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Texto Teatral - ACONTECEU COMIGO: BULLYING

de Emílio Carlos
NARRADOR – Oi. Tudo bem com vocês? Nossa peça de teatro se chama “Aconteceu comigo: Bullying”. Aí
você pergunta: o que é bullying? Bullying é uma palavra em inglês que não tem tradução em português. Mas é
uma coisa que acontece em vários lugares, inclusive aqui na escola, com vocês. Bullying são agressões físicas
ou verbais que se repetem contra um ou mais colegas. Por exemplo: por apelido contra a vontade da pessoa é
bullying. Ofender, zoar, e humilhar a pessoa – tudo isso é bullying. Bater, agredir, pegar coisas da pessoa – isso
também é bullying.
Numa escola ou num grupo temos 3 tipos de pessoas envolvidas no bullying. Temos o agressor – que escolhe
uma ou mais vítima para perseguir. Temos a vítima, que sofre as agressões. E temos as testemunhas. As
testemunhas são pessoas que veem a agressão mas não dizem nada. E não dizem nada porque tem medo de
serem perseguidos também.
No fim o bullying é ruim pra todo mundo: é ruim para as vítimas, que sofrem demais com isso. É ruim para as
testemunhas, que vivem com medo de serem agredidas. E também é ruim para o agressor. Porque ele está
sujeito a ser punido pela escola: pode ganhar uma advertência, uma suspensão e até uma transferência
compulsória para outra escola. Isso depois dos pais dele serem chamados.
Então vamos assistir à essa peça com muita atenção. Porque ela fala para todos nós que estamos na escola.
Assista e veja se isso não está acontecendo com você. Veja quem é você nessa história: o agressor, a vítima ou a
testemunha. Vamos lá.
(Cenário: algumas cadeiras e carteiras como numa sala de aula + mesa do professor. Sugestão: as cadeiras são
dispostas de forma que fiquem de lado para a plateia, para facilitar a visualização.)
NARRADOR – Essa é a história de um garoto chamado Michel. Ele tem 9 anos e está no 4º ano do ensino
fundamental. O Michel gosta de estudar, de aprender novas coisas. Assim ele entende melhor como o mundo
funciona. Essa aí é o Michel.
MICHEL – (entra) Vamos logo, Rafael.
RAFAEL – Tô indo, Michel.
NARRADOR – E esse aí é o Rafael. O Michel e o Rafael são grandes amigos. Eles se entendem muito bem.
Tem algumas diferenças de opinião, mas se dão bem.
MICHEL – Loira.
RAFAEL – Morena.
MICHEL – Par.
RAFAEL – Ímpar.
MICHEL – São Paulo.
RAFAEL – Corinthians.
(Michel e Rafael sentam-se).
NARRADOR – Bom, nem tudo pode ser perfeito, né? Eu prefiro o Palmeiras. Mas deixa o futebol de lado e
vamos voltar pra história. Tudo ia bem pro Michel. Ele se dava bem com os professores e colegas. Essa turma
aí é colega do Michel.
(entram alunos e alunas e sentam-se nos seus lugares. Fica apenas um lugar vago – logo atrás do Michel).
NARRADOR – Tudo ia bem aqui. Daí chegou o Tião.
TIÃO – (entra, com pose de valentão) Hum!
NARRADOR – O Tião era bem mais velho que o pessoal da classe. Ele tinha 11 anos e era repetente. E hoje é o
seu primeiro dia de aula nessa escola.
TIÃO – (olha para a sala, coça o queixo) Deixa eu ver...
NARRADOR – Sabem o que ele está fazendo? Procurando uma vítima.
(Os alunos se intimidam. Um deles se abaixa na carteira.)
TIÃO – (anda em direção à cadeira vazia. Esfrega as mãos de satisfação e diz para Michel) Escolhi! Você vai
ser minha vítima esse ano.
NARRADOR – O Michel nem teve tempo de dizer nada.
TIÃO – (dá um tapa nas costas de Michel) E se você falar alguma coisa eu acabo com você.
NARRADOR – Foi nessa hora que a professora chegou na sala e apresentou o aluno novo:
PROFESSORA – Oi classe!
CLASSE – (responde) Oi professora.
TIÃO – (com ar irônico) Oi “ssora”.
PROFESSORA – Quero que vocês conheçam o aluno novo: Sebastião Antonio dos Santos.
TIÃO - Vulgo Tião, “ssora”.
MARQUINHOS, ADÃO e LEONARDO – (riem)
NARRADOR – Esses aí são o Marquinhos, o Adão e o Leonardo. Eles fazem parte da turma da bagunça desde
o ano passado e viram no Tião um herói pra eles, alguém a ser imitado.
PROFESSORA - Quero que vocês tratem bem o Tião. Certo classe?
NARRADOR - A classe não respondeu. Todo mundo estava com medo do Tião (menos a turma da bagunça). A
professora – que não conhecia o Tião – repetiu a pergunta:
PROFESSORA - Certo classe?
NARRADOR - A classe então respondeu “certo” entredentes.
CLASSE – Certo.
NARRADOR - E o Tião disse assim:
TIÃO - Se preocupa não, 'ssora. Eu já fiz um amigo. (bate nas costas do Michel)
MARQUINHOS, ADÃO e LEONARDO – (riem)
NARRADOR - Mas a professora não percebeu nada. E disse assim:
PROFESSORA - Que bom, Tião. O Michel é um de nossos melhores alunos.
TIÃO – (falando mais baixo) Era, Michelito. Era. (ri e se senta atrás do Michel)
NARRADOR – Foi aí que o Michel sentiu que estava perdido.

(toca o sinal e os alunos saem de cena).


NARRADOR - O pessoal da turma da bagunça era chato. Falavam no meio da explicação da professora,
contavam piadinhas sem graça no intervalo, mas era só isso. Ninguém era valentão. Só o Tião. Ele escolheu o
Michel pra vítima dele mesmo. O Tião cutucava, vivia dando tapas e pegava as coisas do Michel – tudo isso
escondido da professora.
Note bem isso: o agressor sempre faz tudo escondido da professora, da inspetora de alunos e da diretora. Sabem
por que? Porque ele sabe que está fazendo errado. E sabe que se o professor pegar o agressor está frito.
E o Michel sofria. No recreio começou a se afastar dos colegas. Ele tentava ficar o mais longe possível do Tião.
Ele se escondia dele. Mas não adiantava nada – o Tião sempre me achava o Michel.. E atrás dele vinha a turma
da bagunça, pra se divertir às custas do Michel.

(Michel entra e se senta num canto. Rafael entra junto com ele. Outros alunos também entram com seus
lanches, e se espalham. Entram Tião e a turma da bagunça).
TIÃO – E daí, Michelito.
TURMA DA BAGUNÇA – (ri)
MICHEL – Me deixa em paz, Tião.
TIÃO – Ora, o que é isso? Eu só quero conversar com meu amigão.
TURMA DA BAGUNÇA – (ri)
MICHEL – Sai.
TIÃO – O que isso, fracote? Está perdendo o medo, é? Me dá isso aqui. (toma o lanche da mão do Michel)

MICHEL – É meu.
TIÃO – Era. Agora é meu.
TURMA DA BAGUNÇA – (ri)
TIÃO – O que? Bolacha de morango? Eu só gosto de chocolate! (joga no chão e pisa em cima)
TURMA DA BAGUNÇA – (ri)
MICHEL – (abaixa a cabeça)
TIÃO – “Vamosimbora”.
TURMA DA BAGUNÇA – (rindo) È. Babaca. Bobão.
RAFAEL - Por que você não reage, Michel?
MICHEL – (Michel responde quase chorando) Porque ele arrebenta comigo se eu reagir.
RAFAEL - Conta pra professora então.
MICHEL - Ela nunca acreditaria. O Tião posa de meu amigo na sala, lembra?
RAFAEL – (divide o lanche e dá uma parte ao Michel) Toma.
MICHEL – Obrigado.
(Os dois saem de cena).
NARRADOR – Muita gente viu tudo e não falou nada. Essas são as testemunhas. No fundo no fundo eles
também tem medo do Tião. Então não dizem nada pra não sobrar pra elas.
(Os outros alunos e alunas saem de cena).
NARRADOR – E o que acontece? O valentão fica ainda mais valentão. E daqui a pouco pode aprontar com
você. É isso mesmo: mais dia menos dia ele vai pra cima de você. Mesmo que você não tenha nem olhado pro
lado dele. Se lembre que o Michel – a vítima – também não fez nada pro Tião persegui-lo.
MICHEL – (entra escrevendo seu diário) - Eu já tinha ouvido falar de tristeza. Mas não sabia que uma tristeza
tão grande era possível pra alguém que só tinha 9 anos. Eu fui ficando triste, chorava escondido, qualquer coisa
meus olhos enchiam de água. Meus pais trabalhavam o dia todo fora e não percebiam nada. Mas quantas vezes
eu fui dormir querendo não acordar nunca mais.
NARRADOR – O agressor destrói a vítima por dentro. A vítima se sente sem saída. E vai se sentindo pior, cada
vez pior; cada vez mais triste. As notas do Michel pioravam. Ele vivia pelos cantos. Tudo que o Michel queria
era desaparecer.
MICHEL - Quanto mais eu ficava quieto mais ele aprontava. E a turma da bagunça só ria da minha cara. Aquilo
tudo doía forte, doía muito, doía mais que os tapas que ele me dava: doía na alma!
Comecei a querer faltar na escola. Mas minha mãe não deixava. Com a sala lotada eu não podia mudar de lugar.
Eu estava sem saída. (sai de cena)
NARRADOR – Quanto mais o Michel ficava quieto mais o Tião aprontava.
(Entra Michel junto com Rafael vão para um canto tomar lanche. Entram outros alunos e alunas com seus
lanches).
NARRADOR – Aí vem o Tião e sua gang.
(Tião e a turma da bagunça entram falando e rindo. Tião bate no lanche de Michel. O lanche vai parar no chão).
TIÃO – (cinicamente) Oh, me desculpe Michelito. (pisa e dança em cima do lanche debochadamente.
TURMA DA BAGUNÇA – (ri e ri)
TIÃO – Oh, ele vai ficar com fome, turma.
TURMA DA BAGUNÇA – (ri)
TIÃO – (pega um saco de papel com algo dentro) Tome, Michelito. É pra você.
MICHEL – Eu não quero.
TIÃO – (pega a mão de Michel e o obriga a pegar) Claro que quer.
TURMA DA BAGUNÇA – (ri)
TIÃO - Não vai abrir, Michelito? (solta uma gargalhada)
NARRADOR – O Michel nem precisava abrir pra saber que ia ser humilhado mais ainda. Era lógico que ali
dentro não tinha outro lanche. E naquele momento o Michel não aguentou mais. Ele decidi reagir. Michel decidi
que não ia mais aguentar aquilo.
TIÃO - Não vai abrir, Michelito?
MICHEL – (decidido) Meu nome é Michel. E eu não vou abrir.
NARRADOR - Por um momento houve silêncio. O Tião não esperava que o Michel respondesse. A turma da
bagunça olhou para o Tião, cobrando uma atitude. Ele percebeu que sua liderança estava ameaçada. Então
olhou para Michel e disse:
TIÃO - Como é que é?
MICHEL - É isso mesmo que você ouviu: eu não vou abrir. (devolve o saco na mão do Tião)
(Rafael sai de cena pelo lado, discretamente).
NARRADOR - O Tião não podia acreditar. Finalmente Michel o tinha enfrentado. E ele não aceitava isso.
NARRADOR - Tião jogou o saco de papel no chão. O saco se espatifou e espalhou areia pelo chão. Foi aí que o
Tião fez um sinal e a turma da bagunça segurou o Michel por trás para o Tião bater. Tião levantou a mão
fechada, ergueu o punho o mais alto que podia e disse assim:
TIÃO - Você vai se arrepender, verme!
(entram Rafael, a professora e a diretora da escola)
RAFAEL – Não, Tião! Quem vai se arrepender é você. Solte ele!
NARRADOR - Foi o Rafael que disse isso. Grande amigo Rafael. Ele tinha ido chamar a diretora da escola. E
agora ela e a professora tinham pego o Tião e a turma da bagunça no flagra.
DIRETORA - Soltem ele! Os quatro para a diretoria!
TIÃO – Mas, mas...
DIRETORA - Agora!
(saem Tião e a turma da bagunça, seguidos pela diretora e pela professora).
MICHEL - Valeu Rafael.
RAFAEL - Amigo é pra essas coisas.
(Os dois saem de cena pelo lado oposto do Tião. Aos poucos os outros alunos e alunas vão saindo de cena).
NARRADOR - A diretora chamou os pais dos quatro. A turma da bagunça levou uma suspensão: 3 dias pra
cada um. A diretora descobriu que o Tião vivia importunando os alunos na outra escola que ele estudava antes.
Ele foi transferido para outra escola e a mãe dele agora vai ficar em cima dele.
Aconteceu com o Michel e pode estar acontecendo com você: apelidos chatos, tapas, agressões. Tudo isso que
faz a gente se sentir tão mal se chama bullyng.
Só tem um jeito de resolver isso: conte pra todo mundo! Conte pro seu pai, pra sua mãe, pra professora, pra
diretora da escola. Não aceite, não deixe passar. Ninguém tem o direito de te humilhar. Reaja! Crie coragem e
denuncie quem está te agredindo.
Um segredo: na sala da diretora o maior valentão do mundo vira um gatinho... E na frente dos pais o maior
machão chora...
É isso aí: não sofra mais! Vamos acabar com o bullyng na escola. Vamos nos respeitar mais. Porque somos
todos irmãos perante Deus.
(Música. Os atores voltam para receber os aplausos).
Fim

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