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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

IM
Nº 70030816946
2009/CÍVEL

APELAÇÃO CÍVEL – LEI ANTI-IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA – AGENTE POLÍTICO – SENTENÇA QUE
EXTINGUE AÇÃO CIVIL PÚBLICA A PRETEXTO DE AQUELA
NÃO SER APLICÁVEL A ESTE – INSUBSISTÊNCIA.

1. De inaplicabilidade da Lei 8.429/92 aos agentes políticos.


1.1 – Os agentes políticos estão sob a égide da Lei 8.429/92. A
expressão agente público, constante do art. 37, § 4º, da CF, é
gênero do qual são espécie os agentes políticos. Ademais, o
art. 1º da Lei 8.429/92 refere agente público de qualquer dos
Poderes, isto é, abrange os próprios integrantes.
1.2 – A decisão do STF na Reclamação nº 2138-6 versou tão-
só a respeito da competência para suspender direitos políticos
de Ministro de Estado, isso tendo em conta o disposto no art.
102, I, “c”, da CF. Não tem, pois, repercussão alguma que não
relativamente a processos em que figurem Ministros de
Estado e as demais pessoas enumeradas no dispositivo
Constitucional. Resumindo: se, no âmbito das infrações
penais e dos crimes de responsabilidade, a competência para
tanto é privativa do STF, por lógica também o é à suspensão
dos direitos políticos prevista na Lei Anti-Improbidade
Administrativa. Por isso mesmo é dito que eles não se
submetem ao modelo de competência da Lei 8.429/92.

2. Dispositivo.
Apelação provida.

APELAÇÃO CÍVEL PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL

Nº 70030816946 COMARCA DE TENENTE PORTELA

MINISTERIO PUBLICO APELANTE

VALDECIR JOAO CANSSI APELADO

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos os autos.
Acordam os Desembargadores integrantes da Primeira Câmara
Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em prover a
apelação.
Custas na forma da lei.

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Participaram do julgamento, além do signatário (Presidente), os


eminentes Senhores DES. LUIZ FELIPE SILVEIRA DIFINI E DES. JORGE
MARASCHIN DOS SANTOS.
Porto Alegre, 14 de abril de 2010.

DES. IRINEU MARIANI,


Presidente e Relator.

RELATÓRIO
DES. IRINEU MARIANI (RELATOR)
Inicialmente, adota-se o relatório das fls. 393-3-v., da lavra do
Dr. Alan Peixoto de Oliveira, assim redigido:
“ O MINISTÉRIO PÚBLICO ajuizou ação civil pública por atos de
improbidade administrativa contra VALDECIR JOÃO CANSSI,
qualificado nos autos. Sustentou que ao trocar de sigla partidária em
23.09.2003, a fim de buscar novos filiados ao partido, o requerido,
exonerou os funcionários que ocupavam cargo em comissão e não
acataram tal pedido. Aduziu, ainda, a flagrante violação ao princípio
da impessoalidade. Invocou o art. 37, caput, e o § 4º, da
Constituição Federal de 1998, bem como a Lei 8.429/92. Pugnou
pela procedência da ação. Juntou documentos (fls. 17/110).
O réu foi notificado para apresentar defesa preliminar ( fl.113) .
Ofereceu manifestação escrita, negando a prática de atos de
improbidade, refutando as alegações que embasaram o ajuizamento
do presente feito (fls. 114/121). Juntou documentos.
Recebida a inicial, o réu foi citado (fl. 128/v).
Contestou o feito (fls. 129/140). Alegou a fragilidade dos argumentos
utilizados na inicial, já que desprovidos de qualquer prova material a
embasá-las. Que a exoneração do servidor Aurélio foi a pedido
deste, tendo este cometido o delito previsto no artigo 19 da lei
8.429/92. Requereu a improcedência da ação. Juntou documentos
(fls. 141/158).
Réplica às fls. 159/164.
Intimadas as parte sobre as provas que pretendem produzir (fl. 165),
postularam a produção de prova testemunhal (fls. 166/167 e 168).
Deferida prova perícia. Houve a desistência da produção da prova
pela parte requerida (fl.210).

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Decretado extinto o feito número 138/1.07.0000980-8, diante da


litispendência (fl. 218).”.

Sob o entendimento que aos agentes políticos não se aplica a


Lei de Improbidade Administrativa o Juízo extingue o feito, sem resolução de
mérito.
Recorre o Ministério Público (fls. 397-17), sustentando, em
suma, que os agentes políticos estão, sim, sob a égide da Lei 8.429/92, até
porque seu fundamento constitucional (art. 37, § 4º, da CF) não restringe a
incidência das sanções para essa modalidade de exercentes de funções
públicas, sendo, ainda, inaplicável à espécie a decisão do STF na
Reclamação nº 2138, tendo em conta sua eficácia inter partes.
Recurso respondido (fls. 420-30).
Parecer pelo provimento do apelo (fls. 433-8).
É o relatório.

VOTOS
DES. IRINEU MARIANI (RELATOR)
Na linha de votos que proferi em diversas outras
oportunidades, estou em prover, e adianto não ser possível julgar o mérito
(CPC, art. 515, § 3º), pois a instrução (coleta de prova oral) não foi
concluída.
1. Inaplicabilidade da Lei 8.429/92 aos agentes políticos. É o
respeitável entendimento do juízo a quo, todavia, respeitosa vênia, não deve
prevalecer.
1.1 – Os agentes políticos estão, sim, sob a égide da Lei
8.429/92 (Dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes públicos nos
casos de enriquecimento ilícito no exercício de mandato, cargo, emprego ou
função na administração direta, indireta ou fundacional e dá outras

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providências), cujo art. 1º, que nada mais faz do que explicitar o alcance do
§ 4º do art. 37 da CF, diz o seguinte: “ Os atos de improbidade praticados por
qualquer agente público, servidor ou não, contra a administração direta, indireta ou
fundacional de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal,
dos Municípios, de Território, de empresa incorporada ao patrimônio público ou de
entidade para cuja criação ou custeio erário haja concorrido ou concorra com mais
de cinqüenta por cento do patrimônio ou da receita anual, serão punidos na forma
desta lei.”

Ora, agente público de qualquer dos Poderes abrange os


próprios integrantes. Agente público aí está como gênero, do qual agente
político é espécie. Não por acaso o art. 12 refere perda de função pública,
sem fazer qualquer distinção, abrangendo portanto o mandato eletivo, e
perda dos direitos políticos.
1.2 – No que se refere à Reclamação nº 2138-6-DF, do STF,
como é sabido, foi julgada procedente, por maioria de votos, em 13-6-07,
porém examinou o caso específico do Ministro de Estado e o fez no sentido
de ampliar a competência privativa da Suprema Corte, prevista no art. 102, I,
“c”, da CF (infrações penais e crimes de responsabilidade), para também os
casos de improbidade administrativa.
Eis a ementa relativamente ao mérito, no quanto interessa:
“3. Regime especial. Ministros de Estado.
Os Ministros de Estado, por estarem regidos por normas
especiais de responsabilidade (CF, art. 102, I, “c”; Lei nº
1.079/1950), não se submete ao modelo de competência previsto no
regime comum da Lei de Improbidade administrativa (Lei nº
8.429/1992).
4. (omissis).
5. Ação de improbidade administrativa.
Ministro de Estado que teve decretada a suspensão de seus
direitos políticos pelo prazo de oito anos e a perda da função pública
por sentença do Juízo da 14ª Vara da Justiça Federal – seção
Judiciária do Distrito Federal. Incompetência dos juízos de primeira
instância para processar e julgar ação civil de improbidade
administrativa ajuizada contra agente político que possui prerrogativa

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de foro perante o Supremo Tribunal Federal, por crime de


responsabilidade, conforme o art. 102, “c”, da Constituição.”
Portanto, versou tão-só a respeito da competência para
suspender direitos políticos de Ministro de Estado. Não tem, pois,
repercussão alguma que não relativamente a processos em que figurem
Ministros de Estado e as demais pessoas enumeradas no dispositivo
Constitucional.
Resumindo: se, no âmbito das infrações penais e dos crimes
de responsabilidade, a competência para tanto é privativa do STF, por lógica
também o é à suspensão dos direitos políticos prevista na Lei Anti-
Improbidade Administrativa. Por isso mesmo é dito que eles não se
submetem ao modelo de competência da Lei 8.429/92.
2. Dispositivo. Nesses termos, provejo.

DES. LUIZ FELIPE SILVEIRA DIFINI (REVISOR) - De acordo com o(a)


Relator(a).
DES. JORGE MARASCHIN DOS SANTOS - De acordo com o(a) Relator(a).

DES. IRINEU MARIANI - Presidente - Apelação Cível nº 70030816946,


Comarca de Tenente Portela: "À UNANIMIDADE, PROVERAM."

Julgador(a) de 1º Grau: ALAN PEIXOTO DE OLIVEIRA