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Capítulo II – Cinema – Cinema

“Kbela” e “Cinzas”: o cinema negro no feminino do “Dogma Feijoada” aos dias


de hoje.
Janaína Oliveira
IFRJ / FICINE, Brasil

Abstract se na produção audiovisual dos anos 1960, quando


eclode o Cinema Novo. Foi naquele período que pela
This article reflects on the history of black cinema primeira vez na história do cinema nacional, homens
in Brazil starting from the manifesto Dogma Feijoada e mulheres negros ganharam a centralidade da tela,
(2001). The goal is to understand the audiovisual passando a ser protagonistas nos enredos dos filmes.
production process, as well as the aesthetic Contudo, ainda que fundamental para a transformação
transformations of works that mark this period. The nos modos em que negros e negras eram retratados
first step is to define what is black cinema. After, relate no cinema o foco ainda não era o combate às
these works with the socio-technical transformations, representações racistas que tradicionalmente
market and audiovisual policies in the country during marcavam a presença negra nos filmes. Naquele
these last 15 years. This process culminates with momento, o que interessava era construir uma agenda
the launching of the short films “Kbela” and “Cinzas” que retratasse a realidade brasileira, o povo brasileiro,
in 2015. For us, both films represent the complexity, sem entrar propriamente na discussão sobre o
potentiality and limits of black cinema in circulation racismo presente nas representações hegemônicas.
as well as the significant female participation in Era esse o propósito que levava à centralidade
contemporary productions. das telas a presença negra: trava-se do negro
“metaforizado na figura do povo” (Carvalho 2006, 24).
Keywords: black cinema, Brazil, Dogma Feijoada, Resulta então que a população negra ao aparecer no
Cinzas, Kbela. cinema permanecia, em última instância, marcada por
estereótipos que a mantinha atrelada a narrativas de
Cinema negro no Brasil, um breve histórico subalternidade. Ainda que inovadores, os filmes do
Cinema Novo não tratam a cultura negra no âmbito da
O cinema negro é um projeto em construção no diversidade de suas manifestações, mas em alegorias
Brasil. Tal projeto tem na busca por autonomia da que resumem tal diversidade à imagem de uma única
representação das culturas negras no campo das cultura homogênea, aos moldes das “marcas do
imagens sua principal missão, tendo para isto que plural” que nos fala o ensaísta tunisiano Albert Memmi
lidar com obstáculos em todas as esferas da produção (Memmi 1969, 69) e que são retomadas por Stam e
audiovisual. Historicamente esse projeto se estabelece Shohat (Shohat e Stam 2006, 269) em suas críticas
em relação direta com as lutas dos movimentos às produções de imagens no contexto eurocêntrico1.
negros. É assim nos Estados Unidos, quando pela Deste modo, na década de 1960 no Brasil, vemos
primeira vez realizadores negros passam a produzir as expressões da vida negra no cinema restritas, em
imagens de contra-representação dos negros no linhas gerais, aos contextos das religiões de matriz
cinema. E é assim também no caso brasileiro. africana, da escravidão, da favela, da bandidagem e do
Nesse sentido, a perspectiva adotada neste trabalho samba2, que por sua vez tendem a ser apresentados
concorda com os pesquisadores Noel Carvalho em uma perspectiva depreciativa.
(Carvalho 2006, 18) e Edileuza Souza (SOUZA 2013, A ruptura com este universo representacional
68) quando caracterizam o cinema negro como gênero acontece em meados dos anos 1970, quando atores
cinematográfico em sintonia com os principais temas negros passam a trabalhar na direção de filmes,
das lutas antirracistas no país. Assim, dentre os realizando aquelas que são consideradas obras
elementos dessa luta que se associam ao projeto de pioneiras obras do cinema negro no Brasil, tal como
cinema negro no Brasil, figuram no centro do debate aponta Noel Carvalho nos estudos que realiza sobre
os conflitos em torno da consolidação hegemônica da a presença negra no cinema brasileiro (Carvalho
identidade nacional brasileira empenhada em colocar 2005, 2006, 2012). Segundo o autor, é quando atores
o negro em posição de subalternidade e não como como Zózimo Bulbul e Waldir Onofre passam a dirigir
elemento fundamental na formação cultural do país. seus próprios filmes que se abre o caminho para a
No presente artigo, aponto alguns momentos desta quebra dos estereótipos que por décadas relegaram
trajetória do cinema negro no Brasil como ponto de os(as) negros (as) ao gueto das representações no
partida para reflexão acerca do protagonismo feminino cinema. O destaque aqui vai para “Alma no Olho” de
no cenário contemporâneo das produções audiovisuais 1974, primeiro filme de Bulbul que além de dirigir,
negras, tendo eleito para análise os curtas-metragens produziu, escreveu e atuou no curta-metragem. “Alma
“Kbela” de Yasmin Thayná e “Cinzas” de Larissa no Olho” foi feito de forma totalmente independente
Fulana de Tal (ambos lançados em 2015). a partir dos materiais que sobram de “Compasso de
Ao longo dos mais quarenta anos de sua espera” (1970), longa metragem dirigido por Antunes
existência, é possível ver o cinema negro oscilar Filho e do qual Bulbul estrela como protagonista, além
em diferentes momentos e direções. O marco inicial de ter colaborado também no roteiro. Vale ressaltar
para uma história do cinema negro no Brasil, situa- que “Compasso de Espera” (1970), “foi o primeiro, e

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talvez o único, filme cujos realizadores reivindicaram se verá adiante. Neste caminho ainda, sobressai o
a influência dos estudos sobre as relações raciais caráter crítico e inovador no modo de representação
no Brasil feitos por Florestan Fernandes e Roger do negro, que aliada à trilha sonora, completam um
Bastide nos anos 1950 e que apontaram para a conjunto de sensações referente a esta experiência
existência de preconceito racial” (Carvalho 2012, 10), negra na diáspora.
representando nesse sentido um marco no debate do Para compreender a recepção do filme pelo
racismo no cinema brasileiro. público, é preciso lembrar que no início da década
“Alma no Olho” em seus onze minutos de 1970 no Brasil vivia-se em meio a uma ditadura
duração, retrata a história do negro, iniciando no militar, mais especificamente no momento mais
continente africano até sua vida na diáspora, num severo no que diz respeito à suspensão de direitos
contexto marcado pela experiência da escravidão. de expressão e cidadania. Os filmes realizados no
Bulbul conta esta história través de pantomimas que período necessitavam de aprovação do órgão censor
interpreta sozinho, em um fundo branco, com ajuda da mídia, o Conselho Superior de Censura, criado
de pouquíssimos objetos de cena (algumas peças no âmbito da Lei Nacional de Segurança expressa
de roupas e adereços como óculos, livros, pente no Ato Institucional n°5 (AI-5). Bulbul, que já havia
e correntes). O roteiro é inspirado em “Soul on Ice” enfrentado os censores para obter a permissão de
(Alma no exílio), livro escrito por Eldrige Cleaver, um exibir “Compasso de Espera”, é chamado para dar
dos líderes do movimento estadunidense dos Panteras explicações sobre seu primeiro filme que já havia
Negras, durante o tempo que passou na prisão em sido certificado. Os censores não acreditaram que
1965. Lançado em 1968, o livro de Cleaver se tornou ele seja o autor da película e demandaram que ele
um referência para a militância negra brasileira no analisasse elementos que suspostamente poderiam
início dos anos 1970. Já a trilha sonora é composta conter mensagens subliminares contra o Estado.
pela faixa “Kulu Sé Mama” do saxofonista de jazz Esta situação se alongou por dias e, ao final, Bulbul
John Coltrane em parceria com o percussionista desencantado com a vida no país, decide exilar-se no
Juno Lewis, presente em disco homônimo de 1965. O exterior levando consigo os rolos do filme. O cineasta
filme que, aliás, é dedicado a Coltrane, transcorre ao tem o exílio negado em Nova York, o que o leva então
ininterrupto de “Kulu Sé Mama”. Faixa que além das a viver na Europa. Em 1977, volta ao país e, no ano
improvisações jazzísticas, tem também influências seguinte, “Alma no Olho” é premiado na VI Jornada de
musicais da África do Oeste, expressas tanto nos Cinema da Bahia (Carvalho 2012, 15), iniciando assim
vocais de Lewis como em instrumentos africanos, sua carreira de gradual reconhecimento nacional.
reiterando a conexão afro-diaspórica do roteiro. Ainda que desconhecido por parte do grande público, o
Este primeiro filme de Bulbul influenciou e filme hoje é, como disse, uma das referências centrais
influencia gerações de realizadores(as) negros(as). para a juventude negra que se aventura a fazer
Dentre os muitos aspectos do filme que poderiam ser cinema no país. Sendo mesmo possível identificar as
destacados aqui, neste sentido, indico alguns que citações em algumas obras contemporâneas, como no
dizem respeito ao contexto de produção do filme, a filme “Kbela” (2015) de Yasmin Thayná.
aspectos da própria narrativa e também acerca da Por fim, o propósito dessa breve indicação a respeito
recepção da obra pelo público. O contexto de produção da influência de Bulbul com “Alma no Olho pretende
do filme foi mencionado acima quando destaco o mostrar que seu trabalho transcende o pioneirismo
caráter totalmente independente da realização. A este histórico e avança em questões estéticas e narrativas.
respeito Bulbul contou em entrevista que “Alma no No campo da militância política pela cinema negro,
Olho” foi um filme especial para ele, “uma experiência Bulbul é também uma das figuras centrais, visto que
muito forte” e complementou: será responsável por uma revitalização do cinema
negro no país no final da década de 2000, quando aos
Eu mesmo sentei, escrevi e bolei a historinha do 70 anos, toma a inciativa de criar o Centro Afrocarioca
filme. Tentei procurar um ator para fazer o filme. Aí de Cinema e promover os Encontros de Cinema
olhei e, não sei, ninguém me inspirou confiança. Negro3, trabalhando diretamente na construção de
Entendeu? As pessoas pra quem eu mostrei
elos contemporâneos entre a diáspora e o continente
achavam uma coisa maluca, era todo em mímica.
africano. Esse episódio na história do cinema negro
Resolvi um dia eu mesmo ir para a frente da câmera
com o José Ventura, que era o diretor de fotografia. E será tratado logo adiante no texto.
o Alma no olho eu fiz assim. (...) Paguei o laboratório, No sucinto panorama acerca dos primeiros tempos
paguei o Ventura. Eu mesmo montei, sonorizei, mixei do cinema do Brasil ora apresentado, me abstive
e botei o letreiro. (Bulbul apud Carvalho 2012) propositadamente do detalhamento do processo
histórico do cinema negro nas quase três décadas
Ao que tange aos aspectos da narrativa do filme, entre o lançamento de “Alma no Olho” e o manifesto
Carvalho (2012) aponta que além da influência de da Dogma Feijoada por compreender que esta história foi
obra de Cleaver, Bulbul também teria sido influenciado contemplada de forma para além de satisfatória nos
por outros referenciais da cultura negra na diáspora trabalhos de Carvalho (2005, 2006 e 2012) e Souza
africana, como por exemplo pelo trabalho de Frantz (2013) citados anteriormente. Abro uma exceção
Fanon. Essa articulação com referências negras é neste salto temporal, contudo, para tratar de um tema
um dos fatores presentes no diálogo contemporâneo que quase não é explorado no âmbito dos trabalhos
que o filme estabelece com as novas gerações, como acadêmicos produzidos sobre o cinema negro no

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Capítulo II – Cinema – Cinema

Brasil, a saber, a participação feminina. Esta, quando As histórias de realização e lançamento do filme
analisada, se restringe de modo geral à atuação diante são marcadas por fatos que apontam os problemas
das câmeras. Souza chama atenção para este fato, enfrentados no início dos anos 1980 pelo cinema
quando ao final do capítulo dedicado à consolidação brasileiro. Em uma entrevista pulicada em fevereiro
do conceito de cinema negro presente na tese de de 2016 em um portal de internet de Aracaju, cidade
doutorado, lista algumas realizadoras negras e afirma estado de Sergipe, Sampaio que estava na cidade
a necessidade de fazer do cinema negro do feminino para uma exibição do filme seguida de debate, conta
um objeto de pesquisa (Souza 2013, 84). Essa lacuna que a empreitada para fazer o filme foi coletiva.
serviu de estímulo para a pesquisa que iniciei sobre a Isto porque em virtude do tema, o amor entre duas
produção audiovisual de mulheres africanas em 2012, mulheres numa trama que incluía um trágico suicídio
quando fui convidada para participar da II Jornada de uma delas e um julgamento cruel enfrentado pela
Cinematográfica de Mulheres de Imagem, organizada outra personagem suspeita de ser responsável da
pelo Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de morte da companheira, a cineasta estava ciente que
Ouagadougou, em Burkina Faso, fazendo com que não conseguiria financiamento da Embrafilme5. Diante
buscasse também desenvolvimentos na diáspora, disso, procurou atores, atrizes e técnicos de cinema
mais especificamente, na diáspora brasileira. De tal para conseguir fazer as filmagens. “Todo mundo era
modo que as formulações neste artigo constituem os dono do filme (...) Se você for assistir, você sentirá essa
primeiros passos nesse caminho. É também o motivo energia de pessoas querendo dar certo”, afirmou. Para
pelo qual dedico aqui algumas linhas para falar do fazer o filme circular foi outro dilema, pois, segundo
trabalho de Adélia Sampaio, realizadora mineira- Sampaio, os donos das salas de cinema afirmavam
carioca, que ocupa posição de cineasta pioneira no que haveria tumulto em virtude da temática do relação
cinema negro do país. amorosa entre duas mulheres. Como solução, um
distribuidor então lhe sugeriu que lançasse “Amor
Adélia Sampaio e o pioneirismo do cinema maldito” como um filme pornográfico. “A gente traveste
negro no feminino seu filme de filme pornô (sic) [...] e vai dar certo”, disse
Diferentemente de Zózimo Bulbul, que ao menos o distribuidor segundo Sampaio. Ela então reuniu a
dentre as novas gerações de cineastas negros do equipe e perguntou se todos aceitavam a proposta.
país constitui um verdadeiro ícone, Adélia Sampaio Diante de afirmativa, transcorreu o lançamento do
permanece desconhecida de grande parte do filme que circulou o país inteiro, cobrindo todo o
público. Seu pioneirismo não está somente no fato investimento feito.6
de ser a primeira mulher negra a fazer um filme de Em março de 2016, Adélia Sampaio concedeu uma
longa metragem, mas também no fato de, entre entrevista a Juliana Gonçalves e Renata Martins (que
as mulheres diretoras no Brasil, figurar entre as também é cineasta), e detalhou um pouco mais sua
pioneiras. Sua carreira também começa nos final dos trajetória. A realizadora, que está agora com 72 anos,
anos 1960, atuando em vários setores, de produtora ao falar das dificuldades enfrentadas diz: “Cinema é,
(foi produtora de direção de 72 filmes) a continuísta, sem dúvida, uma arte elitista, aí chega uma preta,
junto à geração do Cinema Novo. É no final dos anos filha de empregada doméstica e diz que vai chegar à
1970 e início da década de1980 que passa a dirigir, direção, claro que foi difícil! Até porque me dividia entre
seus primeiros filmes foram de curtas-metragens.4. fazer cinema e criar meus dois filhos.” (Gonçalves
Em 1984, Sampaio lança “Amor maldito”, seu primeiro e Martins 2016). E quando perguntada acerca da
longa-metragem de ficção, inaugurando assim a dificuldade de saber sobre sua produção e acessar
produção de mulheres negras no setor. O filme, feito seus filmes, ela associa ao fato de ser mulher negra
antes mesmo da época do cinema de retomada, e pobre, o descaso com suas produções, citando
segundo a diretora, “foi feito na marra”. O roteiro, que como exemplo o sumiço sem maiores explicações
não trata da questão racial, inova ao trazer para as ou justificativas dos negativos de seus filmes que
telas uma relação amorosa entre duas mulheres em estavam no acervo do Museu de Arte Moderna (MAM)
uma perspectiva feminina. A este respeito, o crítico de da cidade do Rio de Janeiro. A narrativa de Sampaio
cinema Pedro Pepa Silva comenta: sobre este ponto, nos coloca diante de um desafio
ainda por enfrentar: desenvolver os meios para a
Creio que Amor maldito, com todos os seus preservação da memória audiovisual negra. Vencer
problemas e limitações, merece ser reconhecido os obstáculos à preservação da memória do cinema
como um marco dentro do imaginário lésbico negro no Brasil é parte fundamental do processo de
gestado pela produção audiovisual brasileira. Ainda
pôr fim à invisibilidade destas obras.
que não aprofunde, por exemplo, a reflexão sobre
a lesbofobia que sustenta seu conflito, o filme de
Adélia Sampaio tem a seu favor o fato de ser um Dogma Feijoada, Manifesto de Recife e os
olhar feminino sobre uma relação homossexual Encontros de Cinema Negro: a consolidação
entre duas mulheres. E, claro, a vantagem de não do cinema negro nos anos 2000
sucumbir ao artifício tão comum no cinema brasileiro A partir dos 1990, surgem iniciativas que culminaram
de usar a relação lésbica como chamariz e objeto do no retorno ao debate acerca do cinema negro no
desejo masculino. (Silva 2014) cenário nacional. Refiro-me aqui a fatores como o
barateamento na produção e distribuição audiovisual
com a popularização dos meios digitais e também o

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aumento na quantidade de festivais e mostras que têm O Manifesto foi assinado por Antônio Pitanga (ator),
temática ou algum tipo de recorte racial. Tal contexto, Antônio Pompeo (ator), Joel Zito Araújo (cineasta), Luiz
colaborou para que jovens realizadores negros Antônio Pillar (cineasta), Maria Ceiça (atriz), Maurício
trouxessem para o campo cinematográfico novas Gonçalves (ator), Milton Gonçalves(ator), Norton
formas de debate da questão racial não só no cinema Nascimento(ator), Ruth de Souza (atriz), Thalma de
mas na mídia de um modo geral. Dois movimentos Freitas (atriz) e Zózimo Bubul (cineasta). No mesmo
marcam este período, primeiro quando do lançamento festival foi apresentado o filme “A negação do Brasil”
do manifesto Dogma Feijoada7 na cidade São Paulo (2000), dirigido por Joel Zito Araújo, documentário
em 2000, e, no ano seguinte, o Manifesto de Recife. que analisa o tratamento estereotipado dado aos
Jéferson De, cineasta que formulou preceitos personagens negros no audiovisual. Para Carvalho,
presentes no manifesto do Dogma, disse que todo o “filme em si é um manifesto audiovisual sobre
processo surgiu a partir de uma pesquisa que a necessidade de se construírem representações
realizava ainda quando era estudante de graduação democráticas do Brasil”. (Carvalho 2005, 99). Dez
na Universidade de São Paulo que buscava refletir anos depois, em um balanço acerca destes dois
sobre como os negros se relacionavam com o movimentos inaugurais do cinema negro nos anos
cinema brasileiro. Ele afirma que constatou então que 2000, o mesmo autor comenta:
historicamente não davam conta de uma representação
positiva do negro. Motivado por essa constatação, ele Nos dois casos, a agenda de reivindicações expõe
escreveu os sete preceitos pra o cinema negro que a presença de novos atores sociais colocando
compõem o Dogma Feijoada. São eles: demandas de auto-representação e interessados
em incluir-se no mercado de produção de bens
1) O filme tem que ser dirigido por um realizador simbólicos. Posições como essas remontam
negro; 2) O protagonista deve ser negro; 3)A aos anos 1940, quando da criação do Teatro
temática do filme tem que estar relacionada com Experimental Brasileiro (TEN), em que questões de
a cultura negra brasileira; 4) O filme tem que ter representação e inserção do negro na vida nacional
um cronograma exequível. Filmes-urgentes; 5) estavam postas. O movimento dos cineastas negros
Personagens estereotipados negros (ou não) estão está integrado à história dos negros no Brasil
proibidos; 6) O roteiro deverá privilegiar o negro nas suas investidas contra o preconceito racial.
comum (assim mesmo em negrito) brasileiro; 7) (Carvalho 2006, 28).
Super-heróis ou bandidos deverão ser evitados.
(Carvalho 2005, 96) Desde modo, comparando os dois movimentos,
é possível afirmar que, diferentemente do Dogma
De, ao olhar retrospectivamente para os preceitos, Feijoada, se tratava mesmo de um manifesto, um
comente que talvez o primeiro seja o mais central para chamado de atenção às demandas para transformação
a existência do cinema negro. Além do cineasta, no nos modos de representar o negro no cinema. Já o
grupo que responde pelo Dogma Feijoada estavam Manifesto de Recife pode ser considerado o primeiro
Noel Carvalho, Ari Candido, Rogério Moura, Lílian movimento que almeja, na história do cinema
Santiago, Daniel Santiago e Billy Castilho, todos negro, a elaboração de políticas públicas de ação
em sintonia com este movimento desde antes do afirmativas para o audiovisual. Em comum, além das
lançamento do manifesto, durante encontros ocorridos demandas, ambos se desdobraram na produção de
em mostras de curtas-metragens ocorridas na cidade reflexões sobre o negro no audiovisual brasileiro pelos
de São Paulo entre 1998 e 99. O Dogma Feijoada é próprios cineastas, como podemos ver nos trabalho
compreendido aqui, portanto, como um momento de Jéferson De (2005) e Joel Zito Araújo (2001). É
importante na história contemporânea do cinema negro, preciso destacar, contudo, que em ambos os casos,
pois representa historicamente a primeira vez que há a participação feminina é proporcionalmente bem
uma formulação acerca dos pré-requisitos necessários pequena, contando apenas no a realizadora Lílian
para a existência de um cinema negro no país. Solar Santiago, no caso do Dogma Feijoada, e com
Já o Manifesto de Recife resulta do encontro de as atrizes Maria Ceiça, Ruth de Souza e Thalma de
atores, atrizes e realizadores negros durante e 5a Freitas, no caso do Manifesto de Recife.
edição do Festival de Recife em 2001. Os pontos do Nos anos subsequentes, não houve grandes
Manifesto são: desdobramentos em termos de debates ou políticas
públicas para o cinema negro. Os ventos favoráveis
1) O fim da segregação a que são submetidos em prol da consolidação do cinema negro no país
os atores, atrizes, apresentadores e jornalistas voltariam então a acontecer mais para o fim desta
negros nas produtoras, agências de publicidade e década. O estopim foi, mais uma vez, a atuação de
emissoras de televisão; 2) A criação de um fundo
Zózimo Bulbul, dessa vez como promotor de um
para o incentivo de uma produção audiovisual
Encontro de Cinema que funcionou como catalisador
multirracial no Brasil; 3) A ampliação do mercado de
trabalho para atrizes, atores, técnicos, produtores, e ponto de reunião para jovens cineastas, público e
diretores e roteiristas afros-descendentes. 4) A pesquisadores (as) das cinematografias negras.
criação de uma nova estética para o Brasil que Setenta anos. Era esta a idade de Jorge da Silva,
valorizasse a diversidade e a pluralidade étnica, mais conhecido como Zózimo Bulbul, quando ocorreu
regional e religiosa da população brasileira. aquela que pode ser considerada a grande empreitada
(Carvalho 2005, 98) de sua vida: a criação de um polo de cinema negro no

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Capítulo II – Cinema – Cinema

coração da cidade do Rio de Janeiro. Assim, em 2007, se numa experiência bem sucedida de difusão e troca
Zózimo deu início às atividades do Centro Afro Carioca de informações e venda de uma produção dispersa.
de Cinema, um quilombo de cinema, como ele mesmo Ele ocorre bienalmente na cidade de Ouagadougou
afirmava, situado no bairro da Lapa, lugar histórico (antigo Alto Volta), localizada ao sul do deserto do
e central da cidade do Rio. Falecido em janeiro de Saara, local que dá lugar à terra fértil da savana,
2013, Bulbul é uma figura central quando se fala da capital do pais africano de Burkina Faso, que em
luta pelo fim da invisibilidade do negro nas produções morée, língua falada pela maior parte da população,
audiovisuais no Brasil. A atuação como idealizador quer dizer “país dos homens íntegros” e Ouagadougou
dos Encontros de Cinema Negro Brasil, África e significa “respeito à sabedoria dos homens velhos”.
Caribe, construiu seu maior legado no combate ao O FESPACO reúne os principais realizadores(as) da
racismo brasileiro. Já na primeira edição do Encontro África, numa apresentação ampla e diversificada de
estavam claros os objetivos do realizador ao promover todas as matrizes de suas culturas ancestrais e atuais,
o evento, como se pode ler no material impresso então com o objetivo difundir os saberes de seus povos.
distribuído para divulgação: Na edição de 2009, Bulbul retornou ao Festival, mas
desta vez como curador de uma mostra de filmes afro-
O Encontro de Cinema pretende divulgar e brasileiros. O fato é que todos estes acontecimentos
desmistificar a importância da influência da cultura e iniciativas são desconhecidos do público brasileiro
africana na formação da identidade do povo em geral. A exceção de membros do movimento
brasileiro, rompendo uma lacuna existente, até hoje,
negro, estudiosos e cinéfilos, poucos sabem que
sobre a história e a sabedoria dos povos africanos
também o cinema é lugar, privilegiado diríamos, de
através da sua cinematografia tradicional e moderna,
mundialmente conhecida e praticamente inexistente manifestação da cultura africana e afro-brasileira. De
aqui entre nós. fato, os Encontros representam um marco na história
O Encontro terá a função de aproximar os cineastas do Cinema Negro no Brasil, pois não só possibilitam
afrodescendentes brasileiros com os cineastas retomar uma discussão sobre a consolidação do
africanos por meio de suas obras, num foro de campo das cinematografias negras no mundo, como
reflexões, debates e discussões, na tentativa de também significam um posicionamento político a
abrir novos caminhos para a produção artística entre respeito destas produções. Pois na perspectiva
os dois povos, onde suas histórias sejam mostradas de Bulbul não havia dúvida: para ter filme exibido
e divulgadas por aqueles que as realizam hoje, em seus Encontros, o/a realizador/a tinha de ser
sujeitos de suas próprias trajetórias.
negro/a. Cinema Negro, tal como ele concebia,
O Encontro tem a função de formar uma plateia
era o fruto de subjetividades negras projetadas na
que possa identificar e se espelhar com ela mesma
através da realidade do seu povo de origem. O I tela. Este posicionamento rendeu a Bulbul adjetivos
Encontro de Cinema Negro será realizado para como “polêmico” e “controverso” o que, muitas
fortalecer a nossa autoestima como afro-brasileiro, vezes, ofuscava seu feito mais relevante: promover
que desconhecemos quem somos, por falta de encontros. Encontros entre cineastas negros, do
comunicação com o nosso continente de origem. Brasil e da diáspora, e cineastas africanos. E, talvez
o mais importante, encontros do público brasileiro com
E foi através da comunicação com o “continente os filmes, com o cinema negro, e também com seus
de origem” que Bulbul encontrou a inspiração para a realizadores. Neste sentido, concordo com Carvalho
realização dos Encontros de Cinema Negro. Foi ao quando ele dá a Bulbul o título de inventor do cinema
participar da FESPACO, o Festival Pan-africano de negro brasileiro (Carvalho 2012).
Cinema e Televisão, que o cineasta decidiu dar inicio Como dito, as iniciativas de Bulbul serviram de
a empreitada por aqui. Como conta Bulbul ainda no inspiração e modelo tanto no que diz respeito à
material de divulgação com a programação do I Encontro: geração de produções audiovisuais negras, mas
também no dimensão acadêmica de pesquisa. Foi
Fui convidado a participar deste Festival no ano de neste sentido, por exemplo, que em 2009 iniciei um
1997, na sua 15ª edição, foi um tremendo susto ao projeto de pesquisa intitulado “Cinegritude: reflexões
me deparar com a organização do Festival naquela sobre a invisibilidade das produções cinematográficas
cidade africana, de origem mulçumana e socialista
afro-brasileiras e africanas na contemporaneidade”.
originalidade, uma verdadeira Cannes Africana.
A pesquisa tinha como ponto de partida para a
Havia projeção de filmes em todos os lugares, praças
e avenidas, campos de futebol, estádios e nas salas investigação as iniciativas de Zózimo Bulbul, não
de exibições fechadas e abertas, sempre voltadas como cineasta, mas criador dos Encontros de Cinema
a sua população. O que descobri é que o africano Negro, que ocorrem na cidade do Rio de Janeiro. A
que preserva a sua cultura oral, ama o cinema por partir de 2013, ocorreu a ampliação do universo de
ser um ato social, ao contrario do livro que é por si, pesquisa, englobando também uma reflexão sobre
uma leitura individual. Essa paixão pelo cinema eu a receptividade das produções cinematográficas
só tinha encontrado em Cuba, também no Festival africanas no Brasil e o caminho contrário, a participação
de Cinema em 1989, e desta vez em Ouagadougou. da cinematografia afro-brasileira no continente
africano. Foi o que proporcionou o surgimento do
Criado em 1969 por um grupo de cineastas, o Fórum Itinerante de Cinema Negro, o FICINE.
FESPACO é o maior festival de cinema da África, O FICINE, portanto, constitui o desdobramento mais
tendo sido institucionalizado em 1972, transformando- recente do projeto de pesquisa Cinegritude e atua na

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construção de uma rede de conexões e reflexões sobre Lourena (Santos / Rio de Janeiro), Luciana Oliveira
a produção e circulação mundial audiovisual que tenha (Sergipe), Flora Egécia (Distrito Federal), Thamires
os/as negros/as como realizadores/as e as culturas e Santos (Bahia), entre outras. Essa nova geração
experiências negras como tema principal. Iniciado em compõe a base do movimento contemporâneo do
Novembro de 2013, o Fórum Itinerante de Cinema Negro cinema negro no país, que, me arrisco a dizer, é um
surgiu da constatação de que para ampliar o repertório cinema negro no feminino.
das representações audiovisuais no país para além das
grandes produções que são veiculadas hoje, de modo Cinzas: a história de Toni e de muitos
que estas incluam igualmente representações diversas personagens reais
e não estereotipadas das culturas africanas, afro-
brasileiras e de outras afrodiásporas, é preciso ir além Larissa Fulana de Tal, nasceu Larissa dos Santos
da produção e exibição de filmes. É preciso também Andrade, natural de Salvador na Bahia. Optou pelo
formar público (audiência) para essas produções, pseudônimo em referência aos inúmeros sujeitos
assim como conectar iniciativas, divulgar e incitar redes comuns existentes no mundo. É integrante do coletivo
de circulação/exibição. Parta tanto, o Fórum atua na Tela Preta, movimento de cinema negro centrado na
área de formação e capacitação de público, através produção de filmes dentro do recorte da temática
de oficinas, exposições fotográficas e multimídias, racial. Graduada em cinema e audiovisual pela
palestras, mostras de filme, debates (atividades Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB),
realizadas até o momento no Brasil, em Burkina Faso, estreou como diretora com o documentário Lápis de
Cabo Verde, Moçambique e Cuba), e curadorias para Cor, lançado em 2014, a partir de projeto de incentivo
festivais de cinema (no Brasil e na África) e cineclubes. de curtas-metragens universitários fomentado por um
Já com respeito à influência de Bulbul, ele canal de televisão.
permanece como uma referência fundamental para No ano de 2012, Fulana de Tal foi contemplada,
uma geração de realizadores e realizadoras negras junto com outros jovens realizadores negros, com a
que começam a produzir filmes a partir da década de primeira edição do edital Curta Afirmativo, lançado pelo
2010. É uma geração que, de um modo geral, se forma Ministério da Cultura do Brasil8 para a realização de
ainda no âmbito universitário ou dos cursos livres em seu segundo filme “Cinzas”. O Edital sofreu críticas
cinema e que reconhecem no realizador carioca uma e retaliações por parte de alguns grupos, chegando
referência fundamental para suas obras e ações. mesmo a ser temporariamente suspenso em virtude de
É este o caso, por exemplo, das realizadoras ação movida por um advogado do estado do Maranhão
Larissa Fulana de Tal e Yasmin Thayná, nascidas que afirmava que a iniciativa do Ministério da Cultura
em diferentes regiões do país, mas pertencentes à era na verdade uma atitude racista, geradora de
mesma geração, e que possuem aspectos comuns no desigualdades, e não promotora de inclusão. Tratava-
que diz respeito às suas produções quanto à recepção se do clássico, e ainda presente, argumento de
de seus trabalhos pelo público. Compreendo que os “racismo inverso” que muitas vezes ouvimos ecoar em
filmes, “Cinzas” e “Kbela”, sirvam como bons exemplos discussões que carecem de embasamento histórico
para o momento atual do cinema negro nacional, no sobre o processo da constituição da sociedade
qual, cada vez mais salta aos olhos a participação brasileira e do reconhecimento pelo Estado brasileiro
de mulheres negras, ainda restritas apenas na em 2001 da desigualdade vivida no país como fruto das
dimensão dos curtas-metragens. A ressalva sobre o condições históricas das escravidão9. Ao final de 2014,
limite dessa produção aos curtas-metragens merece enfim os recursos foram liberados e os filmes começam
ser feita, pois como destaca a pesquisa “‘A Cara do a ser entregues e concluídos. Dente eles está “Cinzas”.
Cinema Nacional’”: gênero e cor dos atores, diretores “Cinzas”, inspirado no conto de mesmo nome do
e roteiristas dos filmes brasileiros (2002-2012)”, escritor Davi Nunes, tem como protagonista Toni,
realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares um jovem negro na luta cotidiana pela sobrevivência.
da Ação Afirmativa (GEMAA), do IESP/UERJ, a Ele é um estudante universitário que trabalha como
participação das mulheres negras na direção de operador de telemarketing na cidade de Salvador.
longas metragens é inexistente. Entre o trabalho, a casa, as ausências de dinheiro e de
Assim, no âmbito das produções audiovisuais comunicabilidade com sua namorada, ouvimos seus
negras contemporâneas, um espaço quase que sofrimentos e revoltas narradas em sua voz em off.
exclusivamente composto por filmes de curta- Toni, assim como indica o pseudônimo escolhido pela
metragem, é possível afirmar que em destaque estão diretora, é mais um no mundo. Mais um que sofre as
as produções feitas por jovens realizadoras negras, opressões do mundo.
como Thayná e Fulana de Tal. Elegi o trabalho dessas Essa condição, assim como a narrativa em off,
duas cineastas, mas existem muitas outras cujas conecta o filme com uma das referências utilizadas
obras poderiam também ter servido para análise, pela diretora na construção da obra: o filme “La
nomes como Viviane Ferreira (Bahia/São Paulo) que noire de...” (1966) do diretor senegalês Ousmane
também tem seu trabalho inspirado diretamente por Sembène, considerado o pai do cinema africano. “La
Bulbul, Eliciana Nascimento (Bahia), Juliana Vicente noire de...” é o primeiro longa-metragem produzido
(São Paulo), Renata Martins (São Paulo), Joyce Prado no continente africano por um realizador africano e
(São Paulo), Everlane Moraes (Sergipe), Sabrina tem como personagem principal Diouana, uma jovem
Fidalgo (Rio de Janeiro), Vilma Neres (Bahia), Aline senegalesa que imigra para França para trabalhar

6
Capítulo II – Cinema – Cinema

como empregada. Os meses passam e Diouana vive da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu. Desde os
solitariamente uma experiência de quase escravidão 16 anos, ela atua na realização de curtas-metragens.
na residência de seus patrões em Côte d’Azur, no Além de colaborar regularmente com algumas páginas
litoral francês. Diouana praticamente não fala com os na internet, Thayná trabalha em uma pesquisa de
outros personagens, mas fala o tempo todo consigo políticas publicas para o audiovisual na Fundação
mesmo. Sua voz em off aponta para a subjetividade Getúlio Vargas (FGV), e participa de coletivos, como o
e complexidade dos africanos que estiveram Nuvem Negra formado por estudantes negros da PUC-
ausentes das telas durante os anos marcados pela Rio. Em meio a tantas atribuições e compromissos, a
representação dominante no cinema colonial. Para o jovem realizadora negra é criadora do filme de maior
crítico e pesquisador de cinema africano, o malinês impacto que uma obra de curta-metragem no país
Manthia Diawara, é essa característica que faz do filme teve nos últimos tempos.
uma ruptura de paradigma e um clássico sempre atual. Para que se tenha uma ideia, o filme foi lançado
Diz Diawara em depoimento ao filme documentário em setembro de 2015 no Cinema Odeon, uma das
Sembène! (2015), dirigido por Samba Gadjigo: salas de cinema mais tradicionais da cidade do Rio
de Janeiro e comporta 600 pessoas. As sessões
Se você olhar a maneira como os africanos eram transcorreram durante o fim de semana, com
representados nos filmes, ninguém prestava venda prévia de ingressos que se esgotaram com
atenção para a sua humanidade. Sembène veio antecedência. O sucesso do evento fez com que os
para o cinema e inventou uma nova linguagem para
responsáveis pelo cinema oferecessem à equipe do
representar o povo negro. Isso começa com A Negra
filme mais um fim de semana para projeção, que lotou
de. Você a vê da maneira como ela se vê. Essa
novidade em África nunca envelhece. Esse filme vai igualmente nos dois dias. Até o fim de março de 2016,
permanecer novo para sempre. (Gadjigo 2015) o filme já tinha alcançado mais de 30 exibições em
todo o país sem contar as mostras e festivais. No
Vemos aqui então, a dimensão do uso das fim de 2015, foi exibido fora do país pela primeira
referências negras nessa nova geração mencionadas vez, no Festival Internacional de Cinema da cidade
no início do texto. No filme, a referência de Fulana de Tal de Praia, em Cabo Verde, no âmbito da mostra
que elegemos apontar é a de Sembène. Mas, não raras “Por um cinema negro no feminino” de curadoria do
vezes, em suas entrevistas e intervenções públicas FICINE.10 Sem grandes exageros, é possível afirmar
em eventos e mostras de cinema, Fulana de Tal se que onde passa, “Kbela” é um sucesso de público,
refere a Bulbul e na famosa frase dita pelo realizador causando grande impacto sobretudo na juventude
que “O cinema é uma arma, nós negros temos uma negra sempre presente nas projeções. Tal sucesso
AR-15 e com certeza sabemos atirar”. E assim, ela se pode ser compreendido melhor se junto com as
posiciona. Na militância explícita pelo cinema negro qualidades do filme em termos cinematográficos,
no país, na luta pela construção de representações consideramos também a excelente estratégia de
complexas da população negra. Toni, neste sentido, comunicação, que, fazendo uso sobretudo das redes
se junta a Diouana no universo de personagens que sociais e da internet, foi direcionada com primor,
se opõem às representações hegemônicas e carentes atingindo em cheio ao público intencionado.
de subjetividade que encontramos nas produções Tal como “Cinzas”, o curta-metragem tem uma
audiovisuais eurocêntricas (Shohat e Stam 2006), origem literária, tendo sido inspirado num conto de
propondo novas formas de representar o povo negro. autoria da própria Yasmin Thayná, o “MC K_bela”.
Sobre a recepção do filme pelo público, destaco O texto, que foi publicado no livro em coletânea de
que ainda que tendo acontecido recentemente, a obra autores de periferia organizado pela Festa Literária
vem circulando em mostras e exibições pontuais, que Internacional das Periferias (FLUPP), ganhou uma
contam com boa presença de pessoas na plateia. Um adaptação para o teatro em forma de monólogo. Logo
dos fatores que colaboram com isto é o fato de “Cinzas”, na abertura vemos surgir o tema central abordado tanto
assim como veremos em “Kbela”, já ser criado com um no livro quanto no filme: a construção da identidade
projeto de comunicação e divulgação. Esse é um dos da mulher negra em meio ao racismo presente nas
fatores que levanto como hipótese que podem estar reações e relações com o cabelo crespo. Diz Thayná:
na origem da circulação bem sucedida dessas obras,
considerando o pouco tempo de seus lançamentos e No Ciep Nelson Rodrigues, colégio em que eu e
as repercussões junto ao público atingido. uma amiga realizamos uma atividade colaborativa
de audiovisual e cultura digital, em Comendador
Soares, meu cabelo é um ímã. Na chuva pesada
Kbela, um filme de celebração da mulher
do Rio ou no sol da Baixada Fluminense, que causa
negra calafrios na pele, assim que chego, sempre causo
risadas. Não é pela minha roupa nem por algo
Yasmin Thayná, diretora e roteirista do filme “Kbela” engraçado que esteja fazendo, é só surgir que o riso
(2015) nasceu em 1992, no município de Nova se manifesta espontaneamente. (Thayná 2013, 7)
Iguaçu, localizado na Baixada Fluminense do Estado
do Rio de Janeiro. Atualmente, é estudante do curso Segundo a diretora, a proposta inicial para o filme
de comunicação social na Pontifícia Universidade era fazer um monólogo tal como na peça teatral.
Católica. Sua formação em audiovisual começou nas Porém, ainda que assine o roteiro final, todo o processo
cercanias de onde morava, participando das atividades de construção do filme foi coletivo. Na realidade,

7
AVANCA | CINEMA 2016

como registrado nas diversas declarações sobre o que mesclam ritmos africanos e levadas de jazz,
processo de criação do curta-metragem, tudo resulta inspirados em Coltrane. Além da música os efeitos
do compartilhamento das experiências das mais de 20 sonoros constituem também um elemento definitivo
mulheres que compõem a equipe de 50 pessoas no do filme. Segundo Thayná, a trilha retrata o “projeto de
total. Esta dimensão coletiva está presente também no embranquecimento, os sons da chapinha, é um som
financiamento do filme que, diferentemente do filme de agressivo. Ouvindo os barulhos da rua - minha ideia
Fulana de Tal que contou com fomento público, “Kbela” inicial era botar gravador no meu corpo e andar na rua
foi viabilizado a partir de uma campanha na internet gravando os sons – são sons hostis. Daí a primeira
que arrecadou o valor de cinco mil reais, quantia que parte do filme ser muito barulhenta. Caminhos do corpo
foi destinada basicamente ao pagamento do set de negro é um caminho hostil andar na rua é hostil.” Todos
filmagem durante os dois dias de rodagem do filme. os elemento juntos fornecem ao público a experiência
Construído em um formato experimental, saber deste caminho de construção e afirmação das
que “Kbela narra a construção e a afirmação da identidades das mulheres negras acima mencionado.
identidade da personagem como mulher negra a partir Thayná, juntamente com membros da equipe do
da relação com seu cabelo crespo” (Bahia, 2015), filme, tem participado de vários eventos importantes
nos ajuda a compreender o tema tratado, mas nada na discussão do momento atual do audiovisual que
diz sobre a experiência audiovisual de assisti-lo. Nos aconteceram no Brasil nos últimos tempos, assim
seus 23 minutos de duração, o filme nos conduz de como Fulana de Tal. E, por algumas ocasiões, tive a
forma singular através deste processo de construção oportunidade de presenciar algumas dessa sessões,
indenitária que compreendo ter dois momentos: um por vezes dividindo com ela a mesa de debates. Vale
começo solitário e de muito sofrimento, no qual, presa a pena ressaltar, mesmo que a título de ilustração, que
aos padrões da sociedade que lhe nega o direito à estas jovens mulheres negras se posicionam firmemente
naturalidade e à beleza, a mulher negra faz de tudo nas querelas acerca da representatividade no setor
para atingir a falsa porta de entrada para a inclusão audiovisual brasileiro. Fazem-no com embasamento
nos parâmetros sociais, o alisamento dos cabelos histórico, cinematográfico e conhecimento de políticas
crespos. Nesta parte, a público testemunha dimensões públicas. Estamos presenciando o florescimento de
de autoflagelo e desespero pelos quais passam uma geração que tem fortes possibilidades de alterar,
as mulheres negras, cujo exemplo maior está no de um modo geral, o status atual das representações
momento em que ocorre aplicação de uma quantidade da população negra no audiovisual, e das mulheres
imensa de produtos diversos, de azeite e vinagre a negras de forma específica.
potes e mais potes de cremes, em uma cabeça que
se encontra separada do corpo. Essa solidão aparece Notas finais
também representada em outras sequências desse
início marcado pelo sofrimento, fruto da introjecção de 1
Retomando Memmi, Shohat e Stam afirmam que as
padrões hegemônicos. marcas do plural, “projetam os povos colonizados como ‘todos
iguais’, qualquer comportamento negativo de um membro da
A separação entre o momento inicial e o seguinte comunidade oprimida é imediatamente generalizado como
talvez seja uma das sequências mais belas do filme. típico, alfo que aponta para uma eterna essência negativa. As
Nela, onde há ruptura desses padrões, a personagem representações, portanto, se tornam alegóricas: no discurso
interpretado pela atriz portuguesa Isabel Zua, hegemônico todo papel subalterno é visto como uma sinédoque
literalmente empretece, se livrando da tinta branca que que resume uma comunidade vasta, mas homogênea. Por outro
lado, as representações dos grupos dominantes não são vistas
cobre seu corpo e, por que não dizer, sua alma. Daí
como alegóricas, mas como ‘naturalmente’ diversas, exemplos
em diante, chega a segunda parte do filme, no qual de uma variedade que não pode ser generalizada.” (Shohat
a dimensão coletiva que marca todo seu processo e Stam 2006, 269). Ainda com base no mesmo texto, lembro
de construção de identidade feminina negra ganha que “eurocêntrico” quando aplicado ao contexto das produções
o centro da cena. Na verdade, não é só o processo cinematográficas ocidentais passa a significar “hollywoodiano”.
de construção e afirmação da identidade da mulher
2
Disse “em linhas gerais” pois compreendo que as relações
de representação do negro no cinema novo podem ter
negra que vemos em “Kbela”, mas das mulheres desdobramentos mais complexos como no caso dos filmes de
negras, juntas, reunidas, coletivamente trabalhando Glauber Rocha. Para esta reflexão, ver os artigos de Thiago
para um processo de fortalecimento mútuo, na batalha Florêncio (Florêncio 2014) publicados no site do FICINE (Fórum
da superação das dificuldades da sociedade em que Itinerante de Cinema Negro).
vivemos. É nesse sentido que, a meu ver, “Kbela”
3
Após a sua morte em janeiro de 2013, os Encontros de
Cinema Negro passaram a se chamar Encontros de Cinema
é, acima de tudo, a celebração deste encontro de
Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe.
mulheres negras que juntas afirmam suas identidades. 4
Segundo as informações dadas pela própria cineasta a
“Kbela” é um filme de celebração. Gonçalves e Martins (2016), seus primeiros curtas-metragens
Por fim, no que diz respeito às influências e foram: “Denúncia Vazia” (1979), “Agora um Deus dança em
referências presentes no curta-metragem, destacamos mim!”(1981) “Adulto não brinca” (1979) e “Na poeira das ruas”
a citação de “Alma no Olho” (1974) de Bulbul. Thayná (1982).
5
A Embrafilme foi a empresa estatal brasileira que atuou na
contou durante uma fala após uma projeção de “Kbela” produção e distribuição de filmes entre 1696 e 1990, quando
no Rio de Janeiro que teve conhecimento do filme foi extinta pelo então presidente da República Fernando Collor
através de um dos membros da equipe. Feita num dia de Mello.
só por Isabel Zua, Mônica Avilla e Thomas Harres, a 6
“Entrevista: cineasta Adélia Sampaio fala sobre Amor
trilha sonora também é composta por improvisações Maldito” ao Portal Infonet. https://www.youtube.com/

8
Capítulo II – Cinema – Cinema

watch?v=BSlu-PRHPhs, Acedido em 20/03/2016. Nessa Gonçalves, Juliana e Renata Martins. “O racismo


entrevista, assim como na concedida a Juliana Gonçalves apaga, a gente reescreve: conheça a cineasta negra que
e Renata Martins, Adélia Sampaio, menciona que essa fez história no cinema nacional” Entrevista com Adélia
“descoberta” dela ter sido a primeira cineasta negra a fazer um Sampaio. Blogueiras Negras. http://blogueirasnegras.
longa metragem se deve a uma historiadora de Brasília, que org/2016/03/09/o-racismo-apaga-a-gente-reescreve-
acredito ser a pesquisadora Edileuza Penha de Souza que há
conheca-a-cineasta-negra-que-fez-historia-no-cinema-
alguns anos desenvolve na Universidade Federal de Brasília
um trabalho de extensão que discute cinema negro e gênero.
nacional/. Acedido em 10/03/2016.
7
A inspiração do manifesto vem do movimento Dogma Gilroy, P. O Atlântico negro – modernidade e dupla
95, criado em 1955 pelos diretores dinamarqueses Lars Von consciência. São Paulo: Ed. 34, 2001.
Trier e Thomas Vinterberg, que estabeleceu uma série de hooks, bell. 1992. Black Looks: Race and
dez regras técnicas (restrições quanto ao uso de tecnologias Representation. Boston: South and Press.
nas filmagens) e éticas (quanto ao conteúdo apresentado nos Kbela. 2015. De Yasmin Thayná. Brasil
filmes), a serem seguidas na realização dos filmes como forma La noire de... .1966. De Ousmane Sembène. Senegal.
de combater à massificação da indústria cinematográfica e Meleiro, Alessandra (org).2010.Cinema e Mercado:
retornar aos modos anteriores de fazer cinema. Indústria cinematográfica e audiovisual brasileira. Vol. III.
8
Em 2012, o Ministério da Cultura juntamente com a São Paulo: Escrituras Editora.
Secretaria do Audiovisual, lançou o Edital de Apoio para Curta- Memmi, Albert. 1969. Retrado del colonizado. Precedido
Metragem – Curta Afirmativo: Protagonismo da Juventude
del retrado del colononizador. Buenos Aires: Ediciones de
Negra na Produção Audiovisual. Edital voltado para o fomento
de obras audiovisuais de curta-metragem inéditas, produzidas
la Flor.
ou dirigidas por jovens negros de 18 a 29 anos e com duração Oliveira, Janaína. 2014. “Por um cinema africano no
entre 10 e 15 minutos. feminino (I): As jornadas cinematográficasda mulher
9
Em 2001, o Estado brasileiro reconheceu na Conferência africana (JCFA)”. FICINE,http://ficine.org/?p=498
Mundial contra o Racismo, ocorrida na cidade de Durban na _____. 2014. “Por um cinema africano no feminino (II):
África do Sul, o racismo presente na história do país como o FICINE na 3a edição das Journées cinématographiques
resultado da longevidade do processo de escravidão. de la femme africaine de l’image”. FICINEhttp://ficine.
10
Tanto “Kbela” quanto “Cinzas” integraram a mostra “Por org/?p=755
um cinema negro no feminino”, curadoria que fiz pelo FICINE Sembene! 2015. De Samba Gadjigo. Senegal/EUA.
para a 2a edição do Plateau - Festival Internacional da cidade Souza, Edileuza Penha de. 2013.Cinema na panela
de Praia, Ilha de Santigado, Cabo Verde. www.cineplateau.cv de barro: mulheres negras, narrativas de amor, afeto e
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