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A MULHER EM

SITUAÇÃO DE CÁRCERE
Direção Editorial
Lucas Fontella Margoni

Comitê Científico

Prof.ª Dr.ª Raquel Fabiana Lopes Sparemberger


Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP)

Prof.ª Dr.ª Daniela Pires de Oliveira


Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP)

Prof.ª Me.ª Thaís Teixeira Rodrigues


Fundação Escola Superior do Ministério Público (FMP)
A MULHER EM
SITUAÇÃO DE CÁRCERE
Uma análise à luz da criminologia feminista ao
papel social da mulher condicionado pelo
patriarcado

Camila Belinaso de Oliveira

φ
Diagramação e capa: Lucas Fontella Margoni
Arte de capa: Graça Craidy

O padrão ortográfico, o sistema de citações e referências bibliográficas são


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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


OLIVEIRA, Camila Belinaso de.

A mulher em situação de cárcere: uma análise à luz da criminologia feminista ao papel


social da mulher condicionado pelo patriarcado [recurso eletrônico] / Camila Belinaso de
Oliveira - Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2017.

147 p.

ISBN - 978-85-5696-219-5

Disponível em: http://www.editorafi.org

1. patriarcado; 2. mulher; 3. criminologia; 4. feminismo; 5. cárcere. I. Título.

CDD-340
Índices para catálogo sistemático:
1. Direito 340
AGRADECIMENTOS
De início, quero agradecer à minha mãe e ao meu pai pelo
cuidado, pelo amor e pela oportunidade de estudo – privilégio de
poucos na sociedade brasileira, já que uma ínfima parcela da
população consegue acessar e concluir o ensino superior. Agradeço
por estarem presentes nos bons, mas, principalmente, nos maus
momentos, quando tanto precisei. Obrigada pelos abraços, pelo
apoio e pelo carinho imensurável. Nesse sentido, expresso eterna
gratidão à minha madrinha-tia-mãe-irmã e amiga, Ângela, e aos
meus tios-irmãos, Ana e Paulo.
O curso de graduação em direito propicia, a meu ver, duas
possibilidades: a de se enclausurar entre papéis e reproduzir um
sistema falho de justiça, ou a de compreender que justiça é, na
realidade, um sofisma, que necessita de resistência e envolvimento
dos/as profissionais na sociedade, nos movimentos e na cidade, a
fim de encontrar resoluções coletivas. Assim, obrigada às
professoras e aos professores que, no decorrer de suas vidas de
ensino, apresentaram incansavelmente seus conhecimentos. Em
especial às/aos que permitiram diálogos, mudanças e divergências;
agradeço às/aos que amam ensinar e o fazem nunca de maneira
neutra. Betânia de Moraes Alfonsin, Daniela Pires, Raquel Lopes
Sparemberger, Renata Dotta e Thais Rodrigues: agradeço à
Fundação Escola do Ministério Público e a cada uma em especial,
por ensinarem a refletir sobre a sociedade e a aplicar o direito
como método de transformação social. Ainda, à Thais e à Raquel
como incentivadoras deste trabalho.
Ao Coletivo de Mulheres Maria Lacerda, que luta por uma
sociedade equitativa, por ensinar outra face da amizade entre
mulheres através de laços fortes e (des)construtivos. Dafne
Nogueira e Sophie Dall’Olmo: registro a minha admiração, minha
sororidade e meu orgulho por todas vocês.
Às minhas amigas e colegas de graduação, por todo apoio e
cumplicidade, pelos estudos, pelo incentivo. À Ana Julia Saraiva e à
Caroline Rocha de Abreu: muito obrigada, nada termina aqui.
Às amigas e aos amigos, pelas aventuras em Direito
Internacional, cujos aprendizados permitem uma outra forma de
perceber e trabalhar o direito e os direitos humanos. Em nome da
amiga Marina Rosa, pela sensibilidade e certeza de que nuestro
norte es el sur, toda minha admiração por vocês.
Às amigas e aos amigos de longa data, que desde muito
anos estão presentes na minha vida e, consequentemente, na
minha graduação, dando seus conselhos, compartindo experiências
e, principalmente, compartilhando dos mais sinceros abraços.
Ao Tiago, companheiro, por todo amor, cuidado e respeito.
Acredite sempre na minha admiração pela pessoa que és.
Às colegas de trabalho, por todos os ensinamentos e pela
paciência, pelo ambiente compreensivo. Que venha mais um ano
juntas e com novos projetos.
Por fim, dedico este trabalho às mulheres da minha vida,
em especial à minha querida avó materna, que há pouco nos
deixou e dividiu comigo tantas histórias e tantos momentos felizes,
e que sempre questionou sua condição de ser mulher, em silêncio.
“Nunca se esqueça de que basta uma crise política,
econômica ou religiosa para que os direitos das
mulheres sejam questionados. Esses direitos não são
permanentes. Você terá que manter-se vigilante
durante toda a sua vida. ”

Simone de Beauvoir
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ................................................................................... 13

CAPÍTULO I: .................................................................................... 21
O OUTRO: O QUE SIGNIFICA SER MULHER NA SOCIEDADE PATRIARCAL?

2.1 A Gênese do Patriarcado .................................................................... 21


2.2 Os tempos, suas manifestações e suas exclusões ............................ 31
2.3 As estruturas de poder e as suas opressões .....................................43

CAPÍTULO 2 ...................................................................................... 53
UM OLHAR FEMINISTA À CRIMINOLOGIA

3.1 As faces do pensamento criminológico ............................................. 53


3.2 A criminalidade e as inter-relações com o discurso criminológico: o
controle social (formal e informal) do papel da mulher ....................... 65
3.3 Da criminologia crítica à criminologia feminista ........................... 86

CAPÍTULO 3 ...................................................................................... 99
EL EXTREMO DEL ENCIERRO CAUTIVO

4.1 A presa e a presidiária........................................................................99


4.2 A situação da mulher no cárcere .................................................... 107
4.3 Um eco das vozes silenciadas ...........................................................114

CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................. 133


PARA QUE(M) SERVE SEU CONHECIMENTO?

REFERÊNCIAS ................................................................................. 139


INTRODUÇÃO
Refletir a mulher no extremo de sua privação decorre da
minha condição de mulher, estudante e futura profissional do
direito, campo conservador e permeado de desconfiança. Observar
e indignar-se são fundamentais para a problematização do sistema
patriarcal, que insere a mulher na situação de cárcere através da
aplicação de tipos penais construídos de forma seletiva, e
duplamente seletiva quando aplicados à mulher, sendo
questionáveis, portanto, os motivos determinantes que
criminalizam certos comportamentos e quais as raízes dessas
condenações. As violências estruturais contra as mulheres ocorrem
em todas as áreas sociais e em todos os períodos históricos, sendo
que o âmbito penal representa o grau máximo de violência, pois
priva de liberdade mulheres cujas condutas são identificadas como
desviantes por um sistema machista, punitivista e inquisitorial.
A privação de liberdade é um eufemismo, pois pretende
silenciar uma série de violações já sofridas pelas mulheres,
consequentes de sua socialização impetuosa e condicionante ao
papel social de inferioridade, que tem como regra o controle de sua
sexualidade pelas instituições de poder. As características comuns
entre as mulheres presas não são coincidências, apenas
representam a perseguição instituída pelos controles formais e
informais a todas as mulheres que questionam sua condição, que
rompem com as expectativas da sociedade patriarcal, bem como a
todas que ousam desvirtuar-se por amor. Atenta-se que, para toda
e qualquer análise da condição e da situação das mulheres, deve-se
considerar, para além do esperado comportamento natural – dócil
e maternal – da mulher, os recortes de classe e cor, que são
condicionantes da seletividade do sistema penal, caracterizado pela
discriminação a certos padrões de mulheres conduzidas ao cárcere
e, assim, ao esquecimento.
Ir à raiz dos problemas e pretender uma mudança é o que
o movimento feminista tem pautado desde os primórdios, tendo
extrema relevância a partir das décadas de 60 e 70 do século XX,
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quando as mulheres obtiveram, após muita resistência, a ocupação


de representatividades antes limitadas apenas aos homens. No
entanto, uma das estratégias do patriarcado é incluir mulheres nos
espaços públicos, legislando – a título de exemplo, temos as
parcelas determinadas que cabem às mulheres para cargos
eletivos. Ou seja, se destina às mulheres uma representação de
poder a partir de índices e porcentagens estabelecidas em lei, com
o fim único de mascarar uma mudança. Assim, é cada vez mais
necessário nomear o patriarcado e propulsionar novos espaços de
discussão para novas estratégias, com ênfase para a libertação das
mulheres, o que é diferente do “empoderamento”, pois representa
uma luta coletiva da mulher pela mulher a partir do entendimento
de que o Estado é um homem, de que a história é narrada e
interpretada pelo olhar da dominação masculina e das opressões
patriarcais, que condicionam e naturalizam a inferioridade das
mulheres.
Por conseguinte, o objeto desta pesquisa é compreender a
relação entre o papel social da mulher e os fatores estruturantes da
criminalidade feminina. Pretende-se um diálogo entre o
patriarcado e o extremo da violência estrutural contra a mulher: a
situação de cárcere. Dessa forma, a partir de uma metodologia
dialética e indutiva, serão identificados, no pensamento
criminológico, alguns pontos significativos para a construção de
uma lógica persecutória da mulher, pela presença de
comportamentos entendidos como desviantes e anormais. Ainda,
considerando os dados particulares dos diálogos realizados com
mulheres em situação de cárcere na Penitenciaria Estadual
Modulada de Ijuí, propõe-se observar o que dizem as vozes
silenciadas dessas mulheres, os motivos que as levaram a estar
encarceradas, quais suas violências, suas dores e suas pretensões.
O trabalho está dividido em três capítulos, que versam,
respectivamente, sobre o patriarcado, a criminologia e a mulher
em situação de cárcere. Em um primeiro momento, analisa-se a
gênese do patriarcado e o alcance desse sistema, que configurou a
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 15

visão sobre o feminino de forma violenta, e que desde os


aprendizados da infância começa a se instalar na consciência de
ambos os sexos para delinear seu futuro, moldando a mente dos
indivíduos de tal forma que a desconstrução do modelo assimilado
se torna difícil, já que ele passa a ser um traço cultural da
sociedade na qual se insere.
O segundo capítulo destina-se ao entendimento da
criminologia e as etapas de construção da criminologia crítica, em
que se estabelece a discussão sobre a recente criminologia
feminista. Assim, uma leitura das principais escolas da
criminologia e a construção das criminologias antecede a análise
do controle social formal e informal e suas inter-relações com o
papel social da mulher, para, então, discorrer sobre a criminologia
crítica e os contrapontos da criminologia feminista. A relação entre
criminologia e feminismo apresenta várias fases de atração e
repulsão; na década de setenta, por exemplo, Carol Smart,
socióloga e feminista, acreditava que a criminologia feminista
estava ao lado de outras existentes, como a radical e da classe
trabalhadora, uma vez que a tradicional ignorava as mulheres.
Assim, as feministas e as/os estudiosas/os sugeriram o repúdio
total à criminologia atuante, sugerindo a quebra de um paradigma
e uma nova perspectiva, a ser construída a partir da experiência
das mulheres (feminist standpoint ou apenas standpoint).
Entretanto, a resistência iniciada nos anos 90 do século XX
apresentou uma série de novos estudos e divergências quanto ao
objetivo do campo de pesquisa, indagando a pretensão à formação
de uma criminologia transgressora ou de uma ciência sucessora.
Então, o surgimento de novas criminologias, como a multiétnica e
queer, além de acrescer à ambiguidade dos estudos, fragmentou a
realidade do campo, o que torna razoável o questionamento em
relação à existência de uma criminologia feminista, uma vez que
presentes as condições necessárias para o desenvolvimento dessa
perspectiva em criminologia.
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Cabe ressaltar que tanto as teorias feministas como a


criminologia estão marcadas por referências estrangeiras e, como
salienta Raul Zaffaroni, todo o processo de recepção e tradução das
teorias estrangeiras ao contexto local não escapou do colonialismo,
o que faz importante conhecer o sujeito que as recepciona e
perceber como estão entrelaçadas as estruturas de poder. A
realidade brasileira configurou o feminismo de modo diferente aos
países centrais, sendo a luta pela redemocratização do país, nas
décadas de sessenta a oitenta, uma condicionante para que o
feminismo pautasse liberdades democráticas e direitos humanos,
especialmente introduzindo questões das mulheres na discussão,
enquanto que, ao mesmo tempo, o feminismo estadunidense
aprofundava o debate quanto à subordinação e ao direito das
mulheres.
O feminismo segue problematizando categorias que
sustentam suas políticas e avança para novas fronteiras de
conhecimento, apresentando novos contrapontos, como o do
feminismo pós-moderno, que defende que as narrativas
explicativas das opressões das mulheres já não se sustentam mais,
o que, infelizmente, leva à tentativa de desconstrução de
pensamentos fundantes do movimento que ainda não foram
esgotados. Assim, as atuais problematizações e novos
contrapontos, quando levados ao encontro da criminologia, não
prosperam, não rompem paradigmas, pois a ausência da inclusão
de gênero em todo o discurso criminológico, mesmo na
criminologia crítica, torna impermeáveis tais aproximações. A
omissão do gênero e das opressões das mulheres é verificada
também nas teorias percursoras da chamada virada criminológica,
ou seja, desde a recepção do paradigma da reação social, dado pela
teoria do etiquetamento, (labeling approach), até a construção de
uma criminologia crítica, estruturada através de um controle
social.
As formulações de inquietações na análise do discurso
criminológico orientam a ideia primordial de um novo paradigma,
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pois esse campo de estudo está vinculado a muitas outras áreas do


saber e, por isso, tem grande influência na determinação e na
construção de padrões de infratores e de condutas desviantes. O
capítulo propõe uma análise temporal para tentar (re)conhecer as
origens das opressões e consequências das socializações na
determinação da seletividade e do condicionamento da mulher à
vulnerabilidade do cárcere, com a intenção de problematizar que
não há possibilidade de recuperar-nos do sistema patriarcal sem
desmistificar a imagem da mulher, traço cultural comum a muitas
sociedades.
O terceiro e último capítulo expõe a pesquisa de campo ou
o resultado das entrevistas semiestruturadas realizadas na
Penitenciária Estadual Modulada de Ijuí (PMEI). O modelo de
entrevista semiestruturada é uma técnica de pesquisa mais
espontânea do que a estruturada, pois, mesmo que parta de um
conjunto de questões predefinidas, dá liberdade para adicionar
outras que surjam no decorrer das entrevistas. As questões
predefinidas funcionam como uma diretriz, mas não ditam a
forma como decorre a entrevista, não estipulando ordem, nem
mesmo forma. Na PMEI, foram entrevistadas seis (6) mulheres
acerca de sua condição de cárcere, através de questionamentos
quanto às suas motivações, suas vidas antes do envolvimento com
o crime, mudanças, dificuldades e consequências do cárcere, bem
como aspirações para uma vida depois do cumprimento da pena,
que passará a ser sinalada como de uma ex-presidiária. Os dados
colhidos durante a pesquisa serão apreciados com sigilo e com o
intuito de identificar, nos discursos das mulheres, a abrangência do
sistema patriarcal; verificar, nas situações particulares e comuns
de cada, uma a transformação do patriarcado e sua atual e
operante opressão; e identificar as mulheres que hoje são
perseguidas e castigadas pelas instituições de poder.
Os dados da PMEI serão comparados e analisados a partir
do relatório prévio da atual pesquisa idealizada pela Fundação de
Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul, Edital PPSUS 2013-2015,
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vencido pelo projeto A situação das mulheres privadas de liberdade


e o Apoio Matricial em Saúde Mental a Equipes de Atenção Básica
inseridas no Sistema Prisional e realizado pela coordenação da
Professora Doutora Renata Dotta. O projeto foi constituído por
uma Instituição Executora – a Secretaria Estadual de Saúde do Rio
Grande do Sul; uma Co-executora – a Fundação Escola do Superior
do Ministério Público; e por Instituições Participantes do Projeto –
o Instituto de Criminologia da Universidade de Sevilla/Espanha e o
Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul.
Assim, pede-se à leitora e ao leitor que considere se despir
de pré-conceitos ao escutar as vozes silenciadas das mulheres em
situação de cárcere, das mulheres que atingiram o ápice da
violência, a fim de que seja possível um diálogo entre os dados
apresentados e a situação atual do nosso sistema de justiça
criminal, construído pelo patriarcado e que tem confirmado a sua
falência em todos os aspectos. Apela-se, principalmente, às
mulheres, que passem a observar e questionar as qualidades
positivas atribuídas aos homens e as negativas atribuídas às
mulheres, pois apenas o (re)conhecimento e a problematização dos
questionamentos quanto à situação de inferioridade motivarão as
buscas de soluções e câmbios de socializações, impedindo a
legitimação e a perpetuação das violências enfrentadas pelas
mulheres.
Um dos principais pontos a serem pleiteados para uma
mudança de paradigma é que o machismo compromete
negativamente o resultado das lutas pela democracia, pois suas
relevâncias dizem respeito apenas à elaboração de uma democracia
pela metade e para a metade privilegiada da humanidade.
Portanto, é impensável mudar comportamentos de mulheres sem
também buscar redefinir os papéis dos homens, ressignificar as
condições e as oportunidades de cada sexo e de cada gênero
socialmente construído, para obter igualdade social e,
principalmente, equidade, compreendendo a situação do oprimido
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e, também, a situação do opressor. No entanto, é primordial que as


redefinições de papéis aconteçam com o anterior conhecimento e
real debate quanto às condições de opressão naturalizadas e
impostas às mulheres, para que, a partir daí, da libertação do
padrão social de inferioridade de cada mulher, seja dada sequência
à ressignificação de papéis.
Uma nova leitura dos chamados “paradigmas
criminológicos” dá base para a discussão acerca das mulheres neles
identificadas. Uma vez que a análise histórica e comparativa
resgata, além das escolas criminológicas sistematizadas (clássica,
positivista e crítica), os sistemas punitivos da antiguidade,
pertencentes a uma criminologia etnológica que apresenta os
momentos anteriores necessários para situar o papel da mulher
em relação à transgressão das regras sociais. Trata-se de uma
seletividade e de um poder estigmatizante que, no decorrer do
tempo e das transformações sociais, permanecem controladas
informal e formalmente, a fim de manter todas as relações de
domínio que se entrelaçam e se sustentam tanto no espaço público
quanto no espaço privado.
CAPÍTULO I
O OUTRO: O QUE SIGNIFICA SER MULHER NA
SOCIEDADE PATRIARCAL?
Hacemos al pasado las preguntas que queremos ver respondidas en el presente.
(Gerda Lerner, 1990)

2.1 A Gênese do Patriarcado

O patriarcado1 condicionou as mulheres através de


características e comportamentos que definem quais são dignas de
terem seus direitos reconhecidos, e também quais são merecedoras
de proteção e sensibilização social. Carole Pateman (1993) assegura
que o patriarcado se refere especificamente à sujeição da mulher e
reafirma o direito político que todos os homens exercem pelo fato
de serem homens. O patriarcado, portanto, pode ser entendido
como uma forma de organização social favorável à metade
masculina da espécie humana, caracterizado pela dominância dos
homens e a subordinação das mulheres, que se manifesta a partir
do domínio do homem sobre os interesses e as concepções de
mundo.
Registros históricos apontam que teóricos políticos
travaram longas discussões a respeito da legitimidade e dos
fundamentos das formas de poder político e, assim, do direito
patriarcal. A interpretação tradicional da história do pensamento
político se posiciona no sentido de o patriarcado ter sido superado
há mais de 300 anos, devido também à considerável influência do
século XX, quando o modelo patriarcal foi quase totalmente
ignorado (LAGARDE, 2005). Os registros também mostram que as
feministas têm questionado sua condição de mulher e, desde o final

1
O termo patriarcado vem da combinação das palavras gregas pater (pai) e arkhe (origem e
comando), raiz de duplo sentido também explícita em acarco e monarquia. Para o grego antigo, a
primazia no tempo e a autoridade são uma só e a mesma coisa (HIRATA, 2009).
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do século XVII2, afirmam que, na realidade, os teóricos políticos


modernos perpetuam a instituição do direito patriarcal.
As reinvindicações das mulheres construíram a dialética da
história3, que consiste em uma série de questionamentos a diversas
áreas do saber, quanto às interpretações das experiências reais das
mulheres e quanto à sua exclusão do processo histórico. Assim, a
procura por preencher essas lacunas de representação levou à
construção de uma história compensatória, que permitiu a
compreensão de que o homem não é a medida de tudo que é
humano, mas sim os homens e as mulheres (LERNER, 1990). O
ordenamento e a interpretação do passado da humanidade
impediram a participação das mulheres, o que dá sentido a um
processo de perpetuação da civilização patriarcal, em que as
mulheres são uma maioria populacional estruturada pelas
instituições sociais para representar uma minoria.
Uma história das mulheres pretende um novo marco
teórico, não androcêntrico4, em que as mulheres sejam
protagonistas de suas vidas, erradicando as opressões a partir de
novos enfoques antropológicos, constituintes de uma antropologia
da mulher5, cuja perspectiva incorpora seus conhecimentos e
experiências em qualquer disciplina. No entanto, uma

2
O feminismo identifica a obra de Mary Wollstonecraft, publicada em 1792 e intitulada “A
Vindication of the Rights of Woman”, como percussora da defesa das mulheres. Segundo a autora, as
mulheres deveriam ser tratadas de forma racional como eram tratados os homens.
3
Dialética é a teoria das leis gerais do movimento, do desenvolvimento do mundo e do conhecimento
da humanidade; é tese e antítese, cuja modalidade original é o diálogo. Inicia com os pensamentos de
Heráclito no século VII e, posteriormente, no século XIX, Hegel afirma um terceiro tempo da
dialética, a síntese, com o pensamento de que não se poderia restringir a dialética entre
afirmação/negação; para ele, a dialética é consenso, integração do que há de bom na tese e na
antítese, o que deu origem à dialética moderna, seguida por Marx, Gramsci, Sartre, entre outros
(SOUZA, 2003).
4
“Androcentrismo é a visão do mundo que situa o homem como centro de todas as coisas. Parte da
ideia de que uma visão masculina é a única possível e, portanto, universal para toda a humanidade, o
que conduz a uma invisibilidade das mulheres, inclusive na ciência.” (HIRATA, 2009, p.58).
5
“(…) distante de conformarem um corpo de leis e um modelo fechado e acabado, a antropologia da
mulher é uma perspectiva filosófica que tem incorporado conhecimentos da economia, biologia,
sociologia, psicanálise e qualquer outra disciplina.” (LAGARDE, 2005, p 60).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 23

continuidade patriarcal se revela a partir das características


comuns às diversidades culturais e às sucessivas formações sociais,
que não são alteradas mesmo após as mulheres terem formado
parte dessas transformações, o que se identifica na transcrição de
registros históricos (LERNER, 1990). A exclusão das mulheres da
construção dos registros reforça, portanto, a sua aceitação da
ideologia patriarcal, consequência dos mais de 2.500 anos em que
as mulheres estiveram privadas de aceder conhecimentos e
conviver em espaços de construção e intercâmbio cultural.
O (re)conhecimento dessas opressões e o avanço da
história e dos métodos de trabalho e pesquisa devem ser utilizados
para que erros sejam citados: as parcialidades, a falta de
objetividade dos estudos que foram feitos sem o enfoque de
gênero. Trata-se não de desvalorizar o pesquisado, mas de não
aceitar que as constatações são inquestionáveis, universais. Quer-
se demonstrar que as evidências constituem uma das variáveis da
realidade humana, e que todos os paradigmas extraídos do mundo
masculino das ciências sociais nascem a partir da negação da
humanidade da mulher. Há, aqui, uma oportunidade para homens
e mulheres criarem e aceitarem novos modelos, parâmetros e
paradigmas que correspondam a uma concepção de mundo que
inclua interpretações de mulheres (FACIO e CAMACHO, 1995).
Há grande urgência de que o patriarcado seja nomeado e
estudado6, pois seu esquecimento ou substituição por termos
relacionados às violências contra a mulher não aprofundarão os
estudos de forma suficiente para que ocorra a quebra de um
paradigma (PATEMAN, 1993). O sistema patriarcal se mantém
também graças à cooperação das mulheres, que, condicionadas à
inferioridade, são privadas da representação e interpretação de
suas vidas, abstendo-se de questionamentos e naturalizando o

6
“Porque o uso exclusivo de ‘patriarcado’ parece conter já, de uma só vez, todo conjunto de relações:
como são e porque são. Trata-se de um sistema ou forma de dominação que, ao ser (re)conhecido já
(tudo) explica: a desigualdade de gênero.” (MACHADO, 2000, p.3).
24 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

sistema opressor. Simone de Beauvoir, a partir de uma perspectiva


de esvaziamento de valores e do direito de poder se consubstanciar
em um tema de relevo, expressa que a cultura insere as mulheres
na dimensão de simples alteridade, como o outro. Nesse sentido, a
autora afirma e indaga que

[t]odo indivíduo que se preocupa em justificar sua existência a


sente como uma necessidade indefinida de se transcender. Ora, o
que define de maneira singular a situação da mulher é que,
sendo, como todo ser humano, uma liberdade autônoma,
descobre-se e escolhe-se num mundo em que os homens lhe
impõem a condição do Outro. Pretende-se torná-la objeto, votá-la
à imanência, porquanto sua transcendência será perpetuamente
transcendida por outra consciência essencial e soberana. O drama
da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de
todo sujeito, que se põe sempre como o essencial, e as exigências
de uma situação que a constitui como inessencial. Como pode
realizar-se um ser humano dentro da condição feminina?
(BEAUVOIR, DS I, 1980, p. 23).

A condição de ser mulher é resultado do conjunto


articulado da civilização, que elabora o que se qualifica e, de forma
ainda mais pejorativa, como deve se expressar o feminino na
sociedade7. As atribuições de papéis sociais distintos a homens e
mulheres, constituídos a partir de dados etnográficos e feitos
históricos, permitem a perpetuação de uma assimetria sexual
(LERNER, 1990), cujo complexo de fenômenos opressivos articula
a inferioridade, a discriminação, a dependência e a subordinação
das mulheres, tornando-as cativas8 em decorrência de sua
condição genérica e de sua situação particular9.
7
O mito da feminilidade, conforme Beauvoir, é usado na tentativa de estereotipar o comportamento
da mulher. A autora se dedica a discutir como se inicia essa construção, o que, para ela, acontece na
infância. O mito da feminilidade se instaura silenciosamente nesta idade; desde os primeiros anos, os
adultos passam a incentivar diferenças; ao menino, por exemplo, é dada a liberdade de brincar, de
usar da violência para enfrentar outros meninos, enquanto a menina é confinada aos brincados,
principalmente às bonecas, que espelham sua própria passividade (BEAUVOIR, 1980).
8
Existem poucas e reduzidas formas de ser mulher. A sociedade está definida para encerrar e
estimular as mulheres para que representem um número reduzido de conhecimento cultural e,
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 25

Nesse sentido, O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir,


revelou que a opressão está articulada em todos os aspectos do
problema das relações entre os sexos, nas modalidades
sociológicas, econômicas e psicológicas, pois elas estão criadas
dentro da mesma estrutura, organizada por uma relação de
dominação masculina evidenciada de forma reinante nas
civilizações conhecidas e que, de forma desleal, é apresentada como
passível de ser superada. Afirma o texto fundador do feminismo do
século XX que as diferenças físicas entre os sexos não mais
poderiam ser a justificação de uma hierarquia social e política. A
obra tende a defender a teoria universalista, mas em nenhum
momento exclui a persistência de uma diferença de sexos, que não
poderia ser usada, portanto, para impedir o acesso social e político
das mulheres.
A concepção da relação entre os sexos é variável, devido à
existência de particularidades em cada cultura. No feminismo, há
três linhas sobre a percepção dessas diferenças; cito-as de forma
breve: a linha universalista, que se baseia na ideia de que todos os
seres humanos são iguais, independente das características físicas,
pois sua estrutura é consequência da socialização e das relações de
poder, tratando-se, portanto, de querer dissolver as categorias
homem e mulher, no sentido de que a especificidade das mulheres
é uma produção social destinada a justificar sua subordinação; a
linha diferencialista, que compreende que há dois sexos e que o

principalmente, que estejam afastadas da possibilidade de compreender os motivos das opiniões


dominantes na sociedade, uma vez que são os condicionantes de suas vidas particulares. Esses
grupos e esses modos de vida são conhecidos porque são especificidades sociais e culturais das
mulheres, que se configuram por alguma característica subjetiva decorrente da condição de ser
mulher (LAGARDE, 2005).
9
A situação das mulheres é um conjunto de características que todas as mulheres possuem a partir
de sua condição genérica em circunstâncias históricas particulares. A situação expressa a existência
concreta das mulheres particulares a partir de suas condições reais de vida: a formação social em
que nasce, vive e more cada uma, as relações de produção-reprodução e, junto com isso, a classe
social, o grupo de classe, o tipo de trabalho, a atividade vital, os níveis de vida e o acesso a bens
materiais e simbólicos, a língua, a religião, os conhecimentos, as definições políticas, o grupo de
idade, as relações com outras mulheres, com os homens e com o poder, assim como as preferências
eróticas, os costumes, as tradições próprias e a subjetividade pessoal (LAGARDE, 2005).
26 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

acesso à igualdade não equivale ao acesso à identidade, foi


defendida pela psicanálise por muito tempo, e enxerga as
diferenças morfológicas10 como fundamentos que determinam
uma variante da humanidade, a mulher; já a teoria do pós-
modernismo e a queer se desenvolveram a partir dos anos setenta,
compreendendo que o sexo não pode ser substantificado, pois é
entendido como performático (HIRATA, 2009).
Ser mulher e ser homem11 são fatos socioculturais e
históricos e, além das características biológicas de cada um, há um
complexo de determinações e características econômicas e sociais
que constituem o gênero12, produto de uma relação entre biologia,
sociedade e cultura. Ser mulher é consequência de uma construção
histórica, que a define como ser social e cultural genérico
(SAFFIOTI, 1987). O processo histórico sob o qual surgiram as
classes13 e os gêneros é representando, inicialmente, por uma cisão
10
Sabendo, assim, que o homem e a mulher são vistos como duas variantes, superior e inferior, da
mesma fisiologia, compreendemos por que, até o Renascimento, não se dispusesse de terminologia
anatômica para descrever em detalhes o sexo da mulher, que é representado como composto dos
mesmos órgãos que o do homem, apenas dispostos de maneira diversa. Por isso, como demonstra
Yvonne Knibiehler, os anatomistas do princípio do século XIX (sobretudo Virey), ampliando o
discurso dos moralistas, tentam encontrar no corpo da mulher a justificativa do estatuto social que
lhes é imposto, apelando para oposições tradicionais entre o interior e o exterior, a sensibilidade e a
razão, a passividade e a atividade. Bastaria seguir a história da “descoberta” do clitóris, tal como a
relata Thomas Laqueur, prolongando-a até a teoria freudiana da ligação da sexualidade feminina do
clitóris para a vagina, para acabar de demonstrar que, longe de desempenharem o papel fundador
que lhes é atribuído, as diferenças visíveis entre os órgãos sexuais masculinos e femininos são uma
construção social que se iniciou com os princípios de divisão da razão androcêntrica, ela própria
fundamentada na divisão dos estatutos sociais atribuídos ao homem e à mulher (BOURDIEU, 2016).
11
A divisão entre sexos parece estar “na ordem das coisas”, como se diz por vezes para falar do que é
normal, natural, a ponto de ser inevitável: ela está presente, ao mesmo tempo, em estado objetivado
das coisas (na casa, por exemplo, cujas partes são todas ‘sexuadas’), em todo o mundo social e, em
estado incorporado, nos corpos e nos habitus de agentes, funcionando como sistemas de esquemas
de percepção de pensamento e de ação (BOURDIEU, 2016).
12
Minha definição de gênero tem duas partes e várias subpartes. Elas são ligadas entre si, mas são
analiticamente distintas. O núcleo essencial da definição baseia-se na conexão integral entre duas
proposições: o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças
percebidas entre os sexos; e o sexo é uma forma primeira de significar as relações de poder (SCOTT,
1989).
13
Do ponto de vista das classes sociais, podem-se distinguir, basicamente, dois sentidos da história: o
das classes dominantes e o das classes subalternas. Do ângulo das categorias de sexo, as mulheres,
ainda que façam a história, têm constituído sua face oculta (SAFFIOTI, 1987).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 27

entre os seres humanos, fundamentada pela diferenciação


excludente e compulsória entre homens e mulheres (LAGARDE,
2005). Dessa forma, o aporte de uma antropologia da mulher14
permitiu a retomada de conceitos que sustentam a disciplina, como
a cultura, suas origens e suas evoluções, a partir da determinação
de diferenças genéricas entre os sexos e a investigação da forma
em que as mulheres interferiam para a construção de temas
pontuais, como a religião, o poder e as relações econômicas.
Neste trabalho, considera-se sexo e gênero uma unidade,
uma vez que não existe sexualidade biológica independente do
contexto social em que é exercida; por isso, o confinamento
atribuído exclusivamente ao gênero feminino deve ser
compreendido como um processo duplo, permanente e inconcluso,
em que a mulher é reduzida à sua sexualidade, definida
historicamente como produto de suas qualidades naturais e
biológicas, representadas por um número escasso de reais
diferenças entre os dois sexos e pelo desproporcional ao valor dado
a essas diferenças (LAGARDE, 2005). Compreende-se, então, o
sexo como uma realidade, uma condição biológica distinta entre
homens e mulheres15, enquanto que o gênero é a definição cultural
dos papéis sociais atribuídos aos sexos em uma sociedade e em um
determinado momento histórico.
Portanto, este trabalho acompanha as feministas que
recusam o uso exclusivo do conceito de gênero, pois a rápida,
ampla e profunda aceitação do termo está intimamente
relacionada à omissão e ao silenciamento do fato de que é
necessário alterar as relações sociais desiguais entre homens e
mulheres. O uso exclusivo do conceito gênero como neutro e
14
A perspectiva antropológica é dialética: não encontra causas únicas nem últimas; por isso, é
necessária para entender um fenômeno multideterminado, complexo e diverso como é a mulher. A
antropologia é uma possibilidade para criação de novas perspectivas (LAGARDE, 2005).
15
A diferença biológica entre os sexos, isto é, entre o corpo feminino e o masculino, e,
especificamente, a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode assim ser vista como
justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da
divisão social do trabalho (BOURDIEU, 2016).
28 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

equivalente a qualquer relação de violência, dá a ideia de que ele


nada tem a ver com a biologia do corpo humano, sendo que, na
verdade, ele depende do sexo, pois está construído socialmente, e
os papéis sociais de homens e mulheres lhe são atribuídos de
acordo com a sua genitália, o seu sexo. Dessa forma, tratar esta
realidade em termos que seguem exclusivamente o conceito de
gênero distrai a atenção do patriarca, neutralizando a dominação
masculina (SAFFIOTI, 2015) ao não nomear a parte oprimida da
sociedade – mulheres, pessoas que têm vaginas – e a parte
opressora – homens, pessoas que têm pênis.
Então, são as definições estereotipadas das mulheres que
resignam seus círculos de vida particulares, e, a partir disso, cada
círculo passa a constituir um determinado confinamento,
construído pelo entorno de definições essencialistas do que seria
“ser mulher”, geralmente relacionadas à sua sexualidade. Segundo
Marcela Lagarde:

Todas las mujeres están cautivas de su cuerpo-para-otros,


procreador o erótico, y de su ser de los otros, vivido como
necesidad de establecer relaciones de dependencia vital y de
sometimiento al poder y a los otros. Todas las mujeres, en el bien
o en el mal, definidas por la norma, son políticamente inferiores a
los hombres y entre ellas. Por su ser-de y para-otros, se definen
filosóficamente como entes incompletos, como territorios,
dispuestas a ser ocupadas y dominadas por los otros en el mundo
patriarcal. Los grados y las formas concretas en que esto ocurre
varían de acuerdo con la situación de las mujeres, con los
espacios sociales y culturales en que se desenvuelven, con la
mayor o la menor cantidad y calidad de bienes reales y simbólicos
que poseen, y con su capacidad creadora para elaborar su vida y
sobrevivir al cautiverio. (LAGARDE, 2005, p.41)16

16
Tradução: Todas as mulheres estão cativas de seu corpo-para-outros, procriador e erótico, e de seu
ser para os outros, vivido como necessidade de estabelecer relações de dependência vital e de
submissão ao poder e aos outros. Todas as mulheres, bem ou mal, definidas por normas, são
politicamente inferiores aos homens e entre elas. Por seu ser-de e para-outros, se definem
filosoficamente como entes incompletos, como territórios, dispostas a ser ocupadas e dominadas por
outros no mundo patriarcal. Os graus e as formas concretas em que isso ocorre variam de acordo
com a situação das mulheres, com os espaços sociais e culturais em que se desenvolvem, com a
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 29

Depreende-se que cada mulher é parte de um conjunto de


determinações e características universais, que sustentam a
existência de ciclos particulares, que, por sua vez, estão expressos
em um ciclo cultural, conformado pela sua sexualidade e sua
relação com os outros (poder), estruturantes de sua condição
perante a sociedade (LAGARDE, 2005). Nesse sentido, desde o
nascimento até a morte, a mulher é representada pela sociedade
patriarcal como ser incompleto e em constante transformação, pois
nascer mulher implica um futuro pré-moldado, que estará
reforçado por opressões determinadas a partir da forma de vida e
classe que ocupa cada mulher, e que arquitetam os cativeiros a que
estão submetidas.
A cultura patriarcal organiza a vida da mulher a partir da
vivência de uma sexualidade destinada para o outro, como cidadã,
como fiel, como mãe ou como prostituta, categorias aprofundadas
de acordo com os necessários recortes culturais, que permitem a
contextualização das opressões patriarcais – ou seja, permite a
compreensão de quais os círculos e quais os cativeiros nos quais
mulher está inserida. Nesse sentido, a história de qualquer
sociedade conhecida e tradicional demonstra que os primeiros
escravos foram as mulheres de grupos conquistados, o que precede
a formação e a opressão de classe, e permite, por exemplo,
compreender a múltipla exploração das mulheres negras, como
trabalhadoras, como prestadoras de serviços sexuais e como
reprodutoras.
Os defensores científicos do patriarcado justificavam as
mulheres seriam definidas pelo seu dom maternal, e que a sua
exclusão de oportunidades econômicas e educativas se justificava
por serem detentoras da causa mais nobre: a sobrevivência da
espécie. Nota-se que a constituição biológica e o valor dado às suas
relações limitou as mulheres a certas atividades profissionais, pois

maior ou a menor quantidade e qualidade de bens reais e simbólicos que possuem, e com sua
capacidade criadora para elaborar sua vida e sobreviver ao cativeiro.
30 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

eram dependentes de suas necessidades biológicas, de proteção, de


recato. Consequentemente, o patriarcado gerou tensões nos
relacionamentos entre homens e mulheres, visto que ambos estão
condicionados a seus papéis sociais: o homem com o dever de
preservar o domínio e a mulher de ser submissa (LERNER, 1990).
Diante disso, o surgimento de codificações no decorrer da
história demonstra a instituição de mecanismos de controle
comportamentais para que a mulher não cogite outro papel que
não o de reprodutora, fiel, amorosa e julgada pela lealdade devida
ao marido. É fato que as mulheres estão subordinadas ao domínio,
ao controle e à dependência do outro. Portanto, sua opressão se
manifesta a partir da discriminação que sofrem, pois o paradigma
social e cultural da humanidade é androcêntrico17 e define todas as
construções mentais da civilização. Destaca-se, assim, a falácia do
androcentrismo, pois a mudança de paradigma não pode ser
alcançada simplesmente com o acréscimo de mulheres na
formação de teorias e nos espaços públicos; é apenas a com a
aceitação de que a humanidade é formada por homens e mulheres
igualmente, e a reestruturação das crenças e realidades sociais, que
esta mudança será alcançada (LERNER, 1990).
A gênese do patriarcado, pelo exposto, é que as mulheres
são oprimidas pelo fato de serem mulheres, independente de sua
posição de classe, língua, idade, nacionalidade ou ocupação, porque
o mundo patriarcal ensina que ser mulher é sinônimo de ser
oprimido. Suas opressões se expressam e se fundamentam na
desigualdade econômica, política, social e cultural e pela sua

17
“A força da ordem masculina dispensa justificação: a visão androcêntrica impõe-se como neutra e
não tem necessidade de se enunciar em discursos que visem a legitimá-la. A ordem social funciona
como uma imensa máquina simbólica que tende a ratificar a dominação masculina sobre a qual se
alicerça: é a divisão sexual do trabalho, distribuição bastante estrita das atividades atribuídas a cada
um dos dois sexos, de seu local, seu momento, seus instrumentos; é a estrutura do espaço, opondo o
lugar de assembleia ou de mercado, reservado aos homens, à casa, reservada às mulheres; ou, no
próprio lar, entre a parte masculina, com o salão, e a parte feminina, com o estábulo, a água e os
vegetais; é a estrutura do tempo, as atividades do dia, o ano agrário, ou o ciclo de vida, com
momentos de ruptura, masculinos, e longos períodos de gestação, femininos” (BOURDIEU, 2016, p.
18).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 31

posição submissa ao domínio do homem que, como veremos, são


naturalizadas historicamente.

2.2 Os tempos, suas manifestações e suas exclusões

A história demonstra a relevância do quarto milênio a.C.,


momento em que as sociedades começaram a se organizar e
passaram a ser reconhecidas como civilizações, com seus métodos
de domínio relacionados à terra e ao sexo. Nesse período, a maior
parte das sociedades agrícolas tinha desenvolvido novas formas de
desigualdades entre homens e mulheres, num sistema chamado de
patriarcal, com o domínio de maridos e pais. As civilizações, de
uma forma geral, aprofundaram o patriarcado, pois uniram
aspectos culturais e institucionais amplos, perpassando suas
particularidades e criando padrões de estrutura para a vida
humana, que combinam as crenças e instituições mais amplas de
cada civilização em particular (STEARNS, 2015).
O deslocamento da caça e da coleta para a agricultura pôs
fim, gradualmente, a um sistema de sociedade com uma
considerável igualdade entre homes e mulheres, pois, por exemplo,
na cultura de caça e coleta, as taxas de natalidade eram
relativamente baixas e aumentaram a partir do momento em que
os suprimentos de alimentos se tornaram mais seguros, em parte
porque havia mais condições e possibilidades de aproveitar o
trabalho das crianças para aumento da produção e dos excedentes
(STEARNS, 2015). O desenvolvimento da agricultura, já no período
neolítico (8.000 a.C.), impulsionou o intercâmbio de mulheres, não
só como uma maneira de evitar guerras incessantes mediante a
consolidação de alianças matrimoniais, mas também porque as
sociedades com mais mulheres poderiam produzir mais crianças,
já que uma das diferenças primordiais entre as sociedades
coletoras e agrícolas foi o emprego da mão de obra infantil
(LERNER, 1990).
32 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

A fixação de grupos em determinados espaços e o


estabelecimento de moradias mais estáveis mudou radicalmente a
estrutura da vida humana nessas regiões. A partir da geração de
excedentes de produção, as pessoas passaram a realizar outras
atividades, como o artesanato, a religião e o governo, em
decorrência do tempo disponível (STEARNS, 2015). Houve uma
drástica mudança nas relações familiares, principalmente em
relação ao cuidado da mãe com a criança, com a impossibilidade
dela ser criada por outra pessoa. A função de reprodução imposta à
mulher ocasionou um aumento nos índices de mortalidade infantil,
uma vez que as mulheres estavam condicionadas a ter muitas
gestações e a ser responsáveis pela sobrevivência dos filhos
(LERNER, 1990).
Cada civilização desenvolveu características próprias,
determinadas pelos seus interesses e alcances naturais, pela sua
localização e pelo seu tempo histórico, e pelas suas preocupações,
reconhecidas através de suas religiões, produções científicas e seu
modo de governo. As alterações nas relações de poder entre
homens e mulheres são consequências e reflexos de importantes
mudanças econômicas, tecnológicas e militares, pois o período de
formação do patriarcado não ocorreu de repente, mas foi um
processo que se desenvolveu e se aprofundou no transcurso de
quase 2.500 anos, desde aproximadamente 3.100 a 600 a.C. (do
quarto ao segundo milênio) (STEARNS, 2015).
A necessidade dessas civilizações se identificarem umas
com as outras está relacionada com a abrangência do comércio
interno, consequência dos excedentes de produção da agricultura,
que proporcionou uma integração entre os povos e a construção de
unidade, mantendo populações que até então eram diferentes,
juntas. As classes altas, privilegiadas quanto ao acesso e
conhecimento de outras línguas e culturas, fomentaram debates
sobre o sistema filosófico, construindo tradições culturais e
padronizando estruturas, delimitadas a partir do sexo, em
diferentes graus e intensidades (STEARNS, 2015).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 33

O papel social dos sexos na criação das civilizações reflete a


assimetria sexual que situa as causas de subordinação feminina.
Biologicamente, o homem tem estrutura de caçador, o que o
capacita para ser reconhecido como guerreiro protetor das
mulheres vulneráveis, cujas habilidades eram restritas à função
estrutural de reprodução, amor materno e dever de cuidado dos
filhos (LERNER, 1990). Então, o tema do controle da sexualidade
feminina e da procriação está inserido nas relações econômicas,
restringindo o papel da mulher, que, ao perceber as diferenças e
reconhecer suas opressões, manifesta-se por igualdade. Ocorre que
tal reconhecimento é demorado, já que, como vimos, as
representações femininas são constituídas pelo androcentrismo18,
contestado pelas mulheres após o seu acesso à alfabetização, um
dos desafiantes do protagonismo da história.
As sociedades seguem a se modificar com os avanços
culturais, principalmente pela industrialização, inerente a
civilizações ocidentais ao final do século XIX. Os câmbios culturais
permitiram que homens se libertassem de suas necessidades
biológicas e que as mulheres acessassem uma possiblidade de
igualdade formal; porém, as liberdades destinadas às mulheres só
são compreendidas como aceitáveis porque ainda as mantêm
destinadas ao mesmo serviço, principalmente pelo fundamento de
sua estrutura biológica (LERNER, 1990). A mudança radical nas
relações humanas ocorrida com o advento da agricultura e,
principalmente, com o acesso aos excedentes de produção e
câmbios culturais, permitiu que as civilizações se organizassem e
se expandissem, mantendo domínios a partir de relações de poder

18
Tem-se androcentrismo quando um estudo, análise ou investigação tem como enfoque
preponderante a perspectiva masculina, apresentando-a como central para a experiência humana de
maneira que o estudo da população feminina, quando existente, se dá unicamente em relação às
necessidades, experiências e preocupações dos homens. O androcentrismo pode se manifestar de
duas formas, que são a misoginia e a ginopia. A misoginia consiste no repúdio ao feminino e ginopia
na impossibilidade de ver o feminino ou na invisibilidade da experiência feminina. Estamos
acostumados/as a ler e escutar explicações do humano que deixam as mulheres de fora, entretanto,
nos sentimos incomodados/as quando se esquece do homem (FACIO, 1991).
34 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

entre sociedades e entre os sexos. A necessidade de garantir que


esses excedentes e lucros ficassem sob o domínio masculino, para
então se perpetuarem, criou novas formas e possibilidades de
assegurar a propriedade privada nas mãos dos homens.
Cabe observar a divergência histórica sobre as sociedades
matriarcais, manifestada a partir de teorias que sustentam ou
negam a universalidade da subordinação feminina. A existência ou
não de um estágio de dominação feminina e de igualdade entre
mulheres e homens, estão observadas pelas teorias marxista,
estruturalista e materialista. É conveniente, então, que sejam
apresentadas essas teorias. A teoria marxista trata de maneira
mais específica quanto à mulher a obra A origem da família, da
propriedade privada e do estado, de Engels, baseada em dados do
trabalho de teóricos do século XIX19, que defendiam a existência de
sociedades comunistas sem classes prévias antes da formação da
propriedade privada; tais sociedades poderiam ser matriarcais ou
não, mas o autor considera-as como igualitárias. Toda a divisão
primitiva do trabalho descrita na teoria marxista está baseada na
diferença entre os sexos, que condiciona a divisão em
características biológicas e no alcance delas para medir força de
produtividade.
Essa divisão de trabalho perpetuou a ideia primitiva do
determinismo biológico dos sexos20, estando os homens
responsáveis por lutar na guerra, caçar e pescar, procurar
alimentos e ferramentas necessárias para o trabalho, enquanto as
mulheres estavam responsáveis por atender a casa, preparar os
19
Um dos doutrinadores utilizado por Engels foi J. J. Bachofen, jurista e antropólogo, cuja obra
principal foi O direito materno, publicada em 1861, que tratou sobre o matriarcado, apresentando
uma investigação sobre o caráter religioso e jurídico do matriarcado no mundo antigo.
20
“Em sociedades de tecnologia rudimentar, ser detentor de força física constitui, inegavelmente,
uma vantagem. Em sociedades onde as máquinas desempenham funções mais brutas, que requerem
força, a relativa incapacidade de levantar peso e realizar movimentos violentos não impede qualquer
ser humano de ganhar seu sustento. Rigorosamente, portanto, a menor força física da mulher em
relação ao homem não deveria ser motivo de discriminação. Todavia, recorre-se, com frequência, a
este tipo de argumento, a fim de se justificarem as discriminações praticadas contra as mulheres. ”
(SAFFIOTI, 1987, p. 12).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 35

alimentos e confeccionar as roupas. Engels entende que o


surgimento da propriedade privada foi a derrota do sexo
feminino21 e, portanto, somente as sociedades comunistas
poderiam tratá-las como iguais. Entretanto, o modelo de divisão de
trabalho de Engels é em certo ponto equivocado e profundamente
criticado, pois já restou demonstrado que a definição do trabalho
realizado por homens e mulheres difere de acordo com a cultura e
o entorno ecológico em que vivem as pessoas. A teoria marxista22
entende que, nas sociedades tribais, o desenvolvimento da
domesticação animal condicionou o comércio e as propriedades às
mãos dos homens de diferentes famílias, mas não foi capaz de
explicar o porquê. Não foi demonstrado e explicado como se deu o
domínio masculino sobre os excedentes de produção e a conversão
deles em propriedade privada, institucionalizada em uma família
monogâmica e no desenvolvimento da domesticação animal
(LERNER, 1990).
Consequentemente, assegurar a propriedade privada
requereu a constituição e institucionalização da família
monogâmica23 e do controle da sexualidade feminina. Com a
21
“A reversão do direito materno foi a grande derrota do sexo feminino. O homem passou a governar
também na casa, a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem, e um
simples instrumento de reprodução. Essa condição humilhante para a mulher, tal qual como
aparece, notadamente, entre os Gregos nos tempos heroicos, e mais ainda dos templos clássicos, foi
gradualmente camuflada e dissimulada, e também, em certos lugares, revestida de forma mais
amenas, mas não foi absolutamente suprimida” (ENGELS, 2012, p.42).
22
Para a teoria marxista, a ideologia da classe dominante é a ideologia dominante do conjunto da
sociedade. Constata-se que a classe dominante é, entre outras coisas, identificada pela capacidade de
elaborar visões sociais, da cultura e da história segundo seus próprios interesses. Lagarde se
contrapõe ao entendimento de Marx e Engels, afirmando que as teorias dominantes incorporam,
além dos interesses classistas, outros, que se expressam em grupos determinados, cujo domínio é
essencialmente advindo da divisão de classes. A autora entende que as ideologias são determinadas
como dominantes porque expressam as concepções e as normas e porque contribuem para a criação
de necessidades surgidas aos grupos dominados (LAGARDE, 2005).
23
“A monogamia não foi, de forma alguma, fruto do amor sexual individual, com a qual nada tinha
que ver já os casamentos permaneciam, antes como depois, feitos de conveniências. Ela foi a
primeira forma de família fundada sob condições não naturais, mas econômicas, a saber, o triunfo
da propriedade individual sobre o comunismo espontâneo primitivo. Soberania do homem na
família e procriação de filhos que só podiam ser dele e destinados a tornarem-se herdeiros da sua
fortuna. ” (ENGELS, 2012, p. 50).
36 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

exigência de castidade pré-conjugal e o estabelecimento do um


duplo padrão sexual dentro do matrimônio, os homens
asseguraram a legitimidade de sua descendência e garantiram,
assim, seus interesses de propriedade (LERNER, 1990). A família
monogâmica se transforma em uma família patriarcal,
perpetuando a inferioridade da mulher, cujo trabalho ficou
confinado à esfera privada, excluindo-a da participação na
produção social (ENGELS, 2012). A teoria marxista expressa que, a
partir do momento que o homem toma el mando de la casa, a
mulher é inferiorizada e reduzida à serventia, a uma escrava das
luxúrias masculinas e a um mero instrumento de reprodução
(LAGARDE, 2005).
As atribuições do marxismo são reconhecidas como aportes
da teoria feminista para o reconhecimento das mulheres sobre
suas posições na sociedade e na história24, já que, mesmo que seus
pressupostos não tenham sido comprovados, foram os que
definiram as principais questões teóricas dos cem anos seguintes
(LERNER, 1990). A teoria marxista denunciou a conexão entre as
mudanças estruturais nas relações de parentesco e mudanças na
divisão do trabalho, por um lado, e a posição que ocupam as
mulheres, por outro; demonstrou uma conexão entre o
estabelecimento da propriedade privada, o matrimônio
monogâmico e a prostituição; e, ainda, a conexão entre o domínio
econômico e político25 dos homens e seu controle sobre a
sexualidade feminina.
A definição do matrimônio monogâmico, para Engels, é a
mesma da primeira sociedade estatal26, como a sujeição de um

24
O primeiro a afirmar que o desenvolvimento de uma sociedade se mede pela condição da mulher
foi o socialista utópico Charles Fourier, encapado posteriormente por Marx e, sobretudo, por Engels.
25
“Não se pode assegurar a verdadeira liberdade, não se pode edificar a democracia – sem falar de
socialismo – se não chamamos as mulheres ao serviço cívico, na milícia, na vida política, se não a
tirarmos da atmosfera brutal do lar e da cozinha” (MARX, ENGELS, LENIN, 1979, p.12).
26
“Vimos o quanto Bachofen tinha razão ao considerar o progresso constituído pela passagem do
casamento por grupos ao casamento tribal como obra da mulher; somente a passagem do último a
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 37

sexo ao outro, entendendo que a primeira oposição de classes que


aparece na história coincide com o desenvolvimento do
antagonismo entre homem e mulher no matrimônio monogâmico,
reconhecendo-o como a primeira opressão de classes – a do sexo
masculino sobre o feminino27. As afirmações de Engels sobre a
relação entre os sexos e o antagonismo de classe fez com que os
teóricos não compreendessem, realmente, as diferenças entre as
relações de sexo e as relações de classe (LERNER, 1990).
Cabe ressaltar que, paralelamente à teoria marxista, surge
a psicanálise de Freud28, sendo que ambas dialogaram
profundamente, e seus discursos continuam persistentes até hoje.
A diferença entre as duas teorias, além de seus objetos de pesquisa,
foi que o questionamento das categorias marxistas de gênero
ocorreu no campo epistemológico29, enquanto que a psicanálise
tratou da filogênese, no caso, do desenvolvimento do ser humano e
não da busca da compreensão da natureza e da gênese, da origem,
do ser social e da sociedade (ontogênese), da qual se ocupou Marx.

monogamia pode ser posto em conta do homem; sua única razão na história foi tornar pior a
situação das mulheres e facilitar a infidelidade dos homens” (ENGELS, 2012, p. 61 a 63).
27
Tanto Engels como Bachofen afirmam que o patriarcado surgiu ligado à passagem de uma vida
sexual comunitária para a adoção de certas formas de associação sexual, primeiramente com a
família sindiásmica (o homem pode ter outras ligações, mas a mulher não; ainda, o casamento pode
ser dissolvido por divórcio), e depois com o casamento monogâmico. As duas últimas formas
asseguram ao marido a posse sexual exclusiva da mulher. “[...] as suposições dos autores, segundo
as quais o patriarcado tem origem unicamente, ou em grande parte, na adoção de certas formas de
associação sexual são insustentáveis; outras modificações de ordem social, ideológica, tecnológica e
econômica parecem mais plausíveis. Em contrapartida, a afirmação de Engels de as mulheres
constituírem a primeira propriedade é verdadeira. Mas quando ele sustenta que as mulheres são
reduzidas à condição de objeto pelo casamento, que dá ao homem a posse sexual exclusiva (posse
não recíproca), isto pressupõe já condições patriarcais. ” (MILLETT, 1970, p.80).
28
“[...] a fundação da Psicanálise por Freud, no final do século XIX, que vai fazer a diferença dos
sexos o motivo central da reflexão. Aqui, pode-se também observar oscilações complexas entre a
afirmação de um e dos dois sexos, o horizonte do mais e do menos: a centralidade do falo força
ambos os sexos à experiência de castração, mas de maneira mais difícil para as mulheres devido, por
um lado, à sua primeira relação desejante da mãe que, em seguida, deve ser voltar para um homem,
e, por outro lado, à falta de pênis traduzida como ‘inveja do pênis’. ” (HIRATA, 2015, p.61).
29
Compreende-se por epistemologia toda a noção ou ideia, refletida ou não, sobre as condições vitais
para a constituição do conhecimento válido. É por via deste conhecimento válido que uma dada
experiência social se torna intencional ou inteligível (SOUZA, 2013).
38 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

Assim, o pensamento psicanalítico foi subversivo e conservador30,


ao passo que ao marxista não se aplica o segundo termo
(SAFFIOTI, 2015).
Outra teoria acerca da subordinação das mulheres é a
estruturalista, baseada na obra do antropólogo Claude Lévi-Strauss
(1973), que defende que os homens construíram a cultura a partir
de um só componente histórico. Há o reconhecimento do tabu do
incesto como um mecanismo universal humano, enraizado em
qualquer organização social, sendo sua proibição compreendida
não só como uma norma que proíbe o matrimônio com a mãe, a
irmã e a filha, mas uma norma que obriga a dar a mãe, a irmã ou a
filha a outros, como gratificações. Para a teoria, o intercâmbio de
mulheres foi a primeira forma de comércio, que as converteu em
mercadoria, considerando-as coisas antes de seres humanos
(LERNER, 1990).
Com relação ao entendimento do intercâmbio de mulheres
como a primeira forma de comércio e em relação à teoria, a
antropóloga e feminista Gayle Rubin31 apresenta as consequências
e extensões desse sistema para o pleno exercício do direito das
mulheres sobre si mesmas. As relações sociais do sistema familiar,
segundo a antropóloga, decretam aos homens direitos sobre as
mulheres da família, sem considerar os motivos que deram início a
um intercâmbio de mulheres e não de crianças e sem lograr
responder, também, o que levava as mulheres a estarem de acordo.

30
“Ao considerar as teorias de Freud sobre as mulheres, devemos atentar não só para as conclusões
que tirou dos fatos que dispunha como também para as hipóteses sobre as quais se baseou. Para
Freud, os sintomas das suas pacientes não traduziam uma insatisfação justificada perante a situação
restritiva que lhes impunha a sociedade, mas uma tendência independente e universal do caráter
feminino. Batizou esta tendência de ‘inveja ao pênis’, descobriu as origens na experiência de infância,
e sobre ela fundou a psicologia da mulher, organizando o que considerava como os três corolários da
psicologia feminina- passividade, masoquismo, narcisismo-, de forma que cada um destes aspectos
dependia de ou estava em relação com a inveja do pênis.” (MILLETT, 1970, p. 177).
31
A antropóloga, em 1975, afirmou que o sistema sexo/gênero consiste numa gramática, segundo a
qual a sexualidade biológica é transformada pela atividade humana, tornando disponíveis os
mecanismos de satisfação das necessidades sexuais transformadoras. Sua principal obra é
“Deviations: A Gayle Rubin Reader”, publicada em 2011.
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 39

Assim, “a teoria estruturalista reconhece o sistema sexo/gênero


como um conjunto de arranjos através dos quais uma sociedade
transforma a sexualidade biológica em produto da atividade
humanas. ” (RUBIN, 1993, p.3).
Esses questionamentos provocaram uma mudança nas
teorias feministas, que passaram a buscar desde as origens
econômicas até os sistemas de símbolos e significados das
sociedades conhecidas, identificando as mulheres como inferiores,
como forma de intermédio entre seres. Cabe salientar que os
estudiosos de gênero pós-modernos32 apresentaram críticas à
Gayle Rubin, devido ao fato de que ela trabalhava com oposições
como natureza e cultura e separação entre os sexos; contudo, a
antropóloga e professora Sherry Ortner,33 em 1974, apresentou um
breve ensaio que defende a universalidade da subordinação
feminina, afirmando que em qualquer sociedade conhecida as
mulheres estão identificadas como mais próximas da natureza do
que da cultura, tendo sido convertidas em um símbolo de
inferioridade.
Ao lado de Ortner, feministas defendem a universalidade
da subordinação feminina, se não nas condições sociais atuais, ao
menos nos sistemas de significado da sociedade. Os que se
opuseram a essa visão foram criticados por desconsiderarem
processos históricos, momento em que se coloca em dúvida a
aceitação implícita do feminismo estruturalista na dicotomia
imutável entre homens e mulheres (LERNER, 1990). O
aprofundamento do debate evidenciou que nem a ideia de que um
único e específico feito seria a causa responsável de certo
problema, nem a ideia de universalidade, vão responder
corretamente a questão das causas de subordinação. As explicações

32
Ao contrário do sentido adotado por este trabalho para sexo e gênero, podemos citar, a nível de
informação, os estudos de Judith Butler, a partir dos quais o sexo passa a ser visto como
culturalmente construído e gênero como meio de discurso para a construção do sexo.
33
Uma de suas principais obras foi publicada em 1974, intitulada Is female to male as nature is to
culture?.
40 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

econômicas, realçadas a partir de considerações biológicas,


passaram a ter que tratar com o poder dos sistemas de crenças,
símbolos e construções mentais.
A teoria materialista, portanto, tem sido considerada como
uma teoria feminista na prática e nas intenções, e também como
uma teoria representante da tradição histórica ao pensar sobre as
mulheres, construída, portanto, a partir da aceitação de diferenças
biológicas entre sexos e do reconhecimento de uma divisão de
trabalho condicionada por essas diferenças. Uma das obras que
impulsionou os debates feministas foi a de J.J. Bachofen, quando o
antropólogo descreveu várias etapas da evolução da sociedade,
desde a barbárie até o moderno patriarcado, afirmando que nas
sociedades primitivas existiram culturas matriarcais. No entanto,
as feministas norte-americanas desenvolveram a teoria
materialista, dando origem a uma doutrina patriarcal redefinida
quanto à esfera da mulher, que passou a relacionar as privações
das mulheres com a imposição de fragilidade ao seu sexo, já que
frequentemente os registros históricos colocam as mulheres como
responsáveis por resgatar a sobrevivência da sociedade da
destruição, da competitividade e das violências criadas por
homens, possuidores de um poder absoluto, como portadoras de
uma missão para sobrevivência humana.
O acesso a uma educação igual e a participação na vida
pública em igualdade com os homens foi, e ainda tem sido, um dos
maiores obstáculos enfrentados pelas mulheres, que, mesmo após
a instituição de novos modos de governo, mantiveram seus papéis
de subordinação e de responsabilidade para com a educação dos
filhos34, futuros condutores sociais (LERNER, 1990). Elizabeth

34
“[...] o pai pode omitir-se em tudo, mas resguarda sua autoridade. Mesmo quando cabe à mulher
total responsabilidade pela educação dos filhos, é ela mesma que, diante de uma traquinagem dele,
ao invés de aplicar-lhe o castigo devido, omite-se, ameaçando-o com o famoso ‘contarei tudo a seu
pai quando ele chegar’. A autoridade, assim, permanece nas mãos daquele que não educa. A
responsabilidade cabe àquela que não detém autoridade. Desta forma, fica extremamente difícil,
senão impossível, mostrar às crianças os limites de atuação, os limites do permissível. ” (SAFFIOTI,
1987, p.37).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 41

Stanton35, feminista e ativista estadunidense, desenvolveu o


argumento considerado materialista-feminista quando afirmou
que as mulheres tinham direito a igualdade porque eram cidadãs.
Posteriormente, com base no mesmo fundamento, as feministas
organizaram o movimento sufragista e passaram a questionar o
trabalho da mulher, além de reivindicar participação social e
política através do voto.
As feministas materialistas afirmam que a busca pela
existência de sociedades matriarcais foi essencial para afirmar a
teoria e reivindicar igualdade. Nessa busca se identificou que as
mulheres são vistas em muitas civilizações como deusas,
afirmando a existência de poder feminino, de uma idolatria;
contudo, esses entendimentos são constituídos de uma combinação
de pesquisas em diversas áreas, consideradas duvidosas e ligadas
por presunções. Os antropólogos modernos têm refutado
evidências etnográficas que embasaram os argumentos de
Bachofen e Engels para a existência de uma civilização matriarcal,
reconstituindo as evidências e fundamentando a existência de uma
sociedade matrilinear, que, em regra, tinha sua economia e
relações parentais controladas pelo parente-homem.
Nota-se que são diversas as concepções acerca da existência
de sociedades matriarcais (SAFFIOTI, 2015), e o espaço destinado à
pesquisa não permite um aprofundamento da construção dessas
sociedades. Contudo, as interpretações históricas demonstram que
nas sociedades caçadoras e coletoras, independente do status social
e econômico, as mulheres eram subordinadas, em alguns aspectos,
aos homens, já que em nenhuma sociedade conhecida as mulheres,
coletivamente, tiveram o poder de tomar decisões sobre os homens
ou de definir as normas sobre suas condutas sexuais ou variar
matrimônios (LERNER, 1990). Assim, aqueles que definem o

35
Stanton, ativista feminista e abolicionista, dedicou-se aos direitos políticos das mulheres,
abordando questões para além do sufrágio feminino. Suas principais obras são History of Woman
Suffrage, publicada em 1881, e The Woman’s Bible, publicada em 1972.
42 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

matriarcado como uma sociedade em que as mulheres dominam


os homens, como o inverso do patriarcado36, sustentam seus
argumentos em evidências extraídas da mitologia e da religião, e
não de dados antropológicos e históricos.
Dessa forma, a intepretação feminista de diversas áreas
através da teoria materialista refuta, atualmente, uma série de
definições a partir da releitura dos dados e nova interpretação das
habilidades femininas como tão variadas quanto as dos homens e
em igualdade de essencialidade para a sobrevivência humana. As
descrições das interpretações feministas de Nancy Chodorow37 são
apresentadas por Lerner (1990) e Pateman (1993), e evidenciaram
discrepâncias sexuais universais na organização social dos gêneros,
geradas pelo condicionamento das mulheres ao dever de cuidado
dos filhos. Assim, cabe ressaltar que nada que aparece na história
como eterno é mais que o produto de um trabalho de eternização,
realizado por instituições como a família, a igreja e a escola.
Portanto, uma história feminista deve apresentar outras visões que
não a naturalista e essencialista.
Sublinha-se que este trabalho baseia-se na teoria
materialista-feminista, que compreende a subordinação da mulher
como universal e que pretende a disseminação das diferenças e
categorias entre homens e mulheres, a partir do questionamento
da subordinação feminina e de todas as violências relacionadas a
esse fenômeno patriarcal. Dessa forma, analisaremos o controle da
sexualidade das mulheres e quais os motivos que ainda as mantêm
em situação de inferioridade, buscando compreender os
entrelaçamentos dos registros históricos e das atuais e perpetuadas
opressões estruturais instituídas pelo patriarcado.
36
“Só se poderá seguir essa definição quando as mulheres possuírem poder sobre os homens e não
poder ao lado deles, o que inclui a esfera pública e as relações om o exterior, bem como a tomada de
decisões importantes por parte das mulheres no âmbito familiar e social. ” (LERNER, 1990, p.30).
37
Socióloga e psicanalista, é considerada uma das principais teóricas da psicanalítica feminista. Entre
suas obras estão The Reproduction of Mothering: Psychoanalysis and the Sociology of Gender,
publicada em 1978, e considerada um dos dez livros mais influentes dos últimos 25 anos, de acordo
com a revista de sociologia americana Contemporary Sociology.
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 43

2.3 As estruturas de poder e as suas opressões

As estruturas de poder não só dividem a sociedade em


homens dominadores, de um lado, e mulheres subordinadas, de
outro, mas também criam homens que dominam outros homens,
bem como mulheres que dominam outras mulheres, o que permite
o reconhecimento de que o patriarcado, articulado com as demais
estruturas de poder (como o capitalismo e o racismo38), representa
um sistema de relações sociais que mantém a subordinação da
mulher. A supremacia masculina se faz presente em todas as
classes sociais, desde as subalternas até as dominantes e, mesmo
que uma mulher, em razão de sua classe, assuma posição social
superior à de homens e outras mulheres de classes mais baixas, ela
não será eximida de ser sujeitada ao julgamento do homem, seja

38
“Sexismo e racismo são irmãos gêmeos. Na gênese do escravismo constava um tratamento distinto
dispensado a homens e a mulheres. Eis por que o racismo, base do escravismo, independente das
características físicas ou culturais do povo conquistado, nasceu no mesmo momento histórico em
que nasceu o sexismo. Quando um povo conquistava outro, submetia-o a seus desejos e a suas
necessidades. Os homens eram temidos, em virtude de representarem grande risco de revolta, já que
dispõem, em média, de mais força física que as mulheres, sendo, ainda, treinados para enfrentar
perigos. Assim, eram sumariamente eliminados, assassinados. As mulheres eram preservadas, pois
serviam a três propósitos: constituíam forca de trabalho, eram reprodutoras de força de trabalho e
prestavam (cediam) serviços sexuais aos homens do povo vitorioso. Constitui-se uma prova cabal de
que o gênero não e tão somente social, dele participando também o corpo, quer como mão de obra,
quer como objeto sexual, quer ainda como reprodutor de seres humanos, cujo destino, se fossem
homens, seria participar ativamente da produção e, quando mulheres entrar na engrenagem das
funções descritas. Convém lembrar que o patriarcado serve a interesses dos grupos/classes
dominantes e que o sexismo não é meramente um preconceito, sendo também o poder de agir de
acordo com ele. No que tange ao sexismo, o portador de preconceito está, pois, investido de poder,
ou seja, habilitado pela sociedade a tratar legitimamente as pessoas sobre quem recai o preconceito
de maneira como este as retrata. Em outras palavras, os preconceituosos – e este fenômeno não é
individual, mas social- estão autorizados a discriminar categorias sociais, marginalizando-as do
convívio social comum, só lhes permitindo uma integração subordinada, seja em certos grupos, seja
na sociedade como um todo.
O sexismo não é somente uma ideologia, reflete, também, uma estrutura de poder, cuja distribuição
é muito desigual, em detrimento das mulheres. O sexismo, contudo, trata de ocultar este fato, por
exemplo, como a suspeita de que sempre se pode imputar a esterilidade às mulheres. Tanto assim é
que, nos casais sem filhos, é sempre a mulher que se submete a exames de fertilidade. Só depois que
esta fica provada, o homem se dispõe a procurar um médico. Comprovada a esterilidade masculina,
em geral, a mulher é proibida de divulgar este resultado. A falha, no homem, deve continuar oculta.
” (SAFFIOTI, 2015, p.100-101).
44 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

seu pai ou companheiro. Por isso, podemos dizer que são as


mulheres negras e pobres que estão na última posição de
subordinação da sociedade brasileira.
Os traços de personalidade adquiridos pelas mulheres ao
longo de todo o processo de socialização fazem com que todas
acreditem, pelo menos em um primeiro momento, que não são
capazes, pois foram ensinadas que a razão não lhes pertence,
condicionando-as, via de regra, a não terem confianças em si
mesmas, fato que as impede de lutar vigorosamente para mudar a
sua condição de inferioridade (SAFFIOTI, 2015). Então, qualificadas
como vítimas e sofredoras, em seu destino de mulher, só são
merecedoras de aplausos por parte da sociedade quando aceitam
tal condição. Em consequência, a cartilha da ideologia dominante
interpreta aquelas que não seguem tais padrões como desonradas
pelos seus comportamentos, e, por isso, merecedoras de repressão.
Durante o processo de socialização, os homens são
ensinados a competir permanentemente, seja por empregos ou
pela atenção de mulheres, traço que constitui a personalidade
masculina, junto ao componente básico da agressividade, o modelo
de homem. Paralelamente, as mulheres são ensinadas a inibir
qualquer tendência agressiva, já que os padrões sociais lhes
imputam as características de docilidade e passividade, pois, caso
sejam identificadas como agressivas, correrão o risco de serem
estereotipadas como “mulher-macho” (SAFFIOTI, 1987), ou seja, a
mulher que quer imitar o homem39. A ideologia patriarcal pretende
enquadrar ambos os sexos em papéis pré-determinados e
excludentes, independente das particularidades de cada ser
humano. Dessa forma, a supremacia é garantida ao macho adulto.
Assim é visto que “à medida que os filhos vão entrando na idade
adulta, vai-se estabelecendo o domínio do irmão sobre a irmã,

39
Imbuídas da ideologia que dá cobertura ao patriarcado, mulheres desempenham, com maior ou
menor frequência e com mais ou menos rudeza, as funções do patriarca, disciplinando filhos e outras
crianças ou adolescentes segundo a lei do pai. Ainda que não sejam cúmplices desses sistemas,
colaboram para alimentá-lo.
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 45

numa repetição de modelo parental” (SAFFIOTI, 1987, p. 39).


Portanto, tem-se que a família não reúne condições suficientes de
educar novas gerações para que ambos os sexos desfrutem do
prazer (SAFFIOTI, 1987).
Todas essas diferenças tornam a vida da mulher mais ou
menos difícil, mas sempre lhe imputam a responsabilidade última
pela casa e pelos filhos. As formas particulares em que ocorre o
fenômeno de subordinação em cada ciclo vital, com suas normas,
instituições, seus modos de vida e sua cultura, são reconhecidas
como os cativeiros das mulheres40, e nem tudo é dor dentro deles –
ao contrário, a ideia é que os cativeiros passem a adquirir texturas
de felicidade, enunciadas na língua patriarcal como entrega e
lealdade. A mulher está situada em determinado lugar no mundo,
colocada para dentro de casa, o cuidado com os outros é concebido
como causa de seus instintos sexuais e maternais, estando a
subordinação alienada, portanto, ao poder, conteúdo do amor
(LAGARDE, 2005).
O complexo de fenômenos opressivos que articula
inferiorização, discriminação, dependência e subordinação, define
o papel das mulheres na sexualidade, nas atividades, no trabalho,
nas relações sociais, nas formas de participação no mundo e na
cultura, definindo os limites de suas possibilidades. O processo de
subordinação não é de entrega ou apropriação, pois não permite
autonomia; as mulheres estão conformadas como parte dos outros,
imbuídas da ideia de que o impulso que dá sentido à sua existência
é a dependência dos vínculos, é sua realização com esses vínculos.
Esses processos sintetizam a vitória patriarcal: a sociedade

40
“A categoria cativeiro foi construída como sínteses dos fatos culturais que definem o estado das
mulheres no mundo patriarcal. O cativeiro define politicamente as mulheres, se concretiza na
relação especifica das mulheres com o poder, e se caracteriza pela privação de liberdade, pela
opressão. O cativeiro caracteriza as mulheres por sua subordinação ao poder, por sua dependência
vital, o governo e a ocupação de suas vidas pelas instituições e pelos particulares (os outros), e pela
obrigação de cumprir com o dever feminino de seu grupo de sujeição, concretizado em vidas
estereotipadas, sem alternativas. ” (LAGARDE, 2005, p.36).
46 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

disponibilizando mulheres para adorar e cuidar dos outros,


trabalhar, purificar e mudar o mundo, tudo por desejo próprio41.
Cada mulher se torna a expressão do que também não
pôde ser, devido à divisão genérica e classista das sociedades, pois
todos os compartimentos e as categorias sociais que constituem
cada sexo, sua divisão genérica e classista, implica à mulher um
futuro pré-definido (LAGARDE, 2005). Portanto, a opressão das
mulheres constitui um conjunto articulado de características
inscritas na situação de subordinação, no conjunto da sociedade e
do Estado. A opressão se manifesta e se realiza na condição da
mulher como objeto, fundada na desigualdade econômica, política,
social e cultural, bem como concretada em um todo unitário e
simultâneo dessas características, no grupo social das mulheres, e
em cada mulher em particular.
São diversas as determinantes para a situação de opressão
das mulheres, as quais se expressam a partir da divisão sexual do
trabalho e pelo conjunto do que é viver a partir de valores e
classificações determinadas pelo sexo; pela divisão genérica dos
espaços sociais: criação-procriação, público-privado, pessoal-
político; pela existência de formas, relações, estruturas e
instituições hierárquicas de poder e domínio autoritário, fundadas
na exploração de alguns grupos por outros, que delimitam suas
capacidades de decidir; por estarem as opressões baseadas em
critérios de idade, de religião e de uma série de variantes que
influenciam cada sociedade; também se expressam pela definição
da mulher enquanto ser social em torno de uma sexualidade
expropriada, procriadora ou erótica, de um corpo que serve aos
outros (LAGARDE, 2005).

41
“As mulheres estão submetidas à opressão porque, para estabelecer vínculos e ser aceitas, com a
nossa anuência ou contra nossa vontade, vivemos a reificação sexual de nossos corpos, pela negação
da inteligência e a inferiorização dos afetos, ou seja, a coisificação de nossa subjetividade acesa [...]
nossa cegueira se concretiza também na negação de nós mesmas, de nossas capacidades, dos saberes
críticos que podemos possuir. ” (LAGARDE, 2005, p.17).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 47

A opressão está fundada sobre o corpo cultural da mulher,


sobre sua sexualidade, seus atributos e suas qualidades,
normatizados e disciplinados para estarem à disposição da
sociedade e do poder, sem que sejam avaliadas suas reais
vontades42. O condicionamento da mulher exclusivamente ao
espaço privado revela que todas estão à disposição dos outros e sob
o domínio dos homens e de suas instituições patriarcais e
classistas43. Cabe salientar o entendimento adotado neste trabalho
de que as mulheres não constituem uma classe, mas estão
presentes em todas, já que a teoria classista permite compreender
os aspectos de suas vidas e as formas que ocorrem as opressões
sociais; no entanto, a teoria não logrou explicar o motivo de a
condição genérica estar intrinsicamente relacionada com suas
opressões, o que depreende que mulheres são oprimidas por serem
mulheres, e algumas também por sua classe (LAGARDE, 2005).
Então, mesmo quando todas as mulheres estão submetidas
à opressão por sua condição histórica44, existem diferenças entre
elas devido à sua situação histórica, pois, como exemplo, a
opressão das mulheres burguesas, responsáveis pela organização e
42
Mulheres em geral e, especialmente quando são vítimas de violência recebem tratamento de não-
sujeito. Isto, todavia, é diferente de ser não-sujeito. Condição que refuta os estudos que defendem
que as mulheres sejam cúmplices de seus agressores, julgadas pela dificuldade de sair
definitivamente do relacionamento/violência. Pois, para que pudessem ser consideradas cúmplices,
dar seu consentimento às agressões masculinas precisaria desfrutar de igual poder que os homens.
No entanto, sendo detentoras de parcelas infinitamente menores de poder que os homens, as
mulheres só podem ceder, não consentir. Trata-se de caso similar à relação patrão-empregado. Este
último não consente com as condições do contrato, tampouco com o salário, mas cede, pois quase
sempre é abundante a oferta de forca de trabalho e escassa oferta de postos de trabalho,
particularmente em determinados contextos históricos (SAFFIOTI, 2015).
43
“É necessário precisar que as mulheres e os homens constituem grupos socioculturais genéricos.
Que esses grupos emergem da divisão do mundo a partir da sexualidade; e que os fenômenos
políticos globais e dominantes que caracterizam o patriarcado são: a opressão, genérica das
mulheres. ” (LAGARDE, 2005, p.20).
44
“Na opressão, a dependência tem sido o eixe da condição histórica da mulher e da particular
situação das mais diversas mulheres. A base do cativeiro das mulheres é a dependência desigual, na
subalternidade. Trata-se de uma dependência vital escorada pelo domínio dos outros. Desde então,
os cativeiros das mulheres se emolduram no âmbito do poder, e que o cativeiro seja, assim, uma
categoria política, social e cultural conformada na história da opressão das mulheres. ” (LAGARDE,
2005, p. 110).
48 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

administração do trabalho doméstico, é diferente da opressão das


mulheres assalariadas45. Evidencia-se, também por tudo que já foi
exposto no presente trabalho, que a opressão tem sido uma
característica inerente à condição de ser mulher no decorrer da
história, sendo que a opressão patriarcal tem se desenvolvido a
partir do surgimento de determinados feitos, processos concretos,
como a civilização (LAGARDE, 2005).
Um dos elementos nucleares do patriarcado reside
exatamente no controle da sexualidade da mulher, a fim de
assegurar a fidelidade da esposa ao seu marido (SAFFFIOTI, 2015).
Assim, a dominação dos homens sobre as mulheres e o direito
masculino ao acesso sexual a elas dá origem a uma história de
sujeição, a história do contrato sexual46. Tal dominação está
presente na relação social existente entre uma relação sexual, pois
está construída na divisão entre o masculino-ativo e o feminino-
passivo, configurando os desejos de ambos os sexos, “estando o
desejo masculino expresso como necessidade de posse47 e o desejo
feminino expresso na necessidade de ser dominada pelo
masculino, como um reconhecimento erotizado do que trata o
poder de dominação e o controle da sexualidade” (BOURDIEU,
2016, p. 38). Para a antropóloga Marcela Lagarde,
45
“[...] uma conta com uma equipe de empregos e com meios para levar a cabo suas funções
materno-conjugais, e a outra não só não tem meios suficientes, mas ela mesma realiza todas as
funções para além do trabalho assalariado que realiza. Sendo proprietárias e incluso exploradoras
diretamente, as burguesas vivem subordinadas, dependentes e são discriminadas nas relações
familiares e sociais, pelo único fato de serem mulheres, de maneira similar às assalariadas, que além
da exploração de classe estão submetidas à opressão genérica. ” (LAGARDE, 2005, p. 109).
46
“[...] a liberdade civil não é universal – é um atributo masculino e depende do direito patriarcal. Os
filhos subvertem o regime paterno não apenas para conquistar sua liberdade, mas também para
assegurar as mulheres para si próprias. Seu sucesso nesse empreendimento é narrado na história do
contrato sexual. O pacto original é tanto um contrato sexual quanto social: é social no sentido
patriarcal- isto é, o contrato cria o direito político dos homens sobre as mulheres- e, também sexual
no sentido do estabelecimento de um acesso sistemático dos homens ao corpo das mulheres”
(PATEMAN, 2003, p.16).
47
“Para o poderoso macho importa, em primeiro lugar, seu próprio desejo. Comporta-se, pois, como
sujeito desejante em busca de sua presa. Esta é o objeto de seu desejo. Para o macho não importa
que a mulher objeto de seu desejo não seja sujeito desejante. Basta que ela consinta em ser usada
enquanto objeto. ” (SAFFIOTI, 1987, p.18).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 49

La vida de la mujer está organizada en torno a la vivencia de una


sexualidad destinada para. Como ciudadana o como fiel, como
hija o como esposa, como madre o como prostituta, el poder
atraviesa el cuerpo de la mujer. En el lenguaje laico y estatal se
controla su fecundidad, su fertilidad es un asunto de política
demográfica; en el lenguaje domestico del amor y del poder se
hace referencia a la fidelidad, a la castidad, la virginidad, o a la
permanente disposición a la maternidad o al placer del otro.
(LAGARDE, 2005, p. 167)48.

Assim, entende-se a sexualidade como linguagem, símbolo,


mito, pois é um espaço de sanção, tabu, obrigatoriedade e
transgressão, estando qualquer espaço de poder, como a sociedade
e o Estado, ligados ao controle, ordenamento e sanções quanto à
sexualidade. A sexualidade está estruturada socialmente para
reproduzir uma cultura sintetizada e organizada pelos privilégios
patriarcais masculinos, centrando a masculinidade e a feminilidade
no acesso aos bens reais e simbólicos, o acesso ao trabalho e a
outras atividades criativas (LAGARDE, 2005). O controle da
sexualidade exercido pelo poder patriarcal objetiva a manutenção
da ordem econômica, pois o logro de manter a mulher no espaço
privado e, ao mesmo tempo, encantada por cumprir papéis sociais
estereotipados, reconhece nelas a ideia de que necessitam ser
protegidas, já que são responsáveis pela existência humana e,
então, dependentes de ações materiais e simbólicas realizadas por
homens.
É clara a atribuição da mulher ao espaço doméstico49. Seja
uma mulher que trabalha em troca de salário ou não, todas são

48
Tradução: “A vida da mulher está organizada ao redor da vivência de uma sexualidade destinada
para. Como cidadã ou como fiel, como filha ou como esposa, como mãe ou como prostituta, o poder
atravessa o corpo da mulher. Na linguagem laica e estatal se controla a sua fertilidade, que é um
assunto de política demográfica; na linguagem doméstica do amor e do poder se faz referência à
fidelidade, à castidade, à virgindade, ou à permanente disposição à maternidade ou ao prazer do
outro. ” (LAGARDE, 2005, p.167, tradução nossa).
49
“No seio da família, a dominação masculina pode ser observada em praticamente todas as atitudes.
Ainda que a mulher trabalhe fora de casa em troca de um salário, cabe-lhe realizar todas as tarefas
domésticas. Como, de acordo com o modelo, os afazeres domésticos são considerados "coisas de
50 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

socialmente responsáveis pela manutenção da ordem na residência


e pela criação e educação de seus filhos. Assim, por maiores que
sejam as diferenças de rendas existentes entre as mulheres, todas
carregam uma identidade básica: a de cuidadora. O investimento
da sociedade em manter esses padrões é alto; a naturalização desse
processo faz com que a mulher se dedique aos afazeres domésticos,
por serem naturalmente capazes de serem mães50, afirmando que
o natural, portanto, é a mulher ocupar o espaço doméstico, para o
cuidado dos filhos, deixando livre para o homem o espaço
público51.
Cabe a ressalva de que as opressões emergem a partir de
qualquer condição de domínio e exploração, formando estruturas
de poder de sexo, raça e classe. Não se pode confundir ou alterar
conceitos, pois a exploração é um fenômeno cultural originado
economicamente, sendo incorreto atribuir apenas ao capitalismo a
causa da situação das mulheres e definir as explorações sexuais,
uma vez que as análises devem considerar o Estado, a sociedade e
a cultura atual não só como capitalistas, mas também patriarcais
(LAGARDE, 2005). Dessa forma, o poder exercido é a essência da
subordinação e está presente em todas as relações sociais, bem
como na reprodução dos sujeitos sociais, no público e no privado.
A instituição da família monogâmica alcança controlar a
mulher no âmbito familiar, pois, através da forma de um contrato
sexual, coloca em relevo a figura do marido, mostrando o caráter

mulher", o homem raramente se dispõe a colaborar para tornar menos dura à vida de sua
companheira. Não raro, ainda se faz servir, julgando-se no direito de estrilar se o jantar não sai a seu
gosto ou se sua mulher não chega a tempo, trazendo-lhe os chinelos. ” (SAFFIOTI, 1987, p. 50).
50
“É próprio da espécie humana elaborar socialmente fenômenos naturais. Por esta razão é tão
difícil, senão impossível, separar a natureza daquilo em que ela foi transformada pelos processos
socioculturais. A natureza traz crescentemente a marca da intervenção humana, sobretudo nas
sociedades de tecnologia altamente sofisticada. Há, portanto, ao longo da história, uma humanização
da natureza, uma domesticação da natureza por parte do ser humano. ” (SAFFIOTI, 1987, p. 9-10).
51
“É de extrema importância compreender como a naturalização dos processos socioculturais de
discriminação contra a mulher e outras categorias sociais constitui o caminho mais fácil e curto para
legitimar a “superioridade” dos homens, assim como a dos brancos, a dos heterossexuais, a dos
ricos. ” (SAFFIOTI, 1987, p. 11).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 51

assimétrico do pacto, no qual se troca obediência por proteção


(PATEMAN, 1993). Assim, nota-se que a exploração econômica da
mulher se dá conjuntamente ao controle de sua sexualidade, o que
se observa também nos códigos que limitaram as mulheres e as
tutelaram como pertencentes ao homem, excluindo-as das
possibilidades de trabalhar, a não ser com o aval do marido, fato
exclusivo da socialização sofrida pelas mulheres (SAFFIOTI, 2015).
Portanto, as violências que sofrem as mulheres são
resultado de múltiplos fatores; o profundo sistema patriarcal agora
se articula com o sistema capitalista e com o neoliberalismo, de
forma que as mulheres estão duplamente dominadas e exploradas.
Ainda, retoma-se o dito quanto ao obrigatório recorte de classes e
de cor, se a busca for verdadeiramente por equidade, pois a mulher
negra e pobre, além da sua condição de mulher e sua situação de
classe, enfrenta a violência do preconceito quanto à sua cor. É
através da criminologia que tais problemáticas são enfrentadas,
pois ela investiga e demonstra a ineficácia do sistema de justiça
criminal52, que seleciona os indivíduos para a criminalidade a
partir do controle social.

52
“O direito penal, o processo penal e o sistema de justiça criminal constituem, no âmbito de um
Estado de Direito, mecanismos normativos e institucionalizados para minimizar e controlar o poder
punitivo estatal, de tal forma que o objetivo de proteção dos cidadãos contra o crime seja ponderado
com o interesse de proteção dos direitos fundamentais do acusado. ” (ANDRADE, 1995, p.30).
CAPÍTULO 2
UM OLHAR FEMINISTA À CRIMINOLOGIA
Da mulher como vítima à mulher como sujeito.
(Vera Regina Pereira de Andrade, 2005).

3.1 As faces do pensamento criminológico

Ao longo da história, o pensamento criminológico contou


com diferentes métodos para conformar quais comportamentos
seriam considerados criminosos nas sociedades, uma vez que não
se trata de uma única criminologia e de um único pensamento53,
mas sim de uma construção paralela a tudo que se expôs no
primeiro capítulo deste trabalho. A ideação das condutas
desviantes é fundamentada na opressão histórica das mulheres,
utilizada para definir suas situações e suas condutas de acordo com
os papéis sociais a elas destinados, para serem incluídas e mantidas
em determinadas estruturas e representações limitadas. Assim,
pela necessidade, pretende-se neste capítulo um olhar às situações
das mulheres nos registros históricos e significativos para o
desenvolvimento do discurso criminológico.
A criminologia é dotada de uma multiplicidade de ideias
em virtude das quais foi possível a construção de conceitos que, a
partir de distintos pontos de vista, descreveram, ao longo da
história, o que é o crime, quem é o (a) criminoso(a), quem é a
vítima, e como o sistema criminal e as formas de controle daí
decorrentes atuam (BARBOSA; MENDES, 2015). Ou seja, a
criminologia tem como objeto de estudo o delito e o delinquente,
mas também a vítima e o controle social. Seu objeto foi modificado

53
“São identificadas diversas áreas dentro do campo da criminologia, como a Criminologia Clássica,
Positivista, Garantista, entre tantas outras, que definem os conceitos de crime, criminoso, vítima,
sistema criminal ou controle, de formas diferentes, então, da criminologia a que se filia é que se pode
delimitar a compreensão sobre as funções tanto do sistema social como do sistema penal” (MENDES,
2014, p. 21). “Cabe somente precisarmos o seu conteúdo, que atualmente é o estudo da criminalidade
e do controle, considerados como um só processo social surgido dentro dos mecanismos de definição
e jurídicos de uma organização social determinada” (RAMÍREZ, 2015, p.44).
54 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

após a ampliação das investigações para além das criminologias


tradicionais, que versaram exclusivamente sobre a pessoa do
delinquente, excluindo a análise de motivos decisivos para a
elaboração das condutas criminosas. Então, o deslocamento de
interesses criminológicos permitiu uma nova compreensão da
criminologia, particularmente do alcance de suas pesquisas e de
sua inter-relação com as demais áreas de formação social,
momento no qual passa a adotar uma leitura da pessoa do
delinquente e do delito à vítima e à preservação do controle social
(MENDES, 2014).
No entanto, o ponto em que a criminologia passa a ser um
estudo científico permanece uma incógnita e é motivo de
divergência entre as pesquisadoras e os pesquisadores da área.
Este trabalho adota como primeiro discurso criminológico
científico o Martelo das Bruxas (ou das Feiticeiras),54 datado de
1487, mesmo que se saiba da existência de discursos que
antecederam o livro, como tratados jurídicos que criminalizavam a
bruxaria, já entre os anos 1397 e 1406 (MENDES, 2014). O Martelo
das Bruxas estabeleceu uma relação direta entre a feitiçaria55 e as
mulheres, caracterizando-as como potenciais bruxas e, por isso,
deveriam ser observados critérios quanto ao grau de perversidade
de cada uma, suas crenças, suas malícias e suas fraquezas físicas e
mentais; por exemplo, o conteúdo do discurso versa que toda a

54
Malleus Maleficarum é o título original do livro publicado em 1487 por Kraemer e Sprenger na
Alemanha, tornando-se guia dos inquisidores pelo restante do século XV e seguintes. “O conteúdo
inclui as mulheres como únicas possíveis da condição de bruxas, conectando os desvios sexuais
femininos com a bruxaria. No mesmo sentido, registra que a feiticeira era considerada uma mulher
de sexualidade desenfreada que, ao atacar as propriedades genitais do homem ao acasalar com
demônios constituíam ameaças às leis naturais da procriação. O empreendimento ideológico do texto
fez os ideais se perpetuarem até o século XIX, dada à eficácia do poder instituído na Idade Média”
(MENDES, 2014, p.28).
55
A repressão da feitiçaria aparece como uma resposta ao medo social provocado pelo aumento da
mendicidade e da pobreza no campo, consequência do nascimento do capitalismo agrário, que
determinou a reorganização de terras incultas. As feiticeiras de Salem (1692-1693), em
Massachusetts, foram vítimas de uma violenta disputa de poder entre o grupo de agricultores-
proprietários de terras, que estavam a perder influência, e o dos mercadores do porto, cujo poder
político e econômico começava a se impor na região (MENDES, 2014).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 55

malícia é leve se comparada a de uma mulher e, também, que


todas as mulheres são um mal necessário (MENDES, 2014).
O discurso criminológico, portanto, se baseava na condição
da mulher bruxa como um fato inquestionável. Acrescentava-se a
essa condição a situação de inferioridade aplicada aos que
delinquiam por serem estereotipados como minorias sexuais.
Assim, chega-se à conclusão da crueldade das violências sofridas
pelas mulheres em consequência da caça às bruxas, pois todas
foram identificadas como uma ameaça à humanidade, argumento
utilizado como justificativa para os atos brutais e de tortura
aplicados pelas instituições de poder nas investigações de mulheres
suspeitas feiticeiras. Os inimigos eram os que duvidavam do mal
que ameaçava a sociedade, o que legitimava a violência contra a
mulher e o poder punitivo, incluindo suas seletividades; o castigo
era igualmente legitimado, já que o mal era o resultado apenas da
vontade humana, excluindo possíveis causas físicas e mecânicas, o
que evidencia o caráter persecutório do discurso vigente, pois
simultaneamente reconhecia um declínio ao mal em pessoas
consideradas biologicamente inferiores, representadas
massivamente pelo sexo feminino (MENDES, 2014).
Os manuais de inquisidores eram compilações de crenças
que previam uma propensão exclusiva da mulher ao delito, o que
moldou uma teoria do poder punitivista reforçada pelo poder
burocrático e cruel legitimado às instituições, mantido pela
influência de um judiciário moldado pelo androcentrismo, que
avalizava sua aplicação para garantir a proteção das pessoas de
bem. Assim, a caça às bruxas, ao tomar uma forma legal, obedecia
a procedimentos nos julgamentos penais, fato que demonstra a
influência do modo de operação dos sistemas judiciais europeus
sobre o genocídio de mulheres. Historicamente, o processo
inquisitorial, uma das faces do processo de perseguição e repressão
das mulheres, que confirma que a vitimização, eliminação e o
extermínio das mulheres se originaram de uma ação estatal
politicamente coordenada de custódia (MENDES, 2014).
56 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

Os trâmites das condenações registradas são absurdos e


foram denunciados pelas feministas como um dos tantos
genocídios de mulheres, perpetrados pela seletividade do sistema
inquisitorial. Cabe observar que a maioria dos réus do tribunal do
Santo Ofício foram mulheres, mesmo que seu alvo tenha sido
também os homens e que as bulas papais não apresentasse uma
distinção exclusiva entre os sexos (MALEVAL, 2004). A ideologia
medieval conduzida pelo Martelo das Bruxas ocultou as mulheres e
produziu padrões desviantes construídos de forma seletiva para
elas, que mantiveram um alto grau de determinismo biológico e
social, ainda aplicado ao sistema criminal atual.
Como se sabe, a Idade Média foi um período de terror, de
tiranismo e arbitrariedade do Estado; suas condenações eram
espetáculos públicos de castigos e desumanização. Os tribunais
seculares e eclesiásticos da Europa adotaram o sistema
inquisitorial para o sistema penal, o que facilitou, pelo aval
jurídico, a instauração e o julgamento de todo fato que envolvesse
feitiçarias, tornando fácil a identificação das mulheres cúmplices
desses conhecimentos pelas confissões devidas ao tribunal
inquisidor. O tribunal inquisidor, através da obrigatoriedade das
confissões, foi o principal instrumento judicial do caça às bruxas,
bem como instaurou a grande cruzada contra as mulheres no
século XIV em diante, perpassando os julgamentos dos Tribunais
do Santo Ofício (MENDES, 2014). Portanto, é no período medieval
que as mulheres são afastadas da esfera pública, e em que,
particularmente, se constrói o discurso que não só exclui e limita a
participação das mulheres na esfera pública, como também as
persegue e as encarcera por pertencerem a um grupo considerado
perigoso. A aliança perigosa entre os discursos jurídico, médico e
teológico em favor do encarceramento da mulher no recinto
doméstico ou no convento56 torna a caça às bruxas um elemento

56
“Os conventos não foram somente instituições destinadas à expiação do pecado, mais que isso,
eram verdadeiros espaços de reclusão seja para o cumprimento de penas por crimes cometidos por
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 57

histórico marcante enquanto prática de misoginia57 e perseguição


(MENDES, 2014). A burguesia ocidental, em meados
da segunda metade do século XVIII, fez emergir o iluminismo, que
sistematizou um período humanitário para a criminologia58. O
período tem como obra o livro Dos Delitos e das Penas (1764), de
Cesar Beccaria. Para o autor, a essência e a medida do delito se
justificavam no dano social, mostrando-se contra as penas de
caráter cruel e desigual. Seu projeto buscava racionalizar o poder
punitivo e garantir ao indivíduo proteção contra toda intervenção
estatal arbitrária (BECCARIA, 2011). A iniciativa do contratualista
de estudar a justiça penal foi fundamental, pois sintetizou novas
bases para as normas, que foram deduzidas a partir de princípios
fundamentais, como o da proporcionalidade das penas,

mulheres contra a honra de suas famílias, seja pelo “risco” de que estas viessem a cometer crimes
como o adultério, o infanticídio ou o homicídio de seus consortes. ” (MENDES, 2014, p.8).
57
Diferentemente do racismo, a misoginia não é percebida pelos homens como um preconceito, mas
como algo quase inevitável. A misoginia tem sido parte do ‘senso comum’ da sociedade, pois foi um
preconceito demasiado óbvio para ser percebido. Em diferentes civilizações considerou-se como
perfeitamente normal, que os homens condenassem as mulheres ou expressassem diretamente
desgosto por elas, simplesmente por serem mulheres. Todas as maiores religiões do mundo e os
mais renomados filósofos mundiais olharam para as mulheres com desprezo. A misoginia é a
repulsa, desprezo ou ódio contra as mulheres e seu antônimo, filoginia, representa o amor, o afeto, o
apreço e o respeito pelo sexo feminino. (HIRATA, 2015).
58
“Beccaria teve como base de seu discurso a filosofia estrangeira de Montesquieu e Rousseau e,
portanto, utilizou dos princípios do contrato social, do direito natural e do Iluminismo. O
pensamento iluminista advém do reconhecimento de um estado natural ou originário, estado em
que os homens gozam de liberdade e igualdade, no entanto, perdem tais diretos com o Contrato
Social, mesmo que este possibilite a garantia da liberdade civil e do direito à propriedade. Traidor é
aquele que descumpre o compromisso da organização, produto da liberdade originária, sendo
expulso. Tal organização se converte em um Estado absoluto, um estado de coisas, centrado no
poder para acumular e concentrar riqueza, o que destrói a liberdade e igualdade natural dos homens.
Partindo da ideia do contrato social, constata como consequência necessária o princípio da legalidade
das penas. Isso significa dizer, o seu surgimento só é explicável em virtude da organização social
produzida pelo contrato. O objetivo social que surge do contrato é alcançar a felicidade dos homens,
o legislador deve tentar evitar os crimes, do que punir [...] Dava-se por ênfase a tarefa da prevenção
em lugar da repressão. Ou seja, admite-se que corrobora à prática do delito o fato de que o Estado e
a estrutura social, favorecem a um determinado grupo de homens, a uma classe, e não aos homens
como tais, e que, além disso, não se preocupa com a eliminação da ignorância entre eles. Logo,
criminoso, crime e pena são produtos da sociedade organizada, cuja legitimidade do poder punitivo,
se encontra, na essência do contrato social. Posteriormente, as correntes que deram a expressão ao
Iluminismo se separam, em decorrência do surgimento do Estado liberal de direito, no século XIX. ”
(RAMÍREZ, 2015, p.50-51).
58 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

determinando a formação de uma corrente científica que foi


chamada de Escola Clássica59.
O discurso criminológico clássico foca na ilegalidade do
crime, classificando-o e determinando punições específicas para
cada tipo de delito60. A mulher criminosa surge com algumas
observações quanto à tipicidade do crime em si; por exemplo, o
estigma de prostituta que recai sobre a mulher, que passa a
representar a degenerada moral e criminosa (MARTINS, 2009).
Entre o final da Idade Média e o início do século XIX, não há
pensamento criminológico sobre a condição feminina; denota-se
que uma parcela significativa da humanidade não foi atingida pelo
discurso libertário e garantista da Escola Clássica61. Em
consequência, “as contradições entre o discurso de liberdade e
igualdade com a real condição das mulheres fez surgir movimentos

59
Em reação aos excessos medievais a escola se estabeleceu em três principais ideias: a razão e o
limite do poder de punir do Estado; à ferocidade das penas; a reivindicação de garantias individuais
na persecução penal e fora dela. Abandona-se a corrente realística para voltar sua atenção ao crime e
a pena como entidade jurídica abstrata, isolada do homem delinquente e do ambiente em que está
inserido. Compreendia que a conduta delituosa estava baseada no livre arbitro para a realização de
fato típica, afastando a ciência social e a investigações dos motivos que levou o agente a descumprir
determinada norma. Para os clássicos o problema criminológico surgia como uma necessidade tanto
de elevação do conformismo do ser humano, quanto de elevação do conformismo da lei, que deveria
vincular-se aos direitos naturais do homem, obviamente, que cabe alertar que a linguagem da escola
clássica não é a mesma dos direitos humanos do pós-guerra e, sim, uma linguagem do indivíduo, da
liberdade individual, dos direitos subjetivos ou das garantias individuais. (ANDRADE, 1995).
60
“Em princípio, antes do século XVII não havia uma separação entre o não criminoso e o criminoso.
Somente a partir do século XVIII, quando, pela ineficácia do modo de produção feudal e com a
comercialização do campo, os camponeses e trabalhadores foram expulsos, fato que forçou sua
chegada à cidade em época de incipiente mercantilização. No momento em que o campo deixa de
incorporar as satisfações das necessidades dos pobres, essas se inserem na dependência econômica
da comunidade, que denota uma mudança substancial, a qual se formaliza na promulgação das
primeiras leis repressivas. Nesse momento, a rejeição social se fundamenta no caráter desordenado
do pobre, do vagabundo, da prostituta, de modo que sua conduta é vista mais como falta de
socialização correta do que como uma propensão inata. ” (RAMÍREZ, 2015, p.84).
61
Nem mesmo a Declaração francesa de 1789, sobre igualdade de direitos, serviu como ponto de
partida para um pensar criminológico quanto à condição feminina. A adesão das mulheres ao
estatuto igualitário aparece por longo período de forma relativa, existindo apenas como filha, esposa
e mãe, ou seja, como figura secundária. No final do século XVIII nenhuma mulher gozava de
igualdade política, uma vez que a Revolução Francesa não trouxe significantes mudanças para as
mulheres, que logo dos primeiros momentos da revolução foram recolhidas ao espaço doméstico por
ordem do revolucionário. (ARNAUD-DUC, 1990)
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 59

feministas, que compreendiam a liberdade e igualdade como um


direito não somente destinado ao papel de esposa” (MENDES,
2014, p.32). A Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, em
1791, de Olympe de Gouges demonstra a insatisfação e ineficácia
dos direitos prometidos na época, da mesma forma que Mary
Wollstonecraft, em 1792, que questionou o papel da mulher na
sociedade e a importância da educação para sua efetivação,
discurso que impulsionou o movimento sufragista (ARNAUD-DUC,
1990).
A Escola Clássica inicia seu declínio ao constatar que a
criminalidade seguia aumentando; compreende que o elemento
crime afastava o criminoso, que passa a ser o foco de atenção da
Escola Positivista, na segunda metade do século XIX. O segundo
momento da criminologia sofre forte influência do naturalismo e
da doutrina positivista62, uma vez que o autor do crime passa a ser
a peça fundamental do sistema penal. A renovação do pensamento
criminológico é incitada pelo antropólogo Cesare Lombroso, que,
em 1876, com a publicação do livro denominado O Homem
Delinquente, formula a teoria do delinquente nato, atávico,
degenerado e marcado por uma série de estigmas corporais
identificáveis anatomicamente (RAMÍREZ, 2015). Instaura-se a
ideologia fundada na possibilidade de salvar a sociedade e o
delinquente, pois, para Lombroso, não são as instituições ou
tradições que determinam a natureza criminal; ao contrário, ele
entende que é a natureza criminal que determina o caráter das
instituições e tradições, devendo-se investigar o delinquente e não
o delito, uma vez que o crime é compreendido como manifestação
de um estado perigoso, ou seja, da periculosidade de um indivíduo
(LOMBROSO, 2001).

62
“A ciência positiva não é só descritiva, como também é casual-explicativa, uma vez que a lei da
causalidade resulta essencial para a explicação do mundo. Assim, a previsão baseia-se na noção de
que todos os fatos da natureza estão subordinados a leis naturais imutáveis e que é justamente a
observação que permite descobri-las. ” (RAMÍREZ, 2015, p. 55).
60 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

O surgimento da Escola Positivista, além de Lombroso,


contou com o jurista Garofalo (1877) e com sociólogo Enrico Ferri
(1878), que foi responsável por transpor a antropologia
lombrosiana para uma visão sociológica, dando início ao estudo do
crime como fato social63. Os adeptos da Escola compreendiam que
a pena não é um castigo, mas um meio de defesa social que deve
ser proporcional à periculosidade do criminoso, e não à gravidade
objetiva da infração cometida. Ou seja, “todo (a) aquele (a) que
pratica um crime é responsável e deve ser objeto de uma reação
social em função de sua periculosidade” (MARTINS, 2009, p.111).
Lombroso, ao escrever com Ferrero, em 1892, a obra A Dona
Delinquente64, objetivou aplicar seus estudos anatômicos e
antropológicos às mulheres. Reuniram os inovadores discursos
jurídico, médico e moral (religioso) para alegar que o grave
problema das mulheres era o fato de serem seres imorais, cujas
características eram o motivo impulsionador para o cometimento
de delitos de forma instintiva, não relacionada ao considerável
padrão de uma mulher honesta, passando a ser suspeita
(MENDES, 2014).
Então, o pensamento criminológico positivista passou a
estudar anatômica e biologicamente o sexo feminino, concluindo
que a mulher honesta é pautada no estereótipo da maternidade e
fidelidade, com a sexualidade condizente com a sua idade e estado

63
“Ferri considera a existência de três causas ligadas à etiologia do crime, as individuais (orgânicas e
psíquicas), as físicas e as sociais, ampliando a noção lombrosiana centrada em causas de origem
biológica. Sustentava que o crime não é decorrência do livre-arbítrio, mas o resultado previsível
determinado por esta tríplice ordem de fatores que conformam a personalidade de uma minoria de
indivíduos como ‘socialmente perigosa’. Fundamental ver o crime no criminoso, um sintoma
revelador da personalidade mais ou menos perigosa de seu autor, o que leva ao surgimento da tese
fundamental de que ser criminoso constitui uma propriedade da pessoa que a distingue por
completo dos indivíduos normais” (ANDRADE, 1995, p. 25).
64
“Para Lombroso, a mulher seria fisiologicamente inerte e passiva, sendo mais adaptável e mais
obediente à lei que o homem. Apresenta características comuns às criminosas, tais como a assimetria
cranial e facial, a mandíbula acentuada, o estrabismo, os dentes irregulares. Em relação ao estigma
prostituta, diz o autor que não seria apenas uma amostra do machismo persistente nas teorias
positivistas, mas igualmente de uma profunda preocupação com a questão que adviria do higienismo
do século XIX: a repressão da prostituição e a tarefa de evitar os contágios” (ANITUA, 2008, p.307).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 61

civil, o que representa o oposto da mulher prostituta. Dessa forma,


“a prostituta se torna o exemplo de delinquente feminina, e a
situação seria decorrente de uma inevitável predisposição orgânica
à loucura” (MENDES, 2014, p.43). Para os positivistas, a potencial
periculosidade social se tornou o centro do direito penal65, de
forma que a pena se justifica enquanto meio de defesa social, e sua
utilidade seria a prevenção especial positiva, “assentada na ideia de
recuperação do criminoso por meio da execução penal66, que
impõe o princípio da individualização da pena e o caráter seletivo
do sistema de justiça” (ANDRADE, 1995, p.25). O positivismo
atualizou historicamente a inquisição moderna (BATISTA, 2005),
sendo que no final do século XIX, após longo período de
ocultamento da questão da mulher no discurso criminológico,
surge, na Europa, um discurso baseado em teorias patológicas da
criminalidade, adiante analisadas, cujo objetivo era classificar a
humanidade entre bem/mal, normal/criminoso, uma vez que o
homem delinquente passa a ser o objeto principal da criminologia
(MIRALLES, 2015).
No século XX emerge a Escola Crítica, desenvolvida com
base no paradigma do controle/reação social, composto de uma

65
“A relação da criminologia com o direito penal pode ser enfocada como de dependência absoluta
ou de autonomia, em maior ou menor grau. O problema consiste em determinar qual é a natureza
da relação, já que esta resulta evidente, pois o direito penal e a criminologia aparecem assim como
duas disciplinas que tendem ao mesmo fim com meios diversos. O direito penal parte do estudo das
normas jurídico-penais. A criminologia parte do conhecimento da realidade. O direito penal não está
em condições de circunscrever o conteúdo da criminologia, que atualmente dirige um estudo crítico
ao direito penal enquanto forma de definição e controle da criminalidade [...] Contudo, o direito
penal é indispensável para a criminologia, já que surge em razão dele, através de um mecanismo
institucional e formal como é a norma penal, uma organização social determinada que fixa objetos
de proteção e com isso determina que é o delito e quem cria o delinquente e ao mesmo tempo uma
forma especial de reação social” (RAMÍREZ, 2015, p.44-45)
66
“Instaura-se, desta forma, o discurso do combate contra a criminalidade (o mal) em defesa da
sociedade (bem) respaldado pela ciência [...] uma luta científica contra a criminalidade erigindo o
criminoso em destinatário de uma política criminal. A um passado de periculosidade confere-se um
futuro: a recuperação. A sequência lógica (determinismo, criminalidade ontológica, periculosidade,
anormalidade, tratamento e ressocialização) forma um circuito fechado que constitui uma percepção
da criminalidade que se encontra, há um século, profundamente enraizada nas agências do sistema
penal e no senso comum. ” (ANDRADE, 1995, p.26).
62 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

série de perspectivas, como a do interacionismo simbólico67, que


compreende que as relações sociais nas quais as pessoas estão
inseridas as condicionam reciprocamente. A teoria do
etiquetamento68 rompe com o paradigma etiológico: desloca-se o
foco do delito e do infrator para a análise do sistema de controle
social, “desmascarando a suposta legitimidade de todo o sistema de
valores sustentado, a partir da constatação de que o crime não
pode ser estudado como um dado, e sim como centro de uma
teoria da criminalidade” (MENDES, 2014, p.52).
O processo de criminalização efetivado na teoria
corresponde a três níveis de averiguação: a investigação do
processo de definição da conduta desviante (criminalização
primária) e o estudo da distribuição do poder social dessa
definição; a investigação do processo de atribuição do status
criminal (processo de seleção ou criminalização secundária), que
concede uma etiqueta de desviante à conduta ou ao indivíduo
selecionado; e, por fim, a investigação do impacto da atribuição do
status de criminoso para a identidade do desviante (ANDRADE,

67
Ligado ao positivismo, o funcionalismo, cujo um dos sucessores foi Durkheim, tem o mesmo
objeto que o primeiro: dar ordem ao sistema capitalista. No século XX buscava criar um sistema
próprio para as ciências sociais com caráter positivo, vendo a sociedade como um processo. A
diretriz academicista do funcionalismo provocou críticas ao sistema, que levou a crise do
funcionalismo nos anos sessenta, com o despertar das lutas jovens e raciais nos Estados Unidos e
com a força da classe média junto à da nova burguesia. Juntam-se às posições radicais o chamado
interacionismo simbólico, que concebe o indivíduo como ativo frente ao ambiente e ao mesmo tempo
compreende o ambiente moldável por ele. E vice-versa. O que importa não são os dados, senão como
o sujeito o conhece, o modo como entra em contato com os outros. Nota-se que o interacionismo
simbólico tende a desconhecer a existência de grupos sociais, de classes sociais, do processo de
produção e poder (RAMÍREZ, 2015).
68
Os autores não são unânimes quanto à nomenclatura, ou melhor, designação para a corrente de
pensamento. Podendo ser sinônimo de teoria da rotulação social, teoria do etiquetamento, teoria da
reação social ou ainda teoria interacionista. Segundo Shecaira “A Teoria do Labeling surge após a 2ª
Guerra Mundial, os Estados Unidos são catapultados à condição de grande potência mundial,
estando em pleno desenvolvimento o Estado do Bem-Estar Social, o que acaba por mascarar as
fissuras internas vividas na sociedade americana. A década de 60 é marcada no plano externo pela
divisão mundial entre blocos: capitalista versus socialista, delimitando o cenário da chamada Guerra
Fria. Já no plano interno, os norte-americanos se deparam com a luta das minorias negras por
igualdade, a luta pelo fim da discriminação sexual, o engajamento dos movimentos estudantis na
reivindicação pelos direitos civis (SHECAIRA, 2011, p. 370).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 63

2003). Portanto, o status atribuído a determinados indivíduos se


expressa, primeiramente, na seleção dos bens protegidos
penalmente e nos comportamentos ofensivos aos bens descritos
nos tipos penais e, em segundo lugar, na seleção dos indivíduos
estigmatizados entre todos os que cometem infrações das mesmas
normas penalmente sancionadas69 (MENDES, 2014).
Desloca-se o interesse investigativo das causas do crime e
do autor e seu meio, e mesmo do fato-crime, para a reação social
da conduta desviada, em especial para o sistema penal70, o que
“decorre da conclusão de que a criminalidade não tem natureza
ontológica, mas social e definitorial” (ANDRADE, 2003, p.177).
Contudo, a teoria recebeu críticas de que os teóricos do controle
social não consideraram que a reação é provocada por um
comportamento concreto de um autor, negando a realidade do
desvio, negando toda estrutura (social, econômica e política) que
influencia o comportamento desviante. As teorias conflituais
pretenderam mostrar a relação do direito penal com interesses de
grupos de poder, já que no processo de conflito grupos sociais
buscavam a intervenção estatal para proteger os valores
ameaçados por outros conflitos, e as sanções seriam forma de
perpetuar o conflito e não o resolver (BERGALLI, 2015).
Evidencia-se que a relação/influência da teoria do
etiquetamento com a criminologia crítica é dada primeiro pela
relação com uma criminologia liberal, cujo processo de
69
A partir do surgimento da intolerância, há uma espécie de estigmatização desse agente, pois a
possibilidade de exclusão de um indivíduo da sociedade se dá pela soma dos processos de exclusão.
Com isso, podemos concluir que o criminoso não é considerado como tal pelo ato que pratica, mas
sim pela etiqueta que lhe é colocada, e tal rótulo poderá excluí-lo da sociedade, sendo ele
estigmatizado e rejeitado. Temos, por exemplo, as cifras ocultas da criminalidade, a partir das quais
alguns crimes nunca são punidos, ou sequer chegam ao conhecimento das instâncias de controle
oficiais. Com isso, passa-se a punir somente uma classe de pessoas e tipos específicos de crimes,
fazendo com que a punição e o direito penal não sigam o princípio da igualdade (GOFFMAN, 2004).
70
Como objeto desta abordagem, o sistema penal não se reduz ao complexo estático das normas
penais, mas é concebido como um processo articulado e dinâmico da criminalização ao qual
concorrem todas as agências do controle social formal, desde o legislador (criminalização primária),
passando pela Polícia e a Justiça (criminalização secundária) até mesmo o sistema penitenciário e os
mecanismos do controle social informal (ANDRADE, 2003, p. 177).
64 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

criminalização se revelou como um conflito entre detentores do


poder e submetidos ao poder, momento em que as instâncias
oficiais lhes atribuem o status de criminoso. Nesse sentido, a
criminologia liberal aplica o enfoque da reação social às estruturas
da sociedade, aos conflitos de interesse a às relações de poder entre
grupos, como uma hipótese de que o controle social e o sistema
penal pudessem ser integrados. Porém, demonstra-se adequada
apenas para a mediação das contradições sociais entre sociedades
que reproduziam relações de desigualdades, que se efetiva com a
valorização de crimes contra a propriedade. (BARATTA, 2011).
Ainda, do labeling à criminologia crítica encontra-se a fundamental
construção de uma teoria materialista do desvio, dos
comportamentos socialmente negativos da criminalização, como
metodologia dialética para retomar o movimento social a partir de
uma razão crítica (RAMÍREZ, 2015).
O processo da criminologia crítica está na passagem da
descrição para a interpretação da desigualdade extraída da
contradição no direito penal entre a igualdade formal do sujeito
jurídico, que oculta a desigualdade real de indivíduos concretos, em
chances de criminalização (BARATTA, 2011). Assim, mesmo que o
discurso criminológico crítico não apresente uma homogeneidade
de teorias, todas consideram as relações de poder de ordem macro
e microssocial, à estigmatização e aos etiquetamentos, bem como à
reação social e à criminalização anterior ou posterior ao delito
(MARTINS, 2009).
Para a criminologia crítica, o processo de criminalização
primária é um ato formal exercido pelas agências políticas do
sistema penal, que estabelecem os critérios pragmáticos a serem
executados pelas agências de criminalização secundária.
Entretanto, esse programa só não é exercido em sua plenitude em
razão da incapacidade operacional do sistema penal secundário,
que gera uma atuação seletiva das agências. Então, estando o
processo de criminalização condicionado pela posição de classe do
autor e influenciado pela situação deste no mercado de trabalho
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 65

(ocupação, subocupação) e por defeitos de socialização (família,


escola), concentraria as chances de criminalização no
subproletariado e nos marginalizados sociais, em geral. Cumpriria,
portanto, uma função de conservação e de reprodução social: a
punição de determinados comportamentos e sujeitos contribuiria
para manter a escala social vertical e serviria de cobertura
ideológica a comportamentos e sujeitos socialmente imunizados. O
cárcere, finalmente, nascido da necessidade de disciplina da força
de trabalho para o consumo da fábrica, seria o momento
culminante dos processos de marginalização, discriminação e
estigmatização, que abrange da escola à assistência social
(BARATTA, 2011).
O processo de seleção opera não só sobre os
criminalizados, mas também sobre os vitimizados. Tal como a
seleção criminalizante, a seleção vitimizante resulta da dinâmica de
poder das agências, em partes sucessivas. Assim, a criminologia
crítica produz, num primeiro momento, o deslocamento das causas
para os mecanismos da construção da realidade social (MENDES,
2014). A criminologia crítica insere “o desvio feminino dentro do
controle social formal e informal, detentores de funções específicas
e determinadas de acordo com o modelo de Estado e de sociedade,
em razão da orientação político-econômica e dos interesses que
dela derivam” (MIRALLES, 2015, p. 177). No entanto, antes de
aprofundar os estudos sobre a criminologia crítica e os avanços da
criminologia feminista, se pretende uma breve exposição quanto à
formação e atuação do controle social, sobretudo seus vínculos com
a criminalidade feminina.

3.2 A criminalidade e as inter-relações com o discurso


criminológico: o controle social (formal e informal) do
papel da mulher

No século XIX, a administração da justiça foi centralizada e


racionalizada, os fenômenos sociais e criminais foram medidos e se
66 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

apresentou um menor volume de criminalidade feminina quando


comparada à masculina. Como consequência, a criminalidade
feminina passou a ser identificada como um tipo diferente de
desvio, com forte interferência das teorias sociais e patológicas do
século XX, que se sustentavam a singularidade e raridade do
comportamento criminal dentro das características atribuídas ao
sexo feminino (sua essência particular de âmbito pessoal biológico
e psicológico).

Na biologia criminal, a explicação da criminalidade da mulher é


influenciada pelas características próprias que têm sido
atribuídas a sua essência; para, a partir daí, fazer notar a
“raridade feminina” no delito. Outra direção foi a de concentrar
várias atividades criminosas da mulher nos processos biológicos
do seu sexo. Assim, a criminalidade feminina tem sido
sexualizada, ou seja, não escapa à atitude unidimensional que a
moralidade, a sociedade e a religião têm exercido em relação à
explicação de qualquer assunto relacionado à mulher [...].
(MIRALLES, 2015, p.180).

Toda sociedade apresenta uma estrutura de poder, com


grupos dominantes e dominados, com grupos próximos dos
centros de decisão e grupos excluídos dele, que controlam
socialmente a conduta dos homens e das mulheres (ZAFFARONI,
2003). Sendo assim, fato é que o domínio dos espaços e as novas
formas de organização foram arquitetados para beneficiar o
patriarca, portador do poder e, posteriormente, da propriedade,
posto que ausentes as justificativas devidas pelo marxismo quanto
ao domínio do espaço público e dos excedentes de produção terem
se revertido à dominação masculina e não igualitária (LERNER,
1990). Por isto, para que os padrões sejam impostos e respeitados
por uma maioria é fundamental a existência de uma gama de
estruturas de apoio, que repreenda os questionamentos quanto aos
papéis sociais com a atuação conjunta de dois tipos de controle:
formal e informal.
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 67

Deduz-se pelo exposto que o controle social já estava


presente antes da designação de seu termo, já que se deve ao
reflexo das relações de poder existentes entre os grupos que
conformam uma sociedade, concebida a partir de um sistema
patriarcal, que traz consigo a necessidade de manter papéis sociais
construídos e naturalizados em distintas épocas e que, de forma
mais severa, atua para manter o papel destinado à mulher,
interpretado como condição natural e, portanto, inquestionável.
Relatou-se no capítulo anterior que desde os primórdios as
civilizações são compostas por designações específicas de
atividades, conectadas à construção do gênero, determinado pelo
sexo biológico e pela cultura (androcêntrica) em que se está
inserido/a. Desse modo, a compreensão dos tipos de controles
requer a apresentação do conceito de controle social para a
sociologia71, definido como o estudo do conjunto dos recursos
materiais e simbólicos dos quais uma sociedade dispõe para
assegurar a conformidade do comportamento de seus membros às

71
“Do mesmo modo que existe uma discussão em torno do início da Sociologia, há também quanto à
criminologia e, o que põe em relevo suas estreitas conexões é, sobretudo, o caráter de ciência social
que possui a criminologia, sendo que os dois pontos de referência da controvérsia são o Iluminismo e
o positivismo. Colocar a tônica no Iluminismo ou no positivismo quanto à origem da sociologia ou da
criminologia, tem uma significação diferente. Para o Iluminismo, o problema social e o criminológico
são, antes de tudo, compreendidos como uma questão política, quer dizer, ligada à concepção de
Estado, ou ao Estado que existia. Há, portanto, uma dependência a respeito da própria estrutura do
Estado - e em especial de sua estrutura jurídico-político-institucional -, que é justamente a que
origina os problemas sociais e criminológicos. Em contraponto, para o positivismo há um grupo
social e um Estado a se consolidar. Os problemas sociais e criminológicos são consequentemente
apenas dados dentro deste contexto e simplesmente tenta-se acomodá-los, buscando a eliminação
dos fatores que o causam em cada caso [...] Trata-se da harmonização e coerência do corpo social em
sua totalidade, e não de criticar senão de organizar e, assim, de deduzir toda a análise à busca
daquilo que é útil para a consolidação do Estado, descartando, então, qualquer outra investigação ou
crítica como irreal e metafísica. Em suma, quem concebe o mundo social como dado, absoluto e
perfeito enquanto tal, em que a única coisa que cabe é somente sua organização e harmonização
reacional; quer dizer, eliminar a desordem ou as falhas que nele se produzem, as quais têm sua
origem em nossa defeituosa apreensão da realidade, colocará como origem da sociologia e da
criminologia o positivismo [...] Ao contrário, quem concebe o mundo social como algo sujeito à
transformação, em que não se trata simplesmente de corrigir as deficiências de funcionamento,
senão, de mudar e repensar suas estruturas; em outras palavras, quem assume uma postura crítica,
determinará como ponto de partida da sociologia e da criminologia o Iluminismo (RAMÍREZ, 2015,
p.31-32).
68 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

regras e aos princípios prescritos e sancionados (BOUNDON;


BOURRICAUD, 1993), e também como a capacidade que uma
sociedade tem de autorregular-se, medida a partir da observação
dos meios utilizados para a imposição de respeito aos seus próprios
padrões (ZEDNER, 1996).
Observa-se que os conceitos não são estáticos; a
abrangência dos estudos é notável, o que dificulta precisar quais
questões estariam envolvidas no controle social. A sociologia de
Émile Durkheim (1858-1917) apresentou formulações sobre o
problema da ordem social e da integração social e, também,
investigou sobre os fenômenos que dizem respeito aos mecanismos
empregados pela sociedade no momento da desobediência a
normas sociais, como o crime e a pena72. O sociólogo pesquisa
tanto os mecanismos gerais de manutenção da ordem social,
quanto os fenômenos ou instituições específicas, que buscam
fortalecer a integração e reafirmar a ordem social quando esta se
encontra ameaçada (DURKHEIM, 1978). A teoria rejeita o princípio
do bem e do mal, entende o desvio como fenômeno natural em
determinados limites, funcional para o equilíbrio social e o reforço
do sentimento coletivo, anormal apenas na hipótese de expansão
em situações de anomia, caracterizada por desequilíbrios na
distribuição de meios legítimos para realizar metas culturais de
sucesso e bem-estar.
Posteriormente, demonstrou-se a distribuição estrutural do
acesso a tais meios legítimos, de forma que a realização de metas
culturais em realidade compele minorias desfavorecidas para
modelos de comportamento desviantes, difundidos por
aprendizagem através das associações subculturais: a existência
estratificada dos grupos sociais, com valores e normas específicos
interiorizados, contextualizando comportamentos em sistemas

72
Se “o crime ofende certos sentimentos coletivos e dotados de uma energia e de uma clareza
particulares, a pena é a reação coletiva que, embora aparentemente voltada para o criminoso, visa na
realidade reforçar a solidariedade social entre os demais membros da sociedade e,
consequentemente, garantir a integração social. ” (DURKHEIM, 1978, p.120).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 69

concorrentes (oficial e subcultural). Então, o crime é explicado


como uma atitude conforme a valores e normais subculturais e,
não, propriamente, como atitude contrária aos valores e normais
sociais, já institucionalizados. Os conceitos de anomia e
subculturalismo, influenciados pela sociologia durkheimiana,
foram aprofundados e originaram novas explicações, como as
técnicas de neutralização dos vínculos normativos oficiais,
igualmente refutadas (ANDRADE, 2012).
A análise da teoria do etiquetamento supera a
criminalidade como dado ontológico e pré-constituído, marcando a
linguagem da criminologia contemporânea: o comportamento
criminoso como comportamento rotulado como criminoso, o papel
da estigmatização penal na produção do status criminoso, a relação
dos desvios e a rejeição da função reeducativa da pena criminal,
que consolida a identidade criminosa e introduz o condenado em
uma carreira desviante (RAMÍREZ, 2015). Por esse motivo, a teoria
se projeta sobre a criminalidade do colarinho branco, expressão
que denota prestígio social do autor do crime e ausência de um
estereótipo, visto que, nas relações entre poderosos, usa-se o
prestígio social do autor para orientar a repressão; a teoria
também se projeta sobre a cifra negra da criminalidade, com a
distribuição social desigual da criminalidade pela seletividade dos
órgãos oficiais e de opinião pública. Consequentemente, a teoria
acentua outra interpretação das regras jurídicas, pois leis, e não só
elas, mas também os mecanismos psíquicos atuantes, passam a ser
utilizados para a interpretação do aplicador do direito como
questão científica decisiva no processo de seletividade da pessoa
criminoso/a; ou seja, há uma distribuição social desigual da
criminalidade (BARATTA, 2011).
Importante salientar que as teses de destaque no campo da
patologia social foram as que estabeleceram uma estreita ligação
entre a criminalidade da mulher, a sua infrassocialização e a
adaptação aos valores da comunidade como causas de sua doença,
estimando-se a necessidade de tratamento individual para a cura
70 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

(MIRALLES, 2015). Por exemplo, a teoria de Thomson (1967) foi


uma que rompeu a conexão entre a explicação teórica e o controle
do Estado, que são efetivados através de seus corpos hospitalares e
do trabalho social. Afirmava que os instintos biológicos distintos no
homem e na mulher e a falta de coesão familiar eram os aspectos
fundamentais para o desvio73. Em relação à prostituição, afirmava
ser uma prática decorrente de problemas na unidade familiar
tradicional, que deveria ser interpretada numa situação
microssociológica onde se desenrolam reações nervosas
(RAMÍREZ, 2015).
Outra teoria foi a obra revolucionária de Pollak (1961), que
apresentou características comuns constatadas entre as mulheres
criminosas, como a capacidade de conduzir o homem a tomar uma
atitude bem definida do crime cometido pela mulher, no sentido de
não chegar a entendê-lo e ser conduzido ao ato delituoso. Nota-se
que a teoria de Pollack74 absteve-se de denunciar o crime; no
entanto, permitiu a análise da primeira reação do homem frente ao

73
“Os estudos de Thomson tiveram implicações na política criminal, já que defendia a necessidade de
trabalhar a área pré-criminosa, buscando substituir a família pelas diferentes agências estatais. Suas
alegações foram criticadas por Smart (1976), que denunciou o autoritarismo da teoria, manifestado
na necessidade de socialização na ordem existente, nas sentenças severas aos menores por atos
criminosos e na supremacia do controle estatal através da imposição de valores da moral da classe
média, calcados em preconceitos e crenças tradicionais sobre a mulher. Insuficiente para atender às
condições de vida da classe trabalhadora e por ter desconsiderado a influência do duplo standard na
moralidade, no sentido de que o valor social da mulher depende da percepção dos outros, de modo
que ela deve ser símbolo de pureza e adoração, o que decorre da presença de preconceitos e crenças
tradicionais sobre a mulher na obra do autor” (MIRALLES, 2015, p. 180-181).
74
“Para explicar a questão da criminalidade da mulher, Pollak começa precisar características
encontradas na mulher criminosa, como: 1) a capacidade de instigação, pois as mulheres são quase
sempre os cérebros organizadores do crime masculino, ou seja, realizam infrações por meio do
homem e nunca são presas ou culpadas; 2) a habilidade de falsear e mentir que derivam de um
elemento biológico, da passividade sexual, daí a atitude decorrente de estranhamento em relação “à
verdade”; e 3) o sentimento de vingança que a mulher desenvolve frente ao homem como
consequência da repressão sofrida. As afirmações do autor decorrem da construção do gênero
feminino como dócil, que necessita de proteção. Logo, compreendia que o cavalheirismo masculino
para com a mulher reafirma sua idealização em termos de doçura e pureza, vendo-a como um ser
inofensivo, porém essa atitude muda quando a mulher comete um crime. Assim, ao afirmar que os
homens não denunciam os delitos das mulheres é fortemente criticado, já que sustentava a mudança
do comportamento masculino quando presente o conhecimento de que a mulher era delituosa
(MIRALLES, 2015, p. 191).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 71

crime feminino: “a imediata incredulidade e posterior


amaldiçoamento, passando o homem desde uma atitude inicial de
cortesia para uma atitude mais ofensiva, no momento em que
toma conhecimento do delito cometido pela mulher” (MIRALLES,
2015, p. 190).
Então, pela influência das teorias patológicas, os estudos
psiquiátricos se mostram discriminantes por manipular as mesmas
opressões patriarcais para construir os traços desviantes, que
versam sobre os altos índices de sociopatia entre as mulheres
sentenciadas, submetidas a questionários de personalidade que
enfatizam a alta porcentagem de desvios como a neurose e a
psicose, e o elevado grau de histeria nas mulheres, indícios
formadores de psicopatias (ALVAREZ, 2004). O comportamento
das mulheres é compreendido em função de uma dimensão de
anormalidade, ou seja, tem-se uma percepção científica em relação
à criminalidade do gênero feminino que segue a dicotomia
bondade/maldade, pureza/pecado, passividade/agressividade,
submissão/insurreição para elaborar o papel social mulher,
pautando-se em crenças escritas por homens. Tais dicotomias
estão reduzidas a uma característica fundamental: a essência
feminina versus anormalidade/masculinidade em uma mulher,
que integra seu comportamento ao conceito de transtorno de
conduta e personalidade, fato que conduz as diferenças de
comportamento a serem convertidas em questões clínicas
(MIRALLES, 2015).
A criminalização de condutas como prostituição e aborto
representa o peso da moral do duplo standard sexual em uma
cultura intolerante e moralizadora na consideração dos delitos da
mulher para a determinação de questões em que está diretamente
e privadamente envolvida75. Os delitos de sangue existem, mas

75
“Na realidade, são tipos legais pouco aplicados, ainda que criminalizem condutas amplamente
praticadas, com grande visibilidade pública, especialmente a prostituição, e sempre com grande
cumplicidade. Condutas que entram na categoria dos chamados “delitos sem vítimas”, que se
caracterizam por obter um alto nível de consenso na adaptação social, que satisfazem desejos e
72 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

recebem como medida de política criminal76 a internação em uma


clínica especializada, que elimina a representação da mulher nas
estatísticas carcerárias por um longo período (MIRALLES, 2015).
Portanto, a abordagem clássica é fundamental para compreender a
forma de controle social que incide sobre a mulher, que passa por
uma concordância social e de atuação estatal, tornando a atitude
valorativa em relação à mulher em um tipo de controle informal.
Observa-se que a partir da segunda metade do século XX, o
controle social prioriza as pesquisas empíricas sobre prisões, asilos,
manicômios etc., ou seja, passa a investigar resultados das práticas
de dominação e institucionalização, realizadas de maneira desigual.
Há uma expectativa específica do Estado e da sociedade
direcionada à mulher, uma realidade singular, cujos
comportamentos são observados, selecionados e sancionados pelas
estruturas de poder. Evidencia-se que o controle social atua em
conformidade com a interpretação da criminalidade feminina, que
acaba por conduzir as repressões que serão investidas à mulher
nos meios formal e informal (MIRALLES, 2015).
O controle social77, para o pensamento sociológico
tradicional, corresponde a um conjunto de instituições, estratégias

interesses totalmente privados sem resultar dele qualquer vítima senão a defesa da moral social
tradicional (patriarcal), que por si mesmo não goza já de um consenso, por causa da ampla margem
outorgada à liberdade individual pelas mudanças sociais, que permitem uma maior tolerância às
questões privadas de cada indivíduo. Quanto à prostituição, observa que temos o exemplo mais
contundente da aplicação do duplo standard sexual na prática penal e legislativa, já que uma mesma
conduta ‘oferecer e solicitar relações sexuais mediante pagamento’ levou à incriminação do
oferecimento da mulher e não da solicitação do homem. ” (MIRALLES, 2015, p. 224-225).
76
“A relação entre criminologia e política criminal resulta muito simples quando se concebe a
criminologia costumeiramente como uma ciência exclusivamente empírica. No entanto, tornam-se
difíceis os termos da relação quando se compreende a criminologia como uma ciência crítica, já que
então ambas tendem a coincidir enquanto consideram a legislação do ponto de vista dos objetivos do
Estado. Ademais, haveria a crítica quanto à reforma do direito penal em geral. A diferença residiria
no fato de que a política criminal implica a estratégia adotada dentro do Estado, a respeito da
criminalidade e do controle. Nesse sentido, a criminologia converter-se-ia em face da política
criminal, em uma ciência de referência, para que esta, com base em seu material, pudesse configurar
suas estratégias de atuação.” (RAMÍREZ, 2015, p.46).
77
Para o pensamento criminológico atual, o controle social corresponde a um conjunto de recursos
concretos e simbólicos de que um grupo social dispõe para garantir a conformidade dos
comportamentos dos seus integrantes a normas e preceitos pré-determinados. O controle social
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 73

e sanções sociais que pretendem promover e garantir referida


subordinação do indivíduo aos modelos e às normas comunitários,
para alcançar a conformidade ou a adaptação aos postulados
normativos. Assim, “dispõe de instituições que condicionam o
indivíduo através de um disciplinamento iniciado na família, que
interioriza no indivíduo as pautas de conduta transmitidas e
apreendidas no processo de socialização” (MIRALLES, 1982 p.126).
Logo, o controle social utiliza desde meios difusos até os mais
específicos, da mesma forma que utiliza o sistema penal, pelas
instâncias formal e informal. O controle informal é representado
pela família, escola, profissão etc., e o formal pelos agentes de
poder, como a polícia, a justiça e a administração penitenciária
(MIRALLES, 1982). Esses controles, mesmo que com distintas
atuações, funcionam de maneira conjunta e constituem um
fenômeno de largo desempenho e complexidade, que, conforme se
estabelecem, permitem conhecer se se trata de uma sociedade
menos autoritária ou mais democrática. Então, para avaliar o
controle social é imprescindível observar, para além do sistema
penal, quais as estruturas atuantes do controle informal
(ZAFFARONI, 2003).
O controle social informal abrange diversos modos de
opressão à mulher, em diferentes dimensões. Sabe-se que os
interesses do Estado no sistema capitalista de produção, vinculados
ao papel da mulher, incluem a família, a escola, o trabalho e a
medicina como meios condicionantes e mantenedores do papel
social atribuído à mulher. Portanto, a base do controle informal é a
família, que condiciona ao homem o papel de produção de bens e à
mulher o de reprodução, o que se expressa na função
disciplinadora do papel autoritário do homem, como pai e como
marido, estando as mulheres condicionadas ao papel de mães,

dispõe de inúmeros meios ou sistemas normativos (a religião, o costume, o direito etc.), de diversos
órgãos ou portadores (a família, a igreja, os partidos, as organizações etc.), de distintas estratégias ou
respostas (prevenção, repressão, socialização etc.), de diferentes modalidades de sanções
(MIRALLES, 1972).
74 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

devendo destinar sua vida social e sexual ao cuidado dos filhos e do


marido. A família perpetua, a partir do controle da sua
sexualidade, a sujeição da mulher, que deve ser responsável por
assegurar a monogamia e a moral da família, naturalizando a
opressão da obrigação de ter que se dedicar à felicidade dos que
formam seu ambiente familiar, local no qual a mulher “ensina às
suas filhas táticas de socialização peculiares ao seu gênero: ser
mais controlada, passiva e caseira” (MIRALLES, 2015, p. 196), uma
vez que “a mulher só é realmente considerada mulher quando
apresenta um comportamento feminino” (MIRALLES, 2015, p.
196).
A necessidade constante de se colocar em uma posição
subordinada e de atuar em concordância com as atribuições do
gênero, decorre dos ensinamentos da educação infantil, através de
jogos psicológicos, do amor, do afeto e do sentimento de culpa. A
culpa é compreendida como o primeiro controle feminino, pois a
família, ou a própria mulher, se coloca em funcionamento quando
há recusa do papel moral efetivo feminino. Assevera Teresa
Miralles, que:

[...] socialmente, o papel da mulher é hipertrofiado, pois há


dependência sexual. Nesta tarefa colaboram as formas de
linguagem, a mídia (pensamos nos anúncios e comerciais
direcionados à mulher) e a proteção penal de certas instituições.
Existe uma sexualização da atuação da mulher e assim do
comportamento do delinquente [...] o desvio da mulher de seu
papel sexual implica, imediatamente, uma criminalização de sua
conduta, Ainda, que, a mesma ação do homem não seja punida.
(MIRALLES, 2015, p. 197).

As funções destinadas às mulheres estão ligadas ao jogo de


afeto, à culpa e à dependência sexual. Elas estão condicionadas a
cumprir um papel social desvalorizado, relevante no seio da família
e nas escassas derivações deste ambiente: grupo de amigos em
comum do casal ou amigos de negócios do marido, onde acaba
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 75

perpetuando seu único e secundário papel. A invisibilidade pública


da mulher conduz à individualização e à privatização dos seus
direitos, deveres e crises, pois, na esfera doméstica, as normas, os
conflitos e os mecanismos de controle são personalizados
(ANDRADE, 2012). Reconhece-se a conquista da mulher ao direito
de trabalhar fora de casa, momento em que passa a ter acesso ao
espaço público e, consequentemente, às representações de poder.
Isso levou a significativas mudanças, que ainda estão acontecendo,
em razão da resistência das mulheres ao patriarcado e ao
capitalismo. Ainda, antes de se pensar nas consequências dessa
nova perspectiva, é necessário observar que a transformação
objetiva de valores que o acesso da mulher ao trabalho significa foi
absorvida como causa do aumento da criminalidade feminina, bem
como a emancipação da mulher e o movimento feminista entre os
aos 60 e 7078 do século XX (MIRALLES, 2015).
No entanto, o movimento feminista atestou que o aumento
da criminalidade feminina é uma consequência do aumento do
consumo em todas as classes, especialmente a do trabalhador79. O

78
“A criminalidade feminina é uma resposta dada pelas mulheres para um determinado número de
situações que sofreram mudanças nos últimos 40 ou 45 anos [...] a influência da emancipação da
mulher é extremamente complexa e entre outras coisas, também afeta o avanço da justiça social,
pela extensão de direitos humanos, reivindicar oportunidades sócio econômicas, de forma que as
mudanças no comportamento da mulher não podem se relacionar diretamente com o movimento
feminista, porque enquanto movimento social mostra-se coma manifestação de diversas mudanças
na ordem econômica e social.” (SMART, 1970, p. 73-74).
79
A variação da participação da mulher no mercado de trabalho está condicionada às necessidades
de produção do modelo capitalista, pois durante os períodos de crise a mulher é obrigada a voltar
para o lar, é a primeira força de trabalho que fica desempregada. A mulher opera como o exército de
reserva mais amplo do mundo capitalista. Portanto, é uma força de trabalho de segunda ordem, na
medida em que seu trabalho é visto como temporário e considerado como uma atividade não
essencial se comparada à atividade doméstica. Há uma divisão laboral em termos econômicos e
especialmente sexuais: o primeiro modo de vida do homem é o contrato laboral, e o da mulher é o
casamento como contrato matrimonial. A igualdade laboral entre os sexos é uma formalidade
constitucional, não refletida nos sindicatos, na comunidade e nas organizações sociais (SAFFIOTI,
1987). O único tipo de trabalho aceito para a mulher é o realizado pela sua dedicação aos filhos,
mesmo que eles já tenham se emancipado. Entende-se que o trabalho aceitável é aquele que cumpre
uma função terapêutica. Paralelamente, foi informado que o declínio da maternidade tem produzido
uma falta de interesse da mulher no que tange ao trabalho doméstico, deixando-a migrar para os
interesses público-sociais (SAFFIOTI, 2015).
76 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

ingresso da mulher no mercado de trabalho é visto como


libertador; porém, não se pode ocultar que é igualmente fonte de
frustrações, que marginaliza a mulher no mundo da produção
através da desigualdade laboral, expressa na cultura de que a
mulher não trabalha para sua realização e seu desenvolvimento
humano, mas como subordinação à família e pela necessidade de
compensar a crise econômica familiar, pois a realização verdadeira
se daria só mediante a maternidade, reforçando a ideia de
feminilidade (SAFFIOTI, 1976). A reação médica quanto ao fato da
mulher trabalhar fora do espaço doméstico foi muito influente
neste aspecto, pois defendeu que isso seria um ato de contribuição
direta para a corrupção dos costumes e destruição da família, de
modo que trabalhar fora de casa não era compatível com o papel
de esposa. Ainda, atestou-se a possibilidade da formação de um
terceiro sexo, cujo instinto exacerbado e a perda do instinto
maternal estariam relacionados com o trabalho externo,
imediatamente sexualizado, que termina por condenar a mulher
trabalhadora como uma imoral que vive o jogo sexual e é
incompleta por se afastar do natural instinto maternal da mulher
normal (MIRALLES, 2015).
Nota-se que o controle interno na esfera privada
realizado pela família é mais agressivo à mulher, que desenvolve
também mecanismos de autocontrole para enfrentar seus
problemas, como a dependência de sedativos, a atividade
doméstica compulsiva, a dependência ao álcool, a auto-
hospitalização e a alta demanda por consultas psiquiátricas. Ocorre
que a mulher é ensinada/socializada a internalizar seus problemas
e emoções, e quando se recusa ao confinamento doméstico tem
como reação familiar imediata a contenção de seus atos de
rebeldia, justificando a sua internação em uma clínica, com a
distribuição em massa de medicamentos e sedativos; e como
reação mediata, a responsabilização por sua evolução particular,
por não cumprir o papel que lhe cabe (MIRALLES, 2015).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 77

A hospitalização pela família ocorre quando se torna


insuportável o estresse da mulher, que alcança o limite
considerado suportável pelas famílias. No entanto, a clínica
(controle formal), que aparentemente tem uma função assistencial
e curativa, é mais uma prisão branca com tortura branca. Lá, as
horas de terapia são muito escassas, uma vez que os conflitos são
resolvidos principalmente com a medicalização, lobotomia,
eletrochoques ou coma por insulina, entre outros meios
(GOFFMAN, 2004). Quando a mulher se adapta às prescrições
médicas e colabora em tudo, é considerada uma boa paciente.
Assim, alcança-se uma desintegração pessoal, a doença é esquecida
e só interessa a adaptação da mulher ao meio clínico, enfatizando-
se o que importa para a família80: preparar novamente a mulher
para a submissão implicada ao seu papel social (MIRALES, 2015).
Assim, demonstra-se que ao falhar o controle informal, o
controle formal passa a atuar, elaborando o status de criminosa a
partir da influência das teorias patológicas, submetendo a mulher
ao tratamento clínico a fim de protegê-la. Então, caso o controle
social informal falhe na socialização da mulher, inicia-se a atuação
dos meios formais de controle, coercitivos e sancionadores, em que
atua o sistema penal como parte do controle social
institucionalizado81, o que inclui ações controladoras e repressoras
que aparentemente nada tem a ver com o sistema penal82

80
A família é foco e centro de problemas mentais nas jovens, pois a dependência da mulher de afeto
da vida endógena é a característica mais marcante de seus problemas. Assim, a moça jovem se
esfacelará a qualquer momento para obter a sua independência, mesmo sem consegui-la; a mulher
recém-casada viverá a sua sexualidade como um fracasso pessoal e como algo que lhe foi roubado; a
mulher adulta, em seus quarenta anos, culpar-se-á, patologicamente, por suas fantasias amorosas,
símbolo de uma rejeição de vida; a mulher madura viverá a saída de suas crianças como um
abandono, uma mutilação em seu próprio corpo, na simbologia família-corpo (MIRALLES, 2015).
81
“O controle social penal é um subsistema dentro do sistema global do controle social, diferindo por
seus fins de prevenção ou repressão do delito, através de penas ou medidas de segurança e qual o
grau de formalização que exige” (MIRALLES, 1982, p.127).
82
O sistema penal não se reduz ao conjunto de normas penais, mas é concebido como um processo
articulado ao qual concorrem todas as agências do controle social formal, desde o Legislador, por
meio do mecanismo de produção das normas (criminalização primária), passando pela Polícia, a
Justiça e o Ministério Público, ou seja, o processo penal e os mecanismos de produção das normas
78 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

(ZAFFARONI, 2003). Dessa forma, o âmbito reduzido de atuação


da mulher está submetido ao controle formal, que nas palavras de
Miralles,

[...] trata-se das condutas que ultrapassam o marco das


desordens e conflitos morais e religiosos originados nas relações
privadas e passam a afetar diretamente a ordem social e moral de
interesse público, ofendendo bens juridicamente protegidos e
permitindo a atuação das instâncias policial, judicial e executivo-
penitenciária. (MIRALLES, 2015, p. 219).

Há duas instituições de controle penal para a execução das


penas privativas de liberdade: a prisão ou a clínica. Assim, quanto
mais avançado é um país econômica e tecnológica-cientificamente,
e quanto mais anos de experiência democrática viveu, maiores
inovações de corte liberal terão introduzido no seu sistema de
controle formal, cujas formas recobrem os objetivos científico e
político criminais de reabilitação (RAMÍREZ, 2015). Em regra, os
aspectos de interesse do estudo do controle formal da mulher são:
o perfil da delinquência da mulher, que mostra os tipos de desvios
que são criminalizados na mulher; a aplicação da medida
terapêutica, principalmente em estabelecimentos e clínicas
especializadas; as prisões para mulheres, ou seja, a atuação do
sistema disciplinar. Salienta-se que o controle formal é um
depositário da moral patriarcal, e “está interessado em quebrar
desde seu início a vivacidade, o interesse e a participação
igualitária da mulher em um estilo de vida alternativo”
(MIRALLES, 2015, p.228).

(criminalização secundária), culminando com o sistema penitenciário. O sistema penal das


sociedades modernas está previsto como conjunto de meios e instrumentos para levar a cabo um
efetivo controle social formalizado da criminalidade que se manifesta nas sociedades. Portanto,
descrevendo e analisando o funcionamento real das instâncias que o conformam, é possível entender
que tipo de estratégia de controle social se pretende desenhar desde o Estado (ANDRADE, 2003).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 79

Portanto, quando o desvio não for absorvido pelo controle


informal, restará a prisão83 como limite final para o resíduo da
mulher, que se expressa na institucionalização, no castigo, e que
não funciona em termos de proteção, mas em termos de disciplina
e punição, de contenção e de exclusão. Algumas teorias alegaram
ser possível identificar métodos de proteção da mulher quando da
atuação do controle formal; contudo, foram consideradas
insustentáveis a partir das seguintes situações objetivas: (a) a lei
penal criminaliza condutas que se referem ao âmbito masculino e
feminino, mas que são enfrentadas de modo diferente por homens
e mulheres, devido à distinta pressão de controle – por exemplo, a
maioria dos tipos penais se refere à proteção do ambiente público
destinado ao frequento masculino; (b) em condutas de âmbito
público e de índole pública moral, a mulher é condenada com
maior frequência que o homem, especialmente em questões que
envolvem sua sexualidade; (c) as categorias de delito que
criminalizam a mulher formam parte do chamado delito de status,
que implica um ataque da mulher ao seu papel social, são condutas
como fugas e vagabundagem, infrações a normas de decência e
sujeição familiar, exigidas da mulher desde sua infância; (d) as
mulheres são detidas e condenadas por infrações de gravidade
muito baixa, pelas quais homens não seriam nem detidos; (e) a
mulher primária é submetida à prisão com mais frequência do que
homens de mesma situação, que são ou absolvidos ou colocados
em liberdade condicional; (f) a atitude da mulher como

83
“As instalações físicas da prisão são deploráveis, a desorientação jurídica, o desamparo, levam a
viver em um mundo estreito, reiterativo e circular, no qual é sempre forçada a estar em um
aglomerado humano, e é impossível a intimidade. Novamente, a mulher se adapta a este mundo que
se lhe impõe; inclusive as mulheres que romperam com as pressões conformistas de seu mundo, que
são rebeldes às expectativas sociais com condutas que negaram tudo que se espera de uma mulher.
Uma vez “agarrada”, se adapta ao encarceramento com uma conduta que reencontra as bases
psicológicas negativas de sua educação, quando a mulher é considerada como um ser sem decisão,
superficial, sem responsabilidade, como uma criança que joga toda a sua vida. Parece, pois, que se
fazem patentes às pressões negativas da educação quando a mulher se encontra diante da incerteza
de uma datação física e psicológica a um mundo estranho, alheio e imposto. ” (MIRALLES, 2015, p.
260).
80 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

delinquente é interpretada na sociedade como um delito muito


mais sério, o que recomenda um tratamento mais duro
(MIRALLES, 2015).
Nesse sentido, é indispensável o recorte de que o
tratamento judicial também é discriminante em favor da mulher
de classe média e branca, vendo-a como não culpável, enquanto
persegue rigorosamente mulheres de classe baixa, por entendê-las
como perigosas. Para Miralles,

Quando falamos de classe social baixa e classe marginalizada


tratamos de dois tipos de zona social, ambas penalizadas como
expressão de uma ação de poder máxima, justamente para
perpetuar nelas a condição de marginalização e de falta total de
acesso às zonas de poder social e político: as zonas pobres e de
miséria e as zonas da juventude mais marcadas; nestas, mulheres
se reencontram: as mulheres mais jovens e pobres. Esta é, em
última análise, a variável que atua como constante para dirigir a
atuação das instâncias de controle formal por meio do filtro que
sua atuação admite, para assegurar que o máximo de poder do
Estado seja exercido sobre as zonas que têm um mínimo de poder
(MIRALLES, 2015, p. 230).

É evidente a ampla atuação do controle informal em


conflitos que se consumam no âmbito privado, bem como em
controles que dele se desdobram e recaem sobre a psique da
mulher. Por exemplo, a problemática psicológica do afeto e da
culpabilidade que define o mundo afetuoso da mulher como
endógeno, por conter suas aflições e suas rebeliões em seu
psicológico, imputando-lhe a culpa caso negue seu significado
social e sua definição histórica, ou seja, naturalizando a opressão.
Logo, por serem sistemas que atuam conjuntamente, evidencia-se
que o raciocínio do controle formal é o mesmo. Nesse sentido, a
psiquiatria assegura a imposição disciplinar através da autoridade
e repressão com a força da moral, a culpabilidade e a negação de
toda a capacidade de decisão das mulheres (MIRALLES, 2015). Os
controles se interconectam de forma especial ao justificar a
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 81

necessidade da terapia (informal) ou da clínica (formal), o que


decorre de uma série de atuações do controle social. Houve a
concordância no aspecto social e na atuação estatal no sentido de
que a atitude valorativa para com a mulher nutra um tipo de
controle informal, pela avalição médica e psiquiátrica, com
dimensão teórico-científica, que acaba por influenciar o controle
formal. O novo enfoque da escola crítica é centrado no Estado
como representante do controle formal, eficaz para manter o
controle informal, ou seja, para que se respeite o papel imposto
socialmente às mulheres (ANDRADE, 2005).
A mudança radical no controle social passa a
compreender como essencial a terapia social, contudo, banalizou-a
quando o campo de execução penal condicionou tratamentos de
terapia social em clínicas fechadas, chamadas de estabelecimentos-
sócio-terapêuticos. A terapia social então foi criticada e
compreendida como um produto direto da ideologia de
tratamento, que amplia o conceito de doença e atribui necessidade
de tratamento e institucionalização de forma desproporcional, que
passa a ser aplicada de maneira dominante a todo tipo de
criminalidade. A perda do sentido da terapia social ocorre quando
a medida passa a ser forçada e executada em clínicas fechadas, o
que transforma a imposição terapêutica à mulher, antes efetuada
pela família no âmbito informal, em uma imposição do controle
formal, sob a crença de uma desordem mental subjacente à sua
problemática delitiva (MIRALLES, 2015). Com efeito, as conexões
entre a criminalidade e a psicose identificaram doenças comuns
entre os delinquentes, sustentando que certas desordens sociais
levam a marcado desvio ou a um determinado ato delitivo,
convertidas em desordem mental, um dos motivos que converte as
prisões em estabelecimentos psicoterapêuticos84, já
institucionalizados pelo controle formal.

84
“Tomemos um exemplo de importância: a classificação do desvio da mulher no estabelecimento
clínico de Holloway em Londres (Inglaterra), a antiga maior prisão da Inglaterra para mulheres, hoje
convertida em centro clínico psiquiátrico. A instituição abrigou mulheres que eram consideradas
82 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

Entende-se que o “impacto da terapia social como


controle formal deve ser concentrado em termos mais qualitativos
que quantitativos, pois quantitativamente o número de mulheres
submetidas à terapia continua sendo brutal se comparado ao
número de homens.” (MIRALLES, 2015, p. 231). A clínica social
terapêutica suplantou o cárcere em alguns países, sendo até
utilizada como única medida de controle para certos tipos de delito,
o que reflete a receptividade do controle formal ao impacto da
psiquitrização da sociedade, “efetiva no controle da mulher pela
força e que têm as concepções de índole biológica e psicológica na
explicação do desvio da mulher” (MIRALLES, 2015, p. 231). Foi no
século XIX que as concepções psicológicas passaram a operar no
campo prático e a tomar um lugar de destaque no sistema
institucionalizado, um espaço médico e psicológico85, já que à
medida que o positivismo foi se impondo, as práticas da psicologia
e da psiquiatria de tipo moral tornavam-se obscuras.
Posteriormente, as mesmas práticas são revestidas de razão e
formam a teoria das ciências psicológicas, o que permite entender
que, junto aos conceitos de origem biológica e somática, justapõe-
se, hoje, uma prática psicanalítica moral, com base na
culpabilidade e nos conceitos biológicos (MIRALLES, 2015)
A criminologia passou a considerar a personalidade do
indivíduo como fator determinante do desvio, quando no campo da
psicologia passou-se a entender que os comportamentos e suas
atitudes do ser humano dependiam do desempenho de sua

anormais mentalmente, implicando a imposição deste termo a desvios de tipo social e psicológico
cometidos por mulheres. O conceito de mentalmente anormal desempenhou três categorias:
diagnóstico psiquiátrico, com ênfase na esquizofrenia; amplo diagnóstico de personalidade
desordenada, e diagnóstico de psicopatia, tratado por métodos médicos psicológicos ou por terapia
social” (MIRALLES, 2015, p. 236).
85
“Cabe frisar que é na análise do método de castigo que a psicologia encontra sua própria essência,
e onde se desdobra especificamente não só sua técnica, como também o âmbito em que se situa, no
qual se caracteriza a singularidade da figura médica e o diálogo autoritário que estabelece com o
paciente. Com o método próprio da psicologia, o tratamento ganha um espaço institucional porque
há novos contatos entre o paciente e os métodos psicológicos, contatos baseados nas novas
concepções alienantes” (MIRALLES, 2015, p. 111).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 83

personalidade individual. Traços de personalidade começaram a


ser identificados, como a neurose na teoria freudiana, também
analisado no campo das relações sexuais para a aferição da
criminalidade. A abordagem psicopatológica tem-se demonstrado,
desde 1950, como protagonista no desenvolvimento da prática
clínica nos programas de prevenção e reabilitação, sendo que a
partir das diferentes disciplinas clínicas – a psiquiatria, a psicologia
e a psicanálise-, é possível um diagnóstico e um tratamento
específico para cada indivíduo criminoso/a (MIRALLES, 2015). No
entanto, a mudança da valorização do objeto do controle social ao
longo do século XX não permitiu uma alteração de paradigma, nem
um novo enfoque para debate, permanecendo dependente aos
fundamentos da sociologia durkheimiana, que consiste em pensar
as instituições sociais a partir de uma concepção relativamente
unificada da sociedade, ou seja, tendo ainda como pano de fundo a
questão da integração social (RAMÍREZ, 2015).
Desde o início dos anos 60 do século XX, os estudos de
Foucault quanto ao controle social se demonstraram complexos, ao
pensar que as práticas de poder não se reduzem às formas
instrumentais e funcionais de controle social como produtoras de
comportamentos, mas que as práticas e instituições sociais
configuraram novos espaços de exclusão ou de normalização de
determinadas formas de comportamento e de subjetividade.
Compreende-se que as punições são aplicáveis não apenas no
interior do sistema penal, mas igualmente em contextos mais
diversos: tanto em instituições especializadas (penitenciárias,
escolas, hospitais) quanto em instituições de "socialização" (como a
família). Assim, a partir de uma série de processos históricos,
principalmente do século XVIII em diante, demonstra-se que o
poder disciplinar não é mero reflexo desses processos, como
também é a partir de sua caracterização que é possível perceber
certa coerência nas muitas transformações que ocorreram no
período (ALVAREZ, 2004).
84 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

Evidencia-se que as críticas às práticas prisionais


modernas são contemporâneas de sua própria ascensão, mas
nunca colocam em causa a própria existência da prisão como a
pena por excelência. O fato de a prisão permanecer existindo,
mesmo com críticas seculares, comprova que ainda desempenha
funções importantes na manutenção das relações de poder na
sociedade moderna – na verdade, a principal função
desempenhada pela prisão é que ela permite gerir as ilegalidades
das classes dominadas, criando um meio delinquente fechado,
separado e útil em termos políticos (FOUCAULT, 2014). Quanto ao
poder, afirma que não é algo que se adquira ou detenha, mas algo
exercido em contextos sempre cambiantes e ao mesmo tempo
intencionais, as relações de poder não são subjetivas, ou seja,
embora o poder se exerça por meio de uma série de miras e
objetivos, não resulta da escolha de um sujeito individual ou
coletivo (FOUCAULT, 2014).
Essa mudança de perspectiva é necessária, pois as formas
de poder e controle social da modernidade são efetivamente muito
mais produtivas, multidimensionais e complexas que as formas
anteriores. Longe do modelo da lei soberana, que se baseava no
direito de morte ou de deixar viver, as práticas de poder na
modernidade caminham na direção de formas de poder que
buscam gerir a vida, "um poder destinado a produzir forças, a fazê-
las crescer e a ordená-las mais do que a barrá-las, dobrá-las ou
destruí-las" (FOUCAULT, 1999, p. 87). As reflexões e pesquisas
empreendidas por Foucault podem fornecer saídas aos impasses
anteriormente diagnosticados no campo de estudos recoberto pela
noção de controle social, mas o futuro das pesquisas neste campo
de estudos depende da reavaliação dos trabalhos deste autor e de
uma série de outros que atualmente trilham os caminhos abertos
pelos debates até aqui recuperados. Permanece, deste modo,
presente a discussão sobre os mecanismos mais gerais de
regulação e controle dos comportamentos na sociedade
contemporânea (ALVAREZ, 2004).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 85

Por exemplo, Gilles Deleuze apontava para uma ruptura


dos mecanismos de regulação dos comportamentos na atualidade,
ao considerar que as sociedades contemporâneas não seriam mais
"sociedades disciplinares", tal como pensadas por Foucault, mas
sim "sociedades de controle", nas quais os mecanismos de
confinamento estariam sendo substituídos por novas tecnologias
eletrônicas e informacionais de supervisão e controle dos
indivíduos e das populações (DELEUZE, 1988). Algumas discussões
ensaiam mesmo explicar a própria crise da noção de controle social
a partir das transformações nas formas de regulação social
ocorridas entre o final do século XX e início do XXI. O próprio
controle social, como conjunto de dispositivos assistenciais
voltados para restabelecer uma certa solidariedade entre os
diferentes grupos da sociedade moderna é posto em crise.
A mudança de valorização pela qual passou a noção de
controle social no final do século XX – do papel positivo em termos
de integração social para o papel negativo em termos de
dominação – mostra justamente a avaliação crítica crescente dos
custos estatais (ALVAREZ, 2004). Autores contemporâneos têm
seguido, por caminhos diversos, a direção dessas reflexões ao
discutirem, mais especificamente, as mudanças nas políticas
criminais e de segurança na modernidade tardia, na qual estaria
ocorrendo a substituição do projeto de um Estado Social pelo
projeto de um Estado Penal (ANDRADE, 2003). Portanto, o sistema
de justiça criminal está inserido na mecânica global do controle
social, de tal modo que não se reduz ao complexo estático da
normatividade nem da institucionalidade, mas é concebido por um
processo articulado e dinâmico de criminalização, ao qual
concorrem não apenas as instituições de controle formal, mas o
conjunto de mecanismos do controle informal. Ou seja, “um
microssistema penal formal, composto pelas instituições oficiais de
controle e circundado pelas informais, em que as pessoas
interagem e participam da mecânica de controle, como senso
comum ou opinião pública” (ANDRADE, 2012, p. 165).
86 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

3.3 Da criminologia crítica à criminologia feminista

Muitas contribuições científicas e militantes em


criminologia tiveram como ponto de partida a mudança do
paradigma do labeling approach, que deslocou a abordagem da
criminalidade (fato pré-constituído ou preexistente) para a
criminalização (produto de construção social) como uma condição
necessária. Entretanto, a teoria foi considerada insuficiente para o
desenvolvimento da Criminologia Crítica, que “se apresenta como
uma teoria materialista do desvio dos comportamentos
socialmente negativos e da criminalização, opondo-se às ideologias
conservadoras e de legitimação do status quo” (ANDRADE, 2012, p.
10). Salienta-se que as teorias criminológicas se orientam e se
reproduzem sempre como consequência das mudanças e mutações
ocorridas nos diferentes contextos histórico-culturais. Assim
sendo, a erupção das propostas críticas, em especial nos anos
sessenta e setenta do século XX, se conecta com os movimentos
sociais que, “a parte de reivindicarem direitos para os grupos ou
minorias marginais, coloca em crise a estrutura social inteira,
produzindo uma ruptura definitiva com a velha criminologia,
legitimadora da ordem legal constituída” (BERGALLI, 2015, p.
268).
Observa-se que o movimento da criminologia crítica não
considera o que é homogêneo do pensamento criminológico
contemporâneo, uma vez que pretende ser uma teoria materialista,
que, obviamente, considera o instrumento conceitual e as hipóteses
elaboradas no âmbito do marxismo, mas não se esgota nele.
Consciente da problemática que subsiste entre criminologia e
marxismo, a criminologia crítica se posiciona no sentido de que
uma construção teórica não pode se basear só na interpretação de
textos marxistas, mas considera o trabalho de observação empírica
existente pela grandeza dos dados adquiridos no contexto
marxista. Ainda, os estudos marxistas que se inserem em um
terreno de pesquisa de doutrinas desenvolvidas nos últimos
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 87

decênios, no âmbito da sociologia liberal contemporânea,


prepararam o terreno para a criminologia crítica (BARATTA, 2011).
Então, a força das ideias marxistas originais, combinada
aos pontos de vista da psicanálise e psicologia, construiu a
denominada criminologia crítica, formulada ultimamente no
campo de estudo do desvio e de seu controle social. Contudo,
apesar de suas influências, suas interpretações se formulam de
reflexões sobre diferentes critérios de abordagem da questão
criminal, que originam os distintos enfoques para corrigir a
orientação tradicional da criminologia (BERGALLI, 2015). A
plataforma teórica alcançada pela criminologia crítica e preparada
pelas correntes mais avançadas da sociologia criminal liberal pode
ser sintetizada em uma dupla contraposição à velha criminologia
positivista, que usava o enfoque biopsicológico. Duas são as etapas
principais deste caminho, o deslocamento do enfoque teórico do
autor para as condições subjetivas, estruturais e funcionais, que
estão na origem dos fenômenos do desvio; e o deslocamento do
interesse cognoscitivo das causas do desvio criminal para os
mecanismos sociais e institucionais, através dos quais é construída
a “realidade social” do desvio. Portanto, historiciza a realidade
comportamental do desvio e ilumina a relação funcional ou
disfuncional com as estruturas sociais, com o desenvolvimento das
relações de produção e distribuição86 (BARATTA, 2011).
A criminologia crítica nasce como um projeto de
emancipação humana, que foi concebido como um programa de
defesa dos direitos humanos. Então, nessa perspectiva a
“criminalidade não é mais uma qualidade ontológica de
determinados comportamentos e de determinados indivíduos, mas
se revela como um status atribuído a determinados indivíduos,

86
“A seleção legal de bens e comportamentos lesivos instruiria desigualdades simétricas: de um lado,
garante privilégios das classes superiores com a proteção de seus interesses e imunização de seus
comportamentos lesivos, ligados à acumulação capitalista; de outro, promove a criminalização das
classes inferiores, selecionando comportamentos próprios desses seguimentos sociais em tipos
penais” (BARATTA, 2011, p. 15).
88 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

mediante uma dupla seleção” (ANDRADE, 2012, p. 10). Os críticos


demonstram que a seletividade e a ineficácia do sistema penal são
causadoras de erros; assim, o delito e o seu controle se apresentam
de uma forma que ultrapassa os limites de compreensão da
criminologia tradicional. Para a criminologia crítica, o sistema
penal nasce de uma contradição, “pois de um lado afirma a
igualdade formal entre os sujeitos de direito, e, de outro, convive
com a desigualdade substancial entre os indivíduos, que determina
as chances de alguém ser etiquetado como criminoso” (MENDES,
2014, p. 61).
Logo, a teoria crítica da sociedade, do Estado e do Direito,
de raiz histórica, filosófica e sociológica, confronta-se como uma
teoria da criminalidade e do controle sociopenal, para,
rediscutindo-a, reunificar o que foi artificialmente separado pela
violência da modernidade, no próprio conceito do ser humano
(BARATTA, 2011). Assim, o valor da criminologia crítica é
restitutivo, um percurso de regresso à violência constitutiva de um
pacto de exclusão, resgate radical da condição e da dignidade
humanas; resgate que passa pelo enfrentamento de todas as
formas de violência, sejam estas decorrente de estruturas
(desigualdade de classe e exclusão social, desigualdade de gênero),
culturas (discriminação racial, etária), instituições (violência do
sistema penal), indivíduos (violência individual) e quaisquer outras
formas de violência. Tal resgate também passa pelo reencontro da
ciência com a sabedoria popular (ANDRADE, 2012).
Em razão da crítica criminológica, o próprio sistema de
punitividade passa a ser o objeto de investigação, sobretudo os
mecanismos seletivos de definição das condutas puníveis
(criminalização primária), os critérios desiguais de incidência das
agências de controle sobre as populações vulneráveis
(criminalização secundária) e os instrumentos perversos que
transformam a execução das penas em fontes de reprodução de
estigmas. A partir do diagnóstico da seletividade intrínseca ao
sistema penal, as distintas correntes que se identificam com o
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 89

rótulo da criminologia crítica projetaram inúmeras mudanças no


campo político, em grande maioria voltadas à constrição de
hipóteses de criminalização e superação da forma carcerária das
penas (ANDRADE, 2012). É por meio do processo de
criminalização que são identificados os maiores nós teóricos e
práticos de desigualdade, próprios da sociedade capitalista, que
tem como um dos objetivos principais estender ao campo do
direito penal a crítica do direito desigual. Assim, uma das
principais tarefas da criminologia crítica é criar uma política
criminal alternativa, visto que partem de um enfoque materialista,
de modo que só uma análise radical dos mecanismos e das funções
reais do sistema, na sociedade capitalista, pode permitir
alternativas ao controle social (BARRATA, 2011).
No momento em que o enfoque macrossociológico se
desloca para os mecanismos de controle social, a criminologia
crítica alcança o ponto de maior reflexão, visto que o direito penal
passa a ser considerado mais do que um sistema estático de
normas, mas como um sistema dinâmico de funções, em que se
distinguem os processos de conformação da criminalidade. O
aprofundamento da relação entre direito penal e desigualdade
conduz ao entendimento que não só as normas de direito penal se
formam e se aplicam seletivamente, refletindo as relações de
desigualdade existentes, mas o direito penal exerce, também, uma
função ativa de reprodução e produção ao aplicar de forma seletiva
as sanções penais estigmatizantes, para que seja mantida a escala
vertical da sociedade (BARATTA, 2011).
O discurso científico que assume a função de controle
externo do sistema de justiça criminal não apresenta um objeto
homogêneo, como no controle interno. As situações administradas
pelo sistema de justiça criminal constituem um conjunto de
eventos diversos e com limites instáveis cujo único elemento
comum é o de estarem previstos como objetos de intervenção no
sistema. No entanto, a exclusividade ou a propriedade de um
sistema de intervenção em comparação com outros “não pode ser
90 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

deduzida como uma indicação necessária da natureza das diversas


ações problemáticas, onde se insere a criminalidade feminina, que
não encontra resposta em situações internamente emergentes”
(MENDES, 2014. p. 71). Dessa forma, a questão apresentada é a de
que o atual sistema de justiça criminal não permite uma definição
científica e útil do universo de situações e comportamentos
criminais, pois a finalidade única de avaliar políticas já existentes
ou de criar novas a partir dos mesmos pontos não permite a
quebra paradigmática87 (BARATTA, 2006).
O caminho percorrido pela criminologia crítica pode ser
identificado por três momentos: primeiro, na década de 1960, que
consolida a passagem de um paradigma centrado no crime e no
criminoso (violência individual), de cunho positivista, para um
centrado na investigação do controle social e penal (violência
institucional), que origina a criminologia da reação social; segundo,
na década de 1970, que sofre forte intervenção do desenvolvimento
materialista, marcando o surgimento de uma séria de
criminologias, como a radical, a crítica, a dialética, que dão ao
sistema penal uma interpretação macrossociológica, no marco das
categorias do capitalismo e das classes sociais (violência
estrutural); e, muito próximo, o terceiro, que é o desenvolvimento
do paradigma feminista , cuja interpretação macrossociológica se
dá no marco das categorias de patriarcado e gênero88 (ANDRADE,
2012).

87
“Esta crise se manifesta quando a partir da dimensão da definição, passamos a considerar a
dimensão comportamental. No primeiro caso, o objeto de seu discurso é o sistema de justiça
criminal. No rol de uma teoria e sociologia de direito penal, a criminologia concorre, na dimensão da
definição, na realização do modelo integrado de ciência jurídico-penal entendida em sua função de
controle “interno” do sistema de justiça criminal. Em sua dimensão comportamental, por outro lado,
o objeto do discurso da criminologia crítica é o referente material das definições da criminalidade,
atuais ou potenciais, mas em geral, as situações problemáticas relacionadas com o comportamento
dos sujeitos individuais” (BARATTA, 2006, p. 148).
88
“Signo que se tornou teórica e politicamente relevante desde os anos 70, quando o movimento
feminista, sob o influxo da revolução dos paradigmas sociais, estendeu seu significado original de
uma classe de algo ou de seres, para designar uma classe de seres humanos, configurando-se
atualmente como um conceito para a compreensão da identidade, dos papéis sociais e das relações
entre homens e mulheres na modernidade” (ANDRADE, 2012, p.128). “É a construção social do
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 91

As tendências críticas apresentaram, ao longo das décadas


de 80 e 90, uma série de propostas político-criminais (alternativas)
que abrange desde a reforma e a humanização dos sistemas penais
à sua abolição (CAMPOS; CARVALHO, 2011). Então, o
desenvolvimento “feminista da criminologia crítica marca a
passagem para uma nova criminologia, no âmbito da qual o
sistema de justiça criminal passa a ser interpretado por um viés
macrossociológico, mas nos termos das categorias de patriarcado e
gênero” (MENDES, 2014, p. 62). O poder punitivo assegura o
patriarcado, uma vez que forma e criminaliza padrões de
mulheres, encaixando-as em um processo de transmissão cultural
que legitima o poder punitivo e o saber dominante. Há uma
permissão social, um controle social formal e informal sobre os
corpos, a sexualidade e as mentes femininas, que pretendem
manter a mulher em uma posição de submissão através da
violência de gênero socialmente autorizada. Para Vera Regina P. de
Andrade,

[é] evidente que o funcionamento interno do sistema penal


somente adquire seu significado pleno quando reconduzido ao
sistema social (à dimensão macrossociológica) e inserido nas
estruturas profundas sem ação que o condiciona, a saber, o
capitalismo e o patriarcado que ele expressa e contribui para
reproduzir e legitimar, aparecendo desde a sua gênese como
exercício de poder e controle seletivo classista e sexista (além de
racista), no qual a estrutura e o simbolismo de gênero operam
nas entranhas de sua estrutura conceitual: eis o sentido da
seletividade. Ora, nisso, o sistema penal replica a lógica e a função
real de todo o mecanismo de controle social, que, se em nível
micro implica um exercício de poder e de produção de
subjetividades (a seleção binária entre o bem e o mal, o
masculino e o feminino), em nível macro implica um exercício de

gênero, e não a diferença biológica do sexo, o ponto de partida para análise crítica da divisão social
de trabalho entre homens e mulheres na sociedade moderna, vale dizer, da atribuição aos gêneros de
papéis diferenciados nas esferas de produção, da reprodução e da política, através da separação entre
o público e o privado” (BARATTA, 1999, p. 21).
92 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

poder (de homens e mulheres), reprodutor de estruturas,


instituições e simbolismos. O sistema penal ocupa, assim, um
importantíssimo lugar na manutenção do status quo social.
(ANDRADE, 2012, p. 140).

As relações de gênero perpassam a sociedade, seus


fenômenos e instituições, sendo o Direito Penal uma das
instituições basilares do estado capitalista. A mulher no Brasil está
submetida a inúmeras discriminações, sendo o direito penal o meio
para punir o feminismo através do machismo, seja definindo tipos
de mulheres como criminosas, seja omitindo-se da proteção aos
atos violentos. O direito penal para as mulheres é uma via de
repressão, uma última instância para limitar os papéis sociais
definidos para o ser feminino pelo patriarcado. Assim, para a
mulher que foge dos padrões de normalidade entendidos como o
da mãe ou esposa, há um contraponto social, a criminalização de
suas condutas (BORGES; NETTO, 2013). Dessa forma, conforme
exposto, é a partir da década de 80 que as críticas do feminismo
objetivam lograr um modelo no qual os atributos do feminino e do
masculino deixem de ser meras emanações de uma relação de
poder. Assim, a atual transformação do pensamento criminológico
engloba as críticas dos estudos epistêmico-metodológicos
feministas, que possuem a mesma crítica à ciência tradicional,
porém, não são um bloco único, mas campos do empirismo
feminista, o chamado ponto de vista (standpoint) feminista
(MENDES, 2014).
A criminologia feminista, porta-voz do movimento
feminista no campo de investigação sobre o sistema penal,
permitiu ao malestream criminológico compreender a lógica
androcêntrica que define o funcionamento das estruturas de
controle punitivo. Ao trazer a perspectiva das mulheres para o
centro dos estudos criminológicos, a criminologia feminista
denunciou as violências produzidas pela androcêntrica
interpretação e aplicação do direito penal. O sistema penal
androcêntrico invariavelmente produziu o que a criminologia
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 93

feminista identificou como dupla violência contra a mulher


(CAMPOS; CARVALHO, 2011). A criminologia feminista indaga,
portanto, como o sistema penal trata a mulher como vítima,
resultando em uma consequente vitimologia crítica. Salienta-se a
importância do feminismo como outro sujeito coletivo
monumental que, fazendo a mediação entre a história de um saber
masculino onipresente e a história de um sujeito ausente – o
feminino e sua dor –, e ressignificando a relação entre ambas,
aparece como fonte de um novo poder e de um novo saber de
gênero, cujo impacto (científico e político) foi profundo no campo
da criminologia, com seu universo até então completamente tão
prisioneiro do androcentrismo (ANDRADE, 2012).
Portanto, resistir a esses pensamentos e determinismos
significa emergir a figura feminina emancipada, livre e não
submissa ao poder patriarcal. Significa, também, questionar
valores fortemente cristalizados a respeito de casamento,
procriação, sexualidade etc.; significa, ainda, ter que se aliar a
novas formas de saber para estabelecer rupturas, e ter que
desorganizar formas seculares de concepções simbólico/ideológicas
sobre a mulher (SILVA, 1994). A criminalização dos
comportamentos considerados antissociais atinge apenas uma
parcela da população, rotulada, estigmatizada e etiquetada como
candidata à delinquência, de forma que a principal crítica feminista
contra a criminologia crítica consiste no fato de que esta, ao
relacionar as instituições de controle social, não destacou o
patriarcado como mantenedor da desigualdade de gênero
(MENDES, 2014).
Este discurso – que, como na criminologia crítica, também
se caracteriza como um movimento social – postula a não-
estigmatização tanto do criminoso(a) nato(a) com tendências
perigosas, quanto da vítima em sua honestidade. Isto porque, da
mesma forma que apenas alguns grupos são criminalizados,
apenas algumas mulheres que correspondem à figura da mulher
honesta são consideradas vítimas. A seletividade ocorre para os
94 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

dois lados e o discurso criminológico feminista propõe-se a


desconstruir ambos (MARTINS, 2011). A ausência secular da
mulher, seja como objeto, seja como sujeito da criminologia e do
próprio sistema penal, é que permite uma série de
questionamentos do movimento feminista. Trata-se de um
conhecimento focado na figura da vítima e na relação entre autor e
vítima, na relação entre criminalização e vitimização pelo sistema
penal – aspecto pouco explorado na criminologia crítica –, e na
posição da mulher e do feminino no sistema penal e sua relação
com o patriarcado – explorado na criminologia feminista, mas com
escassa integração com o acúmulo teórico da criminologia crítica
(ANDRADE, 2012).
Dessa forma, a criminologia feminista pretende, “além de
localizar a mulher no discurso criminológico, enfrentar a
necessidade de construir um referencial criminológico no qual as
mulheres não sejam um objeto ou um elemento incorporado”
(MENDES, 2014, p.73), mas situar a teoria crítica feminista como
responsável por um novo paradigma também aplicável ao campo
da criminologia. Então, o ponto de vista (standpoint) feminista
não se configura apenas como perspectiva, mas como posição e
vinculação de luta política, que tem a pretensão de deslegitimar a
visão androcêntrica estabelecida na realidade social. A mulher
como um novo sujeito histórico, que traz a capacidade de agregar
novas formas de entender a natureza e a vida social. A condição de
mulher, o resultado histórico que a define como ser social e
cultural e a reveste de circunstâncias, qualidades e características
essenciais peculiares (MENDES, 2014).
Apresentou-se, nos capítulos anteriores, que a experiência
das mulheres foi desvalorizada e ocultada na investigação
científica, o que é refletido na sua visão alheia à ordem social, já
que não contribuíram para a formação dela. Esse é o motivo pelo
qual as mulheres têm mais interesse em criticar a ordem
estabelecida, distanciando-se e aprofundando a desconstrução do
androcentrismo como ciência, protagonizando uma luta política
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 95

contra a dominação masculina. O método, a quebra de paradigma,


é conduzido a partir da vida das mulheres, identificando em que
condições, dentro das relações, se necessita de investigação, ou
seja, formular e investigar a partir e pela vida das mulheres.
Os discursos criminológicos construídos foram
competentes89, no entanto, foram inspirados numa parcial
realidade dos fatos e na suposta eficácia dos meios de ação. A
criminologia nasceu como discurso de homens, para homens,
sobre mulheres. E, ao longo dos tempos, se transformou em um
“discurso de homens, para homens e sobre homens, visto que se
entendeu que estudar mulheres não era politicamente relevante,
muito menos considerar as experiências destas enquanto categoria
sociológica e filosófica” (MENDES, 2014, p.157). Assim, não é por
acaso que a mulher surge no decorrer do pensamento
criminológico apenas em alguns momentos, sobretudo como uma
variável e não como sujeito (ANDRADE, 2005).
Dessa forma, o ponto de partida passa a ser compreendido
a partir de um paradigma feminista, como teoria crítica para a
construção de novos projetos teóricos, que não repitam os
compassos das teorias patriarcais e que não almejem apenas
releituras de temas. A experiência das mulheres não deve
constituir-se como um critério homogêneo e estereotipado, mas
como a definição das condições teóricas para novas alternativas. O
paradigma feminista significa, portanto, uma subversão da forma
de produzir conhecimento, até então, dado sob parâmetros
epistemológicos distanciados das experiências das mulheres, e da
compreensão do sistema sexo-gênero. Então, o paradigma
feminista implica uma mudança radical e completa nas

89
“Discurso competente é aquele que pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro e
autorizado. É o discurso instituído que se confunde com a linguagem institucionalmente permitida
ou autorizada, ou seja, como um discurso no qual os interlocutores já foram previamente
reconhecidos como tendo direito de falar e ouvir. No qual os lugares e as circunstâncias já foram
predeterminados para que seja permitido falar e ouvir. E, enfim, no qual o conteúdo e a forma já
foram autorizados, segundo os cânones de sua própria competência. ” (CHAUÍ, 2007, p. 23).
96 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

perspectivas de gênero, um transformar real, não apenas


adicionando novas análises ao sistema falho. Assim, “adotar o
ponto de vista feminista significa um giro epistemológico, que
exige partir da realidade vivida pelas mulheres [...] dentro e fora
do sistema de justiça criminal. ” (MENDES, 2014, p. 158).
Todo o discurso criminológico, quando ignora mudanças
paradigmáticas, que já são propostas na atualidade, é
discriminatório e hierarquizante, e sua construção é dada por uma
lógica sexista. Ou seja, toda a base do pensamento criminológico
privilegia o homem, em todas as esferas que o campo alcança, com
um discurso que, por mais que seja competente, oculta a mulher. A
criminologia crítica adota o ponto de vista das classes
marginalizadas, mas terminam por focar no ponto de vista dos
homens das classes marginalizadas (FACIO, 1995). Todo o controle
social, principalmente o informal, que é dirigido exclusivamente à
mulher, repercute as repressões em todas as instâncias, a todos os
níveis, incluindo os da vida sexual e afetiva. Logo, “a denúncia de
que a criminologia, bem como o sistema de justiça criminal, são
androcêntricos, postula uma tentativa de persuasão dos/as
criminólogos/as de que o conhecimento será objetivo se pautado
em uma epistemologia feminista” (MENDES, 2014, p. 163).
Baratta expressou a necessidade da aplicação de um
paradigma de gênero à criminologia como condição necessária
para o sucesso da luta emancipatória da mulher; no entanto, tende
a defender que só será possível a existência de uma criminologia
feminista se esta estiver inserida na perspectiva da criminologia
crítica (BARATTA, 1993). No entanto, as feministas defendem,
como citado anteriormente, que a existência da possibilidade de
buscar o conhecimento, de ser atualmente palpável uma nova
história a partir da escuta das experiências das mulheres, afasta a
possibilidade de inserir a criminologia feminista em outra
existente, já construída com base em paradigmas extraídos do
mundo masculino das ciências sociais, que redundam na negação
da humanidade da mulher (MENDES, 2014). Salienta-se que a
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 97

criminologia feminista não busca descartar toda a construção


teórica da criminologia crítica, mas sim criar novos modelos,
parâmetros e paradigmas que respondam a uma concepção de
mundo que considere o papel da mulher interpretado por ela
mesma.
Portanto, a reformulação do sistema de justiça criminal é
necessária e urgente, abrangendo não só o direito penal e a
criminologia, mas o controle social formal e informal. A
criminologia feminista pretende uma renovação, uma reforma do
sistema, sem desconsiderar os fundamentos da criminologia crítica
e, consequentemente, materialista, porém considerando-os como
pontos dentro de uma nova ordem, e não como pontos de partida.
Será possível compreender, no próximo capítulo, as interferências
do sistema androcêntrico na vida das mulheres, sistema este que é
falho e discriminatório, que encarcera mulheres sem considerar as
suas condições e suas situações particulares.
CAPÍTULO 3
EL EXTREMO DEL ENCIERRO CAUTIVO
DETENTAS
A vida dá muitas voltas;
Vida vazia sem sentido. Essa é a vida que vivemos.
Não há vida na cadeia; há frio, mente vazia e aberta para o crime.
Cadeia não regenera, apenas magoa no fundo da alma de uma detenta.
Cadeia imunda, lugar que parece o inferno: habitado e azedo, lugar imundo.
Assessoria das presas são ratos e baratas.
Não temos direito de reclamar, pois somos detentas; nas noites frias estamos
esquecidas pela sociedade.
Lembra de nós senhor juiz!
À noite, rezamos.
Parece que Deus não pode passar pelas grades, pois aqui é um lugar de maldade.
Não existe compaixão.
Só há maldade.
Só sobrevivem os fortes.
Lembra de nós senhor juiz!
Dá uma chance para nós detentas.
Lembra de nós senhor juiz!
Somos mães e vovós só mais uma chance.
Só mais uma chance, senhor juiz!
(L.J.W, 2015).

4.1 A presa e a presidiária

A sociedade patriarcal das relativas liberdades masculinas e


da natural capacidade dos homens e das instituições, tanto para
obrigar como para proibir as mulheres, conforma-as como presas,
mesmo sem elas terem cometido delitos. A prisão, diferente de
outras instituições de poder, exclui, cerca e isola os sujeitos que
não internalizam o consenso de acordo com seu lugar na sociedade
e na cultura, aos que atuam fora da norma. As mulheres estão
presas, e diversas são suas prisões na sociedade e na cultura:
apenas pelo fato de serem mulheres no mundo patriarcal, todas
compartem da prisão de sua condição genérica. A prisão do sujeito
consiste na impossibilidade de realizar seu desejo; é contradizer-se
100 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

em seu próprio ser, de modo que a prisão de cada sujeito atende


sua definição de poder, sendo que as mulheres vivem sua prisão
pela opressão genérica combinada com outras determinações
sociais e culturais que lhe dão vida (LAGARDE, 2005).
A instituição dedicada à execução da pena de privação de
liberdade é a última instância dos órgãos de controle, dentro dos
aparatos do Estado, que sempre terão um caráter político, com as
mesmas premissas ideológicas que revestem as instâncias formais
e informais. A conformidade às normas sociais, ensinada pelas
instâncias informais e reforçada pelos meios de comunicação,
localiza-se no centro da prática da prisão, e a ela estão
subordinados os demais objetivos da privação de liberdade. Ao se
afirmar que a prisão significa falta de atuação das instâncias
informais, está sendo feita uma especial referência ao fracasso da
autoridade como figura atraente e valorativa. Logo, “a pessoa
submetida ao cárcere é considerada como rebelde, indisciplinada e
“perigosa” para a ordem social mantida por uma sociedade
disciplinada” (BERGALLI, 2015, p. 138).
As prisioneiras representam o grupo estereotipado; são
elas que concretizam, social e individualmente, as prisões de todas.
As prisioneiras vivem real e simbolicamente a realização do
extremo cativeiro, desde as muralhas até as normas de cada prisão.
Os delitos que conduzem à prisão, por mais diferentes que sejam,
sintetizam a transgressão das normas gerais do mundo patriarcal e
classista. Assim, as mulheres estão presas ao conteúdo essencial de
suas vidas como esposas, mães, como putas, como santas, sempre
dependentes vitais dos outros e de seu lugar específico nos
sistemas e nas esferas da vida. A situação de cárcere submete a
mulher a poderes que compulsoriamente organizam suas vidas
para outros, apropriadas pela sociedade e pela cultura, pela
mediação dos outros, do seu corpo e de sua subjetividade, de sua
autonomia (LAGARDE, 2005).
Dessa forma, as mulheres presas estão submetidas à prisão
de maneira ampla. São mulheres cujas vidas, independentemente
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 101

das suas posições, são definidas por seus delitos. Ocorre que a
definição do delito é feita por instituições de poder (estatais e
sociais) e por indivíduos envolvidos no delito e na coerção. Enfim,
são as instituições que produzem o delito e, ao nomeá-lo, já
segregam e selecionam, para identificar e sancionar. As mulheres,
identificadas como executoras do delito ou como vítimas do delito
formam parte de uma unidade política determinada pela relação
entre gênero e delito, afastando a concepção de que existe uma
determinação entre sexo e delito, visto que o delito não deriva da
biologia e, sim, da sociedade e da cultura. Ou seja, as estatísticas de
que as mulheres delinquem menos que os homens não é um fato
relacionado especificamente à causalidade sexual, mas sim ao
modo de vida doméstico, privado90, em que as relações vitais e o
conjunto de compulsões as obrigam a ser boas e obedientes
(LAGARDE, 2005).
A subalternidade, a desigualdade, a discriminação e a
dependência das mulheres, quer dizer, sua opressão genérica,
concorrem em dois sentidos no delito, e se concretizam da seguinte
forma: pela condição genérica, as mulheres são vítimas de delitos
cometidos contra elas, seus interesses, seus bens, por homens ou
por mulheres. Já se são as mulheres as que cometem os delitos na
posição de delinquentes, passam as condições desiguais frente ao
discurso legal, por seu desconhecimento e por enfrentarem
discriminação e desigualdade nas parições de justiça sexista. Ainda,
por serem mulheres não são escutadas com serenidade, não são
aceitas suas palavras, nem serão válidas suas razões, e muito
menos suas provas são aceitas ou utilizadas a seu favor. Pela

90
“Ao contrário, a vida pública dos homens, suas relações de competição no mundo classista do
trabalho e do dinheiro, reunido a seu caráter social de provedores dos outros, e à sua necessidade de
acumular, de possuir e de apropriar-se, cerca-os ao âmbito do delito. A masculinidade patriarcal
exige deles a agressividades, a força, e a violência, e conforma um contexto que favorece a realização
do que nesta cultura se considera delito. A transgressão das normas confere aos homens um valor
genérico, um êxito, um prestígio e uma categoria: virilidade. O grau de machismo se mede, em
parte, pela capacidade de transgressão frente à norma, de tomar objetos de outros, e de vencer o
medo da sanção e do castigo. ” (LAGARDE, 2005, p.645).
102 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

conformação histórica, social e cultural, como seres vulneráveis, as


mulheres carecem de mecanismos e formas de comportamento
adequados para defesa nas instituições públicas, pois as mulheres
perdem como delinquentes, quando consideradas culpadas, e
perdem como vítimas, quando não são assistidas pela justiça
(LAGARDE, 2005)
Pelo decorrer de exclusão histórica das mulheres, elas
desenvolveram níveis elevados de tolerância à opressão, de
obediência a normas positivas e ao poder, à dependência vital e à
sujeição, à feminilidade dominante agressiva, que limita quais as
agressões e as manifestações não são consideradas delitivas. Ainda,
as concepções dominantes encontram a loucura como espaço e
fator explicativo do delito e o definem como uma agressão do
indivíduo contra a sociedade (e também contra si mesmo). No
entanto, é a agressão incontrolável da mulher aos outros que se
caracteriza como patologia91, e que as caracteriza como antissociais
que não cumprem normas. No entanto, além da relação conhecida
entre delito e classe social, estão comprovadas a existência de
relações completas entre o gênero, o tipo de delito e o papel das
mulheres no fato delitivo; o que permite e controla as mulheres
delinquentes e as mulheres vítimas (LAGARDE, 2005). Estar presa
consiste em estar inserida em um aparato de disciplinas exaustivo
em vários sentidos, que “se ocupa de todos os aspectos do
indivíduo, de sua educação física, sua aptidão para trabalhar, o seu
comportamento diário, sua atitude moral e suas disposições. A
prisão não tem exterior nem vazio” (FOUCAULT, 2014, p. 238).
Salienta-se que a prisão é parte do sistema penal, cuja
primeira dimensão e imagem é a lei e as instituições formais de

91
Cabe observar que a concepção patológica tem relevante peso, pois na ideologia dominante e,
consequentemente, para o senso comum, a enfermidade explica todos os fenômenos: as
transgressões, a dor e o sofrimento, as dificuldades para sobreviver e, inclusive, a agressividade e a
destruição do outro, que são interpretados não apenas como incapacidades individuais para
enfrentar a vida, mas também são interpretados e estudadas as origens e disfunções da saudade, que
infelizmente podem ser banalizadas e ignorar o delito como feito social e não individual, ou seja, que
o delito é um espaço social e culturalmente construído e não um erro (LAGARDE, 2005).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 103

controle. O sistema percebe o sujeito como o outro. A lei e o saber,


dotados da ideologia patriarcal e capitalista, municiam o sistema de
um discurso que justifica e legitima a sua existência (ideologias
legitimadoras), constituindo o senso comum punitivo reproduzido,
por sua vez, pelo conjunto dos mecanismos de controle social. As
funções oficialmente declaradas ou promessas legitimadoras do
sistema penal são: a proteção de bens jurídicos que interessem
igualmente a todos os cidadãos – o bem, para combater de forma
eficaz a criminalidade, e o mal, a ser instrumentalizado pelas
funções da penal (mito do direito igualitário). “O sistema penal não
é funcional, caracteriza-se por uma eficácia meramente simbólica;
o sistema cumpre, de modo latente92, outras funções declaradas
por seu discurso oficial, que incidem negativamente na existência
dos sujeitos e da sociedade” (ANDRADE, 2012, p. 135)
A seletividade é a função real e a lógica estrutural do
sistema penal, comum às sociedades patriarcais e capitalistas, e
nada simboliza melhor a seletividade do sistema que o olhar à
população carcerária. No entanto, existe, “sobretudo para controlar
a hiperatividade do cara93 e manter a coisa no seu lugar (passivo) ”
(ANDRADE, 2005, p. 86). A mesma lógica da seletividade é
92
“A eficácia invertida significa, então, que a função latente e real do sistema penal não é de
combater (reduzir e eliminar) a criminalidade, protegendo bens jurídicos universais e gerando
segurança pública e jurídica, mas, ao invés disso, de construí-la seletiva e estigmatizante, e neste
processo reproduzir, material e ideologicamente, as desigualdades e assimetrias socais (de classe, de
gênero, de raça). ” (ANDRADE, 2012, p.136).
93
“Existe uma expressão (absolutamente cara) na nossa cultura que é cotidianamente reproduzida e
que emblematiza, magistralmente, a hiperatividade do sujeito masculino ou, como se queira, o
machismo. O cara é aquele sujeito onipresente e onisciente do nosso imaginário, plantonista de 24
horas, a quem recorremos para todas as demandas. Se eu vou contar uma história ativa, ela começa
com um cara. O que estraga em casa, da telha ao vaso sanitário, tem que chamar um cara para
consertar; o que estraga ou se necessita na rua, do pneu furado às compras para carregar, tem que
chamar um cara, e esse não é apenas um pedido masculino feito por mulheres, mas por mulheres e
homens. Agora, o cara é também o vilão temido no mesmo plantão: se alguém tiver que entrar em
nossa casa para roubar, se alguém tiver que colocar uma escada para subir na janela ou no telhado,
será um cara. Se alguém houver que nos assaltar na rua, será um cara. O cara é, a um só tempo,
exaltado e temido, ação e reação. Qual é o contraponto do cara? O contraponto do cara é
precisamente a coisa: aquilo que não age ou aquilo do que não nos lembramos: me diz uma coisa?
como é mesmo o nome daquela coisa? será que a dona coisa não vem? Ah, que coisa! ” (ANDRADE,
2005, p. 86).
104 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

demonstrada nos crimes de violência sexual, quando os holofotes


são voltados para as pessoas envolvidas, e não sobre o fato-crime
cometido (ANDRADE, 2005) A relação entre a grande quantidade
de mulheres envolvidas como vítimas em casos de violência é uma
mostra da opressão genérica, da desigualdade de homens e
mulheres em fatos violentos. Os abusos também decorrem devido
à desproteção e vulnerabilidade das mulheres frente aos homens,
que se acentua ainda pelo fato de as mulheres não estarem/serem
preparadas física e emocionalmente para brigar (LAGARDE, 2005).
A prisão,94 como parte do sistema penal, é também uma
ação sobre o sujeito, porque representa espaço de vida. Assim, é o
reflexo do campo criado pela sociedade para recluir as mulheres
más com as suas semelhantes e separar o resto. O castigo da prisão
não é desconhecido e alheio às mulheres, pois, genericamente
cativas, tornam-se presas. A prisão concentra maldade, tem como
fim converter boas mulheres em más mulheres, mediante o castigo
e seu caráter violento. Os aspectos especificamente genéricos que
são denunciados tornam o sistema mais opressivo para as
mulheres, fato comprovado com a análise dos índices de homens e
de mulheres no sistema carcerário, que intenciona preservar e
defender a sociedade (pessoas do bem) do delinquente,
principalmente dos danos possíveis de serem causados (LAGARDE,
2005).
Quanto à definição jurídica da prisão como castigo
corporal, é evidente que a privação da liberdade corporal implica a
total privação da liberdade relativa do sujeito. Não há nenhuma
ação, atividade, trabalho ou repouso, nada que se faça na prisão é
similar ao feito correspondente realizado fora dela. Ainda, a

94
“A prisão como controle formal continua tratando a mulher a partir das expectativas sociais sobre
seu papel tradicional e dos valores neles implícitos. Porém, ao mesmo tempo, fica claro que quando a
mulher vai para a prisão, ali a espera um regime de disciplina tão duro como do homem. Isso quer
dizer que a prisão funciona dentro do sistema ideológico que informa as demais instâncias e que, por
ser o controle mais extremo, expressa de forma mais contundente a autoridade do estado, de modo
que tanto mulheres como homens encarcerados sofrem uma mesma submissão à autoridade estatal,
perdendo-se, pois, na prisão, a singularidade de seus papéis sociais.” (MIRALLES, 2015, p. 256).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 105

privação da liberdade corporal impõe uma sequela de privações,


como a ruptura física e a dificuldade de manter relações familiares;
a exclusão do trabalho e das atividades prévias, assim como a
ruptura com os círculos de relações e atividades que calcam a
identidade de cada sujeito. A prisão não é apenas o castigo, está
sempre acompanhada por outras penas, que, além de segregar
fisicamente da sociedade, também segregam jurídica e
politicamente (LAGARDE, 2005).
Também as violências provêm da relação entre as
mulheres em situação de cárcere, entre pares cativas e obrigadas a
conviver de forma permanente, em reclusão. As mulheres se
organizam hierarquicamente e consideram o poder advindo do
prestígio delitivo de cada uma, passando pela capacidade
econômica, tornando mais violenta ou mais invisível a prisão para
determinadas mulheres. Toda a mulher espera em situação de
cárcere, de forma diferente à que esperavam antes, mas esperam
uma visita familiar ou conjugal em todas as oportunidades. As
abandonadas transferem a espera ao conjunto administrativo, às
companheiras, aos filhos. Reduzem seu mundo à prisão e
continuam esperando, principalmente seus familiares, expressando
a angústia de que os homens as deixem por outras. A ilusão de
esperar sair e que o mundo seja igual (MIRALLES, 2015).
Interessante apontar os dois delitos mais cometidos pela
representação do cárcere feminino, que são o narcotráfico e o
roubo. A imensa maioria das mulheres está em situação de cárcere
pelo delito de tráfico, por serem esposas, mas, ainda mais
frequente, amantes de traficantes. Sua relação conjugal, filial ou
materna com os homens está na base da transgressão. São dois os
tipos de mulheres ligadas às drogas: as que cometem o delito ao
lado de seus homens e são detidas e apreendidas com eles e as
mulheres pressionadas a cometer o delito pelo homem preso,
amparadas principalmente pela visita conjugal, que representa
uma das obrigações cumpridas aos presos. Nessa circunstância, as
mulheres são corpo-objeto, cuja vagina serve de veículo para
106 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

introduzir na cadeia drogas requeridas pelos presos, que estão


proibidos de usá-las. Ainda, as mulheres cônjuges são corpo-objeto
destinado ao uso erótico, permitido e incentivado aos presos
semanalmente (LAGARDE, 2005).
O outro delito identificado como majoritário é o roubo, que
está associado ao trabalho. São mulheres que subtraem objetos que
carecem para seguir certo estilo, uma vez que poucos roubos são
por necessidade, mas para possuir objetos ligados à feminilidade
para satisfazer exigências e ordens culturais às quais estão
submetidas todas as mulheres. A mulher não rouba, a mulher se
apropria de objetos que devem lhe pertencer de acordo com os
estereótipos culturais e dominantes exigidos de todas, sem
distinções de classe. Nos roubos de dinheiro em escritórios,
comércios e bancos, a maioria das mulheres atua de acordo às
ordens do cônjuge, que em troca de amor e companhia exige como
prova de entrega, a apropriação de algo (LAGARDE, 2005).
Os crimes referidos estão inter-relacionados à proteção da
família patriarcal/capitalista, visto que o sistema penal não
protege, em absoluto, a liberdade sexual feminina, que, por si
mesma, é pervertida: a mulher que diz não quer dizer talvez; a que
diz talvez, quer dizer sim; e a que diz sim, não é, em absoluto, uma
mulher. Logo, “a nível micro, a proteção da moral sexual
dominante está relacionada à família e, em nível macro, a função
do sistema é manter estruturas, instituições e simbolismos, razão
pela qual não pode representar-se como um aliado no
fortalecimento da autonomia feminina” (ANDRADE, 2012, p. 136).
Portanto, a inferiorização das mulheres e sua relação de
subalternidade com os poderes faz com que muitas sejam
conservadoras e sintam medo de transgredir as normas de
inviolabilidade dos bens que estão sob sua custódia. Apesar disso,
outros poderes conjugais ou paternos podem lograr a transgressão,
invocando fidelidade, obediência e amor, e pago. Fraudes em
escritórios e roubos em empresas têm sido o meio de pagamento
de algumas mulheres aos seus exigentes amantes, esposos, pais, ou
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 107

filhos, realizados pelo temor de perder o outro, por submissão e


por obediência (LAGARDE, 2005).
Na mesma perspectiva, a mídia contribui para a criação de
sujeitos sociais ao difundir concepções de mundo e normas morais,
que dão forma e configuram elementos importantes de identidade
em cada particular. Junto a isso, soma-se a presença de uma
vigilância policial assegurada pela visão de mundo difundida pela
mídia. A imprensa contribui ao revelar e exaltar o oculto do delito
que acusa e sanciona a partir da ética e da moral, expondo fatos
através de uma dinâmica que, além de buscar naturalizar o ato,
seja desejável. O padrão do conteúdo central de periódicos, muitos
de grande circulação, vende grandes fotos de mulheres
semidesnudas em poses eróticas, também de mortos com
violência, violência policial e, geralmente, acontecimentos das
aproximações. Ao associar todos os temas, desde crimes até a
pornografia, é possível compreender o recorte criador de uma
realidade que conforma receptores para determinada unidade
psíquica, emocional. Em consequência, tem-se o erotismo
expressado na ideia de que a mulher é objeto de possessão e
domínio para o prazer do outro, com violência (LAGARDE, 2005).
Portanto, nota-se que são vários os fatores que conformam
as opressões das mulheres, e que constituem e identificam quais
devem ser sujeitas ao cárcere. O patriarcado, como exposto, está
inserido e remodelado pelo capitalismo, que utiliza a mídia e todas
as formas para manter as opressões. Antes de escutar as vozes
silenciadas das mulheres em situação de cárcere, apresenta-se a
seguir dados da situação do cárcere feminino, a fim de oportunizar
o encaixe de todo o exposto acerca da dominação e ineficácia do
sistema de justiça penal.

4.2 A situação da mulher no cárcere

Para melhor apresentar a ineficácia do sistema de justiça


penal, soma-se ao dito anteriormente, quanto à condição
108 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

encarcerada de toda e qualquer mulher, e à situação de presidiária


de uma parcela estigmatizada, índices e estatísticas de
encarceramento no Brasil e no estado do Rio Grand do Sul. O
aumento dos índices de encarceramento feminino chama a
atenção, pois também é reflexo do acesso da mulher ao espaço
público, ao mercado de trabalho. O Brasil, na mesma linha norte-
americana, apresentou sequencialmente aumentos significativos da
sua população carcerária durante as últimas décadas, e a
consequente violação dos direitos humanos, fato que levou o país a
ser denunciado, em 30 de dezembro de 2014, na Corte
Interamericana de Direitos Humanos, tribunal vinculado à
Organização dos Estados Americanos (OEA), que determinou uma
série de medidas cautelares a serem aplicadas no Presídio Central
de Porto Alegre.
A publicação recente de documentos oficiais como o
Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (DEPEN,
2014), o Mapa do Encarceramento (Brasil, 2014) e o Mapa da
Violência (Brasil, 2015) apontam as estimativas e os fatores
impulsionadores do crescimento da população carcerária,
principalmente de mulheres, que aumentou mais de 50% desde o
ano 2000, conforme a fonte International Centre for Prison Studies
(ICPS), que paralelamente aponta um aumento de 20% no mesmo
período de homens inseridos à situação de cárcere. Quanto ao
índice de mulheres em situação de prisão na América do Sul, o
referido estudo aponta, a partir da taxa de reclusas por 100 mil
habitantes, considerando a população nacional de cada país,
valores estimados de 18.5% no Brasil, 18% no Chile, 17.1% na
Colômbia e 16.4% na Bolívia.
Nesse sentido, dados do Ministério de Justiça (2014)
revelaram que, entre os anos 2000 e 2014, a população carcerária
feminina brasileira subiu de 5.601 para 37.380 presas, ou seja, um
crescimento de 567%, enquanto que a taxa de encarceramento
masculino foi de 119%. Ao comparar a população de mulheres
reclusas no Brasil e no estado do Rio Grande do Sul, tem-se que
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 109

1.716 mulheres estão reclusas a nível estadual, o que representa um


total de 6% da população. Ainda, dados do mês de julho de 2015 do
Departamento de Segurança e Execução Penal do Rio Grande do
Sul (DESEP) mostram um total de 1.716 mulheres em situação de
cárcere, representando uma maioria de reclusas jovens, 55,87%
com 34 anos ou menos; com instrução escolar precária (analfabeta,
alfabetizada ou ensino fundamental incompleto), totalizando
61,23%. Quanto ao motivo pelo qual estão presas, 96,95% são
acusadas e/ou condenadas por distintos delitos relacionados ao
tráfico de drogas, com alto índice de reincidência, 52,50%.
A população carcerária estadual feminina foi objeto do
Projeto de Pesquisa coordenado pela Profa. Dra. Renata Maria
Dotta e apoiado pela FAPERGS (Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado do Rio Grande do Sul), de edital PPSUS 2013-2015. A
partir de bases de dados do Ministério da Justiça e da
Superintendência dos Serviços Penitenciários do Rio Grande do
Sul, somaram-se as coletas realizadas em parceria com a
Universidade Federal do Ceará e Ministério da Saúde, contando
com apoio de 10 estados brasileiros para compor o Inquérito
Nacional de Saúde na População Penitenciária Feminina. Esse
documento ainda não foi publicado, de forma que os dados
apresentados a seguir fazem parte do Relatório Técnico Parcial dos
Itens 8, 9, 10 e 11 da referida pesquisa. Em relação ao apoio
matricial, trata-se de uma ação que consiste em um novo método
de pensar e produzir saúde, com a intervenção de um processo de
construção entre equipes de saúde. Salienta-se que este trabalho de
conclusão não pretende e também não dispõe de espaço para
discorrer sobre os objetivos gerais e específicos do referido projeto,
nem dos resultados e dos alcances do apoio matricial em sua
totalidade e especificidades.
Segundo o Relatório Técnico Parcial, a coleta de dados na
PFMP ocorreu em novembro de 2014, incluindo entrevista
semiestruturada com uma amostra de 72 mulheres presas, exames
laboratoriais, exames físicos e exame odontológico. A Penitenciária
110 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

abriga, na atualidade, 13% da população reclusa de mulheres no


Rio Grande do Sul, com capacidade para receber um total de 239
mulheres e com a função de custodiar presas provisórias e
condenadas. A apreciação da coleta de dados permitiu a confecção
de um Relatório Técnico, com as seguintes estatísticas: a maioria
das reclusas é jovem (61,72% possui 34 anos ou menos), de
nacionalidade brasileira (99,56%), de cor branca (63,91%), com
instrução escolar precária (61,23% declarou ser analfabeta,
alfabetizada ou possuir ensino fundamental incompleto), solteira
(61,73%) e que está sendo acusada ou cumpre pena por tráfico de
drogas (96,95%). Sendo que, entre as entrevistadas, a maioria
(59,2%) afirmou ser reincidente e já ter passado por instituições
prisionais, e 40,8% disseram se encontrar pela primeira vez em
privação de liberdade (RELATÓRIO PARCIAL, 2016).
Ainda, em aspectos relativos a visitas, 50% das mulheres
mencionaram receber visitas na prisão. Ao serem questionadas
sobre quem são as pessoas que as visitam, 26,4% mencionaram as
mães, 15,3% irmão ou irmã, 8,3% filhos e 5,6% companheiro ou
companheira. Outro dado que chama atenção é que apesar de
serem garantidos os direitos sexuais de mulheres privadas de
liberdade, nenhuma recebe visita íntima na PFMP. Sobre a prática
de relações sexuais durante sua permanência na instituição
prisional, a maioria (76,1%) mencionou não ter relações sexuais.
Quanto ao uso de substâncias psicoativas consideradas ilícitas
antes do encarceramento, 70% das participantes referem usar
crack todos os dias, 85,4% afirmam usar maconha diariamente e
88,1% mencionam usar cocaína mais de uma vez por semana,
números superiores ao uso de drogas feito pela população
brasileira (RELATORIO PARCIAL, 2016).
Os questionamentos sobre uso de tabaco, álcool e outras
drogas apontam que 76,1% declararam ser tabagista; 46,5%
disseram nunca ter ingerido bebida alcoólica;
26,8% responderam consumir álcool mais de duas vezes por
semana; 94,3% e 88,7% disseram nunca ter feito uso de ecstasy e
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 111

LSD; 83,3% mencionaram tomar algum medicamento psicotrópico


antes, e 79,2% afirmaram continuar utilizando estas medicações
após o encarceramento (RELATÓRIO PARCIAL, 2016).
Sobre as experiências e ocupações laborais,
23,6% declararam não trabalhar antes de serem presas; 25%
responderam trabalhar com serviços domésticos; 25% com
prestação de serviços; 20,8% mencionaram ocupações mal
especificadas/outra. Já em situação de cárcere, os dados que 18,3%
das participantes afirmam exercer trabalho remunerado na prisão;
93,1% responderam não praticar nenhum exercício físico ou
prática esportiva; 53% declararam assistir televisão mais de seis
horas por dia, como principal recurso de lazer acessível
(RELATÓRIO PARCIAL, 2016).
A partir dos dados citados e retirados do Relatório Técnico,
itens 8, 9, 10 e 11, do projeto coordenado pela Profa. Dra. Renata
Dotta, quer-se também apresentar a pesquisa de campo realizada
na Penitenciária Modulada de Ijuí durante a confecção deste
trabalho, para que seja possível um olhar à situação de cárcere das
mulheres, e das estreitas situações particulares de cada uma,
independentemente do local em que são privadas de liberdade. A
PMEI está situada na Rua Tobias Barreto, s/nº, Bairro Luiz
Fogliatto, na região noroeste do Estado e é atualmente dirigida pelo
Sr. Jelson Vidal Tapia, na função desde 2015. A capacidade de
engenharia da Penitenciária é de 466 pessoas, contudo, até a data
de 22 de julho de 2016 se encontravam 593 pessoas em situação de
cárcere, entre 30 mulheres e 563 homens. Os módulos obedecem
às normas estabelecidas pela Superintendência dos Serviços
Penitenciários (SUSEPE), relacionada à arquitetura das
penitenciárias estaduais, ou seja, todas as penitenciárias são
edificações similares. Cabe ressaltar que a estrutura foi realizada
para o encarceramento masculino, tornando-se uma penitenciária
112 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

adaptada95 a partir de 2010, quando se destinou parte (metade) das


alas de dois módulos de vivência, que são oito no total, para as
mulheres. As mulheres em situação de cárcere na PMEI
encontram-se ainda mais privadas de circulação, pois devem
ocupar apenas parte dos módulos de vivência das galerias 1A e 1B,
que comportam 15 mulheres em cada galeria, com acesso ao pátio
em dias e horários intercalados aos dos homens ali detidos, por
aproximadamente duas horas diárias. Cada cela comporta, como
regra geral, o total de quatro mulheres, e possuem dois beliches de
concreto, com um colchão de espuma para cada cama. As celas
possuem um cano para banho, uma pia adaptada e um vaso
sanitário de chão, chamado de “boi”.
A rotina da penitenciária é monótona e morosa, são poucos
agentes e muitos detentos, as tardes são longas e silenciosas, há
sempre movimentação de entrada e saída. São detentos
transferidos de outras cidades para a PMEI. Quanto ao acesso das
pessoas à penitenciária, há bastante rigor por parte da segurança,
uma vez que é considerada uma penitenciária de segurança média,
tendo critérios e todo um aparato diário de fiscalização a ser
seguido. Todos/as devem ser devidamente identificados/as, os
veículos autorizados passam por revistas todas as vezes que
entram e saem; também há anotações de horários de circulação. Os
dias de visita são divididos de acordo com os módulos e horários.
Como citado anteriormente, cada módulo de vivência
possui duas galerias, identificadas como módulo de vivência um,
dois e módulo apoio. Em cada módulo há duas galerias, divididas
em lado A e B, e em cada uma delas estão detidos
aproximadamente cem presos. As galerias são representadas por
um detento eleito pelos outros detentos da galeria, com a função de
repassar as necessidades mais urgentes aos agentes de plantão, já

95
“Dentro deste sistema misto há de se ressaltar as pressões a que está submetida a mulher. Esta
não pode pedir translado de andar, enquanto os homens podem, estando assim forçadas a conviver
em um mesmo andar, a tolerar as intromissões das demais, ainda que não queiram. ” (MIRALLES,
2015, p. 254).
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 113

que o representante, conhecido pelos detentos como prefeito, tem


a possibilidade de circular no corredor e perpassar pelas celas da
galeria. No módulo restrito das mulheres, a rotina é a mesma,
também possuem uma representante, que circula as informações,
as necessidades e outras questões e fatores rotineiros.
Os dias de visita são intercalados com as galerias A e B,
pois há um critério de separação pela SUSEPE. Então, as galerias A
recebem visitas alternadas com as galerias B; assim, nas quartas-
feiras e sábados as visitas são destinadas às galerias A de todos os
módulos, e nas quintas-feiras e domingos ficam com as galerias B.
Nos dias de visitas, o acesso ao pátio e ao refeitório ficam liberados;
ambos possuem câmera de monitoramento, é corriqueiro a
presença de crianças e famílias. A visita íntima ocorre uma vez por
semana e tem duração de meia hora ou mais, dependendo do fluxo
de visitas de cada galeria; são destinadas quatro celas especiais em
cada galeria.
A PMEI possui assistência social, psicológica, de saúde e
jurídica. Ainda não há trabalho para as detentas, além dos afazeres
para manter a estrutura funcionando, como limpeza, alimentação
etc. Para os/as que ainda não terminaram o ensino médio, com
vagas limitadas, há o Núcleo Estadual de Educação de Jovens e
Adultos Jair Forin (NEEJAJF), situado dentro da PMEI, com aulas às
segundas, terças e sextas-feiras. O NEEJAJF oferece certificação via
exames fracionados ou globalizados, correspondente ao Ensino
Fundamental e ao Ensino Médio, em que o educando é avaliado de
acordo com os componentes que necessita para concluir o nível. A
organização curricular do Núcleo busca ampliar e distribuir de
forma equitativa a carga horária das disciplinas, em cada área do
conhecimento. A matriz curricular considera a distribuição do
tempo de modo a garantir a oferta de formação geral e
diversificada.
O programa desenvolvido segue uma metodologia
específica, atendendo os princípios norteadores do Projeto Político
Pedagógico, organizando os tempos e espaços de acordo com as
114 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

possibilidades da instituição. É importante mencionar que a escola


possui 82 alunos. Desses alunos, 14 são mulheres. As práticas
delituosas variam muito: são alunos que cumprem pena por tráfico
de drogas, homicídio, assaltos. No que se refere às mulheres, 12
estão presas por tráfico de drogas e duas por homicídio. A faixa
etária dos alunos varia muito: de 20 a 50 anos de idade, em média.
Na próxima seção, serão apresentadas as histórias de seis
mulheres que se disponibilizaram a conversar, contar suas
experiências e os motivos que as conduziram à situação de cárcere.
O objetivo de escutar essas mulheres é apenas um: conhecê-las e
escutá-las sem pré-conceitos ou prévio estudo sobre seus processos
e sobre seus crimes, para que seja possível, a partir de todo o
conteúdo já exposto, inter-relacionar a condição do ser mulher e as
situações de cada uma ao extremo do encierre cautivo, que é o
sistema carcerário.

4.3 Um eco das vozes silenciadas

As mulheres em situação de cárcere ficam fechadas em


suas celas e não têm o menor contato com funcionários, têm pouco
contato entre elas e poucos tipos de distração. Neste regime,
baseado nas premissas de contenção e disciplina de ferro, estão as
mulheres, isoladas dentro de uma penitenciária construída para o
público masculino e, posteriormente, adaptada, dando origem à ala
feminina da Penitenciária Modulada Estadual Ijuí (PMEI).
A mulher, quando autora de crimes, é punida
rigorosamente, pois, quando realiza uma mesma atividade
criminosa que o homem, submete-se à condenação, à pena de
reclusão, já que quando ambos são condenados, a mulher recebe
uma pena de prisão maior, uma vez que a dissidência feminina
supõe, acima de tudo, um ataque à moral da sociedade
(MIRALLES, 2015). A explicação da criminalidade da mulher ocorre
desde as concepções clássicas da criminologia até sua nova
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 115

abordagem, que investe no controle social, como exposto


anteriormente.
Dar a voz às detentas é necessário para conhecer a
realidade do sistema judiciário criminal e, ao mesmo tempo,
conhecer os sentimentos e as perdas que ali ocorrem, as
resignações das vidas de cada uma, as formas como encaram seus
dias cinzas, suas dores e suas pretensões. O objetivo desta seção é
buscar uma reflexão acerca da situação da mulher no cárcere
através de suas próprias percepções e de seus próprios motivos, ou
seja, pretende-se expor as relações entre todo o disposto até o
momento com as vozes de quem verdadeiramente está submetida
à privação de liberdade, que, como já se ressaltou, trata-se de um
eufemismo.
A presente pesquisa não se determinou por dados
quantitativos e qualitativos e, sim, pretendeu uma conversa com as
detentas, com quantas fosse permitido, sem conhecer seus
históricos ou suas fichas criminais previamente. A intensão era
conhecer a outra não pelo olhar do sistema penitenciário e, sim, a
partir de toda a construção exposta no presente trabalho. Entender
a condição do ser mulher, entender o sistema como patriarcal, e,
finalmente, compreender a estigmatização e a perseguição das
mulheres postas em situação de cárcere, para então identificar
nessas conversas quais as relações entre a construção da sociedade
e a realidade da condição e situação de vida de cada uma dessas
mulheres.
As entrevistas foram realizadas na PMEI, no dia 22 de julho
de 2016. Utilizou-se da técnica de pesquisa com entrevistas
semiestruturadas, modelo mais espontâneo e que permite, a partir
de um conjunto de questões pré-definidas, fazer novas
interferências conforme o desenvolver da entrevista. Seis mulheres
se disponibilizaram a falar, a contar um pouco de suas vidas, que,
de maneira sigilosa, serão relatadas a seguir, com o intuito de
identificar nos discursos de cada uma a abrangência do sistema
patriarcal e as inter-relações com o discurso criminológico.
116 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

Os pontos que nortearam as entrevistas são os seguintes: 1)


Especificidades: gênero, idade, cor e filhos; 2) Processo: possuem
conhecimento da situação processual e do motivo exato que as
levaram à situação de cárcere?; 3) Antes do fato, quais eram seus
objetivos e, superando a situação atual, quais são as suas
expectativas futuras de vida; 4) Relação com o trabalho antes do
cárcere; 5) Ambiente familiar: formação do núcleo familiar,
existência de violência entre membros da família, abuso sexual e
psicológico, contato posterior ao encarceramento; 6) Maternidade
e a convivência familiar; 7) Quais os estímulos relacionados com
seu envolvimento no crime (homens?); 8) Quais as situações de
violência que já enfrentaram (prostituição, estupro, violência
doméstica, aborto, maternidade compulsória); 9) Situação de
cárcere: condições psicológicas e físicas e 10) Condição de saúde
antes e depois do ingresso ao cárcere, a relação com as drogas.
Reitera-se que, por tratar-se de método semiestruturado,
não houve uma sequência de perguntas nem de respostas, e que
todos os nomes utilizados são fictícios. Ainda, cabe ressaltar que a
presente pesquisa não pretendeu analisar os processos judiciais de
cada uma, muito menos comparar os fatos contados nesses
momentos de conversa com os fatos processuais, uma vez que a
pretensão única é compreender o papel social da mulher, as
situações particulares de cada uma e a inter-relação com seus
discursos e o pensamento criminológico.

Ana

Ana é natural da cidade de Passo Fundo/RS, é branca e tem


42 anos. É mãe de seis filhos, entre homens e mulheres, advindos
de distintos relacionamentos. Está condenada pelos crimes de
tráfico de drogas e associação criminosa; diz serem uns dez anos
de pena.
É órfã de mãe desde os oitos anos e tem sete irmãos, entre
homens e mulheres. Quando da morte da mãe, o pai entregou os
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 117

filhos/as para outras famílias, ficando apenas com a filha mais


velha, que na época tinha 11 anos, sendo que três anos depois foi
abusada pelo pai, que a engravidou. Ana denunciou o pai, que
prometeu matá-la. Sempre esteve em famílias diferentes, buscava
constantemente encontrar os irmãos e, por isso, não conseguia
criar vínculos com as famílias adotivas. Ainda mantém contato
com uma das irmãs, que vive em Passo Fundo; os demais foram
adotados por famílias diversas. Comenta que fez contato há um
tempo, pelas redes sociais, com dois irmãos que vivem hoje na
Itália.
Aos 14 anos conheceu um dos pais de seus filhos em uma
casa de prostituição, na cidade de Passo Fundo/RS, uma vez que ali
trabalhava todas as noites. Era como uma boate e ela recebia a
comissão das bebidas dos seus clientes. Era permitido que as
mulheres dormissem lá, fato que a condicionou a permanecer mais
tempo na situação de prostituição, pois já não tinha quem a
acolhesse. Dois anos depois, engravidou da primeira filha, que hoje
também está presa por tráfico de drogas. Na época, o proprietário
da boate solicitou que ela fosse embora, pois não servia mais para a
prostituição. Assim, Ana foi morar com uma amiga que conheceu
na mesma boate e, depois que teve a filha, voltou a trabalhar lá por
um tempo.
Em meados de 1993 foi morar em Cruz Alta/RS e não
encontrou emprego. O pai da sua filha desapareceu e ela
necessitava com urgência um local para morar. Dessa forma, foi
indicada a uma casa de prostituição, que permitia apenas que ela
ficasse lá, não a filha, que ficava com uma cuidadora durante os
dias de semana; nos fins de semana, Ana a buscava.
Permaneceu nessa casa de prostituição por alguns anos, até
o momento em que conheceu um médico da cidade, que
frequentava o local e fazia uso da prostituição. Tinha 19 anos na
época, e ele contava com 65 anos. Por inúmeras vezes foi à casa
dele, que prometia novas oportunidades, pretendendo tirá-la da
casa de prostituição. Contudo, em uma das noites nas quais estava
118 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

lá ele a levou a um quarto e abriu um grande armário, onde havia


mais de 50 armas e, então, sob ameaça de morte, dizia para ela que
era seu dono e se negava a usar preservativo. Posteriormente,
assustada, deixou de vê-lo, mas, alguns meses depois, descobriu
que estava grávida dele. Desse relacionamento nasceu seu segundo
filho; após sete anos de tramites, conseguiu realizar o teste de
DNA, obtendo o reconhecimento da paternidade e pagamento de
pensão ao filho até os 21 anos, sendo que no momento ele se
encontra preso, também por tráfico de drogas.
Após três anos morando em Cruz Alta, mudou-se para a
cidade de Ijuí/RS, fato que decorreu do início de um novo
relacionamento e do nascimento de mais um filho. Sem encontrar
trabalho, pois muitos requeriam experiência, acabou submetida
novamente à prostituição por mais alguns anos. Logo depois, abriu
um bar, que, na verdade, era uma casa de prostituição, que abria à
tarde e fechava por volta da 1h. Ali estavam duas mulheres em
situação de prostituição, que dividiam os lucros com Ana. Nessa
época, deixava os filhos com uma amiga em um dos bairros da
cidade, pegando-os todos os fins de semana.
Engravidou novamente do mesmo homem e largou o bar,
momento em que retomaram o relacionamento, que estava
desgastado. Ana afirma que ele era muito agressivo e também era
usuário de drogas e, por diversas vezes, prometeu que largaria as
drogas e que trabalharia. Entre idas e vindas com o companheiro,
engravidou do quinto filho e passou a trabalhar com lanches, mas
seguiu se prostituindo quando era necessário, ou seja, quando o
companheiro se envolvia com drogas e não a ajudava a suprir as
necessidades das crianças, principalmente quando estavam
doentes.
Sobre o companheiro, diz que quando não estava sob efeito
das drogas era trabalhador e ajudava nas despesas e na educação
dos filhos, mas eram sempre períodos curtos, visto que terminava
não resistindo às drogas. Seguiu nesse ciclo de violência por
acreditar que ele mudaria e por amá-lo muito, era a única pessoa
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 119

que ela tinha. Incontáveis vezes ele chegava embriagado em casa, e


também tinha contato com mulheres aidéticas, o que a levou a
descobrir que estava com sífilis, realizando tratamentos no mesmo
período em que iniciou seu envolvimento com a Igreja. Passado um
tempo, retornou ao médico, que disse que ela inexplicavelmente
estava curada; ela acredita que tenha sido um milagre da Igreja.
Alguns anos depois, o companheiro novamente se envolveu
com drogas, momento em que Ana não pensou duas vezes e
vendeu o carro, que estava no nome dele. Era o único bem que
possuíam, e ela já tinha seis filhos. Com medo de que o vendesse
para comprar drogas, pegou o dinheiro da venda e investiu em
máquinas de sorvete instantâneo e milk shake, alugando também
uma peça no centro da cidade para comercializar os produtos que
produzia e os lanches. Pouco tempo depois, após uma grande
briga, o companheiro foi para o estado do Mato Grosso morar com
um irmão; ocorre que lá foi baleado e teve o pulmão perfurado.
Ana, ao ser informada do fato, foi até lá para cuidá-lo, sob todas as
juras de amor e de mudança que ele tinha novamente feito;
retornaram juntos à cidade de Ijuí.
Pouco tempo depois, o companheiro voltou a usar drogas e
se afastou da casa, ficava na rua em más companhias, o que
desencadeou uma briga com um moto-táxi, pela qual ele terminou
preso. Atualmente, está detido no Instituto Penitenciário de Ijuí,
conhecido como albergue, local ao qual ela não quer ir, pois
admitiu ter medo dele. Quando o companheiro já estava preso, Ana
teve um problema com as máquinas de sorvete e necessitava
consertá-las urgentemente, uma vez que morava sozinha com os
filhos mais novos e era essa sua única fonte de renda. O valor do
conserto era de R$ 150,00. Quando seu compadre ficou sabendo
que necessitava de ajuda, ofereceu o valor aproximado para que ela
fosse buscar crack na cidade de Passo Fundo.
Ana pensou muito na oferta, não sabia como agir, mas era
tão urgente e necessário que aceitou. Na primeira ida, trouxe
aproximadamente 200/300g da droga e, posteriormente, o
120 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

compadre seguiu oferecendo o mesmo serviço; tentada, passou a


aceitar. Com o passar do tempo e das idas e vindas, nas quais
aproveitava para visitar a irmã, passou a pegar a mais do que o
compadre solicitava e iniciou seu próprio comércio no bairro em
que residia. Passados seis a oito meses, juntou aproximadamente
onze mil reais e pretendia buscar para o próximo carnaval um
quilo próprio da droga. Sequencialmente, foi a Passo Fundo e, ao
retornar para a cidade de Ijuí, encontrou a polícia na porta de sua
casa, que a aguardava. Ela acredita ter sido denunciada pela
vizinha, também traficante.
Ana toma remédios na prisão para o humor. Está detida no
módulo de apoio da penitenciária, uma vez que trabalha na
limpeza do módulo administrativo. Por estar no apoio, consegue
cozinhar com mais facilidade, produzindo rapaduras para vender
nos dias de visita, conseguindo juntar dinheiro e enviar para os
filhos pelas mãos visitas das outras detentas que conhece, já que
não costuma receber visitas. Quando foi presa, as pessoas se
afastaram, ninguém leva os filhos dela para visitá-la. Há tempo não
vê as crianças. Conta os dias para sair da prisão, afirmou muitas
vezes que tem medo de ir para o albergue, mas que sonha em levar
uma vida diferente quando sair, que quer estudar, fazer um curso
de técnico em enfermagem, pois sabe que tem como fazer de graça
e que também gosta de cuidar das pessoas.
“Ah, eu era bem louca na época, não sabia muito da vida. Gostava
muito dele, ele era tudo, sempre fui muito sozinha, então ele me
ajudava”.
“Eu nunca gostei do meu pai, ele era ruim para mim e para os meus
irmãos, a gente tinha que se virar em tudo. Quando fiquei sabendo
que ele engravidou a minha irmã não pensei duas vezes em ir à
polícia, ela sofreu muito tendo que ficar lá com ele. Ele jurou me
matar, mas não me preocupei com isso”.
“Não conseguia ficar muito num lugar só, tinha saudade dos meus
irmãos. Ficava um tempo na casa de uma família, mas assim que
descobria onde eles estavam eu ia atrás. Era difícil, mas eu tive
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 121

oportunidades de estudar, mas não me preocupava com isso, só em


encontrar eles”.
“Teve uma professora em Passo Fundo, ela foi muito boa para mim.
Quando eu ia para Passo Fundo eu a visitava, sempre me recebeu
bem, acho que foi o mais próximo que tive de uma família”.
“Ah, eu fui atrás dele, o irmão me ligou, ele também falou comigo,
pensei que depois do tiro ele ia mudar, estava assustado. Mas, não,
sabe como é, a gente que é mulher pensa que vão mudar. Não sei,
hoje já não faria mais”.
“Pobre do mais novo, olho para ele e penso quando cogitei abortar,
sei não, que teria sido melhor. Mas, a gente é mãe tem que cuidar e
amar os filhos”.
“Assim que eu vi que ele andava alterado, usando droga, peguei o
carro e vendi, ele ficou muito brabo, mas era a única coisa que nós
tínhamos, não pensei duas vezes”.
“Teve vezes que me prostitui grávida sim, precisava comprar as
coisas, dar de comer para os outros, não era fácil não, nunca foi”.
“Eu estava desesperada, ele estava preso, eu estava sem dinheiro, a
máquina estragada. Estava fazendo lanche para vender fora de
casa, mas não alcançava, uma das crianças estava doente, não tinha
o que fazer. No momento que ele me ofereceu eu não aceitei, pensei
muito, mas ver as crianças ali, eu acabei indo”.
“Com o quilo eu ia mudar de vida, fazer um dinheiro bom, guardei
tudo que podia pelo menos esse quilo está pago, caso contrário não
sei que seria dos meus que estão fora daqui”.
“Tempo aqui demora muito para passar, mas eu vou sair sim, vou
conseguir alguma coisa quando sair daqui para estudar”.

Bruna

Bruna é natural de Ijuí/RS, é branca e tem 19 anos, mãe de


uma menina de 1 ano e 5 meses. Atualmente, está separada e a
filha está com a avó paterna, tem visita assistida uma vez ao mês.
122 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

Está aguardando o julgamento por feminicídio, é acusada de matar


a mãe e o irmão junto com o seu ex-companheiro.
Introvertida, não falou praticamente nada, afirma ter uma
relação difícil com as detentas, razão pela qual é submetida a
tratamento psiquiátrico, com altas doses de medicação. É mantida
em cela especial, com seguro de vida. Não sabe os nomes dos
medicamentos. Quanto ao crime, realizado na época com o
companheiro, não respondeu às perguntas e também não deu
abertura para conversas, no entanto, em nenhum momento
afirmou ter sido induzida pelo companheiro, mas também não
assume a ideia como sua.
Em setembro de 2015 o casal procurou a polícia e
confessou o crime, que foi o homicídio da mãe de Bruna, de 43
anos, e de seu irmão, de dez anos. O crime ocorreu na casa da
vítima, que estava sozinha com o filho. Os pais estavam separados
há um tempo, sendo que não tinha muito contato com a família. O
companheiro foi ofendido pela sogra e por isso, se descontrolou e
atingiu-a com uma faca e, logo depois, atingiu o irmão da vítima,
que gritava pela morte da mãe. Bruna não buscou socorro, afirmou
ter ficado em estado de choque e sem reação frente à situação.
Antes do ocorrido estava procurando emprego, já tinha
saído de casa e vivia com o companheiro, tinham uma boa relação
e no momento da gravidez não pensou em abortar, também teve
apoio dos pais. Não está mais com o companheiro, se afastaram e
ele também foi preso, não conversaram mais.
“Eu até sei o motivo, mas eu nunca vou falar para ninguém”.
“A gente estava junto há um tempo sim, quando eu engravidei a
família apoiou, não tinha muito que fazer, já estávamos morando
juntos”.
“Eles (os pais) me controlavam bastante sim e discutiam muito”.
“Sinto falta da minha filha, agora está com a avó, mas queria estar
perto dela”.
“Gostava dele sim”.
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 123

“Eu queria trabalhar, estava procurando emprego, agora aqui vou


estudar, diz que temos esse direito”.
“Eu estou sozinha numa cela, não posso conviver com as outras,
elas já sabem porque estou aqui e não aceitam, mas prefiro estar
sozinha”.

Carla

Carla é natural de Santo Ângelo/RS, é branca, tem 40 anos,


mãe de cinco filhos. Está condenada por tráfico de drogas e
associação criminosa. Teve dois casamentos. No primeiro, que
durou 14 anos, teve três filhos e o marido a aliciava para
prostituição. Contou que se prostituía pois ele dizia que era uma
forma de ganhar dinheiro para eles, mas que era ele que ficava
com os ganhos dela. Já no segundo casamento, afirmou que foi
feliz, que ficaram como dez/doze anos juntos, que ele tinha
condições de ajudá-la, tiveram dois filhos, era bom pai. Ocorre que
foi preso em 2012, quando gastaram todo o dinheiro que tinham, o
que a levou novamente à situação de prostituição para manter os
filhos, e que o marido nem sonhava com isso, mas que ela não
tinha vergonha e precisava comprar comida.
Três dos seus filhos estão no lar e dois com a família dela.
O marido foi preso por homicídio, se envolveu numa briga no
bairro, quis ajudar uma vizinha e a filha – se envolveu demais
segundo Carla. Ela foi detida quando estava na fila para fazer a
visita, em um sábado, em abril deste ano. O marido foi para o
albergue e lá foi morto com um tiro, diz sentir muito a morte dele,
que foi muito injusta e que ninguém fez nada. Também diz que
não quer ir para o albergue.
Carla não costumava fazer visitas aos sábados, no entanto,
tinha ganhado sua última filha há dez dias e queria levá-la para
conhecer o pai. Antes da ida, uns dois dias antes, uma conhecida,
também com o marido preso, soube que ela iria para a visita e
pediu um favor, já que elas se ajudavam como esposas de presos. O
124 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

pedido foi para levar comida para o marido, que ela enviaria por
motoboy; Carla aceitou. Ocorre que, no caminho da casa da
conhecida até a casa de Carla a polícia abordou o motoboy, que
disse que a droga era da entrega e não dele e entregou os
endereços das mulheres e também foi processado, visto que o
advogado dele a procurou para que ela dissesse que a droga era
dela, tentou pressioná-la.
No sábado, Carla foi ao presídio para visitar o marido.
Fazia dez dias que estava de alta, tinha ganhado a filha de cesárea,
sentia dor, afirmou ter se arrependido de ir, já que não costumava
ir aos sábados. Na fila, com a criança no colo, foi dada voz de
prisão para ela. Assustada, deixou a filha no bar em frente ao
presídio, que é conhecido de todas as famílias que frequentam a
penitenciária para visitas. Deixou lá criança com a dona e o
número da irmã, que posteriormente foi buscá-la. Tanto Carla
como a conhecida que pediu o favor estão presas pelo mesmo
motivo. Pelas contas, ela acredita ter uns dez anos de pena, mas
que não consegue muito acesso ao processo.
Não recebe visitas. Tem os pais vivos, mas prefere que eles
não a visitem. Não fala muito da família, apenas que o ambiente da
penitenciária é horrível e com o tempo ninguém mais insistiu nas
visitas, faz tempo que não vê os filhos, sento falta e fala muito de
uma das filhas, estuprada aos treze anos pelo sobrinho do segundo
marido, em um passeio. A filha nunca superou o fato, o sobrinho
foi preso, mas ela nunca mais conseguiu levar a filha para a escola
e diz que queria muito estar perto, que foi muito triste, ela não
estava no passeio e sentia muita dor por isso.
Conta os dias para sua saída, já que está lá de forma
injusta. Diz que quer sair, voltar a trabalhar, qualquer coisa, mas
quer estar perto dos filhos. O convívio é muito difícil, cada uma
que está lá tem os seus problemas. Tem dias que nem vai ao pátio,
prefere ficar só. Está cansada e sabe que tem tempo ainda para
cumprir. Quando sair, vai correndo buscar os filhos, quer arrumar
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 125

trabalho, se ajeitar, vai sentir falta do marido, mas quando pensa


nos filhos sabe que são dores possíveis de superar.
“Eu não devia estar aqui não, isso é muito injusto. Aquela droga
não era minha”.
“Eu me senti muito mal, eu sentia dor, estava com a filha de dez
dias no colo quando fui presa na fila da visita, não tinha aonde
deixar ela, eles não pensam na gente”.
“Eu nunca tive vergonha, se precisei me prostituir precisava do
dinheiro, mas não é bom não, é dolorido, é por necessidade”.
“Ela foi estuprada pelo sobrinho dele, a gente não sabia de nada, foi
dolorido, meu marido ficou muito brabo, todos ficamos. O guri foi
preso, mas ela ainda não se recuperou, queria estar perto dela”.
“Quero sair daqui, cuidar meus filhos, trabalhar, eu se precisar
catar papelão vou catar”.
“Ele (último marido) era bom para mim, cuidava da família,
quando aconteceu o estupro não acreditava, ele ficou muito triste,
todos nós”.
“Sinto falta dos meus filhos, não sei se esses processos estão certo,
tem dias que é difícil conseguir alguma informação”.
“Aqui é difícil”.

Denise

Denise é natural de Ibirubá/RS, tem 44 anos, é branca e


não tem filhos, teve um aborto espontâneo. Licenciada em Artes,
dava aula em uma escola do município e também no estado. Está
condenada por tráfico de drogas e associação ao tráfico de
entorpecentes; a pena é de 14 anos. Possui uma união consensual
com J.P. há mais de quatro anos; ele também se encontra preso, na
mesma penitenciária e pelos mesmos motivos.
No final de setembro de 2014, Denise fez o que sempre
consumava fazer: buscou seu companheiro na parada de ônibus,
pois ele trabalhava como mestre de obras em outra cidade durante
a semana. Ambos residiam em Ibirubá e passavam o fim de
126 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

semana juntos. J.P. tem um filho de um relacionamento anterior,


que também costumava passar o final de semana com o casal, um
menino de 15 ou 16 anos, usuário de drogas, que já tinha se
envolvido com tráfico e que nos últimos meses estava morando
com o casal. Nos finais de semana, a casa sempre estava
movimentada, muitas pessoas entrando e saindo, eram conhecidos
do menino e de J.P. Quando isso ocorria, ela costumava esconder-
se, alegando ficar com medo. Mas, na ocasião citada anteriormente,
Denise não foi sozinha buscar J.P, pediu a um amigo para
acompanhá-la, já que não possuía carteira de habilitação e não
queria deixar o carro sozinho. Porém, ao chegarem em casa foram
surpreendidos com a presença da polícia.
Denise ficou muito assustada, não sabia o que acontecia,
desconfiava que estivessem metidos com drogas. Já em outra
ocasião o filho de J.P fora levado à FASE-Passo Fundo/RS para
cumprir medida e afirmava ter sido por drogas. Desde aí, Denise
havia ficado mais cuidadosa e falado com J.P. para ele não se meter
nisso. Logo que chegou, encontrou a delegada, que conhecia da
escola, pois eram típicas nas escolas as palestras e conversas sobre
drogas e violência. Sentiu-se envergonhada. Logo que chegou
pediu para ir ao banheiro, pois recém chegava de uma espera na
rua. Ao entrar, uma das agentes da polícia solicitou que abrisse a
porta e ela imediatamente o fez, mas, ao puxar a descarga, um
pacote de drogas caiu no vaso sanitário. Denise acredita que estava
escondido, mas a policial afirmou que ela carregava na vagina o
pacote de cocaína. No entanto, afirma reiteradamente que isso não
é verdade, que nem exames fizeram, só pediram que fizesse
agachamentos, que ela estava machucada, mas nada adiantou e a
levaram. Ela acredita ter sido denúncia dos vizinhos.
Quando ela saiu do banheiro, o filho de J.P assumiu que a
droga era dele, que tinha escondido, e foi levado à FASE, mas já
está solto. No momento foi tudo conturbado, ela não sabia como
agir, não acreditava que estava acontecendo. Sente falta da escola e
da rotina, a família visita pouco, é como se não tivesse
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 127

relacionamentos e amizades antes da cadeia, ninguém aparece e


isso é comum com todas. Gostava de J.P, antes de conhecê-lo vivia
sozinha, mas não imaginou que terminaria assim. Estão na mesma
penitenciária e se visitam, acredita que não adianta mais brigar e
sim estarem unidos, que ela como mulher tem que apaziguar as
coisas.
Tem acesso a informações processuais, mas continua com
algumas dúvidas. A convivência com as mulheres é difícil, não tem
trabalho e ela não pode estudar, por já ser graduada. Reclama da
ociosidade, quer atividades para a remissão. Afirma que toma
medicamentos, que é bem tratada dentro daquela realidade, que
quer sair de lá, e que não sabe como vai ser para voltar a dar aulas.
“Olha nego se te pegarem vão me levar junto, tu tem que cuidar o
que faz”.
“Não tem como ficar de mal com ele né, a gente está aqui, na
mesma situação, que eu vou fazer, pelo menos vejo ele”.
“Eu era bem sozinha até conhecer o nego, a gente se dava bem”.
“Eu não pude falar, não me deixaram, aquela droga não estava em
mim, nem deixaram fazer exame”.
“Eu desconfiava e depois até sabia, mas sempre conversava, pedia
para parar, ele ia parar, mas aconteceu tudo isso antes”.
“Ah, tem dias que sente culpa por eu estar aqui, mas falo para ele
que de nada adianta, estamos juntos aqui, um dia termina”.
“É difícil, não tem trabalho, eu não posso estudar, já sou graduada,
mas queria ir à escola, qualquer coisa”.
“Vou ao pátio tomar um sol, tomar um mate com as outras
mulheres, tem dias que dá umas discussões, todas são sofridas”.

Érica

Érica é natural de Ijuí/RS, tem 73 anos, é branca e mãe de


dois filhos. É viúva há 18 anos e acredita estar presa por causa dos
filhos. Estudou até a 4a série do ensino fundamental, pois moraram
muitos anos no interior, na colônia, e trabalhava arduamente com
128 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

a lida do campo. Veio para a cidade quando o filho mais velho tinha
sete anos. Atualmente, ele está com 44 anos e o segundo com 41
anos. Está condenada por tráfico de drogas e associação criminosa,
cumpre pena de 13 anos.
No bairro onde moravam tinham uma venda, uma oficina
e duas casas, uma coisa ao lado da outra, todos os imóveis eram de
propriedade deles. Érica confessa que o filho mais novo era usuário
de drogas desde os 12 anos e que nos últimos meses estava
fumando pedra. Todo o dinheiro que ganhava na venda tinha que
esconder, algumas vezes ao deitar-se escondia nas suas roupas
íntimas junto a seu corpo, com medo que o filho achasse e levasse
todo dinheiro, como já havia feito em outras ocasiões. Estava
falindo, mal conseguia manter a venda, o filho pegava o que
conseguia de dinheiro e as mercadorias. O filho mais velho a
ajudava.
O outro filho morava na casa ao lado com sua família. Tem
um neto de oito anos, trabalhavam na oficina e afirma que via os
negócios prosperarem. Érica e os filhos estão presos na mesma
penitenciária. Ela acredita que a polícia chegou aos
estabelecimentos através de denúncias devido à movimentação,
culpa do filho mais novo e usuário, que juntava muitos amigos e
ficava pela rua. Lamenta a situação á qual chegaram, diz que
acredita que as investigações começaram pelos abusos do mais
novo, foram feitas interceptações telefônicas e chegaram ao
conhecimento do que ocorria na oficina.
No dia em que a polícia foi à oficina, não acreditava no que
estava acontecendo. Relata tudo chorando, diz que está velha e
cansada, que queria estar com o neto em casa, mas que perderam
tudo. Afirma que cansou de pedir que o filho parasse de usar
drogas, que foi internado e não adiantou. Na PMEI, trabalha como
auxiliar de limpeza e não se queixa do tratamento. Também tem
como ver os filhos. Atualmente, está no módulo de apoio. Comenta
que ao chegar se deparou com mulheres conhecidas do bairro e diz
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 129

que a maioria se envolve com drogas por causa de seus


companheiros.
“Eu sinto uma dor muito grande por estar aqui, eu sou velha, eu
estou cansada”.
“Sou bem tratada, auxilio na limpeza e isso ajuda para diminuir a
pena, mas queria mesmo terminar a vida fora daqui, não sei se
tenho forças”.
“Capaz, na venda já não tinha lucro, o mais novo pegava tudo, era
uma tristeza, andava com más companhias, eu pedia tanto, pedia
pelo menos que ele não usasse na frente do meu neto, filho do mais
velho e que morava na casa de trás”.
“Eu disse que eles me colocaram aqui, não adianta, a gente perdeu
tudo agora, eu sou capaz de nem sair daqui”.
“Sinto falta da minha rotina, de estar com as minhas conhecidas,
algumas até me deparei aqui, nem imaginava, acho que elas
também não, elas sofrem por causa dos maridos”.
“Fiquei conhecida como vovó do tráfico”.
“É triste ver a tua família aqui dentro, eu trabalhei tanto com o
falecido, a gente construiu tudo sozinho, na honestidade, não sei em
que ponto as coisas se perderam”.

Fernanda

Fernanda é natural de Santa Bárbara do Sul, é negra e tem


22 anos. É mãe de uma filha de cinco anos que atualmente vive no
Rio de Janeiro com a avó paterna. Faz tempo que não sabe da filha,
sente muita falta. Está presa e condenada pelo homicídio de seu
companheiro desde 2013; a pena é de 12 anos. Ao narrar sua
trajetória, não leva somente um passado trágico, mas uma história
recente que parece não ter fim. Junto com Fernanda, encontram-se
na mesma penitenciária, associados ao mesmo crime, sua mãe e
seu padrasto.
Estava junto com o pai de sua filha desde seus 15 anos. Ele
era um homem possessivo e muito agressivo, não a deixava sair de
130 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

casa. Ela gostava de estudar e queria trabalhar, mas acabou


engravidando. Foi então que ele a proibiu de tudo, praticamente
mantinha-a em cárcere privado, não podia nem fazer faxinas para
juntar um dinheiro. Quando a filha nasceu, ele queria matar
Fernanda, fez várias ameaças. Ele há dois/três anos já morava na
casa delas. Foi inúmeras vezes agredida por ele, ficou trancada em
casa, resistiu o quanto pôde e sofreu tantas agressões que teve que
sair da casa da mãe, indo morar sozinha com o companheiro.
Afirma que após irem morar juntos as coisas pioraram, ele tomou
conta, era muito violento. Houve um dia que conseguiu escapar e ir
até a casa da mãe, mas logo ele foi atrás dela e acabou não só a
agredindo, mas também agredindo a mãe dela.
O convívio familiar era restrito, pois a mãe de Fernanda
tinha uma boate, que na verdade se tratava de uma casa de
prostituição, e ela não queria que a criança ficasse nesse
movimento. Algumas vezes ela saiu de casa, chegou a fazer boletim
de ocorrência contra seu companheiro-agressor. Porém, ele
acabava indo buscá-la e ela, não tendo a quem recorrer, cedia na
esperança de achar outra saída. No entanto, o padrasto ficou
sabendo do ocorrido depois que a mãe também foi agredida,
momento em que se afastou da Igreja e prometeu que a ajudaria.
Tempos antes do crime chegou a se separar, ficou mais ou
menos dois meses sozinha, voltou a estudar e estava se
recuperando. Contudo, ele a perseguia muito, e por mais que ela
tivesse registrado as ameaças, nada acontecia. Logo, acabaram
reatando o relacionamento e ela teve que largar tudo, voltou a ficar
somente em casa. Conta que se desleixou e ele a agredia
verbalmente, além de fisicamente, todos os dias. Ela procurou o
padrasto depois que ele ofereceu ajuda, para dizer que queria sair
de casa, e ele também foi ameaçado de morte pelo agressor quando
se aproximou de Fernanda.
As coisas aconteceram. Ela deixou a porta aberta, confessa,
alguns homens entraram no meio da noite em casa e o
assassinaram. Fernanda afirma que a mãe não estave envolvida,
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 131

por mais que esteja presa como mentora do crime. Na madrugada


do fato, foram todos para a delegacia. Conta que lá foi muito
maltratada, que um dos agentes agrediu sua mãe, que estava em
pânico. Também não deixaram elas chamarem um advogado,
nada.
Sofre muito no cárcere, ainda mais sem as visitas, sem
ninguém, sem amigas, sem poder saber da filha. Atualmente, toma
medicamento, pois conta que foi diagnosticada com bipolaridade.
Ela relata que tenta se relacionar bem com as outras mulheres,
respeitar o espaço de cada uma, mas que há dias e dias na vida de
cada uma. Costuma brigar com a mãe, mas sabe que o tempo vai
passar e que ela não vai sair tão velha da penitenciária, mas que vai
encontrar muito preconceito.
“Eu sempre gostei de estudar, ia bem, pensava em ser policial civil,
mas aí o conheci, acabei me envolvendo e engravidando”.
“No julgamento, a mãe foi presa porque tinha uma casa de
prostituição, as pessoas não gostam, mas ela nunca me quis lá não,
pagava meus estudos”.
“Ah, é difícil viu, não tem trabalho, não tem muito que fazer,
ficamos todas o dia aí, sem nada”.
“Tem vezes que brigo bastante com a mãe, estamos na mesma cela,
mas ao mesmo tempo sei que nos protegemos”.
“Sinto falta da minha liberdade, de sair na rua”.
“Ele me batia muito, eu apanhei muito, não conseguia sair daquela
situação, ele me ameaçava, ameaçava minha filha caso eu saísse de
casa, eu tenho marcas de queimadura de cigarro por todo o corpo”.
“Sempre pensei na minha independência”.
“Vou sair daqui ainda vou poder fazer uma vida, quero mudar,
quero conseguir um emprego, mas é difícil ex-presidiária conseguir
emprego, né?”.
São perceptíveis as violências compartilhadas nas vidas
dessas mulheres ao escutar suas histórias, bem como as gritantes
as características e similitudes entre as situações particulares de
cada detenta na PMEI e cada detenta na PFMP, pois é fato
132 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

consolidado que o sistema de justiça penal é persecutório e


misógino. A privação de liberdade é um eufemismo, é o extremo da
violência contra a mulher, representa uma instituição moldada e
arquitetada pelo patriarcado para silenciar mulheres, que desde
muito já sofrem violações, seja pela condição de mulher, seja por
situações particulares da vida de cada uma. Os dados e os relatos
expressam as consequências da socialização, da conformação do
papel social através da construção impetuosa de gênero e de
inferioridade e possibilidade de controle de suas sexualidades.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
PARA QUE(M) SERVE SEU CONHECIMENTO?
Solo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca
Muerta no me encuentre
Vacio y solo sin haber hecho lo suficiente
(Mercedes Sosa)

Atualmente, o feminismo está inserido em diversos


espaços. O ano de 2016 foi reconhecido e intitulado como
primavera feminista. Há muito tempo esse movimento se posiciona
e se organiza para o reconhecimento dos direitos das mulheres,
pautando um mundo equitativo e sempre pretendendo resoluções
coletivas. Progressivamente, as pautas feministas conquistaram
mudanças, ou ao menos permitiram um câmbio de pensamento e
o alcance do conhecimento de registros históricos e da perspectiva
das mulheres sobre suas experiências, o que pretendem e o que
compreendem sobre Estado e controle.
A construção do patriarcado demonstra uma perseguição
histórica da mulher, bem como um atual aumento da violência
mundo afora, que tem obtido como resposta a resistência diária de
cada mulher contra a opressão. A memória e os registros são os
meios que permitem a preservação do mundo e dos papéis sociais,
que são maiores do que uma só pessoa e do que o isolamento da
natureza e das outras pessoas, tão pretendidos pelo capitalismo.
Nesse sentido, a exposição realizada no primeiro capítulo foi a de
demonstrar que antes do futuro, do progresso e do
desenvolvimento, há história, e que essa história é contada por
homens para homens, o que influencia todo o sistema, inclusive o
sistema de justiça penal.
É necessário conectar-se ao passado, recuperar o
sentimento de pertencimento, ao lugar, ao terreno e às pessoas que
formam parte da rotina e da convivência, seja no trabalho, seja no
ambiente doméstico. A perspectiva feminista fez com que mulheres
134 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

se organizassem para travar batalhas contra o controle de seus


corpos, para liberar o aborto e ter condições de cuidar de seus
filhos sem limitar suas próprias vidas. O patriarcado torna
mulheres presas de suas vontades pelas violências impostas aos
seus corpos e às suas decisões, sendo o cárcere a representação do
extremo das violências estruturais contra as mulheres.
Por conseguinte, o objeto desta pesquisa demonstrou a
relação entre o papel social da mulher e os fatores estruturantes da
criminalidade feminina, com a análise da construção do
pensamento criminológico crítico e das pretensões da atual
criminologia feminista, para no fim relacionar quem são as
mulheres privadas de liberdade, estigmatizadas e inseridas no
extremo cativeiro. A virada criminológica representou uma
ruptura no desenvolvimento do pensamento e a criação do
paradigma da reação social; no entanto, agora surge a necessidade
de uma nova virada, a feminista, visto que nenhuma das novas
criminologias criadas desde o paradigma da reação social incluíram
o patriarcado e o gênero. Ou seja, a mulher segue sem
representação na criminologia e em tantos outros campos.
Apresentou-se no segundo capítulo uma relação entre a
teoria crítica e a feminista, para demonstrar que o déficit da
representação da mulher reside no fato de que os problemas que as
teorias se propuseram a resolver partiam, obviamente, de
indagações masculinas, cujas respostas eram generalizadas para as
mulheres, ou cujas explicações para a criminalidade feminina
residiam em estereótipos de gênero. A análise desses temas pela
perspectiva feminista constrói um paradigma dentro da
criminologia, com o intuito de revolucionar o sistema patriarcal
imposto às mulheres. Discorreu-se, de maneira breve, mas não
menos importante, sobre as análises pós-modernas que atingiram
a teoria feminista e afastaram questões cruciais para a mudança
real de paradigma.
O trabalho defende que, diferentemente do postulado pelo
feminismo pós-moderno, sexo, maternidade e toda a reprodução
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 135

de papéis sociais explicam a opressão das mulheres, e que essas


formulações não podem ser generalizadas culturalmente. Na
criminologia, a unidade do delito, a criminalidade e o controle
passam a ser questionados, restando ausentes explicações ou
mesmo uma lógica para explicar a criminalidade, ou processos de
etiquetamento sem inserir a perspectiva feminista. A
desconstrução de um sujeito essencial derrota assim o
determinismo biológico, e passa a explicar a diferença entre papéis
sociais destinados a homens e a mulheres, bem como os diferentes
comportamentos desviantes.
A desigualdade imposta pela tradição cultural, pelas
estruturas de poder e pelos agentes envolvidos na trama de
relações sociais comprova que a relação de gênero não é dada e sim
construída. Assim, ambas as categorias de sexo comem, bebem e
dormem nesta ordem patriarcal de gênero, calcada na
subordinação devida ao homem pela mulher, ordem esta que é
demasiadamente forte e atravessa todas as instituições de poder.
Então, já que todas/os são socializadas/os para serem machistas,
torna fácil o entendimento de que o processo é lento e gradual e
consiste na luta feminista. Revelou-se que os operadores de direito
e o sistema de justiça programam e inconscientemente desprezam
suas vítimas, com tanto sexismo que conseguem torná-las bem
piores.
O controle formal e informal, analisado no segundo
capítulo, permitiu a compressão de como o papel social da mulher
se perpetua pelas próprias mulheres, e como ocorrem as inter-
relações entre o feminismo e a criminologia, uma vez que existem
fases de atração e repulsão entre as duas teorias críticas
(criminologia e feminismo). As teorias do controle também não
fugiram às explicações estereotipadas para a conformidade
feminina e a rebeldia masculina, e induziram a recepção de uma
forte crítica feminista. O trabalho apresentou que família é um dos
controles mais violentos do papel social da mulher, que chega a
responsabilizar mulheres-mães pela perpetuação do sistema do
136 | A MULHER EM SITUAÇÃO DE CÁRCERE

qual reclamam, pois seriam as responsáveis pela primeira


socialização das mulheres, e também dos filhos homens. Ou seja,
além de colocar o ônus da socialização sobre as mulheres, o
patriarcado tem como referência a família tradicional.
Portanto, analisou-se a temporalidade e as origens das
opressões para explicar a condição de ser mulher e as situações
particulares de cada uma e como são determinadas as
seletividades, que colocam as mulheres em extrema
vulnerabilidade. Para tanto, o terceiro capítulo observou o extremo
da violência estrutural contra a mulher a partir da apresentação
dos dados do Relatório Técnico Parcial do Projeto de Pesquisa “A
situação das mulheres privadas de liberdade e o Apoio Matricial em
Saúde Mental a Equipes de Atenção Básica inseridas no Sistema
Prisional”, e pela análise de conteúdo das entrevistas
semiestruturadas realizadas na Penitenciária Modulada Estadual
de Ijuí.
A comparação dos dados comprovou que as características
comuns entre as mulheres em situação de cárcere não são
coincidências, apenas representam a perseguição instituída pelos
controles informal e formal às mulheres que rompem com as
expectativas da sociedade patriarcal. Dessa forma, observaram-se
quais as pretensões da perspectiva feminista da criminologia, que
aponta as opressões da mulher, e o gênero socialmente construído
como a base da inferiorização e subordinação. Uma nova leitura
dos chamados paradigmas criminológicos dá base para a discussão,
ressignificação e construção de uma nova criminologia e também
de um novo modelo de Estado e controle.
A prisão como controle formal perpetua o tratamento da
mulher a partir de papéis tradicionais e dos valores neles
implícitos. Porém, conclui-se que quando a mulher vai para a
prisão, ali a espera um regime de disciplina tão duro como do
homem. Isso quer dizer que a prisão funciona dentro do sistema
ideológico que informa as demais instâncias e que, por ser o
controle mais extremo, expressa de forma mais contundente a
CAMILA BELINASO DE OLIVEIRA | 137

autoridade do estado, de modo que tanto mulheres como homens


encarcerados sofrem uma mesma submissão à autoridade estatal,
mas sem perder a singularidade de seus papéis sociais.
Pelo exposto, o trabalho pretendeu demonstrar a ineficácia
do sistema de justiça penal, e o domínio e poder do patriarcado,
que tem sido questionado pelo feminismo como teoria crítica e
como movimento. A mulher em situação de cárcere é o limite da
violência estrutural, é a privação máxima de direitos e representa,
tanto da condição de ser mulher, como das situações de cada uma,
inserindo aqui a cor e a classe social. Reitera-se a importância dos
recortes para a análise das situações das mulheres em situação de
cárcere, bem como a importância das redefinições dos papéis, da
denúncia do sistema patriarcal e da violência do gênero construído
socialmente, o que torna primordial uma nova leitura, uma nova
criminologia sob a perspectiva feminista.
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