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in Raízes & Memórias nº 28 (2012), Associação Portuguesa de Genealogia, Lisboa, pp.

119-126;

Geraldo Sem Pavor, a conquista de Évora


e a origem da família Pestana

António Rei, Ph.D.


Investigador Integrado do IEM /FCSH – Univ. Nova de Lisboa

Bolseiro FCT

1. Geraldo Geraldes, o Sem-Pavor: luzes e sombras

Geraldo Geraldes, chamado “o Sem Pavor”, ficou, para sempre, a ser conhecido
na História e na historiografia portuguesas, pelo facto de ter sido ele o chefe militar que
comandou a conquista da cidade de Évora, em 11651.

Foi aquela conquista que o catapultou, definitivamente, para a prateleira da


memória nacional portuguesa e fez com que a Praça Grande da cidade de Évora
passasse a ser a “Praça do Geraldo”.

Da mesma forma a heráldica daquela cidade ostenta um guerreiro cristão, a


cavalo, que se diz ser o mesmo Geraldo, sobrepujando as cabeças decepadas de um
homem e de uma mulher, muçulmanos, que simbolizam o poder derrotado e a
população dizimada da cidade recém-conquistada2.

Sabe-se hoje que não foi esse o procedimento geral das forças portuguesas, e
mesmo dos outros reinos cristãos peninsulares, o de massacrar as populações das
cidades conquistadas aos muçulmanos. Se esses massacres tivessem mesmo acontecido,
1
As conquistas de Geraldo não se limitaram ao espaço hoje português. Geraldo faz parte também da
memória da “Reconquista” leonesa, em terras da actual Extremadura. Aí foi o conquistador de Trujillo e
de Cáceres em 1165; e do castelo de Montánchez em 1166. (v. Ibn Sahib al-Salâ, Al-Mann bi-l-Imâma,
ed. A. Huici Miranda, Ed. Anubar, Valencia, 1969, pp. 137-138).
2
Sobre a representação heráldica da Cidade de Évora e o seu simbolismo ligado à conquista da mesma
cidade por Geraldo “Sem Pavor”, v. A. S. Pereira, Geraldo Sem Pavor. Um guerreiro de fronteira entre
cristãos e muçulmanos, c. 1162-1176, Fronteira do Caos Editores, Porto, 2008, passim.
não teriam existido, pelo contrário, as realidades sociais e urbanas que durante vários
séculos deram pelos nomes de “mourarias”3.

Sobre a figura de Geraldo Geraldes, “o Sem Pavor” existem já alguns estudos4,


alguns procurando abordar, mais especialmente, o homem, embora a grande maioria
desses trabalhos acabem referindo a vertente humana de forma algo secundária, mercê
da sua promoção à condição de “herói na conquista de Évora”. E o herói tende,
normalmente, a ofuscar o homem, e também, a dar espaço para a criação e elaboração
da versão mítica em volta do ser humano.

É, portanto, difícil fazer uma clara destrinça entre aquelas duas facetas
relativamente a um personagem que tenha protagonizado um feito considerado
extraordinário, e, em consequência do mesmo, tenha sido revestido da condição
heróica5.

Geraldo Geraldes, ao planear e levar a cabo a conquista da cidade de Évora,


então a mais importante cidade a sul do Tejo, estaria agindo por iniciativa autónoma, ou

3
O maior e mais completo estudo sobre as “mourarias” em Portugal deve-se a M. F. L. Barros, Tempos e
Espaços de Mouros. A minoria muçulmana no Reino de Portugal (séculos XII a XV), FCG / FCT, Lisboa,
2007.
4
Além da obra de A.S. Pereira (v. supra n. 2), existem outros estudos mais antigos, mas que não devem
ser descurados por quem pretenda tratar a figura de Geraldo “Sem Pavor”. Entre 1941 e 1981,
identificámos quatro estudos em quarenta anos. E mais recentemente, desde 1996 até 2008, surgiram
cinco trabalhos, entre os quais o livro atrás referido. Os outros estudos, por ordem cronológica, são: D.
Lopes, “O Cid português: Geraldo Sem Pavor (novas fontes árabes sobre os seus feitos e morte)”, Revista
Portuguesa de História 1 (1941), pp. 93-111; M. Velho, “Trechos da crónica de Ibn Sahib respeitantes a
D. Afonso Henriques, a Giraldo Sem Pavor e ao território português”, Boletim da Junta Distrital de
Évora 7 (1966), pp. 127-147; J. P. Gonçalves, “Alguns aspectos das campanhas de Giraldo Sem Pavor na
região do Guadiana”, Anais da Academia Portuguesa da História 26 (1979), pp. 67-102; Idem, O papel
de Giraldo Sem Pavor na Reconquista cristã da península, Évora, 1981; E. Lapiedra, “Giraldo Sem
Pavor, Alfonso Enríquez y los Almohades”, Bataliús. El reino taifa de Badajoz. Estudios (ed. F. Díaz
Esteban), 1996, pp. 147-158; F. T. Barata, “A actuação de Geraldo Sem Pavor no quadro das sociedades
de fronteira do século XII”, 2º Congresso Histórico de Guimarães. Actas, Guimarães, 1997,vol. 2, pp.
359-374; M. C. Rodríguez, “El Cid Campeador y Geralo Sem Pavor, ¿ Dos guerreros de Oficio?”, O
Pelourinho 7 (Janeiro / Enero, 1998), Badajoz, pp. 23-28; F. B. Correia, “Geraldo Sem-Pavor (1166)”,
Memória de Portugal: o Milénio Português (coord. R. Carneiro e A. T. de Matos), Lisboa, 2001, pp. 94-
95; D. Porrinas González, “La actuación de Giraldo Sempavor al mediar el siglo XII: un estudio
comparativo”, II Jornadas de Historia Medieval de Extremadura: ponencias y comunicaciones, Mérida,
2005, pp. 179-188.
5
O mais recente e mais completo estudo sobre a figura de Geraldo Geraldes, “o Sem Pavor”, onde é feita
uma análise mais profunda de toda a problemática em volta da figura e do mito, é o de A. S. Pereira, v.
supra n.2.
estaria seguindo uma ordem do próprio monarca? Estaria Geraldo procurando criar o
seu próprio espaço senhorial; ou, pelo contrário, estaria em busca de um eventual
“perdão” régio? Ele era um verdadeiro “senhor da guerra”, um “senhor da fronteira” ou,
apenas um chefe de bando de marginais e salteadores?

São questões que se continuam a levantar e a baralhar em volta desta figura, que
continua emersa numa certa polémica.

Mercê dos que exaltam a vertente mítica de herói conquistador, mas que também
procuram anular a consequente informação sobre aquela figura. Após a conquista de
Évora, procurou-se lançar um forte véu de silêncio sobre Geraldo, pelo facto de ele,
mais tarde, em outro momento da sua vida, ter mudado de campo, e passado a lutar
pelos muçulmanos contra os cristãos.

Decisão que, aos olhos da posterior construção “reconquistadora” surge como


completamente reprovável porque cheira a traição, embora naquela mesma época, tal
facto nada tivesse de inédito nem de reprovável, pois se nobres cristãos, e até mesmo
príncipes cristãos, houve que fizeram idênticas opções às de Geraldo Sem Pavor6.

Mas não é sobre este conjunto de questões, certamente importantes e


estruturantes na construção de uma biografia deste guerreiro de fronteira, que
pretendemos debruçar-nos neste momento.

0. Novas leituras

Pretendemos juntar alguns novos elementos, provenientes de análise,


especialmente, do foro linguístico, e que, curiosamente, contribuem para dar
plausibilidade, se não genealógica, ao menos seguramente simbólica, à tradição que faz

6
Ibn Sahib al-Salâ, ob. cit., pp. 135-136, fala-nos de Fernando Rodrigues de Castro, Senhor de Trujillo,
que, em 1168, foi a Sevilha e jurou fidelidade ao Emir almóada, comprometendo-se a ajudá-lo contra os
seus inimigos e a não o atraiçoar. É, portanto, um caso. Outro, em momento posterior, é o do Infante D.
Pedro, filho do Rei D. Sancho I, que já lutara na Península Ibérica, esteve depois uns anos em Marrocos
ao serviço do Emir almóada, antes de regressar à península, onde serviu o Rei de Leão, depois o de
Aragão, e, mais tarde veio ainda ajudar o seu sobrinho Afonso de Bolonha na luta contra o seu outro
sobrinho e rei português, Sancho II (Sobre este Infante D. Pedro, v. Nobreza de Portugal e do Brasil
(coord. A.E.M. Zúquete), III vols., Ed. Zairol, Lisboa, 3ª ed., 2000, vol. I, pp. 132-133).
de Geraldo Geraldes o possível epónimo da família Pestana, o originador daquela
família.

0.1.Os Pestana: memórias familiares e a cidade de Évora

Vejamos o que nos dizem alguns dos mais conhecidos nobiliários portugueses,
que, mais cautos nas suas genealogias, fazem descender a família Pestana de algum ou
alguns dos homens de armas do mesmo Geraldo, quando não procuram ainda remontar
um pouco mais atrás.

Vamos pois observar o que nos trazem algumas das mais conhecidas e
incontornáveis genealogias gerais, no panorama português, como são a Pedatura
Lusitana (PL), de Cristóvão Alão de Moraes (séc. XVII) e a Nobreza das Famílias de
Portugal (NFP), de Manuel da Costa Felgueiras Gayo (séc. XIX)7, por aquela ordem.

PESTANAS Q PERTENCEM AOS SYLVEIRAS

1 João Eanes Pestana viveo em tempo de delRei D. Aº


3º na Cidade de Evora aonde os desta família tiverão particular
assento: alguns lhe dão por ascendente a D. João Pestana q se
achou no cerco de Coimbra qdº ElRei D. Frdº a tomou aos
Mouros e armado Cavalleiro juntamente cõ Ruy Diaz de Bivar o
Cid. Foram seus filhos
2 Domingos Eanes Pestana
2 João Eanes Pestana
(PL, V2 - t1, p.7)

7
C. A. de Moraes, Pedatura Lusitana: Nobiliário de Familias de Portugal, 12 v. (pub. A.A.P.M.
Vasconcellos, A.A.F. Cruz e E.E.A.C. Freitas) Livr. Fernando Machado, Porto, 1943-1948; M. C. F.
Gayo, Nobiliário das Famílias de Portugal, 17 vols., (ed. A. A. Meireles e D.A. Afonso), Braga, 1938-
1941. O facto de a família Pestana ter uma alguma projecção local e regional até ao século XV, mas não
ser da primeira nobreza do Reino, torna-a ausente dos mais antigos nobiliários, mesmo do mais alargado,
como é o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro de Barcelos.
PESTANAS

§1

N 1 JOÃO ANNES PESTANA é o primeiro de quem se pode,


segundo sei, continuar esta família viveu em Évora no princípio
do Reinado de D. Afonso, sabe-se que era descendente dos
conquistadores e povoadores daquela cidade, e de D. João
Pestana, Fidalgo antigo, que dizem se achou no Cerco de
Coimbra com El Rei D. Fernando o Magno, e ali foi Armado
Cavaleiro com o cidadão Rui Dias, não temos notícias por agora
para os prender nestes; teve de Joana Annes:
2 Domingos Annes Pestana,

2 Joane Annes Pestana, § 10

(NFP, t. XXII, “Pestanas”)

Vamos ver o que poderemos conseguir extrair destes excertos.

Ambos apresentam aquele João Anes ou Eanes Pestana como o primeiro do


nome, residente em Évora, e com descendência conhecida.

Na obra de Alão de Moraes é dito ter o mesmo João vivido no reinado de D.


Afonso III, enquanto Felgueiras Gayo deixa apenas um “D. Afonso”, sem explicitar de
qual dos monarcas de nome Afonso se trataria.

Ora, como veremos adiante, em 1215, que curiosamente é reinado de D. Afonso


II, encontramos um freire de Évora, Pero Mendes Pestana, a ser testemunha de um
documento, com outros cavaleiros e com o Mestre da Freiria de Évora.

Para ser testemunha naquele documento aquele cavaleiro, terá nascido, pelo
menos, cerca de 1190, senão um pouco antes. Assim, haveria membros daquela família
na cidade desde bastante antes do reinado de Afonso III, pelo que poderemos entender
que se tratará efectivamente de D. Afonso II, sendo o numeral omitido no Gayo; e um
“2º.” mal escrito entendido como “3º.”, no Alão de Moraes.

Felgueiras Gayo diz também que o mesmo João era descendente “dos
conquistadores e povoadores daquela cidade” e também de um “D. João Pestana”, que
participara no cerco e na conquista de Coimbra de 1064, e fora companheiro de armas
do próprio Cid, Rui Díaz de Bivar. E que posterior e conjuntamente, João Pestana e o
mesmo Rui Díaz de Bivar “El Cid”, teriam sido ambos armados cavaleiros em Coimbra,
pelo próprio Rei Fernando I de Leão e Castela.

Ambos os genealogistas, Alão e Gayo, são concordes no relativo a esta origem


familiar que envolveria, de forma clara e assumidamente prestigiante, a um «irmão
d’armas» do Cid, com quem teria sido armado cavaleiro na ressaca da conquista de
Coimbra. Nota-se, no entanto, em Felgueiras Gayo, a procura de um certo compromisso
entre as duas tradições: uma, idêntica à que Alão de Moraes recolheu; e uma outra, onde
parece fazer-se uma certa recuperação de uma origem, se não autêntica ao menos mais
plausível, daquela família, a qual remontaria, afinal, aos guerreiros que conquistaram
Évora, ou eventualmente ao chefe desses homens de armas, Geraldo Geraldes, “o Sem
Pavor”*.

Embora naquela mesma passagem seja dito, genericamente, que os Pestana


descendiam dos conquistadores de Évora, sem, no entanto, individualizar nenhum.
Parece procurar-se apagar a memória de Geraldo, não o nomeando, não, obviamente,
pela conquista de Évora, mas, pelo facto posterior de o mesmo chefe militar se ter
passado ao outro lado, a combater pelos muçulmanos contra os cristãos. As visões
historiográficas posteriores a isso terão obrigado, ao correr de um véu de silêncio, como
anátema, como castigo8.

Apesar de tudo, constatámos a existência de indivíduos ostentando o nome


“Pestana”, possível alcunha transformada em nome de família, na mesma cidade de
Évora, já desde finais do século XII.

Apesar de encontrarmos membros da família Pestana com cargos em Évora


desde o início da terceira década do século XIII9, o documento mais antigo conhecido
até hoje que identifica um membro daquela família é um documento anterior aqueles,
mais exactamente de 1215, em que intervêm vários milites Ebora, cavaleiros da Freiria
de Évora, os quais junto com o seu Mestre, servem de testemunhas num acto

8
A.S. Pereira, ob.cit., pp. 24-25.
9
M. A. R. Beirante, Évora na Idade Média, Lisboa, FCG / JNICT, 1995, “Lista de Funcionários do
Concelho”, pp.609-655.
documentado. Assim entre aqueles cavaleiros constata-se a presença de um Petrus
Mendiz Pestana (Pero Mendes Pestana)10. Ou seja, um cavaleiro possivelmente nascido,
no mínimo, por volta de 1190 e que poderia ser, facilmente, neto de um conquistador de
Évora, o Geraldo ou um outro qualquer.

Os Pestana, apesar do seu atavismo onomástico, não tiveram uma notória


ascensão social em Évora, ao longo dos séculos XIII e XIV. Aparecem a desempenhar
alguns cargos municipais e à frente de algumas confrarias da cidade de Évora, mas não
mais que isso; e sem outra designação, quando a têm, do que a de ‘escudeiro’11. Foi, no
entanto, a partir do século XV, quando se associaram definitivamente, através de
casamento, aos Silveira, que os Pestana emergiram, quer na cidade quer no reino12.

Este ramo, apesar da varonia Pestana, passaram, no entanto, a usar o apelido


Silveira que lhes veio por linha feminina. Curiosamente, é nessa altura emergente que
os Silveira vão recuperar a memória fundacional da família dos Pestana, afirmando que
eles (Pestanas / Silveiras) eram dos «que primeyramente fundaram a Çidade dEuora»13,

10
C.S. Tarouca, “As Origens da Ordem dos Cavaleiros de Évora. Segundo as Cartas do Arquivo do
Cabido da Sé de Évora”, in A Cidade de Évora, 13-14 (1947); pp. 25-39: «Carta de D. Afonso Teliz [de
Meneses] e de sa molher Dona Tareyia em que receberom por Senhor o Bispo d Euora nos direitos
pontifiquaes d Alboquerque e de seus terminos», p. 36. Na parte onde testemunham os cavaleiros de
Évora (Alij milites de Elbora qui adfuerunt), aparecem nove cavaleiros, sendo que o primeiro deles é o
único que aparece identificado com “Domnus” antes do nome: Domnus Pelagius Johanis (D. Paio
Eanes), Stephanus Mendiz (Estêvão Mendes), Oorigus Johanis (Origo Eanes), Petrus Mendiz Pestana
(Pero Mendes Pestana), Petrus Gomecij (Pero Gomes), Petrus Martini (Pero Martins), Gonsaluus
Gonsalui (Gonçalo Gonçalves), Suerius Gonsaluj (Soeiro Gonçalves), Nunus Samgion (Nuno Samgion
(?). Curiosamente o ‘nosso’ Pestana é o único que ostenta uma alcunha identificativa, que depois passará
a nome de família, após o patronímico, o que não acontece com nenhum outro cavaleiro; e na lista de
nove aparece em quarto lugar.
11
M. A. R. Beirante, ob.cit, pp.609-655.
12
A partir de Nuno Martins da Silveira, filho de Martim Gil Pestana, Alferes-Mor da Cidade de Évora, e
de Maria Gonçalves da Silveira, que foi Escrivão da Puridade de D. Duarte, deu-se a emergência social
deste ramo. Menos de cem anos depois, já havia na descendência daquele um ramo titular (os Condes de
Sortelha e Senhores de Góis), e outros ramos, com condição senhorial (Senhores do Louriçal) e
proprietários de cargos na corte régia (Coudéis - Mores do Reino). Alguns dos seus membros dessas
primeiras gerações estão sepultados no panteão senhorial do Convento de Nª. Srª. do Espinheiro, em
Évora (v. A.F. Barata, Breve Memória Histórica do Mosteiro de Nossa Senhora do Espinheiro, Évora,
Ferreira, Irmão & Cª., 1900; A. B. Freire, As Sepulturas do Espinheiro, Lisboa, 1901). E em Góis existe o
soberbo túmulo renascentista de D. Luís da Silveira, Conde de Sortelha e Senhor de Góis, obra de
Nicolau de Chanterenne (v. A. F. Barata, “Breve Notícia Histórica da Villa de Goes no Districto de
Coimbra”, in Panorama Photographico de Portugal, Coimbra, Imp. da Universidade, 1872, pp. 30-32 e
52-56).
13
M. A. R. Beirante, ob. cit., p. 526.
recuperando assim aquela referência que os ligava directamente à recuperação cristã da
cidade, em 1165, por obra de Geraldo e dos seus homens de armas, e em relação aos
quais os Pestanas / Silveiras reafirmavam uma ligação genealógica ascendente.

Significativamente esta emergência familiar surgiu, coincidente e paralelamente,


durante o período em que Évora ascendeu a segunda cidade do Reino. Tornou-se o
segundo assento da corte régia e o centro de várias pequenas cortes senhoriais que se
espargiam, na órbita daquela, pela cidade e pelos seus arredores14.

1. Análise linguística

Vejamos agora o que é que poderemos conseguir a partir da análise linguística


do nome “Pestana”.

Um aspecto curioso neste nome, é o facto de constatarmos que desde os mais


antigos documentos ele manteve sempre a mesma grafia. Naquele documento dos
primórdios do século XIII o nome Pestana aparece escrito exactamente da mesma forma
com que ainda hoje o escrevemos. Ou seja, aparece sem qualquer marca aparente de
latinidade ou de uma possível posterior latinização, mais ou menos erudita ou pseudo-
erudita.

A possibilidade de que o nome “Pestana” se relacionasse com a homófona que


identifica a parte do órgão da visão que tem aquele nome, não a descartámos
liminarmente, mas pareceu-nos algo descontextualizada, e, portanto, procurámos outras
possibilidades, que nos parecessem mais significativas.

14
Os Silveiras / Pestanas detiveram desde a primeira metade do século XV dentro da cidade velha de
Évora, todo um amplo espaço, englobando vários quarteirões, e que descia desde o templo romano, na
acrópole da urbe, até à Cerca Velha, onde hoje é a Igreja do Convento do Salvador. Todo este conjunto de
quarteirões inclui o Paço dos Silveiras, mais conhecido como “Casas Pintadas” (hoje Auditório da
Fundação Eugénio de Almeida); o antigo Palácio dos Condes de Sortelha (hoje Câmara Municipal de
Évora), cuja origem familiar e titular remontava àqueles mesmos Silveiras / Pestanas, e ao/s
conquistador/es da Cidade. Curiosamente existe ainda neste espaço uma outra Igreja, a de Santiago, no
Largo do mesmo nome, que não estará ali por acaso, e talvez ligada àqueles Senhores, embora ainda não
tivesse sido possível de confirmar. Esta Igreja será uma invocação e uma sacralização da memória da
conquista da cidade, e do seu agente, ascendente dos Silveiras / Pestanas. Essa a razão pela qual a igreja
tem por orago o Apóstolo Sant’Iago, patrono da Reconquista. A imagem no topo do alto frontão da
fachada principal da igreja apresenta um guerreiro a cavalo, virado à sinistra, ostentando uma capa, sem
elmo nem escudo, com a mão esquerda guiando o cavalo e tendo na direita uma espada desembainhada,
levantada por cima da cabeça. Mas sem cabeças de mouros pelo chão, nem halo em volta da cabeça. É um
cavaleiro; um herói, não um santo.
O facto de começar por “pe”, levantou-nos algumas suspeitas, relativamente à
sua possível origem não latina, e de podermos estar em presença de uma palavra com
origem árabe ou arabizada.

Temos na língua portuguesa algumas palavras, como petisco15 e patanisca ou


petanisca16, que remontam, etimologicamente, a expressões árabes começadas pela
partícula “bi”, que significa “com; por intermédio de”17.

Esta partícula, começando com a bilabial forte “b”, transforma-se, no português,


na bilabial branda “p”, e daí os exemplos em causa. Por “Pestana” começar por “pe”
suspeitámos que este nome de família se poderia inserir neste contexto etimológico, que
temos estado a observar.

Assim, dentro desta lógica de análise, encontrámos a palavra “ashṭân (=


cordas)”18, donde a expressão “bi-ashṭân”, que terá evoluído para a forma intermédia
“bi’shṭan(a)”, a qual, por sua vez, originou a forma dialectal andalusi > “pestana”, e
com o significado de “com cordas”. O “a” final de género poderá ter surgido, em fase
posterior, e já na língua portuguesa, possivelmente, porque “corda” em português, é do
género feminino.

Fará algum sentido esta expressão, para figurar como nome de família, de
alguém que se pretende descendente de um conquistador da cidade de Évora ?

Cremos que sim, e passamos a explicar.

15
“Petisco”, palavra que provém da expressão árabe «bi’t-tasq», que significa “[o que acompanha] com a
bebida», ou seja, o acompanhamento de uma bebida, que significa exactamente aquilo que é o petisco. (A.
Rei e I. A. Moreira, «Vocabulário “obscuro” no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Propostas
de etimologia árabe para algum desse léxico», in Xarajîb nº 9 (CELAS), no prelo).
16
“Patanisca ou petanisca”, da expressão árabe “bi tanassqa” (bi tanassaqa > bitanasqa > pitanisqa >
petanisca > patanisca) significa literalmente “com homogeneidade”, “com uniformidade”. Entendemos
que a expressão em causa se referirá, especialmente, ao polme que será a base do conjunto, e que vai
uniformizar, homogeneizar o conjunto alimentar que, dividido em pequenas porções, vai dar originar
aqueles pastéis, independentemente dos ingredientes que sejam inseridos no mesmo polme: carne, peixe
ou verduras. (A. Rei e I. A. Moreira, «Vocabulário “obscuro” no Dicionário Etimológico da Língua
Portuguesa. Propostas de etimologia árabe para algum desse léxico», in Xarajîb nº 9 (CELAS), no prelo).
17
Sobre a partícula “bi” árabe, v. F. Corriente, Diccionario Árabe - Español, 2ªed., Madrid, IHAC, 1986,
p. 28 (paginação em numerais árabes).
18
Idem, ibidem, p. 403.
Uma fonte medieval árabe e coeva, pois o seu autor, Ibn Sahib al-Salat, foi
contemporâneo de todo o percurso guerreiro de Geraldo “Sem Pavor” diz-nos que nas
suas conquistas, e presumimos que também na de Évora, Geraldo e os seus homens, se
aproximavam das muralhas, aproveitando a escuridão da noite, transportando longas
escadas, que encostavam às muralhas e por intermédio das quais conseguiam entrar
dentro das povoações19.

Não será difícil imaginar, no entanto, mesmo para quem o não tenha feito, o
difícil que é andar no meio de árvores e de mato, com uma longa escada, mesmo ainda
hoje. Essa dificuldade também existiria, naturalmente, para os guerreiros do século XII.

E se àquela dificuldade de movimentos no terreno, juntarmos ainda que muitas


daquelas movimentações militares aconteceriam em períodos de lua nova, para que se
tornasse mais difícil o serem reconhecidos pelos defensores, esse factor de pouca
visibilidade, também dificultaria os movimentos para os atacantes, carregados com
“longas escadas”.

O mover-se com a tal ou tais escadas, por entre árvores e mato, seria ainda
suficientemente barulhento para ser detectado, à distância, no silêncio relativo da noite.

Será, pelo contrário, mais fácil que os homens levem cordas enroladas à volta do
corpo ou ao ombro, depois as atem até conseguirem o tamanho adequado, lhes façam
nós, para que estes facilitem a escalada, e, por último, lhes ponham nas pontas uns
ganchos ou fateixas, e as lancem por sobre as muralhas.

Terá sido usando cordas, e não escadas, que o grupo conquistador conseguiu
ultrapassar as muralhas, introduzir no interior da cidade alguns elementos que
neutralizassem os guardas e abrissem as portas, de forma a entrarem os restantes
elementos que tinham ficado fora, e, posteriormente, conquistarem a cidade de Évora.

E os descendentes de Geraldo, ou de um seu “irmão de armas”, que se radicaram


naquela cidade, passaram a usar, como nome de família, o “Pestana”, em memória
daquela conquista e do método guerreiro empregue pelos conquistadores, e através do
qual terão conseguido assenhorear-se de madînat Yâbura (cidade de Évora).

19
Ibn Sahib al-Salâ, ob.cit., p. 137.
Portanto, e finalizando, as leituras que se conseguiram a partir do nome de
família e da provável expressão etimológica árabe que lhe terá dado origem, dão-nos
informações não só sobre a metodologia de estratégia militar utilizada por Geraldo e os
seus homens, na conquista da cidade de Évora; como também sobre a origem do mesmo
nome de família, “Pestana” que se tornou, na altura, simultaneamente, um símbolo
onomástico, embora hoje de significação obliterada, e um registo que, na descendência
que herdou aquele nome ou que já o não tem, fez memória daquela conquista, e de
como a mesma foi conseguida por aqueles antepassados.
NEXO

Hipótese genealógica da origem dos Pestana, de Évora

Dentro do lapso cronológico entre a conquista (1165) e o possível nascimento do


cavaleiro Pero Mendes Pestana (c.1190) e de um seu possível primo, o primeiro Pestana
que surge nos Nobiliários, João Anes Pestana (que teria vivido afinal no reinado de
Afonso II, e não no de Afonso III) entra facilmente uma outra geração. A essa geração
intermédia damos o patronímico de “Geraldes”. Os nomes próprios desta geração
intermédia são estimados a partir dos patronímicos (Mendes e Anes) dos dois da última
geração.

Mendo Geraldes poderá ter tido só aquele filho que atingisse a idade adulta, o
facto de ter sido um freire (monge-guerreiro) da Freiria de Évora, poderá tal facto
obstado a que aquela linha tivesse tido continuidade. Pelo que a linhagem do seu primo
João Anes seria, como dizem os Nobiliários, a única que teve descendência e
continuidade.

Na geração intermédia, o “Pestana” ainda seria um género de alcunha honrosa;


na seguinte geração já terá passado a nome de família, que se manteve até hoje.

Geraldo Geraldes, “o Sem - Pavor” (n.c. 1130 – 1176)

↓-------------------------------------------------------------------------------↓

Mendo Geraldes “Pestana” (n.c. 1167 – f.c. 1225) João Geraldes “Pestana”

↓ ↓

Pero Mendes Pestana (n.c.1190 – f.c. 1240) João Anes Pestana

(Freire de Évora, testemunha em documento de 1215) (Origem da família com continuidade)


(Continuação da linhagem, v. PL e NFP)

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