Você está na página 1de 93

© Copyright Tambara, Newton Freire, Elizabeth

I a edição: 1999 1500 exemplares

I

ATENÇÃO: evite fotocópias, em respeito aos direitos dos autores

Este livro pode ser encomendado:

Humanas Livraria Av. Cristóvão Colombo, 1634 - Porto Alegre Fone: (51) 222.5130 - Fax: 395.3739

1634 - Porto Alegre Fone: (51) 222.5130 - Fax: 395.3739 Editoração e diagramação: Norberto Coronel Garcia

Editoração e diagramação:

Norberto Coronel Garcia - Fone: (51) 983.9748

Newton Tambara

Elizabeth Freire

Participação Especial:

Jerold D. Bozarth

TERAPIA CENTRADA NO CLIENTE

Teoria e Prática

UM CAMINHO SEM VOLTA

Edições:

DELPHO S

Porto Alegre - 1999

AGRADECIMENTOS

A meu irmão Ricardo, por ter sempre acreditado em mim.

A minha filha Ana Cristina, a Fernando e Júlia, que iluminam minha vida com a sua presença.

Ao mestre e amigo Mauro Amatuzzi pelo incentivo, pelos questiona- mentos e por me orientar no caminho do pensamento científico.

Elizabeth Freire

A minha filha Marina Rolim Tambara e a Suzana Rolim Tambara com quem aprendi um caminho sem volta

Agradeço aos colegas João Carlos Karling, Lisandra Oliveira, Marlene

de Ávila, Verena Augustin Hoch, Angela Machado, Cátia Stumpf, Rose

Bertolin, Anísio Meinertz, Gilberto Kronbauer, Eva Lúcia da Silva, Tânia Reis, Jeferson Irazoqui, Sérgio Gobbi, Aldo Meneghetti, Silvia Wudarcki, Lúcio Schossler e a todos que compartilharam do sonho de um Instituto Humanista que hoje é realidade.

Newton Tambara

A Jerold D. Bozarth, pelo apoio e estímulo recebidos. Por sua colaboração especial que a muito nos honra.

A João Carlos Karling, pela cuidadosa e zelosa revisão dos originais.

A Marcos Vinícius Beccon pela tradução do artigo de Bozarth.

Os autores

SUMÁRIO

Apresentação 13 Prefácio 15 1. As origens e o desenvolvimento da terapia centrada-no-cliente 33 2.
Apresentação
13
Prefácio
15
1.
As origens e o desenvolvimento da terapia centrada-no-cliente
33
2.
0 nascimento da terapia centrada-no-cliente
35
3.
Uma relação essencialmente não-diretiva
38
4.
A aceitação como a essência do processo terapêutico
39
5.
O cliente não é um paciente
42
6.
O desenvolvimento pioneiro de pesquisas em psicoterapia
44
7.
A confiança na capacidade do cliente
46
8.
A tendência direcional formativa
53
9.
A atitude centrada-no-cliente
56
10.
As objeções ao diagnóstico psicológico
62
10.1. O psicodiagnóstico é desnecessário para o sucesso da
psicoterapia
63.
10.2. O psicodiagnóstico é prejudicial para o indivíduo
64
11.
A Teoria do Auto-conceito
66
12. A mudança terapêutica
75
13.
As atitudes facilitadoras da mudança terapêutica
80
13.2. Compreensão empática 82 16.4. 0 desvelamento 141 13.3. Congruência 86 16.5. Diferença entre atitudes
13.2. Compreensão empática
82
16.4. 0 desvelamento
141
13.3. Congruência
86
16.5. Diferença entre atitudes e técnicas terapêuticas
145
13.4. Condições mais que necessárias: suficientes
87
16.6. A estruturação da relação terapêutica
146
13.5. As pesquisas sobre as atitudes facilitadoras
88
17. O desenvolvimento do terapeuta
150
13.6.0
conceito de experienciação
90
17.1 . As dificuldades para centrar-se no cliente
153
14. A abordagem centrada-na-pessoa
92
17.2. As atitudes diretivas
156
14.1. Grupos de Encontro
93
17.3. As atitudes tutelares
162
14.2. O ensino centrado no aluno
95
17.4. A racionalização
165
14.3. Workshops de comunidade
96
17.5. 0 silêncio
166
14.4. Relação entre a terapia centrada-no-cliente e a abordagem
17.6. As perguntas do cliente
169
centrada-na-pessoa
99
17.7. Falsificando a experiência do cliente: "o contrabando"
172
14.5.Umjeitodese r
102
17.8. As etapas no desenvolvimento do terapeuta
173
14.6. 0 desenvolvimento de uma comunidade centrada-na-pessoa
103
14.7. Publicações atuais
105
15. Mitos, incompreensões e distorções
108
Além da Teoria.
123
"Você me tirou da lata do lixo"
125
16. A comunicação entre terapeuta e cliente
127
16.1.
A reiteração
128
16.2.0
reflexo de sentimentos
131

APRESENTAÇÃO

Ao longo de muitos anos de intensa prática clínica desenvolvida no Delphos - Instituto de Psicologia na área da terapia centrada no cliente, tanto no curso de formação de terapeutas, quanto no ensino de pós-graduação e no oferecimento de estágio supervisionado para estudantes de graduação de diversas universidades, temos investigado

e praticado a abordagem proposta por Carl Rogers em toda sua

originalidade. Desejosos de compartilhar o aprendizado que obtivemos,

a partir dessa experiência, com as pessoas que se interessam pela

abordagem humanista em psicologia, decidimos escrever este livro.

Na busca incessante de nosso aperfeiçoamento profissional, em nossas reuniões clínicas de supervisão e estudo, perguntávamo- nos: "Por que em alguns momentos o processo terapêutico flui muito bem e em outros não?" Buscando responder a esta pergunta, sentimos

a necessidade de escutar a gravação de nossos atendimentos para

tentarmos acessar um nível mais profundo de compreensão de nossa prática. Nossas reuniões clínicas se transformaram, assim, em um espaço privilegiado onde, num clima de aceitação e compreensão, e

a partir da escuta destas gravações, pudemos falar de nossos

sentimentos e de nossas dificuldades em relação à experiência de sermos terapeutas. No clima facilitador destas reuniões, fomos percebendo que as dificuldades que surgiam no processo terapêutico de nossos clientes, se originavam de nossas dificuldades em vivenciar plenamente as atitudes facilitadoras da terapia centrada no cliente. Escutando nossos atendimentos e escutando-nos uns aos outros, percebemos que se não estamos abertos à experiência, os nossos medos e as nossas defesas impedem que o processo terapêutico do cliente flua em direção à mudança significativa. Compreendemos, assim, que se a nossa prática clínica não puder ajudar a nós, terapeutas, então não seremos capazes de ajudar os nossos clientes.

Dessa forma, concluímos que a nossa impossibilidade em ajudar alguns clientes não se deve às limitações da abordagem que utilizamos, mas às nossas limitações em vivenciar esta abordagem plenamente. Se não conseguimos ser facilitadores com determinado

cliente, não será acrescentando à nossa prática outros referenciais (como gestalt-terapia, psicanálise, focusing, terapia sistémica e etc.) com suas "técnicas", que conseguiremos. Enquanto não trabalharmos as nossas dificuldades pessoais, nenhuma "técnica" nos tornará capazes de ajudar este cliente.

Para sermos terapeutas centrados no cliente precisamos de uma certeza interna que não pode ser obtida apenas através de treinamento ou de aquisição de informações teóricas. A vivência das atitudes facilitadoras exige de nós uma confiança inabalável nas forças de crescimento do cliente e na sua capacidade de crescer com autonomia. Esta confiança não pode ser apenas uma "hipótese", não pode ser apenas um conceito ou uma "teoria", ela precisa ser uma certeza se quisermos ser terapeutas centrados no cliente. Mas esta certeza interna, como todo verdadeiro conhecimento, é intransferível: só poderemos obtê-la através de uma expansão de nossa consciência.

Na Antiga Grécia, o oráculo de Delphos trazia nas paredes do vestíbulo que dava acesso ao templo as famosas palavras:

"Conhece-te a ti mesmo". Para entrar no templo, era necessário conhecer a si mesmo. Assim também o nosso "Ser" é um templo sagrado. Diz Rollo May' :

"As indicações do oráculo, como as dos sonhos, não deviam

ser recebidas passivamente; os beneficiários tinham de viver

a mensagem

Delphos forçava os suplicantes a rever a situação, reconsiderar

os planos feitos e estruturar novas possibilidades"

o efeito da ambiguidade das profecias de

Todos nós, sejamos terapeutas ou clientes, estamos, de certa

forma, diante deste oráculo. Entretanto, a chave para abri-lo está

Quando entramos

no templo, iniciamos uma jornada da qual só sabemos o início. Para

onde vamos, aonde vai dar esse processo, ninguém sabe

este é um caminho sem volta. Diz uma canção nativista do Rio Grande do Sul que "quando a gente abre as asas, nunca mais, nunca mais Podemos nunca mais abrir as asas novamente, mas jamais poderemos negar que abrimos uma vez

No entanto,

dentro de cada um, ninguém poderá abri-lo por nós

1 May, 1992.

PREFÁCIO

Paradigma revolucionário em psicologia

Henrique Justo*

Meus primeiros contatos com a teoria rogeriana remontam aos idos de 1950. Discretamente, gradativamente, fui substituindo partes

do meu edifício psicanalítico com 'material' humanista

confesso, desconhecia então o embasamento epistemológico, a filosofia que lhes nutria as entranhas. Meu prediozinho modesto, daquela, época misturava dois estilos inteiramente diferentes. Pouco a pouco, foi recebendo uniformidade de traços e estrutura.

Certo dia, estudante de psicologia (pós-graduação, pois graduação nesta área não havia ainda), senhora de seus quarenta anos, me disse: "O senhor é o único professor com linguagem diferente." Pensei comigo: "Só linguagem? E toda a visão diversa de pessoa por detrás dessa fachada!?"

Não tinha eu segurança nem coragem suficiente para me declarar abertamente humanista-rogeriano. Imagine, leitor, em Porto Alegre, Vaticano da psicanálise no Brasil, psicanálise chegada a nós via Buenos Aires.

De ambos,

Após um ano de curso em Paris (1966-67), com ex-estagiários franceses junto a Rogers e equipe, de volta, iniciei a expor a teoria desse grande psicólogo. A apostila de 1968, transformou-se em livro em 1973, o primeiro a ser publicado entre nós sobre essa teoria. A 6 a edição encontra-se no prelo, melhorada.'

O contraste entre a psicanálise aprendida - pessimista, patoligizante, determinista, 'regressiva' 2 — e a visão rogeriana - otimista, aberta, 'progressiva', apostando na liberdade da pessoa - é de imediata evidência.

* Dr. em psicologia e educação

1. "Carl Rogers: Teoria da Personalidade - Centrada no Aluno". A 5 a edição levou o título: "Cresça e Faça Crescer: Lições de um dos maiores psicólogos; C. Rogers". - A 6 a pretende dar maior destaque ao nome CARL ROGERS.

2. Cf

Assoun, 1983; Fromm, 1980; Allers, 1979

Livros de um revolucionário tranquilo

Rogers apresentou mais sistematicamente sua teoria, apoiada em cuidadosa observação e comprovação experimental, em duas publicações: no ano de 1959, na obra de Koch (Psychology: a study of science, 3 o vol.) e, nos inícios dos anos sessenta, retomou-lhe o conteúdo na conhecida obra de Rogers/Kinget, "Psicoterapia e Relações Humanas ". 3

No decénio de quarenta, incubou Rogers um de seus livros fundamentais (havia publicado outros anteriormente): "Terapia Centrada no Cliente " (editado em 1951). Exatamente dez anos após, lançou o best-seller "Tornar-se Pessoa" (1961), título significativo anunciando a matéria do volume.

Com sua equipe pesquisou os meandros penumbrosos da mente de pessoas diagnosticadas como esquizofrênicas. Resultado: volume de 600 páginas relatando os resultados do imenso trabalho. Tema:

"A Relação Terapêutica e seu Impacto: estudo psicoterapêutico de esquizofrênicos" (1967).

Dois anos após, com Dymond, publica as 400 páginas de "Psicoterapia e Mudança de Personalidade"(1969a), contendo uma série de investigações da equipe coordenada por ele. Embora cônscio das limitações, declara-se "ufano por se tratar do primeiro cuidadoso estudo objetivo dos resultados psicoterápicos com adequado controle" e de "ser das mui poucas tentativas para testar, em grande escala, conjunto coerente de hipóteses de consistente teoria da personalidade (P. 6).

Professor universitário que foi durante muito tempo, transpôs as atitudes básicas da terapia à aprendizagem centrada no estudante. "Liberdade de Aprender" (1969b) é o fruto dessa experiência.

Saindo das quatro paredes protegidas do gabinete de atendimento individual, aventurou-se a atuação em campo aberto, ao atendimento de grupos. Inicialmente pequenos, chegaram, após, a mais de 200 pessoas, como em Arcozelo, RJ (1977). Condensou sua experiência no livro "Grupos de Encontro" (1970).

3. Ainda na década de sessenta, já de posse da 3* ed. desta obra, "revista e corrigida", cedi a 1* a um amigo. "Trata-se de trabalho novo, lemos no Prefácio, e não de tradução de obra inicialmente escrita para o leitor americano" (Nuttin). - Do apanhado sistemático de 1959, cito a edição em castelhano (Ver Bibliografia).

Quanto à família, expôs seu pensamento em outro best-seller:

"Tornar-se Cônjuges: o Matrimonio e suas Alternativas". 4

Atento ao mundo atual e suas necessidades, enveredou briosa- mente por outras áreas no livro "Sobre o Poder Pessoal: dinamismo interno e seu impacto revolucionário" (1977), cujos originais tive a honra de manusear no curso intensivo de verão do ano anterior em La Jolla e, quando, três psicólogos brasileiros (Eduardo Bandeira à frente) conseguimos articular a primeira e fecunda vinda de Rogers e membros da equipe ao Brasil. Nessa obra — talvez a melhor para um primeiro contato com o pensamento 'incendiário' de Rogers,— refere- se ele às potencialidades da pessoa, em grande porcentagem inaproveitadas. Despertadas e medrando provocarão 'revoluções', isto é, mudanças na vida pessoa, familiar e social mais ampla.

O incansável 'revolucionário tranquilo, discreto' (como foi chamado), 'militar de paz armada, diria Agrippino Grieco' já entrado

em anos e com invejável fecunda experiência, enfrentou outro desafio:

a

reconciliação, com êxito, de grupos antagónicos, conflitivos: negros

e

brancos nos Estados Unidos e na África do Sul; católicos e brancos

na Irlanda; comunistas e não-comunistas em Varsóvia; políticos da América Central em memorável workshop na Áustria. Sua 'escola' (termo aborrecido por esse líder) e ele mesmo ousou entrar na União Soviética, percorrendo várias cidades, pronunciando palestras, fazendo demonstração de terapia individual e de 'grupos de encontro'. Peretti (1977) refere-se a essa 'cruzada' de um democrática em nação ditatorial com o subtítulo 'Recepção entusiasta na União Soviética'. Que não constituiu passeio folclórico e fogo fátuo testemunha-o recente artigo de Bondarenko (1999), então jovem psicólogo russo, testigo ocular e auditivo da revoada triunfal do grupo de La Jolla em seu país. 5

Em 1980 , aos 78 anos, surpreendeu o mundo da ciência com o livro "Um Jeito de Ser". Advoga um jeito, um jeito desabrochado, humanizante de ser. Neste livro e em outros mostrou ser isso possível. Um certo jeito ou modo de ser de alguém desperta a possibilidade de novas formas de ser em outros.

4. No Brasil, foi o livro editado com o título um tanto ambíguo, mas chamativo, "Novas Formas de Amor".

5. "My encounter

with Carl Rogers: a retrospective view from the Ukraine", in Journal of Hjumanistic

Psychology.n. 1, 1999.

Na Introdução confessa: "Às vezes fico espantado com as mudanças ocorridas em minha vida e trabalho" (P. VII).

Após se referir ao livro escrito em 1941 (publicado em 42):

"Psicoterapia e Consulta Psicológica"), 'deu-se conta de estar pensando e trabalhando com pessoas de modo diverso de outros profissionais'); em 1951 e 1961, confessa, o impacto causado por Tornar-se Pessoa "obrigou-me a abandonar a estreita perspectiva, pensando interessar o que escrevia somente a terapeutas. Essa reação alargou os horizontes da minha vida e pensamento. Creio o que havia escrito até então era válido igualmente ao casal, à família, à escola, à administração ou relações entre cultura e países" (P. VIII).

O leitor perceberá, agora, a razão da abertura do leque de interesses de Rogers a partir dos anos sessenta, abertura retratada em artigos e livros, como as publicações citadas acima de 1969 e 1970. A expansão dos horizontes afetou, inclusive, a terminologia, espe- lhando os pontos de vista atuais:

Assim, "o velho conceito anterior de 'terapia centrada no cliente' cedeu lugar à 'abordagem centrada na pessoa'. Em outras palavras, já não falo mais simplesmente em psicoterapia, mas em ponto de vista, numa filosofia, enfoque de vida, um jeito de ser, com aplicação a qualquer situação na qual crescimento — quer de uma pessoa, de um grupo ou comunidade - faz parte do objetivo" (P IX).

Depositava Rogers inquebrantável confiança nas possibilidades e na bondade 'fundamental' da pessoa. Até o fim. O jeito de ser do interlocutor pode despertar tais potencialidades, avivar a bondade adormecida.

Após sair para atuar em arena maior, tão solicitado era que somente podia aceitar uma de cada vinte convites para conferências, entrevistas, debates ou grupos de crescimento.

Queda, com fratura óssea e complicações ulteriores, não somente o impediu de atender a segunda viagem agendada à União Sul-Africana, mas no-lo arrebatou do convívio em 1987, aos 85 frutuosíssimos anos de vida. 6

6. A tradução brasileiro de "Um Jeito de Ser" contém 8 dos 15 capítulos do original. Os demais já haviam sido publicados em "A Pessoa como Centro" (Rogers/Rosemberg, 1977). - A tradução espanhola tampouco reproduz integralmente o livro.

Qual é esse "jeito de ser" rogeriano?

Fundamentalmente consiste em certas atitudes que, por sua vez, emanam da adoção de certos valores, de certa visão da pessoa - isto é, da visão de si e dos outros. Do eu-tu. 7

Em 1957, expôs Rogers as condições necessárias e suficientes para a psicoterapia. 8 São três as indispensáveis (e bastantes) quanto ao terapeuta:

I a Consideração positiva incondicional do cliente, atitude que resulta em aceitação (não significa necessariamente aprovação) incondicional do outro. Embora não 'aprove' a fratura do paciente, o médico o recebe, 'aceita' o acidentado como este lhe aparece, pondo organismo em condições de reagir favoravelmente à situação. O

psicoterapeuta não põe condições. Por ex., se for gentil, agradecido,

eu lhe

terei consideração positiva. O fato de o indivíduo ser a maravilha de uma pessoa é que, naturalmente, o leva a essa valorização. O outro possui, como eu, as mesmas necessidades fundamentais (entre elas, a de ser valorizado), sentimentos idênticos, desejo de bem-estar e felicidade, de crescer como pessoa, etc. Afinal, colegas de viagem no trem (ou aeronave) da vida, sonhando ambos com bela e longa jornada. Minha presença pode tornar o trajeto mais agradável para o outro desfrutar toda a riqueza possível de experiências satisfatórias desses 'dias', quer dizer, anos de existência.

Peretti, um dos grandes seguidores de Rogers e um dos meus significativos professores em Paris (1966-67), diz belamente: "O terapeuta (o facilitador), apoiado em si mesmo e 'centrado no cliente', é preciso que se distancie suficientemente de si mesmo a fim de cuidar do outro". 9

bem educado, se puder pagar integralmente os honorários

Rogers, por sua vez, confessa:

"Eu escuto tão cuidadosa e atentamente, com toda a sensibilidade de que sou capaz, cada pessoa que diz algo de si. Quer a mensagem seja superficial ou significativa, eu escuto.

I Cl Buber. Eu-Tu, s.d., e Tu individual ou comunitário, 1987.

8. O leitor encontra o artigo no livro de Wood, 1995, p. 157-179. 'i Peetti, 1997, p. 210.

-

Para mim, a pessoa que fala é plena de valor (worthwhile),

digna de ser compreendida [ sentido, 'valido' a pessoa." w

Colegas dizem que, neste

]

2 a Empatia - É decorrência da atitude anterior, de valorização incondicional, aliás, já anunciada na citação de Rogers. As duas atitudes se imbricam.

O mundo interior de cada pessoa é único, como é única sua

fisionomia. Aliás, muito mais, pois as vivências são milhões. "Somente o indivíduo vive suas experiências. O centro desse mundo é ela mesma. Esse mundo vivencial é 'realidade' para ela. A estímulos idênticos, as pessoas reagem de modo distinto. Percebem significados diferentes, e sentem e agem, consequentemente, de forma diversa." (Tausch)."

O terapeuta se coloca na perspectiva da pessoa que escuta.

Põe-se na sua pele, segundo a expressão de Cogswell (1993). Procura entrar em seu horizonte de compreensão. Tenta apreender o signifi- cado, a importância do conteúdo da comunicação para o interlocutor. Diligencia por ser um pouco o outro, pois é impossível sê-lo inteiramente.

Pesquisas revelam que o indivíduo percebe essa atitude de escuta: empática: "Ele (terapeuta) aprecia minhas experiências como eu as sinto." Capta igualmente a não-escuta: "Ele entende minhas palavras, mas não o modo como eu sinto."

Ao sentir-se valorizado e empaticamente compreendida, a pessoa terá acréscimo de confiança no terapeuta. Caem defesas.

10. Rogers, 1970, p. 47. - Wood, (1995, p. 274), colega de pesquisa de Rogers e colaborador seu em Grupos,

(inclusive no de Arcozelo em 1976), durante mais de vinte anos, nos transmite o parecer do próprio Carl sobre questão importante: "Falar de uma 'Abordagem Centrada-no-Cliente' ou uma 'Abordagem Centrada- na-Pessoa' como se fossem entidades opostas entre si é, na minha opinião, caminho certo para disputas

fúteis e para o caos.[

num relacionamento destinado a ser centrado-no-cliente ou num que seja rotulado centrado-na-pessoa. Eu trabalho do mesmo modo nos dois." - Comenta Wood (p. 275): "Ele (Rogers) se aproximava de cada situação com o mesmo desejo de ouvir e compreender, as mesmas atitudes, o mesmo bom humor, a mesma humildade, a mesma genuinidade e aceitação não-julgadora do indivíduo ou do grupo, a mesma curiosidade e abertura à descoberta, a mesma crença de que ele poderia ajudar e que isso era a coisa mais importante do mundo a fazer naquele momento."

Espero que me permitam ser uma pessoa inteira, quer seja chamado para ajudar

]

11. Tausch, 1981, p. 187.

Aumentará também a confiança em si mesma, pois descobrirá, paulatinamente, o potencial de recursos armazenados e não reconhecidos, até então, ou só parcialmente percebidos e utilizados

O processo terapêutico fluirá mais fácil, rápido e frutuosamente. Tornar-se-á o cliente, dia a dia, mais pessoa. Pessoa mais desabro- chada, mais autónoma.

Atitude empática supõe alto grau de flexibilidade, de resiliên- cia. Rogers "deplora a inautêntica, mecânica, rígida, dogmática terapia centrada no cliente". 12 São atitudes opostas às que ele pleiteia. Com elas, haverá centração na pessoa do terapeuta, mas não do cliente.

3. Congruência ou genuinidade. "O terapeuta é profundamente ele mesmo, com sua experiência, precisamente representada em sua conscientização de si mesmo." I3

Isto não implica - é pensamento de Rogers - que ele seja um modelo de perfeição. O consulente deve sentir (e sente) se está em face de pessoa 'real', autêntica, ou de alguém cumprindo um 'papel', com atitudes e gestos estudados. O terapeuta deve poder ser espontaneamente aquilo que é e não um 'artista' ensaiado.

"O que diz, seu modo de se haver, harmoniza com seu mundo interior, os sentimentos e ideias, seu self. Não se disfarça. Não nega parte de si. Disposto a ser e a agir como realmente é, sem máscaras, sem camuflagens, sem couraça, sem comporta- mentos profissionais ensaiados." ' 4

O leitor perceberá que esta atitude requer transparência, coerência entre pensar, sentir e agir; sintonia entre o processo interno e a palavra. Terapeuta centrado na pessoa será autêntico. Esta forma de ser atuará direta ou subliminarmente no psiquismo do cliente. O mesmo se dará, infelizmente, também no caso de incongruência.

A congruência não supõe, comunique o terapeuta ao cliente, o que se passa nele. Não. Quer dizer que deve ser, primeiramente, transparente (tanto quanto possível) para si mesmo. Atento aos

12. Rogers, 1987, p. 38.

13. Rogers, 1957, in Wood, p. 163.

14. Tausch, 1990, p. 86).

21

próprios processos psicológicos, mas, sobretudo, mais atento às comunicações do interlocutor. À medida em que avançar na experiência profissional também ele "se tornará mais pessoa". Chegará o dia em que, habitualmente, pequena réstia sobre si mesmo será suficiente, sendo progressivamente mais disponível ao cliente. 15

4. É postulada uma quarta condição: da parte do cliente, percepção das condições acima no terapeuta, ao menos no grau mínimo (que pode ser elevado!) exigido pela situação do interlocutor à procura de solução de problema ou problemas: melhor - de crescimento como pessoa. Caso as condições não fossem percebidas é como se não existissem e, de fato, não existem para o consulente. De um lado, as condições devem ser de nível suficiente para serem captadas pelo outro; e este não deve ser tão perturbado que não consiga apreendê-las. Remédio não ingerido não pode curar. Surdo não ouve vozes e ruídos.

"Desde que as atitudes não podem ser diretamente percebidas, seria mais correto estabelecer que os comportamentos do terapeuta e suas palavras são percebidas pelo cliente como significando que, em algum grau, o terapeuta o aceita e compreende." ' 6

Daí a hipótese: se essas condições estiverem presentes na relação terapêutica, ocorrerá alguma mudança na personalidade do cliente. Se uma delas faltar, não acontecerá o efeito esperado, pois se trata de condições necessárias e suficientes. Quanto maior o grau de sua presença, tanto mais será a possibilidade de mudança da persona- lidade, já que, neste clima, ela goza de liberdade experiencial, isto é, sente que tudo o que exterioriza é levado em consideração, sem julgamentos, sem avaliação. Não precisa, por isso, recorrer a defesas. Deixa cair eventuais máscaras. Pode reconhecer e reelaborar suas vivências sem negação ou deformação. O clima terapêutico 'permissivo' favorece essa elaboração.

15. Cf. Kirschenbaum, 1979, p. 197. - Rogers narra (1969a, p. 349 e ss) um caso com êxito limitado. A causa? "A pessoa era incapaz de aceitar meus sentimentos para com ela por não poder acreditar neles." 16. Rogers, in Wood, 1995, p. 169.

5. O terapeuta tem confiança nas possibilidades, nos recursos do cliente. Essa confiança ele a transmite através de atitudes, palavras e mímica.

Um cliente com problema sério, melhorara com inesperada rapidez, a ponto de ele mesmo se espantar, pois estivera consultando outros profissionais durante anos, e só piorando seu estado. Certo dia, após meio ano de atendimento, perguntou ele:

- Doutor, a que se deve esta melhora rápida?

- Você que acha?

- Sabe, quando, na primeira entrevista, após haver exposto

minha situação, perguntei: Meu estado tem cura? O senhor respondeu com muita espontaneidade e convicção: Meu Deus, por que não? - Esta sua reação reacendeu minha esperança. Ademais, disse-me: Você não está doente. Portanto, não precisa de cura. O que tem é um problema, e todo problema tem solução. Juntos procuraremos essa solução. A confiança do terapeuta no cliente, este a percebe consciente ou

subrepticiamente, crescendo a confiança em si mesmo, alavanca para

a superação do problema. "Ousai, em primeiro lugar, ter fé em vós próprios." n Até prova em contrário, o terapeuta centrado no cliente aposta na solução dos conflitos através da mobilização dos recursos da pessoa, talvez menos preocupado na resolução de problemática

pontual do que no crescimento global do 'organismo'. Ele (terapeuta)

é o catalisador, o facilitador do processo. Quem o dirige é o cliente.

6. A essência da terapia centrada na pessoa, escreve Bozarth,

é o empenho do terapeuta em caminhar

° com a direção do cliente,

0 no ritmo do cliente •en a modalidade única de ser do cliente. I8

17. Nistzsche, 1988, p. 137. 18. Bozarth, 1998, p. 8.

Ouçamos o próprio Rogers:

"A hipótese central do enfoque pode ser apresentado resumidamente (em 1959 encontra-se explanação mais completa): os indivíduos possuem dentro de si vastos recursos para auto-compreensão e para mudar, modificar o auto- conceito, atitudes básicas e formas de agir pessoais: esses recursos podem ser ativados se determinado clima de atitudes psicológicas facilitadoras lhes for propiciado. I9

No processo terapêutico centrado na pessoa, não há diagnóstico prévio realizado pelo terapeuta ou auxiliares, pois seria ferir o princípio central desse enfoque: centrar-se no cliente. O diagnóstico é efetivado, paulatinamente, ao longo de todo o processo. Por quem? Pelo cliente. O terapeuta procura facilitar-lhe a tarefa. Esse auto- diagnóstico culmina em mudança de percepção. Da mudança de percepção decorre mudança de comportamento, de atitude. Por isso escreve Brazier que o trabalho de Rogers centrou-se, principalmente, em ajudar-nos a entender o quadro de referência do outro. 20 Estamos longe do modelo médico: 'profissional-paciente'. Encontramo-nos em presença de 'profissional-cliente/pessoa', sendo a atividade deste(a) o foco da nova orientação psicoterápica.

O leitor terá notado ser a orientação rogeriana otimista com relação à pessoa. Por isso confia nela, embora com muitos problemas.

Alerta importante de Mearns: "Trabalhar com o cliente 'todo', quer dizer oferecer-lhe as condições básicas a todas as suas facetas, mesmo conflituadas entre elas e mutuamente excludentes." 2I

Imagem de pessoa

As condições e convicções mencionadas se baseiam sobre específica visão da personalidade, diferente de outras correntes em psicologia. Quais suas principais características?

19. Rogers, 1980, p. 115.

20. Brazier, 1997, p. 22.

21. Mearns, 1994, p. 16.

24

Tendência à atualização ou auto-realização

Lemos em Rogers dos últimos tempos de vida:

"Quero destacar duas tendências correlatas que têm adquirido, gradativamente, maior importância em meu pensamento no decorrer dos anos.

° uma delas é a tendência à atualização, característica da vida orgânica. o outra é a tendência formativa no universo como um todo.

° Juntas constituem os blocos basilares do enfoque centrado na pessoa." 22

Várias vezes cita ele em livros e palestras (inclusive na União Soviética) o caso de batatas inglesas guardadas no chão curo do porão, na fazenda paterna, brotando em direção à luz: a vida procurando expandir-se, tanto quanto possível, apesar das condições adversas. A observação de animais e plantas levou Carl Rogers à convicção de que todo ser vivo tende a crescer, em direção a tornar-se indivíduo adulto realizado da espécie, caso as condições lhe forem suficientemente favoráveis. Demos a palavra ao mestre:

"Todo organismo é animado por tendência inerente a desenvolver todas as potencialidades, e a desenvolvê-las de maneira afavorecer-lhe a conservação e enriquecimento. " 23

Em outra obra assegura: Este potencial será liberado quando o terapeuta puder criar clima psicológico caracterizado pela genuini- dade, valorização incondicional e empatia. Então, "o cliente vai reorganizar-se tanto em nível consciente como em níveis mais profundos da personalidade". 24

Auto-imagem (self)

Com a facilitação do terapeuta, o cliente procura desobstruir

22. Rogers, 1080, p. 114.

23. Rogers, 1966, p. 172.

24. Rogers, 1969 a p. 04.

2 5

ou ampliar o fluxo da tendência à atualização. Repetimos: o papel do terapeuta não consiste em guiar o cliente pelo caminho 'certo' (na perspectiva do profissional), mas criar condições favoráveis ao processo de auto-exploração e desenvolvimento. 25 Objetivo: fazer desabrochar a pessoa no ser, como diz Levinas. 26

Essa exploração, possibilitada graças ao clima formado pelas atitudes do psicoterapeuta, provocarão mudanças na auto-imagem,

no 'self. E, por sua vez, essa mudança no self fará com que o cliente perceba a si e a situação de modo diferente. Encontrará 'saídas'.

Rogers:

"Sucesso na terapia é a percepção, da parte do cliente, de que

Quando a

pessoa consegue se ver como agente perceptivo, organizador, então se dá a reorganização da percepção bem como a consequente mudança nos padrões da reação. " 21

o self tem a capacidade de reorganização. [

]

A partir de certo patamar da terapia, o cliente terá enveredado num

"caminho sem volta". O self é outro; a percepção é outra; outra,

melhor e desabrolhadora é a vida. Unamuno diria que a pessoa "sente-

se viver em estado de criação contínua: cada momento oferece uma visão nova .

A tendência à auto-realização e à auto-imagem (self) explicam todo procedimento do indivíduo (atitudes, ações e reações). A tendên- cia ao crescimento é o elemento dinâmico do psiquismo; o self o orienta na direção de valores, objetivos que lhe interessam ou que, erroneamente ou não, lhe parecem vantajosos e alcançáveis. A auto- imagem joga papel decisivo na vida. Conforme se julgar apta ou não,

a pessoa orientará a tendência para este ou aquele rumo, podendo

subestimar ou superestimar suas possibilidades. Mas decidirá conforme se perceber. Por isso, a percepção que o indivíduo tiver de

si, dos outros, do estudo, emprego, etc, é que lhe pilotará a vida. Eis

a razão por que o self constitui o centro do processo terapêutico.

Escreve Goldstein, a quem devemos o termo auto-realização:

25. Guioordani, 1997, p. 104.

26. Levinas, 1988, p. 115.

27. Rogers, in Wood, 1995, p. 49-50.

28. 1952, p. 52.

26

"Existe estreita relação entre os modos preferidos do indivíduo e os motivos psicológicos de sua conduta, seu relacionamento com os demais, seus gostos e repulsas e suas atitudes ante a vida. " 29

Resumindo as principais conclusões sobre mudanças de personalidade na psicoterapia, Rogers enfatiza a correlação auto-imagem e vida mais congruente, mais realista do cliente para consigo mesmo e os demais. 30

Outra observação importantíssima: o ambiente deve ser suficientemente propício a fim de possibilitar a auto-realização da pessoa, à semelhança de todo ser vivo: sem o mínimo de condições, em vez de crescer, estiola e morre. Na terapia, as atitudes do profissional, muito mais que sua cultura, fazem surgir esse ambiente favorável. Quanto mais elevado o grau de existência dessas atitudes no ambiente familiar e social - é bom repetir - tanto mais 'terapêutico' será esse ambiente. Todo bom relacionamento é terapêutico, isto é, favorece o crescimento, segundo Maslow. Há, contudo, pessoas que, embora vivam em ambiente assim, necessitam temporariamente da 'estufa' do gabinete psicoterapêutico para retomar o impulso do crescimento, quiçá dar-lhe outro rumo.

Rumo à plenificação da pessoa

Certa noite de fevereiro de 1977, durante as maravilhosas três semanas passadas com Rogers e equipe de La Jolla (San Diego, USA) em Arcozelo, RJ, John Wood entre eles, estávamos alguns sentados no alpendre da antiga fazenda transformada em local, rústico e singelo, de teatro, encontro de estudantes. Pois bem: o grande autor de "Tornar- se Pessoa" estava discorrendo sobre a plenificação gradativa da pessoa, quando surge, por entre o arvoredo, a lua cheia. Minutos depois, brilhava ela, dourada e silenciosa, por cima da floresta, prateando o panorama bucólico da suavemente ondulada serra carioca de Pati do Alferes.

29. 1961, p. 164.

30. 1969a, p.413ess.

27

Vinculei o crescer da lua à auto-realização da pessoa. Quanto mais esta crescer, mais 'cheia', mais plena se tornará, dispondo de mais luz para si e irradiando-a mais abundantemente aos outros.

E convicção de Fromm de que "a existência identifica-se com

o desenvolvimento das potencialidades específicas de um organismo. Todo organismo possui uma tendência inerente para a atualização das suas potencialidades próprias." 31

Essa noção da tendência à auto-realização tomaram-na Rogers, Fromm, Maslow e muitos outros, dos minuciosos experimentos e cuidadosas observações de Kurt Goldstein.

A pessoa em via de crescimento notabilizar-se-á por algumas

características: 32

Primeiramente é necessário observar não se tratar de 'estado', mas de um 'processo'. Vida em fluxo de plenificação é processo, não um estado de ser. Para Rogers, "vida em crescimento (good life) é o processo do movimento numa direção selecionada pelo indivíduo quando interiormente livre de se mover para qualquer rumo".

Na opinião do autor, as características da seleção da direção

tomada por tais pessoas têm certo grau de universalidade. Quais seriam

os

traços distintivos de tais indivíduos?

° Crescente abertura à experiência.

° Vida gradativamente mais existencial, isto é, de fluxo reno- vador.

° Organismo digno de confiança, graças à abertura à expe- riência.

° Vontade de ser processo.

° A pessoa é seu centro de avaliação.

O

crescimento não termina, por mais rápido e organizado que seja.

Não deixa de ser constante lua

'crescente'. Escreve Paulo Freire: "Totalizando-se além de si mesma (a consciência humana) nunca chega a totalizar-se inteiramente, pois sempre se transcende a si mesma." 33 Pessoa em processo de auto-

Nunca atingirá o brilho de lua cheia

31. Fromm, s.d., p. 38.

32. Rogers, 1961, cap. 9. [Cap. 7 da edição brasileira.]

33. Freire, 1987, p. 16.

28

realização não estaciona: encontra-se

° a caminho de sempre mais plena auto-direção;

° a caminho de ser um processo mais rico e dinâmico;

° a caminho da complexidade;

° a caminho de maior abertura à experiência;

° de maior aceitação dos outros;

° de relacionamento mais profundo com os demais;

° de crescente confiança em si mesma;

° de progresso em congruência, em autenticidade.

Como fecho dessas considerações, dois pensamentos que mostram a penetração de princípios da psicologia humanista na alta cúpula da Igreja Católica:

"O homem não é verdadeiramente homem a não ser na medida em que, senhor de suas ações e juízos de valor, é autor do seu progresso, de acordo com a natureza que lhe deu o Criador, de que assume livremente as possibilidades e exigências." 34

O Papa atual não é menos enfático:

"Somos, de certo modo, os nossos próprios pais ao criarmo- nos como queremos e, pela nossa escolha, dotarmo-nos da forma que queremos. " 35

Se as orientações da psicologia rogeriana atingissem as altas esferas dos poderes políticos, em poucos anos, a terra adquiriria fisionomia bem mais humana

34. Paulo VI, 1967,. n. 16.

35. João Paulo II, 1993, p. 92.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALLERS, R. Freud: O Problema da Psicanálise. Porto: Brasília Editora, 1975.

ASSOUN, P. L. Introdução à Epistemologia Freudiana. Rio de Janeiro: Imago,

1983.

BRAZIER, D. Más allá de Carl Rogers. Bilbao: Brouwer, 1997.

BUBER, M. Eu-Tu. São Paulo: Editora Morais, s.d.

BUBER, M. Sobre Comunidade. São Paulo: Perspectiva, 1987.

COGSWELL, J. F. Walking in Your Shoes, in Journal of Humanistic Psychology, vol. 33, n. 3. 1993.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

FROMM, E. Ética e Psicanálise. Lisboa: Minotauro, s.d.

GIORDANI, B. La Relación deAyuda: de Rogers a Carkhuff. Bilbao: Brouwer,

1997.

GOLDSTEIN, K. La Naturaleza Humana a la Luz de la Psicopatologia. Buenos Aires: Paidos, 1961. (O original inglês é de 1940.)

HART, J. T. e Tomlinson, T. M. New Directions in Client-Centered Therapy. Boston: Mifflin, 1970.

João Paulo II. O Esplendor da Verdade. Petrópolis. Vozes, 1993.

KRISCHENBAUM, H. On Becoming Carl Rogers. Nova Iorque: Delacorte,

1979

LEVINAS, E. Ética e Infinito. Lisboa: Edições 70,1988.

Mearns, D. Developing Person-Centered Counseling. Londres: Sage, 1994.

Monedero, C. Antropologia y Psicologia. Madri: Pirâmide, 1995.

Nietzsche, F. Assim Falava Zaratustra. Guimarães: Guimarães Editores, 1988.

Paulo VI. Populorum Progressio. Paris: Centurion, 1967.

Peretti, A. Présence de Carl Rogers. Paris: Érès, 1997.

Rogers, C. R. Client Centered-Therapy. Boston; Mifflin, 1951.

—- Terapia, Personalidady Relaciones Interpersonales. Buenos Aires: Nueva Vision, 1978 (Ed. original em Koch, 1959).

On Becoming a Person: A Therapists View of Psychotherapy: Boston:

Mifflin, 1961.

— e Kinget, M. Psychothérapie et Relations Humaines. Paris: Nauwelaerts,

30

1966.

— et ai. The Therapeutic Relationship and Ws lmpact: a study of psychotherapy with schizophrenics. Wisconsin: University Press, 1967

—eDymond, R. F. Psychotherapy and Personality Change. Chicago: University Press, 1969a

Freedom to Learn. Columbus (Ohio), 1969b

Encounter Groups. Nova Iorque: Harper, 1970.

Becoming Partners: Marriage and itsAlternatives. Nova Iorque, Delacorte,

1972.

— e Rosenberg, R. A Pessoa como Centro. São Paulo: EPU, 1977.

— A wayofBeing. Boston: Mifflin, 1980. — Comments on the issue of equality in psychotherapy, in Journal of Humanistic Psychology, 1, 1987.

TAUSCH, R. e Tausch, A M. Psicologia de la Educación: encuentro de Persona a Persona. Barcelon: Herder, 1981.

TAUSCH, R. e Tausch, A. M. Gesprãchs-Psychotherapie. Gõttingen: Hogrefe,

1990.

UNAMUNO, M. de. Almas de Jóvenes. Buenos Aires: Espasa-Calpe, 1952.

WOOD, J. Abordagem Centrada na Pessoa. Vitória: Univ. do Espírito Santo, 1995. [I a Parte: Seis Textos Seminais de Carl Rogers. 2 a Parte:. Wood, J.:

Da Abordagem Centrada na Pessoa à Psicoterapia Centrada no Cliente].

31

*

As ORIGENS E O DESENVOLVIMENTO DA TERAPIA CENTRADA NO CLIENTE

2. O Nascimento da terapia centrada no cliente

No dia 11 de dezembro de 1940, a Universidade de Minnesota promoveu uma palestra sobre os "Os mais recentes conceitos em psicoterapia". O palestrante convidado era um psicólogo e pesquisa- dor da Universidade de Ohio chamado Cari Ransom Rogers. O palestrante, seguindo a temática proposta, procurou apresentar uma síntese do que havia de mais moderno, na época, no campo da psicoterapia. A partir da sua experiência de doze anos de trabalho clínico no "Rochester Society for the Prevention of Cruelty to Children" e de acordo com os resultados das pesquisas que realizara ao longo de todo o ano de 1940 na Universidade de Ohio (analisando laboriosamente centenas de gravações de sessões de psicoterapia), Rogers apresentou as quatro características de uma recente tendên- cia em psicoterapia que ele supunha que vinha sendo praticada pela grande maioria dos psicoterapeutas mais jovens:

° esta nova abordagem confiava intensamente na tendência do indivíduo para o crescimento, para a saúde e maturidade. A terapia era concebida como uma maneira de libertar o cli- ente para o crescimento e desenvolvimento normal.

° esta terapia dava maior ênfase aos sentimentos do que à com- preensão intelectual.

° esta nova terapia dava maior ênfase à situação imediata do que ao passado do indivíduo.

° esta abordagem enfatizava a relação terapêutica em si mes- ma como uma experiência de crescimento.

Por acreditar que estava simplesmente sumariando e apontando ten- dências comuns aos psicoterapeutas de sua época, Rogers ficou ex- tremamente surpreendido com a reação da plateia à sua apresenta- ção. Ele foi duramente criticado, contestado e atacado, foi olhado com espanto e perplexidade como foi também elogiado e aclamado. Foi somente a partir deste dia que Cari Rogers percebeu que esta nova tendência em psicoterapia não era uma tendência comum aos profissionais clínicos de sua geração, mas era, pelo contrário, uma abordagem criada por ele e que não apenas única e inovadora como

também era uma abordagem completamente revolucionária. Vinte e quatro anos depois, Rogers 1 escreveu: "Pareceria um tanto absurdo supor que se pudesse nomear um dia no qual a terapia centrada no cliente tivesse nascido. No entanto, eu sinto que é possível nomear este dia efoi o dia 11 de dezembro de 1940".

Cari Rogers, sem dúvida, foi uma das personalidades mais geniais e marcantes de nosso século. Desde o início dos anos 30, quando começou a trabalhar como psicoterapeuta até o ano de sua morte, em 1987 - quando foi indicado para receber o prémio Nobel da Paz - Rogers se dedicou intensamente ao desenvolvimento e apri- moramento de uma abordagem das relações humanas promotora do crescimento e da realização das potencialidades criativas do indiví- duo, não somente no campo da psicoterapia, como também no cam- po da educação, da sociologia e da política.

Em 1928, logo após ter obtido seu Ph.D em psicologia clínica, Cari Rogers começou a trabalhar como psicólogo no "Rochester Society for the Prevention ofCruelty to Children". Rogers trabalhou doze anos nessa clínica, fazendo psicoterapia, psicodiagnósticos e encaminhamentos e sendo, por fim, nomeado diretor. Devido ao seu espírito pragmático e crítico, durante este período em Rochester, Rogers acabou desenvolvendo a sua própria forma de abordar a psicoterapia. Perguntando-se constantemente se o que ele fazia era, de fato, eficaz, questionando-se sobre o quê, em tudo o que ele fazia, ajudava, de fato, os seus pacientes e em como ele poderia realmente ajudá-los, Rogers acabou modificando radicalmente a forma de tra- balhar como psicoterapeuta que aprendera em sua formação, que fora basicamente psicanalítica. Assim, a partir dos seus constantes questionamentos, durante estes doze anos de intensa experiência clí- nica em Rochester, Rogers começou a desenvolver a sua própria abordagem em psicoterapia, que quarenta anos mais tarde seria cha- mada de Abordagem Centrada na Pessoa.

Em 1939, Rogers publicou o seu primeiro livro - O Tratamen- to Clínico da Criança Problema -, fruto do trabalho desenvolvido em Rochester. Devido ao interesse despertado por esta publicação, a Universidade de Ohio contratou-o, em 1940, para ser professor-resi- dente e supervisor de psicólogos em formação clínica.

1. Rogers, 1974, p. 7.

36

Durante cinco anos, Rogers trabalhou em Ohio lecionando para alunos da graduação e supervisionando os psicólogos que faziam formação em "counseling". Naquela época, a legislação americana não permitia aos psicólogos atuarem como psicoterapeutas - era uma atividade restrita a psiquiatras. Desta forma, para contornar as limi- tações impostas pela legislação da época, Rogers denominava o seu trabalho de "counseling" ao invés de "psicoterapia". O counseling, que costuma ser traduzido para o português como '"aconselhamento" é uma profissão regulamentada nos Estados Unidos e em muitos pa- íses da Europa, mas que não possui correspondente no Brasil.

Nos seus grupos de supervisão, Rogers introduziu uma metodologia inovadora: a gravação das sessões terapêuticas. Atra- vés da utilização deste recurso, Rogers e seus alunos puderam anali- sar, avaliar, investigar e questionar o trabalho que realizavam como psicoterapeutas com uma profundidade que não teria sido possível se tivessem utilizado somente os relatos obtidos pela "memória" do terapeuta:

"E impossível exagerar a excitação com que aprendíamos, à medida em que nos apinhávamos em torno do aparelho que

nos possibilitava ouvir a nós mesmos, repetindo inúmeras ve- zes algum ponto intrigante no qual a entrevista fora clara- mente mal conduzida ou as passagens em que o cliente pro- gredia significativamente. (Ainda considero que esta técnica é a melhor maneira de nos aperfeiçoarmos como terapeutas). Entre as muitas lições que estas gravações nos proporciona-

descobrimos que era possível detectar a resposta do

terapeuta que fazia com que um fluxo frutífero de expressão significativa se transformasse em algo superficial e inútil. Do mesmo modo, podíamos nos deter na intervenção do terapeuta que levava a conversa tola e superficial do cliente a transfor- mar-se numa auto-exploração. " 2

ram

A riqueza do material obtido com estas gravações possibilitou que Rogers investigasse com profundidade e rigor a sutil essência do processo terapêutico, dando origem à palestra que proferiu na Uni- versidade de Minnesota em dezembro de 1940. As características

2. Rogers, 1977, p. 70.

37

apontadas por Rogers, naquela ocasião, como constituindo a essên- cia de uma nova abordagem em psicoterapia, foram posteriormente exploradas com maior rigor e profundidade através de um grande número de pesquisas realizadas inicialmente em Ohio e, a partir de 1945, no Counseling Centerda Universidade de Chicago. As quatro características citadas por Rogers: a confiança na tendência do indi- víduo para o crescimento e a maturidade; a ênfase nos sentimentos ao invés da compreensão intelectual; a ênfase na situação imediata, ao invés do passado e o reconhecimento de que a própria relação terapêutica é em si mesma uma experiência de crescimento perma- neceram, ao longo de todos esses anos, como elementos essenciais da terapia centrada no cliente. Entretanto, elas foram consideravel- mente ampliadas quanto ao seu alcance e profundidade e, como re- sultado do grande número de pesquisas realizadas, sua formulação tornou-se mais precisa e rigorosa.

Em 1942, Rogers publicou Counseling and Psychotherapy:

Newer Concepts in Practice, que foi traduzido para o português como Psicoterapia e Consulta Psicológica (as traduções para o português das obras de Rogers encontram sempre dificuldade com a tradução da expressão counseling). Neste livro, Rogers fundou, com admirá- vel solidez e clareza, os alicerces de sua revolucionária concepção teórica e prática no campo da psicoterapia. Estes alicerces que, cin- quenta anos depois, ainda permanecem sendo a sólida base de sus- tentação da terapia centrada no cliente são a constatação de que a não-diretividade e a aceitação do terapeuta são elementos terapêuticos essenciais numa relação de ajuda psicológica.

3. Uma relação essencialmente não-diretiva

Rogers constatou, desde o início de suas pesquisas, que quan- do o terapeuta se abstém de dar uma direção ao processo terapêutico, quando ele não interfere no processo espontâneo do cliente, propici- ando-lhe, ao invés disso, total liberdade para escolher a sua própria direção e avançar no seu próprio ritmo, ocorre uma surpreendente liberação das forças de crescimento do cliente. Quanto maior é a

liberdade oferecida ao cliente para se expressar espontaneamente, sem que seja guiado, conduzido ou orientado pelo terapeuta, maior é

a rapidez e a intensidade com que ele traz para o processo terapêutico

as questões realmente cruciais da sua existência. Quando é oferecida ao cliente uma completa liberdade de expressão, ele é capaz de ex- pressar conflitos e sentimentos que o terapeuta não poderia de forma alguma supor ou conceber previamente. Dessa forma, Rogers che- gou à conclusão de que o melhor guia para o processo terapêutico é sempre o próprio cliente Ele é o único capacitado a reconhecer as questões verdadeiramente importantes que precisam ser exploradas

e compreendidas na terapia. Toda orientação do terapeuta, ao contrá-

rio, tende a inibir e bloquear este fluxo de auto-expressão do cliente. Por este motivo, o terapeuta deve deixá-lo completamente livre para escolher a direção e o ritmo do seu processo terapêutico. Rogers sin- tetizou admiravelmente a necessidade desta não-diretividade para o sucesso da relação terapêutica com a máxima: o melhor guia é o cliente.

"O caminho mais seguro para as questões importantes, para

os conflitos dolorosos, para as zonas que a terapia pode tra- tar deforma construtiva é seguir a estrutura dos sentimentos

) O cliente é

o único que pode nos guiar para tais fatos e podemos ter a certeza de que os padrões de conduta que são suficientemente importantes surgirão repetidamente no diálogo, desde que ele esteja isento de restrições e inibições. " 3

do cliente tal como ele os exprime livremente. (

4. A aceitação como a essência do processo terapêutico

Rogers percebeu que para uma relação terapêutica ser eficaz ela deve ser radicalmente distinta de todas as outras relações que o indivíduo tem na sociedade, pois nela, não somente o cliente deve ter a oportunidade de ser e de se expressar livremente, como também

3. Rogers, ]997a,pp. 131-133.

tudo o que ele expressa deve ser reconhecido e aceito pelo terapeuta. Independentemente dos valores morais do terapeuta, ele deve reco- nhecer e aceitar plenamente todos os sentimentos e atitudes expres- sos pelo cliente - sem julgamentos ou críticas, como também sem elogios ou aprovação. Seja uma atitude positiva ou negativa, seja um sentimento agradável ou desagradável, doloroso ou prazeiroso, tudo deve ser recebido da mesma forma pelo terapeuta - com reconheci- mento e aceitação:

"Os sentimentos positivos são aceitos tanto quanto os senti- mentos negativos, como uma parte da personalidade. É esta aceitação, tanto dos impulsos de imaturidade como os de ma- turidade, das atitudes agressivas e de sociabilidade, de senti- mentos de culpa e de expressões positivas, que dá ao indiví- duo oportunidade pela primeira vez na vida de se compreen- der a si próprio tal como é. Não tem necessidade de uma ati- tude de defesa em face dos sentimentos negativos. Não tem oportunidade de supervalorizar os sentimentos positivos. E neste tipo de situação, surge o insight espontaneamente. ( ) Esta compreensão, esta apreensão e aceitação de si constitu- em o aspecto mais importante de todo o processo. Aqui se estabelece a base a partir da qual o íi.divíduo é capaz de as- cender a novos níveis de integração. " 4

Nesta época, Rogers ainda não havia desenvolvido uma teoria da terapia e da personalidade que explicasse suficientemente por que a não-diretividade e a aceitação do terapeuta são fatores essenciais para o sucesso terapêutico. Um desenvolvimento mais completo da teoria só veio a ocorrer em 1951 com a publicação do livro Terapia Centrada no Cliente. Contudo, em Counseling and Psychotherapy, Rogers já começara a esboçar os princípios e as explicações teóricas que seriam mais extensivamente elaboradas em 1951. Assim, já em 1942, Rogers pode reconhecer que:

° os clientes possuem um "eu oculto" ou "eu não convencio- nal" do qual se defendem através de racionalizações e rejei- ções. Nos seus relacionamentos pessoais, os clientes man-

4. Rogers, 1997a, p. 40.

40

tém uma "parede defensiva ", para não precisarem olhar para esse seu "eu escondido".

° Numa relação terapêutica impregnada de liberdade e aceita- ção, o indivíduo se sente "liberto de qualquer necessidade de se por na defensiva" e tem "pela primeira vez, uma oportu- nidade de olhar francamente para si mesmo", de ir para além da "parede " defensiva e fazer uma apreciação autêntica de si mesmo.

Dentro desta perspectiva, Rogers, em Counseling and Psychotherapy, esboça a seguinte descrição do processo terapêutico:

Através de uma atitude amigável, interessada e receptiva o terapeuta estimula o cliente a expressar livremente os seus senti- mentos, levando-o a sentir que aquela hora é verdadeiramente sua e que pode usá-la como quiser. Devido à atitude de compreensão e de aceitação do terapeuta, o cliente se liberta da necessidade de se prote- ger e pode, muitas vezes, pela primeira vez na vida, ser autentica- mente ele próprio. Ele percebe que pode expressar todos os seus sentimentos e que não necessita das suas defesas psicológicas habi- tuais, pois não encontra nem censuras nem elogios por parte do terapeuta. Dessa forma, a atmosfera de aceitação criada pelo terapeuta permite que o cliente consiga expressar, reconhecer e aceitar os seus sentimentos negativos como uma parte de si mesmo, em vez de projetá-los nos outros ou de ocultá-los através de racionalizações ou rejeições, isto é, o cliente torna-se capaz de enfrentar os diferentes aspectos do seu eu sem a necessidade dos seus habituais mecanismos defensivos. "À medida que descobre que seu eu não convencional, o seu eu oculto, é tranquilamente aceito pelo psicólogo, o cliente é igualmente capaz de aceitar como seu esse eu até então escondido. Em vez de lutar desesperadamente para ser o que não é, descobre que há muitas vantagens em ser o que é e em desenvolver as possibilidades de crescimento que são autenticamente suas. " 5

A descoberta mais importante de Rogers, portanto, não foi a de que o indivíduo, num ambiente livre de críticas, aprovações e orientações é capaz de reconhecer e expressar os aspectos mais "ocul- tos" do seu eu. A descoberta mais surpreendente e que deu origem às

5. Rogers, 1997a, p. 172.

41

implicações mais radicais e revolucionárias desta abordagem foi a constatação de que o indivíduo, após reconhecer estas facetas obscu- ras e "negativas" do seu eu, descobre também dentro de si impulsos e características extremamente positivas, saudáveis e maduras:

Quando os sentimentos negativos do indivíduo se exprimem totalmente, segue-se a expressão receosa e hesitante dos im-

pulsos positivos que promovem a maturidade. Essa expressão positiva é um dos aspectos mais certos e previsíveis de todo o processo. Quanto mais violentas e profundas forem as expres- sões negativas (desde que sejam aceitas e reconhecidas), tan- to mais certas serão as expressões positivas de amor, de im- pulsos sociáveis, de auto-respeito profundo, de desejo de ma-

Uma relação terapêutica centrada no cliente li-

berta forças dinâmicas de uma forma não conseguida por ne- nhuma outra relação, (o grifo é nosso) 6

A descoberta de que forças dinâmicas positivas eram liberadas atra- vés do clima aceitador e permissivo da relação terapêutica tornou- se, posteriormente, o postulado fundamental da terapia centrada no cliente. (Veremos, mais adiante, como esta ideia, a princípio vaga e genérica, foi se desenvolvendo até culminar no conceito de tendên- cia atualizante).

Assim, com a publicação de Counseling and Psychotherapy, a abordagem proposta por Rogers recebeu a denominação de Terapia Não-diretiva, justamente por enfatizar a permissividade e a aceita- ção como os fatores essencialmente terapêuticos da relação.

turidade. (

)

5. O cliente não é um paciente

Já em Counseling and Psychotherapy surge também outra ca- racterística inovadora da terapia centrada no cliente (na época, ainda chamada de Terapia Não-Diretiva): os indivíduos auxiliados através da psicoterapia eram considerados como clientes e não como pacien- tes. O que pode parecer uma simples questão semântica, possuí, de

6. Roges, 1997a, p. 39 e p.242.

fato, implicações filosóficas e sociais extremamente importantes. Entretanto, a explicitação dos motivos pelos quais Rogers e seus co- laboradores optaram pela expressão cliente só veio a aparecer em 1951, no livro Terapia Centrada no Cliente. Basicamente, são duas as razões pelas quais esta abordagem utiliza o termo cliente ao invés de paciente:

1. A palavra paciente denota um sentido de passividade. Nada mais distante do que ocorre na relação terapêutica da terapia centrada no cliente. Nela, o indivíduo não recebe nada passivamente do terapeuta: não recebe a solução para o seu problema, não recebe uma interpretação para o seu conflito, não recebe uma orientação, não recebe respostas, não recebe conforto ou encorajamento, nem tampouco críticas. Muito pelo contrário, devido à não-diretividade e à aceitação experenciadas plenamente na relação terapêutica, o indi- víduo descobre os seus próprios recursos e desenvolve sua autono- mia. Ou seja, nesta relação terapêutica o indivíduo se torna, literal- mente, agente e não paciente.

2. A expressão paciente está vinculada ao modelo médico de doença e cura. Paciente é o indivíduo que tem uma doença e que precisa ser curado. No entanto, os conceitos de doença e cura não são aplicáveis à psicoterapia 7 . Uma doença é uma entidade que pode ser identificada de forma Objetiva através de procedimentos diagnós- ticos precisos. Ela possui uma etiologia definida e pode ser "remo- vida" do organismo através de intervenções médicas também defi- nidas de forma Objetiva. Isto é, toda doença possui uma "existência" Objetiva, mensurável e possui causas, tratamentos e prognósticos que podem ser identificados objetivamente. Mas os conflitos existenciais, as dificuldades emocionais e o sofrimento psíquico que levam um indivíduo a procurar ajuda através da psicoterapia não possuem as características "objetivas" de uma doença. Por este motivo, não pode- mos afirmar que a psicoterapia cura doenças, assim como as ques- tões existenciais que geram sofrimento psíquico no indivíduo não podem ser consideradas como doenças*. Ou seja, o indivíduo que procura auxílio na psicoterapia não está doente e, portanto, não pode ser chamado de paciente.

1. No livro Terapia Centrada no Cliente, Rogers dedica grande parte do capítulo cinco à análise da incompatibilidade entre o modelo médico e o processo psicoterapêutico.

8. Szasz afirma que o conceito de "doença mental" é uma falácia: "Doenças cerebrais são doenças cerebrais e as doenças mentais não são absolutamente doenças". (Szasz, 1978, p. 116)

6. O desenvolvimento pioneiro de pesquisas em psicoterapia

Em 1945, Rogers foi convidado a lecionar na Universidade de Chicago e a estabelecer, nesta universidade, um centro de aconselha- mento baseado nos princípios da abordagem não-diretiva. Em Chi- cago, junto com uma grande equipe de colaboradores, na maior par- te, seus alunos, Rogers desenvolveu um trabalho pioneiro para a sua época: a pesquisa científica em psicoterapia. Rogers já inovara em Ohio ao ser o primeiro psicoterapeuta a registrar através de grava- ções sonoras as sessões de terapia e a torná-las disponíveis para a comunidade profissional, contribuindo, desta maneira, para a "desmis- tificação" 9 da psicoterapia. Nat Raskin, um dos seus colaboradores mais próximos em Chicago afirmou que Rogers atravessou completa- mente o labirinto de mistério que rodeava o trabalho dos psicotera- peutas em geral. w

Entretanto, a busca deste conhecimento científico e objetivo sobre a psicoterapia representava, para Rogers, um grande conflito, pois a sua experiência como terapeuta possuía uma qualidade essen- cialmente subjetiva que ele sabia que não poderia ser adequadamente traduzida ou simbolizada através da conceituação fria e rigorosa da ciência. Rogers sentia-se dividido entre o mundo da sua experiência subjetiva, "quase mística", de terapeuta e o mundo objetivo do seu trabalho como cientista." Assim, no prefácio do livro Terapia Centra- da no Cliente, Rogers tenta esclarecer o significado que tinha, para ele e para sua equipe, a busca deste conhecimento científico:

"Mas é também um livro sobre mim e os meus colegas, que empreendemos a análise científica desta experiência viva,

9. Bozarth (1998) afirma que "Rogers foi a principal figura na desmistificação da psicoterapia, principalmente através do uso de gravações sonoras e filmes. Rogers e seus colegas foram o primeiro grupo a usar gravações para examinar as sessões de terapia e torná-las disponíveis à comunidade profissional. De fato, eles começaram com o uso de gravadores de "rolo" e discos de vidro, que eram incómodos e desajeitados para o uso. Na verdade, Rogers foi um dos primeiros indivíduos a tornar suas próprias sessões de terapia disponíveis para averiguação pública em gravações sonoras e filmes." p. 14

10. Raskin, (1948).

11. Rogers escreveu um artigo "Pessoa ou Ciência:? Uma Questão Filosófica", onde descreve precisamente este seu conflito. Este artigo encontra-se publicado no livro de John Wood, Abordagem Centrada na Pessoa e também no livro Tornar-se Pessoa.

44

emocional. É sobre os nossos conflitos neste aspecto - a per- cepção vigorosa de que o processo terapêutico é rico em nuances, complexidades e sutilezas, e a nossa crença, igual- mente vigorosa, de que a descoberta científica, a generali- zação, é fria, sem vida, destituída da plenitude da experiên- cia. Mas o livro também expressa, confio eu, a nossa crescen- te convicção de que, embora não possa formar terapeutas, a ciência pode auxiliar a terapia; de que, embora seja fria e abstraía, a descoberta científica pode nos assistir na libera- ção de forças que são quentes, pessoais, complexas; e de que embora seja lenta e hesitante, a ciência representa o melhor caminho conhecido para a verdade, mesmo numa área tão delicadamente intricada como a das relações humanas. " n

A

concepção de ciência que Rogers tinha nesta época era estritamen-

te

positivista. No meio cultural e académico em que vivia, esta era a

única concepção de ciência aceita e reconhecida. Assim, as pesqui- sas que Rogers e sua equipe desenvolveram na Universidade de Chi- cago consistiam basicamente em "testes" ou "verificações" de hipó- teses, seguindo um modelo rigorosamente experimental e estatístico. Contudo, estas hipóteses, que eram descritas de forma operacional e testadas com métodos estritamente quantitativos se originaram, primariamente, da sua experiência pessoal e subjetiva como terapeuta. Ou seja, Rogers utilizava inteiramente a sua subjetividade, na sua experiência pessoal com os clientes, como fonte e origem de suas hipóteses sobre a psicoterapia. No entanto, ele considerava que este conhecimento, obtido através da sua experiência subjetiva, não teria valor se não fosse "comprovado" ou verificado pelos métodos da ciência.

No campo da pesquisa em psicoterapia, Rogers foi tremenda-

mente inovador. Até então, as hipóteses sobre a psicoterapia jamais haviam sido "postas à prova" por nenhuma outra abordagem. Rogers

e sua equipe foram também extremamente criativos ao inventarem

novos procedimentos para verificação de hipóteses, como a técnica <2 13 de Stephenson e o Relationship Inventory de Barret-Lennard.

12. Rogers, 1992, p. 4

13. No livro Terapia Centrada no Cliente, numa nota de rodapé à página 163, (na edição de 1992) Rogers descreve sucintamente a aplicação da técnica Q à pesquisa sobre a alteração da percepção do eu na psicoterapia.

45

Estas pesquisas eram realizadas no Centro de Aconselhamento da Universidade de Chicago, dirigido por Rogers, que atendia uma mé- dia de 800 a mil pessoas por ano.

Esta brilhante atividade de Rogers como pesquisador lhe pro- piciou um enorme prestígio junto à comunidade científica e profis-

sional americana, tornando-se editor de duas prestigiadas revistas científicas de psicologia - o "Journal of Counsulting Psychology" e o "Aplied Psychology Monographs - e sendo eleito presidente da Associação Americana de Psicologia (American Psychological

Association), em

1943.

7. A confiança na capacidade do cliente

Desde a conferência proferida em Minnesota, em 1940, Rogers já considerava que uma das características essenciais dessa nova abordagem em psicoterapia era a confiança na tendência do indiví- duo para o crescimento e para a maturidade. Com o passar dos anos, esta confiança foi se fortalecendo ainda mais. Rogers percebeu que quanto mais ele confiava na capacidade do seu cliente para superar autonomamente suas dificuldades, mais o cliente correspondia a essa confiança, liberando as forças internas de crescimento que até então tinham permanecido bloqueadas.

Assim, num artigo publicado em 1946, chamado "Aspectos significativos da terapia centrada no cliente" 14 , Rogers dedicou uma especial atenção ao que ele denominou de " a descoberta da capaci- dade do cliente":

"Basicamente, a razão para a previsibilidade do processo terapêutico está na descoberta - e uso esta palavra intencional- mente - de que no interior do cliente residem forças construti- vas cujo poder e uniformidade não têm sido reconhecidos inteiramente, como também têm sido bastante subestimados.

14. Rogers, C. R. (1946). Significam Aspecls of Client-Centered Therapy. The American Psycholoeist, 10,

415-422.

46

É a nítida e disciplinada confiança do terapeuta nessas forças internas do cliente que parece explicar a ordenação do processo terapêutico, bem como sua consistência de um cliente para outro. " i5

Neste pequeno trecho aparecem duas ideias muito importantes que foram progressivamente sendo desenvolvidas por Rogers e seus co- laboradores tanto através de pesquisas como através de novas e mais completas elaborações teóricas. A primeira ideia é a descoberta de que existem, em todos os indivíduos, forças construtivas de cresci- mento que até então não haviam sido reconhecidas por nenhuma abordagem psicoterapêutica. A segunda ideia presente aqui é a de que a confiança do terapeuta nestas forças internas do cliente, uma confiança nítida e disciplinada, é o que propicia o processo terapêutico.

A descoberta da existência de poderosas forças internas de crescimento e a firme confiança do terapeuta nestas forças, represen- tam, hoje, o aspecto mais revolucionário da terapia centrada no cli- ente. Lendo o que Rogers escreveu em 1946 em referência aos mo- delos psicoterapêuticos vigentes naquela época, podemos constatar que Rogers continua sendo tão revolucionário em relação aos pa- drões atuais do pensamento psicológico quanto fora há cinquenta anos atrás. Depois de analisar diversos estudos de caso publicados por psiquiatras e psicanalistas, Rogers concluiu que a confiança que estes terapeutas tinham em seus clientes era uma confiança muito limitada:

"É uma confiança de que o cliente pode assumir responsa- bilidade, se for guiado pelo especialista; uma confiança de que o cliente pode assimilar insight, se este lhe for propiciado primeiro pelo especialista; de que pode fazer escolhas, se nos pontos cruciais lhe for dada uma direção. E, em suma, o mes- mo tipo de atitude que uma mãe tem para com seu filho adolescente, que ela acredita ser capaz de tomar decisões pró- prias e guiar seu próprio caminho, contanto que ele tome a direção por ela aprovada. " w

15. Rogers, 1995a, p. 24

16. Roges, 1995a, p. 26.

47

Esta confiança do terapeuta nas forças internas de crescimento do

cliente tornou-se posteriormente o postulado fundamental da terapia centrada no cliente e a principal característica que a diferenciaria de todas as outras abordagens em psicoterapia. Em 1951, no livro "Te- rapia Centrada no Cliente", Rogers formulou de uma maneira mais precisa o significado destas "forças de crescimento"'. A partir dos estudos de Snygg, Combs, Angyal, Goldstein e outros, Rogers consta- tou que existe, em toda vida orgânica, uma. força direcional básica que se manifesta como uma tendência do organismo para preservar-

se e para mover-se na direção da maturação e da auto-realização de

suas potencialidades. Esta força direcional também se expressa como uma tendência do organismo para mover-se na direção de uma maior

independência, autonomia e auto-regulação como também na direção de uma maior socialização. Esta tendência direcional está presente na vida de todo organismo individual "desde a concepção até a maturação, em qualquer nível de complexidade orgânica" 11 .

Rogers considerou, então, que a tendência para o crescimento, para a maturidade e para a autonomia que ele observara em todos os seus clientes quando era oferecida, na relação terapêutica, uma atmos- fera de aceitação e liberdade, era, na realidade, a expressão desta força direcional básica originada no próprio funcionamento orgâni- co (ou organísmico) do indivíduo:

"Na terapia centrada no cliente, a pessoa é livre para esco- lher qualquer direção, mas, na realidade, ela seleciona cami- nhos positivos e construtivos. Eu só posso explicar isto em termos de uma tendência direcional inerente ao organismo humano - uma tendência para crescer, se desenvolver e reali- zar plenamente seu potencial"\ 1S

E a confiança do terapeuta nesta tendência do indivíduo para a auto-

preservação, crescimento, maturação, independência e socialização que caracteriza a relação terapêutica centrada no cliente:

"O terapeuta torna-se muito consciente de que a tendência de

movimento para frente do organismo humano é a base na qual

ele se apoia de maneira mais

firme

e fundamental. " I9

No livro "Terapia Centrada no Cliente", Rogers apresentou a pri- meira formulação da sua teoria da personalidade e do comportamen- to, na forma de dezenove proposições. Na IV Proposição ele afirma que todo organismo possui uma tendência básica à auto-realização, auto-manutenção e aperfeiçoamento. Posteriormente, em 1959, Rogers publicou a versão final da sua teoria da terapia e da persona- lidade entitulada "Uma teoria da terapia, personalidade e relacio- namentos interpessoais desenvolvida segundo a perspectiva centrada- no-cliente" 20 Nesta formulação de 1959, Rogers denominou esta ten- dência direcional de "actualizing tendency", que foi traduzida para o português como tendência atualizante.

A tendência atualizante está presente em todas as ações do indivíduo pois ela representa o fluxo natural da vida. Ela é o movi- mento, o processo direcional que caracteriza a própria natureza da vida. Isto é, a presença da tendência atualizante é o que nos permite distinguir um organismo vivo de um morto. Isto significa que a ten- dência atualizante pode ser frustrada, impedida ou desvirtuada, mas não pode ser destruída sem que se destrua também o organismo 21 .

Em 1977, no livro "Sobre o Poder Pessoal" 22 Rogers utilizou uma imagem originada de suas lembranças da infância, a imagem de uma caixa de batatas que brotaram mesmo na escuridão gelada do porão de sua casa, como uma metáfora da maneira como a tendência atualizante se manifesta mesmo sob as condições mais desfavorá- veis. Esta metáfora tornou-se bastante conhecida devido à beleza, profundidade e sensibilidade como foi apresentada por Rogers:

"Lembro-me de que, na minha infância, a lata na qual arma-

19. Rogers, 1992, p.556.

20. A theory of therapy, personality, and interpersonal relationships as developed in the client-centered framework. Publicado em S. Koch (ed) Psychology: A study of science: Vol. 3 Formulation of the person and the social context: New York: McGraw Hill. (este trabalho foi publicado no Brasil em 1977 no livro "Psicoterapia e Relações Humanas" - escrito em conjunto com Marian Kinget)

17. Rogers, 1992, p. 555

21. Rogers, 1983, p. 40.

18. Rogers. 1986, p. 127.

22. Título original em inglês: Cari Rogers on Personal Power

48

49

zenávamos nosso suprimento de batatas para o inverno ficava no porão, quase um metro abaixo de uma pequena janela. As condições eram desfavoráveis, mas as batatas começaram a brotar - brotos brancos, pálidos, tão diferentes dos brotos verdes saudáveis que exibiam quando plantadas no solo na primavera. Porém, esses brotos espigados, tristes, poderiam crescer de 60 a 90 centímetros de comprimento à medida que buscavam a luz distante da janela. Em seu crescimento fútil, bizarro, eram uma espécie de expressão desesperada da ten- dência direcional que estou descrevendo. Nunca se tornariam uma planta, nunca amadureceriam, nunca preencheriam suas potencialidades reais. Entretanto, sob as mais adversas cir- cunstâncias, lutavam para tornar-se. Não desistiriam da vida, mesmo se não pudessem florescer. Ao tratar de clientes cujas vidas têm sido terrivelmente emaranhadas, ao trabalhar com homens e mulheres em relegadas enfermarias de hospitais públicos, penso frequentemente naqueles brotos de batata. Eoram tão desfavoráveis as condições nas quais essas pesso- as se desenvolveram, que suas vidas muitas vezes parecem anormais, distorcidas, dificilmente humanas. Entretanto, deve- se confiar na tendência direcional que nelas existe. O indício para entender seu comportamento : de que estão lutando, do único modo que lhes é possível, para alcançar o crescimento, para tornar-se alguém. Para nós, os resultados podem pare- cer bizarros e inócuos, mas são tentativas desesperadas de vida para tornarem-se elas próprias. É esta potente tendência que constitui a base subjacente à terapia centrada no cliente e tudo o que se desenvolveu a partir dela. " 23

Todo ser humano possui uma força interna de crescimento, de integração e de socialização que está sempre presente, mesmo quan- do suas atitudes e o seu comportamento tornam-se destrutivos ou anti-sociais. O que ocorre, nestes casos, é que a tendência atualizante do indivíduo teve a sua expressão impedida ou distorcida pelas con- dições desfavoráveis de sua existência. O anseio básico de todo indi- víduo é sempre o de buscar o crescimento, o desenvolvimento de suas potencialidades e a integração com os outros seres humanos. A

23. Rogers, 1986, p. 17.

50

motivação básica de todas as ações humanas é sempre a de buscar mais vida. Por trás de gestos destrutivos, anti-sociais e irracionais está presente ainda, mesmo que de uma forma distorcida e irreconhe- cível, este anseio de vida e crescimento. Um exemplo clássico e paradigmático deste tipo de distorção na expressão da tendência atualizante é o da pessoa que tenta o suicídio. Pode-se olhar para esta pessoa como sendo alguém que apresenta um forte impulso auto- destrutivo ou que age movida por um irresistível impulso de morte. No entanto, o que Rogers percebeu, na sua experiência como psico- terapeuta, foi precisamente o contrário: quando esta pessoa vivenciava uma relação terapêutica na qual se sentia incondicionalmente aceita e empaticamente compreendida por uma pessoa congruente 2 *, este anseio auto-destrutivo revelava ser, na verdade, um anseio de vida!! Na segurança da relação terapêutica, a pessoa conseguia expressar que o que ela queria, na verdade, era mais vida, era uma vida com afeto, com compreensão, com trocas significativas com outros seres humanos, uma vida em que pudesse crescer e desenvolver seus po- tenciais. Entretanto, o suicídio se tornara, paradoxalmente, a única maneira com que ela conseguia expressar este anseio de vida.

Esta é uma maneira de olhar para o ser humano completamen- te distinta da maneira tradicional com que a psicologia clínica e a psiquiatria olham para os indivíduos que não se comportam de ma- neira "normal". Ao invés de conceber as atitudes e os comportamen- tos destrutivos, anti-sociais ou irracionais como sintomas de trans- tornos 25 afetivos ou de personalidade, a terapia centrada no cliente os vê como expressões distorcidas de uma tendência positiva e cons- trutiva que não obteve as condições necessárias para realizar sua fun- ção de crescimento, auto-realização e socialização. Por este motivo, a função da psicoterapia deve ser simplesmente a de oferecer ao indi- víduo as condições necessárias para a liberação da sua tendência atualizante. Consequentemente, o terapeuta não precisa controlar o comportamento do cliente, não precisa condicioná-lo, guiá-lo, con- duzi-lo ou orientá-lo na direção da maturidade e do crescimento. O cliente possui dentro de si todos os recursos e toda a orientação que necessita - é preciso apenas facilitar a liberação deste poder, desta

24. A consideração positiva incondicional, a compreensão empática e a congruência são as três atitudes facilitadoras da terapia centrada no cliente, conforme veremos no capítulo 13.

25. O conceito de "transtorno mental" é somente um eufemismo criado pelo paradigma médico para substituir a criticada expressão "doença mental".

51

força de crescimento que teve a sua expressão* distorcida ou enfraquecida.

Ou seja, a concepção de homem na abordagem centrada no cliente leva a uma subversão completa da concepção tradicional de psicoterapia. Ao invés do terapeuta ser um especialista (expert) que procura controlar o comportamento e as atitudes do cliente com uma miríade de técnicas psicodiagnósticas e interventivas, a terapia centrada no cliente propõe uma inversão completa do locus de poder na relação terapêutica. Nela, o cliente é que é considerado o expert, pois ele é a pessoa melhor capacitada para compreender o significa- do de suas atitudes e para modificá-las da maneira que lhe for mais apropriada. O terapeuta mantém a autoridade e o locus de poder da relação do lado do cliente porque confia que ele é a pessoa melhor capacitada para tomar as decisões relacionadas tanto ao rumo da ses- são quanto ao rumo da sua própria vida. É como disse Rogers: "não é que esta abordagem dê poder à pessoa, ela nunca o tira" 26

Rogers inicia o livro "Sobre o Poder Pessoal" com o depoi- mento de um estudante de psicologia (Alan Nelson, que posterior- mente tornou-se um de seus mais íntimos colaboradores) a respeito da revolução realizada pela abordagem centrada no cliente no cená- rio das psicoterapias tradicionais:

"Passei três anos na graduação, aprendendo a ser um especi- alista (expert) em psicologia clínica. Aprendi afazer avalia- ções diagnosticas precisas. Aprendi as várias técnicas para alterar atitudes e comportamentos do sujeito. Aprendi modos sutis de manipulação, sob os rótulos de interpretação e orien- tação. Então, comecei a ler sua obra, que virou de cabeça para baixo (upset) tudo o que havia aprendido. Você dizia que o poder encontra-se, não na minha mente, mas no organismo do cliente. Você inverteu completamente o relacionamento de poder e controle que havia se desenvolvido em mim durante três anos. " 27

Neste sentido, ao afirmar que todo indivíduo é, em essência, um or-

26. Rogers, 1986, p. 10

27. Rogers, 1986, p. 13

ganismo digno de confiança, a abordagem centrada no cliente cons- titui-se como um paradigma revolucionário no campo da psicologia. As implicações políticas e sociais desta confiança radical no ser hu- mano são muito profundas:

"É óbvio que esta premissa da terapia centrada no cliente ( ) tem enormes implicações políticas. Nosso sistema educacio- nal, nossas organizações industrias e militares e muitos ou-

tros aspectos de nossa cultura assumem o ponto de vista de que a natureza do indivíduo é tal que não se pode confiar nele - ele deve ser guiado, instruído, recompensado, punido e con- trolado por aqueles que são mais sábios ou possuem status

superior. (

Portanto, a simples descrição da premissa fun-

damental da terapia centrada no cliente significa fazer-se uma afirmação política contestadora " 2S

)

8. A tendência direcional formativa

A tendência para o crescimento e o auto-aperfeiçoamento dos organismos vivos também pode ser considerada a expressão de uma tendência evolutiva de caráter mais geral, presente no universo como um todo. Com este objetivo, Rogers publicou, em 1978, um artigo entitulado "A tendência formativa" 29 no qual o conceito da tendência atualizante é visto numa perspectiva mais ampla como a manifesta- ção de uma tendência evolutiva cósmica, que atua tanto no nível inorgânico como no orgânico, na direção de uma ordem e complexi- dade crescentes.

Os físicos conhecem muito bem o fenómeno da entropia, que é a tendência que todos os sistemas físicos fechados apresentam de se degenerarem em direção a estados cada vez maiores de desordem e caos. O fenómeno da sintropia, entretanto, é menos conhecido. A sintropia é a tendência do universo para gerar formas de complexi- dade e ordem crescentes. Por exemplo, todas as galáxias e objetos

28. Rogers, 1986, p. 17-18

29. Rogers, CR. (1978) The formative tendency. Journal of Humanistic Psychology, 18(1), 23-26.

53

estelares foram formados a partir de simples partículas que se orga- nizaram em formas de extrema complexidade. Os organismos vivos da Terra também surgiram a partir de simples microrganismos que, através de um processo evolutivo incessante, geraram as formas complexas de vida animal e vegetal que hoje conhecemos. Cada ser humano, considerado individualmente, também evoluiu de um sim- ples óvulo fertilizado para uma estrutura orgânica extremamente complexa e organizada. Essa tendência do universo para gerar for- mas de ordem e complexidade crescentes, que foi denominada de sintropia pelo biólogo Szent-Syoergyi e de tendência mórfiça pelo historiador Lancelot Whyte, Rogers a denominou tendência direcional formativa:

"Defendo a hipótese de que existe uma tendência direcional formativa no universo, que pode ser rastreada e observada no espaço estelar, nos cristais, nos microorganismos, na vida or- gânica mais complexa e nos seres humanos. Trata-se de uma tendência evolutiva para uma maior ordem, uma maior com- plexidade, uma maior inter-relação. " 3U

A partir de 1980, com a publicação de "Um Jeito de Ser", Rogers passou a analisar o fenómeno da consciência humana sob esta pers- pectiva evolutiva da tendência direcional formativa. Assim, ele consi- derou a existência de níveis inferiores de consciência, no qual o indi- víduo age "na escuridão", sem consciência de sua experiência organísmica, isto é, sem consciência de seus sentimentos, emoções e reações fisiológicas. No nível inferior deste processo evolutivo, o indi- víduo possui uma autoconsciência mínima e por este motivo, sua ações não são escolhas bem fundamentadas, mas são determinadas pelos valores e crenças introjetados do qual não tem consciência. Subindo nesta escala evolutiva, o indivíduo vai se tornando progressivamente consciente de seus processos organísmicos, de seus sentimentos e emoções, com uma capacidade cada vez maior de simbolizar a sua experiência. Dessa forma, Rogers concebeu a aquisição da autoconsciência como o resultado de um processo evolutivo gerado por esta tendência direcional formativa do universo.

30. Rogers, 1983, p. 50

Neste sentido, a capacidade de autotranscendência da consci- ência humana, isto é, a aquisição de uma "consciência transcendente da harmonia e da unidade do sistema cósmico" 31 ', foi considerada como a expressão de um nível ainda mais elevado nesta escala evolutiva. Certos estados especiais de consciência, como as experi- ências místicas de transcendência ou de dissolução na unidade do cosmos, são as expressões mais elevadas desse fluxo evolutivo da consciência. A fim de ilustrar esta ideia, Rogers relatou a sua experi- ência pessoal com certos estados especiais de consciência que ocor- riam em seus melhores momentos como terapeuta ou facilitador de grupos. Esta descrição de sua experiência de um nível espiritual de consciência no seu trabalho como terapeuta tornou-se bastante co- nhecida e tem sido repetidamente citada por diversos autores que investigam as dimensões espirituais da terapia centrada no cliente:

"Quando estou em minha melhor forma, como facilitador de grupo ou como terapeuta, descubro uma nova característica. Percebo que quando estou o mais próximo possível de meu eu interior, intuitivo, quando estou de algum modo em contato com o que há de desconhecido em mim, quando estou, talvez, num estado de consciência ligeiramente alterado, então tudo

o que faço parece ter propriedades curativas. Nessas ocasiões,

a minha presença, simplesmente, libera e ajuda os outros. Não há nada que eu possa fazer para provocar deliberadamente

essa experiência, mas quando sou capaz de relaxar e de ficar próximo do meu âmago transcendental, comporto-me de um modo estranho e impulsivo na relação, que não posso justificar racionalmente e que não tem nada a haver com meus processos

de pensamento. Mas esses estranhos comportamentos acabam

sendo corretos, por caminhos bizarros: parece que meu espírito alcançou e tocou o espírito do outro. Nossa relação transcende

a si mesma e se torna parte de algo maior. Então, ocorrem uma capacidade de cura, uma energia e um crescimento profundos. " 32

31. Rogers, 1983, p. 46 e p.50.

32. Rogers, 1983, p. 47

9. A atitude centrada no cliente

Durante os anos em que Rogers esteve na Universidade de Chicago (de 1945 a 1957), dirigindo o Counseling Center, junto com uma grande equipe de pesquisadores, formada na maioria por seus alunos, ele dedicou-se intensamente a investigar quais os elementos verdadeiramente facilitadores da mudança terapêutica na psicoterapia. Como vimos no capítulo 7, a primeira descoberta importante formu- lada por Rogers neste período foi a da existência de insuspeitadas forças de crescimento no cliente que eram liberadas através do clima aceitador e compreensivo da relação terapêutica. Outra descoberta importante que foi sendo gradualmente formulada e desenvolvida por Rogers e sua equipe foi a descoberta da importância do referencial da estrutura interna (internai frame ofreference) do cliente. Assim, em 1946, Rogers 33 escreveu:

"Com o passar do tempo, fomos colocando uma ênfase cada vez maior na natureza desse tipo de relação, "centrada no

cliente ", pois sua eficácia será maior quanto mais completa- mente o conselheiro 34 se empenhar em tentar compreender o

Começa-

mos a reconhecer que, se pudermos compreender a maneira como o cliente vê a si próprio nesse momento, ele poderá fa- zer o resto. O terapeuta deve deixar de lado sua preocupação

com o diagnóstico e sua argúcia diagnostica, deve livrar-se da tendência de fazer avaliações profissionais, deve parar com suas tentativas de formular um prognóstico acurado, deve re- nunciará tentação de guiar sutilmente o indivíduo e deve con- centrar-se num único propósito: a compreensão e a aceitação profundas das atitudes conscientemente assumidas nesse mo- mento pelo cliente, enquanto ele explora, passo a passo, as

É essa sen-

cliente da forma como o cliente vê a si próprio. (

)

áreas perigosas que tem negado à consciência.(

)

33. Rogers, (1946). Significam Aspects of Client-Centered Therapy. The American Psychologist, voi 1 (10):

415-422. Este artigo encontra-se publicado em português no livro do John Wood, Abordagem Centrada na Pessoa.

34. Rogers utilizava a expressão "conselheiro" nos seus primeiros escritos devido à legislação americana da época que não permitia aos psicólogos atuarem como psicoterapeutas. Em algumas traduções para o português o termo "counselor" foi traduzido como "orientador" ao invés de "conselheiro". Entretanto, o sentido da expressão "counselor", nos textos de Rogers, é sempre o de "terapeuta".

56

sível e autêntica centralização no cliente que considero como a terceira característica 35 da terapia não-diretiva que a dis- tingue das demais abordagens. " 36

Centrar-se no cliente ou assumir o referencial da estrutura interna do cliente significa perceber o cliente da maneira como ele próprio se percebe, isto é, mergulhar profundamente no mundo do cliente para poder vê-lo como ele próprio se vê e compreendê-lo como ele pró- prio se compreende. Quando olhamos para uma pessoa a partir de nossa própria visão de mundo, a partir de nossos conceitos, ideias e valores, estamos adotando nosso próprio referencial, que é externo a esta pessoa. Estamos, assim, nos colocando numa postura de obser- vadores externos. Mas se, ao contrário, tentarmos perceber esta pes- soa da forma como ela mesma se percebe, tentando senti-la como ela se sente, tentando entrar na sua pele e ver com os seus olhos, estare- mos adotando o seu referencial, isto é, estaremos centrados nela. Deixaremos de ser observadores para sermos participantes, para vi- vermos junto com ela os sentimentos e as atitudes que ela está ten- tando expressar. Raskin, um dos colaboradores mais próximos de Rogers durante os anos de Chicago, considerou que esta atitude de centralização no cliente "produz uma mudança radical na nature- za do processo de aconselhamento 37 . Nesse nível, a participação do conselheiro torna-se um experimentar ativo, junto com o cliente, dos sentimentos que ele expressa; o conselheiro esforça-se ao máximo para entrar na pele da pessoa com quem está se comunicando, ten- tar chegar dentro e viver as atitudes expressas, em vez de observá-

numa palavra, absorve-se completamente nas atitudes do

las

(

)

outro. E, no esforço de conseguir isso, simplesmente não há espaço para qualquer outro tipo de atividade ou atitude de aconselhamento; se ele estiver tentando vivenciar as atitudes do outro, não poderá estar diagnosticando-as, não poderá estar pensando em acelerar o processo. Por ser ele outro, e não o cliente, a compreensão não é

35. As outras duas características a que Rogers se refere, que distinguem a abordagem não-diretiva das outras abordagens são a previsibilidade do processo terapêutico (isto é, a ocorrência de um padrão previsível de desenvolvimento terapêutico) e a confiança na capacidade do cliente.

36. Rogers, 1946, pp. 420-421

37. Lembrando mais uma vez que a expressão "aconselhamento" e "conselheiro" são utilizadas aqui no sentido de "psicoterapia" e "terapeuta". Nesta época, a profissão de psicoterapeuta, nos EUA, só podia ser exercida por médicos psiquiatras, por este motivo, Rogers e seus colaboradores utilizavam a expressão "aconselhamento" em referência ao seu trabalho para poderem se adequar a esta legislação.

57

espontânea, devendo portanto ser adquirida - e isto através da mais intensa, contínua e ativa atenção aos sentimentos do outro, com a exclusão de qualquer outro tipo de atenção."^

A fim de tornar mais claro o significado desta atitude de centrar-

se no cliente, apresentaremos alguns exemplos extraídos do livro "Terapia Centrada no Cliente" 39 . A partir de frases comunicadas pelo cliente, mostraremos duas maneiras possíveis de tentar compreendê- lo: adotando um referencial externo a ele (o referencial do terapeuta) ou adotando o referencial do próprio cliente.

C:

"Achei que teria alguma coisa para falar

mas de repente

tudo parece andar em círculos. Fiquei tentando imaginar

o que iria dizer. Mas quando cheguei aqui isso não funci-

onou

Sabe, antes de eu vir parecia que ia ser bem mais

fácil

°

Adotando um referencial externo ao cliente:

Talvez eu devesse ajudá-lo a começar a falar.

o

Adotando o referencial interno do cliente:

É realmente difícil para você começar

C: Sabe, não consigo tomar uma decLão. Não sei o que quero.

Tentei raciocinar logicamente sobre isso que coisas são importantes para mim.

tentei descobrir

° Adotando um referencial externo ao cliente Por que essa indecisão? Qual poderia ser a causa?

° Adotando o referencial interno do cliente A tomada de decisões parece simplesmente impossível para você.

C: Então me vejo com meus pensamentos voltando para a época em que eu era criança, e choro com muita facilidade. A represa fica a ponto de estourar.

° Adotando um referencial externo ao cliente:

O choro, a "represa " parecem indicar que há muita repressão

38. In Rogers, 1992, pp. 38-39

39. Rogers, 1992, pp.42-44

58

° Adotando o referencial interno do cliente:

Você se sente transbordando com sentimentos infantis

C: Adoro crianças. Quando eu estava nas Filipinas - sabe, quando eu era mais jovem jurei que jamais me esqueceria de minha infância infeliz - então, quando vi aquelas crian- ças nas Filipinas, tratei-as muito bem. Costumava dar sor- vetes a elas e levá-las ao cinema. Foi só um período - eu tinha voltado para trás - e isso despertou algumas emo- ções em mim que eu acreditava já ter enterrado há muito tempo. (Uma pausa. Ele parece prestes a chorar)

° Adotando um referencial externo ao cliente:

Em algum momento ele provavelmente precisará mexer com essas experiências infelizes da infância. O que significa esse interesse por crianças? Identificação? Uma vaga homosse- xualidade?

° Adotando o referencial interno do cliente:

Ser muito bom para as crianças teve, de alguma forma, um

significado para você. Mas foi,

uma experiência

e ainda

é,

perturbadora

para

você.

O reconhecimento da importância fundamental desta atitude de ado- tar o referencial interno do cliente levou Rogers e seus colaborado- res a modificarem, no final dos anos 40, a maneira com que se refe- riam à sua abordagem: o termo não-diretivo, desta forma, acabou sendo substituído gradativamente pela expressão centrado-no-cli- ente. Entretanto, a utilização da expressão terapia centrada no cli- ente foi recebida com bastante crítica pelos expoentes de outras abor- dagens porque eles afirmavam que todas as psicoterapias são "centradas no cliente" na medida em que o cliente é sempre o centro do interesse de qualquer terapeuta. Assim, para explicitar o verda- deiro sentido da expressão terapia centrada no cliente e diferenciá- las das outras abordagens, Raskin afirmou, em 1948:

"O ponto de vista não-diretivo neste aspecto é o de que na medida em que outros referenciais que não o do cliente são introduzidas na situação terapêutica, a terapia não é centrada no cliente. O freudiano introduz seu próprio referencial na

59

hora terapêutica em virtude da sua crença de ele.tem um co-

nhecimento do inconsciente que é superior ao do seu paciente

o qual tem que ser utilizado para poder compreendê-lo. ( )

O terapeuta não-diretivo acredita que enquanto o conselheiro estiver envolvido com o seu próprio referencial ele será inca- paz de prover uma compreensão plena e profunda das percep-

ções e sentimentos do cliente". 40

Mas qual a vantagem de adotar o referencial interno do cliente ao invés de adotar o referencial do terapeuta, como sempre foi a atitude tradicional nas outras abordagens psicoterapêuticas? Para que ou por que adotar esta atitude centrada-no-cliente?

Rogers e sua equipe descobriram, na prática clínica, que a melhor maneira de compreender um indivíduo é a partir do seu pró- prio campo perceptual. A adoção do referencial da estrutura interna do indivíduo permite uma compreensão muito mais profunda e sig- nificativa da dinâmica da sua personalidade e do seu comportamento do que aquela que é obtida através de categorias diagnosticas ou con- ceitos teóricos externos ao seu campo de experiência. Esta ideia foi posteriormente desenvolvida e apresentada na teoria da personalida- de e do comportamento publicada em 1951 na forma de dezenove proposições, no livro Terapia Centrada no cliente. Neste sentido, a proposição VII diz que:

"O melhor ponto de observação para compreender o comportamento é o referencial da estrutura interna do próprio indivíduo ".

Rogers afirma, nesta proposição, que "a única maneira significati- va" de se compreender o comportamento de uma pessoa é compreendê-lo da forma como a própria pessoa o percebe:

e

atividade

"Quando

sem

isto

é feito,

são

vistos

os

vários comportamentos

como

sendo parte

meta" 4i .

uma

de

estranhos

sentido

e

uma

significativa

dirigida para

40. Raskin, 1948.

41. Rogers, 1992, p. 562

60

A partir desta descoberta de que o comportamento do indivíduo só pode ser compreendido de maneira significativa a partir do referencial do próprio indivíduo, Rogers formulou o conceito central da sua teo- ria da personalidade e do comportamento, que é o conceito de campo perceptual ou campo da experiência. O campo da experiência é o mundo de experiências do indivíduo, do qual ele é o centro 42 . "O mundo da experiência é, para cada indivíduo, num sentido muito significativo, um mundo particular", é um mundo que "só pode ser conhecido, num sentido completo e autêntico, pelo próprio indiví- duo" 43 . Entretanto, este mundo particular, que só pode ser conhecido pela própria pessoa, é a realidade para esta pessoa. Ou seja, a reali- dade é tudo aquilo que a pessoa percebe - e da maneira como ela percebe - no seu campo de experiência. 44 É por este motivo que o comportamento só pode ser compreendido, de maneira significativa, a partir do referencial da estrutura interna do indivíduo e que a utilização de qualquer referencial externo é completamente ineficaz para compreender as motivações e o sentido da sua conduta.

As implicações destas descobertas para a psicoterapia são re- volucionárias e radicais. Adotar o referencial interno do cliente ao invés de adotar referenciais externos representa, de fato, uma revolu- ção tão profunda na forma de compreender o ser humano quanto a revolução realizada por Copérnico no campo da astronomia. Ainda em 1947, em palestra proferida ao término do seu mandato como presidente da Associação Americana de Psicologia, (posteriormente publicada com o título "Some observation on the Organization of Personality" 45 ), Rogers apresentou algumas destas revolucionárias implicações tanto para a prática clínica quanto para a pesquisa teórica sobre personalidade. Rogers afirmou que as histórias de caso, as avaliações psicométricas e os rótulos diagnósticos deveriam ser minimizados e até mesmo descartados da prática clínica e de pesqui- sa, já que estes procedimentos são baseados em referenciais exter-

42. Esta ideia está expressa na Proposição I da teoria da personalidade de 1951: "Todo indivíduo existe num mundo de experiências em constante mutação do qual ele é o centro". (Rogers 1992, p. 549)

43. Rogers, 1992, p. 550.

44. Esta ideia está expressa na Proposição II: "O organismo reage ao campo da maneira como este é experimentado e percebido. O campo perceptivo é, para o individuo, a realidade" (Rogers, 1992, pp.550-551)

45. Publicado em The American Psychologist, vol 2(9): 358-368 e traduzido e publicado em português no livro do John Wood (1995), Abordagem Centrada na Pessoa, pp. 39-69

61

nos, que não expressam a maneira como o indivíduo experencia a si mesmo. As elaboradas histórias de caso, "cheias de informações so- bre a pessoa como um objeto ", as avaliações psicométricas e os ró- tulos diagnósticos são, na realidade, inúteis e irrelevantes, pois não fornecem uma compreensão do indivíduo a partir do referencial da sua estrutura interna 46 .

10. As objeções ao diagnóstico psicológico

As descobertas revolucionárias de Rogers no campo da psicoterapia - a existência da tendência atualizante e a constatação de que a melhor perspectiva para se compreender o comportamento de um indivíduo é a partir do referencial da sua estrutura interna - conduziram-no à conclusão inevitável de que o diagnóstico psicoló- gico não somente é desnecessário como é também prejudicial ao desenvolvimento do processo terapêutico 47 .

A aplicabilidade e a necessidade do psicodiagnóstico está ba- seada na pressuposição de que o modelo médico de doença - toda doença possui causas específicas, procedimentos terapêuticos espe- cíficos e prognósticos previsíveis - é da mesma forma aplicável e necessário no campo dos transtornos de personalidade e de compor- tamento 48 . Entretanto, o paradigma médico não pode ser aplicado à compreensão da personalidade e do comportamento porque, como vimos anteriormente 49 , o comportamento de um indivíduo é causado pela sua percepção particular da realidade e, portanto, somente o próprio indivíduo é "capaz de conhecer completamente a dinâmica de suas percepções e de seu comportamento" 50 . Por este motivo, se- gundo Rogers, o verdadeiro diagnosticador, na terapia centrada no cliente, é o próprio cliente.

46. Rogers, 1995, p. 66

47. Ver capítulo 5 de Terapia Centrada no Cliente sobre as objeções de Rogers ao diagnóstico psicológico.

48. Ver capítulo 5 , O cliente não é um paciente.

49. No capítulo 9, A atitude centrada no cliente.

50. Rogers, 1992, p. 255.

10.1. O psicodiagnóstico é desnecessário para o sucesso da psicoterapia

obtém sobre as

causas do comportamento do cliente não tem qualquer utilidade do ponto de vista terapêutico. Como veremos no próximo capítulo (a teoria do auto-conceito), a mudança terapêutica somente ocorre a partir da experiência que o cliente tem da inadequação de seus ve-

lhos modos de percepção e não do conhecimento intelectual sobre essa inadequação. Neste sentido, diz Rogers:

O conhecimento intelectual que o terapeuta

"Para que o comportamento mude, é necessário que seja ex- perimentada uma mudança na percepção. O conhecimento in- telectual não pode ser um substituto para essa experiência. " 5I

O

psicodiagnóstico fornece ao terapeuta um conhecimento intelectu-

al

obtido a partir de um referencial externo ao cliente. Consequente-

mente, é um tipo de conhecimento que não contribui para a mudança terapêutica, pois o processo de reorganização do eu que ocorre na psicoterapia é um processo que reside essencialmente na experiên-

cia do cliente e, portanto, não pode vir de fora dele. O conhecimento intelectual obtido pelo terapeuta a partir do diagnóstico não ajuda o cliente a perceber a inadequação de suas percepções nem tampouco

o ajuda a experimentar novas percepções, mais exatas e adequadas.

Se o terapeuta comunica ao cliente um conhecimento intelectual sobre as causas do seu comportamento ou se lhe dirige a atenção para as áreas que ele diagnosticou como problemáticas, o cliente será incapaz de fazer um uso terapêutico dessas informações. Ao contrário, tenderá a resistir ou a se defender, pois este conhecimento pode ser percebido como uma ameaça 52 . O cliente só conseguirá explorar as áreas de conflito de sua experiência quando se sentir capaz de suportar essa experiência. É inútil tentar apressá-lo, explicando-lhe as causas do seu comportamento, pois o conhecimento que vem de fora (do terapeuta) não substitui o conhecimento que se origina da própria experiência do cliente, pois é somente este conhecimento que gera a mudança terapêutica.

51. Rogers, 1992, p. 255

52. Sobre o conceito de "ameaça" e "defesa", ver capítulo 11, a teoria do auto-conceito.

O psicodiagnóstico também tem sido utilizado para definir o

tipo de psicoterapia a ser indicada para o "paciente". Esta utilização do psicodiagnóstico parte da pressuposição de que "existem terapias específicas para transtornos mentais específicos" 57, . Mas a terapia centrada no cliente, ao contrário das outras abordagens, utiliza um único tipo de tratamento para todos os casos 54 . Portanto, o psicodiag- nóstico, também por esta perspectiva, continua sendo totalmente irrelevante para o sucesso da terapia centrada no cliente.

10.2. O psicodiagnóstico é prejudicial para o indivíduo

O psicodiagnóstico é uma avaliação feita a partir de um

referencial externo ao indivíduo. Portanto, ao realizar um psicodiag- nóstico, o terapeuta está assumindo o locus da avaliação na relação com o cliente. Esta avaliação implica também, inevitavelmente, num julgamento por parte do terapeuta. As atitudes, comportamentos e sentimentos do indivíduo são julgados, através do psicodiagnóstico, como adequados ou inadequados, saudáveis ou patológicos, madu- ros ou imaturos e etc. Além disso, ao fazer u. I diagnóstico o terapeuta também está assumindo a responsabilidade pela compreensão do cliente. Ou seja, o diagnóstico psicológico coloca claramente o locus da avaliação, do julgamento e da responsabilidade pela compreensão do cliente nas mãos do terapeuta, e isto acarreta graves prejuízos ao desenvolvimento do processo terapêutico. No capítulo 5 do livro Terapia Centrada no Cliente, Rogers descreve algumas das conse- quências prejudiciais do diagnóstico psicológico para o processo terapêutico 55 :

° O psicodiagnóstico gera no cliente a desestimulante constatação de que ele "não é capaz de conhecer a si mes- mo", acarretando uma perda da sua confiança básica.

53. Bozarth considera esta pressuposição como uma falácia e a denomina de " o mito da especificidade". Ver o capítulo 19 do livro de Bozarth (1998), Person-Centered Therapy: a revolutionary paradigm.

54. Shlien, 1989.

55. Rogers, 1992, p. 257

64

° A colocação do locus do julgamento nas mãos do terapeuta acarreta um certo grau de perda de identidade à medida em que o cliente passa a acreditar que só o terapeuta "pode avaliá-lo com exatidão e que, portanto, a medida de seu valor pessoal encontra-se nas mãos de uma outra pessoa. Quanto mais assume essa atitude, mais distante parece es- tar de qualquer resultado terapêutico sólido, de qualquer crescimento psicológico real."

° A colocação do locus da responsabilidade pela compreen- são do cliente nas mãos do terapeuta reforça as tendências dependentes que possam existir no cliente. "Quando o cli- ente sente que o locus de julgamento e responsabilidade está claramente nas mãos do terapeuta, ele se encontra mais dis- tante do progresso terapêutico do que quando começou. "

Além das consequências prejudiciais do ponto de vista do progresso terapêutico, o psicodiagnóstico também possui consequências noci- vas num sentido social mais amplo. Rogers considera que a coloca- ção do locus da avaliação do indivíduo nas mãos do especialista acarreta uma situação social em que poucos passam a ter o controle sobre muitos:

"Não se pode assumir a responsabilidade de avaliar as capa- cidades, os motivos, os conflitos, as necessidades de uma pes- soa, o ajustamento que ele é capaz de alcançar, o grau de

reorganização que deve enfrentar, os conflitos que deve resol- ver, o grau de dependência que deve desenvolver em relação ao terapeuta, e as metas da terapia, sem que um grau signifi- cativo de controle sobre o indivíduo seja inevitável. A exten- são desse procedimento a um número cada vez maior de pes-

soas (

significa um controle sutil de pessoas, seus valores e

metas por um grupo que se elegeu para exercer esse controle. O fato de se tratar de um controle sutil e bem-intencionado apenas dificulta que as pessoas percebam o que estão acei-

tando

)

" 56

56. Rogers, 1992, p.258

65

11. A teoria do auto-conceito

Desde a publicação de Counseling and Psychotherapy, em 1942, as formulações teóricas da terapia centrada no cliente foram continuamente aprofundadas e pesquisadas até serem finalmente ar- ticuladas, em 1951, numa estrutura teórica consistente publicada na forma de 'dezenove proposições' no livro Terapia Centrada no Cli- ente. Os conceitos e princípios teóricos desenvolvidos por Rogers e seus colaboradores surgiram diretamente da experiência clínica e de pesquisa vivenciada nas salas de atendimento do Counseling Center da Universidade de Chicago. No prefácio do livro Terapia Centrada no Cliente, Rogers explicita esta relação existente entre a prática da terapia e a sua teoria afirmando que a frágil flor da teoria deve sem- pre brotar do sólido terreno da experiência e que reverter esta ordem natural seria uma atitude insensata 51

O auto-conceito

O conceito de eu surgiu na teoria da terapia centrada no clien- te pelo fato dos clientes, durante a terapia, frequentemente se referi- rem ao seu eu e focalizarem seus problemas e progressos em termos do seu "eu real". Era bastante comum o cliente dizer que não estava sendo seu verdadeiro eu ou que nem sequer sabia qual era de fato seu verdadeiro eu e, quando sentia que estava progredindo, dizia que estava se tornando mais verdadeiramente ele mesmo. Rogers observou que algumas expressões eram usadas com bastante frequên- cia pelos seus clientes, como, por exemplo:

"Sinto que não estou sendo meu eu real"

"Foi bom abandonar-me a mim mesmo e ser somente eu, aqui"

Rogers se perguntava qual o significado destas experiências, tão co- muns ao longo do processo terapêutico. O que significaria, para um indivíduo, ser o seu verdadeiro eul O que seria um eu não-real, um eu não-verdadeirol

57. Rogers, 1992, p.24

Para compreender este fenómeno, Rogers considerou que uma

dimensão do campo total da experiência do indivíduo se diferencia-

ria e se estruturaria como um padrão organizado de percepções do eu

e do eu-em-relacionamento com os outros e com o ambiente. Este

padrão organizado de percepções do eu recebeu o nome, na teoria

da

personalidade de Rogers, de autoconceito 58 . Assim, o autoconceito

de

um indivíduo seria composto dos seguintes elementos:

° suas percepções das próprias características e habilidades;

° percepções e conceitos em relação aos outros e ao ambiente;

° qualidades de valor que são percebidas nas experiências;

° metas e ideais que são percebidos como tendo valor positivo ou negativo.

O

indivíduo sempre procura agir de uma maneira coerente com as

suas percepções e valores. Dessa forma, o auto-conceito constitui um quadro de referência para as suas escolhas, atitudes e comporta- mentos. Consequentemente, para se obter uma mudança no compor- tamento e na personalidade, que é o objetivo de toda psicoterapia, é necessário que ocorra, primeiramente, uma mudança no auto-con- ceito. Segundo Rogers, as modificações no comportamento ocorrem "automaticamente e sem esforço consciente tão logo a reorganiza- ção perceptual ocorra" 59 . Ou seja, à medida que o auto-conceito muda, o comportamento também muda a fim de tornar-se coerente com esta nova organização do campo perceptual.

Mas como o auto-conceito pode ser alterado? Para responder a esta pergunta é necessário compreender, primeiramente, de que maneira ele é construído:

O auto-conceito começa a ser formado desde as primeiras ex- periências do bebé, à medida em que vai interagindo com outros seres humanos. Uma das experiências mais importantes para a criança é a de ser aceita e amada. À medida em que vai se relacionando com as pessoas que lhe são significativas - geralmente, os pais - a criança vai estruturando a sua percepção de si mesma e do mundo a fim de

58. A noção de auto-conceito (self-concept) foi formulada inicialmente por Raimy, aluno de Rogers, em 1943, na sua dissertação na Universidade de Ohio entitulada 'The Self-Concept as a Factor in Counseling and Personality Organization".

59. Rogers, 1995b, p. 52

conseguir a satisfação dessa necessidade básica de se sentir aceita e amada. Assim, o seu auto-conceito vai sendo formado de acordo com as condições com que o amor e a aceitação lhe são oferecidos. As "condições" aqui têm o sentido de "o que é necessário ser para receber amor e aceitação " e que a criança percebe como "eu somente

Por exemplo, a criança que sente ciúmes

do seu irmãozinho mais novo pode experimentar grande satisfação no comportamento de agredi-lo. No entanto, ela pode também ter a experiência de ameaça da perda do amor dos pais quando eles lhe comunicam, seja em palavras ou em atitudes não-verbais, que este comportamento é mau e que ela não é amada quando se comporta dessa maneira. Para se defender desta ameaça, para satisfazer a sua necessidade primordial de se sentir aceita e amada, a criança poderia negar ou distorcer a simbolização da sua experiência original de satisfação ao agredir o seu irmão. A negação ocorreria se ela simbolizasse que não experimenta nenhuma satisfação em agredir o seu irmão. A distorção da experiência aconteceria se ela simbolizasse que considera este comportamento mau quando a sua verdadeira experiência fora que os seus pais consideram este comportamento mau. Através da negação e da distorção da experiência, portanto, a criança vai incorporando ao seu auto-conceito percepções e valores que não estão de acordo com a sua experiência sensorial e visceral, introjetando as atitudes dos pais como se fossem realmente suas, e não como atitudes oriundas de outras pessoas. Fazendo isso, consegue,

ou pelo menos tenta conseguir, a satisfação da sua necessidade mais importante: se sentir aceita e amada. Dessa forma, devido às condições nas quais o amor e a aceitação são oferecidos à criança, vários elementos do seu auto-conceito podem se tornar incongruentes com

a sua experiência direta, organísmica. Neste exemplo, a criança

incorporaria ao seu auto-conceito apenas a percepção de que gosta do seu irmãozinho quando a sua experiência primária apresentara um espectro muito mais amplo, que ia desde "eu gosto do meu irmãozinho" até "eu o odeio!".

sou amada e aceita SE

".

Rogers analisa este processo através do qual o auto-conceito

se torna incongruente com a experiência real do indivíduo na propo- sição X de sua teoria da personalidade:

"Assim, os valores que a criança liga à experiência dissociam- se de seu próprio funcionamento organísmico, e a experiência

Í.S

é avaliada em termos das atitudes de seus pais, ou de outras pessoas que estejam intimamente associadas a ela. Esses va- lores passam a ser aceitos como tão 'reais' quanto os valores conectados a experiências diretas (,„) É neste ponto que o indivíduo entra no caminho que, mais tarde, descreverá como 'eu, na verdade, não me conheço direito'. As reações sensori- ais e viscerais primárias são ignoradas, ou não têm permis- são para vir à consciência, exceto em forma distorcida. Os valores que poderiam ser desenvolvidos a partir delas não podem ser admitidos à consciência. Um auto-conceito basea- do, em parte, numa simbolização distorcida tomou o lugar "

deles

6 "

Um outro exemplo, retirado da experiência clínica de Rogers, é o caso da sita. Har 61 . No início do processo terapêutico, ela afirmava: - "Eu sinto apenas ódio pelo meu pai e estou moralmente certa ao sentir isso". Seu pai havia abandonado a sua mãe quando a srta. Har era criança e ela introjetou o ódio pelo seu pai e o valor a ele associa- do {"estou moralmente certa ao sentir isso "), originados da experi- ência de sua mãe, como se fossem baseados na sua própria experiên- cia. Entretanto, ao final da terapia, ela pôde perceber e reconhecer que a sua mãe odiava seu pai e esperava que ela sentisse o mesmo e que ela não gostava de seu pai em alguns aspectos mas também gos- tava dele em outros aspectos e que essas duas experiências eram uma parte aceitável dela mesma.

Assim, para satisfazer a sua necessidade primária de se sentir amado e aceito o indivíduo acaba incorporando ao seu auto-conceito percepções, atitudes, crenças e valores que estão em desacordo com a sua experiência sensorial direta. Se as novas experiências que vão ocorrendo na vida do indivíduo forem coerentes com este auto-con- ceito, serão percebidas e simbolizadas, mas se forem contraditórias, serão percebidas como ameaças ao eu e, dessa forma, terão seu aces- so negado à consciência ou serão simbolizadas de uma maneira distor- cida. O indivíduo seleciona, entre suas muitas experiências sensori- ais, aquelas que se encaixam em seu auto-conceito e só reconhece e

60. Rogers, 1992, p.569

61. Citado no capítulo 3 do livro Terapia Centrada no Cliente.

69

simboliza estas experiências. Ou seja, a negação e a distorção são as defesas utilizadas pelo indivíduo para preservar o seu eu da ameaça representada pela experiência da incongruência.

Mas como uma pessoa pode reconhecer uma experiência como ameaçadora sem ainda ter tido consciência dela? Rogers e seus cola- boradores ficaram intrigados com esta questão, que parecia envolver um processo de 'conhecer sem conhecer' ou de 'perceber sem per- ceber'. Após realizarem algumas pesquisas sobre a relação entre percepção e consciência, eles puderam concluir que, de fato, um in- divíduo é capaz de discriminar um estímulo como ameaçador e rea- gir a ele mesmo sem ter reconhecido conscientemente o estímulo a que está reagindo 62 .

Neste sentido, McCleary e Lazarus 63 deram uma contribuição fundamental à teoria ao criarem o conceito de "subcepção" para se

referir a este processo de "pré-percepção" no qual o indivíduo reage

a um estímulo antes que este seja reconhecido na consciência. A

subcepção é, assim, uma reação organísmica fisiológica avaliatória e discriminatória à experiência, que pode preceder a percepção cons- ciente dessa experiência. O processo da subcepção explica, portan- to, como um indivíduo pode negar experiências à consciência sem jamais ter estado consciente delas 64 .

É importante salientar que as experiências que são negadas à consciência ou distorcidas na sua simbolização são aquelas incoe- rentes com o auto-conceito, e que estas não são necessariamente

experiências negativas ou depreciativas para o individuo. Assim, até mesmo as experiências valorizadoras e positivas podem ser excluí- das do campo perceptual do indivíduo, se forem contraditórias com

o seu auto-conceito.

Entretanto, esta incongruência ou discrepância entre aquilo que

o indivíduo experencia em nível sensorial e visceral e aquilo que ele simboliza na sua consciência gera uma tensão psicológica que pode ser experimentada como:

62. Rogers, 1992, p. 575.

63. McCleary, R. & Lazarus, R. (1949). Autonomic discrimination without awareness. Journal of Personality Change, 18, 171-179. Este estudo foi citado nas capítulo 11 do livro Terapia Centrada no Cliente.

64. Rogers, 1992, p. 576

70

° angústia ou ansiedade;

° sentimento de insegurança;

° sentimento de não estar integrado (ou sentimento de dissociação);

° ausência de controle sobre o próprio comportamento.

A falta de controle consciente sobre o comportamento ocorre porque

o organismo da pessoa reage às experiências e luta para satisfazer as suas necessidades mesmo que elas não tenham sido admitidas na

consciência. Neste caso, o indivíduo faz afirmações como 65 :

o

"Não sei por que faço isso. Eu não quero fazer, no entanto

o

eu faço" "Eu simplesmente não sou eu mesmo quando faço essas coisas "

o

"Eu não sabia o que estava fazendo "

°

"Não tenho controle sobre essas reações"

A incongruência entre o auto-conceito e a experiência organísmica

(a experiência sensorial e visceral) também pode ser experimentada pelo indivíduo como um sentimento de não ter um eu ou de que o seu eu consiste apenas em procurar fazer o que os outros acreditam que ele deve fazer. Isto ocorre quando o indivíduo constrói o seu auto-conceito quase que inteiramente a partir das avaliações de ex- periência emprestadas de outras pessoas, com um mínimo de apreci- ação organísmica direta.

O processo terapêutico:

Como vimos nos capítulos 3 e 4 06 , a relação terapêutica centrada no cliente caracteriza-se pela total liberdade oferecida ao cliente para explorar o mundo da sua experiência no ritmo e na direção que esco- lher e na total aceitação do terapeuta em relação a tudo o que é ex-

65. Rogers, 1992, p. 579.

66. "Uma relação essencialmente não-diretiva" e "A aceitação como a essência do processo terapêutico"

71

presso pelo cliente. Como consequência desta atitude do terapeuta de aceitação e acolhimento e diante da total liberdade de expressão, o cliente sente o seu eu livre de ameaças, sendo capaz, portanto, de considerar as percepções até então rejeitadas (por serem incoerentes com o seu auto-conceito) e modificar o seu auto-conceito a fim de incluir e integrar estas percepções. Rogers descreve este processo da seguinte maneira:

"Aos poucos, o cliente experimenta uma sensação decidida- mente nova de estar livre de ameaças. É a percepção de que cada aspecto que ele expõe do seu eu é igualmente aceito, igualmente valorizado. A afirmação quase beligerante de suas

virtudes é tão aceita, porém não mais, quanto o desestimulante quadro de suas qualidades negativas. Sua certeza sobre al- guns aspectos de si mesmo é aceita e valorizada, da mesma forma que sua incertezas, suas dúvidas, sua vaga percepção de contradições internas. Nessa atmosfera de segurança, pro- teção e aceitação os limites rígidos do autoconceito relaxam.

) (

vez mais completamente. (

nunca fora consciente, experiências que contradizem profun- damente a percepção que tem de si mesmo - e isto é de fato ameaçador. Ele se recolhe temporariamente para a confortá- vel gestalt anterior, mas depois, lenta e cautelosamente, sai do refúgio e assimila a experiência contraditória num padrão novo e revisado. " A7

Descobre experiências das quais

O cliente começa a explorar seu campo perceptivo cada

)

Rogers 68 apresenta um exemplo de uma cliente que odiava a sua mãe e que tinha a justificativa para esse ódio rigidamente estruturada no seu auto-conceito. Ao longo do processo terapêutico, contudo, ela pôde reconhecer a existência de outros sentimentos e comportamen- tos além do ódio - "Insisto em limpar minha casa quando ela vem me visitar, como se quisesse mostrar a ela como sou boa, como se tentasse obter as graças dela" -, conseguindo, a seguir, admitir certas experiências diretamente contraditórias com o seu auto-con- ceito - "Sinto um carinho real por ela, uma espécie saudável de

67. Rogers, 1992, p.222

68. Este exemplo encontra-se no livro Terapia Centrada no Cliente, à página 588 da edição de 1992.

72

afeição" - que conduziram, finalmente, a uma modificação e ampli- ação do seu auto-conceito: - "Eu me dou bem com ela. É uma coisa incrível a maneira como tirei a mamãe de meu sistema. Posso recebê- la ou despedir-me dela sem tanta tensão".

A experiência que o cliente tem de ser aceito exatamente como ele é, e de que cada novo aspecto do seu ser que é descoberto e reve-

lado na terapia é igualmente aceito pelo terapeuta, leva ao reconheci- mento de experiências profundamente negadas ou distorcidas por serem ameaçadoras ao eu. Quando estas experiências se tornam cons- cientes, o cliente, então, modifica o seu auto-conceito a fim de poder inclui-las como partes de um todo coerente. O processo terapêutico

é, portanto, essencialmente, um processo de desorganização e reor-

ganização do eu, assim descrito por Rogers:

"À medida que o processo avança, uma configuração nova ou revisada do eu está sendo construída, contendo percepções anteriormente negadas; envolvendo uma simbolização mais exata de uma gama muito mais ampla de experiências senso- riais e viscerais; envolvendo uma reorganização de valores em que a experiência pessoal do organismo é claramente re- conhecida como a fonte que proporciona as evidências para as valorações. Lentamente, começa a emergir um novo eu, muito mais próximo do verdadeiro, porque se baseia muito mais na experiência global do cliente, percebida sem distorção. " 69

O novo eu que surge a partir da desorganização do antigo auto-con-

ceito é muito mais congruente com a totalidade da experiência. Con- sequentemente, as experiências tornam-se menos ameaçadoras e o indivíduo, sem precisar mais de tantas defesas, torna-se mais aberto

à sua experiência direta, sensorial e visceral. Nesse novo eu há, por- tanto, muito menos ansiedade e mais segurança. Rogers salienta que

é devido à presença da tendência atualizante que o indivíduo em

terapia, ao invés de seguir para uma desintegração, move-se na dire- ção de uma reorganização promotora do crescimento e de uma reali- zação mais completa das suas potencialidades.

69. Rogers, 1992, p.222

73

Como vimos anteriormente, o comportamento de um indiví- duo se mantém sempre coerente com o auto-conceito 70 . Assim, quan- do o cliente, ao longo do processo terapêutico, modifica o seu auto- conceito, o seu comportamento se modifica espontaneamente, acom- panhando as mudanças no auto-conceito. Por este motivo, as mudan- ças de comportamento são mais fáceis e menos dolorosas que as mudanças no auto-conceito.

O aprimoramento das relações interpessoais

Uma aluna de Rogers, Elizabeth Sheerer, em sua tese de dou- torado defendida na Universidade de Chicago em 1949 71 , compro- vou cientificamente um fato que já havia sido largamente constatado por Rogers e sua equipe na prática clínica: que um indivíduo, ao aceitar a si próprio, aprimora suas relações interpessoais com os outros. Rogers considerou este fato como uma das mais surpreen- dentes descobertas da terapia centrada no cliente, formulando-a na proposição XVIII da sua teoria da personalidade:

"Quando o indivíduo percebe e aceita, num único sistema coe- rente e integrado, todas as suas experiências sensoriais e viscerais, ele adquire necessariamente uma compreensão e uma aceitação maior dos outros como indivíduos diferenciados ".

Quanto menos atitudes defensivas a pessoa utiliza para preservar o seu auto-conceito, mais realista ela se torna não somente em relação a si mesma como também em relação aos outros. A pessoa que vive de maneira integrada, congruente com a sua experiência sensorial e visceral, consegue perceber o outro como ele realmente é, com todas as suas diferenças, sem que estas diferenças sejam percebidas como ameaças. Desta forma, a auto-aceitação acaba promovendo também

70. Pag. 30: "O indivíduo sempre procura agir de uma maneira coerente com as suas percepções e valores. ( à medida que o auto-conceiío muda, o comportamento também muda a fim de tornar-se coerente com esta nova organização do campo perceptual".

)

71. "An analysis of the relationship between acceptance of and respect for self and acceptance of and respect for others in seven couseling cases"

74

uma maior aceitação do outro. No exemplo anterior, da mulher que odiava a sua mãe, vimos que quando ela conseguiu aceitar todos os seus sentimentos de afeto e de ódio, ela pôde perceber a mãe de uma maneira muito mais realista, compreendendo-a e aceitando-a pelo que de fato era, e construindo com ela um relacionamento real, ao invés de defensivo.

Outra cliente de Rogers expressou esta experiência de aprimo- ramento das suas relações interpessoais com as seguintes palavras:

"Eu sou eu mesma e sou diferente dos outros. Estou me sen- tindo mais feliz em ser eu mesma e percebo que, cada vez mais, estou deixando que as outras pessoas assumam a responsabi- lidade por serem elas mesmas "7 2

12. A mudança terapêutica

A teoria do auto-conceito, publicada em 1951 no livro Terapia Centrada no Cliente, já esboçara algumas considerações a respeito dos resultados de uma terapia bem-sucedida. Como vimos no capítulo anterior, o processo terapêutico conduziria o indivíduo a uma reorganização do seu auto-conceito promovendo uma maior integração entre o eu e a experiência organísmica. Como consequên- cia desta reorganização do campo perceptual, o cliente viveria com menor tensão psicológica ou ansiedade, aprimoraria seus relaciona- mentos interpessoais e desenvolveria seu próprio sistema de valores, baseado diretamente na sua experiência. Após a publicação de Tera- pia Centrada no Cliente, Rogers prosseguiu suas investigações a res- peito da natureza da mudança terapêutica e das suas condições facilita- doras e, em 1952, escreveu um artigo entitulado "A pessoa em funci- onamento pleno" onde procurou responder precisamente a esta ques- tão: "Se fossemos tão bem sucedidos como terapeutas, que espécie de pessoa teria se desenvolvido em nossa terapia ? Qual o hipotético ponto final, o ponto máximo do processo terapêutico?". Entretanto,

72. In Rogers, 1992, p. 591

75

o artigo foi rejeitado para publicação pois o editor o considerou "sub-

jetivo" demais, sendo que somente dez anos mais tarde Rogers con- seguiu publicá-lo 73 . Posteriormente, Rogers escreveu pelo menos mais três artigos sobre o tema: "A Psicoterapia considerada como um Processo" 1 *, em 1957, "A Equação do Processo da Psicoterapia" 15 , em 1961 e "Towardbecomingafullyfunctioningperson" 16 ,em 1962.

Como avaliar os resultados de uma terapia bem-sucedida? Que critérios, que parâmetros utilizar na avaliação da mudança terapêuti- ca? Na época em que Rogers escreveu seu primeiro artigo a respeito deste tema, existiam apenas duas maneiras de se avaliar o sucesso de um processo terapêutico. Ou considerava-se que a terapia deveria promover um melhor ajustamento do indivíduo à sociedade ou, en- tão, utilizavam-se critérios psicodiagnósticos e as decorrentes no- ções de "patologia" e "normalidade". Rogers, entretanto, questionou

a validade destes conceitos de "saúde mental":

"Penso na noção, comumente aceita, de que a pessoa que com- pletou a psicoterapia estará ajustada à sociedade. Mas a qual sociedade ? Qualquer sociedade, não importam suas caracte- rísticas? Não posso aceitar isso. Penso no conceito, implícito em muitos escritos psicológicos, de cue a psicoterapia bem sucedida significa que uma pessoa passou de uma categoria diagnostica considerada patológica para outra considerada normal. Contudo, estão se acumulando evidências de que existe escasso acordo quanto às categorias diagnosticas, o que as torna praticamente sem sentido enquanto conceitos científi- cos. E mesmo se uma pessoa se torna "normal", este será um resultado adequado da terapia ? E mais, nos últimos anos te- nho conjeturado se o termo psicopatologia não pode simples-

73. Foi publicado com o título "The Concept of the Fully Functioning Person." Em Psychotherapy: Theory, Research and Practice, vol. 1: 17-26, 1963. Em português, foi publicado no livro de John Wood:

Abordagem Centrada na Pessoa, 1995, p. 71-95

74. "A Process Conception of Psychotherapy", artigo apresentado em 1957 na Convenção Americana de Psicologia e publicado em 1958 na American Psychologist, 13, pp. 142-149. Em Português foi publicado no livro Tornar-se Pessoa, capítulo 7.

75. "The Process Equation of Psychotherapy' publicado no American Journal of Psychotherapy, vol. 15(1): 27- 45, 1961. Em Português foi publicado no livro de John Wood, Abordagem Centrada na Pessoa, 1995, pp. 97-123.

76. Publicado em Perceiving, Behaving and Becoming: A New Focus for Education, pp. 21-33.

76

mente ser uma palavra-baú que se presta a acolher todos aque- les aspectos da personalidade que os diagnosticadores como um todo temem em si mesmos. Por essas e outras razões, a mudança no diagnóstico não é uma descrição de resultado

psicoterapêutico

que

me

satisfaça. "7 7

Assim, insatisfeito com estes critérios, Rogers procurou uma outra forma de avaliar a mudança terapêutica. A partir de sua própria ex- periência clínica e das pesquisas realizadas por sua equipe na Uni- versidade de Chicago, ele descobriu três características básicas na pessoa que emerge de uma terapia centrada no cliente bem-sucedida. Para descrever, então, o resultado da mudança terapêutica, Rogers apresentou estas características no seu limite máximo, isto é, partin- do de uma condição hipotética na qual a terapia centrada no cliente tivesse atingido o seu nível ótimo ou ideal e denominou a pessoa com estas características de uma pessoa em funcionamento pleno:

Crescente abertura à experiência

Após uma terapia centrada no cliente bem-sucedida, a pessoa se tornaria aberta à experiência, a todos os estímulos externos e internos, sem necessidade de ser defensiva. Ela viveria plenamente a experiência de seu organismo total. Não haveria barreiras, não have- ria inibições que pudessem evitar o pleno experienciar do que quer que estivesse organismicamente presente. A pessoa conseguiria vivenciar totalmente os seus sentimentos, no momento mesmo em que ocorressem, sem precisar distorcê-los. Tal pessoa também esta- ria sensivelmente aberta aos outros indivíduos com quem estivesse se relacionando.

77. Rogers, 1995c, p. 73

77

Tornando-se um processo

,

Para esta pessoa totalmente aberta à experiência, completa- mente sem defesas, cada momento seria novo. Ao invés de distorcer a experiência a fim de encaixá-la numa estrutura de eu ou de perso- nalidade já pronta, fixa e imutável, ela constituiria o seu eu e a sua personalidade dinamicamente a partir da experiência. Assim, a pes- soa viveria no momento presente, sem rigidez. Ela estaria sempre mudando, em processo, flexível e adaptativa. A vida para ela seria fluida, não fixa.

Crescente confiança no próprio organismo

Essa pessoa confiaria no seu próprio organismo para chegar ao comportamento mais adequado em cada situação existencial. Pelo fato de estar aberta à experiência, todos os dados relevantes que ela precisasse para orientar adequadamente o seu comportamento estari- am disponíveis à sua consciência. Assim, s-us sentimentos e suas reações organísmicas seriam guias competentes e confiáveis para o seu comportamento. Segundo Rogers, esta pessoa passaria a "viver sua experiência, confiar nela, e usá-la como referência para guiá-lo em seu confronto com a vida ". Ela agiria de acordo com o seu locus interno de avaliação, isto é, seu comportamento seria baseado em sua própria experiência e não mais nas atitudes ou nos desejos de outros.

uma mudança no processo de valoração durante a te-

rapia, e uma característica dessa mudança é que o indivíduo move-se de um estado em que seus pensamentos, sentimentos e comportamento são governados pelos julgamentos e expec- tativas dos outros em direção a um estado no qual baseia seus valores e padrões em sua própria experiência. " 7S

Há "

78. Rogers, 1992, p. 183

78

A fim de integrar estas três características, compondo um todo uni- ficado, Rogers fez a seguinte descrição da pessoa em funcionamento pleno:

"Tal pessoa é um ser humano em fluxo, em processo, em vez

pessoa experencia o pre-

de ter alcançado algum

Tal

sente com imediação. Ela é capaz de viver nos seus sentimen- tos e reações do momento. Ela não está presa às estruturas das aprendizagens passadas, mas estas são recursos presen-

tes para ela na medida em que estejam relacionados à experi- ência do momento. Ela vive livremente, subjetivamente, num

Tal pessoa é

uma pessoa criativa. Com sua sensível abertura ao seu mun- do e sua confiança na sua própria habilidade para formar novos relacionamentos com seu meio, ela é o tipo de pessoa do qual produtos criativos e vida criativa emerge. Por fim, tal pessoa vive uma vida que envolve uma extensão mais ampla, uma maior riqueza do que a vida constrita na qual a maioria de nós nos encontramos. Parece-me que o cliente que se mo- veu significativamente em terapia vive mais intimamente com seus sentimentos de dor, mas também mais vividamente com seus sentimentos de êxtase. Que a raiva é mais claramente sentida, mas também é o amor. Que o medo é uma experiência que eles conhecem mais profundamente, mas a coragem tam- bém é. E que a razão pela qual eles podem assim viver plena- mente numa extensão mais ampla é que eles têm esta confian- ça básica neles mesmos como instrumentos confiáveis para ir ao encontro da vida. " 79

confronto existencial deste momento na vida

Em suma, a pessoa em funcionamento pleno estaria completamente engajada no processo de ser e tornar-se ela mesma. E sendo ela mes- ma, ela descobriria que é uma pessoal socialmente orientada, sensí- vel ao seu meio e criativa. Este tipo de pessoa, segundo Rogers, não estaria necessariamente "ajustada" à sua cultura e com certeza não seria uma pessoa conformista.

79. Roges, 1962, p.33

79

13. As atitudes facilitadoras da mudança terapêutica

A teoria da terapia centrada no cliente continuou sendo aper- feiçoada por Rogers e sua equipe de pesquisadores mesmo após a publicação das dezenove proposições, pois os avanços na experiên- cia clínica e nas pesquisas científicas permitiram o surgimento de

novas e mais complexas formulações de antigos conceitos da teoria.

A aceitação, um dos conceitos essenciais da abordagem centrada no

cliente, foi substituída, a partir da sugestão de Standal, um aluno de

Rogers, pelo conceito mais complexo de consideração positiva. A noção de que o terapeuta deve adotar o referencial interno do cliente foi aperfeiçoada no conceito de compreensão empática, e a genuinidade do terapeuta passou a ser melhor compreendida através da utilização do conceito de congruência.

Em 1957, com a publicação do artigo "As condições necessá- rias e suficientes para a mudança terapêutica da personalidade"* 0 , a consideração positiva incondicional, a compreensão empática e a congruência passaram a ser denominadas de "atitudes facilitadoras" e acabaram se tornando os conceitos mais conhecidos e divulgados

da teoria de Rogers no mundo todo.

13.1. Consideração positiva incondicional:

Como vimos no capítulo 4, a aceitação por parte do terapeuta

de

cada aspecto da experiência do cliente, seja positivo ou negativo,

se

constituiu como um dos elementos essenciais da terapia centrada

no cliente desde a sua primeira formulação, ainda em 1942. Contu- do, a partir de um aprofundamento da teoria do auto-conceito, um aluno de Rogers chamado Stanley Standal, propôs em 1954, em sua tese de doutorado 81 , a substituição da noção de "aceitação" para a

80. The Necessary and Sufficient Conditions of Therapeutic Personality Change. Journal of Consulting Psychology,

Este artigo encontra-se publicado em português no livro de John Wood, Abordagem

21, 95-103.

Centrada na Pessoa.

81. "The need for positive regard: a contribution to client-centered theory"

noção mais complexa de "consideração positiva" (positive regard).

De acordo com a teoria do auto-conceito, o desajustamento psicológico existe quando o indivíduo tem que negar ou distorcer certas experiências porque elas são inconsistentes com seu auto-con-

ceito. Mas o auto-conceito em relação ao qual estas experiências estão em conflito está baseado em valores que foram tomados das pessoas significativas para o indivíduo quando ele era criança. É a perda, ou

a ameaça da perda, do amor (ou "aceitação") dessas pessoas que

conduziu a criança a introjetar estes valores e agir de acordo com eles como se fossem seus próprios. Assim, a causa do desajustamento psicológico está na falta de aceitação da criança pelas pessoas que lhe são significativas. Na medida em que a falta de aceitação é o fator crucial na causa do desajustamento psicológico, Standal pro- pôs que a restauração da aceitação fosse considerada como o fator crucial na causa do reajustamento psicológico. Dessa forma, Standal enfatizou que a função primária do terapeuta é a de comunicar acei- tação e não a de facilitar a simbolização acurada, pois é a percepção do cliente dessa aceitação que é crucial para a mudança terapêutica.

Standal propôs, então, que esta necessidade de aceitação fosse concebida como uma necessidade de "consideração positiva". Com

o surgimento da consciência do eu, desenvolve-se no indivíduo uma

necessidade de que as suas experiências relativas a si mesmo afetem

o campo experencial dos outros de uma maneira positiva. Esta ne-

cessidade é a necessidade de consideração positiva. Esta considera- ção positiva envolveria, dessa forma, os sentimentos e atitudes de

calor, acolhida, respeito e aceitação.

A consideração positiva é incondicional quando não existem condições para que ocorra a aceitação. Portanto, é o oposto de uma atitude de apreciação seletiva ("eu aceito você apenas se você for dessa ou daquela maneira"). A consideração positiva incondicional é um tipo de atitude em relação a outra pessoa na qual tudo o que esta pessoa exprime sobre si mesma é igualmente aceito com calor, esti- ma e respeito. Esta é, precisamente, a atitude do terapeuta centrado no cliente: tudo o que o cliente exprime (verbalmente ou não-verbal- mente, direta ou indiretamente) sobre si mesmo, sejam sentimentos negativos, dolorosos, confusos, defensivos ou irracionais, sejam sen- timentos positivos, maduros e socializados, tudo é recebido com a mesma aceitação calorosa pelo terapeuta.

13.2. Compreensão empática:

A atitude de centrar-se no cliente ou de assumir o referencial interno do cliente, como vimos no capítulo 9, constitui-se num ele- mento fundamental da abordagem centrada no cliente desde, pelo menos, 1946. Com o correr dos anos, Rogers foi sentindo necessida- de de definir melhor esta atitude, até chegar à formulação do concei- to de "compreensão empática". Na definição de Rogers, compreen- der empaticamente o cliente significa "sentir o mundo privado do cliente como se ele fosse o seu, mas sem perder a qualidade como se" n . Em 1975, Rogers 83 definiu a compreensão empática também como uma "maneira de ser":

"A maneira de ser em relação a outra pessoa denominada • empática tem várias facetas. Significa penetrar no mundo perceptual do outro e sentir-se totalmente à vontade dentro dele. Requer sensibilidade constante para com as mudanças que se verificam nessa pessoa em relação aos significados

que ela percebe, ao medo, à raiva, à ternura, à confusão ou ao

Passamos a ser um com-

panheiro confiante dessa pessoa eia seu mundo Estar com o outro dessa maneira significa deixar de lado, neste momento, nossos próprios pontos de visto, e valores, para en- trar no mundo do outro sem preconceitos. Num certo sentido, significa pôr de lado nosso próprio eu, o que pode ser feito apenas por uma pessoa que esteja suficientemente segura de que não se perderá no mundo possivelmente estranho ou bi- zarro do outro e de que poderá voltar sem dificuldades ao seu

uma

próprio

maneira de ser complexa, exigente e intensa, ainda que sutil e

que quer que ela esteja vivenciando

mundo

quando

assim

o

desejar

a

empatia

é

82. Rogers, I995e,p.l67

83. Rogers, CR. (1975). Empathic: an unappreciated way of being. The Counseling Psychologist, 5,2-10. Ksle artigo foi publicado em português no livro A Pessoa como Centro.

84. Rogers, 1977, p. 73.

82

A atitude empática, dessa forma, se opõe frontalmente à atitude diagnostica ou avaliativa. Para poder perceber o mundo do cliente com empatia, o terapeuta não pode assumir uma postura crítica, pelo contrário, a atitude empática está intrinsecamente relacionada a uma postura de aceitação e não-julgamento. Kinget 85 reconhece que essa postura é muito díficil de ser posta em prática pelos profissionais da psicoterapia, na medida em que toda a sua formação académica enfatiza justamente o oposto, a atitude diagnostica e avaliativa:

" Infelizmente, a compreensão empática é muito difícil de ser posta em prática, principalmente no início, pois exige a ado- ção do ponto de referência de uma outra pessoa - o que é pouco natural. A dificuldade é particularmente grande para o indivíduo deformação académica, principalmente para o pro- fissional de psicoterapia, qualquer que seja sua escola, pois sua formação está centrada quase exclusivamente na função

de diagnóstico

Por isso é raro que o encontremos apto - e,

principalmente desejoso! - de despojar-se de seus conheci- mentos e técnicas profissionais, de sua inclinação para exer- cer seu julgamento crítico, enfim, de renunciar à satisfação de suas necessidades intelectuais de ordem lógica e de expli- cação. "

Para ilustrarmos esta diferença entre a compreensão diagnostica e a compreensão empática, apresentaremos um exemplo extraído do li-

vro Terapia Centrada no Cliente. Trata-se

entrevista feita com um jovem internado numa enfermaria psiquiá- trica:

de um trecho da terceira

"Muitos pensamentos, muitos sentimentos estão ali na minha

sinto ali

dentro, eles entopem minha cabeça. (Breve pausa). Eu me con-

centro nas coisas da minha cabeça e pensamentos e mente,

o que acontece, acontece

mas é que eu

não sei

cabeça. Eu só os coloco

eu

não sei

eu

os

é que

eu

diferente,

acontece lá dentro, é isso que me trava

me trava

depressa.

É que eu

fico pensando de verdade se eu poderia

85. Rogers & Kinget, 1977, vol.l, pp. 127-128.

83

voltar para aquela minha enfermaria e realmente viver, real-

Saiu tudo de repente da minha ca-

beça. Eu imaginava se poderia voltar para lá e fazer isso,

realmente ser alguém lá. (Breve pausa). Fico imaginando, fico

pensando nisso,

para alguma coisa e fazer algo e ser alguém lá. (Breve pau- sa). Provavelmente me ajudaria a continuar sendo diferente, um homem diferente, uma pessoa diferente lá. Aqui neste con- sultório eu geralmente saio com alguns pensamentos que fa-

apenas voltar direto

mente ser alguém. Eu só

e

se

um dia

eu serei

zem sentido e ideias, algo com sensações reais, uma mente

real, pensamento real. Ontem quando cheguei aqui estava vi-

vendo e

eu não posso aguentar mais do que isso aqui, então eu., é demais para mim. " stf

vou estar hoje.

Tenho certeza disso. Eu posso ser

Um psicólogo que tentasse avaliá-lo ou diagnosticá-lo, pensaria algo como:

"Seu pensamento é confuso e as expressões inarticuladas. Parece haver sentimentos de irrealidade. Possivelmente é esquizofrénico. Seu self consciente está lutando para recupe- rar uma sensação de controle sobre o organismo. Ele reage com algum pânico à ideia de viver e ser uma pessoa. "

Ao passo que uma pessoa que tentasse compreendê-lo empaticamente pensaria algo como:

"Parece que sentimentos e pensamentos bloqueiam você . Existe uma dúvida quanto à possibilidade de ser alguém. Você fica imaginando se poderia ser uma pessoa ao voltar à enfer- maria. Você sente que algumas de suas reações são reais e sensatas e tem a impressão de que ali, na hora da terapia, está realmente vivo. Mas este pensamento é forte demais para você - é mais do que você pode encarar."

86. Rogers, 1992, p. 55

Como vimos no capítulo 10, Rogers percebeu que a compreensão diagnostica, no contexto da psicoterapia, é não somente desnecessá- ria como inclusive é prejudicial ao processo terapêutico. Já a com- preensão empática, pelo contrário, é promotora das forças de cresci- mento do cliente. O caráter não avaliador e aceitador do clima empático possibilita à pessoa assumir uma atitude de estima e inte- resse por si mesma. Sentindo-se compreendida, ela se torna capaz de ouvir a si mesma de modo mais correto, com maior empatia em rela- ção às suas experiências organísmicas e aos seus significados que percebe apenas vagamente. A maior auto-compreensão e auto-esti- ma proporcionadas, dessa forma, pela atitude empática possibilita à pessoa integrar estes aspectos da experiência agora reconhecidos num novo conceito de eu, mais congruente com a totalidade da sua expe- riência.

Numa palestra proferida em 1964, Rogers descreveu, para um público leigo em psicologia, como a compreensão empática pode ajudar uma pessoa a despertar suas forças internas de crescimento, relatando a sua própria experiência pessoal de ser escutado dessa forma empática:

"Várias vezes em minha vida me senti explodindo diante de problemas insolúveis ou andando em círculos atormentada- mente, ou ainda, em certos períodos, subjugado por sentimen- tos de desvalorização e desespero. Acho que tive mais sorte do que a maioria, por ter encontrado, nesses momentos, pes- soas que foram capazes de me ouvir e assim resgatar-me do caos de meus sentimentos. Pessoas que foram capazes de per- ceber o significado do que eu dizia um pouco além do que eu era capaz de dizer. Estas pessoas me ouviram sem julgar, di- agnosticar, apreciar, avaliar. Apenas me ouviram, esclarece- ram-me, responderam-me em todos os níveis em que eu me comunicava. Posso testemunhar o fato de que quando estamos numa situação psicologicamente dolorosa e alguém nos ouve sem nos julgar, sem tentar assumir a responsabilidade por nós, sem tentar nos moldar, sentimo-nos incrivelmente bem! Nes- ses momentos, esta atitude relaxou minha tensão e me permi- tiu pôr para fora os sentimentos que me atemorizavam, as culpas, a angústia, as confusões que tinham feito parte de

minha

rever meu mundo e continuar. É incrível como alguns aspec- tos que antes pareciam insolúveis tornam-se passíveis de so- lução quando alguém nos ouve. É incrível como as confusões

Quando sou ouvido, torno-me capaz de

que pareciam irremediáveis transformam-se em correntes que fluem com relativa facilidade quando somos ouvidos. " S7

13.3. Congruência:

Desde o início da abordagem centrada no cliente, Rogers per- cebera que a aceitação do terapeuta em relação ao cliente deveria ser autêntica, genuína e não simplesmente uma "fachada". Não adianta- ria ao terapeuta "fingir" que confiava nas forças de crescimento do cliente, pois esta confiança precisaria ser "real", ser verdadeira, para ser eficaz terapeuticamente. Isto é, uma aceitação e uma confiança apenas aparente, ou inautêntica, não promoveria a mudança terapêu- tica. Por este motivo, a genuinidade (genuineness) ou autenticidade foi considerada por Rogers como uma atitude essencial para um terapeuta centrado no cliente.

Entretanto, esta ideia de autenticidade, inadvertidamente, aca- bou gerando uma grave distorção na prática da terapia centrada no cliente. Muitos terapeutas entenderam que ser autêntico significava dizer ao cliente tudo o que estivesse pensando ou sentindo no mo- mento. Assim, terapeutas começaram a "despejar" os seus próprios sentimentos sobre o cliente, justificando esta atitude como uma ex- pressão de "autenticidade". A fim de evitar este mal-entendido e tor- nar mais claro o sentido da genuinidade enquanto atitude terapêuti- ca, Rogers passou a utilizar o conceito mais específico de "congruência".

Como vimos no capítulo 11, a congruência é um estado de acordo entre o auto-conceito de um indivíduo e as suas experiências organísmicas. Uma pessoa está congruente quando as suas experiên-

87. Rogers, 1983,pp. 7-8

86

cias podem ser acuradamente simbolizadas na consciência sem distorções ou negações, ou seja, a pessoa congruente é uma pessoa sem defesas, aberta à totalidade da sua experiência. Rogers perce- beu, então, que para o processo terapêutico ser bem-sucedido é ne- cessário não apenas que o terapeuta seja genuíno e autêntico. Mais do que isso, é necessário que ele esteja congruente na relação com o cliente. Se o terapeuta não estiver aberto à experiência de si mesmo, isto é, se ele estiver defensivo, se sentindo ameaçado, a sua genuinidade não será terapêutica. Se o terapeuta estiver incongruen- te e tentar ser autêntico, ele só vai conseguir expressar ao cliente a percepção de sua experiência distorcida por suas defesas 88 . Dessa forma, Rogers percebeu que a congruência do terapeuta é um ele- mento essencial para a promoção da mudança terapêutica no cliente.

13.4. Condições mais que necessárias: suficientes

Devido ao seu incansável espírito científico, Rogers procurou definir, de forma mais precisa possível, as condições que seriam ne- cessárias e suficientes para a promoção das mudanças construtivas da personalidade na relação terapêutica. A partir da sua experiência clínica com as atitudes facilitadoras, e baseado nas pesquisas reali- zadas por sua equipe na Universidade de Chicago, Rogers 89 formu- lou a seguinte hipótese acerca da mudança terapêutica:

"Para que uma mudança construtiva de personalidade ocor- ra, é necessário que as seguintes condições existam e persistam por um período de tempo:

1. Que duas pessoas estejam em contato psicológico;

2. Que a primeira, a quem chamaremos cliente, esteja num estado de incongruência, estando vulnerável ou ansiosa;

88. Sobre esta distorção no entendimento da genuinidade no contexto terapêutico, sugerimos a leitura do artigo de Barbara Brodley "Congruence and Its Relation to Communication in Client-Centered Therapy" que foi publicado no Person-Centered Journal, 1998,5, 83-106.

89. Rogers, 1995e, pp. 159-160.

3. Que a segunda pessoa, a quem chamaremos de terapeuta, esteja congruente ou integrada na relação;

4. Que o terapeuta experencie consideração positiva incondi- cional pelo cliente;

5. Que o terapeuta experencie uma compreensão empática do referencial da estrutura interna do cliente e se esforce por comunicar esta experiência ao cliente;

6. Que a comunicação ao cliente da compreensão empática do terapeuta e da consideração positiva incondicional seja efe- tivada, pelo menos, num grau mínimo.

Nenhuma outra condição é necessária. Se estas seis condições existirem e persistirem por um período de tempo, isto é suficiente. O processo de mudança construtiva da personalidade ocorrerá "

Quando o cliente se sente aceito incondicionalmente e com- preendido empaticamente por um terapeuta congruente, então a mu- dança terapêutica ocorre. Nada mais é necessário. O terapeuta não necessita utilizar técnicas, não necessita fazer um diagnóstico ou adquirir um conhecimento intelectual específico. Segundo Rogers, estas seis condições são suficientes para a promoção da mudança terapêutica.

13.5. As pesquisas sobre as atitudes facilitadoras

As pesquisas sobre as condições necessárias e suficientes hipotetizadas por Rogers são volumosas e constituem um corpo de pesquisa que está entre os maiores no campo da psicologia 90 . Nas décadas de 60 e 70, a maior linha de pesquisa sobre eficácia em psico- terapia se constituiu das investigações que procuravam relacionar as atitudes de consideração positiva incondicional, compreensão empática e congruência com a mudança terapêutica da personalida- de 91 . Os resultados destas pesquisas apoiaram consistentemente as

90. Patterson, 1984.

91. Patterson, 1984; Stubbs & Bozarth, 1994

88

hipóteses de Rogers. Em 1971, Truax e Mitchell, ao revisarem as pesquisas sobre as atitudes facilitadoras concluíram que:

"Terapeutas e conselheiros que são acuradamente empáticos,

não-possessivamente calorosos em atitude e genuínos são ver- dadeiramente eficazes. Ademais, estes resultados parecem se manter para uma ampla variedade de terapeutas e conselhei- ros, independentemente de seu treinamento ou orientação te- órica, e com uma ampla variedade de clientes ou pacientes, incluindo estudantes de graduação, jovens delinquentes,

esquizofrênicos hospitalizados

dos ou severos e uma variedade mista de pacientes hospitali- zados. Mais do que isso, a evidência sugere que estes resulta- dos se mantêm numa variedade de contextos terapêuticos tan- to na terapia individual quanto na de grupo e no aconse- lhamento". 92

pacientes neuróticos bran-

Em 1986, Orlinsky e Howard também realizaram uma ampla revisão das pesquisas sobre as atitudes facilitadoras e concluíram que 50 a 80% dos estudos nesta área tiveram resultados significativamente positivos, indicando que estas dimensões estão relacionadas de ma- neira muito consistente ao resultado positivo da terapia 93 .

Entretanto, alguns autores, entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, questionaram a validade destas pesquisas, concluindo que as condições postuladas por Rogers não são suficientes para a promoção da mudança terapêutica 94 . Stubbs e Bozarth 95 , contudo, ao revisarem estas pesquisas, não encontraram um só estudo que apoi- asse diretamente a afirmação de que as condições postuladas por Rogers são insuficientes em si mesmas.

A visão de que as atitudes facilitadoras não são suficientes se origina em outros marcos de referência (comportamental ou psicanalí- tico) que não se baseiam na pressuposição da tendência atualizante. O modelo operacional nestas abordagens predispõe o terapeuta a agir

92. Truax & Mitchell, 1971, p. 310.

93. Orlinsky &Howard, 1986.

94. Patterson, 1984; Bozarth et ai., 1999.

95. Stubbs & Bozarth, 1994.

89

ou intervir para influenciar o cliente, pois, neste modelo, a responsa- bilidade do terapeuta é "colocar o cliente na direção apropriada". A postura revolucionária de Rogers, que identifica o cliente como o melhor expert sobre sua vida não é compreendida ou assimilada por estes pesquisadores 96 . Devido a esta falha na compreensão da posi- ção de Rogers, e ao não reconhecimento da premissa da tendência atualizante, estes autores se referem às atitudes facilitadoras como sendo apenas as condições preparatórias para as 'intervenções' do terapeuta 97 . Na perspectiva da terapia centrada no cliente, ao contrá- rio, as atitudes de consideração positiva incondicional, compreensão empática e congruência são suficientes para a mudança terapêutica porque elas promovem a liberação da tendência atualizante do cliente.

13.6. O conceito de experienciação

Em 1957, Rogers foi convidado a trabalhar na Universidade de Wisconsin, num grande projeto de pesquisa sobre a aplicação da terapia centrada no cliente a indivíduos considerados "esquizofrê- nicos" e hospitalizados há longo tempo. Est.' pesquisa envolveu um trabalho interdisciplinar entre os departamentos de psicologia e psi- quiatria da universidade e teve como colaboradores Gendlin, Truax e Kiesler.

Ao longo dessa pesquisa, Rogers pôde confirmar que a vivência das atitudes facilitadoras não se restrige à interação verbal entre terapeuta e cliente mas se dá muito mais em nível de uma experiên- cia organísmica, visceral, pré-verbal. Os sujeitos da pesquisa eram indivíduos apáticos, desmotivados, silenciosos, que dificilmente to- mavam alguma iniciativa de expressão verbal. Rogers e seus colegas de pesquisa tiveram, então, que enfatizar a comunicação do calor não-possessivo e da aceitação incondicional ao invés de se restringi- rem à comunicação de "reflexos de sentimentos".

96. Bozarth, 1998.

97. Lazarus, 1993; Norcross, 1992; Quinn, 1993.

90

Entretanto, surgiram muitos conflitos, de caráter pessoal, en- tre a equipe de pesquisadores o que acabou comprometendo seria- mente o desenvolvimento da pesquisa. Ademais, segundo Bozarth 98 , muitos dos terapeutas envolvidos no projeto não estavam identifica- dos com a abordagem centrada no cliente e não demonstravam con- fiança na tendência atualizante dos "pacientes". Os resultados da pesquisa, publicados em 1967 no livro "The Therapeutic Relationship andlts Impact: a study of psychotherapy with schizophrenics", mes- mo tendo ficado muito aquém do esperado, ainda assim relacionaram a presença das atitudes facilitadoras com a mudança terapêutica.

Gendlin 99 , a partir de sua experiência com estes clientes silen- ciosos e passivos, propôs o conceito de "experienciação" (experien- cing) para descrever o fluxo de significados sentidos, interiores e pré-verbais da experiência. Rogers incorporou este conceito de expe- rienciação às suas investigações teóricas, o que lhe permitiu abando- nar o modelo positivista que até então utilizava, que enfatizava os "conteúdos da experiência", por um referencial fenomenológico-exis- tencial que enfatizava o experienciar enquanto um processo.

Contudo, enquanto Rogers concebia a "experienciação" como um resultado ou consequência do processo terapêutico, Gendlin pas- sou a ver a "experienciação" como a causa da mudança terapêutica. Assim, ele desenvolveu um método para orientar a atenção do clien- te na direção do seu processo de experienciação, denominado focali- zação (focusing), composto de "passos" propostos pelo terapeuta ao longo da sessão. Este método deu origem, então, à chamada Terapia Experiencial. Apesar de ter as suas origens na terapia centrada no cliente, a terapia experiencial, contudo, se constitui como um para- digma completamente distinto e até mesmo "dissonante" 100 do para- digma centrado no cliente.

Na terapia experiencial, o terapeuta tem a intenção de guiar o cliente em direção ao seu processo de experienciação. O terapeuta é um expert em processo e a sua escuta empática é uma escuta seletiva em relação ao "significado sentido" (felt sense) do cliente. A confi- ança do terapeuta experiencial é uma confiança no processo de expe-

98. Bozarth, 1998.

99. Gendlin, 1974.

100. Prouty, 1999.

\

91

rienciação do cliente e não uma confiança na pessoa total do cliente. Na terapia centrada no cliente, ao contrário, o terapeuta "entrega" ao cliente a direção do processo terapêutico, pois o cliente é que é con- siderado o expert na relação. Ademais, o terapeuta procura compre- ender empaticamente a pessoa total do cliente e não apenas o seu "processo experiencial". Estas são basicamente as principais dife- renças entre a terapia experiencial e a terapia centrada no cliente, apontadas por Prouty 101 , Brodley 102 e Bozarth 103 .

14. A abordagem centrada na pessoa

Rogers percebera que a teoria da terapia centrada no cliente tinha implicações em todas as atividades humanas que envolvessem relacionamentos interpessoais. No livro Terapia Centrada no Clien- te, já havia capítulos a respeito das "aplicações" da terapia centrada no cliente a outros contextos, escritos por alguns de seus colaborado- res do Counseling Center de Chicago: ludoterapia (aplicação da terapia centrada no cliente a terapia de crianças), escrito por Elaine Dorfman; psicoterapia centrada no grupo, por Nicholas Hobbs; li- derança e administração centradas no grupo, por Thomas Gordon e ensino centrado no aluno, este escrito pelo próprio Rogers.

Em 1959, Rogers sistematizou esta perspectiva num artigo escrito a convite da Associação Americana de Psicologia para um conjunto de publicações sobre teorias da percepção, aprendizagem e personalidade. Nesse artigo 104 , que é a exposição mais completa, pre- cisa e rigorosa da teoria da terapia, da personalidade e das relações humanas na perspectiva da abordagem centrada no cliente, Rogers representou a estrutura de sua teoria através de um diagrama, no qual a "Teoria da terapia" foi colocada no centro, com quatro grupos de teorias circundando a teoria central e se originando dela: a "Teoria

101. Prouty, 1999.

102. Brodley, 1990.

103. Bozarth, 1998.

104. Rogers, CR. (1959) A theory of therapy, personality, and interpersonal relationship as developed in the client-centered framework. Em S. Koch (Ed) Psychology: a study of science, vol. 3: Formulation of the person and the social context. New York: McGraw Hill. pp. 184-256

92

dos relacionamentos interpessoais", a "Teoria da personalidade", a "Teoria da pessoa em funcionamento pleno" e as "Implicações teóricas para diversas atividades humanas" que incluíam a vida familiar, a educação e aprendizagem, a liderança de grupos e conflitos grupais.

Rogers, dessa forma, acreditava que suas ideias seriam úteis a outros campos do conhecimento e aplicáveis a outras áreas profissi- onais além da psicoterapia. Entretanto, os seus artigos só eram aces- síveis ao público muito especializado das revistas científicas de psi- cologia. Assim, em 1961, com o objetivo de divulgar suas ideias para um público mais amplo, Rogers publicou "Tornar-se Pessoa" (On Becoming a Person). No prefácio do livro, ele afirma: " embo- ra o público para o qual esse livro poderá ter significado provenha de diferentes disciplinas e tenha interesses muito diversos, o fio co- mum pode ser sua preocupação a respeito da pessoa e do seu tornar- se, num mundo moderno que parece procurar ignorá-la ou diminuí- la ". Este livro acabou sendo um verdadeiro best-seller: vendeu milhões de cópias e tornou o trabalho de Rogers conhecido no mundo todo.

14.1. Grupos de Encontro

Em 1964, Rogers, então com 61 anos de idade, decidiu se apo- sentar da vida académica e trabalhar no "Western Behavioral Sciences Institute" (WBSI), um centro de pesquisa de orientação humanista, localizado na Califórnia. Com o apoio do WBSI, Rogers desenvol- veu uma nova abordagem no trabalho com grupos, os chamados "Grupos de Encontro". Os Grupos de Encontro eram grupos peque- nos (de oito a doze pessoas), relativamente não-estruturados, que duravam de vinte a sessenta horas de sessões intensivas, e se desen- volviam de acordo com os princípios centrados no cliente. No livro "Grupos de Encontro " (On Encounter Groups), publicado em 1967, Rogers descreveu algumas características destes grupos e a sua ex- periência pessoal como facilitador.

Os objetivos do Grupo de Encontro são "o crescimento pesso- al e o desenvolvimento e aperfeiçoamento da comunicação e rela-

93

ções interpessoais, através de um processo experiencial"° [05 . As mes- mas atitudes facilitadoras da terapia centrada no cliente são vi venda- das pelo facilitador no contexto grupai: uma aceitação incondicional do grupo e dos indivíduos que o compõem, uma compreensão empá- tica de cada membro do grupo e uma atuação congruente com os seus sentimentos e percepções. Cria-se, dessa forma, um clima psi- cológico de segurança e aceitação que possibilita a liberdade de ex- pressão e a redução das defesas:

"Desenvolve-se a partir desta liberdade mútua de expressar os sentimentos reais, positivos e negativos, um clima de confi- ança mútua. Cada membro caminha para uma maior aceita- ção do seu ser global, emotivo, intelectual e físico - tal como ele é, incluindo as suas potencialidades. " m (p.l7)

Com maior liberdade e menos rigidez defensiva, aumenta a comuni- cação entre os participantes. Eles conseguem se ouvir uns aos outros e surgem, então, movimentos de feedback, de maneira que cada pes- soa aprende como é vista pelos outros e que efeito tem nas relações interpessoais:

"Os participantes sentem uma aproximação e intimidade que nunca sentiram, nem mesmo com os respectivos cônjuges ou membros da família, porque se revelaram aqui de um modo muito mais fundo e completo do que com as pessoas do seu círculo familiar. Assim, num grupo destes, o indivíduo acaba por se conhecer a si próprio e a cada um dos outros mais completamente do que o que lhe é possível nas relações habi- tuais ou dè trabalho. Toma conhecimento profundo dos outros membros e do seu eu interior, o eu que, de outro modo, tende a esconder-se por detrás da fachada. A partir daqui, relaciona- se melhor com outros, não só no grupo mas também mais tar- de, nas diferentes situações da vida de todos os dias. ""' 7

105. Rogers, 1994, p. 14

106. Rogers, 1994, p. 17

107. Rogers, 1994, p. 19

94

Os Grupos de Encontro disseminaram-se rapidamente por todo os Estados Unidos durante as décadas de 60 e 70, inserindo-se no movi- mento da contracultura americana e no movimento do Potencial Humano da psicologia humanista.

14.2. O ensino centrado no aluno

Em 1970, Rogers publicou "Liberdade para Aprender" (Freedom to Learn) onde sistematizou suas experiências no campo do ensino e aprendizagem e propôs um ensino centrado no aluno. Rogers se inseriu, assim, na promoção de uma educação inovadora, humanística e vivencial, que subvertia a relação de poder da educa- ção tradicional. No ensino centrado no aluno, o professor confia na capacidade do aluno para pensar e aprender por si mesmo e, por este motivo, compartilha com ele a responsabilidade pelo processo de aprendizagem. O professor se torna, então, um facilitador da apren- dizagem, na qual a avaliação e a disciplina externas são substituídas pela auto-avaliação e auto-disciplina.

"Neste clima de promoção do crescimento, a aprendizagem tende a ser mais profunda, processar-se mais rapidamente e ser mais penetrante na vida e no comportamento dos alunos do que a aprendizagem realizada na sala de aula tradicional. Isso se dá porque a direção é auto-escolhida, a aprendizagem é auto-iniciada e as pessoas estão empenhadas no processo de uma forma global, com sentimentos e paixões tanto quanto com o intelecto"' 08 (p. 97).

108. Rogers, 1983, p.97

95

14.3. Workshops de comunidade

Para explorar experiências com os processos de crescimento grupais, Rogers e um grupo de colaboradores fundaram, em 1968, o Centerfor Studies of the Person (CSP), em La Jolla, Califórnia. Uma das atividades desenvolvidas pelo CSP era a formação de facilitadores de grupos de encontro, realizada em workshops de duas semanas com grupos de 200 a 300 pessoas, no chamado La Jolla Program. Estes workshops eram estruturados de maneira a permitir que todos os participantes se encontrassem juntos, a cada manhã, por três ho- ras. Havia grupos de encontro à tarde e as outras atividades eram programadas pelos próprios participantes no transcorrer da primeira semana. Um dos resultados mais importante destes workshops foi a descoberta de que nas reuniões de toda a comunidade as pessoas eram capazes de se comunicar e de compartilhar de maneira íntima, apesar do grande número de participantes.

Inspirado nessas experiências, Rogers e alguns colegas do Centerfor the Studies of the Person promoveram, a partir de 1973, workshops nos quais as reuniões do grande grupo passaram a ser o

centro das atividades e não mais um elemento periférico. Nestas reu- niões da comunidade, os participantes decíuiam o formato e a pro- gramação das atividades do workshop. Os organizadores (convenors), dessa forma, não se colocavam à parte do grupo, mas juntavam-se a

este como simples participantes 109 . Nesta

em 1977, Rogers escreveu o livro "Sobre O Poder Pessoal" (On Personal Power), no qual ele analisa as profundas implicações de

natureza social e política destes workshops:

época, mais precisamente

"Observo, com medo, as dores do parto de algo novo no mun-

do

al, sobre o processo pelo qual 136 pessoas podem viver em conjunto sem se destruírem umas às outras, podem viver jun- tas com um interesse voltado para o desenvolvimento comple- to de cada pessoa, podem viver juntas na riqueza da diversi- dade, ao invés de viverem na esterilidade da submissão, tere-

Se conseguirmos encontrar uma verdade, mesmo parci-

109. Wood, 1984.

96

mos então encontrado uma verdade com muitas, muitas impli-

Em um grupo, no qual o controle é compartilhado

por todos, em que, por meio de um clima prévio facilitador (nos pequenos grupos), cada pessoa adquire poder, torna-se viável um novo tipo de comunidade, um tipo defluxo orgâni- co, com indivíduos vivendo juntos em um estilo ecologicamente relacionado. Neste grupo, cada um manda e ninguém manda. O locus de escolha reside em cada pessoa, e intuitivamente, a escolha da comunidade torna-se um consenso, levando em consideração cada uma dessas escolhas individuais. Poder, liderança e controle fluem facilmente de uma pessoa para outra, à medida que surgem diferentes necessidades."""

cações

De 1974 a 1979, o Centerfor the Studies of the Person promoveu sete workshops atraindo pessoas de diversos países da Europa, Ásia e América Latina. Estas experiências foram tão bem-sucedidas que, em poucos anos, workshops de comunidade inspirados no modelo de La Jolla passaram a ser realizados também em muitos outros países. Atualmente, estes workshops são promovidos em todos os continentes, com o número de participantes variando de trinta a trezentos, reunindo-se de dois dias a duas semanas. A reunião do grande grupo de todos os participantes (community meeting), que no Brasil é cha- mada de "grupão", é considerada a principal atividade dos workshops de comunidade. Jerold Bozarth relata que nestas reuniões "ocorrem

períodos de silêncio, raiva, tentativas de organização, criticismo em relação aos organizadores e expressão de várias emoções como tam-

Encontros

pessoais entre os indivíduos e lutas de poder entre grupos ou facções

ocorrem com frequência.''"' Os grupões se reúnem pelo menos uma vez ao dia e o desenvolvimento das atividades formais do workshop (apresentações individuais de trabalhos teóricos, painéis, pequenos grupos de encontro, vivências, atividades recreativas) normalmente emergem a partir destas reuniões.

bém, às vezes, longos diálogos entre os participantes

Nestes workshops, existe a possibilidade do grupo como um todo desenvolver um sentido de comunidade." 2 Para muitos partici-

110. Rogers, 1986, pp. 168-169

111. Bozarth, 1998, p. 152

112. Raskin, 1996; Wood, 1994; Wood, 1999.

97

pantes, este senso de unidade ou comunhão com outros membros do grupo é um dos resultados mais gratificantes dos workshops. Segun- do Coulson" 3 , este sentimento de comunhão pode se expandir para além do grupo e abranger uma sensação de conexão com toda a hu- manidade, com a natureza e até mesmo com todo o universo:

"Parece que esta experiência no workshop pode iluminar mais claramente a identidade do indivíduo e ao mesmo tempo pode incorporá-la numa nova totalidade que, de alguma maneira,

é maior que o seu próprio eu ". "*

Inspirado nessas experiências, Rogers e uma equipe de colaborado- res (formada por Charles Devonshire, Ruth Sanford, Alberto Zucconi entre outros), desenvolveram workshops para a comunicação trans- cultural entre nações e para a resolução de conflitos inter-grupais e raciais nos Estados Unidos e Europa. Foram estas experiências com grandes grupos que, em 1977, levaram Rogers a utilizar pela primei- ra vez a expressão "Abordagem Centrada na Pessoa" (no livro "So- bre o Poder Pessoal"):

"Esta perspectiva desenvolveu-se primeiro no aconselhamento

e na psicoterapia, em que foi conhecida como centrada no

cliente, significando que uma pessoa que procurou ajuda não era tratada como um paciente dependente, mas como um cli- ente responsável. Aplicada à educação, foi denominada ensi- no centrado no aluno. Na medida em que essa abordagem pro- grediu em direção a uma ampla variedade de campos, longe de seu ponto de origem - grupos intensivos, casamento, rela- cionamentos familiares, administração, grupos minoritários, relacionamentos inter-raciais, interculturais e mesmo inter- nacionais parece melhor adotar-se um termo o mais amplo possível: centrado na pessoa. "" 5

113. Coulson, 1999

114. Coulson, 1999, p. 169.

115. Rogers, 1986, pp. 149-150.

98

14.4. Relação entre a Terapia Centrada no Cliente

e a Abordagem Centrada na Pessoa

A aplicação do termo "Abordagem centrada na pessoa", con-

tudo, acabou gerando muitas controvérsias. John Wood" 6 cita diver- sos significados confusos, contraditórios e inconsistentes que a ex- pressão "Abordagem Centrada na Pessoa" foi adquirindo ao longo dos anos, como, por exemplo: uma escola de pensamento, um mode- lo de treinamento para relações humanas, uma família de pratican- tes, uma tradição, uma filosofia, um conjunto de valores, um meio de comunicação, um conjunto de atitudes ou um tema a ser combinado com outras filosofias e técnicas. Por este motivo, segundo Wood, na discussão atual sobre o que é a Abordagem Centrada na Pessoa, chegou-se a uma situação na qual ela se tornou "tudo e nada" ao mesmo tempo.

Da mesma forma, a relação entre a Abordagem Centrada na Pessoa e a Terapia Centrada no Cliente também tem gerado contro- vérsias. Segundo Wood, alguns veteranos da Abordagem Centrada na Pessoa "rejeitam a terapia centrada no cliente como indolente, ineficaz ou apenas irrelevante. Um experimentado praticante da Abordagem Centrada na Pessoa, por exemplo, descarta com arro- gância a terapia centrada no cliente e se gaba de não ter se importa- do em ler nenhum livro de Cari Rogers." 111 Por outro lado, também há os "fundamentalistas" que consideram a terapia centrada no cli- ente como a única representante da Abordagem Centrada na Pessoa e descartam todas as outras atividades profissionais em que Rogers se engajou como sendo apenas heresias.

Mas, de uma maneira geral, a Abordagem Centrada na Pessoa tem sido considerada como uma extensão ou uma aplicação das ati- tudes facilitadoras da terapia centrada no cliente a outros campos de atividade. Entretanto, esta concepção não é adequada. Nos workshops de comunidade, por exemplo, devido ao grande número de partici- pantes no grupo, a atitude de "compreensão empática" não pode ser

116. Wood, 1995.

117. Wood, 1995, p.272.

99

vivenciada da mesma maneira que numa psicoterapia individual ou num pequeno grupo de encontro" 8 . Também nos grandes grupos, o papel de facilitador não pode ser designado a priori para um indiví- duo como é feito na terapia individual, pois "nós nunca sabemos quem vai dizer ou fazer alguma coisa que será facilitador para mais alguém" n9 . MacMillan & Lago 120 consideram que conceber o gran- de grupo como apenas um teatro para a atuação das três atitudes facilitadoras não permite capturar a sua inerente complexidade. Portner' 21 , por outro lado, considera que a identidade e os fundamen- tos da terapia centrada no cliente tem sido distorcidos pela influên- cia das aplicações da Abordagem Centrada na Pessoa.

Nesse sentido, para esclarecer a relação entre a terapia centrada no cliente e a Abordagem Centrada na Pessoa, Wood' 22 sugere que a imagem tradicional da Abordagem Centrada na Pessoa como a fo- lhagem colorida e superficial de uma árvore cujas raízes são a tera- pia centrada no cliente (por causa da origem cronológica do termo), deveria ser invertida e a Abordagem Centrada na Pessoa deveria ser concebida como a raiz da árvore, cujo principal galho seria a terapia centrada no cliente. Wood considera que a Abordagem Centrada na Pessoa, enquanto uma abordagem, esteve sempre presente na forma como Rogers se relacionava com seus clientes, no setting terapêutico. Para Wood, a Abordagem Centrada na Pessoa não é uma teoria, uma psicologia, uma filosofia ou um movimento, mas é simplesmente um "jeito de ser", ao contrário da terapia centrada no cliente, que tem uma teoria específica e coerente, um método e um corpo substancial de pesquisa.

Rogers, em 1987, também definiu a Abordagem Centrada na Pessoa como uma "maneira de ser":

118. Numa pesquisa qualitativa realizada por Stubbs (1992) com participantes de workshops de comunidade centrados na pessoa, não houve nenhuma referência à experiência de ser compreendido empaticamente por outros membros do grupo

119. Comunicação pessoal de Coulson citada em MacMillan & Lago, 1996, pp.604-605.

120. MacMillan & Lago, 1999.

121. Portner, 1994.

122. Wood, 1999.

100

"A abordagem centrada na pessoa é, então, primordialmente, uma maneira de ser que encontra sua expressão em atitudes e comportamentos que criam um clima promotor de crescimen- to"' 23

Para Wood 124 , este "jeito de ser" que constitui a Abordagem Centrada na Pessoa possui as seguintes características: uma perspectiva de vida positiva, uma crença numa tendência direcional formativa, uma intenção de ser eficaz, um respeito pelo indivíduo e pela sua autono- mia e dignidade, uma flexibilidade de pensamento e ação, uma tole- rância quanto às incertezas ou ambiguidades, senso de humor, hu- mildade e curiosidade. Bozarth 125 considera que o princípio funda- mental da Abordagem Centrada na Pessoa, que é verdadeiro tanto na terapia individual quanto nos grupos de encontro, organizações, gru- pos de comunidade ou qualquer outra atividade humana, é a dedica- ção dos facilitadores ao processo natural de crescimento dos indiví- duos e do universo.

Freire 126 sugere uma definição para a Abordagem Centrada na Pessoa suficientemente ampla para abranger todas as nuanças e suti- lezas de suas expressões e ao mesmo tempo suficientemente precisa para superar as ambiguidades e confusões atualmente existentes:

"Tendo como fundamento a confiança na tendência direcional formativa, isto é, a confiança na capacidade de todo organismo para se desenvolver, crescer e realizar construtivamente todas suas potencialidades, a Abordagem Centrada na Pessoa se cons- titui como um jeito de estar, ou uma forma de estar-em-relação com o outro e de estar-no-mundo caracterizada por duas atitu- des básicas: uma atitude de "deixar ser", isto é, de ausência de controle, de entrega ao fluxo do organismo, ao fluxo da vida e do universo; e uma atitude de "estar presente", que consiste numa abertura ao outro, numa atitude de estar junto na busca de uma unidade e comunhão com o outro ".

123. Rogers, 1987, p. 71

124. Wood, 1995.

125. Bozarth, 1998.

126. Freire, 1998.

»

101

14.5. Um jeito de ser

Em 1980, Rogers publicou seu último livro, "Um Jeito de Ser" (A Way ofBeing), no qual faz referências às dimensões espirituais da Abordagem Centrada na Pessoa. Rogers cita pesquisas sobre "esta- dos alterados de consciência" em que o indivíduo vivência o fluxo da evolução como um movimento que o aproxima de uma experiên- cia transcendente de unidade com o cosmo: "É como se o eu se dis- solvesse numa região de valores superiores, especialmente de bele- za, harmonia e amor. A pessoa sente-se como se ela e o cosmo fos- sem um só"™. Rogers descreve, então, a sua própria vivência de um estado alterado de consciência que ocorre no seus melhores momen- tos como terapeuta ou facilitador de grupos:

"Quando estou em minha melhor forma, como facilitador de grupo ou como terapeuta, descubro uma nova característica. Percebo que quando estou o mais próximo possível de meu eu interior, intuitivo, quando estou de algum modo em contato com o que há de desconhecido em mim, quando estou, talvez,

num estado de consciência ligeiramente alterado, então tudo

o que faço parece ter propriedades curativas. Nestas ocasi-

ões, a minha presença, simplesmente, libera e ajuda os ou- tros. Não há nada que eu possa fazer para provocar deliberada- mente essa experiência, mas quando sou capaz de relaxar e

de ficar próximo do meu âmago transcendental, comporto-me

de um modo estranho e impulsivo na relação, que não posso justificar racionalmente e que não tem nada a ver com meus processos de pensamento. Mas esses estranhos comportamen- tos acabam sendo correios, por caminhos bizarros: parece que meu espírito alcançou e tocou o espírito do outro. Nossa rela- ção transcende a si mesma e se torna parte de algo maior. Então, ocorrem uma capacidade de cura, uma energia e um crescimento profundos. " m

127.

128.

102

Rogers, 1983, p.47 Rogers, 1983, p.47

Nos últimos anos de sua vida, Rogers dedicou-se inteiramente à pro- moção da paz através da realização de workshops para a resolução de conflitos inter-grupais e para diminuição da tensão internacional entre nações. Em 1984, ele promoveu, na Áustria, um workshop com líderes e altos funcionários do governo de países em conflito da América Central. Em 1985, participou de um workshop na Irlanda do Norte e em 1986 participou de workshops na África do Sul e União Soviética. Rogers foi reconhecido por todo este esforço rece- bendo uma indicação para o Prémio Nobel da Paz. Infelizmente, quando ele recebeu essa nomeação, já estava em coma, um pouco antes de sua morte, em fevereiro de 1987.

14.6. O desenvolvimento de uma comunidade centrada-na-pessoa

Em 1982, realizou-se o I Fórum Internacional da Abordagem Centrada na Pessoa, em Oaxtepc, México. Segundo Fonseca 129 , a pro- posta inicial deste Fórum, baseada no modelo comunitário dos workshops centrados na pessoa, era a de ser "HBI encontro de troca de experiências e de informações centrado na atualidade vivida das pessoas participantes. Sem burocratização e sem institucionalização artificiais, com o máximo de espaço para o encontro e troca inter- pessoal, inter subgrupal e inter grupai, para a originalidade e para a criatividade." Desde então, realizaram-se mais seis Fóruns inter- nacionais, em diversos países: Inglaterra, Estados Unidos, Brasil, Alemanha, Grécia e África do Sul. O próximo Fórum Internacional será no Japão, em 2001.

Com esta mesma proposta, vêm sendo realizados, desde 1983, Encontros Latinos bi-anuais da Abordagem Centrada na Pessoa. O próximo Encontro Latino será realizado na Argentina, no ano 2000. Segundo Fonseca 130 , os Encontros Latinos desenvolveram caracte- rísticas singulares, originais e inesperadas:

129. Fonseca, 1999

130. Fonseca, 1999.

103

"Valoriza-se a atualidade do encontro efetivo das participan- tes, que são a instância de decisão sobre a programação do

A parte mais vivencial do Encontro é o espaço con-

tinente para as relações mais imediatas entre os participan- tes, para as trocas de experiências pessoais e profissionais, vivenciais e teóricas, grupais, sub-grupais e interpessoais Além da troca e do desenvolvimento teórico e filosófico dos participantes e das comunidade da ACP de que eles partici- pam, o Encontro serve como um rico espaço de vivência e de regeneração pessoal e coletiva. Uma de suas principais fun- ções está ligada ao consumo compartilhado, puro e simples, e uma oportunidade existencial de vivência grupai, sem a míni- ma preocupação produtivista. Além disso, o Encontro tem sido uma importante instância de socialização de principiantes in- teressados em desenvolverem-se na cultura da Abordagem "

encontro

Além dos Fóruns Internacionais e Encontros Latinos, existem diver- sos outros eventos que se realizam regularmente e que promovem um sentido de comunidade entre os indivíduos que partilham inte- resses comuns pela Abordagem Centrada na Pessoa, como, por exem- plo, os encontros anuais da ADPCA (Association for the Develop- ment of the Person-Centered Approach), qu° se iniciaram em 1986, os workshops também anuais de Warm Springs, organizados por Jerold Bozarth nos EUA, os Fóruns Brasileiros, os Encontros Argentinos, os Encontros regionais no Brasil (Encontro Nordestino 131 , Regional Sudeste, ENORTE e ACPampa) e um grande número de workshops de programas de formação na Abordagem Centrada na Pessoa que são realizados em toda a Europa.

Em 1988, Germain Lietaer fundou a Conferência Internacio- nal em Psicoterapia Centrada-no-cliente e Experiencial (International Conference on Client-Centered and Experiential Psychotherapy - ICCCEP), em Leuven, Bélgica. Desde então, já foram realizadas mais três ICCCEP: na Escócia em 1991, na Áustria em 1994, em Portugal em 1997 e a próxima conferência se realizará em Chicago no ano 2000. Estas conferências possuem um formato académico tradicio- nal, pois objetivam primeiramente o desenvolvimento da teoria e da

131. Até o ano de 1999, já haviam sido realizados nove Encontros Nordestinos. Éo pioneiro dos encontros regionais da ACP no Brasil.

104

pesquisa científica nas áreas da terapia centrada no cliente e da tera- pia experiencial.

Com o objetivo de promover o intercâmbio pessoal e profissi- onal entre a comunidade de indivíduos interessados na Abordagem Centrada na Pessoa, foram criadas duas redes de comunicação por e-mail na Internet da qual participam centenas de pessoas do mundo todo. A rede gerida pelo norte-americano Marco Temaner engloba participantes dos EUA, Canadá, Europa, Rússia, América Latina, Japão, África do Sul e Austrália. A outra rede, gerida por Alberto Segrera, da Universidade Ibero-Americana do México inclui partici- pantes de diversos países da América Latina, Portugal e Espanha.

Segundo Nat Raskin 132 , como resultado desta ampla variedade de interações e atividades desenvolve-se uma comunidade internaci- onal centrada-na-pessoa com relacionamentos que crescem em am- plitude e profundidade, profissionalmente e pessoalmente.

14.7. Publicações atuais

A Associação para o Desenvolvimento da Abordagem Centrada

na Pessoa (Association for the Development of the Person-Centered Approach - ADPCA) edita o Person-Centered Journal, uma revista semestral que publica, basicamente, artigos de caráter científico re- lacionados à Abordagem Centrada na Pessoa. Nos mesmos moldes é

publicado também o Person-Centred Practice pela Associação Bri- tânica da Abordagem Centrada na Pessoa (British Association of the Person-Centered Approach - BAPCA).

Dentre os livros publicados nos últimos três anos relaciona- dos tanto à terapia centrada no cliente, especificamente, quanto à abordagem centrada na pessoa, de uma maneira geral, citaríamos:

° Client-Centered and Experiential Psychotherapy: A paradigm in motion (1996) — Este livro, editado por Hutterer, Pawlowsky, Schmid e Stipsits é uma coletânea de diversos

132. Raskin, 1996.

105

trabalhos apresentados na III Conferência Internacional em Psicoterapia Centrada-no-Cliente e Experiencial realizada na Áustria, em 1994.

° Person-Centred Psychotherapy: Twenty Historical Steps (1996) — Este artigo, escrito por Nat Raskin, é o primeiro capítulo do livro "Developments in Psychotherapy:

Historical Perspectives", editado por Windy Dryden. Raskin, que foi amigo e colaborador de Rogers ao longo de quarenta e sete anos e que assistiu o desenvolvimento da terapia centrada no cliente desde os seus primórdios, como aluno de Rogers na Universidade de Chicago, apresenta a sua concepção do desenvolvimento histórico da psicoterapia centrada na pessoa em vinte "passos".

° The Psychotherapy of Cari Rogers: cases and commentary (1996) - Este livro, editado por Barry Farber, Débora Brink e Patrícia Raskin, apresenta comentários de dezessete conceitu- ados psicoterapeutas a respeito de dez sessões terapêuticas realizadas por Cari Rogers e registradas em áudio ou vídeo.

° Successful Psycotherapy: acaring, loving relationship (1997) — Livro de Cecil Patterson e Suzanne Hidore, apresenta os princípios da terapia centrada no cliente como elementos presentes em qualquer abordagem psicoterapêutica bem- sucedida. Os autores inserem-se na chamada tendência integrativa em psicoterapia, buscando os elementos co- muns às diversas abordagens. Os princípios da terapia centrada no cliente são apresentados de uma forma extre- mamente clara e didática e ilustrados com situações da prá- tica clínica.

° Empathy Reconsidered: new directions in psychotherapy (1997) — Este livro é uma compilação de artigos sobre empatia a partir de diversos referenciais teóricos, editado por Bohart e Greenberg. Na perspectiva da terapia centrada no cliente, dois capítulos são de especial interesse:

"Empathy in psychotherapy: a vital mechanism? Yes. Therapisfs conceit? AU too often. By itelf enough? No", de John Shlien e "Empathy from the framework ofClient-

centered theory and the Rogerian hypothesis" de Jerold Bozarth. Shlien conta a história do surgimento do conceito de "compreensão empática" na teoria da terapia centrada no cliente, como alguém que participou diretamente de dis- cussões com Rogers sobre o tema na Universidade de Chi- cago, na época em que o conceito foi acrescentado à teoria. Shlien e Bozarth também apontam as diferenças entre o conceito de empatia na terapia centrada no cliente e nas outras abordagens.

Prá-Therapie (1998) — Este livro apresenta a Pré-Terapia, uma aplicação da abordagem centrada na pessoa no trata- mento de indivíduos diagnosticados como "esquizofrê- nicos" ou "psicóticos", desenvolvida por Garry Prouty. O livro é escrito pelo próprio Prouty com a colaboração de Dion Van Werde e Marlis Põrtner. Van Werde é psiquiatra

e descreve em detalhes a aplicação da Pré-Terapia no con-

texto de uma instituição psiquiátrica da Bélgica. O relato de Van Werde é apaixonante, mostrando como a utilização

das atitudes básicas da Pré-Terapia pelos enfermeiros e atendentes, no dia-a-dia da clínica, ajuda os pacientes a saírem de surtos ou a retomarem o contato com a realidade sem a utilização de medicação ou contenção física.

"Person-CenteredTherapy: a revolutionary paradigm" (1998)

— Este livro reúne vinte artigos revisados de Jerold Bozarth

e alguns textos inéditos não apenas sobre a terapia centrada na pessoa, mas também sobre grupos de encontro, workshops de comunidade e questões filosóficas e sociais relativas à Abordagem Centrada na Pessoa.

"Trabalhando o legado de Rogers: sobre os fundamentos feno- menológico-existenciais" (1998) — Afonso Fonseca anali- sa os aspectos fenomenológico-existenciais da Abordagem Centrada na Pessoa e seus desdobramentos na era pós-Rogers.

"Diálogo e Psicoterapia: correlações entre Cari Rogers e Martin Buber" (1998) — Adriano Holanda, psicoterapeuta

e pesquisador brasileiro, apresenta uma investigação filosó-

fica a respeito das relações entre o pensamento de Cari Rogers e a filosofia de Martin Buber no contexto do humanismo.

107

° "Abordagem Centrada na Pessoa: vocabulário e noções básicas" (1998) — Primeiro vocabulário da Abordagem Centrada na Pessoa, foi organizado por Sérgio Gobbi e Sinara Missel, com a colaboração de Adriano Holanda.

° "Cari Rogers" helping system: Journey & Substance {1998) — Neste livro, Barret-Lennard apresenta o sistema teórico desenvolvido por Cari Rogers e suas implicações nas ques- tões sociais e de comunidade.

° "Experiences in Relatedness: Groupwork and the Person- Centred Approach"(1999) — Este livro, editado por Colin Lago e Mhairi MacMillan apresenta diversos artigos sobre as experiências de grupo na Abordagem Centrada na Pessoa.

133

15. Mitos, incompreensões e distorções "

Por Jerold D. Bozarth

Jerold D. Bozarth é professor emérito da Universidade da Geórgia, onde possui a Cátedra do departamento de Aconselhamento e Desenvolvimento humano e é diretor do programa de Aconselha- mento e Reabilitação e diretor do Projeto de Estudos Centrado na Pessoa. É consultor de programas de treinamento centrado na pes- soa na República da Checoslováquia e Portugal; diretor científico do programa de aprendizagem centrada na pessoa no Instituto de Aprendizagem Centrado na Pessoa na Inglaterra, e faz parte do pro- grama "Conexões Centradas na Pessoa", também na Inglaterra. Atualmente, está desenvolvendo um programa de pesquisa para tra- balhar com indivíduos que foram considerados "impossíveis " por outras organizações de ajuda.

Durante anos, a terapia centrada no cliente tem suportado nu- merosos mitos sobre a abordagem que estão baseados em asserções infundadas. Estes mitos incluem asserções tais como:

133. Tradução de Marcos Vinícius Beccon.

108

"A abordagem leva muito tempo"

"A abordagem trabalha somente com neuróticos da classe média"

"A abordagem é mais importante no início da relação de

aconselhamento"

"A relação cliente-terapeuta não pode ser de igual para igual"

"A abordagem é limitada à cultura dos Estados Unidos"

Estas e outras asserções, eu acredito, são viéses e incompreensões primárias que surgem a partir de outras bases de referências. Ade- mais, há diversas distorções fundamentais do paradigma centrado na pessoa que são periodicamente alimentadas por indivíduos que ale- gam serem defensores ou simpatizantes da abordagem. Este capítulo revisa e responde a diversos destes mitos e distorções. Os mitos prin- cipais são os seguintes:

Mito 1: A abordagem leva muito tempo

Esta crítica aparentemente vem da lógica de que uma vez que o terapeuta não está "fazendo" nada para apressar o cliente, a terapia levará mais tempo. O fato é que não existe evidência que dê apoio a este raciocínio. Um dos poucos estudos sobre o tempo de terapia descobriu que a terapia centrada no cliente e a terapia Adleriana eram igualmente efetivas (Shlien, Mosak e Drekhurs, 1962). Clínicos em consultório particular que se dedicam à abordagem centrada no cli- ente relatam uma ampla variedade de tempo gasto com seus clientes. De fato, a demonstração de Rogers com Gloria é um exemplo clássi- co de uma sessão de apenas 40 minutos que teve um impacto positi- vo. Shlien (1998), que se encontrou com a filha de Glória, oferece informações adicionais que apontam para a recuperação de Glória como uma pessoa que seguiu em uma direção construtiva e positiva. Gloria e Rogers desenvolveram um relacionamento naquele espaço de tempo que levou a uma periódica troca de cartas e telefonemas

109

por vários anos. Glória mostrou considerável crescimento e progres- so para lidar com os problemas em sua vida. Ela reconheceu o seu relacionamento com Rogers como de muita ajuda para este "ganho" de forças próprias. Como Rogers afirma: "É bom saber que apenas um encontro no qual nos encontramos como pessoa a pessoa pode fazer diferença" (Rogers, 1984 p.425).

Mito 2: A Abordagem somente trabalha com indivíduos neuróticos da classe média.

A base para esta asserção parece partir de duas inferências. A primeira está baseada na lógica de que uma vez que Rogers e seus colegas trabalharam em um centro de aconselhamento universitário, a abordagem não funcionaria com clientes mais severamente pertur- bados. A segunda suposição parece ser que a abordagem não lida com a patologia dos indivíduos e é simples demais para ser eficaz com psicóticos. Novamente, a experiência dos clínicos centrados- no-cliente contraria esta afirmativa. A equipe do centro de aconselha- mento da Universidade de Chicago trabalhava, em verdade, com cli- entes mais perturbados. Shlien (1971) e Rogers (Kirschenbaum, 1979) descrevem sessões de terapia de terapeutas do centro de aconselha- mento de Chicago com clientes "psicóticos". Rogers apresentou exemplos de casos de clientes no projeto de Wisconsin. Truax desen- volveu uma duradoura amizade com um dos seus clientes no projeto de Wisconsin (Truax, 1969 comunicação pessoal). Esta pessoa mudou de uma psicose imobilizadora de longa duração para um alto nível de funcionamento. Há relatos de trabalhos bem sucedidos com clientes mentalmente doentes e hospitalizados por curto ou longo prazo (Brodley, 1988; Prouty, 1994). Eu aprendi a trabalhar na abordagem centrada na pessoa com clientes mentalmente doentes e há muito tempo hospitalizados que estavam predestinados a nunca melhora-

110

rem o suficiente para receberem alta de um hospital de saúde mental público. No entanto, numa avaliação feita ao longo de mais de dois anos, mais de oitenta por cento dos indivíduos com quem trabalhara haviam recebido alta e estavam trabalhando fora do hospital quatro anos após sua colocação. Além disso, o problemático projeto de pesquisa de Wisconsin, planejado para examinar a efetividade da terapia centrada no cliente com "psicóticos" hospitalizados, forneceu evidências suficientes para indicar, pelo menos, que a presença das condições necessárias e suficientes da hipótese de Rogers teve algum impacto positivo sobre os clientes (Rogers, Gendlin, Kiesler e Truax,

1967).

Mito 3: A abordagem é importante basicamente no início da relação de aconselhamento

Esta crítica parte da posição tomada de outras marcos de refe- rências que vê as condições como o "solo" para as intervenções do terapeuta. Isto é citado, em parte, a partir da percepção de que as pesquisas decididamente falharam em apoiar que as condições são necessárias e suficientes. Aparentemente, esta afirmação surgiu pri- meiro nas pesquisas comportamentais, que tomaram a posição de que o terapeuta comportamental necessitaria fazer mais e que, para o comportamental, as condições seriam necessárias, mas não suficien- tes (Krumboltz, 1967). Isto foi generalizado e levado adiante pelos revisores das pesquisas como sendo cientificamente provado.

Mito 4: A relação cliente-terapeuta não pode ser de igual para igual

Buber e Rogers tiveram um diálogo que se referia a este ponto como sendo uma de suas discordâncias (Kirschenbaum e Henderson,

111

1989). Buber refere ao estado da terapia para Rogers:

você "

tem necessariamente outra atitude para com a situa-

ção do que ele (o cliente) tem. Você tem condições de fazer

algo que ele não tem. Vocês não são iguais e não podem ser. Você tem a grande tarefa, auto-imposta - uma grande tarefa

auto-imposta de suplementar as necessidades dele e fazer mais

do que faria em uma situação normal

seu modo de pensar, seu modo de fazer, há também uma certa

situação - nós somos assim e assim - que pode às vezes ser

trágica. Você não pode mudar isto confrontando " (p. 50).

há uma realidade nos

não há somente você,

Rogers respondeu:

mas "

tem sido a minha experiência que a realidade, quando

é vista do lado de fora, não tem realmente nada a ver com o relacionamento que produz terapia. Esta é algo imediato, igual, um encontro de duas pessoas em bases iguais, mesmo que no mundo do Eu-Isto, possa ser visto como um relacionamento desigual." (pp. 51-52)

A diferença de entendimento entre estas duas posições me parece ser uma diferença na visão do poder. A posição centrada na pessoa parte de uma visão do poder com origem na etimologia latina, portiere, que significa essencialmente tudo o que você é capaz de ser. A posi- ção contrária parece focalizar na definição de poder como "posses- são de controle, autoridade ou influência sobre os outros" (Dicioná- rio Americano Heritage, 1995). A igualdade do relacionamento está, de fato, na atitude disposta do terapeuta de confiar no cliente para ele seguir em sua própria direção, caminho e ritmo. É a igualdade de dois indivíduos em relação.

112

Mito 5: A abordagem centrada na pessoa está baseada na cultura e filosofia norte-americanas

Tem havido numerosas críticas à teoria de Rogers em relação a valores culturais, marcos de referência de várias raças, e até mes- mo posturas perceptuais de género (Holdstock, 1990; 0'Hara, 1997). Frequentemente toma-se a posição de que os valores de Rogers eram inicialmente valores da classe média americana, desenvolvidos den- tro da cultura americana de valorização da independência, da auto- suficiência individual e das conquistas materiais. Eu considero isto um argumento falho que deixa de considerar a essência da teoria como sendo organísmica, natural e universal. A teoria se aplica a toda a espécie humana e na verdade a todos os organismos vivos (Rogers, 1980). Quando a teoria é colocada de uma maneira que é considerada inapropriada para casos particulares, ela é sempre colo- cada no formato em que os indivíduos aprenderam a "fazer" terapia centrada no cliente. Focalizar em como fazer terapia centrada na pessoa é um dos fatores mais inibidores na criação do ambiente li- bertador para o indivíduo. Ademais, Rogers foi consistente quanto a desenvolver sua teoria a partir de sua observação de clientes da tera- pia que se moveram em direções positivas quando era fornecida a oportunidade através de um atmosfera terapêutica facilitadora. Mais tarde, ele manteve estas mesmas observações de indivíduos em gru- pos de encontro. Suas observações foram os fundamentos primários da teoria; a hipótese de crescimento emergiu destas observações. Ele observou esse processo interno e natural em indivíduos no mundo todo durante os anos em que esteve envolvido com workshops e gru- pos de encontro.

As distorções mais proeminentes que também parecem existir em alguns terapeutas centrados na pessoa e em outros são as seguin- tes:

1 - O terapeuta tem uma intenção sistemática de ajudar a mudança do cliente de uma determinada maneira;

2 - 0 terapeuta tem objetivos de ajudar o cliente a diminuir ou erradicar problemas ou questões particulares;

113

3 - O terapeuta é um especialista na promoção de um 'processo' particular no cliente;

4 - As condições citadas por Rogers são necessárias, mas não são suficientes.

Há outras distorções, mas, para mim, estas parecem ser as mais cor- rentes entre os indivíduos que se consideram alinhados com os prin- cípios da abordagem centrada na pessoa, bem como daqueles que mantêm diferentes alianças teóricas. Em uma crítica ao criticismo de proeminentes autores em relação à abordagem centrada na pessoa, notei que o impulso básico de tais críticas é o seguinte (Bozarth,

1995):

"Este processo é, em essência, o de dispensar a pressuposi- ção fundamental da abordagem (aquela da tendência atualizante e da autoridade do cliente) como inatingível ou questionável e proceder com críticas à teoria a partir de ou- tros referenciais teóricos. Na posição tomada por estes auto- res está embutida em vários graus a pressuposição de que o terapeuta é o especialista para o tratamento e mudança de comportamento do cliente. Portanto, o seu argumento teórico é um non sequiter do significado e entendimento da teoria de Rogers (p.12)."

Para recapitular a teoria ainda de outra maneira:

Quando o terapeuta pode incorporaras qualidades atitudinais de congruência, consideração incondicional e compreensão empática na relação terapêutica com o cliente de uma manei- ra que o cliente possa perceber/experienciar estas qualidades com o locus de controle pertencendo ao cliente, é que o pro- cesso de atualização do cliente épromovido (Bozarth, 1997).

A importância geral da definição teórica em cada distorção da abor- dagem centrada na pessoa está no ponto crucial da teoria, de que o fornecimento das condições facilitadoras promove um processo na- tural no cliente, o processo de atualização. Este processo natural que existe nos seres humanos é, ao menos parcialmente, idiossincrático

114

em relação à mudança particular ("de maximizar as potencialidades

individuais") ao passo que também é universal em um nível mais macro: qual seja, "o de manter e aperfeiçoar o organismo". Rogers e Sanford observam que a promoção da tendência atualizante através da incorporação das atitudes terapêuticas constitui um contínuo

"posicionamento radical

que advoga a completa confiança no cres-

cimento e desenvolvimento individual sob determinadas condições" (Rogers e Sanford 1984, p.1388). A posição de Rogers quanto ao locus de controle essencial para facilitar a tendência atualizante é declarada com perspicácia (Rogers, 1977):

"A política da abordagem centrada no cliente é uma renúncia

uma evitação consciente do terapeuta a todo controle sobre

cliente ou a tomadas de decisão por ele. É a facilitação da

e

o

auto-apropriação pelo cliente e as estratégias através das quais isto pode ser alcançado; a colocação do locus da tomada de decisão e a responsabilidade pelos efeitos destas decisões. É politicamente centrado no cliente." (p.14)

Esta posição radical de facilitar o processo natural do cliente é o ponto crucial em relação ao qual a maioria das distorções são consi- deradas. A abordagem centrada na pessoa é uma posição de vanguar- da. As diversas distorções específicas que estão associadas com alguns indivíduos que praticam a terapia centrada na pessoa são as seguintes:

Distorção 1: O terapeuta tem uma intenção sistemática de ajudar o cliente a mudar de uma determinada maneira

Esta intenção está explícita em pelo menos duas ramificações da abordagem centrada na pessoa. Uma destas ramificações é o trei- namento de relações humanas que se desenvolveu a partir do traba- lho conceituai de Rogers mas que, eu afirmo, é uma distorção de suas hipóteses. Outra ramificação é a terapia experiencial que foi gerada a partir do trabalho de Rogers e é entretecida com o trabalho

115

de Gendlin sobre a teoria da experienciação (Gendlin^ 1974). No treinamento de relações humanas, a distorção, dito simplesmente, está em que a intenção do terapeuta é a de mover (ou ajudar a mover) o cliente, através do relacionamento, para a compreensão e daí para a ação. Na terapia experiencial, a intenção do terapeuta é, em última instância, a de mover os clientes a experienciar o seu sentido vivido ("felt sense"). Então, a pessoa pode experienciar um determinado fenómeno em si mesma (Gendlin, 1990). Em ambas ramificações, o processo natural do cliente é substituído pela intenção do terapeuta. Há um sutil retorno à autoridade e conhecimento do terapeuta e a autoridade do cliente fica comprometida.

Distorção 2: O terapeuta tem o objetivo de ajudar o cliente a diminuir ou erradicar problemas ou questões particulares

Um apelo para que os terapeutas cent r ados no cliente se dedi- cassem mais às questões clínicas, foi expresso num artigo editorial que sugeria que o fracasso dos autores centrados na pessoa em se voltar às questões clínicas constitui "um sério descaso de nossa par- te" (Cain, 1993, pg.134). Shlien, respondendo a um artigo sobre psicodiagnóstico, resume sucintamente a posição teórica centrada na pessoa em termos de funcionamento concreto: "mas a terapia centrada no cliente tem somente um tratamento para todos os casos" (Shlien, 1989, pg. 161). Rogers foi também bastante explícito quanto a este ponto. Ele afirmou (Rogers, 1942):

"O foco é o indivíduo e não o problema. O objetivo não é resolver um problema específico, mas assistir o crescimento do indivíduo, de forma que ele possa lidar com o problema atual e com os problemas vindouros de uma maneira mais integrada".(pp.28-30)

116

Distorção 3: O terapeuta é um expert na promoção de um "processo" particular no cliente

Há um grupo de indivíduos que investiga o processo dos cli- entes em terapia num esforço de identificar respostas terapêuticas específicas que facilitem processos experienciais mais efetivos nos clientes (Rice e Greenberg, 1990). Outros se dedicaram também ao processo de terapia na visão do cliente (Barrett-Lennard, 1990). Es- tes trabalhos aparentemente foram estimulados pela concepção de Rogers de processo, que emana dos "momentos de movimento" dos clientes na terapia, como também do delineamento tipo "se-então" de sua teoria (Rogers, 1951; 1959). A distorção está em que as obser- vações de Rogers deste processo que ocorre em muitos clientes tornam-se instruções para o terapeuta fazer um determinado proces- so acontecer e/ou acreditar que este processo tem que necessaria- mente acontecer. Como Brodley afirma: "A adoção de Rogers do mecanismo das atitudes é incompletamente articulada porque impli- ca numa variabilidade ainda não descrita de processos de mudança, de acordo com as diferenças individuais"(Brodley, 1990, pg.12). A base teórica da psicoterapia como uma teoria que capacita o cliente a promover o seu processo individual é ignorada. O terapeuta agora sabe aonde o cliente deve ir, ou conhece o processo idiossincrático natural de determinado cliente e (dependendo da tendência do terapeuta em ser um expert) está agora, teoricamente, na posição de dirigir o cliente através de um processo "adequado e correto".

Distorção 4: O termo "centrado na pessoa" é fundamentalmente diferente de "centrado no cliente"

Apesar do termo centrado na pessoa ser representativo das manifestações que se desenvolveram a partir dos princípios da tera- pia centrada no cliente, o termo é atribuído aos mesmos princípios básicos da terapia centrada no cliente. Raskin comenta a respeito do

117

significado da terapia centrada na pessoa referindo-se à confiança na capacidade de auto-direção tanto do cliente quanto do terapeuta

pode co-

locar em cena diferentes maneiras de expressar empatia, o uso da

enquanto mantiver o mesmo

respeito básico pela capacidade de auto-direção do cliente"(p.l). Raskin sugere que uma atividade terapêutica não sistemática " pode representar a terapia centrada no cliente no seu nível ótimo, com o terapeuta trabalhando livremente, aceitando o cliente como alguém

que está na frente do caminho, sem estar limitado por um conjunto de regras"(p-l). Ele diferencia as atividades terapêuticas sistemáti- cas das não sistemáticas concebendo as abordagens sistemáticas como

noção pré concebida de como elas desejam mudar o

cliente e funcionando de um modo sistemático, em contraste com o

terapeuta centrada na pessoa que já começa aberto e permanece aberto para o processo emergente orquestrado pelo cliente."(p.2). Em outro artigo eu discuto os comportamentos do terapeuta como sendo de- pendentes, em parte, das idiossincrasias do terapeuta, do cliente e da situação (Bozarth, 1984). Estas diferenças, entretanto, são diferen- ças na manifestação e não diferenças em relação à pedra fundamen- tal da teoria centrada no cliente, isto é, a atualização; também não é uma diferença relacionada às condições necessárias 0 suficientes que permitem a promoção da tendência atualizante do indivíduo. Rogers

foi claro na sua posição como clínico: "

dar num relacionamento supostamente centrado no cliente ou num rotulado como centrado na pessoa. Eu trabalho da mesma maneira

em ambos" (Rogers, 1987, pg.3).

(Raskin, 1988). Ele sugere que a confiança do terapeuta "

intuição ou a exposição de si mesmo

tendo "

uma

seja

eu chamado para aju-

Distorção 5: As condições citadas por Rogers são necessárias, mas não são suficientes

De alguma maneira, tem se alegado que esta distorção é um dos resultados predominantes das pesquisas sobre as condições ne- cessárias e suficientes. O fato é que não existe a mínima evidência direta que dê apoio a esta afirmação (Stubbs e Bozarth, 1994).

l i »

Existem outros mitos e distorções que têm sido equiparados à abordagem centrada na pessoa. A maioria deles é gerada pelo fracas- so em compreender e/ou assimilar a posição radical da abordagem centrada na pessoa, que centra na pessoa do cliente como sendo o melhor expert sobre sua própria vida, e na qual, o terapeuta opera sob a premissa de confiar que a direção construtiva é acentuada quan- do se cria um clima psicológico apropriado.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRETT-LENNARD, G. T. (1990) The therapy pathway reformulated. In G. Lietaer, J. Rombauts and R. Van Balen (eds) Client-Centered and Experiential Therapies in the Nineties. Leuven: Leuven University Press, pp. 123-153

BOZARTH, J.D. (1984) Beyond reflection: emergent modes of empathy. In R. Levant & Shlien, J. (eds). Client-centered therapy and the person-centered approach: nes directions in theory, research, and practice. New York:

Praeger. p. 59-75

BOZARTH, J.D.

(1995) Person-Centered Therapy:

a misunderstood

paradigmatic difference? The Person-Centered Journal, 2, 12-17

BOZARTH, J.D. (1997) Empathy from the framework of Client-Centered Theory and the Rogerian hypothesis. In A. Bohart and L. Greenburg (eds).Empathy Reconsidered: new directions in psychotherapy. Washing- ton: American Psychological Association. pp. 81-102

BRODLEY, BT. (1988) Cari Rogers' therapy. In F. Zimring (Chair) Re- examination of client-centered therapy using Rogers' tapes and films. Simpósio conduzido no encontro da Associação Psicológica Americana, Atlanta.

BRODLEY, B.T. (1990) Client-Centered and Experiential Therapy: two different therapies. In G. Lietaer, J. Rombauts and R. Van Balen (eds) Client- Centered and Experiential Therapies in the Nineties. Leuven: Leuven University Press. pp. 87-107

CAIN, D.J. (1993) The uncertain future of client-centered counseling. Journal of Humanistic Education and Development, 331, 133-139.

GENDLIN, ET. (1974) Client-Centered and Experiential Psychotherapy. In D. Wexler & L. Rice (eds.) Innovations in Client-Centered Therapy. New York: John Wiley and Sons.

119

GENDLIN, E.T. (1990) The small steps of the therapy process.íiow they come and how to help them come. In G. Lietaer, J. Rombauts and R. Van Balen (eds) Client-Centered and Experiential Therapies in the Nineties. Leuven:

Leuven University Press. pp. 205-224

HOLDSTOCK, T.L. (1990) Can Client-Centered Therapy transcend its monocultural roots? In G. Lietaer, J. Rombauts and R. Van Balen (eds) Client-Centered and Experiential Therapies in the Nineties. Leuven: Leuven University Press. pp. 109-121.

KIRSCHENBAUM, H. (1979) On Becoming Cari Rogers. New York: Dell

Kirschenbaum, H. & Henderson, V. (eds) (1989) The Cari Rogers Dialogues. Boston: Houghton Mifflin Company.

KRUMBOLTZ, J.E. (1967) Changing the behavior of behavior changers.

Counselor Education and Supervision, Spring, Special Publication, 222-

227.

0'HARA, M. (1997) Relational empathy: beyond modernistic egocentrism to post-modern holist contextualism. In A. Bohart and L. Greenburg (eds). Empathy Reconsidered: new directions in psychotherapy. Washington:

American Psychological Association. pp. 295-319.

PROUTY, G. (1994) Theoretical Evolutions in Person-Centered/Experíential Therapy: applicatíons to schizophrenic and retarded psychoses. Westport, Conn.: Praeger.

RASKTN, N. (1988) What do we mean by person-centered therapy? Trabalho apresentado no segundo encontro da Associação para o Desenvolvimento da Abordagem Centrada na Pessoa, New York.

RICE, L.N. & Greenberg, L.S. (1990) Fundamental dimensions in experiential therapy: New directions in research. In G. Lietaer, J. Rombauts and R. Van Balen (eds) Client-Centered and Experiential Therapies in the Nineties. Leuven: Leuven University Press. pp. 397-414.

ROGERS, CR. (1942) Counseling and Psychotherapy. Boston: Houghton- Mifflin.

ROGERS, CR. (1951) Client-Centered Therapy. Boston: Houghton-Mifflin

ROGERS, CR. (1959) A theory of therapy, personality, and interpersonal relationships as developed in the client-centered framework. In S. Koch (ed.) Psychology: A study ofscience. vol. 3. Formulation oftheperson and the social context.