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RESENHAS  1

Afinal, a estagnação secular do nheiro – mercadoria – mais dinheiro ou lucro. Há,


capitalismo? assim, um excedente puramente monetário, o lu-
cro, para o qual era preciso dar um destino, porque
Robert J. Gordon. The rise and fall of American gro- o próprio fluxo circular da produção não contém
wth. dentro dele demanda para permitir a venda de toda
Princeton (NJ), Princeton University Press, 2016. a produção. A análise de Marx se completa com
784 pp. a teoria da desproporção, que é uma outra forma
Luiz Carlos Bresser-Pereira de exprimir a capacidade da economia de absorver
toda a produção. Para isso, Marx dividiu a econo-
A tese da tendência secular à estagnação do mia capitalista em dois setores: Departamento I,
sistema capitalista foi esboçada por Adam Smith e produtor de bens de capital; e Departamento II,
teorizada por David Ricardo e Marx. Para Ricardo, produtor de bens de consumo. Na fase de expan-
a partir da previsão da queda no longo prazo da são, o Departamento I, que no período de declínio
taxa de lucro devido à diminuição da produtivida- quase se paralisara, tende a crescer mais rapidamen-
de da terra em função da ocupação de terras cada te do que o Departamento II. O crescimento mais
vez menos férteis; para Marx, como consequência moderado deste está relacionado ao caráter mais es-
da queda da produtividade do capital. Ainda que tável da demanda de bens de consumo, mas é tam-
os dois modelos tenham sido lógicos, sua premissa bém causado pelo crescimento mais lento dos salá-
– a queda da produtividade devido a rendimentos rios do que dos lucros na primeira fase da expansão
decrescentes – afinal não aconteceu. As contraten- e, em consequência, de um crescimento insuficien-
dências à queda da taxa de lucro – que Marx consi- te da demanda de bens de consumo por parte dos
derou, mas sem a devida importância, porque não trabalhadores. Depois que a demanda reprimida de
mostravam força no seu tempo – prevaleceram, e a bens do Departamento I é atendida, a continuida-
teoria liberal permaneceu satisfatória para as em- de do seu crescimento a um ritmo maior do que
presas investir no longo prazo. o do Departamento II provocará a superprodução
e, em seguida, a paralisação dos investimentos no
Departamento I, desencadeando a reversão cíclica.
Lado da demanda Dois economistas tiraram dessa segunda tese
de Marx sua teoria fundamental: Rosa de Luxem-
As teorias da estagnação derivam tanto de pro- burgo e John M. Keynes. A primeira, no quadro do
blemas do lado da oferta, envolvendo queda da marxismo, percebeu que, entendido o sistema capi-
produtividade, quanto do lado da demanda. Ainda talista como um sistema fechado, consumidores e
que Marx não tenha deixado uma teoria do colapso investidores não constituiriam demanda suficiente
do capitalismo pelo lado da demanda, deixou uma para a continuidade do processo de acumulação.
pista da maior importância: a tendência à super- Ela resolveu o problema com sua teoria do impe-
produção ou ao subconsumo, que seria intrínseca rialismo, aproveitando-se da trilha que havia sido
ao capitalismo. Conforme observou Cipolla (2013, antes aberta por John Hobson (1902) e por Lenin
p. 68), “em O capital o ritmo de expansão do ca- (1917): as colônias funcionavam como novos mer-
pital, possibilitado pelo sistema de crédito, rompe cados para serem ocupados pela produção e pelo
o equilíbrio entre oferta e demanda levando à fase capital excedente – sem aplicação rentável nos paí-
especulativa e ao seu posterior colapso”. Isso ocorre ses centrais. Na mesma direção, outra “saída exter-
porque Marx percebeu com clareza que o capitalis- na” para o capitalismo foram as despesas de guerra.
mo é apenas uma economia de mercado, mas uma Mas o capitalismo superou a crise causada pela
economia monetária na qual a mais-valia expressa Primeira Guerra Mundial, e as teorias de estagnação
em dinheiro é o essencial. O capitalismo não im- secular perderam força. Entretanto, quando o regime
plica a troca M – D – M’, mercadoria – dinheiro econômico liberal, que desde os anos de 1830 impe-
– mais mercadoria, mas uma troca D – M – D’, di- rava no mundo rico, entrou em colapso em 1929,
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o problema voltou. E quem o retomou de maneira mente enfrentando um mero ciclo econômico,
genial foi Keynes. Já no primeiro capítulo da Teo- existindo sinais de que estaríamos diante de um
ria geral ele fez a crítica da Lei de Say, a lei do fluxo problema de estagnação secular. Nas suas palavras:
circular da produção, segundo a qual toda produção “Primeiro, os Estados Unidos e as outras economias
se transforma em lucro ou salário; estes necessaria- industriais estão atualmente enfrentando dificuldade
mente se transformam em investimento ou em con- em alcançar simultaneamente crescimento adequa-
sumo e, dessa forma, a oferta criaria sua demanda. do, utilização de capacidade, e estabilidade financei-
Keynes viu que a tese era absurda do ponto de vista ra. Segundo, isto deve estar relacionado com uma
empírico e encontrou uma explicação para o fato de grande queda na taxa natural de juros reais”. Ele jus-
que a oferta não cria sua demanda de maneira plena tifica essa dificuldade com vários dados: o produto
– o fato já percebido por Marx de que na economia potencial caiu, a relação emprego-população de pes-
capitalista é possível entesourar o dinheiro. Keynes soas entre 25 e 54 anos vem caindo, a queda da pro-
conhecia a teoria de Marx e, em um trabalho prepa- dutividade total de fatores vem sendo causada pela
ratório à Teoria geral, referiu-se de maneira elogiosa diminuição do investimento em vez da diminuição
ao sistema D – M – D’. Mas Keynes não deduziu daí do progresso técnico, a inflação não se acelerou ape-
a estagnação secular, mas simplesmente a tendência sar do aquecimento da economia entre 2002 e 2007.
às crises econômicas e financeiras cíclicas, as quais Esse aquecimento decorreu de uma bolha de crédito
uma política fiscal e monetária poderia moderar. para a construção de residências em vez do aumento
Paul Sweezy, em seu extraordinário livro Teoria do do investimento na produção. Enfim, Summers não
desenvolvimento capitalista ([1956] 1962), associou conseguiu encontrar nenhum período de crescimen-
Rosa de Luxemburgo a Keynes. Para ele, “como o to satisfatório desde o início do século nos Estados
incremento do consumo capitalista é uma propor- Unidos e nos demais países ricos.
ção decrescente da acumulação total, segue-se que a Como explicar essa queda da taxa de juros? Es-
taxa de crescimento do consumo declina em relação sencialmente porque, primeiro, houve diminuição
à taxa de crescimento dos meios de produção” (Idem, da demanda de investimentos financiados por dívi-
p. 222). Sweezy dedicou um capítulo inteiro de seu da. Os casos do Google e do Facebook são paradig-
livro às forças contrabalançadoras da tendência ao máticos em relação a esse problema. Segundo, o de-
subconsumo e concluiu que elas evitavam a estagna- clínio da taxa de crescimento da população também
ção secular, mas não as crises cíclicas. causa a diminuição da demanda por investimentos.
Durante os Anos Dourados do Capitalismo, Terceiro, a concentração da renda na camada mais
que também foram os anos keynesianos, as teo- alta aumentou a propensão a poupar e aumentou
rias da estagnação secular voltaram a ser deixadas os lucros retidos das empresas. Quarto, os preços
de lado, senão esquecidas, não apenas porque o relativos dos bens de capital caíram em relação aos
crescimento foi forte e não houve aumento das demais preços. Por fim, houve um grande aumento
desigualdades, mas também porque as crises quase das reservas internacionais dos países, o que também
desapareceram. Voltaram, entretanto, a ser debati- significou diminuição dos investimentos.
das após a crise financeira global de 2008. Ficou Para Summers, esses cinco fatores contribuíram
claro então que desde o final dos anos de 1970, para reduzir os investimentos que, por sua vez, cau-
sob o domínio político de uma coalizão de classes saram a queda da taxa de juros. Será essa uma teoria
financeiro-rentista, o capitalismo vinha apresentan- da estagnação secular? Para que fosse, seria necessá-
do baixo crescimento e voltara à alta instabilidade rio, seguindo Ricardo e Marx, que a taxa de lucro
financeira pré-keynesiana. Nesse quadro, duas con- esperada pelas empresas estivesse caindo, mas não foi
tribuições de economistas relativamente ortodoxos, isto que aconteceu. Conforme Summers mostra, a
destacaram-se: as de Lawrence Summers (2014) e a taxa de lucro, que caiu nos anos de 1970 e, depois de
de Robert J. Gordon, que é o objeto desta resenha. uma recuperação, voltou a cair moderadamente nos
Lawrence Summers, em conferência de 2014, anos de 1990, vem subindo desde o início dos anos
sugeriu que os países ricos não estão mais simples- de 2000. Mas isso não levou as empresas a investir
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mais. Dessa maneira, a causa básica dos investimen- os salários não permaneceram constantes ao nível
tos – uma diferença satisfatória entre a taxa de lucro de subsistência, como assumiam os clássicos; ao in-
esperada e a taxa de juros – não vem sendo confir- vés, considerei a taxa de lucro como dada, porque
mada na prática. As empresas investem pouco, não ela só deixará de ser positiva e satisfatória quando
obstante os lucros aumentem e os juros caiam. for encontrado um novo sistema econômico supe-
rior ao capitalismo. Enquanto isso não acontecer,
a queda na produtividade do capital combinada
Do lado da oferta com taxa de lucro constante poderá ser compensa-
da pelo crescimento dos salários abaixo do cresci-
Nos anos de 1980, no livro, Lucro, acumulação e mento da produtividade e, portanto, pelo aumento
crise, eu examinei pelo lado da oferta o problema da da desigualdade. Dessa maneira, a taxa de lucro
estagnação secular e o da desigualdade funcional (en- continuará satisfatória para as empresas, elas conti-
tre lucros e salários) à luz da teoria da taxa de lucro nuarão a investir e a estagnação secular prevista não
declinante de Marx. A queda da produtividade do ocorrerá, enquanto os salários tenderão a estagnar.
capital ou da relação produto-capital, nessa teoria, Ao terminar de escrever meu livro, no início dos
acontece porque o progresso técnico é “dispendioso anos de 1980, o mundo rico acabara de experimen-
de capital”, ou seja, porque as empresas adotam no- tar os Anos Dourados do Capitalismo, e eu acreditei
vos tipos de máquinas que substituem novos tipos de que isso se devia ao fato de que computadores cada
trabalho – máquinas que são mais eficientes do que vez mais baratos estavam tornando o progresso téc-
o trabalho substituído, mas são menos eficientes do nico poupador de capital, tornando a relação produ-
que as máquinas que substituíram os tipos de traba- to-capital cada vez maior. Não percebi, então, que,
lho anteriores, de forma que, afinal, depois que todos com a Terceira Revolução Industrial, estava ocor-
os concorrentes imitassem a empresa que primeiro rendo uma grande substituição de novos tipos de
adotou o novo tipo de máquina, a relação produto- trabalho por novas máquinas – o que caracterizava
-capital total ou produtividade do capital cairia. Mas diminuição da produtividade do capital. Por isso não
isso não aconteceu nos países ricos a partir de 1870, previ que nos anos neoliberais ou financeiro-rentistas
porque o progresso técnico passou a ser neutro, na do capitalismo (1979-2008) as taxas de crescimento
medida em que um outro tipo de progresso técnico cairiam, os salários dos trabalhadores estagnariam, e
– “poupador de capital”, que resulta da substituição o 1% mais rico da população se tornaria muito mais
de máquinas velhas que substituem um determina- rico. Não previ a grave crise que enfrenta hoje o ca-
do tipo de trabalho por máquinas mais modernas ou pitalismo, definida por baixo crescimento, instabili-
eficientes que substituem esse mesmo tipo de traba- dade financeira, e aumento da desigualdade que não
lho – passou a ser suficientemente importante para apontam para a estagnação secular, mas para uma
compensar o progresso técnico dispendioso de capi- sociedade em que as insatisfações e a instabilidade
tal e tornar o progresso técnico neutro, com a relação política são crescentes.
produto-capital constante.
Na teoria de distribuição dos economistas
clássicos, a taxa de salários permanece no nível de Visão de Gordon
subsistência. Historicamente, porém, não foi isso o
que aconteceu. A partir de 1870 os salários passa- A visão de Robert J. Gordon do problema é
ram a crescer aproximadamente à mesma taxa da bem diferente. É uma análise do lado da oferta, mas
produtividade. Por isso eu inverti a teoria da dis- nada tem a ver com o modelo da tendência à que-
tribuição clássica e dividi a história do capitalismo da da taxa de lucro que sumarizei. Ele interessou-se
em fases, segundo o comportamento do progresso pelo problema da estagnação secular já em 1999,
técnico e o consequente comportamento da taxa de quando assinalou que a produtividade nos Estados
lucro. Inverter a teoria da distribuição dos econo- Unidos e nos demais países ricos baixara fortemente
mistas políticos clássicos significou reconhecer que desde meados dos anos de 1970. Em um trabalho
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mais aprofundado, em 2012, “Is U.S. economic produtividade total dos fatores – e verifica que o
growth over? Faltering innovation confronts the six forte aumento no período do Grande Salto deveu-
headwinds”, Gordon deixou clara sua tese estagna- -se ao aumento da produtividade, que não se repe-
cionista ao questionar o pressuposto que se tornou tiu no período seguinte.
dominante no mundo desde a Segunda Guerra Gordon assinala que esses dados parecem con-
Mundial, que o desenvolvimento econômico seria tradizer a designação de “século especial” que ele deu
um processo contínuo que persistiria para sempre. para o período 1870-1970. O grande crescimento
“Na verdade, não houve praticamente crescimento começa em 1870 e não em 1920, porque, como ele
antes de 1750, e não há garantia que o crescimento assinala em todo o livro, foi a partir de 1870 que um
continuará indefinidamente. Ao invés, sugiro que o grande número de inovações mudou radicalmente
crescimento rápido dos últimos 250 anos provavel- para melhor os padrões de vida dos americanos e eu-
mente será um episódio único na história da huma- ropeus. Mas ele tem uma resposta para defender seu
nidade” (Gordon, 2012, p. 1). século especial, a partir da contribuição de Paul Da-
Em The rise and fall of American growth (2016) vid: a revolução da eletricidade, em 1882, foi mais
Gordon desenvolve e aprofunda sua tese. É um livro importante do que a revolução dos computadores no
grande (760 páginas), para o qual ele contou com o após Segunda Guerra Mundial, mas não aconteceu
apoio de uma equipe de auxiliares de pesquisa. Seu de um dia para outro: “a explicação principal é a de
subtítulo, “O padrão de vida americano desde a Guer- Paul David, que fez bem conhecida analogia entre
ra Civil”, deixa claro que ele entende desenvolvimento a evolução da maquinaria elétrica e a do computa-
econômico como aumento do padrão de vida e que dor eletrônico... Para ele, houve um longo período
vê sinais fortes de estagnação porque o padrão de vida de gestação entre a invenção da eletricidade e o re-
estaria deixando de aumentar. Que o crescimento te- sultado em termos de desenvolvimento econômico:
nha diminuído desde meados dos anos 1970, não há quatro décadas” (p. 17). David atribuiu essa demora
qualquer dúvida. Mas é possível falar em estagnação às dificuldades em desenvolver as máquinas elétricas
secular? Vejamos como argumenta o autor. e também à forte queda do preço da eletricidade que
Gordon vê o século que começa em 1870 só ocorreu nos anos de 1910.
como um “século especial”, porque foi um período É interessante que a Grande Depressão dos
de grande crescimento para os Estados Unidos, mas anos de 1930 não impediu o Grande Salto. Pelo
o intervalo entre 1920 e 1970 – que ele denomina o contrário, como ele argumenta no capítulo 16 do
“Grande Salto” – foi ainda mais dinâmico. Nos três livro, “a operação normal da economia, que foi obs-
períodos que ele analisa – 1870-1920, 1920-1970 curecida pela Grande Depressão, foi seguida pelo
e 1970-2014 – a taxa de crescimento anual da ren- milagre econômico da Segunda Guerra Mundial...”
da por pessoa foi, respectivamente, de 1,84, 2,41 e pelo crescimento nos anos de 1950 e 1960 que
e 1,77% ao ano. A queda da taxa de crescimento “claramente excedeu o que seria esperado com base
em relação ao Grande Salto é grande, mas insignifi- na análise das tendências nas seis décadas anterio-
cante em relação ao período 1870-1920, de forma res a 1928” (p. 536). Para Gordon, o Grande Salto
que não vejo estagnação ou tendência à estagnação deve ser explicado a partir de uma perspectiva de
nesses números. Gordon, porém, argumenta que as longo prazo, pelas inovações que são desencadeadas
horas trabalhadas por pessoa caíram 0,41% ao ano com a invenção da eletricidade e do motor a ex-
no segundo período, voltando a aumentar 0,15% plosão, pelo aumento do poder dos sindicatos du-
ao ano no terceiro período. Essa queda deveu-se à rante o New Deal e pela aceleração das invenções e
luta dos trabalhadores por uma jornada menor e inovações que ocorreram em plena Grande Depres-
à legislação do New Deal, que reduziu adicional- são, os três fenômenos desembocando na Segunda
mente as horas trabalhadas e deu mais poder aos Guerra Mundial. E sintetiza Gordon: “O caso para
sindicatos. Em seguida, Gordon divide o aumento interpretação do ‘apoio econômico’ para a Segunda
da produção por pessoa em três componentes ou Guerra Mundial é muito forte, expressando-se em
causas – educação, aprofundamento do capital e todas as dimensões, desde a educação até a Lei GI
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sobre a elevação da despesa pública financiada por os discos ou CDs) e a revolução das comunicações,
deficits que deu à nova classe média capacidade de com o computador, os e-mails, a Internet, o tele-
comprar os bens de consumo que a Segunda Revo- fone celular, o streaming, os avanços na medicina,
lução Industrial proporcionou” (p. 537). o sistema de cuidados de saúde. E se aproxima da
Mas voltemos ao início do livro. Ainda na In- conclusão pessimista da estagnação secular, porque
trodução, Gordon define seu objetivo principal: os “ventos contrários ao desenvolvimento” passam
“fazer uma avaliação quantitativa e qualitativa das a soprar mais fortes. O mais grave deles é o vento
mudanças no padrão de vida que melhoraram mui- da desigualdade. Os outros dois ventos que estão
to o bem-estar social” (p. 20). A grande virada no reduzindo a taxa de crescimento do padrão de vida
padrão de vida da população americana aconteceu dos americanos são a educação, que não melhora
a partir de 1870. Nessa época, “a vida das donas como devia, a demografia definida pelo envelheci-
de casa era caracterizada por trabalho estafante, e mento da população, o aumento da dívida do Esta-
dos maridos, por trabalho perigoso e extenuante. do, e, ainda, a globalização, o aquecimento global e
A vida era curta, famílias grandes se apinhavam em o aumento da poluição.
casas pequenas, boa parte da comida e do vestuário Contra esses ventos maus, o que fazer? Gordon
era produzido em casa” (p. 28). De 1870 a 1940, o discute a questão no capítulo 18 – o último do li-
grande avanço no padrão de vida da família traba- vro. “O Estado estimular a inovação é pouco pro-
lhadora americana não aconteceu na alimentação missor, porque a máquina americana de realizá-las
e no vestuário, mas nas casas, que aumentaram de continua saudável. Há pouco espaço, também, para
tamanho e passaram a ser conectadas às redes de se estimular investimentos, porque depois de anos de
suprimento de água encanada, de eletricidade, de política monetária frouxa e lucros elevados tornaram
esgotos, de gás e, afinal, de telefones. Vemos, ao disponíveis para investir mais recursos do que as em-
mesmo tempo, uma rápida e ampla difusão dos presas decidem usar” (p. 643). Gordon aposta mais
bens de consumo durável – o automóvel, os rádios, na educação e em medidas contra a desigualdade,
os refrigeradores, as máquinas de lavar, que alivia- principalmente impostos progressivos no topo e au-
ram enormemente o trabalho das donas de casa. Os mento do salário mínimo e sistema de renda básica
índices de leitura também aumentam extraordina- na base da sociedade. Mas, de qualquer forma, ele
riamente, em particular a leitura de revistas e de li- não acredita que a economia americana volte a cres-
vros. Os indicadores sociais também melhoram de cer fortemente. No capítulo anterior ele mostra que
maneira radical: cai a mortalidade infantil, aumen- a taxa de crescimento da economia americana caiu
ta a expectativa de vida, diminui o trabalho infantil substancialmente – algo que é bem conhecido. En-
e juvenil, cai o número de horas trabalhadas, os ní- tende que a causa direta deste fato é a queda da taxa
veis de educação aumentam enormemente. de aumento da produtividade – do crescimento da
O período de 1940 a 1970 foi de transição e é produtividade total dos fatores. Enquanto esta cres-
tratado no capítulo 10. É o momento do consumo ceu a uma taxa anual de 1,8% entre 1920 e 1970, de
de massa nos supermercados e nas lojas de departa- 2004 a 2014 cresceu apenas 0,4% ao ano. A Terceira
mento. Da alimentação cada vez mais fora de casa. Do Revolução Industrial, a revolução da tecnologia da
deslocamento da nova classe média para os subúrbios informação e da comunicação, não teve forças para
das cidades. Gordon conclui esse capítulo dizendo: manter o crescimento da produtividade em um nível
“O ritmo do progresso econômico desde 1940 e, par- satisfatório. Gordon cita Robert Solow (1987) a res-
ticularmente, desde 1970, não foi nem tão abrangen- peito do problema: “Podemos ver computadores em
te, nem tão revolucionário quanto foi entre 1870 e toda parte, menos nas estatísticas de produtividade”
1940. Isto é evidente em relação às três necessidades (p. 577). E Gordon oferece sua explicação:
básicas: habitação, vestuário e alimentação”. (p.370)
Em seguida, Gordon dedica-se a descrever a ci- Embora a Terceira Revolução Industrial tenha
vilização do automóvel, do transporte aéreo, dos di- sido de fato revolucionária, seus efeitos foram
vertimentos (principalmente o cinema, a televisão, sentidos apenas em uma esfera limitada da ati-
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vidade humana, em contraste com a Segunda Três análises de esquerda


Revolução Industrial, que mudou tudo. Cate-
gorias de despesas de consumo pessoal que não Como a esquerda vê o problema da estagnação
foram influenciadas pela tecnologia da infor- secular? Michel Aglietta, da Escola da Regulação
mação e da comunicação foram as compras de Francesa, em resenha do livro de Gordon na New
alimentos no lar e fora do lar, vestuário e sapa- Left Review (2016, p. 124), não ficou convencido
tos, automóveis e energia para movê-los, mó- pelos argumentos apresentados. Para ele, é prová-
veis, suprimentos para a casa, eletrodomésticos. vel que um novo ciclo de inovações aconteça, tendo
Em 2014, dois terços das despesas de consumo como eixo os grandes investimentos necessários para
foram para serviços, incluindo aluguel, saúde, fazer frente ao aquecimento global e à poluição am-
educação, e cuidado pessoal (p. 578). biental. Aglietta prevê que a liderança do processo
caberá à China: “A revolução industrial que será ne-
A partir dessas considerações, temos em Robert cessária para mitigar os danos ambientais e adaptar
Gordon uma teoria da estagnação secular mais con- habitats hostis envolveria bens públicos transnacio-
vincente do que a proposta por Larry Summers? Este nais, investimentos pesados e instituições para lidar
não soube explicar como os lucros continuam eleva- com novos riscos sistêmicos. A China não só tem
dos enquanto o capitalismo caminha para a estagna- uma necessidade aguda, mas também os recursos
ção. Gordon também não tem uma previsão de queda financeiros e a vontade política de alocar grandes re-
da taxa de lucros, reconhece que estes estão altos, e servas de poupança para essa prioridade suprema”.
não vê as empresas aumentarem seus investimentos. Wolfang Streeck (2014), na mesma revista, é menos
Sua tese central é o fato de que as inovações da Se- otimista. Para ele três tendências negativas levarão o
gunda Revolução Industrial, desde os sistemas de luz capitalismo ao colapso: o aumento da dívida pública
e água encanada nas residências até o automóvel e as e da dívida privada (dos consumidores); o aumento
viagens aéreas, foram mais impactantes em termos de da desigualdade; a instabilidade financeira. Muitas
melhoria de qualidade de vida, do emprego e, tam- vezes, diz ele, se previu o fim do capitalismo, mas
bém, em termos da necessidade de aumentar os inves- desta vez o quadro é diferente “porque seus mais no-
timentos, do que as inovações da Terceira Revolução táveis técnicos não sabem como torná-lo saudável
Industrial. Isso é muito bem observado, especialmente novamente... A imagem que eu tenho do fim do ca-
em relação aos investimentos, que, nos países ricos, re- pitalismo – um fim que, acredito, está já em marcha
almente não vêm se sustentando em um nível elevado – é o de um sistema social em crônico desarranjo,
desde os anos de 1970. As máquinas não param de por razões que lhe são internas e são independentes
substituir os trabalhadores, mas a produção não impli- da existência de uma alternativa viável” (pp. 46-47).
ca investimentos que a tornem cada vez mais capital- Cinco desordens sistêmicas definem esse desarranjo
-intensiva, como seria de esperar. crônico: a estagnação, apoiando-se em Summers e
Gordon parece esquecer o problema da de- Gordon; a plutocracia, na medida em que não há
manda quando afirma que as empresas não mos- perspectiva de que a tendência ao aumento da desi-
tram disposição de investir mais sem explicar por gualdade será interrompida; a pilhagem do patrimó-
quê. E, no entanto, o problema keynesiano da ten- nio público; a fraude e a corrupção, que, conforme
dência à insuficiência de demanda é fundamental. Max Weber, sempre andaram junto com a cobiça; e
Quando há falta de investimentos é sinal de que há a falta de um “centro seguro”, ou seja, de uma potên-
falta de demanda em relação à oferta de capitais. E cia hegemônica que assegure a ordem, dada a perda
essa falta de demanda se agrava porque a substitui- de poder dos Estados Unidos. O trabalho de Streeck
ção de trabalhadores por máquinas, em vez de tor- é fascinante, mas não dá conta de seu título: não é
nar a produção capital-intensiva, a torna crescente- uma teoria do fim do capitalismo; é simplesmente
mente conhecimento-intensiva – o que favorece os uma crítica aguda do capitalismo.
ordenados dos tecnoburocratas, não os salários dos Immanuel Wallerstein (2017, pp. 53-54) tam-
trabalhadores, que, estes sim, tendem a estagnar. bém pretende ter uma teoria do colapso. Ele acredita
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que todo sistema e, portanto, o capitalismo (que ele e boas oportunidades de investimento que surgem
chama “sistema-mundo”) segue uma trajetória ne- do aumento da demanda, mas, simplesmente, refle-
cessária constituída de “três fases: nascimento, longo te o poder de monopólio das empresas.
período de funcionamento normal, e inevitável crise Esse problema se agrava na medida que esse ca-
estrutural”. E conclui que o capitalismo já chegou a pitalismo monopolista vem, a cada dia, deixando
esta última fase “porque os custos de produção au- de ser um capitalismo de empresários que inovam e
mentaram de maneira regular em relação aos preços buscam o lucro, para ser um capitalismo de rentis-
praticados no mercado (demanda efetiva)”. Mas essa tas e financistas que querem elevados dividendos e
explicação é muito estranha. Como a produtivida- juros, e um capitalismo de altos executivos ou tec-
de aumenta no capitalismo ou, em outras palavras, noburocratas cujos bônus refletem os resultados de
como o capitalismo até hoje não deixou de apre- curto prazo da empresa, ao invés de refletirem o seu
sentar aumento da renda por habitante, os custos crescimento e o crescimento dos lucros no médio
de produção diminuem, e os preços também dimi- prazo. Dessa maneira, as empresas adotam um radi-
nuem. Mais interessante é sua tese de que os ciclos cal curto-prazismo, caracterizado pela distribuição
longos dentro da fase normal “terminam sempre de dividendos que aumente o valor da empresa no
com a formação de uma quase-monopólio; ora, os mercado financeiro, em vez de aumentar sua capa-
quase-monopólios são necessariamente limitados no cidade de produção e seu lucro.
tempo, porque terminam por se autodestruírem”. Soma-se a isso o fato que o mundo rico enfrenta
Isso é verdade, mas eles apenas enfatizam o caráter hoje uma brutal abundância de capitais, que é conse-
cíclico e inerentemente instável do capitalismo. quência de um processo de acumulação que não para
desde a Segunda Guerra Mundial. Antes tínhamos o
mesmo processo de acumulação, mas, de tempos em
Como ficamos, então? tempos, o estoque de capital acumulado era destru-
ído por grandes crises econômico-financeiras, como
Como ficamos, então, com a estagnação secu- as de 1873 e de 1929, ou então por grandes guerras,
lar? A queda da taxa de lucro prevista por Ricardo e como a de 1914 e a de 1939. Como Thomas Pi-
por Marx, que produzia a estagnação, não ocorreu. ketty (2013) observou, desde 1945 não temos gran-
A taxa de lucro continua satisfatória no mundo ca- des guerras e não temos grandes crises; não temos,
pitalista. O aumento da produtividade do trabalho portanto, saudáveis destruições de capital que man-
também não foi interrompido. Teríamos, então, a tenham o equilíbrio entre a oferta e a demanda de
estagnação combinada com taxa de lucro satisfató- capitais. A crise financeira global de 2008 poderia ter
ria e aumento da produtividade do trabalho, mas sido uma grande crise, poderia ter sido um episódio
sem aumento dos investimentos e sem salários cres- de eliminação de capitais, se não houvesse ocorrido
centes? É possível uma equação desse tipo? Sim, é a forte resposta contracíclica keynesiana, que limitou
possível, desde que acrescentemos uma variável a sua extensão. Existe, assim, um imenso excedente de
essa equação: um brutal aumento do poder de mo- poupança, um savings glut, na expressão de Ben Ber-
nopólio das empresas em função de um incessante nanke (2005), em busca de oportunidades de inves-
processo de aquisições e fusões, através do qual as timento que não materializam.
grandes empresas compram seus concorrentes e re- Como dar vazão a essa abundância ou excesso
duzem a competição. Essa é a lógica do “capitalismo de capitais acumulados? Já vimos que Robson e Le-
monopolista”, já prevista por Marx, e que teve sua nin deram uma primeira resposta a essa pergunta:
análise definitiva realizada por Paul Baran e Paul desde o final do século XIX, o imperialismo mo-
Sweezy ([1966] 1968). Antes e depois de 1966, derno, ou seja, a ocupação dos mercados internos
o processo de aumento do grau de monopólio no dos países em desenvolvimento pelos capitais dos
capitalismo não deixou um momento de crescer. países ricos, vem sendo uma maneira de escoar esse
Dessa maneira, é possível haver baixo investimento enorme excedente de capitais. Esse processo conti-
e taxa de lucro alta, porque esta não reflete novas nua ativo até hoje. A diferença econômica foi que
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a ocupação dos mercados dos países da periferia do mentais, mas elas estão limitadas aos momentos de
capitalismo pelo comércio e pelo financiamento em crise econômica. Fora de crises, as elites financeiro-
moeda estrangeira tornou-se menos importante do -rentistas adotam as estratégias já referidas – o curto-
que a realizada pelas empresas multinacionais. -prazismo financeiro e as quatro formas de dar vasão
Desde os anos de 1980, com as privatizações da ao excesso de capitais: imperialismo; privatizações
primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher, sur- dos monopólios públicos; aumento da dívida públi-
giu uma segunda maneira: o capital rentista moveu- ca; aumento da dívida dos consumidores. Essas cin-
-se em direção aos grandes serviços públicos mono- co estratégias são intrinsecamente perversas, porque,
polistas de energia, transporte e comunicações. Esses em vez de envolverem o aumento dos investimentos,
serviços antes eram reservados para o Estado, porque envolvem o aumento constante do poder de mono-
exigiam capitais muito elevados e porque os consu- pólio e da desigualdade nos países ricos e o prejuízo
midores exigiam preços moderados para eles. Porém, nos países em desenvolvimento. Os beneficiários são
desde que o capital rentista passou a ser muito mais uma pequena mas poderosa classe de capitalistas ren-
alto do que o capital empresário, a nova coalizão do- tistas, financistas e altos executivos.
minante, financeiro-rentista – associando capitalistas Mas é preciso também ver o problema do lado
rentistas, financistas e dirigentes das grandes empre- da oferta. Deste lado, o baixo crescimento e o aumen-
sas – tornou-se dominante e percebeu que os grandes to da desigualdade podem ser explicados pela queda
serviços monopolistas seriam uma excelente aplicação da produtividade do capital prevista por Marx, ou
de seu capital desde que, naturalmente, os preços fos- pela tese de Gordon da superioridade das inovações
sem elevados. E começou, então, a partir dos anos de e do aumento da produtividade que elas causaram na
1980, uma grande onda de privatizações desses mo- Segunda Revolução Industrial, quando comparadas
nopólios que, como já acontecia há tempo com as com as inovações às da Terceira Revolução Indus-
empresas privadas, passaram a ser dirigidas por altos trial. Em relação à queda relativa da produtividade
executivos em nome dos capitalistas rentistas. do capital, é preciso considerar o caráter dispendioso
Por fim, foi encontrada uma terceira maneira de de capital do progresso técnico ou a queda da produ-
dar vazão ao excesso de capitais privados: o endivida- tividade do capital que estamos vendo desde os anos
mento público e o endividamento privado, que Stre- de 1970. A relação produto-capital cai não obstante
eck salientou com muita propriedade. O endivida- o preço dos computadores tenha caído muito – o que
mento público não para de aumentar nos países ricos, indicaria aumento da produtividade do capital. Cai
menos devido a gastos correntes excessivos e mais de- porque a Terceira Revolução Industrial – a revolução
vido ao fato de que o Estado é sempre chamado a so- da tecnologia da informação e da comunicação – está
correr os bancos e as grandes empresas nos momentos envolvendo a substituição de novos tipos de trabalho
de crises cíclicas. O endividamento privado também é por novos tipos de máquinas, as quais são mais efi-
crescente, porque as elites liberais, financeiro-rentistas, cientes do que o trabalho, mas menos eficientes do
deram-se conta de que uma alternativa para aumentar que os tipos anteriores de máquinas que substituíram
salários para garantir a demanda é aumentar o endivi- tipos anteriores de trabalho. Houve, inicialmente,
damento das famílias. Foi essencialmente esse fato que uma grande substituição de trabalho de escritório;
levou à crise financeira global de 2008. depois, de trabalho bancário através dos caixas ele-
trônicos; agora, uma imensa substituição de novos
trabalhos pelos robôs. As novas máquinas são sufi-
Conclusão cientemente eficientes para justificarem sua compra
e a substituição de novos tipos de mão de obra, mas
O capitalismo enfrenta, portanto, uma crise são ineficientes quando comparadas com as máqui-
de baixo crescimento e instabilidade tanto do lado nas adotadas anteriormente para substituir outros
da oferta como do lado da demanda. Do lado da tipos de trabalho. Nesse tipo de progresso técnico,
demanda, para resolver o problema do excesso de a relação produto-capital não para de cair, ou seja, a
capitais, as políticas keynesianas continuam funda- produtividade do capital é declinante, porque os no-
RESENHAS  9

vos processos produtivos (combinação de máquina ca. Eu apenas os menciono para não estender esta
e trabalhador) são mais eficientes do que o trabalho resenha: a concorrência dos países em desenvolvi-
vivo, mas são menos eficientes do que os processos mento com sua mão de obra barata, o aumento da
produtivos anteriores. Nessas condições, para que imigração para os países ricos e o progresso técnico
a taxa de lucro não caia é necessário que os salários acelerado, que valoriza o trabalho qualificado e des-
médios dos trabalhadores cresçam menos do que a valoriza o não e o pouco qualificado.
produtividade ou então simplesmente estagnem. É o
que vem acontecendo no mundo rico. Do lado da
oferta, o progresso técnico dispendioso de capital está Bibliografia
levando a um crescente aumento da desigualdade.
Pelo lado da demanda, a tendência à insuficiên- AGLIETTA, Michel. (2016), “America’s slow
cia de demanda e a ideia da armadilha da liquidez down”. New Left Review, 100: 119-128.
propostas por Keynes continuam a ser o problema BARAN, Paul & Paul SWEEZY. ([1966] 1968)
básico; foi o problema salientado por Larry Summers Capitalismo monopolista. Rio de Janeiro, Zahar.
ao analisar a incapacidade da política monetária – da BERNANKE, Ben S. (2005) “The global saving
taxa de juros – de restabelecer a demanda efetiva. glut and the US current account deficit”. The
Mas vimos que esse problema se agravou com o cres- Sandridge Lecture, 14 abr.
cente excesso de capitais, com a desproporção entre BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. (1986), Lucro,
a quantidade de capital acumulado e as oportunida- acumulação e crise. São Paulo, Editora Brasiliense.
des de investimento. Sempre se pode esperar que o GORDON, Robert J. (1999), “US economic gro-
aumento dos ordenados dos tecnoburocratas públi- wth since 1870: One big wave?”. American
cos e privados e o aumento do consumo destes e dos Economic Review, 89 (2): 123-128.
rentistas ocupem o lugar do aumento dos salários na _____. (2012), “Is US economic growth over? Fal-
garantia de demanda efetiva, mas é evidente que esse tering innovation confronts the six headwinds”.
tipo de substituição de demanda tem fôlego curto. Robert J. Gordon NBER Working Paper, n. 18315.
Também são perversas as estratégias inventadas para _____. (2016), The rise and fall of American growth.
dar vazão ao excesso de capitais. Princeton (NJ), Princeton University Press.
Tudo isso não está resultando na estagnação PIKETTY, Thomas. (2013), Le capital au XXIme
secular strictu sensu, mas em uma quase estagnação Siècle. Paris, Seuil.
associada à quase estagnação dos salários, ao au- SOLOW, Robert M, (1987) “Second thoughts on
mento da desigualdade e à redução da taxa de cres- growth theory”, Robert M. Solow Prize Lecture
cimento. E também em uma crescente insatisfação (in the memory of Alfred Nobel, December 8,
da população com a “globalização” – ou seja, com 1987), Boston: Kluwer Academic Publishers.
o capitalismo liberal financeiro-rentista dominante STREECK, Wolfgang. (2014), “How will capita-
no mundo desde os anos de 1980. Haveria estag- lism end?”. New Left Review, 87: 35-66.
nação plena se os lucros estivessem caindo, mas os SUMMERS, Lawrence. (2014), “US economic pros-
lucros continuam elevados, devido ao incessante pect: secular stagnation, hysteresis, and the zero
aumento do poder de monopólio das grandes em- lower bound”. Business Economics, 49 (2): 65-73.
presas. O que temos são salários crescendo muito SWEEZY, Paul M. ([1956] 1962), Teoria do desen-
pouco por causa da necessidade de manter a taxa de volvimento capitalista. Rio de Janeiro, Zahar.
lucro satisfatória no quadro de inovações dispen- WALLERSTEIN, Immanuel. (2017), La Gauche
diosas de capital – inovações que, segundo Gordon, globale. Paris, Maison des Sciences de l’Homme.
são inferiores às da Segunda Revolução Industrial.
E há ainda três fatos históricos novos, além da Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor
abundância de capitais, que pressionam os salários emérito da Fundação Getúlio Vargas. E-mail:
nos países ricos para baixo e levam o capitalismo bresserpereira@gmail.com.
atual a uma crise ao mesmo tempo grave e crôni- DOI: 10.17666/339607/2018