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O MULTIREGIONALISMO NA AMÉRICA DO SUL: O PAPEL DA UNASUL NA

INTEGRAÇÃO DOS PAÍSES SULAMERICANOS

Daiane Carvalho Batista

Resumo
Este ensaio tem como objetivo delinear o regionalismo como mecanismo de integração entre
os países da América do Sul, seus objetivos a longo e médio prazo, bem como os mecanismos
utilizados pela Unasul para tornar-se estável em uma América de múltiplos pensamentos
políticos, governamentais, culturais e linguísticos.

Palavras-chave
Regionalismo; América do Sul; Unasul.

Sumário: Introdução; 1. Multilateralismo; 2. A Unasul e o Multilateralismo na América do


Sul; Conclusão; Bibliografia.

1. INTRODUÇÃO

A história da América latina está repleta de tentativas de integração regional,


objetivando o desenvolvimento dos países que compõem o continente, ainda mesmo quando
eram colônias europeias. Em 1826, Simón Bolívar, líder militar da Bolívia, Venezuela,
Colômbia, Equador, Panamá e Peru, tentou unificar o território hispânico da América desde o
México até Argentina, através da realização da primeira conferência pan-americana. Também
chamado Congresso do Panamá, esta conferência não obteve o êxito desejado, em decorrência
da grande influência dos EUA e Inglaterra que se sentiam ameaçados com a ideia de uma
América latina forte, unida e altamente competitiva em termos econômicos.
Especificamente na América do Sul a história não foi muito diferente, entre os projetos
de integração dos países sul-americanos, poucos lograram êxito. Neste sentido, os países da
América do Sul, a exemplo da União Europeia União Árabe, SADC, COMESA, entre outros,
se uniram para formar a União de Nações Sul-Americanas, conjugando as duas uniões
aduaneiras regionais de maior impacto: o Mercosul e a Comunidade Andina de Nações com a
pretensão de conseguir uma integração similar à alcançada na Europa. Esse contexto reproduz
uma característica basilar das relações internacionais atuais, o multilateralismo.
O multilateralismo, que terá seus conceitos básicos descritos neste trabalho, é resultado
da globalização e uma resposta a esta dos Estados, e tem nas alianças regionais de Estados a
sua maior expressão da junção de legitimidade e poder de mudanças de retratos globais.
Apesar de ser fundamental para os dias atuais, o multilateralismo ambivalente evidenciado
nas agendas das Nações Unidas e demais instituições de âmbito global, o multilateralismo
regional oferece o melhor caminho para a conquista dos objetivos nacionais dos Estados e
para a promoção de objetivos comuns entre eles e de grande desenvolvimento.

2. MULTILATERALISMO

O multilateralismo é uma das principais bases das relações internacionais dos Estados
no mundo atual. Trata-se da associação de dois ou mais países com o objetivo de promover o
desenvolvimento de um determinado tema ou em uma área específica, de forma direta ou
através de organizações internacionais como a ONU, a OMC, etc.
Surgindo como uma resposta ao unilateralismo e a hegemonia de países como EUA, o
multilateralismo é um instrumento de fortalecimento da política externa de países que,
sozinhos possuiriam pouca ou nenhuma influência global. Samuel de Paiva Pires afirma que:
“O multilateralismo é um fenômeno inevitável na lógica
de condução das relações entre estados no sistema
internacional actual, fruto de um processo histórico que
gradualmente acentuou a falta de capacidade dos estados
para individualmente dar resposta a problemáticas
diversas, impelindo-os a cooperar com vista a dar
respostas colectivas a essas problemáticas comuns, o que,
na prática, se reflecte na instituição de diversas
organizações e fora internacionais nos mais diversos
âmbitos e na instituição e adopção de políticas e
instrumentos comuns.” (Pires, 2008)
Apesar disso, o multilateralismo em âmbito global é restringido pelas potências
globais, um exemplo disso é que os países pertencentes a ONU (Organização das Nações
Unidas), ainda que possuam status de Estado, possuem uma influência limitada e muitas
vezes inexistentes pela sublimação e “sabotagem” dos países de maior poder financeiro e
armamentista. Isso porque, para que esses Estados menos possam influir em casos
internacionais através do voto, este deve estar consolidado dentro de um bloco maior para que
possa ter força dentro da organização.
Desta forma, o multilateralismo regional tem ganhando grande destaque e importância
nas relações internacionais dos Estados. Países de um mesmo continente estão adquirindo
maior poder de influência e de desenvolvimento através de alianças regionais que promovam
uma integração política, cultural, econômica e social. Apesar de muitas dessas alianças serem
precárias em ferramentas de execução devido à carência dos Estados-membros, ainda assim
surtem resultado ao ajudar a coordenar as políticas internas e externa dos países, aumentando
sua capacidade competitiva e limitando as abordagens oportunistas de outros Estados.
Atualmente este tem sido a melhor resposta para solução de conflitos e de desenvolvimento,
já que possui maior eficácia que as relações bilaterais ou global.
A integração regional é um fenômeno mundial que aumenta a interação entre os
Estados vizinhos e a união entre Estados individuais dentro de uma região em um todo maior
e tem como funções principais fortalecer o comércio da região, criar um ambiente propício
para o desenvolvimento do setor privado, desenvolver às instituições públicas e de boa
governança, contribuir para a paz e a segurança na região, reduzir as desigualdades e a
exclusão sociais e o fortalecimento de uma sociedade civil de inclusão social, entre outras.
Acordos de integração regional são uma parte integrante da presente ordem econômica
global e esta tendência é agora um futuro reconhecido da cena internacional. Com o
fortalecimento do papel da diplomacia tornou-se imprescindível identificar que, no mundo
contemporâneo, as formas de atuação e de resolução de conflitos dependem mais da
negociação e da mediação do que o uso da força e de bloqueios comerciais. A resolução de
problemas como pobreza, terrorismo, migrações, ilícitos transnacionais, conflitos internos aos
Estados, bem como tensões bilaterais se tratadas em âmbito global esse tratamento e
discussão será limitada, mas se tratadas regionalmente terão uma maior chance de êxito e de
resolução. Além disso, a competição e rivalidade destrutiva entre países é facilmente
contornada através de um processo de união em alianças multilaterais, um exemplo disso é o
Mercosul que conseguiu desfazer a destrutiva competição existente entre Brasil e Argentina,
que era maléfica para os dois países, enquanto beneficiava e era instigada pelos EUA e países
equivalentes.

3. A UNASUL E O MULTILATERALISMO NA AMÉRICA DO SUL

A UNASUL (União de Nações Sul-americanas), como todos os projetos de integração


da América, foi criada de forma gradual e através de várias tentativas de consolidar os países
do hemisfério.
Criada em 2004, com o nome de CSN (Comunidade Sul-americana de Nações) na
reunião de presidentes da América do Sul realizada em Cuzco e passou a integrar os processos
regionais desenvolvidos pelo Mercosul e pela Comunidade Andina. Após a elaboração de um
plano estratégico para consolidação de uma agenda comum para os países da região, os chefes
dos Estados-membros mudaram o nome da CSN para a atual UNASUL, durante a Cumbre
Energética Sul-americana em 2007. Em 2008, teve o seu Tratado Constitutivo assinado
durante Reunião Extraordinária do Conselho de Chefas e Chefes de Estado e de Governo,
entrando em vigor em 2011, após a data de recepção do nono instrumento de ratificação,
como dispõe o artigo 26 do referido tratado.
Com sede na cidade de Quito, no Equador, a UNASUL é formada por doze países da
região Sul-americana: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, Guiana,
Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. Possui quatro línguas oficiais: português,
espanhol, inglês e holandês, isso devido à diversidade dos seus países-membros e pela sua
importância, ganhou o status de observador na Assembleia Geral das Nações Unidas.
A UNASUL é formada por quatro órgãos decisivos e hierarquicamente organizados
entre si: Conselho de Chefes de Estados e Governo, Conselho de Ministros de Relações
Exteriores, Conselhos de Delegados e por fim, a Secretaria-Geral. Existe ainda a presidência
Pro Tempore que é exercida por cada um dos Estados-membros, em ordem alfabética, pelo
período de um ano.
A união tem como objetivo construir um espaço de integração cultural, econômico,
social e politico entre as nações sul-americanas, respeitando a realidade de cada país. Seu
principal desafio é eliminar a desigualdade socioeconômica, alcançar a inclusão social,
aumentar a participação dos cidadãos, fortalecer a democracia e reduzir as assimetrias
existentes, desde que isso não ofenda os princípios da soberania e independência dos Estados.
Para isso é constituída de 12 conselhos setoriais, compostos pelos Ministros dos Estados-
membros das áreas de: saúde, desenvolvimento social, infraestrutura e planejamento,
educação, cultura, ciência, tecnologia e inovação, problema mundial das drogas, defesa,
economia e finanças, energia, eleições, segurança cidadã, justiça e coordenação contra a
delinquência organizada transnacional.
Não se trata, porém, de um bloco econômico como o Mercosul e a União Europeia,
que visam apenas a integração econômica, a Unasul, ao contrário, é uma entidade com
propostas mais abrangentes e possui metas políticas e estratégicas que incluem a criação de
um parlamento, um conselho de defesa e um banco continental.
Lá na frente, em um futuro ainda distante, a ideia é que tudo isso acabe resultando na
formação de uma grande zona de livre comércio. Ainda assim, não dá para classificá-la como
um bloco de interesses estritamente econômicos.
Atualmente está em discussão a livre circulação de pessoas entre os países da Unasul,
como já ocorre com o Mercosul, onde não é necessário a utilização de passaportes para saída
e entrada nos países, apenas a carteira de identidade. O embaixador brasileiro Antônio Simões
afirma que “Os chanceleres deverão aprovar [na cúpula da Unasul] o relatório de um grupo de
trabalho que trata da cidadania sul-americana. A ideia é trabalharmos para aprofundar os
elementos de consolidação de uma cidadania da América do Sul, para a livre circulação de
pessoal, algo que já existe no Mercosul e agora é visto dentro do contexto da Unasul”1.
O Brasil exerce um papel importante na Unasul, sendo um grande articulador regional,
e este deve se dar conta da importância que possui para influenciar positivamente os países do
continente e promover sua integração, de forma que os líderes dos países que compõem a
união possam discutir pontos de cooperação entre eles, apesar das diferenças e visões de
mundo que as nações possuem.2
Segurança:

4. CONCLUSÃO

1 Matoso, Filipe. (2014).

2 O secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper afirmou a jornalistas que a entidade considera o


Brasil o grande articulador do equilíbrio regional na América do Sul. Assim como o presidente do
Uruguai, José Mujica, que afirmou que o Brasil é o espinho dorsal da América do Sul e que deve se
dar conta da importância que tem para com a Região. (Matoso, Filipe. 2014)
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