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O GÉNIO FEMININO

A vida, a loucura, as palavras

Tomo I I
MELANIE KLEIN
R econhecer a importante contribuição de algu-
mas mulheres excepcionais que, com sua vida e
sua obra, marcaram a história do século X X é um
apelo à ultrapassagem de si. Pois ao tempo da mas-
sificação segue-se hoje a preocupação com a singu-
laridade.
0 génio feminino inscreve-se nesta perspectiva.
Depois de Hannah Arendt: a vida, e antes de Colette:
as palavras, eis aqui Melanie Klein: a loucura.
Adorada até as raias do fanatismo dogmático
por seus discípulos, difamada por seus detratores,
Melanie Klein (1882-1960) aparece como a inova-
dora mais original da psicanálise.
Enquanto Freud centra a vida psíquica do indi-
víduo no complexo de castração e na função de pai,
Melanie Klein — sem ignorá-las — assenta-a numa
função materna, ausente da teoria do fundador. E n -
tretanto, a mãe assim revelada está longe de se eri-
gir em objeto de culto, como pretendem com de-
masiada facilidade seus adversários.
Capaz desde o nascimento de uma ligação com
o objeto (o seio, a mãe), e povoada de fantasias tão
violentas e ao mesmo tempo tão reparadoras, a crian-
ça, segundo Melanie Klein, abriu novos horizontes
à clínica da psicose e do autismo.
Por ter entendido mais claramente do que qual-
quer pessoa a angústia, esta onda portadora do pra- ^)0^^ }fy>
zer, e por ter eleito a transferência e o imaginário
como territórios privilegiados da experiência analí-
tica, Melanie Klein fez da psicanálise uma arte de
cuidar da capacidade de pensar.
Julia Kristeva

O GÉNIO FEMININO
A vida, a loucura, as palavras

Hannah Arendt

MELANIE KLEIN

Colette

Tradução de
JOSÉ L A U R E N I O D E M E L O

Rio de Janeiro - 2002


Título original
L E GÉNIE FÉMININ
Tomo I I
MELANIE KLEIN

© Librairie Arthème Fayard, 2000

Direitos para a língua portuguesa reservados


com exclusividade para o Brasil à
E D I T O R A R O C C O LTDA.
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Tel.: 2507-2000 - Fax: 2507-2244
e-mail: rocco@rocco.com.br
www.rocco.com.br

Printed in Brazil/lmpresso no Brasil

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte.
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

K93g Kristeva, Julia, 1941-


v. 2 O génio feminino: a vida, a loucura, as palavras: Hannah
Arendt, Melanie Klein, Colette / Julia Kristeva; tradução de
José Laurenio de Melo. - Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
. - (Género Plural)

Tradução de: Le génie féminin, tome I I : Melanie Klein


Inclui bibliografia.
Conteúdo: t. 2. A loucura: Melanie Klein, ou o
matricídio como dor e como criatividade.
ISBN: 85-325-1455-3

1. Klein, Melanie, 1882-1960. 2. Mulheres psicanalistas


- Áustria - Biografia.
I. Título. I I . Título: A loucura. I I I . Título: Melanie
Klein. IV. Título: O matricídio como dor e como
criatividade. V. Série.

CDD-921.3
02-1162 C D U - 9 2 ( K L E I N , M.)
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

O séculú da psicanálise 13

TOMO II

A LOUCURA

Melanie Klein
Ou o matricídio como dor e como criatividade

Capítulo I
AMÍLIAS J U D I A S , HISTÓRIAS EUROPÉIAS:
U M A DEPRESSÃO E SUAS S E Q U E L A S

1. Libusi a 27
2. Judeu$ e católicos 30
3. Sandor Ferenczi 33
4. K a r l Abraham 36
5. Londr ÍS 39
Capítulo I I
A N A L I S A R OS F I L H O S :
DO ESCÂNDALO À TÉCNICA DO JOGO

1. O saber inconsciente (da criança) contra as Luzes


(dos pais) 49
2. Fabular com Erich/Fritz 52
3. Hans e (talvez) Melitta 56
4. Jogar? Interpretar 58
5. Palavras cruas, transferência negativa, descondensação
da fantasia 61

Capítulo I I I
PRIORIDADE E INTERIORIDADE DO OUTRO E DO
VÍNCULO: O BEBÉ N A S C E C O M SEUS OBJETOS

1. Narcisismo e objeto 73
2. Dentro/fora 76
3. A "posição esquizoparanóide":
clivagem e identificação projetiva 80
4. A posição depressiva: objeto total, espaço
psíquico, reparação 88

Capítulo I V
A ANGÚSTIA O U O DESEJO?
NO PRINCÍPIO E R A A PULSÃO D E M O R T E

1. Eros absorvido por Tanatos: devoração sádica


e ataque anal 101
2. Este desgosto que nos compõe a alma 107
3. Poder da inveja e aposta na gratidão 109
4. Petitsfours, kleine Frou, Frau Klein 111

Capítulo V
U M S U P E R E G O P R E C O C E E TIRÂNICO

1. Desde as primeiras fases do Édipo 119


2. Meninas e meninos não lhe escapam 121
3. A idealização persecutória e as "concretudes" 122
4. O caso Richard: a bondade contra Hitler-Ubu 124
5. Como não ser só? 130

Capítulo V I
: U L T O À M Ã E O U E L O G I O D O MATRICÍDIO?
OS PAIS

1. O seio sempre recomeçado 137


2. U m a fase feminina primária 141
3. Sexualidade feminina 143
4. ... e a sexualidade masculina 147
5. Os pais "combinados" ou acasalados 149
6. U m a Oréstia 152

Capítulo V I I
A FANTASIA COMO METÁFORA E N C A R N A D A

1. O representante antes da representação 163


2. Os "envelopes pré-narrativos" entre
angústia e linguagem 169
3. U m a atração feminina pelo arcaico? 174
Capítulo V I I I
IMANÊNCIA E G R A U S DO SIMBOLISMO

1. Das equações aos símbolos: Dick 185


2. A negatividade segundo Melanie Klein 195
3. O arcaico e o primário entre os pós-kleinianos 202
4. Sublimações culturais: arte e literatura 209

Capítulo I X
D A LÍNGUA E S T R A N G E I R A
À S R E D E S D E FIÉIS E I N F I É I S

1. U m a fundadora sem texto 223


2. M ã e e filha 232
3. Paz e guerra entre damas 236

Capítulo X
POLÍTICA D O K L E I N I S M O

í. Das Controvérsias aos Independentes 247


2. Inveja e gratidão de Lacan 258
3. A esquerda e as feministas se apoderam
da "tripeira inspirada" 262
4. A m ã e interior e a profundidade do pensamento 271

índice onomástico 283

índice das noções 289


Uma mulher de caráter com uma espécie de força
em patte oculta — como direi? — não a astúcia mas a sutileza,
a guma coisa atuando por baixo. Uma tração, uma torção,
como uma vaga sísmica: ameaçadora.
Uma senhora grisalha e ríspida,
de grandes olhos claros e imaginativos.

VIRGÍNIA WOOLF

Then, soul, live upon your servanfs loss, [...]


So shalt thoufeed on Death thatfeeds on men,
And, Death once dead, there's no more dying then.

(Vive, alma, pois, da ruína de teu servo, [...]


E a morte, que nos come, hás de comer.
Morta a morte, não mais se há de morrer.)

WILLIAM S H A K E S P E A R E , Sonetos, 146


[o
TOMO I I

A LOUCURA
Melanie Klein

ou o matricídio como dor e


como criatividade
INTRODUÇÃO
O S É C U L O D A PSICANÁLISE

Os homens são tão necessariamente loucos


que seria ser louco, por força de outro golpe
de loucura, não ser louco.
PASCAL

l í 25: " E l a é um pouco tanta, só isso. Mas n ã o h á nenhuma


dúvidí de que seu espírito transborda de coisas muito muito inte-
ressan es. E ela tem uma personalidade encantadora." A s s i m A l i x
Strach ly descreve Melanie K l e i n a seu marido, James Strachey,
que sc rá o célebre tradutor e editor de texto da Standard Edition
das 01 ras de Freud e u m dos animadores do famoso grupo londri-
no de Bloomsbury. 1 E m B e r l i m , as duas mulheres fazem análise
com í arl Abraham, ao mesmo tempo que d a n ç a m , de noite, nos
bares 'de esquerda" mais ou menos bem frequentados.
l í 57: Melanie K l e i n forjou para si, em três décadas, uma no-
toried; de mundial de m ã e fundadora da psicanálise das crianças
e, aincfa mais, de refundadora, depois de Freud, da psicanálise dos
adultol, notadamente a das psicoses. E l a escreve em Inveja e gra-
tidão:

Minha experiência clínica me ensinou que o seio nutridor repre-


senta para o bebé alguma coisa que possui tudo o que ele deseja; é
un ia fonte inesgotável de leite e de amor que ele reserva entretanto
paia sua própria satisfação: assim é o primeiro objeto a ser invejado
pe a criança. Este sentimento só faz intensificar seu ódio e sua reivin-
di( ação e perturba portanto a relação com a mãe. As formas excessi-
va ; que a inveja pode revestir denotam que os elementos paranóides
e dsquizóides são particularmente intensos; uma tal criança pode ser
co isiderada como doente. [...] [A inveja assumirá mais tarde] for-
mas em que não se prende unicamente ao seio, mas se vê deslocada
14 MELANIE KLEIN

para a mãe que recebe o pênis do pai, que carrega crianças em seu
ventre, as põe no mundo e as alimenta [...].
Tais ataques são dirigidos sobretudo contra a criatividade. A in-
veja é um lobo voraz, como escreveu Spenser em The Faerie Queene
[...]. Esta idéia teológica nos viria de santo Agostinho, que descreve
uma força criadora, a Vida, oposta por ele a uma força destrutiva, a
Inveja. Pode-se, nesta perspectiva, interpretar assim a Primeira Epís-
tola aos Coríntios: "O amor não poderia invejar."2

Melanie K l e i n é daqui para a frente uma figura marcante e u m


valor incontornável. Como a psicanálise que ela exerce com génio.

Grande aventura incorporada às práticas do dia-a-dia ou obscu-


ra e desconhecida, violentamente difamada por alguns, a descoberta
do inconsciente se apresenta ainda, na alvorada deste terceiro m i -
lénio, como u m enigma. U m século depois do seu aparecimento, 3
nem sempre nos compenetramos da revolução copernicana reali-
zada por Sigmund Freud (1856-1939) e seus discípulos. Herdeira
da religião e da filosofia tanto quanto da medicina e da psiquiatria
do fim do século X I X , a psicanálise desconstruiu-as e renovou-as a
todas ao impor a idéia de que a alma humana, tributária do corpo e
da linguagem, é n ã o somente cognoscível, mas que, lugar de dor
e sujeita à destruição, e até à morte, é sobretudo nosso espaço pri-
vilegiado de renascimento.
C o m a p a i x ã o própria dos exploradores do desconhecido, os
pioneiros desta descoberta mobilizaram em torno dela toda a sua
existência e forjaram em razão disso um novo tipo de conhecimen-
to, que desafia a racionalidade clássica, ampliando-a por levar em
conta o imaginário que sustém o liame entre dois seres falantes.
Se bem que muitos tivessem desconfiado e ainda desconfiem dela
(de Heidegger a Nabokov, para citar apenas os mais resolutos),
homens e mulheres entre os mais inventivos deste século — de
Virgínia Woolf a Georges Bataille, de A n d r é Breton a Jean-Paul
Sartre, de Romain Rolland a Gustave Mahler, de A n d r é Gide a
Émile Benveniste, de Charlie Chaplin e Alfred Hitchcock a Woody
A l l e n — lêem Freud, ou se estiram no divã analítico para com-
preender ou experimentar essa inovação da consciência de si, ao
mesmo tempo condição de uma nova liberdade e momento decisi-
vo da civilização.
O GÉNIO FEMININO 15

A s dissensões fratricidas e institucionais que acompanharam


e agitaram o movimento psicanalítico em seus inícios, e ao longo
de sua história secular, n ã o t ê m por causa unicamente a permeabi-
lidade dos terapeutas à loucura de que se ocupam, como insinuam
os maldizentes. N e m ao fato de que ao se opor às conveniências
civilizadas, a intensidade das pulsões e das palavras desempenha
muitas jaezes a função de verdade. Mas, de modo mais dramático, os
conflitos internos ao movimento analítico revelam, ampliando-os
como ao microscópio, a crueldade inerente a toda cultura humana
— vistè que só h á inovação nas fronteiras do impossível.
F o i realmente a d o e n ç a mental que Freud e seus " c ú m p l i c e s "
tomaram como estrada real para conhecer e tentar libertar a alma
humana. Muitos moralistas e escritores, principalmente france-
ses, j á tinham, a seu modo, aberto esse caminho ao revelar a lou-
cura no fundo da alma humana. N ã o tinham esses precursores de
Freud esboçado j á um pensamento radicalmente contrário à ex-
clusão m é d i c a e psiquiátrica dela na patologia? D e fato, que resta
da "loucura" para a polidez de um L a Rochefoucauld ao escrever
"Quem vive sem loucura n ã o é tão sábio assim", ou para o saber
infernal de um Rimbaud, que proclama " O infortúnio foi meu deus.
E u me deitei na lama. M e sequei no ar do crime. Preguei boas
peças na loucura"? N ã o cabe ignorar nem encarcerar; a loucura é
para ser dita, escrita, pensada: assombroso limite, interminável
estímul o da criatividade.
Esse aparente paradoxo está ainda e sempre no cerne da in-
compreensão e das resistências que a psicanálise suscita: como a
patologia poderia dizer a verdade? Ocupando-se da enfermidade
psíquica, analisando o mal-estar, a psicanálise descobre as lógicas
que fundamentam igualmente as experiências humanas ditas nor-
mais, ej pode especificar as condições a partir das quais essas l ó -
gicas sé fixam em sintomas. A teoria do inconsciente apaga assim
a fronteira entre o "normal" e o "patológico", e, sem renunciar a
curar, se oferece essencialmente e a cada um como uma viagem
ao fim p a noite íntima. U m certo vocabulário retomado à psiquia-
tria induz aqui em erro: se parte da loucura, a psicanálise n ã o o
estende a todo o mundo para tentar convencer de que somos to-
dos loc cos. A o contrário, ela se serve dele como de outros tantos
modele s ou estruturas que nos habitam em segredo e são portado-
res de íxcesso, de impasses, mas t a m b é m de inovações.
16 MELANIE KLEIN

Que a vida do espírito se enraíza na sexualidade, tal foi o prin-


cípio de Arquimedes que permite à psicanálise freudiana refazer
as fronteiras da normalidade e da patologia e iniciar um dos
desmantelamentos mais radicais da metafísica de que se orgulha
nosso século. A o mesmo tempo energia e sentido, biologia e co-
m u n i c a ç ã o com o outro, a sexualidade, segundo Freud, n ã o biolo-
giza a essência do homem, como chegaram a insinuar, mas, ao
contrário, inscreve de imediato a animalidade na cultura. Se a espé-
cie humana é capaz de simbolizar e sublimar, é porque é provida
de uma sexualidade em que se enreda indissoluvelmente o que foi
para a metafísica um dualismo: o corpo e o espírito, o instinto e a
linguagem. De fato, o desejo é desde o c o m e ç o energia e inten-
ção, e é observando os acidentes da sexualidade que o psicanalis-
ta assinala os contratempos dessa co-presença, que são a fonte do
mal-estar. Foram necessários a herança bíblica e todo o desenvol-
vimento libertário da cultura européia, desde o Renascimento e o
Iluminismo até à Belle É p o q u e do século X I X , para que a descul-
pabilização da sexualidade permitisse a um judeu de Viena fazer
dela u m objeto de conhecimento, e, mais ainda, o centro da vida
psíquica. Os espíritos libertários de todos os horizontes n ã o dei-
xaram de se reconhecer nessa subversão. Mas o alcance da desco-
berta freudiana opera em maior profundidade: nem libertinagem
nem p r o v o c a ç ã o , a sexualidade, segundo Freud, é essa articulação
a partir da qual a "essência do homem" se especifica como u m
desejo, indissoluvelmente energético e significativo, de sorte que
nele se imprimem a um só tempo o destino que nos limita e a sin-
gularidade que nos liberta: u m desejo no cruzamento da genética
e do subjetivo, do peso e da graça.
A alma, herdeira da antiga psique, torna-se então um "apare-
lho p s í q u i c o " cujas "tópicas" variam (inconsciente/pré-consciente/
consciente, depois id/ego/superego), mas atravessam infalivelmen-
te as diversas economias e figuras do desejo, sempre j á psicosso-
mático. Que esse desejo bifacial se decifra no discurso dirigido ao
Outro-analista, tal foi a aposta freudiana. Aposta cheia de otimis-
mo — mas n ã o poupada pela desilusão mais lúcida — que instituiu
o ouvido como órgão principal e a análise de texto como referência
judaico-cristã indispensável nesta aventura de longo curso.
A heterogeneidade carne/espírito entrançada, segundo Freud,
pela sexualidade só podia ser ouvida no discurso se se abrisse a
O GÊN O F E M I N I N O 17

superfí rie governada pela consciência e se se alargasse a brecha


de um£ outra lógica. O edifício inteiro do sujeito pensante, herda-
do da 1 istória da metafísica e lacrado pelo cogito de Descartes, se
viu ass m abalado. O inconsciente freudiano tornou-se essa "outra
cena", acessível através da consciência mas irredutível a ela, que
se ofer íce à escuta analítica. O inconsciente escapa ao irraciona-
lismo, >orque, longe de ser um caos invencível, possui uma estrutu-
ra, ain< a que diferente da da consciência. Contornando o segredo
psicold fico em que atuam a vergonha das famílias e a moral social,
ele me constitui sem meu conhecimento, numa profundidade in-
suspeit ível. E quando logro alcançá-lo, ele me desembaraça de
minhas inibições e me restitui minha liberdade. N ã o sou respon-
sável p or meu inconsciente, mas se n ã o respondo por ele, eu lhe
respondo... ao repensá-lo e recriá-lo.
A lexualidade inconsciente ilumina d a í por diante com uma
nova h tz a diferença tradicional entre os dois sexos, e não foi a
menor revelação da revolução psicanalítica acompanhar e estimu-
lar as r mtações modernas das relações entre os sexos. É na escuta
da histeria feminina que Freud afina seu ouvido para apreender a
lógica lo inconsciente. U m a galeria de "personagens" ou de "ca-
sos" fe mininos se entrega a ele para fundar a psicanálise: Anna
O., Em my von N . , L u c y R . , Katharina, Elisabeth von R . , sem es-
quecer Dora, a mais célebre, e tantas outras ainda, mais ou menos
conhec idas. Longe de atribuir esta sintomatologia exclusivamente
ao sex<) feminino, Freud promove escândalo ao descobrir a pista
das histerias masculinas: um modo, entre outros, de questionar a
clivagem tradicional homem/mulher. A psicanálise c o m e ç a por
reconh ícer a bissexualidade psíquica inerente a cada um dos dois
sexos l iologicamente constituídos, e revela para p ô r fim à singu-
laridade sexual própria de cada indivíduo. A s s i m , embora a maior
parte d is correntes analíticas afirme que a heterossexualidade em
que se ? unda a família é a única a assegurar a individuação subje-
tiva da s crianças, a psicanálise explora e reconhece de fato um
polimc rfismo sexual subjacente a toda identidade sexual, e se afir-
ma des de então como uma ética da e m a n c i p a ç ã o subjetiva.
Esse contexto intelectual favorece o acesso das mulheres à
prática da psicanálise e revela mais seus talentos do que o fazem
outras disciplinas mais ou menos sensíveis às vicissitudes sociais
e polít cas da época. Malgrado as resistências e hostilidades que
18 MELANIE KLEIN

muitas delas encontram num meio masculino, e sujeitando-se a l é m


disso à tradicional e rígida hierarquia médica, numerosas mulhe-
res participam da revolução psicanalítica em que sua contribuição
é logo reconhecida: L o u Andreas-Salomé, Sabina Spielrein, Karen
Horney, Helene Deutsch, Anna Freud, Joan Riviere, Susan Isaacs,
Paula Heimann, Jeanne Lampl-De Groot, Marie Bonaparte e so-
bretudo Melanie K l e i n — para citar aqui apenas algumas das con-
t e m p o r â n e a s de Freud.
Adorada até ao fanatismo d o g m á t i c o por seus discípulos, di-
famada por seus detratores, alguns dos quais n ã o hesitaram em
lhe recusar a condição de analista, Melanie K l e i n (1882-1960)
n ã o tarda a se impor como a inovadora mais original da psicaná-
lise, sem distinção de homens e mulheres. E l a soube de fato i m -
primir uma nova orientação à teoria e à clínica do inconsciente,
sem para tanto romper c o m os p r i n c í p i o s fundamentais do
freudismo (como o fizeram dissidentes como C G . Jung). Sua obra
clínica e teórica é menos um texto canónico do que o desenvolvi-
mento de uma poderosa intuição prática que, após dolorosas con-
trovérsias, suscitou os desdobramentos mais fecundos de que se
vangloria hoje a psicanálise moderna, em especial a britânica.
A clínica da infância, da psicose e do autismo, em que predo-
minam nomes como os de W . R . B i o n , D.W. Winnicott ou Frances
Tustin, seria inconcebível sem a inovação kleiniana. Veremos como
esta mulher — que foi uma esposa infeliz e uma m ã e deprimida,
que iniciou uma análise com Ferenczi, depois terminou-a com Abra-
ham, que n ã o era m é d i c a e n ã o possuía nenhum outro diploma —
concebeu em 1919 seu primeiro estudo sobre a psicanálise das
crianças pequenas baseando-se na análise de seus próprios filhos,
e tornou-se psicanalista em 1922, aos quarenta anos de idade. E l a
se instalou em Londres, em 1926, e conquistou uma notoriedade
fulgurante, consagrada pela publicação, em 1932, da coletânea A
psicanálise de crianças. A s divergências com Freud e as disputas
com Anna Freud, que culminaram nas Grandes Controvérsias da
Sociedade Britânica de Psicanálise, de 1941 a 1944, n ã o abalaram
nem sua determinação nem sua celebridade. A o contrário, a influên-
cia direta ou indireta de K l e i n n ã o parou de crescer no mundo des-
de sua morte, em particular na Inglaterra e na A m é r i c a Latina, mas
igualmente na França, tanto junto a psicanalistas clínicos quanto
junto a sociólogos e feministas.
O GÊNIÔ FEMININO 19

São conhecidas as linhas principais de suas divergências com


o pensai lento de Freud, que n ã o foram nunca consumadas sob a
forma de uma fratura, mas conduzidas como uma maneira de com-
pletar a eoria do inconsciente. O inconsciente freudiano é estru-
turado p rio desejo e o recalque; por sua vez, Melanie K l e i n insiste
na dor psíquica do recém-nascido, na clivagem e na capacidade
precoce de sublimação mais ou menos entravada. A pulsão freu-
diana tei ÍI uma fonte e um objetivo, mas n ã o um objeto; as pulsões
do recém-nascido kleiniano são desde logo dirigidas para o objeto
(o seio, i m ã e ) : o outro está sempre já-aí, e os dramas deste liame
precoce que se estabelece entre o objeto e um ego com seu su-
perego igualmente precoces, de um É d i p o precocíssimo, se de-
senrolar i com o horror e a sublimidade de um Jeronimus Bosch.
Freud c< ntra a vida psíquica do sujeito na experiência da castra-
ção e dí função do pai; sem ignorá-las, Melanie K l e i n escora-as
numa f i nção materna que faltava na teoria do pai fundador da
psicanál se, mas correndo o risco de reduzir o triângulo a uma
díade (s 5 bem que o casal esteja de imediato presente na teoria
sob a forma primária de um "objeto combinado"). Entretanto, a
m ã e ass m privilegiada está longe de se erigir em culto, como o
pretende m com demasiada facilidade os adversários. Porque o ma-
tricídio, que K l e i n foi a primeira a conceber, n ã o sem audácia,
está na origem, com a inveja e a gratidão, precisamente de nossa
capacidi ide de pensar. Freud inventa a psicanálise a partir do amor
de trans: érência, mas sem nunca teorizá-lo a fundo; K l e i n analisa
a transfí rência materna de seus jovens pacientes no analista-subs-
tituto da m ã e que ela é, e se p õ e à escuta das fantasias tais como
se manil è s t a m nos jogos, e tais como a contratransferência (posta
em evic ência por seus discípulos) as induz na própria analista.
Sonhos \ t linguagem em Freud — exibição da fantasia no jogo em
Melanie K l e i n : n ã o é somente a tenra idade de seus pacientes, os
quais aiada n ã o adquiriram a linguagem nem sofrem distúrbios da
fala, que comanda esta modificação técnica. A fantasia kleiniana
está no centro da análise, do lado do paciente como do lado do
analista; é mais heterogénea ainda que a fantasia freudiana consti-
tuída de elementos díspares, conscientes e inconscientes, e que o
fundado r da psicanálise tinha definido, por isso mesmo, como um
"sangue misto". Feito de pulsões, de sensações, de atos tanto quan-
to de pa avras, o phantasme (como grafam os kleinianos), tal como
20 MELANIE KLEIN

a criança, o representa mas t a m b é m tal como o adulto o relata no


divã, num discurso sem lastro de motricidade, é uma verdadeira
e n c a r n a ç ã o , uma metáfora carnal — Proust diria: uma transubs-
tanciação.
E s t a complexidade dos conceitos n ã o é específica só da fan-
tasia kleiniana. Veremos que todas as noções de nossa autora se
revelam ambíguas, desdobradas, e que operam segundo uma lógi-
c a mais circular que dialética. Fragilidade da teorizadora? O u ,
pelo contrário, pertinência da intuição analítica que, ao apreender
a regressão, n ã o tem mesmo necessidade de fazer uso da n o ç ã o de
"arcaico" para levá-la a agir enquanto repetição ou reduplicação,
ou ainda como sutil a m á l g a m a substância/sentido, que persistem
como índices importantes do inconsciente em nossos pensamen-
tos e em nossos comportamentos?
Quando se congela em escola, o pensamento kleiniano pre-
tende conhecer o inconsciente que ele simplifica muitas vezes
excessivamente; Melanie se tem na conta do inconsciente, insur-
gem-se seus detratores! Contudo, na trilha de suas descobertas,
seguindo a alquimia de seus "casos" e a génese de suas n o ç õ e s , o
leitor moderno de Melanie K l e i n constata com espanto uma aber-
tura permanente do inconsciente da analista com o inconsciente
de seus pacientes: este "at-one-menf\ inventado por W . R . B i o n ,
u m de seus sucessores mais originais, jogando com as palavras
inglesas "to be at one with", o mais perto possível da dor e à es-
preita da aptidão para simbolizá-la, para assim somente atravessá-
la e recriar essa fantasia contínua que chamamos uma vida.
Por ter entendido mais claramente que qualquer outra pessoa
a angústia, onda portadora do prazer, Melanie K l e i n fez da psica-
nálise uma arte de cuidar da capacidade de pensar. Atenta à p u l s ã o
de morte que Freud j á havia posto nos comandos da vida psíquica
desde Além do princípio do prazer (1920), K l e i n fez dela o agente
principal de nossas aflições, sem dúvida, mas sobretudo de nossa
capacidade de sermos criadores de símbolos. O recalque do prazer
cria a angústia e o sintoma, diz Freud em suma. E m que condições
as angústias que nos assolam se tornam simbolizáveis? É assim
que K l e i n reformula a problemática analítica, o que coloca sua
obra — certamente sem que ela disso se aperceba, j á que era aci-
ma de tudo uma corajosa clínica, de nenhum modo um "guia intelec-
tual" — no centro da humanidade e da crise moderna da cultura.
O GÉNIO FEMININO 21

Pon ue esta mulher, que se tornou chefe de escola, escondia


sob sua aparente segurança uma excepcional permeabilidade à
angústia} a dos outros e a sua. A coabitação com a angústia, sim-
bolizada! e por isso mesmo convivente, porque dominada pelo
pensamejnto, lhe deu o gosto e a força de n ã o recuar diante da psi-
cose, d e t r a t á - l a com mais atenção do que o fez Freud. Erasmo ti-
nha feitofjá u m Elogio da loucura (1511) para indicar à humanidade
renascer tista que a liberdade se revigora nas experiências-limite.
Quando Freud, desde A interpretação dos sonhos (1900), nos ensina
que nossos sonhos são nossa loucura privada, n ã o nega a doença,
mas faz è o m que a c o n h e ç a m o s melhor como sendo nossa "inquie-
tante estranheza", e a acompanha com dose igual de atenção e
benevolência. A o descobrir no recém-nascido um ego "esquizo-
paranóicje", ou ao constatar que a "posição depressiva" é indis-
pensável para adquirir a linguagem, Melanie K l e i n alarga nossa
familiaridade com a loucura e amplifica nosso conhecimento de
suas alquimias.
Atinjgida pela história dramática de nosso continente que cul-
minou lio delírio nazista, Melanie K l e i n n ã o se consagrou, po-
rém, aosj aspectos políticos dessa loucura que desfigurou o século
X X . M a i se ela se protege assim do horror social que a cerca, sua
análise c|a psicose privada, infantil ou adulta, nos permite melhor
precisar os mecanismos profundos que condicionam — ao lado
dos acasos e c o n ó m i c o s e partidários — a destruição do espaço
psíquico e o assassinato da vida do espírito que a m e a ç a m a era
moderna , A loucura terá sido a atualidade política escaldante do
século X X , e cumpre lembrar que a psicanálise foi sua contempo-
rânea. h | ã o porque participasse de n ã o se sabe que niilismo resul-
tante da secularização e tivesse produzido conjuntamente a morte
de Deus, os totalitarismos e a "liberação sexual"! Mas porque,
nesta desconstrução da metafísica que vivemos com mais ou me-
nos riscos e alegrias, a psicanálise nos conduziu ao cerne da psi-
que hun|ana para aí descobrir a loucura, que é ao mesmo tempo
seu motor e seu impasse. A obra de Melanie K l e i n é daquelas que
mais co: ítribuíram para o conhecimento de nosso ser à medida
que ele ( \ um mal-estar, sob seus diversos aspectos: esquizofrenia,
psicose, depressão, mania, autismo, atrasos e inibições, angústia
catastróf ica, fragmentação do eu, entre outros. E se n ã o nos fornece
chaves ijiágicas para evitá-lo, ela nos ajuda a lhe dar um acompa-
22 MELANIE KLEIN

nhamento ó t i m o e uma chance de m o d u l a ç ã o com vistas a u m


renascimento, talvez.
Já se entrevê, para além dos destinos específicos e das dissi-
militudes das obras, algumas constantes comuns nos génios res-
pectivos de Melanie K l e i n e Hannah Arendt: ambas se interessam
pelo objeto e pelo vínculo, se preocupam com a destruição do
pensamento (um " m a l " para Arendt, uma "psicose" para K l e i n ) e
rejeitam o raciocínio linear. Acrescentam-se a isso paralelos exis-
tenciais: egressas de meios judaicos laicizados, as duas intelectu-
ais se apropriam de maneira crítica e muito pessoal da filosofia
cristã, do espírito das Luzes e do saber moderno, para elaborar
uma liberdade de comportamento e de pensamento excepcional,
comparada com a existência das mulheres e dos homens de seu
tempo. Dissidentes de seus meios originários e profissionais, ex-
postas à hostilidade dos clãs normativos, mas capazes t a m b é m de
guerrear sem piedade para desenvolver e defender suas idéias ori-
ginais, Arendt e K l e i n são insubmissas cujo génio consistiu em se
atrever a pensar.
Tentemos seguir mais pacientemente a génese e a cristaliza-
ç ã o dessas particularidades que fizeram de Melanie K l e i n a re-
fundadora mais ousada da psicanálise moderna.

NOTAS

Cf. Perry Meisel e Walter Kendrick, Bloomsbury/Freud. James et Alix


Strachey, Correspondance, 1924-1925 (1985), trad. fr. P U F , 1990, p. 320.
Melanie Klein, Envie et gratitude et autres essais (1957), trad. fr. Gallimard,
coll. "Tel", 1968, pp. 21 e 47.
A palavra psycho-analyse é empregada pela primeira vez no artigo de Freud,
publicado em f r a n c ê s , " U h é r é d i t é et 1 ' é t i o l o g i e des n é v r o s e s " (1896),
Gesammelte Werke ( G W), Londres, Imago Publishing Company, 1940-1952
e Frankfurt, Fischer, 1960-1988, t. 1, pp. 407-422; Standard Edition {S E),
Londres, Hogarth Press, 1953-1974, t. I I I , pp. 141-156. Mas é A interpreta-
ção dos sonhos, publicado em 1900, depois dos Estudos sobre a histeria,
com Joseph Breuer, em 1885, que será considerado como o livro inaugural
da psicanálise.
I

FAMÍLIAS J U D I A S ,
HISTÓRIAS E U R O P E I A S :
U M A DEPRESSÃO E SUAS S E Q U E L A S
ibussa

nografia de Melanie Klein 1 nos revela, sem surpresa, que a


infância desta descobridora do "objeto-mãe" e do matricídio foi do-
minadá pela figura imponente de sua própria mãe, Libussa Deutsch.
Esta beleza morena, culta e inteligente, é oriunda de uma fa-
mília c|e rabinos da Eslováquia, eruditos e tolerantes. Estuda piano
e franctes, e seu irmão Hermann, futuro advogado bem-sucedido e
que desempenhará um papel importante na vida da família Reizes,
frequenta uma escola de jesuítas. Aos vinte e quatro anos Libussa
conhece Moriz Reizes em Viena e casa-se com ele. Judeu-polonês
de uma família estritamente ortodoxa da Galícia, vinte e quatro
anos mais velho do que ela, é médico clínico, bastante apagado, e
exercera profissão em Deutsch-Kreutz, modesta cidade húngara a
uma centena de quilómetros de Viena, onde o casal se instala.
Esta uiião desigual em razão da diferença de idade, de condição e
de cultjura — a família de Libussa, mais rica e culta que a de Mo-
riz, é tàmbém dominada por "um modelo de matriarcado"2 — não
parecei mesmo ter sido um casamento de amor.
E m sua breve Autobiografia, redigida entre 1953 e 1959 (não
publicada e de propriedade do Melanie Klein Trust), 3 a psicana-
lista a >resenta uma imagem fortemente modificada, até idealiza-
da, de sua vida. E l a se diz fascinada pela atmosfera erudita que
reinava no lar dos Deutsch, aprecia a independência de espírito
de seulpai, que soube se opor aos hassidim para empreender seus
MELANIE KLEIN

estudos de medicina, e admira-lhe o domínio de uma dezena de


línguas! Contudo, evoca a repulsa que lhe inspiravam os cafetãs
da irmã de seu pai, e não esconde o "desprezo" pelo iídiche fala-
do pelos judeus-eslovacos de sua família materna.
Libussa e Moriz terão três filhos, Emilie, Emanuel e Sidonie,
antes de se instalar em Viena, onde nasce Melanie, em 1882. Emilie,
a favorita do pai, será muito invejada pela caçula; Emanuel é o
génio da família, com o qual a futura analista será muito ligada;
Sidonie, a mais bonita e a preferida da mãe, morre de tuberculose
aos oito anos, quando Melanie tem apenas quatro:

Lembro-me de ter tido o sentimento de que minha mãe tinha muito


mais necessidade de mim agora que Sidonie não estava mais ali, e é
provável que uma parte de meus problemas decorresse desse dever
de substituir minha irmã.4

"Bela princesa judia", Melanie parece ter recebido muito amor


em sua infância, preferida do irmão de sua mãe e da própria Libussa
depois da morte de Sidonie.5 Por outro lado, afirma não ter com-
preendido o pai, em razão de sua idade avançada, mas também
sem dúvida em razão de sua medíocre posição social. Ele ocupa-
va, como médico de um music hall, um emprego que desprezava,
a exemplo de sua mulher, evidentemente insatisfeita. As dificul-
dades materiais dos Deutsch obrigaram Libussa a montar um ne-
gócio, coisa bastante estranha para a esposa de um médico. E l a
vendia plantas e répteis: nós nos lembraremos disto quando des-
cobrirmos a fantasia do corpo materno segundo Melanie Klein,
fervilhando de horríveis "maus objetos" penianos e anais! Tudo
isso não inibe em nada — pelo contrário — nossa heroína, que
diz não ter "jamais, em momento algum, sido tímida" 6 e se pre-
tende "devorada de ambição": 7 projeta estudos de medicina (como
seu pai) e, o que é mais curioso, deseja se especializar em psiquia-
tria — anseio um tanto raro para uma moça, judia ainda por cima!
Animada de verdadeiro fervor intelectual, faz do irmão um "ami-
go", um "confidente" e um "professor", e se abre a seu lado, para
grande orgulho do rapaz.
Se bem que assimilada e não tendo nunca sido sionista, Mela-
nie Klein se sente, com os seus, profundamente judia, e afirma ter
tido uma consciência aguda de sua marginalidade numa Viena ca-
O GÊblO FEMININO 29

tólica < ue não se priva de perseguir a minoria judia. Sua família


respeit i o cerimonial judeu — Melanie evoca a celebração da
Páscoa e do Grande Perdão, notando ao mesmo tempo que jamais
teria p< >dido viver em Israel. Muito significativamente, retém das
conver ;as de sua mãe a lembrança admirada de um estudante por
quem libussa teria sido apaixonada e que, em seu leito de morte,
havia c eclarado: " E u vou morrer em breve e repito que não creio
em nenhum deus."8 Por isso, afirmar, como se atrevem alguns,
que a f sicanálise teria tomado o lugar desse deus ausente, ao qual
Melani e se teria "convertido", a exemplo de tantos outros judeus
laicos, é muito injusto. Ao contrário, é acompanhando a catástrofe
do sem ido tal como ela se manifesta na experiência psicanalítica
que Mi danie Klein, com outros, soube assinalar os fundamentos
tanto dp niilismo quanto da crença, tanto da depressão quanto da
reparadão, para tentar desconstruir uma e outra.
Osi "poderosos harmónicos incestuosos"9 que ressoam no seio
da família Reizes se concentram sobretudo na relação Melanie/
Emanijel. Acometido de uma doença cardíaca em consequência
de uma escarlatina infantil, Emanuel se sabe condenado e, após
ter tenl ado estudos de medicina, matricula-se na faculdade de le-
tras pafa se dedicar à literatura e às viagens. Doente e endividado,
percone a Itália escrevendo para a mãe e a irmã, que lhe responde
em carias cheias de sentimentos amorosos e repletas de alusões
sexuais. É no quadro dessa relação desesperadamente gemelar,
em que irmão e irmã procuram um fervor muito além da amizade,
que se inscreve... o casamento de Melanie.
Ela tem dezessete anos quando conhece, em 1899, Arthur Ste-
ven K l ún, primo jovem de Libussa e amigo de Emanuel: tem vinte
e um ai tios e estuda química na prestigiosa Alta Escola Técnica de
Zurique Libussa vê nele um "bom partido", e até o "pretendente
mais vantajoso", e Emanuel mostra mais entusiasmo por Arthur
do que a própria Melanie: mais tarde ela atribuirá seu casamento
menos ao amor que ao ímpeto de seu "temperamento apaixonado".
No ano seguinte seu pai, Moriz Reizes, morre de pneumonia.
Sua "si milidade" era uma degenerescência devida provavelmente
à doenja de Alzheimer, da qual tinha sofrido durante anos. Por
sua veí, Emanuel desaparece em Gênes, vítima de uma crise car-
díaca, à l 2 de dezembro de 1902, a menos que se tenha "matado
aciden almente". 10
MELANIE KLEIN

Ainda mergulhada no luto de seu irmão, que a abala profunda-


mente, Melanie se casa em 31 de março de 1903, no dia seguinte
ao do seu vigésimo primeiro aniversário. A julgar por uma novela
bastante autobiográfica escrita mais tarde (por volta de 1913), ela
parece ter experimentado apenas repulsa pelo sexo. Uma rejeição
que estaria associada ao sentimento de trair a ligação incestuosa
com seu irmão Emanuel. " E preciso então que seja assim, que a
maternidade comece pela repugnância?" 11 — pergunta a si mes-
ma sua heroína, Anna.
Arthur, bem depressa infiel, ausenta-se em numerosas viagens
exigidas por suas atividades profissionais, e pouco a pouco se
afasta de Melanie. A jovem mulher dedica-se antes de tudo à pu-
blicação dos escritos de seu irmão e, em sua Autobiografia, ex-
pressa seus agradecimentos a Arthur por tê-la ajudado a... recuperar
os manuscritos de Emanuel! Muito embora considere que esse ca-
samento "fez [sua] infelicidade" e que o próprio Emanuel teria
duvidado que ela "cometesse um erro" ao casar-se com seu pri-
mo, Melanie permanece ligada à família do marido.

2. Judeus e católicos

Os Klein são judeus assimilados: o pai de Arthur, Jacob Klein,


que só frequenta a sinagoga pro forma, é diretor do banco local,
prefeito de Rosenberg (cidadezinha de oito mil habitantes então
situada na Hungria) e senador; Arthur foi aluno dos jesuítas, como
o tio materno de Melanie. É em Rosenberg que se instalam de
início os jovens recém-casados, antes que Melanie dê à luz, em
1904, após "desgostos e náuseas", seu primeiro rebento, Melitta,
que, infelizmente, não é um menino, como desejava... Libussa (!);
Hans nascerá em 1907 e Erich em 1914.
A existência da nova família Klein se desenrola toda sob a
autoridade de Libussa: mãe possessiva e abusiva, ela prodigaliza
por cartas seus conselhos antes de se instalar com o jovem casal,
exige suportes financeiros, quando não é conveniente acompanhá-
los numa viagem à Itália, julga a filha imatura e neurastênica e a
oprime com sua vigilância, até tomar o lugar de... "Mme Klein":
"Ela queria ter um lugar muito especial na vida de sua filha e pro-
O GÊNIP FEMININO 31

pôs um meio estranhamente tortuoso pelo qual Melanie poderia


comunii :ar-se com ela sem que Arthur lesse as cartas: simplesmen-
te endereçando-as a Mme K l e i n ! " 1 2 Nesse contexto, o próprio
Arthur se torna "muito difícil, sofre dos 'nervos' e do ventre... Os
distúrbios de Melanie não tardam a aparecer aos olhos de todos:
'instabilidade crescente', 'esgotamento depressivo e abatimento',
'depressão paralisante'". 13 Esse clima vai marcar particularmente
a pequetia Melitta: sua avó prefere Hans a ela, e imprime em seu
espírito a imagem de uma mãe "enferma emocional" que é preci-
so afastiar tanto quanto possível do marido, despachando-a para
clínicas e outras estações de cura ou vilegiaturas: "Libussa queria
que Me anie permanecesse afastada. Tentava provocar situações
em que marido e mulher se vissem um ao outro o menos possível.
[...] F i a iva furiosa ao pensar que Arthur poderia elaborar projetos
privados com sua mulher, e, de maneira sutil, dissuadia-o de lhe
escrever." 14
Me anie tenta uma primeira escapada para fora desse inferno:
as amizades femininas. Toma-se de afeição pela irmã de seu mari-
do, Jolan Klein-Vágó, cuja estabilidade e calorosa sensibilidade
ela adm ira, e por Klara Vágó (a irmã do marido de Jolan, Gyula).
Por outro lado, sente intensa inveja da plenitude afetiva e da li-
berdade! sexual — ao menos presumida — de sua irmã Emilie.
Reencontraremos esta paixão do feminino nas teorias ulteriores
da psicanalista, assim como em seus conflitos profissionais com
seus discípulos e adversários do sexo feminino.
As inquietações sentimentais cruzam-se, como é de esperar,
com as flúvidas espirituais e as crises religiosas. A admirada Jolan
se tornaj uma católica romana muito devota, à maneira da família
Vágó. Melanie vê muito, então, Klara Vágó, com quem teria tido
uma "aventura", segundo sua biógrafa que apresenta como prova
o terno jpoema consagrado a Klara em 1920. Durante sua infân-
cia, Melanie, a judia, é influenciada pelo catolicismo e confessa
ter tido um sentimento de culpa a este respeito, mas é lícito per-
guntar s e tal sentimento não é bem mais tardio. Alguns comenta-
dores gostam de descobrir analogias entre certos elementos da
teoria lleiniana e noções católicas, como o Pecado Original, a
Imacuh da Conceição ou a expiação. O fato é que, sob o impulso
de Arthur Klein, e com o consentimento de Melanie, a família
Klein se converte ao cristianismo e ingressa nas fileiras da Igreja
32 MELANIE KLEIN

Unitarista, mais fácil de aceitar porque nega o dogma da Trinda-


de. E todos os filhos recebem o batismo.
Mais tarde, e sob a ameaça das perseguições nazistas, Erich
Klein emigra para a Inglaterra, onde se torna Eric Clyne. Todas
essas ações defensivas não impedem Melanie Klein de continuar
muito atenta à sua origem judia e de escrever em sua Autobiografia:

Sempre achei abominável que certos judeus, sem levar em conta


seus princípios religiosos, se envergonhassem de sua origem judia,
e, cada vez que a questão se coloca, tive a satisfação de confirmar
minha origem judia, ainda que, por outro lado, deva anunciar que
não tenho nenhuma crença. [...] Quem sabe! Talvez isso me tenha
dado a força de estar sempre na posição de minoria em meu trabalho
científico e de não atribuir importância a isso, e de estar naturalmen-
te pronta a enfrentar uma maioria pela qual sentia algum desprezo,
temperado no momento oportuno pela tolerância. 15

O trabalho de Arthur requer que a família se mude, em 1910,


para Budapeste. Malgrado uma melhoria momentânea em 1912,
as relações do casal Klein não param de se deteriorar entre 1913 e
1914, ano do nascimento de Erich e da morte de Libussa. Dão
testemunho disso, além das cartas à mãe, os textos de ficção que
Melanie escreve entre 1913 e 1920 e que são uma outra tentativa
de escapar à depressão. Nesses trinta poemas, quatro relatos e
diversos esboços e fragmentos em prosa, 16 decifra-se sem dificul-
dade o desejo de uma vida plena de satisfações sexuais. O estilo é
influenciado pela poesia erótica expressionista, mas também pelo
"fluxo de consciência" à maneira de Arthur Schnitzler e James
Joyce: como a história de uma mulher que desperta de um coma
após uma tentativa de suicídio, e cujo modelo não seria outro se-
não a antiga amante de Emanuel! 17 Sentimentos hostis para com
Arthur vêm à luz, fundindo-se com o ódio inconsciente por Libussa.
No entanto Melanie se acautela, até em sua Autobiografia, contra
toda agressividade para com sua mãe e persiste em idealizar-lhe a
imagem:

Minha relação com minha mãe foi um dos grandes bens de mi-
nha vida. E u a amava profundamente, admirava sua beleza, seu inte-
lecto, seu profundo desejo de conhecimento, com, sem dúvida, um
pouco da inveja que existe em toda filha. 18
O GÊNI ) F E M I N I N O 33

Artl ur é naturalmente alvo de muito menos atenção: enquan-


to Mela lie conservou a quase totalidade das cartas de sua mãe e
de seu iímão, guardou só uma de seu marido. 19 E m 1919, Arthur
Klein p'< rte para a Suécia, onde ficará até 1937, casado de novo e
depois (ivorciado. Morrerá na Suíça, em 1939. 2 0 O casal Klein
tinha se livorciado em 1923 — a própria Melanie dá estranhamente
a data de 1922: seria isso para lançar um véu sobre sua vida pri-
vada e c esviar a atenção para os outros acontecimentos que apai-
xonam ( aí por diante sua existência?

3. Sfindor Ferenczi

Ela havia começado em 1913 uma análise com Sandor Ferenczi


em Budipeste, terceira e desta vez frutuosa tentativa de renascer!
E m 192), ela tem a coragem de sair de Budapeste e de Rosenberg,
deixando Melitta e Hans, para se instalar com Erich em Berlim,
não lonce da residência de Karl Abraham, com quem vai conti-
nuar sua análise.
Algiins anos mais tarde, a correspondência de Alix Strachey,
outra paciente de Karl Abraham, pinta-nos uma mulher transfor-
mada. Uma noite Melanie leva-a a um baile de máscaras organi-
zado pelos socialistas.21 A elegante inglesa do grupo extremamente
esnobe de Bloomsbury está pelo menos desconcertada: Melanie
dança "bomo um elefante",22 é uma "Cleópatra... terrivelmente
decotada",23 mas "decididamente muito simpática"; 24 uma outra
noite, njima representação de Cosifan tutte, na Ópera, Melanie a
importuna "falando pelos cotovelos" 25 durante todo o espetáculo!
"Simpkjs demais e à vontade demais para mim", 2 6 nota Alix, mas
é "encantadora, apesar disso". 27 Alix, desde o início dessa amiza-
de, recinhece ter ficado "realmente impressionada" 28 com sua
competência e seus conhecimentos, e aprecia sua criatividade psi-
canalítica.
Des embaraçada assim de sua família, Melanie frequenta... uma
escola c e dança, onde conhece um jornalista do Berliner Tageblatt,
Chezke Zvi Kloetzel. Ele é casado, parece-se com Emanuel... en-
tão ela ge apaixona à moda romântica e lhe dá em segredo o preno-
me de.., Hans, seu filho mais velho. O diário de bolso de Melanie,
34 MELANIE KLEIN

assim como suas cartas muito hesitantes e riscadas, testemunham


claramente essa paixão, e uma depressão profunda, trama do pano
de fundo dessa ligação. O namorado encara o idílio de maneira
mais superficial, e secamente, com uma palavra, participa à aman-
te a separação. 2 9 "Era uma mulher inteligente, capaz de perder a
cabeça", comenta sua biógrafa. 30 Ainda assim, Melanie exercia
sobre Kloetzel uma forte atração sexual, porque ele continuou a
lhe fazer visitas regulares quando ela se instalou em Londres a par-
tir de 1926. Não podendo encontrar trabalho na Inglaterra, Kloetzel
emigrou depois para a Palestina, onde se tornou editorialista do
Jerusalém Post. Melanie não voltaria a vê-lo. Ele morreu em 1952. 31
O momento decisivo desta primeira parte da vida de Melanie
Klein, que acabamos de delinear sucintamente, se situa durante a
crise conjugal de 1913-14, concluída com a morte de Libussa. E m
Budapeste, desde que lá se estabelece, Arthur Klein se acha em
contato profissional com o irmão de Sandor Ferenczi. Melanie,
sofrendo de uma depressão séria que ia ainda se agravar com a
morte de sua mãe, começa uma análise com Ferenczi, muito pro-
vavelmente em 1912, para continuá-la até 1919. Ela lê o texto de
Freud Uberdem Traum (1901) 3 2 em 1914, e se inicia progressiva-
mente na psicanálise nascente, num contexto de pioneiros livres e
apaixonados. Sandor Ferenczi (1873-1933) foi o mais eminente
analista da Hungria, e Freud considerou-o no princípio como "[s]eu
filho querido". Entre esses "primeiros cristãos das catacumbas",
no dizer de Radó, que foram os primeiros discípulos de Freud,
Ferenczi é um dos mais fervorosos e dos mais talentosos. Com
Jung, acompanha o fundador da psicanálise em sua viagem aos
Estados Unidos, em 1909, para iniciar o Novo Continente na des-
coberta freudiana. Ernest Jones (1879-1958) e Géza Roheim (1891-
1953) fizeram sua análise com ele.
Muito atento aos estados arcaicos e regressivos, muito inven-
tivo em sua escuta e sua técnica, Ferenczi promove uma análise
"ativa" que procede por proximidade intrusiva e sedutora com o
paciente, e que Freud será compelido a criticar severamente; Fe-
renczi o acusará, por sua vez, de não ter analisado a transferência.
Além de certos elementos de seu estilo, Melanie Klein tomará
emprestado a ele noções elaboradas em 1913, como a "fase de in-
trojeção" (que é, segundo Ferenczi, a da onipotência infantil) e a
"fase da projeção" (que é a da realidade). Mas se apropria delas
O GÉNIO FEMININO 35

com originalidade e modifica-as consideravelmente. Depois do


texto inaugural de Freud, "Análise de uma fobia em um menino
de cincolanos (o pequeno Hans)" (1909), 33 consagrado à análise de
uma criança, Ferenczi apresenta um aprofundamento deste novo ra-
mo da pacanálise em seu estudo "Um pequeno homem-galo" (1913):
a fobia do pequeno neurótico Arpad seria devida à reprovação da
masturbàção. Dois analisandos de Ferenczi, a polonesa Eugénie
Sokolnicjka, que trabalhará na França, e Melanie Klein, se dedica-
rão à psicanálise das crianças. 3 4 Numa carta a Freud de 26 de ju-
nho de Í919, Ferenczi anuncia já que "uma mulher, Mme Klein
(que não é médica), que recentemente realizou ótimas observa-
ções sohjre as crianças, depois de ter seguido meus ensinamentos
durante Vários anos", será a assistente de Anton von Freund, o rico
cervejeiio que financia generosamente a Sociedade Psicanalítica
e a casaleditora de Freud, o Verlag. 35
E mfcuaAutobiografia a própria Melanie pinta o quadro mais
esclarecedor de sua estréia na psicanálise sob a orientação de Fe-
renczi:

Djurante minha análise com Ferenczi, ele chamou minha atenção


para o dom real que eu tinha de compreender as crianças e para o
interesse que eu revelava por elas, e me incentivou sem restrições
emrtiinhaintenção de me dedicar à análise e em particular à análise
das crianças.
Eu tinha, é verdade, três crianças que eram as minhas, na época
[...]. Eu não achava [...] que a educação [...] fosse suficiente para
asseàurar uma compreensão total da personalidade, e consequente-
mente que exercesse toda a influência que se pudesse desejar que
tivesse. Eu tinha sempre a sensação de que, por trás, havia alguma
coisa sobre a qual eu não chegava a ter influência.36

O primeiro caso de análise de criança que Melanie Klein apre-


senta perante a Sociedade Húngara de Psicanálise, em 1919, e
que foi publicado no ano seguinte sob o título "Der Familienroman
in statu nascendr,31 lhe vale sua admissão como membro, e sem
supervisão. Ela expõe aí, sob o prenome de Fritz, a análise de seu
próprio ilho Erich, a quem observa desde a idade de três anos (o
que não era uma prática excepcional na época) — os dois outros
filhos te ido sido criados em grande parte por Libussa. Voltaremos
ao escâfdalo e aos inconvenientes e vantagens dessa observação
36 MELANIE KLEIN

que não nos privamos de comentar e pela qual Melanie Klein pas-
sará mais tarde em silêncio: "Meu primeiro paciente foi um garoto
de cinco anos. Me referi a ele com o nome de 'Fritz' em meus pri-
meiros artigos publicados." 38
Desde esta data, seus colegas constatam que o enfoque klei-
niano difere do de Hermine von Hug-Hellmuth, analista de crian-
ças bastante conhecida nesses primórdios da psicanálise, como
ela se distinguirá mais tarde da concepção de Anna Freud ao sepa-
rar a experiência analítica da influência educativa e parental. Um
ano antes, Melanie Klein tinha encontrado Freud no V Congresso
de Psicanálise, realizado na Academia de Ciências húngara nos
dias 28 e 29 de setembro de 1918. Livre, descontraído e inventivo,
este é o período feliz de breve esplendor desta sociedade; a própria
Melitta, com quinze anos então, é autorizada a assistir às sessões.
A Grande Guerra perturba a Europa e os destinos. Arthur é
mobilizado e retorna do front ferido na perna. O casal mantém
apenas uma fachada de vida conjugal. A derrota do Império Austro-
Húngaro e a queda do governo de Michael Karolyi acarretam o
estabelecimento, na Hungria, da ditadura do proletariado por Béla
Kun. Ao contrário dos stalinistas que declararão a psicanálise uma
ciência decadente, os companheiros de Béla Kun nomeiam Fe-
renczi professor de psicanálise na universidade! Mas quando eclo-
de a contra-revolução e ao terror vermelho sucede um terror branco
anti-semita, Roheim e Ferenczi são destituídos e ameaçados de
morte. O próprio Arthur Klein, não podendo mais exercer sua pro-
fissão, vai trabalhar na Suécia. E Melanie reencontra Karl Abraham
em Berlim.

4. Karl Abraham

Karl Abraham (1877-1925) é uma das maiores figuras da psi-


canálise nascente. É considerado, nessa época, sucessor de Freud,
o qual, porém, não aprecia seu caráter reservado. Abraham fun-
dou, em 1910, o Instituto da Sociedade Psicanalítica de Berlim.
Substitui Ferenczi como mentor de Melanie, que, aos trinta e oito
anos, começa justamente a dar mostras de uma rica criatividade,
até então refreada. A influência de Abraham, que havia desenvol-
vido mais intensamente do que Freud tanto a teoria das fases pré-
O GÉNIO FEMININO 37

genitais como a tese da pulsão de morte, 3 9 se deixa facilmente


adivinhar no percurso kleiniano. A s s i m , se K l e i n toma empresta-
do a Femnczi a idéia de que os tiques neuróticos seriam o substi-
tuto da n lasturbação — estabelecendo que é indispensável revelar
"as relações de objeto sobre as quais ele está alicerçado" — , refe-
re-se ela às relações sádico-anais, assinaladas por Abraham em
seu estudo do caráter anal. Desde então, no caso da pequena L i s a
(que seria sua própria filha, Melitta, segundo uma hipótese n ã o
confirnu da), ela constata que é a analista que torna a representar
o papel Ao objeto primário, e c o m e ç a a analisar n ã o só a transfe-
rência como a relação homossexual.
Seus filhos seriam suas "cobaias"? E r i c h disfarçado de Fritz,
Hans de Félix e Melitta de L i s a ? Melanie n ã o refina menos, junto
a Abrahí m , n ã o só sua aptidão para expor seus "casos", com mais
clareza c o que antes, mas t a m b é m as sutilezas da técnica de jogo.
Torna-se membro associado da Sociedade Psicanalítica de Berlim,
em 1922, depois membro efetivo em 1923.
Apr< senta uma c o m u n i c a ç ã o ao V I I Congresso de Psicanálise,
realizad< > em 1922, em B e r l i m , o último a que Freud assiste. Pro-
vavelmeite ausente quando da apresentação de Melanie, Freud
deve coi tudo ter recolhido disso algum eco, mas n ã o podia segu-
ramente apreciar a reformulação kleiniana do É d i p o , n ã o mais do
que sua déia de uma fixação anal precoce no lactente como etio-
logia daí inibições. No entanto, é o livro de Freud Além do princí-
pio do ptrazer (1920) que fundamenta e justifica as modificações
trazidas por K l e i n à teoria freudiana inicial: ela aceita mais de-
pressa de que os outros analistas a hipótese da existência de uma
pulsão de morte no bebé, em resposta ao medo de ser aniquilado
— contrariamente a Freud, que pensa que o lactente permanece
ignorando a morte. Mas, ao considerar a pulsão em termos mais
psicológicos que biológicos, ela acrescenta que a pulsão de morte
não se teima patente senão em sua relação com o objeto. Os escri-
tos de Abraham a encorajam nesta v i a , 4 0 e Melanie lhe rende ho-
menagem apoiada em sua Autobiografia:

A Graham, que tinha descoberto a primeira fase anal [...], esteve a


dois passos de conceber a noção de objetos internos. Seu trabalho
sobn as fantasias e pulsões orais vai mais longe do que o de F. Em-
bora ficasse muito aquém de minha própria contribuição [...]. E u
38 MELANIE KLEIN

diria que A . representa o elo entre minha obra pessoal e a de F.


[Minha análise] se encerrou quando Abraham ficou muito doente,
no verão de 1925, e morreu no Natal do mesmo ano, o que foi para
mim um grande pesar e o início de um período extremamente duro
de ultrapassar.41

A s audácias e as inovações de Melanie K l e i n n ã o tardaram a


encontrar o p o s i ç õ e s , e as primeiras se manifestaram quando
Abraham v i v i a . No Congresso de Salsburgo, em 1924, onde K l e i n
c o m e ç a a questionar a datação do complexo de É d i p o , a acentuar
o papel da m ã e no lugar do papel do pai na organização das neu-
roses, e a apresentar a sexualidade em termos de oralidade, fortes
objeções se levantam. E l a insiste t a m b é m em analisar, no mesmo
espírito, o caso Erna, "uma neurose obsessiva numa menina de
seis anos"; 4 2 forte disposição inata oral e sádico-anal, É d i p o pre-
coce, superego t a m b é m precoce e tirânico, homossexualidade.
Posta em contato por Abraham com Nelly Wollfheim, uma ana-
lista que tomava conta de uma creche em B e r l i m , K l e i n conhece-
ra lá a pequena Erna. Nelly Wollfheim, que serviu de secretária a
Melanie durante dois anos antes de se separar dela, foi a primeira
a ficar impressionada e chocada com seu talento e sua segurança:
n ã o projetava ela sobre seus pacientes seu próprio caráter devora-
dor, até sádico, que era seu melhor aliado para penetrar e se impor
num meio suspicaz e hostil?
Depois da morte de Abraham, os detratores se declaram aber-
tamente: despreza-se a ascendência polonesa de K l e i n em B e r l i m ,
sublinha-se sua carência de estudos universitários; ironiza-se: uma
mulher que se pretende mestra e, ainda por cima, analista de crian-
ças! O assassinato de Hermine von Hug-Hellmuth por seu sobri-
nho, que tinha sido seu paciente, reforça as oposições à psicanálise
das crianças. A s teses de Otto Rank sobre O traumatismo do nas-
cimento (1924) — a separação em relação ao útero como protótipo
da angústia — parecem próximas da posição kleiniana segundo a
qual a culpabilidade n ã o resulta somente da manifestação tardia
do triângulo edipiano, mas se inicia j á desde a fase oral na relação
ambivalente com o seio: os freudianos mais fiéis v ê e m nisso uma
perigosa dissidência.
O GÊN O FEMININO 39

5. Londres

A o contrário, Ernest Jones (1879-1958), avisado das qualida-


des de Melanie K l e i n por James Strachey, ele mesmo intrigado
com as cartas de A l i x , convida Melanie a fazer uma série de seis
conferências — em inglês! — sobre a psicanálise de crianças, em
julho de 1925. A l i x Strachey, que traduz as conferências, consi-
dera K l e i n "segura para a clínica, mas fraca de espírito para a
teoria", E m suma, a causa de Melanie K l e i n está longe de ser
compreendida, a l é m - M a n c h a , antes desta viagem! Sem falar de
seu soti ique terrível, apesar das lições de A l i x , e de seus chapéus
horrorosos: " A propósito, Melanie me mostrou o chapéu que aca-
ba de comprar para usar em Londres por ocasião de suas confe-
rências e na intenção de impressionar o auditório e, caramba, vai
impressionar com toda a certeza! É um troço imenso, volumoso,
amarelo-vivo, com um debrum muito largo e um verdadeiro bos-
que [... . O efeito é o de uma rosa-chá que tivesse crescido de-
mais, com u m coração vermelho (sua cara), e os psicanalistas v ã o
tremer." 43
Entretanto, seu desempenho afasta os temores e supera as ex-
pectatr as: Frau K l e i n , vestida sobriamente, e x p õ e sua análise das
criança ? — tema tão inglês! — por meio do jogo — técnica tão
sensíve e empírica! — e produz uma "impressão extraordinaria-
mente profunda; [ela] ganhou nossa mais alta estima ao mesmo
tempo )or sua personalidade e por seu trabalho", escreve Jones a
Freud, í m 17 de julho de 1925. A Sociedade Britânica de Psica-
nálise conta apenas com 27 associados, mas o interesse é tal que a
confere ncia é transferida para o salão de K a r i n e Adrian Stephen,
irmão de Virginia Woolf, em Gordon Square, 50. A s s i m , a entra-
da triunfal de Melanie em Londres se d á sob os auspícios do gru-
po de Bloomsbury. Logo em seguida Jones convida-a a passar um
ano na| Inglaterra para analisar seus filhos. Adeus, B e r l i m , Buda-
peste e Viena! V i v a Londres!
Melanie vai levar aí uma vida de n ó m a d e de luxo, mudando
frequentemente de domicílio. Acaba de ser inaugurada a Clínica
de Psicanálise de Londres no dia do aniversário de Freud, 6 de
maio de 1926. A j o v e m Sociedade Britânica de Psicanálise é di-
nâmica! livre, quase insolente em sua preocupação de se informar
para melhor inovar, impregnada de um velho pendor para a demo-
40 MELANIE KLEIN

cracia e de u m gosto vanguardista pelos indivíduos extravagantes,


pois que n ã o judeus... Seu fundador (em 1913) e diretor é Ernest
Jones, u m galês originário da classe média. Jones fez brilhantes
estudos de medicina e se apaixonou pelos primeiros trabalhos de
Freud: n ã o hesitou em aprender a l e m ã o para os ler. Depois, acu-
sado de ter empregado uma linguagem indecente com pacientes
muito jovens, exilou-se por algum tempo em Toronto, antes de
voltar a Londres para investir na psicanálise britânica e internacio-
nal. Apreciado por Freud como "gentil" — u m dos raros, senão o
ú n i c o , na rude é p o c a da cisão com Jung — , esse homem comple-
xo e muito diplomático i a tornar-se o biógrafo de Freud. U m tan-
to p u s i l â n i m e , apoia apesar de tudo as novidades de Melanie, n ã o
sem recuar diante de Freud e Anna, tentando contentar gregos e
troianos. A s relações entre Freud e ele assemelham-se a uma es-
pécie de "esgrima com floretes embotados", 44 mas é ainda ele que
instala K l e i n em Londres para que ela transmita seu saber analítico
à sra. Jones em pessoa, bem como aos dois pequenos Jones, Mervyn
e Gwenith (esta última morta tragicamente em 1928).
A fama de Melanie se espalha rapidamente, a tal ponto que
Ferenczi, em visita a Londres em 1927, comunica a Freud sua cons-
ternação por descobrir " a influência dominante" de Melanie sobre
o grupo inglês. A partir deste momento, a vida de Melanie K l e i n se
confunde inteiramente com o destino de sua obra: o conflito com
A n n a Freud, o rompimento com Melitta, sua filha, as fidelidades e
infidelidades de suas discípulas, e até as Grandes Controvérsias
com a Sociedade Britânica em plena Segunda Guerra Mundial,
tudo isso se inscreve no espírito da obra kleiniana e de sua re c e pç ã o
conflitual. A história do século t a m b é m . A e m i g r a ç ã o dos psica-
nalistas judeus para a Inglaterra ou os Estados Unidos e a difusão
internacional da psicanálise: tudo, para ela, tem lugar dentro e em
torno do trabalho microscópico e obstinado que realiza e que mo-
difica a talking cure freudiana. E ela se baterá com unhas e dentes
por seu vurk, como o denomina com um forte sotaque anglo-
g e r m â n i c o ("meu outro filho... o trabalho".) 4 5 E então a partir de
sua clínica e de sua teoria que a seguiremos daqui por diante, até
esse dia 22 de setembro de 1960 em que ela se extinguirá em L o n -
dres, vencida pela doença, pela velhice e a anemia aos setenta e
oito anos.
Sentindo que seu fim se aproximava, ela tentou se reconciliar
O GÊN O FEMININO 41

com a fé judaica, mandou chamar um rabino, mas, diante da com-


plexidade de que isso se revestia, desistiu de ir adiante, achando
que se tratava apenas de uma veleidade sentimental. A avó jovial
que adorava Diana, Hazel e sobretudo M i c h a e l , 4 6 os filhos de seu
filho E r i c e de Judy, n ã o aceitava mais jovens pacientes na análise
desde os anos 40, mas tinha sempre adultos em análise didática, e
continuava a supervisionar. Adorava passar as noites num concer-
to e no teatro. Embora alguns temessem sua gravidade e sua dure-
za até <>j fim, outros a idealizaram descrevendo-a como a mulher
"mais impressionante" 4 7 que haviam conhecido. N a cerimonia de
sua cremação, uma amiga recente e próxima, Rosalynd Tureck,
tocou com sobriedade o andante da Sonata em ré menor, de Bach.
Por ora guardemos a imagem que passa sua fiel exegeta, Hanna
Segal, a de uma Melanie no ato de andar: "Os ombros e a cabeça
se incli lavam ligeiramente para a frente enquanto ela avançava a
passo m i ú d o , como sob o efeito de uma extrema vigilância. A
cabeça pendia u m pouco para a frente. Penso agora que esta ma-
neira d( andar [...] era para uso profissional, que ela a empregava
na sala de espera e em seu gabinete. E r a assim que desejava en-
contrar as pessoas. Penso que ela n ã o era assim no exterior, onde
se man inha mais reta, sem essa espécie de postura atenta." 48
Me anie caminha inclinada para n ó s ; na verdade ainda n ã o
chegou

NOTAS

1. N ó s nos referimos a Phyllis Grosskurth, Melanie Klein, son monde et son


oeuvre (1986), trad. fr. P U F , 1989. Voltaremos a nos referir a essa obra de
fonr i abreviada: M K.
2. MK p. 18.
3. Ibid. pp. 14 sq.
4. Ibid. p. 30.
5. Ibid. p. 23.
6. Ibid. p. 30.
7. Ibid. p. 3 1 .
8. Ibid. p. 27.
9. Ibid. p. 36.
10. Ibid. p. 58.
42 MELANIE KLEIN

11. Ibid., p. 6 1 .
12. Ibid., p. 72.
13. Ibid., pp. 71-72.
14. Ibid., p. 74.
15. Ibid., pp. 116-117; grifos nossos.
16. Ibid., p. 93.
17. Ibid., pp. 93-97.
18. Ibid., p. 98.
19. Ibid., p. 15.
20. Ibid., p. 154.
21. C f . Perry Meisel e Walter Kendrick, Bloomsbury/Freud. James et A l i x
Strache..., op. cit., p. 219.
22. Ibid.
23. Ibid., p. 220.
24. Ibid., p. 221.
25. Ibid., p. 337.
26. Ibid., p. 240.
27. Ibid., p. 337.
28. Ibid., p. 205.
29. M K, p. 197.
30. Ibid., p. 199.
31. Ibid., pp. 264 e 507.
32. G W, t. I I e I I I , pp. 643-700; S E, t. V, pp. 629-686, trad. fr. Le Rêve et son
interprétation, Gallimard, 1925.
33. Cf. G W, t. V I I , pp. 243-377; S E , t. X , pp. 1-147, trad. fr. CinqPsychanalyses,
P U F , 1954, pp. 93-128.
34. E u g é n i e Sokolnicka publica o caso de um rapazinho de Minsk no Interna-
tionale Zeitschrift fiir Psychoanalyse, em 1920, ao mesmo tempo que o es-
tudo de Melanie Klein apresentado em julho de 1919 à Sociedade Húngara
de Psicanálise. Cf. Julia Kristeva, "Psychanalyser au féminin. De quelques
contributions à la théorie psychanalytique", c o m u n i c a ç ã o ao c o l ó q u i o "1896-
1996: 100 ans de psychanalyse" da A s s o c i a ç ã o Internacional de História da
Psicanálise, 25-26-27 de julho de 1996, pp. 7 sq. (no prelo).
35. MK, p. 106.
36. Ibid., p. 104.
37. Cf. sua trad. fr. a partir da versão de 1921 na primeira coletânea de Melanie
Klein, Essais de psychanalyse (1912-1945), Payot, 1967, " L e d é v e l o p p e -
ment d'un enfant", pp. 29-89.
38. Cf. seu estudo " L a technique de jeu psychanalytique: son histoire et sa portée"
(1955), em Melanie Klein, Le Transferi et autres écrits, P U F , 1995, p. 26.
39. K a r l Abraham, Oeuvres completes, t . l : Rêve et Mythe (1907-1914); t. 2:
Développement de la libido (1913-1925), trad. fr. Payot, 1965, reed. bolso,
1977.
40. Cf. K a r l Abraham, "Une courte histoire de la libido, e n v i s a g é e à la lumière
des troubles mentaux" (1924), em Oeuvres completes, op. cit., t. 2, pp. 255-
297: o autor estabelece aí semelhanças entre neurose obsessiva e psicose
O GÊN [O F E M I N I N O 43

mau íaco-depressiva, que seriam uma reprodução da "perda do objeto" na


fase anal (as fezes), e de seu equivalente no insconsciente que é a "expulsão
do 4bjeto".
4 1 . Cf. PIK, p. 149.
42. Cf '.a Psychanalyse des enfants (1932), trad. fr. P U F , 1959, cap. I I I , pp.
47-i 9.
43. Cf. i carta de Alix Strachey a James Strachey, de 12 de junho de 1925, em
Pern Meisel e Walter Kendrick, Bloomsbuty/Freud. James et Alix Strachey...,
op. :it., p. 320.
44. M J ',p. 206.
45. Ibit , p. 368.
46. Mi( hael Clyne, que foi analisado por Marion Milner e que se tomou um
brilhante cientista, deu à sua filha o prenome Melanie. Melanie Clyne é
bisi eta de Melanie Klein.
47. Cf. Richard Wollheim, Melanie Klein, The Spectator, 30 de setembro de
196 ), p. 469, citado por James Sayers, Les Mères de la psychanalyse, P U F ,
19< 5, p. 282.
48. C e l íbração do centenário de Melanie Klein, Tavistock Clinic, 17 de julho
de 982, citado em M K, p. 472.
Fig. 4
No fim da vida
(© Camera Press/Imapress)
II

ANALISAR OS FILHOS:
D O ESCÂNDALO
À TÉCNICA D O JOGO
B e m antes de Freud, Wordsworth (1770-1850) tinha escrito
que "o menino é o pai do homem". 1 Sob o signo do Menino Jesus e
das Cotwissões de santo Agostinho, dois modelos da infância dispu-
tam o imaginário i n g l ê s : 2 de u m lado, John Locke, com Thoughts
Conceràing Education (1793), e J . - J . Rousseau, com Emile (1762)
ou o mito purificado da inocência infantil; do outro, a convicção de
inspiradão calvinista 3 segundo a qual a criança possui uma nature-
za perversa, herdada do Pecado Original, que justifica a severidade
muitas vezes cruel dos m é t o d o s educativos (flagelações, privações,
ameaçafe).
Os estudiosos e t a m b é m os romancistas p õ e m a criança no
centro do vínculo social e das magias da arte. A s s i m , em pleno
século X I X , o escritor Charles Kingsley, em Anton Locke, demons-
tra de maneira impressionante a tese puritana. Seu romance apre-
senta os esforços educacionais de uma m ã e convencida da natureza
diabóliáa de seu filho até a " c o n v e r s ã o " dele aos valores cristãos:
privações de comida e sessões regulares de chicotadas lhe ensinam
a moderar suas paixões. Esta visão rígida fundamenta a ferocida-
de das tentativas de moralização das crianças das classes popula-
res peldís filantropos do século X I X . O livro cultuado da burguesia
triunfalite, Tom Brown's School Days (1857), de Thomas Hughes,
narra a transformação da public school de Rugby por Thomas
Arnold e descreve a metamorfose de rapazinho tímido em "the
bad ofs chool", acostumado às virtudes do "muscular Christianity".
Pai alelamente, numerosos modelos educativos pregam uma
48 MELANIE KLEIN

vida em comunidade fundada na igualdade de todos os seres hu-


manos: a utopia de T o m á s Moro, as tentativas de Digger no mo-
mento da revolução, as experiências de Owen e, no século X X , a
de A . S . N e i l l (Summerhill). Os livros sobre a educação dos rapa-
zes, mas t a m b é m das m o ç a s , abundam desde o século X V I I I , e
entre os pedagogos mais importantes, citemos Catherine Macaulay
(1790), Mary Wollstonecraft (1792), Maria Edgewoorth (1798) e
Hannah More (1799).
No romance social do século X I X , a infância se torna na Ingla-
terra a cortina de lágrimas que reflete a miséria do mundo: visão
prefigurando a dos românticos que vão realizar a sagração da crian-
ç a e fazer dela o antepassado do homem, para o melhor e para o
pior. Dickens descreve sua própria infância miserável. L e w i s Car-
roll cria em Alice no país das maravilhas uma infância mítica tecida
com seus devaneios poéticos e suas pulsões secretas. Peter Pan,
herói fictício, cuja estátua bem real se levanta em Londres, é u m
mito incrivelmente popular que celebra a infância ao mesmo tem-
po interdita e lamentada. E até o moderno W i l l i a m Golding (1914),
em Lord ofthe Flies (1954), que o p õ e de modo paródico o desen-
cadear da cruel perversidade das crianças à sua inventividade se-
dutora na série La Bande des cinq, onde elas criam uma sociedade
paralela cheia de inteligência e simpática comicidade... A criança
parece ser o objeto de desejo por excelência do imaginário inglês,
que se qualificaria com muito gosto de pedófilo se o termo pudes-
se ainda se adornar de uma certa inocência puritana.
N u m plano mais pragmático, e para apoiar o impulso da psi-
cologia e da psicanálise das crianças na Inglaterra depois da Se-
gunda Guerra Mundial (de B o w l b y a Winnicott), Juliet M i t c h e l l 4
nota que, de u m lado, a independência concedida às crianças e às
mulheres em consequência da mobilização geral no esforço de
guerra fomentou impulsos emancipadores que só deviam se reali-
zar nos anos 60; e que, de outro lado, o retorno à paz encerrou, ao
menos por algum tempo, a célula familial inglesa num nicho mo-
ral. De fato, essas duas tendências contraditórias favoreceram a
focalização da atenção na criança. 5
Teria a Inglaterra, sem se dar conta disso, preparado o caminho
para Freud e, mais particularmente, para a psicanálise das crian-
ças, que nos convida a reencontrar a criança em nós para fazer
face à dor de ser? Esperando que o consumo e o marketing globa-
O GÊN O FEMININO 49

lizados ponham a criança-cliente no centro de uma humanidade


gerida >ela técnica, mas na realidade devolvida às suas necessida-
des de jatisfação mais primárias..
Q u írerá isto dizer que a própria necessidade, e n ã o um acaso
qualquer, destinava Melanie K l e i n a desabrochar seu talento na
Inglatei ra de preferência a qualquer outro lugar? E l a declara, em
todo c ^ o , que a Inglaterra é sua "segunda terra natal", 6 e seus ín-
timos o Dservam como ela ficou "cheia de vida" desde que se esta-
beleceu em Londres. 7 D e fato, embora os textos que abordaremos
neste a ipítulo datem de seu período continental, de Budapeste e
Berlim^ foi j á em Londres que Melanie K l e i n p ô d e lhes dar seu
sentido profundo, p ô d e imprimir-lhes um desenvolvimento clínico
e teóricD partilhável, e portanto um verdadeiro destino. Esforçan-
do-se ]jor fundamentar a psicanálise da infância inaugurada por
Freud im seu estudo sobre o pequeno Hans, 8 e antes do áspero
debate (pie a oporá mais tarde a A n n a Freud, ela publica, em 1932,
sua c o l í t â n e a A psicanálise de crianças,9 onde e x p õ e vinte curas
analíticas: quatro crianças de dois anos e nove meses a quatro anos
e três njeses (período edipiano); cinco crianças com idades de cin-
co e seis anos (período pós-edipiano); cinco crianças entre sete e
nove anos (período de latência); quatro crianças de doze a catorze
anos de idade (puberdade), e dois adultos em cura c l á s s i c a . 1 0

1. <P saber inconsciente (da criança)


áontra as Luzes (dos pais)

De$de sua primeira comunicação, " O desenvolvimento de uma


criançan ( 1 9 2 1 ) , 1 1 a analista opera uma virada, uma reviravolta,
sem dúvida j á interna ao pensamento freudiano, mas que ela apro-
funda com cuidado. Tendo c o m e ç a d o por afirmar que o recalque
imposto pela educação reprime a sexualidade infantil e ocasiona
a inibição do pensamento, ela recomenda uma participação da
psicaná ise na educação de todas as crianças, a c o m e ç a r pelas mais
jovens, e até daquelas que n ã o apresentam aparentemente nenhum
probleijia de comportamento ou de pensamento. Este postulado
educati to é patentemente inspirado nas Luzes, e a autora n ã o dei-
x a de si blinhá-lo ao lembrar que a autoridade dos pais tem tendên-
cia a s( apoiar na autoridade de Deus, cuja existência se revela
50 MELANIE KLEIN

dificilmente demonstrável, e que por força de imbróglios lógicos


agravados pelos inevitáveis desacordos religiosos entre os dois
pais, esta atitude produz uma confusão no espírito da criança, e
até u m retardamento mental. Felizmente, a psicanalista consciente
de que é K l e i n (e que, maravilhoso acaso, mora muito perto dos
pais de Fritz para poder segui-lo como se... fosse sua própria m ã e ,
ela mesma atéia!) tem a coragem de associar a curiosidade meta-
física relativa à existência de Deus à curiosidade sexual que a crian-
ça sente tanto quanto reprime. Elimina assim o embaraço da criança
e, poupando aos pais suas disputas ideológicas, alivia a autoridade
e permite ao pensamento do descendente deles se desenvolver.
A t é a í nada que n ã o seja classicamente freudiano!
O pequeno Fritz (trata-se na realidade, n ã o nos e s q u e ç a m o s ,
do próprio filho de K l e i n , E r i c h ) c o m e ç o u a falar tarde, exprime-
se com dificuldade e se concentra em repetições; em resumo, pa-
rece "lento" e até "atrasado" para seus quatro anos. É então que
sua m ã e , ajudada pela analista (ou vice-versa?), lhe p r o p õ e algu-
mas explicações sobre a não-existência de Papai Noel, bem como
sobre a origem dos nascimentos. Fritz c o m e ç a a fazer perguntas,
interroga o mundo, interessa-se pelas fezes e pela urina, desenvol-
ve u m senso da realidade. Estagna às vezes, e até regride quando a
m ã e ou a analista, estressadas, suspendem suas interpretações. M a s
ele consegue finalmente superar sua crença na onipotência de seu
pensamento infantil, exprime cada vez melhor seus desejos e, para
concluir, manifesta uma inteligência perfeitamente satisfatória.
Entretanto, sem esperar a segunda parte de seu trabalho que
modificará essa visão otimista, "século X V I I I " , da vida psíquica
infantil, 1 2 desde a quarta página de seu estudo, Melanie K l e i n ante-
cipa que a interpretação, que tem por efeito salutar erodir a auto-
ridade de Deus como t a m b é m a dos próprios pais e liberar assim
o pensamento da criança, n ã o se confunde de maneira alguma
com um simples efeito de educação, de sexual enlightenment ou
de Aufklàrung. Porque o recalque de que Fritz sofre é mais pro-
fundo que o recalque secundário imposto pela educação mora-
lizante: de fato, "um certo sofrimento" [de Fritz], uma recusa a
aceitar (contra a qual lutava seu desejo de verdade) foi o fator de-
terminante entre as razões que o levavam a repetir sem cessar". 1 3
A l i v i a r a autoridade religiosa ou moral n ã o basta; aliás, na famí-
lia de Fritz, ela n ã o é verdadeiramente pesada (graças ao desacor-
O GÊNI< FEMININO 51

do entre (d pais, j á o vimos). C o m efeito, a inibição de Fritz n ã o é


produto ie uma pressão educativa exterior, mas se enraíza num
universo mental que j á está lá; é a expressão de um saber incons-
ciente es ruturado pela força dos desejos, de um lado, e pelo po-
der do
recaalque e da interdição do incesto,1 4do outro. E m suma,
existe un "tendência inata ao recalque"; mas Melanie K l e i n
esboça desde logo uma espécie de clivagem entre a "forte curiosi-
dade sexual " de Fritz e seu "recalque" feroz. Resulta d a í que a
sexualidade é conotada, para Fritz, de uma insuperável repugnân-
cia. O nienino, que jamais foi reprimido ou a m e a ç a d o em seus
jogos se: mais por pais bem-informados, resiste ainda assim a to-
15
dos os e$clarecimentos, "recusa-se simplesmente a r e c e b ê - l o s " .

A rejeição e o desmentido dos fatos sexuais primitivos [...] põem


o recalque em ação por clivagem. 16

Des( e então, impõe-se uma hipótese que se torna uma certe-


za para 1 dein. O inconsciente da criança nos coloca diante de um
outro> saber, , saber enigmático próprio da fantasia e que se m a n t é m
rebelde ao "esclarecimento", que n ã o quer conhecer o mundo real
no sentic ( da aprendizagem e da adaptação à realidade. U m saber
que resiste ao conhecimento. Este saber inconsciente é filogeneti-
cament constituído e inato: trata-se do complexo de castração
"que ^lamente se desenvolveu, em parte pelo menos, a partir do
17
compllexo de É d i p o " ; ele adere ao enigma da interdição do i n -
cesto e, \ leste sentido, está carregado de desejo e de interdição,
A analista tem a convicção de se encontrar, em face do incons-
ciente :z, diante do próprio recalque origináriol D a í por diante
será preciso n ã o somente respeitar esse saber inconsciente que se
opõe a n )ssos princípios esclarecidos, mas a c o m p a n h á - l o , ajudá-
lo a se f( irmular, porque é só assim que ele poderá se perlaborar.
Para se dar uma chance — mesmo assim — de conhecer a exis-
tência graças a u m longo processo que n ã o é mais uma adaptação
(como qjerem os pais), mas uma negociação entre fantasia e rea-
lidade. Este será o caminho da psicanálise kleiniana. Seus parâ-
metros são estabelecidos desde o primeiro texto de Melanie: o
excesso < l epulsão,
i o poder da interdição inconsciente, a clivagem,
o lento rfcuo da fantasia que cede lugar a um conhecimento nun-
ca definiti i vãmente alcançado da realidade, a natureza imaginária
52 MELANIE KLEIN

do eu confrontado de imediato com objetos interiorizados, feroz-


mente desejados e ferozmente interditos... Parece que o génio se
reconhece em seus primeiros passos. É o caso de Melanie.

2. Fabular com Erich/Fritz

Este insight materno-analítico (encorajado, é verdade, e Mela-


nie o reconhece, pelos conselhos de Anton von Freund, que reco-
menda à estreante interpretar não apenas o subentendido consciente,
mas t a m b é m o material inconsciente profundo) leva K l e i n a alargar
suas interpretações. E l a ultrapassa o nível consciente e educativo,
ultrapassa até o nível do inconsciente freudiano a que desejará se
ater A n n a Freud alguns anos depois, para se aventurar em interpre-
tações diretas de suas fantasias que, oh felicidade, tocam profunda-
mente a criança. Por que esse efeito de verdade rápida? Porque a
criança está menos cerceada ou reprimida que o adulto, e porque
pode acolher a palavra interpretativa quando esta se permite a au-
dácia de ouvir com acerto até a fratura entre desejo e recalcamento
— esta "dor":

... Ele escutou com grande prazer a história da mulher sobre cujo
nariz brota uma salsicha depois que seu marido exprimiu esse dese-
jo. Então, de maneira inteiramente espontânea, ele se põe a falar, e,
a partir desse momento, contou histórias fantásticas mais ou menos
longas [...]. Eis alguns resumos dessas fantasias:
Duas vacas caminham juntas, e aí uma salta sobre as costas da
outra e monta a cavalo em cima dela, e aí a outra salta sobre os chi-
fres da outra e segura as rédeas com força. O bezerro também salta
sobre a cabeça da vaca e segura com força as rédeas. [...] Uma manhã,
ao dizer bom dia à sua mãe, ele lhe diz, depois que ela o acariciou:
"Eu vou subir em você; você é uma montanha e eu vou escalar você."
[...] Recomeçou a fazer certas perguntas com a maior veemência [...]
Simultaneamente recomeçou a brincar.18

Que faz então a mãe-analista? E l a fabula, ela brinca, ela conta


histórias. E l a acompanha a curiosidade sexual tanto quanto o medo
da castração ou o medo da morte que tecem as fantasias da crian-
ça, n ã o hesitando em propor ela mesma pequenas histórias quando
Fritz se cala. E l a se projeta na clivagem de Fritz: vive com ele,
O GÉNIO FEMININO 53

em seu l i gar, a tensão desejo/recalque; ele lhe d á os vocábulos,


as histórias de que ela está segura de que eles/elas são dele/dela.
Sugeft ão! dirão alguns. Joguemos o jogo, parece pensar Me-
lanie Klejn. S e m impor u m sentido "esclarecedor", sua palavra
permite q u e as fantasias infantis se digam como sainetes, fábulas
restituída > ao adulto numa troca lúdica, ao mesmo tempo cúmpli-
ce e distànte. A s s i m Fritz, atento ao discurso de sua m ã e e/ou
analista s )bre as sementes que brotam no ventre das mulheres, se
apaixona pelo... e s t ô m a g o . A t e n ç ã o : ventre ou e s t ô m a g o ? feto/
bebé ou ilimento/excremento? A mãe-analista escutou, captou e
semeou; issocia, e Erich/Fritz com ela. Será necessário de fato o
estômago ao menino para digerir tudo o que Melanie ali despe-
jou! U m í longa aventura os espera:

E l ; havia falado algumas vezes de seus "caquis" como de meninos


maus que não queriam vir [...]. E u lhe pergunto: "Então são eles os
menii IOS que crescem no estômago?" Como vejo que isso lhe inte-
ressa, continuo: "Porque os caquis são feitos com a comida; os ver-
dadei os meninos não são feitos com a comida." Ele: " E u sei disso,
eles s ío feitos com leite." "Ah, não, eles são feitos com alguma coi-
sa qu Í papai faz e o ovo que está no interior de mamãe." (Ele está
muitc atento agora e me pede que explique.) [...] Seu extraordinário
inten sse pelo estômago decresceu consideravelmente.19

A cr ança kleiniana n ã o é, vê-se aqui, nem inocente à Rous-


seau, nei i "simplesmente" — se se pode dizer — perversa poli-
morfa à ] ? reud. Se é fóbica, tem medo de uma excitação poderosa
tanto quanto de uma pesada interdição, e se defende tornando-se
violentar íente sádica. O u melhor, se sua excitação e sua curiosi-
dade sexiiais de fato perversas-polimorfas sustentam em Freud a
neurose, |em K l e i n se abrem perigosamente em abismo para u m
inconsciente ainda mais profundo, um inconsciente primário no
qual se situa a possibilidade mesma do recalque originário, e, com
ele, a aptidão ou n ã o para a linguagem e o pensamento. Dizer que
"Freud nps mostrou a criança no adulto e [que] K l e i n nos mostrou
o lactente na criança", segundo a bela fórmula concisa de Hanna
Segal, 2 0 levela-se insuficiente. Desde o início K l e i n se p õ e à escuta
do recallue originário tal como ele se faz ouvir na criança, tal
como frfcassa no psicótico, tal como se manifesta nos estados-
54 MELANIE KLEIN

limites. Fazendo isto, a inovação kleiniana n ã o desmantelava uni-


camente os objetivos pedagógicos e normalizantes de uma certa
psicanálise da infância, como se p ô d e pensar nos anos de 1930 e
1940; n ã o era tampouco um apelo subversivo à liberação da sexua-
lidade enfim desinibida nas famílias carentes de autoridade, em
especial da dos pais, como se pretendeu fazer crer por volta de
1968 e no feminismo; mas, desde seus primeiros passos clínicos,
a novidade kleiniana se apresentou como uma psicanálise da ca-
pacidade de pensar, assim como será compreendida e desenvolvi-
da por B i o n e Winnicott e por todos aqueles que, depois deles,
tentaram tratar da psicose infantil e do autismo.
Os grandes analistas que renovaram a psicanálise abrindo
novos d o m í n i o s de investigação psíquica fizeram isso ao transfor-
mar seu segredo e sua paixão em objetivo epistemológico. Desde
seus primeiros escritos, o segredo — a paixão — , o objetivo de
Melanie se anunciam claramente: trata-se de ouvir — e de fazer
acontecer — um desejo que pensa. E a m ã e , preocupada com o
bom desenvolvimento de seu filho, que se trai assim? O u a filha
de Libussa perseguindo a antiga ascendência de sua m ã e sobre a
menina que ela foi, nas fronteiras da excitação incestuosa e da
asfixia depressiva?

O combate que o senso da realidade deve iniciar quando de seu


desenvolvimento contra a tendência inata ao recalque, o processo
pelo qual a ciência [mas também a linguagem, o pensamento, pode-
ríamos acrescentar] só pode se afirmar, no indivíduo como na histó-
ria, na dor...21 [...] No caso descrito, os fundamentos das inibições da
criança e de seus traços neuróticos me parecem se estabelecer antes
mesmo do momento em que ela começou a falar. 22

E m certas condições, a família humana e a psicanálise que po-


deria ajudá-la conseguem metabolizar esse "combate" e essa "dor",
intrínsecos à nossa espécie pensante, num desenvolvimento bem-
sucedido do pensamento e da cultura. Trata-se de detalhar as liga-
ções, isto é, as variantes da "relação de objeto", como K l e i n dirá
mais tarde, que permitem ao desejo engendrar sentido, com e para
além do sofrimento, em lugar de se fixar na inibição. A s princi-
pais coordenadas do pensamento kleiniano j á estão traçadas com
a análise de Fritz: desejo — sublimação — simbolização.
O GÊNIÒ FEMININO 55

Eric i Clyne recorda que, em 1919, em Rosenberg, depois em


1920, ei [i B e r l i m , sua m ã e passava uma hora a analisá-lo antes de
pô-lo na cama para dormir. O vínculo materno terá favorecido ou,
ao contr ario, viciado a escuta kleiniana? A questão, continuamen-
te debat da tanto pelos discípulos como pelos opositores, só pode
ter uma resposta ambígua: os dois, sem dúvida. N a condição de
mãe, M< ílanie é o objeto do desejo inconsciente de seu filho, como
ele o é { ara ela, e esta proximidade — negada ou sobreinvestida?
— a aju da a capturar os sinais ínfimos da curiosidade sexual que
E r i c h sekite por seus pais. A o mesmo tempo, junto com o título de
analista que ela tenta ser e que logra se tornar em grande parte,
ela é tai i b é m o agente, se n ã o de uma inibição ótima, pelo menos
de uma legativação sublimatória desse desejo: pelo viés da inter-
pretação, ela conduz Erich/Fritz para a simbolização. Desde o iní-
cio mostra-se atenta a essa dupla função sem no entanto ressaltar
as dificuldades ou os impasses a que e x p õ e os dois protagonistas:

Os desejos incestuosos [de Erich] tinham sido conduzidos à sua


cons ciência; posteriormente, o apego apaixonado que ele tinha por
sua jnãe se manifestou nitidamente na vida cotidiana [...]. Suas rela-
çõe: com o pai, embora tenha tido consciência de seus desejos agres-
sivos (ou porque não tinha consciência disso), eram excelentes [...].
O processo de libertação com relação à mãe já estava em parte ini-
23
ciado , ou pelo menos [...] uma tentativa ia ser feita nesse sentido.

Nã 3 seria esse a m á l g a m a mãe/analista que poderia explicar


por que "nenhuma alusão é feita ao papel do pai"? Como se des-
confiasáe da resposta que a deixa em dificuldade, K l e i n adianta
— com uma simplicidade um pouco excessiva — que "naquele
momenfo ele [Erich] n ã o tinha feito nenhuma pergunta direta a
esse respeito . E mais à frente:

Éle não fez perguntas diretas sobre o papel do pai no nascimento


e nc ato sexual em geral. Mas, já naquele momento, eu pensava que
essa 5 questões o perturbavam inconscientemente.24

É e ddentemente impossível para uma m ã e que desempenha


ao mesi 10 tempo o papel de objeto de desejo e de sujeito preten-
der con tecer o inconsciente. Aliás, lembremos em defesa de K l e i n
que ela nunca o recomendou, esforçando-se até por esquecer que
56 MELANIE KLEIN

ela mesma o tinha assumido. 2 5 Note-se t a m b é m esta tomada de


consciência da necessidade de separar o lugar familiar do lugar
analítico:

Cheguei à conclusão de que a psicanálise não deveria ser efetua-


da no domicílio da criança. 26

Contudo, sua forte tendência a "maternalizar" o inconsciente 2 7


n ã o a a b a n d o n a r á e se prolongará mesmo até em suas mais lúci-
das e mais distanciadas práticas ulteriores. E l a se manifesta na
a m b i ç ã o , mais específica, parece, dos kleinianos do que da própria
K l e i n , de compreender o recalque originário e o inconsciente, a
ponto de objetivá-los e fixá-los em " p o s i ç õ e s " dogmáticas, se n ã o
por interpretações esquemáticas estereotipadas e sugestionantes.
É com uma outra aptidão para uma maternidade mais serena e
mais lúdica, a de Winnicott, que as "sementes" (para retomar as
palavras de Melanie e de Fritz/Erich) semeadas por K l e i n no terre-
no da psicanálise escaparão ao dogmatismo do controle materno
e se desenvolverão como um reconhecimento da " m ã e suficiente-
mente boa" no próprio [ou na própria] analista), como um convite
a criar u m " e s p a ç o de transição" entre a m ã e e o b e b é , assim
como entre o analista e o paciente. 2 8

3. Hans e (talvez) Melitta

O primeiro filho de Melanie, Hans, t a m b é m n ã o escapou à v i -


gilância da m ã e analista. Sob o nome de Félix em "Contribuição
ao estudo da psicogênese dos tiques" ( 1 9 2 5 ) , 2 9 Hans/Félix teria
sofrido uma dilatação do prepúcio aos três anos, depois u m exa-
me nasal aos onze anos que reativa esse traumatismo e acentua a
tendência do rapazinho à masturbação. Esta é sobretudo reprimi-
da pelo pai que, retornado da linha de frente, se mostra muito
severo com seu filho. Félix desenvolve tiques, nos quais a analis-
ta vê um deslocamento da excitação genital e da masturbação.
Decompondo os três movimentos irreprimíveis de Hans — a sen-
sação de depressão sobre a nuca, o lançamento compulsivo da ca-
beça para trás com rotação para o lado, enfim, o abaixamento do
queixo e a forte pressão sobre o peito, Melanie K l e i n os associa à
O GÊNIÒ FEMININO 57

lembrai^ a da m ã e do menino (que é ela na realidade). Antes dos


seis anos Félix partilhava da cama de seus pais e queria participar
de seus ogos sexuais: seus movimentos ou tiques mimam a su-
posta pa^sividade da m ã e e a penetração ativa do pai nela. A ana-
lista decifra a "fixação anal do menino em sua m ã e " assim como
"sua hor íossexualidade recalcada". 3 0 Por mais esquemáticas que
possam >arecer, essas interpretações n ã o se contentam com reto-
mar al idéia freudiana segundo a qual o sintoma histérico simboliza
uma parte do corpo (assim, nos Estudos sobre a histeria, o braço
paralisai de A n n a O. era o equivalente de u m pênis em ereção
que a pí ciente, segundo Freud, desejava ou pretendia possuir),
K l e i n estáá em v i a de c o m e ç a r aqui sua teoria da relação de objeto
ao situar o sintoma no liame particular da criança com os objetos
de seus esejos, m ã e e pai:

experiência me convenceu de que o tique é inacessível a toda


ação terapêutica enquanto a análise não consegue revelar as rela-
ções pbjetais sobre as quais ele se apoia. Constatei que na base do
tique se achavam tendências genitais, sádico-anais e orais, dirigidas
contáa o objeto.31

Quanto a Melitta, pôde-se supor que ela é apresentada de ma-


neira pouco lisonjeira, de início como u m caso a n ó n i m o , depois
sob o pronome de L i s a . 3 2 Paralelamente à história de Félix, Mela-
nie relata 0 caso de uma criança que tem uma irmã, "numa família
que eu c o n h e ç o bem" e que descreve de maneira idílica (forçosa-
mente, j que se trata da sua!): " A s crianças em questão t ê m muito
bom carfter e são criadas com muita inteligência e amor". 3 3 Infe-
lizmente se bem que dotada no princípio de boas aptidões intelec-
tuais, a ^dolescente de quinze anos (exatamente a idade de Melitta
em 191Í , data da primeira parte do artigo) se estiola enquanto
cresce. E superficial e n ã o manifesta nenhuma curiosidade. O texto
em ingh s diz: "The child never askedfor sexual enlightenment at
air, 34 que pode especialmente significar, tendo-se em conta o
sentido c e enlightenment: n ã o é realmente uma luz, nem u m "espí-
rito das uzes", essa pobre Melitta! E m suma, " n ã o deu prova até
agora [. 1 de ir além de uma inteligência mediana". 3 5
É pifcvável que, desde esses anos de 1920, a guerra entre m ã e
e filha, ( ue só se desencadeará em 1933, j á estivesse latente. N ã o
58 MELANIE KLEIN

se p o d e r á detectar a inveja ou a vingança da m ã e , que se mostrou,


entretanto, serena nesse drama, sob essa maneira de pintar assim
negativamente sua filha bem antes da eclosão do conflito? L i s a /
Melitta personaliza estranhamente os algarismos e as letras em
vez de os utilizar como todo o mundo: assim, ela destaca a letra
a associando-a a uma imagem do pai cujo prenome c o m e ç a por a
(Arthur):

Não obstante, ela pensa então que o "a" era talvez, enfim, um
pouco sério e digno demais, e que deveria ter alguma coisa ao menos
do saltitante O "a" era o pai castrado, mas apesar disso invicto,
e o " i " era o pênis. 3 6

Melanie diagnostica nesta subdotada uma " c o n c e p ç ã o sádica


da c ó p u l a " e um complexo de castração que entrava suas aptidões
matemáticas... O complexo paterno de Lisa/Melitta n ã o deveria
evidenciar-se com Edward G l o v e r , 3 7 como que para tentar reabili-
tar o pai "castrado, mas apesar disso invicto", em face de uma m ã e
invasiva e dominadora?
Entretanto, através desses esquemas rígidos que a analista-
m ã e parece colar em seus filhos e que traduzem suas próprias
defesas contra sua culpabilidade, se n ã o seu ódio de m ã e por sua
descendência, a pertinência do insight kleiniano n ã o pára de nos
surpreender. Sobretudo porque encontra imediatamente a prova
m á x i m a capaz de confirmar, no momento mesmo em que amacia
a sempre a m e a ç a d o r a crispação dogmática: esta prova n ã o é outra
senão a invenção da técnica de jogo.
A atenção dada aos jogos de Erich/Fritz, a própria participação
da m ã e nas fantasias de seus filhos, como se ela "jogasse o jogo"
enquanto lhe desvendava o sentido inconsciente, tinham-na posto
no caminho certo. Mas é com outras crianças, as de seus colegas,
principalmente em B e r l i m , que Melanie, dirigida por Abraham,
aperfeiçoa a técnica de jogo.

4. Jogar? Interpretar

R i t a tem sete anos, tem horror à escola, n ã o mostra nenhum


interesse pelo desenho; mas, um dia, enegrece uma ponta de papel,
O GÊN O FEMININO 59

rasga-'o e joga-o fora, resmungando: "Mulher morta." E i s a causa


dos terfores noturnos pelos quais a garotinha veio se consultar,
M e l a n í \ compreende que a "mulher morta", mulher ameaçadora
e que é preciso matar, é ao mesmo tempo a analista e a m ã e de
Rita transferência torna-se o objeto obrigatório da interpreta-
ção. E l a logo se apercebe de que o papel, o desenho e a água são
indispensáveis a essa "linguagem sem palavras" que nos parece
ser as intasias de Rita: jogar será o caminho real do inconsciente
da mes na maneira que o sonho o é para Freud. Melanie vai bus-
car imepiatamente no c ó m o d o vizinho os brinquedos de seus filhos,
e Rita se p õ e a representar diversas catástrofes com os carrinhos,
os tren e figurinhas trazidas pela analista. Melanie vê nisso uma
latão das atividades sexuais de R i t a com um colega de escola,
Embar; ç o de Rita, depois alívio: a técnica de jogo está em marcha.

jostaria de explicar em poucas palavras por que esses brinque-


dos são de tal utilidade na técnica da análise pelo jogo. Seu tamanho
red izido, seu número e sua grande diversidade deixam o campo livre
para os jogos mais variados, enquanto sua simplicidade permite uma
infi lidade de usos diferentes. Assim tais brinquedos podem perfei-
tan ente exprimir com variedade e em detalhe as fantasias e as expe-
riêi cias infantis. Os diversos "temas lúdicos", como os afetos que os
aco npanham e que podemos ao mesmo tempo observar diretamente
e d( duzir do conteúdo mesmo do jogo, se apresentam numa vizinhan-
ça < num quadro estreitos; assim nada nos escapa do encadeamento
e d£ dinâmica dos processos mentais em ação, nem da cronologia
das experiências e das fantasias da criança, a contiguidade espacial
faz ;ndo quase sempre as vezes de contiguidade temporal.3

E l á determinará mais tarde, ao retomar essas idéias, que é i m -


p o r t a n t í que esses brinquedos sejam de tamanho pequeno, " n ã o
mecânicos tão simples como o equipamento do próprio quarto
de jogds,, e que os "personagens humanos, variando somente em
cor e tamanho, n ã o indiquem nenhuma o c u p a ç ã o particular" para
podlerem ser utilizados segundo o material específico que emerge
39
durant( o j o g o .
M4strando-se por outro lado atenta à expressão da agressivi-
dade no jogo, e tendo um interesse especial pelos objetos danifica-
dos, Kle in n ã o deixa de impor um limite que impede toda agressão
física pessoa do analista. 4 0
60 MELANIE KLEIN

Mas o jogo n ã o é a encenação abstrata de "objetos" de desejo


ou de ódio simbolizados pelos brinquedos. O jogo kleiniano se
coloca no corpo e no mundo: ele é, à medida que corre, queima,
quebra, enxuga, suja, limpa, destrói, constrói... T a m b é m tem ela
necessidade de u m ambiente bem diferente do sóbrio divã:

Deve haver além disso no cómodo uma quantidade de objetos


suscetíveis de utilização simbólica, dos quais o mais importante é
um lavabo com água corrente...41

Peter, de três anos e nove meses, é um menino muito difícil,


inibido no jogo, muito apegado à m ã e , e nada tem de um garoto.
Desde a primeira sessão faz entrar em colisão veículos e cavalos:

Perguntei a ele o que tinham feito os veículos. "Não prestam pra


nada", respondeu, e parou a brincadeira para retomá-la em seguida.42

No decorrer de uma outra sessão:

"7bf como os troços deles se metem lá dentro." [...] E u continuei


minha interpretação: "Você pensou que seu papai e sua mamãe me-
teram seus troços lá dentro e que foi isso que fez nascer seu irmão-
zinho Fritz. 4 3

Trude, de três anos e três meses, é inteiramente neurótica e


fixada na m ã e . Quando da primeira sessão, ela insiste em que
sejam retiradas as flores que se acham num vaso.

E u interpretei imediatamente essas palavras como um desejo de


suprimir o pênis paterno.44

K l e i n observa a destruição dos objetos pelas crianças: n ã o


será que isso representa para o inconsciente a destruição dos ór-
gãos genitais do p a i ? 4 5 E l a n ã o evita interpretar a transferência
negativa^ desde que aparecem os primeiros sinais da angústia e
da resistência. A interpretação da transferência negativa constitui
portanto uma outra novidade que Melanie traz para a psicanálise:
longe de ignorá-la, está tão atenta para ela que alguns a acusam
até de suscitá-la. Mas é a agressividade do paciente que ela busca,
a pulsão de morte refreada, porque é destravando-a que ela espera
O GÊNI3 FEMININO 61

libertar d pensamento. A lição de Freud tal como a apresentam os


textos c msecutivos à sua descoberta do além do princípio do pra-
zer, em especial o de " A ( d e ) n e g a ç ã o " (1925), encontra aqui sua
aplicaç o, ou antes seu desenvolvimento original. 4 7
À roporção que K l e i n alarga sua prática analítica com as
criança: o jogo se confirma como tendo a mesma faculdade de
franqu.ear io acesso ao inconsciente que tem a associação livre do
adulto cju uma análise do sonho; até mais, visto que o inconsciente
pre ou ransverbal, um inconsciente profundo na vizinhança do
recalqui originário, se exprime aí mais intensamente. E K l e i n pode
com toda a pertinência usar como epígrafe de seu relato do caso
de Richferd esta frase dos Ensaios de Montaigne: "Realmente con-
v é m no|ar que os jogos das crianças n ã o são jogos, e é preciso
"48
julgá- los como seus atos mais s é r i o s ;

5. Palavras cruas, transferência negativa,


c escondensação da fantasia

Entretanto, para analisar n ã o basta se projetar no lugar da cri-


ança que brinca e captar seu inconsciente por osmose materno-
analíticà, porque

os tèrmos da interpretação têm uma grande importância; eles deve-


riam ser escolhidos em função do modo concreto de pensamento e
de expressão da criança. E bom lembrar que Peter, mostrando a gan-
gon a, tinha dito: "Olha só, isso vai lá dentro!" Também não teve ne-
nhu na dificuldade em compreender minha resposta: "Aí está como
os tfoços de papai e mamãe se metem lá dentro."49

Per :ebe-se que a ultra-empírica Melanie K l e i n possuía u m


senso a; ;udo do "significante" linguageiro e n ã o avançava em suas
interpretações, que nos parecem muitas vezes bem grosseiras, sem
um resj eito escrupuloso pela linguagem específica da criança:

5 ó se pode falar do sucesso de um tratamento se a criança, qual-


que: que seja sua idade, tirou partido, no curso de sua análise, de
todos os recursos de linguagem de que dispõe. 5 0
62 MELANIE KLEIN

O exemplo que ela dá disso é muito significativo: 5 1 um garoto


de cinco anos, que recalca bem suas fantasias, exprime-as p o r é m
no jogo, mas sem "se dar conta disso". U m dia, brincando de ven-
dedora e comprador, a analista pede ao garoto que encontre um
nome para ela. " E l e me diz que eu devia ser 'Mr. Cookey-Caker'
[e] vender motores, que representavam para ele o novo p ê n i s . "
Melanie entende que "Cookey-Caker" remete a "fazer bolos" e
exprime a fantasia de fazer filhos de maneira oral e anal. O garoto
d á a si mesmo o nome de "Mr. K i c k e r " e faz "desaparecer" Mr.
Cookey-Caker:

Logo ele se dá conta de que Mr. Cookey-Caker tinha sido morto


por seus pontapés [e] toma consciência de sua agressividade contra
seu pai. 5 2

Estamos longe aqui da técnica que Freud utilizou com o pe-


queno Hans ao se apoiar no pai do menino: a prudência de Freud,
ao contrário da sondagem de K l e i n , o levava apenas a dizer que
Hans tinha c i ú m e s porque queria ter o mesmo bigode do pai! N e m
pensar em dizer que o menino queria ter o mesmo pênis! N ã o h á
nada parecido em Melanie K l e i n . Ajudada por Mr. Cookey-Caker,
ela a v a n ç a sem medo. Irão dizer mais tarde, com Lacan, que o
significante traça sozinho a trilha de sua coragem interpretativa.
Seria preciso, mesmo assim, escutar o significante (cookey-caker,
kicker; mas, curiosamente, a análise não depende da insistência
posta no k de Mme K l e i n , nem de sua identificação com um se-
nhor), passar das palavras às coisas, e relatar a fantasia. E l a se
contenta com notar:

A palavra "Cookey-Caker" é a ponte para a realidade que o me-


nino evita desde o momento em que passa a exprimir suas fantasias
pelo jogo. É sempre um progresso quando a criança deve reconhe-
cer a realidade dos objetos por meio de suas próprias palavras. 53

A técnica kleiniana do jogo se revela inseparável de seu esti-


lo particular de interpretação pelo qual a fantasia jogada, tornada
uma fantasia narrada a dois, se encaminha para o reconhecimento
da realidade. Se é verdade que a pequena R i t a 5 4 inventou a técni-
ca de jogo, não sem a participação de Fritz, Peter, Félix, Trude,
O GÊNK FEMININO 63

E r n a e oitros — da mesma forma que a paciente de Freud, A n n a


O., tinha inventado a talking cure — , a interpretação kleiniana faz
parte integrante dessa técnica, e é mesmo o essencial da obra
kleiniana
Volt< mos ainda a F r i t z / E r i c k para apreciar o estilo.
Anteb da introdução do jogo propriamente dito, Melanie K l e i n
acompanha a criança em suas fantasias, que a própria criança apre-
senta so$ a forma de palavras repetitivas ou de comportamentos
inibidos jou compulsionais, e isso ao utilizar dois procedimentos.
De um Ú d o nomeia essas fantasias "chamando as coisas pelo seu
nome", 5 i com palavras cruas:

Ein análise nós não podemos ter acesso ao inconsciente da crian-


ça (pjelo ego e graças à linguagem, é claro) senão evitando os cir-
cunlóquios e utilizando palavras simples e claras. 56

De outra lado, a lógica da interpretação diz respeito às identifica-


ções condensadas internas à fantasia; trata-se de desembaraçar e
desprenc er essa meada de identificações, para especificar o lugar
da identificação precisa que aí se representa em nome da criança.
Assim, a fixação de Fritz no e s t ô m a g o só cede quando, no curso
de uma $essão, enquanto repete a expressão "frio na barriga", ele
descrevd o órgão em questão como um quarto em que alguém
entra para destruí-lo; a mãe-analista lhe pergunta:

"()uem é esse alguém e como entra lá?" Ele responde: "Um pe-
queno bastão entra pelo pipiu na barriga e no estômago." Nesse
caso ele oferece pouca resistência à minha interpretação. E u lhe digo
que de se tinha imaginado no lugar de sua mamãe e que desejava
que ;eu papai pudesse fazer com ele o que fazia com ela. Mas que
ele r iceava (e imaginava que sua mamãe tinha medo também), se
esse bastão — o pipiu de papai — entrasse em seu pipiu, sentir dor,
e qu í, além disso, tudo fosse então destruído em sua barriga e em
seu ( stomago.

Este tipo de interpretação implica que a criança seja capaz de


compreender tanto o valor semântico das palavras diretas empre-
gadas peieo analista quanto seu valor simbólico que consiste em
traduzir movimentos identificadores imbricados: aqui, a identifi-
cação de Fritz a uma m ã e "destruída" e "porca m a m ã e " , segundo
64 MELANIE KLEIN

uma representação sádico-anal do coito, mas t a m b é m o medo de


Fritz de ser aquela m ã e , o que representa a componente homosse-
xual de seu psiquismo. A interpretação kleiniana supõe t a m b é m
que, sendo mais fácil na criança a c o m u n i c a ç ã o entre consciente
e inconsciente, uma palavra analítica, revelando a verdade profun-
da e desagradável, produzirá fatalmente um alívio. Mas assume o
risco de subestimar ao mesmo tempo as defesas e o pré-conscien-
te da criança:

... Ele me perguntava com alegria se o que achava "horrível" se


tornaria, depois de minhas explicações, agradável, como tinha acon-
tecido até então com as outras coisas. Diz também que não tinha
mais medo das coisas que lhe tinham sido explicadas, mesmo quan-
do pensava nelas. 58

Esse estilo interpretativo, iniciado desde a análise de seus p r ó -


prios filhos, se desenvolve e se consolida com a técnica do jogo
que progressivamente se organizará. Do mesmo modo Rita: so-
frendo de terrores noturnos e de fobias de animais, ambivalente
em relação à sua m ã e mas agarrada a ela, inibida para o jogo, a
menina apresenta todas as características de uma neurose obsessi-
v a alternando com uma depressão. Quando de sua primeira sessão,
ela tem medo de se encontrar sozinha com a analista em seu gabi-
nete, e quer sair para o jardim. A m ã e e a tia que acompanham a
menina temem j á o fracasso, mas Melanie aceita o jogo; trocar de
e s p a ç o faz parte dele:

... Enquanto estávamos fora eu havia interpretado sua transferên-


cia negativa (isto ainda em sentido oposto à prática habitual). A par-
tir do pequeno número de coisas que ela diz e a partir do fato de que
ela estava menos aterrorizada quando nos encontrávamos ao ar livre,
concluo que ela tinha sobretudo medo de alguma coisa que eu pu-
desse lhe fazer quando estivesse sozinha comigo na sala. Interpretei
isto, e ao fazer referência a seus terrores noturnos, liguei suas sus-
peitas a meu respeito, na condição de estrangeira hostil, a seu medo
de que uma mulher malvada a atacasse quando estivesse sozinha na
noite. Quando, alguns minutos depois desta interpretação, propus
voltarmos a entrar na sala, ela aceitou de bom grado [...]. Este caso
reforçou minha convicção crescente de que uma precondição para a
psicanálise de uma criança consiste em compreender e interpretar as
O GÉNIO FEMININO 65

fantas as, os sentimentos, as angústias e as experiências exprimidas


pelo j >go, ou, se as atividades de jogo estão inibidas, pelas causas
dessa inibição. 59

Mela lie K l e i n utiliza conjuntamente o espaço do jogo como


uma cena onírica submetida aos processos primários (deslocamento
e condem ação), a linguagem da criança, evidentemente, mas tam-
b é m a sei niologia diversificada de seus afetos, que ela decifra no
comporta mento sensorial e emocional ou no gestual n ã o verbali-
zado. Toe a uma gama de sinais está à disposição do analista para
levá-lo à interpretação da transferência negativa, ela mesma for-
mulada n ama sequência sustentada o mais das vezes por ligações
de causal dade e que permitem atingir o núcleo inconsciente: Mme.
K l e i n = r lãe malvada = m a m ã e que me impede de dormir ao me
ameaçar :omo um feiticeira = porque eu desejo m a m ã e , e/ou te-
nho ciúme dela dormir com papai, e/ou eu quero destruí-la/los. À s
formulaç )es de Melanie K l e i n e seu encadeamento n ã o faltam cer-
tamente >rutalidade tanto semântica quanto lógica. Mas seria in-
justo acui ar suas interpretações de serem puramente... "simbólicas"
no sentid) em que procederiam de um simbolismo sexual pulsional,
desprovii o dos vínculos pré-conscientes, ignorando o significante
linguage ro e desprezando a disponibilidade da c r i a n ç a . 6 0
D a n esma maneira que o discurso vivo, diretamente sexuali-
zado da analista, sua interpretação da transferência negativa, e
isso desc e o início da cura — o que distingue radicalmente sua
técnica d i de Anna Freud e do próprio Freud — , possui para K l e i n
a vantagi m de estabelecer ab initio uma c o n e x ã o de verdade com
o pacienl e, j o v e m ou adulto. Enquanto Anna e Freud apostam no
estabelec mento de uma relação de confiança entre o ego do pacien-
te e o do analista antes que o trabalho interpretativo em profundi-
dade pos sa começar, Melanie K l e i n pensa, ao contrário, que é a
influênci a direta sobre a verdade inconsciente que inaugura essa
relação t -ansferencial e torna o trabalho ulterior possível.
Esta posição, que pode se justificar com a criança, suscita
mais opc sições com outras faixas etárias e outras estruturas psíqui-
cas. Assi m, a fase de latência apresenta problemas particulares que
ameaçan i invalidar a técnica kleiniana: o jogo da criança desapa-
receu e a associação livre do adulto ainda não ocupou o lugar. U m a
interpret ição profunda, assim como a da transferência negativa,
66 MELANIE KLEIN

n ã o correrá o risco de provocar ou agravar o sentimento de a n g ú s -


tia e de ansiedade? No entanto, aqui ainda, os exemplos kleinianos
testemunham que a indiferença da criança em período de latência,
seu recuo da transferência e seu enclausuramento defensivo na
monotonia psíquica e discursiva podem ser, ao contrário, atra-
vessados por interpretações em termos de coito parental, de mas-
turbação ou de rivalidade edipiana. A aparente brutalidade dessas
interpretações estaria no fim das contas em sintonia com a verda-
de inconsciente revelada que o analista julgou o paciente capaz de
receber, uma confiança pela qual o paciente é grato a seu analista.
O analisando n ã o tarda, aliás, a autenticar a pertinência desse m é -
todo, estabelecendo ou reforçando sua transferência.
Riscos de subordinação do paciente, de sedução, de intrusão?
Sugestões mais ou menos manipuladoras? Interpretação "em sin-
tonia" com o inconsciente originário, ou risco de " d o m i n a ç ã o " sobre
ele? A analista-mãe arcaica n ã o se deixará arrastar pela fantasia
de poder captar o originário? Nossas suspeitas com respeito ao
kleinismo são legítimas, e os trabalhos ulteriores sobre os efeitos
secundários da transferência, mas t a m b é m sobre a contratransfe-
rência, ajudam hoje a melhor se precaver contra tais efeitos. Dito
isto, a técnica da interpretação kleiniana, diretamente ancorada
no jogo e levando em conta seus múltiplos parâmetros — c ó d i g o s
semióticos suplementares à linguagem verbal, identificações po-
lissêmicas condensadas em fantasias efetuadas ou substantivadas,
transferência negativa e positiva para o analista — , foi de uma
fecundidade extraordinária para a prospecção das profundezas do
inconsciente. 6 1
Abraham tinha razão quando proclamava no Congresso dos
Psicanalistas A l e m ã e s , em Wurzburg, em 1924: " O futuro da psi-
canálise está na análise pelo jogo." Jogo dos códigos semióticos
plurais de que dispõe a criança, mas t a m b é m o adulto; criatividade
do psicodrama; jogo com os significantes da associação livre...
Melanie havia esboçado, sem saber, as novas pistas que a cura
analítica i a pedir emprestado depois de Freud. Mas n ã o sem dei-
xar aberta igualmente uma questão que é fundamentalmente a de
toda interpretação psicanalítica e que K l e i n teve a coragem de
exacerbar: posso dizer tudo o que creio saber que se passa no i n -
consciente do paciente? O "nariz", que fareja tudo, e talvez até a
verdade, não é tudo: porque n ã o h á nada que seja tudo nos jogos
O GÉNIO FEMININO 67

das fantajias com o sentido. Tem-se às vezes o sentimento de que,


para M e Linie K l e i n , o espaço psíquico que ela entretanto permitiu
descobrir em sua concretude torna-se paradoxalmente transparen-
te, e que te perde sua tridimensionalidade quando ela o desarruma
com interpretações intempestivas. O faro imaginário tem necessi-
dade de r mito tato para encontrar o inconsciente, indefinidamente,
e fazê-lo reviver.

NOTAS

1. Cf. Jul et ]Mitchell, The Selected Melanie Klein, Introdução, Penguin, 1986.
2. Cf. Lafrrence Stone, The Family, Sex and Marriage in England, 1500-1800,
Weidejfeld and Nicolson, 1977.
3. "O» bebe r e c é m - n a s c i d o está cheio das máculas e impurezas do pecado her-
dado ce nossos primeiros pais por meio de nossas partes [sexuais]." Cf
Richai i Allestree, The Whole Duty ofMan, Londres, 1658, p. 20.
4. Cf Juliet Mitchell, Psychanalyse et féminisme (1974), trad. fr., Éd. Des
temmts, 1975, p. 228.
5. Sobre ) lugar e a representação da criança, cf Stephen Cullen, Children in
Societ a Libertarian Critique, Londres, Freedom Press, 1991; Hugh C u n -
n i n g h i n , Children and Childhood in Western Society since 1500, Londres,
Longn tan, 1995; Harry Hendrick, Children, Childhood and English Society,
990, Cambridge, Cambridge University Press, 1997; Malcolm Hill,
Children and Society, Londres, Longman, 1997; Egle Bechi, Dominique Julia,
e
Histol e de Venfance en Occident, t. 1: De VAntiquité au XVII siècle, t. 2:
Du XtlIF à nos jours, Paris, Seuil, 1998; assim como François Barret-
D u c r o è q , UAmour sous Victoria, Plon, 1989, e Pauvreté, charité et morale
à Londres au XIXe siècle. Une sainte violance, P U F , 1991, a quem agradeço
por i n d i c a ç õ e s neste d o m í n i o .
6. Cf Aifobiographie, citada por Janet Sayers, Les Mères de la pscychanalyse,
P U F , 995, p. 246.
7. É sobáetudo o testemunho da filha de Karen Horney que, em sua infância,
foi anflisanda de Klein, e que se tornará a dra. Marianne Horney Eckhardt
Cf p. 144.
8. Cf S i | m u n d Freud, "Analyse d'une phobie chez un petit garçon de cinq ans
de petf Hans)" (1909), em Cinq Psychanalyses, op. cit., pp. 93-198.
9. Die Ps\ychoanalysis des Kindes, Viena, Internationale Psychoanalystischer
Verla^, 1932, e The Psycho-Analysis of Children (trad. de A l i x Strachey),
Londr ps, i Hogarth Press e Institute of Psycho-Analysis, 1932, trad. fr. P U F ,
1959
68 MELANIE KLEIN

10. Cf. Florence B é g o i n - G u i g n a r d , " U é v o l u t i o n de la technique en analyse


d'enfants", em Melanie Klein aujourd'hui. Hommage à Voccasion du cen-
tenaire de sa naissance, Césura Lyon Édition, 1985, p. 55.
11. Retomado em Essais de psychanalyse, op. cit., pp. 29-89.
12. A primeira parte deste estudo inicial, "Uinfluence de 1'éducation sexuelle et
du relâchement des liens d'autorité sur le d é v e l o p p e m e n t intellectuel des
enfants", que merece ser citada em inglês: "The Influence of the Sexual
Enlightenment and Relaxation ofAuthority on the Intellectual Development
of Children" (cf. Melanie Klein, Love, Guilt and Reparation and Other Works,
1921-1945, Hogarth Press, 1975; Karnac Books, 1922, p. 1), foi desenvol-
vida em Budapeste, em 1919; a segunda, " L a résistance de 1'enfant devant
l'éducation séxuelle" (em inglês, "The Child's Résistance to Enlightenment")
foi apresentada perante a Sociedade Psicanalítica de Berlim, em 1921.
13. Melanie Klein, Essais de psychanalyse, op. cit., p. 32.
14. Ibid., p. 53.
15. Ibid., p. 59.
16. Ibid., p. 52.
17. Ibid., p. 83.
18. Ibid., pp. 63-64.
19. Ibid., pp. 66-67.
20. Cf Hanna Segal, "Kleinian Analysis", em J . Miller, States of Mind, L o n -
dres, B B C , 1983, p. 254.
2 1 . Melanie Klein, Essais de psychanalyse, op. cit., p. 53; grifos nossos.
22. Ibid., p. 83.
23. Ibid., p. 85.
24. Ibid., pp. 32 e 59.
25. Cf. " L a technique de jeu psychanalytique: son histoire et sa portée" (1955),
em Melanie Klein, Le Transferi et autres écrits, op. cit., 1995, p. 26. Cf.
t a m b é m supra, pp. 43-44.
26. Ibid., p. 29.
27. A e x p r e s s ã o é de J . - B . Pontalis, "Entre le savoir et le fantasme, 1. L'enfant
question", em Entre le rêve et la douleur, Gallimard, N R F , 1977, p. 128.
28. Melanie K l e i n reconhecia que n ã o era "uma m ã e inata", e achava que
Winnicott tinha "uma identificação materna muito forte, embora n ã o tivesse
tido filhos". Cf. M K, p. 307.
29. Este texto é retomado em Essais de psychanalyse, op. cit., pp. 142-165.
30. Ibid., p. 145.
3 1 . Ibid., p. 159; grifos nossos.
32. Cf. Melanie Klein, " L e d é v e l o p p e m e n t d'un enfant" (1919-1921), em Essais
de psychanalyse, pp. 79-80, e " L e role de 1'école dans le d é v e l o p p e m e n t
libidinal d'un enfant" (1923), ibid., pp. 97 sq. Cf. M K, p. 153.
33. Ibid., p. 19.
34. Cf. Melanie Klein, Love, Guilt and Reparation and Other Works, op. cit., p.
80, e M K, p. 153.
35. Cf. Melanie Klein, " L e d é v e l o p p e m e n t d'un enfant", em Essais de psycha-
nalyse, op. cit., p. 80. Cf. M K, p. 153.
O GÊNK FEMININO 69

36. Melanje Klein, " L e d é v e l o p p e m e n t d'un enfant" (1921), op. cit., p. 97.
nfin73, cap. I X , 2, pp. 233 sq.
37. Cf. inj
38. Cf " L technique de 1'analyse des jeunes enfants", em La Psychanalyse des
enfant op. cit., p. 44.
39. Cf. " L a technique de j e u psychanalytique" (1955), em Le Transferi et autres
écrits, op. cit., p. 3 1 .
40. / t a / . , 33.
4 1 . Cf M lanie Klein, " L a technique de 1'analyse des jeunes enfants", em La
Psych^nalySi e des enfants, op. cit., p. 45.
42. Ibid., 29.
43. >p. 29-30.
44. Z^íV/., >p. 33-34.
45. Ibid., 32.
46. /fciTi., 37.
47. Os an; listas ingleses parecem particularmente seduzidos por esta i n o v a ç ã o
kleinií na., se bem que Sylvia Payne tenha afirmado que eles praticavam a
análi s< da transferência antes da chegada de Melanie em Londres. Cf M K,
p. 44G
48. Monta gne, Essais, livro I , cap. X X I I I . Cf. Melanie Klein, Psychanalyse
d'un ifant, Hogarth Press, 1961, trad. fr. Tchou, 1973.
49. Melaine Klein, " L a technique de 1'analyse des jeunes enfants", em La Psy-
chanay se des enfants, op. cit., pp. 43-44.
50. Ibid., . 46.
51. C / " L mportance des mots dans 1'analyse p r é c o c e " (1927), em Le Transferi
et autues écrits, op. cit., pp. 81-82.
52. Ibid. 82.
53. Ibid.
54. Evocatí a nos Essais de psychanalyse, depois comentada mais longamente
em M Ílanie Klein, Le Transferi et autres écrits (1955), op. cit., pp. 27 sq.
55. Segunpio a e x p r e s s ã o de Freud em "Fragment d'une analyse d'un cas d'hys-
térie 1 1905), citado por Melanie Klein em La Psychanalyse des enfants,
op. cii pp. 43-44.
56. Ibid., lota da p. 44.
57. Melaine Klein, Essais de psychanalyse, op. cit., pp. 74-75.
58. Ibid., 76.
59. Melaif e Klein, " L a technique de j e u psychanalytique: son histoire et sa por-
tée" ( 955), em Le Transferi et autres écrits, op. cit., p. 28; grifos nossos.
60. Cf infra , cap. I V , 4, pp. \Usq., e cap. V I I I , 1, p. 190.
61. Cf R . H Etchegoyen, "Melanie Klein and the Theory of Interpretation", em
The Fundamentals of Psychoanalytic Technic, Londres, Karnac Books, 1991,
pp. 4( 2-416.
III

RIORIDADE E INTERIORIDADE
DO O U T R O E DO VÍNCULO:
O $EBÊ NASCE C O M SEUS OBJETOS
1. Narcisismo e objeto

K hipótese de que uma fase que se estende por vários meses pre-
cec i as relações de objeto implica que — exceção feita da libido l i -
gac a ao corpo próprio do bebé — impulsos, fantasias, angústias e
def isas ou não estão presentes nele ou não se relacionam com um
obj :to, isto é, operariam in vácuo. A análise de crianças bem novinhas
me ensinou que não há nenhuma necessidade instintual, nenhuma
siti ação de angústia, nenhum processo mental que não suponha ob-
jek s, externos ou internos; em outras palavras, as relações de objeto
esti o no centro da vida emocional. Além do mais, o amor e o ódio,
as antasias, as angústias e as defesas estão agindo também desde o
coi íeço e estão ab initio indissoluvelmente ligados com as relações
de )bjeto. Este insight me fez ver muitos fenómenos sob uma nova
luz

Tardia e firme, esta declaração de Melanie K l e i n explicita o


que est em jogo num debate fundamental que a psicanálise susten-
ta com a teoria freudiana. De fato, ali onde Freud, evoluindo sobre
este as$unto, postula no b e b é um estado "inobjetal", dito de "nar-
cisismc primário", K l e i n apresenta a relação de objeto desde o
2
nascimento.
nascim Ainda que nítida, a divergência entre as duas posições
teórica é mais complexa do que parece.
Err seu primeiro e s b o ç o do conceito de narcisismo, Freud,
em L Sob c o narcisismo: uma introdução (1914), 3 fala de um "auto-
erotisrrlo" no início da vida, isto é, de uma auto-satisfação pulsional
74 MELANIE KLEIN

bastante anárquica do bebé, antes do aparecimento de uma "nova


a ç ã o p s í q u i c a " em que o eu na condição de totalidade é tomado
como objeto de amor, e que ele designa pelo nome de "narcisismo".
No decurso dos anos precedentes, Freud havia abordado o narci-
sismo no quadro da homossexualidade e da psicose: seus escritos
sobre Leonardo da V i n c i (1910), Schreber (1911) e o Homem dos
Lobos (concebidos entre 1910 e 1914 e publicados em 1918) 4 apre-
sentam a idéia de um ato narcísico consecutivo a uma identifica-
ção. Leonardo reprime o amor por sua m ã e pondo-se no lugar dela:
ele se identifica com ela e, por isso, se orienta para objetos de
amor que se lhe assemelham, e se escolhe amar os adolescentes é
porque os ama como sua m ã e o tinha amado. A o escolher a v i a do
narcisismo, preserva o amor por sua mãe. De uma outra maneira,
mas parecida, o Homem dos Lobos se identifica alternadamente
com seus pais numa cena primitiva conotada de sadismo anal;
a l é m disso, sua identificação com sua Nanya reforça-o na a d o ç ã o
de uma p o s i ç ã o feminina passiva para com seu pai: assim sua ho-
mossexualidade reprimida resulta de uma identificação narcísica.
O presidente Schreber, que partilha com Leonardo e o Homem
dos Lobos u m forte investimento da analidade, uma apassivação
feminina e u m interesse mais ou menos exaltado pela religião,
retira sua libido dos objetos para colocá-la em seu próprio eu. E
Freud observa que, do mesmo modo que as neuroses de transfe-
rência lhe permitiram estabelecer a dinâmica pulsional própria do
aparelho psíquico, a dementia praecox e a paranóia lhe revelam os
segredos da psicanálise do eu. A t é esse momento o narcisismo
faz parte das necessidades do eu e o protege.
A partir de Luto e melancolia (1916), o acento será posto so-
bre a identificação com o objeto perdido e sua interiorização am-
bivalente (amor e ódio) no eu enlutado ou depressivo. Mas Além
do princípio do prazer (1920) substitui as "pulsões do eu", opostas
às "pulsões sexuais", por uma nova dualidade pulsional: "pulsão
de vida" e "pulsão de morte"; enfim, O ego e o id (1923) e s b o ç a
uma nova estruturação do aparelho psíquico, que será o ponto de
partida das concepções de Melanie K l e i n . 5
A partir desta "segunda tópica" freudiana (id, ego, superego),
o narcisismo, precedentemente definido como relativo a um i n -
vestimento do ego por refluxo das identificações que se retiram
dos objetos, torna-se um "narcisismo secundário". A expressão
O GÊN O FEMININO 75

"narcis smo p r i m á r i o " designará, pelo contrário, um estado inob-


jetal, q le é caracterizado pela ausência total de relação com ou-
trem, a ;sim como por uma indiferenciação do ego e do id. A vida
intra-ui erina e o sono seriam as experiências mais próximas desse
estado narcísico inobjetal.
M i itos comentadores 6 assinalaram a imprecisão e as insufi-
ciência 5 dessa n o ç ã o freudiana. D e fato, sendo j á o narcisismo a
interioi ização de uma relação, será que se pode falar de estado
realmei ite inobjetal? Se existisse u m estado inobjetal, o que ainda
é preci so provar, a d e n o m i n a ç ã o "narcisismo p r i m á r i o " seria
inaproj riada, uma vez que designava de início o refluxo de uma
relaçãc. E n f i m , é difícil ver "como passar de uma m ô n a d a fecha-
da sobIB si mesma para o reconhecimento progressivo do objeto". 7
Novas pesquisas, em especial as de A n d r é Green, atentas à obra
de M e l mie K l e i n , refinam essa n o ç ã o distinguindo o "narcisismo
de vida" do "narcisismo de morte", e decifrando nisso n ã o um es-
tado, n ias uma estrutura. 8
Esta breve perspectivação nos fará apreender melhor o lugar
reserva do por K l e i n à relação de objeto, mais especificamente à
noção le "objeto interno". Variações importantes afetarão a no-
ção de Dbjeto kleiniano, que só assume seu sentido forte de objeto
nitidamente diferenciado do ego com a "posição depressiva". Por
outro lí ido, o narcisismo n ã o desaparece verdadeiramente na teo-
ria e na clínica kleinianas, mas reveste o aspecto de um "estado
narcísi Í O " no qual a libido se retira dos objetos exteriores para se
dobrar exclusivamente sobre os objetos interiorizados.
E n r im, outras teorias relativas à psicologia infantil se contra-
dizem i iobre este assunto. Contudo, nestes últimos anos a hipótese
de que o b e b é possa estabelecer desde o nascimento uma certa re-
lação c e objeto ganha terreno, o que viria confirmar as afirmações
kleinia ias.
A s >im, para Piaget, "o universo inicial [da criança no estádio
I I I , seg mdo o autor: entre o quinto e o d é c i m o m ê s ] é um mundo
sem ol jetos consistindo apenas em 'quadros' m ó v e i s e inconsis-
tentes i )ue aparecem e depois se desfazem totalmente, sem retor-
no, ou reaparecendo sob uma forma modificada ou a n á l o g a " . 9 Se
bem q le o contato se estabeleça com um ser idêntico mas que
troca c b lugares e estados, n ã o existe esquema de permanência no
nível c )gnitivo que faça supor a existência de um "objeto" inicial
76 MELANIE KLEIN

(este só será adquirido no estádio I V de Piaget, ou seja, entre nove


e dez meses). Henri Wallon, ao contrário, postula um subjetivismo
radical desde o nascimento, ao constatar o júbilo do b e b é em face
de sua imagem especular, assim como a imitação dos movimentos
faciais da m ã e . 1 0 Mais recentemente, G . - C . Carpenter afirma que
o b e b é de duas semanas é capaz de sintetizar as partes do corpo
materno numa imagem visual unificada e total, associada com ele-
mentos auditivos. 1 1 Trabalhos cognitivistas v ê m apoiar ativãmen-
te essas p o s i ç õ e s . 1 2 Entre os psicanalistas, Michael Balint aceita a
existência de uma relação de objeto p r i m á r i a . 1 3
N u m a perspectiva psicanalítica bem à sua maneira, e retraba-
lhando suas formulações no decorrer dos anos, Melanie K l e i n pos-
tula portanto a existência precoce de um "objeto" precocíssimo,
que c h a m a r á mais tarde, com grande prudência, uma "presença".
C o m e ç a d o s em 1919-21, compilados numa coletânea publicada
em 1932, seus trabalhos abriam j á esse caminho, mas é sobretudo
a descoberta, em 1934, da "posição depressiva" que consolida sua
c o n c e p ç ã o do objeto na criança. Entretanto, embora a posição pa-
ranóide tenha sido determinada em trabalhos anteriores, a formula-
ção, em 1946, de uma "posição esquizoparanóide", acompanhada
do conceito de "identificação projetiva", o todo colocado antes da
p o s i ç ã o depressiva, vai modificar sensivelmente sua teoria. A s
duas obras de Jean-Michel Petot 1 4 descrevem pacientemente essa
e v o l u ç ã o que n ã o podemos retomar aqui. N ó s nos limitaremos a
e s b o ç a r o essencial das concepções kleinianas tais como elas se
destacam do conjunto de seu percurso e a partir de seu acabamen-
to, em especial nos textos canónicos de 1952, que e x p õ e m a coe-
rência definitiva da doutrina. 1 5

2. Dentro/fora

K l e i n constata que, desde os primeiros dias de vida, a criança


é habitada pela angústia, exposta às pulsões destrutivas que a dei-
xam em perigo de desintegração. A q u i verifica-se a retomada, de
certa forma agravada, da n o ç ã o freudiana de "pulsão de morte".
Entretanto, segundo Freud, o inconsciente, bem como o bebé,
ignoram a morte. Melanie c o m e ç a a pensar com Abraham que a
agressividade infantil aparece somente na fase sádico-oral, admi-
O GÊh IO FEMININO 7
7

tindo i ortanto uma "fase oral pré-ambivalente". No estado defini-


tivo d( sua teoria, p o r é m , ela postula que o instinto de morte exis-
te des< e o nascimento:

Desde o início, a pulsão destrutiva se volta contra o objeto e se


ex irime em primeiro lugar nas fantasias de ataques sádico-orais con-
tra o seio da mãe, que se desenvolvem logo em assaltos contra seu
co po por todos os meios do sadismo. Os receios de perseguição
pr< venientes das pulsões sádico-orais do bebé que visam apropriar-
se dos conteúdos "bons" do corpo da mãe, e das pulsões sádico-
an is que visam largar nela seus excrementos (incluído aí o desejo
de entrar em seu corpo para controlá-lo do interior), têm uma gran-
de importância no desenvolvimento da paranóia e da esquizofrenia.16

E linda:

Muitas vezes exprimi minha idéia segundo a qual as relações


ob etais existem desde o início da vida, o primeiro objeto é o seio da
mi e, que se cliva para a criança em um seio "bom" (gratificador) e
un seio "mau" (frustrador). Esta clivagem culmina numa separação
do amor e do ódio. Indiquei em seguida que a relação com o primeiro
ob eto implica sua introjeção e sua projeção, e que assim, desde o
iní :io, as relações objetais são modeladas por uma interação entre a
inl ojeção e a projeção, entre os objetos e as situações internas e ex-
tei ias. Esses processos participam da construção do ego e do su-
pe ego, e preparam o terreno para o despertar do complexo de Édipo
na segunda metade do primeiro ano. 17

U i i a leitura atenta desses textos revela que, malgrado a utili-


zaçao ie termos como "objeto" e "ego", a autora se contenta em
estabe ecer, nessa etapa precoce do início da vida, uma distinção
entre < \entro e fora, interior e exterior. O ego precoce seria em
suma 1 em frágil, a ponto de se entregar, sob o impulso da angús-
tia-pul >ão de morte originária e do insuportável sentimento de ser
aband( nado pelo objeto (a m ã e ) , a vaivéns incessantes, projeção-
introje ;ão. Para se defender de ser o único alvo dessa destrutivi-
dade p imária, e para anular a separação, se despoja dela em parte
oriente ndo-a para fora. A s s i m fazendo, visa ao que se pode cha-
mar ur 1 quase-objeto, o seio, no sentido de que esse ego frágil n ã o
está verdadeiramente separado dele como o estará um "sujeito"
78 MELANIE KLEIN

de um "objeto", mas n ã o cessa de levá-lo para dentro e expulsá-lo


para fora, construindo-se-esvaziando-se enquanto constrói-esvazia
o outro. A onipotência fantasística da criança sobre a m ã e domina
essa dinâmica.
Como que para sugerir a instabilidade desse "objeto" primá-
rio, que seria o seio, K l e i n aplica retoques significativos à sua teo-
ria: a criança percebe muito cedo n ã o somente o seio como "objeto
parcial" do aleitamento, mas t a m b é m outras partes do corpo ma-
terno (voz, rosto, m ã o s , colo), toda uma " p r e s e n ç a " 1 8 corporal. O
holding e o handling da m ã e imprimem na criança uma "intimida-
de física" com o conjunto pelo menos "vago" de um outro — ou
melhor, de u m conteúdo19 — que está apenas em v i a de diferencia-
ç ã o com o eu. N ã o se fundamentará este numa "relação mal defi-
nida entre o seio e as outras partes ou os outros aspectos da m ã e " ? 2 0
A l é m disso, esse quase-objeto que é o seio primário, existindo
mesmo fora, onde o ego infantil o situa como exterioridade desde
o início da vida, n ã o é menos uma construção interna, uma ima-
gem interior, visto que é no ego frágil, construindo/desconstruin-
do o limite entre dentro e fora, que esse quase-objeto (ou objeto
em processo de constituição) se forma. D e imediato, portanto, o
objeto precoce da posição esquizoparanóide em K l e i n se constitui
se e somente se é um objeto interno, construído pela fantasia de
onipotência.
No entanto, esta interioridade n ã o tem nada de puramente pul-
sional nem de puramente especular. N ã o é somente a pulsão que é
projetada e introjetada (amor ou ódio, desejo ou destruição), mas
fragmentos do próprio b e b é (seus órgãos: boca, ânus etc., assim
como os produtos de seu corpo): K l e i n difere aqui de Freud. Por
outro lado, se o objeto interno depende do imaginário e manifesta
a p r e s e n ç a da fantasia no ego precoce, é igualmente constituído
de elementos substanciais e sensoriais: " p e d a ç o s " bons ou maus
do seio são postos no ego ou expulsos dele no seio da m ã e ; substân-
cias nutritivas, como o leite, ou excrementícias, como a urina e as
fezes, são projetadas e introjetadas. O objeto interno kleiniano é
um conglomerado de representações, de sensações e de substân-
cias: uma pluralidade, em suma, de objetos internos muito hetero-
géneos. Diferencia-se nitidamente do imaginário de Lacan, para
quem o narcisismo se consuma por intermédio do objeto, mas de
maneira privilegiada graças à captação amorosa do sujeito por
O GÉNIO FEMININO 79

sua imagem no espelho: ali onde ele se apreende como outro, sus-
tentado pela alteridade da m ã e j á colocada sob o signo do terceiro
falo. Ei ta alteração especular que, em Lacan, tem a vantagem de
a c e n t u í r o papel da função escópica na constituição do eu e do
objeto, mas t a m b é m e sobretudo de situar a relação dual na trian-
gulaçãc • dominada pela função simbólica do pai, se priva entre-
tanto da heterogeneidade11 que caracteriza ao contrário o objeto
interno e a fantasia kleinianos. U m a riqueza feita de imagens-sen-
sações-substâncias, cuja "impureza" teórica é compensada pela
fecundidade clínica: porque a complexidade do objeto interno,
segundp K l e i n , se revela indispensável para seguir as particulari-
dades da fantasia na infância assim como nos estados-limites ou
nas psifcoses
En: i m , esse universo precoce se edifica segundo um processo
de "discriminação" dentro/fora, bom/mau etc., que participa da
constru ção do ego/superego, a menos que seja esta última que a
prograi íia. 2 2 C o m a fragilidade do ego precoce sob a pressão da
pulsão de morte, e antes de abordar as operações específicas de
seu funcionamento, notemos esta aptidão para a distintividade
primária : ela parece fundamentar em K l e i n uma semiosis precoce
que se ipresenta como uma precondição inata à aquisição ulterior
do sim >olo. 23
Eis como, na análise de Rita, Melanie K l e i n assinala a cons-
trução io objeto interno na d i n â m i c a da angústia, da pulsão des-
trutiva e da culpabilidade, revelando os mecanismos da projeção
e da mjrojeçao:

. Rita, no decorrer de seu segundo ano, se fazia notar pelo arre-


peddimento que se seguia a cada uma de suas más ações, por míni-
ma que fosse, e por sua hipersensibilidade às repreensões [...]. E l a
ten ia o descontentamento de seu pai a ponto de se identificar com o
urs ). Sua inibição no jogo provinha igualmente de seu sentimento
de :ulpa. Já aos dois anos e três meses, quando brincava de boneca,
alíí s sem prazer, acontecia-lhe frequentemente dizer que não era a
mã i. A análise mostrou que ela não tinha o direito de ser a mãe,
poi }ue a boneca representava, entre outros, o irmãozinho que ela
tini a querido tomar de sua mãe durante a gravidez desta. A interdi-
ção não vinha da mãe verdadeira, mas de uma mãe introjetada que a
trai iva com infinitamente mais rigor e dureza. Aos dois anos apare-
cei! em Rita um sintoma de tipo obsessivo, um cerimonial da hora
80 MELANIE KLEIN

de deitar para dormir que consumia um tempo considerável. Consis-


tia essencialmente em exigir que as cobertas ficassem bem presas
sob o colchão, por medo, dizia ela, de que um rato ou um "Butzen"
entrasse pela janela para lhe arrancar com uma dentada seu próprio
"Butzen". [...] Um dia, durante sua seção de análise, ela pôs um
elefante ao lado da cama da boneca; ele deveria impedir que a bone-
ca se levantasse e entrasse no quarto dos pais e lhes "fizesse ou lhes
roubasse alguma coisa". O elefante desempenhava o papel dos pais
interiorizados, de cujas interdições ela não deixara de se ressentir
desde que pretendera, entre quinze meses e dois anos, substituir a
mãe junto ao pai, arrebatar-lhe a criança que estava com ela, ferir e
castrar os pais. Daí em diante o sentido do cerimonial ficava claro:
ela se fazia prender em sua cama a fim de não poder se levantar nem
realizar seus desejos agressivos contra os pais. Mas, como esperava
ser punida de maneira semelhante por eles, ela se fazia prender tam-
bém para se defender contra os ataques deles. Estes poderiam ter
sido, por exemplo, obra de um "Butzen", o pênis paterno, capaz de
lhe arruinar os órgãos genitais e de lhe cortar seu próprio "Butzen"
como castigo de seus desejos castradores [...].
Parece também evidente que essa angústia não se refere unica-
mente aos verdadeiros pais, mas ainda mais particularmente aos pais
introjetados, que são de uma severidade extrema. Nós nos achamos
em presença do que chamamos, no adulto, o superego [...]. A análi-
se das crianças de colo demonstra que o conflito edipiano se instala
desde a segunda metade do primeiro ano e que o bebé começa des-
de então a lhe modificar a estrutura e a edificar seu superego.24

3. A "posição esquizoparanóide":
clivagem e identificação projetiva

Desde esse texto clínico e antes da sistematização ulterior da


"posição esquizoparanóide", K l e i n assinala a função do ego de
"administrar a a n g ú s t i a " . 2 5 A o contrário de Freud, n ã o é o orga-
nismo, mas o ego, mesmo imaturo, que, segundo K l e i n , projeta e
introjeta a pulsão. O ego de R i t a sente um medo de aniquilamento
que o acomete como uma perseguição da parte de um objeto a que
sua angústia está ligada, objeto incontrolável e poderoso. Para se
defender dele, aparece um primeiro mecanismo: a clivagem. O
objeto é clivado em "bom" e "mau", o protótipo desta divisão
sendo o "bom seio", satisfatório, e o "mau seio", frustrante. A c l i -
o GÊN;O FEMININO 81

vagem se acompanha de outros movimentos ou mecanismos de


que mi#t cedo o ego é capaz: projeção, introjeção, idealização,
recusa A a m e a ç a sentida da parte desse objeto externo conduz
Klein ; falar nesta situação de uma "posição paranóide", que ela
26
modula em consequência dos trabalhos de Fairbairn cuja origi-
nalidad i ela reconhece mas para se diferenciar deles. Enquanto
Fairbaii n insiste na ligação do ego com os objetos, ela privilegia
a angus tia., e mesmo reconhecendo que a agressividade e o ódio
existeir desde o início da vida, n ã o esquece que o "bom" seio —
chamado por ela nesta posição o "seio idealizado" — existe j á
para o ^go em "posição esquizoparanóide", o "mau" seio n ã o sen-
do o um a ser internalizado; muito pelo contrário,
O conceito de " p o s i ç ã o " em Melanie K l e i n n ã o é portanto
nem un "fase", no sentido dos psicanalistas anteriores a ela, nem
uma strutura", no sentido moderno pós-linguístico do termo.
E l a pôde falar de " p o s i ç ã o " masculina, feminina, libidinal, oral e
outras - entendendo por isso a mobilidade ou a alternância de
um sitie psíquico, desafiando assim a cronologia estrita dos adeptos
das 5. Quando se cristaliza sob o aspecto de "posição esquizo-
paranóijd e" e "posição depressiva", o conceito designa uma espé-
cie de i strutura da vida afetiva — aparecendo num momento de
sua história e suscetível de recorrências no inconsciente — , " a
associa :ao regular de uma série de situações ansiógenas com uma
27
série d( mecanismos de defesa determinados".
ífica da "posição e s q u i z o p a r a n ó i d e " que K l e i n desco-
E s i ecífk
briu tar liamente,, em 1946, mas que coloca nos postos avançados
do dese nvolvimento,, a clivagem das qualidades operada no objeto
se exerce t a m b é m no interior do próprio ego. A violência do corte
em ' 'bom " e "mau" que é a clivagem protege o objeto, do qual
uma pane ao menos se acha assim aceita, e por isso mesmo prote-
ge o ego Entretanto, o "sadismo" em relação ao outro de que dá
testemiinho essa fratura n ã o p õ e totalmente em segurança o p r ó -
pno ego que, ao contrário, se acha, por meio da incorporação,
"em pen.igo de ser clivado segundo os fragmentos do objeto inte-
riorizado Por outro lado, se bem que essa clivagem interna e
externa seja de natureza fantasística, a criança n ã o deixa de senti-
la come "completamente real", de sorte que seus sentimentos, seus
objetos como ulteriormente seus pensamentos, são "cortados uns
dos oui os".
82 MELANIE KLEIN

Nada é tão simples, p o r é m , nesse universo dantesco. O "bom


seio", que se torna o núcleo do ego e garante sua solidez, está ele
t a m b é m recheado de armadilhas. Ligada à clivagem, a idealização
do seio leva ao exagero de suas boas qualidades para fazer barra-
gem ao temor do "mau seio" perseguidor. Se bem que corolário
do medo de perseguições, a idealização p r o v é m t a m b é m de dese-
jos pulsionais que aspiram a uma idealização ilimitada.
Ei-nos diante da alucinação infantil que K l e i n encara de ma-
neira bem diferente de Freud. Para este último, quando j á experi-
mentou uma quantidade suficiente de satisfações, o b e b é é capaz
de alucinar a satisfação, ou melhor, de senti-la mesmo que ela
esteja realmente faltando: fala-se então de uma "satisfação aluci-
natória do desejo". Para K l e i n , se o lactente é dominado pela posi-
ç ã o esquizoparanóide, n ã o é capaz de experiência da ausência, de
modo que a falta do bom objeto é vivida por ele como u m ataque
do m a u . 2 8 E l e procede, então, por clivar o objeto em bom e mau,
e negando tanto a frustração quanto a perseguição. A existência do
mau é então negada, mas, com ela, a realidade psíquica se acha
igualmente abandonada, j á que ela não é senão dor, e portanto m á .
E s t a recusa onipotente, maníaca, que engendra a gratificação alu-
cinatória infantil, equivale para o inconsciente a um aniquilamento
das situações dolorosas e t a m b é m das relações que as provocam e
do ego que as sofre. A recusa e a onipotência desempenham por-
tanto u m papel c o m p a r á v e l ao que será desempenhado pelo
recalque no desenvolvimento ótimo, enquanto se tornam fonte do
delírio de grandeza e de perseguição no esquizofrénico.
Todas as pulsões, tanto orais quanto anais e uretrais, partici-
pam desta lógica para ferir, controlar, possuir o objeto. Os múlti-
plos ataques e danos que são infligidos assim ao objeto interno
"culminam no sentimento de que o ego está em p e d a ç o s " , 2 9 e po-
dem ocasionar deficiências intelectuais no esquizofrénico. O u
então, sob o efeito do processo projetivo, eles podem dar a i m -
pressão de uma violenta irrupção do exterior no interior, de um
controle do psiquismo por outras pessoas, tais fantasias culmi-
nando então na paranóia.
Como sempre, enquanto inova radicalmente, K l e i n nos tran-
quiliza e se tranquiliza reconhecendo a autoridade de Freud. O
caso Schreber, que ela relê na companhia do mestre, lhe parece j á
analisado de maneira análoga à sua própria visão de uma posição
O GÊNI ) F E M I N I N O 83

esquizoèaranóide. N ã o é verdade que Schreber descreve a cliva-


gem da ilma de seu m é d i c o Flechsig primeiro como imagem ama-
da, depO lisS como imagem perseguidora, enfim como quarenta ou
sessent; divisões, Deus terminando por reduzir a vida da alma a
uma ou duas formas somente? Freud concluía que a divisão era
aquela ^ntre Deus e Flechsig, os quais representavam respectiva-
mente o pai e o irmão do paciente. K l e i n desenvolve e acrescenta
que as njimerosas almas de Flechsig n ã o eram apenas uma clivagem
do obj elo , mas t a m b é m a "projeção do sentimento de Schreber de
que seu eu estava c l i v a d o " : 3 0

s angústias e as fantasias acerca da destruição interna e da de-


sint gração do eu, ligadas a esse mecanismo, são projetadas sobre o
mui do exterior e servem de base ao delírio de sua destruição. 31

N ã o chega Freud às mesmas conclusões quando determina


que Sctfreber racionaliza seu sentimento de fragmentação interna
ao se d( screver "miraculado, concluído atabalhoadamente", e ao
especifitear que o " f i m do mundo" do paranóico é a "projeção
dessa a tástrofe interna"? Melanie K l e i n saúda — destaca em itá-
lico - a iperspicácia de Freud que abriu o caminho ao determinar
que além das perturbações da libido atuando sobre o ego, inversa-
mente, is "modificações anormais do ego [podem] desencadear
perturh ições secundárias ou induzidas em processos libidinais. De
fato, é trovável que processos dessa ordem constituam o caráter
2
distinthh da psicose"? Mais p r ó x i m o ainda de Melanie, Freud
nota qui \ essas perturbações se situam "em alguma parte no início
da evolução primitiva que v a i do auto-erotismo ao amor do obje-
to". 3 3 comentários freudianos legitimam em suma a posição
esquizoparanóide inventada por Melanie, assim como a identifica-
çao pro etiva que se tornam desde então, para nossa teórica, par-
tes inte grrantes do freudismo.
Suas novas concepções elucidam, entre outras, formas pertur-
badoras das defesas esquizóides e paranóides que Melanie K l e i n
tinha ottservado anteriormente, mesmo em pacientes n ã o psicóti-
cos: a h Dstilidade isolada ou a falta aparente de angústia alardeada
como i j n a indiferença. Quando um paciente assegura que com-
preende o discurso de seu analista, mas que isso n ã o "tem signi-
ficação para ele", Melanie K l e i n entende que os aspectos de sua
84 MELANIE KLEIN

personalidade e das e m o ç õ e s que ele sente são clivados e afasta-


dos. E l a interpreta então sua agressividade para com o analista
(pensando numa agressividade análoga sentida para com a m ã e ) ;
em resposta, o paciente baixa a voz e se diz "desligado" do con-
junto da situação. Tantos signos, para K l e i n , do medo que ele tem
de perdê-la, mas que em vez de exprimir por um sentimento de
culpa ou por um desgosto, ele tapa com a clivagem. Apesar disso,
as interpretações da analista mudaram o humor do paciente; ele
acaba por ter "fome" e diz isso à sua terapeuta no decorrer da
sessão. O aparecimento do afeto de apetite indica que a introjeção
se p ô s em marcha sob o impulso da libido: o paciente c o m e ç a a
viver mais plenamente a ambiguidade de suas pulsões, tanto posi-
tivas quanto negativas. U m a síntese da clivagem está em curso, o
que enfraquece os fenómenos esquizóides, mas aumentando num
primeiro momento a depressão e a angústia.
U m outro caso de Melanie K l e i n , o de M . A . , expõe o mecanis-
mo essencial desta posição esquizoparanóide que ela conceptuali-
za tardiamente, lembremo-lo ainda uma vez, e que descrevemos
neste momento. 3 4 Esse homossexual de trinta e cinco anos, sofren-
do de impotência e de neurose obsessiva com traços paranóides e
h i p o c o n d r í a c o s , acaba por religar, no curso da análise, seu temor
das mulheres às fantasias em que v i a sua m ã e em coito interrom-
pido com seu pai. Sua energia se esgota em espiar os pais, sua
m a s t u r b a ç ã o está ligada a cenas fantasísticas em que os pais se
autodestroem. E l e teme o pênis paterno, o que faz mal ao mesmo
tempo a suas posições heterossexual e homossexual. Identificado
com a m ã e , ele a vê como essencialmente m á , e exprime esse
temor ao assimilar as palavras da analista a excrementos tóxicos,
ou ao imaginar que é o pai que fala por sua boca. M . A . havia
chegado a uma "introjeção muito precoce de uma m ã e tóxica e
t e m í v e l " que entravou a formação de uma boa imago materna, de
tal modo que esta n ã o podia ser um recurso contra a a m e a ç a do
pênis paterno. Os temas de envenenamento e perseguição se de-
senvolvem consequentemente, culminando na síndrome hipocon-
dríaca:

O s d i s t ú r b i o s d a p o t ê n c i a v i r i l se r e l a c i o n a v a m c o m o m e d o do
corpo perigoso d a m ã e , m a s t a m b é m c o m o medo de arruinar a m u l h e r
c o m seu " m a u " p ê n i s e de ser i n c a p a z de restabelecer sua integrida-
O GÊNI ) FEMININO 85

de n ) curso das relações sexuais [...]. A análise deste caso demons-


tra b em como o corpo da mulher se torna ansiógeno, à custa de seu
atrai vo heterossexual, por deslocamento para a mãe do ódio e da
angi stia primitivamente ligados ao pênis do pai. 3

A identificação projetiva, conceito central desta parte da teo-


ria kleir iana, aparece-nos portanto como a projeção das partes de
si num Dbjeto para tomar posse deste último: o seio da m ã e , o
pênis dc pai c o n t ê m neles mesmos a violência do ataque e da c l i -
vagem ( ue os projeta fora do ego como maus.

a pode conduzir a que o objeto seja percebido como tendo


adqi irido as características da parte do si projetada nele [a mãe é
má orno o é M.A., que a inveja], mas pode também conduzir o si a
se identificar com o objeto de sua projeção/

M se comporta como "mau", isto é, feminino e doente, ho-


mossex al e hipocondríaco. A identificação projetiva patológica
é a consiequència "de uma desintegração m í n i m a do si, ou de par-
tes de s , que são então projetadas no objeto e desintegradas por
sua vez o resultado disso é a criação de 'objetos bizarros' [no sen-
37
tido de i o n ] " .
Coi|ipreende-se assim que se o objetivo da identificação pro-
jetiva e se d e s e m b a r a ç a r da parte indesejável de si, ameaçadora
porque esintegrada pela pulsão de morte, e isto em proveito de
uma 1 e r s ã o das identidades, ela redunda em destruir o objeto,
em i esví z i a lo para possuí-lo. Mas se a identificação projetiva de-
volve ao outro as boas partes do eu frágil para assim colocá-las
em segurança, pode ela culminar numa idealização do objeto que,
excessita conduziria por sua vez à desvalorização do eu. Nos
dois cas os , a identificação projetiva rege uma estrutura narcísica,
porquanto o objeto é internalizado interiormente e despojado de
suas qualidades próprias exteriormente, sendo a identidade assegu-
rada à c Lista de um escoramento no outro. Neste sentido, a "estru-
tura naipísica", segundo Melanie K l e i n , está fundamentada nesse
refluxo io objeto a si, o que empobrece o eu, o torna incapaz de
amor e le transferência, o reduz a uma "simples concha que abri-
38
ga esses objetos internos". E l a se distingue, desde então, dos "es-
tados Urcísicos", que são estados de identificação com um objeto
86 MELANIE KLEIN

ideal interno, e evocaria o auto-erotismo de Freud. Se a clivagem


original é o primeiro passo para diferenciar, a identificação proje-
tiva é o primeiro passo para se ligar ao mundo exterior. 3 9 Esta
etapa pode ser dolorosa e insatisfatória se fracassa como defesa,
mas se se instala como projeção de um eu frágil, se pereniza em
estrutura psicótica.
Esses múltiplos valores da identificação projetiva fazem dela
uma n o ç ã o de dupla aplicação. De um lado, ela descreve os esta-
dos patológicos e principalmente a psicose maníaco-depressiva
ou o delírio somático. Mas, de outro lado, o jogo perpétuo de pro-
jeção-introjeção constitui o que Florence Guignard chama de uma
"respiração psíquica", desde que seu campo reveste uma normali-
dade, até mesmo uma universalidade. 4 0 Como afirma Guignard,
só a problemática do luto e das identificações edipianas bem-suce-
didas escapa ao império da identificação projetiva. 4 1 D e fato, a
hipótese de Melanie K l e i n de uma identificação projetiva na crian-
ça de peito é indemonstrável, salvo se se admite, com B i o n e em
contrapartida, que toda vida psíquica nasce graças ao auxílio de
uma outra vida psíquica que utiliza sua identificação projetiva
para "imaginar" a existência de um psiquismo no r e c é m - n a s c i d o .
Levando este raciocínio ao extremo, poder-se-á dizer que é em
suma a identificação projetiva da m ã e — e do analista — que
confirma a normalidade — ou a anormalidade — da identificação
projetiva na qualidade de campo universal estimulador do psi-
quismo; se bem que os sintomas psicóticos, por outro lado, lhe
e n d u r e ç a m a lógica para fazer dele um gerador de sintomas.
A m ã e : uma esquizoparanóica tranquilizada que brinca com
a identificação projetiva? C o m efeito, tanto o funcionamento fan-
tasístico em seu conjunto quanto o nascimento da simbolização
secundária, sobretudo o da linguagem, e enfim a própria interpre-
tação analítica são afetados pela identificação projetiva que está,
de resto, no centro do próprio processo interpretativo. E i s aí, em
todo caso, uma hipótese, dolorosa de verdade, para ser meditada
pelas mães... e pelos psicanalistas.
Para retornarmos, p o r é m , à sua ocorrência primária tal como
a constata Melanie na posição esquizoparanóide, a identificação
projetiva nos persuade — se isso fosse necessário — da instabili-
dade das relações e das identificações nesta fase, ou nesta moda-
lidade, do psiquismo. A própria noção de objeto perde muito de
O GÊNI ) FEMININO 87

sua pertinência nesse v a i v é m fluido dos fragmentos expulsos ex-


teriorme nte e integrados interiormente.
Des ie logo, em face da incerteza das identidades que o liame
arcaico do eu com o outro especifica, falar de um abjeto, antes
que de e go e de objeto já-aí, seria talvez mais pertinente. O futuro
sujeito s e constitui numa dinâmica de abjeção cuja face ideal é a
fascinaç lo. E se ele se dá imediatamente uma "presença" de ou-
trem que ele interioriza enquanto o expulsa, não é de um objeto
que se ttata, mas, na verdade, efetivamente, de um a-bjeto: enten-
damos dste " a " no sentido privativo do prefixo, negativando o obje-
to tanto quanto o sujeito em v i a de acontecer. Sujeito e objeto que,
como ta is, só se cristalizam com a "posição depressiva", segundo
K l e i n , o u antes, rigorosamente, com a experiência da castração, a
consecução do É d i p o e a aquisição criadora da linguagem e do
pensamento.
Antès da constituição do triângulo edipiano que separa os pro-
tagonist is familiais, um trio sempre edipiano, mas fundado por
enquant 3 sobre a incerteza identitária dos protagonistas (digamos:
sobre se u inconsciente narcísico inobjetal), se deleita de fato na
posição esquiz»oparanóide segundo Melanie K l e i n . Como na onda
de uma tira de M õ b i u s " , cuja característica é ser sem limites, o
futuro sujeito se deixa constantemente deportar para o "a-bjeto"
(lado mae ) e para a "identificação primária", com o "pai da pré-
história individual" (lado pai amado/amante, pai pré-edipiano),
que posf uii aliás as características de ambos os pais. Figura da fas-
cinação tanto quanto da abjeção, esse estado narcísico da relação
objetal >recoce, que se designa como um abjeto e uma abjeção,
interpel; i a l é m da patologia, as experiências-limite da sublima-
ção: as sagradas e as místicas tanto quanto os riscos da arte mo-
derna. 4 2 Melanie K l e i n abriu caminho para uma tal c o m p r e e n s ã o
do objel o arcaico, mas com a condição de reinscrever seu génio
numa e plicação da função simbólica do pai tal como se esboça
no Édif^ segundo Freud e no Nome-do-Pai segundo Lacan, e que
falta na matriarca.
88 MELANIE KLEIN

A.Aposiç^epre^a:
objeto total, espaço psíquico, reparação

No entanto, é somente a partir da "posição depressiva" que se


p o d e r á estabelecer, seguindo a teoria kleiniana, uma relação sufi-
cientemente estável e satisfatória com o objeto, no sentido de que
ela dará lugar à simbolização e à linguagem, que designarão um
objeto para o eu. Melanie K l e i n introduz a "posição depressiva"
em 1934, depois lhe d á sustentação e precisão nos textos de 1940,
1948 e 1952, 4 2 ao mesmo tempo que a coloca na evolução da crian-
ça após a "posição esquizoparanóide" que só é formulada por ela
em 1946.
B e m mais organizadora da vida psíquica do que o É d i p o freu-
diano, a "posição depressiva" é uma invenção teórica que Melanie
formula depois de um luto que a devasta. C o m efeito, em abril de
1934, Hans K l e i n , seu filho mais velho, morre num acidente de
montanha. Trabalhando numa fábrica de papel fundada por seu
a v ô paterno, ele adora passear na floresta nos Tatras h ú n g a r o s ,
quando um dia se produz um desmoronamento sob seus p é s , pre-
cipitando-o numa queda mortal. O choque sofrido pela m ã e é tal
que ela se v ê incapacitada de comparecer aos funerais em Buda-
peste, e fica em Londres. Pensa-se a princípio que se trata de u m
suicídio, mas E r i c Clyne nega categoricamente esta hipótese, e a
própria mulher de Hans afirma que ele tinha superado suas ten-
dências homossexuais e suas angústias. Apesar disso, "tudo o que
diz respeito a Hans permanece numa obscuridade perturbadora". 44
O X I I I Congresso Internacional de Psicanálise se realiza em Lucer-
na, de 26 a 31 de agosto do mesmo ano, e a m ã e enlutada, que n ã o
tinha assistido às exéquias de seu filho, se desloca no entanto para
lá a f i m de apresentar sua "Contribuição ao estudo da p s i c o g ê n e -
se dos estados m a n í a c o - d e p r e s s i v o s " , que apresentará t a m b é m
perante a Sociedade Britânica, em 1935. Estes dois acontecimen-
tos, o luto do filho e a invenção da "posição depressiva", estão
indubitavelmente ligados: a conferência dá conta do trabalho psí-
quico do luto ao mesmo tempo que contribui para sua elaboração.
Tornam-se conhecidos d a í por diante os traços principais da
"posição depressiva", segundo K l e i n : a novidade essencial, em
relação às teorias psicanalíticas anteriores, consiste em que a par-
tir de seis meses a criança é capaz de experimentar a perda de um
O GÊN: 3 FEMININO 89

objeto / ital (a própria m ã e e n ã o mais o objeto parcial que foi o


seio), g aças à redução das clivagens, e que esta experiência da
perda é consecutiva à introjeção desse objeto:

(!om efeito, a perda do objeto não pode ser sentida como uma
perdft total antes que ele seja amado como um objeto total [as a
vhc le].45

Está m u d a n ç a psicológica é possível em razão da maturação


neurobi Dlógica que contribui para uma melhor síntese das per-
cepções e para o desenvolvimento da m e m ó r i a : tendo percebido a
m ã e coi no um ser unificado ou total, o b e b é pode se lembrar das
satisfaç tes que ela lhe proporcionou, mesmo nos momentos em
que sen tiu frustrações. Paralelamente, graças à maturação psico-
motriz, ao desenvolvimento cognitivo e à aquisição da marcha, o
bebé antecipa a existência da m ã e fora de seu campo perceptual,
numa si ila vizinha, por exemplo, e v a i ter com ela (quarto trimes-
tre de sua vida). Trata-se, pois, de um reconhecimento da m ã e
total, "t oa e m á ao mesmo tempo, mas una e diferente" dele como
dos out os membros da família: o pai para começar, os irmãos e
as irmãs em seguida. Este reconhecimento da m ã e como pessoa
inteiran tente à parte v a i junto com a integração correlativa do eu:
ele tam tem sentido como total. No interior como no exterior, os
bons e c s maus objetos se aproximam à medida que se distinguem,
são tam tem menos deformados, a projeção diminui, a integração
aumenfc L a separação do eu e do outro se torna mais tolerável.
Certamente, para essa descoberta, K l e i n se inspira em posi-
ções de Abraham que n ã o somente havia distinguido entre "obje-
to parcial" e "objeto total", mas t a m b é m , desde 1923, postulava
uma "contrariedade original" (Ur-Verstimmung) na infância, que
servia d i modelo à melancolia ulterior, ao unir esta Ur-Melancholie
infantiljdo erotismo o r a l . 4 6 Aluna atenta, Melanie n ã o é nisto me-
nos ino) dadora: para Abraham, as fases oral e anal são narcísicas,
ao pass) que K l e i n situa a relação de objeto desde a fase sádico-
oral e, »or outro lado, faz emergir o objeto total a partir da ambi-
valênci i e da angústia depressivas, ao fazer da "fase" ou sintoma
dito "di p r e s s ã o primária" (primai depression) em Abraham uma
"posição central" que organiza toda a vida psíquica.
Ent 'etanto, como sempre nesta analista, o ganho psíquico não
90 MELANIE KLEIN

passa sem inconvenientes. U m a nova aflição se perfila: a criança


descobre sua dependência para com a m ã e na qualidade de pes-
soa, e seu c i ú m e em relação aos outros; às angústias paranóides
da p o s i ç ã o anterior sucedem as angústias depressivas novas. N a
posição esquizoparanóide, o b e b é temia ser destruído pelos maus
objetos que havia projetado fora; na posição depressiva, experi-
menta uma ambivalência:

E não é somente a violência do incontrolável ódio do sujeito que


põe o objeto em perigo; é também a violência de seu amor. Porque,
nesta fase de seu desenvolvimento, o fato de amar um objeto e de o
devorar são inseparáveis. O recém-nascido que acredita, quando sua
mãe desaparece, tê-la comido e destruído (seja isto por amor ou por
ódio) é torturado pela angústia por causa dela, bem como a respeito
da boa mãe que ele não tem mais por tê-la absorvido.47

Guardando a lembrança de um bom objeto, a criança experi-


menta em relação a ele uma nostalgia comparável ao luto; mas, j á
que esse amor é, na fase oral, um amor de devoração, fortemente
conotado de pulsão sádica, ao sentimento de perder o bom se j u n -
ta a culpa de o ter destruído ao assimilá-lo: a "experiência depres-
siva característica" proviria do "sentimento de ter perdido o bom
objeto em razão de sua própria capacidade de d e s t r u i ç ã o " . 4 8 Os
temores do talião, que eram específicos na posição esquizopara-
nóide, sobrevivem, mas se misturam agora ao novo sentimento de
culpabilidade. E s s a imbricação das duas posições e a prevalência
oral explicam os distúrbios alimentares do b e b é no decurso desse
p e r í o d o , bem como as angústias hipocondríacas na criança e tam-
b é m no adulto: o paranóico teme ser envenenado por objetos exte-
riores (alimentares) nos quais projetou sua agressividade, ao passo
que o deprimido hipocondríaco teme por seus órgãos, que represen-
tam os objetos internos e devem ser continuamente vigiados, pro-
tegidos e cuidados. 4 9
N a nova dinâmica psíquica introduzida pela posição depres-
siva, o b e b é descobre sua própria realidade psíquica: c o m e ç a a
distinguir entre a realidade exterior e suas próprias fantasias e
desejos; sua crença na onipotência do pensamento, que o caracteri-
zava antes (e que pertenceria antes à magia que a um pensamento
propriamente dito), se modifica: a distinção entre as coisas reais e
O GENI 3 FEMININO 91

seus sm tbolos se torna possível, primícias da aquisição da lingua-


50
gem.50 ^ posição depressiva aparece, portanto, como a condição
ao acesso às idéias, e os leitores de Em busca do tempo
perdidokabem j á que esta hipótese kleiniana encontra um cúmpli-
ce ínesiI erado em... Mareei Proust, para quem "as idéias são suce-
51
dâneos i a a f l i ç ã o " .
Simultaneamente, e estabelecendo no fundo de si um bom ob-
jeto, o r gime do superego infantil muda. A severidade do superego
melanci >1ico é tremenda, mas difere daquela da posição esquizo-
paranói lie. A o s ataques dos maus objetos da posição precedente
vem se juntar agora a "necessidade premente de satisfazer as ne-
c e s s i d a í e s básicas de 'bons objetos'", os quais, p o r é m , perma-
necem ncertos e podem se transformar facilmente em "maus'
Atormehtado por "exigências interiores contraditórias e impossí-
veis" — - situação sentida sob a forma de " m á consciência" — , o
ego é assaltado por "remorsos de consciência":

I stas exigências rigorosas contribuem para sustentar o ego em


luta contra seu próprio ódio incontrolável e a agressividade de seus
mai s objetos, com os quais ele em parte se identifica. Quanto maior
é a: mgústia de perder os objetos amados, maior é a luta do ego para
sal\ á-los; quanto mais penosa se toma a tarefa de restauração, mais
rige rosas se tomam as exigências próprias do superego.52

C o á t u d o , certos aspectos tirânicos ou monstruosos dos pais


que co] istituíam esse superego arcaico perseguidor são d a í por
diante Í bandonados em proveito de um objeto total que é agora
amado, ainda que de maneira ambivalente. Deixando, portanto,
de ser s >mente fonte de culpa, o superego se toma t a m b é m fonte de
amor, e u m aliado possível do ego.
Qui \ defesas continuam ainda à disposição do j o v e m ego para
se proti ;ger da ambivalência (amor e ódio) que caracteriza essa
posição depressiva? E m vez da clivagem, da idealização, da expul-
são e di i destruição, que encontramos quando da posição esquizo-
paranói ie, são defesas maníacas que se instalam. E m continuidade
com as precedentes, elas t ê m todavia isto de novo: visam controlar
de man ríra onipotente o objeto condenado à perda, e isso de um
modo ti iunfante e desdenhoso. Inicialmente essas defesas maníacas
n ã o sãc| patológicas e desempenham um papel positivo no desen-
92 MELANIE KLEIN

volvimento ao protegerem o ego do desespero radical, tanto mais


que a reparação — o outro mecanismo que favorece a resolução
do luto na posição depressiva — é lenta em sua atuação.
A mania utiliza as mesmas lógicas que tinham aparecido na
posição precedente: clivagem, idealização, identificação projetiva,
recusa; só que agora essas lógicas estão extremamente organiza-
das, o ego está mais integrado, e elas estão dirigidas menos contra
o objeto perseguidor que contra a angústia depressiva e a culpabili-
dade. Tendo como alvo as próprias sensações, visam o sentimento
de dependência: assim, para se defender da ambivalência, o ego
c l i v a o mundo interior e o mundo exterior, chegando até a negar o
p r ó p r i o mundo interior e toda relação possível (no mecanismo de
recusa do mundo interior e de seu vínculo com o mundo exterior
seria possível diagnosticar a fonte psíquica mesma do "anarquis-
mo" social e do "eu solitário"). U m sentimento de onipotência se
instala, aparentado à posição esquizoparanóide e apoiado sobre o
mecanismo da negação (no sentido de Helene Deutsch, reinter-
pretado por K l e i n ) : a primeira negação visando a própria angústia
e, por conseguinte, a realidade psíquica onde ela se produz. 5 3 O
m a n í a c o se mostra indiferente, visto que suas defesas são dirigidas
a priori contra a realidade psíquica que ele pretende anular, e, se o
sujeito se acha em análise, atacam o próprio objetivo da análise
tentando paralisar o analista. Simultaneamente, o ego m a n í a c o i n -
flige ao objeto interno ou externo um triplo tratamento: controle,
triunfo e desprezo. Nega assim a importância que t ê m para ele
seus bons objetos, e os desvaloriza e rebaixa, seu desinteresse
sendo o índice de seu sentimento de onipotência sobre um outro
anulado. 5 4
U m a outra novidade aparece entretanto com a posição depres-
siva, que v a i favorecer a criatividade: o sentimento de depressão
mobiliza o desejo de reparar os objetos. Crendo-se responsável
pela perda de sua m ã e , o b e b é imagina t a m b é m que, com seu
amor e seus cuidados, poderia anular os malefícios de sua agres-
são. " O conflito depressivo é uma luta constante entre a destruti-
vidade do b e b é e seu amor e suas pulsões reparadoras." 55 Para
fazer face ao sofrimento depressivo devido ao sentimento de ter
danificado o objeto externo e interno, o b e b é se esforça por repa-
rar e restaurar o bom objeto e, para fazer isso, aumenta seu amor:
" O reaparecimento da m ã e e seu amor [...] são essenciais nesse
O GÊN O FEMININO 93

processo [...]. Se a mãe não reaparece ou se seu amor não se ma-


terializ i, o bebé pode se ver à mercê de seus temores depressivos
e perse cutórios." 56
Reparação, sem dúvida, mas não idílica, porque ela se colore
de des( spero:

'. i um objeto "perfeito" que está em pedaços; o esforço de re-


constituição supõe portanto a necessidade de fabricar um objeto belo
e " f erfeito". Se a idéia de perfeição é tão constrangedora, é também
porque refuta a de desintegração.

Com efeito, a sublimação tem a rude tarefa de salvar "os pe-


daços í que foi reduzido o objeto amado", por um supremo "es-
forço para reuni-los [...]. Parece que o desejo de perfeição cria
raízes 110 medo depressivo de desintegração". 57
Compreende-se melhor agora a dificuldade do trabalho psí-
quico c ue se propõe ao bebé quando da posição depressiva, assim
como i dificuldade do luto que tinha surpreendido Freud em seu
estudo Luto e melancolia: por que, efetivamente, é tão difícil acei-
tar que a pessoa amada não existe mais na realidade? Melanie
Klein r ísponde esclarecendo que o trabalho do luto tem por objeto
não a f essoa real, mas o objeto interno, e que isso implica a ne-
cessidãde de superar a regressão aos sentimentos paranóides e
tambén l às defesas maníacas, para somente assim estar apto a res-
taurar i m mundo interior vivo e suportável. 58 Trata-se de suportar
a ausên cia do objeto externo sem retornar à identificação projetiva.
Esta experiênca penosa é portadora, bem sabemos, de um be-
nefício considerável: a dor da perda, o sofrimento do luto, bem
como is pulsões reparadoras que superam as defesas maníacas,
culmin im na reconstrução — isto é, na simbolização — do objeto
perdidc interno e externo, e é assim que eles estão no fundamento
da criai ividade e da sublimação. Se é verdade, como pensa Freud,
que a s nblimação resulta de uma renúncia bem-sucedida ao obje-
tivo da pulsão, com um resquício de pulsão de morte, Melanie
Klein a crescenta que uma tal renúncia se perfaz pelo processo do
luto, cc m um resquício de pulsão de vida. O acento incide sobre o
aspectc criador da posição depressiva: em vez de reagir por meio
de defe sas maníacas, se o ego é capaz de reparar o objeto perdido,
pode se empenhar numa obra criadora que contém a dor e todo o
MELANIE KLEIN

trabalho de luto, em benefício do engendramento do símbolo.


"Creio que este objeto assimilado se torna um símbolo no interior
do ego. Cada aspecto do objeto, cada situação que deve ser aban-
donada no processo de crescimento dão lugar à formação de sím-
bolos." 59
O papel "central" atribuído à posição depressiva 60 modula sen-
sivelmente a concepção do complexo de Édipo, segundo Klein.
No início de seus trabalhos, o Édipo está presente de imediato; ele
se desencadeia quando o ódio está em seu apogeu, de sorte que,
no menino como na menina, a ligação primordial com o seio visa
também ao pênis paterno, habitante fantasístico do corpo da mãe.
Depois, com a descoberta da posição depressiva, Melanie muda
de opinião. E l a sustenta daí por diante que o complexo de Édipo
começa com a instalação da posição depressiva, da qual é uma
parte intrínseca. Assim os pais são a partir daí percebidos separa-
damente e não mais como pais combinados, e o casal forma bons
objetos totais: a criança lhes destina suas fantasias ambivalentes,
sobretudo quando estão unidos no coito. Não é portanto o medo
da castração, da afanise e da morte que leva a criança a renunciar
a seus desejos edipianos (como pensa Freud), mas — bem antes
da fase genital — a ambivalência própria da posição depressiva
(amor aos pais e medo de prejudicá-los com uma agressividade
destrutiva sempre presente). Se escapa às defesas maníacas, pela
reparação, pode dominar seus desejos edipianos e transformá-los
em criatividade. Assim, pelo meio indireto da reparação se cum-
pre enfim o trabalho do luto. E m caso de fracasso deste último,
instalam-se os estados maníaco-depressivos patológicos:

O maníaco-depressivo e aquele que falha no trabalho do luto,


embora suas defesas possam estar muito afastadas umas das outras,
têm em comum não ter podido, em sua primeira infância, estabele-
cer seus "bons" objetos internos e se sentir em segurança em seu
mundo interior.61

Vista à luz da posição depressiva, a tarefa da resolução do


Édipo aparece como devendo instituir de maneira estável, no cen-
tro do ego, um bom seio (uma boa mãe), um bom pai e um bom
casal criador. Tarefa de introjeção de dois sexos, de dois outros,
que se realiza no sofrimento próprio da elaboração depressiva. A
O GÊNJO F E M I N I N O 95

diferença dos sexos é colocada no horizonte da posição depressiva,


e ainda que Klein não insista nisso, a distinção feita pela criança
entre oi dois protagonistas do casal anuncia que o acesso à hete-
rossexilalidade seria uma resolução ótima da posição depressiva.62
A dificuldade psíquica que este trabalho implica é considerável e
explica seus malogros, notadamente pela formação de "barreiras
de defesas" (clusters of defenses) que protegem a criança do sofri-
mento depressivo, mas ao preço de uma regressão esquizopara-
nóide cmie impede o desenvolvimento intelectual.
Decididamente, tudo se inverte em seu contrário neste Purga-
tório kleiniano que ilumina entretanto o Paraíso da sublimação.
Uma sublimação sempre suscetível de um melhor desenvolvimen-
to, graças principalmente à análise. E , um pouquinho apesar de
tudo, graças aos cuidados maternos satisfatórios...

NOTAS

1. M e l á i i e Klein, "Les origines du transferi' (1952), em Le Transferi et autres


écrit, op. cit, p. 19; grifos nossos.
2. Será )osto em perspectiva este já-aí do objeto em Klein com a insistência de
Hamfah Arendt, em seu debate com o solipsismo platónico de Heidegger,
sobr$ o ser-no-mundo como um inter-esse, como uma aparecer-aos-outros
nas g a ç õ e s da polis, pensada conforme Aristóteles; cf Julia Kristeva, Le
Geni féminin, t. 1: Hannah Arendt, Fayard, 1999, pp. 22, 33, 187, 222,
297, 370 [O génio feminino, t. 1: Hannah Arendt, R i o de Janeiro, Rocco,
200:
3. Sigmund Freud, "Pour introduire au narcissisme", G W, t. X , pp. 138-170; S
XIV, pp. 67-102, trad. fr. em La vie sexuelle, P U F , 1969, pp. 81-105.
4. Signtund Freud, "Un souvenir d'enfance de Léonard de Vinci", G W, t. V I I I ,
pp. 28-211; S E, t. X I , pp. 57-137, trad. fr. Gallimard, 1927; reed. col.
"Idées 1977; "Remarques psychanalytiques sur 1'autobiographie d'un cas
de paranóia: Dementia Paranoides (le président Schreber)", G W, t. V I I I , pp.
240 16; S E, t. X I I , pp. 1-79; e "Extrait de 1'histoire d'une névrose infantile
(V I4mme aux loups)", G W, t. X I I , pp. 29-157; S E, t. X V I I , pp. 1-122, trad.
fr. em Cinq Psychanalyses, P U F , 1954, pp. 263-324 e pp. 325-420.
5. Cf ses desenvolvimentos comentados por Hanna Segal e David B e l l ,
TháDry of narcissism in Freud and Klein", em J . Sandler, S. Persone e P.
F o n á g y (org.), Freuds "On Narcissism: an Introduction", New Haven e
L o n y e s , Yale University Press, 1991, pp. 149-174.
96 MELANIE KLEIN

6. Cf. principalmente Jean Laplanche e J . - B . Pontalis, Vocabulaire de la


psychanalyse, P U F , 1967, p. 263.
7. Ibid.
8. " O narcisismo do E g o será então, como diz Freud, narcisismo secundário
escamoteado aos objetos — implica o desdobramento do sujeito, tomando o
lugar do auto-erotismo como situação de auto-suficiência. O narcisismo pri-
mário é, nesta perspectiva, Desejo do U m , aspiração a uma totalidade auto-
suficiente e imortal cuja c o n d i ç ã o é o auto-engendramento, morte e n e g a ç ã o
da morte ao mesmo tempo." E m André Green, Narcissisme de vie, narcissisme
de mort, Éd. de Minuit, 1983, p. 132.
9. Cf. Jean Piaget, Bôrbel Inhelder, La Psychologie de Venfant, P U F , 1966, p.
15, citado por Jean-Michel Petot, Melanie Klein, le moi et le bon objet,
1932-1960, Dunod, 1982, pp. 121-122.
10. Henri Wallon, Les Origines du caractere chez Venfant: les préludes du sen-
timent de personnalité, Paris, Boivin, 1934, reed. Quadrige, P U F , 1993, e
Jean-Michel Petot, op. cit., p. 277.
11. Ç f G . - C . Carpenter, "Mother's face and the new born", em R . L e w i n , Child
Alive, Londres, Temple Smith, 1975, citado por Jean-Michel Petot, op. cit.,
p. 269.
12. Cf. infra, p. 169, nota 19.
13. "Les premiers stades du d é v e l o p p e m e n t du moi. Amour d'objet primaire"
(1937), em Amour primaire et technique psychanalytique (1965), trad. fr.
Payot, 1972.
14. Melanie Klein. Premières découvertes et premier système, 1916-1932, Dunod,
1979, e Melanie Klein. L e moi et le bon objet, 1932-1960, Dunod, 1982.
15. Cf. Melanie Klein, Paula Heimann, Susan Isaacs, Joan Riviere, Développe-
ments de la psychanalyse (1952), P U F , 1966.
16. C f Melanie Klein, "Notes sur quelques m é c a n i s m e s schizoídes" (1946), ibid.,
p. 275; grifos nossos.
17. Ibid., grifos nossos.
18. C f Melanie Klein, " L a vie é m o t i o n n e l l e des bébés", ibid., pp. 188 e 190.
19. Segundo a expressão de W . R . Bion que distingue um c o n t e ú d o (o que se
projeta) de um continente (o objeto que c o n t é m ) , esta dinâmica sendo corre-
lata à formação de um "aparelho de pensar os pensamentos". C f Aux sources
de Vexpérience (1962), trad. fr. P U F , 1979, p. 110. O espírito do analista
como "continente" na transferência/contratransferência é desenvolvido em
Wilfred Ruprecht Bion, LAttention et ITnterprétation (1970), trad. fr. Payot,
1974. C f t a m b é m "Travail de contre-transfert et fonction contenante", Revue
française de psychanalyse, t. L V I I I , 1994.
20. Cf. Melanie Klein, Envie et gratitude (1957), op. cit., pp. 15-16.
21. Sobre a heterogeneidade pulsão/sentido, cf. Julia Kristeva, La Révolution
du langage poétique, Seuil, 1974, t. I I I : UHétérogène, pp. 151 sq.; André
Green, " U h é t é r o g é n é i t é du signifiant linguistique", em Le Discours vivan,
P U F , 1973, pp. 326 sq.
22. Voltaremos a tratar disso; cf. infra, cap. V
23. Cf. infra, cap. V I I I .
O GÊNK FEMININO 97

24. Cf. Melanie Klein, "Les fondements psychologiques de 1'analyse des enfants"
(1926) em La Psychanalyse des enfants, op. cit., pp. 18-19; grifos nossos,
25. Como la dirá em suas "Notes sur quelques m é c a n i s m e s schizoides" (1946),
em Mjlanie Klein et alii, Développements de la psychanalyse, op. cit., p.
278.
26. Cf W i iam Ronald D . Fairbairn, Psycho-Analytic Studies ofthe Personality,
Londres Routledge and Kogan, 1952, trad. fr. Études psychanalytiques de
y
la pen mnalitéé, Editions du Monde Interne, 1998.
27. Cf. Jear Michel Petot, Melanie Klein. Le moi et le bon objet, op. cit., p. 112.
28. Cf. Hanna Segal, Melanie Klein: développement d'une pensée (1979), trad.
fr. PUI 1982, p. 110.
29. Melanie Klein, "Notes sur quelques m é c a n i s m e s schizoides", em Melanie
Klein alii, Développements de la psychanalyse, op. cit., p. 284.
30. Ibid., . 298.
31. Ibid., . 299.
32. Sigmu: d Freud, "Notes psychanalytiques sur 1'autobiographie d'un cas de
parano a (Dementia paranóides)" (1911), citado por Melanie Klein, ibid., p.
299 grifos são de Melanie Klein.
33. Ibid. . 300.
34. Cf Melanie Klein, " L e retentissement des premières situations a n x i o g è n e s
sur le léveloppement sexuel du garçon", em La Psychanalyse des enfants,
op. cit pp. 251-286, e mais particularmente as pp. 273 sq.
35. Ibid., 273.
36. Cf. Hanna Segal, Introduction à Voeuvre de Melanie Klein (1964), trad. fr.
P U F , 1 969, p. 146.
37. Ibid., 147.
38. Hanna Segal, Melanie Klein: développement d 'une pensée, op. cit., pp. 113-
114.
39. Ibid., 114.
40. Florence Guignard, "Uidentification projective dans la psychose et dans
Piniteif retation" em Épitre à Vobjet, P U F , 1997, pp. 87-101.
4 1 . Ibid. 93.
42. JuliaLKTI steva, Pouvoirs de Vhorreur. Essai sur Vabjection, Seuil, col. "Points
Essais' 1983, pp. 9 sq.,e Histoires d'amour, D e n o è l , 1983, Gallimard, col.
"Folio Essais", 1985, pp. 56-61.
43. Cf Mel anie Klein, "Contribution à 1'étude de la p s y c h o g e n è s e des états
maniac dépressifs" (1934), em Essais de psychanalyse, op. cit, pp. 311-
340; .e deuil et ses rapports avec les états maniaco-dépressifs" (1940),
ibid. PP 341-369; "Sur la théorie de 1'angoisse et de la culpabilité" (1948),
em Melanie Klein et alii, Développements e la psychanalyse, op. cit, pp.
254--274 "Quelques conclusions théoriques au sujet de la vie é m o t i o n n e l l e
des bébés' ' (1952), ibid., pp. 187-222.
44. Cf. M , p. 283.
45. Melani \ Klein, "Contribution à 1'étude de la p s y c h o g e n è s e des états maniaco-
dépres ífs", em Essais de psychanalyse, op. cit, p. 313. Os grifos s ã o de
Melani i Klein.
98 MELANIE KLEIN

46. Cf. Sigmund Freud, Karl Abraham, Correspondance, 1907-1926, trad. fr.
Gallimard, 1969, pp. 344-345.
47. Cf. Melanie Klein, "Contribution à 1'étude de la p s y c h o g e n è s e des états
maniaco-dépressifs", em Essais de psychanalyse, op. cit., p. 315.
48. Cf. Hanna Segal, Introduction à Voeuvre de Melanie Klein, op. cit., p. 84.
49. Cf Hanna Segal, Melanie Klein: développement d'une pensée, op. cit., p.
73.
50. Cf infra, cap. V I I I .
5 1 . Mareei Proust, A la Recherche du temps perdu, Gallimard, col. "Bibliothèque
de la Plêiade", 1987-1989, t. I V : Le Temps retrouvé, p. 485.
52. Melanie Klein, "Contribution à 1'étude de la p s y c h o g e n è s e des états maniaco-
dépressifs", em Essais de psychanalyse, op. cit., pp. 317-318.
53. Ibid., pp. 327-329. Sobre o desacordo entre Helene Deutsch e Melanie K l e i n ,
cf. infra, p. 143.
54. Hanna Segal, Introdution à Voeuvre de Melanie Klein, op. cit., pp. 97-99.
55. Ibid., p. 87.
56. Cf. Hanna Segal, Melanie Klein: développement d'une pensée, op. cit., p.
76.
57. Cf. Melanie Klein, "Contribution à 1'étude de la p s y c h o g e n è s e des états
maniaco-dépressifs", em Essais de psychanalyse, op. cit., pp. 319-320.
58. Hanna Segal, Melanie Klein: développement d'une pensée, op. cit., pp. 75-
77.
59. Hanna Segal, Introduction à Voeuvre de Melanie Klein, op. cit., p. 9 1 .
60. Melanie Klein, "Contribution à la p s y c h o g e n è s e des tics", em Essais de
psychanalyse, op. cit., p. 340.
6 1 . Melanie Klein, " L e deuil et ses rapports avec des états maniaco-dépressifs",
ibid., p. 369.
62. Cf. infra, cap. V I .
IV

A ANGÚSTIA O U O DESEJO?
NO PRINCÍPIO ERA
A PULSÃO D E M O R T E
1. Eros absorvido por Tanatos:
d ivoração sádica e ataque anal

Enquanto para Freud a vida psíquica em seu fundamento in-


consciei te está centrada no desejo e no recalcamento deste, toda
a obra de Melanie K l e i n gira em torno da sensibilidade à angústia,
Apesar isso, será que se pode afirmar que ela esvazia a libido em
benefício da pulsão de morte, que ela afasta Eros para se comprazer
em T a n c o s , como alguns a acusam de fazê-lo?
O arcaico, se bem que frágil, deseja o seio; mas, aspirando
a uma sátisfação imediata, infinita e impossível, deseja-o com ex-
cesso, a al ponto demais1 que esbarra na frustração. Esta n ã o é, em
Melanie K l e i n , uma "falta", que se limita a relançar o desejo, até
a esta "álucinação da satisfação" que nos faz perder os contornos
entre re presentação (fantasística) e percepção (realista) segundo
Freud, ou que nos faz vaguear na fuga sempre aberta, metoními-
ca, do objetco "pequeno a", segundo Lacan. A intensidade do desejo
frustrado se chama, em Melanie K l e i n , angústia, e esta é "auto-
mática' antes de se diferenciar em angústia esquizoparanóide e
angústia depressiva. A l é m do mais, e antes de um longo processo
de iintegtação do ego, sua violência é tal que n ã o tolera a falta e se
apega a i m objeto-alvo, pseudo-objeto ou abjeto. Assim, n ã o falta
nada qu< possa ser desejado, mas tudo fere e se faz ferir, se deixa
atacar se gundo a lei de talião.
A ênfase posta por Melanie na pulsão de morte induz muitas
102 MELANIE KLEIN

vezes os comentadores a uma interpretação errónea: supõe-se na


análise uma complacência para com a morte, uma recusa às for-
ças eróticas da vida. Muito pelo contrário, o debate explícito que
K l e i n m a n t é m com Freud relativamente tarde, em 1948, restabe-
lece uma justa perspectiva e merece ser sinteticamente reproduzi-
do aqui, antes que se v á mais longe no pensamento kleiniano.
Tendo lembrado que, para Freud, em Inibições, sintomas e
ansiedade (1926), "no inconsciente nada h á que tivesse podido
alimentar nossa concepção do aniquilamento da v i d a " , 3 Melanie
declara sem rodeios:

E u não partilho desta opinião, porque minhas observações ana-


líticas me mostraram que há no inconsciente um medo do aniquila-
mento da vida. 4

N ó s lemos bem: com uma pulsão de morte, K l e i n supõe, "nos


níveis mais profundos do psiquismo, uma resposta a esta p u l s ã o ,
sob a forma de medo do aniquilamento da vida".5
O psiquismo exprime, sob a pressão da pulsão de morte, u m
medo pela vida. A serviço da vida, ele se d á os meios de reagir
ao medo do aniquilamento da vida, e seus mecanismos mais pro-
fundos n ã o são senão defesas contra isto. A pulsão de morte é
imediata e dialeticamente restituída em sua versão positiva que é a
c o n s e r v a ç ã o da vida.
O interesse desta passagem n ã o reside somente no fato de que
se o p õ e a Freud, o qual, escreve Melanie, n ã o quer "considerar o
medo da morte" — contrariamente a ela que, j á o sabemos, "con-
sidera" este medo, fortalecida por sua experiência clínica com a
psicose, sobretudo a psicose precoce infantil. O interesse reside
principalmente no fato de que a psicanálise retoma, para acentuá-
lo p o r é m , o cuidado freudiano que atribui ao psiquismo ações em
favor da vida: "medo da morte (ou medo pela vida)", escreve ela
(grifos nossos). E é precisamente este "medo pela vida", "prove-
niente do trabalho interno da pulsão de morte", que é a "causa pri-
mária da angústia". Mais claramente ainda, o medo de que se trata
é um medo pela vida do objeto (a m ã e ) , mais ainda que pela vida
própria do eu. Por isso, e uma vez que a luta entre as duas pulsões
prossegue ao longo da vida, "esta fonte de angústia jamais é elimi-
nada". Compreende-se que Melanie encare a pulsão de morte em
O GÊNI ) FEMININO 103

seu "trabalho interno" como estreitamente misturada à pulsão de


vida, e nao <como desenredada dela. O desenredamento se apresen-
tará na ijsicose e colocará outros problemas n ã o menos interessan-
tes. Maslestamos aqui, neste debate com Freud, num nível universal
que con lidera todai pulsionalidade, inclusive a mais normal possí-
vel, conlo tributária dessa pulsão de morte que trabalha com medo
pela vidi é em benefício do Eros, em suma, que a angústia de ani-
quilame ito da vida age nas camadas mais profundas do psiquismo,
Sem ser de maneira nenhuma vitalista, e ao dar mesmo a i m -
pressão le que negligencia as pulsões eróticas e/ou de vida, é pro-
fundamente u m medo pela vida que é criado, a rigor, pela teoria
da angúi tia kleiniana. Seria o sujeito mulher que se exprime aqui,
solidári com a psicanalista atenta às psicoses? Aquela que n ã o
tem m e ã o de considerar a morte, porque tem medo pela vida que
dá, e eifcan de frente os perigos de aniquilamento que pesam
sobre i vida ab initiol Para melhor se defender disso, tanto
mais qu | sua familiaridade com o "medo pela vida" lhe mostrou
como esi ia negatividade inicial, essa fobia de ser, esse não-ser podia
se tornai (em certas condições biológicas e de meio ambiente) um
6
verdadei ro trabalho do negativo, u m renascimento?
A ri l l léguas de Hannah Arendt, Melanie parece entretanto
juntar-se a ela nesse cuidado com a vida que passa pela ausculta-
7
ç ã o e pelo acompanhamento do que a a m e a ç a . "Nascencial", como
diria Arendt, Melanie o é até nesse encarniçamento terapêutico
de que dão testemunho suas interpretações incisivas. A s s i m como,
para con leçar, no modo privilegiado que assume nela a pulsão de
morte, que se p r o p õ e em primeiro lugar como um apetite sádico,
uma inveja , dirá ela mais tarde, resumindo, um condensado de
amor ódio, isto é, um desejo paroxístico.
Eros está portanto longe de se dissipar nessa captação primá-
ria do objet o pelo desejo metamorfoseado em angústia e que ope-
ral oralmênte , analmente ou genitalmente. De fato, Eros tem "medo
pela vidí " e aguarda sua hora de reaparecer sob a forma privilegia-
da do prazer,, que é, em K l e i n , essencialmente o prazer da inteli-
gência, angústia interpretada na transferência, enquanto passa
por fase agudas, chega a transpor a clivagem e o recalque, e, ao
levantar a inibição, se metaboliza em... simbolização: a libido de-
sinibida i aquela que pensa, o desejo d e s e m b a r a ç a d o da angústia
aptidão para simbolizar. 8
104 MELANIE KLEIN

Conhece-se o e m b a r a ç o de Freud acerca do afeto inconscien-


te: " A possibilidade de uma inconsciencialidade desapareceria [...]
totalmente para os sentimentos, as sensações, os afetos." 9 A an-
gústia, quanto a ela, seria, para o fundador da psicanálise, ou o
signo do aumento das excitações no aparelho psíquico (é o caso
das neuroses atuais: um exemplo " a n ó d i n o " disso é a angústia das
virgens) ou o efeito do recalcamento da libido (é o caso das psi-
coneuroses).
Melanie K l e i n , ao contrário, revela imediatamente a angústia
inconsciente, sobretudo ao escutar seus filhos que ela analisa sob
os nomes de Fritz e F é l i x . 1 0 Se bem que a rigor n ã o exista nela
uma teoria dos afetos, sua consideração direta da angústia torna-
se a base a partir da qual se pode hoje postular uma c o n c e p ç ã o
pós-freudiana dos afetos. 11 A s s i m Melanie K l e i n localiza a a n g ú s -
tia em particular sob as inibições, as quais evitam o sintoma, ao
p r e ç o p o r é m de uma distorção do pensamento, ou de tiques. Visto
que o desejo é desde logo uma angústia, para interromper seu de-
senvolvimento, o eu ergue barreiras psíquicas: precauções, inibi-
ções, interdições, que lembram certas defesas fóbicas. A angústia
de castração, manifestada por Félix, se junta a este quadro e com-
pleta a idéia kleiniana de uma co-presença entre desejo e angústia.
Mas é sobretudo o sadismo do ego arcaico que sustém a an-
gústia originária. U m forte desejo oral de devoração, desde os
p r i m ó r d i o s da vida, se volta sobre o sujeito com o mesmo conteú-
do, mas mudando de alvo: n ã o é o eu que deseja devorar, euJenho
medo de ser envenenado pelo seio mau em que projetei meus den-
tes maus — tal seria a lógica da fantasia sádica correspondente à
angústia primária esquizoparanóide. Embora essa angústia seja
ligada por K l e i n à agressividade edipiana (assim R i t a quer roubar
os b e b é s que v ã o nascer do ventre de sua m ã e e entra em rivalida-
de com seu pai), as pulsões genitais estão fortemente imbricadas
com as pulsões sádicas orais, uretrais ou anais. De fato, o sadis-
mo oral, que se identifica facilmente com a teoria kleiniana, 1 2 só
se separa tardiamente, enquanto a analidade agressiva se i m p õ e à
sua atenção desde 1924, na análise de Trude, uma menina de três
anos e três meses:

M u i t o c e d o e m s u a a n á l i s e , e l a m e pediu que fingisse estar n a


c a m a e dormir. D i z i a e n t ã o que i a m e atacar, e procurar fezes e m
O GÊN] O F E M I N I N O 105

mm ias nádegas (as fezes que descobri representarem também be-


bés' , e que ia pegá-las. Depois desses ataques, acocorava-se num
can o, fazendo de conta que estava na cama, cobrindo-se com almo-
fadas (que deviam proteger-lhe o corpo e que faziam também as
vezes de bebés); ao mesmo tempo, molhou realmente a calcinha e
mostrou claramente que tinha muito medo de ser atacada por mim. 13

E é somente no decurso das análises de Ruth e Peter, realiza-


das entre 1924 e 1925, que K l e i n se d á conta do "papel funda-
mental' desempenhado pelas pulsões sádico-orais nas fantasias
sádicas e nas angústias correspondentes:

[ Encontrei] assim na análise de bebezinhos plena confirmação


das lescobertas de Abraham. Essas análises, que me deram um campo
de < bservação suplementar, já que duraram mais tempo do que as
de ] titã e Trude, me conduziram a um insight mais completo no
pap il fundamental dos desejos e das angústias orais no desenvolvi-
mei to mental normal e anormal. 14

Ne! ta ótica, K l e i n faz então uma a p r o x i m a ç ã o entre suas pró-


prias ol servações, a história de Peter e a de dois criminosos noti-
ciada p da imprensa: um deles mantinha relações homossexuais
com ra >azes, que matava em seguida decapitando-os e cortando-
os em \ edaços, e o outro matava suas vítimas para com elas fazer
salsichí s . 1 5 Peter tinha uma fantasia na qual se masturbava com
seu pai e seu irmão menor, e representava a situação com a ajuda
de bonecas que decapitava, vendendo o corpo ao açougueiro e
guardai do a cabeça, que dizia ser o p e d a ç o mais apetitoso; entre-
gava-se por outro lado, em sua análise, a inúmeros desmembra-
mentos e devorações de figurinhas e bonecas. Inscrevendo logo
esse sa< ismo no É d i p o e no desejo de ser punido que engendra a
culpabi idade superegóica precoce, K l e i n escreve:

] 'ode-se considerar isto como uma regra: todo menino chamado


de 4 travesso" é impelido pelo desejo de ser punido. Permitam-me ci-
tar hetzsche e o que ele denominava seu "pálido criminoso"; ele co-
nhe :ia bem demais o criminoso impelido pelo sentimento de culpa. 16

Est í sadismo inconsciente se defende, j á vimos, clivando o


objeto : nterno mas t a m b é m externo em bom seio/mau seio. C o m -
106 MELANIE KLEIN

preendemos melhor, agora, a diferença entre esta fantasia, que


K l e i n atribui a todo j o v e m ego, e a realização alucinatória do de-
sejo segundo F r e u d . 1 7 Nos dois casos, a percepção da realidade é
substituída por uma representação que a deforma sob a pressão
das pulsões inconscientes. Mas, em Freud, o desejo triunfa e a l i -
bido, ao contrário da frustração, estabelece uma visão idílica que
substitui a satisfação pela representação ideal desta; em Melanie
K l e i n , a violência destrutiva do desejo é reconhecida, como no
Freud de Além do princípio do prazer, mas de maneira mais radical
ainda. D e um lado, esta violência inicial é tal que só pode refrear
a angústia — bem imperfeitamente, aliás — desdobrando a fanta-
sia mesma, e imprimindo sua marca negativa pela criação de u m
desdobramento no objeto da própria angústia: bom/mau. D e outro
lado, embora a fantasia do bom seio seja continuamente reconhe-
cida por K l e i n , e ela insista em fazer disso o núcleo do ego (como
se se defendesse de a n t e m ã o contra aqueles que poderiam reter de
sua teoria somente a presença do mau seio), o negativo da p u l s ã o
de morte n ã o cessa de reaparecer para criar novas defesas, sempre
parcialmente benéficas e parcialmente destruidoras. Por este mo-
tivo, a plenitude da fruição que o conceito freudiano de "realização
alucinatória do desejo" c o n t é m é substituída, em K l e i n , por u m
incessante trabalho do negativo, uma interminável sublimação do
luto, a p u l s ã o de morte propelindo o funcionamento psíquico ao
mesmo tempo que o impede, sem que possa jamais sossegar.
A intensidade dessa pulsão destruidora é, para K l e i n , inata, e
essa c o n v i c ç ã o é ainda sublinhada em seus últimos trabalhos. A o
mesmo tempo que diz que os "estados de frustração e angústia"
devidos à realidade insatisfatória reforçam "os desejos sádico-orais
e canibalescos" ( 1 9 4 6 ) , 1 8 ela n ã o deixa de sustentar:

Por conseguinte, a força das pulsões destruidoras no que diz res-


peito às pulsões libidinais comporia a base constitucional da intensi-
dade da voracidade?9

Estaríamos dispostos a concluir, depois dessas observações,


que u m pessimismo terapêutico se i m p õ e no espírito da analista:
de fato, como poderia a cura analítica entrar em interação com
essa "base constitucional" tão fortemente e com tanta frequência
evocada por K l e i n ? Bastaria facilitar a realização ótima do inato,
O GÊN1 D F E M I N I N O 107

sem ali irar o equilíbrio fundamental amor/ódio, geneticamente


determi nado? O u bastaria transformar este mesmo equilíbrio sob
o efeito da transferência, da interpretação e de um novo meio am-
biente? 0 A questão continua aberta, sem que, entretanto, o traba-
lho kle niano anuncie o menor pessimismo quanto à pertinência
da cura analítica, da qual, p o r é m , aponta todos os limites. K l e i n
parece )ensar paradoxalmente que o bom ambiente n ã o modifica
as base ; constitucionais, que se manifestam mesmo no quadro da
melhor maternagem. 21 E m c o m p e n s a ç ã o , o ambiente carenciado,
a privai ão prolongada decuplicam as quantidades inatas de agres-
s i v i d a d í . Resta então à psicanálise uma tarefa que n ã o parece
irrealiz tvel: reduzir a clivagem e ajudar o ego a progredir na in-
t e g r a ç ã ) de suas partes clivadas.

2. Iste desgosto que nos compõe a alma

No coração desse universo destruidor, o analista faz uma apos-


ta: a e^ olução do ego, no curso normal do desenvolvimento, e a
cura ai alítica, quando tem êxito, permitem a perlaboração das
angústi as destruidoras e das fantasias sádicas. O ego se aprofunda
por me o da perlaboração depressiva. A capacidade de cumprir o
luto do objeto perdido substitui o sadismo inicial pela dor psíqui-
ca: a n Dstalgia e a culpabilidade formariam a face tranquilizada
de Tani itos. A angústia n ã o desapareceu, persiste sempre em Klein,
mas mi ida de regime: em vez de clivar ou fragmentar, em vez de
destrui e despedaçar, a angústia é tolerada como pesar pelo outro
e come culpa amorosa de lhe ter feito mal. A o sadismo e à angús-
tia de >erseguição do primeiro trimestre sucede a aptidão do eu
revigoi ado — o da "posição depressiva" do sexto m ê s — para
introjei ar o bom objeto. Chega a isso bem mais facilmente se dis-
põe de uma capacidade inata de amor:

3 sentimento de g r a t i d ã o é u m derivado importante d a c a p a c i d a -


de de a m a r [...]. A g r a t i d ã o n a s c e das e m o ç õ e s e das atitudes d a
pri n e i r a i n f â n c i a , quando a m ã e representa a i n d a o objeto e x c l u s i v o
e IJ l i c o [...]. M a s os fatores internos que a f u n d a m e n t a m — no p r i -
me iro plano, a c a p a c i d a d e de a m o r — p a r e c e m ser i n a t o s . . . 2 2
108 MELANIE KLEIN

Naturalmente, o ganho psíquico devido à posição depressiva


é considerável: o sadismo torna-se pesar, a nostalgia atenua a des-
trutividade e o sol negro da melancolia aprofunda o ego que, em
vez de clivar e negar, perlabora-recalca-repara-cria.
Acompanhando as metamorfoses da pulsão de morte em "psi-
q u i z a ç ã o " no pensamento de K l e i n , n ã o se pode deixar de achar
eminentemente shakespeariana a m ã e da psicanálise. N ã o nos su-
gere j á o soneto 146 do dramaturgo que "morta a morte", ou em
outras palavras "matada a morte", sua ultrapassagem sublimatória
só se realiza na vida interior da "pobre alma" se esta é capaz de
consumir nela mesma a morte que lhe vem de f o r a ? 2 3
E s t a visão shakespeariana que K l e i n tem do funcionamento
p s í q u i c o — de uma alma se nutrindo, se criando da morte que
come os homens — está inteiramente refletida em sua técnica ana-
lítica. Trata-se, para a analista, de ouvir — para a l é m do desejo e
com ele — o sofrimento psíquico com seu revestimento de angús-
tia agressiva. Trata-se, por outro lado e por este motivo, "de intervir
no ponto de angústia latente m á x i m a " : 2 4 de ouvir com a m á x i m a
a t e n ç ã o o material da angústia e da agressividade tal como se d á
na sessão, para interpretá-lo direta e frequentemente. Se se pode
recear, nesta perspectiva, uma aceleração grande demais da an-
gústia por praticar o analista a invasão psíquica da criança, pode-
se evocar em contraponto, com Florence Bégoin-Guignard, que a
atitude inversa, que espaça as sessões analíticas para as crianças
a f i m de melhor as "respeitar" e que se m a n t é m na "não-interven-
ç ã o " , é u m "convite a intensificar suas tendências [as da criança]
à identificação projetiva maciça com objetos internos todo-pode-
rosos que ela utiliza para penetrar como intrusa no psiquismo do
analista e controlar totalmente a atividade de pensamento deste". 2 5
U m reforço da clivagem e a constituição de "falsos selfs" se perfi-
lam então. O r e m é d i o ? O analista é remetido a seus próprios con-
flitos pré-genitais, a suas agressividades canibalescas ou outras, à
sua possibilidade de atravessar a "posição depressiva": tantas ar-
madilhas que a contratransferência estende a seu próprio sadismo
e a suas próprias dores. Armadilhas que aumentam e se reforçam
na escuta das crianças, mais que na dos adultos, visto que as defesas
infantis são ao mesmo tempo mais poderosas e menos fixas que
na idade adulta, e apelam diretamente para a criança no analista.
o GÊN; O F E M I N I N O 109

O línimo que se pode dizer é que Melanie K l e i n n ã o se es-


quivou a esse apelo. E l a c o m e ç o u seu trabalho de analista aos
quarenl a anos, e seus discípulos lhe consagraram, em 1952, um
numere especial do International Journal of Psycho-Analysis, co-
memorátivo de seu sexagésimo segundo aniverário; em 1955, esses
textos, ;om alguns outros, assim como dois textos da própria Me-
lanie Iflein, constituem a coletânea New Directions in Psycho-
analysL (Londres, Tavistock). É lícito então crer que ela terminou
sua obi i , e eis que a " m ã e da psicanálise" publica, em 1957, Inve-
ja e gn tidão.26 A ênfase posta sobre uma pulsão agressiva pri-
mordia , j á presente em seus trabalhos anteriores, principalmente
em t ó r i o da posição esquizoparanóide, é retomada aqui sob o as-
pecto uma inveja com relação ao seio. Retorno do pecado cris-
tão? S i o Paulo, santo Agostinho e Shakespeare são evocados, e
Otelo ssursge ao lado de Milton, Chaucer ou Spenser para funda-
mentar na tradição as observações clínicas que Melanie j á tinha
feito d agressividade e de sua elaboração, aqui sintetizadas numa
nova v são binária: inveja e gratidão.

}
oder da inveja e aposta na gratidão

Enbuanto o c i ú m e está ligado a um amor do objeto, a inveja é


anterio: e mais arcaica: o c i ú m e é aplacado por u m amor reencon-
trado, a inveja... nunca; o c i ú m e é triangular, a inveja, dual.

\ t r a n s l a b o r a ç ã o d a i n v e j a por m e i o do c i ú m e constitui t a m b é m
urr i defesa importante contra a i n v e j a . O c i ú m e parece b e m m a i s
ace i t á v e l e d á m e n o s lugar à c u l p a do que a i n v e j a p r i m á r i a que r e -
d u i o primeiro b o m objeto.27

L e \ ada pela avidez original, a inveja tende a possuir comple-


tamenl p seu objeto sem se preocupar com sua eventual destrui-
ção: el i quer se apropriar de tudo o que é bom no objeto, e, se isso
se rev( la impossível, ela n ã o hesita em danificá-lo para afastar a
origenc do sentimento de inveja. Embora procedente do amor e da
admira ção primitivos, a inveja se distingue da avidez à medida
que E i DS está aí menos presente: é a pulsão de morte que a sub-
merge
110 MELANIE KLEIN

Os leitores de Freud conheciam j á sua c o n c e p ç ã o da inveja,


que é em primeiro lugar e antes de tudo "inveja do p ê n i s " na
mulher, correlato do complexo de castração, fonte de inibição, de
frigidez e de reação terapêutica negativa. Para Melanie K l e i n , bem
antes da inveja do pênis, é a inveja oral, inveja do seio, que domi-
na o psiquismo:

E u me limitarei aqui a enfocar a inveja do pênis na mulher sob o


ângulo de sua origem oral. Sob a predominância dos desejos orais,
pode-se estabelecer uma equivalência entre o pênis e o seio materno
(Abraham): a experiência clínica mostra que se pode ligar a inveja
do pênis à inveja do seio materno. Se se aborda sob esta incidência
a análise da inveja do pênis na mulher, pode-se constatar que ela
tem sua origem na relação primitiva com a mãe, na inveja funda-
mental do seio materno, e nos sentimentos destrutivos que a acom-
panham.28

A inveja promove ao mesmo tempo que entrava o desenvolvi-


mento do psiquismo: enquanto lhe assinala um objeto benéfico,
trata de se apropriar dele para esvaziá-lo ou destruí-lo. Melanie
modula, nesta última viagem importante, o tema do objeto primário
amado-e-odiado que lhe é caro. Remanescente da nostalgia uterina,
ela mesma resultado do traumatismo do nascimento, o seio é fanta-
siado como u m seio inesgotável: idealizado e, por isso mesmo, i n -
tensificando o ódio — porque o objeto real n ã o corresponde nunca
ao objeto psíquico. A esta situação de base se acrescenta a privação:
o seio se retira, v e m a faltar, os cuidados n ã o são sempre bons etc.
O excesso de frustrações mas t a m b é m a excessiva indulgência ( a
" m ã e suficientemente boa" de que falará Winnicott n ã o é t a m b é m
a "suficientemente m á " ? ) aumentam essa inveja inata:

O bebé deseja que o seio materno seja inesgotável e onipresente.


E parece [...] que não se trata aí somente de um desejo de nutrição;
a criança quereria também se desembaraçar de suas pulsões destru-
tivas e de sua angústia persecutória. No curso das análises de adul-
tos encontra-se o desejo de uma mãe onipotente, capaz de proteger
o indivíduo contra todos os sofrimentos e todos os males provenien-
tes tanto do interior como do exterior.29
O GÊK O FEMININO 111

Eni retanto — e, aqui, o bom seio reaparece de maneira forte


— , se ima certa frustração é seguida de gratificação, a criança
pode m dhor assumir suas angústias. A m ã e contém então as angús-
tias des|ruidoras e, como um objeto contenedor, sustenta a integra-
ção do go. O prazer e a gratidão que o continente suscita frustram
em ú l t i j i a análise as pulsões destruidoras e diminuem a inveja e a
avidez A q u i Melanie K l e i n introduz o liame fruitivo com a m ã e ,
sobre qual ela n ã o havia insistido tão francamente antes, e que
remonh i à fase pré-verbal, como fundamento da gratidão de que de-
correrá julteriormente a capacidade de reparação, de sublimação e
co
de gen< rosidade. Mas como nada é simples nesse universo atra-
vessadc pela pulsão de morte, a analista n ã o esquece que a própria
gratidãè pode ser "operada" pela culpabilidade, caso em que seria
preciso distingui-la da "verdadeira" gratidão:

) bebezinho sente tudo isto de um modo bem mais primitivo do


que poderia exprimir a linguagem. Quando essas emoções e essas
fantasias pré-verbais são revividas na situação transferencial, apare-
cem aí sob a forma de memories in feelings (lembranças em forma
de entimentos) [...] e são reconstruídas e verbalizadas graças ao
auxjQio do analista. Do mesmo modo devemos recorrer às palavras
par i reconstruir e descrever outros fenómenos pertencentes às fases
prii íitivas do desenvolvimento.30

^etitsfours, kleine Frou, Frau Klein

U n dos exemplos clínicos fornecidos a esse respeito pela au-


tora peimite apreender como a inveja primordial se transmite i n -
conscientemente até ao adulto e lhe entrava as capacidades de
g r a t i d ã ) , de amor e de prazer, bem como o trabalho analítico que
esse ac ulto se propõe ainda assim a realizar. U m a paciente conta
um son 10: ela espera em v ã o ser servida, depois decide entrar na f i -
la; à fre nte dela, uma mulher escolhe alguns "bolinhos" (a paciente
diz em francês "petitsfrou" em vez de "petitsfours"); a analisan-
da, que a segue na fila de espera, faz a mesma coisa. Seguem-se
associa ;ões: a mulher dos bolinhos se parece com a analista, "petits
frou" (kitfein Frou) a faz pensar em Frau Klein. A analista interpre-
ta: a p; ciente havia faltado a algumas sessões, pretextando uma
112 MELANIE KLEIN

dor nas costas e a necessidade infantil de que a reconfortassem,


de que se ocupassem com ela, mas não veio ninguém. O sonho
retoma o incomodo aparecido nas sessões a que havia faltado,
ligado a uma infância infeliz e a um aleitamento insatisfatório. Os
"dois ou três bolinhos" (klein Frou), como os dois seios, associam
Frau Klein à avidez da paciente, por identificação e projeção: eles
representam tanto o seio frustrante da m ã e e da analista quanto o
seio da paciente que, por fim, aceita alimentar-se sozinha, indo
ocupar seu lugar na fila de espera.

Assim, à frustração tinha vindo acrescentar-se a inveja do seio


materno, inveja que havia suscitado um profundo ressentimento em
relação a uma mãe considerada como parcimoniosa e egoísta, que
preferia guardar para si o amor e a comida em vez de prodigalizá-la
à sua filha. Na situação analítica, a paciente suspeitava que eu tinha
aproveitado suas ausências para me divertir e consagrar esse tempo
a outras doentes que eu preferia a ela. A fila de pessoas atrás das
quais ela se colocou em seu sonho é uma alusão evidente a suas ri-
vais mais favorecidas.
A análise do sonho produziu uma mudança satisfatória na situa-
ção emocional. A paciente se sentiu invadida por um sentimento de
felicidade e de gratidão mais vivo do que nas sessões anteriores
[...]. E l a se dava conta de que tinha inveja e ciúme de certas pessoas,
mas, até então, não tinha sabido reconhecer esses sentimentos em
sua relação com a analista: era-lhe penoso demais admitir que inve-
java e destruía a analista e o fruto de seu trabalho.31

É portanto j á para o fim de sua obra, após ter interpretado a


violência da inveja como a versão mais explícita da pulsão de
morte, que K l e i n amplifica suas considerações sobre a capacida-
de de amor. Enquanto relembra que Freud, em Inibição, sintoma e
angústia, n ã o concede ao eu inconsciente nenhuma capacidade de
representar a morte ("No inconsciente n ã o h á nada que possa dar
um conteúdo a nosso conceito de destruição de vida"), ela subli-
nha sua divergência com o mestre:

A ameaça de aniquilamento pelo instinto de morte interior repre-


senta — e me afasto de Freud neste ponto — a angústia primordial;
e é o eu que, a serviço do instinto de vida — talvez mesmo instaurado
por ele —, desvia em boa parte esta ameaça para o exterior. Enquan-
O GÊN1 D F E M I N I N O 113

to 1 reud a t r i b u í a ao o r g a n i s m o esta defesa fundamental contra o


inst nto de morte, eu c o n s i d e r o este processo c o m o u m a atividade
prin lordial do e u . 3 2

O e u, portanto, e n ã o o organismo, é o agente do ódio, mas


t a m b é n do amor, da inveja e da gratidão. Pela clivagem, ele se de-
fende da destrutividade e, portanto, da inveja, até ser capaz de ex-
perimem tar o amor. uma capacidade que reforça especialmente a
" p o s i ç ã ) depressiva", ainda que ela d ê início à resolução do É d i -
po. Compreende-se desde então que a luta entre as duas forças vai
continufr ao longo da vida psíquica, com sucessos desiguais dos
dois prota:gonistas. E K l e i n aplaudirá os inúmeros pensadores que,
antes dela, haviam estigmatizado a inveja como sendo o pior dos
pecado , j á que se o p õ e à própria vida: " O amor n ã o é capaz de
invejar' (Primeira Epístola aos coríntios); santo Agostinho descre-
ve a Vida como força criadora que se o p õ e a uma força destruido-
ra, aL Invej a; segundo O paraíso perdido, de Milton, a inveja implica
uma dektruição da criatividade; Chaucer condena a inveja como
"o pior los pecados, porque todos os outros n ã o são pecados senão
contra uma única virtude, ao passo que a inveja o é contra toda
virtude e contra todo bem" ("toda virtude" e "todo bem" estando
ligados, para K l e i n , ao objeto primitivo cuja deterioração abala a
confian; a do sujeito). Para concluir provisoriamente, em sua ex-
p l o r a ç ã ) do dual inveja/gratidão, com esta vibrante homenagem
às forç as de prazer e sublimação:

J i felicidade v i v i d a no d e c u r s o d a i n f â n c i a e o a m o r do b o m ob-
jetoj que enriquece a personalidade e m b a s a m a c a p a c i d a d e de p r a z e r
e de s u b l i m a ç ã o : suas c o n s e q u ê n c i a s se f a z e m sentir até n u m a idade
avai i ç a d a . Q u a n d o G o e t h e e s c r e v e " A q u e l e que pode r e c o n c i l i a r o
fim de sua v i d a c o m seu c o m e ç o é o m a i s feliz dos homens", sou
ten( i d a a interpretar esse " c o m e ç o " c o m o sendo a p r i m e i r a r e l a ç ã o
feli;; c o m a m ã e que, ao l o n g o de toda a s u a v i d a , atenua o ó d i o e a
a n g istia, e c o n t i n u a a dispensar seu conforto ao i n d i v í d u o idoso.
U m b e b é que p ô d e instaurar seu b o m objeto c o m s e g u r a n ç a pode
enc< >ntrar c o m p e n s a ç õ e s para as perdas e as p r i v a ç õ e s d a idade a d u l -
ta. ' Tido i s s o p a r e c e r á sempre i n a c e s s í v e l ao i n v e j o s o , porquanto
ele a m a i s e s t a r á satisfeito e seus sentimentos de i n v e j a se v ê e m
constantemente reforçados.33
114 MELANIE KLEIN

N ã o nos enganemos com isso: este breve apaziguamento n ã o


inicia nenhum idílio, e Melanie K l e i n continua a acossar de pre-
ferência a angústia e a destrutividade. Será que é porque elas são
mais potentes nas pessoas sofredoras que procuram um refúgio
na análise? O u porque, das duas pulsões, a mais tenaz seria a
p u l s ã o de morte? No início havia talvez o bom objeto — e o amor
que ele provoca, como acabamos de ler em Goethe e K l e i n . E n -
tretanto, se c o m e ç á s s e m o s por analisar esse início, como K l e i n
n ã o cessa de fazê-lo n ã o sem desconfiança por todos os inícios,
c o r r e r í a m o s o risco de encontrar muitas invejas, i n g r a t i d õ e s ,
sadimos e dores. C o m efeito:

A inveja excessiva se opõe às gratificações orais e estimula, ao


intensificá-las, as tendências e os desejos genitais. Assim a criança
recorre demasiado prematuramente às gratificações genitais, e a re-
lação oral se genitaliza enquanto as reivindicações e as ansiedades
orais impregnam fortemente as tendências genitais [...]. A fuga para
a genitalidade constitui também, em certas crianças, uma defesa
contra o fato de odiar e danificar o primeiro objeto com relação ao
qual experimentam sentimentos ambivalentes.34

É ó b v i o que nunca se desconfiará suficientemente das múlti-


plas faces da inveja! A o analisá-las, ao teorizá-las, Melanie K l e i n
continua sua própria análise, sem nenhuma dúvida, e perlabora
sua contratransferência para a reação terapêutica negativa. E l a es-
creveu em sua Autobiografia inacabada (1959):

Quando terminei bruscamente minha análise com Abraham, mui-


tas coisas não tinham sido analisadas, e eu continuei a aprofundar as
questões concernentes às razões de minhas angústias e de minhas
defesas. Malgrado o ceticismo que foi, como disse, um elemento
importante de minha vida analítica, jamais desesperei; e isso ainda é
verdade na hora atual.

Cabe concluir, com Didier Anzieu, que cita esta passagem,


pelo destino inacabado de toda teoria, e mais ainda daquela que
perscruta a prematuridade do recém-nascido humano, como o faz
K l e i n ; e pela novidade de sua obra como "promessa de juventude
sempre renovada para a p s i c a n á l i s e " . 3 5
O GÊNI ) F E M I N I N O 115

NOTAS

1. Cf. A dré Green, "Trop c'est trop", em James Gammil et alii, Melanie Klein
aujou *d'hui, op. cit., pp. 93-102.
2. Cf J( an-Michel Petot, Melanie Klein. Premières découvertes..., op. cit.,
p. 89
3. G wA. C I V , pp. 113-205, S E, t. X X , pp. 75-174, trad. fr. P U F , 1951, reed.
1978, p. 53; citado por Melanie Klein, "Sur la théorie de 1'angoisse et de la
culpa úlité", em Melanie Klein et alii, Développements de la psychanalyse,
op. cit.. p. 258.
4. Ibid., pp. 259-260.
5. Ibid.; grifos nossos.
6. Cf i\ 'ra, cap. V I I I , 2.
1. Cf. h lia Kristeva, Le Génie féminin, t. 1: Hannah Arendt, op. cit.; entre
outraj, pp. 25-29, 40-41, 61-71, 74-76, 85-87, 119-120, 333-335 etc.
8. Cf. iri fra, cap. V I I I .
9. Cf. S gmund Freud, Métapsychologie (1915), "Uinconscient", G W, t. X ,
pp. 1] 9-204, S E, t. X I V , pp. 263-303; O C, P U F , 1988, t. X I I I , p. 216. Mais
precií amente, segundo Freud, o afeto n ã o é nunca inconsciente, s ó sua re-
prese itação p ô d e sucumbir ao recalque. De mais a mais, a representação
incon jciente subsiste na qualidade de formação real no inconsciente após o
recak ue, "enquanto o afeto inconsciente n ã o corresponde nesse mesmo lu-
gar s< n ã o a uma impossibilidade de início a que n ã o foi permitido chegar
em seu desdobramento [...]. A rigor, [...] n ã o há portanto afetos inconscien-
tes cc mo há representações inconscientes". Esta diferença p r o v é m do fato
de qte as representações s ã o "traços m n é s i c o s " ou "investimentos", "en-
quant :> os afetos e sentimentos correspondem a processos de rejeição [...]
perce ndos como s e n s a ç õ e s " — ibid., pp. 217-218.
Freud retoma esse debate em Le Moi et le Ça (1923), G W, t. X I I I , pp.
237-:; 89, S E, t. X I X , pp. 1-59, trad. fr. O C, op. cit., t. X V I , pp. 266-267, ao
desig lar o afeto por um termo curiosamente impreciso ("outra-coisa") e ao in-
sistir ia via direta pela qual o impulso do afeto se torna consciente: "Se cha-
mami »s o que se torna consciente na c o n d i ç ã o de prazer e desprazer uma
outra coisa na corrente anímica, outra quantitativamente-qualitativamente,
a que tão consiste então em saber se uma tal outra-coisa pode tornar-se cons-
cienh nos lugares ou deve ser transmitida até ao sistema Pcs.[...] E m outros
termc s: a diferenciação Cs e Pcs n ã o tem sentido para as s e n s a ç õ e s , o Pcs
falta i qui, as s e n s a ç õ e s s ã o ou conscientes ou inconscientes. Mesmo quando
são li ?adas a representações de palavra, elas não lhes devem tornar-se cons-
cienU s, mas elas vêm a sê-lo diretamente" (grifos nossos).
10. Cf si pra, cap. I I , pp. 49 sq.
11. Para i ma c o n c e p ç ã o moderna dos afetos, cf André Green, Le Discours vivant.
La ci nception psychanalytique de Vaffect, P U F , 1973. A o assinalar a au-
sênci L de uma teoria específica do afeto em Klein (p. 104), o autor nota a in-
fluência dela sobre todos aqueles que, desde Freud, contribuíram para sua
116 MELANIE KLEIN

elaboração, e insiste no afeto como "derivado da pulsão" (drive derivative),


em sua apresentação "bruta", sem que uma representação lhe esteja ligada,
nas p e r c e p ç õ e s internas antagonistas que lhe correspondem, e na "psiquiza-
ç ã o " do impulso afetivo que n ã o é c o m u n i c á v e l enquanto as representações
de coisa e as representações de palavra n ã o formam com ele um "complexo
inteligível". Mas, contrariamente aos kleinianos que, diante da obscuridade
do problema, privilegiam o investimento de objeto, André Green desdobra
os traços m n é s i c o s e energéticos do afeto, e explora sua heterogeneidade
(força e sentido) — ibid., pp. 306, 313 v^. Cf. supra, p. 79, nota 2 1 .
12. Cf. Jean-Michel Petot, Melanie Klein. Premières découvertes..., op. cit., p.
193.
13. Melanie Klein, "Technique de jeu psychanalytique", em Le Transferi et autres
écrits, op. cit., p. 4 1 .
14. Ibid., p. 42.
15. Cf. Melanie Klein, "Tendances criminelles chez les enfants normaux" (1927),
em Essais de psychanalyse, op. cit., pp. 211-228.
16. Ibid., p. 223.
11. Cf André Green, "Trop c'est trop", op. cit., p. 95.
18. Cf. Melanie Klein et alii, Développements..., op. cit., p. 279.
19. Ibid., p. 188; grifos nossos.
20. Cf Jean-Michel Petot, Melanie Klein. Le moi et le bon objet, op. cit., p.
257.
2 1 . Cf. Melanie Klein, Envie et gr atitude, op. cit., p. 18.
22. Cf. Melanie Klein, Envie et gratitude, op. cit., p. 27.
23. "Poor soul [...] Then, soul, live thou upon thy servant loss [...]/ So shalt
thou feed on Death, that feeds on men, / And, Death one dead, there 's no
more dying then. (Pobre alma [...] Vive, alma, pois, da ruína de teu servo,
[...]/ E a morte, que nos come, hás de comer. / Morta a morte, n ã o mais se
há de morrer.)"
24. Cf. Florence Bégoin-Guignard, em Melanie Klein aujourd'hui, op. cit., p. 57.
25. Ibid., p. 63.
26. Melanie Klein, Envie et gratitude, op. cit.
27. Ibid., p. 42.
28. Ibid., pp. 43-44. Cf. infra, cap. V I .
29. Ibid., p. 25.
30. Ibid., p. 17, nota 1.
31. Ibid., pp. 52-53.
32. Ibid., p. 32.
33. Ibid., p. 49.
34. Ibid., pp. 38-39.
35. Cf Didier Anzieu, "Jeunesse de Melanie Klein", em James Gamil et alii,
Melanie Klein aujourd'hui, op. cit., p. 35.
V

U M SUPEREGO
P R E C O C E E TIRÂNICO
1. L esde as primeiras fases do Édipo

O sádismo oral v a i de par, na teoria kleiniana do psiquismo,


com um superego tirânico. A psicanalista desenvolve-lhe a génese
precoce, desde os inícios de sua experiência clínica, em "Os pri-
meiros e stádios do conflito edipiano e a formação do superego",
artigo qi le faz eco a u m estudo de 1928, e que foi publicado em A
psicanál se das crianças (1932), 1 para voltar a ele posteriormente
— a partir de sua nova perspectiva, e ainda mais firmemente —
em " O C omplexo de É d i p o esclarecido pelas angústias precoces"
(1945), los Ensaios de psicanálise.2
A fase de sadismo exacerbado desde o nascimento, a que Me-
lanie K l e i n dará em 1946 o nome de "posição esquizoparanóide",
visa — om o seio — o interior do corpo da mãe contendo o pênis
do pai feremos aí, com Jean-Bégoin, o protótipo do espaço psí-
quico?
São esboçados dois movimentos psíquicos que estariam na
base do superego: por u m lado, a internalização do objeto incor-
porado o seio da m ã e + o pênis do pai) que defende o ego contra
os ataqufes do i d e forma o núcleo do superego; por outro lado, a
expulsãi deste núcleo para a fase sádico-anal. Vejamos os três
tempos esse processo segundo a observação kleiniana:

[...] as primeiras etapas do conflito edipiano e da formação do


supe ego se estendem, grosso modo, do meio do primeiro ano até o
terce iro ano.
120 MELANIE KLEIN

2. [...] o conflito edipiano e a formação do superego se iniciam,


no meu entender, no momento em que reinam as pulsões pré-genitais
e os objetos introjetados na fase sádico-oral; são portanto os primeiros
investimentos objetais e as primeiras identificações que constituem
o superego primitivo [...]. Tendo desviado o instinto destruidor para
o mundo exterior, portanto para este objeto, o ego não pode esperar
dele senão hostilidade para com o id. Segue-se naturalmente que o
objeto interiorizado lhe aparece como um inimigo cruel do id, mas
parece mesmo que um fator filogenético está também na origem da
angústia tão precoce e tão intensa [...]. O pai da horda primitiva
constituía o poder exterior que obrigava a inibir os instintos [...]. 4
Seja qual for a crueldade do superego constituído sob a influência
do sadismo, ele não deixa de tomar a defesa do ego contra os instin-
tos de destruição, e é portanto dele que procedem, desde esse está-
dio primitivo, as inibições instintuais.
3. [...] o que a criança expulsa é seu objeto, que ela considera
como hostil a seu lugar e que assimila a seus excrementos. A meu
ver, é também o superego terrificante, introjetado na fase sádico-oral,
que ela expulsa nesse momento. Assim, essa ejeção é um meio de
defesa que o ego, sob a influência do medo, utiliza contra o superego;
ele expulsa os objetos interiorizados e os projeta no mundo exterior.5

Assim, desde o sadismo exacerbado, a utilização maciça da iden-


tificação projetiva desencadeia angústias persecutórias associadas
à clivagem, e esses primeiros introjetos estruturam um superego
devorador à maneira de um Saturno impiedoso. A descoberta pro-
gressiva das duas posições, "depressiva" e "esquizoparanóide",
assim como de sua flutuação e recobrimento recíproco (que se pôde,
a exemplo de B i o n , denominar "S-P-D"), opera uma m u t a ç ã o do
superego à medida que se desenrola o conflito edipiano. A frus-
tração oral é de imediato projetada sobre os pais, que a criança
fantasia que se concedem "prazeres sexuais compartilhados", mas
a ela recusados. Desde o sexto m ê s t ê m início com a posição de-
pressiva o verdadeiro É d i p o e uma passagem do objeto parcial ao
objeto total: com a desmama, a fantasia da m ã e perdida (ou morta)
desencadeia a culpabilidade, e o superego perseguidor se modula
em "remorso da consciência", enlutada por não ter podido proteger
o "bom objeto" dos perseguidores interiorizados. A s próprias rela-
ções objetais se construirão d a í por diante sobre o modelo das re-
lações do ego com o superego e o id, ou do superego com o ego.
O GÉNIO FEMININO 121

A s iferenças com a teoria freudiana são claras e assumidas,


Apareci o na segunda tópica (id/ego/superego), o superego freu-
diano nao está verdadeiramente dissociado do ideal do ego e do
ego ideí 1 e é muitas vezes pensado no registro da idealização 6
antes que naquele, kleiniano, do terror, que o caracteriza na posi-
ção esqúizoparanóide, ainda que evolua ulteriormente. Como se
Freud ai ida n ã o tivesse extraído plenamente as consequências de
sua p r ó j ria teoria da pulsão de morte, o que K l e i n , ao contrário,
faz vig»o: osamente. A l é m disso, esse superego freudiano intervém
tardiamente, j á que é decorrente do complexo de Édipo, mais pre-
cisamen :e na fase fálica ( K l e i n prefere dizer: genital) de sua liqui-
dação, que marca a renúncia aos desejos incestuosos. O superego,
em Klei: 1, é então ao mesmo tempo mais j o v e m e mais malvado:
sempre idipiano, j á vimos, mas no sentido do É d i p o kleiniano,
ele ssibo precoce, e principiante desde o sadismo oral.

2. A eninas e meninos não lhe escapam

A d i pia identificação projetiva com a m ã e e o pai é dirigida


pelos desejos genitais precoces que impregnam os desejos orais,
uretrais e anais, as fases libidinosas se superpondo, para K l e i n ,
nos prinleiros meses da vida. O texto sobre o complexo de Édipo
de 1945 clarifica o papel dos dois sexos na constituição do su-
perego, eguindo a flutuação do É d i p o no decorrer daquilo que
levará o nome de "posição esquizoparanóide-depressiva":

E í p e n s o que os b e b é s dos dois s e x o s sentem os desejos genitais


por u a 1m ã e e por seu p a i , e que t ê m u m c o n h e c i m e n t o i n c o n s c i e n t e
da v; g i n a tanto quanto do p ê n i s . É por isso que o p r i m e i r o termo de
F r e u d , o de "fase genital", m e parece m a i s apropriado que seu c o n -
ceita ulterior de "fase f á l i c a " . [...]
P i m e i r o objeto interiorizado, o seio d a m ã e , f o r m a a base do
supe ego. D a m e s m a m a n e i r a que a r e l a ç ã o c o m o seio materno pre-
cede a r e l a ç ã o c o m o p ê n i s paterno e age profundamente sobre ela,
a r e i ç ã o c o m a m ã e interiorizada m o d e l a de muitas m a n e i r a s o de-
s e n v o l v i m e n t o do superego e m seu conjunto. A l g u n s dos caracteres
mportantes do superego, seu aspecto afetuoso e protetor ou
destdiidor e v o r a z , p r o v ê m das p r i m e i r a s c o m p o n e n t e s maternas do
supe e g o . °
122 MELANIE KLEIN

Freud, que ligava a instauração do superego ao complexo de


castração, pensava que as mulheres estavam quase isentas disso. 9
Muito pelo contrário, em razão mesmo de remeter o superego à
interiorização do seio perseguidor, Melanie o atribui generosa-
mente às meninas: n ã o menos superegóicas que os meninos, mas
de maneira diferente. D e fato, uma verdadeira dualidade sexual
estruturando o superego precocíssimo comanda a diferença do Édi-
po precoce nos dois sexos.
Exatamente, a fase fálica do menino cede ante a a m e a ç a de
castração da parte do pai, com o qual ele se identifica no curso da
"identificação primária com o pai da pré-história individual". E m
c o m p e n s a ç ã o , a angústia da menina se enraíza no medo de perder
o amor da m ã e , ligado ao medo da morte da m ã e . 1 0 K l e i n retomou
essas idéias em Inveja e gratidão.11

3. A idealização persecutória
e as "concretudes"

Neste contexto, a própria idealização assume u m valor perse-


cutório. Distinto do "bom" objeto, o objeto "ideal" aparece como
uma defesa contra a incapacidade do frágil j o v e m ego para inte-
riorizar realmente o bom objeto:

Certos indivíduos, incapazes de possuir um bom objeto, devem


fazer face a essa incapacidade — que deriva da inveja excessiva —
idealizando o objeto. Esta primeira idealização é precária, porque a
inveja em relação ao bom objeto se estende obrigatoriamente à sua
forma idealizada [...]. A avidez desempenha aí um papel importan-
te, porque a necessidade de possuir sempre o que há de melhor inibe
a faculdade de escolher e discernir.12

Visto que a idealização deriva mais da angústia persecutória


que da capacidade de amar, e que ela decorre do "sentimento ina-
to" de que existe um seio materno "extremamente bom", este ob-
jeto idealizado n ã o pode deixar de ser ambivalente. 1 3 Por um lado,
ele contraria parcialmente as angústias persecutórias, mas, por
outro lado, é ele mesmo perseguidor, j á que c o n t é m poderosos
O GÊNIi ) F E M I N I N O 123

elementi s tirânicos n ã o clivados. " O seio ideal é o complemento


do seio ievorador"; mas "as crianças dotadas de uma forte capa-
cidade c s amor" sentem menos a necessidade de uma idealização
excessrsla a qual "indica que a perseguição constitui a principal
força pi] lsional » 14
Só i ima boa perlaboração da posição depressiva — sempre
em curs< >, jamais completamente ultrapassada — logra integrar as
partes c ivadas, reconciliar o perseguidor e o ideal para formar o
"bom" e mitigar a tirania do superego. Quando se explicita a iden-
tidade s íxual do self (termo que K l e i n adota cada vez mais em
vez de " ígo", para designar o conjunto da psique, por oposição ao
objeto externo), a criança introjeta as funções sexuais no nível
genital < se destaca finalmente de seus pais. A s s i m , no término
dessa e\ olução ótima, se constituiria o que Donald Meltzer deno-
minará \ im "superego-ideal". 15
E m :ontrapartida, as estruturas psicóticas carregam sem des-
canso o "ardo desse superego kleiniano perseguidor, tanto t ê m elas
necessic ade dele para contrariar o desespero devido à destrutivi-
dade pri nária e ao fracasso de todas as primeiras relações objetais.
Porque i íste tirano idealizado — e por algum tempo protetor —
que é o superego feroz da psicose, se se revela ser uma defesa
desespei ada contra a anulação total da vida psíquica e da vida,
não deix a de constituir um entrave ao desenvolvimento do espaço
psíquico: a sobrevivência biológica da personalidade psicótica se
realiza ab preço de uma inibição ou de uma distorção delirante da
vida psu \uica.
O eí p a ç o mental se acha pelo menos parcialmente parasitado
por "coi cretudes", no sentido de que os objetos internos assim
como o mperego agem como os objetos externos, o que equivale
a negar i realidade interna e o liame entre os dois. O espaço psí-
quico, q le é uma representação, é experimentado então como uma
encarna :ão, um conteúdo de objetos muito concretamente vividos
e acond cionados num envoltório, criando obstáculos à simboli-
z a ç ã o . 1 6 A citação que Melanie K l e i n faz muitas vezes de O pa-
raíso pe 'dido, de Milton, adquire aqui todo o seu sentido: " T u te
tornaste, ó duríssima prisão, / a masmorra de ti mesma!" A o lado
da simbi lização, cujo sujeito psicótico é parcialmente capaz, insta-
la-se poi conseguinte uma outra realidade, "concreta", na qual a pa-
lavra é i coisa, e a coisa a palavra. E s s a problemática, j á iniciada
124 MELANIE KLEIN

pelas discípulas p r ó x i m a s de K l e i n , como Joan Riviere e Susan


Isaacs, será sobretudo desenvolvida pelos p ó s - k l e i n i a n o s . 1 7 Mas
j á é tratada pela própria K l e i n , principalmente no caso de D i c k 1 8
e no de Richard, quando a analista aposta nas partes sadias da
personalidade, capazes de ligar as partes clivadas, para interpretar
na transferência as angústias persecutórias a fim de conduzi-las
até às angústias depressivas e entender a simbolização no conjun-
to do e s p a ç o psíquico. Nesta perspectiva, o caso Richard mostra
quanto a descoberta da severidade do superego bem como as i n -
terpretações suscetíveis de torná-la reconhecível e menos rígida
por meio de uma verbalização partilhada na transferência se reve-
lam uma técnica essencial no tratamento das psicoses.

4. O caso Richard: a bondade contra Hitler-Ubu

O trabalho clínico com Richard (dez anos) foi realizado por


Melanie K l e i n em 1941: as Controvérsias com Anna Freud atingem
e n t ã o seu ponto alto, assim como a Segunda Guerra Mundial, de
que a história de Richard guarda marcas. 1 9 O título, Narrative ofa
Child Analysis, indica que se trata realmente de u m relato de aná-
lise (sua tradução francesa, infelizmente, nos priva dessa exatidão
essencial). A narração, ato imaginário por excelência, se apresenta
aqui como o adubo do trabalho kleiniano. Trate-se de contar as con-
versas de Richard, de relatar as interpretações de K l e i n ou de es-
clarecê-las por meio de comentários, toda a análise depende de uma
narração, nunca de um sistema de saber. U m certo culto ao relato
se manifesta em K l e i n , que se interessará pelo libreto de Colette
para a obra de R a v e l , UEnfant et les sortilèges, pelo romance Si
j'etais vous, de Julien Green, e, a l é m disso, pelo mito que ela abor-
dará com a Oréstia, de E s q u i l o . 2 0 Esta versão imaginária da verda-
de a aproxima de maneira bastante inesperada da apologia da vida
contada que encontramos j á em Hannah Arendt. 2 1
Richard, na idade de latência, sofre de distúrbios do caráter:
insinceridade, hipocrisia, encanto artificial. T a m b é m apresenta ini-
bições: n ã o pode mais frequentar a escola, porque é invadido de
angústias agorafóbicas e claustrofóbicas. T e m medo das outras
crianças, sem que seus temores, manifestos no início do tratamento,
sejam excessivos. A s interpretações kleinianas trazem as angústias
O GÊNÍ3 FEMININO 125

à super í<cie, e é então que explode o superego tirânico. Trata-se,


como ai sessões mostrarão, de uma verdadeira perseguição sádi-
ca, que ltrapassa em muito a rigidez dos pais puritanos e rudes do
menino Este "objeto paranóide", que habita concretamente Richard,
assumir i o aspecto da cozinheira, germanófona e envenenadora;
mas tanlbém de Hitler, o mais célebre dos perseguidores contem-
porâneo s , que fascina o menino tanto quanto o aterroriza, e com
quem o jovem paciente n ã o deixa de se identificar por instantes,
No iecurso da nona semana desse tratamento, que durará de-
zesseis lemanas ao todo, produz-se de início u m estado maníaco,
depois sua <derrocada. Enquanto Richard deseja e teme a chegada
do pai, interpretação kleiniana revela ao menino que ele deseja
o pênis do pai: o que faz surgir imediatamente um material vio-
lento, gi avitando em torno de um "monstro [cuja] carne é delicio-
sa' 22 bem como a manipulação de um lápis amarelo que Richard
não cessa de introduzir em seus orifícios — boca, orelhas e nariz
— e de mordiscar ao mesmo tempo que conta a história de um
rato qui penetra no quarto dos pais. Durante a sessão seguinte
conta sonho de processo bastante kafkiano (como observa com
tum
pertinência D . Meltzer): Richard é levado a comparecer perante
um trib nal sem que haja acusações precisas formuladas contra
ele:

E le se achava diante de um tribunal. Ignorava que o acusavam; o


juiz apareceu, tinha um ar gentil e não disse nada. Richard entrou
num cinema; este parecia também fazer parte do tribunal. Depois
toda; as construções do tribunal desabaram. Richard se tornara gi-
gant \ e, com seu imenso sapato preto, dava pontapés nas muralhas
em i uína que se reerguiam imediatamente. Ele reconstruiu todos os
edif rios demolidos.23

Melpnie faz Richard compreender que o j u i z é seu pai: às


vezes g ntil, às vezes aterrador quando Richard quer roubar-lhe o
pênis 01 o seio de sua m ã e — n ã o tinham acusado Richard de ter
colhido rosas? A repreensão por ter demolido as construções do
tribunal representa seus desejos de atacar os pais depois de com-
pensa los Se Richard se torna gigante é porque c o n t é m em si
mesmo ima m ã e giganta e u m pai-monstro malfazejo; acrescen-
taremos que ele introjetou um superego gigante que lhe proporcio-
126 MELANIE KLEIN

nou, a l é m da impressão de ser Hitler, o sentimento de uma onipo-


tência do pensamento e a possibilidade de ser mais forte do que
Hitler para combatê-lo. O sapato-Hitler preto significava que ele
fazia e desfazia as ruínas, que as reerguia para finalizar, da mes-
ma forma que havia demolido os pais e esperava restaurá-los.
No dia seguinte Richard faz associações sobre a inexplicável
culpa que o deixava m o í d o de angústia neste sonho: foi acusado
de ter quebrado vidraças — como o fez realmente na sala de j o -
gos; mas esta m á ação t a m b é m se relaciona com sua identificação
a Hitler e com a bomba a l e m ã que destruiu a estufa da casa da
família e assustou Bessie, a cozinheira envenenadora.
A s notas de K l e i n mostram que seu trabalho interpretativo
diz respeito ao excesso da clivagem e ao excesso da idealização
em Richard. A analista sustenta que Richard ataca o pênis do pai
que imagina importunar o interior do corpo de sua m ã e , mas ataca
t a m b é m sua própria m ã e , e isso o incomoda. Mr. Smith, que nos
relatos de Richard representa o pai, na realidade se transforma
demasiado rapidamente, ora em bom, ora em mau personagem;
paralelamente, o menino separa o pai e a m ã e , idealizando u m e
fazendo do outro u m mau objeto, e vice-versa. D o mesmo modo,
no interior de seu próprio self, Richard opera clivagem e idealiza-
ção, de tal maneira que sua parte m á , "Hitler", ataca e invade suas
partes boas. Deste trabalho minucioso com seu j o v e m paciente a
analista p r o p õ e uma síntese:

O combate contra seus inimigos exteriores [...] fazia aparecer uma


angústia paranóide concernente a seus adversários, angústia que ele
tentava neutralizar com defesas maníacas. Entretanto, quando a síntese
dos bons e maus aspectos da analista, da mãe ou do pai aumentava,
o equilíbrio entre o que ele julgava bom e o que julgava mau dimi-
nuía. Tais mecanismos de exteriorização e de síntese dos objetos se
acompanham de uma melhor integração do eu e de uma capacidade
maior para o sujeito de distinguir entre seus objetos e as partes de si
mesmo. Todavia, os progressos da integração e da síntese despertam
a angústia do paciente ao mesmo tempo que a aliviam. É o que mos-
tra o desenho dos aviões (46- sessão) no qual Richard aparece a um
só tempo sob a forma de um avião inglês e de um avião alemão; isto
implica uma clarividência maior da coexistência de pulsões destrui-
doras e de pulsões de amor inconscientes.24
O GÊNláf FEMININO 127

M e l mie K l e i n desliza progressivamente do termo "ego" para


o termo self ou " s i " , que e m p r e g a r á tardiamente para designar "o
conjunto da personalidade [que] compreende n ã o somente o ego,
mas toda a vida pulsional que Freud designou pelo termo id.25
Sem ser um instância psíquica que, para outros adeptos do "ego"
ou do sei r,•, se adquire e se aperfeiçoa lentamente ao longo do desen-
volvime íto do aparelho psíquico da criança, o se/f kleiniano é dado
no própr ío nascimento; é anterior à clivagem. Representa a unida-
de es: al do sujeito que é preciso entender no sentido kleinia-
no de un|a heterogeneidade inata, ao mesmo tempo sentido e pulsão,
e podendo comportar partes feitas do id ou do ego, imagens do
corpo e los objetos heteróclitos, assim como irredutíveis concre-
tudes. A análise de Richard testemunha uma tal concepção com-
pósita e 10 entanto unificada do " s i " ou do self segundo Klein. Mais
do que os casos de Fritz, Hans, Trude, Rita, Peter, Dick, entre
outros, a unidade d i n â m i c a e n ã o obstante heteróclita do apa-
relho psí quico que se exprime aqui, graças à analista: um sujeito
(seria pc ssível dizer sem demasiado anacronismo teórico) que se
faz e se Jesfaz nas crises entre o superego e seus objetos.
A s 1 concretudes superegóicas" atuam em Richard como ob-
jetos ext írnos e perseguidores que o impedem de pensar de outra
maneira que numa excitação maníaca. Sua palavra se reduz a uma
logorréií febril. Quando a interpretação é proposta ao pequeno
paciente, seu pensamento e sua palavra c o m e ç a m a se modificar.
Richard 3ergunta à sra. K l e i n se ela encontra prazer nesse traba-
lho comi im aos dois, como se tentasse compreender o sentido da
atividadí analítica e como as verdades psíquicas que a análise
poderia brnecer são suscetíveis de induzir nele uma satisfação
diferente da excitação persecutória anterior:

R chard mergulhou em seus pensamentos; ao cabo de um instante


si êncio, declarou que gostaria de saber o que era mesmo a psica-
nálise. Queria atingir-lhe "o coração". 2 6

U m í outra interpretação de Melanie K l e i n diz respeito ao sen-


timento ie triunfo que Richard experimentava por ter seduzido
acreditava ele! — sua m ã e bem como a sra. K l e i n (ele dormia
~om sua m ã e e podia ver sua analista no domingo), assim como
i t a poder matar Hitler com seus lápis! K l e i n desenvolve
128 MELANIE KLEIN

sua interpretação dizendo que o ataque naval entre os ingleses de


um lado, os alemães, os japoneses e os italianos do outro, "pros-
seguia no interior de Richard e n ã o somente no exterior"; que o
menino se permitia matar sua m ã e quando acreditava que ao ce-
der à sua sedução ela se degradava, como se demonstrasse ter
esquecido as fronteiras entre o que é permitido e o que n ã o o é, o
que é bem e o que é mal; que ele acreditava que a própria analista
o tentava e o autorizava a desejar sua m ã e e a ela mesma. Como
observa Meltzer, o estado m a n í a c o n ã o pode ceder senão quando
a interpretação tocou o essencial, a saber "o desprezo do objeto e
o desprezo da transferência para essa sra. K l e i n cuja bolsa e cujo
relógio eram os rochedos por trás dos quais ele poderia se escon-
der e atacar todo o mundo". 2 7
A interpretação das hostilidades que fascinam Richard e a re-
c o n d u ç ã o delas ao espaço interior do menino favorecem o abran-
damento do superego e contribuem para a ultrapassagem das c l i -
vagens. No mesmo movimento, os sentimentos depressivos que
acompanham o amor pelo objeto total perdido ( m a m ã e , a analis-
ta) podem se intensificar a ponto de dominar a excitação maníaca,
para enfim conotar de benevolência e de gratidão as componentes
do superego. C o m efeito, a sra. K l e i n , que assume neste momento
da análise as funções desse superego em v i a de evolução, sofre
modificações nas últimas semanas da análise: conterá ela em si
mesma um mau papai-Hitler ou, ao contrário, será ela feliz com
seus filhinhos, seu bom marido ou um bom pênis no interior de si
mesma?, pergunta-se Richard na d é c i m a terceira semana do trata-
mento. Sua confiança na boa m ã e interior e no bom pai cresce à
p r o p o r ç ã o que se elabora a confiança na sra. K l e i n .

E u j á h a v i a e x p l i c a d o ao m e n i n o que u m a parte dele m e s m o [self],


que ele p e r c e b i a c o m o b o a e a l i a d a ao b o m objeto, c o m b a t i a a parte
destruidora dele m e s m o , que estava l i g a d a aos m a u s objetos. No
entanto, seu ego n ã o estava bastante forte para enfrentar a c a t á s t r o f e
iminente. D a í e u c o n c l u i r i a que a l o c o m o t i v a que R i c h a r d tinha pos-
to atrás de m i n h a b o l s a (objeto que m e tinha representado) s i m b o l i -
z a v a suas p u l s õ e s destruidoras que ele m e s m o n ã o p o d i a controlar e
que pretendia fossem controladas p e l a analista — isto é , por u m b o m
objeto. E s t e b o m objeto e r a igualmente considerado c o m o o supere-
go moderador, portanto s a l u t a r . 2 8
O GÊNK FEMININO 129

A b( mdade redescoberta e recriada de Richard alarga-lhe o


espaço p >íquico e o torna capaz de simbolizar os conflitos presen-
tes e pas >ados. Cada vez menos ele se deixa "desmantelar" pelas
intromis ões de um superego tanto mais tirânico quanto é "encar-
nado", " :oncretizado" sob o aspecto de perseguidores reais e n ã o
fictícios: a cozinheira Bessie, Hitler, sua m ã e , seu pai e a própria
analista i10 início do tratamento. O tribunal n ã o tem mais razão de
lhe atorr íentar os sonhos, n ã o mais do que Richard de se arvorar
em gigai te ubuesco com seu imenso sapato preto. O " c o r a ç ã o " da
psicanáli se (ou, antes, da psicanalista) está em v i a de vencer a re-
sistência do "castelo" das muralhas superegóicas que Richard ha-
via dese: ihado para representar o "tribunal".
De 1 ato, parece que a simplicidade crua, se n ã o cruel, das
interpret ições kleinianas opera uma reconciliação no espaço psí-
quico de Richard. Talvez porque a própria terapeuta n ã o se separa
nunca de sta bondade que era nela uma mistura de tato na escuta e
de obstii ação em compreender sempre à beira do incompreensí-
vel, assoi iando o paciente a seu raciocínio de médica clínica. James
Gammil, que, é verdade, foi seu fiel discípulo, testemunha: " E l a
insistia r o fato de que era preciso chegar a conhecer n ã o somente
o vocabi lário específico de cada criança, mas t a m b é m seu estilo
pessoal c e ser e de expressão de si mesma, a f i m de que as inter-
p r e t a ç õ e ; fossem formuladas com a maior probabilidade possível
de serem compreendidas e utilizadas [...]. A l é m disso, n ã o lhe
parecia s uficiente que o paciente se sentisse compreendido, mas
era desej ível que ele apreendesse o que tornava possível esta com-
preensãc , " 2 9
Com 3reender, depois compreender o como e o porquê do com-
preender n ã o é u m empilhamento de teorias (ou de metalingua-
gens) qu í Melanie K l e i n procura. Trata-se de uma cooperação do
superegc cognitivo com a lógica pulsional que é a da analista,
sem dúv: da, mas que pode se revelar ser a do sofrimento do p r ó -
prio paci ente, se ele tem a chance de ter um(a) analista que sabe
acompar há-lo tão longe como o faz Melanie.
De f ito — e o "caso Richard" prova-o mais do que outros,
talvez er 1 razão das notas cotidianas e detalhadas que o restituem
para n ó s —, se é verdade que K l e i n nos parece sempre bem esque-
ática e brutalmente simplória, é porque ela revela que o desejo
ele me: mo ferozmente estúpido. Quando n ã o chega a perlaborar
130 MELANIE KLEIN

seus excessos sádicos, o desejo angustiado os desvia para objetos


introjetados totalmente desdobrados e reversíveis, que nos forjam
u m superego aparentemente grandioso e protetor, mas, na reali-
dade, estúpido e devastador. Desde então, os tribunais sem r a z ã o
se instalam a sério em nós, depois nos habitam concretamente: é a
extenuante série das m a m ã s - B e s s i e s envenenadoras e dos p a p á s -
Hitlers bombardeadores. Mas o Hitler de Richard n ã o era senão
u m U b u ; e o sinistro processo de que sofria o menino, u m carnaval
de reviravoltas sadomasoquistas interiores. Jarry, esse, ria d i s s o . 3 0
N ã o Melanie. Verdadeiramente (gravemente? maternalmente?),
K l e i n teve a coragem de revelar essa estupidez. Ainda por cima,
para ela, U b u n ã o é exterior. U b u é simplesmente interior: U b u é
nós, U b u é vocês. Quem n ã o lhe quereria mal por uma tal demons-
tração?

5. Como não ser só?

N ã o contente de ser ferozmente estúpido, nosso mundo inte-


rior seria t a m b é m radicalmente solitário. Se o superego n ã o é o
ú n i c o responsável por isso, a analista, no fim de seu último texto,
"Sentir-se s ó " , 3 1 afirma, ainda assim, que "quanto mais severo for
o superego, mais intensa será a solidão". Entretanto, ela atribui
n ã o o fato de estar isolado, mas o sentimento interno de ser só,
tanto em companhia de amigos quanto no amor, a dois fatores
essenciais entre outros, e que n ã o são estranhos a esse superego
precoce e tirânico que descrevemos aqui.
A primeira relação pré-verbal com a m ã e , se é satisfatória,
estabelece u m contato entre o inconsciente materno e o da criança
tão completo, tão gratificante que a nostalgia se lhe imprime no
psiquismo. Sem recorrer à palavra, este contato cria uma sensa-
ção tão total de ser compreendido que contribui para a impressão
depressiva de ter sofrido uma perda irreparável. Por mais favorá-
vel que seja o contexto da evolução psíquica ulterior, as angústias
não tardam a aparecer. A angústia esquizoparanóide, desde o ter-
ceiro m ê s , depois a angústia depressiva, mais tardia, devastam o
ego e se escoram num superego que exige o retorno a essa comu-
nicação absoluta que "funda a experiência vivida mais completa
que s e j a " . 3 2 A integração do eu, que deveria remediar essas an
O GÊN O FEMININO 131

gústias se faz progressivamente no curso da posição depressiva,


mas ap ísar disso n ã o é nunca completa, e está aí a segunda fonte
do sent imento de solidão:

/isto que uma integração completa não pode ser realizada, nós
nãc podemos jamais compreender e aceitar plenamente nossas pró-
prií s emoções, nossas próprias fantasias e nossas próprias angústias:
eis aí um fator importante que contribui para a solidão. 33

sperança de encontrar uma total c o m p r e e n s ã o reunificando


as part ÍS clivadas e incompreendidas do ego pode se exprimir
então ela fantasia de ter u m g é m e o , como revelou Bion. Esta
esperai ç a pode t a m b é m tomar a forma de um objeto interno idea-
lizado, merecendo uma confiança absoluta. A contrario, quando a
integra ^ão das partes do ego permanece inacessível, o sentimento
de n ã o integração ou de exclusão se instala, e a gente se persuade
de que " n ã o existe n i n g u é m , grupo ou indivíduo, a que se perten-
ceria". O u então, é possível se defender da dependência excessiva
com re >peito ao objeto externo por meio da fuga para o objeto in-
terno: aí resulta, em certos adultos, a rejeição de todo convívio
a m i g £ el.
Uiba tonalidade nostálgica, apaziguada e outonal, impregna
esse ú timo texto de Melanie K l e i n que percorre os sintomas es-
quizop aranóides e m a n í a c o - d e p r e s s i v o s do isolamento para se
dobrar por fim, sobre uma vivência universal. A experiência dra-
mática da solidão se encurva, para concluir, num sentimento
onipre ente de isolamento que se mostra ser quase um conheci-
mento lúcido de nossa condição de seres separados, rejeitados de
um pa aíso que era, no entanto, um inferno, mas que nosso supe-
rego n ío cessa de idealizar para melhor nos convencer de que es-
tamos í m dívida com o impossível.
D a solidão esquizoparanóide e maníaco-depressiva ao senti-
mento corrente de solidão que daquela conserva no entanto as
marcai, o superego precoce e tirânico se suavizou e metamorfoseou
num " )om" superego. Este último exige sempre que as pulsões
destru i v a s n ã o existam. E s t i m u l a as a n g ú s t i a s depressivas e
paranc ides que nos persuadem de que n ã o h á unificação possível,
nem c >municação de nossas partes clivadas. Mas deixa agir de
qualqi er maneira o processo mesmo de integração, o que nos per-
132 MELANIE KLEIN

mite ao menos conhecer as razões que nos fazem gozar e sofrer.


Sentir-se só torna-se em definitivo a expressão da "necessidade
de integração, assim como [da] dor que acompanha o processo de
integração", ambas provenientes de "fontes interiores que perma-
necem ativas ao longo da v i d a " . 3 4
Longe de estar resignada, Melanie K l e i n conclui que efetiva-
mente a solidão é nosso quinhão inevitável, mas é finalmente uma
oportunidade. Admiti-la não nos torna mais felizes, mas certamente
mais serenos, porque mais verdadeiros e, talvez, mais acolhedores
— sem que, apesar disso, deixemos de estar sozinhos. Sozinhos,
podemos fazer compartilhar o conhecimento analítico de nossas
solidões. O superego draconiano d á lugar ao ideal do ego, de que
Melanie n ã o fala muito, mas que se perfila no reaparecimento, j á
nas últimas páginas de seu texto, do "bom seio" e de sua interio-
rização:

Esta se acha na base da integração que, como já sublinhei inúme-


ras vezes, constitui um dos fatores mais importantes suscetíveis de
atenuar o sentimento de solidão. 35

NOTAS

1. Cf. trad. fr., op. cit., pp. 137-162.


2. Op. cit., pp. 370-424.
3. "Esta n o ç ã o de um e s p a ç o situado no interior do corpo da m ã e e no qual se
projeta a criança continua sendo uma n o ç ã o fundamental, na base do desen-
volvimento da n o ç ã o de e s p a ç o psíquico." Cf. Jean B é g o i n , " L e Surmoi
dans la théorie kleinienne et postkleinienne", em Nadine Amar, Gérard L e
G o u è s , Georges Pragier (dir.), Surmoi II. Les Développements post-freudiens,
monografia da Revue française de psychanalyse, 1995, p. 60.
4. Cf. Sigmund Freud, Totem et Tabou (1912), citado aqui por Klein.
5. Cf. "Les premiers stades du conflit oedipien et la formation du surmoi", em
La Psychanalyse des enfants, op. cit., pp. 137, 150, 151, 153, 154.
6. Cf Sigmund Freud, " L e M o i et le Ça" (1923), em Essais de psychanalyse,
Payot, 1951, pp. 163-218.
7. Cf. Melanie Klein, " L e complexe d'Oedipe éclairé par les angoisses preco-
ces", em Essais de psychanalyse, op. cit., pp. 370 sq.
8. Ibid., p. 4 2 1 .
9. A "castração consumada" (na menina) e a "ameaça de castração" (no meni-
O GÊF IO FEMININO 133

no) comandam, segundo Freud, dois destinos diferentes do Édipo. No meni-


no, ) complexo de castração faz "voar em estilhaços" o Édipo e, conduzin-
do o abandono dos investimentos libidinais, favorece a c o l o c a ç ã o do supe-
reg masculino s ó l i d o , que é o verdadeiro herdeiro do complexo de Édipo.
A n enina, em contrapartida, não tendo de ser "ameaçada" de castração (já que
é "consumada"), é introduzida no É d i p o pela própria castração que ela
desêobre definitivamente ao assumir a p o s i ç ã o feminina de objeto de amor
par; o homem, e n ã o pode abandonar o complexo de É d i p o senão muito
lent imente, ou nunca. Resulta daí que "o superego feminino n ã o será nunca
tão nexorável, tão impessoal, tão independente de suas origens afetivas como
o q le exigimos do homem". Cf. Sigmund Freud, "Quelques c o n s é q u e n c e s
psy íhiques de la différence anatomique entre les sexes" (1925), G W, t. X I V ,
pp. 19-30, S E, t. X I X , pp. 241-258, trad. fr. em La Vie sexuelle, P U F , 1969,
p. 131.
10. Me anie Klein, " L e complexe d'Oedipe éclairé par les angoisses précoces",
em Essais de psychanalyse, op. cit., pp. 420 sq.
11. Cf. Melanie Klein, Envie et gratitude, op. cit., pp. 42 sq.; voltaremos a isso
infr i, cap. V I .
12. Ibic , pp. 35-36.
13. Jeai i B é g o i n especifica que é "sempre duplo", art. cit., p. 65.
14. Cf. Melanie Klein, Envie et gratitude, op. cit., p. 35.
15. Cf. Sexual States ofMind (1972), trad. fr. Les Structures sexuelles de la vie
psyi hique, Payot, 1977, cap. 10: " L a g e n è s e du surmoi-idéal".
16. "O ier está assim encerrado nos próprios mecanismos que ele havia instala-
do i ara se proteger", como afirma Cléopâtre Athanassiou-Popesco, "Uapport
de Melanie K l e i n et des auteurs post-kleiniens à la c o m p r é h e n s i o n du
fom tionnement psychique", em Psychoses I. Théories et histoires des idées,
moi ografia da Revue française de psychanalyse, J . Chambier, R . Perron, V.
Soujffir (dir.), P U F , 1999, pp. 88 e 90 sq.
17. Cf. Infra, cap. V I I I .
18. Cf. Infra, cap. V I I I , 1, pp. 185 sq.
19. Cf. Melanie Klein, Narrative of a Child Analysis. The Writings of Melanie
Klen, vol. IV, Hogarth Press, 1975, Karnac Books, 1992, p. 6; trad. fr.
Psy :hanalyse d'un enfant, Tchou, 1973. S ó foram escritas, parece, na é p o c a
nob s clínicas detalhadas tomadas após cada s e s s ã o , para responder de ma-
neii a precisa aos numerosos ataques que tinham sido dirigidos a Melanie
Kle n durante as referidas Controvérsias. A s notas foram enriquecidas mais
tard 5, entre 1958 e 1960, de um comentário teórico, e publicadas pelo Melanie
K l e n Trust, em 1961.
E lliott Jacques, que ajudou Melanie Klein a retomar o estilo, se n ã o o
con e ú d o de suas notas bem como de seus comentários, lembra, em seu
prei ácio à e d i ç ã o inglesa, que, alguns dias antes de sua morte no hospital, a
ana ista trabalhava ainda nas provas do índice do livro.
20. Cf. nfra, cap. V I , 6.
21. Cf. Fulia Kristeva, Le Génie féminin, t. 1: Hannah Arendt, op. cit., cap. I :
"Lajvie est un récit", pp. 24-167.
134 MELANIE KLEIN

22. Melanie Klein, Psychanalyse d'un enfant, op. cit., quadragésima sétima ses-
são, p. 216.
23. Ibid., quadragésima oitava sessão, p. 223.
24. Ibid., nota I I da quadragésima oitava sessão, p. 226.
25. Cf "Les racines infantiles du monde adulte" (1959), em Envie et gratitude,
op. cit., p. 100.
26. Melanie Klein, Psychanalyse d'un enfant, op. cit., quadragésima oitava ses-
são, p. 222.
27. Cf Donald Meltzer, Le Développement kleinien de la psychanalyse, Freud-
Klein-Bion (conferências de 1972 e 1973), trad. fr. Bayard Éditions, 1994,
p. 289.
28. Cf Melanie Klein, Psychanalyse d'un enfant, op. cit., nota I I I da n o n a g é s i -
ma segunda sessão, p. 420.
29. Cf. James Gammil, A partir de Melanie Klein, Césura, 1998, p. 29.
30. Cf Alfred Jarry, Oeuvres completes, Gallimard, col. "Bibliothèque de la Plêia-
de", vol. 1, 1972; vol. 2, 1987.
3 1 . Publicado postumamente (1963), cf. Envie et gratitude, op. cit., pp. 121-
137. Esse texto parece ecoar a conferência de Winnicott de 1957, " L a capacité
d'être seul" {cf. trad. fr. em De la pédiatrie à la psychanalyse, Payot, 1969,
pp. 205-213), que distingue a capacidade de ser s ó do ego maduro, p ó s -
edipiano, de uma capacidade de ser s ó primitiva, própria do b e b é que d i s p õ e
de um "suporte ao ego oferecido pela mãe". O bem jovem ego chega então
a uma ego-relatedness (ou "relação com o ego") que n ã o seria um "narcisis-
mo", mas a edificação de um "meio ambiente interno" mais primitivo que a
"introjeção da mãe", segundo Klein. Temos aqui um belo exemplo de vai-
v é m entre Klein e Winnicott, que mostra a originalidade dos dois analistas e
sua dívida recíproca. Enquanto Winnicott considera a capacidade de ser s ó
no regime do êxtase, veremos que Melanie n ã o se separa jamais de uma
tonalidade de d e s o l a ç ã o no coração mesmo da serenidade adquirida.
32. Ibid., p. 122.
33. Ibid., p. 124.
34. Ibid., p. 137.
35. Ibid., p. 136.
VI

C U L T O À MÃE
O U E L O G I O D O MATRICÍDIO?
OS PAIS
1 . 0 seio sempre recomeçado

O r niverso kleiniano, nunca é demais repetir, é dominado pela


mae. E Í ta figura arcaica a m e a ç a e aterroriza com sua onipotência.
Seria e a tão perniciosa que se fizesse imprescindível abandoná-
la e dei: :á-la morrer? N ã o poderia ela se transformar? mas em quê?
O aban lono necessário da m ã e constituiria uma passagem para o
pai, cor 10 pensam Freud e Lacan? Ou melhor, as primícias de reu-
niões u teriores com uma boa m ã e enfim restaurada, gratificante e
gratific ida? Sem dúvida j á que, para nossa autora, n ã o existe ber-
ço sem feiticeira, nem b e b é sem inveja. E só o analista — de pre-
ferência uma mulher ou, pelo menos, u m homem que assumisse
nele o i sminino — poderia convencer o b e b é , que continuamos a
ser eter lamente, que n ã o é impossível encontrar fadas que mere-
ç a m grátidão.
E s t is visões esquemáticas do trabalho de K l e i n n ã o são intei-
ramente falsas. O lugar pelo menos modesto ocupado pela m ã e na
teoria de Freud conduziu seus sucessores, entre os quais Melanie
K l e i n , ao excesso p o l é m i c o inverso. Mas, ao dar demasiada ênfa-
se à ma e negligenciada pelo fundador, corre-se o risco de esque-
cer o paii . C o m efeito, qual é o lugar do pai em Melanie? U m a das
primeir is a fazer a pergunta será Melitta Schimdeberg, sua filha,
1
E formi lará com violência. Outros detratores de K l e i n lhe segui-
rão o ejcemplo. Mas as coisas parecem mais complexas do que
isso no pensamento da psicanalista.
138 MELANIE KLEIN

O célebre seio nunca está inteiramente só: o pênis lhe está


sempre fantasisticamente associado. Martelada desde os primei-
ros textos de A psicanálise de crianças, esta convicção será formu-
lada com muita clareza em Inveja e gratidão. Se a inveja surge
desde que h á o seio, t a m b é m visa o pênis que lhe está associado;
de tal modo que,

nas vicissitudes da primeira relação exclusiva com a mãe [...], quan-


do esta relação é perturbada cedo demais, a rivalidade com o pai
aparece prematuramente. As fantasias de pênis achando-se no inte-
rior da mãe, ou em seu seio, transformam o pai num intruso hostil. 2

E m outras palavras — e j á insistimos neste ponto — , desde o


início de sua experiência clínica fundada na análise de Erich/Fritz
e de Hans/Félix, K l e i n postula a existência de um É d i p o arcaico
que se manifesta com os primeiros sustos noturnos. Estes teste-
munham u m recalcamento: ou n ã o h á recalcamento senão do con-
flito edipiano! A s s i m , ainda que É d i p o só comece de fato no sexto
m ê s com a posição depressiva, a rivalidade com o pai surge preco-
cemente no proto-Édipo. Esta precocidade, que parece contradizer
o É d i p o freudiano mais tardio, poderia ser, apesar disso, reconci-
liada com a teoria freudiana global, e notadamente com a tese —
da qual K l e i n extrai aqui as consequências imediatas — de uma
rivalidade edipiana filogeneticamente constituída desde o assassi-
nato e a assimilação do pai da horda primitiva. Mas então o pênis
estaria já no seio ou apareceria somente depois!
E m sua exposição de 1924, no Congresso de Salsburgo, K l e i n
clarifica sua posição: o pênis do pai como tal — e n ã o confundido
com o interior da m ã e — é um objeto de cobiça que n ã o faz senão
suceder ao seio da m ã e , conclui ela depois da análise de Rita. P u l -
sões edipianas precoces misturam o oral e o vaginal: as crianças
desejam o coito como um ato oral, a boca e a vagina são igualmente
receptivas, o que favorece o deslocamento da libido oral para o
genital. 3
Contudo, é com a posição depressiva, quando amor e ódio
são progressivamente integrados, quando o ego pode perder a m ã e
e reencontrá-la em suas fantasias como um objeto total, que se
perfila o que Klein chama "a relação com o segundo objeto: o pai". 4
E é possível comparar com ele "as outras pessoas do círculo fami-
O GÊNK FEMININO 139

liar" (irn iãos ou irmãs). Esta secundariedade é pouco lisonjeira,


mas, ain a assim, efetiva. O conflito edipiano, desde suas fases
iniciais, sva K l e i n a colocar a existência dos dois pais na fantasia
infantil, mquanto imago dos "pais combinados". Inveja e grati-
dão retoifia e define:

fantasias em que o seio materno ou a mãe contêm o pênis do


pai, cli em que o pai contém a mãe, figuram entre os elementos que
inten êm nas fases iniciais do conflito edipiano: permitem que se
edifijue a imagem dos pais combinados. A intensidade da inveja e
do cii me edipianos repercute sobre os efeitos produzidos pela ima-
gem os pais combinados que deve permitir à criança diferenciar os
dois l ais e estabelecer boas relações com cada um deles. A criança
press :nte que os pais se satisfazem sexualmente entre si; a fantasia
da iirpgem parental combinada — que conhece também outras fon-
tes se acha reforçada. 6

E m dompensação, um excesso da angústia ocasiona uma inca-


pacidade de dissociar a relação com o pai e a relação com a m ã e ,
o que po leria estar na origem da confusão mental.
Quar do aparecem, os sentimentos de ciúme do menino se diri-
gem meu os ao objeto original (o seio — a m ã e ) que a seus rivais,
O menin< desvia seu ódio para o pai, invejado como possuidor da
mãe: rec< nhece se aqui o c i ú m e edipiano clássico. Para a menina,
ao contrario , " a m ã e se torna o rival principal". A inveja feminina
do pênis laterno, primordial para Freud, 7 é secundária para Melanie
K l e i n , qile só retém dela o aspecto suscetível de reforçar a homos-
sexualid* de da menina: "Trata-se essencialmente de um mecanis-
mo de ri ga, que n ã o poderia instaurar relações estáveis com o
segundo )bjeto." No caso em que a inveja e o ódio dirigidos à m ã e
t ê m sido fortes e estáveis, transferem-se na ligação com o pai; ou
então se riivam de tal maneira que um dos pais é simplesmente
detestadc e o outro adorado. Quanto à rivalidade com a m ã e , K l e i n
sustenta - contra Freud — que n ã o é o amor pelo pai que está na
base disto mas sempre a inveja em relação à m ã e à medida que
ela "poss i ao mesmo tempo o pai e o pênis". O pai, ou antes aquilo
a que ele está reduzido, n ã o é senão uma possessão da m ã e . E n -
contra se esta;afirmação constante em toda a sua obra, até no últi-
mo texto le Inveja e gratidão. Aliás, muito significativamente, Klein
utiliza a sse respeito o termo appendage, traduzido em francês por
140 MELANIE KLEIN

"dépendance [ d e p e n d ê n c i a ] " (e por que n ã o por "appendice [apên-


dice]"?8):

O pai (ou seu pênis) se tornou uma dependência [ou o apêndi-


ce?] da mãe, e é por esta razão que a menina pretende arrebatá-lo.
Desde então, todo sucesso que ela alcança em suas relações mascu-
linas assumirá o sentido de uma vitória sobre uma outra mulher.
Esta rivalidade existe mesmo na falta de uma verdadeira rival, por-
que a rivalidade se dirige então à mãe do homem amado, como é o
caso, por exemplo, nas relações muitas vezes difíceis entre nora e
sogra [...].
Quando o ódio e a inveja em relação à mãe não são tão intensos,
[...] a idealização do segundo objeto, a saber, do pênis paterno e do
pai, se torna então possível. 9

Malgrado esta última hipótese, bem frágil, de uma possível


idealização do pai, é o ódio da mulher pela m ã e que se v ê perdu-
rar, inclusive sob o disfarce do amor pelo pai. Sobre este pano de
fundo, as amizades femininas assim como a homossexualidade
aparecem como a procura de um bom objeto que substituiria en-
fim o objeto primordial invejado.
É sempre a inveja do seio que serve de base fundamental-
mente a outras patologias femininas:

Uma frigidez mais ou menos acentuada aparece frequentemente


como uma consequência de uma atitude instável em relação ao pê-
nis, porque se fundamenta sobretudo numa fuga diante do objeto
original. 10

Traduzamos: se a mulher foge do pênis é porque fugiu do seio;


n ã o p o d e r á gozar, será frígida, porquanto gozar é, em primeiro
lugar, gozar do seio que comporta o pênis.
Paralelamente, para o homem, a culpabilidade homossexual
em relação à mulher se enraíza no sentimento de ter abandonado
cedo demais a m ã e ao odiá-la, "de tê-la traído aliando-se ao pênis
do pai e ao próprio pai". Esta "traição da mulher amada" pode
perturbar as amizades masculinas e a culpabilidade suscitar rea-
ções de fuga da mulher, 1 1 podendo levar até à homossexualidade.
O GÊNK FEMININO 141

2. D na fase feminina primária

A o < tribuir um papel central ao seio, a fantasia precoce se-


gundo K ein inclui, portanto, no seio, o pênis. Mais ainda, ao re-
conhecei que as pulsões orais estão entremeadas às genitais, a
dinâmic* da fantasia induz o ego a desejar o coito como um ato
oral de s acção do seio incluindo o pênis, em seguida do próprio
pênis à i nagem do seio. Comum aos dois sexos, esta atitude co-
manda u: na fase feminina primária para o homem e a mulher — o
que n ã o i a menor das inovações kleinianas. 1 2
A inveja primária do seio, substituída pela inveja oral ou re-
ceptiva c o pênis, imprime no menino uma inveja de feminilidade
e/ou de i laternidade. Hanna Segal comenta:
"Pan i a menina, esse primeiro movimento oral em direção ao
pênis é u n movimento heterossexual, que abre caminho para a si-
tuação g( nital e para o desejo de incorporar o pênis em sua vagina.
Mas, ao mesmo tempo, contribui para suas tendências homosse-
xuais, no sentido de que, nesta etapa do desenvolvimento, o dese-
j o oral es tá ligado à incorporação e à identificação, e que o desejo
de ser ali mentado pelo pênis se acompanha de um desejo de pos-
suir um j >ênis que lhe seja próprio.
Para o menino, esse movimento em direção ao pênis de seu
pai come uma possibilidade de se desviar do seio materno é antes
de tudo u m movimento para a homossexualidade passiva, mas, ao
mesmo t impo, essa incorporação do pênis paterno ajuda-o a se
identific*r com seu pai e reforça sua heterossexualidade." 13
Mais direta na intensidade da observação e da contratransfe-
rência, N elanie K l e i n escreve:

Es|a fase, comum aos dois sexos, é caracterizada por uma fixa-
çao Oi•al de sucção no pênis do pai. Vejo aqui a origem da verdadei-
ra hofaossexualidade, retomando a conclusão de Leonardo da Vinci
e ume lembrança de sua infância (1910) [...].
Nas fantasias do menino, a mãe incorpora em si o pênis do pai,
ou milhor, uma multidão de seus pênis; o menino estabelece, para-
lelam inte a suas relações reais com o pai e seu pênis, uma relação
imagi lária com o pênis paterno no interior da mãe, e desejaria se
apode rar, ferindo-a, do pênis que ele acredita se achar nela [...].
O nenino só atingirá definitivamente uma posição heterossexual
caso nha vivido normalmente e ultrapassado a fase feminina primi-
142 MELANIE KLEIN

tiva. Acontece-lhe muitas vezes [...] compensar, por um exagero de


seu orgulho fálico transposto para a esfera intelectual, os sentimen-
tos de ódio, de angústia, de inveja e de inferioridade resultantes de sua
fase feminina [...]. Não é senão pela sublimação dos elementos femi-
ninos de sua vida instintual e pela ultrapassagem de sua inveja, de
seu ódio e de sua angústia a respeito da mãe que na época do prima-
do genital o menino logrará consolidar sua posição heterossexual [...].
As situações ansiogênicas que decorrem de destruições, de ata-
ques e de lutas fictícias no interior do sujeito se confundem com as
que se relacionam com processos fantasísticos análogos, mas situa-
dos no interior da mãe, e constituem para os dois sexos as mais
antigas situações de perigo. A angústia de castração não é senão um
aspecto, de importância capital, sem nenhuma dúvida, de uma angús-
tia que diz respeito ao corpo mesmo; no menino, ela passa à frente
de todos os outros temores e acaba por se tornar um tema dominan-
te, mas precisamente por causa da angústia que ele sente em relação
ao interior de seu próprio corpo e que figura entre as fontes mais
profundas da impotência.14

A idéia kleiniana de uma fase feminina primária encontra u m


desenvolvimento original entre os psicanalistas c o n t e m p o r â n e o s .
Atenta às concepções ulteriores de B i o n e Winnicott, Florence
Guignard distingue dois espaços de intimidade que se sucedem
rapidamente no curso do primeiro semestre da vida do infante: o
"maternal primário", que seria o teatro das fantasias originárias
de vida intra-uterina e de castração, e o "feminino primário", cons-
tituído pelas fantasias de sedução e de cena primitiva.
No "maternal primário", o recém-nascido desenha seu liame
inaugural com o mundo ao modo de sua onipotência impotente;
ao passo que a m ã e instala aí o narcisismo de sua paixão amorosa
e seu masoquismo materno. O "feminino primário", por sua vez,
organiza as primeiras identificações femininas tanto na menina
como no menino, à maneira kleiniana, pela avidez pelo seio que
se esquiva e pelo desejo genital precoce pelo pênis que este seio
encerra. E a conjunção do seio e do pênis que faz do feminino pri-
mário "um lugar específico de organização de espaço p s í q u i c o " . 1 5
A "coexcitação libidinal" m ã e - b e b ê inicia assim o nascimento da
vida psíquica e do princípio de realidade: em outras palavras, a
capacidade psíquica e de pensamento na criança depende da iden-
tificação primária dessa criança com a feminilidade materna.
O GÊNI 3 FEMININO 143

O c esenvolvimento moderno do pensamento kleiniano tenta


assim d ssimular o afastamento imposto ao pai, ao definir a coex-
citação irecoce como uma "articulação do desejo-de-ser-conhecido
com a ic entificação ao pênis-que-conhece". Tratar-se-ia, em suma,
de uma dupla identificação: muito cedo o j o v e m ego se identifica
com o lesejo de se dar a conhecer que a mulher manifesta na
m ã e , e c om a penetração cognitiva que o pênis paterno efetua. Se,
para Fre ud, existe apenas uma libido, de essência varonil, em con-
traponto o desejo de conhecimento seria do lado do feminino. 1 6
Gra ;as a esses recentes avanços na sexualidade feminina pro-
postos or analistas mulheres, a obstinação de Melanie K l e i n em
desenvc lver o pensamento e favorecer o processo de conhecimento
de seus ovens pacientes se ilumina de u m sentido novo. Definida
como d ísejo de conhecimento e como favorecedora da constitui-
ção de i ima interioridade psíquica onde se encontram o homem e
a mulher, seria a feminilidade que estimularia, em Melanie K l e i n
em part cular e nas analistas em geral, o desejo e a capacidade de
revogai as inibições do pensamento, e desenvolver a criatividade
dos pacientes pelo desenrolar do próprio processo analítico. O
sentido da escuta que o analista mulher e o feminino do analista
oferece n ao paciente que vem confiar seu mal-estar seria n ã o
"Segue teu desejo!" mas " C r i a e recria teu pensamento permane-
cendo e m contato com o feminino em t i ! "

3. Sexualidade feminina...

M u to cedo, a própria K l e i n se interessou pela sexualidade fe-


minina. 7 Se reconhece sua dívida para com os trabalhos de Helene
Deutsch, afirma todavia ir "mais longe" 1 8 que sua co-irmã. Segue
t a m b é m Karen Horney quando esta discute as opiniões freudianas
sobre a castração feminina, insistindo na instalação gradual da
inveja (fe pênis fundamentada em investimentos p r é - g e n i t a i s . 1 9 E
se diz c implice das opiniões de Ernest Jones sobre o sadismo oral
da mui ler com vistas a se apoderar do pênis do pai e se identifi-
car con i e l e . 2 0 E n f i m , uma vez n ã o são v e z e s , 2 1 cita sua própria
filha, IV elitta Schmideberg. 2 2 A s s i m respaldada, K l e i n desenvol-
ve uma visão toda pessoal da feminilidade.
O \ onto de partida de seu estudo é aparentemente freudiano.
144 MELANIE KLEIN

E l a se refere a Inibições, sintomas e ansiedade,23 em que o próprio


Freud reconhece que se a mulher possui mesmo um complexo de
castração, n ã o se pode mesmo assim "falar de fato de uma angús-
tia de castração num caso em que a castração j á está consumada".
N ã o sem perfídia, Melanie se vale de Freud para melhor modifi-
car-lhe o pensamento, porque n ã o compartilha de sua hipótese
que quer que o complexo de É d i p o da menina seja provocado por
seus desejos e temores de castração.
Segundo ela, o Édipo da menina se esboça em suas sofregui-
d õ e s orais, fortemente acompanhadas de pulsões genitais: trata-se
do desejo de tomar à m ã e o pênis paterno. E m resumo, o É d i p o
feminino n ã o sucede ao complexo de castração, como quer Freud,
se bem que a menina cobice o pênis e odeie a m ã e que recusa
entregá-lo, assim como bem o v i u desta vez o p a p á Freud:

Mas o que a menina me parece desejar antes de tudo é a incorpo-


ração do pênis paterno como um modo de satisfação oral, mais do
que a posse de um pênis que tenha o valor de um atributo viril. 2 4

Como havia dito Helene Deutsch, o pênis é então assimilado


ao seio da m ã e , e a vagina assume o papel passivo da boca que
suga; com a diferença de que, para K l e i n , essas fantasias n ã o acon-
tecem na maturidade sexual da menina, mas são devidas à frustra-
ç ã o do seio desde a primeira infância!
E s s a precocidade, que se manifesta sob a égide do sadismo
oral e depois anal, explica a predominância do sadismo no É d i p o
da menina — suas "fantasias [são] saturadas de ó d i o " em relação
ao pênis-apêndice da m ã e . 2 5 A menina receia as represálias ma-
ternas e, ao mesmo tempo, suas fantasias a levam a imaginar a
m ã e completamente aniquilada num coito sádico com o pai. Nesta
perspectiva, o masoquismo feminino proviria do temor aos objetos
perigosos introjetados, sobretudo ao pênis paterno, e traduziria
apenas " a inflexão para esses objetos das pulsões sádicas da mu-
lher". 2 6 Obviamente, é o pênis introjetado nela mesma que a mulher
masoquista pune quando se compraz em sofrer.
E m razão da intensidade de suas pulsões destruidoras contra
a m ã e , a menina investe mais intensamente que o menino suas
funções urinárias e excrementícias — mobilizadas como ataques
interiores contra o interior enigmático da m ã e e da própria menina.
1
O GEN] O FEMININO

O invés timento da analidade na mulher "responde à natureza se-


145

creta e < culta do mundo que ela e sua m ã e encerram nelas". Segue-
se assin [ que " a menina ou a mulher permanece aqui submetida às
conexci Is que m a n t é m com um mundo interior e escondido, com
o incon iciente". 2 7 Mas esta posição feminina é um mísero suporte
contra * angústia. E ainda que a vagina seja percebida muito cedo, 2 8
o invesi imento fálico do clitóris relega esse saber precoce vaginal
a segun io plano. D e acordo com K l e i n , a frequente frigidez femi-
nina pr< varia que a vagina, sentida como uma cavidade ameaçada
por fani asias sádicas, é investida defensivamente e bem mais cedo
que o c itóris.
Coi itrariamente ao que alguns puderam alegar, K l e i n não nega
a fase f ilica na menina. 2 9 A identificação com o pai, graças ao p ê -
nis intr )jetado, é pensada por ela como "um processo gradual" 3 0
que ref >rça o narcisismo e a onipotência do pensamento na meni-
na: a ei otização das funções urinárias exprime sua posição viril.
Mas o | adismo sustenta de alto a baixo o complexo de virilidade
feminil a, enquanto a escoptofilia e o erotismo uretral servem para
recalca os desejos femininos propriamente ditos.
A i elação m ã e - b e b ê e o desejo de maternidade não seriam,
portanf), neste contexto, somente a expressão da inveja do pênis,
como p ensa Freud; mas t a m b é m a expressão de uma relação nar-
císica, * menos dependente do homem, e subordinada a seu próprio
corpo [ le mulher] e à onipotência dos excrementos". 3 1 Para Klein,
o feto i ode se tornar a expressão do superego paterno: o ódio ou o
temor < ue a mulher sente mais tarde pelo b e b é toma o lugar das
fantasií s que assimilam o pênis a um excremento mau e t ó x i c o . 3 2
Por est l razão, a reparação — muito pronunciada na mulher — se
exprim t por um desejo de embelezamento do pênis excrementício;
fazer u n lindo bebé, fazer-se linda, decorar a casa etc. Essas su-
blimaçi tes tipicamente femininas são formações reativas às fanta-
sias sá< icas elaboradas em torno de evacuações perigosas. 3 3
Co npreende-se que o superego feminino, formado em reação
a essa onipotência sádica, seja de uma severidade maior ainda
que a ( o menino. N ã o podendo edificar seu superego à imagem
do proj ;enitor do mesmo sexo, visto que a feminilidade da m ã e é
invisív ú e que seu interior é ameaçador, a menina constrói seu
supere; ;o de maneira exclusivamente reativa. Desde então, " a for-
m a ç ã o do ego feminino é caracterizada por uma hipertrofia do
146 MELANIE KLEIN

superego". 3 4 Dilacerada entre um superego poderoso e o mundo


interior do inconsciente, a mulher, semelhante nisso ao b e b é , pos-
sui u m ego bem instável em c o m p a r a ç ã o com o do homem. F e l i z -
mente, "o ego da mulher chega à maturidade graças ao poder do
superego, cujo exemplo é seguido por ele enquanto procura
controlá-lo e s u p l a n t á - l o " . 3 5
Enfim, Freud, que tinha seguido os trabalhos de seus discípulos
mais ou menos dissidentes sobre a sexualidade feminina, formula
— após a morte de sua m ã e , em 1931! — uma nova c o n c e p ç ã o da
feminilidade em "Sobre a sexualidade feminina" (1932). K l e i n
reagirá a isso acrescentando um "Pós-escrito" a seu próprio estu-
do " A r e p e r c u s s ã o das primeiras situações ansiógenas sobre o
desenvolvimento sexual da menina", retomado em A psicanálise
de crianças. E m desacordo com a idéia de uma ligação arcaica f i -
l h a - m ã e persistente, 36 de uma atração " m i n ó i c o - m i c ê n i c a " 3 7 ante-
rior ao Édipo, Melanie refuta categoricamente a hipótese freudiana
de u m idílio entre mulheres e acentua a ambivalência desta rela-
ç ã o tingida de culpabilidade desde o c o m e ç o :

Ele [Freud] não admite a influência do superego e da culpabili-


dade sobre esta relação filial particular. Tal posição me parece in-
sustentável [...]. 3 8

Esta perspectivação do maternal arcaico, que satura o objeto


p r i m á r i o de desejo tanto quanto de angústia, ilumina de maneira
d r a m á t i c a a homossexualidade endógena da mulher. Melanie i n -
siste nisso n ã o somente antes de Freud, mas t a m b é m com muito
mais força do que ele o faz em seus artigos sobre a sexualidade
feminina. D e fato, K l e i n apresenta logo de início o conflito em
vez da osmose entre as duas protagonistas. J á sabíamos: a angústia
e a culpa estão muito cedo presentes, mas estão mais ainda entre
filha e m ã e . Se é verdade que a filha se separa da m ã e para dese-
jar o pai no segundo semestre de vida, o amor pelo pai baseia-se,
não obstante, no liame inicial e sempre conflituoso com a m ã e . A
filha se volta, por fim, para o pai. Mas a inveja primária serve
secretamente de base a seu Édipo, porque ela n ã o perdoa à sua
m ã e nem a frustração oral que esta lhe inflige, nem a satisfação
oral que os pais retiram mutuamente do coito segundo as teorias
sexuais primitivas. O ressentimento infiltra-se, portanto, de modo
O G Ê I 10 FEMININO 147

sub-re rtício ou manifesto, nas relações ulteriores da mulher com


o outr) sexo. Melanie insinua para concluir que Freud lhe teria
fornec do esta idéia quando sugere que "um grande número de
mulhe es repete com os homens a relação que tinham com as
m ã e s " 3 9 O objeto de desejo de uma mulher continua sendo, no
fim d* s contas, a outra mulher, inclusive sob o v é u da heterosse-
xualic ide — eis o que afirma Melanie K l e i n com mais força e
convic ção do que o fazem outros discípulos ou detratores de Freud.
No mj rido de cada uma delas procurai a m ã e ! 4 0
A ) mesmo tempo, ali onde Freud reconhecia que a "pré-histó-
ria do complexo de É d i p o " no menino é "quase ignorada", 4 1 Me-
lanie 2 ssinala uma passividade feminina, apoiada sobre a oralidade,
no hot tem. E l a abre as pesquisas sobre o feminino do homem, en-
tendic D seja como componente obrigatório da heterossexualidade
mascu lina, seja como incitação à homossexualidade. Trata-se, em
suma, do reconhecimento de u m maternal arcaico que comandaria
dois t pos de feminilidade diferentes: feminilidade da mulher e
femin lidade do homem. 4 2

e a sexualidade masculina

O interior da m ã e continua a ser o objeto das pulsões destru-


tivas ( a menina. Esta lógica inconsciente comanda o fato de que,
para \ ma mulher, a experiência da realidade, visando distinguir
os ma is objetos, se situa no interior dela mesma. E m compensa-
ção, o menino, cuja onipotência excrementícia é menos desenvol-
vida, nveste o pênis muito cedo:

Seu pênis, órgão ativo, pode ao mesmo tempo dominar seu obje-
to e ser submetido à prova da realidade [...].
Esta concentração fálica da onipotência sádica é de importância
CÍ pitai para uma tomada de posição masculina. 43

Ó g ã o da penetração, o pênis torna-se, para o menino, órgão


da pei cepção. Assimilado ao olho ou ao ouvido, penetra para co-
nhece , e favorece a pulsão epistemofílica do ego e sua expansão
na v i do conhecimento. Penetração destrutiva, é bem verdade,
mas c| sadismo se acompanha de fantasias de reparação. Por isso,
148 MELANIE KLEIN

depois de ter destroçado o objeto no ato sexual, o menino, em


suas fantasias, e o homem, em sua experiência sexual, tendem a
repará-lo pelo amor.
A escolha da homossexualidade masculina se enraíza na ten-
tativa de situar tudo o que é estranho e aterrorizante na mulher: o
ego se protege abandonando a mulher de uma vez por todas. M a s
tal p r o t e ç ã o tem um custo psíquico. Se o inconsciente do homos-
sexual sai disso aliviado, pacificado, até embelezado, arrisca-se
entretanto a ser liquidado na qualidade de mundo interior:

Graças a uma escolha objetal de natureza narcísica, o homosse-


xual atribui este valor simbólico ao pênis [que representa o ego e o
consciente] de um outro indivíduo do mesmo sexo, e desmente as-
sim os temores que o pênis interiorizado por ele e o conteúdo de seu
próprio interior lhe inspiram. Assim, um dos meios tipicamente ho-
mossexuais que o ego utiliza contra a angústia consiste em negar o
inconsciente, em controlá-lo ou em submetê-lo acentuando a impor-
tância do mundo exterior e da realidade tangível, de tudo o que de-
pende da consciência. 44

A tese freudiana de um liame social fundamentado na homos-


sexualidade dos irmãos encontra em K l e i n um desenvolvimento
radical: trata-se para ela de uma confederação secreta dos i r m ã o s
que se ligam contra os "pais reunidos", sobretudo contra o pai que
abusa da m ã e . Sua origem se situaria nas fantasias masturbatórias
de caráter sádico, partilhadas pelo menino com u m c ú m p l i c e . 4 5
Inicialmente protetora contra o casal parental, a relação entre os
i r m ã o s se inverte e se reveste de um caráter paranóide. Por u m
lado, o pênis superinvestido mostra ser um objeto perseguidor, à
imagem do pênis do pai e das fezes do próprio paciente. Por outro
lado, a precariedade de uma boa e prestativa imago materna favo-
rece a instabilidade do ego. 4 6
O mau objeto introjetado no ego masculino pode explicar tanto
a impotência sexual como o alcoolismo. No alcoólatra (notemos
que K l e i n faz aqui ainda referência aos trabalhos de sua filha,
Melitta Schmideberg), a bebida c o m e ç a por destruir o mau objeto
interiorizado e aplaca a angústia persecutória; mas, em razão da
ambivalência de toda interiorização, o álcool, por algum tempo
apaziguador, assume depressa a significação do próprio mau ob-
jeto.47
O GÊF 10 FEMININO 149

Pa a completar o quadro da sexualidade masculina segundo


Melan e K l e i n , lembremos, p o r é m , que ela n ã o ignora de modo
algum a competição do menino com seu pai durante a fase fálica, e
insiste na necessidade, para o menino, de suportar a agressividade
e de sq identificar com uma boa imagem fálica paterna:

Se vivência fundamentalmente uma firme confiança em sua pró-


pri i onipotência fálica, o menino pode opô-la à do pai e travar o
co nbate com seu órgão ao mesmo tempo temido e admirado [...].
Se o ego é capaz de tolerar e modificar suficientemente os sentimen-
toí destruidores em relação ao pai e se o "bom" pênis paterno lhe
iní pira bastante confiança, o menino poderá conciliar sua identifica-
ça< patema e sua rivalidade com o pai sem a qual uma tomada de
polição heterossexual seria irrealizável...

5. Os pais "combinados" ou acasalados

Ai concepções kleinianas do papel da m ã e e do pai na evolu-


ção da criança ou na psicose t ê m sido largamente discutidas pelos
annaft mdianos, e depois, à sua maneira, por L a c a n e os seus. Vol-
taremc s à sua teoria do simbolismo que permitirá retomar, sob
um oi tro â n g u l o , as lacunas de sua p o s i ç ã o acerca da tríade
edipia ia, e em particular da função simbólica da paternidade.
Pa radoxalmente, é preciso observar que a relegação do pênis
ao lug ir de "segundo" e, mais ainda, à função de " a p ê n d i c e " da
m ã e , i ão impediu que K l e i n elaborasse sua teoria da clivagem a
partir la presença do pênis no objeto (seio) e propusesse o pri-
meiro modelo psicanalítico da sexuação fundado no casal. N e m
no pai sozinho, fosse ele pai da horda primitiva (Freud) ou Nome-
do-Pai (Lacan). N e m na m ã e sozinha, qualquer que seja o poder
do s e i ) como fonte, mas t a m b é m como captação da angústia e,
portan o, como núcleo do ego e do superego. Mas nos dois pais.
U i a e outro estão antes de tudo "combinados" num coito sádi-
co. A : ndistinção dos dois parceiros ocasiona um sadismo exacer-
bado, v até a confusão mental no jovem ego — é a imago dos "pais
combi lados". Depois da posição depressiva, o j o v e m ego faz po-
r é m a listinção entre os dois parceiros, separando os dois objetos
distint as, depois totais (a m ã e / o pai, a mulher/o homem). Esta se-
150 MELANIE KLEIN

p a r a ç ã o aplaca sua inveja e favorece a perlaboração das clivagens.


Os elementos clivados podem integrar-se na sexualidade genital.
Desde então o ego (ou o self) é capaz de escolher uma dominante
de identificação sexual com o progenitor do mesmo sexo.
Tudo se passa como se, malgrado o culto materno, o universo
kleiniano funcionasse — e sobretudo com o Édipo, segundo a posi-
ção depressiva — como um sistema de duplo foco: homem e mu-
lher, m ã e e pai. E s s a intuição, é verdade, n ã o é suficientemente
apoiada nem elaborada por uma teoria consequente da linguagem
e do originário que, com efeito, falta em K l e i n — lacuna que
devia contudo estimular seus sucessores e seus c r í t i c o s . 4 9 O fato,
p o r é m , é que esse desdobramento inicial se revela rico de possibi-
lidades inexploradas tanto no plano da bissexualidade psíquica
como no de suas consequências éticas e políticas.
Fundada na díade dos pais combinados, a teoria de Melanie
K l e i n n ã o é somente o fruto de observações empíricas de uma
m ã e ansiosa acerca de seus próprios filhos, nem a repetição res-
peitosa dos conceitos do patriarca judeu que foi Sigmund Freud.
De fato, e acima do Édipo, K l e i n inova ao propor uma c o n c e p ç ã o
original do simbolismo. De imediato, a apologia da m ã e introduz
ao reconhecimento dos dois pais e faz do casal o foco heterogéneo
da autonomia bissexual do self, uma vez que Melanie arranja (um
pouco de) lugar para o pai em sua concepção do proto-Édipo, e
ainda mais claramente na posição depressiva. Mas o culto à m ã e
— e isto é o essencial — se inverte na visão de K l e i n em... matri-
cídio. É da perda da m ã e — que equivale para o imaginário a uma
morte da m ã e — que se organiza a capacidade simbólica do sujeito.
Recordemos: o seio, bom ou mau, n ã o se apresenta como pri-
meiro objeto estruturante senão na c o n d i ç ã o de ser devorado/
destruído. A m ã e como objeto total só atenua o sadismo exacerbado
da posição esquizoparanóide se está "perdida" no momento da
posição depressiva. Quando é desmamada, a criança se separa efe-
tivamente do seio, se afasta dele e o "perde". Ora, na vida fanta-
sística, a separação ou a perda equivale à morte. Paradoxalmente,
vê-se, o culto à mãe é, para Klein, um pretexto para o matricídio.
Mas a aceitação de perder no amor permite a elaboração da posi-
ção depressiva.
Ambos, o culto à m ã e e o matricídio, são salvadores. Entre-
tanto, evidentemente, o matricídio o é mais do que o culto materno.
O GÊN O FEMININO 151

Porque sem o matricídio, o objeto interno não se constitui, a fan-


tasia ní o se constrói e a reparação é impossível, da mesma forma
que a r ltrapassagem das hostilidades na introjeção do self. A ne-
gativid ide kleiniana que, como veremos, conduz a pulsão à inteli-
gência, passando pela fantasia, adota a mãe como alvo: é preciso se
desprei der da mãe para pensar. As vias desse desprezo divergem:
a clivaj ;em é uma pista falsa; a depressão que sucede à separação/
morte c onvém muito mais. Enfim, existiria uma pura positividade,
inata e a também, que seria a própria capacidade de amor. Mas
essa graça depende muito dos acasos da inveja, ou melhor, da ca-
pacidac e de se desembaraçar da inveja em relação à mãe, ou, dito
mais br utalmente ainda, da capacidade de se desembaraçar da mãe.
Na história da arte, sobretudo ocidental, a decapitação de Me-
dusa — • imagem não somente da castração feminina, como quer
com juiita razão Freud, mas também da perda da mãe arcaica que
a criam :a realiza durante a posição depressiva — emerge no mo-
mento i aesmo em que o Ocidente descobre a interioridade psíquica
e a exp essividade individual do rosto. A esta degolação primária
que é a cabeça perdida, a cabeça cortada de Medusa, sucederam
figuras mais erotizadas. Algumas visam ao poder fálico-simbóli-
co do h ornem (como a degolação de são João Batista anunciando
o Crist< i); outras manifestam a luta de poder entre homens (Davi e
Golias) ou entre mulher e homem (Judite e Holofernes) etc. 50 A
"degok ção" da mãe — entendida ao mesmo tempo no sentido de
sua "ex ecução" e de um "voo" alçado a partir dela, contra ela —
seria ui na condição indispensável para que ocorresse a liberdade
psíquic i do sujeito: eis o que Klein teve a coragem de anunciar à
sua ma leira, sem precauções.
Em seus textos de maturidade, especialmente em Inveja e gra-
tidão, já o dissemos, Klein sublinha a existência na criança de
uma ap tidão inata ao amor ou à gratidão, que a boa maternagem
reforça, Acrescido à capacidade de reparação que faz parte inte-
grante < a posição depressiva, esse amor pela mãe não apagaria as
tendênc ias matricidas próprias das posições arcaicas nessa mes-
ma criaj aça, e que pareciam dominantes nos escritos anteriores de
nossa a Jtora? Alguns lhes deram esta interpretação. Outros vêem
nesta ir flexão do pensamento kleiniano para o amor uma variante
da caril as, e até mesmo das primícias de um novo socialismo. 51
Entretanto, esta tonalidade oblativa não poderia recobrir a
152 MELANIE KLEIN

negatividade que predomina na escuta e na interpretação kleinianas


do inconsciente. Reparação e gratidão são apenas cristalizações
provisórias da negatividade, suas acalmias dialéticas, porque a
pulsão de morte não cessa de operar. A aptidão para a gratidão
empenha-se em cuidar e proteger sem cessar, e esse cuidado vigi-
lante, de que só a psicanálise parece capaz na cultura moderna,
exige que se conceda atenção constante à angústia destrutiva que
trabalha infatigavelmente arriscando despejar o amor e a gratidão
na inveja, se não se trata de os aniquilar pela fragmentação da
psique. Quanto à própria reparação, é ao se separar da mãe, à qual
o ligava a identificação projetiva inicial, que o self adquire uma
oportunidade de elaborar. Ele pode então reencontrar a mãe, mas
nunca tal qual: ao contrário, ele a recria sem cessar com a liberda-
de que é só sua, própria do self de ser separado dela. Uma mãe
sempre recomeçada em imagens e em palavras, da qual "eu" sou
daqui para a frente o criador por força de lhe ser o reparador.
A piedade e o remorso, que acompanham a reparação do objeto
perdido, contêm a marca do matricídio imaginário e simbólico a
que esta reparação continua a remeter. Efetivamente, ao medo e à
cólera próprios do estado de guerra, que me liga à mamãe-seio na
posição esquizoparanóide, sucede uma compaixão por esta outra
que ela passa a ser na posição depressiva. No entanto, esta com-
paixão não é senão a cicatriz do matricídio, o testemunho último,
se houvesse necessidade de um, de que a reconciliação imaginária
com ela, da qual "eu" preciso para ser e para pensar, se compensa
de uma condenação à morte daqui para a frente ultrapassada, de
um matricídio agora inútil, mas cuja lembrança "me" atormenta.
Esta lembrança habita "meus" sonhos e "meu" inconsciente, e
aflora à superfície das palavras por menos que "eu" me aventure
em busca do tempo perdido...

6. Uma Oréstia

Assim como o mito de Édipo havia aclarado a teoria de Freud,


Klein se apoia no mito de Orestes, uma vez que ela diagnosticou
em sua clínica a fantasia matricida, para lhe desdobrar a lógica
específica.
O GÊNI 3 F E M I N I N O 153

De fato, com suas "Reflexões sobre a Oréstid\ a psicanalista


faz vale * — sem no entanto negar o Édipo de Freud — uma outra
lógica d \ autonomia subjetiva. Na peça antiga, o assassinato de sua
mãe é í ante de liberdade para Orestes, mas à custa do remorso
depressi vo que simboliza as Erínias. 52 Sofrivelmente heteróclito, ina-
cabado, esse texto de Klein foi publicado postumamente, malgrado
suas Iaci mas. Sua redação parece contemporânea do artigo "Sentir-
se só ublicado também depois da morte da autora. Como já vi-
mos, es reflexão sobre a solidão termina por uma apologia da inte-
gração o "bom seio". Os dois escritos testamentários traçam uma
bifurca o antinômica do pensamento kleiniano: por um lado, a
reparaç da mãe e a reconciliação com o objeto; por outro, a perda
da mãe u sua condenação à morte, e a simbolização. Duas faces
indisso< áveis desse processo complexo que é a individuação do self.
O estudo sobre a Oréstia evoca, à luz das teses kleinianas, os
três paiiiéis da obra de Ésquilo. E m primeiro lugar é apresentado
o destinp de Orestes: ele é o filho de Agamêmnon que havia sa-
crificado aos deuses sua filha Ifigênia para que os gregos pudes-
sem embarcar em seus navios de guerra, imobilizados pela cólera
de Netufao. Orestes mata sua mãe, Clitemnestra, para vingar seu
pai cujolassassinato esta havia fomentado para, por sua vez, vingar
a morte de Ifigênia, filha dela e de Agamêmnon. Enfim, Orestes é
o irmão Ide Electra, que nutre paixões não menos matricidas, ainda
que maijs prudentes: é ela que exige do braço de Orestes a morte
de Clitelnnestra. Neste imbróglio implicitamente incestuoso e ex-
plicitamente mortífero, Klein não podia deixar de reconhecer seu
próprio (universo clínico, onde a libido se deixa reabsorver pela
pulsão cie morte. São as consequências da condenação à morte de
Clitemntstra que retêm antes de tudo sua atenção: o matricídio
desencadeia certamente a culpabilidade de Orestes, mas o filho
adquire tom esse gesto uma liberdade extrema, assim como a mais
alta capicidade simbólica.
O ego busca todos os meios para criar símbolos que se torna-
rão os verdadeiros exutórios de suas emoções, constata Klein na
última página de sua Oréstia, enquanto se pergunta: por que os
símbolos? A resposta é simples: porque a mãe não basta, a mãe é
incapaz de satifazer as necessidades afetivas da criança. Deixe
tombar i mãe, você não precisa mais dela: tal seria a mensagem
última c os símbolos se eles pudessem dizer sua razão de ser, e a
154 MELANIE KLEIN

psicanalista pudesse lembrar um de seus primeiros trabalhos: so-


bre o pequeno Dick e suas dificuldades de adquirir os símbolos,
de aceder ao pensamento.53
Iria o drama de Orestes lhe servir de introdução à sua refle-
xão sobre o nascimento dos símbolos, a uma apologia dos símbo-
los? Ou então se trataria, por meio desse desvio mitológico, de
dizer que o símbolo é o assassinato da mãe? Ou ainda que não há
melhor assassinato da mãe que o símbolo? Evidentemente, esse
assassinato, tal como a psicanalista o constata e favorece, é de
ordem imaginária; não se trata de matar sua mãe, nem nenhuma
outra pessoa, seja quem for, na realidade:

Nenhuma situação de realidade lograria satisfazer as necessida-


des e os desejos imperiosos, muitas vezes contraditórios, da vida
fantasística da criança.54

Os crimes e outros atos mais ou menos agressivos não pas-


sam de trapalhadas do símbolo, assinalam um fracasso do matri-
cídio imaginário que, por si só, abre caminho para o pensamento.
Inversamente, a criação do pensamento, e depois o exercício de uma
liberdade soberana, que dará talvez origem a uma obra de génio,
testemunham uma fantasia bem-sucedida de matricídio.
O anti-herói Orestes, matricida indiscutível, é também um dei-
cida sem igual. Contrariamente a Édipo, homem do desejo, de seu
recalque, e cúmplice dos deuses, Orestes é o crepúsculo de Júpi-
ter. Édipo, criador e decifrador de enigmas, apresenta o perfil do
crente. Crer no pai, nos deuses, no saber — a diferença não é tão
radical como se pôde dizê-lo: toda forma de crença metaboliza o
desejo de gozar e o desejo de morte. Orestes, esse, é o antifilho e
o anti-herói, porque é antinatureza. Klein comenta com justa ra-
zão que matar a mãe-natureza equivale a se erguer contra Deus: o
assassinato da mãe inflige a culpa, escreve ela pensando outra vez
na posição depressiva, geradora de remorso; mas, aqui, a análise
dá um passo a mais e extrapola ao sugerir que, temida porque
infligindo o castigo, a mãe é "o protótipo de Deus". 55
Esta interpretação não se afasta demais da leitura sartriana da
Oréstia em As moscas: o filho matador de sua mãe é o deicida
radical. 56 Mas se Klein ostenta aqui sua descrença — exatamente
como a mãe de Fritz/Erich se dizia "atéia" 5 7 —, explicita imedia-
O GÉNIO FEMININO 155

tamente c ue sua versão do matricídio nada tem de niilista; ao con-


trário. D( sembaraçar-se da mãe torna-se a condição sine qua non
para acec er ao símbolo.
Porqi le, quando este acesso à simbolização falta, aparece então
a vertente lúgubre de Orestes: ali onde ele existe, é o malogro de
Édipo — de seus desejos e do recalque destes. O sujeito se volta
para a cli vagem, para essa destruição da alma em que a psicose
entrava c psicodrama neurótico e reduz a fragmentos o espaço
psíquico. Os pacientes kleinianos que dão testemunho dessa Oréstia
não serãc os precursores dos matadores gratuitos, autómatos, sem
estados de alma, de Laranja mecânical Hoje, algumas dessas per-
sonalidac es divididas se refugiam nas exposições de arte e outras
instalações esquizóides, e as editoras ditas de "vanguarda" aco-
lhem sua > obscenidades minimalistas. Os analistas, por sua vez,
decifram o fracasso de Orestes e da simbolização nas novas enfer-
midades lia alma de que são portadores os arruaceiros e outros
vândalos das novas megalópoles.
Existi, porém, uma vertente lúcida de Orestes. A ambição fi-
losófica (j ue acompanha o génio de Klein consiste em reabilitá-lo
para busc ar nele as condições últimas do pensamento, nas fontes
do recaldue originário: lá onde se dá o advento do espaço psíqui-
co e da it teligência, mas onde se amontoam também os riscos de
sua asfixi a. Quando os deuses estão fatigados ou comprometidos,
só nos re sta contemplar essas fontes fecundas, cuidar delas, pre-
servá-las e desenvolvê-las.
Com e ao lado de suas interpretações estimulantes, o elogio
kleiniano do matricídio é um arrazoado em prol do salvamento da
aptidão s mbólica dos humanos. O simbolismo, que seria próprio
do homer i, se apresenta a essa mãe da psicanálise como um milagre
incerto, s ímpre já ameaçado, e cuja sorte depende muito da mãe,
mas com a condição de que "eu" possa "me" privar dela. E l a é
todo-podi irosa, essa mãe, diz em resumo Melanie-filha-de-Libus-
sa, mas ní 3s podemos, nós devemos passar sem ela, e melhor. Tal é
a mensagem, que convém dizer simbólica, do "crime" kleiniano.
Com >reende-se desde logo que certas feministas tenham exal-
tado em : Qein a criadora moderna do mito da deusa-mãe. Outras
a amaldiçoaram pela mesma razão: não é insuportável invejar a
própria mãe? Outras, enfim, rejeitaram-na por ter encorajado o
matricídi).
156 MELANIE KLEIN

Somente, talvez, as autoras de romances policiais a compreen-


deram; sem a terem lido e sem, aliás, a terem de ler. Porque parti-
lham com Melanie esse saber inconsciente que quer que "eu" fale
do assassinato não porque "tenho aversão" aos homens portadores
do falo, e porque "eu" desejo me livrar deles; ou nem isso. Mas
porque, filha e mãe, filha ou mãe, "eu" sei de que inveja "eu"
devo me desembaraçar — que desejo inevitavelmente sádico atra-
vessar, perder, em certo sentido matar — para adquirir a liberdade
mínima de pensar. O romance policial nos parece verdadeiro à
medida que ultrapassa a literatura corrente que exibe os pequenos
dramas do desejo e os encantos mais ou menos piegas do recal-
que afinal transgredido. As rainhas do romance policial mergu-
lham numa psique catastrófica que não é mais uma alma digna
desse nome. Clivagens e desmembramentos à Klein, reviravoltas,
invejas e ingratidões, fantasias materializadas, como os objetos
concretos e os superegos tirânicos da mãe Melanie, frequentam
esses espaços rebentados, enfim visitados e revelados na doçura
de um luto mais ou menos atenuado. As rainhas do romance poli-
cial — sublinhemos o feminino desta expressão surrada, como
um cliché, banal? — são deprimidas reconciliadas com a conde-
nação à morte, e que se recordam de que no começo era o sadis-
mo invejoso, e que não cessam de se curar dele narrando-o.
E u as imagino dotadas da violência abafada da velha sra. Klein,
que poderia também ter escrito romances policiais se tivesse tido
a chance de possuir uma língua materna, e se não se tivesse torna-
do o detetive principal, ou melhor dizendo... uma analista. O que
ela é, de qualquer maneira, sem contestação. Mesmo quando pa-
rece esquecer que ainda restam enigmas e se apressa a aplicar um
saber ready-made, elaborado por suas investigações anteriores.
Entretanto, mesmo quando solda os esquemas de seu sistema, de-
saloja a angústia ao vivo, e — como no caso de Richard — acerta
em cheio no alvo a fim de desbloquear os caminhos do pensa-
mento.
O GÊNIG F E M I N I N O 157

NOTAS

nf a, cap. I X , 2, pp. 232 sq., e cap. X , pp. 249 sq.


1. Cf. inj
2. Melanie Klein, Envie et gratitude, op. cit., p. 40.
3. Melanie Klein, Essais de psychanalyse, op. cit., p. 235, citado por Jean-
Michel Petot, Melanie Klein. Premières découvertes..., op. cit., p. 207.
4. Melanie Klein, Envie et gratitude, op. cit., p. 4 1 .
5. Cf. Melanie Klein, La Psychanalyse des enfants, op. cit., cap. V I I I , e Melanie
Klein alii, Développements de la psychanalyse, op. cit., cap. V I .
6. Melanfc Klein, Envie et gratitude, op. cit., p. 4 1 ; grifos nossos.
7. Cf supra cap. I V , 3, p. 109.
8. É d e fato o termo "appendice" que se lê na tradução de La Psychanalyse des
enfants op. cit.: a menina desloca seu temor inicial da m ã e "para o apêndice
matem D detestado que o pênis do pai representa", p. 212; grifos nossos.
9. Melanie Klein, Envie et gratitude, op. cit., pp. 44-45; grifos nossos.
10. Ibid., \ 45.
11. Ibid., PP 45-46.
12. Cf. Do ninique .J. Amoux, Melanie Klein, P U F , col. "Psychanalystes d'au-
jourd' hui 1997, p. 62.
13. Hanna Segal Introduction à Voeuvre de Melanie Klein, op. cit., p. 130.
14. Cf. M4e anie Klein, " L e retentissement des premières situations a n x i o g è n e s
sur le léveloppement sexuel du garçon", em La Psychanalyse des enfants,
op. cit. pp. 251-262; grifos nossos.
15. Cf. Florence <Guignard, em Épitre à Vobjet, op. cit., pp. 152 e 149-154.
16. Floren< e Guignard, " L e sourire du chat", ibid., p. 144.
17. Cf. Melanie Klein, " L e retentissement des premières situations a n x i o g è n e s
sur le léveloppement sexuel de la filie", em La Psychanalyse des enfants,
op. cit. pp. 209-250.
18. Ibid., 240.
19. Ibid., PP 211, 226.
20. Ibid., 227.
2 1 . "Last <ut not least, devo agradecer de todo o coração a minha filha, dra.
Melittí Schmideberg, a ajuda devotada e preciosa que me deu no decorrer da
preparação deste trabalho", l ê - s e na c o n c l u s ã o do prefácio de Melanie Klein
à pnmeira e d i ç ã o de La Psychanalyse des enfants, 1932 (trad. fr., op. cit.,
p. 3). guerra entre elas eclodirá em 1933 (cf. infra, cap. I X , pp. 233 sq.).
22. Ibid., PP 220, 229, 232.
23. Sigmu d Freud, Inhibition, symptôme et angoisse (1926), G W, t. X I V , S E,
t. X X , trad. fr. P U F , 1951 (1978).
24. Melanie Klein, " L e retentissement des premières situations a n x i o g è n e s sur
le dév( loppement :sexuel de la filie", em La Psychanalyse des enfants, op.
cit., p. t i l .
25. Ibid., 212.
26. Ibid., PP 216-217.
21. Ibid., 220.
158 MELANIE KLEIN

28. Ibid., p. 224.


29. Cf. Serge Cottet, "Melanie Klein et la guerre du fantasme", em Nicholas
Wright, Madame Klein, Seuil, col. "Champ freudien", 1991, p. 110.
30. Cf. Melanie Klein, " L e retentissement des premières situations a n x i o g è n e s
sur le d é v e l o p p m e n t sexuel de la filie", em La Psychanalyse des enfants, op.
cit., p. 226.
3 1 . Ibid., p. 239.
32. Ibid., p. 240.
33. Ibid., p. 2 4 1 .
34. Ibid., p. 247.
35. Ibid.
36. Winnicott retomará esta idéia, mas, ao se colocar como intermediário entre
Klein e Freud, tem em mente uma relação m ã e - b e b ê que seria de início a-
pulsional (da ordem do "ser"), antes de se tornar pulsional (da ordem do
fazer) (cf. Donald Woods Winnicott, Conversations ordinaires [1960], G a l l i -
mard, 1988). Lembremos igualmente a m ã e "a-tóxica" ou desintoxicante, a
m ã e pára-excitação de W . R . Bion (cf. Aux sources de Vexpérience [1962],
P U F , 1979, Éléments de psychanalyse [1963], P U F , 1979, e Réflexion faite
[1967], P U F , 1997).
37. Cf. "Sur la sexualité féminine" (1931), G W, t. X I V , pp. 517-537, S E, t.
X X I , pp. 225-243, trad. fr. em La vie sexuelle, P U F , 1969, e " L a féminité"
(1933), trad. fr. em Nouvelles Conférences sur la psychanalyse, Gallimard,
1936, reed. 1971, col. "Idées", pp. 147-178; S E, t. X X I I , pp. 112-135.
38. Melanie Klein, " L e retentissement des premières situations a n x i o g è n e s sur
le d é v e l o p p e m e n t sexuel de la filie", em La Psychanalyse des enfants, op.
cit., pp. 248-249.
39. Ibid., p. 250.
40. Cf. uma revisão da herança psicanalítica sobre a sexualidade feminina em
Julia Kristeva, "De 1'étrangeté du phallus ou le féminin entre illusion et
désillusion", em Sens et non-sens de la revolte, Fayard, pp. 198-223.
4 1 . C f Sigmund Freud, "Quelques c o n s é q u e n c e s psychiques de la différence
anatomique entre les sexes" (1925), em La Vie sexuelle, op. cit., p. 130.
42. Esta problemática é desenvolvida com insistência e originalidade pela pes-
quisa psicanalítica na França destes últimos anos: cf. especialmente Monique
Cournut-Janin e Jean Cournu, " L a castration et le féminin dans les deux
sexes", c o m u n i c a ç ã o ao L I I I e Congrès des psychanalystes de langue française
des pays romans, em Revue française de psychanalyse, t. L V I I , 1993, pp.
1.353-1.558.
43. C f Melanie Klein, " L e retentissement des premières situations a n x i o g è n e s
sur le d é v e l o p p e m e n t sexuel du garçon", em La Psychanalyse des enfants,
op. cit., pp. 254-255.
44. Ibid., pp. 265-266.
45. Ibid., p. 266.
46. Ibid., p. 273.
47. Ibid., p. 271.
48. Ibid., pp. 255 e 260.
O GÊNIC FEMININO 159

ifra , as p r o p o s i ç õ e s de Lacan (cap. V I I I , 2, pp. 197 sq.) e de Bion (cap.


49 Cf. inj
vm p ). 204 sq.).
50. Cf Jul a Kristeva, Visions capitales, catálogo da e x p o s i ç ã o apresentada no
Museu|do Louvre, sala N a p o l é o n , pelo Departamento das Artes Gráficas, 27
de abr a 27 de julho de 1998.
51. Cf inj a, cap. X , pp. 263 sq.
52. Cf Mçl anie Klein, "Réflexions sur UOrestié\ texto p ó s t u m o publicado em
1963 Envie et gratitude, op. cit., pp. 189-219.
53. Cf infra cap. V I I I , 1, pp. 185 sq.
54. Melanie Klein, "Réflexions sur UOrestie", em Envie et gratitude, op. cit.,
p. 218.
55. Ibid., 195.
56. Cf. Jul a Kristeva, "Sartre, ou 'On a raison de se révolter', 1. 'Moi, j e suis
libre Vreste)", em Sens et non-sens de la revolte. Pouvoirs et limites de la
psychanalyse, op. cit., pp. 311 e 335-341.
57. Cf Me lanie Klein, Essais de psychanalyse, op. cit., p. 35.
VII

A FANTASIA COMO
METÁFORA ENCARNADA
LO epresentante antes da representação

Por niais longe que remonte na infância, o analista encontra


um ego qi le fantasia. Entidade heteróclita, feita de representações
não verba s e verbais, de sensações, de afetos, de emoções, de movi-
mentos e le ações, e até de objetos concretos, a fantasia kleiniana
e uma vei dadeira impureza teórica que desafia os puristas, preci-
sãmente, t anto quanto encanta os clínicos, sobretudo os da infância,
da psicose ou da psicossomática. A l é m disso, Melanie K l e i n nun-
ca sistem; tizou seus diversos usos do termo "fantasia", e é o texto
1
de sua disfcípula Susan Isaacs que faz fé nessa matéria.
A o as unalar a originalidade da c o n c e p ç ã o kleiniana no curso
das hoje c élebres Controvérsias que abalaram a Sociedade Britâ-
2
nica de Ps canálise entre 1941 e 1945, Susan Isaacs propôs a grafia
phantasrru a fim de designar esta atividade psíquica anterior ao re-
calque v i A d a por Melanie K l e i n , e para distingui-la dos devaneios
diurnos c mscientes ou recalcados, que se escondem de ordinário
sob o tem ofantasme [fantasia*] em psicanálise. Para ela, "o phan-
tasme é (a ites de tudo) o corolário mental, o representante psíqui-
co da pui ão. N ã o h á pulsão, n ã o h á necessidade nem de reação
3
pulsional jue n ã o sejam vividas como phantasme inconsciente".

* Ver o Vocab tlário da Psicanálise, Laplanche e Pontalis, sob a direção de Daniel Lagache,
tradução de F :dro Tamen; 11- ed., totalmente revista e adaptada para o Brasil; São Paulo:
Martins Fonti s, 1991, pp. 169-173. (N. do T.)
164 MELANIE KLEIN

Freud sustentava que as fantasias n ã o se produzem senão por


volta do segundo ou terceiro ano de vida, e utilizava de fato o mo-
delo do sonho para pensá-las. E m A interpretação dos sonhos pro-
p õ e u m esquema do aparelho psíquico descrito como um "lugar"
e comparado ao aparelho fotográfico onde se forma a imagem. 4
Entre os dois marcos da percepção e da motricidade, este apa-
relho é feito de três tipos de lembranças: inconscientes (as mais
profundas e antigas), pré-conscientes (verbais, intermediárias) e cons-
cientes. O sonho — como o devaneio diurno que é a fantasia —
tem, segundo Freud, um caráter regrediente: a excitação regride e
segue uma v i a retrógrada, de tal maneira que, em lugar de transmitir
para a extremidade motriz, transmite para a extremidade sensorial.
"Denominamos regressão o fato de que, no sonho, a representação
retorna à imagem sensorial de onde saiu um d i a . " 5 Sublinhando
que a visão e a lembrança visual exercem uma atração particular
sobre os pensamentos inconscientes para os conduzir à e x p r e s s ã o ,
Freud n ã o esquece, porém, que é o conjunto dos registros senso-
riais que é mobilizado no sonho e, por extensão, na fantasia. Che-
ga mesmo a lamentar que seus próprios sonhos "sejam menos ricos
em elementos sensoriais do que [lhe] parecem sê-lo em outras pes-
soas": 6 seria esta a razão pela qual sua concepção das fantasias
n ã o leva em conta precisamente esses elementos sensoriais?
Cenários de nossos desejos inconscientes, as fantasias freu-
dianas são fantasias de desejos (Wunschen), o primeiro desejo sendo
o investimento alucinatório da memória da satisfação. A isso Freud
acrescenta ainda "fantasias originárias", mais enigmáticas, porta-
doras de verdades pré-históricas que o próprio indivíduo n ã o teria
necessariamente vivido, mas que inconscientemente revertem a
ele para preencher as lacunas da verdade individual (como as fan-
tasias de cena primitiva, de castração ou de sedução).
A riqueza e a polissemia desses avanços freudianos deram
lugar aos prolongamentos mais divergentes. Lacan se polariza na
face visual da fantasia e desenvolve, com a fase do espelho, o mo-
delo ótico para escorar sua própria teoria da fantasia que apresenta
como fiel a Freud, e o p õ e implicitamente, num seminário consa-
grado ao comentário da obra de K l e i n , à teoria da fantasia klei-
niana. 7 O olho é aí tomado como "o símbolo do sujeito", e este
último é colocado antes do nascimento do ego. O surgimento de
fantasias, provocadas pelas interpretações kleinianas no caso do
O GÉNIO FEMININO 165

pequeno ) i c k , 8 é comentado por Lacan como uma "enxertia" ope-


rada pela palavra da analista: é o "significante" da sra. K l e i n pro-
pondo eq l i valências (do género: o trem é papai) que instalam o
sujeito D c k no bom lugar, aquele a partir do qual ele pode ver
seus dese os inconscientes e se lançar na fala.
Esta (rítica lacaniana tem a vantagem de iluminar u m aspecto
da eficácia própria do m é t o d o kleiniano: a saber, o efeito da ver-
balização sobre a fantasia inconsciente. Para uma criança que com-
preende * linguagem mas n ã o fala, que tem a língua mas n ã o a
fala, nom íar suas fantasias favorece a passagem de u m universo
mental bí seado sobre identidades (identidade entre o pênis e o
trem, con o d ã o a entender os atos de D i c k no jogo) para um uni-
verso bas< íado sobre semelhanças (semelhança entre o pênis e papá,
como per sa e diz a analista), instalando assim a criança no domí-
nio do im iginário. 9 Esta m u d a n ç a de regime (da identidade para a
semelham a) se perfaz na cura graças à fala da analista. Esta teria,
segundo 1 ,acan, o efeito de favorecer o acesso ao jogo, até aí muito
rudimentí r, ao mesmo tempo que introduz D i c k no domínio do
simbólicc, isto é, do pensamento enunciado pela analista. O ima-
ginário e <) simbólico chegariam então a equivaler ao real pulsional
do j o v e m paciente — como, na lógica matemática da ótica, real e
i m a g i n á r i ) se confundem, o que devia ser demonstrado... Bastante
denso e b ;m sedutor, este comentário visionário n ã o diz entretanto
nada do c aráter heteróclito da fantasia tal como K l e i n a constata
ao se pro etar em seu próprio inconsciente regrediente antes de
nomeá-lo de uma certa maneira — mítica, de fato, e extremamen-
te pulsior al.
O ter no " p r o j e ç ã o " presta-se aqui, é verdade, a um excesso
de ótica c ue L a c a n teve razão de introduzir para fazer compreen-
der o pap ú do eidos — da idéia — nesse aparecimento da pulsão
que se d* na fantasia, e que o empirismo ingénuo dos analistas
havia anti :s dele negligenciado. A restauração lacaniana dos fun-
damentos metafísicos da representação se fez, n ã o obstante, à custa
de um en :olhimento do campo do fantasme/phantasme kleiniano.
"No c o m e ç o " , resume Susan I s a a c s , 1 0 "todo o peso do desejo
e do phat tasme assenta sobre a sensação e sobre o afeto." R e a l -
mente, qr ando se faz uma leitura atenta das primeiras análises de
crianças c ue K l e i n relata em A psicanálise de crianças, como o faz
J . - M . Pet )t, n ã o se pode deixar de subscrever a formulação de
166 MELANIE KLEIN

Isaacs. A fantasia inconsciente ou pré-consciente é colocada em


toda atividade psíquica ou todo comportamento, de tal modo que
a fantasia é uma verdadeira "presença ativa de cenários fantasísti-
cos": a rigor está coagulada com a motricidade, o gosto e as repul-
sas alimentares, a acuidade da percepção (em particular visual)
da cena primitiva, a imagem do corpo, a voz-o canto-e-a fala, as
atividades esportivas, a frequentação de concertos-espetáculos-
cinemas, as atividades escolares e intelectuais, os sintomas n e u r ó -
ticos e, em difinitivo, toda a organização da personalidade. 11 N ã o
somente o conjunto da vida psíquica está impregnado de fantasias
(o que a psicanálise sustenta em geral), mas, nas crianças como
K l e i n as entende e as analisa, o phantasme, o de antes do recalque,
se confunde com a vida psíquica à medida que este phantasme e
esta vida, "representando pulsões as mais primitivas de posse e de
agressão, se exprimem e se administram por meio de processos
psíquicos muito afastados das palavras e do pensamento racional
consciente". 1 2
Ei-nos diante de um dos problemas mais difíceis da teoria
analítica, e que K l e i n desenvolveu clinicamente de maneira nova,
sem no entanto teorizá-lo, deixando a seus sucessores a tarefa de
elaborar o que está atualmente no centro da pesquisa em psicaná-
lise: o que é uma representação psíquica! O u melhor, que são as
representações psíquicas?
A o reabilitar "o peso das sensações e das e m o ç õ e s " no phan-
tasme primário, K l e i n pode se gabar, com razão, de uma fidelidade
ao pensamento freudiano. Algumas páginas depois de ter compa-
rado, em A interpretação dos sonhos, o aparelho psíquico a u m
aparelho fotográfico, n ã o teria o próprio Freud seguido a "pegada"
regrediente da sensação? D o mesmo modo, o "phantasme" klei-
niano leva implicitamente em conta inscrições psíquicas como as
evocam os traços mnésicos das "Notas sobre o caderno m á g i c o "
( 1 9 2 5 ) , 1 3 sem se reduzir a isso porém, e as acrescenta ao "aparelho
fotográfico" como modelo da representação psíquica. Entretanto,
comparada a esse conglomerado de diversos registros de represen-
tação que é o phantasme kleiniano (sensações, afetos, impulsos,
atos, representações não-verbais e verbais, até os próprios objetos
concretos a que se reduzem às vezes os phantasmes e o sofrimen-
to psicóticos — a lista n ã o é exaustiva), a "representação" da pul-
são no aparelho psíquico, segundo Freud, reveste um sentido por
O GÉNIO FEMININO 167

demais d i p l o m á t i c o " ) . 1 4 E m outras palavras, o phantasme kleinia-


no comj orta elementos pré ou sem-representações, que os suces-
sores de K l e i n v ã o tentar conceptualizar. Lacan, por sua vez, e de
maneira bem grega, esticará a representação psíquica em direção
à aparên :ia,, à visibilidade do eidos. Toda a atualidade da psicaná-
lise está em jogo nessa exploração clínica e conceptual do arcaico
transversal dado à luz por Melanie, e que desafia a representação
ideal ou v i s u a l . 1 5
Con efeito, Isaacs assim como K l e i n utilizam o termo fantas-
me, cuja etimologia evoca inevitavelmente a aparição-a presença-a
visão, m a s ambas o desviam dessas origens etimológicas e metafí-
sicas gr< gas e saturam-no de realidades pulsionais, de conteúdos
primáric s , como a avidez ou a inveja. De mais a mais, a sensação
de uma mlsão no aparelho psíquico se liga automaticamente ao
phantasltie de um objeto que lhe é apropriado, cada incitação pul-
sional te ido um phantasme específico que lhe corresponde (assim:
ao desej) de comida, o afeto de fome e o objeto seio). Desde o
nascimento , a pulsão possui uma expressão dúplice: sensação/afe-
t o 1 6 e ol jeto, a apresentação do objeto unindo-se à sensação. O
phantasfa kleiniano é o mecanismo desta j u n ç ã o , deste destino da
pulsão estar dentro e fora: uma pulsão "buscadora de objeto". 17
A s f intasias não se contentam em executar as incitações pul-
sionais, dsto que t ê m t a m b é m uma função defensiva. Proporcio-
nam igufelmente gratificações independentes da realidade, e até
deterion ções desta. Essas gratificações aumentam a onipotência
do ego e lhe permitem defender-se contra sua própria destruição
(assim, fantasia de ser atacado pelo "mau" seio é uma defesa
contra o sentimento de se autodestruir atacando o "bom" seio),
Esta protopresença da fantasia e, com ela, a do ego fazem
com que a pulsão possua um destino que n ã o se limita às condi-
ções ofe -ecidas pela realidade exterior. Este é um ponto central
da teoria kleiniana: para a vida psíquica, o medo e a angústia phan-
tasmatiq es t ê m mais impacto que a separação real entre a criança
e a m ã e seja ela durável, dramática ou não. A o representar não a
realidad mas o duo "pulsão e objeto interno", "sensação/afeto e
objeto", e ao antecipar o futuro para lhe melhorar as ameaças, o
phantasr%e transforma a privação em frustração. U m a negatividade
está logo em ação na atividade fantasística, que passará por
diversas etapas antes de chegar à capacidade de simbolizar graças
168 MELANIE KLEIN

à linguagem e ao pensamento. A partir dessa negatividade reforça-


da v ã o se engrenar, seguindo os riscos da relação de objeto, uma
série de fantasias: sádicas, esquizoparanóides, maníacas e depres-
sivas, para permitir enfim uma representação ótima da pulsiona-
lidade por meio da perlaboração, passando pela integração das
clivagens e pelo reforço do ego. A fantasia n ã o estará menos mis-
turada a essas constantes do inconsciente, segundo K l e i n , que s ã o
a angústia, a avidez ou a gratidão.
A fantasia como metáfora? Seguramente, no sentido de que
substitui u m objeto por outro, ou condensa uma expressão por uma
outra. No entanto, Melanie K l e i n n ã o se limita à simples figura
retórica da metáfora, nem aos jogos de palavras: ela se interessa,
de preferência, pelo eixo da semelhança em torno do qual se efe-
tua esta substituição metafórica própria da fantasia (o "trem" pelo
" p a p á " e pelo "pênis"). A terapeuta constata de fato que uma angús-
tia de destruição similar sucede à libido recalcada: a mesma an-
gústia se prende a "papá", ao "trem" e ao "pênis", impregna todo
o encadeamento ou toda a condensação da série de objetos e pala-
vras intercambiáveis no imaginário da criança. Esta lógica decorre
da onipresença de um Édipo, em que o desejo pela m ã e e a rivali-
dade com o pai estão soldados pela pulsão de morte. 1 8
Aliás, quando Melanie K l e i n interpreta as fantasias de seus
pacientes, crianças ou não, n ã o faz outra coisa senão lhes contar o
mito de É d i p o , acentuado por um sadismo primordial e destruidor.
T a m b é m o sentido da fantasia que ela lhes enxerta n ã o é qualquer
u m "significante" que simbolizaria o caos mais ou menos dicotô-
mico das pulsões ao introduzi-las no terciarismo dos signos linguís-
ticos. A o contrário, e muito precisamente, trata-se de inscrever a
fantasia num conteúdo edipiano graças ao qual se constrói a auto-
nomia do sujeito; e na prevalência da pulsão de morte, cuja ambi-
guidade n ã o escapa jamais a K l e i n — ela é destrutiva, certamente,
mas poderia ser, em certas condições, fortemente construtiva. N ã o
deverá causar espécie portanto que a teórica n ã o fale de "fantasias
originárias": qualquer que seja a diversidade delas segundo as dife-
rentes " p o s i ç õ e s " que refletem, as fantasias kleinianas são intrin-
secamente "originárias", comandadas por um É d i p o precocíssimo
e pela permanência da pulsão de morte.
A interpretação da própria analista, tomada na transferência/
contratransferência, é necessariamente parte integrante da fantasia
O GÉNIO FEMININO 169

em v i a * interpretação. Constitui a face psíquica superior da fan-


tasia — ma elaboração simbólica em mito ou em saber (os mitos
sendo nossos saberes arcaicos, e nossos saberes do humano n ã o
se separ; im jamais totalmente dos mitos). D e modo que, em defi-
nitivo, n ísse estranho encontro que está em jogo, no curso de um
tratamer to analítico, entre a fantasia-jogo da criança (ou a fanta-
sia asso< dativa do paciente adulto) e a interpretação analítica an-
corada r o É d i p o e na pulsão de morte, a fantasia assume todo o
valor de uma metáfora encarnada.

2. C s "envelopespré-narrativos"
e itre angústia e linguagem

Obs o v a ç õ e s recentes, inspiradas pelo cognitivismo, parecem


confirm tr a tese kleiniana de um proto-phantasme no bebé, no
sentido < le uma quase narração que articula a pulsão e o desejo, e
visa o c ajeto (o seio, a m ã e ) para assegurar a sobrevivência do
jovem e *o fóbico e sádico.
Con statam-se, de fato, nos bebés de menos de um ano, "repre-
sentaçõí s de acontecimentos", "esquemas de acontecimentos" ou
"cognith e affective models" que assumiriam desde logo a forma de
um "em elope p r é - n a r r a t i v o " . 1 9 Tratar-se-ia de uma realidade sub-
jetiva pi incipalmente afetiva, que reveste as propriedades lógicas
da puis* o: desejo (ou motivação), objetivo, satisfação, desenrola-
mento n a tempo, repetição, associação de m e m ó r i a s , curva de ten-
são drar lática equivalente a uma intriga primitiva etc. Experiência
emocioi lai, física e j á subjetiva, baseada em pulsões num contexto
interpes >oal, esse envelope pré-narrativo é portanto uma constru-
ção mer tal que emerge do mundo "real": uma "propriedade emer-
gente" c o pensamento. A s s i m múltiplos "centros" especializados
no conti ole de numerosos acontecimentos mentais (sensações, ne-
cessidac es instintuais, motricidade, linguagem, lugar, tempo etc.),
ou Para lei Distributing Processing (PDP), conseguem j á se coorde-
nar nun nível mais elevado que seria precisamente sua integração
num e v :nto unificado tendo uma estrutura p r ó x i m a da narração.
Do nesmo modo que a gramática gerativa havia postulado a
existênc ia de uma competência linguística inata (com uma matriz
mínima ile todo enunciado: sujeito-verbo-objeto) que se realiza ulte-
170 MELANIE KLEIN

riormente em tantas performances gramaticais conforme as regras


das diferentes línguas, caminha-se atualmente para a idéia de uma
estrutura narrativa básica, se n ã o inata, que se atualizaria desde as
primeiras interações pulsionais do recém-nascido. Os "envelopes
pré-narrativos" se acompanhariam de "representações analógicas",
nem pura vivência, nem pura abstração, mas intermediárias entre
as duas. O phantasme seria uma tal representação analógica do
envelope narrativo, vivida em tempo virtual.
Este avanço teórico parece bem sedutor, desde que se acres-
cente que a experiência analítica sobre a qual ele deseja se apoiar
mostra a l é m disso que o phantasme (e portanto o próprio envelope
narrativo) se inscreve num contexto emocional sem o qual a p r ó -
pria sequência do phantasme n ã o se realiza: mais particularmente,
o phantasme age como tal na e pela pulsão destrutiva oral-anal-
genital da qual n ã o poderia ser dissociado. E m outras palavras, a
sequência pré-narrativa que caracteriza a lógica formal do phan-
tasme depende da possibilidade de exprimir, ou não, essa destruti-
vidade: é preciso, por um lado, que a criança a manifeste, e, por
outro lado, que a m ã e a reconheça, com sua onda portadora que é
a p u l s ã o de morte. O caso do pequeno Dick, célebre desde então,
é a d e m o n s t r a ç ã o brilhante disso.
A clínica kleiniana e pós-kleiniana, que enfatizou a existên-
cia desse pensamento narrativo incluso no proto-phantasme, se
edificou n ã o sobre uma referenciação da lógica narrativa precoce,
mas sobre essa referenciação da angústia primária que se torna a
c o n d i ç ã o do pensamento, se — e somente se — é reconhecida e
reencenada pelo objeto (pela m ã e ou, melhor, pelo analista).
Encontramos este excesso de angústia quando constatamos
modificações do esquema narrativo canónico, seja na associação
livre do paciente, seja na técnica romanesca. Por outro lado, e
simultaneamente, a experiência psicanalítica mostra que o proto-
phantasme enquanto "envelope pré-narrativo" de uma "propriedade
emergente" requer o discurso do outro para se construir definiti-
vamente como phantasme. Se é verdade que K l e i n insiste no as-
pecto pré-verbal e afetivo do envelope narrativo que é o phantasme,
ela o prende t a m b é m — por intermédio mesmo do quadro analíti-
co — à interpretação verbal do analista que, com o auxílio de suas
próprias palavras, conduz da pré-narração ao phantasme narrado
stricto sensu. Porque esse relato que é o phantasme nomeado do
O GÊN O FEMININO 171

teraupe ata, interpretando o proto-phantasme vivido da criança,


conduz o pensamento emergente desta criança a um nível a partir
daí terc eiro: um nível que se dirá simbólico, onde a angústia pri-
mária, J ssim reconhecida e reconstituída no relato da interpretação,
enconti a as melhores condições para que a narração da própria
criança assuma o comando antes que outras formas de pensamento
se siga n.
como vimos precedentemente, a c o n c e p ç ã o do phantasme
kleinia 10 como metáfora encarnada permite compreender a par-
ticulari lade do phantasme infantil, mas t a m b é m o da psicose
i :omo a heterogeneidade deles, feita de representações e
"concri itudes" — , ela c o n t é m igualmente certos perigos. E n ã o
dos me lores: no tratamento, o risco consistiria em subestimar pre-
cisame ite o sentido metafórico do phantasme; em n ã o perceber aí
senão Í realidade dos objetos substantivados, sem a parte de me-
taforici dade; em negar, em suma, essa metaforicidade imaginária
e em s< instalar num realismo psicológico. Se tal coisa aconteces-
se, a ai alise cederia às equações simbólicas da psicose e correria
o risco até de encorajá-la privando-se dos meios de as conduzir à
verdad úra simbolização.
A s C o n t r o v é r s i a s 2 0 insistiram muito nessas escolhas, e uma
leitura atenta das respostas dos kleinianos indica que Melanie e
seus ac eptos estão conscientes de tal desvio de rumo. E l a s distin-
guem imaginário do paciente e o do analista, da fecundidade do
qual d á p e n d e m , visto ser ele o material privilegiado do trabalho
analític o tal como se desenrola com maior ou menor aceitação
entre o 5 limites que são as concretudes psicóticas, por um lado, e
as tenc meias à adaptação à realidade normativa, por outro. Aliás,
as C o i trovérsias parecem ter chegado a tempo de permitir esse
esclare rimento que n ã o poderia ter ocorrido sem elas, mesmo que
os peri >os ainda persistam, e mesmo que muitos m é d i c o s confun-
dam s( mpre os registros do real, do imaginário e do simbólico,
que La can irá por sua vez deslindar com muita insistência. 2 1
O i tros analistas tomaram a precaução de distinguir os diver-
sos re£ istros interpretativos do tratamento analítico frente ao mo-
vimenl D psíquico regrediente em direção à pulsão e ao sensível.
Situare mos, nessa exigência de rigor, a conduta de B i o n que tenta
preser ar a teoria analítica de uma linguagem metafórica designa-
dora d|i realidade psíquica; com receio de que esta por si mesma
172 MELANIE KLEIN

induza à confusão dos registros, B i o n recorreu a notações abstra-


tas, como L , H , K : " X ama Y (love: L ) ; X odeia Y (hate: H ) ; X
conhece Y (know: K ) . " 2 2 Numa preocupação análoga, Winnicott
insiste no aspecto processual dos fenómenos psíquicos, com o ris-
co de abusar dos gerúndios: being, living, dreaming, fantasying...
Fundamentalmente, porém, ambos permanecem p r ó x i m o s da con-
c e p ç ã o kleiniana de um funcionamento psíquico primário, se n ã o
primitivo ou originário, que se manifesta na experiência mental
do lactente e na do psicótico, e que eles designam por termos como
"agonia primitiva" (Winnicott) e "medo sem nome" ( B i o n ) , ou
formlessness, e até "coisa em s i " nos outros autores.
A confrontação com esse universo fantasístico primário será
um artefato da regressão do psicanalista? Seria o resultado de uma
carência teórica que compensa a imaginação do terapeuta, posto
em dificuldade pelo funcionamento enigmático de u m b e b é ou de
um psicótico que desafia a verbalização? Ou, ao contrário, a au-
dácia empírica de K l e i n n ã o atestará uma necessidade intrínseca
da escuta analítica, uma vez que o phantasme é o verdadeiro obje-
to de toda psicanálise? É somente ao acompanhar por meio de sua
própria fantasia, tomada como exemplo, que o analista pode con-
duzir, sempre incompletamente, o paciente até à verdade psíqui-
ca, e favorecer o encontro dele com a realidade. N ã o resulta daí,
p o r é m , um ceticismo quanto ao conhecimento do humano, mas a
certeza de que o imaginário é o terreno mesmo da verdade, sem o
qual o verdadeiro se confundiria com o recalque.
A o contrário, aqueles que tentam fazer economia da fantasia
— seja escamoteando-a com o recurso a siglas, seja desvalorizan-
do o imaginário, que seria apenas u m desconhecimento — estão
condenados a n ã o escutar o material inconsciente que n ã o dispõe
de outro meio de se entregar senão pela fantasia; na melhor das
hipóteses, escutam-no em sua clínica, mas se defendem dele com
suas teorias religiosamente purificadas. Urge reconhecer que, no
debate sobre esse tema, foram as mulheres (Klein, Isaacs, Heimann)
que assumiram o risco de destacar o papel da fantasia no processo
de conhecimento, deixando a homens como B i o n , Winnicott e, de
uma outra maneira, Lacan, a preocupação de frear o imaginário
pelo simbólico. K l e i n não somente trabalha sobre o imaginário (da
criança) e no imaginário (do analista) como o faz tão intensamente,
tão profundamente, que a interação dos dois imaginários (crian-
o GÊN; D F E M I N I N O 173

ça/anal sta) com influência sobre os corpos e seus atos n ã o pode


deixar 1 e dar a impressão de vasculhar até as entranhas: "Genial
tripeira \ ironiza Lacan.
Tei temos acompanhar essa perfuração fantasística dos phan-
tasme 1 or Melanie K l e i n com mais empatia. Situando-se o mais
perto p issível de uma percepção alucinatória da frustração — mais
do que i a satisfação — , K l e i n n ã o falha ao substantivar o incons-
ciente, :omo se poderia acusá-la superficialmente. Pelo contrário,
auscult l essa anamorfose do corpo em espírito, das sensações e
dos afe :os em signos, e vice-versa, para a qual a palavra "imagi-
nário" continua a ser demasiado unidimensional, mas para a qual
t a m b é r 1 o cristianismo inventou o termo encarnação. "Melanie
K l e i n (onseguiu dar vida ao inconsciente, a metáfora é tomada
por sei lado encarnado." 2 3
Mas, ao contrário, das tendências idealistas e idealizantes do
cristiar ismo, que utiliza a lógica da encarnação para recalcar o
corpo t o sexo em proveito da espiritualidade, Melanie reabilita a
carne 1 o verbo e privilegia o corpo pulsional e passional na ima-
gética | no simbolismo que tecem os phantasmes dos pacientes.
E n re os numerosos louvores dirigidos ao génio do cristianis-
mo p e l ) advento de seu terceiro milénio, um foi esquecido: ao se
situar ; l i onde o Verbo se faz carne, e vice-versa, a experiência
cristã 1 íaliza a viagem ao f i m da noite, lá onde as coisas e as pa-
lavras e confundem. Mistério do ininteligível ou reconhecimento
da psic )se? Por se ter estabelecido sobre essa fronteira para depois
pensá- a, o cristianismo pode aspirar a uma universalidade e sub-
sumir 1 is outras religiões. A psicanálise seria talvez a única a en-
tender- he o desafio, fundamentada como está num modelo do
aparell o psíquico que inclui a sexualidade e que atua pelo amor
de trar sferência.
A :hamada revolução "copernicana" de Freud n ã o reside uni-
camen e nessa ferida que ele abriu no coração do homem-Deus ao
destro^ ar a superioridade da consciência pela lógica inconsciente
do des íjo. Mais radicalmente, ela consiste em inscrever a lingua-
gem e ) pensamento na pulsão sexual, e até em seu substrato bioló-
gico. C phantasme kleiniano agrava esta transformação do dualismo
corpo/ lima. A o instalar o emaranhado carne-e-alma no centro do
ser hui íiano, a psicanálise ultrapassa o quadro estritamente clínico,
às vez^s desmesuradamente ideológico, de seu campo. Mesmo
174 MELANIE KLEIN

que tenhamos dificuldade em admiti-lo, ela participa de uma cor-


rente essencial do pensamento moderno que, há mais de um século,
tenta u m desmantelamento paciente e arriscado da metafísica, a
c o m e ç a r por suas categorias dicotômicas (corpo e alma, sujeito e
objeto, espaço e tempo etc.). A s s i m , a maneira de Melanie K l e i n
de escutar o phantasme e de interpretá-lo relaciona-se evidente-
mente com essa desconstrução da metafísica que diz respeito parti-
cularmente ao debate pós-católico da psicanálise com a metafísica.
C o m a condição de admitir que o mito da encarnação cristã j á está
a caminho de uma revisão do dualismo metafísico: o corpo do
Homem de Dor é uma alma, e a alma é u m corpo na d i n â m i c a da
transubstanciação. Radicalizando Freud, K l e i n emprega toda a sua
lucidez terapêutica em transferir esse mito e sua desconstrução
para o cuidado e o respeito do outro. O phantasme parece real-
mente ser ao mesmo tempo o objeto {phantasme do paciente) e a
alavanca de Arquimedes {phantasme do analista) desta experiência.
Todavia, malgrado esses avanços formais, psicanalíticos e f i -
losóficos, resta-nos muito caminho a percorrer para determinar
como o phantasme verbalizado do analista, trocado na transferên-
cia/contratransferência, instiga uma m o d u l a ç ã o última que trans-
forma o envelope pré-narrativo em fantasia nomeada e lúdica. E
libera, com o relato feito pela criança, as capacidades lógicas i n -
ternas à narração, mas t a m b é m capacidades lógicas n ã o narrati-
vas, científicas e teóricas.

3. Uma atração feminina pelo arcaico?

Se o phantasme é de fato o representante psíquico da pulsão,


como vimos, é necessário contudo entender este termo, em K l e i n
e nos seus, num duplo sentido. E m primeiro lugar, ele é u m repre-
sentante da pulsão porque é uma "transposição" — ou antes u m
"rebento" — anterior à idéia e à linguagem, e corresponde ao
termo freudiano Reprãsentant; depois somente ele é, em rigor, uma
representação ideal, que corresponde ao termo freudiano Vorste-
llungsreprãsentant.24 Temos constatado t a m b é m que o phantasme
kleiniano leva em conta, mais do que em Freud e outros autores, o
sentido primeiro de representação pré-verbal, quando n ã o o privi-
legia.
O GÉNIO FEMININO 175

Esta atração pelo primário e pelo orgânico n ã o é apanágio


apenas de Melanie e seus discípulos. N a história da psicanálise,
números os terapeutas mulheres insistiram no impacto da experiên-
cia org;âfiica sobre a vida psíquica: de E u g é n i e Sokolnicka, pas-
sando por Marie Bonaparte, para citar só aquelas que se tornaram
célebres na França, às modernas especialistas em psicossomática,
Sem que esse tema seja exclusivamente feminino, o interesse pelo
orgânicc acompanhado de uma forte implicação contratransfe-
25
rencial cas ]mulheres, é c o n s i d e r á v e l . Atentos ao contributo klei-
niano, à c o m p r e e n s ã o da sexualidade feminina, mas t a m b é m do
phantas) ne, e procedendo a uma revisão das contribuições que
foram f âtas desde então, p o d e r í a m o s compreender melhor por
que a se xualidade feminina — e n ã o somente o corpo feminino
submetiflo ao ciclo ovariano e à maternidade — instiga nas mu-
lheres esse interesse pelo arcaico. E como, se ela n ã o se afunda
numa fácil e, infelizmente, demasiado corrente complacência or-
ganicist i , essa atração poderia ser, ao contrário, o suporte princi-
pai de i t n a análise pensada como u m renascimento psíquico,
A nmenzinha está antes de mais nada ligada à sua m ã e e
seduzid; por ela. Mãe-recipiente da criança e mulher-amante do
pai, esta presença inicial está, para a menina, inscrita num Édipo
que den )minaremos Édipo-primeiro. Freud considerava esse ape-
go pnm m o como uma arqueologia perdida, quase inacessível, a
exempf do período minóico-micênico anterior à Grécia clássica,
vivencií do além disso ao modo da osmose idílica, oblativa. Mas
sabemoi , desde Melanie e as observações ulteriores, quanto esse
Édipo -Pi- imeiro está pejado de angústia e agressividade, acrescen-
tando ão s afetos de dependência e de proteção tranquilizadora o
temor catástrofe corporal e psíquica, para a filha como para a
m ã e , s o ) o impacto da pulsão de morte. Sempre no horizonte da
linguagi m, mas sem a fala, o Édipo-primeiro é dominado pela
s e n s a ç a ) boca-a-mamilo, boca-a-boca, pele-a-pele, sonoridades
e perfiur ies banham este entre-mulheres que deixa marcas indelé-
veis para o melhor e para o pior. A oralidade de início mas
também a analidade, assim como as pulsões uretrais e uma per-
cepção >recoce da vagina, estão aí implicadas numa ambivalência
para com aquela que n ã o é ainda um objeto, mas um a-bjeto: pólo
de satis: ação e de repulsa. No entanto, quando os cuidados mater-
nos sâo ótimos, essa intensa sensorialidade se vê logo apanhada
176 MELANIE KLEIN

numa sublimação que inibe os objetivos eróticos e tanáticos dos


afetos, e os modula em ternura. Grau zero de uma sublimação que
se encontrará na tendência, própria da sexualidade feminina, à
idealização amorosa ou estética, a sensualidade e os afetos filtra-
dos em ternura podem ser o ponto de partida do recalque, ele tam-
b é m específico da excitabilidade histérica: um recalque poroso,
trespassado de sensualidade, e mesmo de pieguice.
C o m a posição depressiva, a menina pode imaginar a ausên-
cia da m ã e como objeto total perdido. Durante a fase fálica, ela
troca de objeto e inicia seu Édipo-bis. Ora, o que K l e i n n ã o diz
suficientemente é que, nesse processo, a menina v a i se apoiar na
identificação com o pai — como faz o menino nessa fase, mas de
maneira diferente. A q u i se opera um desdobramento.
Por um lado, a menina se identifica com o pai como Falo: ins-
tância simbólica que exerce um poder sobre a m ã e por suas presen-
ças/ausências, ao mesmo tempo que portador de um órgão visível
e destacável, o pênis. A menina o observa no próprio pai ou even-
tualmente num irmão, e ele se torna u m objeto de desejo em si,
d a í por diante n ã o mais interno à m ã e , mas objeto externo do de-
sejo da m ã e e da filha. Nesse trajeto de desligamento da m ã e , a
filha dedica um sentimento de ódio à sua genitora — m ã e castra-
da — que n ã o a dotou desse órgão. Maculando de depressividade
o liame com a m ã e , essa depreciação do feminino favorece o aban-
dono da m ã e como objeto de desejo, em proveito da identificação
fálica.
O falicismo foi preparado, na filha, por seu amor e sua inveja
da m ã e no decorrer do Édipo-primeiro; agora, na fase fálica, e
aproveitando o desligamento da m ã e resultante da posição depres-
siva, esse falicismo v a i tomar a forma de um investimento dos sig-
nos e do pensamento. A função do pai, cuja autoridade se situa
além do cotidiano sensível, se i m p õ e à atenção da criança, capaz,
a partir daí, de apreender seu genitor como referente primeiro do
poder invisível, do poder do pensamento. U m estranho encontro
se efetua, na fase fálica, entre a percepção dessa autoridade sim-
bólica do pai, o simbolismo da linguagem, e as particularidades
do órgão masculino de ser destacável, "cortável", suscetível de
perda, presente/ausente, tumescente/detumescente. A lógica do
simbolismo fundada sobre a presença/ausência, sobre o b i n ó m i o
0 / 1 , experimenta-se tanto no nível do erotismo quanto na repre-
O GÊN O FEMININO 177

s e n t a ç ã ) , tornando-se o pênis o suporte dessa diferença que faz


sentido o fator orgânico de nosso computador psicossexual. A
criança se torna sujeito quando se separa do objeto: é aqui, na
fase fá! ica do Édipo, que consolida a posição depressiva, que se
poderá verdadeiramente falar de um "objeto" para um "sujeito",
porquai ito n ã o h á objeto se n ã o é significável para um sujeito.
Simulfc neamente, a função do pai é referida à autoridade e à au-
sência, s a do falo ao batimento potência/castração. Assim, a fase
fálica e : etua para o sujeito esta j u n ç ã o entre sexualidade e pensa-
mento, que solda a unidade de sua estrutura na qualidade de es-
trutura de desejo e de interrogação, simultaneamente busca de
satisfaç ão libidinal e de curiosidade pensável.
Eni retanto, ao fazer o jogo dessa identificação fálica decisiva
para se j tornar-se sujeito, a menina, ao contrário do menino, se
sente ei tranha à sua dinâmica. Esse pênis em torno do qual se rea-
liza o e ncontro fálico decisivo para a estruturação do sujeito pen-
sante, e la n ã o o tem: o clitóris n ã o é senão um equivalente menor,
e, sejari quais forem os prazeres que proporciona, continua invi-
sível e n ã o reconhecível. Por conseguinte, nesse mundo fálico-
simból] co que realça a posição depressiva, a menina — a mulher
— é ui na exilada. E l a se projeta nele, mas " n ã o está nele"; n ã o
crê n e l i o u antes brinca de "pertencer a ele" e de crer nele. Todo
"ser" o 1 " c r e n ç a " lhe é naturalmente mascarado, disfarce, maqui-
lagem, não-ser. Estranha ao universo fálico-simbólico, ela se do-
bra sot re a lembrança, que se torna cada vez mais inconsciente,
porque recalcada, do Édipo-primeiro, lembrança minóico-micênica,
do ame r-ódio com o a-bjeto materno. Estranha à esfera dos pais
e do lis me social comunitário que é um liame simbólico, ela será
essa "eterna ironia da comunidade" observada por Hegel, uma
descrer te mais ou menos confessa, uma mística seguramente, fiel
e infiel. E vivenciando muitas vezes pelo sadomasoquismo sua
pertenç a ambígua, estranha, à lei fálico-simbólica dos pais, da qual
particij >a sem a ela pertencer.
E r i retanto, ao mesmo tempo que adere à vertente fálico-sim-
bólica )ara ser um sujeito que fala e que pensa como todos os ou-
tros (e :om frequência até mais vigorosamente do que os meninos,
travadc s por sua rivalidade com o pai), a menina troca de objeto.
Se ben i que sujeito da lei fálica, da linguagem e do pensamento,
ela esc )lhe o pênis como objeto do desejo. N ã o mais a m ã e con-
178 MELANIE KLEIN

tendo o pênis (como era o caso no Édipo-primeiro), mas o próprio


pênis do homem (este será seu Édipo-bis). A heterossexualidade
é o resultado dessa nova escolha, e a menina chega a isso se a
inveja da m ã e foi ultrapassada e ela p ô d e se desligar de seu É d i p o -
primeiro. E l a deseja então, no Édipo-bis, tomar o lugar da m ã e ,
obter do pai um bebé, como, antigamente, a m ã e o tinha obtido
desse mesmo pai.
Édipo-primeiro (amor-ódio pela m ã e possuidora do pênis), se-
guido do duplo movimento do Édipo-bis (identificação fálico-sim-
bólica e desejo pelo pênis do pai como tal): o que Freud chama
uma bissexualidade psíquica, mais acentuada segundo ele nas mu-
lheres que nos homens, 2 6 se delineia na e se esclarece pela am-
biguidade dessas m u d a n ç a s de posturas psíquicas no decurso do
desenvolvimento da mulher. O movimento complexo que acaba-
mos de evocar explica a estranha maturidade de certas mulheres
que logram alcançá-la, em c o m p a r a ç ã o com a imaturidade dos
homens que continuam presos à m ã e . Mas explica t a m b é m as difi-
culdades psicossexuais encontradas pela maior parte das mulheres
e os múltiplos fracassos que as fixam na excitabilidade da histe-
ria, nos vapores da depressão ou, muito frequentemente, na frigi-
dez. Perplexo, Freud se perguntava: "Que quer uma mulher?" C o m
efeito, do a-bjeto materno passando pela identificação fálico-sim-
bólica, e até à troca de objeto que a faz escolher o pai no lugar da
m ã e como parceiro erótico: onde está o objeto de desejo da mu-
lher? Esta pergunta Melanie n ã o se faz: para ela, o desejo femini-
no, mais que qualquer outro, se isto é ainda possível, é dominado
pela angústia.
A maternidade p õ e a mulher diante de uma nova experiência
do objeto: o b e b é , enfim presença real, n ã o é nem um a-bjeto (a
m ã e minóico-micênica) nem um objeto de desejo (o pênis/falo),
mas o primeiro outro. O u poderia sê-lo. Porque estimula as ten-
dências à sublimação que a vertente simbólica da fase fálica tinha
acentuado, inibindo a pulsão quanto a seu objetivo e dirigindo-a
para os signos da língua e da cultura. Desde então, o b e b é é essa
aurora da alteridade na qual o narcisismo feminino encontra uma
última chance de se desfazer do dobramento sobre si e sobre a
m ã e para se devotar ao outro: angústias e delícias da maternidade.
De fato, a m ã e corre o risco de se encerrar na onipotência de uma
matrona andrógina (tendo captado o pênis do pai para fazer dele
O GÉNIO FEMININO 179

seu beb( , e mais ainda se esse b e b é é do sexo masculino!) que se


imagina por fim, compensada pelo poder que ela exerce sobre o
bebé fr;ag i l , o qual certamente lhe permitirá enfim se "realizar".
Mas ela bode t a m b é m se achar fragilizada para sempre ao mostrar
enfim a bissexualidade psíquica, que n ã o é outra coisa senão
sua incohipletude,, o contrário da androginia: experimentando conti-
nuamem e sua vulnerabilidade no lugar desse outro que ela transmi-
te ao m i ndo , desde logo separado e por definição n ã o controlável,
seu bebi seu amor. A dor dessa atitude materna n ã o deveria nos
impedir de detectar aí as latências civilizadoras: é a partir dessa
compau ao pelo outro que a pulsão renuncia a seu objetivo, que é
a satisfa ^ão , e se dá n ã o um outro objetivo, mas um outro: simples-
mente o cuidado de revelar o outro. O b e b é é esse primeiro outro,
e a exp< n é n c i a da maternidade, sua aprendizagem essencial. I n -
terminá 1 el, necessariamente falha, e, nesse sentido, necessaria-
mente stblime.
No iesempenho dessa função materna, a mulher encontra a
memórilt de sua ligação arcaica com sua própria m ã e , assim como
seu Édi p o - primeiro: sua dependência da outra mulher e sua rivali-
dade c o f i ela, a c o m u n i c a ç ã o sensorial e sua sublimação primária,
que de imediato dobrado o erotismo e a angústia em cum-
plicidad í A maternidade e, mais geralmente, a função parental
estão na base da atitude de preocupação que transforma a pulsão
erótico anática, o desejo fundamentalmente sádico que nos con-
duz par; o outro, nessa solicitude que n ã o tem outro objetivo —
27
que n ã o deveria ter outro — senão deixar viver, serenamente.
Ent^e todos os terapeutas da miséria humana, o psicanalista é
o que c( mpartilha mais e melhor essa vocação maternal, à medi-
da que, do sujeito sofredor, escuta a dor psíquica. Longe de ser
uma ah tração, a alma tal como se revela na experiência psica-
nalítica p uma alma do corpo desejante e rancoroso. Para ouvi-lo,
a escuta deve se tornar cúmplice do desejo e da angústia, mas de-
serotiza ido o analisando que é o portador deles, para fazer dele
um outio o paciente é meu diferente, um diferente à beira da
indifere iça que permite precisamente pensar suas verdades em
vez de e confundir com elas. Criação contínua da alteridade, a
psicaná i se é t a m b é m uma alquimia em que o erotismo angustiado
se meta >oliza em ternura. Ternura com o q u ê ? C o m as verdades
do outn nas quais eu me projeto e das quais entretanto me exilo,
180 MELANIE KLEIN

visto que são outras. Homem de ciência e de lei, Freud n ã o diz


"ternura", mas "benevolência"; j á Melanie pensa na sublimação
que desinibe a inteligência, e formula sem rodeios lógicas pulsio-
nais para aceder ao pensamento.
Nesta dinâmica, a analista que n ã o censura sua sexualidade
feminina continua a ser habitada por uma bissexualidade psíquica
comandada pelo Édipo-primeiro e pelo Édipo-bis. E l a ativa em si
mesma, e escuta em sua analisanda, uma gama complexa compos-
ta tanto pelo maternal sensorial como pela co-presença erotismo-
pensamento imposta pela identificação fálica e t a m b é m por sua
ultrapassagem numa posição feminina receptiva do pênis paterno
para conseguir u m bebê. O arcaico materno — o de sua própria re-
lação com o a-bjeto materno e o de sua posição de m ã e diante de
seu b e b ê — lhe d á acesso à complexidade da vida psíquica, ao le-
que que se desdobra das pulsões às palavras, do pensamento ao
sensível. Quando uma mulher assim constituída escuta ou "pensa"
seu paciente, n ã o aplica nem um sistema nem um cálculo. A lógi-
ca do que nos apareceu como o computador fálico e simbólico,
com sua grade 0 / 1 , n ã o está aqui em posição dominante, mas uma
forte coloração imaginária impregna o conhecimento da transferên-
cia e o da contratransferência. É só assim que o analista renasce e
faz renascer seu analisando. A experiência psíquica na qualidade
de renascimento reclama este acesso a todos os registros do apare-
lho psíquico, até ao materno transverbal.
R e g r e s s ã o arcaica? Digamos melhor: acesso ao primário trans-
lingiiístico. O psicanalista — homem ou mulher — que pretende
restituir o psiquismo n ã o enquanto sistema ou estrutura, mas en-
quanto vida psíquica do outro, defronta necessariamente com o
feminino, e até com o materno nele mesmo, feminino e materno
que o phantasme kleiniano i m p õ e continuamente à análise do fato
de sua configuração heterogénea como "metáfora" encarnada. A s
aporias de Melanie sobre a v i a do arcaico revelaram essa necessi-
dade, e os mais inventivos de seus alunos assim o compreenderam:
B i o n , Winnicott, Tustin e outros n ã o serão vigias do feminino e do
sensível neles mesmos, como em nós?
O GÊNIQ FEMININO 181

NOTAS

1. Cf. S i t a n Isaacs, "Nature et fonction du phantasme" (1943), em Melanie


Klein et alii, Développements de la psychanalyse (1952), P U F , 1966, pp.
64-11
2. Cf. inj a, cap. X .
3. Susanpsaacs art. cit., p. 79.
4. Cf. G W, t. I - H , S E, t. V, trad. fr. P U F , 1927 e 1967, p. 455.
5. Ibid., 461.
6. Ibid., 465.
7. Cf. ' L a topique de 1'imaginaire", 24 de fevereiro de 1954, em Les Écrits
techni f<ues de Freud, Séminaire I, Seuil, 1975, pp. 87-103.
8. Cf inj a, cap. V I I I , pp. 185 sq.
Lembi emos com Alain Gibeault que, para Freud, a "língua fundamental" da
psicos segundo Schreber, apresenta l i g a ç õ e s simbólicas que seriam vestí-
gios; de identidades arcaicas; e que ele tem prazer em retomar certas teorias
sobre origem da linguagem segundo as quais esta seria marcada por uma
"identidade entre as palavras sexuais e as palavras utilizadas no trabalho,
"O que está hoje ligado simbolicamente foi muito provavelmente ligado
outror por uma identidade conceptual e linguística. A ligação simbólica
parece ser um resquício e uma marca de identidade antiga." Sigmund Freud,
L ,'Interp
\ rétation des revés (1900), G W, t. H-ffl, S E, t. I V - V , trad. fr. P U F ,
1926, eed. 1967, p. 302. (Cf infra, cap. V I I I , pp. 187-192.)
10. Cf Sub Isaacs, op. cit., p. 88.
11. Cf Je; n Michel Petot, Melanie Klein. Premières découvertes, op. cit., pp.
75-19
12. Cf. S u | a Isaacs, op. cit., p. 85; grifos nossos.
13. G W, X I V , pp. 3-8, S E, t. X I X , pp. 227-232, trad. fr. em Résultats, idées,
problè n.es, I I , P U F , 1986, pp. 119-124.
14. Segun 1o o adjetivo pertinente de Jean-Michel Petot, Melanie Klein. Le moi
et le' ban objet, op. cit., p. 204.
15. Cf. B i o n e seus elementos alpha e beta em UAttention et ITnterprétation
(1970; Payot, 1974; Piera Aulagnier e os pictogramas em La Violence de
/ interbrétation, P U F , 1975; cf. t a m b é m minha distinção entre s e m i ó t i c o e
simból ico em Julia Kristeva, La Révolution du langage poétique, Seuil, 1974.
16. Segun lo Freud, em " L e refoulement" (1915), o afeto é uma tradução subje-
tiva dq quantidade de energia pulsional, e equivale muitas vezes à expressão
sinoni$fuca 'quantum de afeto"; parece tão ligado à c o n s c i ê n c i a de si que
Freud se pergunta se é l e g í t i m o falar de afeto inconsciente. Enquanto as
represi ntações inconscientes permanecem sob o recalque no inconsciente,
ao afefc inconsciente (por exemplo, o sentimento de culpa inconsciente) n ã o
corres] >ondieria, segundo Freud, no inconsciente s e n ã o um "rudimento" (em
Métapkychologie [1915], G W, t. X , pp. 248-261, S E, t. X I V , pp. 141-158,
trad. fif P U F , 1972, pp. 114-115). Melanie Klein, ao contrário, parece estender
182 MELANIE KLEIN

sua n o ç ã o de phantasme até incluir aquele rudimento. Cf. t a m b é m o desen-


volvimento moderno da teoria dos afetos, atento à obra de Klein, em André
Green, Le Discours vivant. La conception psychanalytique de 1'ajfect, P U F ,
1971.
17. Hanna Segal, Introdution..., op. cit., p. 18.
18. Cf infra, cap. V I I I , 1, pp. 185 sq.
19. Cf Daniel N . Stern, " L ' 'enveloppe prénarrative'. Vers une unité fondamentale
d'expérience permettant d'explorer la réalité psychique du bébé", em Journal
de la psychanalyse de Venfant, 1993, n- 14, pp. 13-65. Cf. t a m b é m K . Nel-
son e J . - M . Greundel, "Generalized event representation: basic building
blocks of cognitive development", em M . E . Lamb e A . L . B r o w n (org.),
Advances in Developmental Psychology, vol. 1, Hillsdale, N . J . Erlbaum,
1981; J . M . Mandler, "Representation", em J . H . Flavell e E . M . Markamn
(org.), Cognitive Development, vol. 3, de P. Mussen (org.), Handbook of
Child Psychology, 4*- ed., Neova York, Wiley, 1983, pp. 420-494; e G . C e l l é -
rier, "Le constructivisme génétique aujourd'hui", em B . Inhelder e G . C e l -
lérier, Le Cheminement des découvertes de Venfant, Lausanne, Delachaux
et N i e s t l é , 1992.
20. Cf. infra, cap. X , 1, pp. 247 sq.
21. Cf. infra, cap. X , pp. 270.
22. Cf Aux sources de Vexpérience (1962), trad. fr. P U F , 1979, p. 60.
23. Cf Nenunca Amigorena-Rosenberg, Leopoldo Bleger e Eduardo Vera Ocam-
po, "Melanie Klein ou la métaphore incarnée", em Psychanalyse: cent ans
de divan, Panoramiques, Arléa-Corlet, 1995, n- 22, p. 101.
24. Cf. " L e refoulement", "Uinconscient", em Métapsychologie (1915), trad. fr.
Gallimard, 1952, pp. 67-90 e 91-161.
25. Cf Julia Kristeva, "Psychanalyser au féminin. De quelques contributions
f é m i n i n e s à la théorie psychanalytique", c o m u n i c a ç ã o ao Colloque d'histoire
de la psychanalyse, julho de 1997.
26. Cf Sigmund Freud, "Sur la sexualité féminine" (1931), em La Vie sexuelle,
op. cit., p. 141.
27. Cf Julia Kristeva, "De 1'étrangeté du phallus ou le féminin entre illusion et
désillusion", em Sens et non-sens de la révolte, Fayard, 1996, em particular
pp. 203 sq. e pp. 208 sq., e " L a filie au sanglot. D u temps hystérique", em
LTnfini, n- 54, primavera de 1996, pp. 41-42.
VIII

IMANÊNCIA E GRAUS
DO SIMBOLISMO
1. Das equações aos símbolos: Dick

O universo psíquico do bebé segundo Melanie Klein nos apa-


rece daqui por diante através da precocidade do ego e do superego,
do Édipè e das fantasias encarnadas, como habitado desde sua
origem por uma forma de simbolização primeira, rudimentar ao
extremo Criadora de ligações e ao mesmo tempo defensiva e ini-
bidora, esta simbolização está destinada a se modificar antes de
aceder a um pensamento stricto sensu: às vezes unicamente graças
ao auxíl: o da psicanálise. A protopresença de uma simbolização
pulsional, retomada de certos textos de Freud, será desenvolvida
de maneira nova por Melanie Klein a ponto de parecer constituir
uma ruptura com o fundador, mesmo que ela e seus discípulos
tenham sem cessar sublinhado sua continuidade com a herança
do mestre. Esta fidelidade-e-inovação, que é uma constante em
toda a otra de Melanie Klein, se deixa decifrar especialmente na
concepçi o — muitas vezes mais implícita que explícita em Melanie
— do sii nbolismo e de suas etapas, que os kleinianos se empenha-
rão em Í poiar.
Siga nos esse movimento com o caso de Dick.
Dicl é um menino de quatro anos, "retardado", como se diz
habitual] nente: mal fala, mostra-se indiferente à presença da mãe
e da em >regada, insensível quando se machuca, muito desajeita-
do no rr anejo de facas e tesouras, e sua aquisição intelectual é a
de um n enino de quinze a dezoito meses (à medida que se pode
186 MELANIE KLEIN

confiar nesse género de avaliação). Sua "atitude perfeitamente ne-


gativa", 1 como a percebem a mãe e a própria Melanie Klein, será
qualificada pela analista de "atitude negativista alternando com ma-
nifestações de obediência automática". 2 Sem comparação com um
menino neurótico que teria uma certa inibição no jogo mas seria
ainda assim capaz de simbolizar relações com os objetos (recorde
o caso de Fritz), 3 Dick não manifesta nenhuma relação afetiva
com os objetos circundantes, não "evoca" nem dá mostra de ne-
nhuma "coloração fantasística". O diagnóstico da analista é o de
uma esquizofrenia, mais frequente, pensa ela, nas crianças peque-
nas do que se diz, e cujo traço essencial, em Dick, seria "uma ini-
bição do desenvolvimento" mais do que uma "regressão". A clínica
moderna veria nisso provavelmente traços autísticos, mas, como
define Klein, não há por que se "aventurar numa discussão de diag-
nóstico". O essencial é, de fato, seguir as fulgurações da observa-
ção kleiniana, as constatações que ela extrai disso para o estado e
o desenvolvimento de Dick, mas também as concepções mais ge-
rais sobre a génese do simbolismo que daí decorrem.
Analisanda e aluna de Ferenczi, bem sabemos, Klein recorda
com ele que na base do simbolismo se acha a identificação, isto é,
o esforço da criança para descobrir em cada objeto exterior seus
próprios órgãos e a função deles. Ernest Jones tinha afirmado que
é o princípio de prazer que torna possível essa identificação, que é
por si só um precursor do simbolismo: a similitude entre o dentro
e o fora identificados um com o outro se constrói sobre a base do
prazer similar que proporcionam. Mas Klein se afasta aqui de
Jones: não é o prazer, diz ela em resumo, é a angústia que põe em
movimento o mecanismo de identificação.

Como a criança deseja destruir os órgãos (pênis, vagina, seio)


que representam os objetos, passa a ter medo deles. Esta angústia a
leva a assimilar esses órgãos a outras coisas; em razão de uma tal
equivalência, essas coisas se tomam por sua vez objetos de angús-
tia, e a criança é assim forçada a estabelecer sem cessar equações
novas que constituem o fundamento de seu interesse pelos objetos
novos e do próprio simbolismo.4

Retenhamos os termos "equação" e "equivalência": Hanna


Segal vai retomá-los, para os diferenciar, dando-lhes uma signifi-
O GÊNI3 FEMININO 187

cação f recisa no processo de simbolização em duas etapas que


5
ela vai iclarar.
Ha^ eria então, com o sadismo originário e fortemente acentua-
do em cfcrtos sujeitos (como Dick), uma proto-simbolização todavia
inefáve e que, se fosse defensivamente inibida, poderia entravar o
acesso atividade imaginária: de fato, Dick não "evoca" e "não
joga' . S ó5i a analista lhe supõe protofantasias sádicas — como vimos,
Winnic4>t falará de "agonia primitiva" e Bion de "medo sem nome",
Melanie é mais bíblica: o "estado de guerra" e a "pena de talião"
domina|n esse universo de violência primária que a pulsão de morte
impõe egundo ela, de qualquer maneira, e mais cruelmente ainda
se é excessiva.. O leitor desconfiado não pode deixar de se interro-
gar: ela estará enganada, estará sonhando com ela mesma? Ou
então, ao contrário, Dick lhe confirmará as hipóteses? E , se isso
ocorrer, qual poderia ser o sentido de uma tal "confirmação"?
Visto que, e esta é a segunda constatação de Melanie Klein,

as fantasias sádicas que dizem respeito ao interior do corpo materno


com itituem a relação primeira e fundamental com o mundo exterior
e a ealidade.6

Entendamos: se essas fantasias chegassem a se manifestar no


jogo e pa linguagem, estabeleceriam desde logo uma realidade
fantasística com o mundo exterior, uma "realidade irreal", a partir
da qual poderia "progressivamente" se estabelecer, num segundo
7
tempo somente, uma "relação autêntica com a realidade".
Ass im, pois, é possível distinguir, segundo Klein, dois graus
do simb alismo evidenciado pela análise de Dick. E m primeiro lugar,
um simbolismo primário pulsional, rudimentar, mas obedecendo já
à lógica das "equações", que será especificado, em 1946, pelo me-
canisnu > da identificação projetiva.8 Depois, um simbolismo da fan-
tasia nomeada que estabelecerá, por intermédio da verbalização
fornecií a por um terceiro (o analista), um primeiro afastamento
da angi stia (sua Verneinung, sua supressão, o início de seu recal-
camento >), assim como a constituição concomitante de uma "reali-
dade ar têntica" em substituição a essa "realidade irreal", até ali
esmaga iora para a criança. Pacientemente elaborada, essa lógica
será lig ida à posição depressiva em 1934, mais particularmente à
evoluçã a que esta opera de "equações" para "verdadeiros símbolos".
188 MELANIE KLEIN

Como Klein se arranja, em 1930, para estabelecer essas cons-


tatações? Dick não brinca, indiferente ao que o cerca. A analista
conclui que é preciso mudar de técnica e, num primeiro momen-
to, transpor "esse obstáculo fundamental para estabelecer um con-
tato com o menino".9 Fortalecida por sua experiência anterior,
sobretudo com Fritz, Melanie procede como se ela fosse ele: a
fantasia pressuposta mas muda de Dick, ela é que vai "enxertar"
nele (segundo a expressão de Lacan) formulando-a em seu lugar:

Peguei um grande trem, que coloquei ao lado de um trem menor,


e dei a eles os nomes de "trem papai" e "trem Dick". Ele logo tratou
de pegar o trem que eu havia chamado "Dick", rolou-o até à janela
e disse: "Estação." Expliquei-lhe que "a estação é mamãe; Dick en-
tra na mamãe". Ele soltou o trem, correu e foi se postar entre a porta
interior e a porta exterior do quarto, encerrou-se lá dentro dizendo
"escuro", e em seguida tomou a sair correndo. Repetiu várias vezes
essa manobra. Expliquei-lhe que "é escuro dentro da mamãe; Dick
está no escuro da mamãe". Nesse meio-tempo ele pegara de novo o
trem, mas, bem depressa, correu outra vez para ir se colocar entre as
duas portas. Enquanto eu lhe dizia que ele entrava no escuro da ma-
mãe, ele repetiu duas vezes, o tom interrogador: "Empregada?"10

Durante a terceira sessão, Dick encara os objetos com interes-


se. A analista detecta nisso uma atitude agressiva, lhe dá uma te-
soura, mas Dick não sabe usá-la, e Melanie tem de arrancar as
pontas de pau fixadas no veículo, "levada por um olhar que ele me
lançou". Dick atira fora então o veículo danificado e diz: "Partiu."

Isso significava, disse-lhe eu, que Dick arrancava as fezes do in-


terior da mamãe.11

Com extraordinária pertinência clínica, Klein liga o sentido


privativo ou negativo de "partiu" ao erotismo anal e à destruição
dos fetos imaginados no corpo materno como sendo idênticos aos
excrementos. Bem depressa a criança sai de seu esconderijo e
mostra uma curiosidade nascente: por outros brinquedos, pelo
banheiro etc. — tudo se encadeia, isso não tem fim, equações por
equações e equivalências por equivalências; será necessário espe-
rar a fiel Segal para fazer a triagem...
O GÊN O FEMININO 189

Q1ue se passa no espírito da analista, e, por conseguinte, no da


criança que ela observa?
Enjface da apatia de Dick, Klein aposta que ele compreende a
lingíuagtm embora não se exprima. E l a decide então assumir o
papel
" Ido sujeito que fala, o que implica que Dick possui duas com-
petêncifis ao mesmo tempo um conhecimento passivo da língua e
um pré simbolismo fantasístico, ou seja, uma capacidade de fan-
tasiar ij fralingúística que entra em ressonância com as fantasias
comuni :adas pela fala de Melanie. Essas fantasias pré-verbais,
pressup Dstas por Klein, não são de maneira nenhuma inocentes:
trata-se de fantasias edipianas (aquelas mesmas que ela constatou
nas cnánças neuróticas que falam e brincam, e em conformidade
com o )ostulado freudiano), reforçadas porém, no caso de Dick,
por um sadismo violento.
Fui
Fujdamentando-se no que conhece da história de seu jovem
pacient< L Melanie emite a hipótese (dir-se-á mais tarde: contratrans-
ferenci 1) de que o corpo da mãe inspira a Dick um temor imenso,
visto que ele deseja atacá-lo para o esvaziar do pênis paterno e
das fezes que representam as outras crianças. O sadismo oral (a
que se í liam os sadismos uretral, muscular e anal) teria assumido
em Dic t uma intensidade exagerada e sido substituído muito cedo
pela gehitalidade. Essa união sádica-e-genital ao objeto materno
(Dick n Lamou mal e sofreu de problemas digestivos precoces, de
um pro apso anal e de hemorróidas, a aprendizagem do controle
esfinctefriano se revela nele difícil) foi agravada pela depressão
da mãe e, mais geralmente, pela falta de amor sentida em sua
família fracamente compensada pela atenção benevolente da em-
pregad , Mas eis que esta descobre que o menino se masturba:
repreenp e-o, fazendo nascer no pequeno um sentimento de culpa,
Klein conclui que há uma inibição do sadismo: Dick é incapaz de
exprimi qualquer agressividade que seja; recusa-se até a masti-
gar a c( mida.

() desenvolvimento ulterior de Dick se malograra porque o meni-


no i ão tinha podido exprimir nas fantasias sua relação sádica com o
corpo materno.12

O c|esejo oral de Dick pelo pênis do pai aparece muito cedo,


na escu a de Melanie, como a fonte principal da angústia:
190 MELANIE KLEIN

Chegamos a observar em plena luz esse pênis fantasístico e o


desejo de agressão crescente que ele fazia nascer sob múltiplas for-
mas, o de comê-lo e destruí-lo dominando os outros. Uma vez, por
exemplo, Dick levou uma bonequinha à boca e disse rangendo os
dentes "Tea, daddy [Chá, papai]", querendo dizer "Comer papai":13
pela translação da letra T, obtém-se uEat daddy", "comer papai".
Pediu em seguida para beber um pouco d'água. A introjeção do pê-
nis paterno despertava, e isso ficou claro, um duplo temor: o do
pênis como de um superego primitivo e maléfico, e o da mãe punin-
do-o por tê-la despojado. Dito de outra maneira, ele tinha medo
tanto do objeto externo como do objeto interiorizado. Naquele mo-
mento pude claramente observar um fato que já mencionei e que era
um fator determinante do desenvolvimento desse menino: a fase
genital, nele, entrara cedo demais em atividade. Isto se manifestava
no fato de que as representações como aquelas de que acabo de
falar eram seguidas não de angústia apenas, mas de remorso, de pie-
dade e do sentimento de que era preciso restituir o que ele havia
roubado [...]. Ao lado de sua incapacidade de superar a angústia,
essa empatia prematura tinha sido o fator decisivo de sua rejeição
de toda tendência destrutiva. Dick se retraiu da realidade e subme-
teu sua vida fantasística a uma parada ao se refugiar na fantasia do
corpo materno, vazio e escuro.14

Melanie Klein assinala antes de tudo o desejo do menino pelo


pai ao decifrar aí uma mistura entre a posição feminina do garoto
que assimila pela boca o órgão sexual do homem e a vontade edi-
piana de matar o rival que é o pai. Ela conclui desde então que,
para se defender disso, Dick reduz mamãe a um "entre duas por-
tas" onde faz "escuro".

Ele conseguira desta maneira retirar sua atenção dos diversos


objetos do mundo exterior que representavam os conteúdos do cor-
po materno: o pênis do pai, as fezes, os bebés. Devia se desembara-
çar de seu próprio pênis, órgão de seu sadismo, e de seus excrementos
(ou devia negá-los) porque eram perigosos e agressivos.15

A analista formula desde logo para si mesma a fantasia dessa


agressividade canibalesca para com a mãe-e-o pai, e a restitui em
seguida ao menino segundo os meios verbais e lúdicos que nele
supõe. Trata-se de fazê-lo compreender que o escuro entre as portas
O GÊNK FEMININO 191

não é m â m â e , mas apenas se lhe assemelha — que é "um signifi-


cante", c irá o doutor Lacan. E m D i c k , a capacidade de significar
pode ent ío aflorar, e u m mundo feito de semelhanças, de signifi-
cações e n ã o de identidades, um mundo de jogos e de discursos
pode afifai se construir.

Tc rnou-se possível para mim, na análise de Dick, ter acesso a seu


incor sciente ao estabelecer um contato com os rudimentos de vida
fanta íística e de formação simbólica de que ele dava prova. Seguiu-
se un ta redução de sua angústia latente, de tal modo que uma certa
quan idade de angústia pôde se manifestar.16

A s "fcrotofantasias" sádicas estariam portanto lá, mas n ã o ex-


pressas e nquanto fantasias? É Melanie que as expressa: os trens,
esses sãc papai e D i c k ; a estação n ã o é senão m a m ã e a ser pene-
trada; de struir o veículo é danificar m a m ã e retirando os objetos
sujos de >eu ventre — ela recita as páginas rosa do Petit Larousse
psicanalí ico que a opinião pública fabricou para seu uso a partir
de Freuc e da própria K l e i n ! Entretanto, são sem dúvida essas
verbaliz* ções, e n ã o outras, que expulsam D i c k de seu esconderi-
j o ("entn duas portas" que Melanie n ã o se esqueceu de interpretar
como un "ventre escuro"). E ele se p õ e a evocar (a empregada,
para oonfeçar), e procura brinquedos, e vai se molhar no banheiro,
que é airila o corpo de m a m ã e e seu próprio corpo. O mundo pas-
sa a exis ir, como criado pela série de equivalências que se des-
lancha n a troca entre o menino e a terapeuta. D i c k pode enfim
brincar c )m isso: o real inominável se tornou u m imaginário que
alivia. Pela palavra da analista. Qualquer palavra?
Certamente n ã o .
Ante de mais nada, era necessária uma pessoa em posição de
terceiro no sentido de diferente, de estranho à díade osmótica,
demasiacj) fechada, ou "empática" (diz Klein), que o menino manti-
nha até i itão com sua m ã e desiludida ou deprimida. Nem a empre-
gada, nen o pai, nem qualquer outra pessoa poderia ter proferido
tais pai$y ras.
Mas sso n ã o é tudo. E s s a alteridade m á x i m a do "sujeito capaz
de saber' que é o analista, se realiza por meio de um discurso de
conteúdo muito específico: trata-se de dizer e redizer um mito
192 MELANIE KLEIN

edipiano de fortes conotações agressivas, de enunciar u m sadis-


mo edipiano que tem por alvo "papai no corpo de m a m ã e " . D i c k
deseja comer papai na m a m ã e de um É d i p o que cobiça o próprio
sexo paterno, mais do que o nobre "significante" do "Nome-do-
P a i " : eis o que descobre Melanie com seu "instinto de bruta". No
entanto, é graças à violência de sua fala de analista que ela mes-
ma se m a n t é m no significante sem o saber — mas sem entretanto
esquecer a pulsão canibalesca — , e que o sadismo oral e genital
de D i c k poderá ser desentocado: negado como tal, modulado afi-
nal em curiosidade psíquica, em pensamento.
Pode-se sempre supor 1 7 que não importa que discurso teria sido
conveniente, visto que o discurso, qualquer que seja, pontua pelos
cheios e vazios do significante (a alternância presença/ausência
estruturando a própria bateria do signo) os batimentos das portas
entre as quais se refugia o menino. Suposição inegavelmente i m -
prudente, porque este n ã o é u m significante qualquer, ainda me-
nos vazio, que Melanie escuta, mas antes a sexualização edipiana
e a forte carga da pulsão de morte canibalesca: "Eat, daddy" por
"Tea, daddy". Reconhecendo-as na transferência e imprimindo-as
sobre o jogo de Dick, a analista leva o menino a reconhecer a an-
gústia e a representá-la para si mesmo no espaço aberto da própria
transferência, que outra coisa n ã o é senão o espaço dessa fala i n -
terpretativa específica. 1 8
D i c k despega-se desde então da angústia edipiana mortífera,
uma vez que ela lhe é remetida pelo outro. Pode representá-la,
aluciná-la, se quiser, n ã o no sentido de uma alucinação da satisfa-
ção (este é o valor freudiano originário do termo "alucinação"),
mas no sentido de uma alucinação — digamos melhor, de um phan-
tasme — de frustração. " E u n ã o posso penetrar m a m ã e e matar
papai nela; estou frustrado com isso, isso é um jogo, isso é so-
mente um jogo com a sra. K l e i n ; eu jogo, logo penso, logo existo"
— tais seriam os meandros do silogismo kleiniano realizado no
encadeamento jogo-interpretação.
O c ô m p u t o verbal da angústia edipiana introduz a "diferença"
no aparelho psíquico. U m a espécie de corte desfaz a osmose que
congelava o menino em sua fascinação amedrontada diante da m ã e .
É a verbalização da angústia-além-do-prazer que sanciona o estado
de entropia constantemente a m e a ç a d o entre m ã e e filho. A inter-
pretação cria uma brecha na indiferenciação resultante de uma
O GÉNIO FEMININO 193

identific ição precoce, feita de prazer-desprazer, entre a m ã e e o


filho. O risco de desintegração do ego bem como do organismo
está afastado. O discurso da analista é uma escansão que pontua a
contínuii ade alucinatória inefável em que D i c k estava aprisionado,
Dizer com a sra. K l e i n o que D i c k alucina que faz com papai-
m a m ã e ão é a mesma coisa que fazê-lo em fantasia privada de
todo púb ico. Solitária e inominável, esta fantasia muda proporcio-
nava ao menino uma satisfação embaraçadora. A fala da analista
alivia a gústia e a agressividade do j o v e m paciente oferecendo-
lhe a poisibilidade de se distanciar delas pela fala e pelo jogo. O
dizer do )utro está em v i a de extrair o binarismo bom/mau, identi-
ficação/{ rojeção, que servia de base ao phantasme inefável, à proto-
simboliz ação de sua "realidade irreal" separada do mundo, para
lhe conf :rir o estatuto de uma vivência... psíquica. Efetivãmente,
a vivênc ia é d a í por diante psíquica, j á que é comunicável entre
duas pes oas inteiras e separadas, dois sujeitos ( D i c k e a sra. Klein)
exterion s à cena do próprio phantasme, se bem que capazes (e
porque apazes) de transferir esta cena entre eles. E i s aí o que
permite D i c k uma certa autonomia e a colocação da "realidade
autêntic " na qual terá lugar o imaginário do jogo. Antes de sua
análise, ( ssas transposições estavam bloqueadas por equações: D i c k
não tom i v a parte nelas, n ã o exprimia fantasias. D a í por diante
elas prol iferam porque são levadas pelos símbolos do discurso da
analista íos quais o menino tem lugar. Essas identidades se v ê e m
transfon ladas em similitudes, e elas se desenvolvem numa curio-
sidade lúdica., depois intelectual, diante da realidade.
Inteávindo em dois planos, na fala de u m terceiro e na consi-
Inte
la angústia sádica edipiana, a interpretação atenua as de-
deração
s clivagens que constituíam até então o psiquismo do
fesas e
A proporção que as pulsões destrutivas são reconhecidas
menino,
ver >alização, as defesas inibidoras que D i c k havia construí-
pela
d a s n ã o são mais tão fortes nem tão necessárias. O
do contife
tinha constituído antes sobre o modelo n ã o do recalque,
menino
c livagem. A dupla ação de reconhecimento de seu É d i p o
mas da
e de verbalização deste por sua análise modifica o esta-
agressiv
fantasias. E m outras palavras, o grau de simbolização a
tuto das
que D i c tem acesso lhe concede u m lugar de sujeito de desejo
com a srf . Klein, que se substitui pouco a pouco ao ego imobilizado
em sua l aixão esquizoparanóide por m a m ã e .
194 MELANIE KLEIN

O acompanhamento kleiniano parece se situar na trajetória


de uma negatividade: n o ç ã o que a analista emprega duas vezes em
seu texto para designar a destrutividade de D i c k , mas que ela faz
trabalhar num sentido mais lato e de maneira mais empírica que
teórica, no interior de suas próprias intervenções para desalojar a
destrutividade negativa do paciente. C o m efeito, seu processo con-
siste em destacar o negativismo de D i c k e, reduplicando-o pela
palavra, em alçá-lo a um nível superior onde ele se nega como ne-
gativismo e se torna conhecimento de si. U m a verdadeira g é n e s e
da possibilidade de pensar se opera nesta análise, uma inversão
no positivo da espiral da negatividade: a partir da destruição ine-
rente ao proto-phantasme mudo, ela atingirá o espaço de jogo ("es-
p a ç o de transição", dirá mais tarde Winnicott) dos phantasmes
verbalizados pela analista, recebidos como tais pelo paciente, e
cujo efeito será o de uma desinibição que se abre para uma criati-
vidade lúdica e cognitiva.
Diversas contribuições, trazidas por amigas e discípulos de
K l e i n , desenvolvem de maneira mais teórica do que o fizera seu
próprio génio clínico as componentes lógicas desse "trabalho do
negativo" 1 9 que a psicanalista havia entretanto descoberto e favo-
recido na análise de D i c k em particular. D e v e r í a m o s dizer: u m
trabalho do negativo, isto é, do processo de simbolização que ela
deu à luz com D i c k ? J á que ela fez do menino antes um criador de
símbolos que um simples usuário de s í m b o l o s ? 2 0
Esses estudos 21 insistem vigorosamente em diversos aspectos
do negativo na experiência psíquica do menino. Os discípulos de
K l e i n que retomam as teses formuladas quando das Controvérsias
de 1941-45 p õ e m em evidência, na vivência do j o v e m ego, as ma-
nifestações da pulsão de morte: "alguma coisa como a morte",
"desprazer intenso", "explosão de angústia agressiva", "desejo de
retaliação", "hostilidade", "ódio anterior ao amor", " p r o v a ç õ e s " ,
"proteção contra", "ansiedade narcísica primária", "desconfiança
em relação ao objeto", "desespero" etc. Sem se contentarem, po-
rém, com afirmações realistas, os autores sublinham que a negati-
vidade constatada traduz uma realidade psíquica intrinsecamente
fantasística, portanto "subjetiva", e que esta subjetividade é ne-
cessariamente tanto aquela do objeto observado (a criança) como
a do agente da observação (o analista). 2 2
Desde então — e esta é uma segunda contribuição, conside-
O GÊNI D F E M I N I N O 195

rável tratar-se-á de fundar teoricamente as etapas da criação


do simblolismo e do julgamento, partindo do phantasme para ir até
à consti tuição da realidade e do conhecimento desta. Dois textos
de Freup , na é p o c a pouco comentados pelos próprios (anna)freu-
dianos, servirão de suporte: o "Fort-Da" em O princípio de prazer
(1920) "La (dé)négation" ( 1 9 2 5 ) . 2 3 A s s i m , com os esforços con-
juntos do grupo dos kleinianos — naquele momento os teóricos
mais in eressados são teóricas — , serão desembaraçadas as eta-
pas sucf ss da ultrapassagem das fantasias de identificação pro-
jetiva, paraique apareça o símbolo propriamente dito, "vivido como
representando o objeto", tal como foi sistematizado mais tarde
por Hai n a S e g a l . 2 4

negatividade segundo Melanie Klein

É S asan I s a a c s 2 5 que p õ e em perspectiva o pensamento klei-


niano d 5 um proto-simbolismo conducente ao simbolismo stricto
sensu c< m o Fort-Da freudiano. Relendo Freud, ela nota paciente-
mente c orno o b e b ê identifica a presença/ausência da m ã e com a
aproxin ação/afastamento do rosto, enquanto acompanha esse jogo
com voi :alises: o-o-o-o {"Fort"- "longe", em alemão), seguido de
um jubiloso "Da!" (= " E i s aí!"). Seguro desse controle, o bebê
descobi t o meio de ele mesmo se fazer desaparecer: acocora-se
diante c o grande espelho que toca no assoalho, de modo que sua
própria imagem desaparece, o que resulta no " B e b ê o-o-o-o". 26 E
Isaacs c onclui que o aparecimento da linguagem é preparado, ain-
da que i ião linearmente, por uma continuidade genérica em que o
controle da presença/ausência do objeto, culminando no controle
do apai ecimento/desaparecimento da própria imagem do b e b ê ,
seria ut i a condição sine qua non para a c o m p r e e n s ã o da lingua-
gem, qi e precede de muito seu uso ativo. 2 7 E i s aí realmente uma
introdui :ão à futura "fase do espelho" lacaniana, mas que se apre-
senta ae u i como u m processo de negatividade heterogénea, feito
de gesh is, de atos fantasísticos, de verbalizações e, enfim, exclu-
sivamei ite de imagens escópicas.
E m seu comentário acerca de " L a (dé)négation", 2 8 Susan Isaacs
desenvolve mais a fundo essa ancoragem da capacidade simbóli-
196 MELANIE KLEIN

ca na experiência corporal e fantasística precoce. E l a estabelece


que, segundo o texto freudiano:

As funções intelectuais do juízo e do sentido do real "derivam da


interação das moções pulsionais primárias" [os grifos são de Susan
Isaacs] e repousam sobre o mecanismo de introjeção [...]: ele nos
mostra também o papel desempenhado nesta derivação pelo phan-
tasme. Referindo-se a esse aspecto do juízo que afirma ou nega de
uma coisa uma qualidade particular, Freud diz: "Expressa na lingua-
gem das pulsões mais antigas, isto é, das pulsões orais, a alternativa
se toma ' E u queria ficar com isto em mim e manter aquilo fora de
mim'. Vale dizer: 'isso deve estar ou no interior de mim, ou no exte-
rior.' O desejo assim expresso não é senão um phantasme."29

E Susan Isaacs conclui que o que Freud chama "pitoresca-


mente [...] a linguagem da pulsão oral", ou, em outro lugar, " a ex-
p r e s s ã o psíquica de uma p u l s ã o " , 3 0 é, na ótica de K l e i n e seus
discípulos, o phantasme enquanto "representante psíquico de u m
objetivo corporal". Segundo ela, e com referência aos diversos
casos de crianças analisadas por K l e i n , que sucintamente j á men-
cionamos, este simbolismo precoce e inefável se constrói sobre
"pulsões orais ligadas ao paladar, ao olfato, ao tato (dos lábios e
da boca), às sensações cinestésicas viscerais e outras sensações
s o m á t i c a s " — visto que essas pulsões estão de início, mais do
que outras, associadas à experiência de sugar e engolir, de "levar
as coisas para o interior":

Os elementos visuais são relativamente débeis [...]. O elemento


visual da percepção se acentua pouco a pouco, funda-se na experiên-
cia tátil e se diferencia espacialmente. As primeiras imagens visuais
continuam sendo de qualidade muito "eidética" — provavelmente
até à idade de três ou quatro anos [...]: vigorosas, concretas, são
confundidas muitas vezes com percepções [...]: durante muito tem-
po intimamente associadas a respostas somáticas. 31

Ulteriormente, no curso do desenvolvimento, o visual come-


ça a "predominar sobre o elemento somático", os elementos corpo-
rais "sofrem um forte recalcamento", enquanto o visual referido
ao exterior, facilmente dessexualizado e desemocionalizado, se
torna uma "imagem" no sentido estrito de uma representação "no
O GÉNIO FEMININO 197

psiquis mo" — o ego "se d á conta" de que existem objetos exte-


riores (\ que suas imagens estão "no psiquismo". 3 2
P a lia H e i m a n n 3 3 insiste, por sua vez, na c o m p u l s ã o de repeti-
ção co no manifestação privilegiada da pulsão de morte, menos
" m u d a ' do que Freud acreditava. 3 4 E l a sublinha t a m b é m a conti-
nuidad í e a diferença entre, de um lado, a " a l u c i n a ç ã o " — meio
de sim aolização primária e modelo do phantasme, mas t a m b é m
fonte c o pensamento 35 — e, de outro, u m pensamento propria-
mente lito, capaz de perceber a realidade, com a condição de que
o ego t mha podido se d e s e m b a r a ç a r do i d . 3 6 Depois de ter notado
a simili tude dos dois processos (que o génio da língua atesta, como
por ex< mplo a palavra a l e m ã wahrnehmen ou verbos como "com-
preendi r" e "apreender", que descrevem o resultado da percepção),
H e i m a in retorna t a m b é m a Freud, que enraizava o j u í z o na "re-
cusa d< is estímulos". E m outras palavras, a percepção não é uma
simplei recepção, mas c o n t é m j á uma espécie de j u í z o que "ergue
uma b* rreira" contra os estímulos. É isto que ressalta o mecanis-
mo da krneinung em Freud: o paciente n ã o pode nomear ou con-
fessar í estimulação sexual senão negando-a ("não, n ã o é a minha
m ã e qu e eu amo" = "sim, é ela"). Mas a analista assinala uma ne-
gativid ide mais somática, mais primária, na linguagem do próprio
paladai E Paula Heimann se apóia, como Susan Isaacs, na mesma
passagi m 3 7 de " L a (dé)négation" de Freud.
N ã ) se pode deixar de admirar os esforços das amigas de K l e i n
no sem ido de fundamentar sua originalidade na obra de Freud,
desenv )lvendo uma verdadeira teoria do pensamento tal como ela
se anui c i a j á nos textos fundadores. A novidade desse modo de
pensar i impressionante, e aferimos tanto sua audácia como seus
limites quando o comparamos com o que foi proposto por L a c a n 3 8
dez an( s mais tarde.
A ínfase das kleinianas assenta na e x p e r i ê n c i a pulsional,
subjace nte à visão: na Ausstossung ou Verwerfung, segundo a ter-
minolo pa de Freud, anterior à apreensão escópica e prefigurando
a Bejah ung do j u í z o , antes do olhar, imediatamente no paladar.39
A s disc [pulas de K l e i n notam, desde então com firmeza, duas eta-
pas ass métricas (como dirá Jean Hyppolite) da simbolização: a
fantasií ancorada na pulsão, o j u í z o de existência visando a reali-
dade. E las n ã o determinam, p o r é m , as condições de emergência
da verc adeira simbolicidade (Hanna Segal avançará nesta v i a em
198 MELANIE KLEIN

seu texto de 1957), nem fundamentam filosoficamente o caráter e


a preexistência da função simbólica no ser humano. É manifesta-
mente na esteira dos Desenvolvimentos da psicanálise, publicados
em 1952, e como que para encurtar as rédeas desses "paladinos
da nova p s i c a n á l i s e " , 4 0 que Jacques Lacan e Jean Hyppolite tentam,
em 1954, preencher as lacunas dos kleinianos com uma notável
audácia intelectual que faz penetrar em doses maciças a filosofia
no campo analítico. Mas deixando em suspenso o registro da sim-
b o l i z a ç ã o primária, designado por eles como "mítico", e pondo
em d ú v i d a a onipresença do É d i p o precoce — a fim de reformular
o É d i p o freudiano pela nova teoria do Nome-do-Pai.
Hyppolite, o hegeliano, parece mais p r ó x i m o das kleinianas,
uma vez que discerne uma "dissimetria", em Freud, entre uma
atitude concreta de d e n e g a ç ã o (Verwerfung, Ausstossung, que se
acentuam no negativismo da psicose) por u m lado e o símbolo da
n e g a ç ã o do outro lado. E l e demonstra como, em Freud, o registro
intelectual se dissocia do afetivo, se bem que este último n ã o seja
senão " m í t i c o " , visto que os homens são de imediato inscritos
numa "historicidade fundamental": o pensamento é bem antes, no
primário, mas n ã o está aí como pensamento. 41 U m a dissimetria
t a m b é m atua entre o j u í z o de atribuição ("isto é bom ou mau") e o
j u í z o de existência ("isto existe na realidade fora de minha repre-
s e n t a ç ã o " : distinção representação/percepção, alucinação/realida-
de). O j u í z o de existência supõe que o "eu" encontra em "minha"
m e m ó r i a , portanto que "eu" me atribuo a " m i m " — tornado assim
"sujeito" — , uma representação que pertencia a um objeto e que
de-signa d a í por diante um objeto ausente para o sujeito que "eu"
me tornei. E m outros termos ainda, só h á sujeito julgador com u m
objeto perdido: utilizando a memória, "eu" faço apenas significar
o objeto como tal, isto é, perdido para o "ego" que, em virtude
desse objeto perdido, se apresenta como "sujeito". A interação
entre j u í z o de existência e j u í z o de atribuição funda a inteligência
no sentido de um pensamento simbólico distinto do imaginário ou
do phantasme.
O pensamento emerge sempre esporeado pela Verneinung, que
nega a n e g a ç ã o primária: " n e g a ç ã o da n e g a ç ã o " , portanto, como
esse pensamento distinto da alucinação e que se desenvolve sobre
suas bases; n e g a ç ã o "dialética". A Verneinung "poderia estar na
origem mesma da i n t e l i g ê n c i a " , 4 2 mas o registro intelectual é de
O GÊN O FEMININO 199

uma n( gatividade diferente: uma " s u s p e n s ã o " do conteúdo do re-


c a l c a d í , "ao qual não desconviria [...] o termo s u b l i m a ç ã o " . 4 3 Aqui,
Hyppo ite propõe uma leitura de Freud, que n ã o deixa de ter res-
sonânc a com o que é introduzido pelos kleinianos a propósito do
nascim snto do símbolo propriamente dito: sustenta que a afirma-
ção pe o j u í z o é o equivalente da Verneinung (é o seu "ersatz"),
enquan to a n e g a ç ã o pelo j u í z o é a sucessão (Nachfloge) do instin-
to de c estruição (Destruktionstrieb). Dois mecanismos, "equiva-
lência" e "sucessão", esta última sendo melhor definida como uma
"suspei isão": "em vez de estar sob a d o m i n a ç ã o dos instintos de
atração e de expulsão", o recalcado pode ser "retomado e reutili-
zado n ima espécie de suspensão", caso em que se produz "uma
orla do pensamento, uma aparição do ser sob a forma de não-o
ser". 4 4
A eitura de Lacan, de inspiração heideggeriana, se desinte-
ressa d ísses graus da simbolização para sugerir mais globalmente
que "a :ondição primordial para que do real alguma coisa venha a
se ofer ícer à revelação do s e r " 4 5 se operava por meio do desdo-
bramei to da Verneinung. A o lado deste horizonte filosófico, e no
plano * nalítico, L a c a n faz sobressair a expulsão anal — suporte
da exte ioridade e da constituição de um objeto fora — , o Homem
dos L o >os (e sua identificação feminina por investimento passivo
do ana ) tornando-se então um exemplo privilegiado. O oral caro
às kleii ianas reaparece in fine, curiosamente, por meio do caso do
Homen i dos Miolos. L a c a n toma emprestado este outro exemplo
clínico ao analista Ernst K r i s . Esse paciente, que era um plagiário,
manife itava uma c o m p u l s ã o por comer miolos; tinha sido, em
primeiía análise, o analisando de... Melitta Schmideberg, a pró-
pria fil ia de Melanie K l e i n ! 4 6
A 1 acidez epistemológica de Lacan, centrando sua interpreta-
ção no aapel do simbólico na constituição do sujeito, privilegia a
linguaj em e a verbalização. N ã o somente a fala, principalmente
em aná ise, estrutura o sujeito e reconstrói sua m e m ó r i a perceptual
(cujo c iráter arcaico se revela na alucinação onde perde até a ca-
pacidac e de falar, a "disposição do significante"), mas t a m b é m ,
concret amente, no tratamento, tudo o que aspira a uma percepção
primeii a não poderia ter senão um caráter m í t i c o . 4 7 A o concen-
trar-se 10 símbolo para o qual nada ek-siste, salvo a ausência, ao
descon iar do mítico-imaginário, esta posição assume entretanto
200 MELANIE KLEIN

o risco de esquecer os postos avançados da simbolização que o


texto freudiano, pelo contrário, havia justamente revelado, e que
a escola kleiniana explora ao conferir todo o seu peso ao imaginá-
rio encarnado. E l a o faz, consciente de trabalhar com o imaginário
do paciente, sem dúvida, mas t a m b é m com o do analista, e ao abrir
pela primeira vez uma clínica da transferência i n s e p a r á v e l da
contratransferência.
Contudo, muitos analistas, kleinianos ou n ã o , continuavam a
confundir os registros do imaginário e da realidade cognoscível.
O corte lacaniano, que distinguiu, para melhor ligá-los ao real, o
i m a g i n á r i o e o simbólico, representa portanto uma contribuição
lógica considerável. Antes dele, p o r é m , embora de maneira mais
e m p í r i c a ou clínica, as Controvérsias tinham contribuído muito
para o aclaramento dessa distinção entre a utilização do imaginá-
rio no tratamento, por um lado, e a consideração da realidade ob-
jetiva e cognoscível, por outro.
A implicação da fantasia do analista na constituição do objeto
analítico, qualquer que seja (o discurso associativo do paciente e
mais ainda a fantasia arcaica, inominada e pressuposta), denomi-
na-se desde então, como se sabe, uma contratransferência. A p r ó -
pria K l e i n se mostrava reticente a esta n o ç ã o , 4 8 mas n ã o é a menor
originalidade de sua escola ter no entanto chamado a atenção para
a d i n â m i c a contratransferencial. O mérito cabe a Paula Heimann
desde as Controvérsias de 1941-45. Por ocasião de um debate bem
a c a d é m i c o , conduzido a golpes de argumentos epistemologica-
mente muito sérios, Marjorie Brierley lhe objetou:
"Se persistimos em assimilar as funções mentais às interpreta-
ç õ e s subjetivas que temos delas, abandonamos nossas pretensões
científicas e regredimos ao estado primitivo do aldeão chinês que
interpreta o eclipse como o dragão que engole o sol."
Heimann teve então a coragem de reivindicar, contra a dra.
Brierley, uma outra racionalidade para a psicanálise, que n ã o se-
ria estranha à posição do aldeão chinês: " O que n ó s estudamos
n ã o é o sistema solar, mas o psiquismo do aldeão chinês, n ã o o
eclipse, mas a crença do aldeão a respeito do eclipse. Como so-
b r e v ê m essas crenças, que função t ê m elas para o psiquismo...?" 4 9
A mesma Paula Heimann propôs, desde 1950, bem como num
texto mais tardio, 5 0 não apenas justificar o advento da contratrans-
ferência e sua interpretação para o paciente como indispensável
O GÊNI 3 F E M I N I N O 201

no tratAnento, mas t a m b é m considerar essa contratransferência


como si nônima da intuição e da empatia. 5 1 O analista é habitado
pelas pi njeções dos pacientes antes de reconhecer a identificação
projetiv i desses pacientes. Mas t a m b é m a sua própria, para ultra-
p a s s á - k . Efetivamente, é pela a t u a ç ã o de sua própria reserva
inconsc ente que o analista pode se desfazer de uma escuta supe-
regóica ou simplesmente consciente, para proceder à célebre e
não obs ante enigmática "escuta benevolente", feita sem dúvida à
distânci i , mas antes de tudo de identificação, de intuição e de em-
patia. 5 2
Enflm, o texto de Hanna Segal "Notes on Symbol Forma-
tion", 5 3 sem atingir a amplitude filosófica do debate francês, for-
nece un um i esclarecimento capital à teoria kleiniana do simbolismo,
brilhantemente
int ilustrada no caso de D i c k .
Soh o impacto da identificação projetiva, estabelece Segal,
uma pai te do ego é identificada com o objeto, de modo que o sím-
bolo e > simbolizado formam u m só: nessas condições, n ã o h á
símbolc propriamente dito, mas somente " e q u a ç ã o simbólica" (o
paninhc é m a m ã e ; o que n ã o é ainda "o paninho se parece com
m a m ã e ou "o paninho pra m i m faz as vezes de m a m ã e que eu
perdi, q íe n ã o está a f ' ) . E m outras palavras, o objeto interno subs-
titui o (bjeto externo equivalente. E s s a lógica arcaica é t a m b é m
específi^ a do pensamento do esquizofrénico que visa negar o ob-
jeto d e controlar o objeto perseguidor. Entretanto, graças à
posição depressiva e ao trabalho do luto, a experiência da perda
do obje:o torna-se possível, e uma realidade psíquica interna se
constitui, j á o vimos, separada do objeto perdido e diferente dele:
a equaç lo é rompida, inicia-se a significância. A l i somente se ins-
tala o si [nbolo, propriedade do psiquismo referida a uma realidade
perdida que, por isso mesmo, é reconhecida como realmente real.
A continuidade do processo sublimação-simbolização, fantasia-
pensam mto, clivagem-recalque se coloca assim no lugar: ele está
centrad > na possibilidade de perder. A s "equações simbólicas"
não se ; ipresentam mais, nesta nova ótica, como simples regres-
sões, m is t ê m lugar numa "sequência g e n é t i c a " 5 4 na qualidade de
símbolc s primitivos, de uma simbolização primária contemporâ-
nea do nício da vida e precedendo a emergência do significante/
signific ido/referente que estrutura em definitivo a matriz do pen-
samento
202 MELANIE KLEIN

A sutileza da génese do simbolismo nesse mapeamento klei-


niano e pós-kleiniano deixa em aberto, porém, a questão, sempre
subestimada por Melanie, do papel do pai: sua falta se torna per-
ceptível, e reclama um suporte clínico e teórico mais refinado dessa
função simbólica "verdadeira" que sucede às " e q u a ç õ e s " . O papel
da "identificação primária" com o "pai da pré-história individual",
desde as primeiras relações aos proto-objetos, n ã o é mesmo ne-
gligenciado pelos kleinianos? A identificação primária com o pai
n ã o estaria operando desde as " e q u a ç õ e s " , antes dos processos de
simbolização da posição depressiva? A provação fálica da castra-
ç ã o , diferente mas inevitável para os dois sexos, n ã o contribui
com sua marca decisiva para a consolidação dessa transição entre
identidade e semelhança, equações e símbolos, fantasia e pensa-
mento? Tantas questões que serão aqui apenas suscitadas, e que
remetem à atualidade da pesquisa em p s i c a n á l i s e . 5 5

3. O arcaico e o primário
entre os pós-kleinianos

V á r i o s discípulos de K l e i n aprofundaram, depois dos traba-


lhos dela e centrando-se na clínica da psicose e do autismo, os es-
tados arcaicos da simbolização. Alguns deduzem desses trabalhos
a existência de u m simbolismo primitivo ou originário. Por mais
arrojada e filosoficamente temerária que possa parecer esta hipóte-
se, os trabalhos clínicos que a acompanham parecem muito estimu-
lantes. A s s i m W. R . B i o n volta, depois de Hanna Segal, à g é n e s e
da capacidade simbólica no bebê, mas remonta antes à p o s i ç ã o de-
pressiva e descreve o pensamento primitivo da fase esquizopara-
nóide: a identificação projetiva seria o primeiro "pensamento".
Encara-o como um pensamento pré-verbal, estritamente privado,
feito de ligações entre diversas impressões sensoriais, de "ideo-
gramas relativos à visão", uma "matriz primitiva de ideogramas".
Esses dados sensoriais são transformados pelo ego e pelo objeto
em "elementos alfa", os quais se tornam então "suscetíveis de ser
empregados no pensamento vígil inconsciente, nos sonhos, na
barreira de contato, na m e m ó r i a " . 5 6 S ã o esses mesmos elementos
de pensamento pré-verbal que são atacados pela parte psicótica
da pessoa, que destrói a capacidade mesma de "unir" agindo por
O GÊNI ) F E M I N I N O 203

meio de clivagem e fragmentação. Disso resultam elementos n ã o


ligados i :ntre si e utilizáveis unicamente na identificação projetiva,
chamadi >s "elementos beta", ou "coisa em si a que corresponde a
impressí LO dos sentidos". Seria possível aproximá-los dos "obje-
tos bizajros" da fragmentação psicótica, assim como das imagens
alucinatórias , fonte de terror. Os ataques n ã o dizem respeito ape-
nas ao ojrjeto (como pensava K l e i n ) , mas visam t a m b é m — senão
de prefej*<ê n c i a — ao próprio pensamento enquanto processo de l i -
gação. > oltando às idéias finais de K l e i n sobre uma passagem da
posição esquiz.oparanóide à posição depressiva, B i o n explica um
mo vime nto que v a i da desintegração à integração e que estaria na
57
base do que ele chama "aprendizagem pela e x p e r i ê n c i a " . E l e
sustenta que, nesse movimento e passando pelo objeto, a pessoa
se nutrei" dos dados sensoriais e emocionais, "assimilando-os"
como no curso de uma "digestão", de maneira que thinking n ã o é
senão linking.
No nício esta atividade de ligação seria uma experiência alu-
cinatóri ou "experiência-fonte" que remeteria ao encontro do bebê
com o stio O eco das teorias kleinianas se faz ouvir aqui, ao mes-
mo tem )o que se apura de maneira nova. B i o n supõe uma pré-
concepç lo inata do seio, ou u m conhecimento a priori do seio que
evoca a loção kantiana de u m "conceito puro a priori". E s s a espé-
cie de " >ensamento vazio", que fica à espera de ser enchido pelo
seio, va ser substituído pela não-realização do seio: em outras
palavras a necessidade de um encontro real na interação mãe-bebê
seria experimentada por este último em negativo, na frustração, a
partir d< a priori de um seio já-aí. Freud supunha antes de mais
nada ui*a primeira satisfação real proporcionada pelo seio, de-
pois o t< mpo da satisfação alucinatória. B i o n inverte a ordem das
coisas pondo u m já-aí, dado transcendental de uma pulsionali-
dade orijginariamente dotada de uma pré-concepção, t a m b é m ela
inata, d( objeto, ou "coisa em s i " . A união da pré-concepção e da
não real Lzaçao engendra um "protopensamento" que possui ca-
racteríst cas dos "elementos beta": uma espécie de liga entre o
mau seió realmente encontrado e a necessidade de u m seio senti-
do come uma "coisa em s i " . Somente num segundo tempo sucede
a "realk ação do seio" ou a experiência real do seio na interação
entre o actente e a m ã e .
A partir d a í se estabelece para cada lactente uma dosagem
204 MELANIE KLEIN

particular entre sua capacidade de suportar a frustração inerente a


seus pensamentos e a experiência real, mais ou menos feliz, dos
cuidados maternos. O grau de inveja e de ódio individuais que de-
corre disso será mais ou menos excessivo ou tolerável.
B i o n supõe t a m b é m , modificando a identificação projetiva
segundo K l e i n , que o b e b ê pode projetar sobre sua m ã e o que n ã o
quer nele. Este modo primitivo de comunicação "realista" concerne
à experiência feita pelo b e b ê de poder impor um certo controle às
excitações vindas do mundo exterior, enquanto permanece sem
defesa contra suas excitações pulsionais internas. O nenenzinho
encontra, segundo B i o n , a "capacidade de devaneio da m ã e " , que
é suscetível — ou n ã o — de acolher os "elementos beta" e trans-
formá-los em "elementos alfa", assegurando assim as melhores
c o n d i ç õ e s para que a criança possa diferenciar uma excitação de
sua representação. É deste modo que se cria o ambiente necessá-
rio ao aparecimento de uma abstração do seio, da idéia do seio, da
"representação da coisa em s i " , o verdadeiro símbolo da satisfa-
ç ã o auto-erótica ou narcísica secundária.
Vemos como a onipotência da fantasia kleiniana, a qual tem
sido muitas vezes criticada por não levar suficientemente em conta
a realidade do ambiente materno, se v ê completada, em B i o n , pela
realidade da intervenção, tanto consciente como inconsciente, da
m ã e . A m ã e , dublê de amante, como o especificam os psicanalis-
tas franceses, 5 8 é capaz desse devaneio suficientemente disponível
e suficientemente distante, até censurante em relação à d o m i n a ç ã o
m ú t u a mãe-bebê, para favorecer a emergência e o desenvolvimento
do simbolismo no bebê. A integração do ego, que se realiza durante
a p o s i ç ã o depressiva, organiza os "elementos alfa" numa "mem-
brana" ou "barreira de contato" sobre a qual se funda a distinção
consciente/inconsciente. A simbolização funciona como um meca-
nismo antidepressor que inibe a quantidade de excitação e favore-
ce a transformação dos elementos beta em elementos alfa. U m con-
teúdo, que remete às impressões relativas ao sistema digestivo, é
projetado sobre um continente, isto é, o objeto que c o n t é m (ini-
cialmente, esse objeto n ã o é senão a m ã e ) e que culmina em se
constituir como um "aparelho de pensar o pensamento". Criado na
m ã e , esse aparelho de pensar o pensamento favorece a formação
de um "aparelho de pensar o pensamento" análogo no bebê, de
modo que uma c o m u n i c a ç ã o dos dados psíquicos e existenciais
O GÉNIO FEMININO 205

(amor, b m-estar, segurança etc.) se torna possível entre o b e b ê e


sua m ã e
Se berm que as c o n c e p ç õ e s bionianas tenham acabado por dar
lugar a utna distinção muito esquemática entre o afeto e a represen-
tação, e )or se encerrar numa c o n c e p ç ã o mística da realidade psí-
quica dc tada de uma receptividade alucinatória e que "suspende
lembram :as, desejos, c o m p r e e n s ã o " , esses trabalhos enriqueceram
60
considei avelmente o conhecimento da psicose.
Fina mente,, a clínica do autismo trouxe certas modificações
ou aperf 5 içoamentos à teoria kleiniana. Constata-se que a identifi-
cação pij^jetiva é impossível nas crianças autistas, que n ã o fazem
distinçã entre dentro e fora e n ã o parecem ter uma relação com o
objeto í LUto-erotismo pré-objetal?
Donhld Meltzer p r o p õ e uma outra visão da criança autista:
não se ti itaria de defesas contra a angústia, mas de um verdadeiro
"bombai deio das s e n s a ç õ e s " devido ao mesmo tempo a um "equi-
pamenta inadequado" (carências neurobiológicas) e a um "revés
da depei idência". O seio é, para esta criança, uma folha de papel,
"objeto' como o quer K l e i n , mas bidimensional, que carece da
tridimenfcionalidade \necessária à "geografia da fantasia". Mais vio-
lentameiite ainda que na clivagem primitiva, segundo Klein, Meltzer
e seu grppo s u p õ e m uma segmentação precoce das capacidades
perceptijais na psicose — os sentidos variam e se dispersam, a
atenção á estudada por B i o n é suspensa, o tempo n ã o se escoa —
e, correlativamente a essa dispersão, o self tem o sentimento de
61
"se desn tanchar em p e d a ç o s " .
Estiar B i c k constata, por sua vez, uma identificação adesiva:
o medo le perder sua identidade é tão grande que, para encontrar
uma par; si, a criança se cola à m ã e . Os clínicos penetram d a í por
diante na vida primária do sujeito bem antes da identificação pro-
jetiva, e p r o p õ e m uma verdadeira fenomenologia dos primeiros
vínculos aqui uma identificação de tipo narcísico fundamentada
62
na funçí psíquica da pele.
Um; plêiade de psicanalistas na França se notabilizou recen-
temente la pesquisa do autismo desenvolvendo esses avanços p ó s -
kleinianès ; citaremos entre outros nomes os de Annie Anzieu,
Cléopâti t Athanassiou, Bernard Golse, G e n e v i è v e Haag, Didier
Houzel. 6? U m novo continente da psicanálise se desenha assim
nas pegaci as da descoberta freudiana, mas cujo desengate original
206 MELANIE KLEIN

teria sido impossível sem o génio de Melanie K l e i n . A l é m disso,


a novidade kleiniana, que n ã o deixa de fato de se crispar às vezes
em dogmatismo, se revelará, pelo contrário, nesses continuadores,
de uma fertilidade e de uma diversidade excepcionais, os clínicos
do autismo e da psicose infantis chegando a casar as propostas
iniciais de K l e i n com sua própria inventividade na escuta cotidiana
do mal-estar.
A s s i m , outros clínicos, e Frances Tustin a primeira, a v a n ç a m
a idéia de u m autismo e n d ó g e n o , primário ou normal: u m estado
primitivo de auto-sensualidade indiferenciada, uma e s p é c i e de
" g e s t a ç ã o extra-uterina", ultrapassada pela fase narcísica que co-
m e ç a por instaurar uma idéia de se/f separado do mundo exterior.
Tustin retoma a idéia de Freud de uma fase narcísica, mas a de-
senvolve, na escuta de K l e i n , estudando de perto a relação m ã e -
b e b ê que aí se desenrola, j á objetal e submetida ao traumatismo
da separação. Esta última é vivida por certos lactentes de maneira
intolerável, tal "uma projeção explosiva" de urina, gases, fezes,
saliva e outras substâncias assimiladas ao mamilo ausente, pondo
o nenenzinho diante de u m mundo terrificante que n ã o seria se-
n ã o u m "buraco negro". A m ã e é chamada a conter esta e x p l o s ã o
e a introduzir a descontinuidade para dar início à simbolização:
de outro modo, o b e b ê só pode se exprimir utilizando cada vez
mais "as sensações de seu próprio corpo" para afastar o vazio e a
matéria negra hostil. U m verdadeiro luto do "sentir primordial" é
necessário, uma reflexividade primitiva do corpo a ser instaurada
pela m ã e ou pelo terapeuta.
E s s a nova versão do simbolismo primário de tipo autístico,
que seria comum a todo sujeito, se manifesta nos psiquismos "nor-
mais", n ã o autísticos, sob o aspecto de um apelo a uma retirada
silenciosa do mundo, de uma fuga para o primário, que recusa
toda subjetividade sem ser, p o r é m , n a r c í s i c o . 6 4 A o contrário, a i n -
trodução do negativo, quando se torna formulável pela criança,
assinala sua entrada no mundo tridimensional, a p ó s o sentir
bidimensional. A s s i m , Tustin interpreta o "caso D i c k " de Melanie
K l e i n insistindo sobre o momento em que o j o v e m paciente atira
fora um brinquedo e diz: "Partiu." Reconhecimento da perda do
objeto diante de um terceiro, introjeção de afetos desagradáveis,
e introdução dessa experiência no mundo psíquico interior onde
se m a n t é m a fala: o símbolo e o psiquismo se constroem simulta-
O GÊN1D FEMININO 207

neamen te como um mundo terceiro e que satisfaz, precisamente


porque i partilhável pela linguagem. 6 5
Rec ordemos, enfim, entre os numerosos desenvolvimentos do
pensam mto kleiniano, o contributo daquele que foi um de seus
próximi is antes de ser classificado entre os "Independentes". 66 Ana-
lisado i or Joan Riviere e James Strachey, D . W . Winnicott foi o
analista de E r i c Clyne, o filho de Melanie, e soube resistir à in-
tenção >izarra, da parte da mãe-chefe de escola, de supervisionar
ela mes ma esse tratamento! 67 Se bem que hostil à idéia de uma
pulsão le morte e de uma inveja inata, e malgrado a frieza que
Melanií lhe manifestou depois disso, Winnicott soube guardar uma
proxim dade inovadora com a herança kleiniana e propor um pen-
samento • psicanalítico dos mais audaciosos. Sua excelente clínica
da prim rira infância e sua atenção ao sofrimento psicótico lhe v a -
leram u Tia notoriedade que ultrapassava o d o m í n i o especializado
da psic* nálise, assim como um amplo acolhimento da parte do gran-
de públ co. Prendendo-se à relação m ã e - b e b ê e à criação dessa sim-
bolicidí de específica que ela encerra — ou prejudica — , Winnicott
propõe chamar a esse vínculo u m "espaço de transição", que ele
supõe e star na base de todas as nossas potencialidades criadoras.
Contem amo-nos aqui em ilustrar alguns momentos-chave desse
trabalhi i valendo-nos das formulações que ele mesmo enuncia em
conferê ícias pronunciadas para estudantes de serviço social: 6 8

1 í o c u r s o d a v i d a c o t i d i a n a d a p r i m e i r a i n f â n c i a , p o d e m o s obser-
var ) b e b ê no ato de tirar proveito desse terceiro m u n d o , esse m u n d o
ilus >rio que n ã o é n e m a realidade interna n e m a fatualidade exte-
rior e que n ó s lhe p e r m i t i m o s , se b e m que n ã o o p e r m i t a m o s ao a d u l -
to o i m e s m o à c r i a n ç a m a i s c r e s c i d a . V e m o s o b e b ê c h u p a r os dedos,
o u < dotar u m a t é c n i c a para contorcer o rosto o u m u r m u r a r u m s o m ,
o u i garrar u m p e d a ç o de tecido, e sabemos que ele pretende desse
moi lo e x e r c e r u m controle m á g i c o sobre o m u n d o [...]. E s s a s e x p r e s -
sõei subentendem que h á u m estado t e m p o r á r i o que pertence à p r i -
mei 'a i n f â n c i a , estado no q u a l o b e b ê é autorizado a aspirar a u m
c o n role m á g i c o sobre a realidade exterior, u m controle que sabemos
que a a d a p t a ç ã o d a m ã e torna real, m a s que o b e b ê m e s m o a i n d a n ã o
sab [...]. D e s s e s f e n ó m e n o s de t r a n s i ç ã o p r o v é m u m a grande parte
daq í i l o que p e r m i t i m o s de m a n e i r a v a r i á v e l e que v a l o r i z a m o s sob
os i ornes de r e l i g i ã o e arte, e t a m b é m as pequenas tolices que s ã o
legi i m a s no m o m e n t o , c o n f o r m e o m o d e l o cultural p r e v a l e n t e . 6 9
208 MELANIE KLEIN

Um objeto de transição que o bebê criou — ou que encontrou na


mãe? Encontrou-criou?
Apresentarei as coisas da maneira seguinte: alguns bebés têm a
chance de ter uma mãe cuja adaptação inicial ativa às necessidades
da criança era suficientemente boa. Isso lhes permite ter a ilusão de
encontrar realmente o que foi criado (alucinado) [...]. Finalmente,
um tal bebê cresce para dizer: " E u sei que não há contato direto en-
tre a realidade exterior e mim mesmo, simplesmente uma ilusão de
contato, um fenómeno intermediário que funciona muito bem para
mim quando não estou cansado. Nada me poderia ser indiferente
como a existência de um problema filosófico nesta questão." 7 0

Desarmante Winnicott que, frente à guerreira Melanie, sabe


com simplicidade acolher nossos phantasmes mais primários e,
saudando o b e b ê em n ó s , estimular nossos desejos de liberdade:
na religião, nas artes ou noutra parte... N ó s lhe devemos precisa-
mente uma c o n c e p ç ã o da liberdade cuja filiação kleiniana será
apreciada, mas t a m b é m a originalidade, de inspiração protestante.
U m a vez que a liberação de meu desejo passa por sua elabora-
ç ã o e sua sublimação, estou, no f i m de minha análise, em estado de
perpétuo renascimento. O nascimento supõe já, segundo Winnicott,
que o e m b r i ã o tenha adquirido uma autonomia de vida biológica-
e-psíquica, capaz de se subtrair à usurpação do ambiente e de n ã o
ser traumatizado pelo ato violento do parto. E s s a independência
nuclear seria de algum modo a precondição do "interiorpsíquico",
que Winnicott julga como a liberdade mais preciosa e a mais mis-
teriosa do ser humano, enquanto ser, precisamente, diferente do
agir, do fazer. E l e a reencontrará tanto na "capacidade de ser s ó "
com que Melanie se preocupará por sua v e z , 7 1 quanto no segredo
da cabine eleitoral na democracia. Tentará reanimar esse princípio
de liberdade que caracteriza a pessoa v i v a no próprio tratamento
analítico: o trabalho analítico desfaz os "falsos selfs", construídos
como defesas contra a invasão exterior, e reabilita a interioridade
nativa. A vida interior autêntica continua, porém, a ser sempre
recriada, processo infinito que só assim pode nos tornar livres.
O adjetivo livre aparece em Winnicott como sinonimo de um
"interior por recriar" em relação com um exterior por interiorizar.
N o pensamento freudiano, livre significava essencialmente resis-
tir aos dois tiranos que são os desejos instintuais e a realidade ex-
terior. Depois de K l e i n e com Winnicott, o termo muda de regime:
O GÊN [O F E M I N I N O 209

livre ir iplica interiorizar o fora, se — e somente se — esse fora


(para c 3meçar: a m ã e ) deixa jogar, se deixa jogar. 7 2 N ó s nos en-
contrai íos, em suma, no fim de uma análise terminada mas infinita,
e porqi e revelamos a liberdade à morte de nossos desejos, não so-
mente :omo mortais, mas como "nascenciais", para retomarmos
uma v< z mais a idéia de Hannah Arendt. No sentido de sermos
capaze ; de criar uma interioridade psíquica sempre por recomeçar.
O : util pediatra n ã o se d e s e m b a r a ç a depressa demais dos pro-
blemas filosóficos? E l e atenua, apesar disso, as violências klei-
nianas, a fim de propor um cuidado com as crianças e, mais além,
com os humanos em que elas sobrevivem, casando a sabedoria do
empirií mo inglês com as audácias de Melanie.
Esi a n ã o ignorou, por sua vez, esse "espaço de transição" da
criativi lade, porquanto n ã o se isolou na sublimação primitiva ine-
rente a >s phantasmes selvagens dos jovens psicóticos ou inibidos
que e r j m seus pacientes. E l a alargou suas investigações até às
obras c e arte para nelas constatar a p e r m a n ê n c i a das lógicas pri-
mitivas , elevadas aqui à dignidade de uma criatividade contagiosa
e catár ica.

Sublimações culturais: arte


literatura

Em 1929, Melanie Klein, ainda em Berlim, lê no Berliner Tage-


blatt a rítica a uma ópera de R a v e l que acaba de ser apresentada
em Vieha, UEnfant et les sortilèges (1925); a tradução alemã leva
o titule " A palavra m á g i c a " (Das Zauberwort), que outra coisa
n ã o é i e n ã o " m a m ã e " . Melanie estuda pacientemente a intriga
para al descobrir — graças à "profunda penetração psicológica
de Coll tte", autora do libreto 7 3 — as angústias sádicas de um ga-
roto de seis anos. A princípio estas o inibem, depois se transfor-
mam e: n generosidade.
No início da história, o menino se aborrece, n ã o quer fazer
seus de /eres, se enfurece com a m ã e que, evidentemente, insiste e
ameaça. O pequeno desajustado quebra louças e objetos, tortura o
esquilo e o gato, berra, atiça o fogo na c h a m i n é , arranca o pêndulo
do reló; ;io, esvazia o tinteiro sobre a mesa etc. Subitamente, os ob-
jetos m iltratados se animam e querem se vingar. O menino recua,
210 M E L A N I E K L E I N

treme de desespero, refugia-se no jardim; lá t a m b é m insetos ater-


rorizantes, rãs e outros animais o perseguem. E i s enfim o esquilo
ferido: sem pensar nisso, o menino faz um curativo na pata do
animal e murmura: " M a m ã e . " " E l e é reconduzido ao mundo hu-
mano", constata nossa analista antes de penetrar mais fundo na
psicologia do pequeno neurótico. " E u quero falar dos ataques con-
tra o corpo materno e o pênis do pai que se encontram a í . "
B e l a ilustração, portanto, por Colette e R a v e l , do sadismo pre-
coce que precede a fase anal, no momento mesmo em que aparecem
as tendências edipianas! S o b r e v ê m depois, no desenvolvimento
ontogenético, a fase genital que p õ e f i m ao sadismo: a criança é
e n t ã o capaz de piedade e amor, como revela sua atitude para com
o esquilo. Ulteriormente, em 1934, j á o sabemos, K l e i n atribuirá
esta solicitude pelo "objeto total" ao advento da posição depressiva.
Por enquanto, em 1929, ela se contenta em notar a perspicácia de
Colette, que observou que o sadismo do garoto foi despertado por
uma frustração oral: n ã o havia a m ã e proibido o menino de "co-
mer todos os bolos e doces da terra", e n ã o havia a m e a ç a d o só lhe
dar " c h á sem açúcar e p ã o seco"?
Estamos muito longe do c h á proustiano com sua saborosa
madeleine: a gente se recorda de que n ã o h á nenhuma frustração
gustativa por parte do pequeno Mareei; só o beijo de m a m ã e na
hora de deitar dava à lembrança u m travo de melancolia. Será por
isso que o sadismo do futuro narrador jamais será revelado em
Em busca do tempo perdido! Nosso degustador de Combray, apa-
rentemente feliz, se diverte a ridicularizar as maldades dos outros
— de Charlus, de M m e Verdurin ou dos Guermantes — , mas se
protege de toda suspeita relativa à sua pessoa. E m UEnfant et les
sortilèges, p o r é m , a angústia canibalesca infiltra o desejo, e a i n -
tuição de Colette precede o insight da analista na descoberta da
lógica infantil, dos sortilégios do inconsciente.
Entretanto, K l e i n vê na criação artística mais do que u m c ú m -
plice de diagnóstico. A obra de arte pode ser t a m b é m um primeiro
tratamento — e por que n ã o o último — , mais eficaz do que a
interpretação? A questão é suscitada a partir de um outro artigo
que a analista comenta no mesmo estudo: trata-se de " O espaço
vazio", de K a r i n Michaelis, que conta a história de Ruth Kjár.
Esta mulher, rica e independente, excelente decoradora de interio-
res, sofre de depressão e se queixa: " H á um espaço vazio em mim,
O GÊMO FEMININO 211

que eu n ã o posso encher nunca!" A melancolia redobra depois do


casami nto. U m dia, um objeto de arte, um dos quadros que decoram
sua caí a, é retirado e vendido pelo cunhado de Ruth, deixando um
lugar v ago na parede. Esta materialização do vazio em si aprofunda
mais o desespero (notemos que o agente da frustração é o irmão
do maj ido, e é pintor). A partir deste incidente, nada parece deter
o agra ^amento da depressão. A t é o dia em que Ruth Kjãr decide
substit íir o quadro. S e m nunca ter pintado antes, ela executa um
quadre magnífico; o marido, depois o cunhado pintor estão estupe-
fatos, i icrédulos. Para convencê-los e se convencer ela mesma, Ruth
toma i npulso e pinta vários quadros — "com m ã o de mestre"! O
que eh pinta depois de sua primeira tentativa é em primeiro lugar
a imag í m de uma mulher negra e nua, em tamanho natural; depois
sua irn lã mais nova; e, por fim, o retrato de uma mulher velha e o
de sua m ã e . " O espaço vazio estava preenchido." A frustração
arcaic*, devida à m ã e , revivida no casamento, focalizada na perda
do qua dro, é reparada pela criatividade para a l é m da depressão.
Desde então (1929), K l e i n avança aqui a idéia de "reparação"
resulta ite da perda do objeto na posição depressiva, que ela de-
senvol terá ulteriormente em 1934.

0 desejo de reparar, de transformar em bem o prejuízo psicoló-


gic D causado à mãe e o de se reconstituir serviam de base evidente-
me ite à necessidade constrangedora de pintar esses quadros.74

A( desejo sádico de destruir a mãe, que se encontra inconscien-


tement í na base da melancolia de Ruth Kjãr e que se inverteu em
sentim mto de frustração, se substitui d a í por diante a reparação.
A obrs se realiza como uma atividade auto-analítica que compor-
ta tanto» a culpabilidade quanto seu reconhecimento. No trajeto de
sua re* lização, a angústia se dissipa, enquanto o êxito pessoal do
artista aumenta a confiança da pessoa deprimida que ele dissimu-
la, em sua capacidade de amar e reconstituir o objeto como um
bom ofcjeto. Consequentemente, o ódio inconsciente aparece me-
nos ato rrorizante, menos a m e a ç a d o r para o criador. E n f i m , as re-
petiçõí s do sucesso integram o objeto reparado no ego, de modo
que o ( i ) melancólico(a) n ã o tem mais necessidade do controle
extenu inte e impossível sobre o outro, mas aceita seu objeto de
desejo e de amor tal qual é. A obra de arte se torna, nesta ótica,
212 MELANIE KLEIN

um meio de recriar a harmonia do mundo interior e de manter no


exterior uma relação de tolerância, e até de amor com os outros
(aqui: no casamento), malgrado os conflitos que perduram desde
os dramas da infância.
S e m desistir de um esquematismo que aplica suas teorias a
objetos estéticos para extrair deles uma "ilustração", Melanie K l e i n
p r o p õ e uma análise minuciosa dos temas psicológicos no roman-
ce de Julien Green Sijyétais vous.15 O estudo leva como subtítulo:
" U m romance ilustrativo da identificação projetiva". O herói, u m
j o v e m empregado de nome Fabien Especel (ou, jogando com o
significante: espèce-ellel), infeliz e desgostoso dele, órfão de u m
pai instável que dilapidou o dinheiro da família, faz um pacto com
o Diabo para poder se transformar em outras pessoas. Melanie K l e i n
segue com prazer os meandros complexos dessa "identificação
projetiva" que leva Étienne a se tornar sucessivamente M . Poujars,
Paul Esmenard, Fruges, Georges e, por fim, Camille. A s frustra-
ç õ e s e a agressividade que ele experimenta no curso de seus dis-
farces, conotados de uma homossexualidade que a analista n ã o
tem dificuldade de decifrar sob as máscaras, cedem quase diante
da descoberta de uma boa imagem materna — a padeira — que
desperta em nosso herói a vida amorosa de sua primeira infância.
Tudo se passa como se, por n ã o poder se identificar com seu
pai, Fabien se metesse na pele de outros homens: ele os ama —
provisoriamente — e sempre se ilude, procurando assumir peran-
te eles uma posição feminina p a s s i v a . 7 6 A restauração da m ã e ar-
caica passa por uma fantasia: dentro de uma igreja, à luz dos círios,
ele imagina a padeira grávida de todos os filhos que ele poderia
ter lhe dado. Graças a esta visão positiva, o herói se reconcilia
com seus pensamentos " c o n d e n á v e i s " e ultrapassa a avidez e a
inveja que o animam secretamente. 77 O cristianismo como repara-
ção da mãe-Virgem, que sacia as fantasias incestuosas do filho?78
D a í por diante Fabien se afasta da falsa solução para suas angús-
tias, que consistia numa fuga desvairada em identificações pro-
jetivas, tão falazes quanto extenuantes: tenta reunir suas partes
projetadas. A cena final traduz bem, segundo a analista, essa ten-
são e essa reunião impossível: enquanto Fabien se consome de
febre em sua cama (o contrato feito com o Diabo era só uma alu-
cinação devida à febre?), Fabien-Camille se aproxima da porta de
sua casa. Mas a reunião de suas partes clivadas n ã o ocorrerá.
O GÊF 1 0 FEMININO 213

D( fato, o herói morre tendo nos lábios as palavras " P a i Nos-


so", ir dicando assim que se reconcilia com seu pai. Entretanto,
seu últ mo dublê, Fabien-Camille, que o doente crê ouvir no limiar
da por a do quarto, vindo lhe restituir sua identidade, na realidade
não ve m nunca: n ã o veio n i n g u é m , constata sua m ã e . Mas algu-
mas re uniões aconteceram: as do filho moribundo após um coma
com... sua m ã e , enfim reconhecida amante.

O fato de superar as angústias psicóticas fundamentais da pri-


m( ira infância tem por resultado fazer aparecer em toda a sua força
a n ícessidade intrínseca da integração. Fabien realiza sua integração
ao mesmo tempo que estabelece boas relações de objeto; repara o
qu , em sua vida, não era satisfatório. 79

O eitor de K l e i n continua insatisfeito: o mecanismo da repara-


ção n ã ) esgota, longe disso, as complexidades do processo criador,
e tanto o tema do falso quanto os da perversão, do sadomasoquis-
mo ou da profanação, embora aparentes no texto de Julien Green,
não sã > abordados por nossa psicanalista tornada crítica literária.
A ing( nuidade da ensaísta se acompanha, em compensação, da
persev trança da teórica a demonstrar no detalhe a lógica do que
ela ha> ia descoberto no divã: a identificação projetiva e sua ultra-
passag un por uma reparação dramaticamente dependente da ex-
periêni i a da perda.
Cc ntudo, n ã o se trata mais da morte de uma m ã e (como o
quer o phantasme sádico da criança segundo a teoria kleiniana),
mas da morte do filho. Estaria ali o segredo do filho-escritor e ho-
mosse: u a i , sua versão do sacrifício que d á novo rumo ao esque-
ma kle niano? Trata-se para ele de preservar a m ã e , n ã o perdê-la
nunca, deixá-la viver ao se fazer ele próprio criador, mas ao preço
de um; certa morte de si. Morte física de Fabien, ela pode tomar
tambéili o aspecto de uma renúncia à identidade sexual: nem ho-
mem npm mulher, homem e mulher, nada, neutro, tudo. A fim de
lho-escritor possa recriar todas as identidades, se identifi-
car c o à i todos, se projetar por toda a parte. E , no curso dessa
repara^ ã o infinita que é o engajamento no imaginário, tentar pa-
dívida à m ã e assim reparada, mas sobretudo sua dívida ao
pai od|ado. Pagamento sem fim, inconsolável, pagamento até a
morte.
214 MELANIE KLEIN

O texto de K l e i n aborda questões essenciais, mas se atém,


escolarmente, com a m b i ç ã o e prudência, à simples ilustração das
teses da psicanalista, que são desde então as de sua escola.
Melanie queria salvar, nos jovens pacientes, a capacidade de
sublimar-simbolizar. Quando a arte e a literatura p õ e m em cena
uma d i n â m i c a análoga aos dramas da sobrevivência psíquica que
a analista havia decifrado, ela se sente à vontade para estender
aos textos o espelho de sua teoria, que ela mesma havia burilado
em sua poltrona de analista, à escuta dos analisandos. A literatura
é alvo aqui e ali do foco do projetor, enquanto retém ciosamente
seus enigmas; j á a analista fortalece seus conceitos e consolida
sua clínica, recorrendo aos m i ú d o s pormenores dessas fantasias
confessadas e admitidas que constituem o que se chama u m ima-
ginário cultural.
Será que se pode, no entanto, qualificar sua atitude crítica de
pretensão teoricista que profana a carne sutil da obra? E u veria
nisso antes a humildade, seguramente rude mas nobre, de uma
mulher que ousa avançar com um pouco de luz no terreno das
belas ilusões. Sem duvidar um instante de que essas ilusões são
inevitáveis e necessárias, como o são as fantasias, n ã o é ela tam-
b é m uma criadora, à sua maneira, em suas próprias identificações
projetivas com seus pacientes, em suas interpretações imaginárias,
phantasmatiques! "Se eu fosse v o c ê " , pensa ela quando interpre-
ta. Melanie ou o último disfarce, enfim bem-sucedido, de Fabien?
A psicanálise que ela nos lega é uma experiência do imaginá-
rio que n ã o aspira à beleza, mas tenta se conhecer sem negar o
próprio imaginário.

NOTAS

1. Cf. " L ' i m p o r t a n c e de l a formation du symbole dans le d é v e l o p p e m e n t du


m o i " ( 1 9 3 0 ) , e m M e l a n i e K l e i n , Essais de psychanalyse, op. cit., p. 266.
2. Ibid., p. 2 7 5 .
3. Cf supra, cap. I I , pp. 4 9 sq.
4. Cf " L ' i m p o r t a n c e de l a formation du symbole dans le d é v e l o p p e m e n t du
m o i " , art. cit., p. 2 6 5 ; grifos nossos.
o GÊN;O F E M I N I N O 215

5. Cf. ii / r a , p. 201.
6. Mel^iie Klein, Essais de psychanalyse, op. cit., p. 265.
7. Ibid.
8. Podei se criticar esta hipótese kleiniana de um simbolismo primário da "lin-
guagem de órgãos" no esquizofrénico, de que fala Freud, e cuja lógica seria
a da identidade por o p o s i ç ã o à similitude: "Foi a identidade da expressão
verbí l, e n ã o a similitude das coisas designadas, que comandou a substitui-
ção, ("Uinconscient" [1915], G W, t. X , pp. 264-303; S E, t. X I V , pp. 159-
215, :rad. fr. em Métapsychologie, Gallimard, coll. "Idées", 1968, pp. 117-
118; : / t a m b é m supra, cap. V I I , p. 165, nota 9).
9. Mel^iie Klein, Essais de psychanalyse, op. cit., p. 269.
10. Ibid. p. 270.
11. Ibid.
12. Ibid. p. 269.
13. Cf t a m b é m supra, cap. I I , 5, pp. 61 sq.
14. M e l á i i e Klein, "Uimportance de la formation du symbole.. . em Essais de
psychanalyse, op. cit., pp. 271-272.
15. Ibid. p. 272.
16. Ibid.
17. Cf. s ipra, cap. V I I , p. e infra, cap. I X , pp. 197 sq., o comentário de Jacques
Laca í.
18. Cf r esta perspectiva o comentário de Alain Gibeault, "Variations sur un
thèmfc;;ancien: construction et/ou reconstruction du psychisme de V enfant"
em jIks Textes du Centre Alfred Binet, n- 15, dezembro de 1989, pp. 1-21.
19. Segu ido a expressão de André Green, Le Travail du négatif E d . de Minuit,
1993
0 . C o m ) observa Hanna Segal, certos textos de Freud d ã o a entender que o
homi tm é um "usuário de s í m b o l o s " (sobretudo ao sugerir que o sonho uti-
liza um conjunto de criações simbólicas coletivas independentes do sonhante,
feita; de uma vez por todas e sempre prontas); Melanie Klein, ao contrário,
"des< obre o homem criador de símbolos". Cf Hanna Segal, "Psychoanalytic
dialo iue: Kleinian theory today", em Journal ofthe American Psychoanalytic
Asso iation, Nova York, International University Press, 1977, vol. 25, n- 2,
p. 3( 5, citado por Alain Gibeault, "Symbolisme primitif et formation des
syml oles" em Nouvelle Revue de psychanalyse, n- 26, outono de 1982,
UA haique, p. 299.
2 1 . Cf. contribuições de Paula Heimann, Susan Isaacs e Joan Riviere em
Mel^iie Klein et alii, Développements de la psychanalyse, P U F , 1966, reed.
19951
22. Cf. 1 aula Heimann, "Septième discussion de controverses scientifiques",
em s Controverses, Anna Freud-Melanie Klein, 1941-1945, reunidas e
anotádas por Pearl King e Riccardo Steiner (1991), P U F , 1996, pp. 511 sq.
23. Cf F tuia Heimann, em Melanie Klein et alii, Développements de la psycha-
nalyi e, op. cit, p. 117; Susan Isaacs, ibid., p. 69 sq. e p. 100: esse texto
retor ia Susan Isaacs, " S i x i è m e discussion de controverses scientifiques",
em Hps Controverses... op. cit., p. 745.
216 MELANIE KLEIN

24. Cf. "Notes on symbol formation", em International Journal of Psychoana-


lysis, vol. 37, 1957, part. 6, trad. fr. em Revue française de psychanalyse,
1970, n* 4, pp. 685-696.
25. Susan Isaacs ensina L ó g i c a e Psicologia, e dirige desde 1933 o novo Depar-
tamento da Criança do Instituto de Educação da Universidade de Londres;
cf seu estudo "Nature et fonction du phantasme" (1952), em Développements
de la psychanalyse, op. cit., pp. 64-114.
26. Cf Sigmund Freud, "Au-delà du príncipe de plaisir" (1920) , G W, t. X I I I ,
pp. 3-69; S E, t. X V I I I , pp. 1-64, trad. fr. em Essais de psychanalyse, Petite
B i b l i o t h è q u e Payot, 1981, p. 53.
27. Susan Isaacs, "Nature et fonction du phantasme", em D é v e l o p p e m e n t s . . . ,
op. cit., pp. 69-71.
28. Sigmund Freud, " L a (dé)négation" (1925), G W, t. X I V , pp. 11-15; S E,
t. X I X , pp. 233-239; cf. " L a négation", em Sigmund Freud, O C, t. X V I I :
1923-1925, P U F , 1985, pp. 165-172.
29. Susan Isaacs, art. cit. em Melanie Klein et alii, Développements de la psy-
chanalyse, op. cit., pp. 100 sq., e Les Controverses..., op. cit., pp. 499 sq.
30. Susan Isaacs, em Développements..., op. cit., p. 100.
31. Ibid., pp. 100-101; grifos nossos.
32. Ibid., p. 101.
33. Paula Heimann faz sua formação psicanalítica em Berlim, onde é analisada
por Theodor Reik. Emigrando em 1933 para a Inglaterra, para fugir dos
nazistas, segue de início fielmente Klein, antes de expressar seu desconten-
tamento e juntar-se aos "Independentes".
34. Cf Paula Heimann, "Notes sur la théorie des pulsions de vie et des pulsions
de mort", em Melanie Kiein et alii, Développements..., op. cit., p. 306.
35. Paula Heimann, "Certaines fonctions de 1'introjection et de la projection
dans la première enfance", ibid., p. 138.
36. Ibid., p. 117.
37. Cf. supra, pp. 273-275.
38. Cf. Jacques Lacan, Les Écrits techniques de Freud, Le Séminaire, livro I ,
Seuil, 1975, seminário de 24 de fevereiro de 1954, cap. V I I , pp. 87-102; e o
comentário de Jean Hyppolite, assim como o de Lacan, de " L a (dé)négation",
em Jacques Lacan, Écrits, Seuil, 1966, pp. 879-888 e pp. 369-400.
39. Por outras vias, Hannah Arendt havia tocado nessas lógicas profundas onde
"gosto" e "juízo" se encontram. Cf. Julia Kristeva, Le Génie féminin, t. 1:
Hannah Arendt, Fayard, 1998, pp. 343-357.
40. Cf. Jacques Lacan, Écrits, op. cit., p. 383. A "nova psicanálise" kleiniana
devia ser celebrada t a m b é m no número de março de 1952 do International
Journal of Psychoanalysis, consagrado ao septuagésimo aniversário de Klein,
e t a m b é m em New Directions in Psychoanalysis (1955). Cf. infra, cap. X ,
p. 259.
4 1 . Ibid., p. 883.
42. Ibid., p. 880.
43. Ibid., p. 881.
44. Ibid., p. 886; cf também Jacqueline Rose, "Negativity in the work of Melanie
O GÊNI D F E M I N I N O 217

Klein \ em Reading Melanie Klein, op. cit. N ó s nos lembramos disso ao ler
Hann Segal e seu comentário sobre a passagem das "equações" aos "verda-
deiro símbolos", cf. infra, pp. 201 sq. e p. 205, nota. O equivalente (no
sentido de Hyppolite) da Verneinung se faz acompanhar de, e se escora em,
u m a . u,spensão da destrutividade: "equivalente" e "suspensão" especificam
o pen lamento e lhe permitem se libertar do regime das "equações" próprias
das ÍÍ ntasias arcaicas.
45. Jacqu ÍS Lacan, Écrits, op. cit., p. 388.
46. Ibid., 396. Jacqueline Rose destacou sagazmente esses entrecruzamentos
e essí divergências em seu "Negativity...", op. cit., pp. 137-138.
47. Jacqu Lacan, Écrits, op. cit., pp. 390-392.
48. Cf. M K, p. 497.
49. Cf. Controverses, op. cit., pp. 511-512.
50. Cf. " O n countertransference", em International Journal of Psychoanalysis,
1950, vol. 3 1 , n - 1-2, pp. 81-84, e "Further observations on the analyst's
cogni ve process", em Journal ofthe American Psychoanalytic Association,
1977, 25, pp. 313-333.
5 1 . Depo 5 da c o m u n i c a ç ã o de Winnicott à Sociedade Britânica, de 5 de feverei-
ro de 947, sobre " O ó d i o na contratransferência", observando que em cer-
tos mi mentos da análise o paciente busca o ó d i o de seu analista, e que este
deve econhecer seus erros, resultantes de seu ó d i o , para continuar eficaz-
mente a análise, assim como em seguida às p r o p o s i ç õ e s de Margaret Little a
esse speito, Heimann, na mesma linha, insiste no Congresso de Zurique
de 19< 9 sobre o fato de que o analista funciona como "a imagem em espe-
lho d<i paciente". Cf M K, pp. 489-490 e p. 530.
52. Cf. Ju ia Kristeva, Les Nouvelles maladies de Vâme, Fayard, 1993, pp. 123-
133
53. lntern itional Journal of Psychoanalysis, vol. 37, 1957, part. 6, pp. 391-
397, t|ad. fr. em Revue française de psychanalyse, 1970, t. 34, n 2 4, pp. 685-
696.
54. Segunti o o termo de Alain Gibeault, "Symbolisme primitif et formation des
symbc 1es", op. cit., p. 302.
55. Cf, entre <outros, Julia Kristeva, Histoires d'amour, op. cit., sobre a "identi-
ficaçãi primária", pp. 36-65; e Sens et non-sens de la revolte, op. cit., sobre
a e x p * i ê n c i a da castração, pp. 198-236.
56. Cf. W|lfred Ruprecht Bion, Aux sources de Vexpérience (1962), trad. fr.
P U F , 979, p. 43. Cf. também, do mesmo autor, "Différenciation de la part
psychi itique et de la part non psychotique de la personnalité" (1967) em
Nouvdle Revue de psychanalyse, 1974, n 2 10, e "Théorie de la p e n s é e "
(1962], em Revue française de psychanalyse, 1964, n 2 1.
57. Cf o t tulo de seu segundo livro, Learningfrom Experience (1962), trad. fr.
Aux st urces de Vexpérience, P U F , 1979.
58. Cf. M i :hel Fain e Denise Braunschweig, La Nuit, le jour, essai psychanaly-
tique s ur le fonctionnement mental, P U F , 1975, pp. 147-150 e pp. 175-176.
59. Cf. W lfred Ruprecht Bion, LAttention et VInterprétation (1970), trad. fr.
Payot, 1974, p. 90.
218 MELANIE KLEIN

60. Cf. t a m b é m Herbert Rosenfeld, États psychotiques (1965), trad. fr. P U F ,


1976, e "Notes sur le traitement psychanalytique des états psychotiques"
(1972), em Traitement au long cours des états psychotiques, Privat, 1974,
pp. 125-127: ele distingue uma identificação projetiva que elimina as partes
m á s do si, e uma outra que está destinada a comunicar com os objetos e
torna o paciente receptivo à c o m p r e e n s ã o que o analista tem dele. Recorde-
mos, nesta perspectiva, o prolongamento que Hanna Segal fez de seu pró-
prio trabalho de 1957 sobre o s í m b o l o (cf. supra, p. 201, nota 53), ao reco-
nhecer que uma relação mutuamente positiva entre continente e conteúdo
favorece a elaboração da p o s i ç ã o depressiva e a formação do s í m b o l o . Cf.
Hanna Segal, "On symbolism", em International Journal of Psychoanaly-
sis, 1978, 59, pp. 315-319.
6 1 . Cf. D . Meltzer; J. Bremner, D ; Hoxter, D ; Weddell, I . Wittenberg, Explorations
dans le monde de Vautisme, Payot, 1984.
62. Cf. Esther Bick, " U e x p é r i e n c e de la peau dans les relations d'objet précoces",
em International Journal of Psychoanalysis, 1968, 49, pp. 484-486.
63. Cf. em especial: P. Mazet e S. Leibovici (dir.), Autisme et psychoses de
Venfant. Les points de vue actueis, P U F , 1990; J . Hochman e P. Ferrari
(dir.), Imitation, Identification chez Venfant autiste, c o l ó q u i o Inserm, L y o n ,
1989; R . Perron e D . Ribas, Autismes de Venfance, P U F , 1994; P. Privat e F .
Sacco, Groupes d'enfants et cadre psychanalytique, Toulouse, Erès, 1995;
C . Athanassiou (pref. de G . Haag), Bion et la naissance de Vespace psychique,
Popesco, 1997; B . Golse, Du corps à la pensée, P U F , 1999; G . Haag, "De la
sensorialité aux ébauches de p e n s é e chez les enfants autistes", em Revue
Internationale de psychopathologie, 1991, n- 3, pp. 51-63; id., "Autisme
infantile précoce et p h é n o m è n e s autistiques. R é f l e x i o n s psychanalytiques",
em Psychiatrie de Venfant, X X V I I , 22, 1984, pp. 293-354; A . Anzieu, "Les
liens originaires du moi à 1'objet concret", em Journal de la psychanalyse
de Venfant, 1993, n- 14, pp. 338-364; id., "Concrétude de 1'objet et cons-
truction du moi", em Journée d'étude: Vobjet et Venfant, Aries, H ô p . J .
Imbert, 1990, pp. 39-52; D . Houzel, "Aspects spécifiques du transferi: dans
la cure d'enfants autistes", em Hommage à Frances Tustin, Audit, 1993, pp.
77-128; id., " L a psychothérapie psychanalytique d'un enfant autiste" e "Ce
que la psychanalyse peut apporter aux parents d'enfants autistes", em R .
Mises e P. Grand (dir.), Parents et professionnels devant Vautisme, Flash
Information, número fora de série, n- 220, 1997, pp. 179-189 e pp. 167-
177; id., "Les formations archaíques", em D . W i d l õ c h e r (dir.), Traité de
psychopathologie, P U F , 1994, pp. 393-419.
64. Cf. Frances Tustin, Autisme et psychose de Venfant (1972), Seuil, 1977, col.
"Points Essais", 1982, e Le Trou noir de la psyché (1986), trad. fr. Seuil,
1989.
65. Cf. Frances Tustin, "Les etats autistiques chez 1'enfant" (1981), em Reencon-
tres avec Frances Tustin, Toulouse, C R E A L , 1981.
66. Cf. Eric Rayner, Le Groupe des "Indépendants" et la psychanalyse britannique
(1990), trad. fr. P U F , 1994.
67. Cf M K, p. 307.
O GÉNIO FEMININO 219

68. Cf. Donald Woods Winnicott, La Nature humaine (1988), trad. fr. Gallimard.
1990
69. Ibid.,bp. 140-141.
70. Ibid., >p. 150-151.
7 1 . Cf su ira, cap. V, 5, pp. 130-132.
72. Cf, er tre outros, Donald Woods Winnicott, "Souvenirs de la naissance, trau-
matisi le et angoisse" (1949), Collected Papers, Londres, Hogarth Press;
Nova fork, Basic Books, 1958, pp. 182-183, e trad. fr. em Psychothérapies,
n 2 3, i p . 115-128.
73. Cf M ilanie Klein, "Les situations d'angoisse de 1'enfant et leur reflet dans
une o^uvre d'art et dans 1'élan créateur" (1929), em Essais de psychanalyse,
op. ci , p. 258.
74. Ibid., b. 262.
75. Cf. M ílanie Klein, " A propôs de l'identification" (1955), em Envie et gra-
titude, op. cit., pp. 140-185. Cf. Julien Green, Si j'étais vous, Plon, 1947,
reed. ] 7 ayard, 1993.
76. Cf. Milanie Klein, " A propôs de 1'identification", art. cit., p. 171 e p. 178.
77. Ibid., b. 165.
78. Ibid., o. 164.
79. Ibid.,b. 185.
IX

DA LÍNGUA ESTRANGEIRA
. IS REDES D E FIÉIS E INFIÉIS
y
1 . L ma fundadora sem texto

Melànie K l e i n aprende inglês com A l i x Strachey, em 1925,


para pre )arar suas conferências na Inglaterra:
" A c i e i que devia correr o risco e decidi ensinar inglês a
Melanie — pelo menos no que toca ao vocabulário especializado.
Para fazer isso, tenho a intenção de reler O pequeno Hans [...]
com ela E l a o lerá em voz alta, depois n ó s o discutiremos juntas
em ingl s. 1
A l i n d r i n a refinada se impressiona com a compreensão da
língua d i que d á prova sua aluna, mas o sotaque é pavoroso, e as
duas res i>lvem que Melanie continuará com um professor.
A pí rtir de sua instalação na Inglaterra em 1926, Melanie K l e i n
formula á seu pensamento em inglês, n ã o sem retornar muitas
vezes à ma língua materna, para se manter em contato com suas
emoçõei e partilhá-las: depois da morte de seu filho, Hans, ela
faz c o n f dências a Paula Heimann e lhe fala em a l e m ã o . 2 É prová-
vel taml é m que seus sonhos relacionados com a morte do filho,
desperte rido muitas lembranças penosas — a preferência de seu
pai por imilie, o falecimento prematuro de Sidonie, a perda cruel
de E m a íuel, pela qual sentirá uma culpa arrasadora, a angústia
ressurgi la por ocasião da morte de sua m ã e , o abatimento que se
seguiu * morte de Abraham e sua difícil relação com Kloetzel — ,
tenham sido vividos em alemão. A psicanálise de crianças, quase
simultaneamente publicada em alemão, foi traduzida para o inglês
224 MELANIE KLEIN

por James Strachey com o auxílio de A l i x Strachey, Edward Glover


e Joan R i v i e r e , 3 depois amplamente revista para a edição definiti-
v a das Obras completas.4 Se bem que seu domínio da língua inglesa
se consolidasse — durante a guerra, a correspondência de Mela-
nie com Winnicott é "apimentada de expressões idiomáticas i n -
glesas"—, Melanie conta, n ã o obstante, com amigos anglófonos
quando c o m e ç a a escrever em inglês. Nos anos 30, uma ajuda i m -
portante lhe é dada por Joan Riviere, que corrige e revisa substan-
cialmente sua obra. Melanie se apoia depois em sua secretária,
L o l a Brook, uma judia lituana casada com um inglês, e que será
para a analista, a partir de 1944, uma pessoa de confiança e uma
colaboradora indispensável. Brook relê, entre outros, com muita
atenção o artigo "Algumas conclusões teóricas a respeito da vida
emocional dos b e b é s " , apresentando sugestões tanto sobre o estilo
como sobre a disposição do texto, e recebe, numa nota, u m agra-
decimento enfático da autora. 5 E n f i m , Psicanálise de uma criança
n ã o teria vindo à luz sem a ajuda de Elliott Jaques, que se tornou
o secretário do Melanie K l e i n Trust e o responsável pela publica-
ç ã o dos Writings of Melanie Klein. E m todas as circunstâncias,
p o r é m , a infatigável trabalhadora que é Melanie anota, escreve e
reescreve incansavelmente as sessões com seus pacientes, modu-
la comentários ou conclusões clínicas e refina progressivamente
por escrito o desenvolvimento de seu pensamento — como teste-
munham seus arquivos.
Notemos t a m b é m que os últimos textos de K l e i n são ornamen-
tados de citações provenientes da literatura inglesa, tão sofisticadas
que diríamos "anexadas", embora sempre pertinentes. Acrescen-
temos t a m b é m que Jean-Baptiste Boulanger, que traduziu para o
francês A psicanálise de crianças, julgava o francês de Melanie
suficientemente bom para assegurar uma excelente c o m u n i c a ç ã o
com ele no decorrer de sua supervisão. Entretanto, esse cosmopo-
litismo linguístico n ã o impede que Melanie permaneça "germânica
até o f i m " , segundo sua biógrafa. 6
O a l e m ã o — língua materna? De uma certa maneira. De fato,
as últimas cartas de Libussa atestam que seu alemão era bem pre-
cário. 7 Sabe-se que m ã e e filha orgulhavam-se de que Moriz Reizes,
esposo e pai delas, por mais medíocre que fosse como m é d i c o ,
falava uma dezena de l í n g u a s ! 8 Mas qual era a língua materna de
Melanie?
O GÊNIC FEMININO 225

H á 11 latricídio no abandono da língua materna. E l e j á está em


a ç ã o noi pais de Melanie, e mais profundamente no destino
migrante dessas famílias judias da Europa Central que possuíam
todas as línguas e nenhuma, salvo o iídiche para alguma delas,
mas que Melanie n ã o queria nem conhecer, nem mesmo ouvir.
E l a esco he, nas pegadas do desejo parental, e sobretudo materno,
integrar- ;e à língua e à cultura alemãs: primeiro renascimento sim-
bólico, p arto cultural de si. A segunda ruptura, aquela que a leva-
rá do coi tinente para a Grã-Bretanha, acentua o voo: sempre mais
alto, sen pre mais forte. Para pensar essa m e m ó r i a antiga que se
chama u n inconsciente, para nomear o phantasme, será necessá-
rio ouvi- o à distância, de um outro lugar que n ã o pode ser senão
a estranl eza? Proteger-se dele, talvez, abandonando-o além, mis-
turado à; inefáveis sensações infantis, num código primitivo sem
nome? (>uvi-lo de longe, isso faz menos medo, na claridade de
um espíi ito armado por tantas aprendizagens secundárias, media-
tizadas, 'estranhas" do arcaico, esquecido do materno?
Seri L possível ler nesse destino de estrangeira, pelo qual se
cristalizi >u — se camuflou, mas t a m b é m se explicitou — a judei-
dade de Vfelanie K l e i n , a elaboração de uma clivagem antiga, de
um matr cídio sempre doloroso, de uma psicose endémica. Por ter
sabido e itrar em contato com essa dinâmica, por tê-la percebido
ao mesn 1 0 tempo como devastadora e salvadora, Melanie K l e i n
soube e' aborar uma teoria que entra em ressonância, de maneira
mais dir rta, mais incisiva do que o faz a teoria freudiana, com a
mesma divagem denunciadora de matricídios análogos vividos
por qual juer um, n ã o somente por muitos intelectuais mas t a m b é m
por grup os humanos cada vez mais amplos neste fim do segundo
milénio.10
Os s eres humanos são menos "identidades" que viagens, sem-
pre em xânsito entre uma m e m ó r i a mais ou menos recalcada e
uma cor sciência mais ou menos soberana: Freud tinha vindo nos
dizer iss o. E l e desenvolveu o que alguns consideram ser seu ro-
mance p essoal quando afirmou que o Homo religiosus, desde a era
das glaciações empilhando psicoses em cima de neuroses, 11 so-
brevive nos modernos que n ó s somos viajando sub-repticiamente
em nosí as estruturas psíquicas, em nossos sonhos e em nossos
sintoma».
Poc í-se supor que a visão freudiana se acha influenciada por
226 MELANIE KLEIN

esta nova perda da sedentarização que a humanidade experimenta


no curso do século X X . A técnica e a política nos arrancam cada
vez mais a nossos hábitats, e eis-nos outra vez n ó m a d e s . A o s e x i -
lados das perseguições políticas se juntam os migrantes do mer-
cado globalizado e navegadores por televisões-satélites ou outras
Internets. C o m o questionamento da autoridade, da lei e dos valo-
res, interpretado como uma contestação ao papel do pai, a perda
do hábitat que caracteriza nosso destino causa prejuízo ao lugar
originário, ataca o suporte materno e a m e a ç a de destruição a p r ó -
pria identidade.
Os poetas sensíveis e os conservadores aterrorizados entoam
hinos em prol da preservação do lugar: retorno à origem, ecologia
do hábitat, proteção do patrimônio. Todos desejam preservar a
possibilidade de se manter num lar estável, domicílio fixo, reco-
lhimento primordial, religioso, do humano tributário de um e s p a ç o
capaz de se e s p a ç a r . 1 2 Como n ã o compreendê-los, como n ã o se-
gui-los quando se sabe que a destruição desta segurança primeira
— ancoragem de nossas identidades, refúgio primário de nossos
objetos de desejo e de ódio — , que são a língua e a boa ordem de
um lar, nos privaria do que é, por ora, o índice último do humano,
a saber, a possibilidade de sublimar, e depois simbolizar o caldei-
rão biológico?
Outros, e Melanie K l e i n é um desses, tomam uma v i a dife-
rente para preservar nossa possibilidade de fazer sentido. Trata-se
de visitar o lugar mesmo da dor, o desenraizamento originário: n ã o
de recalcá-lo para reconstruir bem depressa o hábitat, mas de "habi-
tar" a desabitação, a separação primordial — se a palavra "habitar"
n ã o é demasiado calma, demasiado estática para designar esta aus-
cultação da ferida original que o psicanalista pratica. U m a n ó m a d e ,
nossa Melanie: Viena, Rosenberg, Krappitz, Budapeste, B e r l i m ,
Londres; numerosos endereços em Berlim, cinco casas em Londres.
Seu filho E r i c diz n ã o ter tido lar. No entanto, essa mulher gosta
de trocar de residências, mas arranjando-as de maneira cada vez
mais confortável e luxuosa. Duas tendências contraditórias de sua
errância se delineiam tanto nos espaços onde vive a analista como
em seu pensamento: a da abertura, que desequilibra e está em
consonância com a perda de si, e a do fechamento, que abriga e
compensa os riscos. De um lado, a obra da pulsão de morte enfren-
tada sem rodeios; do outro, o estabelecimento de estruturas mais
O GÊNI ) F E M I N I N O 227

ou meni >s rígidas, de uma teoria, de uma escola, de uma casa bur-
guesa. ( ) h a r m ó n i c o dominante é, n ã o obstante, o de uma exposi-
ção mái ima, de um desabrigo permanente, de um "não-lugar" de
todos o; instantes. Mas, então, que referências encontrar em face
da crue dade que se sofre, que se manda embora?
Me anie K l e i n escolhe pelo menos duas. Antes de mais nada,
deposito confiança na m e m ó r i a da pré-linguagem: o segredo do
tempo p erdido poderá ser reencontrado no insight e na identificação
projetiv i com o paciente. "Se eu fosse v o c ê " , diz ela, e assim faz.
E m segi lida, assimila uma língua nova: a dos pais Freud-Ferenczi-
Abraha n em primeiro lugar; a língua dos britânicos também, por
que nãc ?, j á que eles a apreciam e acolhem: a civilização deles
não é w m império, o Império, talvez, com a mundialização em
curso? I assim que ela forja enfim seu próprio código. Admitida
num m\ indo de saber, de sistema e de partilha, apropria-o, inova
nele, rei iliza uma obra e protege-a por meio de uma política. Ado-
ram zoi abar da velha senhora que, enquanto Londres desaba sob
as bom >as do Blitz, só pensa na sua vurk — em anglo-alemão, na-
turalme ate. N ã o sem reverenciá-la, ao cabo de tudo.
E x i >te uma experiência de Melanie K l e i n : a estranheza está
em seu coração. A língua estrangeira é a face visível disso — o
inglês, certamente, mas, bem mais profundamente, a própria psi-
canálise na condição de sistema, e o idioleto da "teoria kleiniana"
para co roá-la. Melanie, a clínica que desce " a l i " , por intermédio
de seu Á ihantasme, até o lugar sem língua da infância inibida, psi-
cótica e autista; e K l e i n , a chefe de escola, que fala, sistematiza,
guia se 1 clã. Isso d á suas fórmulas reunidas e suas páginas pesa-
das, tec idas de conceitos firmes que argumentam pacientemente,
circularmente, repetitivamente, mas muitas vezes t a m b é m proce-
dem po rflashes cuja evidência nos é imposta sem precaução nem
prepara ção, em vez de se engendrarem na respiração das palavras
e dos d cslizamentos retóricos. Entre as duas: a viagem. Quando a
esqueci mos, quando ela a esquece (raramente!), só vemos a "doi-
da" ou a "dogmática".
E x stirá um texto de K l e i n ? Lemos Freud como uma obra que
se cons rói, também, na carne da linguagem. A o contrário, Melanie
não pei tence à m e m ó r i a da língua alemã: ela faz parte dessa outra
classe < e pensadores que t ê m um laboratório internacional e se ex-
primen num código universal. Serão eles mutantes condenados a
228 MELANIE KLEIN

desaparecer ou dotados de uma estranheza que se encurva em lín-


guas de e m p r é s t i m o (o inglês, no caso)? Buscarão simplesmente
facilitar a tarefa do intelecto para melhor se arriscarem nas fron-
teiras, nos impossíveis? E s s a estranheza linguística, que é igual-
mente uma estranheza de pensar, pode parecer paradoxal para uma
psicanalista: o inconsciente n ã o se estrutura ao clarão da língua
materna (como, para Fabien de Si j f etais vous, o rosto da padeira
se r e c o m p õ e ao clarão dos círios da igreja)? 1 3 Acreditamos que
sim, e Melanie n ã o cessa de transitar por essa peneira da língua
primeira — o a l e m ã o lhe volta à m e m ó r i a nos debates emociona-
dos e em suas formulações teóricas.
C o m frequência t a m b é m , conforme nos diz, ela mistura as
línguas, ouve toda língua estranhamente, como que em sonho,
como Freud nos ensinou: lembrem-se dos "petits fours/petits frou/
klein Frou", que ela decifra Frau Klein.14 É que a língua materna,
do lugar onde Melanie se coloca — do não-lugar onde ela se colo-
ca, no cruzamento das identidades — , é j á uma língua estrangei-
ra. H á o estrangeiro no familiar, uma inquietante estranheza da
m ã e que se oculta. Seria possível ouvir a m ã e da m ã e , ir até lá
onde n ã o h á mais lá, n ã o h á mais "ela" nem "lugar", nada senão
u m caos de sentimento, um transbordamento, um desmantelamento,
uma intimidade adesiva, uma catástrofe de ser? U m amor sem
piedade da coexcitação mãe-bebê, o pré-psíquico que se tornaria
nosso novo mito, enfim o último? Os psicanalistas seriam como
esses peixes, ironiza Melanie com Jones, que só amam as profun-
dezas. 1 5 E l a os ama, ao contrário: sempre sob a m ã e !
O pensamento kleiniano se ressente dessa errância, dessa v i a -
gem para o não-lugar que a desfaz antes de estruturá-la. Aparen-
temente, os escritos de K l e i n apresentam relatórios de "casos"
bem laboriosos, esquemáticos até, repletos de interpretações bem
supridas, quase suplementadas. O todo cada vez mais sistematiza-
do, com o auxílio dos discípulos que n ã o deixam de se apossar
das facilidades de uma escola, de se servir delas e de piorá-las.
Apesar disso, de repente o artifício se rompe e somos atingidos
por vislumbres de verdade: sob o fardo pesado brota a justeza de
uma solicitude que toca na ferida e sabe acompanhá-la sem com-
placência na busca de uma pele nova, sensível.
O próprio raciocínio de Melanie exibe a marca disso: muitas
vezes lhe censuraram os conceitos ambíguos, ao mesmo tempo
I
O GÊNflO F E M I N I N O

coisas d representações, positivos e negativos, e que n ã o levam a


229

parte n ;nhuma, porque mal enunciaram uma possibilidade, esta


se desc obra para se transformar em seu contrário. É o objeto
introjet ido uma coisa ou uma imagem? É o phantasme uma subli-
m a ç ã o l a pulsão ou uma defesa contra ela? Assinala a posição
depress v a uma nostalgia em relação ao objeto parcial ou sua u l -
trapass gem no objeto total? Reincide ela em defesas maníacas
apareci las desde a posição esquizoparanóide anterior ou avança
rumo à reparação? Os detratores n ã o deixaram de destacar, além
do abai dono do É d i p o freudiano em proveito dos "objetos inter-
nos", ei itre outras divergências bem explícitas, um modo de pen-
sar que causa problema. A s s i m , Marjorie Brierley questiona essa
espécie de conhecimento "corporal" e " i m a g i n á r i o " que os klei-
nianos nanejam e que ela julga afrontosamente subjetivo, no ex-
tremo (posto de uma "verdadeira ciência":
" A modelização de um mecanismo mental a partir de uma ex-
periênc a corporal, a que ele corresponderia, é uma ação imaginá-
ria, um modo de comportamento imaginário modelizado sobre a
p r e v i s ã ) do comportamento r e a l . " 1 6
M i ito mais intransigente, Glover se torna francamente cari-
catural
" A menos que se queira ter o trabalho de corrigir esse método
de 'pie et pie et colegramme',* a argumentação rigorosa é impos-
sível."17
N ã ) científica, Melanie? Seus detratores lhe disseram isso em
sua é p >ca, e hoje mesmo professores americanos sequiosos de
publici lade a teriam chamado de "impostora" se pudessem tê-la
conhec do.
De fato, como sugere Jacqueline R o s e , 1 8 K l e i n n ã o p r o p õ e
nunca i im pensamento linear para um desenvolvimento linear da
criança ou do inconsciente: a lógica kleiniana n ã o se desenrola
como i ma "sequência causal", de A a B , mas antes de maneira
circula L A identificação projetiva é talvez a cristalização m á x i m a
dessa 1 >gica da "negatividade", que forma um "círculo vicioso" e
que JOÍ n Riviere descreve assim ao ilustrar como a criança chega
por me 10 dela à relação causa-efeito:

Expres ão que corresponde mais ou menos à nossa "úni, dúni e tê". (N. do T.)
230 MELANIE KLEIN

" 4 Você n ã o vem me ajudar, você me odeia porque estou furioso


e porque eu devoro você; mas eu devo odiar v o c ê e devorar v o c ê
para obrigar v o c ê a me ajudar.' O ódio vingador que n ã o pode ser
gratificado aumenta a tensão ulterior e o seio que se recusa v ê
atribuído a si o caráter desapiedado e o arbitrário incontrolado
das sensações próprias da c r i a n ç a . " 1 9

Consciente da particularidade dessa lógica, orgulhosa mesmo


de ter participado de sua descoberta e de sua utilização terapêuti-
ca e teórica, Riviere a reivindica e vai à caça dos protagonistas:
com efeito, quem é realmente capaz disso?
" M ã e s " e "pessoas dotadas de intuição", às quais visivelmen-
te a discípula de K l e i n se compara no caso presente, que " n ã o s ã o
doutas, e [...] n ã o sabem se exprimir muito melhor do que os p r ó -
prios b e b é s " 2 0 — a depreciação irónica fecha aqui a ferida infligida
pelos detratores; elas t ê m acesso p o r é m a essa negatividade que
é a expressão emocional dos bebés, porque a lógica deles n ã o é
mais incompreensível do que uma "língua estrangeira", 21 mas nos
leva para trás na vida do indivíduo, "até a um período antes inex-
plorado". 2 2 O inconsciente perseguido por Melanie seria portanto
uma estranheza, sua obra nos conduz à nossa estranheza radical, e
Joan Riviere o diz aqui explicitamente: n ã o é para nos mostrar
que somos estranhos a nós mesmos que nós o buscamos?
Pode-se seguir a exegese de Joan Riviere, mas deixá-la sozi-
nha em seu entusiasmo neófito quando ela compara as intervenções
abruptas de Melanie a esse "farol" que é o pensamento freudia-
no. Porque a clareza de K l e i n , que é certa, n ã o deixa de se acom-
panhar desse retorno constante do negativo e para o negativo que
instala como que a presença de um buraco negro no coração mes-
mo de seu esquematismo, e a situa em oposição a um farol. "Buraco
negro" do autismo, dirá Frances Tustin. "Buraco negro" do sentir
anterior ao pensamento ideal e conceptual. "Buraco negro" do
phantasme, infalivelmente apanhado na rede da identificação pro-
jetiva. "Buraco negro" do objeto interno arcaico, a ser abando-
nado em depressão para poder, com o "sol negro" da melancolia,
se encaminhar, pela reparação, para uma verdadeira tradução do
mal-estar em autênticos símbolos. Os esquemas kleinianos são
intrinsecamente desequilibrados pela permanência do imaginário
interpretativo, que n ã o é senão a intrusão do negativo no próprio
O GÊNI 3 F E M I N I N O 231

raciocíijio: negativo da pulsão; depois negação dessa primeira ne-


gaçao, luma formulação ela mesma sempre negativa, desvendan-
do sem re o pior, na transferência/contratransferência exposta sem
recorrei à fantasia de destrutividade e de morte. Sua analisanda
Clare ^ i n n i c o t t , esposa de Donald, comentava que na situação
analític Melanie insistia no "lado destrutivo das coisas", como
23
se lhe f|>sse difícil aceitar o amor e a r e p a r a ç ã o . Efeito de trans-
ferênci de Clare, ou "buraco negro" da negatividade kleiniana
que, ao mesmo tempo, lhe proporciona insights fulgurantes, mas
tambén a refreia?
A bsessão do originário se torna, nessa estrangeira, nessa
tradutola do originário que foi Melanie K l e i n , uma coabitação
corajos com o negativo. Menos dialético do que em Freud, o
destino do negativo nela a aproxima das fronteiras do humano, e
sua via] ;em para essas regiões se enuncia num pensamento aparen-
temento menos d e s e m b a r a ç a d o , mas na realidade muito arriscado,
Até o njomento em que as pulsações do originário a ser extraviado,
do mat :rno a ser traído, do hábitat a ser abandonado necessaria-
mente ara viver livre mediante o exílio no simbólico — esse novo
estrang iro sempre por escolher, sempre por conquistar — , se f i -
xam d^fensivamente em guerra entre mulheres. Sem baliza, as
paixõe se tornam então implacáveis: como entre Melanie e Me-
litta. À sombra do luto do pai, isto é, do próprio Freud, como foi
o caso das Controvérsias, o pensamento analítico pode sair d a í
enrique
enrique eido. Mas o perigo está lá: a visitação da psicose pode se
congel em psicodrama histérico, e a Oréstia desmoronar em fei-
tiçarias em escaramuças entre damas.
T n f a se então de voltar ao laboratório. Porque sob a espessura
do cóc go kleiniano persiste o testemunho vigoroso e encarniça-
do da e Kperiência. Cabe a nós reabilitar suas audácias, suas hesi-
tações, suas confissões. Para revelar, nas guerrilhas da " m ã e K l e i n " ,
as sonqa;gens geniais da estrangeira. U m a estrangeira que ela con-
tinua ser ainda hoje no movimento analítico c o n t e m p o r â n e o ,
Tanto i so é verdade que, confrontados com as "novas doenças da
alma" borderlines, psicossomatoses, toxicomanias, vandalismos
e t c ) , q|iando estamos carentes de escuta e fala, regressamos aos
bebés e K l e i n e de seus alunos, para saber como ela procede
com o sofrimento inominável. É imprescindível relermos essas
página densas. Para fazermos melhor, evidentemente: Melanie
232 MELANIE KLEIN

está lá para ser ultrapassada, como uma m ã e , uma verdadeira...


T ã o diferente dessas m ã e s reais que vos refreiam: da m ã e real que
ela foi t a m b é m .

2. Mãe e filha

Como se n ã o bastasse lhe ter dado o nome de família Klein,


"Pequeno", Melanie deu à filha que lhe nasceu a 19 de janeiro de
1904 (menos de um ano depois de seu casamento com Arthur, a
31 de m a r ç o de 1903) simplesmente o nome de Melitta, "Pequena
Melanie". A duplamente pequenina tinha mesmo do que se quei-
xar desde o início, mas esperou sua hora. No desentendimento
entre seus pais, ela tomou aparentemente o partido da m ã e . O que
n ã o deixava de ter seu mérito, porque Melanie, sofredora sob o
autoritarismo de Libussa, se ausentava constantemente por moti-
vo de viagens e tratamentos, e era a a v ó quem cuidava da neta,
n ã o sem dedicação e solicitude, mas mostrando mesmo assim pre-
ferência pelo menino, Hans, o segundo filho, e dando a entender à
pequena Melitta que sua m ã e era apenas uma "enferma emocio-
nal, tão doente que devia seguidamente abandonar sua f i l h a " . 2 4
Tudo p o r é m se encaminha para o melhor até os anos 30: M e -
litta é uma mocinha inteligente, acompanha a m ã e nas reuniões
psicanalíticas em B e r l i m e termina seus estudos de medicina. A
m ã e , ainda desconhecida e sempre sem diplomas, que suporta a
desconfiança do establishment m é d i c o , n ã o sente ciúmes da filha?
— irão perguntar os biógrafos. Visto que Melitta se casa em 1924
com o distintíssimo Walter Schmideberg, de uma família judia
rica e integrada, que fez seus estudos nos educandários dos jesuí-
tas (como a gente "bem" da família da própria Melanie). E l e n ã o
somente será capitão do exército austro-húngaro como t a m b é m ,
interessando-se pelo ocultismo, e depois pela psicanálise, se tor-
nará amigo do rico e talentoso M a x Eitingon, que o fará conhecer
Freud. Schmideberg ajudará mesmo financeiramente a família de
Freud nos dias difíceis que ela conhecerá em Viena no período da
guerra. Podia-se sonhar com um partido mais invejável? Papai
Arthur se opõe, entretanto, a esse casamento com um homem cator-
ze anos mais velho que sua Melitta, e que incorre na suspeita de se
O GÉNIO FEMININO 233

entregar à bebida ou a outras drogas. O conflito se instala nesse


moment) entre o pai e a filha.
A in serção de Melitta no mundo psicanalítico é rápida e bri-
lhante. Ç uando criança, ela parece ter sido analisada por sua m ã e . 2 5
Ulterion íiente, fará uma análise didática com Eitingon, depois com
Karen E Drney, e, j á em Londres, com E l l a Sharpe e enfim Edward
Glove. C >btém seu diploma na Universidade de B e r l i m em 1927 e
vai redij ir em Londres a tese que sustentará sobre a "História da
homeopi itia na Hungria", em 1928. Dependente da m ã e , terá preci-
sado da >resença dela para levar a termo seu trabalho? A tese será,
entretan o, dedicada ao p a i . 2 6 A partir de 1930, Melitta participa
regulam lente das reuniões da Sociedade Britânica e apresenta co-
municaç 5es (vimos que Melanie se refere, em A psicanálise de
crianças aos trabalhos de sua f i l h a ) . 2 7 E m 1932, Melanie triunfa:
seu prin eiro livro é publicado na Inglaterra e saudado calorosa-
mente. 1 ío entanto, os dissabores estão apenas c o m e ç a n d o . Desde
a chegai a de Walter na Inglaterra, os Schmideberg compram um
apartam mto, e Melitta afirma cada vez mais seu desejo de inde-
pendênc ia. A análise que ela inicia com Edward Glover a impul-
siona ne ;sa direção — uma carta, provavelmente de 1934, significa
o que ai arece, à luz do que virá depois, como uma declaração de
guerra à sua m ã e :
"Vo ê n ã o leva suficientemente em conta o fato de que eu sou
uma pessoa muito diferente de você [...]. E u n ã o penso que, na
vida de ima mulher adulta, a relação com a m ã e , por melhor que
seja, de^ e ocupar a posição central [...]. [ A atitude que] tive a seu
respeito até h á alguns anos [...] era de dependência n e u r ó t i c a . " 2 8
A g lerra entre as duas mulheres se manifesta abertamente em
outubro de 1933, quando Melitta Schmideberg é eleita sócia do
Institutc Britânico: em sua dissertação, ela n ã o atribui as dificulda-
des alirr entares de sua paciente Viviane a fatores pulsionais, como
queria a teoria de Melanie K l e i n , mas à atitude da m ã e que proce-
deu a ui ia aprendizagem rigorosa demais da limpeza. Por ocasião
da mort de seu irmão Hans, em 1934, Melitta fala de suicídio e
insinua i parte de responsabilidade que cabe, em todo suicida, às
dificuld ides com a família, à idealização e à decepção. B e m de-
pressa a vingança da filha, encorajada por Glover, se desencadeia
a ponto de incomodar os membros da Sociedade. Cenas inconve-
nientes e sucedem; Melitta lança apóstrofes estridentes a Melanie:
234 MELANIE KLEIN

"Onde está o pai em sua obra?" Sarcasmos, indiscrições, acusa-


ç õ e s que remetem à primeira infância, à vida familiar dos K l e i n ,
marcam essa guerrilha.
Pior ainda: em 1938, Melitta chega a ponto de acusar alguns
kleinianos (que tinham publicado uma obra coletiva organizada
por John Rickman, Da educação da criança, contendo uma confe-
rência de Melanie sobre o desmame) de plágio. U m a c o m i s s ã o
composta de Jones, Brierley e Payne examina a queixa e conclui
que é infundada. A s acusações de Melitta, sempre apoiada por
Glover, assumem cada vez mais a forma de um debate teórico: os
dois contestatários criticam as posições kleinianas e as acusam de
romper com o pensamento de Freud. Contudo, sob a legitimidade
de u m tal debate, aparece a virulência do acerto de contas pessoal.
Glover, demasiado apegado a sua analisanda, como que para subs-
tituir sua própria filha m o n g o l ó i d e por uma verdadeira c ú m p l i c e ,
passeia de m ã o s dadas com Melitta durante um congresso inter-
nacional. 2 9 Melanie se abstém em geral de comentar esses exces-
sos e deixa a seus fiéis a tarefa de conduzir a batalha teórica, n ã o
sem mexer os pauzinhos nos bastidores e sugerir a boa tática a
seguir. 3 0 S e m insistir, ela insinua p o r é m que a agressividade de
sua filha nesses debates denota mais perturbações psíquicas que
uma simples oposição teórica:

E há mesmo um ponto que estou absolutamente segura de que


deveríamos nos abster de mencionar, ao qual nenhum de nós deve-
ria mesmo fazer a menor alusão, e que é a doença de Melitta. 31

Que d o e n ç a ? U m estado esquizóide? Depois de se ter mostra-


do bastante crítica em relação aos trabalhos de Anna Freud, e n ã o
sem tê-la indiretamente atacado no comentário que fez sobre o
livro de uma colega, Melitta tenta se aproximar dela no momento
em que eclodem as divergências entre annafreudianos e kleinianos.
Vai visitar Freud, que chega a Londres em 6 de junho de 1939.
Melanie, que enviou ao mestre uma carta de boas-vindas, n ã o será
recebida e assistirá simplesmente às exéquias de Freud no fim do
m ê s de setembro. Melitta participa de uma reunião com Anna Freud
e os seus, depois toma parte nas múltiplas controvérsias contra
sua m ã e num tom " á s p e r o " e " s a r c á s t i c o " . 3 2 Acusa a Sociedade
O GÊNIC FEMININO 235

Britânic* em seu conjunto de ser hostil a A n n a F r e u d , 3 3 mas Anna


não se d< i x a iludir pelo fundamento psicológico de seus ataques.
Dura ite as Grandes Controvérsias de 1941-45, Melitta se abs-
tém de se aliar a Anna F r e u d . 3 4 Sua hostilidade com a mãe, enquan-
to pessoí e enquanto analista, aparece como o motivo principal,
venenosc, em torno do qual se desenvolve, n ã o obstante, um de-
bate psic analítico fundamental.
Meli ta acaba por atrair para si a desaprovação de numerosos
membro: da Sociedade Britânica, inclusive dos Independentes, que
no entan o n ã o acompanham cegamente Melanie. E v a Rosenfeld,
uma a m ga dos Freud, que fez sua análise com Melanie K l e i n ,
testemur ha essa atmosfera desagradável que chocava todo o mun-
do: "Alg o de muito terrível e bem pouco inglês, o espetáculo de
uma filh i espancando a m ã e com palavras, e esta m ã e permane-
cendo m aito digna..." 3 5
A p ó a d e m i s s ã o de Glover em 1944, Melitta deixa de facto a
Sociedac e Britânica (ela só se d e m i t i r á formalmente em 1962), e
parte em 1945 para os Estados Unidos, onde trabalha com adoles-
centes d ílinquentes numa ótica mais p r ó x i m a da psiquiatria e do
serviço i ocial do que da psicanálise. Vamos encontrá-la em L o n -
dres no ( ia da c r e m a ç ã o de sua m ã e : Melitta d á um curso "de bo-
tas verm rihas flamejantes" — signo berrante, sem dúvida, de que
a reconc liação nunca aconteceu. J á Melanie formulou assim, em
seu testo mento, o que deixa como legado para sua filha Melitta:

h e u bracelete de ouro a d a p t á v e l que m e foi dado por sua a v ó


patei na, o a n e l de diamante que tinha m e dado m e u falecido m a r i d o ,
m e u c o l a r de ouro c o m rubis e o b r o c h e que a c o m p a n h a o dito c o -
lar, c ue m e f o r a m oferecidos no m e u s e x a g é s i m o quinto a n i v e r s á r i o ,
e n ã ) destino n e n h u m outro legado à m i n h a dita f i l h a porque e l a
e s t á >ob outros aspectos suficientemente p r o v i d a e é c a p a z de satis-
faze e l a p r ó p r i a a suas necessidades por m e i o de suas q u a l i f i c a ç õ e s
técn cas.37

L e i mos: Melitta é reconhecida sem contestação na história


de Melanie. A matriarca inscreve sua filha no vínculo familiar, na
descenc
de: meia do pai, e até na homenagem profissional que lhe foi
prestad; quando completou sessenta e cinco anos. Mas o azedume
se m a n f è s t a com "ma-dite filie [minha dita filha]", "suficiente-
236 MELANIE KLEIN

mente provida" e possuidora de tantas "qualificações técnicas":


contrariamente à dita mãe...
Glover, que tinha entretanto atiçado o fogo da querela, tenta ser
objetivo: a filha era menos enérgica que a m ã e , admite ele; era sua
analisanda, mas "tinha estado em uma dúzia de analistas antes dis-
so" ( ! ) ; "foi em grande parte devido à dra. Schmideberg que esses
debates prosseguiram"; em definitivo, "... creio que eram ambas
[Melanie e sua filha] parciais. Por outro lado, a dra. Schmideberg,
sua filha, travou um belo combate por sua liberdade espiritual, e
havia recebido como dote um pouco desse caráter ligeiramente
desesperado que a impelia a ir para a linha de frente". 3 8
T a l m ã e , tal filha — pouco mais ou menos? Melanie continua
implacável: Glover é um "mau analista", "desonesto e sem es-
c r ú p u l o s " ; 3 9 mas poderá ela ser verdadeiramente imparcial nessa
questão?
Seja no lugar do ego, seja no lugar do objeto primário, interno
ou externo, são a identificação projetiva e a inveja que conduzem
o jogo, e elas n ã o poupam ninguém. Melanie era obrigada a ser
prova de suas teorias.

3. Paz e guerra entre damas

U m a peça de Nicholas Wright, Madame Klein ( 1 9 8 8 ) , 4 0 torna


célebres junto ao grande público as disputas da analista com sua
filha biológica e suas filhas simbólicas. A cena se passa em 1934,
em Londres; descreve o dia e a noite em que Melanie K l e i n n ã o
p ô d e comparecer ao enterro de seu filho. 4 1 Sua filha Melitta lhe
escreve que é provavelmente ela, Melanie, que é a causa da morte
de seu filho, possível suicídio. A m ã e nunca lerá a carta. Melitta é
afastada em proveito da terceira mulher, uma r e c é m - c h e g a d a ,
Paula, que inicia uma análise com Mme K l e i n no fim da peça.
A s s i m c o m e ç a o luto pelo filho, que é igualmente uma forma de
luto pela filha. Culpa e depressão impregnam o espetáculo domi-
nado entretanto pelo poder de Mme K l e i n : nada, decididamente,
nada pode desviá-la de sua perseverança em continuar sua obra,
sua vurk.42
Nada de homens nesse inferno de mulheres. O filho de Mme
K l e i n está morto, as três mulheres são ou foram casadas, mas os
O GÉNIO FEMININO 237

maridos, tiranos ou gozadores, n ã o compreendem nem as esposas


nem as b; talhas da p s i c a n á l i s e . 4 3 O teatro exagera e parodia: trans-
mite um* lenda do universo kleiniano que n ã o faz senão enfatizar
o que os 1 iógrafos mais escrupulosos não podem passar em silêncio.
Inse n s í v e r 4 4 " i m p l a c á v e l " 4 5 com os infiéis, exigindo "uma
lealdade >em reserva", 4 6 sem esquecer de ser " p a r a n ó i c a " e "de-
pressiva Melanie se endurece na defesa de seu pensamento e
castiga b|ntalmente as menores ameaças, os primeiros sinais de
autonomia pessoal ou intelectual. Leia-se a biografia de Phyllis
Grosskuiih para seguir os detalhes das numerosas seduções, mui-
tas vezes seguidaas de desavenças, que pontilham a vida de Melanie
K l e i n e S ão indissociáveis de sua carreira analítica: contentemo-
nos com embrar aqui as mais significativas, com as três discípu-
las favoritas Paula Heimann, Susan Isaacs e Joan Riviere.
Hein ann é a Paula da peça: aquela que substitui a filha no co-
ração de Melanie ao tornar-se a confidente de sua depressão, de-
pois sua malisanda, enfim sua filha simbólica, uma colaboradora
talentosa 4 7 Pouco antes de sua morte, em 1983, Paula confessa
que foi 1 astante "seduzida" por Melanie para fazer análise com
e l a . 4 8 A i validade da discípula com a filha toma uma nova forma
quando I aula se junta ao marido de Melitta, Walter Schmideberg,
na Suíça, onde se estabelecem definitivamente, n ã o sem se benefi-
ciar das > isitas da filha de sua analista: estranho trio Paula-Melitta-
Walter! 4 í Paula Heimann rompe oficialmente com Melanie em
1955, ao descobrir a teoria da inveja do seio: mas é possível que
ela tenha sido u m dos casos citados por K l e i n como exemplo de
:essiva. 5 0 Inveja de Paula, paciente "demasiado destru-
inveja
cofno Melanie d á a entender a Hanna Segal? O u inveja de
tiva"
>or causa da autonomia de pensamento de Paula? Melanie
Melanie
fazendo referência à sua própria pessoa quando, em
não estar
ratidão, evoca uma pretensa paciente que havia nutrido
Inveja e
um inteiiso amor por sua irmã, misturado com "sentimentos es-
quizóide e p a r a n ó i d e s " ? A verdade é que Melanie K l e i n exclui
Paula Heimann do Melanie K l e i n Trust Fund, em 51
1955, escreven-
do-lhe qi e n ã o deposita mais confiança n e l a .
Susah Isaacs era do grupo daqueles que tinham assistido às
conferên fias de Melanie em Londres, em 1925: Edward Glover,
S y l v i a Pkyne, John Rickman, Joan Riviere, E l l a Sharpe, os Stra-
chey. B r lhante psicóloga de crianças, diretora de estudos em psi-
238 MELANIE KLEIN

cologia na Universidade de Londres, ela se torna a primeira dire-


tora de Malting House School, escola experimental de Cambridge,
conquistada pelas idéias de K l e i n , que ela desenvolve com talen-
t o . 5 2 Analisada por Otto R a n k e Joan Riviere, sustenta Melanie
em particular durante a guerra, quando a chefe de fila se instala em
Cambridge com a nora e o neto, assim como na preparação de di-
versas réplicas durante as Grandes Controvérsias. Por meio de uma
c o r r e s p o n d ê n c i a regular, Melanie esforça-se por respeitar a inde-
p e n d ê n c i a de Susan Isaacs, enquanto, apesar disso, orienta-a com
autoridade. Isaacs se diz persuadida de que é Melanie, e n ã o Anna,
que é a verdadeira continuadora do pensamento freudiano. 5 3 E n -
tretanto, Paula Heimann relata a Pearl K i n g "conversas m a l é v o -
las" de Melanie a respeito de Isaacs. Malevolência de Melanie ou
de Paula?
A própria Joan Riviere n ã o escapou aos invernos kleinianos.
Oriunda da alta burguesia intelectual inglesa, analisanda de Jones
e do próprio Freud, primeira analista profana da Sociedade Britâ-
nica e tradutora de Freud, ela é fascinada por Melanie: rude e num
estado de sonho permanente, talvez, K l e i n n ã o deixa de vislum-
brar t a m b é m , para Joan Riviere, o "fogo sagrado". Freud, que lhe
aprecia a inteligência e provavelmente a firmeza, ataca, em sua
correspondência com Jones, "as declarações teóricas da sra. Riviere"
em vez de atacar Melanie em pessoa, a quem ele visava, de fato,
através de sua discípula. F i e l entre as fiéis, Riviere analisa Isaacs
e Winnicott, e redige a "Introdução geral" dos Desenvolvimentos
da psicanálise. Mas mostra-se reservada no tocante aos "casos-
limites" como os define Melanie, e n ã o se dispõe a levá-los em
conta na análise; o que n ã o a impede de ser uma teórica muito
sutil da "relação terapêutica negativa". 5 4
Será por isso que Melanie se mostra malévola e indiscreta a
seu respeito t a m b é m , sempre na opinião de Paula H e i m a n n ? 5 5 Teó-
rica da inveja, K l e i n nunca esteve certamente a salvo dela: inveja
em relação à m ã e , às irmãs, à cunhada, em relação a A n n a Freud,
Marie Bonaparte, Helene Deutsch (a T o m Main, que a leva em
casa uma noite, ela diz: " E u acredito que minha obra ficará, você
não acha? No m í n i m o fiz melhor do que Helen Deutsch, n ã o ? " ) . 5 6
Tinha ela chegado, no fim da vida, a pensar que a inveja entre
mulheres é não-analisável? Poderia ela ter dito isso, com sua voz
lenta sob o pesado sotaque alemão, com aquela risada barulhenta
O GÉNIO FEMININO 239

que lhe feio com o passar dos anos? Seria a inveja feminina n ã o -
analisáv fi como ela afirmava que o são um judeu ortodoxo e um
católico praticante? 5 7
A l g t m a s de suas adeptas mais fervorosas desmentirão esta
hipótese pessimista. Entre as que lhe continuaram fiéis, a mais
tenaz e i mais útil: Hanna Segal. Analisanda, depois escrupulosa
exegeta da obra k l e i n i a n a , 5 8 ela n ã o deixa de aprofundá-la, sem
renunck r a um humor desprovido de toda a complacência. O artis-
ta F e l i x Topolski, que fez de Melanie u m desenho, se recorda da
arrogâm :ia da psicanalista e de sua tez rosa de vienense, habituada
aos past éis cremosos e consciente de seu sex appeal: ele lhe deu
um ar c e abutre saciado, que chocou seus amigos. Já Segal n ã o
concorc a com eles: ela vê nesse desenho exatamente a expressão
satisfeit i que Melanie assumia depois de uma interpretação parti-
cularme nte bem enunciada. 5 9 Hanna Segal ou a travessia da inve-
ja... E l a foi bem-sucedida ali onde Paula Heimann havia fracassado.
Qu* lquer que seja o brio dos homens analistas da Sociedade
Britânic a — B i o n , Jones, Glover, Rickman, Strachey, Winnicott,
para só fitar uns poucos — , tem-se a impressão de que o destino
da psica nálise se decide, naquela época, e na era de Melanie, num
universi > matriarcal. R . D . L a i n g acha os kleinianos "sem humor",
e até "c )munistas", 6 0 R i c k m a n se zanga com eles, B i o n é instado
com lág rimas a citar sua dívida com a líder, e Winnicott ingressa
no gruf D dos "Independentes", afastando-se até "esfriar"... Mas
as mull eres psicanalistas, j á ativas nos outros países, estão na
Inglatei a no centro dos debates teóricos e passionais. R e c é m - c h e -
gadas n um mundo psicanalítico em si mesmo novo e repleto de
inovaçc bs, era inevitável que fossem excessivas. O retorno do re-
calcado — aqui o recalcado feminino — n ã o se d á sem violência.
Essas d imas, a c o m e ç a r por Melanie, se e x p õ e m assim ao psico-
drama i as relações incestuosas filha-mãe ou ao de uma homos-
sexuais ade feminina inconsciente? 6 1 Teóricas do objeto arcaico
exposto ao sadismo primário, como escapariam a isso, elas que
não rec mheceram o lugar do falo, único suscetível de separar ou
cultivai as " p u l s õ e s " e os "objetos"?
Nã( nos apressemos em tirar conclusões. A o "abre-te, s é s a m o "
que foi 3 "objeto interno" dos kleinianos sucedeu d a í por diante a
onipotê icia do "falo", que se supunha pudesse esclarecer todos
esses n al-entendidos e resolver todos os dramas passionais se-
240 MELANIE KLEIN

gundo os sucessores de Lacan. Mais difícil é dar-se ao trabalho de


entrar nos detalhes clínicos e históricos dos conflitos visados. A
experiência concreta parece bem mais complexa, bem mais arris-
cada e preocupada — da parte de Melanie, em todo o caso — com
uma atenção sem complacência para com os mais p r ó x i m o s .
A técnica analítica extraiu disso pelo menos um princípio indis-
cutível: as interferências entre amizades pessoais e vínculos ana-
líticos são inadmissíveis. Tais promiscuidades reforçam paixões que
se desvendam no divã e que n ã o t ê m um lugar nas ligações mun-
danas ou societais consideradas mais ou menos civilizadas. E x p l o -
radora do insuportável, a psicanálise está e deveria permanecer
"fora do mundo", como está "fora do tempo". U m ponto de referên-
cia masculino, paterno ou fálico, teria condições de proteger o uni-
verso psicanalítico das kleinianas ao promover a economia desses
psicodramas entre mulheres? Talvez, mas no sentido do recalca-
mento. A selvageria de certas reações em face da Melanie, ou de
Melanie, teria sido evitada. N a verdade, o fato é que seu desempe-
nho na cena pública concentrou a atenção nos verdadeiros objetos
da investigação kleiniana: a dependência materna e o matricídio.
D e fato, a l é m dos diversos confrontos entre as posições esqui-
zoparanóides mais ou menos latentes nessas damas, está a própria
a m b i ç ã o teórica de Melanie que se revela aqui em sua radicalida-
de insustentável. Será possível ir às fronteiras do recalque originá-
rio, ali onde o caráter simbólico do humano oscila à beira do caos?
A angústia extrema do próprio ou da própria analista é tão forte-
mente exigida, na viagem para essa estranheza, que poucos dentre
nós são capazes de suportá-la: ínfimo é o n ú m e r o de analistas que
possuem capacidades sublimatórias suficientes para " i r l á " sem
"lá ficar".
Notemos em primeiro lugar que são mulheres que assumiram
massivamente esse risco, junto com Melanie K l e i n . Embora haja
t a m b é m mulheres entre seus prudentes adversários, nós o vere-
mos: a feminilidade em si n ã o garante nada. Trata-se, em K l e i n ,
de uma certa maneira de pensá-la, de atravessá-la. Por outro lado,
a psicanálise freudiana encontra hoje resistências de tal ordem, é
tão pouco admitida, malgrado certas vulgarizações midiáticas, que
os avanços kleinianos permanecem — fora de um meio clínico
muito especializado nos tratamentos da psicose e da infância —
totalmente inaudíveis. Nossa "Valquíria", como seus inimigos n ã o
O GÊNI 3 FEMININO 241

hesitavfcm em chamá-la, aparece, no fim das contas, como uma


guarda avançada que volta de uma viagem ao fim da noite. Melanie
K l e i n r is ga o v é u de uma cultura baseada na conversação sagrada
entre m ã e e a criança, quando esta n ã o está na Pietà, e deixa
entreve r este lado de nossa civilização. C o m ela, a Oréstia, certa-
mente, assim como a teogonia c o s m o g ó n i c a grega, fundada sobre
pares c postos, que animavam o pensamento pré-socrático e so-
bretude H e r á c l i t o , 6 2 abrem u m caminho para o coração do mundo
modenjo e juntam-se às novas revelações psicanalíticas, chama-
dasi deáde então kleinianas, sobre nossas psicoses e nossas depres-
sões lajentes.
Se verdade, como pensa Freud, que só o filho pode às vezes
colmati ir na mulher uma angústia escancarada e se apresentar como
único c bjeto de amor i n d e s t r u t í v e l , 6 3 n ã o h á dúvida de que entre
m ã e e lha esta colmatagem tem dificuldade de se realizar. Mela-
nie Klein correu o risco de descer neste abismo. Pelo fato de a
termos lido, por termos tentado compreendê-la, n ã o deveríamos
mais sdntir a necessidade de fazê-lo outra vez. Estamos tão segu-
ros de ultrapassá-la — n ã o é mesmo? — simplesmente porque
acaban os de lê-la...

NOTAS

1. Cf. Perry M e i s e l , Walter Kendrick, Bloomsbury/Freud, James et Alix


Stra 'hey..., op. cit., p. 214.
2. Cf. K, p. 4 9 1 .
3. Cf. refácio à primeira e d i ç ã o , p. 3.
4. Writ ngs of Melanie Klein, Hogarth Press, 1975, e Karnac Books, 1992-
1991
5. Cf. 4elanie Klein et alii, Développements de la psychanalyse, op. cit., p.
187 nota 1.
6. Dev estas informações e apreciações a Phyllis Grosskurth ( c o m u n i c a ç ã o
pessp;al), a quem agradeço calorosamente.
7. Cf. K, p. 19.
8. Ibid
9. Ibid pp. 17-18.
10. Por )utras vias, mas de maneira análoga, Hannah Arendt teve de formular
bra numa língua estrangeira, o inglês, que certamente não deixou de ter
242 M E L A N I E K L E I N

efeitos sobre o desenrolar de seu pensamento: sobre seu didatismo p o l é m i c o


e sobre sua clareza — à distância da loucura suposta ou temida da língua
materna. Cf. Julia Kristeva, Le Génie féminin, t. 1: Hannah Arendt, op. cit.,
pp. 294-296, pp. 369-370 [O génio feminino, t. 1: Hannah Arendt, op. cit.,
ed. bras., Rocco, 2002].
11. Cf. em especial as notas endereçadas a Ferenczi e publicadas sob o título de
Vue d'ensemble des névroses de transferi. Un essai métapsychologique (1914-
1915), ed. a l e m ã 1985, trad. fr. Gallimard, 1986, pp. 30-44.
12. "Habitar, estar posto em segurança, quer dizer: estar intramuros (engefriedet)
no que nos é parente (in das Frye), isto é, no que é livre (in das Freie) e que
cuida de toda coisa em seu ser. O traço fundamental da habitação é este
cuidado. E l e penetra a habitação em toda a sua extensão. Esta e x t e n s ã o nos
aparece desde quando pensamos nisto, que a c o n d i ç ã o humana reside na
habitação no sentido da estada em terra de mortais", Martin Heidegger, "Bâtir,
habiter, penser" (1951), em Essais et conférences (1954), trad. fr. Gallimard,
1958, col. "Tel", 1980, p. 176; ou ainda: " A linguagem é a morada do Ser.
E m seu abrigo, habita o homem", id., Lettre sur Vhumanisme (1946), trad.
fr. em Questions III, Gallimard, 1966, p. 74.
13. Cf supra, cap. V I I I , 4, p. 213.
14. Cf supra, cap. I V , 4, p. 111 sq.
15. M K , p. 368.
16. Cf " S i x i è m e discussion", em Les Controverses..., op. cit., p. 483.
17. Ibid., p. 503.
18. Cf. "Negativity...", op. cit., p. 143.
19. Cf Joan Riviere, "Sur la g e n è s e du conflit psychique dans la toute première
enfance", em Melanie Klein et alii, Développements..., op. cit., pp. 44-45.
20. Joan Riviere, "Introduction générale", ibid., p. 34.
21. Ibid., p. 19.
22. Ibid., p. 33.
23. MK, p. 585.
24. Ibid., pp. 67 e 77.
25. Cf supra, o caso L i s a , cap. I I , 3, pp. 57 sq. Mas o boato n ã o está definitiva-
mente confirmado.
26. Cf.MK,p. 241.
27. Cf supra, cap. V I , 3, pp. 200-201.
28. Cf M K, p. 262.
29. Ibid., p. 282.
30. Ibid., p. 384.
31. Ibid., p. 385.
32. Ibid., p. 378.
33. Ibid., p. 381.
34. Ibid., p. 409.
35. Ibid., p. 319.
36. Ibid., p. 598.
37. Ibid., p. 599.
38. Ibid., p. 457.
O GÊÍs O F E M I N I N O 243

39. Ibid
40. Cf. r. fr. Seuil, col. "Champ freudien" 1991.
41. Cf. upra, cap. I I I , 4, p. 88.
42. M. pp. 283-284.
43. Cf lúc Laurent, "De la société des femmes", em Nicholas Wright, Madame
op. cit., p. 117.
44. M p. 304.
45. Ibia p. 549.
46. Ibia , p. 284.
47. C / ;eus escritos, principalmente em Développements de la psychanalyse
(19: 2), op. cif, cf t a m b é m sua teoria inovadora da contratransferência, su-
pra, cap. V I I I , 2, pp. 276-278.
48. M p. 493.
49. / t o p. 476.
50. Ibia , pp. 541 sq.
51. / t o p. 545.
52. Cf. upra, cap. V I I I , 2, p. 196.
53. C / eu "Nature et fonction du phantasme", em Melanie Klein et alii, Déve-
loppc ments de la psychanalyse, op. cit., pp. 64-114.
54. C / Contributions to the analysis of the negative therapeutic reaction", em
toe -national.Journal of Psychoanalysis, 1936, X V I I , pp. 304-332; trad. fr.
Psy 'hanalyste"es, n- 26, pp. 3-19.
55. M p. 494.
56. / t o p. 544.
57. C / obre Melanie Klein e a possibilidade de analisar outras culturas: " E u
nunca tentei, teria gostado muito", em M K, p. 573.
58. De>|em se-lhe, entre outras, duas obras bem didáticas: Introduction à Voeuvre
de le lanie Klein, op. cit., e Melanie Klein, développement d'une pensée,
op. :it.
59. M , p. 567.
60. Ibid p. 581.
61. Phy ! is Grosskurth fala de "forte tendência homossexual" em Melanie (ibid.,
P 46 7) e descreve-a como "andrógino mulher cujos verdadeiros filhos eram
seu conceitos" (p. 498).
62. Cf C l é m e n c e Ramnoux, La Nuit et les enfants de la nuit de la tradition
greique Flammarion, 1959, que estrutura esse universo pré-ontológico em
pare^ binários (alto/baixo, vazio e negro, terra e profundidade, a própria
noite tendo dois filhos, um negro e um branco: Tanatos e Hipnos e t c ) , cuja
reve rsibilidade ensina a encarar a morte de frente.
63. Enquanto toda relação humana é ambivalente, visto que c o n t é m um fundo
de ntimentos hostis, "a relação da m ã e com o filho" faz e x c e ç ã o : "fundada
sob e o narcisismo, [ela] n ã o é perturbada por uma rivalidade ulterior e é
reforçad;ia por um início de escolha de objeto sexual". Cf Sigmund Freud,
Psy hologie desfoules et analyse du moi (1921), G W, t. X I I I , pp. 73-161, S
E, X V I I I , pp. 65-143, trad. fr. em Essais de psychanalyse, Petite Biblio-
thèi (ue Payot, 1981, p. 162, nota 2.
X

POLÍTICA DO KLEINISMO
1.1 )as Controvérsias aos Independentes

De: rontando-se com as angústias arcaicas, pouco analisadas


antes d la, e depois de ter conquistado os terapeutas britânicos,
Melani K l e i n obteve uma audiência internacional no seio do mo-
vimenti psicanalítico. A seu pensamento inovador e a seu talento
se aliar uma infatigável tenacidade e uma capacidade ímpar de
dirigir eus amigos, de dividir seus adversários, de administrar as
invejas e as gratidões, que revelam a mulher de poder. Muitos se
aperceh em disso logo depois de sua chegada à Inglaterra. A s s i m
Ferencz , desde 1927, após uma visita a Londres, como j á lem-
bramos escreve a Freud para denunciar a "influência dominante
que Fr4u Melanie K l e i n exerce sobre o conjunto do grupo [...].
Fora do|valor científico de seu trabalho, vejo nisso uma influência
dirigid* contra V i e n a " . 1 Terá Melanie "mesmerizado" a Socieda-
de Britânica, como alguns a acusarão? Transformada em "objeto
idealiza do", aceitará ela ser rebaixada à condição de "objeto desa-
creditac o"? Tanto os adeptos como os céticos destacam de imediato
as inovi ições kleinianas, segundo uns, as transgressões doutrinais,
segund outros. O debate se cristaliza de forma aguda desde que
a própria Anna Freud c o m e ç a a publicar, propondo uma psicaná-
lise das crianças em oposição às idéias de Melanie. A s primeiras
escaran uças explodem quando a filha do mestre tenta se fazer
editar ria Inglaterra.
A n i a Freud (1895-1982) é treze anos mais m o ç a que Melanie.
248 MELANIE KLEIN

A caçula de Freud, analisada pelo pai, sem diplomas de estudos


secundários, embora de uma inteligência brilhante, é formada na
psicanálise de crianças por Hermine von Hug-Hellmuth e se torna
membro da Sociedade de Viena em 1922. A p ó s ter praticado du-
rante dois anos a análise de crianças, publica precipitadamente O
tratamento psicanalítico de crianças'? importa de fato para a filha
e herdeira do inventor da psicanálise, cujo câncer é desde e n t ã o
conhecido, afirmar sua própria autoridade. E m sua conferência de
1927 em B e r l i m , Anna Freud sustenta que é arriscado empreender
uma análise das crianças normais, ao contrário de Melanie, para
quem a análise deve fazer parte integral da educação de todas as
crianças. Seu livro diz, em resumo, que o analista deve se colocar
na p o s i ç ã o de ego ideal da criança para que o tratamento possa
prosseguir; esta autoridade de mentor superior aos próprios pais
está em oposição às concepções kleinianas.
Os analistas ingleses — Barbara L o w (cujo apoio a Anna Freud
nunca faltará e que faz uma resenha elogiosa de seu livro), Eder,
Glover, Riviere, Sharpe e a própria K l e i n — l ê e m com atenção
meticulosa o trabalho da filha do mestre. Ainda que h e t e r o g é n e o ,
o grupo é unânime em considerar, segundo a carta de Jones a Freud
e em resposta a suas críticas, que é inoportuno publicar em inglês
um estudo que " d á prova de um pouco de precipitação", repousa
"sobre uma base experimental escassa" e corre o risco de impor
uma "parada" ao desenvolvimento da psicanálise das c r i a n ç a s . 3 A t é
o f i m de sua vida, Anna Freud guardará m á g o a dessa desaprova-
ção, especialmente em relação a Jones, que demonstra naquele mo-
mento uma certa petulância frente a Freud.
O antagonismo entre as duas mulheres não deixará de se acirrar
cada vez mais. Essas duas personalidades intransigentes — Anna-
Antígona e Melanie-Valquíria — , de culturas diferentes, defen-
dem cada qual uma concepção da psicanálise das crianças. E l a s
se enfrentam apoiando-se em interpretações divergentes dos tex-
tos de Freud. Logo cedo os pontos de ruptura ficam muito nítidos
para as duas teraupeutas, e Melanie resume assim os princípios
da análise da criança segundo Anna Freud, que lhe parecem ina-
ceitáveis: 1. a análise do complexo de É d i p o da criança é impossí-
vel porque interfere nas suas relações com os pais; 2. a análise da
criança deveria se limitar a metas educativas; 3. a análise n ã o de-
veria aceitar a neurose de transferência por respeito aos pais, cujo
O GÊNIÍ) FEMININO 249

papel é predominante na vida da criança; 4. o analista deveria


ganhar confiança da criança, na base da qual se desenrolará a
análise. 4 Se esses princípios fossem admitidos, iriam de fato con-
tra as ervações de Klein, que muitos analistas aceitam já como
bases dd uma nova técnica analítica: a precocidade do Édipo; a
presença concomitante de uma relação agressiva com o objeto,
resultado da projeção da pulsão de morte; a anterioridade do su-
perego; rapidez da transferência infantil e o sentido de sua percep-
ção na iijterpretação, principalmente da transferência negativa etc.
Todas e sas formulações são especificadas nos trabalhos de Me-
lanie — e serão retomadas quando da publicação em inglês de A
psicanálfc e de crianças, em 1932.
Os ^nnafreudianos, em compensação, objetam a Melanie —
além dai novidades teóricas que acabamos de mencionar — que
ela não va em conta a existência real da mãe, mas interpreta es-
sencialn ente a partir de phantasmes e pulsões inatos emprestados
à criança Vários clínicos tão diferentes como Melitta, Bowlby e
Winnicott compartilham em graus diversos dessa opinião, e certos
Indepen entes tentarão preencher as lacunas kleinianas a esse res-
peito referindo-se aos trabalhos sobre a maternagem de Merrel
5
Middlen^ore O casal alimentador.
Este contencioso entre as duas analistas, precedendo a chegada
dos Freiid a Londres em 1939, se encontra no pano de fundo das
dissensõ ÍS que irão formular clínicos britânicos e continentais, e
que serã) aprofundadas no curso das hoje célebres Controvérsias.
A abertu a de espírito, uma pesquisa científica apoiada na experiên-
cia empjnica, mas também um sentido bastante democrático da
política nstitucional da Sociedade Britânica transformarão este
contencioso num debate científico sem precedentes, como teste-
munha publicação das Controvérsias.
Bem antes da Segunda Guerra Mundial, portanto, as diver-
gências í e cristalizam e as fraturas se esboçam no seio mesmo da
Sociedade Britânica de Psicanálise. A querela passional entre Me-
lanie e /lelitta, atiçada por Glover, envenena as discussões. A
partir de 1938, junta-se a isso a situação política: numerosos analis-
tas do co itinente europeu
< — Bibring, Edelberg, Hitschmann, Hoffer,
Isakowei | Kris, Lantos, Stengel, Schur, Stross, Sachs, Straub, Balint
e outros —, fugindo do nazismo, encontram refúgio na Inglaterra,
Sua c:heg;J;a massiva agrava a crise latente. De um lado, o freudis-
250 MELANIE KLEIN

mo clássico e o annafreudismo, que se consideravam hegemónicos,


esbarram na Inglaterra com uma dissidência que está longe de ser
marginal, como se podia julgá-la a partir do continente. De outro
lado, o afluxo de recém-chegados e a situação de guerra põem os
clínicos diante de problemas de falta de clientela e até de desem-
prego. Quem terá as análises didáticas? Como se fará a formação
dos estagiários? Certos grupos não abusam de suas prerrogativas
lesando os outros? Como sempre, o "poder" simbólico se revela
simultaneamente económico. Por trás dos embates teóricos, uma
luta social se trava para dominar o campo da psicanálise.
Freud morre em 23 de setembro de 1939. Seu falecimento
afeta todos os seus próximos e discípulos. Mais ainda, no contexto
dramático da guerra, seu desaparecimento incita seus continuadores
a uma clarificação das idéias do mestre. Cada um se vale dele, os-
tenta uma escrupulosa fidelidade e procura, de fato, se apropriar de
sua obra: grande banquete totêmico onde se debatem os filhos —
dirigidos pelas filhas — e onde se trata de separar os "puros" dos
"impuros". A psicanálise, disciplina ainda jovem, dá a impressão
de ser vivida mais ou menos inconscientemente como uma religião
por seus protagonistas. O cisma junguiano já havia dado prova
disso num passado recente, a dissidência lacaniana seria uma outra.
Entretanto, recuando no tempo, pode o leitor ter o sentimento
de que os abalos sofridos pelo movimento analítico na Inglaterra
durante a guerra, a partir da obra de Melanie Klein e em suas po-
lémicas com os annafreudianos, são o exemplo encorajador de uma
travessia possível dessa religiosidade. À violência dos conflitos,
de efeito sacrificai, se não sagrado, se juntaram um verdadeiro
trabalho de meditação e uma elaboração teórica e clínica bem como
institucional. Abriu-se, desde então, o caminho para uma verdadei-
ra pesquisa psicanalítica, mediante uma troca de pontos de vista
novos e complementares: poderá ela realmente ser levada adiante,
aprofundada pelos sucessores desses pioneiros?
Por ora Melanie é informada da vinda dos vienenses,7 de cujo
conformismo tem medo. "Nada será como antes. É um desastre."
Os próprios vienenses, perseguidos e fragilizados pelo exílio, es-
tão expostos a um sentimento de que "bei uns war es besser" ("era
melhor em nossa casa"). Tudo está pronto para que o conflito se
radicalize, estimulado por Glover e Melitta. Tanto mais que os
analistas de origem inglesa se refugiam no campo durante a guerra,
O GÉNIO FEMININO 251

ao passo que os continentais permanecem em Londres e se auxi-


liam mutluamente participando das jornadas de discussões teóricas:
majoritá
majc ios de início, minoritários no fim. Um middle group se
enrosca mtre as duas falanges, observadores se interrogam sobre
as jogadas dessa tempestade intelectual. Como James Strachey
que, qualificando não sem razão os dois clãs de "extremistas",
escreve Çsta estranha carta a Edward Glover em 1940:
"Por que todos esses miseráveis fascistas e comunistas invadem
8
nossa ilqa tranquila e acolhedora? — (malditos estrangeiros!)"
Enqi anto Londres está a ferro e fogo, bombardeada pelos
aviões njizistas, psicanalistas, indiferentes ao Blitz, não param de
argumeni ar sobre a pertinência dos contributos kleinianos, sobre
o sentido exato que Freud quis dar à "pulsão de morte" ou ao "su-
perego", sobre a natureza e sobre a precocidade da "fantasia preco-
ce sobife "o eu corporal", sobre a "rejeição" e a "negação", sobre
a possib lidade ou a impossibilidade de um juízo científico em
psicanáli s<e; em suma, sobre o sexo dos anjos...
9
O ddbate bizantino começa por questões muito terra a terra:
como fofmar os jovens analistas? Os kleinianos não chamam a si
a maiori dos candidatos? Nomeia-se uma comissão, que conclui
pela ausf ncia de "manipulações" dos estagiários por parte de Me-
lanie! Melindrados, os kleinianos que tinham pensado romper por
um morr ento respiram. Pouco importa, as disputas teóricas conti-
nuam C lover e Melitta são intratáveis; Anna Freud se mostra
mais razpável, ainda que ditatorial e agressiva; Jones talvez não
seja mau do que um fraco e um espertalhão — Melanie tem todos
os motivas de pensar assim; Ella Sharpe troca de lado; Sylvia Payne
é bastaníe objetiva, mas Joan Riviere não aceita nenhum questio-
namento da parte dos vienenses, e somente Winnicott — mais
ndepenc|ente e mais sóbrio do que nunca, participando apenas
indepen<
das disc ssões — se permite chamar a atenção para a realidade:
"Desejo lembrar que está havendo um ataque aéreo", diz ele no
decorrer de um debate sobre... a agressão em psicanálise!
Os cias iestão constituídos. Com Anna Freud: Dorothy Burlin-
gham, Kate :Friedlander, Barbara Lantos, Hedwig Hoffer, Barbara
Low e E l l a Sharpe que se junta ao grupo — Melitta brincando
entre os francos-atiradores. Continentais — homens —, menos
eficazes jue essas damas, também fazem parte dele: S.H. Foulkes,
Willi Hoffer e Walter Schmideberg. O partido kleininano conta
252 MELANIE KLEIN

com mulheres decididas: Paula Heimann, Joan Riviere, Susan


Isaacs e parcialmente Sylvia Payne, que logo se tornará uma In-
dependente; e homens como Roger Money-Kyrle, John Rickman,
W. Scott e D.W. Winnicott. Os intermediários se fazem ouvir:
James Strachey, Marjorie Brierley... A maioria dos membros da
Sociedade Britânica passa a formar cada vez mais o middle group
e se inquieta com o proselitismo dos kleinianos. 10
Jones leva um inestimável senso da diplomacia até à hesitação
e à indecisão, navegando de uns para os outros, como prova esta
carta a Anna Freud datada de 21 de janeiro de 1942:
"... Considero que a sra. Klein trouxe importantes contribuições
[...]. Por outro lado, ela não tem nem um espírito científico nem
um espírito organizado, e sua maneira de apresentar a teoria é la-
mentável."
Notadamente no que se relaciona com o Édipo e o papel do
pai, acrescenta, esquecendo que ele mesmo seguiu Melanie nesse
plano em seu trabalho sobre a Fase fálica, em 1934! Aliás, o pre-
sidente não é muito afetuoso com Anna tampouco:
"Uma coisinha coriácea e indigesta. Ela não pode sem dúvida
ir mais longe na análise e não tem originalidade inovadora." 11
De fato, Jones desaparece durante as Grandes Controvérsias,
sofrendo de doenças psicossomáticas, e se refugia no campo para
se tratar bruscamente, no fim das mencionadas Controvérsias, não
sem ter deixado a Glover o campo livre para conduzir as opera-
ções — retirando assim a Melanie todas as chances de se benefi-
ciar de seu apoio. Não obstante, o vento muda, e Edward Glover,
antes de tudo diretor do instituto, se sente cada vez mais em dificul-
dade em face do sucesso das teses kleinianas e do compromisso
que se inicia entre os clãs. Demite-se em 1944 e torna-se membro
da Sociedade Suíça, lamentando ver a Sociedade Britânica "con-
duzida pelas mulheres" e "o imbróglio Klein se desenvolver", o
que é apenas uma maneira implícita de reconhecer que suas ma-
nobras para desacreditar Melanie fracassaram.
Anna Freud, que partilhava com Melanie Klein a formação
em análise de crianças, demite-se do Comité de Formação e dirige
seminários no domicílio. Já é considerada uma autoridade com
seu livro O ego e os mecanismos de defesa12 e organiza a Child
War Nursery, em Hampstead, que ficará sob sua influência. 13
Diante dela, a prestigiosa Tavistock Institute & Clinic. Esta
O GÉNIO F E M I N I N O 253

foi fundafia em 1920 por Hugh Crichton-Miller para tratar os shell-


schocks, (u traumatismos nervosos causados pelas granadas (tremo-
res, para sias, alucinações). Sob a direção de John Rees, suas ati-
vidades S t estendem aos tratamentos de delinquentes, em terapia
individue 1 ou de grupo. Sob a influência de Rickman e Bion, as
teorias frèudianas e kleinianas se tornam ali dominantes a ponto de
a Tavisto :k Clinic ser considerada como um dos bastiões de Klein,
John Bo> /lby introduziu aí, a partir de 1946, o espírito dos Inde-
pendente > e a terapia familial, e Balint sua técnica dos grupos.14
Muit combativa, até "ditatorial", mas desestabilizada pelo
avanço das posições kleinianas, Anna Freud ameaça e manobra a
tal ponto que se chega a temer que venha a seguir Glover: iria a
filha de reud se demitir da Sociedade Britânica de Psicanálise?
Impossívfelri! Que fazer? O clima não pode estar mais elétrico.
Melafriie não deixa, também ela, de se perguntar se não deveria
provocar uma cisão, como alguns lhe sugerem. Divide seu tempo
entre Calnbridge, com a família, e seus pacientes, sobretudo na
Escócia, em Pitlochry, onde analisa o pequeno Richard. Ausente
das Cont ovérsias no início, para lá envia os seus, não sem dirigi-
los com nuita habilidade e firmeza: assim supervisiona de alto a
baixo o tabalho de Susan Isaacs sobre o phantasmeP Suas inter-
16
venções nais são raras, Jones a impede às vezes de falar, mas as
notas e as cartas afluem, e quando Klein apresenta textos, as pági-
nas são c e n s a s . U m verdadeiro espírito militante se desenvolve
em torna dela. Os mais apaixonados de seus adeptos formam o
"Grupo ( ) I " ("Objeto Interno") com o fim de esclarecer e tornar
acessíve] a teoria da matriarca. O "grupo de combate" se compac-
ta: Paula Heimann, Susan Isaacs e a intransigente Joan Riviere.
Dos lois lados são as mulheres que se mostram mais ativas,
mas nao cessam por sua vez de recorrer aos homens: os papais
Jones e C r kover são invocados ou estão presentes, e as autoridades
simbólic s de Freud e Abraham são frequentemente citadas, em
18
particula I por Melanie. A figura do pai, morto ou não, paira sem
contestado sobre as Controvérsias. Tanto mais que com o recuo
o clã klei niano parece menos sólido do que parecia um pouco an-
tes, e o ^ ênio político de Melanie se revela ainda mais surpreen-
dente. D< )is exemplos:
Quai do tudo parece inconciliável, ela tenta um compromisso
com Ann a Freud em maio de 1942. Esta se mostra "felizmente sur-
254 MELANIE KLEIN

preendida" por essa iniciativa, e mesmo que o armistício ainda


esteja longe, a idéia de Melanie é clara: não quer cisão, ela se apre-
sentará como a continuadora de Freud, precisará de tempo para
prová-lo, eis tudo, com Anna eventualmente, ou contra ela, mas
não contra a psicanálise, que é e só pode ser freudiana. Klein de-
testa o adjetivo "kleiniano", e tem razão. Só a maledicência de
Glover pretende fazer crer que Melanie se toma por um profeta,
até por Jesus: sua determinação de inovar no quadro dofreudismo
é uma convicção e, por isso mesmo, uma estratégia convincente.

Minha mais forte experiência foi Além do princípio do prazer e O


ego e o id. Que experiência! Num grau menor, v i muitas vezes uma
luz nova despontar em meu próprio trabalho, e as coisas surgirem
assim modificadas [ela evoca aqui sua descoberta da reparação e da
posição depressiva]. Creio que não teria sido inconcebível que essas
descobertas tivessem sido feitas pelo próprio Freud, e ele teria tido,
sim, a estatura, a força, o poder de as apresentar ao mundo. E u não
queria que me compreendessem mal. Não tenho medo de me bater
contra quem quer que seja, mas na verdade não gosto de me bater. O
que desejo é deixar tranquilamente que os outros participem de qual-
quer coisa que eu sei ser verdadeira, importante, salutar...19

Bela insolência e nobre modéstia!


No mesmo espírito, ela envia uma nota a Winnicott para se
desculpar de lhe pedir que modifique o tom de sua proposta de re-
solução: ao orientar Winnicott, é a bagagem comum de ambos na
locomotiva Freud que ela protege antes de tudo. E endereça aos
outros membros do grupo este comentário relacionado com o tex-
to de Winnicott:

Penso que a impressão que ele corre o risco de dar, de que, para
ele, Freud pertence mais ou menos à história passada não seria somen-
te perigosa, mas também que o próprio fato não está comprovado.
Os escritos de Freud conservam ainda toda a atualidade e continuam
a nos guiar em nosso trabalho [...]. Tudo que pudesse dar a impres-
são de que pensamos que está na hora de pôr Freud de lado constitui
a armadilha mais perigosa em que somos suscetíveis de cair. 20

Eis aí o que poderia se chamar já, em boa estratégia, um "re-


torno a Freud"... A um Freud evidentemente renovado!
O GÊNI ) F E M I N I N O 255

Me anie não se contenta em lembrar suas posições para se


defende ; ataca aqueles que não leram Freud como ela o l ê , 2 1 e
fortaleci \ suas próprias idéias. Não, não nega a existência da reali-
dade ex|en da mãe, e se pensa que o percebido é sempre "colo-
rido" pelo phantasme, não deixa de admitir uma "vicissitude das
relaçõe com os objetos internos", que são "fluidas" e não estão
22
estabele ridas de uma vez por todas. Sim, "os germes de sen-
timentoi depressivos existem desde o início da vida", mas se es-
pecificarn entre o terceiro e o quinto mês no decorrer da posição
depress i va. Não, o pai não está presente antes do quarto mês no
23
phantastyiedo bebê. Não, o amor pela mãe não é simplesmente
uma lib: do, mas uma verdadeira gratidão para com aquela que o
24
bebé petisa de imediato em nutrir por sua vez, uma emoção já
muito cpmplexa antes da posição depressiva, se bem que só se
25
desenvc va totalmente com essa posição. Sim, uma sublimação
imediatí se constrói na relação com o seio, que é uma verdadeira
"ponte entre a onipotência paranóide do lactente e a aprendiza-
gem da adaptação à realidade.
26

A teórica consolida seu castelo enquanto a mulher política in-


triga coi n habilidade, sobretudo em torno do relatório preliminar
de Strachey sobre a formação dos psicanalistas. Não sendo ela
mesma nédica, Melanie combate a discriminação que pesa sobre
os psicanalistas não médicos, e sustenta a necessidade de uma
formaçáo psicanalítica específica, a formação médica em si não
qualificàndo de modo nenhum para compreender a doença men-
tal. Diaite de Strachey, declara permanecer nos "bastidores", não
sem r bem judiciosamente que não parece desejável "punir
27
as origijalidades"; está subentendido que essas "originalidades",
isto é, as suas, estão a ponto de vencer. Ao mesmo tempo que
lembra os de seu partido:

E evemos evidentemente ter cuidado para não darmos a menor


razã ) de pensar que triunfamos: creio de hoje em diante que posso
supc rtar por um certo tempo ainda a situação em que meu trabalho
é a i m só tempo apreciado e desacreditado, às vezes num fôlego só,
pela; mesmas pessoas.28

A g lerra das damas se encerra com a paz das damas. Operam-


se múlti alas reviravoltas: alguns fiéis, Marjorie Brierley, Barbara
256 MELANIE KLEIN

Low, Ella Sharpe, assim como Adrian e Karin Stephen (seguido-


res da primeira hora) se voltam com hostilidade contra Melanie.
No mesmo instante, Sylvia Payne — que, com W. H. Gillespie, se
tinha declarado "Independente" e havia defendido o trabalho de
Susan Isaacs sobre o phantasme — se desilude com Glover: larga
definitivamente o adversário de Melanie. Sylvia Payne é eleita
presidente da Sociedade Britânica de Psicanálise em 1944. As te-
ses kleinianas se impõem mesmo entre os adversários: sem adotar
a posição depressiva, não começa a própria Anna a falar do "des-
gosto dos bebés"? A sita. Freud se demite do Comité de Formação
em janeiro de 1944, e se abstém, assim como Glover, os Schmi-
deberg e os vienenses, de toda participação na segunda série das
Controvérsias, retornando o "poder" assim de facto aos membros
da Sociedade de antes da guerra. 29 Depois de múltiplas tratativas
teóricas e administrativas, chega-se a um compromisso. Essas
damas — e esses cavalheiros — se submetem aos princípios de
uma democracia de coabitação: quanto ao aspecto institucional,
dois padrões de formação psicanalítica serão legalizados para dar
satisfação aos annafreudianos e aos kleinianos. Não sem que nu-
merosos clínicos — e dos melhores — sintam em relação a Mela-
nie, como o fazem R. D. Laing, Marion Milner, D. W. Winnicott
e Sylvia Payne, uma mistura de irritação e admiração.
Não é o menor benefício resultante dessa rixa de clãs psica-
nalíticos ter permitido analisar de perto a lógica tirânica dos gru-
pos — de todos os grupos. Pode-se avançar de fato a hipótese de
que o funcionamento sectário e o espírito de igrejinha de que os
kleinianos não deixaram de dar prova (chegou-se mesmo a cari-
caturá-los dando-lhes o nome de "Igreja de Ebenézer") 3 0 serviram
de laboratório a Bion — além de sua experiência de psiquiatra
militar encarregado de um serviço de readaptação — quando ele
propôs uma análise irreverente do funcionamento dos grupos.31
Embora inspirado em conceitos kleinianos, o trabalho não agra-
dou, parece, a Melanie, com quem Bion estava em análise quando
o escreveu: e com razão!
O autor assimila aí a crença num grupo como entidade, e não
como simples agregado de indivíduos, à temível relação com o seio
(ou objeto parcial) para o lactente. A incapacidade de poder res-
ponder às exigências dessa tarefa é vivida como uma insuportável
frustração, que se revela na regressão esquizoparanóide dos mem-
O GÊN O FEMININO 257

bros de ;se mesmo grupo. Ainda que o grupo familial, com sua li-
bido ed piana, continue a ser em larga medida, como pensa Freud, o
protótip o do vínculo grupai, Bion modifica sensivelmente esta aná-
lise ao \ ifirmar que a dinâmica de grupo é sustentada por mecanis-
mos be n mais primitivos, que dependem das posições depressiva
e esqui: :oparanóide segundo Klein. Com efeito, o grupo, qualquer
que sejj i (fundado na hipótese de dependência: religiosos; de asso-
ciação: os aristocratas; ou de ataque-fuga: os militares), encobre,
ao mesmo tempo que uma ansiedade psicótica, reações de defesa
contra ésta. Porque a incapacidade de formar símbolos não é so-
mente e specífica de certos indivíduos isolados, como mostrou Klein
com Dick, mas também "se estende a todos os indivíduos quando
eles agem enquanto membros de um grupo de base". 32
Densas regressões esquizoparanóides as Controvérsias guar-
dam sem dúvida a marca, e a personalidade de Melanie incontesta-
velmente reforçou a imago de um seio fascinante e perseguidor.33
Mas e l i impulsionou também — Bion é a prova disso — a análi-
se desse fenómeno, no sentido etimológico do termo: isto é, sua
decoméosição, através de um trabalho efetivamente analítico de
uma profundidade e de uma lucidez sem precedentes, daí por dian-
te aplidável à interpretação de todo grupo, seja ele psicanalítico,
político, religioso ou qualquer outro.
Enfim, o resultado mais importante desta "paz entre as damas"
é simp esmente a prossecução do espírito de pesquisa. Além da
constiti ição do chamado grupo dos "Independentes" (Jones, Sharpe,
Flugel, Payne, Rickman, Strachey, Brierley, Fairbairn, Winnicott,
Balint, IKluber, Khan e Bowlby), 3 4 os analistas britânicos suscita-
ram um movimento ecuménico de verdadeira investigação psica-
nalítica . Daí em diante essa abertura de espírito e esse gosto das
confroi ttações são apreciados por todos aqueles para quem a psi-
canálise é uma pesquisa viva. Mais intimamente, enfim, o resulta-
do diss a é esta meditação de Winnicott que, em paralelo com Bion
pulverizando o espírito de grupo, avança para uma alternativa mais
serena^ essencialmente mais analítica: " A capacidade de ser s ó " 3 5
(1958) como fundamento da criatividade, e muito particularmente
da criatividade em psicanálise. Melanie lhe responderá em eco
com seu "Sentir-se só", artigo em que desenvolve de maneira po-
sitiva (J sentimento de solidão... Quase um programa!36
258 MELANIE KLEIN

2. Inveja e gratidão de Lacan

A primeira referência de Lacan a Klein se lê em sua explana-


ção sobre a agressividade, apresentada em maio de 1948 no X I
Congresso dos Psicanalistas de Língua Francesa, em Bruxelas. 37
Ele assimila sua própria noção de "imagens do corpo fragmenta-
do" aos "objetos internos" das fantasias arcaicas segundo Melanie,
e saúda nesta "fenomenologia da experiência kleiniana" as "fan-
tasias da fase dita paranóide". 3 8 Apropriando-se da posição para-
nóide segundo Klein, amplifica e define o ego como uma instância
de desconhecimento imaginário, construída como uma estrutura
paranóica. A transferência negativa explorada por Klein o leva a
compreender a cura como uma paranóia dirigida que contribui
para desfazer os desconhecimentos do ego: a psicanálise "induz
no sujeito uma paranóia dirigida", equivalente à "projeção dos maus
objetos internos segundo Klein, mecanismo paranóico [...] filtrado
e vedado na medida" 39 pela análise. Bem fielmente, Lacan faz re-
montar seu conceito de "imaginário", ainda em gestação em 1948,
aos trabalhos de Melanie: "primordial grávida imaginária formada
pela imago do corpo materno".40 A idéia de um superego arcaico
parece também lhe convir, com a condição de insistir menos na
prematuridade biológica que o sustém do que na dimensão cultu-
ral "significante". A "persistência imaginária dos bons e dos maus
objetos" induz a concepção de um superego precoce, o qual re-
veste para o sujeito uma significação "genérica"; diga-se o mesmo
da dependência infantil ligada à "miséria fisiológica" do bebé, mas
inseparável de sua "ligação com o meio ambiente humano". O
superego aparece como uma instância significante, na "junção da
natureza e da cultura". 41
Muitas dessas idéias são retomadas quando do X V I Congresso
da Associação Internacional de Psicanálise, em Zurique, em 1949,
onde Lacan expõe "Le stade du miroir comme formateur de la
fonction du Je". O primado conferido ao visual como organizador
significativo das outras sensações na estrutura do sujeito aparece,
desde esta conferência, em descompasso com os postulados klei-
nianos. 42 Lacan presta aí também a Anna Freud uma homenagem
insistente, que foi muitas vezes interpretada como uma estratégia
política de aproximação com a filha do "fundador". Se bem que
O GÊNIf) FEMININO 259

Lacan dfevesse pôr pelo menos dois ferros no fogo da psicanálise


internac onal, poder-se-ia ver nessa referência a A n n a uma certa
maneira de se dissociar dos limites do kleinismo, preocupado com
o ego pi imitivo. Lacan procura um apoio para sua própria teoria
não-freu diana do sujeito, e abandona Melanie, lançando por um
instante um olhar para as proposições bastante empíricas e limita-
tivas de Anna Freud concernentes aos mecanismos secundários
ou de d( fesa do ego. E l e finalmente reduzirá ambas a essa "fun-
ção de c esconhecimento" onde as defesas egóicas da sita. Freud
se juntai a ao phantasme kleiniano.
E n q lanto corteja Anna, L a c a n estabelece na mesma é p o c a
contatos com Melanie e lhe d á a entender que "o ponto de vista
progress ísta em psicanálise", que Melanie supõe que ele assume
na Franç a, n ã o poderia ser representado por A n n a Freud no próxi-
mo Con jresso Mundial de Psiquiatria da Criança, em Paris, em
1950, m is pelos próprios kleinianos. 4 3
Sedi ç ã o , apropriação, ultrapassagem: este jogo pelo menos
ambíguo devia ter como resultado um ato falho ou... uma verdadei-
ra saboto gem? R e n é Diatkine, em análise com Lacan, traduz do
alemão * primeira parte de A psicanálise de crianças (1932), e con-
fia sua ti adução a Lacan. U m a analista em tratamento com Lacan,
François í Girard, que desposará o analista canadense Jean-Baptiste
Boulang ír, o b t é m de Melanie a autorização de traduzir os Ensaios
de psicat álise (1948). Melanie sabe por Diatkine que a metade de
A psican ílise de crianças está traduzida, mas que L a c a n n ã o é o
autor des ta versão. No entanto, é isto que Lacan afirma aos Boulan-
ger ao m ssmo tempo que lhes p r o p õ e que eles mesmos traduzam
a segunc a metade. A primeira parte da tradução, a de Diatkine
entregue a Lacan, n i n g u é m encontra! L a c a n jamais admitirá ofi-
cialmenti \ tê-la perdido, e Diatkine não guardou cópia! E m janeiro
de 1952, os Boulanger a l m o ç a m com Melanie e lhe narram o i m -
bróglio, ^acan perde toda credibilidade junto a ela, que vai se
aproximí r daí em diante de Daniel L a g a c h e . 4 4
Nesss ínterim aparece, em 1952, a coletânea Developments in
Psycho-A nalysis, de Melanie K l e i n , Paula Heimann, Susan Isaacs
e Joan E i v i e r e ; 4 5 enquanto, para o septuagésimo aniversário de
Melanie, Roger Money-Kyrle p r o p õ e um Festschrift, que tomará
finalmen e a forma de um n ú m e r o do International Journal of
Psychoar alysis, dirigido por Paula Heimann e Roger Money-Kyrle,
260 MELANIE KLEIN

com a participação de catorze colaboradores. 46 Estas publicações


retomam e prolongam o essencial da posição kleiniana no fim das
Grandes Controvérsias, e assinalam vigorosamente a a m b i ç ã o de
Melanie K l e i n de renovar a psicanálise.
Dois anos mais tarde, em 1954, no decorrer de seu Séminaire
Iy Les Écrits techniques de Freud, Lacan retoma o "caso D i c k " e
introduz sua leitura própria de " L a (dé)négation", apoiando-se em
Jean Hyppolite. 4 7 Este texto freudiano tinha sido, j á o destacamos,
o cavalo de batalha dos kleinianos quando das Controvérsias com
os annafreudianos, que n ã o o conheciam. 4 8 Lacan adota, em suma,
a mesma estratégia que as kleinianas em sua própria revisão da
psicanálise. Mas sem citar suas fontes. Sem mencionar K l e i n em
seu comentário sobre a negatividade freudiana, a n ã o ser... indireta-
mente, por meio de uma referência a K r i s e a Melitta para o caso
clínico do Homem dos Miolos!
O deslocamento lacaniano é, de resto, considerável: o primado
do significante apaga radicalmente o que temos chamado de "o en-
carnacionismo" kleiniano, sua concepção continuamente hetero-
génea de um imaginário que seria simultaneamente coisa e imagem,
sensação ou afeto e r e p r e s e n t a ç ã o . 4 9 L a c a n se situa em outro l u -
gar, traça seus próprios "desenvolvimentos" e suas "new directions"
— mas esquecendo suas inspirações e evitando o enfrentamento.
E l e n ã o deixa de se referir, aqui e ali, à obra de K l e i n , a maior
parte do tempo com respeito, como se ultrapassasse a inveja sem
chegar à gratidão, mas percebem-se afinidades profundas, sobretudo
com a c o n c e p ç ã o kleiniana de uma paranóia originária e de uma
fantasia precoce estruturando o ego. Assim, a "posição depressiva"
kleiniana será aproximada da "fase do espelho" lacaniana, à medi-
da que os dois conceitos atestam " a natureza propriamente imagi-
nária da função do E g o no sujeito". 5 0 E homenagem será prestada
ao "génio de Melanie K l e i n " por ter "reconstituído" o "fundo de
d e p r e s s ã o " provocado pela pulsão de morte. 5 1
E m c o m p e n s a ç ã o , o desacordo fundamental é violentamente
assinalado: trata-se da ausência de referência à função paterna
tanto quanto de uma teoria do sujeito e, acessoriamente, da redução
do pênis ao mero papel de apêndice, nessa hipóstase da imagem
materna, em Klein, que permanecerá para sempre estranha a Lacan.
A s s i m ele critica Jones por ter aderido à "perfeita brutalidade"
dos conceitos kleinianos, e por n ã o ver no pênis senão um objeto
I
O GÊNI3 FEMININO 261

parcial, e modo nenhum "o falo": denuncia sua "despreocupação"


[...] em ncluir as fantasias edipianas mais originárias no corpo ma-
terno — de sua proveniência da realidade que supõe o "Nome-do-
Pai".52
T r jeira iinspirada" continua a ser, dessa inveja e dessa ingra-
tidão, a fórmula mais impressionante. Teria eu somente ouvido
essas pa|avras num seminário n ã o publicado? N ã o conseguia reen-
contrá -lis nos escritos disponíveis. Seria a inencontrável citação
o sintoit* indelével de uma K l e i n inapreensível, que contamina
aqueles que a amam e aqueles que a detestam: como ela não se
deixava encerrar num texto cuidadosamente formulado — uma
fundadora sem texto, j á vimos — , n ã o se contentaria ela em fazer
falar, sofrhar, associar? U m a analista, em suma, com quem Lacan
teria coi traído u m pequeno empréstimo, indo até ao Homem dos
Miolos, esse plagiário que "tomava emprestado" sem dizê-lo?
A fçrmula foi encontrada, finalmente, num texto de Lacan
53
consagrj do a... A n d r é G i d e ! E l a faz parelha com um ataque "es-
tranhamfente pouco veemente" (no dizer do próprio Lacan, que
não deixa p o r é m de lembrá-lo) de Gide contra Freud, este último
sendo q lalificado pelo autor dos Moedeiros falsos de "imbecil de
g é n i o " Vpós ter notado, com Jean Delay, o labirinto das identifi-
cações ianas, sobretudo com o discurso de sua m ã e desgraciosa
que preenche o vazio com uma paixão por sua governanta", Lacan
aborda ligação do escritor com sua prima Madeleine, e acaba
por :omt>arar seu imaginário a um "teatro antigo" cheio de "sacudi-
delas, es corregões, formas disparatadas", "um estremecimento do
fundo d( ser, um mar que submerge tudo". Esse feminino horripi-
lante os pesadelos de uma "calheta que tritura" o jovem André,
e o amcr se inverte logo no além da morte, quando isso n ã o é
próprio lo riso, antes que uma M e d é i a vingadora, acompanhada
pela Daijia dos Trovadores e pela Beatriz de Dante, venha pontuar
as visói gidianas e lacanianas do "buraco negro". A alusão a Me-
lanie K l e i n ,, cujo nome é ocultado, inscreve-se neste contexto:
"F( este vazio que a criança povoou de monstros cuja fauna
nós com ecemos desde que uma arúspice de olhos de criança, tri-
peira insbirada, organizou para nós o catálogo deles, ao contemplá-
54
los nas ntranhas da m ã e amamentadora."
I m | e c i l de g é n i o " (Freud, conforme Gide) e "tripeira inspira-
da" ( K l e n , conforme Lacan): eis aí realmente uma "arúspice" que
262 MELANIE KLEIN

diz muito sobre as fantasias fóbicas das "tripas" maternas segun-


do Gide, endossadas aqui por Lacan, das quais o homem e o artista
se evadiriam pela "inspiração"! Mas muito pouco sobre a obra da
própria Melanie! Exceto que a psicanálise assinala com justa razão,
e para a clínica, que é essencial descobrir como essas fantasias
primárias da criança t ê m origem na própria m ã e . Lacan nos con-
vida a ouvir a criança que foi a m ã e , a criança que permanece
sempre uma m ã e quando nós analisamos a criança da m ã e .

3. A esquerda e as feministas se apoderam


da "tripeira inspirada "

Existe mesmo um paradoxo kleiniano. Por um lado, a vulgata


m e c â n i c a do kleinismo, muito simplificada e às vezes proveniente
de certos textos de nossa própria autora, destila em demasia re-
ceitas de escola. A s " p o s i ç õ e s " com os preceitos de " r e p a r a ç ã o " e
de "integração do ego", disseminados pelas colunas impressas, se
apresentam como outros tantos conselhos judiciosos dados às famí-
lias nas revistas pedagógicas. Por outro, uma dissidência inquieta
revela, numa época de conformismo e de transgressões programa-
das, a sombria visão de um ser humano governado por uma p u l s ã o
de morte mal transformável em criatividade, com a condição, po-
r é m , de que este ser disponha de um pouco de chance inata, de
uma aptidão para o amor — e de uma " m ã e suficientemente boa"
(dirá Winnicott, para opor-se ao império do "objeto interno" enf
Melanie).
Essas duas facetas do kleinismo n ã o deixaram de atrair a aten-
ç ã o dos sociólogos e outros teóricos da modernidade do outro
lado do Canal da Mancha, assim como das feministas britânicas e
americanas. Melanie K l e i n é talvez a única psicanalista que, sem
ter ela mesma proposto uma reflexão direta sobre a história e a
sociedade modernas, como o fizeram um Freud ou um Reich, sus-
citou desenvolvimentos políticos muito além do alcance imediato
de suas concepções clínicas. Seu empirismo e suas imperícias teó-
ricas tornam a obra intrinsecamente aberta e polissêmica, e aliciam,
por insuficiência, interpretações fagocitantes. Mas isto n ã o basta
para explicar esse sucesso sociológico. E l e parece devido em par-
te à atração que a psicanálise das profundezas exerce sobre nosso
I
O GÊNi O F E M I N I N O 263

mundo :ontemporâneo, para a c o m p r e e n s ã o do qual as ideologias


e filoso i a s clássicas se revelam caducas.
Par i uma elite não-conformista, a especificidade da psicanálise,
de estai no cruzamento da utilidade empírica e das audácias espe-
culativa s, a destina especialmente a se tornar o novo modelo para
pensar < >s vínculos sociais, para a l é m da família e nos grupos, res-
peitand > ao mesmo tempo a possibilidade de ser s ó . 5 5 Desde as "con-
sideraçfes socialistas" inspiradas pela psicanálise kleiniana até
os proj^tos de uma "boa sociedade" atenta ao "mundo interior",
passandp por uma reavaliação do rousseauismo à luz de uma crítica
56
social tjaseada na obra de K l e i n , os trabalhos se multiplicaram
ao long) do último decénio. Teriam com certeza surpreendido os
devaneips mais ambiciosos de uma Melanie desejosa de se tornar
útil à scbiedade, e aniquilam em definitivo as acusações mais áci-
das de eus detratores da época em que a censuravam por se vol-
tar para o mundo interior,
Du; s facetas do kleinismo se delineiam assim até nas extra-
polaçõe» sociológicas da obra de Melanie. Uns acentuam a teoria
do neg^ivo, a importância da pulsão de morte e das forças demo-
lidoras ue assumem o comando nas figuras do contestatário, do
revoltado , quando n ã o fracassam nas do paranóico ou do egotista
secretar lente esquizofrénico. Esta leitura, mais atenta à interpre-
tação, dada de K l e i n pelos psicanalistas franceses, apareceram
ultiman ente sob a pena de numerosos teóricos b r i t â n i c o s . 5 7 Ou-
tros, ao contrário, h á j á uma dezena de anos, se congratulam por
descobr r em Melanie K l e i n um alicerce do liame social, privile-
giando conciliação e exacerbando o que certos clínicos kleinianos
não se plivam de exagerar, a saber, a reparação, o estabelecimento
da relaç ío de objeto e da simbolização, em detrimento da violên-
cia e da angústia. Os partidários desta vertente assumem, assim
fazendo o risco de transformar a psicanálise em assistência social
— até em religião laica.
Isso não impede que, seguindo essas pegadas, um socialismo
preocupbdo com o universo interno, com o se/f depressivo, tente
se const n i r embebendo-se no pensamento kleiniano a fim de pen-
sar as fe ridas da mundialização em curso.
A s s i m , Michael R u s t i n 5 8 e Margaret R u s t i n 5 9 consideram que
Melanie K l e i n alarga o campo da psicanálise ao formular uma
concepçiío relacional da natureza humana que, ainda que habitada
264 MELANIE KLEIN

pela destrutividade e pela avidez, é profundamente moral. É so-


bre uma tal visão que o socialismo, se lhe cabia tomar o lugar das
religiões em crise, poderia se apoiar. E l e se apresentaria então aos
homens e às mulheres modernas n ã o como um simples consolo,
mas como u m humanismo lúcido, capaz de pensar a morte, a se-
xualidade destrutiva, o infantil e as diferenças inatas. Justificar a
importância da família; reabilitar a emoção e o sentir para a l é m da
r a z ã o abstraía; determinar a pertença do ego a uma comunidade
social desde o nascimento: estes são apenas alguns princípios de
uma democracia social que os autores crêem encontrar na psicaná-
lise kleiniana. Inspiram-se nela para consolidar um socialismo em
que as reivindicações individuais são reconhecidas como tais, sem
serem imediatamente subordinadas às exigências do grupo. Mais
liberal, Money-Kyrle, referindo-se ele t a m b é m a Melanie K l e i n ,
pensa que uma moralidade depressiva baseada no amor e na soli-
citude pelos outros se opõe ao totalitarismo e ao capitalismo sel-
vagem. Michael e Margaret Rustin sugerem, por sua vez, u m
modelo de democracia em que o Estado deveria se preocupar com
as necessidades sociais sem infringir as liberdades individuais, para
poder regular um liberalismo todo-poderoso. Os autores concluem
naturalmente d a í que a teoria kleiniana "fornece bases teóricas
importantes para um melhor sistema dos serviços sociais, bem
como medidas principais para julgar-lhe a e f i c á c i a " . 6 0
De maneira análoga, Fred C . A l f o r d 6 1 quer elaborar uma socio-
logia capaz de remediar as dificuldades encontradas pela E s c o l a
de Frankfurt quando esta propôs um novo conceito de r a z ã o para
apreender as relações humanas. Fundamentando-se na teoria freu-
diana das pulsões sexuais e do Édipo, é em v ã o que Eros segundo
Marcuse se o p õ e a uma sociedade baseada no recalque; a sociolo-
gia que se inspira nele corre o risco de redundar num "instrumen-
talismo interessado", sugere Alford. A o contrário, a sociologia
derivada do kleinismo pode modelar um vínculo social onde pre-
valecem reparação e r e c o n c i l i a ç ã o . 6 2 Reconhecendo que pratica
uma verdadeira " r e v i s ã o " do kleinismo clínico, Alford n ã o hesita
em fazer de Melanie K l e i n uma "teórica social": 6 3 ao dar ênfase
às " p a i x õ e s " sempre ligadas ao outro e dotadas de direção e de
coerência, mais do que às " p u l s õ e s " mais ou menos fragmentadas
e fragmentadoras, Melanie K l e i n permitiria fundamentar uma "ra-
zão reparadora" e um "individualismo reparador". A p r e o c u p a ç ã o
O GÊN10 FEMININO 265

com o < »utro seria o traço principal disso, bem como a criação de
um vínfulo social n ã o coercitivo, definido como uma "estrutura
social ágil e flexível". É no plano individual e em pequenos gru-
pos que essa m a t u r a ç ã o moral visando reparação e reconciliação
seria passível; os grandes grupos, ao contrário, se defendem da
ansiedade pelo retorno a mecanismos esquizoparanóides, e emba-
r a ç a m lógica do individualismo reparador. A "razão instrumen-
tal", iimfcosta pelo ultraliberalismo, pela especulação dos mercados
financeiros , pela exploração desenfreada da natureza e pelo contro-
le autoijtário da sociedade, se enraizaria na posição esquizopara-
nóide c^racterizada pelas tendências para a posse e a dominação,
E m coi trapartida, a razão reparadora reconcilia e organiza uma
sociedape fundada mais na solicitude e no respeito pelo outro do
que na i epressão e na instrumentalização. A obra de Melanie K l e i n
encoraj i esta visão da natureza humana, assim alicerçada numa
moralic ade originária. A o s olhos do sociólogo, K l e i n parece menos
pessimi >ta que Freud, embora n ã o desconheça as forças destrutivas,
O ser humano n ã o seria um self isolado, mas sim um self eminen-
temente social, dotado de uma "ética eudemonista"; vale dizer que
o ego lieiniano tem necessidade de "fazer reparação para ser fe-
liz". O tutor propõe, em conclusão, uma leitura que privilegia as
tendências reparadoras da clínica kleiniana em detrimento do ne-
gativo que outros, pelo contrário, t ê m prazer em sublinhar. 6 4
Malgraji o a reparação, o autor n ã o desconhece a d i m e n s ã o trágica
do pen: amento kleiniano, visto que a avareza, a inveja e o ódio
tornam o mundo vazio e hostil, e que n ã o h á nem redenção nem
65
salvaçãt) total para o se/f segundo Melanie.
S e r i renegar a fada reparadora, cumpre constatar que K l e i n ,
a feiticeira , abre perspectivas mais inquietantes e, portanto, muito
mais felundas, para avançar na noite humana e social. Abordare-
mos sui ántamente aqui uma outra leitura social inspirada em tra-
balhos línicos da psicanalista.
De fato, bem antes da agitação de Maio de 68 e da fuga anar-
quista do Anti-Édipo,66 precedendo por pouco a paixão lacaniana
pela patanóia feminina, 6 7 Melanie visiona o indivíduo como uma
econon ia movida pela pulsão de morte, intrinsecamente esquizo-
paranói 1e e pouco disposta a se adaptar à realidade. Os annafreu-
dianos cusam-na de não ter em conta a família e a m ã e reais (sem
falar dc pai!), e a realidade exterior por conhecer, assim como de
266 MELANIE KLEIN

se encerrar num mundo de phantasmes sádicos, ou pelo menos


essencialmente negativos. N a verdade n ã o se trata disso, uma vez
que a d i n â m i c a psíquica da criança, segundo K l e i n , depende do
mundo interno da m ã e — que parece um objeto externo para a
criança! É inegável, p o r é m , que Melanie n ã o crê na adaptação;
ela pensa mesmo que a adaptação n ã o é uma idéia psicanalítica, e
critica consequentemente Anna Freud por se preocupar, tal qual
uma mestre-escola, apenas com as defesas do ego tendo em vista
uma boa educação.
Somos todos esquizoparanóides, afirma ela em última análise
— o que basta para seduzir os contestatários do outro lado do
Mancha. Pior ainda, toda autoridade, e a autoridade parental em
primeiro lugar, é fonte de inibição e de angústia: lembramo-nos
da m ã e atéia e do pai crente de F r i t z , 6 8 que acabam por aliviar seu
d o m í n i o sobre o filho, seguindo os conselhos da analista, para per-
mitir enfim ao menino pensar.
Sob a autoridade (que outros dirão "simbólica") do pai, que
ela passa em silêncio, Melanie diagnostica o poder da m ã e que lhe
parece ser o verdadeiro sustentáculo de toda lei. Nela a feminili-
dade nunca se define em termos de passividade, como acontece
em Freud. A feminilidade, em K l e i n , se desdobra numa receptivi-
dade (sucedâneo da fase oral na menina e no menino, que ambos
aspiram a incorporar o pênis e o seio que o contém) e num poder
terrificante da mãe primordial, suporte de toda autoridade tirânica
e protótipo (com o pai acoplado a ela) do superego. A lei se apoia
em K l e i n no poder da " m ã e do p ê n i s " — que ela faz questão de
distinguir da " m ã e fálica" freudiana porque, para o phantasme klei-
niano, o órgão masculino n ã o é um chino visível, mas u m suple-
mento interno da m ã e , mais a m e a ç a d o r do que carnavalesco.
Por ter detectado esta base da autoridade fálica paterna que
seria o poder fantasístico da m ã e do pênis, Melanie K l e i n n ã o insti-
tui, entretanto, uma potência rival, mais sólida ainda, na qual acre-
ditasse como outros acreditam no pai. Tenta, ao contrário, descobrir
como se desembaraçar desse último serviçal do medo, dessa anco-
ragem infantil da tirania. A m ã e na qualidade de objeto interior é o
"duplo" da mãe real; e essa duplicação, que envolve o bebê, faz com
que o mundo escape ao julgamento e à verificação perceptiva: 6 9 a
m ã e real n ã o é mais do que uma tela "colorida", produto de nossos
phantasmes e/ou da identificação projetiva. Para adquirirmos u m
O GÊN O FEMININO 267

julgamento n ã o aterrorizado da realidade, podemos certamente


contar < om os cuidados satisfatórios da parte de nossas m ã e s , que
felizmehte são capazes disso; mas somos convidados sobretudo a
contar om a análise para termos uma oportunidade de perlaborar
nossos ohantasmes de onipotência, em definitivo materna,
N ã ) é para desvalorizar a m ã e efetiva ou o papel do percebi-
do na ejxperiência infantil, de que a acusavam os annafreudianos
quandi das Controvérsias, que Melanie afasta o poder materno
da mer; realidade para concentrá-lo na fantasia do ego. Pelo con-
trário, eu objetivo é desrealizar esse serviçal imaginário da auto-
ridade, que acreditamos erroneamente ser real, e ancorar a análise
no incdnscier fantasístico do self que sofre com isso. O poder
matern > e a autoridade paterna seriam portanto como que arte-
fatos d uma m e m ó r i a fito e ontogenética feita de biologia e de
represe itação , que, qual tapetes, se estendem em nós, sujeitos da
psicaná ise e que temos a possibilidade de desconstruir: com o
auxílio de certas m ã e s suficientemente satisfatórias e suficiente-
mente listantes; graças, enfim e sobretudo, à transferência e à
interpretação analíticas.
Afi m a r ique se trata aí de um interminável acerto de contas
com L i j u s s a é menos interessante que compreender como Melanie
furta à utoridade masculina, e à sua base materna arcaica, o poder
de usur jaçao abusiva sobre nossas vidas psíquicas. B i o n e Winni-
cott vãc clarificar esse tema e desenvolvê-lo ao falar do "devaneio
da m ã e (versão positiva geradora de vida psíquica) e de " m ã e s
usurpai oras (versão maléfica desestruturadora do psiquismo),
Mais q e um anarquismo, é uma visão profundamente desiludida
e compfessiva do humano que se perfila desde os primeiros textos
de Melfnie , que desconstroem o poder imaginário da m ã e primiti-
va. E, SUíí obra continua a seduzir os comentadores contemporâneos;
tanto é verdade que, desde os anos 30 em que Melanie propôs
suas hièóteses do poder tirânico, o mundo n ã o parou de atraves-
sar mai s momentos em matéria de esquizoparanóia, de abuso ou
70
de derr >cada da autoridade.
Eni retanto, esse desmoronamento central — no coração do
ser hun|ano e t a m b é m no coração do vínculo social — é, em Me-
lanie, de uma violência destrutiva que se revela n ã o menos salva-
dora. Ern primeiro lugar, a pulsão masoquista ansiógena, que me
parte e: n pequenos pedaços até impossibilitar ou destruir minha
268 MELANIE KLEIN

capacidade de pensar, possui a estranha virtude de se inclinar para


fora e apresentar u m objeto-alvo. Este retorna, aliás, imediatamen-
te a m i m e aí se instala enquanto objeto interno, seja para me roer
a partir do interior (se é "mau"), seja para se tornar o núcleo sólido
de meu ego (se é "bom"). Essas reviravoltas do negativo em K l e i n
levam em conta a realidade (os pais, seus cuidados, sua autoridade),
mas, finalmente, nem tanto assim. Tudo o que Melanie exige dos
poderes de fora é que eles existam a minima: que n ã o se alarguem
em demasia sobre as modulações dos objetos internos que oscilam
entre inveja e gratidão.
Resulta desta visão — que apenas esquematizamos — que a
Autoridade e o Real, a L e i e o Mundo devem ser mantidos o mais
possível a distância. N ã o se trata nem de os abolir nem de os ig-
norar: Melanie n ã o é uma libertária, nem uma adepta das Luzes
que empunharia o "contrato social" para um mal radical a ser des-
truído ou pelo menos mitigado. Sua visão tirânica e taliônica da
L e i e da Autoridade percebe a realidade do mundo como essencial-
mente coercitiva. Pior ainda, essa autoridade e essa realidade se
teriam insinuado em nós desde nosso nascimento, e até antes, pela
força do destino biológico; e nos trabalham a partir do interior
sob a forma de u m superego draconiano resultante do objeto per-
seguidor, a menos que seja inato. N ã o se trata portanto de negar a
autoridade, nem de se adaptar à realidade para melhor c o n h e c ê -
la, visto que, de qualquer modo, elas estão sempre j á em n ó s , e
nós somos portadores delas. A única coisa que podemos conhecer
é a violência de nossa pulsão de morte, sua c o m p e n s a ç ã o por nos-
sa aptidão para amar e a lógica de nossas fantasias. A partir desse
conhecimento do mundo interior, uma certa abertura para a realida-
de se tornaria possível, mas sob a forma de um processo de apren-
dizagem descontínuo. Os desenvolvimentos ulteriores de B i o n e
Winnicott sobre "aprender com a experiência" e sobre a "realida-
de transitória" estão em germe nessa negociação da pulsão de morte
em K l e i n , que reduz a fantasia ao mesmo tempo que a autoridade
coercitiva do objeto para fazer dela pouco a pouco, e ao cabo de
um longo percurso, uma realidade pensável.
N ã o h á nenhuma ou h á pouca " m ã e real" para K l e i n , porque
a única m ã e que lhe interessa é a mãe pensável. E ela o será se —
e somente se — um conhecimento da fantasia mortífera que me
habita puder desenhar no objeto real uma porção do objeto pensá-
O GÊN O FEMININO 269

vel par; mim: um objeto com o qual eu posso fazer um jogo —


enfim, i im símbolo. A m ã e exterior pode (ou não) me satisfazer, o
que eqi ivale a dizer que ela fornece (ou não) provas ao mundo
interno de minhas fantasias. Portanto, ela me ajuda a ajustar o
mundo interior a uma "realidade" que só aparece, nesse contexto,
após ur 1 processo de aprendizagem criativo e, de resto, infinito.
O 1 lodelo de tal conhecimento incessantemente recomeçado
da reali iade n ã o é outro senão a relação transferencial: ao respei-
tar a fai itasia e ao intepretá-la, o analista n ã o fixa a realidade a ser
conhec: da nem a lei a ser seguida, mas d á ao ego possibilidades
de criai continuamente uma realidade que é certamente cada vez
mais d jetiva, mas sobretudo a única pensável para m i m — su-
portáve para m i m — desejável para mim.
U n a versão da liberdade se desprende aqui do pensamento
de Klei n, que seduz particularmente os sociólogos ingleses: a de
uma c r atividade respeitosa do self, que n ã o é nem uma adaptação
normat v a , nem a transgressão j o v i a l da utopia, à maneira latina
anti-ed: piana. Porque o estabilizador desse sistema de auto-regu-
lação k einiana n ã o é senão a experiência de perda e a depressão
conseq iente. E l a a d v é m quando a maturação neurológica e o ajus-
tament > dos dois universos (phantasme da criança, de um lado,
phantai me e realidade para a mãe, do outro) permitem a separa-
ção, qu i se produz sob o regime da culpa e do desgosto. Desgosto
e culpa são as ocorrências internas, portanto intrinsecamente psi-
cosson áticas, a um só tempo alma-e-carne, da severidade da lei
que me constitui sob a forma do superego. No fim desse trajeto,
uma ne ^ociação ótima entre violência interna e autoridade externa
chega * me significar que h á o outro, e que esse outro é ao mesmo
tempo ixterno (aprendo a conhecer minha m ã e como objeto total,
e qualc uer outra realidade exterior se torna para mim, consequen-
tement >, acessível) e interno (sou capaz de símbolos, "eu penso"
depois| de "eu phantasme").
Esi a visão da liberdade, empírica em K l e i n , devia achar sua
explici ação mais elaborada na ética protestante de um Winnicott. 7 1
E l e deí envolve uma concepção do jogo que, de certa maneira, se
aproxii na da de Anna Freud, porque a sexualidade aí é posta em
latênci i: a criança joga por jogar, quando é capaz de se libertar da
signifii ação fantasística (este trem é um trem, e n ã o o pênis de
papai, (;omo quer Melanie). É nesta ausência de significação sexual
270 MELANIE KLEIN

"à K l e i n " que o jogador encontra a gratuidade das significações a


recriar. A o contrário, o jogo pára quando aparece a excitação se-
x u a l . 7 2 Mas n ã o é t a m b é m essa travessia do sexual, seu alívio e
sua différance por meio do discurso indiferente do terceiro que se
leva p o r é m em conta e c o m e ç a por lhe restituir a carga traumática,
que é visada pela interpretação-no-jogo da própria K l e i n — me-
lhor do que o fazem as sistematizações de sua escola, a que ela se
vê reduzida? Segundo Anna Freud, uma educação prévia é necessá-
ria para esse alívio. A função paterna basta, estabelece Lacan. Cada
analista deveria aprender a jogar, jogar por jogar com cada anali-
sando, sugere Winnicott. Mais sombria e mais direta, Melanie deixa
agir a verdade distanciada do discurso interpretativo, posterior à
identificação projetiva do paciente, mas t a m b é m do analista: se
eu fosse v o c ê , j o g a r í a m o s e eu diria isso do mesmo jeito. Vaivém
das identificações sexuais, das projeções e dos distanciamentos...
E m v ã o buscaríamos em K l e i n o ponto de apoio para essas
metamorfoses do negativo, das quais, porém, ela segue, como aca-
bamos de ver, as transformações criativas e geradoras dessa auto-
nomia pessoal que tanto encanta os teóricos ingleses. L a c a n devia
suprir essa falta ao inscrever o j á - a í do É d i p o e do superego klei-
nianos na preexistência do simbólico nos seres humanos, como a
manifestam o Nome-do-Pai e a pregnância do Falo de que a fun-
ç ã o paterna é portadora para o imaginário.
E m c o m p e n s a ç ã o , e como que em contraponto ao cristianis-
mo intelectualista ou tomista à maneira de Lacan, K l e i n se torna a
princípio misericordiosa e atenta à destrutividade abissal. 7 3 Mas,
sobretudo na segunda parte de sua obra, introduz noções que tra-
duzem procedimentos psíquicos positivos: a capacidade de repara-
ç ã o e o amor com a gratidão — em oposição ao sadismo, à tirania
do superego e à inveja. Restituídas elas t a m b é m à constituição
pulsional, essas positividades sublimatórias, inatas ou favorecidas
pelos cuidados ótimos prodigalizados pelos pais, t ê m a vantagem
de abrir as interfaces ainda enigmáticas da psicanálise com a bio-
logia. Mas nos deixam sem pensamento diante dos fundamentos
psicossomáticos desta versão kleiniana do Eros que n ã o se esgo-
taria em prazer, mas se manifestaria de imediato como conduzido
por uma ternura pelo outro e por uma imensa nostalgia proveniente
da posição depressiva.
Seria isto uma inibição da pulsão quanto ao objetivo? Outros
O GÊN D FEMININO 271

analista 5 mulheres propuseram pensar assim esta sublimação pre-


coce d< libido na ternura. 7 4 Mas sem determinar o que a torna
possíve : ainda uma aptidão inata, desta vez para inibir o objetivo
da puis ío? O u então um recurso ao terceiro simbólico, o pai ou
seu sub rtituto, que alivia o sadomasoquismo da díade mãe-bebê e
facilita D caminho do infans para a sublimação?
Tar tas omissões em Melanie!
E l a n ã o pensou tampouco a histeria de conversão nem a lou-
cura hi tética, por exemplo. Ora, a angústia fóbica projetada no
interior graças a objetos internos n ã o seria uma espécie de conver-
sao psi uica?
E l a subestimou o desejo da m ã e , seu ódio t a m b é m : o que seus
sucesscj res, como Kate Friedlander ou D . W. Winnicott, puseram
de nov< no lugar. Mas trata-se mesmo de uma subestimação? Ou
é só un exagero por assim dizer retórico, que escolhe a distorção
ou a hr érbole para melhor convencer? Pondo-se no lugar do ego
frágil d ) bebê, a criança), antes que no da realidade externa (a
mãe, a realidade), a fim de construir ela mesma passo a passo
essa re* lidade exterior e t a m b é m , ao mesmo tempo, a criatividade
simbóli :a do paciente.
E l a evitou a perversão ao estigmatizar o infiel Don Juan de
querer í implesmente provar a si mesmo que n ã o ama sua m ã e (cuja
morte i le teme porque a ama com um sentimento possessivo e
destrui^ or): sem reconhecer, no excesso de libido perversa, nem a
força di > desejo nem o desafio ao pai, n ã o vendo aí nada mais do
que uno a defesa contra a dependência dolorosa. 7 5 Mas esse apa-
rente d scrédito do desejo n ã o será, ao contrário, uma assunção
séria e iprofundada do que de fato é uma queimadura mortal? O
desejo, em Melanie, proclama sempre e paroxisticamente uma
angústià; é somente por acalmia u m prazer, mas pronto a buscar a
fruição em amor e em gratidão.

4. mãe interior e a profundidade


i d pensamento

O ihipasse kleiniano em relação ao valor simbólico da pater-


nidade >assa sem comentário. Releiamos, para demonstração, esta
reflexãè sobre o papel do pai assimilado a uma boa m ã e :
272 MELANIE KLEIN

... A satisfação que um homem recolhe do ato de dar um bebê à


sua mulher [...] significa o resgate de seus desejos sádicos para com
sua mãe e a restauração desta. [...] Por outro lado, ao partilhar do
prazer materno de sua mulher, o homem satisfaz seus desejos femi-
ninos, o que é para ele uma outra fonte de prazer.76

Se é verdade que ela reconhece aqui a feminilidade do ho-


mem que outros preferem ignorar, resta de fato pouca coisa do
homem, em Melanie, que n ã o seja uma dependência da m ã e ! 7 7
E m c o m p e n s a ç ã o , na clínica, o trinchante da interpretação inscre-
ve de fato a função paterna. Pela pertinência de seu dizer, Melanie
endossa o papel desse outro que assume o pai na família, e que
a analista d á a conhecer pela precisão distante de seu discurso.
A o preservar no implícito a função do pai, Melanie se apega ao l u -
gar do analista, e n ã o ao da assistente social ou maternal. Parale-
lamente, esse implícito se acompanha de uma investigação sem
precedente da função materna. A s feministas se felicitaram pela
alternativa assim proposta ao machismo freudiano e ao falocen-
trismo lacaniano. Outras lamentam o que consideram como um
"normativismo" kleiniano, a saber, sua adesão ao casal p a i - m ã e e
à heterossexualidade como condições de um desenvolvimento cria-
tivo da psique.
A s s i m , algumas feministas, como Nancy Chodorow, 7 8 Jéssica
B e n j a m i n 7 9 e Dorothy Dinnerstein, 8 0 se apoiam na teoria kleinia-
na da relação de objeto para mostrar que o É d i p o não é a única pro-
v a de autonomia para o sujeito, como querem Freud e L a c a n que
se serviriam desse primado edipiano para insinuar um desenvol-
vimento moral e libidinal inferior na mulher. Mas n ã o estarão essas
teóricas procurando substituir o inconsciente pela relação de ob-
jeto, e a psicanálise por uma profilaxia da saúde emocional? U m
n ú m e r o especial de Women: A Cultural Reviewsl reage aos exces-
sos do freudismo e do lacanismo dogmáticos operando um "turn
to Klein", uma "guinada" em direção a K l e i n . A contribuição mais
pertinente dessa releitura de Melanie concerne à exploração das
relações precoces mãe-bebê, pré-edipianas no sentido freudiano,
de um É d i p o precoce no sentido kleiniano, e visa a especificar
mais o papel do pai nessa lógica primária da fantasia, onde a pulsão
está p o r é m articulada em torno de uma identificação primária de
tipo oral com o pai desejado pela m ã e . 8 2
O GÊNI ) F E M I N I N O 273

Por ter centrado sua investigação na m ã e — de início em sua


influênc ia, depois no aniquilamento dela para que v i v a o simbolis-
mo — 1 Jelanie K l e i n , a orestiana, se colocou, j á o dissemos, no
coração da crise dos valores modernos. Reparar o pai e restaurar
o conhe cimento da realidade, diz ela em síntese, são objetivos
secunda rios, pouco interessantes porque potencialmente tirânicos
e, além disso, irrealizáveis sem a criação de uma vida psíquica.
Ninguéi ri melhor do que Melanie recusou o que Jean Gillibert
chama ' esta v i l adesão ao chefe". 8 3 Sem chefe — porque a m ã e
nao e u j i chefe, mas um objeto de poder fantasístico detentor de
angústi —, o universo kleiniano é, de fato, um universo destota-
lizado. lomente nesta condição, ao perder o objeto da angústia e
ao perl a 3orar esta perda, o si mesmo poderia aceder à vida do es-
pírito qi e Winnicott formula como uma "transicionalidade".
Par; que haja transicionalidade, o vínculo com a m ã e — n ã o
uma m* 2 fálica, mas uma m ã e habitada pelo desejo do pai sob o
aspecto do pênis — é fundamental. E m K l e i n trata-se de um vín-
culo ter ificante, do qual a criança infalivelmente fóbica aprende
aa se
se desfazer (o pequeno Hans de Freud era o protótipo discreto
disso), o consegue graças à simbolização. Para chegar a isso, o
bebê sálico-fóbico se apoia ao mesmo tempo em suas próprias
capacid ides de sentir prazer, de gozar e na resposta materna a
suas anj ;ústias, contanto que esta seja suficientemente benévola e
distante
K l e n n ã o desvaloriza o desejo: desmistifica-o à proporção
que desi nistifica a pulsão de morte, mostrando que ela é pensável,
que ela i até fonte do pensamento. A s dificuldades teóricas que a
psicana ista acumula nesse trajeto são aporias metafísicas a que
nao i nenhum dos conhecimentos do humano e de suas tera-
pias Elàs t ê m o terrível privilégio de nos situar no lugar mais re-
cuado o ide, quando se rompe a promessa de proteção paterna que
vai de >ar com a proteção transcendental, o "caniço pensante"
que se upõe que nós somos se vê diante de uma alternativa dra-
mática ue é a versão c o n t e m p o r â n e a da tragédia. Vemo-nos as-
sim redi zidos a oscilar entre dispersão de si e crispação identitária,
entre es< uizofrenia e paranóia. Tendo, como única vizinhança certa,
mães p ^ a n ó i c a s , cruéis e frágeis, o(a) analista que se p r o p õ e con-
duzir n< s ao simbolismo é então obrigado(a) a sê-lo, a partilhar
desta pí ranóia cruel e frágil. Para melhor se livrar disso e, nessa
274 MELANIE KLEIN

possessão/despossessão, reviver — e nos fazer reviver — conti-


nuamente a depressão como condição da criatividade. A sua pró-
pria e a de seus pacientes.
Depois de termos feito, com Freud e Lacan, do erotismo nos-
so deus, e do falo o fiador da identidade, somos convidados, com
K l e i n , a reassentar nossas ambições de liberdade em regiões mais
incultas, mais arcaicas, do psiquismo, ali onde o um (a identida-
de) n ã o consegue ser. N ó s nos damos conta então de que Melanie,
debaixo de seus ares de matrona feliz por se estabelecer para fun-
dar escola em Londres, é nossa contemporânea.
Contemplem os objetos do imaginário moderno, as exposi-
ções ou outras instalações saídas das fábricas do "post-coitum ani-
mal triste": n ã o será o bazar dos "objetos internos", feitos de seios,
de leite, de fezes e de urina, sobre os quais flutuam as palavras e
as imagens de alguns phantasmes bem malvados e bem defensi-
vos, esquizoparanomaníacos quando n ã o são mais simplesmente
depressivos? U m a inversão do processo de simbolização. Sem falar
dos videogames cuja violência enlouquece as associações de pais
de alunos — visto que seus filhos aí se "projetam" (pois é!) a pon-
to de n ã o mais distinguir entre imagem e realidade — , onde o mundo
moderno parece se engolfar num phantasme, no sentido kleiniano
do termo, taliônico e realista. C o m a diferença de que, em Melanie,
o analista acompanha esse phantasme, formula-o e interpreta-o
para torná-lo pensável e somente assim atravessá-lo; nem interdizê-
lo, nem recalcá-lo. A o contrário, os assassinos inconscientes das
escolas americanas só tiveram a telinha como baby-sitter e, sem
nenhuma palavra para os privar da d o m i n a ç ã o imaginária, são os
náufragos da posição depressiva jamais concluída, vítimas todas
designadas da regressão esquizoparanóide. A o anunciá-los antes
da Segunda Guerra Mundial, Melanie n ã o zomba nem triunfa:
acolhe-os com a compaixão de uma cúmplice que nos faz crer que
afinal é até gentil brincar para falar do desejo de morte, mas que se
poderá fazer de outro modo t a m b é m .
E isso mesmo, a verdadeira "política" do kleinismo, que dei-
x a em suspenso uma questão interna à psicanálise: se é certo que
o implícito ideológico das aberturas kleinianas alimenta uma par-
te da filosofia social contemporânea, que dizer da situação de sua
clínica? O pós-kleinismo n ã o produziu todos os seus frutos? 8 4 A
pesquisa em psicanálise se situa hoje num ecumenismo que se
O GÊNK ) F E M I N I N O 275

serve da 3 proposições das diversas escolas (freudiana, kleiniana,


bionian* winnicottiana, lacaniana...) e aprimora a escuta especí-
fica devida a cada paciente, no interesse de uma interpretação
atenta ài novas doenças da alma, sem visar a construir sistemas
inéditos para as batalhas futuras. Esse recuo do militantismo n ã o
é necesstiriamente um tempo morto, assim como n ã o assinala um
esgotam mto da psicanálise,
Esta ao contrário, é animada por um duplo movimento. Por
um lado abre-se para outros campos de atividades humanas (a
sociedac e a arte, a literatura, a filosofia) que ilumina com uma
inteligibilidade renovada, e assim enriquece e desdobra o sentido
de seus iróprios conceitos fora dos limites estritos da clínica. Por
outro la o ao focalizar em profundidade sintomas específicos,
ela se aguça e se diversifica para melhor apreender e tratar a sin-
gularidafe de cada paciente, evitando a generalidade das estrutu-
ras. O q e leva suas intervenções até às fronteiras da significação
e da bio|ogia Como em muitos outros domínios, no tempo dos
"génios e dos grandes sistemas ocorrem hoje a aventura e os ris-
cos pessbais , e as trocas entrecruzadas em redes. C o m e malgrado
seu gosti >pelo poder, acentuado pela é p o c a e pelas circunstâncias,
Melanie K l e i n continua a ser, no fundo, uma anunciadora dessas
duas tenpências simultâneas.
E l a )ensava que o interior da m ã e (invisível mas imaginado
como esiando povoado de objetos ameaçadores, a começar pelo
pênis do pai ) oferece aos dois sexos as mais antigas situações de
angústia a angústia de castração n ã o sendo senão uma parte, cer-
tamente apital, dessa angústia mais geral que concerne ao interior
do propi 10corpo. E l a sugeria t a m b é m que "bons" objetos contra-
balançar 1 os "maus". E que, enfim, pelo pensamento, se constitui
uma inte rioridade psíquica, uma "profundidade" (depth), inicial-
mente lu mbre , depois aliviadora e j o v i a l , que é em si capaz de u l -
trapassai o medo desse interior materno,
De 1 m interior a outro, da angústia ao pensamento: a topogra-
fia kleiniana é uma sublimação da cavidade, uma metamorfose
uterina, ma variação sobre a receptividade feminina. D e sua pro-
ximidad com a profundidade inominável ela fez um conhecimento
de si — antes de nos convencer que esse conhecimento imaginá-
rio é váliilo para todos: homens e mulheres. O phantasme encarnado
do interi ar materno se torna, pelo viés da interpretação analítica,
276 MELANIE KLEIN

u m meio de conhecimento de si: n ã o é mais a fé, é a psicanálise


que é seu d o m í n i o privilegiado.
C o m Melanie K l e i n o phantasme relativo à m ã e se coloca no
centro do destino humano. E m nossa cultura judaico-cristã, esta
valorização significativa da m ã e n ã o é destituída de importância.
A fertilidade da m ã e judia era abençoada por Iavé, mas afastada
do lugar sagrado onde se desdobra o sentido da palavra. A Virgem
m ã e se torna depois o centro vazio da Trindade cristã. H á dois m i l
anos o Homem de dor, o Cristo, fundou uma nova religião apelando
para o pai, sem querer saber o que havia de comum entre ele e sua
m ã e . O b e b ê kleiniano, fóbico e sádico, é o duplo interior desse
homem visível e crucificado, seu "dentro" doloroso habitado pelo
phantasme paranóide de uma m ã e todo-poderosa. Trata-se do phan-
tasme da m ã e matadora e a ser morta, de uma representação encar-
nada da paranóia feminina em que se projeta a esquizoparanóia
de nosso ego primitivo e débil. Desta profundidade mortífera o
sujeito consegue entretanto se libertar, com a condição de perla-
borá-la indefinidamente no único valor que nos resta: a profundi-
dade do pensamento.
Como o analista, mas sem saber disso, a m ã e acompanha seu
filho nessa perlaboração em que ele a perde, depois a repara em pa-
lavras e em pensamentos. A função materna reside nessa alquimia
que passa pela perda de si e do outro, para alcançar e desenvolver
o sentido do desejo mortífero, mas unicamente no amor e por meio
da gratidão onde se realiza o sujeito. O vínculo de amor por este
objeto perdido que é a m ã e , da qual "eu" me separo, leva adiante
e n t ã o a c o n s u m a ç ã o do matricídio e se aureola de pensamentos.
N ã o é a menor fulguração do génio de Melanie K l e i n ter assim l i -
gado, pelo negativo, a sorte do feminino à sobrevivência do espírito.

NOTAS

1. M K, p. 215.
2. Anna Freud, Einfuhrung in die Technik der Kinderanalyse, Viena, Intern.
Psychanalyt. Verlag, 1927; uma tradução aparece em inglês, "On the theory
O GÉNIO FEMININO 277

of the analysis of children", International Journal of Psychoanalysis, 10,


1929, nas sua primeira edição inglesa, The Psychoanalytic Study ofthe Child,
Imagc Imbl. C o . , s ó aparecerá em 1946; cf trad. fr. P U F , 1951.
M K, >. 217.
Cf Jc irnal of Psychoanalysis, 1927, 8, p. 340, citado em M K, p. 222.
The A irsing Couple, Londres, Hamisch Hamilton, 1941.
Cf Le i Controverses Anna Freud — Melanie Klein, 1941-1945, coligidas e
anotac as por Pearl King e Riccardo Steiner (1991), prefácio de André Green,
P U F , 1996. Embora os organizadores n ã o tenham tido acesso a todos os
docun entos, principalmente aos arquivos pessoais de Anna Freud (ibid., p.
229), ista publicação é uma contribuição exemplar para a história das idéias
em ps canálise: cf. também o colóquio "Les controverses Anna Freud-Melanie
K l e i n ' , em Bulletin de la Société Psychanalytique de Paris, n- 50, julho-
agostc de 1998, pp. 99-143.
Cf. Pe irl King, "Contexte et déroulement des controverses freudo-kleinien-
nes...' em Les Controverses... op. cit., p. 44.
M K, ). 337.
Segur io a expressão de André Green, cf. "Préface", em Les Controverses...,
op. ci ,, p. X I .
Cf. Pe arl King, ibid., pp. 45-53.
Citadc por Riccardo Steiner, " L e contexte des controverses scientifiques",
ibid., ). 225.
Viena Intern. Psych. Verlag, 1936; trad. fr. P U F , 1967.
De i n cio na Jackson Nursery, em Viena, depois na War Nursery, em L o n -
dres, <, desde 1952, na Hampstead Child Therapy Clinic, Anna Freud reali-
za um i observação direta da criança, onde é fielmente secundada por Dorothy
Burlii gham. E l a estabelece, sobretudo com o auxílio de Sandler, um índice
que pi rmite assinalar os desvios p a t o l ó g i c o s com relação a linhas de desen-
volvi! lento normais, que decidirão de uma intervenção analítica ou terapêuti-
ca. Pr vilegiando a observação direta da criança mais do que a reconstrução
analít ca, os trabalhos da Hampstead Clinic d ã o a impressão de uma atitude
dedut va e de uma grande sistematização visando sobretudo à socialização
da cri inça.
John Jowlby e Esther B i c k instituem aí uma formação na psicoterapia da
crianç i em 1948. B i c k assume depois toda a responsabilidade por esse tra-
balho O tratamento se fundamenta na observação e sobretudo na análise da
identi i c a ç ã o projetiva na contratransferência do analista. " A experiência de
obser ação [psicanalítica do b e b ê em família, instaurada por Esther Bick]
ajuda o estudante a aceitar com seus pacientes a idéia de 'deixar a questão
em si] spenso' (como disse Keats) [...]. A observação ajuda a ver o b e b ê na
crianç a e no adulto [...]. A diferença está no crescimento criativo tridimen-
sional que procede da identificação projetiva, oposta à socialização bidi-
mensi anal ou ao "tornar-se adulto" que pára na identificação projetiva." (Cf
Les É rits de Martha Harris et d'Esther Brick, sob a direção de Meg Harris
Willia tns, Éd. du Hublot, 1998, pp. 305 e 316.) Alguns comentadores assina-
lam p >rém o caráter religioso de certos trabalhos de Tavistock, que estariam
278 MELANIE KLEIN

impregnados de um "espírito matriarcal" mobilizado contra o "patriarcado


freudiano". (Cf. E l i Zaretsky, em John Phillips e Lindsey Stonebridge (org.),
Reading Melanie Klein, op. cit., p. 36.) N ã o nos e s q u e ç a m o s dos importan-
tes estudos que ali foram realizados sobre a separação mãe/filho, notadamente
por Bowlby.
15. Cf. Riccardo Steiner, " L e contexte des controverses scientifiques", em Les
Controverses..., op. cit., p. 240.
16. Cf. a reunião de 10 de junho de 1942, ibid., p. 193.
17. Cf. o texto de Melanie Klein, " L a vie é m o t i o n n e l l e et le d é v e l o p p e m e n t du
moi de Yinfans avec référence spéciale à la position dépressive", e a discus-
s ã o de 3 de maio de 1944, ibid., pp. 675-710 e pp. 733 sq.
18. Ibid., pp. 681 sq., pp. 685 sq., pp. 694 sq. etc.
19. Carta a Jones, de 1941, citada por Riccardo Steiner, ibid., p. 227.
20. M K, p. 375.
2 1 . Sobretudo o texto inaugural sobre o "pequeno Hans", que ela cita longamente,
e o sobre "a negação", Les Controverses..., op. cit., pp. 686 (em nota) e 745,
nota 1.
22. Ibid., p. 749.
23. Ibid., p. 746.
24. Ibid., p. 701.
25. Ibid., p. 742.
26. Ibid., p. 702.
27. Ibid., p. 829.
28. Carta a seus amigos, de 25 de janeiro de 1944, citada por Riccardo Steiner,
ibid., p. 811.
29. Cf Pearl K i n g , "Conclusions", ibid., p. 822.
30. Cf. M K, p. 554.
3 1 . Cf Wilfred Ruprecht Bion, Recherche sur les petits groupes (1961), trad. fr.
P U F , 1965.
32. Ibid., p. 129.
33. Cf. supra, cap. I X , 2, pp. 232 sq., e 3, pp. 236 sq.
34. Cf Eric Rayner, Le Groupe des "Indépendants" et la psychanalyse britanique
(1991), trad. fr. P U F , 1994.
35. E m De la pédiatrie à la psychanalyse, Payot, 1969, pp. 205-213.
36. Cf supra, cap. V, 5, pp. 130-132.
37. Cf Jacques Lacan, "Uagressivité en psychanalyse", em Écrits, op. cit., p. 101-
124; Elisabeth Roudinesco, Jacques Lacan. Esquisse d'une vie, histoire d'un
système de pensée, Fayard, 1993, p. 263, e M K, p. 486.
38. Cf. Jacques Lacan, "De nos antécédents", em Écrits, op. cit., p. 70.
39. Cf Jacques Lacan, "Uagressivité en psychanalyse", ibid., p. 109.
40. Ibid., p. 115.
4 1 . Jacques Lacan, "Introduction théorique aux fonctions de la psychanalyse
em criminologie" (1950), ibid., pp. 136-137.
42. Cf supra, cap. V I I , 1, pp. 164-167, e cap. V I I I , 2, pp. 197 sq.
43. Cf. carta de Melanie Klein a Clifford Scott, de 28 de janeiro de 1948, em
MK, p. 487.
O GÉNIO F E M I N I N O 279

44. Cf. Elisabeth Roudinesco, Jacques Lacan.... op. cit., p. 266.


45. Hogarf i Press, 1952, trad. fr. Développements de la psychanalyse, op. cit.
46. Interna ional Journal of Psychoanalysis, março de 1952; uma versão revis-
ta desta publicação,, completada por dois estudos da própria Melanie Klein e
:
um pre fc ácio de Ernest Jones, aparecerá sob o título: New Directions in
Psychoanalysis. The Significance of Infant Conflict in the Pattern of Adult
BehavU ur, Londres, Tavistock, 1955, reed. Karnac Books, 1977.
47. Cf. sup a cap. V I I I , 2, pp. 197 sq.
48. "Eles praticamente ignoram os últimos escritos de Freud [...]. Do mesmo
modo, utilizaram raramente o curto artigo ' D a n e g a ç ã o ' , texto muito im-
portanti e na verdade uma pequena obra-prima, no qual os kleinianos fun-
dament ivam muitas de suas pretensões ao apoio que Freud lhes poderia ter
dado. f Riccardo Steiner, em Les Controverses..., op. cit., p. 248.
49. Cf. supta cap. V I I , pp. 166 sq.
50. Jacques Lacan, "Variantes de la cure type", aparecido em 1955, cf. Écrits,
op. cit. p. 345.
51. Jacques Lacan, "Remarque sur le rapport de Daniel Lagache" (1960), ibid.,
p. 667.
52. Jacques Lacan, "Propôs directifs pour un c o n g r è s sur la sexualité féminine",
ibid., p] 728-729.
53. Agrade^ o a Catherine Millot por essa localização.
54. Jacques Lacan, "Jeunesse de Gide ou la lettre et le désir" (1958), ibid., pp.
750-75
55. Cf. M e l i n Klein, "Se sentir seul", em Envie et gratitude, op. cit., pp. 119-
137, e supra, pp. sq.
56. Cf, entre outros, Michael Rustin, " A socialist consideration of Kleinian
psychoatia lysis", em New Left Review, 131, 1982, pp. 71-96; Michael et
Margare t Rustin, "Relational preconditions of socialism", em Capitalism
and Infi ncy B . Richards (org.), Londres, Free Association Books, 1984,
p. 207 p. 225; e The Good Society and the Inner World: Psychoanalysis,
Politics and Culture, Londres, Verso, 1991. Cf. t a m b é m Fred C . Alford,
Melam Klein and Criticai Social Theory: an Account of Politics, Art and
Reason msed on her Psychoanalytic Theory, New Haven, Conn., Yale U n i -
versity 1 fess, 1989.
57. Cf. Lyn< sey Stonebridge e John Phillips, Reading Melanie Klein, op. cit.
58. Michael Rustin, " A socialist consideration of Kleinian psychoanalysis", op.
cit., pp. 71-96.
59. Michael e Margaret Rustin, "Relational preconditions of socialism", op. cit.,
PPp. 207^ 225.
60. Ibid., p 218.
6 1 . Cf Melàiie Klein and Criticai Social Theory..., op. cit.
62. "Ocupar do-nos dos outros a partir do interior de n ó s mesmos, procuramos
não superar sua diferença, mas afirmar nossa própria individualidade por
um ato caritas, um ato que parte de nossas próprias fronteiras para alcan-
çar as d< um outro, sem jamais negar essas fronteiras respectivas", ibid., pp.
183-184
280 MELANIE KLEIN

63. "Melanie Klein as a social theorist" é o primeiro capítulo do livro de Alford.


64. Cf. supra, cap. V I I I , 2.
65. "Uma perspectiva kleiniana oferece pouca esperança para uma transforma-
ç ã o total da humanidade [...]. Apesar disso, segundo esta perspectiva, a na-
tureza humana em seu estado atual nos permite, mesmo assim, uma certa
esperança, se bem que seja inegável que, até aqui, esta esperança continua
tragicamente n ã o realizada, sobretudo nos grupos de grande tamanho", ibid.,
p. 136.
66. Cf. Gilles Deleuze e Félix Guattari, UAnti-Édipe, Éd. de Minuit, 1972.
67. Cf. Jacques Lacan, " L e cas ' A i m é e ' ou la paranóia d'autopunition" (1932),
e "Motifs du crime paranoíaque: le crime des soeurs Papin" (1933), em De
la psychose paranoíaque dans ses rapports avec la personalité, seguido de
Premiers écrits sur la paranóia, Seuil, 1975, pp. 153-343 e pp. 389-398.
68. Cf. supra, cap. I I , 1, p. 49.
69. Melanie Klein, Essais de psychanalyse, op. cit., p. 343.
70. Cf John Phillips, "The fissure of authority. Violence and the acquisition of
knowledge", em Lyndsey Stonebridge, John Phillips, Reading Melanie Klein,
op. cit, pp. 160-178.
7 1 . Cf, supra, cap. V I I I , 3, pp. 206-207 sq.
72. Cf, neste sentido, os comentários de Jacques Hochmann, "Winnicott et B i o n
dans l'après-coup des Controverses", em Bulletin de la Societé psychanaly-
tique de Paris, n- 50, julho-agosto de 1998, op. cit, pp. 141-142.
73. Aquela mesma que os t e ó l o g o s , sobretudo protestantes e ortodoxos, cha-
mam uma kénose, de kénos, "vazio", "inútil", "vão", remetendo ao não-ser,
à "inanidade" e ao "nada". A kénose evoca a encarnação como uma experiên-
cia-limite, visto que o ponto culminante da forma humana que o Cristo sofre
é constituído pelo aniquilamento e a morte.
74. Cf Catherine Parat, UAffect partagé, P U F , 1995.
75. Cf Melanie Klein, "L'amour, la culpabilité et le sentiment de réparation",
em Melanie Klein e Joan Riviere, UAmour et la haine (1937), trad. fr. Petite
Bibliothèque, Payot, 1968, p. 110.
76. Ibid., p. 104.
77. Se n ã o é na fase fálica, principalmente no menino, cf supra, cap. V I , 4, p.
148, mas t a m b é m na menina, cap. V I , 3, p. 144.
IS. Cf. Nancy Chodorow, The Reproduction of Mothering. Psychoanalysis and
Sociology ofGender, Berkeley e L o s Angeles, University of Califórnia Press,
1978, que insiste na transmissão do desejo de maternidade no interior da
relação de objeto entre a m ã e e sua filha.
79. Cf. Jéssica Benjamin, Les Liens de Vamour, trad. fr. Paris, Métaillé, 1992: à
luz da ligação m ã e - b e b ê , a autora se interessa pela tensão intersubjetiva na
ligação erótica entre duas pessoas, mais do que pela interna ao indivíduo.
80. Cf. Dorothy Dinnerstein, The Mermaid and the Minotaur: Sexual Arrange-
ment and Human Malaise, Harper Perenial, 1991, que analisa a "androginia"
da mulher como c o n s e q u ê n c i a da relação de "par" formado pela menina
com sua m ã e no período pré-edipiano.
81. C o m textos de A n n Scott, Janet Sayers, Elaine Showalter, Margot Waddell,
O GÉNIO FEMININO 281

Mary Jacobus, Noreen 0'Connor, Juliett Newbigin, e uma entrevista de


Hanna ISegal por Jacqueline Rose, primavera de 1990, vol. 1, n- 2.
82. Cf. Marv Jacobus, ibid. Cf. t a m b é m Janet Sayers, Les Mères de la psycha-
nalyse, trad. fr. P U F , 1995, e Teresa Brennan, "The Foundational fantasy"
em Hikory after Lacan, Londres, Routledge, 1993, pp. 79-117.
83. Cf. Jar es Gammil et alii, Melanie Klein aujourd'hui, op. cit., p. 143.
84. Cf nofsa e v o c a ç ã o de algumas de suas tendências, supra, cap. V I I I , 3.
J
ÍNDICE ONOMÁSTICO

ABRAHAM Karl, 13, 18, 33, 36-38, 58, BONAPARTE, Marie, 18, 175, 238.
76, 89, 110, 114, 223, 227, 253. BOSCH, Jeronimus, 19.
AGOSTINHO santo, 14, 47, 109, 113. BOULANGER, Jean-Baptiste, 224, 259.
ALFORD, fed C , 263 n. 56, 264 e 264 n. BOWLBY, John, 48, 249, 253, 257.
62 e 63, 65 n. 65. BRAUNSCHWEIG, Denise, 204 n. 58.
ALLEN, Woody, 14. BREMNER, J., 205 n. 61.
A L L E S T R l E Richard, 47 n. 3. BRENNAN, Teresa, 205 n. 60.
AMAR, Ni dine 119-120. BRETON, André, 14.
AMIGORI NA -ROSENBERG, Nenunca, BREUER, Josef, ver Freud, Sigmund.
173 n. 22 BRIERLEY, Marjorie, 200, 229, 252, 255,
ANDREA^-SALOMÉ, LOU, 18. 257.
Anna O. (i so), 17, 57, 63. BROOK, Lola, 224.
ANZIEU •idier, 114 e 114 n. 35. BROWN, A. L., ver Lamb, M. E .
ARENDT,, iannah, 22. 73 n. 2, 103 e 103 BURLINGHAM, Dorothy, 251.
n. 7, 124, 197 n. 39, 209, 225 n. 10.
ARISTÓTELES , 73 n. 1. CAROLL, Lewis, 48.
ARNOUX, Dominique J., 141 n. 12. CARPENTER, G. C , 76 e 76 n. 11.
Arpad (casi 0, 35. CELLÉRIER, G., 169 n. 19.
ATHANA! SIOU-POPESCO, Cléopâtre, CHAMBIER, J., 123 n. 16.
123 n. 1 205 e 205 n. 63. CHAPLIN, Charles, 14.
AULAGNÍR, Piera, 167 n. 15. CHAUCER, Geoffrey, 109, 113.
CHODOROW, Nancy, 272 e 272 n. 78.
BACH, Jol|ann Sebastian, 41. CLYNE, Klein, 88.
BALINT,, M ichael, 76e76n. 13, 249, 253, CLYNE, Diana, 41.
257 CLYNE, Eric, 30, 32, 33, 37, 41, 50, 55,
BARRET- IUCROCQ, François, 48 n. 5. 88, 207, 226.
BATAILLE, Georges, 14. ver Klein, Eric.
BECHI, le, 48 n. 5. CLYNE, Hazel, 41.
BÉGOIN C UIGNARD, Florence, 49 n. 10, CLYNE, Judy, 41.
86, 108 24 e 25, 142, 143 n. 16. CLYNE, Melanie, 41 n. 46.
BÉGOIN, ean, 119, 123 n. 14. CLYNE, Michael, 41 e 41 n. 46.
B E L L , Dadid 74 n. 5. COLETTE, 124, 209, 210.
BENJAME I., Jéssica, 272 e 272 n. 79. COTTET, Serge, 145 n. 29.
BENVENIITE, Émile, 14. COURNUT, Jean, 147 n. 42.
BIBRING, Edward, 249. COURNUT-JANIN, Monique, 147 n. 42.
BICK, Estl er, 205 e 205 n. 63, 253 n. 14. CRICHTON-MILLER, Hugh, 253.
BION, Wil fred Ruprecht, 18, 20, 54, 86, CULLEN, Stephen, 48 n. 5.
120, 131, 142, 167 n. 15, 171-173, 180, CUNNINGHAM, Hugh, 48 n. 5.
187, 202- 204, 205 e 205 n. 63, 239, 253,
256, 257( 267, 268, 270 n. 72. DELAY, Jean, 261.
BLEGER, ^eopoldo, ver Amigorena-Ro- DELEUSE, Gilles, 265 n. 66.
senberg, Blenunca. DESCARTES, René, 17.
284 MELANIE KLEIN

DEUTSCH, Helene, 18, 92 e 92 n. 53, 143, Fritz (caso) [Erich Klein], 35, 36, 37, 49-
144, 238. 56, 58, 62, 63, 104, 127, 138, 154, 188,
DEUTSCH, os, 27, 28. 266.
DEUTSCH, Hermann, 27, 28.
DEUTSCH, Libussa, ver Reizes, Libussa. GAMMIL, James, 101 n. 1, 114 n. 35, 181
DIATKINE, René, 259. n. 29, 273 n. 83.
Dick (caso), 124, 127, 154, 165, 170, 185- GIBEAULT, Alain, 229 n. 9, 192 n. 18, 194
195, 201, 206, 256, 260. n. 20, 201 n. 54.
DICKENS, Charles, 48. GIDE, André, 14, 261, 262.
DIGGER, 48. GIDE, Madeleine, 261.
DINNERSTEIN, Dorothy, 272 e 272 n. 80. GILLESPIE, W. H., 256.
Dora (caso), 17. GILLIBERT, Jean, 273.
GIRARD, Françoise, 259.
EDELBERG, 249. GLOVER, Edward, 58, 224, 229, 232-234,
EDER, David, 240. 235, 236, 237, 239, 248, 249, 250, 251,
EDGEWORTH, Maria, 48. 252, 253-254, 256.
EITINGON, Max, 232. GOETHE, Johann Wolfgang von, 113.
Elisabeth von R. (caso), 17. GOLDING, William, 48.
Emmy von N. (caso), 17. GOLSE, Bernard, 205.
ERASMO, 21. GRAND, R, 205 n. 63, 206.
Erna (caso), 38, 63. GREEN, André, 75, 79 n. 21, 101 n. 1, 104
ÉSQUILO, 124, 153, 154, 231, 240. n. 11, 106 n. 17, 167 n. 16, 167, 194 n.
ETCHEGOYEN, R. H., 66 n. 61. 19e 22, 251 n. 9.
GREEN, Julien, 124, 212, 227.
FAIN, Michel, 204 n. 58. GREUNDEL, J.-M., ver Nelson, K.
FAIRBAIRN, W. R. D., 147-148, 257. GROSSKURTH, Phyllis, 27 n. 1 a 3,28 n. 4
Félix (Hans Klein), 37, 56, 62, 104, 138. a 7,29 n. 8 a 10, 30 n. 11,31 n. 12 e 13, 31
FERENCZI, Sandor, 18, 33-37, 40, 186, n. 14, 32 n. 15 a 18, 33 n. 19 e 20, 34 n. 24
225 n. 11, 154, 247. a 31, 35 n. 35 e 36, 37 n. 41,40 n. 44 e 45,
FERRARI, R, 205 n. 63. 41 n. 48, 57 n. 32 e 35, 88 n. 44, 200 n. 48
FLAVELL, J. H., 169 n. 19. e 51, 207 n. 67, 223 n. 2, 224 n. 6 a 8, 228
FLECHSIG, dr. Paul, 83. n. 14, 231 n. 23, 232 n. 24, 233 n. 26 e 28,
FLUGEL, John Carl, 257. 234 n. 29 a 33, 235 n. 34 a 37, 236 n. 38,
FONAGY, R, ver Sandler J. 42, 237 n. 46, 48, 49, 50, 51, 238 n. 55 e
FOULKES, S. H., 251. 56, 239 n. 57 a 61, 247 n. 1, 248 n. 3, 249
FREUD, os, 235, 249. n. 4, 251 n. 8, 254 n. 20, 259 n. 43.
FREUD, Anna, 17, 18, 36, 40, 49, 52, 65, GUATTARI, Félix, ver Deleuze, Gilles.
124, 234, 235, 238, 247-249, 251-254, GUIGNARD, Florence, ver Bégoin-Gui-
258, 259, 266, 269, 270. nard, Florence.
FREUD, Sigmund, 13 n. 1, 14, 15, 17, 19-
20, 33 n. 21 a 25, 36, 39 n. 43, 40, 47, HAAG, Geneviève, 205 e 205 n. 63.
48, 53-54, 59, 62, 63, 65, 66, 75 n. 8, 76, Hans, o pequeno (caso), 49, 62, 127, 255
78, 80, 82, 83, 93, 94, 101, 104 n. 11, n. 21, 273.
110, 127, 137, 143, 144, 145, 146, 147, HARRIS, Martha, 253 n. 14.
149, 151, 152, 153, 164, 165 n. 9, 173- HARRIS WILLIAMS, Meg, 253 n. 14.
175, 178, 185, 191, 194-198, 199, 203, HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich, 177.
206, 225, 226, 227, 231, 232, 234, 238, HEIDEGGER, Martin, 14, 73 n. 2, 226 n.
241, 247-248, 250, 251, 253-255, 257, 12.
262, 272, 273. HEIMANN, Paula, 18, 172, 194 n. 21, 22,
FREUND, Anton von, 35, 52. 23, 197 e 197 n. 33 a 36, 200, 200 n. 49 e
FRIEDLANDER, Kate, 251, 271. 50, 223, 237-239, 252, 253, 259.
O GÊNI } FEMININO 285

HENDRIC EC, Harry, 48 n. 5. KING, Pearl, e STEINER, Riccardo, 194


HERÁCL1 TO, 241. n. 22 e 23, 200 n. 49, 229 n. 16 e 17, 249
HILL, Ma ;olm, 48 n. 5. n. 6, 250 n. 7, 251 n. 9, 252 n. 10 e 11,
HITCHCC| C K , Alfred, 14. 253 n. 15 a 18, 254 n. 19, 255 n. 21 a 28,
HITLER, f dolf, 124, 125-126, 128, 129, 256 n. 29, 260 n. 48.
130. KINGSLEY, Charles, 47.
HITSCHIVlANN, Eduard, 249. KLEIN, os, 31.
H O C H M ^ N , Jacque, 205 n. 63, 270 n. KLEIN, Arthur Steven, 29, 31-33, 34, 36,
72. 37, 224, 232.
HOFFER, dedwig, 251. KLEIN, Erich, 31, 32, 33, 37, 41, 50, 56,
HOFFER, tVilli, 249, 251. 88, 207, 226.
Homemi dos Lobos, O (Serguei Constanti- ver Clyne, Eric; ver Fritz.
novitch ankejeff), 74, 199. KLEIN, Hans, 31, 33, 56, 88, 223, 232,
HORNEY, Karen, 18, 48 n. 5, 143, 233. 233, 236, 237.
HORNEY BCKHARDT, dra. Marianne, 49 ver Félix.
n. 7. KLEIN, Jacob, 30.
HOUZEL. Didier, 205. KLEIN, Melanie: a guerra com Melitta, 40,
HOXTER, S., 205 n. 61. 58, 143 n. 21, 232-236, 249.
HUG-HEL|J :, Hermine von, 36, 38, amizades femininas, 31.
248. atenção que ela dá à sua origem judia,
HUGHES, Thomas, 47. 32.
HYPPOLlfE Jean, 197 e 197 n. 38, 198, conflito com Anna Freud (as Grandes
260 Controvérsias), 40, 247-258.
relação Melanie-Emanuel, 28-30.
INHELDEJ* , Bôrbel, 75 n. 9, 236 n. 19. relação com a mãe, 30-31, 54.
ISAACS fusan, 18, 123-124, 163 e 163 seu caráter devorador, 38.
n. 1 163 n 2, 165 e 165 n. 10 e 12, 172, KLEIN, Melitta, ver Schmideberg, Melitta.
194 n. 21 195 n. 23, 195-196 e 196 n. KLEIN-VÁGÓ, Jolan, 31.
30e31 197, 237 e 237 n. 53, 238, 252, KLOETZEL, Chezkel Zvi, 33, 223.
253, 256 259. KLUBER, 257.
ISAKOW1 R. 249. KRIS, Ernst, 199, 249, 260.
KRISTEVA, Julia, 35 n. 34, 73 n. 2, 79 n.
JACOBUS Mary, 272 n. 81 e 82. 21, 87 n. 42, 103 n. 7, 173 n. 21, 147 n.
JAQUES illiott, 224. 40, 151 n. 50, 154 n. 56, 167 n. 15, 175 n.
JARRY, A fred, 130 n. 30. 25, 179 n. 27, 197 n. 39, 201 n. 52, 202 n.
JONES, st, 34, 39, 40, 143, 186, 228, 55, 225 n. 10.
234. 238 239, 248, 251-252, 253, 254 n. KUBRICK, Stanley, 155.
19, 257 160 n. 46, 260. KUN, Béla, 36.
JONES, G venith, 40.
JONES, hfsrvyn, 40. LACAN, Jacques, 62, 101, 137, 149, 164,
JONES, sr 40. 165, 167, 172, 188, 191, 192 n. 17, 197-
JOYCE, James, 32. 198, 199, 240, 257-262, 270, 272 e 272
JULIA Ddminique, ver Bechi, Egle. n. 82.
JUNG, , C a i Gustav, 18, 34, 40. LAGACHE, Daniel, 259, 260 n. 51.
LAING, R. D., 239, 256.
KAROLY, Michael, 36. LAMB, M. E., 169 n. 19.
Katharina caso), 17. LAMPL-DE GROOT, Jeanne, 18.
KENDRIC EC,, Walter, ver Meisel, Perry. LANTOS, Barbara, 249, 251.
KHAN, 25 7 LAPLANCHE, Jean, 75 n. 7 e 8.
KING, P e j l , 238, 250 n. 7, 252 n. 10, 256 LA ROCHEFOUCAULD, François, duque
n. 29. de, 15.
286 MELANIE KLEIN

LAURENT, Éric, 237 n. 43. PERRON, Roger, 123 n. 16, 205 n. 63.
L E GOUÈS, Gérard, ver Amar, Nadine. PERSONE, Spector, ver Sandler, J .
LEIBOVICI, Serge, 205 n. 63. Peter (caso), 59-60, 61, 62, 105, 127.
LEONARDO DA VINCI, 74. PETOT, Jean-Michel, 75 n. 9, 76 e 76 n.
Lisa (caso), 37, 57-58, 233 n. 25. 11, 81 n. 27, 104 n. 12, 107 n. 20, 138 n.
L I T T L E , Margaret, 200 n. 51. 3, 165, 166 n. 11, 167 n. 14.
LOCKE, John, 47. PHILLIPS, John, 252 n. 13, 263 n. 57, 267
LOW, Barbara, 248, 251, 255. n. 70.
Lucy R. (caso), 17. PIAGET, Jean-, 75 e 75 n. 9.
PONTALIS, Jean-Bertrand, 56 n. 27, 75 n.
MACAULAY, Catherine, 48. 6e7.
MAHLER, Gustav, 14. PRAGIER, Georges, ver Amar, Nadine.
MAIN, Tom, 238. PRIVAT, P, 205 n. 63.
MANDLER, J . M., 169 n. 19. PROUST, Mareei, 91 e 91 n. 51, 210.
MARCUSE, Herbert, 264.
MARKMAN, E. M., ver Flavell, J. H. RADÓ, Sandor, 34.
MAZET, Philippe, 205 n. 63. RAMNOUX, Clémence, 241 n. 62.
MEISEL, Perry, e Kendrick, Walter, 13 n. RANK, Otto, 238.
1, 33 n. 21 a 25, 33 n. 26 a 28, 39 n. 43, RAVEL, Maurice, 124, 209-210.
311 n. 1. RAYNER, Éric, 207 n. 66, 257 n. 34.
MELTZER, Donald, 123, 125, 128 e 128 REICH, Wilhelm, 262.
n. 27, 205 e 205 n. 61. REES, John, 253.
MICHAELIS, Karin, 210-212. REIK, Theodor, 197 n. 33.
MIDDLEMORE, Merel, 249. REIZES, família, 27, 29.
MILLER, J., 53 n. 20. REIZES, Emanuel, 28, 29-30, 32, 33, 223.
MILLOT, Catherine, 261 n. 53. REIZES, Emilie, 28, 31, 223.
MILNER, Marion, 41 n. 46, 256. REIZES, Libussa, née Deutsch, 27-30, 32,
MILTON, John, 109, 113, 123. 33, 34, 35, 54, 155, 223, 232, 267.
MISES, R., 205 n. 63. REIZES, Moriz, 27, 28, 29, 223.
MITCHELL, Juliet, 47 n. 1, 48 e 48 n. 4. REIZES, Sidonie, 28, 223.
MONEY-Kyrle, Roger, 252, 259, 264. RIBAS, D., 205 n. 63.
MONTAIGNE, Michel Eyquem de, 61 e 61 Richard (caso), 61, 124-130, 156, 253.
n. 48. RICHARDS, B., 263 n. 56.
MORE, Hannah, 48. RICKMAN, John, 234, 237, 239, 252, 253,
MORO, Tomás, 48. 257.
MOZART, Wolfgang Amadeus, 33. RIMBAUD, Arthur, 15.
Rita (caso), 58-59, 62, 64, 79-81, 104, 105,
NABOKOV, Vladimir, 14. 127, 138.
NEILL, Alexander Sutherland, 48. RIVIERE, Joan, 18, 124, 194 n. 21, 207,
NELSON, K., 169 n. 19. 224, 229-231, 237, 238-239, 238 n. 54,
NEWBIGIN, Juliet, 272 n. 81. 248, 251, 252, 253, 259.
NIETZSCHE, Friedrich, 105. ROHEIM, Géza, 34, 36.
ROLLAND, Romain, 14-15.
0'CONNOR, Noreen, 272 n. 81. ROSE, Jacqueline, 199 n. 44 e 47, 229, 272
OWEN, Robert, 48. n. 81.
ROSENFELD, Eva, 235.
PARAT, Catherine, 271 n. 74. ROSENFELD, Herbert, 205 n. 60.
PASCAL, Blaise, 13. ROUDINESCO, Élisabeth, 258 n. 37.
PAULO, são, 109. ROUSSEAU, Jean-Jacques, 47, 53.
PAYNE, Sylvia, 61 n. 47, 234, 237, 251, RUSTIN, Margaret, 263 n. 56 e 59, 264 n.
256, 257. 60.
O GÊN O FEMININO 287

RUSTIN, Michael, 263 n. 56, 263 e 263 n. STONEBRIDGE, L., ver Phillips, John.
58e 59 264. STRACHEY, Alix, 13 e 13 n. 1, 33 e 33 n.
Ruth (cas [), 105. 21 a 26, 49 n. 9, 223, 224, 237.
ver Meisel, Perry e Kendrick, Walter.
SACHS, ans, 249. STRACHEY, James, 13 e 13 n. 1, 33 n. 21
SACCO, . 205 n. 63. a 28, 39 e 39 n. 43, 207, 224, 237, 239,
SANDLE l, Joseph, 75 n. 5, 252 n. 13. 251, 252, 255, 257.
SARTRE Jean-Paul, 14, 154 n. 56. ver Meisel, Perry, e Kendrick, Walter.
SAYERS Janet, 41 n. 47, 49 n. 6, 272 n. STRAUB, Hugo, 249.
81 e 82 STROSS, 249.
SCHMID BERG, Melitta, 30, 31, 33, 36,
40, 56, 7-58, 137, 143 e 143 n. 21, 148, TOPOLSKY, Felix, 239.
199, 23 -236, 249, 250-252, 256, 260. Trude (caso), 60, 62, 104-105, 127.
ver ?m Lisa. TURECK, Rosalynd, 41.
SCHMID BERG, Walter, 232, 233, 237, TUSTIN, Frances, 18, 180, 206-207, 206
251, 25 n. 65, 230.
SCHNIT^LER Arthur, 32.
SCHREB R, Daniel Paul, 74, 165 n. 9. VÁGÓ, Gyula, 31.
análise le seu caso por M. Klein, 82-83. VÁGÓ, Klara, 31.
SCHUR, dax, 249. VERA OCAMPO, Eduardo, ver Amigore-
SCOTT, 272 n. 81. na-Rosenberg, Nenunca.
SCOTT, lifford, 259 n. 43.
SCOTT, 252. WADDELL, Margot, 272 n. 81.
SEGAL, anna,41,53e53 n. 20, 74 n. 5, WALLON, Henri, 76 e 76 n. 10.
82 n. 28 85 n. 36 e 37, 90 n. 48 e 49, 92 WEDDELL, D., 205 n. 61.
n. 54 e 5, 93 n. 56-59, 141 e 141 n. 13, WIDLÓCHER, Daniel, 205 n. 63.
167 n. 7, 186, 188, 194 n. 20, 195 e WINNICOTT, Clare, 231.
195 n. 197, 199 n. 44, 201 e 201 n. WINNICOTT, Donald Woods, 18, 48, 54,
53, 202, 205 n. 60, 237, 239, 272 n. 81. 56 e 56 n. 28, 110, 130 n. 31, 142, 146
SHAKESfE William, 9, 108, 109. n. 36, 172, 180, 187, 194, 200 n. 51, 207-
SHARPE, Ella, 237, 248, 251, 256, 257. 209, 224, 231, 238, 239, 249, 252, 254,
SHOWAlfER Elaine, 271 n. 82. 256, 257 e 257 n. 35, 262, 267, 268, 269,
S O K O L N I C K A Eugénie, 35 n. 34, 175. 270 e 270 n. 72, 271, 273.
S O L L E R ; Philippe, 108 n. 23. WITTENBERG, I . 205 n. 61.
SOUFFIR V., ver Chambier, J . WOLLFHEIM, Nelly, 38.
SPENSEF Edmund, 14, 109. WOLLHEIM, Richard, e Klein, Melanie, 41
SPIELRE N , Sabina, 18. n. 47.
STEINER Riccardo, 252 n. 11, 253 n. 15, WOLLSTONECRAFT, Mary, 48.
254 n. 9,, 255 n. 28, 260 n. 48. WOOLF, Virginia, 9, 14, 39.
ver Kin] , Pearl. WORDSWORTH, William, 47.
STENGE] 249. WRIGHT, Nicholas, 145 n. 29, 236, 237 n.
STEPHEI Adrian, 39, 256. 43.
STEPHEÍ L Karin, 39, 256.
STERN, >aniel N., 169 n. 19. ZARETSKY, Eli, 253 n. 14.
STONE awrence, 47 n. 2.
ÍNDICE D A S NOÇÕES

Abjeto, al jeção, 87, 175-176, 177, 180. 177, 210, 211-212, 231, 255, 261, 262,
-como objeto-alvo da angústia, 101. 264, 268, 270, 272, 276.
- como ;stado narcísico da relação objetal - da coexcitação mãe-bebê, 228.
preço e, 87-88. - de devoração, 90.
a fascin ição, face ideal da abjeção, 87. - de objeto, 83.
Afanise, 1 4. equilíbrio fundamental -/ódio, 107.
Afeto, 59, 104-105,166,167 n. 16,206,260. variante da caritas, 151.
- incon iciente, 104 e 104 n. 9. ver transferência.
sua re >resentação e o recalque, 104 n. 9. Anal, analidade, 37, 61-62, 101, 104, 175-
distinçã) -/representação, 204. 176.
semiolo pa diversificada dos -s da crian- expulsão - (Lacan), 199.
ça, & -65. fase - ,37,89,210.
ver jogo investimento da - na mulher, 145.
Agonia p imitiva (D.W. Winnicott), 172, sadismo - , ver sadismo.
187. Análise, analítico(a), 95, 107. 165, 169,
Agressividade, 60, 84,90, 91,94, 107, 108- 170, 171, 266-267.
109, 14 >, 154, 188, 212. - "ativa" (S. Ferenczi), 34.
canibalesca, 108. - didática, 41, 250.
Dick, 190-191. - e não-intervenção, 108.
edipiána, 104. características da técnica -a, 240.
- infant 1 surgindo na fase sádico-oral (K. necessidade de um bom ambiente para o
Abral am), 76, 77. tratamento -o, 107.
pulsão i gressiva primordial, 109. o estado de perpétuo renascimento ao fim
ver desi jo, fala, jogo, pai. da - (Winnicott), 208-209.
Alcoolisn o, 148. o relato da - , 124.
Alma, 14 15, 16. perigo de o tratamento -o subestimar o
ver • corpo sentido metafórico do phantasme, 171.
Alucinaçlo 81-82, 101. separação experiência -a/influência edu-
- da sa isfação, 101, 192. cativa e parental, 36.
a satisfa ão alucinatória do desejo (Freud), separação lugar familial/lugar -o, 56.
82. ver criança, fala, psicanálise, verdade.
continu dade e diferença entre - e pensa- Analista, 37, 108, 128, 174, 179, 187, 200,
mentc (P. Heimann), 197. 274.
ímagen alucinatória, 203. a fala do - , 165, 192-193.
recusa < -,82. alteridade do "sujeito que se supõe saber"
Ambivalência, 38, 64, 74, 89, 90, 91, 92, que é o - , 191.
94, 122 148, 175, 176. 223-224, 241 n. - mulher, 143, 239.
63. habitada pela bissexualidade psíquica,
ver mã< seio. 180.
Amizade; femininas, 31. a necessidade de sua posição de terceiro
e a buséa de um bom objeto, 140. (exemplo do caso Dick), 191.
Amor, 13 14,74, 86,91-93, 103, 108, 111- formação do - , 255, 256.
112, 1 , 128, 138, 147-148, 150-151, ver médico.
290 MELANIE KLEIN

ver contratransferência, escuta, fantasia, Animalidade, 16.


imaginário, mãe. Appendage, 139.
Androginia, 179, 239 n. 61. ver dependência.
"~" e relação mãe-filha, 272 n. 80. Arcaico, 20, 175, 202-209.
Angústia, 20-22, 60, 64-65, 66, 73, 76, 77, ~ materno, 180.
80, 81, 84, 85, 88, 90, 91, 92, 101, 106, esquecido do materno, 225.
107, 108, 110, 113, 119-120, 122, 125, - transverbal, 167.
131, 139, 146, 148, 149, 152, 156, 176, estados ~s e transgressivos, 34.
179, 180, 190, 191-193, 205, 209, 210, ver mãe, maternidade, objeto.
211-212, 223, 240, 241, 263, 266, 271, Arte, 47, 87, 151, 155, 207, 208, 209-214,
272, 273, 275-276. 275.
- administrada pelo ego, 80. obra de ~ como atividade auto-analítica,
~ agressiva, 194. 211-212.
e dor psíquica, 108. permite recriar a harmonia do mundo
~ de aniquilamento da vida, 102-103, interior, 212.
112-113. obra de ~ como encargo, 210.
ver vida. ver reparação.
- depressiva, 89, 90, 92, 124, 130, 131. Associação livre, 61, 66, 170.
- e construção do objeto inerno, 79. Ateu, 154, 266.
~ em Freud, 103-104. At-one-ment (W.R. Bion), 20.
- e simbolização, 20. Autismo, 18, 21, 54, 186, 202, 205-207,
- fantasística, 168. 227, 230.
- inconsciente, 104. bombardeio das sensações (D. Meltzer),
~ originária sustentada pelo sadismo do 205.
ego arcaico, 104. idéia de um - endógeno, primário ou nor-
- paranóide, 89, 126, 131. mal (F. Tustin), 205-206.
- primária como condição do pensamen- relação mãe-bebê submetida ao trauma-
to, 170-171. tismo da separação e podendo ser vi-
- primária esquizoparanóide, 104, 130. vida de maneira intolerável pelo bebê,
- superada pelo pensamento, 21. 206.
~s persecutórias ligadas à clivagem, 120, identificação adesiva (E. Bick), 205.
124. impossibilidade da identificação projeti-
como intensidade do desejo frustrado, va, 205.
101. Auto-erotismo, 73, 83, 86, 205.
co-presença, desejo e ~ , 104. ver narcisismo.
desdobramento da fantasia e criação do Autoridade, 50,54,177,226,266,267,268.
desdobramento no objeto da ~ , 106. ver lei.
é automática, 101.
localização da - sob as inibições, 104. Barreira de contato (Bion), 203.
separação com o útero como seu protóti- à base da distinção consciente/inconscien-
po, 38. te, 204.
sua causa primária é o medo da vida, 102- ver elemento alfa.
103. Bebê, ver lactente, recém-nascido.
sua diferenciação em - esquizoparanóide ~ estabelece desde o nascimento uma re-
e ~ depressiva, 101. lação de objeto, 74.
sua existência desde o nascimento do be- ver relação de objeto.
bê, 76. desgosto dos ~s (A. Freud), 256.
ver pulsão. negatividade como expressão emocional
ver abjeto, castração, desejo, destruição, do bebê, 230.
fala, fobia, identificação, jogo, simbo- relação mãe- ~, 272.
lização. submetida ao traumatismo da separação
O GÊN O FEMININO 291

p dendo ser vivida de maneira in- Casos-limites, 238.


tole ável pelo ~ (F. Tustin), 206. ver borderlines.
autismo. Castração, 19, 87, 164, 201, 202 n. 55.
Bissexua idade psíquica, 17, 156. angústia de ~, 104, 122 e 122 n. 9, 142,
contrár o da < androginia, 179. 275.
mais acentuada nar menina, a razão segun- inexistente na mulher, 122, 143, 144.
do ]Fifcud, 177-178. ~ feminina, 122, 143-144.
ver analiíista. complexo de ~, 51, 58, 110.
Borderlirks, 231. ver complexo de Édipo,
ver cas >s-limites. medo da ~, 52.
Brinqued ) Catolicismo
a destn ição do ~, sua significação com analogia entre elementos da teoria klei-
relaçí o ao pai, 60. niana e noções católicas, 31.
mportí ncia do aspecto dos ~s, 59. Child War Nursery (Hampstead, Londres),
o ~ dai ificado, 59, 60. 252 e 252 n. 13.
Ciúme, 109-110, 139-140.
Caso, 74 120, 121, 127. é triangular, 109.
Anna < , 17, 57, 63. ver inveja.
Arpad. p5. Clivagem, clivado(a), 19, 50-53, 80, 82-84,
Dick, 4, 127, 154, 165, 170, 185-195, 85, 92, 103, 105-108, 113, 120, 124, 126,
201, 06, 256, 260. 127, 131, 132, 149, 151, 154, 156, 168,
Dora, 7. 193, 201, 202, 205, 213, 225.
Elisabeth von R., 17. ~ consumada na separação amor/ódio, 77.
Ema. 63. ~ das qualidades no objeto, 81-82.
Emmy ton N., 17. ~ /identificação projetiva, 120.
Félix ( lans Klein), 37, 50, 56-57, 62, embora fantasística, sentida como real,
104, 05, 138. 81-82.
Fritz (E rich ]Klein), 35, 36, 37, 49-56, 58, redução das ~ns quando da posição de-
63, 1 4, 127, 138, 154, 188, 266. pressiva, 89.
Hans, pequeno, 49, 62, 127, 255 n. 21, ultrapassagem das ~ns, 128.
273, ver ego, seio, self.
Homen dos Lobos, 74, 199. Cogito, 17.
Homen dos Miolos, 199, 260, 261. Cognitivismo, 76, 169.
Katharina. 17. Coito, 66, 84, 94, 141, 144, 146.
Lisa (N elitta Schmideberg?), 37, 56, 57- como ato oral desejado pela criança, 138.
58, 3 n. 25. concepção sádica do ~, 58, 149.
Lucy 17. representação sádico-anal do ~, 64.
Peter, -60, 61, 62, 105, 127. Compaixão, 179, 274.
Richarc 61, 124-130, 156, 253. ver remorso.
Rita, 58-^9., 62,64, 79-80, 104, 105, 127, Complexo de Édipo, 37-38, 51, 66, 77, 80,
138 87-88, 94, 95, 105, 113, 120-122, 138,
Ruth, D 5 . 150, 152, 168, 169, 185, 192, 198, 229,
Schrebér, o presidente, 74, 165 n. 9. 252, 264, 270, 272.
releit|ra de seu caso por M. Klein, 82- as diferenças na menina e no menino, 94.
83. ~ na menina, 94, 122 e 122 n. 9, 139,
Trude, >0, 62, 104-105, 127. 141, 144-145, 146.
Casal, 9; e complexo de castração, 122, 144.
~ e obj :tos totais, 94. predominância do sadismo, 144, 168.
como )bjeto combinado", 19. e inveja primária, 146.
o modi psicanalítico da sexuação fun- o Édipo-primeiro, 175-176, 177, 178,
dam< itado no ~, 149. 179, 180.
292 MELANIE KLEIN

o Édipo-bis, 176, 178, 180. posicionamento dos grupos ou clãs, anna-


~ no menino, 94, 122 e 122 n. 9, 139- freudianos, kleinianos e middle group,
140, 147. 251.
~ precocíssimo, 19, 122, 168, 249. o grupo OI, 253.
existência de um Édipo arcaico, um proto- psicanálise vivida, no momento da Segun-
Édipo, 138-139. da Guerra Mundial, como uma religião,
lugar do pai, 150. 250.
existência dos dois pais, 94, 139. Corpo, 14, 142.
ver pais. - /alma, 16, 17, 174.
mistura do oral e do vaginal pelas pulsões revisão do dualismo, 174.
edipianas precoces, 138. ~ materno, ver mãe.
sua análise segundo A. Freud e segundo reabilitação do ~ pulsional, 173.
M. Klein, 249. Criança, 18, 190.
ver Controvérsias, criança. análise da ~: argumentos de M. Klein/ar-
triângulo edipiano, 38, 87, 149. gumentos de A. Freud, 247-249.
ver fantasia, pênis, seio. risco de fazer uma análise da ~ normal
Compreender, para M. Klein, 129. (A. Freud), 248.
Concretude, 67, 123, 127, 171. educação da ~ deve incluir a análise (M.
~s superegóicas, 127. Klein), 248.
ver espaço mental. ~ como início da alteridade na materni-
Condensação, 168. dade, 178-179.
ver fantasia. ~, objeto do desejo, 48.
Conhecimento, 14, 143, 148. individuação subjetiva da ~, 17.
~ "corporal" ou "imaginário", 229. observação direta da ~ (A. Freud), 252 n.
~ de si, 14, 194, 275. 13.
processo de ~ e fantasia, 172. onipotência infantil, 34.
ver saber. torna-se sujeito quando da separação do
Consciência, 174. objeto, 177.
Contratransferência, 19, 66, 78 n. 19, 108, ver individuação.
114, 141, 168, 180, 189, 200-201, 230- Criatividade, 14, 15, 93, 94, 113, 194, 209,
231, 355 n. 13. 258, 262.
~ e sua interpretação para o paciente in- ~ e depressão, 274.
dispensáveis à cura (P. Heimann), 200. ~ psicanalítica, 33.
~, sinonimo da intuição e da empatia, Cristianismo, 172-173, 212, 270.
200. Crueldade, 120, 129, 227.
Controvérsias de 1941-1945, 18, 40, 124, ver superego.
163, 171, 194, 200, 231, 235, 238, 247- Culpa/culpabilidade, 38, 79, 84, 91, 92,
258, 267. 121, 125, 140, 146, 147, 154, 189, 223,
análise da criança: argumentos de M. 236, 269.
Klein/argumentos de A. Freud, 247- aparição do sentimento de - na posição
249. depressiva, 90.
ver criança, a própria ~ de M. Klein e suas defesas
contexto da Segunda Guerra Mundial, contra ela, 58.
249-250. ~ amorosa, 107.
debate científico sem precedentes, 249. ~ superegóica precoce, 105.
violência dos conflitos e grande traba- ver homossexualidade.
lho de meditação, 250. Cultura, 14, 15, 54, 152, 178, 240, 258.
existência de uma luta social para domi- crise moderna da ~, 20.
nar o campo da psicanálise, 250. Curiosidade, 57.
interpretação divergente dos textos de ~ metafísica, 49.
Freud (A. Freud e M. Klein), 248. ~ sexual, 49, 50-53, 55.
O GÊN O FEMININO 293

Distúrbio digestivo/nutritivo, 90, 166, 189,


Decapitaç l<o, ver matricídio. 233.
Defesa(s) 53 ,73, 86, 92, 95, 106,193, 257. Doença mental, 15.
barreira de ~s, 95. Dor, 14, 20, 54, 82, 114.
~s; i n f a n t is/as da idade adulta, 108. ~ de ser, 48.
~s , 92, 93, 94, 126, 229. ~ psíquica, 107.
formas erturbadoras de ~s esquizóides e e angústia agressiva, 108.
param ides, 83. ~ psíquica do recém-nascido, 19.
mecani*nos de ~ do ego, 259, 266.
possibiliddade de sua subestimação na Educação, 35, 49, 50, 270.
crianç i 64. ~ e sexualidade infantil, 49.
Delírio sc|mático, 86. modelos educativos, 47.
Dementia praecox, 74. pressão educativa, 51.
Dentro/fora , 76-81, 82, 85, 167, 186. ver análise, interpretação.
ver discriminação, interior/exterior, Ego, 19, 63, 73-75, 77-79, 81, 85, 88, 93,
Depend ia, 139, 140 n. 8, 257. 95, 103, 106, 113, 119, 121, 127, 147-
Depress deprimido(a), 21, 29,64, 84,90, 150, 163, 167, 168, 185, 233, 260, 275.
168. 178 189, 211, 230, 236, 237, 241, administra a angústia, 80.
255, 260, 269, 274. agente do ódio, da inveja etc, 113.
~, cond çã<o da criatividade, 274. aprofundamento do ~ pela perlaboração
sentime íto de ~, 92. depressiva, 107.
ver reparação. clivagem do ~, 81, 83.
Desejo. i, 19, 50, 51, 90, 101, 103, 121, construção do ~/super~, 79.
130, l4, 154, 164, 166, 169, 180, 196, desvalorização possível do ~ como conse-
208 2(f, 210, 272, 273. quência da identificação projetiva, 85-
CO-]presc nça ~ e angústia, 104. 86.
~da mãt subestimado por M. Klein, 271. ~ arcaico: seu sadismo sustenta a angús-
~ e senti do, 54. tia, 108.
IOSO, ver incesto, deseja o seio, 101.
~ que nsa, 54. ver frustração, seio.
~s agre sivos, 55, 80. ~ em Lacan, 258.
~s puis|onais, 82. - e remorso de consciência quando da
fratura, :ensão ^/recalque, 52, 53. posição depressiva, 91.
negati vição sublimatória do ~, 55. ~ precoce, 77.
realizaç o alucinatória do ~, 105, 106. sua fragilidade, 77, 79, 271.
sua lógi a inconsciente destronando a su- ~ esquizoparanóide, 21.
prems b:ia da consciência, 173-174. fragmentação do ~, 21, 22, 82, 192.
sua viol ncia destruidora, 105, 106. sentimento de fragmentação do ~, 83.
Desinteg:^Ção, 93. ideal do ~, 121, 132.
seu perfc;o no bebê, 76, 77. integração do ~, 101, 107, 111, 126, 131,
Deslocam ínto, 56. 204, 262.
Destruiçã). 14, 92, 120, 154-155, 167. natureza imaginária do ~, 52.
Destrutivi dade 77, 92, 108, 113, 123, 190, relação do ~ com os objetos (W.R.D. Fair-
194, 19 n. 43, 230, 263, 270. bairn), 81.
Deusa-mi 155. separação ego/outro e posição depressi-
Diferença dos sexos, 17, 95. va, 89.
Digestão, assimilação, 53, 90, 93, 203. ver clivagem, defesas, fantasia, libido, nar-
DiscrimiAç;ão (processo) cisismo, projeção, pulsão, self, símbolo.
aptidão para a distintividade binária, 79. Elementos alfa (W.R. Bion), 167 n. 15, 202.
dentro/ifcra,., interior/exterior, 78-79. sua organização em barreira de contato,
• dántro, interior. 202, 204.
294 MELANIE KLEIN

Elementos beta (W.R. Bion), 167 n. 15, parece tornar-se transparente e perder
202. sua tridimensionalidade, 67.
e o protopensamento, 203. o protótipo do ~, 120 e 120 n. 3.
transformação dos ~ em elementos alfa experimentado como uma encarnação,
pela capacidade de devaneio da mãe, 123.
204. e o feminino primário, 142.
Encarnação, 172-174, 260. Esquizofrenia, esquizofrénico, 21, 77, 82,
lógica da ~ no cristianismo, inversa da 186, 187 n. 8, 201, 263, 273.
posição de M. Klein, 173. Esquizóide, 13, 155, 234, 237.
ver fantasia, superego. ver defesas.
Enlightenment, 50, 57. Esquizoparanóide, esquizoparanóia, 95,
Envelope pré-narrativo, 169-174. 131, 168, 194, 256, 265-266, 267, 276.
acompanhado de representações analógi- ver ego, posição, regressão.
cas, 169-170. Estado de guerra, ver pena de talião.
a fantasia como representação analógica Estado inobjetal, 73, 75.
do ~, 170. Estados-limite, 53, 79.
~ é uma construção mental, 169. Estranheza, 224, 225, 227, 240.
ver PDP. estranhos a nós mesmos, 230.
Equação, equivalência, 165, 186, 187-189, "inquietante ~", 21.
191, 193, 199 n. 44, 201-202. da mãe, 228.
ver símbolo. ver inconsciente, língua, mãe.
Eros, 109, 264, 270. Excremento, excrementício, 77, 78, 84,
-TTanatos, 101, 108. 120, 145, 146, 189, 190.
tem "medo pela vida", 103. alimento / ~, 53.
ver vida. ver pênis.
Erotismo, 176, 179, 274. Experiência
~ anal, 188. aprendizagem pela ~ (Bion), 203, 268.
~ oral, 89. ver elementos alfa, beta.
~ uretral e escoptofilia/recalque dos de- Expulsão, 91.
sejos femininos, 145.
tensão intersubjetiva na ligação erótica, Fala, 127, 165, 176, 189, 190, 192, 199,
272 n. 79. 206, 231, 270, 275.
Errância, 226, 228. alívio proporcionado pela ~ analítica na
abertura e fechamento, 226. criança, 64.
Escoptofilia, ver erotismo uretral. alívio da agressividade e da angústia pela
Escuta, 16, 152, 231, 275. ~, 193.
~ analítica, 17, 129, 143. ~ do outro, 171.
sua necessidade/a fantasia, 172. ~s repetitivas, 63.
~ benevolente do analista, 180, 201. ver análise, interpretação, jogo, lingua-
~ e ligação materna, 180. gem.
Espaço, 225-226. Falicismo, 176-177.
~ de transição (Winnicott), 194. ver identificação.
no fundamento das possibilidades cria- Falo, 79, 148, 151, 156, 176, 177, 239, 261,
doras, 206-207. 270.
entre mãe e bebê, analista e paciente, ~ fiador da identidade (Freud e Lacan),
56. 274.
da criatividade, 209. lei fálica, 177.
~ do jogo como cena onírica, 65. "mãe fálica" freudiana, diferente da "mãe
~ mental e concretudes, 123. do pênis" kleiniana, 266.
~ psíquico, 21, 67, 88, 123, 124, 128, autoridade fálica paterna e mãe do pê-
129, 155. nis, 266-267.
O GÊ1S O FEMININO 295

ver pai fase. ~ do espelho, 79, 195, 260-261.


Falocenti|smo lacaniano, 272. e o phantasme, 163, 165.
Família 7, 89, 257, 262, 264. olho como símbolo do sujeito, 164.
lugar fifnilial, ver análise, ~ genital (= fálica), 94, 120-122 e 122 n.
terapia ámiliar, 258. 9, 149, 190, 272 n. 77.
Fantasia, 37, 51-53, 58, 59, 62, 63, 64, 67, na menina, 145, 175-177, 210.
73, 77, 78, 82, 84-85, 86, 90, 94, 106, ~s pré-genitais (teoria das), 36.
107, 131 142, 151, 163-180, 185, 193, ver anal, mulher, oral.
195, 198 , 201, 202, 205, 208, 214, 224, Feminino, feminilidade, ver mulher.
228, 230 249, 251, 253, 254-256, 258, Feminismo, 54, 155-156, 262, 272.
259, 260 262, 265, 267, 268, 272, 274. Feto, 53, 145, 188.
caráter leteróclito da ~, 19, 78, 165. como expressão possível do superego pa-
seu c^áter cde conglomerado de diferen- terno, 145.
tes egistros de representação, 163, Fezes, 37 n. 40, 50, 78, 104, 148, 188, 189,
166 167. 190, 206, 274.
como de desejo, 164. Fobia, 35, 53, 64, 276.
como n|etáfora, 20, 168. angústia fóbica, 271.
encan lada 20, 169, 171, 180. - de ser, 102.
desdobi imento da ~ e angústia, 106. Fome, apetite, 167.
distinta do devaneio, 163. ver sádico.
y
~ e pha iuasme, 19. "Fort-Da", 195.
signif cação idesta grafia, 163. Frankfurt, escola de, 264.
~ e reaf dade, 51. Frigidez, 140-141, 178.
~ pré-vi bal, de caráter edipiano, 174,189. ~/investimento defensivo da vagina, mais
~ primária se confunde com a vida psí- que do clitóris, 145.
quica, 166. Fruição, 106, 111, 113, 271.
função lefensiva, 167. Frustração, 82, 89, 101-102, 106, 110, 112,
implica ío da ~ do analista na constitui- 168, 192, 204, 210, 212, 256.
ção dl objeto analítico, 200. percepção alucinatória da ~, 173.
inscriçã) da ~ num contexto emocional, ver angústia, fantasia, inveja.
170. Função escópica, 79.
mobiliAção do conjunto dos registros
sensojiais, 164. Generosidade, 111.
no jogo 19. Genitalidade, 189, 295.
pela representação, transformação da pri- ver fase.
vaçao e frustração, 168. desejos genitais precoces, 121.
presenç da proto ~ no bebê, 169, 260. Gosto, 197.
proto] esença da ~ e do ego, 167. Gratidão, 19, 107, 111, 112, 113, 128, 151,
e ai pu Isão, 167-168. 152, 168, 255, 268, 270, 272, 276.
proto - sádica, 187, 191. ver inveja.
relatar ~, 62-63. Grupo, 256-258, 262, 264.
representante da pulsão, 174, 196. análise do funcionamento dos ~s (Bion),
ver compliexo de Édipo. 256.
verbali^ção.>, 193. paralelismo com a relação com o seio
seui ef ito sobre a - inconsciente, 165. para o bebê, 256.
ver envelope pré-narrativo, fase lógica tirânica dos ~s, 256.
do es] elho, idéia, identificação, inter- técnicas dos ~s (M. Balint), 253.
pretaç o, mãe, negatividade, psicanáli-
se, pu são Heterogeneidade, 79, 104 n. 11.
Falso seielf 108, 208. pulsão e sentido, 79 n. 21.
Fase, 73 ver negatividade.
296 MELANIE KLEIN

Heterossexualidade, 17, 84, 95, 141, 142, seu processo desencadeado pela angústia,
146, 147, 272. 122-123, 186.
Hipocondria, 84, 85, 90. Imaginário, 14,48, 150, 154, 165, 168-169,
Histeria, 57. 171-173, 187, 191, 193, 198, 199-200,
excitabilidade histérica, 176. 213, 230, 258, 260, 270, 274.
~ de conversão, 271. confusão possível entre os registros do ~
~ feminina, 17. 178. e da realidade cognoscível, 199-200.
~ masculina, 17. e real pulsional, 165.
ver sintoma. ~ do paciente e do analista, 172.
Historicidade, 198. " em Lacan, 78.
Holding, handling, ver mãe. predomínio ~, 274.
Homem ver conhecimento.
clivagem ~/mulher, 17. Impotência, 142, 148.
~ dos Lobos, 73, 74, 199. Incesto, 17.
~ dos Miolos, 199, 260, 261. desejo incestuoso, 55, 121.
passividade humana no homem, apoiada "harmónicos incestuosos" na família Rei-
na oralidade, 147. zes, 29, 30.
ver mulher, kleinismo. interdição do ", 30, 51.
Homossexualidade, 37, 38, 64, 74, 84, 85, Inconsciente, 14, 15, 16, 17, 19, 20, 37 n.
88, 105, 212, 213, 239 n. 61. 40, 55, 58, 63, 67, 82, 87, 102, 112, 130,
hipótese do vínculo social fundado na ~ 145, 146, 148, 152, 165, 172, 191, 229.
dos irmãos, 148. abertura do ~ do analista/" de seus pacien-
~ da menina e complexo de Édipo, 139, tes, 22.
140, 141. comunicação entre consciente e ~ mais
~ endógena da mulher, 146. fácil na criança, 64.
~ feminina recalcada, 239. " como estranheza, 224, 230.
~ masculina, 140, 147-148. " e relação de objeto, 272.
~ recalcada, 57, 74. ~ ignora a morte (Freud), 76.
Horda primitiva, 120, 138, 149. " pré ou transverbal, 61.
" primário, 53, 66.
onde se situa a possibilidade do recal-
Id, 75, 120, 121, 127. camento originário, 53-54.
Idealização, 81, 92, 126. sua estruturação e a língua materna, 227.
ver identificação projetiva. tendência de M. Klein a "maternar" o ~,
Idéia (eidos), 167. 56.
seu papel no aparecimento da pulsão que ver jogo, língua, self.
se representa na fantasia, 165. "Independentes" (grupo dos), 197 n. 33,
Identidade, 86, 165 n. 9, 225-226, 228, 274. 207, 235, 239, 247, 249, 253, 256, 257.
~ sexual, 213. Indiferença, 185, 188.
-/similitude, 165, 187 n. 8, 193, 202. ver latência.
Identificação, 63, 66, 84, 120, 122, 141, Infância
192, 201, 261. " e romance social, 47-48.
com o objeto perdido, 74. os dois modelos, 47.
" edipiana bem-sucedida, 86. ver educação.
" fálica na menina, 177, 180. Inibição, 17, 21, 51, 54, 65, 103, 124, 266.
~ feminina no "feminino primário", 142. a localização da angústia sob as "ões,
" primária, 87, 202 n. 55, 272. 104.
com o pai, 202, 212. fixação anal precoce como etiologia das
~ões condensadas internas à fantasia, 63. "ões, 37.
ver interpretação, " do desenvolvimento (caso de Dick), 185.
no fundamento do simbolismo, 186. " do objetivo da pulsão, 270-271.
O GÊNI 3 FEMININO 297

~ dos inltintos. 120. importância do meio ambiente, 60.


ver jogo pensamento. inibição no ~, 79, 186.
Instinto, 1 invenção da técnica de ~, 58, 59, 63.
ver inibi|ãoão. " e inconsciente, 59.
Interdição. 53. dá acesso ao inconsciente, 61.
~ ínconsfiente,, seu poder, 51. ~ e liberação do pensamento, 61.
ver incei :o. " e temas lúdicos, 59.
Inter-esse, 73 n. 2. seu papel na determinação do processo
Interior/exlerior, 77, 82, 89, 92. mental, 59.
ver dent D/fora., discriminação, ver espaço, fantasia, interpretação.
Interpretaç íio, 16, 55, 56, 64-66, 86, 127- Judeu, judia
128, 129 152, 169, 192, 228, 249, 263, assimilação, 29, 30.
267, 270 272, 275, 276. atenção que M. Klein dá à sua origem ~,
importân ia dos termos da ", 61. 32.
~ diverg nte dos textos de Freud (A. destino migratório das famílias ~s da Eu-
Freud M. Klein), 248. ropa Central, 224.
~ e: educação. 50-51. meio " laicizado, 22.
~ e fantasia,, 52. Judiedade, 225.
tendo omo objeto as identificações Juízo, 195, 197, 251.
condenladas internas à fantasia, 63. dissimetria entre ~ de atribuição e ~ de
~ e técni :a de jogo, 62, 192. existência (J. Hyppolite), 197-199.
ver pens mento. significante. " de existência na simbolização, 197.
Introjeção 77, 78, 79-81, 84, 85, 86, 89, - e gosto, 197 n. 39.
95, 107, 125, 130, 144, 151, 190, 196,
206. Kénose, 270 n. 73.
fase da * 34. Kleinismo, 261-272.
"~ da mí >", 130 n. 31. as extrapolações sociológicas da obra:
Intrusão, , 66. acentuação da teoria do negativo, 263.
Intuição, , 201, 230. fundação do liame social, 263.
Inveja, 13, 9,109-114,138, 139, 142, 149, a verdadeira "política" do ~, 274.
167, 236 238-239, 265, 268, 270. concepção relacional da natureza huma-
distinta avidez, 109. na (M. e M. Rustin), 263-264.
"/ciúme. 109-110. reabilitação da emoção e do sentir, 264.
- d o • pen s, 110, 139, 141, 143, 145. para uma democracia social, 264.
" do seic 109-110, 112, 140, 141, 237. recuperação por uma forma de ~, 264.
- e deselvolvimento do psiquismo, 109, papel da razão reparadora, 264-265.
110, o ser humano como se//social, 265.
~ é dual, 109. suas duas facetas, 261-262.
" e o ex< ÍSSO de frustrações, 110.
~/gratidã , 123, 150. Lactente, recém-nascido, 53, 76, 114, 137,
seui carát r arcaico, 109. 172, 185.
suai violêneia. versão explícita da pulsão ver bebê, dor, projeção.
de mor e, 112. Latência (fase de), 65-66, 124.
ver com] lexo de Édipo. ver jogo.
Isolamento ver solidão. Lei, 226, 269.
e poder materno, 266.
Jogo, 19 .3 53, 62, 64, 65, 187, 190, 192- visão tirânica e taliônica da ~ e da auto-
70.
193, 268 270. ridade, 268.
Lembrança, 177, 199.
desapare<
cia, 66, imento quando da fase de latên- as três espécies de ~s constitutivas do apa-
expressãc relho psíquico, 164.
da agressividade no ~, 59.
298 MELANIE KLEIN

~ da satisfação, 164. memória da pré- ~, 227.


" S de sentimentos (memories in feelings), respeito pela ~ específica da criança, 61,
111. 129.
Liame, 19, 22, 54. ver fantasia, significante.
~ prazeroso com a mãe, fundamento da Loucura, 15, 16.
gratidão, 111. Luto, 86, 88, 92, 93, 94, 95, 107, 201, 236.
~ social, 47, 177, 262, 263, 264, 267. " e nostalgia sentida na posição depres-
e homossexualidade dos irmãos, 148. siva, 93.
tensão intersubjetiva no ~ erótico, 272 n. sublimação do ~, 106.
79. trabalho do ~ visando o objeto interno,
ver kleinismo, relação de objeto. 93.
Liberdade, livre, 14,21,153,154,231,264, Luzes, 16, 22, 49, 268.
274.
concepção da ~ por Winnicott, 208-209. Machismo freudiano, 272.
e a capacidade de ser só, 208. Mãe, 19, 27, 38, 55, 57, 74, 75, 76, 77, 80,
nova significação de "livre", 208. 84, 85, 89, 93, 95, 102, 107, 112, 122,
ver análise, psíquico, 126, 127, 128, 130, 137, 140, 142, 149,
visão de uma ~ empírica de M. Klein, 150, 153, 155, 168, 169, 170, 176, 190,
268-269. 191, 192, 204, 207, 208, 211, 212, 213,
ver recalque. 225, 255, 258, 260, 266-267, 276.
Libido, 73, 75, 84, 106, 138, 168, 255, 257. a inquietante estranheza da ~, 228.
distúrbios da ~ e o ego, 83. ver língua,
sublimação da ~ na ternura, 270. amálgama "/analista, 20, 52, 53, 54-55,
ver recalque. 58, 61, 63.
Língua, 165, 178, 189, 226. ambivalência com relação à ~, 64, 176,
a ~ estrangeira, 225 n. 10, 228, 230. 228.
estranheza linguística e estranheza do dependência materna, 228.
pensar, 228. "devaneio da ~", (Bion e Winnicott), 204,
ver ser humano, sedentarização. 205, 267.
a ~ materna, 156, 223, 225 n. 10, 228. dominação, 272.
o alemão e M. Klein, 224, 227. dominação mútua mãe-filho, 204.
matricídio e abandono da ~, 224. a criança que foi a mãe (Lacan), 261.
e inconsciente, 228. existência real da " não suficientemente
cosmopolitismo linguístico de M. Klein, considerada por M. Klein, segundo os
224. annafreudianos, 249, 254.
ver inconsciente. fantasia da ~ perdida (ou morta), 121.
Linguagem, 14, 16, 19, 54, 63, 64, 66, 86, função materna, 19, 272, 276.
149, 165 n. 9, 168, 174, 176, 177, 187, holding e handling da ~, 78.
195. identificação projetiva da ~, 86.
aquisição da ~ quando da posição depres- impotência materna, 273.
siva, 21, 87, 88, 90. interior/corpo da mãe, 28, 119 n. 3 e 119,
capacidade de compreensão dos valores 126, 138, 139, 142, 187, 189, 190, 191,
semântico e simbólico da ~ pela crian- 210, 258.
ça, 63. ameaçador, 145.
competência linguística inata, 169. objeto das pulsões destrutivas da filha,
fase pré-verbal, 111. 147.
~ e verbalização privilegiadas por Lacan inspira um grande temor, 189.
em sua interpretação do papel do sim- lugar das mais antigas situações de an-
bólico, 199. gústia, 275.
"metafórica para designar a realidade interioridade psíquica permite a ultra-
psíquica (W.R. Bion), 171-172. passagem do medo desse interior, 275.
O GÊNID FEMININO 299

sublim ição da cavidade e phantasme permite encontrar o liame arcaico com sua
enca nado do interior materno, seu pa- própria mãe e o Édipo-primeiro, 179.
pel, : 75. ver criança, mãe, narcisismo.
ver pei isamento. Matriarcado, matriarca, 27, 87, 239.
inversão do culto à ~ em matricídio, 150. Matricídio, 19, 27, 150-151, 152-154, 155,
ver mí tricídio. 225, 240, 276.
- apóia i integração do ego, 111. decapitação, 105, 106, 150-151.
i-tójáca" ou "desintoxicante", pára-
- "a-i e abandono da língua materna, 224.
excitaç lo (W. R. Bion), 146 n. 36. e compaixão, 152.
- filha 146, 147, 233, 239, 241. Médico/não médico, 18, 35, 38, 255.
o apeg ) arcaico, 146, 175. Medo da vida, ver angústia, pulsão de mor-
conflit > e osmose, 146. te, vida.
diferen :e da relação mãe-filho, 241 n. 63. Medo sem nome (WR. Bion), 172, 187.
transm ssão do desejo de maternidade Memória, 89, 198, 202, 224, 267.
nesta relação, 272 n. 78. ver linguagem.
~ objeto de desejo, 55. Metafísica
' pensá^ el procurada por M. Klein, 268. desconstrução da ~, 16, 21, 174.
~ percet ida como objeto total, 89, 138, Middle group, 251, 252.
150. ver Controvérsias.
ver po|ição depressiva. Mitos, 169.
"~ usuir p í u llora"
o (Bion e Winnicott), 267. Morte, 14, 75 n. 8, 94, 101, 102, 150, 231,
"matern< primário", 142. 261, 264.
ver feminino iprimário, instinto de ~ existente desde o nascimen-
perda da quando da posição depressiva, to, 77.
92. o inconsciente e o bebê ignoram a ~
relação m a - , 14. (Freud), 76.
impact) da primeira relação pré-verbal medo da ~, 52.
com a k 130. ver pulsão, separação.
sadomas >quismo da díade "/filho, 271. Mulher, 180, 231, 240, 276.
suficieif emente boa mãe", 56, 110, 262. fase feminina primária para o homem e a
ver bebê corpo, desejo, falo, identifica- mulher, 140-143.
ção, in rojeçáo, lei, liame, maternidade, como lugar de organização do espaço
mulhei objeto, ódio, pai, pais, posição psíquico, 142.
esquizi iparanóide, superego, transferên- feminilidade como desejo de conhecimen-
cia. to, 143.
Mal, 22. feminilidade do homem, 272.
Mal-estar, 15, 16, 21, 143, 230. feminilidade da mulher e feminilidade
Mania, m co, 21, 91, 92, 128, 168. do homem, 147.
ver• defesas feminino horripilante e pesadelos (Lacan),
Maníaco de preessivo, 94, 95, 131. 261.
Masoquismo. 142. " desdobrada em receptividade e poder
femininc 144. terrificante da mãe primordial, 266.
Masturbaç ho, 35, 66, 84, 105, 189. " e psicanálise, 17, 173.
e tiques leuróticos, 37, 56-57. " na mãe, 143.
Maternageln 107, 249. paixão do feminino, 31.
Maternidafe , 56, 175. razão das dificuldades psicossexuais en-
desejo " e relação mãe-filho, como ex- contradas pela maior parte das ~es, 178.
pressã< de uma relação narcísica, 145. seu estatuto de exilada, 177-178.
~ como lova experiência do objeto, 178. superego feminino, ver superego.
e desgos lo, 30. ver castração, desejo, homem, identifica-
permite advento da solicitude, 179. ção, maternidade.
300 MELANIE KLEIN

" "ideal", diferente do "bom" ~, 122.


Nacional-socialismo, 21, 32, 250. destruição dos ~s pela criança, 60.
Narcisismo, 73-77, 130 n. 31, 206, 241 n. idealização do ~, 85.
63. ~ como sendo nitidamente diferenciado
desejo de maternidade e relação mãe-fi- do ego na posição depressiva, 75.
lho, como expressão de uma relação ver posição depressiva.
narcísica, 145. ~ externo, 105, 127, 190.
ego como objeto de amor, 74. ameaçador, 80.
estado/estrutura, 75. a ausência do ~ externo, 93.
"estados narcísicos", 85. ~ interiorizado, 52,75, 81, 120, 121, 190,
identificação com o objeto perdido e sua 201.
interiorização ambivalente, 74. - interno, 38, 73, 75, 86, 90, 92, 93, 95,
identificação projetiva e estrutura narcí- 105, 108, 131, 151, 229, 230, 255, 258,
sica, 85-86. 262, 268, 274.
insuficiência da noção freudiana, 75. construído pela fantasia de onipotência,
~ de vida/" de morte (A. Green), 75. 77, 78.
" feminino e maternidade, 178. depende do imaginário, 78.
~ primário (Freud), auto-erotismo, 73, 75 enquanto conglomerado, 78.
e 75 n. 8. sua heterogeneidade constitutiva, 79.
como estado inobjetal, 73. sua construção na dinâmica da angús-
" secundário, 74-75, 204. tia, 79.
secundário/primário, 74. ver pulsão.
Narração, 124, 174. - parcial, 89, 228, 256.
Nascimento/renascimento, 14, 22, 50, 103, passagem ao ~ total, 120.
175, 208, 224. " "pequeno a" (Lacan), 101.
Negatividade, 92, 102-103, 106, 151, 152, ~ perfeito, 93.
193-194, 195-202, 206, 229-231, 251, ~ perseguidor, 92.
260, 263, 265, 268, 270, 276. " "presença", 76, 78.
a Verneinung, 187, 197. ~ primário, 37, 236.
em Lacan, 199. ver também seio.
como expressão emocional do bebê, 230. ~ total, 88, 89, 91, 128, 149, 210, 229.
instala-se como "buraco negro", 230, 261. sua perda na posição depressiva, 88,
- e fantasia, 168, 199-200. 176.
- em Hyppolite, 197-199. perda do ~, 37 n. 40, 93, 198, 201, 206,
processo de ~ heterogénea, 195. 213, 269.
trabalho do negativo, 103, 194. - perdido, 152, 198.
ver desejo, fantasia, kleinismo, realidade. postulado da existência de um ~ preco-
Neurose, 38, 53, 54, 186, 189, 225. císsimo, 76.
~ atual, 104. relação agressiva com o ~ e pulsão de
" de transferência, 74, 248. morte, 249.
~ obsessiva, 64, 84. relação de ~, ver liame, relação de ob-
e psicose maníaco-depressiva, 37 n. 40. jeto.
Niilismo, 155. ver amor, clivagem, ego, identificação
Nome-do-Pai, 87, 149, 192, 261, 270. projetiva, mãe, posição esquizoparanói-
Normal e patológico, 15. de, seio.
Ódio, 74, 81, 84, 91, 92, 94, 103, 113, 138,
Objeto, 19, 22, 57, 77, 78, 85, 87, 92-93, 142, 177, 229, 265.
104 n. 11, 107, 120, 128, 153, 169, 195, ~ da mãe subestimado por M. Klein, 271.
229, 269. ver amor.
bom - , mau ~, 90, 91, 106, 120, 128, Onipotência, 34, 78, 82, 255, 267.
148, 275. crença na ~ do pensamento infantil, 50.
O GÊN O FEMININO 301

Oral, oralidade , 38, 62, 175, 199. imaginado como habitando o corpo ou o
fase 8, 89, 90. seio da mãe no complexo de Édipo, 94,
fase p r e ambivalente, 77. 138, 139, 140, 150, 190.
Origináric 66, 150, 231. ~ excrementício, 145.
Outro, 01 em, 19, 78, 87, 89, 179, 264- sempre fantasisticamente associado ao
265. seio, 138.
criança omo o primeiro ~, 178-179. sucede a este último, 138.
solicituc ; e respeito pelo ~, 174. ver inveja.
ver ego, fala. Pensamento, 21,54, 87, 154,156,168, 170,
174, 176, 178, 185, 197, 198, 201, 202,
Pai, 14, 5 1 56, 62, 79, 80, 84, 89, 95, 125, 204, 276.
128, 13( , 137-138, 139, 140, 146, 168, capacidade de pensar cuidada pela psi-
176-178 190, 191, 235, 253, 255, 265- canálise, 20, 54.
267, 27: , 273, 276. crença na onipotência do ~ infantil, 50,
autorida ie do ~ e poder da mãe, 266. 90.
autori(|ade fálica paterna e mãe do pê- desinibição do ~, 143.
166-267. e jogo, 60.
ver- falo inibição do ~, 49.
feto con ) expressão possível do superego liberação do ~ da criança e interpretação,
paterni 145. 50.
função ~, 19, 79, 87, 260, 270, 272. ~ pré-verbal (W. R. Bion), 202.
por oc isiaoão do Édipo-bis na menina, como processo de ligação, 203.
175- 77. o "~ vazio" ou pré-concepção inata do
função s mbólica da paternidade, 149. seio substituída pela não-realização do
~ da pré-liistória individual, 87, 122, 202. seio, 203.
papel dc 55, 226, 252. o proto ~, 203.
e a idei tificação primária com o ~, 176, permite a constituição da interioridade
201- 102. psíquica necessária para ultrapassar o
assimijdo a uma boa mãe, 271. medo do interior materno, 275.
rivalidad com o ~ no proto-Édipo, 138. ver alucinação, angústia, inconsciente, lín-
ver plexo de Édipo, gua, mãe, psicanálise.
ver hord primitiva, identificação, pais. Percepção, 101, 197.
Pais, 49-5 , 91, 120, 125, 148, 268. Perfeição, perfeito(a), 93.
imago) do^ "~ combinados", 94, 139, 149- ver objeto.
153 Perlaboração, perlaborar, 51, 107, 108, 123,
~ interio izados, 80. 130, 149, 168, 267, 273, 276.
ver análi e, complexo de Édipo, mãe, pai. Pictograma, 167 n. 15.
Paranóia aranóide, 13, 74, 77, 82, 83, 90, Polissemia, 66.
125, 237 258, 260, 263, 273, 276. Posição, 56, 262.
ver defeca: definição, 81.
Patologia >atológico(a), 15, 86, 87. teoria das "ões em K. Abraham, 89.
~ e verdi de, 15. Posição depressiva, 76,81,87-95,107,108,
normal.
ver nornfcl 123, 131, 138, 149-152, 154, 168, 176-
PDP (Parai el Distributing Processing), 169. 177, 187, 201-202, 204, 205 n. 60, 210,
Pele, 176. 211, 229, 255, 256, 257, 260, 274.
função p iíquica da ~, 205. ambivalência em relação ao objeto, 91,94.
Pênis, 14, ^0, 62, 80, 84, 121, 125, 138, aparecimento do Édipo-bis na menina,
140, 141 143, 144, 145, 147-148, 149, 176.
150, 176 178, 189, 190, 192, 210. aparecimento do sentimento de culpa, 90.
como ob ito perseguidor, 120, 126, 148. caracterizada pelo objeto no sentido for-
como óri o da percepção no menino, 147. te, como diferenciado do ego, 75.
302 MELANIE KLEIN

dá lugar à simbolização e à linguagem, patológica, 85.


87, 88, 90. seu objetivo, 85.
descoberta pela criança de sua realidade permite religar-se ao mundo exterior,
psíquica, 90. 86.
emergência da reparação na ~, 92-94. sua existência no lactente, 86.
ver reparação, e teoria de W.R. Bion, 86.
flutuação e imbricação recíproca com a como primeiro "pensamento" (W.R.
posição esquizoparanóide, 90, 120. Bion e H. Segal), 202-203.
importância do ganho psíquico, 89, 108. sua análise na contratransferência do
mudança psicológica da criança ligada à analista, 252 n. 13.
maturação neurobiológica, 89. ver elementos alfa, beta.
~ e integração do ego, 89, 92. ~ de um ego frágil e psicose, 86.
seu aspecto criador, 93. ver autismo, clivagem, ego, idealização,
sua invenção, ligada à morte de Hans Klein, mãe, narcisismo, objeto.
88. Psicanálise, 173-174, 214, 227, 239, 250,
ver clivagem, linguagem, mãe, objeto, 262, 275.
psiquismo, superego. abertura para outros campos de ativida-
Posição esquizoparanóide, 76, 80-88, 91, de, 275.
119, 120, 121, 150, 152, 202, 203, 229, difusão internacional da ~, 40.
240, 257, 265. dilaceramentos internos, 15.
encontra-se antes da posição depressiva, existência de uma luta social para domi-
76. nar o campo da ~, 250.
flutuação e imbricação recíproca com a "fora do mundo" e "fora do tempo", 240.
posição depressiva, 90, 120. -/biologia, 270, 275.
instabilidade das relações e identificações " das crianças, ver criança.
nesta fase, 86-87. ~ ocupa-se da capacidade de pensar, 20.
o objeto precoce da ~, 78. resistência que ela suscita, 15, 240, 241.
~ e identificação projetiva, 76. Psicodrama, 66, 155, 231, 239, 240.
temores da pena de talião característicos Psiconeurose, 104.
da ~, 90. Psicose, 13, 18, 21, 22, 54, 74, 83, 86, 102,
visa o interior do corpo da mãe contendo 104, 123-124, 149, 155, 163, 165 n. 9,
o pênis do pai, 119-120. 171-172, 173, 198, 202, 203, 204-205,
ver clivagem. 209, 213, 225, 226, 231, 241, 257.
Posição paranóide, 76, 80. equações simbólicas da ", 171.
Prazer, 20, 270, 272, 273. hipótese de uma segmentação precoce das
~ da inteligência, 103. capacidades perceptuais, 205.
princípio de ~, 60. ~ e separação entre pulsão de morte e pul-
princípio de ~ tornando possível a iden- são de vida, 102.
tificação (E. Jones), 186. ~ infantil, 54, 206.
recalque do ~, 20. precoce infantil, 102.
Pré-consciente " maníaco-depressiva, 37 n. 40, 86.
possibilidade de sua subestimação na ver projeção.
criança, 64. Psicossomático, 163, 231, 269.
Processo mental, 59. Psiquismo, 82,103,110,119,130,143,197,
ver jogo. 201, 207, 226, 274.
Projeção, 77, 78, 79, 80, 82, 83, 165. aparelho psíquico, 16, 74, 75, 127, 167,
fase da ~, 34. 173.
identificação projetiva, 80, 83, 84-86, 92, como lugar, 163.
93, 108, 111, 120, 121, 152, 187, 195, feito de três tipos de lembranças, 164.
200, 205, 211-213, 227, 229, 230, 236, comparado a um aparelho fotográfico,
253 n. 14, 266, 270. 164, 166.
O GÊN O FEMININO 303

introdição da diferença no ~, 192. ver agressividade, complexo de Édipo,


barreiras psíquicas erguidas pelo ego, 104. desejo, fantasia, idéia, psicose, sadismo.
funciom mento psíquico primário, 172.
"interio psíquico" e sua pré-condição Racionalidade, 14.
(D.W Winnicott), 208-209. Realidade, 63, 106, 171, 187, 193, 265,
liberdad I psíquica do sujeito, 151. 267, 268, 271.
~ e pui: » de morte, 108. fase da ~, 34.
realidadi i psíquica, 92, 194, 204. princípio de ~, 142.
trabalho psíquico na posição depressiva, " psíquica traduzida pela negatividade,
93. 194.
ver iespí ço, linguagem, posição depres- ver psiquismo,
siva. sentido da ~, 50.
Psycho-knalyse, 13 n. 1. Recalque, 19, 50-51, 61, 82, 101, 103, 104
Pulsão, 1 , 19, 20, 52, 80, 84, 104 n. 11, n. 9, 108, 138, 172, 176, 193, 196, 199,
106, 12: , 144, 166, 168, 169, 171, 178, 201, 239, 240, 264.
197, 23: , 239, 249, 270, 271, 272. fratura, tensão desejo/recalque, 52, 53.
a ~ tem|im destino, 167. poder do ~, 50.
heterogeneidade / sentido, 79 n. 21. - da libido, 104.
papel fufcdamental das "ões sádico-orais " do prazer, ver prazer.
nas fa tasias e angústias sádicas, 105. " imposto pela educação, 49, 50.
propried ides lógicas da ", 169. - originário, 51, 54, 56, 61, 155, 240.
- de mlrte, 20, 36, 37, 60, 74, 76, 77, sua possibilidade no inconsciente pri-
79, 85, 93, 101-103, 106, 109, 111, 113, mário, 53-54.
121, 1 2, 153, 168, 169, 170, 176, 192, tendência inata ao ", 51, 54.
194, 1 6-197, 227, 249, 251, 260, 262, Recusa, 80, 82, 91-92, 108, 197.
263, 265. 268, 269. ver alucinação infantil.
manif^ta em sua relação com o objeto, Regressão, 19, 50.
37. estados arcaicos e regressivos, 34.
sua transformação radical em conserva- ~ aos sentimentos paranóides, 93.
ção lara a vida, 102. ~ esquizoparanóide, 95, 274.
seu tnf>alho interno, 102, 103. Relação de objeto, 54, 56-57, 73, 75, 121,
sua metamorfose em "psiquização", 108. 123, 168, 213, 263, 272.
sua anlbigiiidade, 168. existência da ~ desde o nascimento, 73,77.
ver faftasia, inveja, libido, repetição, teoria de Piaget, 75.
vida teoria de Wallon, 76.
- de vii ., 75, 93, 102, 113. teoria de Carpenter, 76.
-do> ego 74. ver bebê, narcisismo primário.
episte|iofílica do ego, 147. " e inconsciente, 272.
- (ões) strutiva(as), 107, 110, 111, 127, ~ e tique, 37.
131 1 W, 170. primária (M. Balint), 76.
presente:s no bebê, 76. ver liame, sintoma.
e verb|lização, 193. Relação terapêutica negativa (J. Riviere),
ver agressividade. 238.
- ões e bjeto interno, 82. Religião, 207, 208, 263.
- ões geliitais e sádicas orais, uretrais ou ver catolicismo, cristianismo.
anais ma imbricação), 104. Remorso, má consciência, compaixão, 91,
uretrai i, 176. 121, 152, 154, 190.
•< (ões) ral(is), 38, 141, 196. ver compaixão.
- ões s< uais, 74, 174, 264. Reparação, 29, 88, 91-94, 108, 111, 145,
sua expitssão dupla-face, 167. 150-153, 211, 212, 230, 262, 263, 265,
vivida cirno phantasme inconsciente, 163. 270, 276.
304 MELANIE KLEIN

fantasia de ~, 147. ver complexo de Édipo, pulsão.


mecanismo de ~ e processo criador, 93, Sadomasoquismo, 178, 213, 271.
213. Satisfação, 13, 89, 101, 106, 173.
sentimento de depressão e desejo de ~ na auto~, 73.
posição depressiva, 92. ver alucinação, lembrança.
ver sadismo. Sedentarização, 225-226.
Repetição, 20, 50. como perda, 226.
compulsão de ~ como manifestação da habitar, hábitat, 226 e 226 n. 12.
pulsão de morte, 197. "/desenraizamento originário, 226.
Representação, 101,104 n. 9,106,163,164, Sedução, 34, 66, 127, 142, 164, 175, 237,
168, 176, 198, 229, 260. 259.
a diferenciação pela criança de uma ex- Seio, 13, 19, 77, 78, 85, 95, 119, 120, 121,
citação e de sua ~, 204. 125, 138, 139, 141, 144, 149, 150, 167,
~ de acontecimento, ver envelope pré- 169, 257.
narrativo. clivagem em "bom" e "mau", 77,80,105,
~ inconsciente, 167 n. 16. 106, 150.
~ psíquica, 166, 167. o "bom" - idealizado, 81, 82, 104,111,
seu modelo, o aparelho fotográfico, 166. 122, 132, 153.
Repràsentant e Vorstellungsreprãsentant, temor do "mau" seio perseguidor, 81-
174. 82, 167.
restauração de seus fundamentos metafí- desejado pelo ego arcaico, 401.
sicos por Lacan, 165. experiência-fonte que é o encontro bebê-
ver afeto, fantasia. ~ (Bion), 203.
Réptil, 28. ver pensamento,
ver fobia, terrores noturnos. ligação primordial com o ~ e complexo
Resistência, 60. de Édipo, 94.
Retardamentos, 22, 186. relação ambivalente com o ~, 38, 255,
Romance policial, 156. 256.
"rainhas do ~", 156. ~ bidimensional, 205.
" frustrante da mãe, 111-112.
Saber, 168. " ideal e ~ devorador, 123.
o ~ outro, próprio da fantasia e resistente " objeto parcial, 89.
ao conhecimento, 51. " primário como quase-objeto, 78.
~ inconsciente, 50, 51. percebido como objeto parcial do aleita-
e inibição, ver inibição. mento, 78.
Sadismo, 53, 76, 82, 104, 107, 108, 114, como construção interna, 78.
120, 130, 147, 148, 156, 168, 187, 189, ver inveja, objeto, pênis.
190, 192, 210, 213, 239, 270, 275. Self, 126, 128, 149, 151, 153, 205, 206,
apetite sádico, 103. 263, 269.
ver inveja, anterior à clivagem, 127.
devoração sádica, 101, 105. autonomia bissexual do ~, 150.
perseguição sádica, 125. definição, 127.
pulsão sádica, 90. identidade sexual do ", 123.
~ anal, 37, 38, 74, 144. inconsciente fantasístico do ~, 267.
~ e complexo de virilidade feminina, 145. ver ego, ser humano.
~ inconsciente, 106. Semântica, ver linguagem.
~ oral, 104, 120, 189. Semiótica, 66, 67.
fase sádico-oral, 76, 89, 119. semiosis e símbolo, 79, 167 n. 15.
e superego tirânico, 119. Sentido, ver desejo, realidade.
~ oral da mulher, 143. Separação, 149, 168, 206, 226, 253 n. 14,
ver superego. 269.
O GÊN D F E M I N I N O 305

como m >rte na vida fantasística, 150. tístico comum a todos os sujeitos (F.
ver beb( Tustin), 206.
Ser humajo linguagem e verbalização privilegiadas
é uma vi igem mais do que uma identida- por Lacan em sua interpretação do pa-
de, pel do simbólico, 199.
o Homo religiosus (Freud), 225-226. lógica do ~ (presença/ausência), 176.
~ como ielf social, 265. ~ e princípio de prazer (E. Jones), 186.
ver klei nismo. simbolização como reconstrução do ob-
Sexualidade , 15-17,51, 123, 173,264, 269. jeto perdido, 93.
apresentàção em termos de oralidade, 38. simbolização dos conflitos, 129.
desculpa silização da ~, 16. simbolização primária, 187 n. 8.
liberaçãi sexual, 21, 54. chamada mítica por Lacan e Hyppolite,
~ feminta, 143-148, 175, 176. 198.
~ infant: 49. simbolização primeira habitando o bebê
ver ed icação. desde o início, 185.
masci lina, 147-149. viver livre pelo exílio no simbólico, 231.
ver curii sidade. ver angústia, identificação, linguagem.
Shell-shoél/:s., 253. Similitude, 165, 186, 18Tn. 8, 193, 197,
Signifi , 66, 165, 191, 192, 199. 202.
primado lacaniano do ~, 260. ver identidade.
~ lingua eiro, 65. Sintoma, 15, 20, 86, 255, 275.
sua in portância, 61-62. ~ histérico, 57.
Signo, 176 192. Sionismo, 28.
ver símljolo. Socialismo, 151, 263-264.
Símbolo, :0, 90, 153-154, 188, 195, 201, Sociologia, 264.
202, 20Í n. 60, 206, 230, 257, 269. Sofrimento, 52, 129, 232.
bebê cri; dor de ~, 194. na posição depressiva, 91, 95.
como pr >priedad(le do psíquico referindo- ~ psíquico, ver dor psíquica.
se a ui na realidade perdida, 201. Solidão, 130-132, 263.
exutório das emoções, 153. fantasia de ter um gémeo, 131.
ver sem ótica. ~ como eventualidade, 131.
Simbolisn o ,16,20, 54,55,65, 86, 88,103, o mundo interior radicalmente solitário,
123, 12< 149, 150, 153, 155, 156, 165 130.
n. 9, 16! 171, 173, 185, 186, 189, 195, Solicitude, ver maternidade.
196, 191 201, 202, 204, 206, 213, 263, Solipsismo, 73 n. 2.
270, 27! 1-274. Sonho, 19, 21, 58, 61, 129, 164, 202, 223,
ancoragi m da capacidade simbólica na 225.
expedi ncia corporal e fantasística pre- análise de -,111-112.
coce (! . Isaacs), 196. seu caráter regrediente, 164.
as duas tapas do processo de simboliza- S-P-D (W.R. Bion), 120.
ção: 1 !6-188. Subjetividade, 194, 206.
a protd-:simbolização, caracterizada pela Sublimação, 15, 19, 54, 87, 93, 95, 111,
violênc ia, "pena de talião", 187, 193. 113, 142, 146, 176, 178, 201, 208, 213,
o ~ d; fantasia nomeada com um pri- 226, 255, 270, 271.
meir > afastamento da angústia, 187. ~ cultural, 209-214.
"equaçõ s simbólicas", 201-202. ~ do luto, ver luto.
ver ob eto interno, psicose, Superego, 19, 38, 74, 77, 79, 80, 119-120,
existênc a de duas etapas assimétricas da 121, 123-124, 127, 128, 129-130, 132,
simbofzação (discípulos de M. Klein), 146, 149, 185, 190, 249, 251, 266, 268,
197-P 8. 269, 270.
existência de um ~ primário de tipo au- crueldade do ~, 120.
306 MELANIE KLEIN

divergências com a teoria freudiana do ~, efeitos secundários da ~, 66.


121, 122. ~ materna, 18-20.
movimentos psíquicos com base no ~, 120. ~ negativa, 60, 64, 66, 249, 258.
mudança de regime do ~ quando da po- sua interpretação visando atingir o nú-
sição depressiva, 91. cleo inconsciente subjacente, 64-65.
torna-se um aliado do ego, 91. ~ objeto da interpretação, 59.
processo de constituição do ~, 119-120. ~ positiva sobre o analista, 66.
~ arcaico (Lacan), 258-259. ver contratransferência.
é uma instância significante, 258. Triangulação, 79.
~ encarnado, 129. Tridimensionalidade, 205, 206, 273.
~ feminino construído de maneira reacio- ver espaço psíquico.
nal, 146.
"~ ideal", 123. Ur-Verstimmung, contrariedade originária,
r tirânico, 125, 128, 131-132, 156, 270. 89.
e sadismo oral, 119.
ver sadismo. Valores, 226.
~ tribunal, 124, 125, 128, 130. crise dos - modernos, 272.
ver castração, complexo de Édipo, con- Verbalização, 111, 124, 165, 172, 174, 187,
cretude, culpa, feto, pai. 191, 192, 193, 200.
ver fantasia.
Talião, 90, 101. Verdade, 15, 172.
"pena de ~", "estado de guerra", 187. patologia e ~, 15.
ver posição esquizoparanóide. relação de - com o paciente estabelecida
Talking cure, 40, 63. desde o início como característica do
Tanatos, 101, 107. tratamento kleiniano, 65.
ver Eros. ver também patologia.
Tato, 67. Vida, 14, 20, 102, 132.
Terapia familiar, 253. medo da - e pulsão de morte, 102.
Terrores noturnos, 59, 64, 138. preocupação com a ~, 103.
Tiques, 56, 104. ~ do espírito, 15, 21, 205.
ver masturbação, relação de objeto. ~ emocional, 73.
Tolerância, 212. ~ narrada, 124.
ver arte. ~ psíquica, 16, 19, 86, 88, 123, 168, 180.
Tópica em Freud/em M. Klein, 101.
primeira ~, 16. e fantasias, 166.
segunda ~, 16, 74, 121. impacto da experiência orgânica da ~,
Totalitarismo, 21, 264. 174.
ver nacional-socialismo. ver fantasia.
Tragédia, 124, 153-154, 231, 240, 274. ~ psíquica infantil, 50.
Transferência, 16, 34, 37, 61 n. 47, 78 n. Visão
19, 86, 128, 168, 180, 192, 230, 267, 268. o desenvolvimento do visual em direção
amor de ~, 19, 173. a uma imagem, 196.
a verbalização partilhada na ~, 124. primazia dada ao visual (Lacan), 258,259.
clínica da ~ inseparável da contratransfe- recordação visual, 164.
rência, 200. e pensamentos inconscientes, 164.
A g adeço a Cléopâtre Athanassiou-Popesco a leitura atenta e
a Élisat eth Bélorgey-Kalogeropoulos, Frédéric Bensaíd, Raymonde
Couder:, Marie-Noelle Demaire e Catherine Joubaud a colaboração.
COLI ÇÃO GÉNERO PLURAL
Consu tona da coleção: Rachel Gutiérrez

OMITI DA B E L E Z A— Naomi Wolf


FOGO OM F O G O — Naomi Wolf
PROMftCl Naomi Wolf
ANARC SEXUAL — Elaine Showalter
ASSASSIN E L O U C U R A — Ruth Harris
O MITC DA MASCULINIDADE — Sócrates Nolasco
A DESI ONSTRUÇÃO DO MASCULINO — Sócrates Nolasco (org.)
T E C E N X ) POR TRÁS DOS PANOS — Maria Lúcia Rocha-Coutinho
TENDÊ sJCIAS E IMPASSES — Heloísa Buarque de Hollanda (org.)
F L E X D E I S E P L U R A I S — Jeni Vaitsman
M A S C l LINO/1 »: TENSÃO INSOLÚVEL — Maria Isabel Mendes de Almeida
A CAM V NA VARANDA — Regina Navarro Lins
A MORAL DA MÁSCARA — Patrice Bollon
AÓPEIfA OU A D E R R O T A DAS M U L H E R E S — Catherine Clément
O S E X ( E AS ROUPAS — Anne Hollander
A M U L I E R Q U E E L E S CHAMAVAM FATAL — Mireille Dottin-Orsini
O PRAS ER S A G R A D O — Riane Eisler
FETICF E — Valerie Steele
AS L E I IAS DO M E U N O M E — Grazia Livi
HILDEC A R D D E B I N G E N — Régine Pernoud
THÉRO GNE D E MÉRICOURT - Uma mulher melancólica durante a Revolução —
Elisabe h Roudinesco
SEM FF A UE NEM FAVOR — Jurandir Freire Costa
PAIXÕI 5 PRIMITIVAS — Marianna Torgovnick
SUB ML VDOS DO S E X O NO ILUMINISMO — G.S. Rousseau e Roy Porter (org.)
SUA C/ RA M E T A D E — Wendy Lesser
DANÇA S E X O E GÉNERO — Judith Lynne Hanna
O G R O T E S C O FEMININO — Mary Russo
MULHE * Natalie Angier
P R O N T PARA V O A R — Diana Dadoorian
D E TAR ^AN A H O M E R SIMPSON — Sócrates Nolasco
B A C K L iSH - O contra-ataque na guerra não-declarada contra as mulheres — Susan
Faludi
A MUL1 E R E O D E S E J O — Polly Young-Eisendrath
O GÊNK ) FEMININO: HANNAH A R E N D T - Tomo I — Julií
AS N O \ PASSAGENS M A S C U L I N A S — Gail Sheehy
O FEME UNO E O S A G R A D O — Catherine Clément e Julia Kristeva
O GÊNI ) FEMININO: M E L A N I E K L E I N - Tomo I I — Julia Kristeva
J U L I A K R I S T E V A nasceu na Bulgária e mora na
capital francesa desde 1966. Psicanalista, professo-
ra de linguística na Universidade de Paris V I I e au-
tora de vários livros de sucesso no mundo académi-
co, ela é uma das mais respeitadas intelectuais da
atualidade. Seu pensamento combina várias disci-
plinas: filosofia, semiologia, teoria literária e psico-
logia. A Rocco lançou: Os samurais, Estrangeiros para
nós mesmos, Sol negro, depressão e melancolia, O velho e os
lobos, Sentido e contra-senso da revolta, O feminino e o sa-
grado (co-autoria com Catherine Clément) e As no-
vas doenças da alma.
"Foi por afinidade pessoal que li, gostei e escolhi Hannah
Arendt (1906-1975), Melanie Klein (1882-1960) e Colette
(1873-1954).

Duas judias de língua alemã, que exploraram o inglês, em


Nova York e em Londres, a gravidade política e as frontei-
ras do homem, e uma camponesa francesa que reacende
o fogo dos materialistas e da libertinagem sofisticada. Os
múltiplos rostos dos tempos modernos nos são restituí-
dos por seu génio, em sua complexidade e suas verdades
complementares.

Essas três experiências, essas três obras de verdade reve-


ladora, se produziram no coração do século ao mesmo
tempo que em suas margens. Não verdadeiramente ex-
cluídas, não verdadeiramente marginais, Arendt, Klein e
Colette são, não obstante, Tora de série*.

A vida, a loucura, as palavras: essas mulheres se transfor-


maram nas exploradoras lúcidas e apaixonadas, engajando
tanto sua existência quanto seu pensamento e esclarecen-
do para nós com a luz singular as paradas principais do
nosso tempo."

- Julia Kristeva

Melanie o volume de uma série de três


volumes J ninino.