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Ano XVIII – Número 40 - Dezembro de 2017

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9 771806 807001
ISSN 1806-8073

CABEÇA BRANCA CPP


Como a perícia identificou Saiba como está a
um dos maiores traficantes tramitação do novo Código
da América Latina de Processo Penal
Associação Nacional
dos Peritos Criminais Federais
Diretoria Executiva Nacional

Marcos de Almeida Camargo João Carlos Ambrósio


Presidente Vice-Presidente

Márcia Mônica Nogueira Mendes Evandro Mário Lorens Erick Simões da Camara e Silva Carlos Antônio Almeida de Oliveira
Secretária-Geral Diretor Técnico-Social Diretor Jurídico Diretor de Assuntos Parlamentares

Bruno Gomes de Andrade Dângelo Victor Gonçalves Vladimir de Lima Santos Henrique Queiroz
Secretário-Geral Adjunto Diretor Social Adjunto Diretor Jurídico Adjunto Suplente de Diretor de Assuntos Parlamentares

Willy Hauffe Neto Ronaldo de Moura Ramos Meiga Áurea Clênio Belluco
Diretor Financeiro Diretor de Comunicação Diretora de Patrimônio Diretor de Aposentados

André Morisson Daniel Pacheco Politano Hélvio Peixoto Paulo Roberto Fagundes
Diretor Financeiro Adjunto Diretor de Comunicação Adjunto Diretor de Patrimônio Adjunto Diretor de Aposentados Adjunto

Conselho Fiscal Deliberativo

Wilson Akira Uezu Fábio da Silva Botelho Fabricio Fonseca Theodoro Enelson Candeia da Cruz Filho Fábio Caus Sicoli Gregson Afonso Lopes Chervenski
Presidente Vice-Presidente Membro 1º Suplente 2º Suplente 3º Suplente

Conselho de Ética

Carlos André Xavier Villela Fernando Fernandes de Lima José Alysson Dehon Moraes Medeiros Fábio Vinícius Moura de Carvalho Gontran Gifoni Neto Thalles Evangelista F. de Souza
Presidente Vice-Presidente Membro-Titular 1º Suplente 2º Suplente 3º Suplente

Diretorias Regionais

ACRE GOIÁS FOZ DO IGUAÇU SANTA CATARINA


Diretor Regional: Diogo Otávio Scalia Pereira Diretor Regional: Isleamer Abdel K. dos Santos Diretor Regional: Denir Valêncio de Campos Diretor Regional: Norberto Bau
Vice-Diretor: Leandro Bezerra Di Barcelos Vice-Diretor: Rodrigo Albernaz Bezerra Vice-Diretor: Sandro Luis Schalanski Vice-Diretor: Eduardo Zacchi
Diretor Financeiro: Gabriel Giacomolli Diretor Financeiro: Denis de Barros Rezende Diretor Financeiro: José Ricardo Rocha Silva Diretor Financeiro: Antonio César B. Junior
E-mail: apcf.ac@apcf.org.br E-mail: apcf.go@apcf.org.br E-mail: apcf.pr@apcf.org.br E-mail: apcf.sc@apcf.org.br

ALAGOAS SÃO PAULO


MARANHÃO
Diretor Regional: Rômulo Vilela Ferreira GUAÍRA Diretor Regional: Euler Nobre Vilar
Diretor Regional: Jose Osmar Campos da Silva
Vice-Diretor: Gleison Marques Lemos Leoni Diretor Regional: Eduardo de Oliveira Barros Vice-Diretor: Mc Donald Parris Júnior
Vice-Diretor: Afonso Klaus Elvas Bohn
Diretor Financeiro: Dário Alves Lima Junior Vice-Diretor: Andre Rodrigues Lima Diretor Financeiro: Ronaldo de Moura Ramos
Diretor Financeiro: Carlos Rodrigo Souza Santos
E-mail: apcf.al@apcf.org.br Diretor Financeiro: Marson Eduardo Schlittler E-mail: apcf.sp@apcf.org.br
E-mail: apcf.ma@apcf.org.br
E-mail: apcf.pr@apcf.org.br
AMAPÁ ARAÇATUBA
Diretor Regional: Rafael Guimarães Alves MATO GROSSO Diretor Regional: Mário Sérgio Gomes de Faria
Vice-Diretor: Raimundo Nonato Alves Carneiro Diretor Regional: Lindeberg Pessoa Leite LONDRINA Vice-Diretor: Nevil Ramos Verri
E-mail: apcf.ap@apcf.org.br Vice-Diretor: Renato de Nobrega Franco Diretor Regional: Roberto Maurício Américo Diretor Financeiro: Max Lima e Motta
Diretor Financeiro: Walvernack Beserra Vice-Diretor: Fernando Takashi Itakura E-mail: apcf.sp@apcf.org.br
E-mail: apcf.mt@apcf.org.br E-mail : apcf.pr@apcf.org.br
AMAZONAS
Diretor Regional: Marcos Antonio Mota Ferreira CAMPINAS
E-mail: apcf.am@apcf.org.br Diretor Regional: Gabriel Renaldo Laureano
MATO GROSSO DO SUL PARAÍBA Vice-Diretor: Ayrton Monteiro Cristo
Diretor Regional: André Luís de Abreu Moreira Diretor Regional: Agadeilton Gomes L. de Menezes E-mail: apcf.sp@apcf.org.br
Vice-Diretor: Silvio Cesar Paulon Vice-Diretor: Luis Gustavo Canesi Ferreira
BAHIA Diretor Financeiro: Marcos Paulo A. de Carvalho Diretor Financeiro: Felipe Gonçalves Murga
Diretor Regional: Jovino Pereira da Fonseca Neto E-mail: apcf.ms@apcf.org.br E-mail: apcf.pb@apcf.org.br
Vice-Diretor: Marcelo Moreira Costa MARÍLIA
Diretor Financeiro: Mozart Pimentel M. de Barros Diretor Regional: Mauro Mercadante do Amaral
E-mail: apcf.ba@apcf.org.br Vice-Diretor: Lucas Barros de Andrade
MINAS GERAIS PIAUÍ E-mail: apcf.sp@apcf.org.br
Diretor Regional: Mauricio De Souza Diretor Regional: Breno Teixeira Guedes
JUAZEIRO Vice-Diretor: Marcelo Carvalho Lasmar Vice-Diretor: André Francisco Silva Medina
Diretor Regional: Deosio Cabral Pereira Diretor Financeiro: Marcus Vinicius de O. Andrade Diretor Financeiro: Weyler Nunes M. Lopes
Vice-Diretor: Marco Antônio Valle Agostini E-mail: apcf.pi@apcf.org.br SOROCABA
E-mail: apcf.mg@apcf.org.br
E-mail: apcf.ba@apcf.org.br Diretor Regional: Adriano Jorge Martins Corrêa
Vice-Diretor: Marcelo Americo de Almeida
E-mail: apcf.sp@apcf.org.br
UBERLÂNDIA RIO DE JANEIRO
CEARÁ
Diretor Regional: Jorge Eduardo de Sousa Aguiar Diretor Regional: Levi Roberto Costa
Diretor Regional: Eurico Monteiro Montenegro PRESIDENTE PRUDENTE
Vice-Diretor: Lúcio Flávio Costa Melo Vice-Diretor: Luiz Felipe Alves Margutti
Vice-Diretor: José Carlos Lacerda de Souza Diretor Regional: Ricardo Samu Sobrinho
Diretor Financeiro: Glycon Sousa Rodrigues E-mail: apcf.rj@apcf.org.br
Diretor Financeiro: Francisco dos Santos Lopes Vice-Diretor: Raimundo Chabowski
E-mail: apcf.ce@apcf.org.br E-mail: apcf.mg@apcf.org.br
E-mail: apcf.sp@apcf.org.br
RIO GRANDE DO NORTE
Diretor Regional: Gabriel Toselli Barbosa
DISTRITO FEDERAL Tabosa do Egito
Diretor Regional: Antônio Carlos Mesquita PARÁ SERGIPE
Vice-Diretor: Odair de Souza Glória Junior
Vice-Diretor: Hélio Buchmüller Lima Diretor Regional: Wendel Oliveir Vitor Diretor Regional: Alex Souza Sardinha
Diretor Financeiro: César de Macedo Rêgo
Diretor Financeiro: Luiz Mariano Júnior Vice-Diretor: José de Franca Filho Vice-Diretor: Marcio Rocha
E-mail: apcf.rn@apcf.org.br
E-mail: apcf.df@apcf.org.br E-mail: apcf.pa@apcf.org.br Diretor Financeiro: Reinaldo do Couto Passos
E-mail: apcf.se@apcf.org.br

ESPÍRITO SANTO PARANÁ RORAIMA TOCANTINS


Diretor Regional: Márcio Pereira Machado Diretor Regional: Fernando Pflug Comparsi Diretor Regional: Jorge Cley de Oliveira Rosa Diretor Regional: Erich Adam Moreira Lima
Vice-Diretora: Jane Karla Rocha Coutinho Vice-Diretor: Ricardo Andres Reveco Hurtado Vice-Diretor: Yuri do Amaral Nobre Maia Vice-Diretor: Carlos Antônio Almeida de Oliveira
Diretor Financeiro: Maurício Siqueira Fagundes Diretor Financeiro: Gustavo Ota Ueno Diretor Financeiro: Alexandre Salgado Junqueira Diretor Financeiro: Koichi Ouki
E-mail: apcf.es@apcf.org.br E-mail: apcf.pr@apcf.org.br E-mail: apcf.rr@apcf.org.br E-mail: apcf.to@apcf.org.br
SUMÁRIO EDITORIAL: Marcos de Almeida Camargo

Ano XVIII – Número 40 - Dezembro de 2017

PAU D’ARCO
Caros leitores,
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Danielle Ramos
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De

e Taynara
Figueiredo A edição nº 40 da Revista Perícia Federal traz
Página 24 como destaque a maior reprodução simulada da histó-
ria da Perícia Federal, a chacina de Pau D’Arco, que levou
à morte dez posseiros no dia 24 de maio deste ano na
Fazenda Santa Lúcia. Nas próximas páginas, você pode-
9 771806 807001
ISSN 1806-8073

CABEÇA BRANCA
Como a perícia identificou
um dos maiores traficantes
da América Latina
CPP
Saiba como está a
tramitação do novo Código
de Processo Penal
rá conhecer os detalhes sobre como foram conduzidos
os trabalhos dos peritos criminais federais e o resultado
ENTREVISTA dos exames realizados.

Foto: Agência Câmara


Deputado federal João Campos Dentro da mesma temática de local de crime, con-
Página 2
vido-o a conhecer a Área de Perícias Externas (APEX) do
ÁREAS DA PERÍCIA Instituto Nacional de Criminalística, na coluna Áreas da
Perito criminal federal Luiz Guilherme Barros Perícia desta edição. Entenda, também, um pouco so-
Cocentino
bre o estudo das manchas de sangue, em artigo assina- Os peritos criminais
Página 6
do pelo perito criminal federal Antônio Canelas. Recen- federais realizaram
IMPRESSÃO DIGITAL temente, Canelas lançou um livro que aborda de forma
Perito criminal federal Alexandro Mangueira Lima bastante didática a fluidodinâmica da formação de um trabalho exemplar
de Assis, professora Dra. Adriana Santos Ribeiro,
professor Dr. Luiz Antônio Ferreira da Silva e pesqui- manchas de sangue, interpretação em local de crime e durante a reprodução
sadoras Cristiane Vieira Costa, Lillia Iamar Leite documentação, além da elaboração do laudo técnico;
Maciel Gama, Natali Oliveira Damasceno, Wanessa simulada da chacina
Moura Galvão Soares e Rosanny Christhinny Silva
um verdadeiro passo a passo para quem quer entender
Página 10 melhor sobre o tema. O artigo já é um ótimo aperitivo! de Pau D`Arco.
Nesta edição, conheça também o caminho usado
BANCO DE DADOS DE DNA pela Polícia Federal para chegar até o “Cabeça Branca”,
Professor João Costa Neto e perito criminal federal
Bruno Rodrigues Trindade um dos maiores traficantes da América Latina. Foi por
Página 15 meio de um exame pericial de reconhecimento facial
que a PF conseguiu localizar o criminoso, foragido há
MANCHAS DE SANGUE cerca de 20 anos.
Perito criminal federal Antonio Augusto Canelas
Neto
Por fim, saiba como anda a tramitação do novo Có-
Página 19 digo de Processo Penal no Congresso Nacional e o que
pensa o relator da proposta, em uma entrevista exclusi-
CABEÇA BRANCA va para a equipe da Revista Perícia Federal.
Taynara Figueiredo
Página 32
Boa leitura!
DROGAS
Perito criminal federal Rafael Scarsatto Ortiz e
Renata Pereira Limberger
Página 35
Marcos de Almeida Camargo
CPP Presidente da APCF
Danielle Ramos
Página 38
Revista Perícia Federal
Planejamento e produção: CTP e Impressão: Correspondência para:
PRÊMIO CONGRESSO EM FOCO Assessoria de Comunicação da APCF TC Gráfica e Editora Revista Perícia Federal
Taynara Figueiredo comunicacao@apcf.org.br Tiragem: SHIS QI 09, conjunto 11, casa 20
Página 46 Redação: 10.000 exemplares Lago Sul - Cep: 71.625-110 Brasília/DF
Danielle Ramos e Taynara Figueiredo A revista Perícia Federal é uma Telefones: (61) 3345-0882/3346-9481
LOCAL DE CRIME Coordenação e edição: publicação da APCF e não se
E-mail: apcf@apcf.org.br
Danielle Ramos e Taynara Figueiredo responsabiliza por informes
Perito criminal Cássio Thyone Almeida de Rosa Assinatura da revista:
Capa, arte, diagramação e revisão: publicitários nem opiniões e conceitos
Página 48 AbrilDesign emitidos em artigos assinados. www.apcf.org.br

Perícia Federal 1
ENTREVISTA: deputado federal João Campos

DEPUTADO FEDERAL
JOÃO CAMPOS
João Campos de Araújo é natural
do município de Peixe, hoje
estado do Tocantins, e tornou-se
deputado federal pelo PSDB em
2002. Foi reeleito pelo estado
de Goiás em 2006, 2010 e 2014.
Hoje, filiado ao PRB, é titular da
Comissão de Constituição e Justiça
e de Cidadania, da Comissão de
Segurança Pública e Combate ao
Crime Organizado e Suplente da
Comissão de Seguridade Social e
Família. Neste ano, foi escolhido
relator do Novo Código de
Processo Penal.

O deputado federal é delegado


de polícia do estado de Goiás,
especializou-se em Direito
Constitucional e Direito
Administrativo na Academia de
Polícia Civil de Goiás e possui
pós-graduação em Direito Penal
e em Direito Processual Penal.

Em entrevista à Revista Perícia


Federal, o deputado fala sobre a
reforma do Código de
Processo Penal.

2 Perícia Federal
ENTREVISTA: deputado federal João Campos

Em que consiste a reforma do Qual é o papel do relator na refor- diz respeito à prova pericial, a possibilida-
CPP e qual a sua importância, con- ma do CPP? de de torná-la dispensável eu não consigo
siderando que se trata de um código É o papel mais difícil. Isso porque o compreender, não consigo ter essa visão.
com quase 80 anos? relator possui conhecimentos e con- Eu acho que ela é indispensável e dentro
De fato o Código, que é de 1941, está vicções, mas ao mesmo tempo tem a do princípio da licitude da prova é necessá-
ultrapassado. Embora no curso desse consciência de que não é isso que irá rio ter a compreensão do aproveitamento
tempo ele tenha sofrido diversas alte- prevalecer. Além disso, é necessário pro- maior dessa prova.
rações, nunca passou por uma reforma curar harmonizar de alguma forma os Em 2008 foi inserida a figura do
geral. Há hoje a necessidade de o Brasil relatórios parciais, e mesmo assim, com assistente técnico no processo pe-
dispor de um novo conjunto de normas a consciência de que, quando o relatório nal e cuja atuação se dá a partir da
processuais na área criminal para dar efe- for apresentado, os mais diversos mem- admissão pelo Juiz e apenas após a
tividade aos trabalhos de polícia judiciá- bros da Comissão vão questionar. Enxer- conclusão dos exames e elaboração
ria e de justiça criminal. go que não será possível ceder demais, dos laudos pelos peritos oficiais.
Existe uma compreensão de que o Có- e nem endurecer muito, para não correr Como o senhor enxerga a atuação
digo tem contribuído sobremaneira para o risco da não aprovação. O que eu mais desse profissional já durante a fase
a impunidade. Exemplo disso é o capítulo desejo como relator é que o projeto seja de produção da prova material e
que trata dos recursos. Há uma previsão de aprovado e, com isso, será necessário en- não apenas após a elaboração do
contrar um ponto de equilíbrio com os laudo? O senhor acredita que seria
recursos intermináveis. Entendo que os re-
sub-relatores e depois com o conjunto viável a participação do assisten-
cursos são imprescindíveis em relação a al-
da Comissão. Não significa dizer que te- te dentro das instituições policiais
gumas garantias constitucionais, o devido
nho pretensão de ter unanimidade apro- ou dos institutos de criminalística
processo legal, o contraditório e especial-
vando o relatório, mas é necessário o acompanhando a execução dos exa-
mente o que se refere à garantia da ampla
equilíbrio que garanta a aprovação, para mes periciais?
defesa. Mas o atual Código permite que
vencer essa etapa e chegar ao plenário. Eu avalio que a presença do assistente
esses recursos transcendam esse aspecto e
Avalio que, como relator, preciso ter uma técnico deve ser em circunstâncias bem
quando o recurso vai além disso, isso signi-
capacidade de diálogo muito grande definidas, que isso não seja aberto e nem
fica impedir que a justiça criminal se efeti-
com os pares, especialmente por se tratar mesmo uma possibilidade de substitui-
ve, o que significa garantir a impunidade,
de um Código – uma matéria muito ex- ção da perícia oficial – nessa ótica, sem
não a justiça.
tensa que nem todos tem conhecimento nenhuma possibilidade. Mas a assistên-
Qual é a tramitação do projeto e
– para viabilizar a aprovação da matéria. cia em circunstâncias excepcionais, com
em que ponto desse processo ele
Isso é o maior desafio como relator. regras objetivas, acho que pode ser uma
se encontra? Em julgamento recente do STF, boa inovação dentro do Código de Pro-
O projeto teve início no Senado e a o Ministro Fachin não recebeu a cesso Penal.
Câmara está como Casa revisora. Na Co- denúncia do MPF por ela ter sido Considerando que o Código atual
missão Especial, nós constituímos cinco feita com base apenas em delação. sujeita os peritos oficiais à discipli-
sub-relatores, que tinham um prazo para Nesse sentido, como o senhor vê na judiciária, aos quais se aplica o
apresentar até o mês de maio, mas devido a imprescindibilidade da prova pe- disposto sobre incompatibilidades,
ao volume muito grande de atividades, os ricial no processo penal, sob pena impedimentos e suspeições dos
sub-relatores não conseguiram, de tal for- de nulidade? juízes; o que o senhor acha sobre
ma que somente no mês de agosto é que A prova pericial sempre foi imprescin- a importância de que esses profis-
foi finalizada a apresentação desses traba- dível. A hipótese de o processo seguir sionais sejam convocados na con-
lhos. O desejo é apresentar o relatório final sem a prova pericial é “a exceção da exce- dição de peritos criminais e não
o quanto antes para que possamos ter a ção”, quando as circunstâncias realmente como testemunhas, como atual-
possibilidade de votar ainda este ano na não permitem. mente ocorre?
Câmara Federal. Se não for possível a vo- A tendência hoje é fazer um esforço Embora convocado na condição de tes-
tação em plenário, ao menos encerrar os maior para ter o melhor aproveitamento temunha, ele acaba atuando como perito.
trabalhos da Comissão Especial. possível dos atos processuais. Mas o que Acho que nós apenas alteramos a nomen-

Perícia Federal 3
ENTREVISTA: deputado federal João Campos

clatura dessa participação do perito em produção do seu trabalho como contribui- antes, portanto, da vigência da lei,
uma audiência ou em outro momento do ção da Justiça. trata da lei de execução penal sem
processo, senão aquele da produção da A Lei nº 1.2654/12, que altera a abordar essa nova legislação. Caso
prova, para trazer mais luz e conhecimento Lei de Execução Penal, prevê a co- o projeto seja aprovado sem essa
à prova produzida, ao trabalho desenvolvi- leta de perfil genético como forma previsão, qual o risco de impacto na
do, que é inteiramente científico, do que de identificação criminal. A lei é ori- aplicação da 1.2654/12? Ela seria re-
necessariamente testemunha, já que dificil- ginária do PLS 93/11 (senador Ciro vogada? Nesse caso, ainda é possí-
mente ele testemunhou o fato. Nogueira) que, na Câmara, tramitou vel evitar a revogação?
O perito tem conhecimento do fato como PL 2458/11, do qual o senhor Sem ter a oportunidade de poder exa-
em função do trabalho que desenvolveu, foi o relator em plenário e peça de- minar a matéria adequadamente, penso
mas não testemunhou. Acho que se tra- cisiva para aprovação do projeto, de que, ainda que o Código não faça referên-
ta de dar uma linguagem mais adequada extrema relevância para perícia ofi- cia, como se trata de uma lei especial, ela
para esse momento do perito no curso do cial e para a sociedade. Entretanto, não será revogada, já que prevalece. Con-
processo, não aquele momento apenas da a reforma do CPP, iniciada em 2010, tudo, acho muito salutar que o Código, de

4 Perícia Federal
ENTREVISTA: deputado federal João Campos

alguma forma, abarcasse essa coleta de a profissionalização, o aproveitamento do prevaleça. Desejo que, no trabalho que es-
perfis genéticos. conhecimento; e, sem isso, estamos fada- tou fazendo agora, a categoria possa trazer
Como o senhor avalia a maior dos a fracassar. O sistema não funciona. sugestões – mesmo já tendo vencido as
inclusão da ciência na elaboração Acho que as experiências citadas são mui- fases de audiências públicas – e suas con-
das políticas de segurança pública, to positivas, de tal forma que vejo com tribuições para ao meu trabalho. Mesmo
notadamente com o desenvolvimen- muito bons olhos. depois que eu apresentar o relatório geral,
to de ferramentas como IPED, LED, Deixe uma mensagem para os me coloco aberto e à disposição para aco-
SIMBA, rede integrada de bancos de peritos criminais federais, leitores e lher e discutir contribuições e sugestões.
perfis genéticos, perfil químico de responsáveis por essa publicação. Como sei que a categoria dos peritos cri-
drogas etc.? Quero deixar a minha manifestação de minais federais é uma categoria muito qua-
Vejo que nós não temos alternativas reconhecimento ao trabalho que os peri- lificada e que sempre se apresenta na Casa
senão o emprego da ciência na seguran- tos oficiais realizam no Brasil em favor da com esse espírito de colaboração, estou
ça pública. Acho que esse é o caminho, já justiça criminal, em favor, portanto de um muito aberto para isso e gostaria de rece-
que significa adoção de novas tecnologias, processo ágil e que busca que a verdade ber essas contribuições.

Perícia Federal 5
ÁREAS DA PERÍCIA: perito criminal federal Luiz Guilherme Barros Cocentino

Peritos criminais em ação em um local de crime.


Áreas da Perícia

PERÍCIAS
EXTERNAS
APEX
A
o se pensar em um local de crime,
logo vem a imagem de um lugar
ermo com um cadáver presente,
muito sangue, uma arma deixada e um
“detetive” analisando os vestígios para so-
lucionar o crime, no melhor estilo Agatha
Christie. Na vida real, porém, nem sempre
os locais de crime são de morte violenta
e o detetive não é Hercule Poirot, mas sim
um perito criminal.

Perito criminal em um local de crime.

Foto: André Zímmerer

A perícia de local de crime é o berço po Especializado de Bombas e Explosivos


da criminalística. Na Polícia Federal, todos e estabelecendo novas atribuições. Atual-
os peritos criminais federais estão aptos a mente, à APEX compete executar exames
procederem com esse tipo de exame. No periciais; prestar apoio técnico-científico às
âmbito da Diretoria Técnico-Científica, as unidades descentralizadas de criminalística;
atividades relacionadas a local de crime e elaboração de normativos; e propor e rea-
outras perícias externas do Instituto Nacio- lizar eventos de capacitação nas seguintes
nal de Criminalística são desenvolvidas pela áreas do conhecimento:
Área de Perícias Externas (APEX). ●● Locais de crime contra o patrimônio;
A APEX foi criada em dezembro de 2008 ●● Locais de morte violenta ou crimes contra
pela Portaria nº 011/2008-GAB/INC. Inicial- a pessoa;
mente era constituída em dois grupos: Gru- ●● Locais de acidentes de trânsito;
po de Perícias em Locais de Crime e Grupo ●● Locais de incêndio;
Especializado em Bombas e Explosivos. Em ●● Exame de Reprodução Simulada;
maio de 2014, a Portaria nº 039/2014-INC ●● Exames em veículos; e
reformulou a APEX, desvinculando o Gru- ●● Exames biométricos.
Foto: André Zímmerer

6 Perícia Federal
ÁREAS DA PERÍCIA: perito criminal federal Luiz Guilherme Barros Cocentino

TRABALHOS PERICIAIS ta Lúcia, no município de Pau D’arco/PA,


NORMATIVOS
considerada a maior reprodução simulada
A padronização de procedimentos no
Dentre os exames periciais realizados já realizada no âmbito da Polícia Federal e
âmbito da perícia federal é uma constan-
pela APEX e atendendo a função de apoio tema de reportagem de capa desta edi-
te preocupação da APEX. Buscando a uni-
às unidades descentralizadas de criminalís- ção. Participaram dos exames dez peritos,
formização das atividades e a orientação
tica, destacam-se os Laudos de Reprodução compondo uma equipe multidisciplinar
dos peritos, a Área de Perícias Externas
Simulada. Desde 2014, já foram elaborados representada por experts em local de cri-
elaborou as Instruções Técnicas 20/2013,
mais de dez exames de reprodução simula- me, reprodução simulada e medicina legal.
21/2014 e 23/2014 – DITEC/PF. Elas dis-
da em apoio aos estados da Bahia, do Goiás, Nessa perícia, a troca de experiências entre
põem sobre as diretrizes e a padronização
do Mato Grosso do Sul, de Minas Gerais, do os peritos da Polícia Federal e do Instituto
de procedimentos a serem adotados nas
Pará, do Paraná, de São Paulo e do Tocantins. de Perícias Renato Chaves do Pará (perícia
perícias em local de crime, perícias em veí-
Destaque ao recente caso envolvendo a estadual) fortaleceu a relação interinstitu-
culos terrestres e em locais de acidente de
morte de dez acampados na Fazenda San- cional defendida pela APEX.
tráfego, respectivamente.
Bastidores da equipe de apoio da Reprodução Simulada realizada em Pau D’Arco/PA.
CAPACITAÇÃO
A APEX é a área responsável pela maior
carga horária específica nos cursos de for-
mação dos peritos criminais federais, sendo
64 horas/aula de Local de Crime, 30 horas/
aula de Incêndio, 14 horas/aula de Perícias
em Veículos e 30 horas/aula de Acidente de
Tráfego. Ou seja, de um total de 452 horas do
eixo de perícias gerais, a APEX é responsável
por aproximadamente 30% da carga horária.
Além dos cursos de formação de peritos, a
APEX é ainda responsável pelos módulos de
Isolamento e Preservação de Local de Crime
Foto: Guilherme de Miranda
e Acidentes de Tráfego da disciplina de No-
ções de Criminalística destinada aos demais
Equipe pericial que trabalhou em Pau D’Arco/PA. Da esquerda para direita: perito Bentes (CPCRC/
cargos da polícia federal (agentes, escrivães,
PA), PCF Wendel (SETEC/PA, PCF Cocentino (APEX), PCF Guilherme (em missão na APEX),
PCF Cristiano (APEX), PCF Michael (SETEC/PA, perito Leão (CPCRC/PA), PCF Jesus (SETEC/PA), papiloscopistas e delegados).
motorista Jairo (CPCRC/PA), PCF Rodrigo (APMOD) e perito Jânio Além dessa forte atuação na forma-
ção inicial dos peritos criminais, a APEX
mantém ações constantes de capacitação
destinadas a atualização dos peritos em
exercício. Na área de perícias em veículos,
desde 2014 já foram capacitados mais de
150 peritos criminais federais das mais dife-
rentes unidades de criminalística para iden-
tificação de fraudes veiculares. Geralmente
esses treinamentos ocorrem onde há maior
demanda de veículos fraudados, como Foz
do Iguaçu/PR e Campo Grande/MS, locali-
dades em que o perito tem a oportunidade
de aprender, praticar e auxiliar as unidades
Foto: Guilherme de Miranda na redução das pendências.

Perícia Federal 7
ÁREAS DA PERÍCIA: perito criminal federal Luiz Guilherme Barros Cocentino

Curso prático de local de crime nas dependências Instruções no curso prático de local de crime nas de-
da Academia Nacional de Polícia. pendências da Academia Nacional de Polícia.

Participantes do curso de Local de Crime,


ocorrido de 18 a 29/09/2017, na Academia Nacional
de Polícia em Brasília.

AQUISIÇÕES
A APEX coordenou o processo de Iden-
tidade Visual da Perícia Federal em Local
Foto: Luciana Schmidt Foto: : Rodrigo Mayrink
de Crime, por meio da aquisição de Fitas
de Isolamentos personalizadas e de kits de
Desde 2015 encontra-se disponível o GRUPOS DE TRABALHO marcadores de vestígios para todas as uni-
curso de Ensino a Distância (EAD) de Local
A APEX participa de grupos de traba- dades de criminalística descentralizadas.
de Crime, com uma carga horária de 80 ho-
lhos internos e externos à Polícia Federal. No Viaturas 4x4 adaptadas para o uso das equi-
ras/aula. Em setembro desse ano, ocorreu
âmbito nacional, a APEX teve participação pes de local de crime também foram ad-
na Academia Nacional de Polícia o primeiro
direta junto à Senasp na confecção do Pro- quiridas pela Ditec, em complementação à
módulo presencial do curso, de 80 horas/
cedimento Operacional Padrão de Perícia compra realizada pela Senasp.
aula eminentemente prático, que contou
com a participação de 17 peritos criminais Criminal de Levantamento de Local de Crime
de diferentes localidades. O curso foi um Contra a Pessoa e nos processos de especifi- QUADRO ATUAL
sucesso de avaliação entre os participantes. cações e compras de viaturas, maletas e luz A equipe da APEX, até julho do corrente
Outras ações de capacitação, como atuali- forense para o uso em local de crime. Interna- ano, era composta por apenas três peritos cri-
zação em perícias de acidente de tráfego cionalmente, a APEX representa a DITEC em minais federais e dois agentes administrativos.
e de incêndio, são anualmente incluídas Grupos de Trabalhos relacionados a local de Desde julho deste ano, a APEX absor-
no Plano de Ação de Capacitação (PAC) da crime da AICEF (Academia Iberoamericana veu, em caráter experimental, a demanda
Academia Nacional de Polícia. de Criminalistica y Estudios Forenses). pericial de polícia judiciária da delegacia de

8 Perícia Federal
ÁREAS DA PERÍCIA: perito criminal federal Luiz Guilherme Barros Cocentino

Kit de marcadores e fitas de isolamento personalizados adquiridos para todas as unidades de criminalís-
tica da Polícia Federal.

Foto: Deiler Paulo

dia na circunscrição do Distrito Federal. Para Viaturas de Local de Crime no pátio do fabricante em Catalão/GO.
tanto, disponibiliza um perito 24 horas, sete
dias por semana, em regime de plantão,
para atender às ocorrências de drogas, lo-
cal de crime e outras atividades demanda-
das pela autoridade policial. Para viabilizar
isso, a APEX teve um incremento de mais
sete peritos criminais em missão provisória,
além de contar com o efetivo do INC em
regime de sobreaviso para atuar como se-
gundo perito, caso necessário.

PERFIL DO PERITO
Para atuar na Área de Perícias Externas
não se faz necessária nenhuma formação
pericial específica. Ao contrário, quanto
mais variada e multidisciplinar a equipe,
melhor. Todavia o perito precisa ter um per-
fil observador e dinâmico, disponibilidade
para viagens/missões, certo preparo físico e
o mais importante, saber atuar como mem-
bro de uma equipe. Foto: Luiz Cocentino

Perícia Federal 9
IMPRESSÃO DIGITAL: perito criminal federal Alexandro Mangueira Lima de Assis, professora Dra. Adriana Santos Ribeiro, professor Dr. Luiz Antônio Ferreira da
Silva e pesquisadoras Cristiane Vieira Costa, Lillia Iamar Leite Maciel Gama, Natali Oliveira Damasceno, Wanessa Moura Galvão Soares e Rosanny Christhinny Silva

MATERIAIS
INOVADORES
PARA REVELAÇÃO
DE IMPRESSÕES
DIGITAIS
Uso de polímeros condutores
para revelação de impressões
digitais latentes presentes em
superfícies metálicas

10 Perícia Federal
IMPRESSÃO DIGITAL: perito criminal federal Alexandro Mangueira Lima de Assis, professora Dra. Adriana Santos Ribeiro, professor Dr. Luiz Antônio Ferreira da Silva e
pesquisadoras Cristiane Vieira Costa, Lillia Iamar Leite Maciel Gama, Natali Oliveira Damasceno, Wanessa Moura Galvão Soares e Rosanny Christhinny Silva

B
aseada no Princípio da Troca de Lo- lhido com um dos componentes solúveis A deposição eletroquímica de polímeros
card, a expressão “cada contato dei- em água ou com os lipídios do depósito de condutores na superfície de um metal (que
xa um rastro” justifica bem a impor- suor. Os reagentes e os métodos convencio- atua como um eletrodo) torna-se uma es-
tância de analisar os vestígios oriundos de nais incluem a aplicação de pós, que podem tratégia interessante, pois as propriedades
cenas de crimes. As evidências físicas en- ser coloridos, luminescentes, magnéticos relacionadas à variação de coloração do polí-
contradas em um local de crime podem, ou termoplásticos, ou ainda a utilização de mero condutor em função do potencial elé-
de forma independente e objetiva, associar ninidrina, cianoacrilato de etila, dentre ou- trico aplicado podem ser manipuladas. Em
um suspeito ou vítima à cena do delito, re- tras substâncias químicas [4,5]. No entanto, termos práticos, essa estratégia possibilita o
futar um álibi ou desenvolver uma impor- embora sejam de visualização instantânea, ajuste do contraste visual entre a impressão
tante linha de investigação [1,2]. estas técnicas podem ter efeito destrutivo digital e a superfície metálica, permitindo
Dentre as evidências mais encontradas em detalhes da imagem ou mesmo não uma melhor visualização da mesma.
em cenas de crime, as impressões digitais fornecer um padrão de contraste necessário
se destacam. Tratam-se de marcas deixadas aos procedimentos de identificação.
em superfícies em função do contato com De modo geral, apesar dos esforços para
as papilas dérmicas, que são pequenas sa- melhorar a visualização das impressões digi-
liências de natureza neurovascular, situadas tais em diferentes superfícies e tipos espe-
na parte superficial da derme, cujos ápices cíficos de evidências, observa-se uma baixa
reproduzidos pelos relevos são observáveis taxa de sucesso na revelação e visualização
na epiderme. O uso de impressões digitais de impressões digitais com qualidade ade-
coletadas em cenas de crime é um impor- quada para a identificação inequívoca de
tante meio de identificar criminosos e solu- indivíduos. Isso se dá especialmente no caso
cionar delitos, desde que foi sugerido pela de superfícies metálicas [4], como, por exem-
primeira vez no século XIX [1,2,3]. plo, revólveres, armas brancas e elementos
A investigação criminal inicia-se pelo de munição, como cartuchos e estojos.
exame do local do crime e os procedimen- Recentemente, o Grupo de Pesquisas
tos de coleta de vestígios para posteriores de Materiais e Interfaces da Universida-
exames periciais em laboratório, para en- de de Leicester na Inglaterra, coordenado
tão convertê-los em evidências ou provas pelo Prof. A. R. Hillman, propôs um novo
materiais [2]. Sendo assim, a química e suas conceito para revelação de impressões
áreas afins têm um papel destacado nas digitais latentes depositadas em super-
Ciências Forenses no tocante a tecnologia, fícies metálicas. Ele é baseado no uso do
metodologias e materiais empregados na material sebáceo presente nas impressões
análise de vestígios. digitais como template ou “máscara”, por
No caso de investigações criminais, a ima- meio do qual um polímero condutor é de-
gem da impressão digital envolvida é geral- positado sobre a superfície metálica a par-
mente resultante da transferência de material tir da passagem de uma corrente elétrica
da pele para a superfície que é tocada pelo (ou aplicação de uma diferença potencial Figura1: Representação esquemática da estratégia
usada para visualização das impressões digitais laten-
dedo. Entretanto, apesar de ser uma evidên- elétrico), formando uma imagem em “ne-
tes por meio da deposição de um polímero condutor:
cia forense bastante comum, as impressões gativo” da impressão digital [4,6,7]. A me- a) superfície metálica; b) superfície metálica contendo
digitais latentes são pouco visíveis (ou até todologia proposta tem como premissa o a impressão digital latente; c) superfície imersa em
mesmo invisíveis) e geralmente requerem fato de que as impressões digitais contêm uma solução contendo o reagente de partida; d) su-
tratamento com substâncias coloridas ou material não condutor suficiente para for- perfície coberta com o filme polimérico; e) imagem do
fluorescentes para sua revelação no intuito de mar uma camada isolante na superfície do contraste entre a região onde o polímero foi deposita-
do (em azul) e a “máscara” contendo os resíduos sebá-
serem posteriormente analisadas [1-3]. metal, evitando a deposição eletroquímica
ceos da impressão digital (material isolante) onde não
Os métodos mais utilizados atualmen- do polímero condutor na região onde o houve deposição do polímero condutor. Adaptado da
te para visualização de impressões digitais material sebáceo está presente [8], confor- ref. [6] com permissão, Copyright 2012 Royal Society
envolvem a interação do reagente esco- me mostrado na Figura 1. of Chemistry.

Perícia Federal 11
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A aplicação prática do uso dos polí- DEPOSIÇÃO digital latente foi previamente depositada,
meros condutores para visualização de uma placa de platina (responsável por per-
impressões digitais latentes presentes em
ELETROQUÍMICA mitir a passagem de corrente no sistema) e
superfícies metálicas na área de Ciências DOS POLÍMEROS um eletrodo de prata imerso em uma so-
Forenses é recente. Os avanços relaciona- CONDUTORES lução de cloreto de prata (responsável pela
dos à metodologia proposta ainda são re- Os polímeros foram depositados sobre medida do potencial elétrico no sistema).
lativamente escassos, indicando que ainda superfícies de aço inoxidável contendo as As impressões digitais latentes foram
há muito conhecimento a ser explorado. impressões digitais latentes a partir de solu- reveladas por meio de diferentes técnicas
Portanto, o presente trabalho tem como ções de monômeros, tais como o pirrol e a eletroquímicas em que as condições expe-
objetivo o aprimoramento deste processo anilina, em meio aquoso. A deposição ele- rimentais, tais como corrente ou potencial
inovador, em se tratando da identificação troquímica foi realizada em um recipiente elétrico aplicados, tempo de aplicação da
humana a partir da revelação de impres- contendo um sistema de três eletrodos: uma corrente/potencial elétrico, concentração
sões digitais latentes. placa de aço inoxidável em que a impressão das soluções dos reagentes empregados,

COMO POLÍMEROS condutoras, além das propriedades típicas dos polí- perturbação externa, ou seja, os polímeros
meros convencionais. condutores são capazes de responder re-
PODEM SER versivelmente (e de formas diferentes) a um
CONDUTORES DE Após a sua descoberta, há cerca de 40 anos atrás, essa
classe especial de polímeros vem atraindo a atenção
estímulo elétrico.
ELETRICIDADE? de pesquisadores da academia e da indústria devido Dentre os polímeros condutores, o poli(pir-
às suas propriedades elétricas, magnéticas e ópti- rol), o poli(tiofeno) e a poli(anilina) são os
Desde meados dos anos 50 do século pas-
cas. Atualmente os estudos relacionados à síntese e mais investigados devido às suas excelentes
sado já se buscava associar as propriedades
caracterização de polímeros condutores buscam a propriedades, tais como boa condutividade
de condução elétrica inerentes aos metais, às
aplicação desses materiais em uma diversidade de elétrica, estabilidade química e versatilidade
excelentes propriedades de resistência me-
dispositivos tecnológicos, tais como displays, janelas estrutural. A possibilidade de modificar a es-
cânica e/ou flexibilidade apresentadas pelos
eletrocrômicas, células solares, LEDs, sensores, etc. trutura química desses polímeros através de
materiais poliméricos através da incorpora-
ção de cargas condutoras, como por exem- A principal diferença estrutural entre um polímero inserção de grupos funcionais específicos
plo fibras metálicas ou fibra de carbono. Os convencional e um polímero condutor consiste na é uma das principais vantagens em relação
polímeros que são capazes de conduzir ele- presença de ligações químicas simples e duplas al- a utilização dos polímeros condutores nas
tricidade sem a necessidade de se adicionar ternadas na estrutura do polímero, o que permite a mais diversas aplicações, uma vez que as
cargas condutoras ao material são também movimentação livre de elétrons através da cadeia possibilidades de desenvolvimento de no-
chamados de “polímeros condutores intrín- polimérica. Além disso, devido à presença destes elé- vas estruturas poliméricas com propriedades
secos” e constituem uma classe de polímeros trons livres na estrutura do polímero, é possível con- diferenciadas para aplicações inusitadas são
que apresentam propriedades eletricamente trolar as propriedades do material em relação a uma limitadas apenas pela imaginação.

Polipirrol

Politiofeno

Polianilina

12 Perícia Federal
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foram variados. Tudo isso de modo a se ob- vez que a escolha do polímero pode se Com o intuito de simular situações
ter filmes de polímeros depositados sobre a adequar ao tipo de superfície metálica a reais, as impressões digitais latentes foram
superfície metálica/impressão digital laten- ser investigada, proporcionando imagens reveladas após 24 horas e após sete dias
te com diferentes espessuras com o obje- com maior contraste e melhor resolução. depois da impressão digital ser aplicada
tivo de otimizar o contraste visual entre a Devido às características condutoras des- na superfície de placas de aço inoxidável.
superfície metálica e a impressão digital. ses polímeros, também é possível otimizar Este estudo teve como objetivo avaliar a
o contraste entre a impressão digital e a influência do tempo decorrido após o
VISUALIZAÇÃO DAS superfície metálica por meio da variação contato da impressão digital na superfí-
IMPRESSÕES DIGITAIS do potencial elétrico aplicado no sistema cie metálica nos resultados de deposição
após a revelação, sem danos à imagem ob- eletroquímica dos polímeros conduto-
Os polímeros condutores utilizados
tida inicialmente. A Figura 3 mostra as dife- res e a qualidade das imagens reveladas
neste trabalho foram o poli(pirrol), um deri-
rentes colorações assumidas pelo filme de para sua consequente identificação. Para
vado de tiofeno denominado poli(3,4-etile-
poli(anilina) depositado sobre a impressão tal finalidade, foram realizados ensaios
nodioxitiofeno), também conhecido como
digital em função da variação do poten- de deposição eletroquímica do polipirrol
PEDOT, e a poli(anilina). As imagens das im-
cial elétrico, em que é possível observar a em solução aquosa de perclorato de lítio
pressões digitais latentes reveladas a partir
variação do contraste de cor entre amare- (para garantir a condutividade da solução
da deposição eletroquímica dos respecti-
lo em potenciais elétricos negativos (-0,4 reagente) a partir da aplicação de uma
vos polímeros condutores são mostradas
corrente elétrica constante de 5,0 mA ao
na Figura 2, onde é possível observar clara- Volts), verde no estado neutro (0,0 Volts)
sistema eletroquímico.
mente a presença dos padrões de linhas e até azul em potenciais mais positivos (0,8
As imagens que forneceram uma me-
detalhes característicos da impressão digi- a 1,0 Volts).
lhor visualização e contraste entre a im-
tal, inclusive os poros sudoríparos.
A possibilidade de se utilizar diferentes AVALIAÇÃO DA pressão digital e a superfície metálica foram
aquelas obtidas utilizando-se o tempo de
tipos de polímeros condutores também METODOLOGIA aplicação da corrente elétrica em torno de
configura uma vantagem do método, uma PROPOSTA 60 segundos. Foi possível observar contras-
te satisfatório entre a impressão digital e a
A B C superfície metálica mesmo em impressões
digitais reveladas após sete dias decorri-
dos do contato entre a digital e a superfí-
cie (Figura 4). Esse resultado mostra que o
método empregado neste trabalho é mais
eficiente frente aos produtos comerciais co-
mumente utilizados com a mesma finalida-
de, especialmente em se tratando da pul-
verização de pós. Foi percebido que estes
últimos apresentam melhor performance
quando aplicados em impressões digitais,
ao terem um contato mais recente com a
Figura 2: Imagens datiloscópicas reveladas a partir da deposição eletroquímica de: a) poli(pirrol), b) PEDOT e c)
poli(anilina), sobre uma superfície de aço inoxidável. superfície, o que é facilmente constatado
na prática pericial.
-0,4 V -0,2 V 0,0 V 0,2 V 0,4 V 0,6 V 0,8 V 1,0 V As imagens obtidas após a revelação
das impressões digitais foram analisadas no
software Griaule Forensic Fingerprint versão
1.1, disponibilizado pela Secretaria Nacional
de Segurança Pública (Ministério da Justiça)
Figura 3: Imagens datiloscópicas reveladas após a deposição eletroquímica de poli(anilina) sobre uma superfície de aos órgãos oficiais de Perícia Criminal em
aço inoxidável em função do potencial elétrico aplicado ao sistema. todo o País, permitindo o aprimoramento,

Perícia Federal 13
IMPRESSÃO DIGITAL: perito criminal federal Alexandro Mangueira Lima de Assis, professora Dra. Adriana Santos Ribeiro, professor Dr. Luiz Antônio Ferreira da
Silva e pesquisadoras Cristiane Vieira Costa, Lillia Iamar Leite Maciel Gama, Natali Oliveira Damasceno, Wanessa Moura Galvão Soares e Rosanny Christhinny Silva

Os resultados sugerem a eficiência do


A B
método proposto pela análise meramente
visual das imagens datiloscópicas revela- SOBRE OS AUTORES
das, como a partir de um tratamento mais Alexandro Mangueira Lima de Assis1,2, Cris-
tiane Vieira Costa3, Lillia Iamar Leite Maciel
refinado dos dados obtidos.
Gama3, Natali Oliveira Damasceno3, Wanes-
sa Moura Galvão Soares2, Rosanny Chris-
A B thinny Silva2, Luiz Antônio Ferreira da Silva4,
Adriana Santos Ribeiro5
1. Perito Criminal Federal, Polícia Federal,
Superintendência Regional em Alagoas
Figura 4: Imagens datiloscópicas reveladas a partir da 2. Doutorando, Universidade Federal de
deposição eletroquímica do poli(pirrol) sobre uma su- Alagoas, Programa de Pós-graduação em
perfície de aço inoxidável: a) após 24 horas e b) após sete Química e Biotecnologia
dias decorridos do contato entre a digital e a superfície. 3. Iniciação Científica, Universidade Federal de
Alagoas, Instituto de Química e Biotecnologia
a edição, o estudo e a visualização de ima- 4. Professor Doutor, Universidade Federal
gens datiloscópicas obtidas a partir da reve- de Alagoas, Laboratório de DNA Forense
Figura 5: a) Imagem datiloscópica revelada a partir da 5. Professora Doutora, Universidade Federal
lação de impressões digitais latentes. deposição eletroquímica de poli(pirrol) e b) a mesma de Alagoas, Programa de Pós-graduação
Por se tratar de uma imagem em “nega- imagem submetida a análise pelo software forense. em Química e Biotecnologia
tivo” da impressão digital, inicialmente foi
empregado o comando de inversão de co-
res do software. No tratamento dos dados, CONCLUSÕES AGRADECIMENTOS
Ao Prof. A. R. Hillman da Universidade de Lei-
foi possível verificar os pontos de singula- A aplicação prática do processo de de- cester (Inglaterra), colaborador neste trabalho.
ridade, chamados de núcleo e delta, que posição eletroquímica de polímeros condu- Aos peritos criminais federais Márcio Talhavi-
definem o tipo fundamental, o padrão do tores para revelação de impressões digitais ni e Luiz Guilherme Barros Cocentino (Institu-
desenho formado pelas linhas ou a região latentes se deve justamente à possibilidade to Nacional de Criminalística, Polícia Federal)
pela contribuição em microscopia eletrônica
papilar a que pertence. de otimizar o contraste visual da impressão
e análise de imagens.
Além disso, foi possível observar clara- digital e, portanto, melhorar a qualidade de
À Polícia Federal pelo incentivo ao projeto.
mente as minúcias individualizadoras, tais definição da imagem revelada. A variação
À Thermo Fisher Scientific do Brasil pelo
como: morfologia das linhas, suas contor- das condições experimentais do processo apoio tecnológico.
ções, falhas, assim como os acidentes verifi- de deposição eletroquímica permite o con- À FAPEAL (processo 60030 393/2017), CNPq e CA-
cados pela presença dos poros sudoríparos trole das propriedades e da espessura dos PES pelos auxílios financeiros e bolsas concedidas.
ao longo das mesmas. Dessa forma, foram filmes poliméricos e, consequentemente, o
definidos pontos individualizadores nas ajuste do contraste visual entre a superfície
imagens datiloscópicas obtidas nesse tra- metálica e a impressão digital.
A nova metodologia proposta permi-
REFERÊNCIAS
balho em quantidade e qualidade suficien- 1 Goddard, A. J. et al., Journal of Forensic Science,
tes para que as mesmas sejam submetidas, te evidenciar elementos em quantidade e Vol. 55, No. 1: 58-64, 2010.
de forma segura e robusta, a exames de qualidade suficientes para exames periciais 2 Velho, J. A. et al. Locais de Crime. Campinas:
Milennium, 2013.
confronto com outras imagens datiloscó- de confronto entre impressões digitais,
3 Lee, H. C., Ladd, C. Croatian Medical Journal 42(3):
picas, com a finalidade de identificar crimi- convertendo uma evidência coletada em 225-228, 2001.
nosos ou estabelecer uma conexão entre cena de crime (impressão digital) em prova 4 Beresford, A. L. et al., Journal of Forensic Science
material, que visa a instruir investigações e 57: 93-102, 2012.
cenas de crimes, por exemplo.
5 Sapstead, R. M. et al., Faraday Discussions
Portanto, os resultados das análises contribuir para a convicção do julgador. 164: 391, 2013.
mostraram que as imagens datiloscópicas O uso de polímeros condutores na área 6 Brown, R. M., Hillman, A. R. Phys. Chem. Chem.
originadas pela deposição eletroquímica de de Química Forense com o intuito proposto Phys. 14: 8653–8661, 2012.

neste trabalho ainda é relativamente recen- 7 Beresford, A. L., Hillman, A. R. Anal. Chem.
polímeros condutores são de alta qualidade 82: 483-486, 2010.
e atendem aos requisitos necessários à apli- te, e, portanto, abre novas perspectivas em 8 Bersellini, C. et al., Journal of Forensic Science 46:
cação de procedimentos técnicos de identi- relação ao estudo de materiais e de técnicas 871, 2001.

ficação humana, conforme ilustra a Figura 5. inovadoras para identificação de indivíduos.

14 Perícia Federal
BANCO DE DADOS DE DNA: professor João Costa Neto e perito criminal federal Bruno Rodrigues Trindade

A GENÉTICA
FORENSE
A SERVIÇO DO
ILUMINISMO
Em breve, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidirá
se é constitucional a coleta de DNA de condenados
por crimes violentos ou hediondos com o objetivo de
manter banco de dados estatal com perfis genéticos.
A orientação do STF, a ser adotada no Recurso
Extraordinário (RE) 973837, deverá ser aplicada a
todos os casos análogos.

Foto: André Zímmerer

Perícia Federal 15
BANCO DE DADOS DE DNA: professor João Costa Neto e perito criminal federal Bruno Rodrigues Trindade

CONSIDERAÇÕES razoável. A Corte de Apelação de Maryland Também se deve ressaltar que os loci
invalidou a condenação por estupro. Toda- examinados são de uma região de DNA
SOBRE O DIREITO via, a Suprema Corte norte-americana re- não codificante. Ou seja: as informações
ESTRANGEIRO formou a decisão da Corte de Maryland e não revelam traços genéticos. Concluiu-se,
No direito estrangeiro, o tema já foi objeto manteve a condenação4. então, que o processamento da amostra no
de julgados emblemáticos. Em Sauders v. Uni- De acordo com a Suprema Corte norte CODIS não fere a privacidade do indivíduo.
ted Kingdon, por exemplo, a Corte Europeia americana, quando é feita uma prisão funda- E, assim, a Suprema Corte americana repu-
de Direitos Humanos (1996) permitiu a colhei- mentada em função de uma ofensa grave e tou constitucional a identificação por DNA.
ta, por meios compulsórios, de materiais que o suspeito é mantido em custódia, a colheita
têm existência independente da vontade do e a análise do suabe com o DNA do preso E NO BRASIL?
fornecedor1. Entendeu-se que essa colheita fazem parte de procedimento de identifica- No Brasil, como mencionado, a consti-
não violava o direito à não autoincriminação. ção razoável que não viola a “Fourth Amend- tucionalidade do Banco Nacional de Perfis
Nos EUA, é possível destacar ao menos ment”5. Seria o mesmo que colher impres- Genéticos será decidida no Recurso Ex-
uma decisão relevante: Maryland v. King, sões digitais ou tirar fotografias do acusado6. traordinário (RE) 973837. Há ao menos dois
caso julgado pela Suprema Corte norte-a- O exame de DNA pode melhorar sig- importantes argumentos a favor da consti-
mericana em 2013. nificativamente tanto o sistema judicial tucionalidade da lei:
Em Maryland v. King, julgou-se o caso criminal quanto as práticas policiais inves- a) a Procuradoria-Geral da República sus-
de Alonzo Jay King, Jr., que, com o rosto tigativas7, pois permite verificar, com alto tenta que a identificação por DNA é como a
encoberto, entrou armado na casa de uma grau de precisão e acurácia, se um material identificação por meio de impressão digital.
mulher em Salisbury, Maryland. King, Jr. es- biológico coincide com o de um suspeito. Logo, é perfeitamente constitucional;
tuprou a vítima. Naquela ocasião, sua iden- As leis de Maryland permitem a colheita de b) a Academia de Ciências Forenses
tidade não foi descoberta. Mas amostras de amostras de acusados de crimes violentos, defende que a colheita de DNA é passiva e
seu DNA foram colhidas. Em 2009, Alonzo como “first-degree assault”. não invasiva. Logo, seria constitucional.
King, Jr. foi preso em Wicomico County, Outra justificativa utilizada foi a seguinte: A Lei nº 12.654/12 – que criou o Banco
Maryland e acusado de “first- and second- com o DNA, o Estado identifica com mais Nacional de Perfis Genéticos – autoriza a
-degree assault” por ameaçar um grupo de precisão quem está sob sua custódia. Afinal, coleta de DNA de condenados por crimes
pessoas com uma arma de fogo2. o Estado precisa saber a identidade verda- violentos e hediondos e, desde que com
Como parte dos procedimentos de roti- deira de todos aqueles que prende e julga. autorização judicial, de investigados. Dian-
na nos casos de crime grave (felony), amos- Ainda conforme a Suprema Corte americana, te disso, indaga-se: a Lei nº 12.654/12 fere o
tras de DNA foram colhidas por meio de um a única diferença entre a análise de DNA e os direito à não autoincriminação?
suabe – cotonete de algodão – na face inter- bancos de dados de impressões digitais é a
na da boca do acusado. Verificou-se a coinci- acurácia sem paralelos que o DNA oferece.
A LEI Nº 12.654/12
dência do seu perfil genético – DNA – com o Não há diferença significativa, para fins de in-
perfil do caso de estupro ocorrido em 2003. A tromissão na vida privada, entre colher mate-
FERE O DIREITO A NÃO
identificação do estuprador decorreu de um rial genético e colher impressões digitais. Por AUTOINCRIMINAÇÃO?
sistema denominado Combined DNA Index outro lado, a acurácia do DNA é maior8. O direito de não produzir prova contra
System (CODIS), que conecta os laboratórios Observa-se ainda que a identificação de si mesmo veda apenas: (1) que o acusado
de DNA nos níveis local, estadual e nacional. um preso como o autor de um crime pode- seja obrigado a colaborar, por meio de
King foi julgado e condenado por estupro3. rá viabilizar que uma pessoa injustamente comportamentos ativos, à produção de
A Corte de Apelação de Maryland, em condenada seja absolvida. Decidiu-se que provas; e (2) meios de extração de prova
recurso contra a condenação por estupro, a intrusão representada pela colheita do invasivos. Não se pode exigir, por exemplo,
considerou que a amostra de DNA colhida suabe oral é mínima se comparada com o que o réu participe da reconstituição do
de King em 2009 foi ilegal porque a colhei- substancial interesse estatal e com a efetivi- crime, porque isso exigiria uma colabora-
ta do suabe oral teria sido uma busca não dade do exame de DNA9. ção ativa do acusado contra seus próprios
4 Maryland v. King, 569 U.S. ___ (2013). interesses. Também não se pode extrair
1 Disponível em: https://www.legal-tools.org/doc/56c3a2/pdf/ Acesso 5 A “Fourth Amendment” na Constituição norte americana proíbe bus-
em: 10/10/2017. cas e apreensões indevidas. sangue do acusado coercitivamente, já
2 Maryland v. King, 569 U.S. ___ (2013). 6 Maryland v. King, 569 U.S. ___ (2013).
3 Maryland v. King, 569 U.S. ___ (2013). 7 District Attorney’s Office for Third Judicial Dist. v. Osborne, 557 U. S. 52, 55 que a extração é considerada invasiva e diz
8 Maryland v. King, 569 U.S. ___ (2013).
9 Maryland v. King, 569 U.S. ___ (2013)..

16 Perícia Federal
BANCO DE DADOS DE DNA: professor João Costa Neto e perito criminal federal Bruno Rodrigues Trindade

respeito diretamente à integridade corpo- pode ser tratado como culpado. Trata-se de Por fim, normalmente se indaga: mas e
ral do acusado. decorrência da própria regra de tratamento se o condenado ou investigado se recusar
Mas nada impede que o acusado seja inerente à presunção de inocência. a permitir a colheita do DNA? Neste caso,
obrigado a participar de um reconhecimen- No caso do investigado, a colheita do abrem-se três possibilidades: a) colheita
to de pessoas. Sempre se entendeu na juris- material genético – que se submete à re- compulsória do material genético; b) ob-
prudência que o acusado pode ser coerciti- serva de jurisdição (o Richtervorbehalt do tenção do material genético por outros
vamente enfileirado junto de outras pessoas direito alemão) – é uma verdadeira medi- meios; e c) aplicação de sanção com base
para que a vítima ou uma testemunha pos- da cautelar probatória. Se o Juiz, após pe- na Lei de Execução Penal.
sa indicar se, dentre os presentes, está aque- dido do MP, pode determinar a apreensão
le que teria cometido o crime. Isso porque de escritos do acusado para realizar futuro PRIMEIRA OPÇÃO
o reconhecimento é meramente passivo. O exame grafotécnico, também pode deter-
O acusado tem o direito à ampla defe-
mesmo ocorre na colheita de DNA. minar, de maneira circunstanciada e com
sa, a par da defesa técnica. O acusado pode
Nesse contexto, também se pode obri- base na gravidade concreta do crime, que
oferecer sua versão dos fatos (direito de
gar o acusado a permitir que um cotone- seja recolhido o material genético do acu-
audiência), auxiliar seu advogado na inqui-
te seja levemente passado no céu da sua sado – seja na investigação, seja no pro-
rição das testemunhas (direito de confron-
boca. É só isso que o “suabe bucal” envol- cesso penal.
tação) e até recorrer por conta própria (ca-
ve: passar um cotonete no céu da boca de No Brasil, aquele que ainda não foi conde-
pacidade postulatória autônoma). Nenhum
uma pessoa. Diferentemente da extração nado só poderá ter o material genético reco-
desses direitos, entretanto, impede que o
de sangue, o cotonete não penetra no cor- lhido se o Juiz, em decisão adequadamente
acusado seja obrigado a comparecer a um
po do acusado. A colheita de provas é total- fundamentada, entender que esse material é
reconhecimento de pessoas. A jurisprudên-
mente superficial. Com efeito, não se trata importante para a investigação ou para o pro-
cia é pacífica ao admitir que o acusado seja
de meio invasivo. cesso penal em curso. Não se trata de reco-
coercitivamente enfileirado junto de outras
Em suma: a extração de DNA pelo cha- lher material genético indiscriminadamente.
pessoas para que a vítima ou uma testemu-
mado “suabe bucal” não é nem invasiva, nem A reserva de jurisdição oferece uma ga-
nha possa indicar se, dentre os presentes,
demanda comportamento ativo do acusado. rantia ao réu, que poderá, inclusive, impug-
está aquele que teria cometido o crime.
Logo, não fere o direito a não autoincriminação. nar a decisão nas instâncias superiores, se o
Da mesma forma que sempre se enten-
Juiz agir de forma arbitrária.
deu que o acusado pode ser obrigado a
SITUAÇÃO DOS Esse raciocínio é totalmente compa-
comparecer ao seu reconhecimento pela ví-
CONDENADOS tível com a Constituição Federal. A CF/88
tima, deve-se entender que o acusado pode
estabelece em seu art. 5º, LVIII, que o “(...)
No caso do condenado, um dos autores ter seu material genético extraído à força.
civilmente identificado não será submetido
deste texto sustentou no STF que a colheita Essa solução parece excessiva a muitos.
a identificação criminal, salvo nas hipóte-
do material genético configura verdadeiro Mas, se é assim, precisamos alterar a juris-
ses previstas em lei.” Já o art. 3º, IV, da Lei
efeito extrapenal genérico da condenação. prudência já consolidada há décadas dos
12.037/09 (Lei de Identificação Criminal)
Se o Estado pode tomar a liberdade e a Tribunais Superiores. Existe, entretanto,
permite a identificação criminal, ainda que
propriedade do condenado por crime, se uma alternativa à colheita forçada, que é
apresentado documento de identificação,
pode impedi-lo de dirigir ou de exercer sua mais amena, é bastante factível e é também
quando a “(...) identificação criminal for es-
profissão, então é certo que o Estado tam- compatível com a jurisprudência do STF.
sencial às investigações policiais, segundo
bém pode obrigar o condenado a fornecer
despacho da autoridade judiciária compe-
material genético, em nome de interesses
tente, que decidirá de ofício ou mediante
SEGUNDA OPÇÃO
coletivos cogentes.
representação da autoridade policial, do Sabe-se que o réu não é obrigado a
Ministério Público ou da defesa”. oferecer material para exame grafotécnico
SITUAÇÃO DOS A colheita de material genético não vio- ou para espectrograma de voz, já que isso
INVESTIGADOS la, portanto, a CF/88. exigiria comportamento ativo da sua parte.
Mas e no caso do investigado? A co- Entretanto, diante da recusa do réu, pode
lheita seria constitucional? Afinal, o investi- E SE O ACUSADO SE o Juiz determinar a busca e apreensão de
gado, diferentemente do condenado, não RECUSAR? utensílios pessoais, como cadernos, escritos

Perícia Federal 17
BANCO DE DADOS DE DNA: professor João Costa Neto e perito criminal federal Bruno Rodrigues Trindade

e gravações de voz do acusado. Se o acu- Logo, se o agente penitenciário, acom- a instituir mandamentos de criminalização;
sado não fornece um documento escrito panhado de um perito criminal, por exem- a combater o crime; e a efetivar todos os
por si voluntariamente, serão recolhidos plo, ordena ao condenado que se abstenha meios ao seu alcance que permitam o escla-
documentos que estejam em sua casa ou de impedir a coleta de material genético, recimento de infrações penais, a exoneração
em poder de terceiros, por exemplo. O STF a ordem dada é legal e constitucional. Em de inocentes acusados de maneira injusta, e
já admitiu esse tipo de conduta nos casos caso de desobediência, o condenado po- também a condenação dos culpados.
“Pedrinho” e “Glória Trevi”. derá responder por falta grave. A Lei 12.654/2012 não é apenas cons-
No caso do DNA, o Juiz poderia, portan- Caso não se entenda que a conduta titucional. Ela é uma exigência da própria
to, determinar a busca e apreensão de bens configura “desobediência ao servidor do Constituição. O Estado tem o dever de usar
pessoais, como escova de dente, roupas de presídio” ou “inexecução de ordem rece- a tecnologia para punir criminosos e prote-
cama e restos orgânicos, a fim de que seja bida”, também será possível enquadrá-la ger inocentes injustamente acusados. Cabe
recolhido o perfil genético do condenado como infração média ou leve, desde que agora ao STF decidir a matéria.
ou investigado. haja lei estadual nesse sentido, conforme o Em episódios recentes da história do
Essa é uma solução também aceita pela art. 49 da LEP. Brasil, coube ao STF a ingrata missão de
jurisprudência dominante no STF e no STJ. proferir decisões de vanguarda, embora
Além de assegurar a integral constituciona- RESUMO DAS TRÊS impopulares. Hoje, o STF pode estar a um
lidade da Lei nº 12.654/2012, não envolve o
OPÇÕES passo de rever uma decisão política legíti-
uso da força contra o acusado. ma tomada pelo Congresso, condenando
Existem, portanto, três alternativas à
o Brasil ao anacronismo investigativo e tec-
TERCEIRA OPÇÃO recusa do acusado: em primeiro lugar, é
nológico. Espera-se que isso não ocorra.
possível colher a amostra à força, o que
A competência para legislar sobre di-
se compatibiliza com a jurisprudência do
reito penitenciário é concorrente. Além
STF e do STJ, porque a colheita não exige
SOBRE OS AUTORES
da União, Estados e Municípios também
comportamento ativo do investigado e não Bruno Rodrigues Trindade
podem legislar sobre essa matéria. Logo,
configura prova invasiva. Perito Criminal Federal. Mestre em Ciên-
nada impede que sejam editadas leis esta-
Em segundo lugar, é possível também cia Animal pela UFG. Graduado em Medici-
duais para sancionar administrativamente,
aceitar que o acusado não pode ser com- na Veterinária (UFG) e Direito (UnB).
por infração média ou leve, o condenado
pelido a fornecer o material, admitindo-se, João Costa Neto
que se recusa a cumprir a determinação
entretanto, que sejam apreendidos obje- Professor da Faculdade de Direito da
legal de permitir a colheita de seu mate-
tos pessoais seus para a colheita do mate- UnB, Advogado, Parecerista e ex-Procura-
rial genético.
rial genético. dor Federal. Doutor e Mestre em Direito, Es-
Isso, entretanto, só é necessário se
E, como terceira hipótese, pode-se en- tado e Constituição pela UnB. Doutorando
não se entender que a recusa à colheita
tender que a recusa – no caso do condenado em Direito Público pela Humboldt-Univer-
por parte do condenado não configura
apenas – configura falta grave. Se assim não sität zu Berlin. Mestre em Direito Romano
infração grave. As infrações graves estão
se entender, pode-se permitir que os estados pela USP.
previstas nos arts. 50 e 51 da LEP, em rol
fixem que a recusa configurará falta média ou
taxativo. Por outro lado, o art. 49 da LEP
leve, com base em lei local específica.
autoriza a legislação local a especificar as
REFERÊNCIAS
infrações leves e médias, bem assim as
respectivas sanções. CONCLUSÃO AGUIAR, S.M. et al. Rede Integrada de Bancos de
Perfis Genéticos e a implantação do CODIS no
Brasil. In: III CONGRESSO BRASILEIRO DE GENÉTI-
Aqui, duas interpretações são possíveis. O STF já decidiu várias vezes, inspirado CA FORENSE, 3. ed. Porto Alegre. Disponível em:
Pode-se enquadrar a recusa do condenado no Tribunal Constitucional Federal alemão, <http://web2.sbg.org.br/congress/Congres-
sosAnteriores/Pdf_resumos/IIICBGF/CBGF033.
a permitir que seu DNA seja colhido como que a máxima da proporcionalidade inclui pdf> 2011. Acesso em: 08/10/2017.
“desobediência ao servidor do presídio” ou o princípio da proibição da proteção insu- STF vai analisar constitucionalidade de banco
“inexecução de ordem recebida”. Essas con- ficiente (Untermaßverbot). Isso significa de dados com material genéticode condena-
dos.Disponível em: http://stf.jus.br/portal/cms/
dutas, previstas nos incisos II e V do art. 39 que cabe ao Estado desincumbir-se do seu verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=319797.
Acesso em: 08/10/2017.
da LEP, são consideradas infrações graves, dever de proteção (Schutzpflicht). O dever
por força do art. 50, VI, da LEP. de proteger a população obriga o Estado

18 Perícia Federal
MANCHAS DE SANGUE: perito criminal federal Antonio Augusto Canelas Neto

MANCHAS
DE SANGUE
O estudo de perfis de manchas de sangue pode
revelar o que ocorreu em um local de crime, como,
quando e até quem esteve presente durante
a ocorrência

O
estudo de perfis de manchas de sangue, também conhecido
como Bloodstain Pattern Analysis-BPA, há muito tempo vem
sendo utilizado na resolução e na reconstrução de crimes. Tra-
ta-se de uma técnica com mais de cem anos de história, e que se ini-
ciou de maneira mais científica em 1895 por meio do médico Edward
Piotrowsky, da Polônia. Piotrowski tinha como método experimental
martelar coelhos ainda vivos na cabeça para, em seguida, documentar
o comportamento das manchas de sangue geradas com esta ação.

Perícia Federal 19
MANCHAS DE SANGUE: perito criminal federal Antonio Augusto Canelas Neto

Em uma época mais contemporânea, o


estudo de manchas de sangue se encontra
extremamente avançado em termos de
tecnologia, pesquisa acadêmica e formação
de peritos, quando comparado o passado
remoto. Países com reconhecida tradição
forense tais como Estados Unidos, Cana-
dá, Holanda, França, Alemanha, Inglaterra,
Nova Zelândia e Austrália têm-se destacado
neste desenvolvimento ano após ano.
Treinamentos nesta área possuem pro-
fissionalização e padronização internacional
tanto pela Associação Internacional de Ana-
listas de Manchas de Sangue (International
Association of Bloodstain Pattern Analysts-
IABPA), criada em 1983, quanto como pelo
Scientific Working Group on Bloodstain
Pattern Analysis (SWGSTAIN), do FBI, criado
em 2002. Este nível de profissionalização e
padronização minimiza erros conceituais,
nomenclaturas diversas e entendimentos
equivocados no uso desta técnica. Assim,
para um profissional ser reconhecido pelo
sistema judiciário de muitos países, este
deve possuir níveis avançados de conheci-
mento instituídos por estas organizações.
O estudo de manchas de sangue de
uma ocorrência criminosa também pode
ser feito de maneira indireta, ou seja, por
meio do encaminhamento de imagens de Figura 1: Desenhos de Piotrowski para documentar seus experimentos em meados do século XIX (Fonte: [6]).

outro perito criminal que processou o local. cro vestígios, que são as verdadeiras provas e distribuição das manchas de sangue de-
Esta possibilidade aumenta muito a capaci- científicas. Inexiste, obviamente, neste con- positadas em uma superfície, podemos in-
dade e a flexibilidade do uso desta técnica, texto, consciência da aplicação correta do ferir  o mecanismo que foi necessário para
viabilizando-a ainda mais do ponto de vista estudo de manchas de sangue, além de sis- sua geração que, em conexão com outros
logístico e econômico, já que além da tem- tematização do conhecimento, da divulga- elementos da cena de crime, podem le-
pestividade no atendimento, ter um espe- ção e da padronização nesta área. var  ao estabelecimento do que realmente
cialista disponível em todos os Institutos é ocorreu no local, como ocorreu, quando
pouco comum. TIPOS DE MANCHAS E ocorreu e até quem esteve presente duran-
No Brasil, um país com baixíssimo índice
PERFIS DE MANCHAS te esta ocorrência.
de resolução de casos, e índice de homicí- Para facilitar a abordagem nesta aná-
dios comparados inclusive a de uma guerra
DE SANGUE lise, as manchas de sangue são divididas
civil,  apresentamos até o momento pouco O uso da interpretação de perfis de em uma taxonomia própria aprimorada ao
conhecimento e desenvolvimento no tema. manchas de sangue é baseado  em prin- longo de décadas. Todavia, embora teorica-
Verifica-se em nosso País, na verdade, um cípios científicos relacionados principal- mente organizadas, a realidade se mostra
grande apelo por métodos sensacionalistas mente ao conhecimento da mecânica dos muito mais complexa quando estas man-
e televisivos, em detrimento a uma política fluidos, da biologia, da física, da química chas de sangue agem e se sobrepõem con-
estratégica no trato dos vestígios e dos mi- e  da matemática. Pelo formato, tamanho comitantemente de diversas maneiras e de

20 Perícia Federal
MANCHAS DE SANGUE: perito criminal federal Antonio Augusto Canelas Neto

diversas formas em situações reais. Daí a ne- deiros analistas, no entanto, verificou que micídio por facadas. Em crimes assim,
cessidade de um expert no assunto, como as manchas na roupa de David eram na usualmente se observa luta e movimen-
já alertava Hans Graus ainda em 1908 [3]. verdade manchas transferidas e não spat- tação intensa no ambiente, além de uma
Quando não trabalhada por verdadeiros es- ters. David, ao tentar retirar seu filho morto razoável quantidade de sangue devido às
pecialistas, o estudo de manchas de sangue dentro do veículo, acabou por encostar inúmeras lesões presentes. Ao verificar o
pode ocasionar alguns “desastres” jurídicos. sua camisa em manchas spatters contidas caso, porém, o analista separou esta foto
O caso do americano David Camm [5] no cabelo de sua filha que estava morta dentre tantas outras por um motivo mui-
é um exemplo clássico do que pode acon- ao lado do menino. Neste processo, estas to pitoresco e não compreendido pelos
tecer com uma opinião não especializada. manchas spatters acabaram sendo transfe- peritos de local. O perfil mostrado é pro-
David ficou preso por 11 anos acusado de ridas para a camisa de David em um pro- veniente de um mecanismo de geração de
executar a tiros toda sua família, mulher e cesso de contato. impacto e que, na visão do analista, não era
crianças (um menino e uma menina). Tudo condizente com o crime apresentado. Ao
começou após declaração de um “expert” RESOLUÇÃO DE questionar este elemento à equipe de lo-
de que as manchas de sangue contidas
CASOS UTILIZANDO A cal de crime, o analista soube que a vítima,
em sua roupa, e com perfil genético de antes de morrer, havia agredido seu algoz
sua filha morta no crime, eram provenien-
ANÁLISE DE PERFIS DE com um pedaço de pau maciço, levando-
tes de impacto por arma de fogo (spatters). MANCHAS DE SANGUE -o a se internar em um hospital. Assim, o
Inferiu-se, com esta premissa, que David Apresentamos agora alguns breves perfil impactado da figura era na verdade
estaria na cena de crime no momento exemplos de casos examinados pelo autor. do sangue (entenda-se material genético)
dos assassinatos, algo que ele sempre A imagem da Figura 3 é parte de um do criminoso que foi atingido pela vítima.
negou. Uma análise posterior por verda- total de 35 fotografias de um caso de ho- A simples coleta de sangue deste perfil im-
pactado, portanto, colocaria o suspeito na
cena de crime. Note-se que a coleta desta
amostra tinha sido totalmente negligen-
ciada pela equipe de processamento.
Em outro caso no interior de um es-
tado do Brasil, o analista foi capaz de ins-
tituir a verdadeira dinâmica pela simples
análise de manchas de sangue contidas
na mão da vítima. Trata-se do efeito de-
nominado backspatter, onde gotas de
sangue seguem uma trajetória no sentido
contrário a entrada do projétil, atingindo
assim armas e mãos do criminoso. Nes-
te caso, porém, tais manchas atingiram
a mão da própria vítima que, pela posi-
ção, soube-se estar em posição de defesa
e não de ataque, como alegava a outra
parte. Isso foi detectado em uma análise
quase que imediata e ainda frente a di-
versas outras hipóteses levantadas. Por
questões de confidencialidade, deixamos
de mostrar a imagem do caso, mas a Figu-
ra 4 apresenta outro emprego da análise
Figura 2: Imagem de uma cena de crime que talvez seja entendida apenas como sangue frente à análise de um
do efeito backspatter em casos de suicí-
leigo. Para um analista, porém, a imagem apresenta diversas informações relacionadas à forma de óbito da vítima, dio, afim de que entendamos o conceito
ao tipo de lesão que esta sofreu e até a sua posição antes e após o ataque (Fonte: [1]). desta interpretação.

Perícia Federal 21
MANCHAS DE SANGUE: perito criminal federal Antonio Augusto Canelas Neto

CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Existem pelo menos duas conferências
mundiais exclusivas sobre o estudo de
manchas de sangue a cada ano e usual-
mente ocorrem na América do Norte, na
Europa e na Oceania. Estudos acadêmicos
para obtenção de mestrado e doutorado
em análise de perfis de manchas de sangue
também já são uma realidade comum em
alguns países destes continentes. É válido
sempre lembrar que a maioria possui índi-
ces de violência e taxas de homicídios bem
inferiores a do Brasil.
Não é exagero dizer que o País está
pelo menos 50 anos atrasado no estudo
de interpretação de manchas de sangue
quando comparado com institutos mais
desenvolvidos, embora existam ações em-
brionárias ocorrendo nos últimos anos. A
Polícia Federal, por exemplo, começou a se
tornar mais empenhada em mudar este pa-
Figura 3: Perfil impactado reconhecido entre diversas outras imagens contendo sangue. Em pouco tempo o norama desde 2013, quando, com apoio da
analista estabeleceu seletividade para coleta de amostras para exame de perfil genético (Fonte: DH-CPCRC).
Área de Perícia Externas (APEX) do Instituto
Nacional de Criminalística (INC), instituiu a
Em outro caso, o analista verificou que limpeza, restando apenas fotografias de um
disciplina “Perfis de Manchas de Sangue” na
a morte de um cidadão no meio da rua em celular. Durante seu depoimento, a mulher
Academia Nacional de Polícia para forma-
um dos subúrbios da cidade só poderia ter mostrou movimentos e ações ao analista ção dos novos peritos criminais. Este ano
sido ocasionada se ele tivesse sido lançado que, com isso, foi capaz de verificar que as de 2017, peritos mais veteranos retornaram
com determinada energia e não simples- manchas de sangue contidas em sua rou- para a Academia de Polícia em Brasília/DF
mente por uma queda natural, como ini- pa e no piso eram compatíveis com estes para também obter treinamentos no tema.
cialmente se imaginava na reprodução si- seus movimentos sequenciais, auxiliando O poder de multiplicação destas ações é
mulada. A energia cinética das manchas de no esclarecimento dos fatos por meio de enorme dentro da instituição, sendo que
sangue foi considerada incompatível para a uma abordagem totalmente científica e, ao casos antes sequer vislumbrados sob o
versão sugerida. A possibilidade da vítima mesmo tempo, evitando a contaminação enfoque da interpretação de manchas de
ter sido lançada de um veículo foi uma das contextual trazida por relatos, opiniões e sangue começam a surgir sob outra ótica.
hipóteses sugeridas pelo analista, e a busca versões diversas. Nas perícias estaduais, por outro lado,
de sangue oculto em veículos de desafetos Estes breves exemplos mostrados de o interesse pelo tema é mais conhecido e
da vítima era uma possibilidade que sequer maneira resumida nos indicam que, além antigo, embora estas instituições careçam
havia sido considerada até então. de solucionar casos de maneira tempes- de especialistas em nível avançado. Com
No centro-oeste do País, uma moça foi tiva, o estudo de manchas de sangue nos um interesse mútuo no desenvolvimento
agredida por um colega de trabalho em um leva na busca de outros elementos sequer do tema, o autor tem tratado pessoalmen-
final de semana. Não houve exame de local, considerados em uma abordagem conven- te com as associações estaduais destes ór-
já que a perícia mais próxima ficava a quilô- cional. Ressalte-se, porém, que em casos gãos, seja por meio de consulta em estudos
metros de distância. Para piorar, no primeiro complexos a eficácia desta técnica se torna de casos trazidos para análise, seja por meio
dia útil, o local foi alterado pela equipe de um considerável diferencial. de parcerias em eventos. A implementação

22 Perícia Federal
MANCHAS DE SANGUE: perito criminal federal Antonio Augusto Canelas Neto

Figura 4: Efeito backspatter na mão de um suicida e reconstrução da posição por meio da interpretação destas manchas de sangue. Percebe-se, também, alteração por
sombra no dedo da vítima, ocorrido por conta do guarda mato da arma (fonte: [5]).

de cursos profissionalizantes nesta área, e serve de alerta para aqueles que partem de
com os mesmos padrões internacionais premissas baseadas em contextos ou opi-
exigidos pela SWGSTAIN, é uma realidade niões, mas que não as conseguem provar REFERÊNCIAS
não muito distante. cientificamente de maneira plena, ou sem
1. Antonio A. Canelas Neto, “Perfis de
O recente lançamento do livro “Perfis um teste de multi-hipóteses contestador. A Manchas de Sangue - Do local de crime à
de Manchas de Sangue- Do local de crime verdadeira justiça pela ciência sempre esta- elaboração do laudo”, 1ª.edição, Editorial
à elaboração do Laudo” é outro passo de- rá acima da opinião pública predominante, Lura, 2017.
terminante para esta mudança. Trata-se da acima do apelo de efeitos visuais e tecnoló- 2. Stuart H. James, Paul E. Kish, T. Paulette
primeira obra na língua portuguesa sobre Sutton, “Principles of Bloodstain Pattern
gicos e acima da pressão da mídia impressa
Analysis- Theory and Practice”, 1th
o tema e com os padrões mundiais no as- e/ou televisiva. O estudo de manchas de edition, CRC Press, 2005;
sunto. A APCF, além das associações esta- sangue certamente se insere neste con- 3. Herbert Leon Macdonell, “The Literature
duais de peritos criminais do Rio Grande do texto à medida que é uma técnica baseada of Bloodstain Pattern Interpretation-
Sul, de Santa Catarina e do Pará apoiaram exclusivamente no comportamento cientí- Segment 01: 1901-1910”, Journal of
fortemente a obra, oferecendo suporte in- International Bloodstain Analysts-IABPA,
fico do fluido de sangue para provar suas Vol. 08, #4, Dec. 1992;
condicional à divulgação e à disseminação hipóteses, sejam estas acusatórias ou não. 4. Kathrin Yen, Michael J. Thali, Beat P.
do livro desde seu lançamento no XXIV Pela rapidez, eficácia e baixo custo na re- Kneubuehl, Oliver Peschel, Ulrich Zol-
Congresso de Criminalística em Florianó- solução de crimes, institutos forenses mais linger, Richard Dirnhofer, “Blood Spatter
polis/SC. Podemos dizer que o Brasil hoje, visionários já perceberam que um  bom Patterns - Hands Hold Clues for the
de maneira inédita na América Latina, pos- Forensic Reconstruction of the Sequence
analista de manchas de sangue também é of Events”, American Journal of Forensic
sui bibliografia com qualidade, preceitos e capaz de auxiliar um caso com maior rapi- Medicine and Pathology, Vol. 24, No. 2,
padrões internacionais da área. dez e robustez de provas do que métodos June 2003;
tradicionais de investigação sem esta ex- 5. https://www.law.umich.edu/special/
 CONCLUSÃO pertise, gerando uma satisfatória economia
exoneration/Pages/casedetail.aspx?ca-
seid=4291 acessado em 22/10/2017;
Sabe-se, há muito tempo, que o desco- de recursos e tempo. Por isso, o desenvol-
6. http://karelatheredhawk.tumblr.com/
nhecimento do trato de evidências pode vimento desta área tem crescido tanto. Na post/81827166274/fuckyeahforensics-in-
pregar peças desagradáveis para quem verdade, apenas os que desconhecem mais -1895-dr-eduard-piotrowski acessado em
não está preparado para provar cientifica- profundamente o assunto ainda possuem 22/10/2017.
mente o que escreve ou o que diz. E isso dúvidas sobre sua eficácia.

Perícia Federal 23
RECONSTITUIÇÃO: Danielle Ramos e Taynara Figueiredo

PAU
D’ARCO:
a maior reprodução simulada da
história da Criminalística brasileira

Sete peritos criminais federais conduziram a maior


reprodução simulada da história já feita pelas polícias
brasileiras. Foram seis dias de trabalho in loco, 29
versões da história, 36 horas de gravações e 40 dias
para concluir um laudo de 122 páginas. A edição nº
40 da Perícia Federal narra como foi o trabalho dos
peritos federais no caso e detalha os bastidores

24 Perícia Federal
RECONSTITUIÇÃO: Danielle Ramos e Taynara Figueiredo

A
chacina de Pau D’Arco, como o cri- A Polícia Federal entrou efetivamente A solicitação do exame partiu direta-
me ficou conhecido, que resultou no caso um mês após o ocorrido. Por deter- mente da Superintendência da Polícia Fe-
na morte de dez posseiros, aconte- minação do Ministério da Justiça, a perícia deral do Pará, que prontamente passou a
ceu no dia 24 de maio deste ano na fazenda federal foi acionada para conduzir a repro- demanda ao Diretor Técnico-Científico em
Santa Lúcia. A fazenda, localizada no muni- dução simulada, 60 dias após o confronto. Brasília, para reunir a equipe de peritos que
cípio de Pau D’Arco, no sudeste do Estado Após os exames de simulação e poste- ficou responsável pelo exame.
do Pará, é alvo de disputas por parte de rior confronto entre as versões e depoimen- Entre as dificuldades, os peritos desta-
posseiros que pleiteiam a desapropriação tos apresentados com a prova material, foi caram o acesso ao local da reconstituição,
das terras para formação de assentamento possível fechar o caso. “O exame de repro- o deslocamento a pé e a dificuldade de
rural desde o ano de 2013. dução simulada é o único exame pericial comunicação (já que no local os sinais de
Na manhã daquele dia, um grupo de que tem como matéria prima elementos celular e rádio são precários). “A logística foi
29 policiais civis e militares foi até a fazen- subjetivos, os quais são confrontados com bem complicada. O grande número de ver-
da para dar cumprimento a 14 mandados dados objetivos. Assim, a perícia consegue sões da história, lidar com a falta de segu-
de prisão de suspeitos de envolvimento na estabelecer a comunicação entre os depoi- rança do local por ter invasões próximas, lo-
morte de Marcos Batista Ramos Montene- mentos e as provas materiais facilitando a gística com alimentação e transporte diário
gro, um segurança contratado para prestar conclusão efetiva do caso”, afirmou o perito para o lugar, além da presença de animais
serviços de vigilante da fazenda, que foi ví- criminal federal Jesus Antônio Velho, coor- peçonhentos na área de gravação. Apesar
tima de emboscada no interior da proprie- denador da equipe que realizou o exame das dificuldades, é importante destacar que
dade no dia 30 de abril. de reprodução simulada. o Superintendente da Polícia Federal no

Perícia Federal 25
RECONSTITUIÇÃO: Danielle Ramos e Taynara Figueiredo

Pará, delegado Ualame Machado, não me- Os policiais foram divididos em gru- A REPRODUÇÃO
diu esforços para garantir meios e recursos pos para procurarem os posseiros com os
para realização do exame de reprodução mandados de prisão. Um grupo de policiais
SIMULADA
simulada ”, relatou o perito Jesus. seguiu a pé para o interior da fazenda e os Foram seis dias de muito trabalho para
A reprodução do caso, que ganhou re- demais grupos deslocaram-se em viaturas a equipe de nove peritos. Seis peritos crimi-
percussão internacional por ferir os Direitos para diferentes localidades. nais federais e três peritos estaduais ficaram
Humanos, é considerada a maior reprodu- Dois dos posseiros saíram do acam- dedicados ao longo de quase uma semana
ção simulada da história da Criminalística pamento em direção à sede para verificar para refazer a história contada acima.
brasileira. “Outros eventos de grande mag- quem havia chegado e perceberam que se As simulações das versões foram condu-
nitude não tiveram a reprodução simulada tratava da polícia. Retornaram e avisaram os zidas de forma individual e isoladas, sem a
realizada pela perícia, como o massacre do integrantes do grupo. Os acampados pega- participação dos outros envolvidos. Ou seja,
Carandiru e o massacre de Eldorado dos Ca- ram, às pressas, parte de seus pertences, a história teve que ser refeita 29 vezes. “Ape-
rajás. Fizemos em grupo o que outros acha- roupas, armas e outros objetos e seguiram sar de a história ter sido narrada por cada
riam impossível”, colocou Jesus. até uma área que julgaram estar em segu- testemunha sem a participação dos demais
rança (acampamento 2). envolvidos, após analisadas, demonstraram
grande semelhança entre si, sobretudo no
A VERSÃO DA PERÍCIA Os policiais seguiram os rastros deixa-
momento anterior ao início dos disparos de
SOBRE O CASO dos pelos posseiros até que os encontra-
arma de fogo, motivo esse que nos levou a
ram abrigados da chuva debaixo de uma
lona. O barulho da chuva caindo na lona apresentar uma versão convergente (e mais
e a vegetação fechada impedia que os provável) dos fatos em relação às informa-
posseiros percebessem a aproximação ções subjetivas prestadas pelos posseiros
dos policiais. sobreviventes”, destacou o PCF Jesus.
Os policiais começaram a atirar em A equipe de peritos criminais constatou,
direção ao acampamento. A maioria dos no período da reprodução simulada, que
posseiros saiu em fuga e se escondeu o local ainda continha uma série de vestí-
nas proximidades, dentro de lagoas e em gios, o que possibilitou uma análise com-
áreas de vegetação densa. Após cessarem plementar da área, por uma equipe maior
os disparos, policiais adentraram o acam- e multidisciplinar de peritos, em busca de
pamento e encontraram algumas vítimas novos elementos que pudessem contribuir
feridas outras sem ferimento e armas. para o esclarecimento dos fatos. No repro-
Os policiais renderam os posseiros que cessamento de local, os peritos identifica-
ali permaneceram e procederam as buscas ram vestígios de interesse para a dinâmica
nos arredores da região. A equipe policial dos fatos e fizeram análises complementa-
solicitou apoio via rádio. res para explicar questionamentos adicio-
Após certo tempo, os policiais da nais que pairavam sobre o caso.
Imagem de satélite exibindo a relação entre a Sede
(amarelo), Acampamento 1 (verde) e Acampamento DECA, do Serviço Reservado da Polícia Mi-
2 (laranja) e as vias de acesso (em vermelho acesso litar – P2 , do Grupo Tático Operacional de AUSÊNCIA DE
por veículo e em azul acesso a pé). Xinguara chegaram ao local. Iniciou-se en- MANCHAS DE SANGUE
tão, uma nova sequência de disparos, que Um dos pontos questionados pela im-
“Entre seis e sete horas da manhã, do foi ouvida pela equipe de apoio da Polícia prensa no período da chacina foi o porquê
dia 24 de maio de 2017, policiais civis e mi- Civil de Redenção e do GTO de Conceição que a equipe de peritos que fez o levan-
litares chegaram à fazenda Santa Lúcia para do Araguaia, que se encontravam na sede tamento do local de crime não encontrou
dar cumprimento a 14 mandados de prisão da fazenda. manchas significativas de sangue no local
contra posseiros ali acampados. Os possei- Toda a ação policial culminou com a onde morreram os posseiros. Para chegar
ros encontravam-se no acampamento 1 e morte de dez posseiros. Três viaturas fo- a resposta para esse questionamento, os
ouviram a movimentação de veículos na ram até a área do acampamento buscar peritos realizaram testes de degradação de
sede da propriedade. os corpos”. vestígio de sangue.

26 Perícia Federal
RECONSTITUIÇÃO: Danielle Ramos e Taynara Figueiredo

Os peritos depositaram sangue em pon- A LONA PLÁSTICA


tos controlados da área, utilizando apro-
Os posseiros sobreviventes foram unâ-
ximadamente 200 ml de sangue de boi.
nimes em afirmar que se encontravam
Como no período de realização dos testes
abrigados da chuva embaixo de uma lona
o solo estava seco, uma garrafa de água
quando foram surpreendidos pelos dispa-
com fluxo em gotejamento foi posicionada
ros da polícia. No laudo de local de crime,
próxima às manchas para melhorar o teor
os peritos estaduais descreveram que en-
de umidade do solo, aproximando-se mais
contraram no acampamento 2 uma lona.
às condições do dia dos fatos (foto).
Essa mesma lona ainda estava no local
quando a reprodução simulada foi realizada
pela perícia federal.
Na análise visual daquele vestígio foram
detectadas marcas compatíveis com a de
passagem de projéteis de armas de fogo.

Fotografias de uma mesma mancha de sangue: A -


assim que foi produzida em área de gramínea e em
B - 24 horas após a sua deposição

TESTE COM LUMINOL


Para identificar outros vestígios de san-
gue ocultos, a perícia usou o luminol, uma
substância que quando misturado a um
preparado à base de peróxido de hidrogê-
nio (água oxigenada – H2O2) tem sua rea-
ção de oxidação catalisada pela presença
do ferro da hemoglobina sanguínea produ-
zindo intensa quimioluminescência. O re-
sultado dessa reação é materializado como
um brilho de cor azulada. Parte da lona possivelmente utilizada pelos posseiros
para se abrigarem da chuva, no momento imediato
da chegada da polícia ao acampamento 2.
O sangue foi depositado por volta de
10h da manhã e após o intervalo de aproxi- Os peritos procederam ainda, a aplica-
madamente 24h, tempo aproximado entre ção do reagente luminol para buscar ves-
a ocorrência do evento e a chegada dos pe- tígios de sangue não visíveis a olho nu e
ritos estaduais que fizeram o processamen- constataram regiões com quimiolumines-
to da cena do crime, voltou-se ao local para cência na referida lona, compatíveis com
registrar o estado das manchas. manchas de sangue latente.
Os experimentos demostraram que, no Os orifícios e os vestígios presuntivos
intervalo de tempo analisado, os vestígios de sangue encontrados na lona são con-
de sangue depositados no solo e na vege- dizentes com as narrativas apresentadas
tação sofreram significativas alterações de pelos posseiros sobreviventes. No entanto,
coloração, de vermelho passou para tons os peritos federais afirmam que não é pos-
de marrom, o que dificulta sua identifica- sível descartar a hipótese de a lona ter sido
ção e localização. perfurada ou manchada com vestígios de

Perícia Federal 27
RECONSTITUIÇÃO: Danielle Ramos e Taynara Figueiredo

sangue em momento distinto da chegada TESTE DE AUDIÇÃO por volta das 12h10. Todos os policiais con-
dos policiais ao local. A precisão de tempo seguiram identificar corretamente os dispa-
nesse caso, não pode ser constatada.
DOS DISPAROS ros efetuados pelos três tipos de armas.
A perícia federal realizou também o tes-
te de audição de disparos de arma de fogo
TESTE DE AUDIÇÃO com a finalidade de demonstrar a possibi-
BUSCA POR ESTOJOS
Nos depoimentos, as testemunhas que lidade de se escutar os disparos efetuados DE ARMAS DE FOGO
conseguiram fugir e se esconder, relataram na região do Acampamento 2 por observa- Em buscas pela área do Acampamento
que era possível ouvir as agressões e amea- dores localizados na sede da fazenda. 2, os peritos encontraram 18 estojos percuti-
ças feitas pelos policiais aos posseiros. Para Para esse teste foram designados três dos e deflagrados, sendo: 3 calibre 12; 8 ca-
a execução dos testes, um perito foi posi- policiais militares para efetuarem nove libre 556; 2 calibre 380; e 5 calibre .40. Todos
cionado no Acampamento 2 e proferiu os disparos em área próxima ao Acampa- foram devidamente apreendidos e submeti-
comandos que as testemunhas relataram mento 2 utilizando as seguintes armas de dos a exame de micro comparação balística.
ter ouvido, enquanto as testemunhas per- forma aleatória: uma pistola, uma carabi- Os resultados apontaram para a presença,
maneceram abrigadas nos respectivos lo- na e uma espingarda. no momento e local do evento, de ao menos
cais que indicaram como tendo sido o seu Como os policiais da equipe de apoio 48 armas com os policiais civis e militares (47
local de abrigo no dia dos fatos. da Polícia Civil relataram em suas versões armas entregues pelos policiais + uma arma
O resultado do teste foi mensurado por que escutaram tiros no momento em que clandestina) de ao menos três calibres distin-
meio de questões efetuadas pelo coorde- estavam na sede da fazenda, estes foram tos: .40, 556 e 12 (balins). Os peritos federais
nador da perícia às testemunhas sobre o posicionados nos respectivos locais que concluíram que duas das armas periciadas
que tinham ouvido. Além disso, nos testes mencionaram estar no dia do evento no e uma arma não periciada foram apontadas
foi utilizado um decibelímetro para medir a momento dos disparos. como tendo efetuado os disparos que atingi-
intensidade do som. Em todos esses testes, Após o posicionamento, os policiais re- ram as vítimas, considerando apenas os pro-
as testemunhas e os demais peritos que ceberam papel e caneta para marcarem o jéteis recuperados nos corpos necropsiados,
participavam da reprodução simulada con- momento e a quantidade de disparos que conforme tabela apresentada a seguir. Cinco
seguiram ouvir os comandos simulados no escutaram. As simulações foram executadas posseiros mortos foram atingidos por uma
Acampamento 2. nas condições normais de sons ambientais, arma que não foi entregue pelos policiais.

TABELA 01 – CORRELAÇÃO ENTRE CADÁVERES, PROJÉTEIS ALOJADOS, ARMAS E POLICIAIS.


Projéteis Expelido pelo Agente Policial com
Cadáver
Retirados Cano da Arma a cautela
Wedson Pereira da Silva 1 STL04431/pistola .40 Sd Jonatas Pereira e Silva

Wedson Pereira da Silva 1 SXI19408/pistola .40 PC Raimundo Nonato de O. Lopes


Oseir Rodrigues da Silva 1 SXI19408/pistola .40 PC Raimundo Nonato de O. Lopes
Antônio Pereira Milhomem 2 Pistola .40 Clandestina Não identificado
Regivaldo Pereira da Silva 1 Pistola .40 Clandestina Não identificado
Ronaldo pereira de Sousa 1 Pistola .40 Clandestina Não identificado
Hercules Santos de Oliveira 1 Pistola .40 Clandestina Não identificado
Nelson Sousa Milhomem 2 Pistola .40 Clandestina Não identificado
Bruno Henrique P. Gomes 1fragmento Indeterminado Indeterminado
Jane Julia de Oliveira 3 balins Indeterminado Indeterminado
Clebson Pereira Milhomem 0 - -

28 Perícia Federal
RECONSTITUIÇÃO: Danielle Ramos e Taynara Figueiredo

Acima, fotografia da palmeira com marcas de impacto. A seta vermelha indica a trajetória de um projétil que
IMPACTO DOS produziu danos em duas folhas da palmeira. Após, croqui do acampamento 2 com destaque para a palmeira em
DISPAROS NA análise (elipse tracejada azul).

VEGETAÇÃO
Os peritos ainda analisaram o impacto Em análise às imagens
dos disparos na vegetação. Foi observado e descrições dos laudos ne-
que, em algumas palmeiras, havia marcas croscópicos produzidos, os
de impacto alinhadas, compatíveis com a peritos federais verificaram
passagem de projétil de arma de fogo de que seis das dez vítimas
modo tangente a folhas da palmeira, o que apresentavam lesões por
possibilitou análise de possível trajetória e arma de fogo no tórax e,
o sentido do disparo. A análise foi compa- ao menos duas, na cabeça.
tível tanto com os relatos dos policiais, que Algumas das vítimas foram
revidaram aos disparos na trilha de acesso atingidas com disparos to-
ao acampamento 2, como com o das tes- rácicos próximos entre si
Oseir Rodrigues da Silva Ronaldo Pereira de Sousa Hercules Santos de Oliveira
temunhas, que informaram que os policias ou de lesão abdominal, as-
chegaram por ali atirando. semelhando-se ao tiro poli-
cial padrão (double-tap).
ANÁLISE MÉDICO-
LEGAL X VERSÕES
APRESENTADAS
De acordo com os laudos necroscópi-
cos e imagens analisadas, todas as vítimas Desenho esquemático das
vieram a óbito por ação de projéteis de vítimas com lesões de entrada
arma de fogo. O total de disparos efetivos de projétil de arma de fogo
próximas entre si, assemelhan-
foi de 26. Sendo que a vítima atingida por
do-se ao tiro policial padrão –
maior número de disparos, recebeu cinco “double-tap”. Regivaldo Pereira da Silva Nelson Sousa Milhomem Wedson P. da Silva Oliveira
tiros e era apontado como um dos líderes.

Perícia Federal 29
RECONSTITUIÇÃO: Danielle Ramos e Taynara Figueiredo

Uma das vítimas, que recebeu um tiro O perito criminal federal Cristiano Furta- como uma encenação dos fatos, mas desta-
na cabeça de acordo com o laudo pericial, do, que está à frente da Área de Perícias Ex- cam que essa etapa ganha grande importância
recebeu o disparo a uma curta distância. De ternas do Instituto Nacional de Criminalística quando confrontada com os vestígios, e nesse
acordo com o laudo: “Por meio da análise das (APEX), colocou que a perícia federal está caso também, com a versão dos delatores.
imagens, foi possível observar que o projetil, preparada para eventos desta dimensão. “A O perito criminal federal Luiz Guilherme
que saiu pelo queixo, apresentava caracterís- perícia federal possui equipe qualificada para Cocentino reforçou que outro desafio nesse
ticas mais compatíveis com um disparo efe- fazer qualquer reprodução simulada. Acredi- caso foi lidar com a participação de testemu-
tuado com a arma encostada, produzindo to que esse caso foi um grande teste. Avalio nhas protegidas ao longo da reprodução. “Até
lesão pérfuro-contusa de bordos irregulares, que estamos prontos para atuar em qualquer no momento de redigir o laudo tivemos essa
sujos, amplos e estrelados – fenômeno de- tempo, em qualquer caso de grande dimen- questão, já que no Ministério Público o nome
nominado “Câmara de mina de Hoffman”. são como foi a chacina de Pau D’Arco”. da pessoa não é divulgado. Identificamos ape-
Algumas vítimas ainda apresentavam Os peritos federais relataram que, por muito nas como testemunha protegida 1 e no anexo
outras escoriações, consideradas como tempo, a reprodução simulada foi vista apenas ao laudo, colocamos os dados criptografados”.
sendo lesões decorrentes da mobilização/
fuga durante o evento, além de agressões
por socos, pontapés, coronhadas, dentre CURIOSIDADES
outros, conforme citado em alguns dos re-
latos dos posseiros sobreviventes. Tal fato
condiz com narrativas apresentadas pelas
testemunhas de que teriam escutado fra-
ses e comandos verbais compatíveis com
agressões e espancamentos das vítimas.

LEGADO DA
REPRODUÇÃO
SIMULADA
Segundo os peritos federais que partici-
param do caso, a reprodução foi um grande CORDA
desafio. De acordo com o PCF Jesus, a equi- Uma testemunha relatou ter ouvido a
pe passou por diversas situações inéditas, execução de posseiros nas proximidades
como por exemplo, gravar em uma área da região em que uma viatura policial
aberta com tantas versões da mesma his- teria atolado, distante aproximadamente CAMISETA REGATA
tória. “Nós vimos a necessidade de criar um 150 metros do acampamento 2. Os po- Uma Testemunha relatou ter se abri-
protocolo para atuar nessas situações, que liciais teriam tentado desatolar o veículo gado em meio a vegetação lateral do
anteriormente ao fato, nós não tínhamos”. com o auxílio de uma corda, que teria acampamento 2, e, para não chamar a
Outra situação foi o fato de precisar lidar se partido. Alguns policiais confirmaram atenção dos policiais, retirou e deixou
com delações premiadas, tema que tem ga- em seus depoimentos que uma viatura uma camiseta regata de cor laranja que
nhado destaque com a Operação Lava Jato. ficou atolada e que tentaram desatolá-la trajava no dia dos fatos. Segundo os pe-
“Durante a reprodução, duas das pessoas com uma corda, mas que a corda teria ritos, foi a testemunha com a posição
decidiram delatar e assim, participaram não arrebentado. Na sequência arrumaram mais privilegiada.
apenas na condição de testemunhas, mas um cabo de aço e só então desatolaram Os peritos procederem a busca em
na condição de delatores e era necessário a viatura. Em busca aos arredores da re- meio a vegetação fechada com o auxílio
que nós validássemos essas delações ao gião, os peritos encontraram um pedaço de facão e encontraram a referida camise-
longo da reprodução”. Entre os delatores, de corda rompido por tração, o que pode ta ( reconhecida pela testemunha), distan-
um deles confessou que foi o responsável estar relacionado aos fatos narrados. te menos de 10 metros do acampamento.
pela morte de duas das vítimas.

30 Perícia Federal
RECONSTITUIÇÃO: Danielle Ramos e Taynara Figueiredo

TRECHOS DE DEPOIMENTOS DAS VÍTIMAS

“Os policiais diziam: Deita no chão! Bota a mão


na cabeça para morrer!...Velho duro de morrer, dá
“Fui engatinhando, atravessei a estrada e entrei no
mais nele!... Agora é minha vez!...Vamos matar to-
mato. Eram umas 16h30 da tarde a hora que conse-
dos! Não é para deixar ninguém!”
gui chegar até a colônia Guaratã. Eu estava com muita
fome, muita sede...eu estava com uma blusa amarra-
da na cintura e em todo poço de lama que eu passava
pela estrada eu molhava a blusa pra ficar chupando ela
enquanto andava, se eu torcesse não saia água, mas ao
menos servia para eu molhar a língua para poder con- “Escutei “pelo amor de Deus, não faz isso” e eles
tinuar andando e eu já não tinha mais força...” chorando, só lembro quando ele falou “sua velha,
cachorra!”, pensei na minha mãe...”

A REPRODUÇÃO SIMULADA EM NÚMEROS


PALCO DOS EXAMES: IMAGENS AÉREAS:
uma fazenda de 5.694,14 hectares 1 Drone

de extensão RECURSOS HUMANOS:


100 pessoas envolvidas em todo o processo, sendo 10
PARA SE CHEGAR A FAZENDA: peritos criminais e 50 atores.
870 km de Belém a Pau d’arco e 17 km de TEMPO:
estrada de terra para chegar próximo a sede 6 dias dedicados a reprodução simulada em campo,
da fazenda. 16 horas de trabalho por dia, com total de 36 horas de
TRANSPORTE: gravações.
2 aeronaves foram utilizadas (uma da PF e uma do LAUDO:
governo do Estado do Pará), 10 viaturas e 1 ônibus 122 páginas, elaborado em 40 dias.

Perícia Federal 31
CABEÇA BRANCA : Taynara Figueiredo

CABEÇA BRANCA:
O PABLO ESCOBAR
BRASILEIRO
Perícia faz reconhecimento facial e ajuda a
prender maior traficante da América Latina.
Saiba como foi feito o exame.

NL o âmbito da Polícia Federal e dos trabalhos realizados pelos peritos cri-


minais, é a primeira vez que uma quantidade tão grande de perícias em
obrasuiz
te
de Carlos
da
era
da Rocha,no
arte é solicitada
América
procurado
o curso
Latina,

Cabeça
por
deBranca,
anos
cerca
se
de
considerado
uma operação.
identificou
20
derais, lotados em Curitiba/PR, sede das investigações. anos, usou
como
o maior
Na Lava
Vitor
de 200 obras já foram apreendidas e estão sob a análise dos peritos criminais
Como diversos
de
trafican-
Jato, cerca
Moraes.
fe-
documentos
falsos e chegou a mudar a sua fisionomia por meio de cirurgias plásticas
para não ser pego pela Polícia Federal. Foram meses de investigação até a
PF, no dia 1º de julho de 2017, por meio de um exame de comparação facial
realizado pelos peritos criminais federais do Instituto Nacional de Crimina-
lística, conseguir prender o Pablo Escobar brasileiro.
O material, como de praxe, chegou para os peritos no dia 29 de março
de 2017 sem qualquer informação sobre o caso. O pedido encaminhado
solicitava a comparação de três fotografias: uma obtida junto ao banco de
dados da PF (foto mais antiga), uma no Detran de São Paulo (foto 2006) e a
última no Detran de Mato Grosso (foto 2012). O objetivo era verificar se as
fotos eram da mesma pessoa.

32 Perícia Federal
CABEÇA BRANCA : Taynara Figueiredo

O método utilizado pelos peritos é o

Face 3: (Detran MT - 2012 )


preconizado pelo INC. Ele é ministrado nos
cursos de comparação facial promovidos
pelo Serviço de Perícias em Audiovisual e
Eletrônicos (Sepael) para peritos do Brasil
todo, tanto da Polícia Federal, quanto das
perícias estaduais. Ele consiste na análise e
na extração de características faciais, segui-
da da comparação entre elas.
“Para a realização do exame, procura-
mos nas faces as características de geo-
metria e simetria das faces, bem como as
características particulares como marcas,

Foto 2: (mais antiga)


sinais, rugas e cicatrizes. Todas essas carac-
terísticas foram comparadas e a partir disso
pudemos evidenciar as convergências e as
divergências encontradas”, explicou o peri-
to Paulo Max, responsável pelo laudo.
Em uma primeira análise, os peritos logo
puderam apontar que as imagens não eram
recentes, sendo a FaceVitor uma fotografia mais
recente que a da Face2, havendo uma diferen-
ça temporal de seis anos entre ela e a Face3.
Por meio de um software para a com-
paração das características gerais, os peritos
criaram uma máscara da Face 2, considerada
a mais antiga, que foi sobreposta sobre as
demais. “O resultado foi uma coincidência
Face Victor: (Detran/SP -2006)

no formato da face e da morfologia geral de


boa parte das estruturas, como nariz, boca
e olhos, bem como a correspondência en-
tre suas posições relativas”, afirmou o perito
Frank Fávero, que também assinou o laudo.

uma mansão na cidade de Sorriso, pelo menos cinco toneladas de


QUEM É O CABEÇA no Mato Grosso. cocaína com alto grau de pureza,
BRANCA? O homem era procurado não só países na Europa, na África e nos
O traficante Luiz Carlos da Ro- no Brasil, mas também por outros Estados Unidos.
cha, o Cabeça Branca, está preso na países. O nome dele já constava No Brasil, ele seria o principal
Penitenciária Federal de Catandu- na lista da Interpol como sendo o fornecedor de cocaína para bandi-
vas, no Paraná. Hoje com 58 anos, maior traficante da América Latina. dos ligados às maiores facções do
ele foi levado para o presídio de Cabeça Branca é acusado de país: o Comando Vermelho (CV) e o
segurança máxima depois de ser ter comandado por mais de duas Primeiro Comando da Capital (PCC).
preso em uma mega operação da décadas um esquema de tráfico in- Segundo a polícia, o patrimônio
Polícia Federal, planejada por mais ternacional de drogas responsável do criminoso é avaliado em pelo me-
de um ano. Ele foi encontrado em por abastecer mensalmente, com nos US$ 100 milhões (R$ 325 milhões).

Perícia Federal 33
CABEÇA BRANCA : Taynara Figueiredo

Veja abaixo algumas das convergências e divergências encontradas pelos peritos com o uso da máscara.

34 Perícia Federal
DROGAS: perito criminal federal Rafael Scarsatto Ortiz e Renata Pereira Limberger

A DOSE
UNITÁRIA PARA
CONSUMO
COMO
ELEMENTO
AUXILIAR NA
CARACTERIZAÇÃO
DO USUÁRIO DE
DROGAS
O estudo a seguir foi idealizado com o intuito de
informar com dados técnicos periciais simples,
robustos e reais que auxiliem na caracterização
do usuário de drogas, demanda solicitada pelo
Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul.

Perícia Federal 35
DROGAS: perito criminal federal Rafael Scarsatto Ortiz e Renata Pereira Limberger

No Brasil, a principal norma legal a que estatística, diz-se que ocorre um erro do tipo individualizadas apreendidas. Uma unidade
se submetem os casos de química forense I quando, num testes de hipóteses, rejeita-se individualizada apreendida foi considerada
é a Lei 11.340/2006, a qual revogou a anti- a hipótese nula (a hipótese que se formula uma dose unitária para consumo da droga.
ga Lei 6.368/1976. Enquanto a anterior era para realizar o teste estatístico) quando ela As informações obtidas foram agrupadas em
entendida como uma Lei contra as drogas, é verdadeira. Ou seja, aplicado ao caso em planilhas eletrônicas, tabuladas, analisadas e
a atual é tida como uma Lei sobre drogas. estudo, seria o erro de rejeitar-se a hipótese interpretadas. Foram calculadas as massas
Esta evolução histórica segue uma tendên- de uso de drogas, quando é ela que se apre- médias (em gramas) de cada dose unitária
cia dos países ocidentais em considerar a senta em uma investigação ou processo. para consumo. Além disto, foram identifica-
dependência química uma questão de saú- dos, de forma bem delimitada, os limites su-
de pública e o tráfico de drogas uma ques- METODOLOGIA periores de cada intervalo de massas, o que
tão criminal. Assim, na prática, reduzem-se Para este estudo, realizou-se um levan- pode ser entendido como massa máxima de
as penas do usuário e aumentam as do tra- tamento dos dados de apreensões policiais doses unitárias para consumo apreendidas.
ficante. Da detenção de 6 meses a 2 anos que foram encaminhadas a exame pericial O cigarro foi considerado a dose unitária
(artigo 16, Lei 6.368/76), o usuário passou nas unidades periciais da Polícia Federal do para consumo da droga maconha. A busca
a cumprir as penas alternativas (artigo 28, Rio Grande do Sul, tal como outros trabalhos para o termo “maconha”, associado ao vocá-
Lei 11.343/06), não privativas da liberdade. de nosso grupo de pesquisa. Tomando por bulo “cigarro”, retornou um total de 110 lau-
Da reclusão de 3 até 15 anos (artigo 12, Lei base de dados o Sistema Criminalística da dos para o período pesquisado.
6.368/76), o traficante passou para a reclu- Polícia Federal, que armazena as informações As apreensões de maconha na forma de
são mínima de 5 até 15 anos (artigo 33, Lei das solicitações de perícias bem como os cigarros com massa individualizada foram
6.368/76), pena mínima que inviabiliza me- respectivos laudos. Buscou-se caracterizar o objeto de estudo em 80 Laudos de Exame
didas legais que impeçam a prisão. que se denomina dose unitária para consu- em Material Vegetal (Maconha), no período
Casos em que um detentor (réu) é abor- mo das drogas ilícitas de maior relevância no pesquisado, totalizando 117 cigarros. Para
dado com centenas de quilogramas de uma cenário forense do estado. São elas a maco- fins deste trabalho, não foram distinguidos
substância identificada pericialmente como nha, a cocaína em pó (via de administração os cigarros íntegros (vulgarmente denomi-
droga (por exemplo, cocaína ou maconha) nasal, aspirada) e a cocaína na forma de crack nados baseados) dos cigarros parcialmente
não trazem maiores problemas de tipifica- (via de administração inalatória, fumada). combustos, em qualquer extensão (vulgar-
ção para o sistema jurídico-penal. No entan- Para tal, foram buscados os laudos contendo mente denominadas guimbas ou bitucas).
to, à medida que estas quantidades são me- os termos “maconha” e “cigarro” em associa- A Figura 1A ilustra um cigarro íntegro e um
nores, como diferenciar um usuário de um ção e, posteriormente, o termo “cocaína” no parcialmente combusto, com o material
pequeno traficante? Grandes traficantes, Sistema Criminalística da Polícia Federal. Foi vegetal extravasado a partir de seu inte-
traficantes intermediários, pequenos trafi- empregado o período de cinco anos de pes- rior. Para esta amostragem do estudo (n=
cantes e usuário, pode-se dizer que o en- quisa (29/06/2012 até 29/06/2017) e selecio- 117) a massa média da dose unitária para
cadeamento desta atividade ilícita estrutu- nados os laudos produzidos pelas unidades consumo de maconha foi de 0,31 gramas.
ra-se assim. E apenas um destes atores não periciais do estado do Rio Grande do Sul. Es- Salienta-se, ainda, que apenas 12 unida-
terá pena de prisão no caso de abordagem pecificamente, a unidade técnico-científica des (o que corresponde a 10% do total de
policial e devido processo penal. de Santa Maria (UTEC/SMA/PF/RS), a unidade unidades apreendidas) apresentaram mas-
Esta difícil tarefa é de atribuição judicial, por técnico-científica de Pelotas (UTEC/PTS/PF/ sa acima de 1,00 grama. Ou seja, 90% do
vezes, com caráter subjetivo, observando-se RS) e o Setor Técnico-Científico da Polícia Fe- total de doses unitárias para consumo de
que: “Para determinar se a droga destinava-se deral do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre maconha apreendidos pesam menos que
a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza (SETEC/SR/PF/RS). 1,00 grama. Por fim, informa-se que apenas
e à quantidade da substância apreendida, ao Os laudos foram acessados individual- uma unidade das 117 avaliadas apresen-
local e às condições em que se desenvolveu a mente pela intranet da Polícia Federal. Fo- tou massa acima de 1,50 gramas (o que
ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem ram coletadas as seguintes informações: corresponde a menos que 1% do total de
como à conduta e aos antecedentes do agen- número de laudos para cada droga, forma unidades apreendidas). Equivalendo, então,
te” (§2º Art. 28, Lei 11.343/06). de apresentação da droga cocaína (crack a que mais de 99% das doses unitárias para
Pode-se abordar a questão com o pensa- ou pó), quantidade de unidades individua- consumo de maconha apreendidas pesam
mento de minimização de erros do tipo I. Em lizadas apreendidas, massa das unidades menos que 1,50 gramas. De fato, esta última

36 Perícia Federal
DROGAS: perito criminal federal Rafael Scarsatto Ortiz e Renata Pereira Limberger

amostra, a qual apresentou a maior massa 406), a massa média da dose unitária para diferencie usuário e traficante, como é feito
dentre as avaliadas, aferiu 1,51 gramas. o consumo de crack foi de 0,32 gramas. Sa- em Portugal, Uruguai, El Salvador, Bélgica,
A trouxinha (ou buchinha ou invólucro lienta-se, ainda, que apenas 38 unidades (o Peru, México, Letônia, Países Baixos, Belize,
plástico) foi considerada a dose unitária para que corresponde a 9% do total de unidades Equador, Paraguai, Dinamarca, Finlândia,
consumo da droga cocaína em pó. A bus- apreendidas) apresentaram massa acima de República Tcheca, Colômbia, Venezuela,
ca para o termo “cocaína” retornou um total 0,5 gramas. Ou seja, 91% do total de doses Grécia, Canadá, Chipre, Suécia, Jamaica, Es-
de 620 laudos para o período pesquisado. unitárias para consumo de crack apreendi- panha, Itália, Áustria, Hungria, Alemanha,
As apreensões de cocaína na forma de pó dos pesam menos que 0,5 gramas. Por fim, Noruega, alguns estados dos Estados Uni-
com massa individualizada foram objeto de informa-se que apenas 20 unidades das 406 dos da América, entre outros.
estudo em 65 laudos de exame em substân- avaliadas apresentaram massa acima de Após as análises, merece destaque a
cia (cocaína), totalizando 401 trouxinhas, no 0,80 gramas (o que corresponde a 5 % do surpreendente homogeneidade dos valo-
período pesquisado. A Figura 1B ilustra uma total de unidades apreendidas). Isso explica res de massa exibidos. Os valores de do-
típica trouxinha contendo material esbran- que 95% das doses unitárias para consumo ses unitárias para consumo das drogas em
quiçado na forma de pó que caracteriza a de crack apreendidas pesam menos que avaliação são muito homogêneos. Ainda
apresentação desta droga. Para esta amos- 0,80 gramas. De fato, a amostra que apre- que as produções clandestinas não sejam
tragem do estudo (n= 401), a massa média sentou a maior massa dentre as avaliadas objeto de ações de controle de qualidade,
da dose unitária para consumo de cocaína aferiu 1,25 gramas. como a produção de medicamentos, por
em pó foi de 0,57 gramas. Salienta-se, ainda, Nesta comunicação não foram aborda- exemplo; as drogas maconha, cocaína em
que apenas 36 unidades (o que correspon- dos aspectos toxicológicos – como os fenô- pó e crack apresentam valores de massa
de a 9% do total de unidades apreendidas) menos biológicos de criação de tolerância e (em gramas) que apontam para uma pro-
apresentaram massa acima de 1,00 grama. mecanismos de dependência química –; as- dução, de algum modo, bem organizada
Ou seja, 91% do total de doses unitárias para pectos genéticos – que podem influenciar e reprodutível.
consumo de cocaína em pó apreendidos na biotransformação e efeitos das drogas Esta comunicação apresentou a massa
pesam menos que 1,00 grama. Por fim, in- –; nem aspectos químicos, sejam os asso- média de uma dose unitária para consumo
forma-se que apenas 04 unidades das 401 ciados ao tráfico – tais como adulteração e das drogas maconha, cocaína na forma de
avaliadas apresentou massa acima de 1,50 diluição de drogas –, sejam os associados a pó e crack. Espera-se que tais dados téc-
gramas (o que corresponde a 1 % do total incertezas de medidas laboratoriais quan- nico-periciais, em conjunto com demais
de unidades apreendidas). Equivalendo, titativas para determinação de teores de elementos de investigação e de processo
então, a que 99% das doses unitárias para pureza das drogas periciadas – calibração penal, auxiliar no sentido de identificar o
consumo de cocaína em pó apreendidas de balanças, validação de métodos, entre usuário de drogas. Indivíduo este ao qual
pesam menos que 1,50 gramas. De fato, outros. Tampouco se discutiu a validade de diferentemente do traficante de drogas não
a amostra que apresentou a maior massa tomarmos para o Brasil os critérios objetivos cabe pena privativa de liberdade pela legis-
dentre as avaliadas aferiu 1,54 gramas. de quantidade limite de cada droga que lação atual brasileira.
A trouxinha (ou buchinha ou invólucro
plástico) foi considerada também a dose
unitária para consumo da droga crack (co-
caína na forma de pedra). A busca para
o termo “cocaína” retornou um total de
620 laudos para o período pesquisado. As
apreensões de crack com massa individua-
lizada foram objeto de estudo em 21 laudos
de exame em substância (cocaína), totali-
zando 406 trouxinhas, no período pesquisa-
do. A Figura 1C ilustra uma típica trouxinha
contendo material amarelado na forma de
figura: 1 A figura: 1 B figura: 1C
pedra que caracteriza a apresentação desta
droga. Para esta amostragem do estudo (n= Figura 1: Ilustração das doses unitárias para consumo das drogas (A) maconha, (B) cocaína em pó e (C) crack.

Perícia Federal 37
CPP: Danielle Ramos

NOVO
CÓDIGO DE
PROCESSO
PENAL
O Código de Processo
Penal passará por
uma reforma sem
precedentes. A norma,
que é de 1941, será
substituída pelo PL
8045/10, que foi
elaborado por uma
comissão de juristas e
aprovado pelo Senado. O
projeto está na Câmara
e a expectativa é que
o relatório final seja
votado em breve pela
Casa, que atua como
revisora da proposta

38 Perícia Federal
CPP: Danielle Ramos

A
proposta de reforma do Código de na Lei das Contravenções Penais nos jul- enquadrados na Seção V, que abrange os
Processo Penal teve início em 2010 gamentos de crimes. O texto já foi aprecia- artigos 201 a 221. Em seu relatório parcial,
no Senado e foi aprovada pela do pelo Senado e encontra-se na Câmara, o deputado federal Rubens Júnior (PCdoB/
Casa naquele mesmo ano. Naquela época, onde possui cerca de 200 propostas apen- MA) apresentou o art. 201-A, que coloca
a Câmara não vislumbrou o projeto como sadas ao projeto inicial. que apenas os peritos oficiais podem reali-
prioridade – até o ano passado – quando o Ao longo da fase de audiências públicas, zar os exames de corpo de delito pertinen-
ex-deputado Eduardo Cunha, então presi- a Associação Nacional dos Peritos Criminais tes à persecução penal. Destaque também
dente da Câmara, retomou o tema. Federais (APCF) acompanhou de perto as para o artigo 206, em que foi incluída a
O novo Código, que substituirá o De- discussões e teve a oportunidade de apre- expressão “sob pena de nulidade” referen-
creto-Lei 3.689/41, trata de um conjunto de sentar sugestões aos relatores responsáveis te aos exames necessários na infração que
regras e princípios, elencados com o objeti- com temas afetos à Perícia Criminal. deixar vestígios. A alteração se deu em aca-
vo de organizar a justiça penal e a aplicação Na proposta da reforma, a prova peri- tamento às emendas 119 e 187, do depu-
dos preceitos contidos no Direito Penal e cial e o exame de corpo de delito foram tado Lincoln Portela.

NA TABELA, OS ARTIGOS COM AS MODIFICAÇÕES


PROPOSTAS PELO RELATOR SETORIAL AO PL 8.045/2010:

PL 8.045/2010 PARECER DO RELATOR SETORIAL


SEÇÃO V CAPÍTULO II
DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO

• Art. 201. As perícias serão realizadas por perito oficial, portador • Art. 201. As perícias serão realizadas por perito oficial, portador
de diploma de curso superior. de diploma de curso superior.

• § 1º Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 (duas) • § 1º Na falta de perito oficial, certificado pela direção do órgão
pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior ou unidade de perícias oficiais, o exame será realizado por duas
preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior
habilitação técnica relacionada com a natureza do exame. preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem
habilitação técnica relacionada com a natureza do exame.
• § 2º Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e
fielmente desempenhar o encargo. • § 2º A certificação constitui formalidade essencial para o ato de
nomeação, sob pena de nulidade, devendo ser fundamentada e
• § 3º Será facultada ao Ministério Público, ao assistente de
específica para cada exame pericial solicitado.
acusação, à vítima, ao querelante, ao indiciado e ao acusado a
formulação de quesitos no prazo de 5 (cinco) dias, contados da • § 3º Em casos de comprovada urgência, o perito criminal
nomeação do perito. responsável pelo órgão ou unidade de perícias oficiais poderá
realizar a certificação oralmente, sem prejuízo de posterior
• § 4º O exame pericial será requisitado pela autoridade
formalização, observadas as disposições deste artigo.
competente ao diretor do órgão de perícia.
• § 4º Os peritos não oficiais prestarão o compromisso de bem e
fielmente desempenhar o encargo.

• § 5º Será facultada ao Ministério Público, ao assistente de


acusação, à vítima, ao querelante, ao indiciado e ao acusado
a formulação de quesitos no prazo de cinco dias, contados da
nomeação do perito.

• § 6º O exame pericial será requisitado pela autoridade


competente ao diretor do órgão de perícia

Perícia Federal 39
CPP: Danielle Ramos

PL 8.045/2010 PARECER DO RELATOR SETORIAL


SEÇÃO V CAPÍTULO II
DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO

• Art. 201-A. Os exames de corpo de delito pertinentes à


persecução penal são atividades exclusivas do perito oficial
de natureza criminal de carreira, com formação acadêmica
específica, que realizará perícias com autonomia técnica,
científica e funcional.
Parágrafo único O perito oficial de natureza criminal é a
autoridade competente para definir os métodos científicos de
investigação de notícias de crimes, para isso poderá se valer do
apoio técnico de auxiliares de perícia ou outros profissionais.

• Art. 202. Os peritos exercerão suas atividades com autonomia • Art. 202. Os peritos exercerão suas atividades com autonomia
técnica, científica e funcional, podendo utilizar todos os meios técnica, científica e funcional, podendo utilizar todos os meios
e recursos tecnológicos necessários à realização da perícia, bem e recursos tecnológicos necessários à realização da perícia, bem
como pesquisar vestígios que visem a instruir o laudo pericial, e como pesquisar vestígios que visem a instruir o laudo pericial,
ainda: e ainda:

• I – requerer à autoridade competente os documentos, dados e • I – requerer à autoridade competente, pessoas e entidades
informações necessários à realização dos exames periciais; públicas ou privadas, os documentos, dados e informações
necessários à realização dos exames periciais;
• II – solicitar serviços técnicos especializados e meios materiais e
logísticos de outros órgãos públicos; • II – solicitar serviços técnicos especializados e meios materiais
e logísticos de outros órgãos públicos, sem ônus, inclusive de
• III – solicitar auxílio de força policial a fim de garantir a segurança
outra especialidade de perícia nos casos onde envolver mais de
necessária à realização dos exames.
uma especialidade, a serem executados em prazo previamente
• § 1º A coleta de vestígios e o exame pericial poderão ser estabelecido;
realizados em qualquer dia e horário, caso haja condições
• III - requisitar auxílio de força policial a fim de garantir a
técnicas.
segurança necessária à realização dos exames;

• IV - requisitar exames periciais específicos;

• V - realizar entrevista com testemunha, ofendidos ou investigados.

• Parágrafo único. A coleta de vestígios e o exame pericial


poderão ser realizados em qualquer dia e horário, caso haja
condições técnicas.

40 Perícia Federal
CPP: Danielle Ramos

PL 8.045/2010 PARECER DO RELATOR SETORIAL


SEÇÃO V CAPÍTULO II
DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO

• Art. 203. Durante o curso do processo judicial, é permitido às • Art. 203. Durante o curso do processo judicial, é permitido
partes, quanto à perícia: às partes, quanto à perícia:

• I – requerer a inquirição dos peritos para esclarecerem • I – requerer a inquirição dos peritos para esclarecerem
a prova ou para responderem a quesitos, desde que o a prova ou para responderem a quesitos, desde que o
mandado de intimação e os quesitos ou as questões a serem mandado de intimação e os quesitos ou as questões a
esclarecidas sejam encaminhados com antecedência mínima serem esclarecidas sejam encaminhados com antecedência
de 10 (dez) dias, podendo apresentar as respostas em laudo mínima de dez dias, podendo apresentar as respostas em
complementar; laudo complementar;

• II – indicar assistentes técnicos que poderão apresentar • II – indicar assistentes técnicos que poderão apresentar
pareceres no prazo de 10 (dez) dias da intimação da juntada do pareceres no prazo de dez dias da intimação da juntada do
laudo pericial ou ser inquiridos em audiência. laudo pericial ou ser inquiridos em audiência.

• § 1º O assistente técnico atuará a partir de sua admissão pelo • § 1º O assistente técnico atuará a partir de sua admissão
juiz e após a conclusão dos exames e a elaboração do laudo pelo juiz e após a conclusão dos exames e a elaboração
pelos peritos oficiais, sendo as partes intimadas desta decisão do laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes intimadas
desta decisão.
• § 2º Havendo requerimento das partes, o material probatório
que serviu de base à perícia será disponibilizado no ambiente • § 1º O assistente técnico atuará a partir de sua admissão
do órgão oficial e na presença de perito oficial, que manterá pelo juiz e após a conclusão dos exames e a elaboração do
sempre sua guarda, para exame pelos assistentes, salvo se for laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes intimadas desta
impossível a sua conservação. decisão.

• § 3º Tratando-se de perícia complexa que abranja mais de uma • § 2º Havendo requerimento das partes, o material
área de conhecimento especializado, poder-se-á designar a probatório que serviu de base à perícia será disponibilizado
atuação de mais de 1 (um) perito oficial, e a parte indicar mais no ambiente do órgão oficial e na presença de perito
de 1 (um) assistente técnico. oficial, que manterá sempre sua guarda, para exame pelos
assistentes, salvo se for impossível a sua conservação.

• § 3º Tratando-se de perícia complexa que abranja mais


de uma área de conhecimento especializado, poder-se-á
designar a atuação de mais de um perito oficial, e a parte
indicar mais de um assistente técnico.

• § 4º Estando sujeitos à disciplina judiciária, e a eles


se aplicando o disposto sobre incompatibilidades,
impedimentos e suspeições de modo análogo aos juízes,
deverá a autoridade judiciária indeferir requerimento de
oitiva de peritos criminais na condição de testemunhas.

Perícia Federal 41
CPP: Danielle Ramos

PL 8.045/2010 PARECER DO RELATOR SETORIAL


SEÇÃO V CAPÍTULO II
DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO

• Art. 204. O perito elaborará o laudo pericial, no qual • Art. 204. O perito elaborará o laudo pericial, no qual
descreverá minuciosamente o que examinar e responderá aos descreverá minuciosamente o que examinar e responderá aos
quesitos formulados. quesitos formulados.

• § 1º O laudo pericial será elaborado no prazo máximo de 15 • § 1º O laudo pericial será elaborado no prazo máximo de
(quinze) dias, podendo este prazo ser prorrogado, em casos trinta dias, podendo este prazo ser prorrogado, em casos
excepcionais, a requerimento do perito. excepcionais, a requerimento do perito.

• § 2º Sempre que possível e conveniente, o laudo será ilustrado • § 2º Sempre que possível e conveniente, o laudo será ilustrado
com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos. com fotografias, desenhos ou esquemas elucidativos e
encaminhado a autoridade competente em mídia adequada.
• § 3º Havendo mais de 1 (um) perito, no caso de divergência
entre eles, serão consignadas no auto do exame as • § 3º Havendo mais de um perito, no caso de divergência
declarações e respostas de um e de outro, ou cada um redigirá entre eles, serão consignadas no auto do exame as
separadamente o seu laudo, cabendo à autoridade, se entender declarações e respostas de um e de outro, ou cada um
necessário, designar um terceiro perito para novo exame. redigirá separadamente o seu laudo, cabendo à autoridade,
se entender necessário, designar um terceiro perito para
• § 4º No caso de inobservância de formalidades ou no caso
novo exame.
de omissões, obscuridades ou contradições, a autoridade
judiciária mandará suprir a formalidade ou complementar ou • § 4º No caso de inobservância de formalidades ou no caso
esclarecer o laudo. de omissões, obscuridades ou contradições, a autoridade
judiciária mandará suprir a formalidade ou complementar ou
• § 5º O juiz, a requerimento das partes, poderá também
esclarecer o laudo.
ordenar que se proceda a novo exame, por outros peritos, se
julgar conveniente. • § 5º O juiz, a requerimento das partes, poderá também
ordenar que se proceda a novo exame, por outros peritos, se
julgar conveniente.

• Art. 206. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável • Art. 206. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável,
o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo sob pena de nulidade, exame de corpo de delito, direto ou
supri-lo a confissão do acusado. indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado.

42 Perícia Federal
CPP: Danielle Ramos

PL 8.045/2010 PARECER DO RELATOR SETORIAL


SEÇÃO V CAPÍTULO II
DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO

• Art. 208. Em caso de lesões corporais, se o primeiro exame • Art. 208. Em caso de lesões corporais, se o primeiro exame pericial
pericial tiver sido incompleto, proceder-se-á a exame tiver sido incompleto, proceder-se-á a exame complementar por
complementar por determinação do juiz ou do delegado determinação do juiz ou da autoridade policial, de oficio ou a
de polícia, de ofício ou a requerimento do Ministério requerimento do Ministério Público, da vítima, do acusado ou de
Público, da vítima, do acusado ou de seu defensor. seu defensor.

• § 1º No exame complementar, os peritos terão presente o • § 1º No exame complementar, os peritos terão presente o
auto de corpo de delito, a fim de suprir-lhe a deficiência auto de corpo de delito, a fim de suprir-lhe a deficiência ou
ou retificá-lo. retificá-lo.

• § 2º Se o exame tiver por fim precisar a classificação do • § 2º Se o exame tiver por fim precisar a classificação do
delito no art. 129, § 1º, I, do Código Penal, deverá ser feito delito no art. 129, § 1º, I, do Código Penal, deverá ser feito
logo que decorra o prazo de 30 (trinta) dias, contado da logo que decorra o prazo de trinta dias, contado da data
data do crime. do crime.

• § 3º A falta de exame complementar poderá ser suprida • § 3º A falta de exame complementar poderá ser suprida
pela prova testemunhal ou documental. pela prova testemunhal ou documental.

• Art. 214. Para efeito de exame do local onde houver sido • Art. 214. Para efeito de exame do local onde houver sido
praticada a infração, a autoridade providenciará imediatamente praticada a infração, a autoridade providenciará imediatamente
para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos para que não se altere o estado das coisas até a chegada dos
peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias, peritos, que poderão instruir seus laudos com fotografias,
desenhos ou esquemas elucidativos. desenhos ou esquemas elucidativos.

• § 1º Quando for o caso, o perito diligenciará para que todos • § 1º Quando for o caso, o perito diligenciará para que todos
os vestígios recolhidos no local sejam acondicionados os vestígios recolhidos no local sejam acondicionados
em embalagens individualizadas e devidamente lacradas, em embalagens individualizadas e devidamente lacradas,
etiquetadas e rubricadas, com vistas à preservação da cadeia de etiquetadas e rubricadas, com vistas à preservação da
custódia da prova durante o curso do processo. cadeia de custódia da prova durante o curso do processo.

• § 2º O perito registrará, no laudo, as alterações do estado • § 2º O perito registrará, no laudo, as alterações do estado
das coisas e discutirá, no relatório, as consequências dessas das coisas e discutirá, no relatório, as consequências dessas
alterações na dinâmica dos fatos. alterações na dinâmica dos fatos.

• § 3º Nos casos de morte violenta ocorrida em ações com


envolvimento de agentes do Estado, o perito encaminhará
o laudo diretamente à autoridade requisitante e ao
Ministério Público, sem prejuízo de posterior remessa de
exames complementares.

Perícia Federal 43
CPP: Danielle Ramos

PL 8.045/2010 PARECER DO RELATOR SETORIAL


SEÇÃO V CAPÍTULO II
DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO DA PROVA PERICIAL E DO EXAME DO CORPO DE DELITO

• Art. 219. Nos exames periciais grafotécnicos e em outros • Art. 219. Nos exames periciais grafotécnicos e em outros
cotejos documentoscópicos, observar-se-á o seguinte: cotejos documentoscópicos, observar-se-á o seguinte:

• I – a pessoa a quem se atribua ou se possa atribuir o escrito • I – a pessoa a quem se atribua ou se possa atribuir o escrito
será intimada para o ato, se for encontrada; será intimada para o ato, se for encontrada;

• II – para a comparação, poderão servir quaisquer • II – para a comparação, poderão servir quaisquer documentos
documentos que a pessoa reconhecer ou que já tiverem que a pessoa reconhecer ou que já tiverem sido judicialmente
sido judicialmente reconhecidos como de seu punho, ou reconhecidos como de seu punho, ou sobre cuja
sobre cuja autenticidade não houver dúvida; autenticidade não houver dúvida;

• III – a autoridade, quando necessário, requisitará, para • III – o perito, quando necessário, requisitará, para exame,
exame, os documentos que existirem em arquivos ou em os documentos que existirem em arquivos ou em
estabelecimentos públicos, ou nestes realizará a diligência, estabelecimentos públicos, ou nestes realizará a diligência, se
se daí não puderem ser retirados; daí não puderem ser retirados;

• IV – quando não houver escritos para a comparação ou • IV – quando não houver escritos para a comparação ou forem
forem insuficientes os exibidos, a autoridade solicitará que a insuficientes os exibidos, o perito solicitará que a pessoa
pessoa escreva o que lhe for ditado. escreva o que lhe for ditado.

• Parágrafo único. Na hipótese do inciso IV do caput deste • Parágrafo único. Na hipótese do inciso IV do caput deste
artigo, se a pessoa estiver ausente, mas em lugar certo, artigo, se a pessoa estiver ausente, mas em lugar certo,
a diligência poderá ser feita por precatória, em que se a diligência poderá ser feita por precatória, em que se
consignarão as palavras que a pessoa será intimada a escrever. consignarão as palavras que a pessoa será intimada a escrever.

• Art. 219-A. O perito realizará coleta de material de referência de pessoas ou de coisas, caso julgue necessário, nos exames que exigirem
confrontos com vestígios deixados pela infração, observando-se o seguinte:

• I – a pessoa a quem se atribua ou possa se atribuir a autoria dos vestígios será intimada para o ato de fornecimento do material a ser
utilizado nos confrontos, se for encontrada;

• II – em caso de recusa ou de não comparecimento, o perito consignará o ocorrido em auto.

Fonte: Queiroz Assessoria Parlamentar e Sindical

A REVISTA PERÍCIA FEDERAL CONVERSOU COM O DEPUTADO FEDERAL


RUBENS JÚNIOR (PCDOB/MA), QUE É RELATOR PARCIAL DO PROJETO.
O senhor é um dos relatores par- desta mudança será a população brasileira. Código, bem como da Consultoria da Câ-
ciais do projeto da reforma. Como Por fim, destaco que nada disso seria mara dos Deputados, que de forma desta-
enxerga esse papel? possível sem o auxílio das Ilustres figuras cável me assessorou na melhor construção
Creio que, com nossa contribuição, o que dedicam a vida ao direito penal e pro- da parte do projeto que me coube relatar.
sistema processual penal brasileiro será mo- cessual penal, ouvidos no âmbito da Comis- Com relação aos artigos que tra-
dificado para melhor, e o maior beneficiário são Especial erguida para análise do Novo tam especificamente da prova peri-

44 Perícia Federal
CPP: Danielle Ramos

cial e do exame de corpo de delito, enxerga essa questão da exclusivi- detalhes. Acredito que a prova pericial é
como o senhor avalia a sua colabo- dade da Perícia Criminal no âmbito sobremaneira indispensável ao processo,
ração, por meio do relatório parcial do processo penal? devendo caminhar lado a lado com outros
apresentado, na defesa do trabalho Reitero que a contribuição que pode ser meios de prova. Reconhecemos a impor-
da perícia oficial? dada pela correta perícia realizada dentro tância dessa espécie probatória e descartá-
Minha atuação nesta Comissão Especial do inquérito policial e da instrução proces- -la é um erro.
e como relator-parcial do projeto do Códi- sual não pode ser substituída. A prova peri- Porém, destaco que não podemos
go tem vistas a modernização do sistema. cial pode decidir os rumos de um processo, menosprezar o instituto da colaboração
No que atine a prova pericial e o exame de da vida do acusado, da vida da vítima e da premiada, que foi importado de modelos
corpo de delito, o mesmo pode ser dito. sociedade, que é detentora do interesse processuais estrangeiros, e que lá fora tem
Tais institutos são imprescindíveis, mas es- público que ronda o processo penal. contribuído de forma significativa. O que nos
tavam desconexos com nossa atual realidade. Por isso, é extremamente relevante que cabe é fazer uso desse meio probatório de
A vítima de um crime sabe o quanto é difícil e a perícia seja feita por profissionais especiali- maneira mais adequada.
constrangedor passar por exame de corpo de zados para tanto, com inegável qualificação O que nos parece mais genuíno é que to-
delito. O sistema merece rápida modificação. técnica, imparciais em relação aos casos em dos os meios de prova, desde que obtidos e
Por isso, os dois institutos, seja da prova que trabalham. Em outras palavras, a perí- produzidos sob a égide da lei e dos parâme-
pericial, seja do exame do corpo de delito, cia técnica deve ser confiada a quem tenha tros constitucionais, possam ser utilizados no
devem ser corretamente confeccionados qualificação para exprimir esta confiança. inquérito policial e na instrução processual.
por peritos oficiais autorizados, para o bem Estamos acompanhando um mo- Gostaria de deixar uma mensa-
da vítima e para que o Estado logre êxito mento do País em que o instituto da gem aos peritos criminais da Polí-
em sua investigação. colaboração premiada tem se torna- cia Federal?
A perícia oficial é atualmente do- do uma ferramenta cada vez mais Destaco meu respeito pela categoria e mi-
tada de autonomia técnica, científica usada no processo penal. Como o nha admiração pelo precioso e indispensável
e funcional (lei 12030/09). Entretan- senhor avalia a imprescindibilidade trabalho dos peritos criminais da Polícia Fede-
to, outros órgãos têm produzido do- da prova pericial no processo penal, ral em defesa dos interesses da sociedade.
cumentos que vem sendo utilizados sob pena de nulidade? Que continuem nos prestando esse
como meios de prova no processo A prova pericial é o único caminho cien- tão importante trabalho e que a categoria
penal e, em alguns casos, substi- tificamente seguro que possa comprovar consiga o reconhecimento que merece.
tuindo o exame pericial realizado o modus operandi no qual a conduta deli- Ademais, nos colocamos à disposição para
por peritos oficiais. Como o senhor tuosa se estabeleceu, em seus minuciosos o que pudermos. Sucesso e prosperidade.
Foto: Divulgação

Presidente da APCF, Marcos Camargo, com deputado Rubens Júnior.

Perícia Federal 45
PRÊMIO CONGRESSO EM FOCO: Taynara Figueiredo

PRÊMIO
CONGRESSO
EM FOCO 2017
APCF apoia evento mais uma vez e premia
parlamentares que foram destaques no
combate à corrupção

46 Perícia Federal
PRÊMIO CONGRESSO EM FOCO: Taynara Figueiredo

N
a 10º edição do Prêmio Congres-

Fotos: André Zímmerer


so em Foco, realizada no dia 19
de outubro, em Brasília/DF, a As-
sociação Nacional dos Peritos Criminais
Federais foi responsável por entregar o
prêmio aos parlamentares destaques no
combate à corrupção e ao crime organi-
zado. Os deputados Eduardo Bolsonaro
(PSC / SP), mais votado pelo público, e
Rubens Bueno (PPS-PR), mais votado pelo
júri, receberam das mãos do presidente
da APCF, Marcos Camargo, o troféu em
reconhecimento ao posicionamento de-
les ao longo do ano.
Desde 2009, a APCF é apoiadora do
prêmio por entender que o movimento
funciona como um balizador de cobrança
dos parlamentares. “Diante de um parla-
mento desacreditado por escândalos de
corrupção, não podemos nos deixar levar
pela sensação de que está tudo perdido,
de que não há salvação na política”, afir-
mou Camargo.
Durante a votação, que aconteceu
por meio da internet, do dia 1º a 30 de
setembro, o processo foi acompanha-
do pelo perito criminal federal Evandro
Lorens, que atestou a idoneidade e a
transparência dos resultados que foram
anunciados publicamente durante a ce-
rimônia de premiação.
“Foi notável o envolvimento de toda
a equipe de tecnologia do Congresso em
Foco para garantir uma votação segura e
tranquila. É um orgulho para a APCF ser
parceira do evento e poder colaborar na
auditoria”, destacou Lorens
A APCF teve um espaço especial na en-
trada do evento, que aconteceu no Unique
Palace, com a presença de cerca de 500
convidados. Foi montado um lounge com
uma exposição de fotos sobre a perícia.
As imagens foram clicadas pelo fotógrafo
André Zímmerer e também fazem parte
do calendário APCF 2018,  distribuído aos
convidados da premiação.

Perícia Federal 47
LOCAL DE CRIME: perito criminal da Polícia Civil do DF Cássio Thyone Almeida de Rosa

“QUANDO A
PROVA MATERIAL
É A ÚNICA VOZ
DA VÍTIMA”
Q
uando fui solicitado a abordar o tema em questão, de ime-
diato me lembrei de uma metáfora que utilizo quando estou
ensinando as particularidades de um exame pericial em local
de crime. Quando me refiro à vítima, cujo corpo é encontrado num ce-
Foto: André Zímmerer

nário de morte e violência, ensino aos meus alunos que o cadáver não
fala... ele “grita”. Mas é preciso estar preparado para ouvi-lo. Apesar da
cena estática e de sua imobilidade, esse corpo implora para ser ouvido.
Quer contar sua história, quer que alguém o ouça. Quer relatar todos os
fatos que, a instantes ou a horas e até mesmo a dias, culminaram com
os fatos que resultaram em sua morte. Quer também apontar um autor.
Clama por justiça!

48 Perícia Federal
LOCAL DE CRIME: perito criminal da Polícia Civil do DF Cássio Thyone Almeida de Rosa

A quem recorrer? Aqui emerge a figura São muitos os casos que podemos re- O ano é 1889. No dia 27 de julho, um caso
do perito criminal, como interlocutor dessa latar e que ilustram nosso foco: “Quando a de desaparecimento é registrado. Um mei-
vítima. O perito que estiver preparado para prova pericial é a única voz da vítima”. rinho (espécie de oficial de justiça) morador
esse “diálogo” fará de tudo para traduzir os RABELLO, E. Curso de Criminalística: de Paris, desaparece e a polícia investigativa
vestígios materiais em uma dinâmica possí- Uma Sugestão de Programa para as Facul- denominada Sûreté, por meio de seu chefe
vel para os fatos e até, quem sabe, apontar dades de Direito. Porto Alegre: Editora Sa- que se chamava Goron, passa a investigar o
um autor. gra D. C. Luzzatto, 1996. fato. A estória rapidamente ganha as man-
Há casos em que sequer existe uma tes- Comecemos com um clássico, fato nar- chetes de jornais da época e o caso reper-
temunha. Os fatos acontecem longe dos rado no livro “Os Mortos Contam Sua His- cute por todo o país. Em 13 de agosto do
olhos, longe das câmeras ou de qualquer tória” de Jürgen Thorward. Antes um breve mesmo ano, um corpo aparece às margens
outro meio de registro. Resta então o últi- comentário sobre esse livro. O livro narra do Rio Ródano, junto a uma pequena co-
mo fio de esperança: o trabalho pericial no histórias que relatam uma fase embrioná- munidade denominada Millery, a 15 km de
local de crime. ria da Criminalística e da Medicina Legal. Lion. A notícia alcança Goron e ele solicita
Em relação a esse cenário, aproveito, Como foi interessante acompanhar por informações sobre o corpo, julgando que
com a reverência devida, para reproduzir meio de casos reais a evolução dessas duas poderia tratar-se de Gouffé. De imediato
dois conceitos do grande mestre Eraldo Ra- ciências que nos são tão próximas. Esse foi foi informado que não se tratava do corpo
bello, que com o requinte de utilizar-se uma o primeiro livro que li sobre o tema quan- que tanto buscava, já que as caraterísticas
linguagem poética e precisa, assim se refere do ainda estava no curso de formação de físicas, segundo o relatório do médico que
ao local de crime, conceituando-o e carac- perito criminal na Polícia Civil do Distrito realizou a necrópsia, eram distintas. Alguns
terizando-o em relação a sua preservação: Federal. Percorrendo as estantes da biblio- dias depois foram encontrados no mesmo
“...porção do espaço compreendida teca da Universidade de Brasília encontrei rio pedaços de madeira que exalavam um
num raio que, tendo por origem o ponto um exemplar desse livro, já esgotado nes- cheiro de cadáver, o que fez com que um
no qual é constatado o fato, se entenda de sa época, podendo assim estabelecer meu policial suspeitasse de sua ligação com o
modo a abranger todos os lugares em que, primeiro contato com o tema. Alguns anos corpo encontrado. Os pedaços de madeira
aparente, necessária ou presumidamente, depois, já atuando como perito criminal, faziam parte de um baú e em um fragmen-
hajam sido praticados, pelo criminoso, ou pude comprar um exemplar em um sebo to da tampa foram verificadas as inscrições:
criminosos, os atos materiais, preliminares e incorporar o livro ao meu acervo. Daí o “De Paris 1231 - Paris, 27/07/188? - Trem Ex-
ou posteriores à consumação do delito, e enorme carinho que tenho por essa obra. presso 3. Para Lion - Perrache I”.
com este diretamente relacionado. No lo- Já no primeiro capítulo me impressionei Como o último algarismo estava ilegível,
cal do crime, a polícia examinará todos os com o relato do caso que aqui apresento um dos detetives de Lion opinou que deve-
vestígios deixados na cena da prática do de forma resumida. Trata-se do Caso Gouffé. ria ser “8”, ou seja, o baú teria sido enviado
delito, objetivando esclarecer a mecânica e
o móvel do delito, contribuindo de forma
incontroversa para o processo judicial”.

“O local de crime constitui


um livro extremamente frágil e
delicado, cujas páginas por te-
rem a consistência de poeira,
desfazem-se, não raro, ao simples
toque de mãos imprudentes, iná-
beis ou negligentes, perdendo-
-se desse modo para sempre, os
dados preciosos que ocultavam
à espera da argúcia dos peritos”.

Foto: Banco de Imagens

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LOCAL DE CRIME: perito criminal da Polícia Civil do DF Cássio Thyone Almeida de Rosa

a Lion um ano antes do desaparecimento

Foto: André Zímmerer


de Gouffé. Mesmo assim, Goron não estava
convencido e procurou o setor de despa-
chos de bagagens em Paris e consultando
os registros descobriu que na data de 27 de
julho de 1888 nenhuma encomenda tinha
sido despachada. Entretanto, no mesmo dia
do ano de 1889, um baú com o peso de 105
kg passara pela estação com destino a Lion.
Apesar da afirmação do médico que fi-
zera a necrópsia em Lion, de que o corpo
encontrado em Millery não se tratava de
Gouffé, o investigador acreditava em seu
feeling e suas suspeitas eram maiores que
suas certezas. Outro detalhe fizera com que
o caso se tornasse mais confuso: um cochei-
ro tinha testemunhado de modo irrespon-
sável, alegando ter ajudado três indivíduos
a descarregar um baú na data inicialmente
suspeita. Ele reconheceu, por meio de foto-
grafias, três malfeitores, e assim foram acu-
sados pelo assassinato. O caso estava solu-
cionado para a polícia de Lion. O cadáver
de Millery foi então sepultado.
2 THORWARD, Jürgen, Os Mortos Con-
tam sua História. Rio de Janeiro. Editora Ci-
vilização Brasileira S.A. 1968.
Com a autorização do juiz responsável
pelo caso, Goron consegue a autorização
para prosseguir nas investigações. A infor-
mação da data do despacho do baú de 105 pela cadeira dessa ciência na Universidade sição, ele demostrou toda a sua paixão pela
kg exatamente no dia do desaparecimen- de Lion. É dele uma conhecida frase: “Uma Medicina Legal em meio a uma atividade
to de Gouffé fez com que o cocheiro que necrópsia malfeita não pode ser revisada!” tão repulsiva. Dedicou 11 (sim, 11) dias nes-
testemunhou fosse preso. Ele confessou Lacassagne, além de médico, atuava em sa necrópsia. Analisou o que restou dos teci-
ter inventado a história para receber o be- ramos que hoje também são da alçada da dos moles, separou depois o esqueleto, fez
nefício de manutenção de sua licença para Criminalística, tais como a toxicologia, a aná- medições antropométricas. Chegou, assim,
trabalhar, já que estivera envolvido em uma lise de padrões de manchas de sangue e na à estimativa de altura do cadáver, que seria
pequena fraude e queria causar uma boa pesquisa de lesões de projéteis e sua relação 1,78m (registros militares de Gouffé traziam
impressão à polícia. com armas específicas. Mais tarde ele teria exatamente esse valor), e pôde afirmar, ain-
Após a confissão do cocheiro e as no- como seu discípulo e assistente Edmund da, que devido a uma espécie de atrofia
vas descobertas, Goron exigiu que o cadá- Locard, um pioneiro da Criminalística, outro observada nos músculos da perna direita,
ver desconhecido fosse exumado, o que mestre que sempre que posso venero. É dele a qual devia ser mais fraca que a esquerda,
foi feito sob forte relutância. Desta vez, a a célebre frase: “Todo contato deixa vestígio”. sobretudo na parte inferior desse membro,
necrópsia seria conduzida por uma figura Lacassagne começou a trabalhar nos o cadáver devia ter mancado ou claudicado
que se tornaria um dos maiores destaques restos daquele cadáver putrefato. Sem refri- ligeiramente durante a vida, isto tudo devi-
da nascente Medicina Legal, Alexandre La- geradores ou luvas, com suas mãos nuas e do a uma tuberculose no osso da tíbia que,
cassagne, então com 46 anos, responsável em meio ao cheiro de carne em decompo- quando jovem, este teria contraído.

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LOCAL DE CRIME: perito criminal da Polícia Civil do DF Cássio Thyone Almeida de Rosa

Deformações na rótula encontradas - Senhores, apresento-lhes monsieur to papiloscópico para o Instituto de Identi-
pelo médico permitiram que ele afirmasse Gouffé! ficação do Distrito Federal, onde Fernanda
ainda, que o indivíduo em questão tam- Em 1891, Michel Eyraud, um dos res- era identificada civilmente. O confronto
bém sofrera de “água no joelho”. O pai e ponsáveis pela morte de Gouffé, foi execu- realizado entre as impressões questionadas
uma amiga confirmaram a questão da fra- tado, sua cúmplice, Gabrielle Bompard, foi e aquelas constantes do Prontuário Civil de
queza da perna direita de Gouffé, que de condenada a 20 anos de trabalhos força- Fernanda, executado pelos papiloscopistas,
tão vaidoso, conseguia esconder muito dos. A voz de Gouffé fora ouvida!! revela-se positivo e a polícia passa então a
bem essa pequena deformidade. Quando O nosso segundo caso é um caso em investigar um caso de homicídio.
criança, após cair num monte de pedras, que trabalhei e que também ilustra muito Após as primeiras investigações, sur-
Gouffé sofrera de uma inflamação na cane- bem o nosso tema. ge como suspeito um ex-namorado de
la que durara anos. Um médico que tratou Aqui os nomes são fictícios, mas o enre- Fernanda. Cláudio, um jovem com algu-
dele em Paris também confirmou a Goron do é também real. mas passagens pela polícia, algumas mo-
a suspeita sobre o problema no joelho e a Estamos em 2001. No dia 4 de novem- tivadas por receptação de veículos furta-
atrofia na perna direita. bro desse ano, na cidade de Samambaia/DF, dos e porte de drogas. Mas Cláudio, que
Os ossos revelaram ainda a possível uma cidade localizada a 35 km de Brasília. era também o pai de Cristine, filha de
causa da morte: sufocação violenta, o que Fernanda, uma jovem de 17 anos, deixa sua Fernanda, construíra em seu depoimen-
foi demonstrado pela ruptura dos dois cor- casa e não é mais vista com vida. A família to à polícia um álibi no qual afirmava que
nos superiores da cartilagem da tireoide. registra seu desaparecimento. Logo em se- no dia em que Fernanda desaparecera,
Havia ainda a estimativa de idade feita pelo guida, no dia 5 de novembro, mas sem que estivera com sua então namorada à épo-
mestre legista: “cerca de 50 anos” (Gouffé a polícia de Brasília tivesse conhecimento ca e um amigo, de nome Flávio, desfru-
tinha 49 anos!). de imediato, um corpo do sexo feminino tando de uma folga e divertindo-se, sem
Faltava ainda uma questão importan- parcialmente carbonizado é encontrado ter nenhum conhecimento do paradeiro
te a se resolver: os cabelos do cadáver numa área do cerrado, na localidade deno- de Fernanda ou qualquer ligação com
de Milerry eram pretos, enquanto os de minada Campo Limpo, região de Luziânia/ seu desaparecimento.
Gouffé eram castanhos escuros, o que GO, cidade que compõe o denominado en- Buscando provas que pudessem des-
fora confirmado pela família e pelo seu torno do Distrito Federal. construir esses depoimentos, o delegado
barbeiro. Goron, a pedido de Lacassag- A perícia de local de crime é realizada do caso encaminha para o Instituto de Cri-
ne, ordena a seus policias que recolham pela equipe daquele estado e o corpo en- minalística do DF, no dia 20 de agosto de
amostras de cabelos de Gouffé em seu caminhado para o IML de Luziânia, onde 2002, portanto nove meses depois da mor-
apartamento. Elas vieram presas a uma os exames revelam como causa da morte te de Fernanda, um veículo pertencente a
escova de cabelos que ele utilizava. Além traumatismo cranioencefálico causado por Flávio, o melhor amigo de Cláudio. É assim
de comparar exaustivamente esses fios dois projéteis de arma de fogo, cujas lesões que temos contato com o caso. O veículo,
de cabelos com os do cadáver em ques- de entrada estavam localizadas na região um VW Voyage, ano e modelo 1991, seria
tão, Lacassagne lavou por inúmeras vezes occipital (parte posterior da cabeça). examinado por nós.
os fios questionados, que se mostraram Seguindo parte dos protocolos pre- Na solicitação contida no memorando
então não mais pretos e sim castanhos. vistos à época para cadáveres não iden- que encaminhava o veículo, o delegado ex-
O mestre, que já havia descoberto anos tificados, o corpo foi sepultado após suas plicitava seu objetivo. Desejava que marcas
antes que os cabelos podiam mudar impressões digitais terem sido coletadas de pneumáticos encontradas na cena do
frequentemente sua coloração após a e arquivadas. crime, mostradas em fotografias no laudo
morte, solicitou ainda exames químicos A polícia de Brasília, trabalhando no pericial que fazia parte dos autos, pudes-
para certificar-se que nem Gouffé nem caso do desaparecimento da menor de ida- sem ser comparadas aos pneus que roda-
o cadáver de Milerry tinham sido tingi- de, acaba por deparar-se com a informação vam no veículo em questão.
dos. Nenhum dos elementos químicos de que um corpo, com características apro- Antes de submeter o veículo a testes,
normalmente encontrados em tinturas ximadas daquelas da pessoa buscada fora nos quais foram produzidas marcas com as
para cabelos usadas a época foram en- encontrado no entorno do DF. De posse das bandas de rodagens de seus pneumáticos
contrados. Goron agora estava pronto impressões digitais daquele corpo, coleta- em substrato idêntico aqueles mostrados
para afirmar: das no IML de Luziânia, solicita um confron- nas fotos do laudo pericial, a saber, solo ex-

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Foto: André Zímmerer


posto; os peritos empreenderam uma busca puderam ter também uma importante par- da vítima (também já falecidos), mostrou-se
rigorosa no veículo, aquilo que denomina- ticipação no caso. mais adequada e menos desgastante que
mos um “pente fino”, considerado um exame No laboratório de DNA, os peritos se recorrer-se a uma exumação.
sempre necessário em casos como esse. depararam com dois problemas a resolver: Os resultados expressos no laudo do la-
As imagens obtidas no ensaio solicitado o primeiro dizia respeito a possível conta- boratório de DNA forense foram conclusivos:
revelaram-se inúteis para o confronto espera- minação do material a ser analisado, já que “Pela análise do perfil genético dos irmãos e
do e idealizado pelo delegado. O motivo: nas o banco do veículo, onde estava a amos- da filha da vítima, foi possível calcular a pos-
fotos obtidas na noite em que o corpo fora tra de sangue, encontrava-se impregna- sibilidade de que o DNA extraído do sangue
encontrado, a resolução das fotografias não do ali, segundo a hipótese mais otimista, impregnado na espuma do banco do veícu-
revelava detalhes suficientes para um con- a nove meses. E ainda sob condições de lo fosse da vítima de homicídio, com uma
fronto. Os exames prosseguem então com a exposição a muitos fatores contaminan- probabilidade de 99,9%. ”
busca de vestígios na parte interna do veículo. tes, dentre sujidades, produtos oriundos Com o resultado Cláudio e Flávio foram
Nessa busca, os peritos encontram al- de lavagens do banco, microrganismos, indiciados por crime de homicídio qualifica-
guns fios de cabelo e também manchas etc. O segundo problema dizia respeito às do. A voz de Fernanda finalmente fora ouvida!
escurecidas que chamam a atenção. São amostras padrão a serem empregadas no Para concluir, lembro da importância
manhas verificadas no porta-malas e, sobre- exame, já que a vítima investigada encon- da Perícia Criminal por meio de uma frase
tudo, na face inferior do assento do banco trava-se sepultada. muito conhecida em nosso meio, proferi-
posterior, algumas que apresentam conti- Os problemas encontraram as seguin- da por um outro mestre e cuja repetição
nuidade para o interior do revestimento de tes soluções: quanto à contaminação, os deveria ser cotidiana em nossa mente:
espuma que constituía o banco do veículo. peritos conseguiram purificar o material “A função pericial requer duas con-
Os primeiros testes em laboratório fo- analisável utilizando uma coluna de sílica, dições ao perito oficial: preparação téc-
ram animadores, resultando em positivo que proporcionou uma remoção dos in- nica e moralidade. Não se pode ser bom
para sangue. Devido ao tempo decorrido terferentes da amplificação; em relação ao perito se falta uma destas condições. O
do fato suspeito e às condições adversas de segundo problema, empregaram uma téc- dever de um perito é dizer a verdade;
contaminação, o material encaminhado ao nica que evitou uma exumação, tendo sido no entanto, para isso é necessário: pri-
laboratório foi reencaminhado diretamente coletadas amostras em quatro irmãos vivos meiro saber encontrá-la e, depois que-
para o laboratório de DNA Forense, unida- da vítima e ainda em sua filha. A técnica, rer dizê-la. O primeiro é um problema
de que compõe a Departamento de Polícia denominada paternidade reversa, que re- científico, o segundo é um problema
Técnica do DF, onde os peritos ali lotados constituía os perfis genéticos dos genitores moral”. (Nerio Rojas)

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