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A TRADIÇÃO STALINISTA E O TEMPO PRESENTE

O conceito de modo de produção é um elemento central na


vulgarização do pensamento de Marx, sobretudo se considerarmos a obra Para
a crítica da Economia Política. No prefácio de 1859 Marx aponta sinteticamente
um conjunto de modos de produção que fora pulverizado sem considerar o seu
tempo presente, e que no decorrer do tempo comparece na tradição marxista
de forma bastante frágil e vulgarizada. Entendemos que não contribui para o
entendimento da crítica publicada por Marx aquela leitura mecanicista que
apresenta uma dada sequência evolucionista dos modos de produção no
pensamento marxiano.
Se não bastasse o fato do prefaciar de Marx ser altamente sintético,
liga-se a isso, distanciando-se da perspectiva do autor, a vulgarização de parte
da tradição marxista que pouco leu ou nada leu de Marx, mas que possui a
valentia de se pronunciar como se fossem exegetas da filosofia da práxis. E,
ainda, um conjunto de intelectuais[1] que estão longe de se filiarem à parte da
tradição marxista e que também reproduzem a mesma insuficiência: versam,
dissertam sobre aquilo que conhecem radicalmente de forma fenomênica e
mesmo nada, para refutarem a Crítica da Economia Política e defenderem sua
proposta liberal-democrática.
Sobre a acusação de ser um economicista, ainda em vida o próprio
Marx é que responde em 1867, no Capital, em nota extensa ao seu crítico:
"Aproveito essa oportunidade para refutar, de forma breve, uma
objeção que me foi feita, quando do aparecimento de meu escrito Zur Kritik der
Pol. Oekonomie, 1859, por um jornal teuto-americano. Este dizia, minha
opinião, que determinado sistema de produção e as relações de produção a ele
correspondentes, de cada vez, em suma, “a estrutura econômica da sociedade
seria a base real sobre a qual levanta-se uma superestrutura jurídica e política
e à qual corresponderiam determinadas formas sociais de consciência”, que “o
modo de produção da vida material condicionaria o processo da vida social,
política e intelectual em geral” — tudo isso estaria até mesmo certo para o
mundo atual, dominado pelos interesses materiais, mas não para a Idade
Média, dominada pelo catolicismo, nem para Atenas e Roma, onde dominava a
política. Em primeiro lugar, é estranhável que alguém prefira supor que esses
lugares-comuns arquiconhecidos sobre a Idade Média e o mundo antigo sejam
ignorados por alguma pessoa. Deve ser claro que a Idade Média não podia
viver do catolicismo nem o mundo antigo da política. A forma e o modo como
eles ganhavam a vida explica, ao contrário, por que lá a política, aqui o
catolicismo, desempenhava o papel principal. De resto basta pouco
conhecimento, por exemplo, da história republicana de Roma, para saber que a
história da propriedade fundiária constitui sua história secreta. Por outro lado,
Dom Quixote já pagou pelo erro de presumir que a cavalaria andante seria
igualmente compatível com todas as formas econômicas da sociedade"
(MARX, 1996, p. 206)
Quando não se reduz o pensamento de Marx sobre os modos de
produção da vida à um economicismo, o elevam a um evolucionismo etapista
do devir histórico em uma onda sucessiva de modos de produção. Essa
fragilidade não pertence a Marx, mas ao pensamento vulgarizador de sua
teoria da história que mesmo para o século XIX não partilha do evolucionismo
típico das ciências da natureza, sobretudo da história natural, menos ainda do
positivismo inflamado em parte dos círculos intelectuais de seu tempo.

Marx: um homem de seu tempo


É verdade que Marx é um homem do seu tempo, mas não o é da
mesma forma que a maioria dos homens deste mesmo tempo. Não queremos
dizer com isso que Marx era impermeável a estas grandes tendências
epistêmicas em voga no século XIX, mas que diante destas perspectivas,
apresenta-se um conjunto organizado ontologicamente e que não exclui a
epistemologia. Entretanto, a supera, ao propor um conceito de história que não
se prende a esquematismos ou reducionismos do tipo Comteano e mesmo
Rankeano. Há movimento nesta nova perspectiva publicado por Marx, e um
movimento que procura se construir em uma perspectiva de classe com caráter
revolucionário. E isso, esmagadora maioria dos homens do seu tempo (Séc.
XIX) não possuíam. Assim, sustentamos, mesmo que inicialmente, um
pensamento diverso do que a tradição vulgarizadora cristalizou durante o
século XX e ainda XXI.
A própria palavra modos de produção pode ter sido apreendida de
modo equivocado no decorrer das recepções do pensamento de Marx sobre a
história, pois a singularização em “modo de produção” não colabora para
compreendermos o fundamento conceitual que existe por detrás das palavras.
Em alemão a palavra utilizada no texto gótico é “Produktionsweisen”, que pode
ser traduzido em um sentido de pluralidade e não como observamos, de
singularidade, sobretudo como se manifesta em textos claramente norteados
pelo stalinismo[2]. Entender este conceito em sua pluralidade não é fazer coro
com a perspectiva pluralista metodológica, ao contrário, é considerar as
construções das categorias marxianas na longa duração, não se limitando
apenas a uma parte do todo (procedimento típico do epistemólogo, e mesmo
do vulgarizador), ou seja, buscar (por mais árdua que seja a tarefa)
compreender a construção do conceito, não apenas a apresentação do mesmo
e um dado texto, por mais que esse texto seja um clássico no que tange a
apresentação categorial.

Tradição
A problematização aqui não tem pretensão de apresentar uma exegese
dos textos e autores que praticaram esta vulgarização, intencionalmente ou
não diante da tradição que chamamos aqui como marxista. Entretanto um texto
e um autor deve ser problematizado aqui devido a sua circulação nos núcleos
de organização partidária em parte da esquerda que se apoiavam para suas
práticas de formação política de militantes o texto de Josef
Stálin, Materialismo histórico e Materialismo Dialético. Preocupamos aqui
em apresentar uma problematização séria diante de determinadas passagens
uma vez que a obra de Stálin se constituiu no processo histórico alvo de todos
os lados políticos. Queremos aqui apenas apresentar, mesmo marginalmente,
a fragilidade das considerações teóricas o que provavelmente contribuiu para a
disseminação de uma leitura vulgar do conceito de história em Marx, sobretudo
nos partidos comunistas. Assim, vejamos:
"A primeira característica da produção é que jamais se detém num
ponto durante um longo período, mas que se transforma e se desenvolve
constantemente, com a particularidade de que essas transformações operadas
no modo de produção provocam inevitavelmente a mudança de todo o regime
social, das ideias sociais, das concepções e instituições políticas, provocam a
reorganização de todo o sistema político e social. Nas diversas fases de
desenvolvimento, o homem emprega diversos modos de produção ou, para
dizê-lo em termos mais vulgares, mantém distintos gêneros de vida. Sob o
regime do comunismo primitivo, o modo de produção empregado é diferente
daquele vigente sob a escravidão; o da escravidão é diferente do em vigor sob
o feudalismo, etc.. E, em consonância com isto. variam também o regime social
de vida dos homens, sua vida espiritual, suas concepções e instituições
políticas" (STÁLIN, 1938).
Vulgarizações deste dito são mais complexas do que aquelas
produzidas por fora da tradição marxista, pois apresentar o devir histórico como
se fosse uma sucessão de modos de produção, rompe drasticamente com a
perspectiva dialética do materialismo histórico, uma vez que a leitura
equivocada de Stálin passa a ser letra inconteste para a maioria dos partidos
comunistas em escala internacional.

Método vulgar
A apresentação de um receituário de como a história se realiza, na
pena de Stálin, não colabora para o entendimento do conceito de história em
Marx, e, diríamos com segurança, não colabora no que tange ao entendimento
da história por parte daqueles que se reivindicam organizadores da classe
trabalhadora, via o partido revolucionário. Se não compreendo aquilo que é
objeto de transformação, é razoável afirmar, que não compreendo também
como operar a transformação daquilo que deve ser transformado.
Posicionamentos como estes dão espaços para insinuações de superações de
modo de produção que não condizem com a realidade em dado tempo
presente. É o caso da insinuação feira por Stálin em 1938 que afirma a
superação do capitalismo na URSS: “No transcurso de três mil anos, a Europa
viu desaparecer três regimes sociais: o do comunismo primitivo, o da
escravidão e o do feudalismo, e na parte oriental da Europa, na URSS,
feneceram quatro” (STÁLIN, 1938).
Quando nos deparamos com a trajetória de Marx observamos que não
há para ele qualquer tipo de receituário, ou esquematismos, determinados e
acabados na história. Para Marx as determinações são históricas e em plenos
movimentos, os quais nem sempre é possível apreender. Marx opera em lógica
dialética em relação ao conceito de história, não existindo uma absoluta
finalização de leis ou teses acerca da dialética enquanto história. Neste
sentindo seria até mesmo redundância falamos de um materialismo histórico, e,
outro, o materialismo dialético. Não há esse tipo de operação quando Marx se
refere a história, pois a história é algo em construção constante, sem fim,
enquanto existirem homens.

Divisão
A divisão operada por Stálin nos chama atenção principalmente por
conta de suas interlocuções, que realizaram mediações das mais diversas
entre os militantes comunistas por vários países. É o caso do Brasil, como
demonstra Jacob Gorender, marxista da maior importância, em relação aos
cursos de formação do PCB (cursos Stalin de 1953). Vejamos nas palavras do
historiador, em entrevista à revista Teoria e Debate em 1 de julho de 1990:
"O PCB começou a fazer um grande esforço de educação, a partir de
1952. Criaram-se escolas para cursos de duração variável, reunindo
militantes de todos os níveis. Passei a dar aulas nesses cursos. Em
1953, a direção nacional instituiu os chamados Cursos Stalin. Eu
assisti, como aluno, a um desses cursos no Rio, e depois fui
designado professor. Quem lidava diretamente com o setor de
educação era o Arruda. De 1952 até 1956, o PCB criou um aparelho
de educação de extraordinárias dimensões para um partido na
clandestinidade. Creio que, em certo momento, devia haver cerca de
40 escolas funcionando em todo o país. Os militantes se fechavam
dentro de uma casa, e ficavam ali durante todo o tempo, de uma
semana a um mês, ouvindo, lendo, discutindo e sendo sabatinados.
Basicamente, o Curso Stalin, com duração de um mês, constava de
comentários sobre a União Soviética, tomando como "gancho" uma
das últimas obras de Stalin, Problemas econômicos do socialismo na
União Soviética, repleta de erros teóricos e prognósticos não
confirmados, como hoje se pode ver. Para nós, naquela época, era a
última palavra do maior gênio da humanidade. Tratava-se de
fortalecer nos militantes a fidelidade à mãe pátria socialista, cuja
defesa constituía princípio incondicional, incompatível com a mínima
crítica. A par disso, havia uma parte do curso dedicada ao Brasil, que
girava em torno de considerações sobre a sociedade brasileira, a sua
estrutura de classes etc. Tudo na base de dados precários e
raciocínios viciados. Eventualmente, textos dos autores clássicos do
marxismo eram fornecidos para estudo e comentário" (GORENDER,
1990).

Crítica
Jacob Gorender apresenta uma importante crítica interna a todo esse
processo de vulgarização do pensamento marxiano. Identifica a preocupação
com a formação do militante e o desenvolvimento de uma educação partidária
muito importante para a disseminação da perspectiva revolucionária, que para
nossa tese é de fundamental constatação da força desta mediação do
pensamento vulgarizado de Marx entre os seus militantes, uma vez que estes
quadros seriam os futuros professores e/ou orientadores em suas respectivas
células de militância em seu tempo presente nos anos de 1950. O curso Stalin
era aplicado em trinta dias, de acordo com Gorender, o que nos possibilita
identificar o tamanho da problemática: Pensamento vulgarizado na fonte e
reproduzido (não livre da crítica/desconfiança do próprio Jacob) em um mês
para militantes que deveriam iniciar uma compreensão daquilo que deveria ser
combatido e transformado: a sociedade capitalista. Numa palavra
problematizadora: reprodução fenomênica de um fenômeno estudado por Mar
por mais de décadas, aplicação de boa intenção de algo extremamente
distante da própria fonte. O resultado disso tudo a própria história nos
apresentou, sem pedir licença: o espetáculo de erros e políticas equivocadas.
E continua:
"Esses cursos se inseriram num esforço que não era só brasileiro, mas
mundial, do movimento comunista. A intenção consistia em transmitir
um cânone doutrinário uniformizado, que vinha de Moscou e do
Cominform. Tratava-se de inculcar uma série de fórmulas do que eu
hoje chamaria de marxismo bastardo na cabeça de centenas de
milhares de militantes do mundo inteiro, os quais, com isso, passavam a
pensar de maneira padronizada. Não pretendo aqui me desculpar.
Minha cultura marxista se iniciou pela via da adesão ao stalinismo.
Stalin achava-se no auge: aparecia como o supremo vencedor da
guerra, era considerado um herói inexcedível e nós não tínhamos
acesso a fontes de informação para pensar de modo contrário. Não
acreditávamos então em nada que Trotski denunciou. Eu aceitava a
versão stalinista do marxismo, sem discuti-la. Não tinha crise de
consciência por ser professor em um curso chamado Stalin. Entretanto,
por mais modesto que eu fosse como intelectual, não podia deixar de
ter dúvidas. Percebia as contradições da obra de Stalin, a sua qualidade
visivelmente inferior em comparação às de Marx, Engels e Lenin; os
chavões dos materiais teóricos soviéticos; os jargões bajulatórios em
relação ao próprio Stalin" (GORENDER, 1990).
O caráter internacional da vulgarização também é reconhecida, o que
reafirma nossas considerações sobre a importância do fenômeno stalinismo na
formação de militantes em caráter internacional. O cumprimento de transmitir o
que se encaminhava de Moscou mais colaborou para ideologizar a formação
de parte dos militantes comunistas do que para compreender as ideologias
produzidas pelo capitalismo e mesmo pela burocracia soviética.
A aplicação de fórmulas, a partir de determinadas leis da dialética
marcaram o entendimento de parte da tradição marxista no Brasil e no mundo
e o elemento principal para esses conjuntos de desvios foi o que se chama de
stalinismo, muito bem criticado por Gorender. E é importante notar que
Gorender realiza uma crítica interna, em sintonia com a perspectiva crítica de
Marx, comportamento de um intelectual militante bastante marcante daqueles
que não se identificariam com o marxismo vulgar. Sobre o currículo da
formação política de quadros do PCB, o tema de nossos estudos
evidentemente não passa desapercebido, “Estudava-se materialismo dialético,
teoria do Estado, economia, política, história do movimento operário mundial,
história da União Soviética, história do Partido Comunista da União Soviética,
além de noções de geografia e literatura russa” (GORENDER, 1990).

Hobsbawn
Em linhas mais gerais, outro historiador, Eric John Hobsbwan, em livro
publicano no Brasil sob o título “Sobre história”, em 1998, apresenta um
capítulo onde especificamente debaterá o conceito de marxismo vulgar do qual
nos referimos. A constatação do marxismo vulgar, para o historiador inglês, é,
assim como também postulamos em nossos estudos, responsável por um
conjunto mediações que levam a qualquer lugar, menos à Marx.
No capítulo referendado, “O que os historiadores devem a Karl Marx?”,
Hobsbawm se preocupa em sintetizar alguns elementos do que seria este
marxismo vulgar apresentando sete caracterizações. Vejamos as mais
emblemáticas em nossa consideração para o estudo em tela:
"[...] como vimos, a influência marxista entre os historiadores foi
identificada com umas poucas ideias relativamente simples, ainda que
vigorosas, que, de um modo ou de outro, foram associadas a Marx e aos
movimentos inspirados por seu pensamento, mas que não são
necessariamente marxistas, ou que, na forma em que foram mais influentes,
não são necessariamente representativas do pensamento maduro de Marx.
Chamaremos a esse tipo de influência de “marxista vulgar”, e o problema
central da análise é separar o componente marxista vulgar do componente
marxista na análise histórica" (HOBSBAWM, 1997, p. 159).
Uma assertiva tipicamente hobsbawniana, acima, a identificação de
uma problematização realizando outra problematização. Compartilhamos do
historiador inglês a sua síntese onde elenca a interpretação economicista como
primordial.
Como já apontamos anteriormente nesta apresentação de nossas
investigações, o marxismo vulgar, mecanicizou o conceito de história em Marx.
A manifestação do econômico como elemento histórico historicizante não
colabora para entendermos a crítica que Marx fez a Economia Política. Uma
mecanização que reflete a vulgarização do pensamento de Marx, mesmo entre
historiadores renomados como Jacques Le Goff, que não fica imune a leitura
distante de Marx quando da publicação em 1978 de “A Nova História”,
vejamos:
"Marx, sob vários aspectos, é um dos mestres de uma história nova,
problemática, interdisciplinar, ancorada na longa duração e com pretensões
globais. A periodização (escravidão, feudalismo, capitalismo) de Marx e do
marxismo, ainda que não seja aceita dessa forma, é uma teoria da longa
duração. Se bem que as noções de infra-estrutura e de superestrutura pareçam
incapazes de dar conta da complexidade das relações entre os diversos níveis
de realidades históricas, elas decorrem de um apelo à noção de estrutura, que
representa uma tendência essencial da história nova. A colocação em primeiro
plano, do papel das massas na história pode coincidir com o interesse da
história pelo homem cotidiano, que também ´´e um homem socialmente
situado. Contudo, o primado grosseiro do econômico na explicação histórica, a
tendência a situar nas superestruturas as mentalidades, cujo lugar, sem ser o
de um nível fundamental de causalidade, é mais central na história nova e,
sobretudo, a crença numa história linear, que se desenvolve segundo um só
modo de evolução, enquanto a história nova insiste sobre as diferenças das
experiências históricas e sobre a necessidade de uma multiplicidade de
enfoques, todos esses problemas indicam que a história nova pode ser
considerada pela história marxista oficial como um desafio" (LE GOFF, 2005, p.
73-74).

Marxismo
Para além da venda do seu peixe no mercado das flores, de nossa
parte não nos detendo a encantadora venda de uma perspectiva que se
apresenta em 1978 como nova no mercado da História, Jacques Le Goff
também reproduz a fragilidade que nos referimos anteriormente. A ponta um
economicismo em Marx e no marxismo que se tratando de Marx, poderia ser
considera infantil para os anos setenta. O livro citado trata-se de uma obra de
divulgação internacional de uma corrente que se auto intitularia de terceira
geração dos Annales e estas breves considerações sobre Marx e a história não
devem ser compreendidas de forma simplista, pois fazem coro com a
vulgarização do pensamento de Marx uma vez que abertamente associa a
nova história com o pensamento marxiano, e, justamente acusando o ponto
forte em relação ao elemento econômico. No caso de Le Goff, o tenha feito
assim para acalmar os patrocinadores de seus empreendimentos. Nos
interessou aqui é o alcance da vulgarização que encontra no marxismo oficial
subalternizado por Moscou uma justificativa para florir com as mais diversas
cores a paisagem que o próprio Marx não via de modo tão primaveril.
Pensar que a questão econômica é a determinante em todos os
momentos da história é a mais clara demonstração da fragilidade de
compreensão do conceito de história marxiana e de sua filosofia da história. A
tese da existência de modos de produção lineares na história não se sintoniza
com o conceito marxiano de dialética. Vejamos mais uma vez como Stálin
apresenta:
Em consonância com as mudanças e o desenvolvimento
experimentados pelas forças produtivas da sociedade no curso da história,
mudam também e se desenvolvem as relações de produção entre os homens,
suas relações econômicas.
A história conhece cinco tipos fundamentais de relações de produção:
o comunismo primitivo, a escravidão, o feudalismo, o capitalismo e o socialismo
(STÁLIN, 1938).
Stálin se equivoca ao confundir relações de produção com modo de
produção; erra também ao conduzir os modos de produção em uma sequência
que só existe na sua teleologia, confirmando um novo modo de produção, o
socialista. A história seria assim a sucessão de cinco modos de produção,
redundante na URSS, dando como superado o capitalismo. Certamente a
própria história se encarregou que eliminar esta ordem de moscou.

Modos de produção
As diferentes formas de produzir e reproduzir a vida coexistiram e
assim se constituem até hoje. Queremos dizer com isso que um determinado
modo de produzir a vida pode dividir o mesmo palco do presente com outros
elementos de modos de produção. É possível a identificação de um modo de
produção predominante, mas isso não significa que outros modos de produção
da vida possam coexistir diante da predominação deu um modo. Marx identifica
um conjunto de modos de produção, que, com o devir histórico, não se
estinguem por completo. O modo de produção escravista não fora superado
com o modo de produção capitalista.
Diante da tradição vulgarizadora nossa afirmação se coloca de forma
estranha a uma primeira vista, mas se observamos mais atentamente, veremos
que as relações desiguais e combinadas demonstram que é plenamente
possível a existência de elementos de um modo de produção que não seja
mais o predominante, no caso, formas de trabalho do que Marx identifica como
escravismo, convivendo, de forma subsumida, ao modo de produção
predominante capitalista. Marx e Engels vão além e identificam como fora vital
o desenvolvimento do trabalho escravo nas colônias na fase de acumulação
primitiva, demonstrando que o poder de subsumir do capitalismo não rejeita
absolutamente nada que seja capaz de produzir e reproduzir uma relação
social que produz valor.
Não há linearidade em relação ao conceito de história em Marx. Diante
da totalidade histórica, a linearidade é uma ideologia sobretudo de
historiadores de Cronos que acreditam ser possível meter a humanidade em
uma linha de datas que mal balizam o tempo diante dos acontecimentos
múltiplos, ou como se refere a Leopold von Ranke, um trabalho que nem
mesmo o melhor valet seria capaz de dar cabo realmente para agradar em
nome de seu rei. O que existe para Marx é o movimento histórico, de avanços,
recuos; teses e antíteses e constantes sínteses. Para ele a verdade histórica
também se encontra no movimento, porém, não nos salta aos olhos como
sugere uma cereja no bolo, para isso é necessário a investigação que chamava
de científica.
Buscando aqui a preparação para o capítulo próximo de nossa tese
sobre um estudo sobre o conceito de história e tempo presente em Marx, outro
importante pensador nos ajudou a analisar parte da obra marxiana, nos
referimos ao já citado Henri Lefebvre.
Em seu trabalho “Para compreender o pensamento de Karl Marx”, de
1966, Lefebvre se ocupa acerca do materialismo histórico nos apresentando
elementos fundamentais na constituição deste conceito. Embora faça a
distinção entre materialismo e dialética na obra, reconhece a indivisibilidade
destas categorias, como uma se constitui diante de outras e de mais outras
categorias.
Também preocupado com esterilização provocada pelo marxismo
vulgar, trata de apresentar ao seu leitor uma historicidade possível na
construção do conceito de história em Marx. Para isso reconhece que
inicialmente, Marx se preocupou em desenvolver a crítica à Filosofia, o que
para nós de da maior importância para entendermos o destaque que possui o
tempo presente para Marx. A crítica ao idealismo demonstra como o presente é
o ponto de partida, e neste caso, ponto de partida para o desenvolvimento de
uma outra crítica que nos interessou como pesquisa: a crítica à Economia
Política.
Não identificamos uma primeira etapa seguida de outra. A crítica que
Marx realiza à Filosofia contém também a crítica à Economia Política. Não se
trata de um recorte epistêmico, basta observar cuidadosamente os rascunhos
de estudos de Marx já no ano de 1844 que o pesquisado atento poderá
identificar que em Paris já temos um esboço crítico à Economia Nacional.
Rascunhos, para, com efeito, salientarmos que Marx ali está estudando e não
publicando os resultados de uma investigação de maior fôlego, embora viesse
a fazer isso nos anos posteriores.
Já neste momento, Marx registra uma concepção de história que será
aprofundada diante da constituição da sua trajetória. Apresenta nos anos de
1844 e 1855 uma leitura sintonizada com a realidade histórica do seu tempo
presente, se distinguindo do idealismo, seu objeto eram reais, de carne e osso
e atendiam por nomes próprios, mesmo que estudados na sua forma genérica.
O proletariado é uma fenômeno concreto no tempo presente de Marx. Não é
uma abstração como deus ou deuses. O ponto de partida é um presente
caótico e contraditório onde se pensava a história de certa forma invertida, do
presente ao pretérito para retornar ao ponto de partida. Uma história feita por
homens, inclusive por homens e suas criaturas divinas. A Ideologia Alemã
certamente é o acerto de contas que mais diretamente tratou disso, porém,
como é sabido, nunca publicada em vida por seus autores. Entretanto, para
Marx e Engels, estes manuscritos foram de fundamental valor para afinarem os
violinos. É no texto de 1845 que o conceito de história mais comparece de
forma direta e é neste texto que o importante livro de Lefebvre se concentra
quando se ocupa de fazer a mediação do conceito de materialismo histórico de
Marx.
O que buscamos apresentar neste texto é uma perspectiva ainda de
condições gerais sobre alguns elementos da tradição stalinista no sentido de
provocar o debate sobre um tema de grande relevância para as ciências
históricas.

Referências
[1] Para ficarmos em um caso emblemático de tal vulgarização é a participação
de Luiz Felipe Pondé na publicação de uma obra de alto nível para língua
portuguesa no Brasil. Nos referimos ao livro de Terry Eagleton, lançado pela
Editora Nova Fronteira Participações S.A. em 2012, com tradução de Regina
Lyra, onde Pondé (como é chamado por uma legião de retardados) apresenta
de forma idiotizante prefaciando e pós-faciando. Não procuramos adentrar
nesta polêmica especificamente, mas não nos foi possível deixar de notar uma
brutal vulgarização daquilo que na tese chamamos de tradição marxista. No
caso do prefaciador, evidentemente não se enquadraria nesta tradição, mas
sim na liberal pós-moderna o que contribui para a vulgarização do pensamento
de Marx, mediado por Eagleton. A editora apresenta ao leitor brasileiro um
título violentado, afirmando, “Marx estava certo”, quando na verdade o título
original trata de uma interrogativa, típica de parte da tradição marxista que se
preocupa em frear a vulgarização do pensamento de Marx. “Why Marx was
right” esse é o título original, publicado em 2012 pela Yale University Press, o
que demonstra um brutal desconhecimento substancial da obra e
possivelmente a tônica de preocupação mercadológica, uma vez que o público
de leitores de Eagleton aguardavam ansiosos o livro em língua portuguesa.
[2] No Brasil a editora Cultural Abril apresenta a tradução da categoria no
plural, assim como a publicação da Editora Expressão Popular que se apoia na
tradução indireta do texto alemão realizado por Florestan Fernandes. Neste
último caso Florestan consegue aproximar melhor o texto marxiano da
perspectiva de movimento dos modos e não de um modo evolutivamente e
mecanicamente procedente do outro como rapidamente apresenta Stalin.
SOBRE O AUTOR
Jean Paulo Pereira de Menezes é professor e militante trotskysta. Graduado em História pela
Faculdade de Filosofia do Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva-SP, mestre em
História pela Universidade Federal da Grande Dourados-MS e doutor em Ciências Sociais pela
UNESP de Marília-SP.

ISBN: 9781519080493
Selo editorial: Independently published