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Para fazermos ciência precisamos conhecer o que é

a ciência e a metodologia da ciência. A METODOLO~


GIA DA CIÊNCIA nos fornece urna explicação sobre
os paradigmas da ciência e suas superações, nos orien-
ta sobre as possibilidades de caminhos que podemos se-
guir para a cons trução do conhecimento e nos dá pistas
para compreendermos o que vem acontecendo com a pes-
quisa na atualidade.

2.1. CONHECIMENTO E CIÊNCIA

COMO CONHECEMOS O MUNDO?

o ser humano, em sua plenitude, possui faculdades


intrínsecas e extrÍnsecas que lhes possibilitam conhe-
cer e pensar no atendimento às suas necessidades huma-
nas básicas. O conh.ecimento, seja ele qual for, represen-
ta, no cenário da vida, a apropriação da realidade, que é
a totalidade das coisas conhecidas pelo sujeito. Conhe-
cer, saber e ter conhecimento é apreender os seres e as
coisas. Entende-se por SER tudo aquilo que existe ou
que se supõe existir. Por COISA, tudo aquilo que existe
ou poderia existir. Assim é que a apropriação da reali-
dade inclui o REAL, ou seja, o que existe realmente in-
dependente do nosso pensamento, e o IDEAL, ou seja,
aquilo que existe apenas em nosso pensamento de modo
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imaginário ou fictício. Na dimensão do reat a realida- mento se caracteriza por atingir o objeto sem meio, as-
de empírica abrange tudo o que existe no universo pos- semelhando-se ao fenômeno da visão e resultando no
sível de ser conhecido, tanto por experiências internas conhecimento inhÜtivo. Embora este tipo de conheci-
quanto externas, e que vão sendo adquiridas pelos sen- mento não substitua outros, sua utilidade é na vida prá-
tidos e pela consciência. tica, influenciando nas convicções pessoais de cada in-
divíduo.
Para Ruiz23, conhecer e pensar colocam o universo
ao nosso alcance e lhes dão sentido, finalidade e razão Com referência ao raciocínio, este ocorre quando o
de ser. Desse modo, o homem torna-se o ser verdadei- objeto do conhecimento é apresentado de modo indire-
ro capaz de olhar o mundo e vê-Io, com reconhecimen- to, mediante uma série de julgamentos e modos discur-
to do que vê e com atribuição de significado aos seres sivos, que vão do antecedente ao conseqüente, passa-
e às coisas. gem que o conhecimento intuitivo não tem, porque ele
se dá de modo direto. Neste contexto, a intuição e o ra-
QUE ELEMENTOS SÃO CONSTITUTIVOS ciocínio se combinam e são, por vezes, complementados
DO CONHECIMENTO? nas operações do pensamento.
O conhecimento, no contexto geral, constitui-se de O conhecimento existe numa relação "sui generis"
três elementos que são: sujeito, objeto e imagem. O sujei- entre consciência cognoscente e objeto conhecido, visto
to determina o pensar, que é a consciência cognoscente. que mediante a imagem a consciência cognoscente se
O objeto é o determinante do pensar, ou seja, aquilo que identifica ,com o objeto. Assim, quem conhece verdadei-
o sujeito pretende conhecer. E a imagem é o ponto de co- ramente atinge as razões e as causas das coisas, pois co-
incidência entre o sujeito e o objeto. Assim, o conhecimen- nhecer sem pensar é se contentar em ver e aceitar a reali-
to passa a ser o ato ou o efeito de conhecer que tem como dade empírica sem questionar ou refletir, é querer al-
cançar o fundamento das coisas sem buscar as suas ra-
fator fundamental o progresso humano.
zões ou até mesmo sem justificar a sua posição dian-
O conhecimento resultante dos estados e dos pro- te do que vê. Temos a convir que o homem é capaz de
cessos interiores é denominado de introspectivo, sen- participar do mundo científico a partir do momento em
do a introspecção o ato de conhecer através da expe- que ultrapasse o simples conhecer pelo empenho de pen-
riência interna, ou seja, através daquilo que o nosso in- sar e refletir com críticas objetivas, possibilitando o nas-
terior revela. Conhecer por intuição significa que o ob- cer e o fortalecer de suas atitudes científicas.
jeto do conhecimento pode se apresentar de modo ime-
diato sem intermediário. Esta modalidade de conheci- Neste sentido, o autor afirma que, o homem, além
de conhecer a realidade natural na sua concreção fac-
tual e singularidade, tem a possibilidade de ultrapassar
os limites do singular apreendido pelos senlidos cor-
28. RUIZ, João Álvaro. Metodologia científica: um guia para eficiência
nos estudos. 4.ed. São Paulo: Atlas, 1996. páreos e apreender as relações formais de comparar,
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analisar, isolar elementos, abstrair e generalizar. Haja o conhecimento filosófico é aquele que estabelece
vista que o conhecimento sensorial é comum aos ho- uma concepção racional do universo e da vida. Neste
mens e aos animais na apreensão dos fatos e das coisas, sentido, a filosofia, antes de mais nada, tem a finalida-
mas só o homem é capaz de fazê-Io na sua singularida- de de compreender a realidade e fornecer conteúdos re-
de concreta. O conhecimento intelectual, por sua vez, é flexivos e lógicos das mudanças e transformações da
privativo aos homens, não atingindo a aparência do fe- mesma. Além disso, cumpre a tarefa de elaborar pres-
nômeno ou coisa em si, mas operando sobre as im.a.gens supostos e princípios norteadores das ações humanas.
sensoriais, ultrapassando fórmulas e conceitos gerais, Assim, filosofar é fazer uma reflexão crítica da socieda-
o abstrato e as definições universais das relações ideais de, da política e da educação. Caracteriza-se como o es-
ete. Daí por que este tipo de conhecimento não deve se forço da razão pura para questionar problemas huma-
restringir apenas à captação da imagem sensorial dos nos e discernir entre o certo e o errado, sem fazer apelo
objetos e a reconhecê-Ios nela, mas,atingir o real em sua às iluminações divinas mas recorrendo apenas à luz da
essência e não só aparências. Vejamos agora os tipos própria razão.
de conhecimento existentes.
Para Barros & Lehfeld29, trata-se ainda de um tipo
O conhecimento do senso comm ou popular é aque- de conhecimento caracterizado por seu objeto próprio,
le adquirido assistematicamente, através das experiên- objetivo e métodos, os quais se tornam expressos em
cias de vida. Compõe as experiências empíricas, o modo conceitos, juízos e argumentos adequados às formas de
comum, natural, espontâneo, pré-crítico e ametódico de pensamento e observações, as quais devem obedecer o
aquisição de conhecimento, no contato rotineiro ou oca- rigor lógico das deduções e das induções.
sional com a realidade. Tem o objetivo de orientar e ca- O conhecimento teológico é aquele que é direciona-
pacitar o homem a viver seu cotidiano, a reconhecer os do à compreensão da totalidade da realidade homem-
fenômenos e os seres que compõem a sua realidade, para mundo. O objetivo é detectar um princípio e um fim
a solução de simples problemas. Desenvolve-se a partir único no que se refere a gênese essencial e existencial
da constatação de similaridades entre eventos e obje- do cosmos. A teologia tem por objeto os princípios da
tos, sem qualquer atividade mediadora que possa am- vida, enquanto este tem a sua causa suficiente noutro
pliar seu grau de certeza. Este tipo de conhecimento so- ser. Teologia, portanto, é o estudo do absoluto e da re-
brevive ao longo do tempo e é transmitido de indiví- lação que existe entre o absoluto e o relativo. Sua maté-
duo para indivíduo, de pais para filhos, dos mais ve- ria de estudo é Deus, como ser que existe independente
lhos para os mais novos e assim sucessivamente. Está e que detém não a potencialidade, mas a ação do perfei-
relacionado com a ciência e com ela pode sofrer modi- to. Assim, é possível observar que há neste nível de co-
ficações, uma vez que é a base sobre a qual se cons-
troem as teorias científicas. 29. BARROS, A.; LEFHELD, P. Fundamentos de metodologia científica;
um guia para a iniciação científica. São Paulo: McGraw-l-Ii1l, 1986.

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nhecimento a reflexão sobre a essência e a existência solucionar, porque neste procedimento está sempre pre-
naquilo que elas têm como causa primeira e última de sente a intencionalidade, mediante a qual são definidas
toda a vida. certas formas e processos de ação, ficando claro que há
Os autores afirmam que a teologia defende a pro- sempre pretensão de se atingir o melhor índice de vali-
posta de que a inteligência e a racionalidade diferem dade e de fidelidade do conhecimento de um fenôme-
dos sentidos por natureza, não só em grau, pois é nas no. Contudo, para se atingir esse resultado, é necessá-
coisas que busca o ser, uma vez que este é capaz de ser I[ rio que a busca de conhecimento de um fenômeno seja
abstraído pela inteligência. Neste sentido, é possível II guiada por perguntas básicas, as quais encaminharão
perceber que, sob o ponto de vista teológico, a existên- I o encontro de respostas concernentes e, portanto, coe-
cia divina é evidente, e evidência não se demonstra e rentes, entre si, tais como: o que conhecer? Por que co-
nenl se experimenta, mas se analisa, interpreta e expli- II nhecer? Para que conhecer? Como conhecer? Com que
ca. Contudo, é preciso que se entenda que, embora a teo- conhecer? Onde conhecer?
logia tenha consignado em si o dado de fé, teologia e fé Para tanto, tais procedimentos acabam por caracte-
não são a mesma coisa, pois a teologia tem como pres- rizar uma ação metodológica, que direciona o conhe-
suposto básico a reflexão lógica, embora tome como prin-
cimento do pesquisador que se dirige a qualquer uma
épios primordiais não só os prinépios da razão mas tam- das propostas de formulação profissional, seja ela pró-
bém os prinépios da revelação.
pria ao jurista, ao assistente social, ao educador, ao co-
O conhecimento científico é aquele que está pro- municólogo, ao administrador, ao químico e outros pro-
porcionalmente direcionado, como os demais níveis, à fissionais.
forma de pensamento e de estratégia de conhecimento
Assim, o conhecimento científico, exige a utilização
que o homem realiza frente aos fenômenos. Este tipo
de métodos, processos e téOlicas especiais para análi-
de conhecimento dá-se à medida que se investiga o que
se, compreensão e intervenção na realidade.
fazer sobre a formulação de problemas, os quais exigem
estudos minuciosos para seu equadonamento. Neste caso, A filosofia também é uma forma de conhecer o mun-
utiliza-se do conhecimento científico para se conseguir, do. É uma postura diante do mundo e wna prática de vida
através da pesquisa, constatar as variáveis como pre- que procura pensar os acontecimentos, além de sua pura
sença ef ou ausência de um determinado fenômeno inse- aparência. Ela se volta para qualquer objeto.
rido em uma dada realidade. Esta constatação se dá pa- Para construir nossa resposta vamos nos reportar à
ra que o estudioso possa dissertar ou agir adequada- obra de Gaarder30, um romance da história da filosofia,
mente sobre as características do fenômeno que o fato que recomendamos a todos. Segundo o autor "o me-
apresenta.
No conhecimento científico há de se grifar a exigên-
cia da definição dos problemas que se tem em mente 30. GAARDER ]ostein. o mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995.

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Ihor meio de se aproximar da Filosofia é fazer pergun- Etimologicamente, epistemologia significa discurso
tas filosóficas" (p.IS). (lagos) sobre a ciência (episteme). Logo, todos os traba-
Mas que pergnntas têm um caráter filosófico? To- lhos relativos ao fazer das ciências são do seu âmbito e,
das as questões que interessam a todas as pessoas, co- por conta disso, surgem vários enfoques, pois há várias
mo, por exemplo: quem somos? por que vivemos? como maneiras de conceber e tratar a ciência. Assim, para o au-
surgiu o universo? há sentido no viver? como o homem tor, tal conceito precisa ser entendido no plural, ou seja,
está no mundo? como o homem está se relacionando não há uma única epistemologia, mas sim diversos en-
com os outros homens e com a natureza? foques e ""cada enfoque epistemológico elucida a ativi-
dade científica a seu modo. Cada um tem uma concep-
ção particular do que seja ciência" (idem, p.lO).
1" SÍNTESE: FILOSOFAR, OU MELHOR, PENSAR
FILOSOFICAMENTE, É UM FENÔMENO INTER- Quanto ao conceito de conhecimento nos diferen-
ROGATfVO E INTERDISCIPLINAR, POIS PODE- tes enfoques, verificamos o seguinte. Há uns mais tra-
MOS TECER TAIS PERGUNTAS DENTRO DE dicionais, em que o conhecimento é entendido como um
QUALQUER UMA DAS DfVERSAS DISCIPLINAS dado adquirido runa vez por todas, desse modo lUTIdado
CIENTÍFICAS. ASSIM, PODEMOS FILOSOFAR estático e linear, permanente e acabado. Estes conceitos
EM QUALQUER CIÊNCIA. E FILOSOFAR É IN- são encontrados na epistemologia não-genética. Uma
TERROGAR. outra concepção, mais adequada, que entende o conhe-
cimento como um processo, um devir, é encontrada nas
epistemologias genéticas. Adotaremos daqui por dian-
Temos aqui uma primeira razão para aproximar- te a compreensão que aponta que a tarefa da epistemo-
mos nossa disciplina da Filosofia, pois ambas visam in- logia consiste em conhecer o devir do conhecimento e
terrogar o mlmdo. Ao interrogarmos, estamos nos apro- analisar as etapas de sua estruturação, chegando sem-
ximando do ato de conhecer e aí estamos enveredando
pre a um conhecimento provisório, jamais acabado ou
por uma das áreas de eshIdo da Filosofia, que é a Epis- definitivo.
temologia.
A base do conhecimento, qualquer tipo de conhe-
Para obter uma resposta para a questão, nos aproxi-
cimento, é construída a partir da relação ontológica que
mamos de Japiassu31• Em sua obra encontramos algu-
se estabelece entre run Sujeito (O Cognoscente) e um Obje-
mas indicações e possíveis respostas, do que tratamos
a seguir. to (Objeto de conhecimento ou O Cognoscível). A rela-
ção Sujeito-Objeto se constitui como o problema fun-
damental da Epistemologia. Com base em seu estudo,
temos acesso às fontes básicas do conhecimento cientí-
31.JAPIASSU, Hilton. Introdução ao pensamento epistemológico. 7.ecl.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1992. fico e podemos nos situar dentro das várias vertentes
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filosóficas. Cada "Filosofia", ao tentar responder aos
problemas mais profundos do homem, irá compreen-
der o processo de aquisição do conhecimento de forma PARA LER
singular: ou irá priorizar o Sujeito (enfoque hermenêu-
tico), ou o Objeto (enfoque empírico-anaIítico) ou a re- • GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. São Pau-
lação histórica entre esses dois pólos (enfoque crítico- lo: Companhia das Letras, 1995.
dialético) .
• JAPIASSU, Hilton. Introduç~o ao pensamen-
to epistemológico. 7.ed. Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1992.
2" SÍNTESE: A RELAÇÃO SUJEITO-OBJETO ES-
TABELECE A BASE DO ATO DE CONSTRUIR
E o que é ciência? Conceitualmente, dependendo
CONHECIMENTO E DE ACORDO COM O TI-
da sua natureza, muitos autores relatam que este é um
PO DE RELAÇÃO QUE SE ESTABELECE SE
termo de entendimento restrito e abrangente, mas que,
TEM UMA DETERMINADA POSTURA TEÓRI-
para ser bem definido, necessita do envolvimento de
CO-FILOSÓFICA, QUE IRÁ ENTÃO NORTEAR
TODA A PESQUISA. questões distintas, ideológicas ou epistemológicas, fi-
losóficas, metodológicas e técnicas, e ainda da maturi-
dade do espírito científico do homem. Portanto, nesta
Eis uma segunda razão para nos conectarmos à obra, em se tratando de diretrizes para instrumentali-
Filosofia e à Epistemologia. Nós precisamos entender zação de trabalhos científicos, optamos por defini-Ia a
quais são as possíveis modalidades da relação S-O para partir de aspectos metodológicos e técnicos como sen-
podermos dar o pontapé na nossa busca do conheci- do um conjunto de conhecimentos que se obtém atra-
mento. Estamos convencidos da relevância da aproxi- vés da utilização adequada de métodos sistematizados
mação com a Epistcmologia? Se não estivermos con- ou científicos capazes de apreender, controlar, inter-
vencidos da necessidade de tecermos tais considera- pretar e relacionar fenômenos, fatos ou situações, envol-
ções epistemológicas em uma disciplina como a Me- vendo a realidade empírica ou investigada.
todologia Científica, precisamos rever as duas razões Barros e Lehfeld92, no entendimento de Ciência co-
apresentadas. mo forma de conhecimento a ser utilizado ou não, con-
sideram a existência de dois tipos: o Puro e o Aplicado.
Puro quando a Ciência se torna ciência pela ciência, ou
seja, quando se toma desprovida de objetivos para in-

32.0p.cit.
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lcrvenção e limita-se apenas à construção da Ciência Os objetivos da ciência consistem em afirmar que é
em nível teórico. Aplicado quando a ciência se torna possível o alcance do conhecimento dos objetos reais si-
conhecimento para a ação, ou seja, objetiva um plano tuados no tempo e no espaço. Assim, os objetivos da ciên-
de intervenção envolvendo técnicas de agir. cia são ainda determinados pela necessidade que o ho-
Diferente de suas definições, que variam depen- mem possui de compreender e controlar a natureza das
dendo de sua natureza e da maturidade do espírito cien- coisas e do universo, compreendendo-as naquilo que elas
tífico do homem, a ciência conserva algumas caracte- encerram de evidente, certo e verdadeiro.
rísticas e exigências comuns podendo ser racionat ob- Com os objetivos delineados, a Ciência realizará três
jetiva, factuat certa ou provável, analítica, metódica, ve- funções que são: a de descrever, a de explicar e a de pre-
rHicávet comunicávet partir de investigação e agrupa- ver os dados que integram a realidade em estudo, tor-
mento de objetos da mesma natureza ou espécie. nando o mundo inteligível mediante interpretações or-
Etimologicamente, ciência significa saber, conhecer denadas por meio da subordinação mútua entre enun-
e como conhecimento é racionat sistemática, verificá- ciados em que se assenta o conhecimento científico.
vel e comunicável. Epistemologicamente, preocupa-se Tentando responder a questão nos aproximamos
em analisar e revisar princípios, conceitos, teorias e mé- de Morin33 em sua obra sobre a ciência. Vejamos alguns
todos pertinentes a investigação científica. Assim sen- aspectos que são tratados pelo autor e que nos ajudam
do, ambos os conceitos dizem respeito mais precisa- a compreender melhor "essa tal ciência" que tanto se fala
mente à validade da ciência. Metodologicamente, é vi- e se discute.
sualizada tanto como ciência processo como ciência Sobre ciência, o autor a coloca como um problema,
produto. pois tanto contém o lado bom como o lado mau. Para
No que se refere a ciência produto, consiste em ve- evidenciar tal paradoxo, o primeiro de muitos que virão,
rificar como são formulados os problemas científicos e aponta seus progressos benéficos e maléficos para a hu-
corno as hipóteses são postas à prova. Enquanto ciên- manidade. Tal dilema pode ser entendido quando evi-
cia processo, consiste na maneira de operar através de denciamos uma ligação forte e fatal entre ciência e téc-
atos sucessivos formalizados metodicamente, para a nica e fracos laços entre ciência, sociedade, técnica e po-
compreensão e explicação dos fatos e dados do univer- lítica no sentido de frear os impactos da primeira rela-
so. Já o aspecto metodológico está intimamente relacio- ção, o que a torna então extrema e negativa.
nado com os demais e reflete o aspecto técnico da ciên-
A resposta ainda não foi dada, mas se há um cami-
cia. O aspecto témico, por sua vez, consiste de ativida-
nho para obtê-Ia esse é o da reflexão. Para compreerider-
des produtivas do mundo concreto, e exige manipula-
ção dos meios e instrumentos, para a realização dos ob-
jetivos da ciência, ligados a mudanças ou a transforma- 33. MORlN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Bra-
ção da sociedade. sil,1996.

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Será que compete somente à ciência nos explicar ciência retorna a um estado de normalidade (6). A re-
e nos dizer o que devemos fazer? Qual a contribuição volução científica é um fenômeno aberto, como urna
dos outros saberes que existem para a construção do espiral.
conhecimento?

A metodologia da ciência será representada pela sua


própria trajetória, dos gregos ao nosso século. Nessa
trajetória poderemos identificar seus paradigmas nor-
teadores e, a partir de suas superações, as revoluções
científicas.

2.3. PARADIGMA E REVOLUÇÃO CIENTÍFICA

Segundo Kuhn35 paradigmas são "as realizações cien-


tíficas universalmente reconhecidas que, durante algum
tempo, fornecem problemas e soluções modelares para
uma comunidade". 2.4. A TRAJETÓRIA DA CIÊNCIA E SEUS
PARADIGMAS
Uma Ciência encontra-se numa fase de normalida-
de. Seu paradigma, seus conceitos e suas leis explicam Para Cardos037 podemos pensar a trajetória da ciên-
todos os fatos e fenômenos (1). De repente, surge algo cia com base em três paradigmas. Vejamos suas carac-
que é novo, diferente do já conhecido e os conceitos terísticas.
e leis não conseguem explicar esse novo. Para Kuhn36
aconteceu uma anomalia na ciência normal (2). Após
PARADIGMA TEOCÊNTRICO
essa anómalia vem a crise do paradigma (3). Mediante
a crise, começam· as pesquisas extraordinárias ou ex- Para o autor esse paradigma supõe o reino (a verda-
cepcionais, em busca da explicação do novo fato ou fe- de) no outro mundo (mtmdo de Deus). Ou seja, é o pa-
nômeno que ocorreu (4). Quando se conseguir novos radigma dos dois mundos. Foi dominante entre a Anti-
conceitos e princípios para explicar a anomalia, emer- guidade e a Idade Média. Suas fontes primárias são os
ge o novo paradigma da ciência (5). Neste momento, a pensamentos de Orfeu (séc. VI a.c.) e a doutrina judai-
co-cristã ou cristianismo. O conceito de universo era o
geocêntrico
35. KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo:
Perspectiva, 1995. p.J3.
37. CARDOSO, Clocloaldo M. A canção da inteireza. São Paulo: Sum-
36.Id.,ibid. mus, 1995.

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Este paradigma é também denominado de escolás-
tico aristotélico-tomista, e foi predominante até o final
da Idade Média. Era um meio-termo enlre religião e ciên-
cia que correspondeu à interpretação, por Santo Tomás
de Aquino, dos preceitos filosóficos de Aristóteles, bus-
cando uma conciliação entre razão e fé subordinada ao
dogmatismo cristão38•

PARA VER

• O NOME DA ROSA: No filme, o dogmalismo


cristão fica evidente bem como o controle da Igre-
ja sobre o conhecimento, sobre os livros e a visão
de rnnndo medieval.

. No Renascimento viu-se constituir uma contrapo-


sição a esse dogmatismo e o início de uma autonomia
científica até então oprimida e perseguida pela Santa
Inquisição.

PARA VER

• GIORDANO BRUNO: No filme relatam-se os


últimos dias da vida de Giordano Bruno, quan-
do foi perseguido, preso e condenado pela Santa
Inquisição por ter escrito livros contra o dogma-
tismo da Igreja.

38.1d.,íl?id.

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1-