrações. Essa operação pode ser feita por
apicoamento ou desbaste.

Os detalhes principais dessa operação de reparo podem ser visto na


figura 9, abaixo.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 86

Figura 9: detalhes de execução de reparo estrutural com concreto. (Fonte: autor)

5.5. Reconstrução de secção em concreto projetado

É aplicado em grandes áreas onde pretendemos reconstruir secções de


concreto, pela sua alta produção. Em compensação, não é próprio para pequenos reparos
devido á necessidade de mobilização de equipamento e a grande quantidade de material
necessário e os resíduos gerados.
São utilizados dois métodos de projeção, por via seca e por via úmida.
Por via seca, o material seco (Cimento, areia, pedrisco e aditivo) é
recalcado em uma linha de ar comprimido, e no bocal é adicionada a água, cujo controle
da mistura é feito pelo operador. Esse método é muito utilizado porque o equipamento
utilizado é mais simples e menos sujeito a falhas, mas a operação em si apresenta
elevado índice de reflexão e menor confiabilidade na resistência final, devido á
dependência direta da capacitação do operador. Também apresenta maior
permeabilidade final na camada executada. Por outro lado, em substrato frágeis, como
solo pouco adensados, apresenta a vantagem de não ter um efeito de desmonte
hidráulico.
Por via úmida, o microconcreto é recalcado por bomba de alto volume,
sendo a mistura com água feita previamente, o que permite um controle da qualidade
final do produto.É menos utilizado em reparos por exigir um equipamento mais
volumoso e caro, e mais sujeito a falhas. A reflexão é reduzida, mesmo em condições
adversas, e a camada é menos permeável, ainda que superior a de concretos
convencionais. Por outro lado, em substratos frágeis, executa um verdadeiro desmonte
hidráulico.
Avaliando-se o método de aplicação mais adequado, a seqüência de
operação é a seguinte:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 87

1o. Abertura do local de reparo, com remoção de todo material alterado ou desagregado,
dando forma geométrica definida, sendo os limites definidos por técnico habilitado e
demarcado com cortes de pequena profundidade. A superfície resultante deve ser
apicoada para tornar a superfície rugosa, descaracterizando planos de ruptura.
2o. Limpeza total da superfície, devendo-se remover todo o pó e/ou materiais
contaminantes.
3o. Se for necessário, este é o momento de recompor a armadura
4o. Saturação de toda a superfície a ser recomposta.
5o. Projeção de concreto sempre de forma ortogonal á superfície, o que exige a
verificação anterior da mobilidade possível para o operador. Formas de contenção
devem ser evitadas, por provocarem perda de adensamento O material projetado deve
ultrapassar ligeiramente o plano de acabamento pretendido. Durante essa operação, se
previsto no projeto de recuperação, podem ser colocadas telas metálicas entre as
camadas de concreto projetado.
6o. Imediatamente após o término da projeção, faz-se o acabamento da superfície, por
sarrafeamento e/ou desempeno.
7o. Cura da superfície, que se prolonga por pelo menos 3 dias, começando assim que a
superfície de concreto projetado o permita
8o. Operações complementares, que podem ser o estucamento ou outra operação que se
destine a criar uma superfície acabada mais lisa. Pode ser feita imediatamente após a
projeção, como após a cura (junta fria).

Os detalhes principais dessa operação de reparo podem ser visto na


figura 10, abaixo.

Figura 10: detalhes da execução de reparo em concreto projetado. (Fonte: autor)

5.6. Reconstrução de secção em graute, com ponte de adesão

A execução desse tipo de reparo é extremamente semelhante á


recomposição com concreto e ponte de adesão, sendo a principal diferença o material,

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 88

graute, que sendo uma massa auto-adensável com agregado de pequeno diâmetro,
permite a concretagem em espaços mais restritos, mas mais amplos que aqueles
previstos para reparos com argamassa polimérica, devido ao seu alto custo.
A reconstrução com graute também é muito aplicada quando
pretendemos altas resistências precoces, apesar de que esse objetivo pode ser atingido
atualmente com o uso de CAD.
Um caso específico em que utilizamos o graute é na concretagem
submersa, por suas características de coesão e auto-adensamento. Os detalhes dessa
operação específica são vistos na figura 11. Neste caso, a ponte de adesão, quando
necessária devido a tensões médias e altas na interface, pode ser substituída por
prisioneiros executados com buchas químicas ou metálicas, e telas metálicas de
transferência de tensões. Garantida a estanqueidade da forma, não para evitar a entrada
de água, mas sim a fuga de material cimentício, por lavagem, as operações posteriores
são simples, e a operação de cura é completamente dispensável, pelo material estar no
meio ideal de hidratação

Figura 11: detalhe de concretagem submersa com graute. (Fonte: autor)

5.7. Reconstrução de secção com argamassa polimérica

Esse reparo normalmente é executado quando a profundidade do reparo


desaconselha o uso de graute, ou quando a montagem de formas e lançamento não
podem ser feitos por algum motivo. Nesse tipo de reparo é interessante adicionar
agregados ao adesivo, mineralizando-o até o máximo possível, sem que se perca a
trabalhabilidade necessária. Quando compomos superfícies verticais, é necessário o uso
de massas de comportamento tixotrópico, para evitar exatamente o uso de formas de
contenção. A conformação prevista é mostrada na figura 12, mas neste caso, por não ser
necessária a ponte de adesão, a superfície de contacto pode ser mais irregular.
A seqüência básica do reparo é a seguinte:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 89

1o. Abertura do local de reparo, com remoção de todo material alterado ou desagregado,
dando forma geométrica definida, sendo os limites definidos por técnico habilitado e
demarcado com cortes de pequena profundidade. A superfície resultante deve ser
ligeiramente rugosa, em estruturas medianamente solicitadas, sendo que nas altamente
solicitadas ou flexionadas deve ser feito o apicoamento para tornar a superfície rugosa,
descaracterizando planos de ruptura.
2o. Limpeza total da superfície, devendo-se remover todo o pó e/ou materiais
contaminantes. A interface deve estar completamente seca no momento de aplicação da
ponte de adesão.
3o. Se for necessário, este é o momento de recompor a armadura
4o. Aplicação da massa epoxídica, espalhada com espátula quando tiver consistência de
pasta, ou compactada com soquetes leves, quando tiver alto índice de agregados
minerais agregados. O seu acabamento superficial normalmente é executado com
espátulas ou desempenadeiras de aço.

Figura 12: Reparo de pequena profundidade executado com argamassa epoxídica.


(Fonte: autor)

5.8. Selagem de fissuras

A selagem de fissuras é adotada quando existe movimentação no local, e


na intervenção não procederemos à sua eliminação. Assim, não é possível adotar uma
solidarização objetivando restituir a integridade estrutural, pois existiria a tendência á
ruptura em linhas adjacentes á da antiga fissura, o que poderia provocar a cominuição
no local, com o passar do tempo. Por outro lado, uma fissura, se mantida aberta,
propicia a entrada de elementos agressivos ou partículas duras que tenderiam a
deteriorar o concreto e a armadura na sua área de influência, e a aumentar essa abertura.
Dessa forma, adotam-se processos de colmatação, que necessariamente variam de
acordo com a amplitude e solicitação da abertura. Consideramos que normalmente
podemos encontrar 3 situações possíveis:

 Fissuras com abertura de até 10 mm

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 90

 Fissuras com abertura entre 10 mm e 30 mm


 Fissuras com abertura superior a 30 mm

Na primeira situação, em que consideramos fissuras de pequena


amplitude, podemos proceder a uma selagem superficial simples, com adesivo ou massa
epoxídica. Para atingirmos o nosso objetivo, temos o seguinte procedimento executivo:

1o. Executa-se a limpeza total da fissura, preferencialmente com uma combinação de


aspiração e posterior jato de ar, visando remover todos os materiais soltos. Havendo
contaminação da superfície, adota-se procedimento de limpeza adequado á sua origem.
Não deve se prever, neste tipo de remendo, a abertura da borda, a não ser que esta esteja
enfraquecida. Ao fim dessa etapa, a superfície deve estar seca e absolutamente isenta de
contaminações, partículas soltas ou pó.
2o. Aplica-se o adesivo ou massa epoxídica com espátula de aço, forçando a sua entrada
na fissura. Para esse serviço, damos preferência a adesivos com comportamento
tixotrópico.

Ao término dessa operação, devemos ter o resultado apresentado na


figura 13.

Na segunda situação, em que temos fissuras com média a grande


abertura, é necessário garantir uma selagem mais profunda, pois a movimentação
estrutural tenderia a romper por fadiga a camada de selagem superficial. O
procedimento em toda a sua seqüência executiva é em tudo semelhante ao descrito no
item 5.2. ( injeção ou infiltração de resinas epoxídicas), sendo que neste caso utilizamos
resinas epoxídicas com comportamento semi-rígido, ou, o que é mais comum, massas
poliuretânicas. O resultado final deve ser aquele mostrado na figura 13.

Figura 13: Detalhe da secção reparada de fissuras de pequena e média amplitudes.


(Fonte: autor)

Na terceira situação, em que temos fissuras de grande abertura, passamos


a aplicar nelas o tratamento dado a juntas de movimentação. Nele, temos duas
possibilidade, a criação de um reservatório de mastique, aderido a paredes expostas,
uma solução adotada quando a fissura apresenta grande irregularidade de abertura e
forma superficial, ou então a utilização de uma junta pré-formada de neoprene, muito

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 91

eficiente quando existe pressão de água, mas aplicável em aberturas e traçados mais
regulares. Os procedimentos executivos iniciais são semelhantes, só diferindo ao final,
na aplicação do selante. A seqüência é a seguinte para a execução com mastique:
1o. Executa-se a limpeza preliminar da fissura, para eliminar materiais contaminantes,
partículas soltas e definir exatamente o desenvolvimento da abertura.
2o. Abre-se paralelamente ao desenvolvimento da fissura um rasgo, com 30 mm, e com
profundidade de 20 mm, dos dois lados
3o. Executa-se então a limpeza total da fissura, preferencialmente com uma combinação
de aspiração e posterior jato de ar, visando remover todos os materiais soltos. Havendo
contaminação da superfície, adota-se procedimento de limpeza adequado á sua origem.
Ao fim dessa etapa, a superfície deve estar seca e absolutamente isenta de
contaminações, partículas soltas ou pó.
4o. Aplica-se nos rasgos abertos resina epóxi, compondo os chamados lábios
poliméricos, que são elementos de borda resistentes, destinados a servir de apoio
estrutural para a junta.
5o. Nesta etapa, inserimos um cordão de neoprene ou tubo plástico, com o auxílio de
uma espátula, até uma profundidade determinada pela relação abertura/profundidade
(índice de forma), sendo essa profundidade constante ao longo de toda a fissura. O seu
objetivo é conformar a junta elástica, permitindo o seu trabalho adequado sem ruptura
ou descolamento lateral.
6o. Aplicamos um primer nas paredes laterais de concreto onde o mastique terá contacto,
para melhorar a sua aderência.
7o. Aplicamos o mastique na sua forma pastosa, que pode ser á base de poliuretano,
asfalto modificado ou silicone, com o cuidado de evitar transbordamentos ou excessos,
para aumentar a sua durabilidade e evitar arrancamento.

Essas características podem ser vistas na figura 14.


Na execução com junta de neoprene, sendo a seqüência executiva a
mesma até a etapa 4, temos a seguinte continuação:

5o. Aplicação de adesivo epóxi nas faces opostas da abertura, na profundidade


correspondente á medida lateral da junta de neoprene
6o. Colocação da junta pré-formada, que previamente deve ter sido selada nas suas
extremidades, criando câmaras de ar estanques. Na mesma preparação prévia, devem ser
instaladas válvulas de ar semelhantes as de pneus, para permitir a sua pressurização.
Imediatamente após a colocação da junta pré-formada, esta deverá ser pressurizada a
baixa pressão, visando assegurar uma colagem perfeita em toda a superfície, sendo
mantida até a cura do adesivo, quando então a válvula é removida para permitir trabalho
da secção.

Existindo várias secções de juntas, com 1 ou mais câmaras, deve ser


escolhida a que melhor se adapta a abertura e amplitude de trabalho da fissura. O
resultado final pode ser visto na figura 14.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 92

Figura 14: detalhe de reparo de fissuras com grande abertura e movimentação


significativa. (Fonte: autor)

5.9. Reforço metálico – armadura frouxa

O reforço metálico é basicamente utilizado em duas situações, que são:

 Restituir á estrutura secção de aço perdida


 Criar um complemento estrutural.

Sendo utilizadas nessas circunstâncias, temos o primeiro caso, em que


tipicamente a armadura, ao ser despassivada, sofre um processo de corrosão, perdendo
parcial ou totalmente a sua secção resistente. Assim, temos o caso representado na
figura 15. Nela, pela patologia estar restrita a uma área, a perda de de secção de aço
pode ser compensada por uma barra complementar, que pode ser somente traspassada,
como mostrado na figura 16, ou então soldada ou ter a sua continuidade assegurada por
uma luva, conforme previsto na NBR 6118 (Figura 17).
Quando a área a ser recuperada é mais extensa, como mostrado na figura
18, podemos executar o envolvimento total da peça pela armadura complementar, que
pode ser executada com tela soldada, sendo a sua solidarização á estrutura efetuada por
concretagem de uma secção complementar, sendo os procedimentos executivos aqueles
já apresentados nos itens 5.4 a 5.7, como pode ser visto na figura 19.
Esse procedimento, principalmente aplicado em pilares, tem o
inconveniente de espessar a peça, podendo trazer inconvenientes para a circulação de
veículos ou pessoas. Em vigas, pode gerar sobrecarga que deve ser avaliada, como
também causa perda de altura livre.
Todas essas ações de recuperação exigem a passivação
da armadura afetada e pontes de adesão entre o concreto novo e o
concreto antigo.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 93

Figura 15: Ruptura de armadura por


corrosão, após a sua exposição devido
á fissuração causada por sua
despassivação, ocorrida
provavelmente por ataque químico de
uma atmosfera agressiva. Neste caso, é
necessário a complementação da
armadura perdida em todo o seu
comprimento afetado, o que exige a
verificação de toda a área suspeita.
(Fonte: autor)

Figura 16: posicionamento de barra de armadura


complementar, destinada a substituir integralmente
comprimento afetado por corrosão da armadura
original. O comprimento de traspasse é definido
conforme a norma NBR 6118, e a simples
sobreposição de barras pode ser substituída por
barras soldadas ou luvas comprimidas, o que
economiza espaço, facilitando o serviço em algumas
circunstâncias. (Fonte: autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 94

Figura 17: Exemplos de traspasse de aço, a serem utilizados nos projetos de reparo ou
recuperação estrutural. (Fonte: autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 95

Figura 18: Neste caso, em que existe


uma grande área de armadura e
concreto a ser reparada, e não
existindo restrições de espaço, seria
pouco prático pretender adotar a
recuperação mantendo a secção
original do pilar, adotando-se então o
espessamento da peça. (Fonte: autor)

Figura 19: Recuperação de peça com


grande área comprometida. Neste caso,
pode-se optar por efetuar a aderência
prévia da armadura complementar á
superfície da peça a ser reparada, ou então,
como mostrado no exemplo, optamos por
utilizar uma armadura mais periférica,
onde o espaço destinado ao lançamento de
concreto se localiza entre a peça e a
armadura. Essa solução pode ser utilizada
também como reforço de uma secção
insuficiente da peça de concreto armado.
(Fonte: autor)

Em outras circunstâncias, a armadura complementar pode ter a finalidade


de corrigir um comportamento não previsto na estrutura, que pode levar a um estado de
fissuração incompatível com a peça solicitada. Uma das ocorrências mais comuns é a

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 96

fissuração ativa de lajes ou paredes estruturais, seja sob o efeito de carga como por
efeitos de movimentação térmica. Nessas soluções, principalmente em armaduras
complementares embutidas, é necessário se tomar o cuidado de não se criar um novo
plano de ruptura, daí a necessidade de se desencontrar o término dos fios da tela,
quando esta for utilizada, ou o final das barras, quando optarmos por elas. Atualmente
não existe mais sentido em se utilizar as pontas em dobra, criando um grampo, pois os
adesivos disponíveis permitem resistência estrutural adequada. Os cuidados executivos
a serem tomados nesse tipo de reparo são apresentados na figura 20, abaixo.
A sua execução correta, eliminando a movimentação indesejável, permite
a posterior resolidarização da estrutura, através de injeção de resinas epoxídicas,
conforme descrito no item 5.2..

Figura 20: Detalhe de reparo de trinca viva, destinada a eliminar ou limitar a sua
amplitude de movimentação. (Fonte: autor)

Além de barras de aço e telas próprias para concreto armado, podem se


utilizados perfis de aço carbono, que em muitos casos permitem uma simplificação das
operações de reforço com armadura complementar.
Neste tipo de intervenção, é necessário considerar os seguintes aspectos:

 Quando utilizados sob a forma de chapas ou perfis, é necessário


executar a sua aplicação sobre uma superfície plana, devido á quase
ausente flexibilidade desses elementos. Isso exige muitas vezes a
execução de uma regularização prévia, que pode ser executada com
argamassa epóxi ou graute. Isso não é necessário quando injetamos o
epóxi após a aplicação da chapa contra a superfície.
 A espessura de cola não deve ultrapassar 1 mm, sob risco de
comprometer a resistência a ligação concreto e aço
 Todo perfil de aço deve ser lixado e limpo até a eliminação de
todos os resíduos de laminação, óleos, graxas e óxido.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 97

 Quando utilizamos chapas para reforço de vigas, a sua espessura


máxima prevista é de 3 mm.
 Os reforços metálicos devem, após a sua execução, ser protegidos
por uma camada de argamassa ou isolante térmico, devido á
sensibilidade térmica do adesivo.

Abaixo, na figura 21, vemos um exemplo de reforço estrutural de pilar,


em que envolvemos um pilar com perfis metálicos em L (cantoneira), que reforçam a
sua armadura longitudinal e geram um confinamento da peça, o que pode ser muito útil
em caso de ruptura por esmagamento. Os perfis L são muito úteis quando se pretende
resistir a resistir esforços em dois planos, como no caso apresentado, em que existe a
possibilidade de torçaoda estrutura, devido ao esmagamento.

Figura 21: modelo de reforço estrutural de pilar, com detalhes da colocação dos perfis
longitudinais e transversais, que criam um cintamento da peça. Tipicamente é a solução
adotada quando um pilar apresenta capacidade de carga insuficiente, sofrendo
esmagamento e flambagem da armadura. (Fonte: autor)

As chapas planas apresentam grandes vantagens quando temos esforços


definidos em um plano, como esforços de tração na face inferior de uma viga, ou de
cizalhamento nas suas faces laterais, como no caso apresentado na figura 22. Neste
caso, os parafusos de fixação se destinam a garantir a superfície de colagem, não tendo
função resistente aos esforços.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 98

Figura 22: reforço de viga nas suas áreas de tração e de cizalhamento, através de chapas
planas. Detalhe dos elementos componentes dessa solução. (Fonte: autor)

5.10. Reforço metálico – armadura protendida

A adição de uma armadura protendida á uma estrutura habitualmente é


feita para vãos de maiores dimensões ou cargas, ou quando pretendemos introduzir
carregamentos que modifiquem as características estruturais da peça.
A ação de protensão, na sua essência, consiste em introduzir
carregamentos prévios de compressão em peças de concreto, para diminuir esforços de
tração, conforme demonstrado na figura 23. Trazendo vantagens para o desempenho
estrutural, ao mesmo tempo exige uma estrutura sã para que não ocorra a sua ruptura
durante a aplicação dessas forças de compressão, motivo pelo qual uma estrutura a ser
reforçada por protensão sempre é inicialmente reabilitada, se apresentar patologias que
degradem o seu desempenho.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 99

Figura 23: demonstração esquemática das diferenças de esforços atuantes em vigas


armadas e protendidas. (Fonte: autor)

As aplicações mais comuns de protensão, utilizando-se cabos externos,


sob a forma de cordoalhas já engraxadas e protegidas por bainhas plásticas, ou cabos
isolados com proteção posterior, são:

 Reforço para corrigir fissuração excessiva


 Aumento de capacidade de carga de viga
 Aumento de capacidade de carga de laje

O primeiro caso mostra-se útil quando, por algum motivo, a peça mostra
fissuração excessiva ou se aproxima do estado de ruína, sendo que várias patologias
podem levar a esse resultado.
A abordagem neste caso deve ser a de introdução de pequenos e médios
esforços de compressão, aplicados na viga através de cabos laterais, solidarizados com a
peça através de consoles de concreto ou aço. A aplicação desses cabos normalmente é
feita aos pares, evitando a torção da estrutura. O seu esquema geral é apresentado na
figura 24. Posteriormente á essa operação, caso as fissuras não se enquadrem no
disposto na norma, podemos proceder á ressolidarização da estrutura com injeção de
resinas.

Figura 24: Esquema de reforço de viga com cabos de protensão externos laterais.
(Fonte: autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
0

No segundo caso, em que pretendemos aumentar a capacidade de carga


de uma viga, além do esquema apresentado na figura 24, podemos utilizar outra
solução, que é a introdução de um afastador inserido sob a viga, criando o efeito de um
apoio intermediário, diminuindo assim o vão da estrutura, como pode ser visto na figura
25. Deve-se notar que essa solução modifica totalmente o gráfico de momentos,
exigindo a verificação total da estrutura antes de a adotarmos, principalmente quando as
forças de protensão forem elevadas, sendo muitas vezes necessário também o reforço da
armadura frouxa. Uma solução intermediária, que pode ser adotada em vigas e lajes, é a
utilização do esforço de protensão para aliviar o peso próprio da peça, deixando para a
armadura frouxa a resistências ás cargas adicionais. O afastador, por sua vez, pode ser
do concreto ou de aço, e deve ser projetado para ter estabilidade durante a operação de
tração dos cabos, superfície de contacto com os cabos adequada e resistência aos
esforços transitórios e permanentes. Por outro lado, deve ser o mais leve possível, para
não gerar sobrecarga na estrutura.

Figura 25: aumento da capacidade de carga de uma viga com a utilização de cabos de
protensão e um elemento afastador, que passa a ser um apoio introduzido no meio do
vão. (Fonte: autor)

Já o aumento de capacidade de carga de uma laje pode ser obtido com


um sistema semelhante, mas que tem algumas diferenças significativas, que são:

 Cabos em maior quantidade, com menor tensão de tração.


 Maior cuidado no cálculo, para evitar o efeito de “blow up”.
 Viga espaçadora com rigidez suficiente para suportar eventuais
rupturas parciais de cabos durante a operação de protensão, sem
deformar a laje.

Um esquema desse tipo de reforço pode ser visto na figura 26

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
1

Figura 26: Esquema de reforço de laje e detalhes de pontos de interação estrutura/cabos.


(Fonte: autor).

Deve-se notar que em toda operação de protensão são introduzidos


esforços pontuais que não tendem a desaparecer no caso de cabos não aderidos á
estrutura, motivo pelos quais os elementos de transmissão de tensão devem considerar
esses esforços como permanentes. Também, como em toda operação de protensão, é
necessário se definir seqüência de tração dos cabos, tensões parciais e finais e valores de
alongamento de cabos e contra-flecha prevista, para que se possa fazer a verificação dos
efeitos obtidos.

5.11. Reforço com mantas de fibras carbônicas

Classificado como um compósito, os reforços com fibras carbônicas


apresentam a seguinte estrutura genérica (Figura 27):

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
2

Figura 27: estrutura de um compósito constituído de fibras carbônicas e epóxi. (Fonte:


MBT Brasil)

Destinados a criar um complemento estrutural, a sua aplicação recria os


usos dos perfis planos metálicos, mas apresentam como vantagem um peso quase 4
vezes inferior, a possibilidade de elementos de reforços menos volumosos e não
corrosíveis. De uma forma genérica, podemos afirmar que as suas aplicações correntes
são:

 Reforço de vigas à flexão e ao cizalhamento


 Reforço de lajes à flexão
 Reforço de pilares e colunas
 Reforço de chaminés
 Reforço de tanques, silos e reservatórios
 Reforço de muros de arrimo, vigas-parede e alvenarias
 Reforço de tubulações de grande diâmetro
 Reforço de túneis
 Adaptação de estruturas de concreto armado á novos
carregamentos

A figura 28 apresenta de forma visual a aplicação do compósito de fibras


carbônicas em alguns desses elementos estruturais.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
3

Figura 28: elementos estruturais passíveis de serem reforçados com a aplicação de


compósitos de fibras carbônicas. (Fonte: MBT Brasil)

Por outro lado, pela sua resistência ser determinada pela orientação das
fibras, é necessário que o projeto determine a sua orientação exata.

5.12. Tratamento de superfície

Considerando os diversos mecanismos de degradação que podem


provocar a degradação da superfície de um concreto, muitas vezes é necessário se
proceder a um tratamento da superfície da estrutura, para que esta não desenvolva
deterioração progressivae/ou perca as suas características estéticas. Consideramos que
temos duas opções para resolver esses problemas, a adoção de revestimentos compostos
por barreiras espessas ou as pinturas de proteção.
As barreiras espessas são adotadas em ambientes severos de solicitação
mecânica e/ou química, e a sua aplicação exige sempre um estudo específico de todas as
condicionantes ambientais. Os métodos mais utilizados são:

Proteções de base betuminosa com ou sem reforço mecânico


Proteções poliméricas flexíveis com ou sem reforço mecânico
Proteções poliméricas rígidas com ou sem reforço mecânico
Mantas poliméricas flexíveis
Revestimentos de argamassa base resinas orgânicas
Revestimentos de argamassa base cimento aluminoso
Revestimento com peças cerâmicas
Revestimento com tijolos anticorrosivos

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
4

Como as combinações entre os materiais são inúmeras, devem ser


inicialmente avaliadas as condições de trabalho previstas e se verificar qual o material
ou combinação de materiais é mais compatível com os fins pretendidos.

Já as pinturas de proteção, por não terem uma possibilidade de


combinação mais complexa, pode ser mais diretamente sistematizada na sua aplicação.
Assim, consideramos que temos dois tipos de pinturas:

 Revestimentos hidrófugos de poro aberto, aplicáveis em


superfícies com poros com até 3 mm de abertura superficial.
 Revestimentos impermeabilizantes com formação de película ou
filme, para substratos com abertura de poros de no máximo 0,1 mm
na superfície.

Há de se notar que as tintas e vernizes possuem formulações similares, só


se diferenciando pela existência de pigmentos e cargas. Todos eles devem ter como
características:

 Resistência ao ambiente de trabalho


 Resistência á fotodegradação
 Resistência mecânica a pequenas solicitações de corte ou punção
 Compatibilidade química com o substrato
 Não se constituir como campo de cultura para macro e
microorganismos.

Atualmente, como hidrofugantes, são utilizados os compostos sílico-


orgânicos, como os silicones dispersos em solventes ou emulsionados em água, silanos
e siloxanos dispersos em solventes.
As tintas de proteção impermeabilizantes podem ser as seguintes (Quadro
4):

Quadro 4: Pinturas de proteção


Natureza e Tipo de Classificação Espessura Exemplos de aplicações
característica cura da tinta típica do convencionais
do sistema de quanto ao filme seco
resina veículo (mm)
utilizado
Epóxi Reação com o Base solvente 0,020 a 0,250 Pisos industriais (boa resistência a
bicomponente componente abrasão), superfícies internas
endurecedor (elevada resistência química) e
tanques de água potável
Epóxi Reação com o Isenta de solvente Acima de 1,5 Tanques para confinamento de
bicomponente componente produtos químicos, tubulações e
endurecedor superfícies internas sujeitas a alto
ataque químico
Epóxi Reação com o Emulsionada em 0,040 a 0,120 Pinturas de áreas internas em

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
5
bicomponente componente água indústrias alimentícias (não
endurecedor contamina alimentos nem exala
odor), selamento de pisos industriais
e superfícies internas
Poliuretano Reação com o Base solvente 0,025 a 0,075 Pinturas anticarbonatação a pinturas
alifático componente internas ou externas de alta
bicomponente endurecedor resistência química
Poliuretano Reação com o Isente de solvente 0,500 a 2,000 Pinturas de alta resistência à abrasão
alifático componente para pisos industriais
bicomponente endurecedor
Poliuretano Reação com a Base solvente 0,125 a 0,150 Pinturas de pisos industriais,
alifático umidade acabamento antiderrapantes e
monocomponente atmosférica pintura de áreas internas e externas
Vinílica Simples Base solvente 0,025 a 0,070 Pintura de alta resistência química,
evaporação do porém com baixa resistência a
solvente solventes
Borracha clorada Simples Base solvente 0,100 a 0,300 Pinturas anticarbonatação, boa
evaporação do resistência á abrasão, umidade e
solvente álcalis, pintura de pisos industriais,
faixas demarcatórias e piscinas
Acrílico Simples Base solvente 0,020 a 0,250 Pintura anticarbonatação, pintura de
evaporação da superfícies internas e externas, com
água razoável estabilidade de cor e
resistência á biodegradação
Acrílico Simples Emulsionada em 0,040 a 0,700 Pinturas anticarbonatação para
evaporação do água (variação superfícies internas e externas,boa
solvente conforme a estabilidade de cor e resistência á
formula a fotodegradação
aplicação)
Estireno-acrílico Simples Base solvente 0,020 a 0,200 Pinturas anticarbonatação, pouca
evaporação do resistência ao intemperismo e a
solvente fotodegradação
Sistema duplo Reação com os Base solvente 0,100 a 0,250 Pinturas de alta performance
epóxi-poliuretano componentes anticarbonatação e pinturas externas
endurecedores ou internas de alta resistência
química
(Fonte: Paulo Helene)

6. ESTUDOS DE CASO

Os casos aqui apresentados estão categorizados em intervenções técnicas


a a a
de 1 . 2 . e 3 . ordem.

6.1. Reparo de pilares em prédio de armazenagem de produtos, em indústria


química.

Este caso trata da recuperação da estrutura de um


galpão, com aproximadamente 40 anos de idade, que apresenta
uma estrutura de pórticos, cuja geometria básica é apresentada na
figura 29. A solidarização é feita principalmente por tirantes que
ligam os planos superiores das estruturas, sendo que tirantes

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
6
laterais, pela própria forma de uso do galpão, foram quase todos
removidos,sem que aparentemente isso tenha afetado a estabilidade
do conjunto.

Figura 29: croquis de pórtico que compõe a


estrutura do galpão de armazenagem. O conjunto da
estrutura é composto ´pr 36 desses pórticos, cuja
cobertura é composta por telhas de fibrocimento.
(Fonte: autor)

Esses pórticos apresentavam uma série de patologias, tanto decorrentes


de ataques químicos, tendo sido identificado o enxofre como um dos elementos
presentes no ambiente, como também por interferências de instalações executadas
posteriormente e choques mecânicos, decorrentes da operação de empilhadeiras. A
amplitude das patologias variava de lascamento superficial, como pode ser visto na
figura 30 e 31, como existiam pilares de pórticos que apresentavam perda de secção de
aço e concreto muito significativas, como pode ser visto na figura 32. Existiam também
reparos cosméticos feitos anteriormente que necessitavam ser refeitos, devido a má
qualidade do serviço (Figura 33).
A característica desse serviço é o fato do cliente solicitar uma
recuperação limitada, por ser intenção da empresa substituir esse galpão por uma nova
estrutura, mais adequada aos novos processos de armazenagem de produtos. Assim, o
nível de intervenção procurou se limitar ao mínimo necessário para garantir a sua
utilização com segurança por mais 2 anos, prevendo-se uma vistoria de recebimento dos
serviços e outra de validação após um ano da sua execução. Outra solicitação da
contratante foi a de que os serviços de recuperação pudessem ser feitos por uma
empresa de construção não especializada em serviços de recuperação, visando a
desoneração da empresa.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
7

Figura 30: Pórtico apresentando lascamentos de


borda generalizados, devido á operação de
equipamentos de armazenagem (empilhadeiras).
Nota-se a ausência de proteção contra esse tipo de
ocorrência, o que foi mantido pois neste caso o
espessa mento da peça comprometeria a operação
das máquinas. (Fonte: autor)

Figura 31: Perda de material da borda do pilar


devido a impacto mecânico. Pode-se notar que o
concreto foi rompido por impacto, pois a armadura
não apresenta grau elevado de despassivação, o que
também poderia causar esse tipo de patologia,
devido á expansão do aço. Nota-se ainda nessa foto
que o agregado utilizado, seixo rolado, não tem
grane resistência a esse tipo de solicitação, o que
faz com que qualquer impacto tenda a afetar uma
área mais extensa, se compararmos o efeito causado
em um concreto executado com brita graduada.
(Fonte: autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
8

Figura 32: perda de secção acentuada de concreto e


aço, devido a uma conjugação de fatores: choques
mecânicos, exposição a intemperismo (sol e chuva)
em ambiente agressivo, interferência causando
tensão e provocando descarga de água da chuva
diretamente sobre a superfície afetada. Esse
elemento estrutural pode ser considerado em estado
de ruína, que foi agravado por uma intervenção
inicial visando a remoção de área afetada, que levou
a cortes demasiadamente profundos na secção de
concreto, o que mostra a necessidade de
delimitação de área de reparo. (Fonte: autor)

Figura 33: Detalhe de reparo cosmético executado


sem os devidos cuidados, e que já apresenta
descolamento devido á despassivação de armadura.
(Fonte: autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 10
9

Dada a variação encontrada,foi feita uma vistoria individualizada dos


pórticos, e as soluções foram dadas conforme o seu grau de deterioração, conforme
pode ser visto nos quadros 5 e 6, apresentados á seguir:

Quadro 5: Seqüência de Recuperação de Pórticos


Pórtico Peça Classificação Ação
A7 Pilar esquerdo Ruim Remover suporte de luminária
Remover todo o concreto solto
Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral
Recolocar luminária, com vedação superior

A13 Pilar esquerdo Muito ruim Remover suporte de luminária


Pilar direito Muito ruim Remover todo o concreto solto
Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pintura á base de zinco na armadura exposta
Lavar por pressão o concreto são
Montar formas laterais
Aplicar ponte de adesão base epóxi sobre o concreto
seco
Fechar forma frontal
Aplicar graute
Recolocar luminária, com vedação superior

A14 Pilar esquerdo Ruim Remover todo o concreto solto


Pilar direito Ruim Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

A15 Pilar esquerdo Ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

A15 Pilar direito Ruim Manter sob vigilância

A16 Pilar esquerdo Ruim Remover suporte de luminária


Remover todo o concreto solto
Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral
Recolocar luminária, com vedação superior

A16 Pilar direito Ruim Remover suporte de luminária


Remover todo o concreto solto
Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pintura á base de zinco na armadura exposta
Lavar por pressão o concreto são
Montar formas laterais
Aplicar ponte de adesão base epóxi sobre o concreto
seco
Fechar forma frontal
Aplicar graute
Recolocar luminária, com vedação superior

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
0

A17 Pilar direito Ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

A18 Pilar esquerdo Ruim Remover todo o concreto solto


Pilar direito Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

A24 Pilar esquerdo Ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pintura á base de zinco na armadura exposta
Lavar por pressão o concreto são
Montar formas laterais
Aplicar ponte de adesão base epóxi sobre o concreto
seco
Fechar forma frontal
Aplicar graute

A25 Pilar esquerdo Ruim Manter sob vigilância

A27 Pilar esquerdo Muito ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pintura á base de zinco na armadura exposta
Lavar por pressão o concreto são
Montar formas laterais
Aplicar ponte de adesão base epóxi sobre o concreto
seco
Fechar forma frontal
Aplicar graute

A28 Pilar esquerdo Ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

A29 Pilar esquerdo Ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pasta de cal sobre a ferragem por 24 h
Lavar sob pressão
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

A30 Pilar esquerdo Ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

A31 Pilar esquerdo Muito ruim Remover suporte de luminária


Remover todo o concreto solto
Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pintura á base de zinco na armadura exposta
Lavar por pressão o concreto são
Montar formas laterais
Aplicar ponte de adesão base epóxi sobre o concreto
seco
Fechar forma frontal

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
1

Aplicar graute
Recolocar luminária, com vedação superior
A32 Pilar esquerdo Ruim Manter sob vigilância

A33 Pilar esquerdo Muito ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pintura á base de zinco na armadura exposta
Lavar por pressão o concreto são
Montar formas laterais
Aplicar ponte de adesão base epóxi sobre o concreto
seco
Fechar forma frontal
Aplicar graute
Recolocar luminária, com vedação superior

A34 Pilar esquerdo Ruim Remover suporte de luminária


Viga, canto Remover todo o concreto solto
esquerdo inferior. Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral
Recolocar luminária, com vedação superior

B1 Face exposta Ruim Remover todo o concreto solto


Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

B8 Pilar direito Ruim Remover suporte de luminária


Remover todo o concreto solto
Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral
Recolocar luminária, com vedação superior

B10 Pilar direito Muito Ruim Remover todo o concreto solto


Parte inferior Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pintura á base de zinco na armadura exposta
Lavar por pressão o concreto são
Montar formas laterais
Aplicar ponte de adesão base epóxi sobre o concreto
seco
Fechar forma frontal
Aplicar graute

B11 Pilar direito Ruim Remover todo o concreto solto


Parte inferior Escovar armadura de aço aparente
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral

B12 Pilar direito Muito ruim Remover suporte de luminária


Remover todo o concreto solto
Escovar armadura de aço aparente
Aplicar armadura complementar
Aplicar pintura á base de zinco na armadura exposta
Lavar por pressão o concreto são
Montar formas laterais
Aplicar ponte de adesão base epóxi sobre o concreto
seco
Fechar forma frontal

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
2

Aplicar graute
Recolocar luminária, com vedação superior

Quadro 6: Procedimento Padrão Para Demais Peças


Armadura exposta sem corrosão acentuada Remover todo o concreto solto
Marcas de empilhadeira Escovar armadura de aço aparente
Lavar sob pressão
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral
Armadura exposta com corrosão acentuada Remover todo o concreto solto
Marcas de empilhadeira Escovar armadura de aço aparente
Aplicar pasta de hidróxido de cálcio por 24 h
Lavar sob pressão
Encharcar substrato de concreto são
Aplicar argamassa socada, com contenção lateral
Fissuração Limpeza de superfície até limpeza total do substrato
Aplicação de selante acrílico em duas camadas
1ª camada: diluição acentuada, viscosidade próxima
ao do solvente (aplicação de penetração)
2ª camada: diluição padrão

6.2. Vistoria de vigas e pilares em prédio industrial e decisão de não intervenção

Trata-se de estrutura de mezanino executado em concreto armado,


recém-construído, localizado no interior de um galpão de armazenamento de materiais.
A obra em questão foi projetada e executada pela equipe técnica da
empresa química, a qual não é integrada por engenheiros civis, e que elaborou a planta
em anexo. A proposta inicial foi de que a estrutura funcionasse como depósito, tanto no
seu piso inferior como superior, prevendo-se uma sobrecarga de 1000 Kg/m² na sua
parte superior. Após a concretagem e desforma da meso e superestrutura, nas quais foi
utilizado concreto usinado, foram constatados diversos defeitos superficiais que os
levaram a suspeitar da integridade da obra. Por esse motivo, foi solicitado uma perícia
para que se analisasse a integridade estrutural da obra e a sua possibilidade de uso.
Foi constatado, durante a vistoria e através da documentação da obra,
que ocorreu a manifestação de diversas patologias na estrutura. As principais, suas
causas e efeitos, são listados a seguir:

Esborcinamento, quebra de cantos e falhas de superfície: esse


problema, cuja manifestação se dá em todos os pontos da estrutura que possui cantos,
como pode ser verificado nas figuras 34 e 35, é atribuível aos seguintes fatores:

 Manuseio do concreto além do tempo permitido: O trabalho


com o concreto no estado fresco é limitado pelo tempo de pega do
cimento portland, que normalmente, para concretos usinados não
aditivados, é considerado de 2 h. Como pode ser verificado pelas
notas de entrega do material, por problemas operacionais, duas
cargas de concreto ultrapassaram esse tempo, sendo que em um desse

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
3

casos ele foi ultrapassado em 2 h, o que se torna ainda mais grave


por ter ocorrido em um período quente do ano. Isso gera perda de
resistência e má acomodação do concreto nas formas.
 Utilização de formas porosas: Por ter se optado pela utilização
de tábuas brutas para a execução das formas, teria sido necessária a
sua impermeabilização superficial, que pode ser obtida pela aplicação
de produtos químicos adequados ou pela saturação superficial da
forma. Por não terem sido seguidas essa condições, ocorreu a
migração de parte da água do concreto para a parede da forma,
gerando uma adesão entre a camada superficial de nata do concreto e
a parede da forma, o que, aliada à baixa resistência do concreto,
permitiu o arrancamento da camada superficial durante a operação de
desforma.

Figura 34: Detalhe da superfície


do pilar, onde é notável a perda
de umidade superficial, perda da
camada superficial de pasta, a
ausência de arestas e pequenas
falhas de concretagem causadas
pelo lançamento de concreto
fora do tempo de trabalho.
(Fonte: autor)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
4

Figura 35: perda acentuada de canto de pilar,


devido á aderência da superfície da forma ao
concreto, devido á um mal preparo para a
concretagem. Nota-se um al estado geral da peça
estrutural. (Fonte: autor)

Falhas de concretagem e segregação: Essa manifestação se dá de forma


mais localizada, nos cantos inferiores das vigas, principalmente naquelas que se
localizam junto à parede traseira do galpão, como pode ser visto nas fotos 36 e 37. Essas
patologias são atribuíveis aos seguinte fatores:

. Posicionamento inadequado da ferragem: Isso gera um efeito de bloqueio,


impedindo a passagem do agregado graúdo do concreto.
. Posição inadequada para o lançamento: devido ao espaço restrito para o
lançamento do concreto, não foi possível lançar e adensar adequadamente o
concreto junto à parede traseira do galpão, permitindo a permanência de vazios
na forma.
. Trabalhabilidade inadequada do concreto: No que se refere à plasticidade,
pode-se notar, pelas marcas de argamassa escorrida, que o concreto apresentava
excessiva plasticidade, o que permitiu a perda de argamassa, acentuando o
problema dos vazios na face inferior das vigas.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
5

Figura 36: falha generalizada


de concretagem de um canto
da viga, devido á uma escolha
inadequada da armadura,
trabalhabilidade e forma de
lançamento. (Fonte: autor)

Figura 37: detalhe da falha,


onde vemos a armadura,
associada á posição restritas
da viga, causando uma falha
acentuada. (Fonte: autor)

Armadura exposta: esse problema se origina de um projeto incompleto


e do mau posicionamento e sujeição das armaduras durante o processo de colocação das
barras de aço nas formas. Esse problema pode ser visto na figura 38.

Baixa resistência do concreto: isso pode ser constatado a partir da


análise do resultado de ruptura dos corpos de prova, com base na NBR 6118.

Armadura inadequada para os esforços previstos: a armadura na


verdade não foi projetada por engenheiro civil, mas sim por um
técnico em instalações industriais, sem nem ao menos a correta
conceituação de funcionamento da estrutura. Isso levou á um alto

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
6

consumo de aço, mas com um incorreto posicionamento, o que leva á


uma perda generalizada da resistência estrutural.

Figura 38: sinal de armadura na face inferior da


laje, o que denota a falta de espaçadores de apoio
para essa armadura. (Fonte: autor)

Essas manifestações patológicas geram uma somatória de elementos que


levam a uma perda de resistência acentuada, além de uma perda de durabilidade da
estrutura, principalmente por se tratar de uma indústria química, apesar de que neste
caso específico não foi identificado nenhum elemento agressivo com processos fabris.
Temos como conclusão que, com todas essas ocorrências, não é possível
quantificar quanto da resistência inicialmente prevista foi comprometida. O ponto mais
notável é que a maior parte desses problemas se originou devido a um acompanhamento
técnico deficiente, seja na parte de elaboração do projeto, seja durante a sua execução.
Para que haja certeza do seu desempenho, tornar-se-ia necessária a execução de
uma prova de carga, o que não se recomenda devido ao alto custo do ensaio, se
comparado com o custo total da obra sob análise.
Em uma avaliação geral, decidindo-se pela não demolição da estrutura, pode-se
limitar a capacidade de carga da laje para valores próximos de 200 Kg/m². Esse calor foi
estimado considerando-se a resistência real do concreto e a secção de aço realmente
utilizável. Pode-se notar que esse valor está muito abaixo daquele inicialmente previsto,
de 1.000 Kg/m².

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
7

6.3. Reparo de consoles de prédio de 15 andares

O prédio em questão tem uma estrutura


principal de quinze andares, e uma secundária, destinada a
garagens, composta de três pavimentos, cujos pisos são
apoiados na estrutura principal, através de consoles, e está
localizado próximo a Marginal Pinheiros, em São Paulo.
Ao ser efetuada a vistoria, constatou-se
deslocamentos das extremidades das vigas longitudinais,
apoiadas nos consoles; fissuras e trincas nas lajes de piso das
garagens; e rupturas de partes do concreto dos consoles, que
não possuíam aparelhos de apoio adequados, conforme
assinalado na figura 39. Verificou-se ainda que acabara de
ser construído no terreno lindeiro, aos fundos, um novo
prédio.

Figura 39: esquema da estrutura do prédio afetada pela movimentação


diferenciada entre a estrutura do prédio e o anexo da garagem. (Fonte:
autor)

Feitas essas observações, concluímos que


devido ao recalque produzido pela execução do novo prédio,
ocorreu uma pequena rotação na estrutura das garagens. Os
esforços gerados por essa movimentação, aliado a ausência

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
8
de aparelhos de apoio, originou os problemas acima
descritos, conforme mostrado na figura 40.
Em vista do limitado grau de
comprometimento da estrutura dos consoles, optamos pela
sua recuperação, através do uso de graute e adesivo base
epóxi. Para transmitir adequadamente os esforços entre as
estruturas, considerando que não é possível executar o
macaqueamento utilizando as vigas como apoio, projetamos
a colocação de aparelhos de apoio de neoprene fretado, com
altura suficiente para garantir adequado grau de liberdade.

Figura 40: Detalhe do console e demonstração dos esforços atuantes


sobre a estrutura. (Fonte: autor)

Como serviço complementar, visando garantir


a durabilidade das estruturas recuperadas, projetamos a
colocação de juntas de neoprene pressurizadas, entre as
estruturas das garagens e do prédio principal.
Devido as limitações estruturais, foi estabelecida a seguinte seqüência de execução dos
serviços:

 Descascamento dos consoles, remoção do concreto solto e limpeza da


armadura
 Colocação das escoras metálicas e macaqueamento do piso do primeiro
subsolo
 Colocação de escoras de madeira e remoção das escoras metálicas
 Colocação das escoras metálicas e macaqueamento do piso do térreo
 Reconstituição dos consoles com resina epóxi e graute

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 11
9

 Corte do piso do pavimento térreo e do primeiro subsolo


 Limpeza das juntas entre as lajes
 Colocação do aparelho de apoio de neoprene
 Reconstituição dos pisos do pavimento térreo e do primeiro subsolo
 Colocação de juntas pressurizadas de neoprene

Executada essa seqüência, a estrutura passou a ter comportamento normal, não


ocorrendo reincidência das patologias.

6.4. Reparo de pilar em colapso

Neste caso, ocorreu a ruptura parcial de pilar localizado em prédio de 9


pavimentos, sendo 2 sub-solos, térreo e 6 andares. A ruptura ocorreu em pilar
intermediário do 1o subsolo, conforme esquema apresentado na figura 41.

Figura 41: Detalhe do ponto de ruptura


do pilar. Nota-se a ruptura por
esmagamento no seu segmento médio,
com a conseqüente flambagem de
elementos da armadura, denotando
carregamento excessivo, associado a
pequena rotação. (Fonte: autor)

Devido á necessidade de uma reparo emergencial, antecedido pela estabilização da


estrutura, optou-se pela execução de colarinhos de aço nos segmentos superior e inferior do pilar afetado,
executados com perfis L 4”, aderidos á estrutura através de adesivo epóxi, e a sua utilização como
elemento de apoio para escoras metálicas.
Feita essa estabilização, foi executada uma estrutura de confinamento também com
perfis L 4”, aproveitando os colarinhos já executados como elementos de transmissão de carga, quando
então pode-se retirar as escoras metálicas, após o que foi feita uma concretagem de proteção.
Foram tomados cuidados na execução da estrutura de confinamento no momento de se
executar a solda nos elementos já aderidos, pois um aquecimento generalizado dos perfis poderia
comprometer o desempenho do adesivo epóxi. Os detalhes executivos podem ser vistos na seqüência de
figuras mostrada a seguir (Figuras 42, 43 e 44).
Verificações posteriores do entorno da edificação mostraram que obras de escavação
feitas em um terreno lindeiro provavelmente causaram a modificação do estado de tensão do solo,

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
0

levando á sobrecarga diferencial da estrutura, o que provocou essa ruptura em uma estrutura que já
deveria ter atingido um equilíbrio de tensões,por ter mais de 10 anos de ocupação.

Figura 42: Execução dos colarinhos de transmissão de carga entre a parte superior e a parte inferior do
pilar. (Fonte: F. S. Rocha)

Figura 43: detalhe do colarinho superior, onde vemos o complemento metálico do perfil, destinado a
aumentar a área de resistência ao cizalhamento. Nota-se também o sistema de ajuste das duas metades da
estrutura metálica, com o uso de parafusos de aperto, para garantir uma colagem perfeita da superfície de
aço à superfície de concreto. (Fonte: F. S. Rocha)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
1

Figura 44: colocação das escoras metálicas com ajuste por rosca na posição intermediária dos colarinhos
metálicos. Esse posicionamento foi estabelecido para permitir o posterior complemento da estrutura de
confinamento, semelhante ao esquema mostrado na figura 21. (Fonte: autor)

6.5. Plano geral de reparos e reforço em prédio administrativo


com dois pavimentos e 4.000 m² de área construída

Este caso trata de edifício administrativo com apenas 4 anos de uso após
a sua inauguração. Por motivos de segurança, fotos não foram liberadas para
divulgação, mas podemos considerar que as patologias existentes, descritas no texto, são
perfeitamente conhecidas, só ocorrendo na verdade de forma mais acentuada, motivo
que levou á recomendação de interdição até que as providências recomendadas fossem
tomadas.
Para estabelecer os procedimentos a serem adotados, adotamos o
conceito de desempenho, ou seja, as peças da estrutura, isoladamente ou em conjunto,
foram analisadas para se determinar o grau necessário de intervenção para que elas
voltassem a ter um desempenho estrutural que garantisse a segurança física e
psicológica dos usuários do edifício. Adotando-se esse conceito, veremos que algumas
das soluções apresentadas ultrapassam o estado limite de utilização, no que se refere a
NB-6118/78, sem ultrapassar a barreira do estado limite último, sendo isso possível, por
exemplo, pela introdução de elementos auxiliares de proteção da armadura de aço,
corrigindo a exposição advinda da fissuração excessiva da peça de concreto e
obliterando a sua visualização.
Abaixo são apresentadas as intervenções propostas, com a sua seqüência
executiva.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
2

6.5.1. Vigas Baldrame

Por verificações de sondagens, “ bench mark” e recálculo dos


carregamentos, verificou-se que existem sérios problemas na interação solo-estrutura,
com a ocorrência de recalques diferenciais ocasionados pela baixa capacidade de carga
das estacas pela ocorrência de atrito negativo em parte das estacas e pela instabilidade
do próprio maciço. Neste caso, as vigas baldrame, denominadas no projeto como cintas,
teriam como função básica distribuir as tensões diferenciais que ocorrem na transmissão
de cargas para o solo, funcionando como vigas-alavanca, evitando que ocorra a torção
do conjunto da estrutura, levando-a a um colapso pela introdução de tensões não
previstas no modelo de cálculo. No entanto, o seu pobre dimensionamento indica que
elas foram projetadas apenas para suportar a carga de paredes, e pelas leituras e
sondagens feitas, já apresentam rupturas sérias na sua estrutura, e pelo grau de
contaminação do solo por matéria orgânica, forte presença de água e o seu pequeno
recobrimento de armadura, definido pela esbeltez das peças, devem apresentar um
avançado grau de corrosão. Assim, neste caso, trata-se não apenas de se propor a
recuperação, mas sim de se projetar um reforço na sua seção.

6.5.1.1 Reforço

Neste caso, é necessário um projeto específico, onde se determine a nova


seção de viga necessária para absorver as tensões que estão provocando a torção de toda
a estrutura.
Na execução dessa nova seção, deve ser adotada a seguinte seqüência de
execução:
1. escavação até a total exposição da viga baldrame, considerando-se as faces
laterais e superior e a sua lavagem com jato de alta pressão, para permitir a
perfeita visualização do estado da peça (figura 1).
2. Inspeção total da viga, determinando o seu grau de comprometimento
(ruptura e corrosão)
3. Demolição das partes comprometidas do concreto e limpeza, com jato de
areia e água do concreto e do aço exposto, para remoção de partes soltas e
limpeza de superfícies oxidadas, aplicando-se posteriormente jato de ar para
completar a limpeza, assegurando superfícies sãs.
4. Colocação de armadura complementar, determinada pelo recálculo das vigas
baldrames, procedendo-se a furação da viga baldrame original, para a
inserção de novos estribos e dos blocos de ancoragem ou vigas baldrames
adjacentes, se determinada a sua ancoragem envolvente (figura 2).
5. Jateamento de concreto por via úmida até se atingir a dimensão da peça
determinada pelo recálculo e o seu sarrafeamento a seguir, para se obter uma
superfície lisa.
6. Aplicação de uma pintura impermeabilizante a base acrílica ou de emulsão
asfáltica
7. Reaterro com solo isento de partículas de grandes dimensões ou restos de
obra.

Observações:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
3

a. Adotou-se o jateamento por via úmida com aplicação de pintura


impermeabilizante devido a sua facilidade de execução e menor custo final
do serviço.
b. O sarrafeamento deve garantir uma superfície lisa, que apresente condições
de ser pintada de forma a garantir um efetivo recobrimento da superfície
pela tinta.
c. No reaterro, devem ser tomados cuidados para que partículas maiores de
solo ou entulho não rompam a película da pintura impermeabilizante.
d. A pintura deverá apresentar espessura que garanta, segundo o fabricante,
para as condições acima preconizadas, capacidade efetiva de proteção por
um período mínimo de 10 anos.

6.5.2 Pilares

Neste caso, temos pelo menos quatro condições a serem consideradas na


obra:

1ª. Recobrimento insuficiente: é uma falha ocorrente em todo o projeto estrutural


do prédio sob análise, e podem levar a despassivação total da armadura, através
de um processo de corrosão progressivo.
2ª. Falhas de concretagem que não comprometem o comportamento estrutural:
são aquelas em que as falhas se apresentam apenas na superfície da peça, o que
pode levar a despassivação acelerada da armadura pela quase ausência de
recobrimento da armadura em pontos determinados.
3ª. Segregação nos nós da estrutura: é uma falha estrutural grave, que leva a um
comportamento anômalo na distribuição e absorção de cargas, neste caso
agravada pela insuficiência de comportamento de outros elementos estruturais,
principalmente as vigas baldrame. Esse tipo de falha, quando associada a outros
fatores, leva a possível desestabilização da estrutura.
4ª. Vazios estruturais decorrentes da introdução de corpos estranhos na forma,
durante a fase de concretagem: nesta obra, foram encontrados pilares que tem,
em seu interior, pedaços de poliestireno expandido com até 150 mm de
comprimento e espessura de aproximadamente 20 mm. Esses elementos geraram
vazios de dimensões consideráveis dentro de pelo menos 1 pilar, levando a sua
fissuração em um plano aproximadamente horizontal, provavelmente ocasionada
por torção, gerada por sua vez pela seção resistente irregular. É uma condição de
alto risco, quando se considera a situação geral da estrutura, pois a ruptura desse
elemento estrutural pode piorar ainda mais a condição local de carregamento da
fundação, gerando o colapso de toda a estrutura, em um chamado "efeito
dominó".
6.5.2.1 Recuperação

Sugere-se a seguinte seqüência de execução dos serviços:

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
4

6.5.2.1.1. Fase inicial

1. Remoção de toda a argamassa aplicada nos pilares com a finalidade de


regularizar superfícies e/ou ocultar irregularidades (reparos cosméticos).
2. Proceder a uma vistoria total da estrutura, classificando as falhas de acordo
com os casos acima relacionados.

6.5.2.1.2. Recuperação de pilares que não apresentam


despassivação da armadura metálica

1. Tamponar quaisquer eventuais fissuras com pasta base epóxi de


comportamento tixotrópico.
2. Proceder a pintura com tinta acrílica base solvente utilizando pistola de
pintura e alta pressão, para assegurar a cobertura e adesão ao substrato.
3. Executar repinturas periódicas, para assegurar a proteção do concreto e
armadura. A periodicidade deverá ser definida pela garantia do fabricante da
tinta e empresa responsável pela aplicação.

6.5.2.1.3. Recuperação de pilares que apresentam despassivação


da armadura metálica

1. Remover todo o concreto que presente sinais de descolamento ou ruptura.


2. Jatear com mistura de areia e água a armadura exposta e a superfície de
concreto até a completa remoção da camada de óxido e de materiais soltos.
Completar a limpeza com jato de alta pressão de ar.
3. Para segmentos deteriorados com profundidade até 20 mm, nivelar a
superfície com argamassa base epóxi com características tixotrópicas. Para
maiores profundidades, montar formas e grautear, utilizando camada de adesão
de resina epóxi, removendo posteriormente os excessos com discos de corte ou
lixadeiras mecânicas dotadas de discos de abrasão.
4. Tamponar quaisquer fissuras superficiais com pasta base epóxi e carga
mineral, com comportamento tixotrópico.
5. Proceder a pintura com tinta acrílica base solvente utilizando pistola de
pintura e alta pressão, para assegurar a cobertura e adesão ao substrato.
6. Executar repinturas periódicas, para assegurar a proteção do concreto e
armadura.
6.5.2.1.4. Recuperação de pilares que apresentam segregação
nos nós da estrutura

1. Injetar, sob pressão, resina epóxi de baixa viscosidade, em toda a área que
apresenta segregação, objetivando restaurar o monolitismo da estrutura.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
5

2. Tamponar quaisquer eventuais fissuras de superfície com pasta base epóxi de


comportamento tixotrópico.
3. Proceder a pintura com tinta acrílica base solvente utilizando pistola de
pintura e alta pressão, para assegurar a cobertura e adesão ao substrato.
4. Executar repinturas periódicas, para assegurar a proteção do concreto e
armadura.

6.5.2.1.5. Recuperação de pilares que apresentam vazios estruturais

1. Remover todos os elementos causadores dos vazios. No caso dessa operação


exigir intervenções profundas nos pilares, reforça-los previamente com chapas
de aço aderidas a sua superfície. Adotar esse procedimento também quando o
pilar apresentar fissuras horizontais, verticais ou inclinadas.
2. Preencher sob pressão os vazios com argamassa base epóxi, utilizando-se
areia de boa qualidade para compor a argamassa.
3. Injetar, sob pressão, resina epóxi de baixa viscosidade em todas as fissuras
que o pilar apresente.
4. Tamponar quaisquer eventuais fissuras de superfície com pasta base epóxi de
comportamento tixotrópico.
5. Proceder a pintura com tinta acrílica base solvente utilizando pistola de
pintura e alta pressão, para assegurar a cobertura e adesão ao substrato.
6. Executar repinturas periódicas, para assegurar a proteção do concreto e
armadura.

Observação: Todos os pilares expostos, que apresentam corrosão de armadura na sua


base, devido à ação direta da água da chuva devem ter aplicado um revestimento de
concreto jateado com espessura mínima de 30 mm, antes da aplicação da pintura de
proteção acima descrita.

6.5.3. Vigas

As vigas, de um modo geral, apresentam quatro tipos de problemas:

1ª. Recobrimento insuficiente: é uma falha ocorrente em todo o projeto estrutural


do prédio sob análise, e podem levar a despassivação total da armadura, através
de um processo de corrosão progressivo.
2ª. Falhas de concretagem que não comprometem o comportamento estrutural:
são aquelas em que as falhas se apresentam apenas na superfície da peça, o que
pode levar a despassivação acelerada da armadura pela quase ausência de
recobrimento da armadura em pontos determinados.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
6

3ª. Vazios estruturais decorrentes do espaçamento insuficiente das barras da


armadura inferior e utilização de diâmetro inadequado de agregado graúdo:
várias faces inferiores de vigas apresentam falhas de concretagem oriundas do
não preenchimento das peças, na parte inferior da forma. Esse problema pode
levar a uma concentração na fissuração e em casos extremos, ao deslizamento da
armadura, levando a ruína da peça.
4ª. Fissuração concentrada: problema originado pelo uso de seixo rolado como
agregado graúdo, pode levar a despassivação da armadura, e em peças esbeltas
muito carregadas, pode levar ao descolamento de parte do concreto e
deslizamento da armadura, provocando a ruína da peça estrutural.

6.5.3.1 Recuperação

Sugere-se, para a recuperação das vigas, os mesmos procedimentos


adotados na recuperação dos pilares, atentando-se para os seguintes detalhes:

1º O preenchimento das faces inferiores das vigas pode ser feito com graute,
com a utilização de uma ponte de adesão base epóxi, sendo que para facilitar o
preenchimento da forma, pode ser feito um espessamento da peça na sua parte
inferior. Para manter a arquitetura, esse espessamento pode ser promovido em
todas as vigas, o que aumenta o grau de proteção das suas armaduras. A outra
possibilidade é o concreto jateado, que dispensa a ponte de adesão mas exige um
acabamento superficial e a sua aplicação em todas as peças, para que seja
mantida a arquitetura.

2° A aplicação de resina epóxi nas fissuras se restringirá a aquelas que


apresentarem abertura acima do estabelecido pela norma, sendo que, pela
proteção proporcionada pela pintura a ser feita em todas as peças, pode-se adotar
o valor limite de 0,3 mm.

6.5.4. Lajes

As trincas surgidas nas lajes de todo o prédio tem a sua origem na


movimentação excessiva da estrutura, gerada pelos problemas já descritos de fundação.
Consideramos que com a resolução desse problemas, as lajes não exigirão maiores
cuidados do que a remoção de todo o piso e contrapiso, o tamponamento das fissuras
com pasta de base epóxi, e a aplicação de um novo piso, preferencialmente que
apresente capacidade de tolerar pequenas movimentações naturais da estrutura.
Deve-se notar que as lajes que apresentarem despassivação de armadura,
devido a infiltrações de água ou por outros motivos deverão sofrer um processo de
recuperação similar a dos pilares, sendo prevista a pintura na face inferior de todas elas,
expostas e não expostas

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
7

6.5.5. Juntas de dilatação

As juntas de dilatação do prédio, para que apresentem comportamento


compatível com a sua finalidade, deverão passar pelo seguinte processo de recuperação:

1º Deverão ser totalmente limpas, e ter as suas bordas recompostas, na sua


geometria, com uma pasta base epóxi ou poliéster.
2º Deverá ser colocado, em todas as juntas, horizontais e verticais, um perfil pré-
formado de neoprene que as preencha totalmente, com capacidade de absorver a
movimentação prevista para os dois blocos que compõe o prédio, sendo que esse
perfil deve estar completamente aderido as duas faces da referida junta através
de um adesivo base epóxi, sendo recomendável a utilização de um primer selante
e melhorador de adesividade. Recomenda-se, para assegurar a colagem do perfil,
que seja utilizada a junta pressurizada de neoprene.
3º O revestimento das paredes e pisos deverá ser feito deixando-se livres as
juntas, apenas no piso deve ser previsto o seu recobrimento por um piso flexível
para preservar a sua integridade estrutural.

Observação: não deverão ser aceitas juntas formadas no local, sejam de base asfalto,
alcatrão e/ou silicone, devido à amplitude prevista de movimentação.

6.5.6. Observações finais

Conforme verificado nas vistorias, tornam-se necessárias ainda as


seguintes providências:

1ª Remoção de toda a impermeabilização existente no edifício e execução de


uma nova, com padrões executivos que assegurem a sua eficácia e durabilidade,
como determinado pelas normas referentes ao assunto.
2ª Recuperação de todo o sistema de escoamento de águas pluviais, servidas e
drenagem de um modo geral, para evitar que infiltrações, dentro do prédio ou no
solo, acelerem os processos de degradação do edifício.
3ª Reconstrução do pavimento externo, com compactação e revestimento
executados como determinam as normas referentes ao assunto e adoção de uma
geometria que colabore no escoamento das água precipitadas.
4ª Adoção de um plano de vistoria periódico (anual), considerando que as
patologias apresentadas pela estrutura tem origem na gênese do projeto e na
utilização de determinados materiais e técnicas construtivas. Isso impede que as
soluções adotadas resolvam de vez os problemas encontrados, apesar de
permitirem com a sua adoção, o uso seguro da edificação. Sendo esse programa
adotado, se impedirá que essas patologias provoquem novamente a deterioração

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
8

nas condições de uso da edificação, por permitir que medidas corretivas sejam
tomadas em tempo.

6.6. Reparo de laje rompida, em instituição de ensino.

Pode-se notar, pelo estado atual da estrutura, que a sua deterioração tem
origem em dois problemas diferentes:

6.6.1. Ruptura por Momentos Volventes

Esses momentos provocaram a fissuração nos cantos das lajes L 75 e L 78 (p 27


f 6, Bloco III), por insuficiência de armaduras nessas regiões. Estruturas com
vigas e pilares mais esbeltos tendem a apresentar esse tipo de problema. As
figuras 45 e 47, extraídas na apostila Patologias e Terapias das Edificações, do
Prof. Dr. José Bento Ferreira, demonstram as manifestações patológicas mais
comuns neste caso, que, como se pode ver nas figura 46 e 48 correspondem
exatamente a essas manifestações. Verificando-se as plantas de armação, cujo
detalhe pode ser visto na figura 49 (p 27 f 6, Bloco III), é possível se notar a
ausência de armadura complementar destinada a combater esses momentos

Figura 45: Vista superior de uma laje que apresenta ruptura de canto devido à
insuficiência de armadura destinada a absorver as tensões geradas pelos
momentos volventes. (Fonte: J. B. Ferreira)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 12
9

Figura 46:
Nota-se a ruptura do canto da laje L 78, na área assinalada, desenvolvendo-se a partir do
pilar, que se alinha com a viga invertida que sustenta a laje contínua. Esta foto pode ser
comparada à figura 45. (Fonte: J. B. Ferreira)

Figura 47: Vista inferior de uma laje que apresenta ruptura de canto, devido à
insuficiência de armadura destinada a absorver tensões geradas por momentos
volventes. (Fonte: J. B. Ferreira)

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 13
0

Figura 48: Nota-se o desenvolvimento da fissura a partir do canto da laje L 75. Esta foto
pode ser comparada à figura 47.

Figura 49: detalhe da planta p 27 f 6 do Bloco III.

6.6.2. Ruptura Longitudinal da Laje Devido a Perda de Secção Resistente

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 13
1

Considerando-se a maior dimensão da laje L 76, entre vigas, notamos que


ela sofreu uma ruptura longitudinal, como pode ser visto nas fotos 50 e 51.

Fotos 50 e 51; Nota-se a ruptura longitudinal da laje L 76, praticamente de uma


extremidade a outra, seguindo aproximadamente a linha dos elementos de iluminação.
(Fonte: autor)

Em uma maior aproximação (foto 52), é possível se notar que, ao longo


de toda a ruptura, temos um condutor de fios elétricos (conduíte) com diâmetro de ¾”
(19 mm). Considerando-se que a espessura da laje, conforme consta no projeto, é de 80
mm, temos a perda de aproximadamente ¼ da espessura da laje. Além desse fator, temos
a considerar que, dada a disposição da armadura e a sua bitola, o condutor, posicionado
acima e apoiado sobre a armadura, se constituiu em um dos elementos de despassivação
da armadura inferior, junto com a ausência de recobrimento, que neste caso, se prevê
como mínimo necessário 5 mm. Considerando-se, após a análise da planta de ferragem
(p 27 f 6, Bloco III), que a armadura já apresentava deficiência de secção e a resistência
do concreto era de apenas 9 MPa, pode-se deduzir que a introdução desse condutor foi o
principal elemento gerador da ruptura, sendo a vibração das máquinas do laboratório e a
dilatação térmica elementos tritagonistas dessa patologia. As verificações de cálculo,
utilizando-se os padrões estabelecidos pela NB 1/78, encontram-se em anexo.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 13
2

Foto 52: Nota-se a ruptura do concreto e armadura acompanhando o condutor de


eletricidade e a inexistência, em alguns pontos assinalados, de recobrimento de
armadura pelo concreto.

6.6.3. Propostas de Recuperação da Estrutura

Por se tratarem de problemas diversos, as soluções apresentadas são


compartimentadas, pois uma única não contemplaria necessidades tão diversas.

6.6.3.1. Momentos Volventes

Utiliza-se, neste caso uma armadura complementar, destinada


exclusivamente a combater a flexão nos cantos das lajes L 75 e L 78. Tomando-se como
referência a NB 6118, temos a figura 53, de mostra o sentido dessa armadura
complementar.
Dada a amplitude da ruptura, é possível se notar que neste caso, as lajes L
75, L 76, L 77 e L 78 trabalham em conjunto e, portanto os vãos considerados devem ser
os do conjunto, ou seja, é considerada uma dimensão, para efeito do cálculo da área a ser
coberta pela armadura complementar, de 12,60 m (3,15 x 4), ou seja, será coberto um
quadrado com 2520 mm de lado. Adota-se como armadura complementar barras chatas
aderidas com epóxi, com espaçamento de 160 mm entre si, com secção de 1”x 1/8”. São
utilizados como elementos de garantia de aderência parafusos ¼”x 2” de cabeça
sextavada, fixados com buchas de nylon S 8, espaçados 100 mm no eixo da barra. As
superfícies devem ser previamente preparadas para a aplicação da ponte de adesão
epoxídica, conforme os procedimentos padrão.
Após a execução da armadura complementar, é necessário se restabelecer
o monolitismo da estrutura, através da injeção de resina epóxi de baixa viscosidade.

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 13
3

Figura 53: Sentido da armadura complementar.

6.6.3.2. Ruptura Longitudinal

A ruptura gerada gerou uma nova estrutura em balanço, que agrava as


patologias geradas pelos momentos volventes e permite a progressão na despassivação
da armadura. Para resolver esse problema, a estrutura complementar proposta gera uma
ancoragem do trecho em balanço,. permitindo o restabelecimento do comportamento
monolítico da peça. De forma esquemática, temos a representação dessa estrutura
complementar na figura 54:

Figura 54: Modelo de reforço, com os tirantes, com Φ 10 mm, afastados entre si em 600 mm, no mesmo
perfil. (Fonte: autor)

6.7. Reparo de laje grelha e aumento da sua capacidade de carga

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 13
4

O presente estudo decorreu da necessidade de recuperação


e aumento a capacidade de carga de uma laje nervurada, com forma aproximadamente
retangular, medindo 18,62 m por 11,76 m.
Inicialmente foram identificadas as causas da deterioração
da estrutura, sendo efetuado um mapeamento das partes a serem recuperadas, e, também
se procurou identificar possíveis cargas indesejáveis atuantes na estrutura. A sua
situação estrutural se encontrava comprometida por sérios descolamentos de concreto,
na face inferior da laje, como pode ser visto nas figura 55. Após essa fase, verificou-se a
viabilidade de se aumentar a capacidade de carga da estrutura, sob o ponto de vista
técnico e econômico, pois apesar de ser utilizada como piso, a laje originalmente havia
sido projetada para ser o forro do último andar, o que acentuou as patologias, devido á
sobrecarga não prevista.

Figura 55: foto da face inferior da laje,


onde vemos o descolamento do concreto
abaixo da armadura, devido a
deslizamento ocorrido entre o concreto e
aço, notando-se uma corrosão incipiente.
O concreto,executado com seixo rolado, e
o aço, o antigo CA 24 sem ranhuras,
acentuou o efeito de descolamento gerado
pela sobrecarga não prevista. (Fonte:
autor)

Dadas as condicionantes impostas, como dimensões da


laje; finalidade de uso; localização da estrutura (terceira laje do prédio); necessidade de
não interrupção do uso do imóvel e impossibilidade de reforço das fundações, optou-se,

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 13
5

dentre todas as opções estudadas, pelo uso de cabos de protensão conjugados com uma
treliça afastadora (Figura 56), para ampliação da capacidade de carga, conforme
descrito no item de reforço de estruturas com armadura protendida, item 5.10, figura 26.

Figura 56: Foto da treliça afastadora já montada na face inferior da laje a ser reforçada com cabos de
protensão. (Fonte: autor)

Dado o avançado estado de deterioração da estrutura, foi necessária uma


etapa prévia de recuperação estrutural executada com a aplicação de concreto projetado
e injeções de resina epóxi. Definidos todos os parâmetros, foram estabelecidas todas as
etapas do trabalho, haja vista que neste caso específico, por se tratar de introdução de
novas cargas na estrutura, a seqüência de execução é extremamente importante.
Executados os serviços, de acordo com o projeto elaborado, o
comportamento da estrutura, já com a nova finalidade, tem sido excelente, satisfazendo
os estados limites último e de utilização, impostos pela NBR 6118.
A solução proposta é viável para lajes maciças e nervuradas, com
dimensões que conduzam a relações entre o maior e o menor lado pouco inferiores a 2,
e maiores ou iguais a 2. Isto é, que tenham momentos fletores predominantes em uma
direção.

7. BIBLIOGRAFIA

José Bento Ferreira 2005


Departamento de Engenharia Civil/FEG/UNESP 13
6

ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. NB 1-78, Norma para projeto e


execução de obras em concreto armado. São Paulo, ABNT, 1978.
ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 9452/86, Vistoria de pontes e
viadutos. São Paulo, ABNT, 1986.
ABNT; GERDAU. Coletânea de normas de aço para armaduras de concreto.
Associação Brasileira de Normas Técnicas, Rio de Janeiro, 1997.
BAUER, L. A. Falcão. Materiais de construção. 5ª edição. Livros Técnicos e
Científicos Editora Ltda., Rio de Janeiro, 1994.
BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo, Editora SENAC São
Paulo, 1998.
CÁNOVAS, Manuel Fernández. Patologia e terapia de concreto armado. São Paulo,
Editora Pini, 1988.
CSN, Companhia Siderúrgica Nacional. Catálogo técnico de perfis metálicos.
FERREIRA, José Bento. Patologias em Estruturas de Concreto Armado: notas de
aula. Guaratinguetá, 2002.
GERDAU. Catálogo técnico de barras e perfis metálicos.
HELENE, Paulo R.L. Manual para reparo, reforço e proteção de estruturas de
concreto. São Paulo, Editora Pini, 1992.
MAC, Sistema Brasileiro de Protensão. Catálogo técnico de sistemas de protensão.
MACHADO, Ari de Paula. Reforço de estruturas de concreto armado com fibras de
carbono. São Paulo, Editora Pini, 2002.
PFEIL, Walter do Couto. Estruturas de aço: dimensionamento prático segundo a
norma brasileira. . Livros Técnicos e Científicos Editora Ltda., Rio de Janeiro,
1988.
PFEIL, Walter. Pontes: curso básico: projeto, construção e manutenção. Rio de
Janeiro, Editora Campus, 1983.
ROYCRAFT, Duane F.. Industrial building details. F. W. Dodge Corporation, New
York, 1959.
SOUZA, Vicente Custódio Moreira de; RIPPER, Thomaz. Patologia, recuperação e
reforço de estruturas de concreto. São Paulo, Editora Pini, 1998.
STUP - Sociedade Técnica para Utilização da Protensão. Sistemas de
ancoragem.STUP, Rio de Janeiro, 1982.

José Bento Ferreira 2005