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CAPITULO IX

Objeto da Relação Jurídica. Os Bens

Sumário: 1. Objeto da relação jurídica. 2. Coisa e bem. 3. Conteúdo da relação jurídica.


4. Classificação dos bens. 5. Bens corpóreos e incorpóreos. 6. A informação como bem
jurídico. 7. Bens móveis e imóveis. Origem histórica da distinção. 8 Importância da
distinção. 9. Bens imóveis: a) imóveis por natureza; b) imóveis por acessão física; c)
imóveis por acessão
intelectual; d) imóveis por destinação legal. 10. Bens móveis. Conceito e determinação
legal. 11. Bens genéricos e individuais. 12. Bens fungíveis e infungíveis. 13. Bens
consumíveis e inconsumíveis. 14. Bens divisíveis e indivisíveis. 15. Bens singulares e
coletivos. 16. Bens principais e bens acessórios. 17. Espécies de bens acessórios. 18.
Bens públicos e bens
privados. 19. Bens comerciáveis e bens incomerciáveis. 20. O patrimônio. Conceito.
Composição. Importância. Concepções teóricas.

1. Objeto da relação jurídica.


Objeto, do latim objectum, é aquilo que se coloca adiante, fora do sujeito. Diz-se direto
ou imediato quando o poder da pessoa sobre ele se exerce sem intermediário, e indireto
ou mediato, quando por meio de outrem.
Sob o ponto de vista comum, objeto são as coisas que têm existência material. E sob o
ponto de vista estritamente técnico-jurídico, objeto da relação jurídica ou do direito
subjetivo, são as ações, o comportamento humano.
A idéia clássica de objeto dos direitos identifica-o com as coisas materiais, segundo a
concepção materialista dos juristas romanos que contrapunham o direito das pessoas ao
direito das coisas. A concepção mais moderna considera como objeto da relação jurídica
o comportamento, a atividade, a ação ou omissão dos sujeitos. Neste caso, objeto
imediato da relação jurídica seria o comportamento do sujeito passivo, consistente em
uma ação ou uma omissão, e objeto mediato, as coisas sobre que incide tal
comportamento. A maioria dos juristas prefere, todavia, reservar o conceito clássico de
objeto para os direitos reais e o conceito moderno para o direito das obrigações. Desse
modo, objeto dos direitos reais seriam as coisas sobre que se exercem, de modo direto e
imediato, os poderes contidos na relação, e objeto das obrigações seriam as ações ou
omissões do sujeito devedor.
Em senso amplo, esse objeto pode, portanto, consistir em coisas (nas relações reais), em
ações humanas (nas relações obrigacionais), e também na própria pessoa (nos direitos
da personalidade e nos de família, em institutos como no pátrio poder, na tutela e na
curatela), e até em direitos (como no penhor de créditos, no usufruto de direitos). Nos
direitos potestativos, o objeto é sempre um comportamento do sujeito ativo, destinado a
produzir efeitos na esfera jurídica de outrem. A maioria dos juristas não aceita, porém,
que a pessoa seja objeto de direito porque, sendo um valor-fim, não pode ficar
submetida ao poder jurídico de outrem nem mesmo nas relações de família, em que os
poderes são poderes-deveres ou poderes-fun-ção, devendo ser exercidos em benefício
daqueles a quem se dirigem. O corpo humano é um bem jurídico, é objeto dos direitos
da personalidade e, como tal, protegido.
Em senso estrito, o objeto compreende as coisas e as ações humanas (prestações). E, em
acepção mais estrita ainda, é sinônimo de coisa, objeto dos direitos reais. A doutrina
moderna acrescenta ainda, como objeto de direito, as manifestações do espírito humano.
Objeto da relação jurídica é, assim, tudo o que se pode submeter ao poder dos sujeitos
de direito, como instrumento de realização de suas finalidades jurídicas.
Na teoria dos bens enquadram-se hoje novas figuras. A revolução científica e
tecnológica e as mudanças sociais levaram à criação de outras espécies, ou deram relevo
às já existentes. O meio ambiente, os bens de valor artístico, cultural e histórico, o
programa dos computadores, a personalidade humana nos seus diversos aspectos,
Objeto da Relação Jurídica. Os Bens
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o know-how, o software, enfim, a informação, passaram a ter renovada importância e
reconhecida proteção jurídica, inclusive de natureza constitucional (CF. art. 5° e pars.),
cabendo aqui, naturalmente, estudar apenas os de natureza civil.
2. Coisa e bem.
Coisa é tudo aquilo que tem existência material e que é suscetível de medida de valor.1
É coisa de tudo o que existe no universo e que, sendo útil para a satisfação das
necessidades humanas, se torna valioso e, por isso mesmo, objeto de apropriação. Há
coisas úteis mas não apropriáveis, como as coisas comuns (rés communes) a luz, o ar, o
mar, o sol, as estrelas. Não são de ninguém e são de todos. E há coisas que embora
suscetíveis de apropriação, como os animais de caça, os peixes, coisas abandonadas (rés
derelictae), não pertencem a ninguém (rés nullius). Os animais são coisas, porém objeto
de proteção jurídica especial, por si mesmo e como salvaguarda dos sentimentos das
pessoas.
A utilidade e a possibilidade de apropriação dão valor às coisas, transformando-as em
bens. O conceito de bens pressupõe, assim, uma valoração e uma qualificação. Bem é
tudo aquilo que tem valor e que, por isso, entra no mundo jurídico, como objeto de
direito .
A noção de coisa liga-se primariamente à de substância. Consiste em algo fisicamente
delimitado, existente no mundo da natureza, e que interessa ao direito, não em si mesma
mas com objeto do poder dos sujeitos. Coisa é gênero, bem é espécie, embora haja
divergência doutrinária quanto a esta distinção.2
O conceito de bem é histórico e relativo. Histórico, porque a idéia de utilidade tem
variado de acordo com as diversas épocas da cultura humana, e relativo porque tal
variação se verifica em face das necessidades diversas por que o homem tem passado.
Nos primórdios, as necessidades eram puramente vitais, respeitantes à defesa e à
sobrevivência do indivíduo e do grupo. As coisas úteis e apropriáveis diziam respeito à
vida orgânica e material dos indivíduos. Com a evolução da espécie humana e o
desenvolvimento da vida espiritual, expresso na arte, na ciência, na religião, na cultura,
enfim, surgiram novas exigências e novas utilidades, passando a noção de bem a ter
sentido diverso do que tinha primitivamente.
Parte da doutrina, à semelhança do Código Civil alemão,3 restringe coisa para designar
os bens de existência corpórea, tangível. Para Teixeira de Freitas, coisa era "todo objeto
material suscetível de medida de valor ". O Código Civil brasileiro não faz tal limitação,
usando bem para designar valores materiais e imateriais e intitulando o Livro II, da
Parte Geral, Dos bens, abrangendo coisas e direitos. Para Clóvis Beviláqua, "bens são
valores materiais ou imateriais que servem de objeto a uma relação jurídica."4 É
definição correta, abrangendo as coisas de existência material, as de existência
imaterial, como as diversas formas de energia, e as ações ou comportamento humano, e
também os direitos, quando objeto de outros direitos.
As ações humanas são objeto dos direitos de crédito, obrigacio-nais, e denominam-se
prestações. Devem ser lícitas, possíveis e determináveis. Consistem em um
comportamento do devedor (dar, fazer ou não fazer).
Direitos podem ser objeto de outros direitos, como o penhor de créditos (CC. art.
1.451), o exercício de usufruto (CC. art. 1.393), a hipoteca de domínio útil ou direto
(CC. art. 1.473, III), usufruto de crédito (art. 1.390), cessão de crédito (art. 286) etc.
Podem considerar-se também objeto de direitos ou de relações jurídicas os atributos ou
manifestações de personalidade do próprio sujeito (direitos da personalidade),
atividades ou serviços de natureza intelectual, técnica ou manual (propriedade
intelectual ou industrial), realidades materiais (coisas) e imateriais (energia, créditos),5
e ainda informações técnicas, econômicas e científicas, relevantes para os respectivos
titulares.
O conjunto de bens economicamente apreciáveis forma o patrimônio da pessoa.
3. Conteúdo da relação jurídica.
Do objeto da relação jurídica distingue-se o seu conteúdo, que é o conjunto de poderes e
deveres de que dispõem os respectivos titulares. Esse conteúdo consiste, assim, no
conjunto de poderes ou faculdades que os direitos subjetivos comportam. Objeto do
direito de propriedade é a coisa apropriada. Conteúdo do direito de propriedade são os
poderes ou faculdades conferidas pelo ordenamento jurídico ao proprietário. Tal
distinção tem a sua importância. O objeto pode ser o mesmo em várias relações, mas o
conteúdo será diverso. Por exemplo, o mesmo imóvel pode ser objeto de propriedade,
de usufruto e de uma relação obrigacional decorrente de uma compra e venda. As três
relações jurídicas diferem, porém, no seu conteúdo, nos poderes de que dispõem seus
titulares, conforme sejam proprietários, usufrutuários ou compradores.
4. Classificação dos bens.
Classificar é distribuir em grupos segundo determinados critérios, do que decorre um
determinado regime jurídico para cada grupo. Cada espécie de bens tem a sua própria
disciplina legal, aplicável às questões jurídicas que os envolvem. Por exemplo, a venda
de uma casa, que exigências legais comporta? A resposta a tal pergunta decorre da
qualificação desse bem, de sua inserção em determinado grupo e da conseqüente
sujeição ao respectivo direito.
A finalidade de qualquer classificação é separar em grupos e espécies a que se aplicam
as mesmas regras jurídicas, admitida a possibilidade de cada espécie ter sua própria
disciplina legal.
Os bens não se disciplinam juridicamente por unidades, mas em conjuntos, conforme
suas características, formando-se, assim, diversas categorias jurídicas a que
correspodem diversos regimes. A finalidade da constituição de diversas categorias
jurídicas é, assim, submeter cada conjunto de bens ao regime jurídico que lhe é
apropriado.6
Os bens classificam-se quanto à sua natureza, à relação com outros bens, à pessoa do
respectivo titular e à possibilidade de comercialização.
Quanto à natureza, os bens podem ser corpóreos e incorpóreos, móveis e imóveis,
fungíveis e infungíveis, consumíveis e inconsumí-veis, divisíveis e indivisíveis,
singulares e coletivos. Quanto à relação entre si, principais e acessórios. Quanto à
pessoa dos titulares, públicos e privados . Quanto à comerciabilidade, comerciáveis e
incomerciáveis.
5. Bens corpóreos e incorpóreos.
Bens corpóreos são os que têm existência concreta, perceptível pelos sentidos (rés quae
tangi possunt). São os objetos materiais, inclusive as diversas formas de energia, como a
eletricidade, o gás, o vapor.
Bens incorpóreos são os que têm existência abstrata, intelectual, como os direitos, as
obras do espírito, os valores, como a honra, a liberdade, o nome. São criações da mente,
construções jurídicas, direitos. Sua existência é apenas intelectual e jurídica.
Os bens incorpóreos são criação recente do direito ocidental, conseqüência do
desenvolvimento econômico da modernidade, e por vezes com mais valor que os
corpóreos.
São exemplos de bens incorpóreos o fundo de comércio, a clientela, as marcas de
indústria e comércio, o nome comercial, as insígnias, os direitos de autor, a propriedade
industrial, os privilégios de invenção, os desenhos e modelos industriais, o software,
know-how e, como divulgação de conhecimentos, de modo geral, a informação.
Software é termo designativo dos programas de computador (v. Lei 9.609, de 19 de
fevereiro de 1998, art. 1°). Know-how (do inglês to know how to do it) é conhecimento
técnico de valor econômico, referente à indústria ou ao comércio (c. Lei 9.279, de 14 de
maio de 1996).
É por meio dos direitos que os bens corpóreos entram na vida jurídica. Nos direitos
reais, o respectivo titular exerce-os diretamente sobre a coisa, sem intermediário de
outra pessoa, como se verifica na posse, na propriedade etc. Nos direitos obrigacionais,
ou de crédito, o direito se exerce sobre o bem por intermédio de uma pessoa, o devedor.
É por isso que o direito alemão suprimiu a espécie de bens incorpóreos, substituindo-a
pela dos direitos sobre direitos.7
Por exemplo, no direito de propriedade, o direito do proprietário exerce-se diretamente
sobre a casa, o apartamento, o automóvel. Já no direito de crédito, derivado de um
contrato de locação, o exercício dos direitos do locatário sobre a coisa alugada depende
de o locador cumprir sua obrigação, que é a de entregar a coisa. O direito real é ius in ré
(direito sobre a coisa), enquanto no pessoal é ius ad rem (direito a uma coisa).
A importância da distinção dos bens corpóreos e incorpóreos reside no fato de que
alguns institutos só se aplicam aos primeiros. Regra geral, os direitos reais têm por
objetivo bens corpóreos. E quanto à forma de transferência, os corpóreos são objeto de
compra e venda, doação, troca, enquanto os incorpóreos direitos apenas de cessão.
Vendem-se ou prometem-se vender imóveis, cedem-se ou prometem-se ceder direitos,
isto é, na cessão faz-se abstração dos bens sobre os quais incidem os direitos que se
transferem.
6. A informação como bem jurídico.
Na teoria dos bens enquadram-se hoje novas figuras. A revolução científica e
tecnológica e as mudanças sociais levaram à criação de outras espécies,ou deram maior
relevo às já existentes. O meio ambiente, os bens de valor artístico, cultural e histórico,
a personalidade humana nos seus diversos aspectos, os programas dos computadores, o
know-how, o software, enfim, a informação, todas essas realidades passaram a ter
renovada importância e reconhecida proteção jurídica, inclusive de natureza
constitucional (CF, art. 5°). Por seu especial interesse, destaca-se aqui a informação
como bem jurídico.
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1 Teixeira de Freitas. Código Civil, Esboço, art. 317.
2 Pontes de Miranda. Tratado de Direito Privado, vol. 2, p. 22. Orlando Gomes.
Introdução ao Direito Civil, p. 174.
3 O Código Civil alemão (BGB) reserva o termo "coisa" para os objetivos materiais de
natureza exterior, dispondo no seu § 90: "Coisas, no sentido da lei, são somente os
objetivos corpóreos." O Código Civil italiano, no art. 180 define: "Bens são as coisas
que podem ser objeto de direito." O Código Civil português, no art. 202-, afirma: "Diz-
se coisa tudo aquilo que pode ser objeto de relações jurídicas", estabelece uma
equivalência entre coisa e objeto de direito, o que não é inteiramente correto, pois as
coisas, embora sendo a espécie mais corrente de objeto dos direitos, não esgotam a
extensão desse conceito. Cf. Carlos Alberto da Mota Pinto. Teoria Geral do Direito
Civil, p. 218.
4 Beviláqua. Código Civil Comentado, art. 43.
5 Garcia Amigo. Instituciones de Derecho Civil, p. 592.
6 Christian Atias. Droit civil. Lês biens, pp. 16 e 17. Fréderic Zénai. Lês biens, p. 23.
Gerard Cornu. Droit civil. Introduction, p. 294.
7 Castan Tobenas. Derecho Civil Espanol, Comun y Foral, tomo primeiro, H, p. 527.
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A noção de informação é poliédrica, dadas as suas múltiplas facetas. Pode ser
considerada e estudada corno atividade, e então surge como objeto do processo de
difusão ao público de notícias e comentários por meio dos instrumentos de comunicação
de massa. A par da informação como atividade, tem-se a informação como dever,
tipificado em vários ramos do direito, como o civil, o penal, o administrativo, o do
consumidor, sendo hoje de maior referência o dever de informar estabelecido no art. 6°,
III, do Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990), e
ainda a informação no que diz respeito à circulação, à apropriação (v.g. os direitos de
autor), ao acesso. Neste particular aspecto ressalta-se a importância crescente dos
bancos de dados, de variada natureza.
Em face das muitas facetas a considerar, a informação pode definir-se como sendo um
dado representativo da realidade suscetível de ser comunicado9', ou ainda qualquer
mensagem comunicável a outrem por qualquer meio5. Sua importância está no fato de
que a atividade de informação por meios eletrônicos constitui-se hoje em setor de
grande importância econômica. Ao lado dos três setores tradicionais da economia, a
agricultura, a indústria e os serviços, reconhece-se hoje a existência de um quarto setor,
que é o da informação. A esse pertencem as técnicas de produção da informação de
massa, como os jornais, o cinema, o rádio, a televisão e, por fim, a informática10. A
informação deixa de ser apenas um bem econômico para ser também um bem jurídico e,
como tal, objeto das relações de direito.
7. Bens móveis e imóveis. Origem histórica da distinção.
A distinção dos bens em móveis e imóveis baseia-se, fundamentalmente, na importância
social de que se revestem, justificando um especial regime jurídico para as formas e
garantias de sua alienação, da constituição dos direitos reais,11 da defesa judicial e
proteção dos credores dos respesctivos titulares.
São móveis e imóveis os que a lei estabelece de modo cogente, sendo inadmitida a
modificação de seu regime jurídico pelo exercício da vontade particular. Essa distinção
tem origem histórica.
A noção de imóvel sempre se identificou com a terra, e é sobre ela que se baseou a
ordem econômica e social até hoje. A existência, porém, de outros bens tornou
necessária uma diferenciação que justificasse a diversidade de regimes jurídicos a
adotar.
Em Roma a principal divisão era entre os bens úteis para a agricultura (rés mancipi],
compreendendo as terras, os escravos, os animais, as servidões de passagem e de
aqueduto, que eram os mais importantes, e todo os demais (rés nec mancipi). O direito
cuidava preferentemente dos primeiros, o que se compreende em face do sistema
econômico vigente, que era o da economia agrária. A alienação das rés mancipi era
complexa (mancipatió), constituindo-se em verdadeiro cerimonial, enquanto a das rés
nec mancipi era muito mais simples (traditio). Essa diferenciação passou a corresponder
à existente entre imóveis e móveis, não só pelo critério físico da mobilidade, como pela
respectiva importância social. Foi, todavia, consagrada apenas nos últimos períodos do
direito romano, encontrando-se a primeira referência legislativa na Constituição de
Justi-niano, na lei "De usucapione transformanda", na qual pela primeira vez se usa a
palavra imóvel em sentido oposto a móvel.u
A distinção entre bens móveis e imóveis é, assim, típica da tradição romanista e latina,
embora sujeitos, de modo geral, ao mesmo regime jurídico. No mundo germânico o
regime era diverso, havendo um direito especificamente imobiliário, completamente
distinto do das coisas móveis, sendo que, inicialmente, só estas eram objeto de
propriedade individual. Durante a Idade Média consagra-se tal distinção, tendo-se
tornado, com a glosa e o ancien droit, a summa divisio das coisas.
O direito feudal consagrava a terra como fator de produção de uma economia
essencialmente agrícola, donde a permanência do bem imóvel como base do sistema
econômico e, conseqüentemente, do sistema jurídico, constituindo-se a terra no
elemento político básico do ordenamento jurídico, e da forma de exploração econômica
então vigente. Em contrapartida, os bens móveis não tinham maior valor, como se vê
nos brocardos da época rés mobilis rés vilis e vilis mobiliwn possessio permanecendo os
imóveis até à Revolução Industrial como única fonte importante de riqueza, como
elemento econômico prepoderante e único elemento de garantia para obtenção de
crédito.
A diferença da importância social dos bens móveis e imóveis justifica, assim, a
diversidade dos seus regimes jurídicos, fazendo com que todas as coisas e todos os
direitos se incluíssem em uma ou em outra categoria, como se observa no Código Civil
francês, onde se diz que todas as coisas se consideram bens móveis ou imóveis (art.
516).
Com a Revolução Industrial, a agricultura passa a nível secundário e, com o
conseqüente processo de urbanização, os bens móveis e a prestação de serviços crescem
de importância, chegando a existir bens móveis mais valiosos que os imóveis. São os
títulos de crédito, os valores mobiliários, os metais preciosos, novos instrumentos de
riqueza a exigir nova regulamentação jurídica da propriedade mobiliária, superando em
importância econômica os imóveis e a tradicional divisão, própria de exigências
econômicas ultrapassadas.
Em suma, a classificação dos bens em móveis e imóveis é historicamente a grande
divisão no direito dos bens, sendo os imóveis mais importantes por traduzirem a idéia
de maior valor, estabilidade e importância política que os móveis, mero conceito
residual, compreendendo os bens fora do regime dos imóveis.
Esse critério está sendo revisto hoje em dia, tendendo-se a substituir a idéia de
importância pela de interesse social, público, coletivo, que sugere uma especial
disciplina para cada coisa ou categoria de coisas, independentemente da distinção entre
móveis
e imóveis.13
8. Importância da distinção.
A importância da distinção dos bens em móveis e imóveis manifesta-se na diversidade
de regras jurídicas, de direito privado e de direito público, que se aplicam em diversas
hipóteses tipificadas em lei, como se exemplifica:
a) somente imóveis podem ser objeto de bem de família (art.
1-711);
b) só entre imóveis se podem estabelecer relações de vizinhança e limitações ao poder
de construir;
c) o instrumento público é da substância do ato constitutivo ou translativo de direitos
reais sobre imóveis de determinado valor (CC, art. 108) salvo o decorrente de contrato
do Sistema Financeiro de Habitação (Lei 4.380, de 21.08.64, art. 61, § 5°);
d) os móveis podem ser livremente alienados pelo cônjuge que estiver na administração
do casal. Os imóveis somente com autorização do outro cônjuge, exceto no regime de
separação absoluta (CC, art. 1.647), salvo o caso do art. 1.651, III, com autorização do
juiz;
e) os móveis adquirem-se por usucapião no prazo de três ou cinco anos, enquanto os
imóveis necessitam 5, 10 ou 15 anos (CC, arts. 1.242, par. único, 1.238, par. único,
1.260 e 1.261);
f) adquirem-se os imóveis por transcrição do título de transferência no Registro de
Imóveis, e os móveis, por tradição (CC, arts. 1.245 e 1.267);
g) os pais não podem alienar nem gravar de ônus reais os imóveis dos filhos sob pátrio
poder, sem autorização do juiz (CC, art. 1.691); na tutela, além dessa autorização, é
preciso hasta pública (CC, arts. 1.748, IV, e 1.750); no entanto, a disposição dos bens
móveis pelos pais é livre, desde que no interesse dos menores;
h) os imóveis do ausente só se poderão alienar ou hipotecar quando o ordene o juiz para
lhes evitar a ruína (CC, art. 31);
i) a posse de imóveis faz presumir a dos móveis nele instalados (CC, art. 1.209);
j) os móveis são objetos de penhor, os imóveis, de hipoteca (CC, arts. 1.431 e 1.473, I),
com exceção dos navios e aeronaves que, sendo móveis, são objetos de hipoteca;
1) só os móveis podem ser objeto de contrato de mútuo (CC, art. 586);
m) no direito tributário, os imóveis são objeto de imposto territorial, predial e de
transmissão inter vivos ou mortis causa; os móveis, de imposto de circulação de
mercadorias, de produtos industrializados, e de transmissão mortis causa;
n) no direito penal, somente os móveis podem ser objetos de roubo ou de furto (CP, arts.
155 e 157);
o) no direito processual, as ações reais imobiliárias exigem a citação de ambos os
cônjuges (CPC, art. 10, parág. único).
9. Bens imóveis: a) imóveis por natureza; b) imóveis por acessão física; c) imóveis por
acessão intelectual; d) imóveis por destinação legal.
Bens imóveis são os que não podem ser removidos sem alteração de sua substância.
O direito considera imóveis o solo e tudo quanto a ele adere, natural ou artificialmente e
ainda aquilo que, por questões de conveniência legislativa, deva ser ficticiamente
considerado como imóvel.
Bens imóveis são, portanto, o solo e tudo quanto se lhe incorporar natural ou
artificialmente (CC. art. 79), e também os que a lei assim considera (CC, art. 80).
É por essa razão que o Código Civil de 1916 dividia os bens imóveis em imóveis por
natureza, imóveis por acessão física, imóveis por acessão intelectual e imóveis por
disposição legal, distinção ainda aproveitável, para fins didáticos.
a) Imóveis por natureza.
Bem imóvel por natureza é o solo, a superfície da terra em seu estado natural, reunindo
o solo propriamente dito e o subsolo. O solo compreende a terra, as pedras, as fontes e
os cursos de água, superficiais ou subterrâneos, que corram naturalmente. E ainda as
árvores e os frutos pendentes. As árvores são imóveis porque a ele se incorporam
necessariamente, não podendo ter vida independente. Quando separadas do solo passam
a ser móveis, salvo se destinadas ao replantio.14 Também assim se consideram quando,
não obstante incorporadas ao solo, constituem já objeto de um contrato que se efetivará
na época da separação. Também os frutos são imóveis até que se destaquem das árvores
respectivas, já que fazem parte da coisa que os produz.15 Consideram-se móveis por
antecipação, segundo a doutrina francesa, quando objeto de um contrato que preveja a
sua mobilização.
O espaço aéreo correspondente ao solo, embora o código não o considere mais imóvel,
assim como o subsolo, integram-se ambos no mesmo direito de propriedade (CC, art.
1.229), o qual é limitado, porém, pela utilidade do seu exercício, como ocorre no caso
de existência de recursos naturais ou de potenciais de energia hidráulica, que constituem
propriedade distinta da do solo para efeito de exploração ou aproveitamento, e
pertencem à União (CF, art. 176). b) Imóveis por acessão física.
São imóveis por acessão física tudo quanto o homem incorporar permanentemente ao
solo, como a semente lançada à terra, os edifícios e construções, de modo que não se
possa retirar sem destruição, modificação, fratura ou dano.
Acessão é a aderência de uma coisa a outra.16 Imóvel por acessão física são os móveis
que o homem incorpora permanentemente ao solo, desde que não sejam contruções
ligeiras, como barracas e pavilhões transitoriamente fixados. A permanência significa
duração.17 No caso de sementes, ou plantas, a incorporação é orgânica e a união com o
solo se faz por força da natureza, enquanto as construções se incorporam mediante
união material.18
É indispensável que essa união se faça de modo a formar uma só coisa, uma só unidade.
Uma casa pré-fabricada, materiais de edificação, uma construção simplesmente apoiada,
não é imóvel.
Os imóveis por natureza e os por acessão física chamam-se prédios, que se dividem em
urbanos e rurais, conforme sua destinação. A distinção é relevante em questões
locatícias, tributárias e agrárias.19
c) Imóveis por acessão intelectual.
Imóvel por acessão intelectual é tudo quanto no imóvel o pró-
-------------------
8 Vincenzo Zeno-Zencovich, Informazioni (profili civilistici), in Digesto delle
Discipline Privatistiche, IX, Torino, UTET, 1993, p. 421
9 Pierre Catala, Ebauche d'une théorie juridique de V Information, in Informática
ediritto, 1983, n°l, p. 15
10 Vittorio Frosini, // diritto nella società tecnológica, Milano, Giuffrè Editore, 1981,
p. 233; Pietro Perlingieri, L'informazione come bene giuridico, in Rassegna di diritto
civile, 1990, p. 326
11 Zénati, op. cit., p. 16.
12 Castan Tobenas, op. cit., p. 531, nota 1.
13 Biondo Biondi. Los bienes, p. 106.
14 Espínola. Sistema de Direito Civil Brasileiro, p. 487. Joaquim Ribas. Direito Civil
Brasileiro, p. 381.
15 Biondo Biondi, p. 115.
16 Silvio Rodrigues. Direito Civil. Pane geral, p. 94.
17 Caio Mário da Silva Pereira. Instituições de Direito Civil, ns 70.
18 Biondo Biondi, p. 117.
19 A Lei 8.245, de 18 de outubro de 1991 regula apenas a locação predial urbana; os
imóveis rurais subordinam-se ao Estatuto da Terra, Lei 4.504, de 30 de novembro de
1964. O Código Civil aplica-se subsidiariamente. Em matéria tributária, o imposto
predial incide diversamente conforme a propriedade seja urbana ou rural. O imóvel rural
pode ser objeto de reforma agrária, na forma da Lei (CF, art. 184).
-------------------
prietário mantiver, intencionalmente, empregado em sua exploração industrial,
aformoseamento ou comodidade. É a definição contida no art. 43, III, do Código de
1916. São bens móveis que o proprietário destina ao imóvel, ligando-os subjetivamente
e com o poder de, a qualquer momento, os mobilizar. Não há aderência material.
Destinam-se a explorar, embelezar ou aumentar a utilidade de um imóvel. Denominam-
se pertenças (máquinas agrícolas, estátuas, pára-raios, aparelhos elétricos etc.) e
caracterizam-se por, sem serem partes integrantes, destinarem-se a servir à finalidade da
coisa principal. Define-as o Código no art. 93.
O objetivo é econômico ou de utilidade. O instrumento agrícola é, assim, imóvel por
acessão intelectual, mas não o é o automóvel de passeio do agricultor,20 porque a
imobilização da coisa móvel por acessão intelectual "somente pode dar-se quando ela é
posta a serviço do imóvel, e não das pessoas".
Tal imobilização é uma ficção legal que se funda na conveniência de evitar-se que as
coisas móveis, acessórios, se separem do imóvel contra a vontade do proprietário e em
prejuízo do interesse geral, integrando-se no imóvel para que este preste os serviços a
que se destina.
A acessão pode ser de natureza agrícola, industrial, comercial e suntuária,21 conforme a
sua destinação. Sua justificativa é impedir que o adquirente do imóvel se prive dos
móveis destinados à sua exploração, ou daqueles sem os quais o imóvel não se
completa. O objetivo é, portanto, manter a unidade, o conjunto, facilitando a
determinação das regras jurídicas aplicáveis ao caso. Desse modo, a venda de uma
fábrica sem discriminação engloba também os respectivos móveis.22
Fundamento da acessão é, assim, a relação de utilidade ou serviço entre a coisa principal
e a acessória, e a durabilidade desse vínculo.
Basta, por isso, dispor que os imóveis por acessão, bens móveis acessórios do imóvel,
por serem destinados à sua exploração, não podem ser separados dele contra a vontade
do proprietário. O respectivo dispositivo legal, o art. 79 do Código Civil, dispõe, em
fórmula sintética que são bens imóveis o solo e tudo quanto se lhe incorporar, natural ou
artificialmente.
Os imóveis por acessão intelectual podem, a qualquer tempo, ser mobilizados,
separando-se do imóvel a que se uniram, desde que de modo definitivo. Os materiais
temporariamente separados do imóvel a que pertecem (como tijolos, madeiras, grades,
instalações metálicas etc.) não perdem a qualidade de imóveis assim como as
edificações que, separadas do solo, mas conservando sua unidade, forem removidas para
outro local (CC, art. 81). d) Imóveis por disposição legal.
Imóveis por disposições legal são os direitos reais sobre imóveis (propriedade,
enfiteuse, servidão predial, usufruto, uso, habitação, rendas constituídas sobre imóveis,
penhor agrícola, anticrese, hipoteca), as ações que o asseguram, e o direito à sucessão
aberta. Neste caso, não é o direito aos bens componentes da herança, mas o direito a
esta, como uma unidade. A inclusão dos direitos reais sobre imóveis tem por objeto a
maior segurança nas respectivas relações jurídicas. As ações relativas aos direitos reais
compreendem não só as ações destinadas à defesa desses direitos, mas também as
destinadas a constituir ou modificar uma relação jurídica pertinente a direitos reais sobre
imóveis, como, por exemplo, a destinada a estabelecer ou regular os limites da
propriedade, a constituição da servidão, a remissão ou execução da hipoteca, a
revogação de doação, a anulação de contrato translativo de propriedade etc., sempre que
tendam à atribuição de direitos reais sobre os imóveis. Doutra forma não tem sentido a
lei, já que a ação, embora direito subjetivo público, não pode considerar-se um bern
destacado do direito que protege. Não entram nessa categoria as ações possessórias, que
não são reais, pois somente se podem exercitar contra o autor da turbação ou do
esbulho,23 não tendo eficácia erga omnes.
10. Bens móveis. Conceito e determinação legal.
Bens móveis são os suscetíveis de movimento próprio ou de remoção por força alheia,
sem alteração da substância ou da desti-nação econômico-social (CC, art. 82). Os
primeiros dizem-se semo-ventes. São os animais. Os segundos são as coisas inanimadas.
A diferença é irrelevante, pois aplica-se a ambas as espécies o mesmo regime jurídico.
Os bens móveis podem sê-lo por sua própria natureza (CC, art. 82) e por disposição
legal, compreendendo-se, neste caso, as energias que tenham valor econômico, os
direitos reais sobre objetos móveis e as ações correspondentes, os direitos pessoais de
caracter patrimonial e as ações respectivas (CC, art. 83).
Há ainda bens móveis por natureza que a lei considera imóveis para efeito de garantia,
como os navios e as aeronaves (CC, art. 1.473, VI e VII).24 São também móveis os
direitos da propriedade industrial, o fundo de comércio, as quotas e as ações do capital
social,25 o gás, os títulos de crédito.
São ainda móveis os materiais destinados a uma construção, enquanto não utilizados,
pois que ainda não incorporados ao imóvel, e os decorrentes de demolição de um prédio
(CC. art. 84), como as portas, grades, janelas etc. É bem móvel por disposição legal o
know-how (Lei 9.279, de 14 de maio de 1996, art. 5°)
Consideram-se ainda móveis por antecipação aqueles que, naturalmente imóveis porque
ligados à terra, destinam-se a ser mobilizados, como, por exemplo, os frutos ainda não
colhidos e as árvores destinadas a corte.26
Os bens móveis dividem-se em genéricos e individuais, fungíveis e não fungíveis,
consumíveis e não consumíveis, divisíveis e indivisíveis, singulares e coletivos.
11. Bens genéricos e individuais.
Gênero é o 'conjunto de elementos comuns existentes em diferentes objetos. Por
extensão, é o conjunto de espécies que apresentam esses elementos, notas ou caracteres
comuns. A espécie forma-se por indivíduos muito semelhantes entre si, com essas notas
comuns.
Essas categorias lógicas interessam ao direito na medida em que, utilizadas na
classificação dos bens, suscitem diversidade no regime jurídico aplicável. Na técnica
jurídica, porém, gênero é um conjunto de seres semelhantes, e estes são as espécies.
Um bem é genérico quando representa uma categoria de bens individuais que têm as
mesmas características, como tal marca cie veículo, tal qualidade de cereal etc. O bem é
específico ou individual quando se distingue dos demais por suas próprias
características. E um objeto certo, único.
Essa classificação é importante em matéria de direitos reais e de obrigações. Os
primeiros não podem ter como objeto coisas genéricas, já que implicam em um poder
sobre uma coisa específica. Já as obrigações admitem, como objeto, prestações
genéricas. Nesse caso, segundo o princípio de que o gênero nunca perece (genera
nunquam pereuni], o credor tem direito a obter o bem compreendido
no gênero.
Por exemplo, a obrigação de entregar "duas arrobas de café, quatro cavalos" tem como
prestação uma coisa incerta, indicada, porém, pelo gênero e pela quantidade. Já uma
obrigação de entregar açúcar sem a necessária especificação quanto à marca, qualidade
e quantidade, nada vale, por ser indeterminada e indeterminável. Como o gênero nunca
perece, não pode o devedor liberar-se de sua obrigação alegando perda ou deterioração
da coisa, ainda que por caso fortuito ou força maior (CC, art. 246).
12. Bens fungíveis e infungíveis.
As coisas genéricas são normalmente fungíveis.
Bens fungíveis são os móveis que podem, e infungíveis os que não podem substituir-se
por outros da mesma espécie, qualidade e quantidade (CC, art. 85). Exemplo de coisa
fungível: os gêneros alimentícios em geral, o gado, o dinheiro etc. Determinam-se pelo
número ou medida, e traduzem uma equivalência entre as espécies (100,00 = 100,00).
Os bens fungíveis são substituíveis porque são idênticos, econômica, social e
juridicamente.
A fungibilidade é própria dos móveis e a infungibilidade dos imóveis, mas esta regra
não é absoluta.
Os bens infungíveis são insubstituíveis, porque tomados em consideração de suas
qualidades individuais, como ocorre com o quadro de um pintor.
A fungiblidade e a infungibilidade decorrem tanto da natureza quanto da vontade das
pessoas, inclusive do legislador. Determinado automóvel, coisa fungível, transforma-se
em infungível se individualizado pela marca, ano de fabricação, cor, número de motor,
acessórios instalados etc. As ações de uma sociedade e as notas de dinheiro são
individualizadas pelo número, todavia são fungíveis, pois o que interessa é o seu valor,
que independe da numeração. A fungibilidade da moeda, aliás, é uma necessidade
prática. Seria inviável o empréstimo de dinheiro com a obrigação de se devolverem as
mesmas notas ou moedas.
A fungibilidade é idéia de comparação entre bens que se consideram equivalentes
exprimindo a possibilidade de substituição de coisas do mesmo gênero. É própria dos
bens móveis, e é alterável por vontade das partes. Uma coisa fungível (moeda, livro,
automóvel, quadro etc.) pode convencionar-se como infungível se tiver características
que lhe dêem especial valor.
Os bens fungíveis são determinados pelo número, peso e medida, o que permite a sua
substituição. Se considerados corpo certo, serão insubstituíveis e, como tal, infungíveis.
A fungibilidade, embora pertinente à coisa, estende-se a ações humanas (prestações)
quando objeto de obrigações. Prestação fungível é a que pode ser feita por outra pessoa
que não o devedor (CC, art. 249). Prestação ou serviço infungível é o que tem ser de ser
cumprido pelo próprio devedor, por exemplo, um pintor famoso.
A importância da distinção entre coisas fungíveis e infungíveis revela-se em alguns
institutos do Código Civil, principalmente no direito das obrigações:
a) o mútuo é empréstimos de coisas fungíveis (CC, art. 586), em regra, dinheiro,
enquanto o comodato é empréstimo de coisa infungível (CC, art. 579).
Excepcionalmente pode haver comodato de coisa fungível, como no ad pompam vel
ostentationem, quando se empresta um objeto substituível para exposição, devendo ele
próprio ser devolvido (livros, garrafas, moedas, arranjo de flores etc.);
b) o depósito de coisas fungíveis regula-se como mútuo (CC, art. 645);
c) a fungibilidade das dívidas é requisito da compensação (CC, art. 369);
d) a locação de coisas tem por objeto o uso e gozo de coisa não fungível (CC, art. 565);
e) o pagamento mediante entrega de coisa fungível é eficaz ainda que feito por pessoa
sem direito de aliená-la, desde que o credor esteja de boa-fé. Se a coisa for infungível, o
pagamento será ineficaz (CC. art. 307, par. único);
f) o legado de coisa fungível será cumprido ainda que tal coisa inexista entre os bens
deixados pelo testador (CC, art. 1.915);
No caso de direitos reais, quanto ao direito de propriedade, não têm maior importância
porque as coisas, sejam fungíveis ou infungíveis, podem ser reivindicadas, sendo que na
primeira espécie, se impossível o reconhecimento da coisa pertencente ao autor,
contenta-se ele em receber coisa equivalente, como também no caso de usufruto (CC,
art. 1.392, par. 1°).
13. Bens consumíveis e inconsumíveis.
Enquanto a fungibilidade resulta de uma relação de identidade ou equivalência, a
consuntibilidade, qualidade do que é consumível, resulta da relação de utilidade entre o
titular e a coisa.
Consumíveis são os móveis que se extinguem pelo uso normal, ou que se destinam à
alienação. Inconsumíveis são os que permitem utilização contínua, sem destruição da
substância (CC, art. 86).
A consuntibilidade é própria dos móveis e é conceito econômico jurídico que não
coincide necessariamente com o sentido físico. É qualidade daquilo que se destrói com
o primeiro uso, como os alimentos (consumo natural), ou daquilo que se destina a ser
alienado, como as mercadorias de um armazém, roupas, livros etc. (consumo jurídico).
A consuntibilidade é, portanto, natural, quando se verifica com o simples uso, e jurídica,
quando ocorre com a alienação. As coisas naturalmente consumíveis só podem servir
uma vez.27
Consumo natural é, portanto, o que se dá com a destruição do bem pelo uso regular,
como acontece com os alimentos, o dinheiro etc. O consumo jurídico é o que se traduz
no destino, como acontece com as mercadorias de um armazém, roupas, livros,
máquinas etc. Por isso, os bens inconsumíveis tornam-se juridicamente consumíveis
quando postos à venda. O livro, inconsumível por natureza, é con-sumível quando está à
venda.
A consuntibilidade não se identifica com a fungibilidade. Esta deriva de uma relação de
identidade ou equivalência, não sendo uma característica natural da coisa, aquela diz
respeito ao uso a que a coisa se destina. No entanto, as coisas fungíveis são em geral
consumíveis, embora existam coisas fungíveis não naturalmente consumíveis, como
livros, móveis etc.
Alguns exemplos legais demonstram a importância da distinção: no usufruto de bens
consumíveis (quase usufruto), o usufrutuário é obrigado a restituir, findo o usufruto as
que ainda houver e, das outras, o equivalente em gênero, qualidade, quantidade, ou não
sendo possível, o seu valor estimado ao tempo da restituição (CC, art. 1.392, par. 1°).
No comodato ad pompam vel ostentationem28, a coisa consumível é tomada como
corpo certo, inconsumível.
14. Bens divísiveis e indivisíveis.
Bens divísiveis são os que se podem fracionar sem alteração na sua substância,
diminuição considerável de valor, ou prejuízo do uso a que se destinam (CC. art. 87). As
partes singulares, resultantes da divisão, devem ter a mesma natureza, características e
função do todo a que pertenciam.
Bens indivisíveis são aqueles cuja divisão implica a alteração da própria substância, ou
o sacrifício do valor ou o prejuízo do uso a que se destinam.
O disposto no art. 87 do Código Civil aplica-se às coisas, bens corpóreos. É conceito de
divisão real ou material. Há também a divisão ideal ou intelectual, jurídica, que se
aplica tanto às coisas como aos direitos.
O critério da divisibilidade jurídica não corresponde, portanto, ao da divisibilidade
física.29 Para o direito, o que importa é que a divisão de um bem não implique sua
desvalorização econômica.30 As frações devem ter as mesmas qualidades e
características do todo a que pertenciam, não podendo o fracionamento significar dano
nem desvalorização. A divisibilidade pressupõe, assim, a manutenção do valor
econômico, de forma proporcional, e das qualidades do todo a que pertenciam as partes.
Indivisível é o imóvel que não pode ser dividido sem dano material e econômico.
A indivisibilidade decorre da natureza, da lei ou da vontade das partes (CC, art. 88).
Nestas últimas hipóteses, uma coisa materialmente divísivel torna-se indivisível. Da
natureza, quando a divisão da coisa implica alteração de sua substância ou diminuição
do valor. Afeta móveis e imóveis. Da lei, nos casos de servidão (CC, art. 1.386), herança
(CC, art. 1.791, par. único), módulo de propriedade rural (Estatuto da Terra, art. 4°, III),
partes comuns no condomínio do edifício (solo, estrutura, telhado, rede de água, esgoto,
gás e eletricidade, escadas etc.). No condomínio, se a coisa comum for indivisível ou se
tornar, pela divisão, imprópria ao seu destino, será adjudicada a um só dos condôminos,
ou vendida, e partilhado o preço (CC, art. 1.322). A indivisibilidade convencional
ocorre, por exemplo, nas obrigações indivisíveis (CC, art. 314) e nos direitos
decorrentes da qualidade de acionista.
Tanto a divisibilidade quanto a indivisibilidade podem converter-se na qualidade oposta.
Bem materialmente divisível pode transformar-se, pela vontade das partes, em
idealmente indivisível. Também a coisa materialmente indivisível pode ser dividida em
partes ideais, como no condomínio.
15. Bens singulares e coletivos.
Singulares são os que se consideram em sua individualidade distintos de quaisquer
outros. Coletivos ou universais os que, constituídos de bens singulares, se consideram
em conjunto, formando um todo unitário.31
--------------------
20 Caio Mário da Silva Pereira, op. cit., ns 75; Lucy Rodrigues dos Santos, Bens
imóveis, in Enciclopédia Saraiva do Direito, vol. II, p. 227.
21 Castan Tobenas, p. 540.
22 "É imóvel por destino, estando sujeito a imposto de transmissão o seu valor,
quando alienado com as terras onde estavam, o maquinismo e seus acessórios que aí não
se encontram para ornamento e comodidade, mas para exploração industrial"
- P CC do TJSP, Ag. Pet. tf 107.438, RT 311/414, apud Wilson Bussada. Código Civil
Brasileiro Interpretado pelos Tribunais, vol. I, p. 233.
23 Biondo Biondi, p. 128. Com opinião contrária, Celso Agrícola Barbi. Comentários
ao Código de Processo Civil, p. 136.
24 Código Brasileiro de Aeronáutica, Lei 7.565, de 19 de dezembro de 1986, art. 106,
parág. único, e art. 138.
25 Caio Mário, op. cit., p. 364.
26 Boris Stark. Droit Civil, Introduction, p. 108. Jurisprudência Brasileira, vol. 5, p.
77.
27 Teixeira de Freitas. Esboço, art. 354, l* Christian Atias, p. 20.
28 li o empréstimo de coisas para uso em solenidades, festas etc.
29 Roberto de Ruggiero. Instituições de direito civil, II, p. 266.
30 "A divisibilidade de um prédio comum é apreciada pelo aspecto econômico c não
pelo jurídico", STF, RE ns 15.084, RT 209/479, apud Wilson Bussada, op. cit., p. 253. "
A perda da identidade e a diminuição do valor econômico são traços característicos da
indivisibilidade jurídica de coisa comum", RT 227/603.
31 Clóvis Beviláqua. Teoria Geral do Direito Civil, p. 37.
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As coisas singulares podem ser simples e compostas. Simples quando suas partes, da
mesma espécie, estão ligadas pela natureza (animais, árvores) ou pelo homem (quadro,
vaso), formando um todo unitário em que seus elementos perdem a individualidade.
Compostas quando suas partes, de espécies diferentes, estão ligadas pela indústria
humana (construções, máquinas), mantendo ou não a sua individualidade. As coisas
simples nascem, portanto, da natureza ou do engenho humano, já as coisas compostas
são sempre artificiais.
As coisas simples constituem uma unidade natural incindível; as compostas formam-se
de coisas simples. Em face disso, é possível a existência de direitos, tanto sobre a coisa
composta, na sua unidade, como sobre os seus elementos componentes, o que não se
verifica nas coisas simples.
As coisas são normalmente singulares. As coletivas são-no por vontade da lei ou das
partes. Umas e outras podem ser materiais (casas, máquinas, animais) e imateriais
(direitos).
As coletivas formam-se com várias coisas singulares que, reunidas, constituem uma
unidade. Com esse sentido, o art. 89 do Código Civil.
As coisas coletivas (universitas reruni) dividem-se em universalidade de fato
(universitas facti), conjunto de coisas reunidas pela vontade humana para determinado
fim, e universalidades de direito [universitas júris), conjunto de coisas e direitos
reunidos pela lei com caráter unitário. O Código Civil considera universalidade de fato a
pluralidade de bens singulares pertencentes à mesma pessoa e com destinação unitária
(CC, art. 90). Os bens que formam essa universalidade podem ser objeto de relações
jurídicas próprias. É universalidade de direito o complexo de relações jurídicas, de uma
pessoa, dotadas de valor econômico (CC, art. 91).
Distingue-se a universalidade da coisa composta porque esta resulta de uma união
material, enquanto aquela é uma união ideal, formando uma entidade complexa que
transcende as coisas componentes, com uma única denominação e um só regime
jurídico, embora mantendo a individualidade prática e jurídica dos seus elementos.
Enquanto a universalidade de fato é uma pluralidade de coisas móveis, reunidas pelo
dono para uma destinação econômica, embora não-reconhecida como unidade de
direito, a universalidade de direito é um complexo de relações jurídicas que a lei
considera unitaria-mente. Sua essência está na unidade. São universalidades de fato o
rebanho, a biblioteca, a pinacoteca, o estabelecimento comercial.
São universalidades de direito, por exemplo, a herança e o patrimônio geral e também
os patrimônios especiais, que a lei disciplina como unidade para determinado fim, a
massa falida, os bens do ausente, o dote, os bens conjugais. Universalidade de grande
importância r a empresa, se se considera como objeto de direito, isto é, como "conjunto
de bens e direitos unitariamente organizados e centralizados na pessoa de um sujeito de
direito, o empresário".32 A distinção universalidade de fato/universalidade de direito,
que nos vem dos glosadores, da Idade Média, é hoje objeto de viva discussão, sendo por
muitos considerada superada.
As coisas simples que formam a coisa composta, mantendo sua identidade, denominam-
se partes integrantes. Se perdem a identidade chamam-se partes componentes.33 As
partes integrantes, como as peças de máquinas, podem ser separadas do todo, as
componentes, como o cimento de uma parede, não.
Na coletividade, desaparecendo todos os seus indivíduos menos um, deixa de existir
coisa coletiva para existir coisa singular.
Nas universalidades, os bens que as integram podem ser substituídos pelo respectivo
valor e vice-versa (rés succedit in locum pretii, pretium succedit in locum rei).34 Sub-
rogar significa substituir o bem objeto da relação jurídica por outro, no caso, pelo seu
valor, permanecendo o mesmo regime jurídico da coisa sub-rogada. Por exemplo, se
numa coleção de objetos raros algum se destruir, o valor da indenização substitui o valor
do objeto danificado. Aplicação prática desse princípio encontra-se nos arts. 1.407, § 2-,
e 1.911, par. único, do Código Civil.
A sub-rogação é legal quando disposta em lei, e voluntária quando decidida pela
vontade particular.35
16. Bens principais e bens acessórios.
Bens principais são os que têm existência própria, independentemente de outros.
Acessórios, aqueles cuja existência supõe a de outro, principal (CC, art. 92).
Considerados isoladamente, os bens não são principais nem acessórios. Essa distinção
decorre de um vínculo de subordinação estabelecido entre duas coisas, pela natureza,
pela vontade humana ou pela lei. É essa relação de dependência que faz distinguir os
bens principais dos que lhe são acessórios. Os primeiros existem por si e para si, os
segundos, embora distintos, dependem dos primeiros, formando, porém, um todo com o
mesmo destino, salvo disposição em contrário. Essa união difere da que existe na coisa
composta, cujas partes formam um todo unitário, integrado e sem relação de
dependência.
Qual o critério para caracterizar o bem principal? É a sua função econômica, em razão
da qual se estabelece a relação de dependência que caracteriza a acessoriedade.36
Regra geral não é o valor, mas o destino da coisa ou uma natural dependência já
existente. Nos imóveis, o solo costuma ser principal, sendo acessório tudo o que a ele
adere. Nos móveis, principal é a coisa para a qual outras se destinam.
A relação de acessoriedade existe entre coisas e entre direitos. Acessórios podem ser
móveis e imóveis; podem ser direitos obriga-cionais, como a cláusula penal, as arras, os
juros, os dividendos; e direitos reais, como as servidões, o penhor, a anticrese, a
hipoteca.
A importância da distinção dos bens principais e acessórios manifesta-se nas seguintes
regras:
1) Salvo disposição em contrário, a coisa acessória segue a principal. Deste princípio
básico, surgem dois corolários: a) o acessório segue a natureza do principal; é o
princípio da gravitação jurídica, pelo qual um bem atrai outro para sua órbita,
comunicando-lhe seu próprio regime jurídico;37 o móvel colocado no imóvel para
completá-lo torna-se imóvel (CC, art. 79). Daí a necessidade de, na venda de um
imóvel, por exemplo, uma fazenda, um apartamento, esclarecer-se o destino dos móveis,
pertences que o guarnecem; b) o proprietário do principal, de regra, é também do
acessório, o proprietário do solo é também dos frutos pendentes;
2) a posse do imóvel faz presumir, até prova em contrário, a dos móveis e objetos que
nele estiverem (CC, art. 1.209);
3) o possuidor de boa-fé tem direito à indenização pelas benfeitorias necessárias e úteis,
com direito de retenção, e pode levantar as voluptuárias desde que não prejudiquem a
coisa; o de má-fé tem apenas direito de indenização pelas necessárias, sem retenção
(CC, arts. 1.219 e 1.220);
4) a obrigação de dar coisa certa abrange-lhe os acessórios, embora não mencionados,
salvo se o contrário resultar do título ou das circunstâncias do caso (CC, art. 233);
5) salvo disposição em contrário, na cessão de um crédito st-abrangem todos os seus
acessórios (CC, art. 287);
6) a fiança, como contrato de garantia, segue a sorte do contrato principal.
17. Espécies de bens acessórios.
Os bens podem ser natural, industrial e civilmente acessórios.
Bens naturalmente acessórios são os que têm origem em fatos da natureza (frutos
naturais, produtos orgânicos ou inorgânicos, o subsolo).
Bens industrialmente acessórios são os que resultam da indústria humana (construções,
plantações, frutos industriais, benfeitorias).
Bens civilmente acessórios são os que resultam de uma relação abstrata de direito, sem
vinculação material (juros, ônus reais, dividendos, aluguéis, fiança).
Consideram-se acessórios os frutos, os produtos, os rendimentos, os produtos orgânicos
da superfície, os minerais contidos no subsolo, as obras de aderência permanente feitas
acima ou abaixo da superfície e as benfeitorias, não se considerando como tal a pintura
em relação à tela, a escultura em relação a matéria prima, e a escritura e outro qualquer
trabalho gráfico, em relação à matéria que os recebe.
São também acessórios as pertenças, bens que, embora não sendo partes integrantes,
destinam-se ao serviço ou aformoseamento de outros.
Quanto aos minerais do subsolo, legislação especial e posterior ao Código Civil
transformou-os em bens principais. As jazidas pertencem à União, constituindo
propriedade distinta da do solo para efeito de exploração ou aproveitamento industrial.
Ao proprietário do solo é assegurada, todavia, a participação nos resultados da lavra,
cujo direito de exploração se concede a brasileiros, pessoas físicas ou jurídicas.38
Frutos são as utilidades que o bem periodicamente dá, sem diminuição da sua
substância. Caracterizam-se pela sua periodicidade, pela inalterabilidade da substância
da coisa principal e pela sua separabilidade, embora tais características não se
encontrem em todas as espécies. Periodicidade significa que os frutos, principalmente
os naturais, nascem e renascem, renovando-se de tempos a tempos. A inalterabilidade da
substância da coisa principal diz respeito à possibilidade de reprodução sem que o
principal se extinga ou diminua. A separabilidade significa a possibilidade de o bem
acessório poder destacar-se do principal, sem destruí-lo, e ser o objeto de relações
distintas.
Quanto à sua origem, dizem-se naturais, se provêm diretamente da coisa por força da
natureza (vegetais e animais); industriais, se devidos à ação humana; e civis ou
rendimentos, quando resultam da utilização da coisa por pessoa diversa do proprietário
(juros, aluguéis), como correspectivo a essa utilização.
Quanto ao estado em que se encontrem, os frutos são pendentes, quando unidos à coisa
que os produziu; percebidos (os civis e os industriais) ou colhidos (os naturais), quando
já separados; estantes, os já colhidos mas ainda armazenados; percipiendos, os que
deviam ser mas não foram colhidos; e consumidos, os já utilizados.39 Essas diferenças
têm importância principalmente em matéria de posse (CC. arts. 1.214 e 1.216), onde se
dispõe que o possuidor de boa-fé tem direito aos frutos percebidos, não aos colhidos
com antecipação nem aos pendentes. Já o possuidor de má-fé não tem direito aos frutos.
Quanto ao momento de sua aquisição, os frutos naturais e os industriais adquirem-se
com a separação, e os civis, dia a dia (CC, art. 1.215) com o seu vencimento. Vige, na
matéria, o princípio geral de que pertecem ao proprietário do bem principal,
eventualmente obrigado a indenizar terceiros pelos gastos da produção (CC, arts. 1.214,
par. único e 1.216).
Produtos são as utilidades que se retiram de uma coisa, diminuindo-lhe a quantidade.
Diferem dos frutos pela ausência de periodiciclade e pela redução que provocam na
coisa principal. Enquanto os frutos nascem e renascem periodicamente, sem diminuição
da substância, os produtos levam à progressiva redução do bem principal, como, por
exemplo, os minérios, as pedras retiradas de uma pedreira. A diferença é importante em
matéria de usufruto, que só dá direito aos frutos (CC, art. 1.394). Apesar de ainda não
separados do bem principal, os frutos e produtos podem ser objeto de negócio jurídico
específico (CC, art. 95).
Benfeitorias são obras que se realizam na coisa para conservá-la, melhorá-la ou
embelezá-la. São necessárias as que têm por fim conservar a coisa ou evitar que se
deteriore, como as obras em um telhado ou nas tubulações de água. São úteis as que lhe
aumentam ou facilitam o uso, como a instalação de aparelhos. São voluptuárias as que a
tornam mais agradável, sem aumentar-lhe o uso habitual, como a instalação de uma
piscina (CC, art. 96).
A distinção das benfeitorias é importante na posse (CC, art. 1.219), na locação (CC, art.
578) e no exercício do direito de retenção (CPC, art. 744).
O valor das benfeitorias decorre dos melhoramentos trazidos à coisa. Se não foram
feitas pelo proprietário, este, como reivindicante, é obrigado a reembolsar o seu autor,
podendo optar entre o preço do custo e o valor atual (CC, art. 1.222).
Não são benfeitorias as acessões naturais que aumentam o valor da coisa, pois aquelas
pressupõem a intenção de melhorar o bem (CC, art. 97). Também não se consideram
benfeitorias a pintura em relação à tela, a escultura em relação à matéria-prima, a
escritura e qualquer trabalho gráfico em relação à matéria-prima que as recebe. Nesse
caso, o acessório, pelo seu valor, passa a constituir bem principal. Não é benfeitoria,
também, a construção de um edifício. É acessão física. Seus apartamentos são acessões,
não benfeitorias. Acessão é modo originário de adquirir a propriedade, pela
incorporação, ao objeto principal, de tudo quanto a ele adere, em volume ou valor. Por
derivação, chamam-se acessões tudo o que se incorpora naturalmente ou artificialmente
ao solo, como o aluvião, a avulsão, as construções, as plantações etc. (CC, art. 1.248).
Mas, tecnicamente, a acessão natural não pode criar bem acessório, por não ser o bem
incorporado uma coisa distinta.
As pertenças são coisas, móveis ou imóveis, que se destinam ao serviço ou ornamento
de outras. Dispõe o Código que são pertenças os bens que, não constituindo partes
integrantes, se destinam, de modo duradouro, ao uso, ao serviço ou ao aformoseamento
do outro (CC, art. 93).40 Caracterizam-se por sua destinação duradoura ou permanente
a serviço de outra coisa, tornando-a mais útil ou mais bonita, como ocorre, por exemplo,
com um jardim (pertença) em relação à casa (coisa principal). A relação de pertinência
mantém-se entre duas coisas, para viabilizar a função da coisa principal, não o interesse
imediato do respectivo dono, se bem que, ao final, seja este o beneficiado. Não são, por
isso, pertenças, os móveis da casa, os instrumentos de trabalho, os livros da
biblioteca.41
Entre as várias espécies podemos distinguir, em caráter meramente enunciativo, as
pertenças agrícolas, máquinas, tratores, instrumentos agrícolas, animais etc., utilizados
no preparo, plantio e colheita da produção; as urbanas, tudo o que se incorporar aos
edifícios residenciais, como os elevadores, as bombas de água, as instalações elétricas,
as estátuas, os espelhos, os tapetes; as industriais, máquinas e equipamentos utilizados
no funcionamento da indústria; as mobiliárias, como as molduras do quadros, as
garrafas para as bebidas; as navais e aeronáuticas, como os botes de salvamento, os
aparelhos e instrumentos náuticos.42
As pertenças são, assim, coisas acessórias que estão a serviço da finalidade econômica
de outras, mantendo sua individualidade e autonomia, tanto que podem ser objeto de
direito especial, de titular diverso do da coisa principal.43 Com esse sentido, o disposto
no art. 94 do Código Civil.
Distinguem-se as pertenças das partes integrantes. Estas são acessórios que se
incorporam a uma coisa composta, completando-a e tornando possível o seu uso, como,
por exemplo, as telhas, as portas, as janelas, os pavimentes de uma casa, o motor e as
rodas de um carro. Sem eles nem a casa nem o automóvel estão completos não servindo
para seu uso normal. As partes integrantes ligam-se materialmente à coisa principal,
embora mantendo sua identidade. Isso não ocorre com as pertenças, que permanecem
materialmente desvinculadas, autônomas. Sua relação é econômica ou jurídica, não
material.
18. Bens públicos e bens privados.
Bens públicos são os que pertencem às pessoas jurídicas tli-direito público interno (a
União, os Estados, o Distrito Federal, os Territórios, os Municípios, as autarquias e as
demais entidades públicas). Bens particulares são os outros, seja qual for a pessoa a que
pertencerem (CC, art. 98).
É matéria que classifica e regula os bens em relação à pessoas titulares, interessando ao
direito civil e ao direito administrativo.
Existem coisas que não pertencem a ninguém. São as rés nullius e as rés derelictae. Rés
nullius são as coisas que nunca pertenceram a alguém, podendo vir a pertencer pela
ocupação (CC, art. 1.2(i3. Rés derelictae são as coisas abandonadas, sem dono, não se
confundindo com as perdidas, que têm dono.44
Quanto à sua utilização, os bens públicos dizem-se de uso comum, de uso especial e
dominicais (CC, art. 99).
Bens públicos de uso comum são os suscetíveis de utilização por qualquer pessoa, na
forma da lei. São as coisas que a todos pertencem, por exemplo, os mares, rios, estradas,
praias, ruas, praças etc. Essa utilização pode ser gratuita ou paga (pedágio nas estradas,
ingresso nos museus) (CC, art. 103) e pode ser restringida e impedida (proibição de
tráfego, interdição de porto etc.). Especial referência deve fazer-se ao meio ambiente
(CF, art. 215) e aos bens culturais (CF, art. 216), hoje reconhecidos como importantes
bens públicos de uso comum.
Bens públicos de uso especial são os destinados ao serviço público, como os edifícios
ou terrenos destinados a serviço ou estabelecimento de administração federal, estadual,
territorial ou municipal, inclusive o de suas autarquias.
Bens dominicais são os que constituem o patrimônio das pessoas jurídicas de direito
público, como objeto de direito pessoal, ou real, de cada uma dessas entidades.
Compreendem móveis e imóveis, como terrenos de marinha,45 ilhas formadas nos
mares territoriais
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32 Orlando Gomes. Introdução ao Direito Civil, p. 206.
33 Francesco Ferrara. Trattato di diritto civile italiano, p. 797; Castan Tobenas, op.
cit., p. 546.
34 "A coisa substitui em lugar do preço, o preço substitui em lugar da coisa."
35 Cf. CC. arts. 1.753, § 1° e 2° e 1.425, §, 1°; Decreto-Lei 6.777 de 08.08.44, art. 1°.
36 Christian Atias, op. cit, 21.
37 San Thiago Dantas. Programa de Direito Civil. I.
38 Constituição Federal, art. 176; Código de Mineração, Dec.-Lei 227, de 28. 02. 67,
art. l*.
39 Teixeira de Freitas. Esboço, art. 376.
40 Código Civil italiano, art. 817.
41 Biondi, p. 194.
42 Biondi, pp. 201/204.
43 Larenz. Allgemeiner Teil dês Bürgerlichen Rechts, p. 254; Projeto de Código
Civil, art. 94.
44 Rés nullius ou coisa sem dono eram no direito romano, por exemplo, os animais
selvagens e as coisas capturadas do inimigo. Rés derelictae eram as coisas nec mancipi
abandonadas por seus proprietários.
45 "Terrenos de marinha" são os que se situam na faixa de terra banhada pelo mar,
lagoas ou rios, de 33 metros para dentro da terra, a partir da linha de preamar média.
Pertencem ao domínio da União e são regidos pelo Dec-Lei n2 9.760, de 5 de setembro
de 1946.
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ou nos rios navegáveis, terras de fronteira, terras devolutas;46 estradas de ferro,
instalações portuárias, arsenais, telégrafos, oficinas e fazendas nacionais, bens perdidos
pelos criminosos, bens vagos, quedas-d'água, jazidas de minério, títulos de dívida
pública etc. A matéria é regulada no art. 20 da Constituição do Brasil e, quanto aos
imóveis da União, no Decreto-Lei n- 9.760, de 5 de setembro de 1940. É possível a
utilização dos bens dominicais pelos particulares na forma da legislação estabelecida
pelo Poder Público.
Os bens públicos caracterizam-se por serem inalienáveis, salvo os dominicais (CC, art.
101), imprescritíveis (não sujeitos a usucapião), impenhoráveis e incomerciáveis. Não
se admite a usucapião de bens públicos (CF, art. 183, § 32, e 191, par. único) (CC, art.
102).
O uso comum dos bens públicos pode ser gratuito ou retribuído, conforme for
estabelecido legalmente pela entidade a cuja administração pertencerem (CC, art. 103)
19. Bens comerciáveis e bens incomerciáveis.
Comércio é circulação econômica. É troca de bens.
Bens comerciáveis [rés in commercio) são os suscetíveis de alienação. Bens
incomerciáveis [rés extra commercium) ou indisponíveis são os que não podem ser
apropriados nem alienados.
Há três espécies de bens incomerciáveis: a) os insuscetíveis de apropriação por
natureza; b) os legalmente inalienáveis; c) os inalienáveis por vontade humana.
São bens insuscetíveis de apropriação os que pertencem a todos, rés communnes
omnium, como o ar, a água corrente, a lu/. do sol.
São bens legalmente inalienáveis ou indisponíveis os que :\ lei proíbe de alienação,
como a herança de pessoa viva (CC], art. 426), os benefícios previdenciários,47 os bens
públicos (CC, art. 100), os bens das fundações, o capital que garante o pagamento tia
pensão alimentícia (CPC, art. 602, §§ l2 e 4*).
São bens inalienáveis por vontade humana aqueles tornados in disponíveis pela
manifestação de vontade pessoal a c|in' a lei m o nhece validade. São os bens gravados
com a cláusulas de inaliruahi lidade, temporária ou vitalícia, na forma prevista em lei.
lista ina lienabilidade é estabelecida em doação ou testamento (CC, arl. 1.911), ou
resulta ainda da instituição do bem de família (CC, ai t. 1.715).
O bem de família é o instituto que permite, mediante escritura pública, que o chefe de
família separe do seu patrimônio, com o fim de protegê-la, um prédio urbano ou rural de
valor ilimitado, observadas as disposições legais pertinentes, com a cláusula de não ser
executável por dívida, salvo decorrente de impostos, destinando-o ao domicílio da
família, enquanto viverem os cônjuges e até a maioridade dos filhos. Morrendo o
instituidor ou seu cônjuge, o prédio não entra em inventário.48 Está regulado nos arts.
1.711 a 1.722 do Código Civil.49 O exercício desse direito pelo chefe da família
pressupõe a inexistência de dívidas, no ato de instituição, cujo pagamento possa ser
prejudicado. O imóvel escolhido fica a salvo da execução por dívidas posteriores ao ato,
mas não pode se1 r alienado, ou ter outro destino, sem anuência dos interessados. A
respectiva escritura pública deverá registrar-se no competente registro geral de imóveis,
e publicar-se, pela imprensa, para completa e geral ciência.
20. O patrimônio. Conceito. Composição. Importância. Concepções teóricas.
Patrimônio, provavelmente de patris munium, é o complexo de relações jurídicas
economicamente apreciáveis de uma pessoa.50 Reúne os seus direitos e obrigações,
formando uma unidade jurídica, uma universalidade de direito. Apresenta três elementos
característicos: a unidade do conjunto de direito e de obrigações, sua natureza
pecuniária, e sua atribuição a um titular.51 Compreende os créditos e os débitos de uma
pessoa. No primeiro caso, temos o ativo, conjunto de direitos que formam o patrimônio
(direitos reais, direitos pessoais e direitos intelectuais), no segundo, temos o passivo, o
conjunto de obrigações (dívidas). Para a doutrina moderna, porém, o passivo não integra
o patrimônio; é apenas uma carga, um ônus sobre ele.52 Dele não participam os direitos
personalíssimos (vida, liberdade, honra etc.), os direitos de família puros, as ações de
estado e os direitos públicos que não têm valor econômico. Integram-no, ainda, as
expectativas de direito de valor econômico,53 variando o seu valor conforme a
possibilidade de realizar-se a condição. Não entram no patrimônio os objetos dos
direitos, as prestações, os bens. Entram, apenas, os respectivos direitos. É por isso que
os atos de disposição somente se referem a direitos. O patrimônio forma-se, na verdade,
apenas de direitos (CC, art. 91).
O nome comercial e o fundo de comércio integram o patrimônio porque são direitos. A
clientela, embora com valor, não o integra.54
Não fazem parte do patrimônio as qualidades ou aptidões de uma pessoa, como o seu
conhecimento técnico ou profissional.
Há, porém, patrimonialidade intermédia naquelas relações jurídicas que resultam da
lesão de direito personalíssimo e que exprimem o direito à respectiva indenização.55
A demonstração contábil do patrimônio, com indicação detalhada dos componentes do
ativo e do passivo, chama-se balanço, de grande importância no direito comercial e
tributário por demonstrar a posição financeira da pessoa em um determinado período.

A importância do patrimônio manifesta-se em dois aspectos: a) constitui a garantia dos


credores (CPC, art. 591), e b) fixa a universalidade, o conjunto de direitos de uma
pessoa no momento de sua morte, quando se transmite aos respectivos herdeiros (CC,
art. 1.784). Daí dizer-se que o patrimônio é a base sobre que se ergue o edifício das
sucessões.56
Quando o patrimônio da pessoa responde integralmente por suas obrigações, diz-se que
a responsabilidade dela é ilimitada (se bem que limitada às forças desse patrimônio). A
responsabilidade é limitada quando a lei permite a formação de um patrimônio especial
destinado a fim específico, como ocorre em algumas espécies de sociedades comerciais,
as sociedades limitadas (por cotas de responsabilidade limitada e por ações). No direito
civil, são casos de responsabilidade limitada a do herdeiro pelas dívidas da herança (CC,
arts. 1.792 e 1.997), e a do fiador, quando assim convencionado (CC, arts. 822 e 823).
Instrumento de limitação convencional é a cláusula penal (CC, art. 411) onde, na
verdade, o que se limita é a obrigação, não a responsabilidade.
O patrimônio tem ainda interesse teórico e prático, quer como conceito básico de
direito, como projeção da personalidade jurídica, e nesse aspecto se constitui numa das
categorias fundamentais do direito privado, quer como explicação para alguns institutos,
como aquisição da propriedade a título universal, a obrigação de reparar o dano fundada
no dever de restabelecer o patrimônio lesado, a obrigação decorrente do pagamento
indevido etc.
Duas teorias procuram caracterizar juridicamente o patrimônio.
Para a teoria clássica ou subjetiva, o patrimônio é uma universalidade de direito, um
conjunto unitário de bens e obrigações, que se apresenta como projeção e continuação
da personalidade individual. Sua marca dominante seria a vinculação subjetiva com a
personalidade, do que decorreriam os seguintes princípios: a) somente as pessoas,
naturais ou jurídicas, têm patrimônio; b) todas as pessoas são titulares de um
patrimônio; c) o patrimônio é intransmissível inter vivos', d) o patrimônio é unitário e
indivisível.
Tudo isso se conjuga para demonstrar que o patrimônio é a continuação da
personalidade, é sua projeção econômica, ou, até, atributo. Todos o têm, sendo
impossível transmiti-lo, totalmente, cm vida. O patrimônio é o total dos direitos da
pessoa, de valor econômico, mas não é objeto de direito. Não há direito de propriedade
sobre o patrimônio, se bem que ele seja o meio de que os credores dispõem para
realizarem seus créditos.57
O patrimônio diz-se unitário porque representa um conjunto de direitos titulados pela
mesma pessoa. Por ser unitário e por pertencer a uma só pessoa é que se considera como
uma universalidade de direito (universitas iuris) (CC, art. 91), um conjunto que
transcende os elementos que o formam, o que se contesta. Na verdade, só adquire o
caráter unitário com a morte do titular quando se transforma em herança. E é indivisível
porque não pode ser fracionado; a pessoa não pode ter vários patrimônios.
Para a teoria moderna ou realista, que critica o patrimônio como universalidade, o
patrimônio seria apenas ativo, deixando fora as dívidas. Também não seria unitário e
indivisível, mas formado de vários núcleos separados, conjuntos de bens destinados a
fins específicos. É a chamada teoria da afetação, exemplificada, na substituição
fideicomissária (CC, art. 1.951), na massa falimentar, nas garantias reais (penhor,
hipoteca, anticrese), na herança. Tais bens seriam vinculados a uma destinação para
garantia, transferência ou utilização, formando patrimônios afetados, isto é, destinados a
um fim, desfazendo-se a unidade e a indivisibilidade tradicionais. A situação particular
de tais patrimônios especiais decorreria, assim, dos fins que presidiram à sua formação,
só fazendo parte de tais acervos os direitos especificados em lei. Os outros formam o
patrimônio geral. A Medida Provisória n° 2.221, de 4 de setembro de 2001 altera a Lei
de Condomínio e Incorporações (Lei 4.591, de 16 de dezembro de 1964) para instituir o
patrimônio de afetação nas incorporações imobiliárias, separando o terreno e as
acessões objeto da incorporação imobiliária, do patrimônio do incorporador.
A conclusão a que se chega é que, enquanto a teoria clássica defende a tese de que uma
pessoa só tem um patrimônio, a teoria moderna admite a existência de várias massas
patrimoniais na esfera jurídica do mesmo titular.
Objeta-se, contudo, que a teoria da afetação não implica a superação da teoria
tradicional. Nada há que impeça destacaram-se determinados bens do patrimônio geral
para se afetarem a fim específico. Tais bens, entretanto, continuam no patrimônio geral
da pessoa. Em face disso pode-se reiterar que: 1) uma pessoa tem apenas um
patrimônio; 2) toda pessoa tem necessariamente um
patrimônio.
Como decorrência do conceito de patrimônio, os direitos subjetivos dizem-se
patrimoniais e extrapatrimoniais. Os primeiros são avaliáveis em dinheiro e
transmissíveis em sua generalidade, salvo os estabelecidos intuitu personae58 como os
de uso e habilitação. Os extrapatrimoniais são intransmissíveis e insuscetíveis de
transação, como ocorre nas questões relativas ao estado das pessoas, legitimidade do
matrimônio, pátrio poder, relações pessoais entre cônjuges, filiação, enfim, matéria
pertinente aos direitos personalíssimos, aos direitos familiares e às ações de estado. A
transferibilidade constitui, assim, o caráter normal dos direitos patrimoniais.
A transmissão do patrimônio só é total ou universal no caso de morte (pessoas naturais)
ou no de fusão ou incorporação (pessoas jurídicas), e é parcial, de alguns direitos
apenas, quando entre vivos.
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46 Terras devolutas, espécie de terras públicas, são as terras inicialmente pertencentes à
Coroa ou aos seus representantes no Brasil, terras essas que, com a proclamaçáo da
República, deveriam voltar ao patrimônio da União, mas que até hoje nele estão
registradas, não usando a União ou os Estados sobre eles o seu direito de propriedade.
Compreendem tanto as terras devolvidas ao domínio da União como as que se acham
vagas, não-ocupadas, por não terem sido dadas, ou não usadas pelo Poder Público. O
que as caracterizam é o fato de não serem utilizadas economicamente. Cf. Cretella
Júnior, Tomás Pará Filho, Telga de Araújo e T.H. Miranda Lima, in Enciclopédia
Saraiva de Direito, vol. 72, verbete Terras Devolutas.
47 Lei Orgânica da Previdência Social, Lei 3.807, de 26 de agosto de 1960, art, 59.
48 Caio Mário da Silva Pereira, p. 310.
49 Completam as disposições do Código Civil nessa matéria a Lei de Registros
Públicos, Lei 6.015, de 21.12.73, arts. 260 a 265, e a Lei 8.009, de 29.3.90, que dispõe
sobre a impenhorabilidade do bem de família, considerando como tal o imóvel
residencial do casal ou da entidade familiar (art. lº).
50 Clóvis Beviláqua. Código Civil Comentado, art. 57.
51 Castan Tobenas, p. 582.
52 Henri de Page. Traité élémentaire de droit civil belge, V, pp. 554 e 555.
53 Pontes de Miranda. Tratado, vol. 5, p. 136; Von Thur, p. 391.
54 João Eunápio Borges. Curso de Direito Comercial Terrestre, p. 195; Rubens
Ucquião, Curso de Direito Comercial, I, pp. 228 e 229.
55 Christian Atias, p. 42.
56 San Thiago Dantas, p. 242.
57 Caio Mário, p. 271. Von Thur. Teoria General dei Derecho Civil Aleman, I, p. 403.
58 Intuitu personae (Em caráter puramente pessoal).
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